ALEXANDRE DA MACEDÔNIA, O GRANDE

Alexandre, príncipe e rei da Macedônia, foi o maior conquistador do mundo antigo, estendendo o seu império do Mar Egeu ao Indo, do Cáspio às cataratas do Nilo, praticamente todo o mundo do seu tempo. Sua importância histórica é tida como imprescindível à cultura ocidental, considerado como quem consolidou e espalhou o helenismo pelas grandes civilizações antigas, difundido a filosofia que construiu as bases do Ocidente, sendo o precursor das idéias helenísticas mais tarde difundidas no mundo antigo pelos romanos e associados aos conceitos judaico-cristãos, na composição da atual civilização ocidental.
Personalidade controversa, movida pela intelectualidade moldada por Aristóteles, seu preceptor quando mancebo, pela vitalidade mística da mãe Olímpia, uma bacante iniciada em cultos orgíacos, pela ambição de ser um grande conquistador, trazia uma alma inquieta, conciliadora com os mundos que conquistou, violenta com os que se lhe opunham à grandiosidade de querer a glória, sanguinário com quem se lhe traísse, benevolente com aqueles que conquistava.
Se para a maioria dos historiadores foi o responsável pela expansão do helenismo, para outros foi apenas um general que acumulou glórias, deixando corromper-se pelos costumes orientais, dos quais usufruiu sem pudores, traindo os princípios filosóficos herdados de Aristóteles. Sua figura mítica confunde a história com a mitologia, na sua época, muitos consideravam-no filho do próprio deus do vinho, Dioniso (Baco), ou de Zeus (Júpiter), com lendas criadas ao seu redor que se confundem com a do mito do herói grego Aquiles.
Sua vida pessoal foi conturbada, com amores obscuros, vividos com eunucos e princesas orientais. Heféstion, amigo íntimo de toda a vida, é por muitos considerado o grande amor do imponente imperador do mundo. Sua vida breve foi marcada pela conquista do império, que não se sabe, até onde iria se tivesse vivido mais tempo, ou até onde o iria manter. Morreu aos trinta e três anos, de uma febre misteriosa. Seu império não sobreviveria à sua morte, restando o mito, a figura histórica, perpetuada por todos os milênios da humanidade.
Alexandre passou para a história como o Grande, ou o Magno. Nunca outro líder conquistou um império tão vasto em tão pouco tempo. Deixou como herança o encontro entre duas culturas, a ocidental e a oriental, quer como força motriz propulsora do helenismo ou transmissor dos valores orientais ao Ocidente. Alexandre, o Grande, riscou o céu da história como um cometa brilhante e fugaz, marcando-a para sempre.

Os Pais de Alexandre

O dia do nascimento de Alexandre III da Macedônia, diverge conforme a fonte, sendo aceitos os dias 20 e 22 de julho, em 356 a.C. Era filho de Filipe II da Macedônia e de Olímpia de Épiro. Nasceu na Macedônia, pequeno reino dos Bálcãs, ao norte da Grécia, com língua e influência direta do mundo helênico.
Filipe II era o terceiro filho do rei Amintas, sendo quando jovem, enviado para Tebas como refém. O fato seria decisivo, pois marcaria o contacto do macedônio com a cultura helênica, fundamental na sua formação. Com a morte do irmão Pérdicas III, Filipe tornou-se regente do sobrinho Amintas IV, proclamando-se rei durante aquele período. Filipe II tornou-se um rei poderoso, armando um imponente exército, com uma falange própria para o combate, ultrapassando a capacidade de manobra das milícias gregas. Filipe II assegurou as fronteiras macedônias nos Bálcãs, reforçou o seu domínio na Tessália e Trácia, sendo neutralizado em Atenas, quando já se preparava para ocupar toda a Grécia. Atenas e Tebas aliaram-se contra o rei macedônio, sendo mais tarde, sob o seu comando e do filho Alexandre, derrotadas na batalha da Queronéia, em 338 a.C.
A mãe de Alexandre era uma princesa do Épiro, conhecida como terra das bruxas, de adivinhos e das bacantes. Olímpia, segundo algumas fontes, realizava cerimônias trazendo serpentes domesticadas envoltas no corpo, comandando o coro das bacantes que a acompanhavam. A devoção de Olímpia a Dioniso, nome grego de Baco, o deus do vinho, gerou a lenda em torno do nascimento de Alexandre, que seria filho de Zeus-Sabas, o Baco do oriente. O deus no leito nupcial de Filipe e Olímpia, teria vindo em forma de serpente, entrando pelas entranhas da rainha. Filipe, ao tentar ver a intimidade da mulher no rito sexual sagrado com a serpente, teria perdido um olho pela fúria do animal-deus. Alexandre seria fruto dessa união do deus com Olímpia. O próprio Alexandre, quando se tornou o maior imperador do seu tempo, deu alento à lenda, assim, justificando a sua origem divina.
Quando criança, Alexandre não tinha os olhos da mesma cor, sendo o esquerdo azul claro e o direito castanho-escuro, o que alimentou ainda mais a lenda da sua origem divina. Além de conferir poder místico ao filho, a lenda justificava as iniciações orgíacas de Olímpia, fato que marcaria profundamente o caráter libertário e silvestre de Alexandre e, possivelmente a sua sexualidade.

Aristóteles, o Preceptor do Príncipe Macedônio

Em 343 a.C., o filósofo Aristóteles foi chamado à Macedônia para ser o preceptor do filho de Filipe II. Instalado no castelo de Ninféia de Mieza, próximo de Pella, a capital, Aristóteles iniciou o príncipe mancebo nas disciplinas de medicina, moral, geografia, metafísica, retórica, ciências físicas e naturais, problemas políticos, poesia de Homero, dos líricos, em especial, Píndaro, e dos trágicos. O filósofo grego ensinou a arte de governar ao príncipe.
A formação de Alexandre foi essencialmente helênica, contrapondo-se à da mãe Olímpia, que incentivava a natureza levada aos excessos, à brutalidade e à crueldade. O futuro conquistador levaria nos seu caráter a educação intelectual de Aristóteles e a educação física latente de Olímpia.
Nos seus ensinamentos, Aristóteles impôs a importância da superioridade da filosofia grega, tida como unidade suprema a ser assimilada pela antiguidade. A idéia de democracia grega jamais foi absorvida no todo pelo pupilo, tão pouco a supremacia do helenismo. Quando dominou o Oriente, Alexandre assimilou o que achou de mais interessante naquela cultura, mesclando-a com a helenística. O ideal de democracia grega já era decadente na própria Grécia de Aristóteles.
Os ensinamentos do preceptor formaram os pensamentos de Alexandre. Já feito rei, ele levaria sempre consigo, durante a campanha da Ásia a “Ilíada”, de Homero, sobre a guerra de Tróia, obra que revisou incansavelmente com Aristóteles. O príncipe macedônio teve um dos maiores sábios da sua época e de todos ostempos como preceptor. Os conhecimentos do mestre atingiam todos os domínios: histórico, literário, físico, matemático e lógico. Aristóteles proporcionava a educação erudita de um grande rei e estadista.
Alexandre era dotado de uma aguçada inteligência, sabendo absorver sagazmente os ensinamentos de Aristóteles, tornando-se o seu aluno preferido. Aluno e mestre travaram discussões filosóficas, mantidas por correspondências trocadas mesmo quando Alexandre estava na distante Ásia. Conceitos essenciais para aquele que entraria para a história como uma das personagens mais importantes do mundo antigo, senhor absoluto de um dos maiores impérios que já se teve notícia.

O Cavalo Bucéfalo

Ainda mancebo, Alexandre assistiu à negociação do pai por conta de um cavalo. Filipe II recusara pagar 13 talentos pelo animal, visto que ninguém o conseguia montar. O príncipe lamentou a atitude do pai em dispensar tão imponente animal. Lançou um desafio a todos os presentes de que poderia domar o cavalo.
Filipe II irritou-se com a intromissão do filho, que pôs em causa experientes cavaleiros, considerando um afronto aos mais velhos a censura do mancebo. Mas Alexandre insistiu que poderia domar aquele animal. O rei decidiu apostar com o filho, pronto para que se lhe fosse dada uma lição pela prepotência.
O episódio tornar-se-ia uma grande página na biografia de Alexandre. Usando da inteligência, o príncipe aproximou-se e agarrou o animal pelo freio, apercebera-se que o cavalo sentia-se atormentado com a própria sombra, por isto voltou-o contra o sol. Acariciou-o com as mãos, pronunciando-lhe palavras dóceis, até acalmá-lo. Subitamente montou o animal, sem lhe bater, correndo toda a brida.
Ao ver o príncipe em cima do animal, todos à volta temeram por sua sorte. Angustiado, Filipe II manteve-se calado. Com espanto viu Alexandre montar o animal com destreza e inteligência, sendo aplaudido por todos. Diante do feito do filho, o rei abraçou-o e beijou-o, dizendo-lhe que procurasse outro reino, porque a Macedônia não lhe bastava, não lhe podia conter as ambições.
Alexandre tomou o cavalo para si. Era Bucéfalo. O animal acompanhar-lhe-ia por toda uma vida, marcando como um símbolo da presença de seu dono nas batalhas que iria travar. Bucéfalo morreria, segundo algumas versões, envenenado, segundo outras, de velho, em 326 a.C., pouco tempo antes do próprio dono. Inconsolável com a perda do seu velho companheiro, Alexandre erigiu às margens do rio Hidaspes, local onde o animal morreu, a cidade de Bucéfala, em memória ao seu cavalo.
Ao domar Bucéfalo, Alexandre demonstrou cedo o seu caráter intrépido e destemido, associado à inteligência e à estratégia. Montado no animal, romperia praticamente todas as fronteiras do seu tempo, conquistando para si um colossal império, ainda pequeno diante da sua ambição sem fim.

A Batalha de Queronéia

Filipe II pôde constatar o valor enérgico e estratégico do filho ainda em seus exércitos. Na maior batalha que garantiu o seu poder sobre toda a Grécia, o rei contou com a presença do jovem príncipe.
A coalizão das cidades de Atenas e Tebas contra as pretensões expansionistas dos macedônios era a que mais atemorizava Filipe II. Uma batalha sangrenta seria travada entre os exércitos gregos e macedônios em 338 a.C., pondo fim à democracia ateniense. O episódio sucedido no dia 2 agosto daquele ano ficou conhecido como a Batalha da Queronéia.
Filipe II marchou para a planície de Queronéia, contra os gregos, com um exército composto por cerca de vinte e cinco mil infantes e cinco mil cavaleiros. À esquerda do rei encontrava-se toda a cavalaria dos Eteros, entre eles o seu filho Alexandre. Num embate violento, os exércitos atenienses foram isolados dos soldados tebanos, encontrando a derrota. O chamado Batalhão Sagrado dos tebanos teve os seus membros aniquilados, tombando um a um.
No final do dia, dois mil atenienses estavam mortos ou feitos escravos. Os exércitos tebanos sofreram grande carnificina. A vitória na Batalha de Queronéia consolidou o poderio de Filipe II, findando o período cultural e filosófico que assolara a Grécia antiga, tornando-a uma das maiores civilizações da antiguidade. Serviu para popularizar o jovem príncipe Alexandre, então com dezoito anos, que se mostrou um exímio estrategista e valente soldado.
Apesar de reconhecer a bravura do filho, Filipe II deteriorou a relação dos dois quando decidiu fazer de Cleópatra, sobrinha do poderoso Átalo, a sua segunda esposa. Durante as bodas, Átalo conclamou que a sobrinha geraria o verdadeiro herdeiro de Filipe II como rei da Macedônia. A afirmação irritou Alexandre, que lhe atirou uma taça de vinho no rosto.
O gesto de Alexandre irritou o pai. Furioso, Filipe II empunhou uma espada contra o filho, na intenção de matá-lo. Embriagado, o rei caiu, não conseguindo acertar o jovem príncipe. Irônico, Alexandre teria dito:
Meu pai quer ir da Europa à Ásia, mas é incapaz de passar de uma mesa para a outra.
Depois do incidente, Alexandre e sua mãe Olímpia, viram-se obrigados a deixar Pella, indo ela a exilar-se em sua pátria Épiro, e o jovem príncipe na Iliria. Mais tarde, Alexandre e Filipe II reconciliar-se-iam, marcando a sua volta à Macedônia.

Alexandre Torna-se o Rei da Macedônia

O reinado de Filipe II foi marcado pelo fortalecimento dos exércitos macedônios, pela expansão e subjugação dos inimigos, pela utilização da guerra e da força bruta como consolidação. O rei adquiriu ao longo do tempo, grandes aliados e inúmeros inimigos, o que lhe fez presa fácil de constantes conspirações.
Em 336 a.C., após desentendimentos com o pai, e um breve exílio, Alexandre retornou à Macedônia, assistindo à conspiração, que segundo alguns relatos, ele e a mãe Olímpia, teriam conhecimento, e que resultaria no assassínio de Filipe II por Pausânias.
Com a morte de Filipe II, gerou-se um impasse em quem seria o sucessor do rei. Átalo, fiel seguidor do rei morto, reclamava o trono para o filho nascido pouco antes do seu assassínio, fruto do segundo casamento com Cleópatra. Como tio da segunda esposa de Filipe II, Átalo esperava usar do prestígio que usufruía e tornar-se regente do sobrinho.
Outro candidato à sucessão era Amintas, filho de Pérdicas III, herdeiro legítimo do reino, de quem Filipe II usurpara o trono quando ele ainda era criança.
Alexandre, visto como o verdadeiro herdeiro do rei morto, não contava com o apoio dos mais poderosos da corte. O fato não se devia à falta de preparo do príncipe, então com vinte anos, mas ao temor de que se ele ascendesse ao trono, trouxesse consigo a mãe Olímpia, conhecida por ser uma mulher vingativa e sem escrúpulos. Os fiéis seguidores de Filipe II temiam que a rainha preterida vingasse de todos que ficaram ao lado do rei quando ele decidira dela se separar. Outros não queriam que o príncipe continuasse as guerras do pai, principalmente a obsessão pela conquista da Pérsia. A conspiração que matara o rei teria contado com a ajuda dos persas.
Mas a bravura e a coragem de Alexandre eram admiradas pelos macedônios, que lhe tinham uma grande estima. O povo macedônio considerava Alexandre um herói, sendo apreciado por sua generosidade. Alexandre teve os seus direitos reais proclamados nas ruas, gerando uma pressão popular que lhe era favorável.
Assim, aos vinte anos, Alexandre tornou-se o sucessor de Filipe II, recebendo um reino tumultuado e convulsivamente político. O jovem rei mostrou-se desde cedo um monarca de grande pulso, tomando medidas enérgicas que puseram fim às agitações e perturbações dos seus inimigos. Tão logo subiu ao trono, deixou claro que estenderia os domínios do seu reino muito além do que fora o pai.

A Carnificina em Tebas

Baseado nos princípios helênicos, Alexandre construiu o seu reinado movido pela ambição de expandir o seu reino até o outro lado extremo do mar da antiguidade. Menos eloqüente do que o pai, ele preferia a ação, a busca da magnificência da glória. Montado no seu cavalo Bucéfalo, ele comandou um grande exército, seguindo sempre para o leste, expandido as suas fronteiras.
O caráter de Alexandre, o homem, é visto conforme o lado que se quer estudar do mito. Não se pode ter a visão contemporânea, pois estaríamos a limitar à crueldade a essência de um homem que viveu mais de dois milênios atrás, numa época em que os reinos conquistavam as suas fronteiras através da guerra e do fio das espadas sedentas de sangue. Para manter o reino herdado de um rei que o usurpara e o transformara em grande através de guerras e do sangue derramado, Alexandre utilizou-se da razão que lhe ensinara o mestre Aristóteles, e da essência brutal dos pais, fundamental para que sobrevivesse às hostilidades que o levariam a um império gigantesco, tomado a outros povos.
As diversidades foram aos poucos, limadas de forma bruta e muitas vezes, cruel. O jovem resolveu as diferenças com Átalo, que simplesmente foi assassinado. Olímpia assegurou que o filho não corresse o risco de um dia ser traído e ter o trono usurpado pelo irmão, o segundo na sucessão, filho de Filipe II com Cleópatra. Para isto, fez com que fosse assassinado, e que a mãe cometesse suicídio. Olímpia não só afastava possíveis fantasmas futuros, como também regozijava uma vingança pessoal sobre os que lhe arrastara ao exílio e à expulsão da Macedônia. Alexandre, consta em relatos, teria repudiado os atos da mãe, mas nada fez para evitá-los. Era o preço de herdar um reino construído pela força.
No ano de 335 a.C., Alexandre consolidou o seu poder nos Bálcãs; atravessou o Istro (Danúbio); e, enfrentou mais uma vez a elevação dos gregos. Os helenos sentiam-se humilhados por verem a sua cultura propagada por um macedônio, povo que consideravam inferior.
Apesar da assembléia federal realizada em Corinto reconhecer a hegemonia de Alexandre, os gregos viram-se incitados pelo rei persa Dario a mover uma guerra ao rei macedônio. Dario enviou dinheiro às cidades-estados gregas, para que se armassem contra Alexandre. Somente Atenas recusou a ajuda persa, mas Demóstenes aceitou a ajuda de trezentos talentos, utilizados para instalar uma revolta contra Alexandre.
Os exércitos de Alexandre marcharam contra a Grécia. No meio da confusão, correram rumores de que o jovem rei tinha sido morto em combate. Demóstenes aproveitou-se da notícia, espalhando-a ao povo ateniense em um discurso que incitava à revolta. Aproveitando-se da empolgação ateniense, Demóstenes enviou armas para Tebas, cidade que guardara a mágoa da carnificina que lhes causara os exércitos de Filipe II, em 338 a.C., na humilhante derrota na batalha da planície de Queronéia.
Enquanto corria a falsa notícia sobre a morte de Alexandre, os exércitos macedônicos aproximavam-se de Tebas. Os tebanos não acreditavam que o comando era do filho de Filipe II. Surpreenderam-se com a rápida chegada das falanges comandadas pelo jovem rei. Alexandre ainda tentou evitar entrar em Tebas, propondo uma negociação onde oferecia promessas de clemência. Pérdicas, comandante da vanguarda do exército macedônico, já em posição de ataque a Tebas, iniciou o combate sem esperar pelas negociações do seu rei.
A resistência heróica dos tebanos fez grandes baixas no exército inimigo, ferindo gravemente o seu comandante, Pérdicas, fazendo tombar muitos arqueiros. Ao ver os macedônios acossados, Alexandre avançou sobre Tebas, esmagando os defensores da cidade. A resistência tebana teve um alto preço, a cidade mergulhou em sangue, em um morticínio que atingiu mulheres e crianças. O sangue correu até nos altares dos templos, considerados sagrados por aqueles povos, matando quem ali se abrigara. Quando Alexandre ordenou que cessasse o combate, seis mil tebanos tinham sido mortos.
O destino de Tebas foi entregue por Alexandre, no dia seguinte ao fim das batalhas, à Assembléia da Liga de Corinto, para que os gregos decidissem o que fazer com a cidade. Inimigos históricos de Tebas, como os focenses, os beócios e os platenses, decretaram que a cidade deveria ser arrasada e que toda a população, incluindo mulheres e filhos, seriam vendidos como escravos, sendo somente poupados os sacerdotes e as sacerdotisas. Diante da decisão, Alexandre pediu para que a casa do poeta Píndaro fosse poupada. Tebas foi transformada em uma grande ruína, causando o lamento e a indignação dos gregos.
Finda a punição aos tebanos, chegara a hora do acerto final com os atenienses. Alexandre exigiu que os atenienses entregassem Demóstenes, Licurgo e Caridmo. Diante de uma possível revolta da população daquela cidade, o rei da Macedônia aceitou que os próprios atenienses julgassem os sublevados, conseguindo com este ato, apaziguar finalmente a Grécia.

Expansão Pela Ásia Menor e Pelo Egito

Quando a tranqüilidade voltou à Grécia, Alexandre pôde finalmente iniciar o seu projeto de expansão sobre a Ásia. O jovem rei achava que a hegemonia do seu reino e dos reinos gregos só estaria assegurada se o perigo que vinha do Oriente, especialmente da Pérsia, fosse eliminado.
Em 334 a.C., o rei partiu no início da primavera, em uma expedição militar rumo à Ásia Menor, atravessando o Helesponto, avançando até o rio Grânico, enfrentando ali, pela primeira vez, os persas, obtendo uma significativa vitória, conquistando a costa e o interior da Ásia Menor.
Após a Batalha de Grânico, Alexandre enterrou os seus mortos. Isentou dos impostos os pais e os filhos dos macedônios que caíram durante a batalha. Mostrou-se humano com os vencidos, ao mesmo tempo em que procurava saber como eles foram feridos, para que assim ampliasse os seus conhecimentos bélicos. Iniciava um diálogo com os orientais, respeitando-lhes os costumes, aprendendo com eles, e, livrando-os do julgo e da cultura persa.
Para ressaltar a vitória, enviou a Atenas trezentas armaduras completas, com a inscrição que afirmava a vitória do filho de Filipe II e dos helenos sobre os povos bárbaros. A cada cidade conquistada da Ásia Menor, Alexandre implantava a cultura helena, exaltando-a como vitoriosa. Ironicamente, os pensamentos gregos eram expandidos pelo mundo por um macedônio.
Em Sardes, cidade da Lídia, os seus habitantes vieram entregar ao rei conquistador os seus famosos tesouros. Para honrar os cidadãos conquistados, Alexandre escolheu um lugar ali apropriado, ordenando que se erigisse um templo em homenagem a Zeus, o senhor do Olimpo, e deus protetor dos macedônios. No meio de uma chuva torrencial, começou a ser erguido o templo onde outrora fora um antigo palácio real de Creso, rei da Lídia. A estátua de Zeus ali esculpida pelos lídios, assumiram, segundo algumas fontes históricas, não os traços famosos do deus, designada pelo escultor Fídias, mas os de Alexandre, o rei vitorioso.
Alexandre seguiu a sua marcha sobre a Ásia. Diante de uma aproximação iminente dos exércitos do filho de Filipe II, Dario III foi ao seu encontro. Em novembro de 333 a.C., a Batalha de Isso deu a vitória de Alexandre sobre o poderoso rei da Pérsia, iniciando o ocaso daquele grande império. Após a vitória, Alexandre seguiu, tomando a cidade de Damasco. Ainda naquele ano, prepararia a conquista da Fenícia e da Síria.
Em 332 a.C., promoveu o cerco a Tiro. Em agosto chegou a Gaza, seguindo para o Egito, sendo sagrado faraó em Mênfis. No Egito, o jovem rei começava o processo de expansão pessoal, assimilando à formação helênica que recebera, a cultura oriental. Nas terras egípcias respeitou os antigos cultos aos seus deuses. No oásis de Siwa, foi reconhecido em seu templo como o filho de Amon e sucessor dos faraós. Ainda no Egito, fundou naquele ano Alexandria, a cidade que se iria transformar em um dos maiores centros de erudição da antiguidade.

Conflito Entre o Ideal Helênico e o Oriental

No ano de 331 a.C., Alexandre voltaria a enfrentar as tropas do poderoso Dario III. Em 1 de outubro, o rei persa seria definitivamente derrotado na Batalha de Gaugamelos, forçando à queda definitiva da Pérsia ante os macedônios.
Alexandre foi conquistando as principais cidades daquela região. Da Mesopotâmia à Pérsia, uma a uma caiu-lhe nas mãos: Babilônia, Susa e Persépolis.
Ao ser derrotado, Dario III fugiu, deixando para trás a família. Ao deparar-se com Sisigâmbis, a rainha-mãe, e com a mulher e as filhas do rei persa, Alexandre viu-as a saudar, por engano Heféstion. Como o amigo intimo do conquistador era o mais alto dos dois, a rainha-mãe pensou que ele fosse Alexandre, ajoelhando-se aos seus pés. Irônico, Alexandre disse à senhora: “Não te enganas, minha venerada mãe, este é Alexandre”, insinuando que Heféstion também era uma parte dele. Alexandre assegurou à rainha que nada aconteceria a ela e aos filhos de Dario, num gesto de comiseração humana.
Em julho de 330 a.C., a fuga de Dario III chegaria ao fim, quando foi morto, não pelas mãos de Alexandre, mas por uma conspiração dos sátrapas, que guiados por Besso, Barsaentes e Nabárzanes, adentraram-se durante a noite na tenda do rei persa, arrastando-o na intenção de levá-lo prisioneiro para a Bactriana, onde negociariam com Alexandre, trocando-o pela paz.
A notícia da conspiração causou tumultos entre os persas, provocando um grande número de sediciosos, obrigando Alexandre a ir ao encalço dos conspiradores, antes que se gerasse uma revolta sem contornos. Quando Alexandre cercou os conspiradores, Besso trespassou o corpo de Dario III com um dardo. Alexandre encontrou o cadáver do grande rei persa, cobrindo-o com o seu manto púrpura. Em seguida, honrou-o como um rei, enviando o cadáver para que fosse enterrado em Persépolis, por sua mãe Sisigâmbis.
Morto Dario III, Alexandre foi proclamado rei da Ásia e sucessor da dinastia persa. O processo de orientalização de Alexandre acentuou-se ainda mais, quando ele passou a usar a tiara persa e a participar do ritual cerimonial da corte oriental. Alexandre deparou-se então, com o conflito entre duas civilizações, a Oriental e a Ocidental, numa separação clara de dois mundos que não se queriam conciliar, e quando o fazia, era através das lanças e das espadas.
Fiéis seguidores do rei começaram a ver com desconfiança a simpatia dele pelos orientais. Não aceitavam que os vencidos fossem tratados com tanta simpatia e benevolência, tão pouco que se lhe impusessem os seus costumes. O ideal grego era considerado pelos exércitos de Alexandre como superior, não podendo ser contaminado pelo ideal oriental. Supostas conspirações chegaram aos ouvidos de Alexandre, sendo Filotas, filho de Parmênion, o principal acusado. Reunindo-se em um conselho de guerra, ficou decidido que Filotas seria executado. Sem direito à defesa, ele foi morto a golpes de dardos e pedradas pelos seus antigos amigos e companheiros de batalhas.
Temendo uma revolta de Parmênion, pela morte do filho, também o destino de um dos mais bravos comandantes dos exércitos de Alexandre foi decidido. Polidamos foi enviado por Alexandre a Ecbátamos com ordem explícita para eliminar Parmênion. Mortos pai e filho, não morreu a visão que tinham dos orientais, considerados por eles bárbaros. Tão pouco o sentimento helênico, sabendo que a sua cultura era difundida não por um grego, mas por um macedônio.
A morte de Parmênion e Filotas abriu uma ferida que jamais foi cicatrizada. Dois anos depois, quando Alexandre oferecia um banquete, Clito, fiel companheiro do conquistador e um dos maiores chefes militares do exército macedônico, não conteve a sua irritação diante do rei, lembrando-o da chacina que vitimara Parmênion e os seus filhos, acusando-o de convidar bárbaros para a sua mesa e matar fiéis companheiros. Movido pela ira, alentada em parte pelo excesso de vinho, Alexandre levantou-se da mesa, empunhando a espada contra Clito. Os demais convidados tentaram impedir o ato insensato do rei, escondendo-lhe as armas. Mas Alexandre não conteve a fúria, tomando a lança das mãos de um guarda, arremessando-a contra Clito, que caiu morto aos seus pés. Ao tomar consciência do seu ato, Alexandre foi acometido de um terrível remorso. Em um impulso, arrancou a lança do corpo de Clito, tentando com ela matar a si próprio. Os amigos do rei impediram que cometesse mais um ato de insensatez, levando-o para o seu leito. Alexandre era conduzido em meio de gritos lancinantes que emitia, acompanhado de um choro compulsivo. Durante três dias ficou junto ao cadáver de Clito, chorando a sua morte.
Outra conspiração envolvendo a condenação à orientalização de Alexandre foi efetuada pelos pajens, assim denominados os filhos dos nobres macedônios quando chegavam à adolescência e eram chamados para começar as suas carreiras, formando um escorte especial do rei em campanha. A revolta foi causada por Hermolau, admirador da filosofia de Calistenes, sobrinho de Aristóteles. Hermolau, ao desobedecer a Alexandre por conta da caça a um javali, foi açoitado por ordem do rei, causando revolta nos amigos pajens. Juntos, decidiram assassinar Alexandre. Descobertos, foram todos lapidados.
Calistenes, historiador do seu tempo, era um admirador de Alexandre. Não era soldado. Quando chegou a Ásia, revoltou-se com os costumes orientais praticados pelo rei. Heleno convicto, durante um banquete em que Heféstion quis introduzir o cerimonial usado na corte persa, onde todos deveriam se prostrar diante do rei e receber o beijo de gratidão, recusou-se se submeter a tais práticas bárbaras. Foi encarcerado e posto a ferros, morrendo, segundo historiadores, enforcado. Mais uma vez o encontro de duas culturas eram confrontadas, gerando mártires. A morte de Calistenes pôs fim à longa correspondência trocada entre Alexandre e Aristóteles. Talvez fim ao último contacto do imperador com os pensamentos filosóficos do mundo helênico.

O Conquistador Chega à Índia

As conquistas de Alexandre pareciam não ter limites. Quanto mais avançava e estendia as fronteiras do seu império, mais se distanciava da sua terra natal. Seu carisma e triunfo compensavam a longa ausência, fazendo os macedônios um povo fiel ao poderoso rei ausente.
A fama de Alexandre percorria todas as terras. Em Jerusalém chegou a ser identificado com aquele que os livros sagrados profetizaram através de Daniel. Perdoou aos hebreus e prestou adoração ao Deus único, dizendo ter visto os sacerdotes do templo vestidos de branco em sonhos. Poupou Jerusalém, isentou o sétimo ano de impostos e ordenou que se lhe fosse respeitados a crença e os costumes monoteístas. Alexandre tornou-se uma figura mítica no seu tempo, sendo criadas várias lendas em torno da sua personalidade. Muitos identificavam-no com o próprio Aquiles.
Na sua conquista ao mundo, Alexandre atravessou em 329 a.C., o Parapamiso (Hindu-Cuxe). Conquistou a Samarcanda e a Bactriana, conquistando a seguir a Sogdiana, tomando Maracanda. Durante a conquista, conheceria a bela Roxane, com quem se iria casar.
Em 327 a.C. partiu em sua expedição indiana, ultrapassando o Hindu-Cuxe. Seguiu o Indo, atravessando o rio Hidaspes. Às margens deste rio, erigiu Bucéfala, em homenagem ao seu famoso cavalo ali morto. Em 326 a.C. chegou ao rio Hifaso, ou Bias. Após enfrentar grandes batalhas na Índia, completamente esgotadas fisicamente, as tropas do conquistador amotinaram-se, recusando-se a continuar, obrigando-o a retornar. Numa volta penosa, o grande rei desceu o Hidaspes. Venceu os males e os seus aliados, mas foi ferido gravemente em batalha, sendo retirado da luta sob a proteção fechada dos seus homens.
No seu regresso, em 325 a.C. atravessou o deserto de Gedrósia. Durante a passagem pelo deserto, perdeu dez mil homens. Quando chegaram a Pura, pareciam zumbis errantes. Um bacanal em Pura restabeleceu a força das tropas. Alexandre partiu para a Carmânia, inquieto pela falta de notícias de parte da suas tropas comandadas por Nearco. Grande foi a emoção que sentiu Alexandre ao reencontrar Nearco e os seus soldados. Ao vê-los, chorou emocionado, pois já os pensava mortos.
Diante do cansaço e desgaste físico dos seus exércitos, Alexandre retornaria a Persépolis e a Susa. Ao retornar, em 324 a.C., cairia gravemente doente no ano seguinte, não tendo mais tempo de conquistar o mundo. Alexandre, já a esta altura conhecido como o Grande, encerrava abruptamente a expansão do seu império.

Vida Sentimental e Pessoal de Alexandre

Alexandre passou a maior parte da sua vida em campos de batalhas. Pouco tempo teve para viver uma vida pessoal intensiva. Poucos relatos amorosos fizeram parte da sua biografia, sendo oficialmente citados os seus dois casamentos, registrados em documentos históricos. Apócrifos são os relatos do seu envolvimento com homens. Muito que se tem especulado ao longo dos séculos sobre a sua homossexualidade, embora não tenha documento algum do seu tempo que a comprove.
Era um homem vaidoso, de cuidados especiais com a sua aparência. Vestia-se com esmero e luxo. Contrariando os da sua época, trazia o rosto raspado, sem a tradicional barba dos macedônios.
Relatos apontam que aos dezessete anos, Alexandre mostrava-se totalmente apático ao sexo. A mãe Olímpia, recorreu a Calixena, uma cortesã, para iniciar o filho nas artes do sexo. Conta-se que no decorrer da noite, diante da indiferença do príncipe, a cortesã fez-se autoritária, violando-o. Após grande esforço, conseguiu realizar um ato rápido e pouco satisfatório para ambos.
Em 328 a.C., Alexandre tomou como esposa Roxane, filha do aristocrata bactriano Oxyartes. A bela mulher foi capturada pelas tropas de Alexandre durante a conquista da Sogdiana. Muitos relatos afirmam que o casamento do rei macedônio com Roxane teria sido fruto de uma grande paixão. Outros acreditam que não passou de um ato político, com o qual Alexandre consolidava o seu poder no Oriente, unindo oficialmente as culturas helênicas e orientais. Roxane foi quem gerou o único filho do grande rei, Alexandre Aigos, nascido postumamente na Babilônia, em 323 a.C. Na disputa pela herança do império de Alexandre, Roxane e o filho ficaram sobre a proteção da rainha-mãe Olímpia, mas quando esta foi morta, em 316 a.C., os dois tiveram a sorte selada, sendo ambos assassinados em 309 a.C.
Um suposto amor vivido entre Alexandre e a rainha Cléofis de Massaga é rejeitado pela maioria dos historiadores. Jovem de rara beleza, Cléofis teria gerado um filho de Alexandre, chamando-o pelo nome do pai. O episódio é obscuro, sem que se apóie à veracidade histórica, sendo visto com uma lenda.
Em fevereiro de 324 a.C., Alexandre retornou a Susa, sendo recebido com festas e grande solenidade. Ali decidiu tomar uma segunda esposa. Optou por Estatira, a filha mais velha de Dario III, seu velho inimigo. Dripetes, a filha mais jovem do falecido rei persa, foi dada em matrimônio a Heféstion, o favorito de Alexandre. Num ato político, Alexandre ordenou que os seus soldados macedônios tomassem mulheres persas como esposas. No dia do casamento de Alexandre e Estatira, dez mil soldados gregos também se casaram com mulheres persas. Estatira, a segunda esposa do rei macedônio, não passou de um grande jogo político nas mãos do marido, que consolidava o seu império na Pérsia.
Outro personagem obscuro na vida de Alexandre seria o eunuco Bagoas, um cortesão persa, segundo alguns historiadores, um dos amantes preferidos do grande imperador. Bagoas teria tido grande influência sobre Alexandre em relação às atitudes favoráveis aos persas. Ter um eunuco como amante não era considerado entre os antigos um ato de homossexualismo, visto que os eunucos eram tidos sexualmente como mulheres.
Mas o companheiro de toda a vida de Alexandre teria sido Heféstion Amintoros, filho de Amíntor, um aristocrata da Macedônia. Heféstion teria tido Aristóteles como professor. Acompanhou Alexandre em toda a sua campanha pela Ásia, combatendo na cavalaria. O amor homossexual entre homens era uma prática na Grécia antiga, sendo aceito entre um homem mais velho e um jovem. Alexandre e Heféstion eram da mesma idade, o que fazia dos dois uma diferença aos costumes. Era costume aos homossexuais gregos a visita ao suposto túmulo de Pátroclo, companheiro inseparável de Aquiles. Numa visita a Tróia, Alexandre teria induzido Heféstion a visitar aquele túmulo com oferendas, enquanto ele fazia uma oferenda ao túmulo de Aquiles. O ato revelava ao seu exército de soldados a verdadeira face da amizade viril entre os dois. Esta passagem da vida do rei macedônio foi a que mais gerou o debate da sua suposta homossexualidade. Muitos são os relatos que afirmam ter sido Heféstion a pessoa que o grande rei mais amou em vida.
Apesar de toda especulação em torno do relacionamento entre Heféstion e Alexandre, em que se deduz que ambos foram amantes, a suposição jamais foi citada pelas fontes históricas mais antigas, sendo a citação ao fato atribuída a uma carta de Diógenes de Sinope, em que afirmava que Alexandre jamais seria capaz de deixar Heféstion, visto estar preso a ele pelas coxas.
Alexandre conferiu grandes poderes a Heféstion, fazendo dele o segundo homem do seu imenso império. Ao casá-lo com Dripetes, tornou-o seu cunhado. Na primavera de 324 a.C., Heféstion deixou Susa, acompanhando Alexandre até Ecbátanos, aonde chegaram no outono. Ali, Heféstion caiu gravemente doente, com sintomas de febre tifóide, apesar das suspeitas de envenenamento. Viria a morrer subitamente em sete dias. Alexandre quase enlouqueceu ao saber da morte do amigo. Em desespero, cortou os cabelos e as crinas e os rabos dos cavalos do exército, além de mandar executar Glaucias, o médico que atendera Heféstion. Em sinal de luto, Alexandre proibiu o toque de flautas no acampamento. Ficou esticado em cima do cadáver do amigo todo o dia e toda a noite. Durante o funeral, Alexandre pôs uma mecha dos seus cabelos nas mãos do companheiro, levando todo o exército às lágrimas.
Em meio aos eventos fúnebres, o rei massacrou os revoltosos da tribo dos Cosseanos, chamando a vitória de Sacrifício Fúnebre de Heféstion, repetindo a fúria de Aquiles quando vingou a morte de Pátroclo. Alexandre celebrou jogos fúnebres em homenagem ao amigo morto, determinando que ele deveria ser adorado como um herói divino. Guardou luto por meses. Alexandre ainda erigia um grande monumento funerário em homenagem a Heféstion, quando ele próprio foi acometido de uma febre mortal ao se encontrar em Babilônia.

A Morte de Alexandre, O Grande

Após a morte de Heféstion, Alexandre retornou à Babilônia, lá chegando na primavera de 323 a.C. Mesmo de luto, profundamente abatido pela morte do amigo, ele não desistiu da obstinação de conquistar o mundo. Em Babilônia ele traçou planos para conquistar a África e a Arábia, iniciando os preparativos de uma grande expedição que jamais se iria concretizar.
Alexandre desejava sair de Babilônia em breve, partindo rumo à península Arábica e ao norte da África. Durante o tempo que permaneceu na cidade, iniciou a construção de uma grande pira em homenagem a Heféstion, conclamando o início dos grandes jogos fúnebres.
Ainda na Babilônia, encontrou com uma grande embaixada helênica, além de incorporar aos seus exércitos mais vinte mil soldados persas. No mês de maio de 323 a.C., deu a ordem para que se celebrasse os funerais de Heféstion. Parte das muralhas de Babilônia foram derrubadas para que se construísse o grandioso edifício da pira, que resplandecia de ouro, prata e esculturas de bronze e mármore, custando doze mil talentos. Cânticos fúnebres em homenagem ao morto foram entoados por coros. Ao atear o fogo, Alexandre fez a libação ao amigo, elevando-o à categoria de herói divino. Dez mil touros foram sacrificados e distribuídos a todos, num grande banquete em memória a Heféstion. Foi a última festa grandiosa celebrada por Alexandre.
Na noite de 18 daesios (3 de junho), Alexandre voltou ao palácio, após ter comido e bebido muito. Após banhar-se, começou a sentir uma forte febre. Desde então, a sua saúde foi debilitando consecutivamente. Durante os três primeiros dias que foi consumido pela febre, Alexandre não se deixou abater. Foi sempre levado de liteira ao templo, onde fez sacrifícios aos deuses. Reuniu-se com os seus oficiais, confirmando a intenção de partir em expedição para a Arábia e para a África. Ainda no dia 21 daesios, após os banhos, continuava a ter febre, ainda assim, chamou os comandantes dos navios, recomendando-lhes que se apressassem nos preparativos para a grande expedição. No fim daquela tarde, após outro banho, o seu estado febril agravou-se.
Já bastante debilitado, no dia 22 daesios, celebrou com dificuldades sacrifícios aos deuses, reuniu-se mais uma vez com os oficiais, nomeando alguns cargos que faltavam no exército e para traçar as últimas medidas da campanha naval. A partir de então, já não conseguiu dar novas ordens. Piorava a cada hora. No dia 25 daesios, foi trazido dos aposentos do jardim para o palácio. Já não tinha voz, sendo tomado pela febre cada vez mais violenta. No dia seguinte, os soldados macedônios cercam as portas do palácio, na esperança de ainda ver com vida o seu rei. Aos gritos, a usar a força, conseguiram que se lhe abrissem as portas, e, um a um, sem armas e armaduras, desfilaram em túnica em frente do grande rei, que jazia mudo no leito, sem forças. Alexandre reuniu as últimas forças e levantou a cabeça a cada um dos seus soldados, acenando-lhes com os olhos. No dia 28 daesios, ou 13 de junho de 323 a.C., morria Alexandre, o Grande, acometido de uma grande febre, provavelmente em conseqüência de uma malária.
Durante o tempo em que esteve no leito de morte, vários foram os relatos que pontuaram aquele momento dramático. Um deles conta que, já tendo a certeza do fim, Alexandre pediu a Roxane a ajuda em um plano: quando desse o último suspiro, fosse o seu corpo atirado secretamente nas águas profundas do rio, para que os seus soldados e o povo pensassem que os deuses o haviam raptado. Roxane, então grávida do seu herdeiro, recusou cumprir a vontade do marido, deixando-o morrer não como um deus, mas como um simples mortal.
Alexandre, ainda no leito de morte, teria escrito uma carta a Olímpia, sua mãe:
Teu filho, depois de ter contado alguns instantes de vida, vai ser presa da morte; ele se dissipa como um relâmpago e só deixa depois de si um tema de conversação para as gerações futuras.”
Alexandre morreu um mês antes de completar 33 anos. Durante os treze anos do seu reinado, construiu um império que dominou quase todo o mundo da sua época. Passou a maior parte do reinado longe da Macedônia, a expandir o grande império em que foi rei absoluto. Muitos anos longe do mundo helênico onde foi gerado e onde se formou os seus princípios políticos e intelectuais, foi inevitável que adquirisse visões das terras orientais as quais conquistou, demonstrando concretas influências, sendo por isto criticado e acusado de traição ao helenismo por parte dos seus mais influentes generais e súditos.
O grande império de Alexandre não lhe sobreviveu, sendo dividido entre os seus generais, que entraram em discórdia tão logo ele morreu. A importância deste império efêmero foi vital para a história do Ocidente. Alexandre evitou que o poderoso império Persa ultrapassasse as fronteiras da Ásia Menor e dominasse a Grécia e, conseqüentemente, a Europa, na época ainda um berço de civilizações incipientes e atrasadas. O domínio persa certamente destruiria os princípios helênicos, fundamentais para a construção moral e ética da civilização ocidental. Ao fazer ruir o império persa, Alexandre voluntária ou involuntariamente, assegurou a sobrevivência da civilização grega, a helenização do judaísmo, abriu as portas para o grande e helenizado império romano, que por sua vez, concretizaria o cristianismo, formando os conceitos morais da atual civilização ocidental.
Não se sabe até onde iria Alexandre, se não tivesse morrido ainda longe de atingir a maturidade dos anos. Se ampliaria ainda mais o seu império, ou mesmo se o iria conseguir manter por mais tempo. Sabe-se apenas, que na história da civilização ocidental, poucos conquistaram tão grandioso império como ele, poucos foram tão longe. Nenhum foi o Grande, como Alexandre.

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