GAL TROPICAL – LUXUOSA VISITA À MPB

No dia 11 de janeiro de 1979, estreava no Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro, um dos shows mais míticos da história da MPB, “Gal Tropical”. Concebido e dirigido por Guilherme Araújo, o espetáculo era a própria encenação da música brasileira, fazendo renascer sucessos esquecidos pelo tempo, era uma página retirada do samba canção, do chorinho, das marchinhas de carnaval, do samba de gafieira, do tropicalismo, do bolero, do sertanejo de raiz, da brasilidade musical, retratada na maior voz do país, a de Gal Costa.
O último show de Gal Costa, “Com a Boca no Mundo”, considerado um “flower power” fora de hora, teve uma repercussão negativa na crítica. Era preciso pensar na Gal Costa que despontava, uma mulher exuberante e sensual, no auge dos seus trinta e três anos. Era preciso deixar a rebeldia da cantora e transformá-la de vez numa grande intérprete à altura da sua voz privilegiada. Pensando assim, Guilherme Araújo sofisticou o figurino da cantora, tirou os seus pés descalços do palco, mergulhando-a em um extraordinário repertório de clássicos da MPB.
Gal Tropical“, o show, foi estruturado a partir do repertório do álbum “Água Viva”, lançado em 1978. Além das músicas do disco, trazia um repertório profundo, alegre e, principalmente, brasileiro. As canções superaram às expectativas e deram origem a um outro álbum homônimo ao show. Sem medo de arriscar, “Gal Tropical”, o disco, trazia um desfile de canções de várias décadas distintas, transitando entre o repertório de Emilinha Borba e o de Carmen Miranda. Ressuscitava as velhas marchinhas carnavalescas, empoeiradas e esquecidas pelo Tropicalismo e pela Bossa Nova, além de emocionar com toques suaves de lirismo nas canções de amor, no duelo da voz aguda da cantora com a guitarra elétrica. O ponto culminante do disco era transformar velhas canções como se fossem inéditas, definitivas na voz de Gal Costa.
O show se iria estender até 1981, percorrendo várias cidades brasileiras, excursionando com sucesso pela Europa, Estados Unidos, Israel, e vários outros países. O álbum foi, assim como “Água Viva”, disco de ouro. Gal Costa era finalmente consenso nacional, ocupando as capas e páginas das revistas, os quadros musicais da televisão, as trilhas sonoras das novelas, e as críticas dos jornais. Passou, merecidamente, a ser conceituada como grande intérprete, tornando-se definitiva. Show e disco, constituem um acervo incalculável da MPB, como uma jóia sem data a dar brilho aos seus ritmos. Sambista, tropicalista, alegre, infinita nas possibilidades do canto, com “Gal Tropical”, a estrela subia rumo ao infinito das divas do cancioneiro brasileiro.

Do Samba de Gafieira a Guarânia

O sucesso do show “Gal Tropical” levaria Guilherme Araújo a estendê-lo por três anos. Para cumprir o contrato com a gravadora, foi buscar dentro do próprio espetáculo a maioria das canções do álbum que seria lançado em 1979. Com embrião dentro do show homônimo, “Gal Tropical” foi produzido por Guilherme Araújo e Roberto Menescal. A capa foi elaborada em tons fortes em vermelho e amarelo, ressaltados pelas duas flores das mesmas cores nos cabelos da cantora. As belíssimas fotografias foram feitas por Antonio Guerreiro, retratando uma Gal Costa sensual e elegante, com figurinos de Guilherme Guimarães.
Composto por 12 faixas, tem como peculiaridade não apresentar canções inéditas, sendo regravações, em sua maioria, de grandes sucessos da Música Popular Brasileira, das décadas de 1930 a de 1970. Mesmo na ausência de ineditismo, algumas canções pareciam ter sido compostas para a cantora, tornando-se definitivas na sua voz. Também os ritmos são diversos, do samba canção ao bolero, das marchas carnavalescas ao rock, numa unidade a beirar a perfeição.
Assim como o show, o disco é iniciado com “Samba Rasgado” (Portello Juno – Wilson Falcão), um samba de gafieira, gravado em 1938 por Carmen Miranda. A sonoridade alegre e tropical do samba encaixa-se com a voz de Gal Costa, dando uma nova percepção ao então discriminado som das gafieiras cariocas. E a cantora vinha com um gingado alegre, revelando-se uma deslumbrante sambista, trazendo para a MPB o seu sapateado e samba rasgado, pedindo passagem para desfilar nos ritmos e nos sons que há muito se tinham feito esquecidos.

“Uma cabrocha bonita cantando e sambando
Quem não admira?
Gingando seu corpo que mesmo a gente espiando
Parece mentira”

O disco prossegue alegre, a deslumbrar os ritmos, já quase a atingir um apogeu na segunda faixa, “Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono)” (Hermínio Bello de Carvalho – Jacob do Bandolim), um clássico chorinho do mestre Jacob do Bandolim, que Hermínio Bello de Carvalho decidiu dar letra. Em 1979 completava-se dez anos da morte de Jacob do Bandolim, Hermínio Bello de Carvalho decidiu homenageá-lo, criando letras para dois de seus chorinhos, “Doce de Coco” e “Noites Cariocas”, que recebeu o subtítulo de “Minhas Noites Sem Sono”. Para interpretar a segunda, ele apostou em Gal Costa, não vendo outra que pudesse dar o brilho imaginado ao chorinho. E acertou, “Noites Cariocas” recebeu uma interpretação impar na voz da cantora, transformando o chorinho em uma adorável canção com todo o esplendor do gingado malandro carioca. O chorinho é por si só um ritmo difícil de cantar, aqui acrescentado de uma letra sem rimas fáceis e versos longos, com excessivas palavras. Em um só fôlego, Gal Costa supera todos os obstáculos, fazendo com que “Noites Cariocas” pareça simples e fácil de ser cantada. A versão de Hermínio Bello de Carvalho faz da canção a única que pode ser considerada inédita em todo o disco.

“Mas que tanta crueza
Se em mim a certeza é maior do que tudo o que há
Todas as vezes que eu sonho
É você que rouba a justeza do sono
É você quem invade bem sonso e covarde
As noites que eu tento dormir meio em paz”

A guarânia paraguaia “Índia” (José Asunción Flores – Manuel Ortiz Guerrero – Versão José Fortuna), voltava ao repertório de Gal Costa. Nesta versão, a cantora deixa o intimismo de 1973, mostrando uma voz mais ampla e tingida de emoção e técnica. “Índia” foi gravada originalmente pela dupla Cascatinha e Inhana, em 1952, sendo a canção que introduziu a guarânia como estilo musical no Brasil, esboçando o estilo sertanejo no país. Sertaneja, tropicalista, Gal Costa imprimiu à canção a sua marca indelével, trazendo-a para dentro da MPB, de onde ninguém mais a expulsou.

Lirismo em Canções Intimistas

Estrada do Sol” (Dolores Duran – Tom Jobim), grande sucesso de Agostinho dos Santos, em 1958, atingiu na voz doce de Gal Costa o apogeu do seu lirismo. A voz aveludada de Agostinho dos Santos é uma das mais bonitas dos cantores da MPB, fato que já faz da interpretação do samba canção um momento especial e de grande responsabilidade. Gal Costa apresenta um momento de êxtase do sublime. “Estrada do Sol” é a única canção de Dolores Duran que não traz na sua essência o amor sofrido e cheio de marcas da dor. Traz em si, uma manhã de vento alegre, com pingos finais no orvalho do amor. A delicadeza da poesia expande-se na voz cristalina da cantora, que dentro da técnica, transborda toda a emoção.

“É de manhã
Vem o sol
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre que me trás essa canção”

Depois de passar pelo gingado dos morros cariocas, a cantora retorna às raízes baianas em “A Preta do Acarajé” (Dorival Caymmi), feita em 1933, e gravada por Carmen Miranda em parceria com Dorival Caymmi, em 1939. Retrato do pregão das ruas baianas, introduzindo como um eco, a voz de uma sofrida baiana a caminhar cansada no fim da noite, anunciando o seu acarajé. A canção de início intimista, recebe uma carga emotiva na voz de Gal Costa, reproduzindo um canto triste, um lamento solitário, quase cruel. No refrão, a alegria chega à canção, que atinge o auge do samba, e os ritmos das ruas da Bahia, da labuta retratada através da típica vendedora de acarajé.
O disco, feito nas tradições do vinil, terminava o lado A com um grande bolero, “Dez Anos (Diez Años)” (Rafael Hernandez – Versão Lourival Faissal), sucesso de 1951 da deslumbrante Emilinha Borba. Até então, boleros eram proibidos pela crítica à musa do desbunde. Chacrinha, na sua coluna em uma revista, chegou a criticar a gravação da canção, dizendo que o estilo era mais próximo do repertório de Maria Bethânia. Mas Gal Costa estava disposta a quebrar com os estigmas e mostrar o potencial quase que ilimitado e emotivo da sua voz, evoluindo cada vez mais para o domínio da técnica. A música foi lançada no programa “Fantástico”, com um prelúdio em que Emilinha Borba cantava. Quando o quadro foi ao ar, em setembro de 1979, anunciava a morte de Lourival Faissal, autor da versão da canção. Com “Dez Anos”, Gal Costa quebrava magnificamente mais um estigma imposto ao longo da sua carreira por uma crítica preconceituosa, que naquele momento a aplaudia calorosamente.

“Assim se passaram dez anos
Sem eu ver teu rosto, sem olhar teus olhos
Sem beijar teus lábios assim
Foi tão grande a pena que sentiu a minh’alma
Ao recordar que tu foste meu primeiro amor”

A Força Estranha de Uma Voz Rara

O lado B começava memorável, com “Força Estranha” (Caetano Veloso), canção feita para Roberto Carlos, e por ele lançada com grande aparato no final de 1978. Gal Costa dispensou instrumentos musicais e arranjos arrojados, interpretando a canção acompanhada somente pelo violão de Robertinho do Recife. “Força Estranha” é um dos maiores poemas de Caetano Veloso, de uma beleza existencialista que raras vezes foi registrado na MPB. A canção seria usada com sucesso na trilha sonora da novela “Os Gigantes”, de Lauro César Muniz. Poesia e voz uniam-se com a benção de todas as musas, numa composição quase que épica. Voz e violão, nada mais, e estava registrada a interpretação definitiva da canção, que apagaria por completo a de Roberto Carlos. Gal Costa vai do intimismo ao passionalismo ideológico da mensagem. A sua voz dá a beleza estética à poesia de Caetano Veloso, inundando-lhe de luz as palavras e o porquê daquela voz tamanha.

“Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou”

Olha” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), outro sucesso de Roberto Carlos, voltava revigorado na interpretação de Gal Costa. Momento de emoção, de beleza singular, numa interpretação que de simples, torna-se latente, quase um samba canção, ou um bolero modernizado. Sem se deixar levar por uma interpretação mais passional, ela dá o tom exato da mensagem implícita. E nos sentimos impelidos a ir com ela a onde for, seguindo juntos o seu caminho de estrela.
Uma grande surpresa do disco é “Juventude Transviada” (Luiz Melodia), grande sucesso do autor em 1975, a canção finalmente encontra-se com a sua verdadeira intérprete. Descreve a vida difícil das jovens dos subúrbios, de uma forma existencialista à flor da pele que só Luiz Melodia sabe criar. Lavar a roupa enquanto os sonhos escoam pela quebrada da soleira, à espera do alívio da madrugada. Gal Costa é o próprio auxílio luxuoso da canção, os seus sonhos, a fantasia clara da sua juventude. Afinal, se a mulher não deve vacilar, o último agudo do verso confirma a cantora ilimitada que desabrochava, como as flores que trazia no cabelo.

“Lava a roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia
Até sonhar de madrugada
Uma moça sem mancada
Um mulher não deve vacilar”

A Volta das Marchas Carnavalescas

E os sofrimentos do amor dão passagem para o carnaval de Gal Costa. “Balancê” (João de Barro – Alberto Ribeiro), velha marcha carnavalesca de 1936, lançada por Carmen Miranda no carnaval de 1937, seria , surpreendentemente, a grande estrela do disco. A canção tornar-se-ia o maior sucesso tocado nas rádios em 1979, e conduziria o carnaval do ano seguinte. João de Barro, o Braguinha, um dos autores da marcha, surpreendeu-se com o sucesso retumbante na voz de Gal Costa, emocionando-se quando ouviu a platéia em peso cantá-la no espetáculo. “Balancê” marcava a volta das marchinhas carnavalescas, por décadas esquecidas pela MPB. A canção parecia inédita na voz de Gal Costa, feita sob medida para ela. “Balancê” seria para sempre ligada à cantora, impregnando-se ao seu repertório, desvinculando-se por completo do universo de Carmen Miranda. O sucesso da marcha levou Gal Costa a trazer de volta várias delas, gravando-as nos álbuns que se seguiram.

“Ô balancê, balancê
Quero dançar com você
Entra na roda, morena, pra ver
O balance, balance”

O Bater do Tambor” (Caetano Veloso), continuava com a proposta carnavalesca. Lançada em compacto, em novembro de 1978, por Caetano Veloso, tinha como função explodir no carnaval de 1979. Explodiu no show de Gal Costa, no álbum mítico, dando um ritmo mais do que tropical àquele momento. Sambista, carnavalesca, Gal Costa assumia um novo jeito de estar no palco, e fazer a sua música mesclar entre a emoção e alegria. Os tambores anunciavam a eletricidade, e a cantora era o próprio trio elétrico que conduzia a voz do carnaval brasileiro.

“Mão de preto no couro
E o Brasil grita em coro
Ê mori mori ô babá
Ê mori mori ô”

Em ritmo de samba e som eletrônico, Gal Costa encerrava o disco com a regravação de “Meu Nome É Gal” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), dez anos após o seu lançamento. Gal Costa já não tinha vinte e quatro anos, mas tinha uma voz ainda mais graciosa e grandiosa. Utilizando toda a técnica vocal, ela acedia ao desafio da guitarra elétrica de Robertinho do Recife, emprestando os seus agudos a um mítico duelo. Agudos e acordes de guitarra confundiam-se, nunca ninguém ousara tanto com a voz. Gal Costa encerrava o disco de 1979, mostrando que nada mais poderia detê-la. Justificava a força estranha que a fazia cantar. Tornara-se intérprete de todos os ritmos dentro da MPB, distanciava-se de qualquer resquício de musa do desbunde. Era estrela da música, pertencendo a mais alta das suas constelações no céu de todos os tempos.

“Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha”

Ficha Técnica:

Gal Tropical
Philips
1979

Direção de Produção: Guilherme Araújo e Roberto Menescal
Criação: Guilherme Araújo
Arranjos e Regências: Perna Fróes
Direção Musical: Perna Fróes
Técnico de Gravação: Luigi Hoffer
Técnico de Mixagem: Luigi Hoffer
Assistentes de Estúdio: Julinho e Vitor
Foto da Capa: Antonio Guerreiro
Layout: Lielzo Azambuja
Arte: Jorge Vianna
Figurinos: Guilherme Guimarães
Participação Especial: Robertinho do Recife

Músicos Participantes:

Banda Talismã
Teclados: Perna Fróes
Guitarra: Robertinho do Recife
Baixo: Moacyr Albuquerque
Sopros: Juarez Araújo
Violão: Robertinho do Recife
Bateria: Charles Chalegre
Percussão: Sergio Boré
Ritmistas: Zezinho e Tangerina

Faixas:

1 Samba Rasgado (Portello Juno – Wilson Falcão), 2 Noites Cariocas (Minhas Noites Sem Sono) (Jacob do Bandolim – Hermínio Bello de Carvalho), 3 Índia (José Asunción Flores – Manuel Ortiz Guerrero – Versão José Fortuna), 4 Estrada do Sol (Tom Jobim – Dolores Duran), 5 A Preta do Acarajé (Dorival Caymmi), 6 Dez Anos (Diez Años) (Rafael Hernandez – Versão Lourival Faissal), 7 Força Estranha (Caetano Veloso), 8 Olha (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), 9 Juventude Transviada (Luiz Melodia), 10 Balancê (João de Barro – Alberto Ribeiro), 11 O Bater do Tambor (Caetano Veloso), 12 Meu Nome É Gal (Roberto Carlos – Erasmo Carlos)

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