POEMAS DOS LIVROS SAGRADOS

junho 3, 2013

 

A Bíblia, livro sagrado do cristianismo em seu todo, e do judaísmo nas chamadas “Escrituras Antigas”, ou “Velho Testamento”, traz em seu texto religioso os princípios fundamentais da palavra de Deus transmitida aos homens.
Escrita de forma épica, conta a história do homem desde a sua criação, aos pactos que o fez ligado ao Criador. Traz, fundamentalmente, as leis que servem de preceitos morais para que o homem seja digno do amor divino.
Importante fonte histórica, imprescindível na formação da moral ocidental, nos princípios que ligam o homem a Deus, o livro sagrado também é uma fonte de beleza poética, com textos de rara estética visual e metáforas líricas, que nos seduz pelas palavras, transcendendo o princípio da fé, pousando como uma suave e definitiva sensação de regozijo literário.
Na força das palavras reveladoras, a beleza verbal da palavra sagrada, que nos afasta dos precipícios da solidão universal, conduzindo-nos pela certeza do amor como adjetivo supremo para a ligação dos mortais a Deus.
“No amor não há temor, mas o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor exerce uma restrição. Deveras, quem está em temor não tem sido aperfeiçoado no amor.” (1 João 4:18)
Três trechos são mostrados neste artigo, que se limita apenas a apresentar a poesia sonora e estética, sem se aprofundar na mensagem profética, sapiencial ou religiosa; atendo-se na beleza poética da descrição mais sublime do amor (1 Coríntios), na condição do homem diante de Deus, do tempo estabelecido à humanidade (Eclesiastes), e, na beleza etérea do leito nupcial (Cântico de Salomão). Três momentos do sagrado em uma visão unicamente literária. Três textos de envolvente beleza entre o erudito e o lúdico, o sagrado e o poético, o finito do homem com o infinito de Deus.

O Cântico dos Cânticos

Um dos livros mais poéticos da Bíblia é o “Cântico de Salomão”, também conhecido como “Cantares”, “Cântico dos Cânticos” ou “Cântico Superlativo”. Faz parte do que é chamado pelos cristãos de “Antigo Testamento”. A sua autoria é atribuída ao rei Salomão, filho de Davi. É um livro curto, constituído apenas de oito capítulos, formado por uma estrutura complexa, onde diferentes personagens adquirem voz, numa construção lírica. Três personagens constituem o poema: o noivo, o rei Salomão e a noiva identificada como Sulamita. Construindo um hino nupcial, coros sopram o doce ecoar dos sentimentos, dividindo-o no momento do início do amor e no do seu amadurecimento. Escrito de maneira sensual, com imagens telúricas a tocar no limiar entre o sagrado e o profano, oCântico de Salomão vem, ao longo dos séculos, suscitando algumas interpretações agnósticas e sendo questionado como texto sagrado. O belo poema nupcial permanece, entretanto, como parte do maior livro religioso do mundo ocidental, sendo interpretado por alguns como alegórico, em que os noivos seriam Deus e Israel na visão judaica, e Cristo e a igreja, na concepção cristã. Seja como for, é um dos mais belos poemas líricos de todos os tempos.

1 Ah, se fosses meu irmão, amamentando ao seio de minha mãe! Então, encontrando-te fora, poderia beijar-te sem que ninguém me desprezasse.
2 Eu te levaria, far-te-ia entrar na casa de minha mãe; dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.
3 Sua mão esquerda está sob a minha cabeça; e sua direita abraça-me. 
4 Conjuro-vos, oh filhas de Jerusalém, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele queira.
5 Quem é esta mulher que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado?
Debaixo da macieira eu te despertei, onde em dores te deu à luz tua mãe. Onde em dores te pôs no mundo tua mãe.
6 Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços, porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Seol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama de Jah.
7 As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios poderiam submergi-lo. Se um homem desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo.
8 Temos uma irmã pequenina que não tem ainda os seus seios formados. Que faremos nós de nossa irmã no dia que for pedida?
9 Se ela for uma muralha, construiremos sobre ela ameias de prata; mas se ela for uma porta, fechá-la-emos com batentes de cedro.
10 Sou uma muralha, e meus seios são como torres. Neste caso me tornei aos seus olhos uma fonte de alegria.
11 Salomão tinha uma videira em Baal-Hamon. Confiou-a aos guardas, cada um dos quais devia dar mil moedas de prata pelos frutos colhidos.
12 Eu disponho de minha videira. Mil moedas para ti, ó Salomão! Duzentas para aqueles que velam a colheita.
13 Ó tu que moras nos jardins, os amigos estão atentos. Faze-me ouvir a tua voz.
14 Foge, meu bem-amado, como a gazela ou à cria dos veados sobre os montes perfumados!
 (Cântico de Salomão 8: 1-14)

O Tempo de Todas as Coisas

Outro livro poético e sapiencial do “Antigo Testamento” é “Eclesiastes”, ou Kohelet na versão hebraica. Sua autoria é atribuída ao mítico e sábio rei Salomão. No trecho descrito abaixo, o poema afirma a tranqüilidade de saber esperar o tempo certo de todas as coisas da vida. A descoberta de cada momento, do amor divino, das tribulações, dos segredos do trabalho árduo, do labutar secular, da procura única pelo repouso das armas, da guerra e da paz, como se a paisagem humana fosse o resultado de cada tempestade ou bonança, contida ou expandida nos ventos da existência. É a beleza pura da palavra divina na sua concepção poética.

1 Para tudo há um tempo determinado, sim, há um tempo para todo assunto debaixo dos céus;
2 Tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para desarraigar o que se plantou;
3 Tempo para matar e tempo para curar; tempo para derrocar e tempo para construir;
4 Tempo para chorar e tempo para rir, tempo para lamentar e tempo saltitar;
5 Tempo para lançar fora pedras e tempo para reunir pedras, tempo para abraçar e tempo para manter-se longe dos abraços;
6 Tempo para procurar e tempo para dar por perdido; tempo para guardar e tempo para lançar fora;
7 Tempo para rasgar e tempo para costurar; tempo para ficar quieto e tempo para falar;
8 Tempo para amar e tempo para odiar, tempo para guerra e tempo para paz;
9 Que vantagem tem o realizador naquilo em que trabalha arduamente?
10 Vi a ocupação que Deus deu aos filhos da humanidade para se ocuparem nela.
11 Tudo ele fez bonito no seu tempo. Pôs até mesmo tempo indefinido no seu coração, para que a humanidade nunca descobrisse o trabalho que Deus tem feito do começo ao fim.
(Eclesiastes 3: 1-11)

O Amor na Inspiração Apostólica

Uma das mais belas descrições do amor, no sentido mais latente e extensivo da palavra, do abranger do significado universal das coisas, está na primeira epístola que Paulo de Tarso enviou à congregação de Corinto, no livro “1 Coríntios”, parte do Novo Testamento cristão. É o amor como sentido verdadeiro, construtivo e supremo. Nada o faz mais real se não a verdade, nada o dizima no todo como a mentira. Só no âmago do genuíno amor é feita a luz que conduz o fio tênue entre o homem e a magnificência de Deus. O amor aqui é soprado como o mais lírico de todos os cantos. Nunca a inspiração divina foi tão sensivelmente tão poética.

1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de profetizar, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse o amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é longânime e benigno. O amor não é invejoso, o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. 
5 Não se comporta indecentemente, não busca os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano.
6 Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade.
7 Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas.
8 O amor nunca falha. Mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas; cessarão; havendo ciência, desaparecerá.
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, porém, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.
 (1 Coríntios 13: 1-13)


POEMAS LUSITANOS

dezembro 31, 2010

Portugal, último pedaço de terra da Europa ocidental. Ao longe… o mar! Pátria dos destemidos navegantes, que rasgando os oceanos, levou a língua e o sentimento lusitano para terras desconhecidas.
Portugal do fado. Da poesia. Da saudade. Tão estranha e solitária palavra, só existente em língua portuguesa, porque a saudade é genuinamente lusitana.
Das vinhas do Douro às cortiças do Alentejo, das ruas de Alfama aos labirintos noturnos do Bairro Alto. Em cada canto um poeta, utilizando da velha língua extraída da extinção do latim, do paganismo eclético, do cristianismo asséptico.
Portugal e sua gente eternamente saudosista, do ontem que se foi, do hoje que se esvai e do amanhã que se esgotará. Porque a saudade portuguesa é lei, é identidade, é a essência de um povo que sorri com as lágrimas.
Terra de grandes poetas, que destilam nas suas palavras a emoção à flor da pele, as dúvidas da existência, a constatação da vida.
Neste artigo faremos uma visita breve aos poemas lusitanos, aos poetas que ecoaram as suas palavras pelos quatro cantos do solo português. Da coragem épica de Luís de Camões, navegaremos pelo oceano do pai de todos os poetas de língua portuguesa. Da ribeira secular da cidade do Porto, atravessaremos o mar lírico de Sophia de Mello Breyner Andresen. Das montanhas geladas transmontanas, escalaremos as palavras de Miguel Torga. Da Lisboa eterna, cruzaremos as ruas estreitas do existencialismo de Fernando Pessoa e de David Mourão-Ferreira. Da beleza agreste do Alentejo, arrebataremos a poesia passional de Florbela Espanca. Do coração da Coimbra histórica, beberemos a mais doce melancolia de Al Berto.
Poetas lusitanos. As suas palavras dispensam qualquer análise, qualquer apresentação formal. Foram escritas para que sejam sentidas, na mais pura essência da emoção, do encontro do leitor com a alma do poeta.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mais Triste do Que o Que Acontece – Fernando Pessoa

 

Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, que o entristece?
Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!

Saudades – Florbela Espanca


Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem me dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Réquiem Por Mim – Miguel Torga

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Há-de Flutuar Uma Cidade… – Al Berto

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
á beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Paira à Tona de Água – Fernando Pessoa

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!…

Escada em Caracol – David Mourão-Ferreira


É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

Tarde Demais – Florbela Espanca

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!…

Súplica – Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto,
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Quando – Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Na Véspera de Nada – Fernando Pessoa

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fotos: José Luís Mendes (1 Odisseia), Helena Margarida Pires de Sousa (2 Andei Léguas de Sombra), CrisSant (3 Vergonha), Daniel Pedrogam (4 In My Dreams, I Found Someone Like You), Marvimm (5 Única Saída), Thiago Phelipe (6 – , 7 A Carta), Paulo César (8 Faz-me Voar, 10 O Sabor da Tua Pele no Céu da Minha Boca), Gonzales (9 Untiled), Ugly (11 Apple Tree), DDiArte (12 Brainstorming)


CHARLES BAUDELAIRE – ABSINTO E FLORES DO MAL

julho 17, 2010

Charles Baudelaire, uma das mais controversas personalidades da literatura francesa, foi um dos maiores poetas universais de todos os tempos. Dedicou a sua vida à boemia embriagante e à força da palavra em forma da mais genuína emoção da poesia.
Numa visão muitas vezes cáustica do mundo e da realidade, ele consegue impregnar a esta visão o lirismo agudo, quase imposto à realidade. Homem de emoções extremas, dilapidou o seu dinheiro nas noites e cafés parisienses, entregando-se ao sabor do absinto, extraindo da bebida verde, reza a lenda, todas as alucinações poéticas do mundo.
Viveu amores intensos, elevou a beleza da mulher em seus poemas, idolatrando-a e ao mesmo tempo, mostrando-se reticente e desconfiado, fazendo da paixão feminina o seu céu e inferno dilatados em um mesmo contesto lírico. Das paixões e dos leitos herdou a sífilis, mal que o consumiria por toda a vida. Do absinto, do ópio, do haxixe e dos excessos, definhou a saúde até perdê-la para a morte, com pouca mais de 46 anos de idade.
Considerado obsceno e maldito ao publicar a obra poética “As Flores do Mal”, em 1857, Baudelaire teve o volume original amputado em seis poemas, sendo condenado pela justiça a pagar pesada multa por blasfêmia e obscenidade. Sua obra introduzia novos elementos na linguagem poética, onde o existencialismo era fundido em seus opostos, mostrando-se sublime e grotesco, numa atitude de rebeldia perene diante das moralidades sociais, indignando os mais conservadores da sua época.
Buscando sempre por temas frívolos, a poesia de Baudelaire flerta com o romantismo levado ao extremo, sendo vista como precursora do Simbolismo, ou mesmo como antecedente ao Parnasianismo. Pouco compreendido e muito criticado no seu tempo, influenciou poetas como Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, e conquistou a admiração de romancistas como Victor Hugo e Gustave Flaubert, passando de forma indelével pela intelectualidade francesa do século XIX.
Baudelaire deixou uma obra única e intocável, com o lirismo a derramar sobre o céu e o inferno, a beleza e o medo, o anjo e o vampiro. Nos seus retratos, o rosto trazia um olhar duro e impenetrável, quase indomável, como a sua poesia.

A Infância e o Convívio com o Padrasto

Considerado um dos ícones da poesia francesa, Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821, na Rua Hautefeuille, número 13, onde hoje está localizada a Livraria Hachette. Filho de Joseph-François Baudelaire e de Caroline Archimbaut-Dufays, o pequeno Charles-Pierre viu-se órfão do pai muito cedo, que morreu quando ele tinha seis anos, sendo criado pela mãe e por sua enfermeira, Mariette, sob uma proteção feminina absoluta.
O destino da criança mudaria bruscamente, quando sua mãe Caroline, casou-se em novembro de 1828, quase dois anos depois da morte do pai, com o militar Jacques Aupick. Começaria uma relação tensa entre a natureza libertária de Baudelaire e a rigidez de caserna do padrasto. O poeta jamais conseguiu gostar do padrasto, apesar de ter convivido a maior parte da infância e adolescência sob a sua tutela. Não se podia conciliar o caráter rebelde de um com a disciplina eloqüente do outro, gerando uma convivência acentuada pelas diferenças.
A condição de militar brilhante e em ascensão permanente, fazia com que Jacques Aupick fosse periodicamente transferido de uma cidade para a outra. Em 1832, o então coronel foi transferido para Lyon, levando a família para ali morar no ano seguinte. Naquela cidade freqüentou o Colégio Real de Lyon. Na escola militar, Baudelaire sentiu a rigidez disciplinar e o estudo rigoroso a confrontar com a sua personalidade, gerando uma maior animosidade com o padrasto.
Na adolescência, aos quinze anos, o poeta passou a freqüentar o Louis-Le-Grand, tradicional colégio de Lyon. Tornara-se um jovenzinho rebelde e insolente, tomado de empáfia que desagradava aos professores, culminando com a sua expulsão do estabelecimento, em 1839, por não querer mostrar ao mestre um bilhete que lhe havia passado um colega. Seria enviado para Paris para ali concluir o liceu.
Para decepção da mãe e do padrasto, o jovem declara muito cedo a intenção de ser escritor. Mais uma vez entrava em confronto com os ideais do padrasto, que naquele ano fora promovido a general de Brigada.
A relação de Baudelaire com o padrasto é uma página especial na biografia do poeta. Foi desta relação densa e delicada que surgiu o caráter rebelde, diluído em atitudes que desafiavam as convenções dos costumes morais e sociais da época. Foi após uma viagem com a mãe e o padrasto aos Pirineus, em 1838, que ao regressar, Baudelaire escreveria o poema “Incompatibilité”, já a evidenciar a sua característica inovadora na poesia de então. Por sua vez, Jacques Aupick seguiria uma carreira militar brilhante, distinguindo-se como general, chegando a ser embaixador e senador. O que deveria ser um exemplo a seguir por Baudelaire, contrastou-se com a sua índole de poeta e boêmio, fazendo que sempre procurasse o oposto da conduta disciplinada do padrasto.

Vida de Excessos em Paris

Para amenizar as relações familiares, o jovem poeta aceitou seguir estudos na escola de Direito de Paris, a Ecole de Droit. Na capital francesa, passou a morar na famosa pensão para estudantes Lévêque Bailly. Ali fez amizade com diversos jovens boêmios, iniciando-se em um estilo de vida marcado pelos excessos e pelo desejo de transgredir, ir além dos limites morais do que lhe permitia o século XIX. Foi na pensão de estudantes que ele travou amizade com os poetas Gustave Vavasseur e Enerts Prarond.
Em Paris, as noites frívolas do poeta distanciaram-no dos estudos. Entregou-se às descobertas do corpo e da mente. Deixou-se embalar pelo absinto, bebida de alto teor alcoólico, que ingerida em grandes quantidades produz alucinações, o que levou à sua proibição na Europa. Também o ópio e o haxixe tornaram-se familiares ao poeta. Durante aquele tempo, iria endividar-se todo.
Totalmente seduzido pela noite, Baudelaire começava a descobrir os encantos da beleza feminina, que ele exalta como um esplendor de luz e de trevas, de desejos e de precipícios, de caminhos edênicos e labirintos tortuosos. Vive um intenso relacionamento amoroso com Sarah, uma prostituta de origem judia, conhecida na Cidade Luz como Louchette. Suas aventuras românticas e sexuais nos prostíbulos parisienses deixam-lhe sensações que encherão as páginas da sua poesia, mas também deixará uma triste e definitiva realidade, a contração da sífilis, doença que na época não tinha cura, e o acompanharia até a morte.

Hymne à la Beauté (original)

Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme,
O Beauté? Ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l’on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l’aurore;
Tu répands des parfums comme un soir oraguex;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l’enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charme suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l’Horreur n’est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L’éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crepite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L’amoureux pantelant incliné sur belle
A l’air d’un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l’enferm qu’importe,
Ô Beauté! Monstre enorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m’ouvrent la porte
D’un Infini que j’aime et n’ai jamais connu?

De Satan ou de Dieu, qu’importe? Ange ou Sirène,
Qu’importe, si tu rends, – fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! –
L’univers moins hideux et les instants moins lourds?

Hino à Beleza (tradução)

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza? O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora;
Expandes os teus odores qual noite de trovoada;
Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca
Tornando o herói covarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros?
Encantado, o Destino é um cão que te segue;
Semeias ao acaso alegrias, desastres,
E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;
Das tuas jóias, o Horror é das que mais fascina,
E entre tais enfeites, o próprio Assassínio,
Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O inseto, deslumbrado, procura-te a chama,
Arde crepita e diz: Benzamos esta Luz!
O apaixonado trêmulo, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Monstro ingênuo, assustador, excessivo!
Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta
De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,
Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! –
Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Atribulações da Juventude

Ao ver Baudelaire afastado dos estudos, contraindo cada vez mais dívidas, perdendo-se nas noites parisienses, a família decidiu enviá-lo em uma viagem para Calcutá, na Índia. Assim, sob pressão do padrasto, em junho de 1941, mesmo contrariado, o poeta embarcou no navio Des Mers du Sud de Paquebot, sob a supervisão do comandante Saliz.
A viagem mostrava-se monótona para o poeta, que se fechou em um mau humor constante. Preferia estar em Paris, a divagar errante pelos cafés e prostíbulos. O navio parou nas Ilhas Maurício, seguindo para a Ilha da Reunião. Após passar por uma violenta tempestade, o navio foi obrigado a atracar em um estaleiro para reparos. Baudelaire já tinha decidido que não seguiria a viagem até o seu destino final. Na Ilha da Reunião, abandonou de vez o navio. Meses depois, o general Jacques Aupick receberia uma carta do comandante Saliz, sendo informado de que o enteado tinha abandonado o navio, não concluindo a viagem até Calcutá.
Ao retornar a Paris, Baudelaire atingiria a maioridade, em 1842, tendo direito a receber uma herança de cerca de cem mil francos, deixada pelo pai. De posse da fortuna, passou a viver em um apartamento na ilha de Saint-Louis, em Paris. Começa a freqüentar as galerias de arte, aprofundando-se na matéria, tornando-se grande conhecedor e critico de arte, com grande influência no seu tempo. Abastado pela herança recebida, adquiriu um comportamento excêntrico, trajando roupas extravagantes, ganhando a reputação de dândi nos salões parisienses.
Ainda em 1842, o poeta conheceu no Teatro Porte Saint-Antoine, a mulata Jeanne Duval, atriz figurante do Quartier Latin. A bela mulher também exercia a prostituição como ocupação. A mãe de Baudelaire desaprovava o romance, pelo fato da jovem ser mestiça. Por dois anos, o poeta viveu ao lado de Jeanne Duval, numa vida regada de drogas e álcool. Seria na beleza morena da jovem que ele encontraria inspiração para escrever diversos dos seus poemas, dedicando-lhe o ciclo de poemas “Vênus Negra”. O romance com Jeanne Duval terminou em grande decepção, quando ele soube, anos mais tarde, que ela tinha vivido com outro amante por meses, dizendo a Baudelaire que era o seu irmão.
Em apenas dois anos, Baudelaire já havia gastado quase a metade da sua fortuna. Para evitar que ele dilapidasse os seus bens, a mãe entrou na justiça, em 1944, acusando-o de pródigo, pondo-o sob a guarda legal de um tutor, sendo Narcisse-Desejam Ancelle o escolhido. Para eliminar os inúmeros débitos contraídos, foi obrigado a viver com uma renda baixa, muita aquém daquela que estava acostumado a gastar excessivamente.
Humilhado, Baudelaire sentiu-se desesperado com a nova condição social. Em 1945 tentou cometer suicídio, aumentando ainda mais a preocupação da mãe e do padrasto, que cogitaram a hipótese dele voltar a viver com eles em Paris. Mas ele preferiu continuar a viver sozinho, ainda que mais modestamente.
Além de Jeanne Duval, Baudelaire viveria um romance com outra atriz, Marie Daubrun, tendo-a como amante entre 1855 e 1860. Outra paixão marcante foi pela cortesã Apollonie Sabatier. Todas foram fundamentais na obra do autor, que tomou a paixão por elas como abundante fonte inspiradora.

À Une Passante (original)

La rue assourdissante autour de moi hurlait,
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispe comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Aileus, bieb loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A Uma Passante (tradução)

A rua ia gritando e eu ensurdecia,
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com as mãos suntuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado como um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efêmera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Escândalo na Publicação de “As Flores do Mal

Se a vida econômica e social de Baudelaire era um completo caos, o seu talento literário crescia vertiginosamente. Tornou-se um influente crítico de arte, destacando-se nas mostras anuais de pintura e de escultura, conhecidas como “Salão”. A partir do Salão de 1845, a sua crítica de arte avançou os costumes da época, definindo o princípio que iria seguir vários artistas de então.
Em 1847, lançou “Fanfarlo”, único romance que escreveu, constituindo uma obra autobiográfica. No ano seguinte, em 1848, envolver-se-ia na revolta que assolou a França, ajudando na publicação de alguns jornais de protestos radicais. Não teve grande atuação no levante, saindo sem que se prejudicasse.
A partir de 1852, Baudelaire passou a traduzir para o francês os textos do escritor norte-americano Edgar Alan Poe, de quem era um acirrado admirador. Concluiria a tradução em 1865.
O momento mais importante e polêmico da vida e da obra de Baudelaire, dar-se-ia em 1857, quando da publicação da primeira edição de “As Flores do Mal”. Considerada a obra-prima de Baudelaire, “As Flores do Mal” trazia um volume com cem poemas. Numa linguagem inovadora, que oscilava entre o sublime e o grotesco, numa imposição lírica à realidade fria da vida. Ao abordar temas controversos para a época, como o lesbianismo e o satanismo, o livro escandalizou os leitores e os críticos. A edição foi publicada por um velho amigo do poeta, Poulet-Malassis. Menos de um mês após ser posto à venda, o livro sofreu uma mordaz crítica do jornal “Le Figaro”, com efeito devastador na carreira de Baudelaire, sendo estigmatizado como poeta maldito. Baudelaire e o seu editor, Poulet-Malassis, foram acusados de obscenos, de atentarem à moral e aos bons costumes, sendo multados em quinhentos francos, sendo trezentos pagos pelo poeta e duzentos pelo editor do livro. Seis poemas foram considerados demasiadamente imorais, sendo-lhes proibida a publicação. Baudelaire escreveria seis novos poemas para substituí-los. Em 1861, quando do lançamento da segunda edição, acrescentaria outros trinta e cinco poemas. A edição completa, trazendo os poemas proibidos, só seria publicada a partir de 1911, muitos anos após a morte do autor.
Por muito tempo Baudelaire freqüentou o famoso “Club des Hashishins”, formado por um grupo de fumantes de haxixe que se reuniam no Hotel Pimodan, onde o poeta viveu por um bom tempo. A experiência com as drogas resultaria no livro “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”, publicado em 1860, trazendo uma confissão pessoal e especulação sobre plantas alucinógenas, que teve inspiração parcial na obra do escritor inglês Thomas de Quincey, “Confissões de Comedor de Ópio”.
Baudelaire ainda tentou candidatar-se à Academia Francesa de Letras, na esperança de agradar à mãe, elevar a sua carreira de escritor e perder o estigma de poeta maldito. Mas teve a sua pretensão desencorajada pelos amigos.

Vítima e Carrasco de Si Mesmo

A dilapidação dos seus bens na boemia parisiense, fez com que Baudelaire mergulhasse a vida em dívidas, resignando-se ao controle rígido das medidas judiciais tomadas pela família. Viveu o resto da vida atolado em constantes crises financeiras. Quando o amigo e editor, Poulet-Malassis, viu-se impossibilitado de pagar as dívidas, nada pôde fazer para evitar que ele fosse preso.
As dificuldades financeiras fizeram com que voltasse a viver com a mãe, em 1859, limitando-lhe cada vez mais a essência de liberdade do caráter. Paralelamente, a saúde passou a definhar. A partir de 1862, passou a queixar-se constantemente de dores de cabeça, vertigens, náuseas e pesadelos. Os efeitos colaterais da sífilis adquirida quando jovem, devastavam-lhe a saúde, impondo-lhe sintomas que lhe traziam a sensação de estar a enlouquecer.
Para tentar amenizar a situação financeira, deixou a França, em 1863, rumando para Bruxelas, na Bélgica, na tentativa de conseguir um editor para publicar os seus livros. Na capital belga piorou ainda mais a saúde. Desde então, viveu obscurecido por inúmeras doenças de origem nervosa. Em 1965 sofreu um ataque de apoplexia, que se tornaria constante, levando-o a afasia e paralisia parcial. Em 1867, internou-se em uma casa de repouso por dois meses, retornando a Paris em 2 de julho. No dia 31 de agosto, esgotado monetariamente e fisicamente, Charles Baudelaire foi vítima de uma paralisia geral, morrendo assim como nascera, nos braços da mãe. Tinha 46 anos.
Talvez o poema que mais descreva o caráter insólito e de radical contestação existencial de Charles Baudelaire seja “Heautontimoroumenos”, título inspirado em “Heauton Timoroumenos”, peça escrita no século IV a.C., pelo poeta ateniense Menandro, desaparecida ao longo dos tempos. Terêncio, dramaturgo romano, escreveu a versão em 163 a.C., tendo esta sobrevivido. Literalmente, quer dizer “o carrasco de si mesmo”, ou o que pune ou devora a si mesmo. Uma constante na obra de Baudelaire.

L’Héautontimorouménos (original)

À J.G.F.

Je te frapperai sans colère
Et sans haine, comme um boucher,
Comme Moïse le rocher
Et je ferai de ta paipière,

Pour abreuver mon Saharah
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon désir gonflé d’espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu’ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord

Elle est dans ma voix, la criarde!
C’est tout mon sang ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
– Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés
Et qui ne peuvent plus sourire!

Heautontimoroumenos (tradução)

À J.G.F.

Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!

Tradução: Ivan Junqueira

Cronologia

1821 – Nasce, em 9 de abril, em Paris, Charles-Pierre Baudelaire.
1827 – Morre, em fevereiro, Joseph-François Baudelaire, pai de Charles Baudelaire.
1828 – Casamento da mãe, Caroline Archimbaut-Dufays, com o militar Jacques Aupick, em novembro.
1832 – Transferência para Lyon do coronel Jacques Aupick. Baudelaire e a mãe mudam-se para aquela cidade.
1833 – Baudelaire ingressa como interno no Collège Royal de Lyon.
1836 – Jacques Aupick é nomeado para o Estado Maior do Exército em Paris, mudando-se com a família para a capital francesa.
1838 – Viaja com a mãe e o padrasto para os Pirineus. Quando retorna, escreve o poema “Incompatibilité”.
1839 – Em Paris, Baudelaire conclui o liceu. Jacques Aupick é promovido a general da Brigada.
1840 – Passa a viver na pensão Lévêque Bailly, onde trava amizade com os jovens poetas Enerts Prarond e Gustave Le Vavasseur.
1841 – Baudelaire é embarcado em um navio pelo padrasto, para Calcutá, na Índia. O jovem abandona o navio na Ilha da Reunião.
1842 – Retorna à França. Inicia um romance com a jovem atriz mulata Jeanne Duval. Recebe 75 mil francos de herança deixada pelo pai. Vai viver para a Ilha de Saint-Louis, em Paris.
1843 – Publica numa coletânea literária intitulada “Vers”. Muda-se para o Hotel Pimodan.
1847 – Conhece a atriz Marie Daubrun, futura amante.
1852 – Conhece Apollonie Sabatier, futura paixão. Publica o primeiro ensaio sobre o escritor norte-americano Edgar Allan Poe.
1857 – Publicado a primeira edição de “As Flores do Mal”. O livro é classificado como amoral, obrigando Baudelaire e o seu editor a pagar multas. Seis poemas são proibidos.
1859 – Passa a viver com a mãe em Paris.
1860 – Morre Marie Daubrun, com quem o poeta vivera um romance desde 1855. Publica “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”.
1861 – Publicada a segunda edição de “As Flores do Mal”, com trinta e cinco novos poemas. Candidata-se à Academia Francesa de Letras.
1862 – Sua saúde começa a definhar, em decorrência da sífilis que contraíra quando mais jovem.
1863 – Parte para Bruxelas, em busca de um editor que publique as suas obras.
1865 – Sofre um ataque de apoplexia.
1867 – Morre de paralisia geral, em 31 de agosto.

OBRAS:

1845 – Salon de 1845 (Salão de 1845)
1846 – Salon de 1846 (Salão de 1846)
1847 – La Fanfarlo (Fanfarlo)
1857 – Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal)
1860 – Les Paradis Artificiels (Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe)
1861 – Réflexions sur Quelques-Uns de Mes Contemporains
1863 – Le Peintre de la Vie Moderne
1868 – Curiosités Esthétiques (Curiosidades Estéticas)
1868 – L’Art Romantique (A Arte Romântica)
1869 – Le Spleen de Paris (O Spleen de Paris)
1869 – Petits Poèmes en Prose (Pequenos Poemas em Prosa)
1887 – Oeuvres Posthumes et Correspondance Générale
1897 – Fusées
1897 – Mon Coeur Mis à Un (Meu Coração Desnudo)
1922 – Oeuvres Completes (19 volumes concluída publicação em 1953)
1992 – Cristique D’Art; Critique Musicale


DYLAN THOMAS – O HOMEM COMO METÁFORA

março 30, 2010

Considerado um dos maiores poetas do século XX, Dylan Thomas retratou em sua obra a essência humana, a existência em sua mais entranhada manifestação. Poeta de obra isolada, quase solitária no tempo em que foi escrita, com versos que fugiam ao estilo dos seus contemporâneos, sem a preocupação intelectual ou a vertente social, Dylan Thomas não se atrelou aos movimentos literários do século em que viveu.
Como um bardo galês e poeta de sensibilidade extrema, soprou as suas palavras, de intensa sonoridade, através das colinas, das brisas, das árvores, da noite, do âmago do homem, romantizando a própria existência.
Freqüentemente encontramos em sua obra palavras enigmáticas, que nos conduz a um poeta apocalíptico, que mesmo ao esbarrar nas sombras da vida, faz com um profundo lirismo e densa emoção, tornando o homem a sua metáfora, e a existência o princípio e fim da procura de um eu. Assim como o homem, a mensagem é contraditória, mas indelével.
Dylan Thomas escreveu a maior parte da sua obra no auge da juventude. Homem de voz grave, que arrebatava as platéias quando declamava os seus poemas em teatros e auditórios universitários, teve uma existência marcada por amores furtivos e uma única musa, a esposa Caitlin Macnamara, com quem dividiu o caminho até uma morte precoce, aos 39 anos.
Boêmio inveterado, teve a biografia assinalada por suas bebedeiras homéricas. Em vida, alcançou grande popularidade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, tornando-se um ídolo que transpôs os costumes, influenciando os poetas da beat generation. Cultuado por uma geração em ebulição, teve no cantor e compositor norte-americano Robert Allen Zimmerman, um dos maiores seguidores, que, em sua homenagem, adotou o nome de Bob Dylan.
Romântico, lírico, contraditório, Dylan Thomas deixou um legado poético que traduz a alma humana no seu ato de existir. Ler a sua poesia e descobrir um mundo que emociona e empolga a sensibilidade retraída em todos nós.

Os Primeiros Anos do Poeta

Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, País de Gales, em 9 de novembro de 1914, quando explodia a Primeira Guerra Mundial. Seu pai, David John Thomas, era professor de inglês em Swansea. DJ Thomas costumava recitar William Shakespeare para o pequeno poeta, antes mesmo de ele aprender a ler. Apesar da família falar fluentemente o galês, Dylan e a irmã, Nancy Thomas Marles, jamais aprenderam a língua pátria. A obra do poeta é toda escrita em inglês.
Na escola, o estudante Dylan Thomas destacava-se em literatura e língua inglesa, matérias que abraçava com afinco, enquanto que ignorava as restantes, o que o fazia um péssimo aluno. Foi no tempo que freqüentava a escola em Swansea, aos dezesseis anos, que começou a escrever os seus primeiros poemas, iniciando os “Cadernos” de poesia, onde registraria a sua obra.
Aos dezessete anos, Dylan Thomas deixou a escola, indo trabalhar como repórter no “South Wales Daily Post”. No ano seguinte, juntar-se-ia a irmã Nancy Thomas, então atriz, à companhia de teatro de Swansea. Contando com dezoito anos, ele escreveria na época, a maior parte da sua obra poética.
Em 1933 , seria publicado o primeiro poema do autor fora do País de Gales, “E a Morte Perderá o Seu Domínio”, no “New English Weekly”. A seguir, visitou Londres pela primeira. No ano seguinte, ganharia o prêmio literário “Poet’s Corner”, e publicaria, em dezembro, o seu primeiro livro “18 Poemas”, coleção dos seus “Cadernos” de poesia, escritos quando ainda adolescente.
Aos vinte anos, um grande poeta era revelado para os leitores da Grã-Bretanha. A beleza da sua poesia alcançaria, aos poucos, admiradores assíduos no mundo inteiro.

E a Morte Perderá o Seu Domínio (tradução)

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
Com o homem no vento e na lua do poente;
Quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
Hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
Mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
Mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Ainda que, na roda da tortura, comecem
Os tendões a ceder, jamais se partirão;
Entre as suas mãos será destruída a fé
E, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
Embora sejam divididos eles manterão a sua unidade,
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
Onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
Erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
Ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
Como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
É no sol que irrompem até que o sol se extinga,
E a morte perderá o seu domínio.

Tradução: Fernando Guimarães

And Death Shall Have No Dominion (original)

And death shall have no dominion.
Dead mean naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to whell, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift is head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down;
And death shall have no dominion.

Dylan Thomas e Caitlin Macnamara

Na segunda metade da década de 1930, Dylan Thomas estabelecer-se-ia em Londres, onde conheceria Caitlin Macnamara, com quem iniciaria um tórrido romance. O encontro dos dois aconteceu em 1936, em um pub londrino. Conta-se que tão logo se conheceram, passaram alguns dias juntos no Torre Eiffel Hotel, sendo a conta paga por Augustus John, amante da jovem.
O triângulo estabelecido entre Caitlin, Dylan e John Augustus, resultaria em um embate corporal entre os dois apaixonados, em que o poeta sairia perdedor. Após o episódio da luta, Caitlin decidiu-se por Dylan.
Em 11 de julho de 1937, Dylan Thomas e Caitlin Macnamara casaram-se, contra a vontade dos pais do poeta. O amigo Wyn Henderson emprestou três libras para a licença de casamento, e cedeu a sua casa de hóspedes para o jovem casal.
Apesar das turbulências que sofreu com as aventuras amorosas de Dylan Thomas, Caitlin permaneceu ao lado do marido até a sua morte, dando-lhe os filhos e herdeiros. Crises conjugais constantes levaram à separação do casal, seguida de uma reconciliação. Mesmo volúvel em pequenas paixões, o poeta foi homem de um só casamento, fato inédito à maioria dos seus contemporâneos.

A Mão Ao Assinar Este Papel (tradução)

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
Cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
Duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
Estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído,
E as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
Que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
E cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
Maior se torna a mão que estende o seu domínio
Sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
A ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
Há mãos que governam a piedade como outras o céu;
Mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Tradução: Fernando Guimarães

The Hand That Signed The Paper (original)

The hand that signed paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The might hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose’s quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

Cultuado nos Estados Unidos

Na década de cinqüenta, Thomas Dylan alcançou grande sucesso nos Estados Unidos. Em 20 de fevereiro de 1950, fez a sua primeira viagem àquele país, numa excursão organizada por John Malcolm Kauffmann. Em Nova York, atrairia para si a admiração dos leitores e jovens norte-americanos, que iam ao delírio com as leituras do poeta em seus auditórios.
O sucesso nos Estados Unidos fez com que a obra de Dylan Thomas fosse conhecida no mundo inteiro. Ele passaria a ser uma figura lendária no circulo intelectual estadunidense. Ganharia fama de grande boêmio e de beberrão inveterado. Uma vida mundana passou a caracterizar o universo em que transitava. Seus poemas existencialistas e voltados para o eu humano, de forma revestida de emoção profunda e lirismo latente, inspirou toda uma geração de poetas que ficaram conhecidos como a “Geração Beat”.
Cultuado nos Estados Unidos, Dylan Thomas, em suas perambulações noturnas e de embriaguez física e poética, tomou como amante a norte-americana Pearl Kazin, ocasionando uma crise em seu casamento com Caitlin Macnamara, que levaria o casal a uma breve separação.
No outono de 1951, Dylan Thomas escreveu um dos mais belos de todos os seus poemas, “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, feito para o pai, que se encontrava profundamente doente, vindo a falecer em dezembro de 1952.
Em outubro de 1953, Dylan Thomas partiu para Nova York, iniciando aquela que seria a última das suas excursões pelo mundo e pela vida. No dia 29 de outubro, faz a sua última apresentação em público. O alcoolismo tomara conta do seu organismo, levando-o à degradação física. No dia 5 de novembro, segundo alguns biógrafos do poeta, após ingerir dezoito copos de uísque, passaria mal no hotel Chelsea, em Nova York. No dia 9 de novembro de 1953, o poeta sucumbiria ao álcool, vindo a morrer em um hospital, longe da sua terra natal. Seu corpo seria levado pela esposa, Caitlin Macnamara, para Laugharme, onde foi sepultado em 25 de novembro. O bardo galês calava-se em corpo, eternizando-se através das palavras secas da sua obra lírica.

Não Entres Docilmente Nessa Noite Escura (tradução)

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Tradução: Fernando Guimarães

Do Not Go Gentle Into That Good Night (original)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sigth
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Cronologia

1914 – Nasce em Swansea, no País de Gales, em 27 de outubro, Dylan Marlais Thomas.
1925 – Entra para a Swansea Grammar Scholl.
1930 – Inicia, em abril, o primeiro dos “Notebooks”, onde escreveu os seus primeiros poemas.
1931 – Dylan Thomas deixa a Swansea Grammar Scholl. Torna-se repórter do “South Wales Daily Post”.
1932 – Ao lado da irmã, Nancy Thomas, junta-se a Swansea Little Theatre Company. Escreve, na época, dois terços da sua produção poética.
1933 – Publicado, em maio, no “New English Weekly”, o primeiro poema de Dylan fora de Gales. Em agosto, visita Londres.
1934 – Segunda visita a Londres. Em abril, ganha o prêmio literário “Poet’s Corner”. Publica, em dezembro, “18 Poems”.
1936 – Encontro de Dylan e Caitlin Macnamara, no pub Whetsheaf, em Londres. Publicado, em setembro, “Twenty-Five Poems”.
1937 – Casa-se em julho, contra a vontade dos pais, com Caitlin.
1939 – Nasce, em janeiro, Llewelyn Edouard Thomas, primeiro filho do poeta. Publicado, em agosto, “The Map of Love”.
1943 – Publicado, nos Estados Unidos, “New Poems”. Nasce, em março, Aeronwy Bryn Thomas, em Londres.
1946 – Publica “Deaths and Entrances”.
1949 – Visita, em março, Praga, como convidado da União dos Escritores da Tchecoslováquia. Nasce, em julho, Colm Garan Thomas Hart.
1950 – Parte, em fevereiro, para Nova York, na sua primeira excursão aos Estados Unidos. Retorna à Grã-Bretanha em junho.
1951 – Após uma crise conjugal, Dylan e Caitlin reconciliam-se.
1952 – Dylan e Caitlin partem, em janeiro, para os Estados Unidos. Publicado “Collected Poems”. Morre, em dezembro, em Laugharme, David John Thomas, pai de Dylan Thomas.
1953 – Em outubro, parte para a sua quarta e última turnê aos Estados Unidos. Faz sua última aparição pública, em 29 de outubro, em Nova York. No dia 5 de novembro, cai no Chelsea Hotel. Em 9 de novembro, morre, em Nova York, Dylan Thomas.

OBRAS:

Poesia

1934 – Eighteen Poems
1936 – Twenty-Five Poems
1939 – The Map of Love
1943 – New Poems
1946 – Deaths and Entrances
1952 – Collected Poems
1971 – Poems

Prosa

1934 – Notebooks
1940 – The Portrait of the Artists as a Young Dog
1953 – The Doctor and the Devils
1954 – Under Milkwood
1954 – A Child’s Christmas in Wales
1954 – Quite Early One Morning
1955 – Adventures in the Skin Trade, and Other Stories
1957 – Letters to Vernon Watkins
1964 – The Beach of Falesá
1969 – Collected Prose
1971 – Early Prose Writings

Teatro

1953 – The Doctor and the Devils and Other Scripts
1954 – Under Milk Wood


A NOITE, O CÉU, A LUA, AS ESTRELAS E OS POETAS

dezembro 31, 2009

Quando o silêncio cobre a cidade adormecida, faço uma visita a todas as noites do mundo. Não me perco em trevas, porque tenho as estrelas a iluminar os becos em que me perco. Se na desordem do dia não tive a mesma inspiração, é porque a intensidade do Sol queimou o frio que só a lua sabe apaziguar.
Noites estreladas, noites de lua minguante, noites de festas, de solidão ou de paixão profunda. Na noite de natal bebo o vinho da confraternização do renascer das tradições, na noite de reveillon brindo à esperança de quebrar os dogmas. Nas noites atéias, perco o meu corpo em leitos clandestinos ou assinalados pela poesia dos amantes.
Conta a história que homens pisaram na Lua, chegaram com as suas bandeiras e empáfias e nada viram, a não ser crateras inóspitas. Nada poderiam ver, porque a Lua não é dos astronautas, é dos poetas, que sem nunca tocar o seu solo, conhecem todos os seus segredos, são cúmplices dos seus mistérios.
A noite, a Lua, as estrelas, amigas das canções de amor; dos amantes que se entregam antes do Sol clarear as verdades. São as estrelas que iluminam o soldado em seu último suspiro, revelando-lhe o brilho quando tomba em campos inimigos, fazendo-o descobrir tardiamente que a guerra não lhe pertencia.
Não temo a noite, não me assusto com o seu silêncio perturbador, com a sua escuridão murmurante. Aqueço-me com o pulsar dos meus sentidos, com as palavras dos poetas que cantaram a Lua, as estrelas, o céu, o amor; com os abraços que me apertaram, com as pernas que entrelacei em um tango erótico, com o suor que me desenhou os pêlos em pinturas ilógicas; com os sons ilegíveis, quase indecentes de bocas que se perdem nos beijos.
Na noite de reflexão, de paixão ou de solidão, encontro-me com todos os poetas que deles roubei uma poesia para encantar, seduzir, ou simplesmente, retocar os meus atos amor.

Nesta Noite de Natal – Jeocaz Lee-Meddi

Nesta noite de Natal sem fim…
Quero mergulhar contigo nos pensamentos que trazem mais soluções do que tormentos;
Correr riscos mais próximos dos sentimentos;
Não ter tempo para as mágoas e para a fugacidade da juventude.

Nesta noite de Natal sem chuva…
Quero decifrar os códigos dos meus mais antigos mistérios;
Flutuar na magia de um desconhecido amanhecer sereno;
Aconchegar a suavidade de uma brisa a soprar outras esperanças.

Nesta noite de Natal sem sombras…
Quero contigo, apenas encontrar um momento de beleza;
Respirar sem medo as necessidades de existir;
Refletir no espelho as mais cristalinas e dúbias verdades.

Nesta noite de Natal itinerante…
Quero contigo recompor os rostos que nos esculpiu o tempo;
Ser mais uma essência humana do que uma personalidade vincada;
Traduzir o mundo em atos e motivos da construção do ser;
Sem ter que me perder na dissociação das mais tênues tradições;
Arriscar ser feliz, ainda que numa noite sem fim.

He Wishes for the Cloths of Heaven – W. B. Yeats

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Ele Deseja os Tecidos do Céu (tradução)

Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,
Lavrados com a prata e o ouro da luz,
Os tecidos azuis e foscos e de breu
Que têm a noite, a luz e a meia luz,

Estenderia esses tecidos a teus pés:
Mas eu, que sou pobre, apenas tenho sonhos;
São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;
Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.

Tradução de J. M. Magalhães e M. L. Telles

Abdicação – Fernando Pessoa


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.

Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Canto de Mim Mesmo – XXI – Walt Whitman

Sou o poeta do Corpo e o poeta da Alma,
As aventuras do Céu estão em mim e as penas do Inferno estão em mim,
As primeiras enxerto e reforço em mim mesmo, as últimas traduzo para uma nova língua.

Sou o poeta da mulher e do homem,
E digo que é tão grande ser mulher como ser homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.

Canto o canto do crescimento ou do orgulho,
Já baixamos bastante a cabeça, já imploramos,
Provo que a medida é apenas desenvolvimento.

Já excedeste o resto? És o Presidente?
É uma ninharia, eles excederão isso e muito mais.

Eu sou o que caminha com a crescente e terna noite,
Convoco a terra e o mar meio abraçado pela noite.

Aperta-me, noite, no teu peito nu – aperta-me, noite magnética e abundante!
Noite dos ventos do sul – noite das grandes estrelas raras!
Noite silenciosa e sonolenta – louca e nua noite de verão!

Sorri, oh voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol posto – terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe – rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.

Pródiga, deste-me amor – e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.

Tradução de José Agostinho Baptista

Quatro Baladas Amarelas – Federico Garcia Lorca

No alto daquele monte
há uma arvorezinha verde.

Pastor que vais,
pastor que vens.

Olivais sonolentos
baixam à planície quente.

Pastor que vais,
pastor que vens.

Nem ovelhas brancas nem cachorro
nem cajado nem amor tens.

Pastor que vais.

Como uma sombra de ouro,
no trigal te dissolves.

Pastor que vens.

II

A terra estava
amarela.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.

Nem lua branca
nem estrelas luziam.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.


Vindimadora morena
corta o pranto da vinha.

Ourinho, ourinho,
pastorzinho.

III

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.

Os bois têm ritmo
de sinos antigos
e olhos de pássaros.
São para as manhãs
de névoa, e sem embargo
perfumam a laranja
do ar, no verão.
Velhos desde que nascem
não têm amo
e recordam as asas
de seus costados.
Os bois
sempre vão suspirando
pelos campos de Ruth
em busca do vau,
do eterno vau,
ébrios de luzeiros
a ruminar seus prantos.

Dois bois vermelhos
No campo de ouro.


IV

Sobre o céu
das margaridas ando.

Nesta tarde imagino
que sou santo.
Puseram-me a lua
nas mãos.
Eu a pus outra vez
no espaço
e o Senhor me premiou
com a rosa e o halo.

Sobre o céu
das margaridas ando.

E agora vou
por este campo
a livrar as meninas
dos galãs maus
e dar moedas de ouro
a todos os rapazes.

Sobre o céu
das margaridas ando.

Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotos: Paulo César (1 Um Mundo Melhor, 3 Especialmente Para Ti, 7 Uma Flor Por Cada Vida Contigo), Sandro Mattiolli (2 Jeocaz Lee-Meddi Mensagem de Natal), Luís Lobo Henriques (4 Liturgia), Alba Luna (5 Poema Para Joana), João Rodrigues Simões (6 Natureza Humana) e grENDel (8 Rebirth)


HOMERO – A GRANDE EPOPÉIA UNIVERSAL

novembro 29, 2009

Homero é o mais antigo poeta grego, sendo as suas obras, “Ilíada” e “Odisséia”, a maior descrição da mitologia e dos seus deuses. Considerado o poeta mais antigo do mundo ocidental, Homero tem a sua biografia repleta de dúvidas, fatos obscuros, inclusive o de que poderia nunca ter existido. Não se sabe data e local do seu nascimento, sendo o século VII a.C. a mais provável.
As epopéias “Ilíada” e “Odisséia”, que relatam com beleza singular e grandiosidade heróica a Guerra de Tróia, teriam surgido no século VII a.C., e são atribuídas a Homero, um rapsodo cego e nômade, que através das tradições orais passadas de geração em geração, teria construído tão importante obra literária.
A vida historicamente obscura de Homero, suscitou várias versões ao longo dos tempos. Várias cidades gregas, como Esmirna, Atenas, Rodes, Ítaca e Argos, reclamam para si o local de nascimento do poeta. Sem documentos que comprovem a sua existência, estudiosos da sua obra, na tentativa de esclarecerem as suas origens, compuseram a famosa “Questão Homérica”.
Na tradição mais constante, Homero era filho de Creteidas, jovem que fora seduzida e em seguida, teria engravidado. De vida voltada às artes, participava das festas dionisíacas, onde recitava poemas aos deuses. Na juventude, era chamado de Melesígenes. Após uma enfermidade que lhe tirou a visão, passou a ser chamado de Homero, que significava “aquele que não vê”. Cego, ele andava de cidade em cidade, recitando em pé, no meio da multidão, os seus poemas.
Se existiu ou não, os épicos “Ilíada” e “Odisséia” , são obras de rara beleza, que se tornaram conhecidas em todo o ocidente, influenciando a cerca de vinte e cinco séculos, os maiores escritores ocidentais, entre eles Virgílio, Luís de Camões e James Joyce. As obras contribuíram até mesmo para que se comprovasse fatores históricos, como a existência de Tróia. Baseados nos relatos de Homero, arqueólogos do século XIX encontraram várias Tróias em suas escavações. A universalidade das obras faz delas ilimitadas diante do tempo e do espaço. Sem registros de uma Grécia perdida nas suas crenças e tradições pré-arcaicas, a “Ilíada” e a “Odisséia” compilam a origem dos deuses olímpicos e de como eram cultuados pelos helenos. Pela riqueza dos detalhes descritos, tornam-se as maiores fontes existentes da mitologia grega, e, faz de Homero, o maior escritor da antiguidade, e um dos maiores do mundo.

A Grécia de Homero

Para que se perceba a vida existente ou não de Homero, é preciso que se tenha um pouco de noção da história da própria Grécia. Entre os séculos XV a.C. e X a.C., deu-se o que se chamou de período pré-homérico ou micênico. Foi quando os primeiros povos indo-europeus, chamados de aqueus, chegaram à Grécia, onde fundaram diversas cidades que atingiriam grande prosperidade. Entre elas Micenas, Tirinto e Pilo.
No encontro dos habitantes de Micenas com os da ilha de Creta, originou-se uma importante civilização cultural antiga, a creto-micênica. No decorrer dos séculos, outros povos chegaram às terras gregas, como os jônios e os cólios, sendo fundada a cidade de Atenas.
Quando da invasão dos dórios, que fundaram a cidade de Esparta, a civilização creto-micênica foi totalmente destruída, pondo fim ao período micênico. Nesse momento histórico, eclodiu a famosa Guerra de Tróia, que teria durado dez anos e culminado com a destruição da cidade pelos gregos. A Guerra de Tróia, tornou-se lendária, sendo oralmente contada pelas gerações gregas. Seria o tema principal das epopéias “Ilíada” e “Odisséia”.
Com o fim do período micênico, surgiria o chamado período homérico ou arcaico, entre os séculos IX-VI a.C. Seria marcado pelo início da colonização grega aos dois lados do Mar Egeu, Mediterrâneo e Mar Negro; dada a expansão do comércio marítimo; o desenvolvimento das cidades Estados; e, a adoção do alfabeto fenício, introduzindo a escrita na Grécia.
O ano de 850 a.C., é tido como a data mais provável do nascimento de Homero. Muitas são as versões sobre a vida do poeta, sendo questionada inclusive a sua existência, por falta de comprovação de documentos históricos. O historiador grego Heródoto (século V. a.C.), fixou a data do nascimento do poeta quatrocentos anos antes da sua, entre os séculos IX e VIII a.C. O local teria sido algum lugar da Jônia, antigas terras gregas na costa ocidental da Anatólia. Mas outras cidades gregas reivindicam para si o local do nascimento de Homero, entre elas Atenas, Quios, Esmirna, Ítaca, Rodes, Argos e Pilos.
Uma das versões da vida de Homero afirma que ele é natural de Quios ou Esmirna. Era um homem de origem humilde e plebéia, que viajou por todos os cantos da Grécia antiga, anotando nomes e costumes dos lugares, adquirindo grande sapiência sobre a cultura da sua gente. Por onde passava, recebia hospedagem, pela qual pagava recitando poemas. Em uma das suas viagens, quando retornava da Ítaca para Esmirna, foi acometido por uma doença nos olhos, que o teria levado à cegueira. Desde então, o nome Homero, “aquele que não vê”, teria sido dado a ele.
Várias são as versões da sua morte, a mais difundida é a de que teria ocorrido em uma das ilhas Cíclades. Segundo Heródoto, teria morrido em Íos, durante uma viagem para Atenas.

Hino Homérico a Ártemis – Homero

Eu canto Ártemis das flechas de
ouro, de marcha retumbante,
casta donzela, audaz caçadora,
irmã de Apolo do gládio de ouro,
que caminha pelas sombras
dos bosques e pelas rochas
imponentes, lançando no ardor
da caça setas que fazem gemer
os ares. Os cumes das altas
montanhas tremem e os bosques
ressoam com a voz das feras que
ela persegue. A terra e o mar
piscoso tremem quando, presente
em vinte lugares, a deusa se
lança, intrépida, nessa marcha
exterminadora. Quando está
saciada e o coração acalmado
consente em descansar, deixa o
arco tenso e visita seu irmão
Apolo na rica morada de seu
santuário em Delfos. Ali preside
o coro das Musas e das Graças,
deixando de lado flechas e arco.
Cobrindo com vestes de grande
beleza sua carne imortal,
coloca-se à frente do coro e
conduz a dança, enquanto essas
deusas de belas vozes cantam,
louvando suavemente Leto e sua
história , como ela deu à luz
dois filhos, os primeiros deuses
tanto no conselho como na
ação!

A Questão Homérica

A inexistência de comprovação histórica de Homero, as várias versões sobre a sua vida, as lendas ao seu redor, suscitaram grandes dúvidas, chamadas de “Questões Homéricas”, que apesar de exaustivamente estudadas e debatidas, até hoje não foram respondidas.
Muitos defendem a versão de que Homero não seria o autor da “Ilíada” e da “Odisséia”, mas um compilador, que reuniu vários poemas anônimos, pequenas canções populares, transmitidas oralmente, e que ele transformou em uma unidade literária.
Outra corrente da “Questão Homérica”, sustenta a versão de que Homero seja um nome coletivo, e que as suas epopéias teriam sido escritas por dois ou mais poetas. Um deles teria criado o núcleo primordial dos poemas, tendo sido desenvolvidos por outro (s), o que explicaria as variações de estilos entre a “Ilíada” e a “Odisséia”, acusada por muitos estudiosos.
Há a corrente que admite uma homogeneidade nas obras, pela sua temática, estilo épico, descrição dos deuses e dos costumes helênicos, e que teriam sido escritas em períodos diferentes, a “Ilíada” na juventude plena de Homero, e a “Odisséia”, já no crepúsculo da sua velhice, o que explicaria uma evolução na escrita de uma obra para a outra.
A corrente que nega a existência de Homero questiona como uma só pessoa poderia ter escrito as obras, visto que na época atribuída ao nascimento e vida do poeta, não haveria escrita na Grécia. Estudos arqueológicos apontam para o ano de 750 a.C. o fim das trevas e a adoção da escrita pelos helenos, cem anos depois do nascimento de Homero. Os documentos literários mais antigos encontrados na Grécia datam do século IV a.C., significando que antes, os poemas de Homero só eram conhecidos oralmente, sendo recitados nas grandes festas e manifestações do povo grego. Sem a escrita, dificilmente as epopéias homéricas poderiam ter sido elaborados no período que se atribuí à existência do poeta.

Prece a Ares – Homero

Ares audacioso, Ares sob o qual se dobra teu
carro, Ares do capacete de ouro, Ares do coração
indomável, Ares do escudo, Ares salvador das
cidades, Ares encouraçado de bronze, Ares da
mão poderosa, Ares infatigável, Ares da forte lança,
Ares muralha do Olimpo, Ares pai da vitória,
Ares auxiliar de Têmis, Ares que subjugas os
rebeldes e comandas os justos na paz, ó príncipe
do valor guerreiro, cujo globo refulgente gira
entre os sete astros que cumprem sua trajetória
sobre nossas cabeças, cuja órbita, percorrida por
teus cavalos de fogo, ocupa o terceiro lugar no céu,
escuta, ó socorro dos mortais de quem a juventude
obtém a bravura como dom, lá do alto ilumina com
pacífico fulgor o curso de minha existência. Que um
favor digno de Ares, preservando-me da covardia,
não deixe também de reprimir em minha alma
a impetuosidade que a faz perder-se e de conter
a paixão que me leva às contendas cruéis
das batalhas. Dá-me, bem-aventurado olímpico,
ao mesmo tempo que a coragem, a graça de viver
em paz na segurança das leis, e de escapar
aos assaltos dos maus e aos estímulos da violência.

As Obras de Homero

Mesmo diante de tantas questões, contradições e dúvidas históricas sobre Homero, as obras atribuídas a ele tornaram-se referência na literatura ocidental, sendo lidas, apreciadas e estudadas em todo o mundo; influenciando por mais de dois mil e quinhentos anos, vários autores e poetas.
A “Ilíada” relata o cerco de Tróia pelos gregos, a extensão da guerra, culminando com a destruição completa da cidade e a vitória helênica. A epopéia é centrada em Aquiles, o maior guerreiro da saga, sua cólera contra Agamenão, comandante do exército grego e a recusa em continuar a lutar; a dor do herói diante da morte do amigo Pátroclo, que sucumbiu sob a espada de Heitor, o mais valente dos heróis troianos; sua fúria e vingança contra o príncipe de Tróia, resultando em um sangrento combate mortal entre os dois. O ápice dá-se quando Aquiles exibe, como um troféu, o corpo de Heitor para os troianos. Príamo, pai do herói malogrado e rei de Tróia, vai até Aquiles e implora que lhe devolva o corpo do filho, para que possa prestar-lhe as honras funerárias, libertando a sua alma. No meio da guerra, o ódio dos homens confunde-se com os dos deuses. A guerra não é gerada somente pelos gregos, mas por seus deuses, criando uma divisão em todo o Olimpo.
A “Odisséia” exalta o herói grego Odisseu (Ulisses). Na Guerra de Tróia, ele representou não a força, mas o lado logístico e intelectual que sustentava a fúria dos guerreiros em combate. Foi de Odisseu a idéia e execução do plano do cavalo de pau, que presenteado aos troianos, abrigava no ventre oco de madeira, guerreiros gregos, que no fim da noite, quando todos dormiam, invadiram a cidade inimiga, abrindo as portas das suas muralhas, proporcionando o ataque final, destruindo Tróia e dando a vitória aos gregos. Na “Odisséia”, a astúcia do herói atrai para si a ira dos deuses que se puseram do lado dos troianos. Odisseu sonha em voltar para a sua terra, a Ítaca, encontrar a mulher amada, a bela Penélope, e o filho Telêmaco. No retorno, o seu navio será jogado por ventos furiosos enviados pelos deuses, no meio de mares desconhecidos, fazendo com que erre perdido por vinte anos. Mais complexa do que a “Ilíada”, a “Odisséia” reflete a inteligência grega diante da sua expansão. A dimensão das personagens ultrapassa a dos deuses, fazendo-a humana, distante do heroísmo latente da primeira obra.
Além da “Ilíada” e da “Odisséia”, outras obras são atribuídas ao poeta grego: os “Hinos Homéricos”, uma coleção de 34 hinos; o poema “Margites”; e, a paródia épica “Batracomaquia”. Novamente as contradições sobre Homero, fazem com que algumas correntes duvidem de que as obras foram escritas por ele.
As obras de Homero trazem a tona o período mais remoto da civilização helênica. A Guerra de Tróia demarca o fim do período micênico. Os poemas homéricos tornaram-se parte da história antiga grega, sendo popularizados durante toda a antiguidade. Platão (428?427? – 348?347? a.C.) classificou Homero como “o educador da Grécia”. Sua poesia, na falta de um livro sagrado, serviu para os gregos antigos cultivarem a sua religião e conhecessem os seus deuses. Universalmente, a sua obra exibe o mais antigo dos poetas ocidentais, e a essência das raízes literárias. Homero é o pai da poesia. As contradições sobre a sua existência contribuem para a mítica que se delineou em torno da obra que lhe foi atribuída. Suas epopéias são as mais belas de toda a antiguidade. E as mais definitivas.

Hino às Musas e a Apolo – Homero


Apolo, Zeus, pois é das
Musas que procedem, aqui,
na terra, os cantos e os
concertos da lira, assim
como de Zeus procedem
os reis. Bem-aventurado
aquele que ama as Musas:
de sua boca esparge-se,
pela voz, a doçura.
Salve, filhos de Zeus,
honrai o meu canto. Entre
os outros hinos,
dedicarei um a vós.


PAUL GÉRALDY – POESIA ÍNTIMA E EMOTIVA

outubro 5, 2009

Paul Géraldy, pseudônimo de Paul Lefèvre, nasceu em 12 de maio de 1885, em Paris. Foi um dos grandes poetas da França do século XX. Sua obra passou a ser cultuada por gerações de jovens apaixonados, apesar de ser pouco exaltada e reconhecida pelos grandes críticos. Suas palavras seduzem pelo amor psicológico, a paixão erótica e latente, diluída em um suave humor íntimo e emotivo.
Poeta e dramaturgo modernista, Paul Géraldy revela um universo expansivo sobre as sutilezas psicológicas das relações amorosas, familiares e existencialistas, refletidas em um momento sublime da sociedade francesa, enlaçado nos períodos de paz entre as duas grandes guerras mundiais.
No teatro, Paul Géraldy lançou a sua visão pessoal sobre a família e o matrimônio, descrevendo a burguesia intelectual francesa da primeira metade do século XX. Fazem parte da sua dramaturgia as peças “Aimer” (1921), “Robert et Marianne” (1925) e “Duo, d’Après Colette” (1938). Sua obra é repleta dos sentimentos vividos no cotidiano, sobressaindo sempre o amor passional, os sentimentos aflorados que assustam os homens e fascinam as mulheres. O seu estilo atraiu um grande público feminino, que lhe possibilitou o sucesso.
Mas a maior consagração de Paul Géraldy veio com a poesia; através do livro “Eu e Você” (Toi et Moi), publicado em 1912, que se tornou um clássico e uma ode à paixão. De linguagem delicada e sentimentos sempre presentes no homem moderno, a obra traz uma conversa íntima entre um casal apaixonado, revelando todos os segredos do coração, todas as inquietudes dos relacionamentos diante do cotidiano. Versos livres que descrevem de forma fascinante, erótica, sensual e corajosa o amor entre duas pessoas.
Todos os poemas deste artigo foram extraídos de “Eu e Você”, que no Brasil teve a tradução de Guilherme de Almeida. Paul Géraldy morreu com quase 98 anos, em 10 de março de 1983. A sua poesia do amor elegante, sensual, inquietante e delicado, é sempre uma adorável descoberta, que arrebata os corações apaixonados através das décadas.

Expansões

Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse? …
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
Para que você sinta? …
O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito…
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer cousa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
Essas palavras e que eu diga,
E você saiba… Mas, o que?
Se eu soubesse falar
Como um poeta que sente,
Diria eu mais do que
Quando tomo entre as mãos
Essa cabeça linda
E cem mil vezes, loucamente,
Digo e repito
E torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!

Expansions (original)

Ah! Je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou…
Je dis des moi, toujours lês mêmes…
Mais je vous aime! Je vous aime! …
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
Pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen…
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise…
Il faut que tu saches… Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus – résponds-moi –
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!…

Sorte

Podíamos jamais nos conhecer talvez!
Meu amor, imagine, pois,
Tudo isso que a sorte nos fez
Para estarmos aqui, para sermos nós dois!

Nós fomos feitos um para o outro – diz você.
Mas pense no que foi preciso se interpor
de coincidências, para que
pudesse haver apenas isto: o nosso amor!

Que antes de unir nosso destino vagabundo,
vivemos longe um do outro, e sós, separados,
e que é tão longo o tempo, e que é tão grande o mundo,
e a gente era capaz de não se ter encontrado.

Você nunca pensou, meu romance bonito,
e que este amor correu de risco e indecisões
quando, ao encontro um do outro, em torno do infinito,
gravitaram à toa os nossos corações?

Você não sabe então que era incerta essa estrada
que conduziu nossos ideais,
e que um capricho, um quase nada
podia não ter nos juntado nunca mais?

Nunca lhe confessei esta coisa esquisita:
quando visitei você pela primeira vez,
a princípio nem vi que você era bonita…
não reparei quase em você.

Sua amiga me atraiu muito mais, com seu sorriso.
Foi só muito depois que cruzamos o olhar…
Nós podíamos não ter lido nada disso:
e você, não compreender, e eu, nem sequer ousar.

Que seria de nós se, aquela noite, alguém
viesse buscar você antes?
Ou se, entre luzes, você não corasse também
quando eu quis ajudar a pôr o seu manteau?…

Pois foram essas razões, lembra-se ainda?
Um atraso, um impedimento,
e nada existiria deste encantamento,
desta metamorfose linda!

Nunca aconteceria o amor que aconteceu!
Você não estaria agora em minha vida!…

Meu coração, meu coração, minha querida,
penso naquela doença
que você quase morreu…

Chance (original)

Et pourtant, nous pouvions ne jamais nous connaitre!
Mon amour, imaginez-vous
tout ce que le Sort dut permettre
pour qu’on soit là, qu’on s’aime, et pour que ce soit nous?

Tu dis: “Nous étions nés l’un pour l’autre.” Mais pense
à ce qu’il dut falloir de chances, de concours,
de causes, de coïncidences,
pour réaliser ça, simplement, notre amour!

Songe qu’avant d’unir nos têtes vagabondes,
nous avons vécu seuls, separes, égarés,
et que c’est long, le temps, et que c’est grand, le monde,
et que nous aurions pu ne pas nous rencontrer.

As-tu jamais pense, ma jolie aventure,
aux dangers que courut notre pauvre bonheur
quand l’um vers l’autre, au fond de l’infinie nature,
mystérieusement gravitaient nos deux coeurs?

Sais-tu que cette course était bien incertaine
qui vers un soir nous conduisait,
et qu’un caprice, une migraine,
pouvaient nous écarter l’un de l’autre à jamais?

Je ne t’ai jamais dit cette chose inouïe:
lorsque je t’aperçus pour la première fois,
je ne vis pás d’abord que tu étais jolie.
Je pris à peine garde à toi.

Ton amie m’occupait bien plus, avec son rire.
C’est tard, très tard, que nos regards se sont croisés.
Songe, nous aurions pu ne pas savoir y lire,
Et toi ne pas comprendre, et moi ne pas oser.

Où serions-nous oe soir si, ce soir-là, ta mère
t’avait reprise um peu plus tôt?
Et si tu n’avais pas rougi, sous les lumières,
quand voulus t’aider à mettre ton manteau?

Car souviens-toi, ce furent là toutes les causes.
Un retard, um empêchement,
et rien n’aurait été du cher enivrement,
de l’exquise métamorphose!

Notre amour aurait pu ne jamais advenir!
Tu pourrais aujourd hui n’être pas dans ma vie!…

Mon petit coeur, mon coeur, ma petite chérie,
je pense à cette maladie
dont vous avez failli mourir…

Dúvida

Você diz: “Eu penso apenas em você
todo o dia.”
Mas pensa em mim muito menos
que no amor.

E diz: “Meus olhos magoados
que vivem só de desejo
passam horas acordados
quando me deito.”
Mas sua alma é mais satisfeita
do que louca.
Você pensa mais no beijo
que na boca.

Você não se inquieta
Tem certeza de que este bem
é somente seu e meu.
Mas o amor é uma necessidade.
Você gostaria mesmo menos de mim, muito menos
se eu não fosse eu?

Doute (original)

Tu m’as dit: “Je pense à toi
tout lê jour.”
Mais tu penses moins à moi
que a l’amour.

Tu m’as dit: “Mes yeux mouillés
qui ne peuvent t’oublier
restent longtemps éveillés
lorsque je me couche.”
Mais ton coeur est moins grisé
qu’amusé.
Tu penses plus au baiser
qu’à la bouche.

Tu ne te tourmentes point.
Tu sais, sans chercher plus loin,
que nos joies sont bien les nôtres…
Mais l’amour est un besoin.
M’aimerais-tu beaucoup moins
si j’étais un autre?

Confissão

Eu bem sei que, ciumento, exigente, impulsivo, irritado,
infeliz por cousas tão banais,
eu vivo a provocar discussões sem motivo…
Mas eu amo tão mal porque eu amo demais.

E atormento você, e persigo…
Você havia de ser melhor amada e mais feliz também,
se não fosse você a minha única alegria,
e se este amor não fosse o meu único bem.

Aveu (original)

Je sais bien qu’irritable, exigeant et morose,
insatisfait, jaloux, malheureux pour un mot,
je te cherche souvent des querelles sans cause
Si je t’aime si mal, c’est que je t’aime trop.

Je te poursuis. Je te tourmente. Je te gronde…
Tu serais plus heureuse, et mieux aimée aussi,
si tu n’étais pour moi tout ce qui compte au monde,
et si ce pauvre amour n’était mon seul souci.

Meditação

A gente começa a amar,
por simples curiosidade,
por ter lido num olhar
certa possibilidade.

E como, no fundo, a gente
se quer muito bem,
ama quem ama somente
pelo gosto igual que tem.

Pelo amor de amar começa
a repartir dor por dor.
E se habitua depressa,
a trocar frases de amor.

E, sem pensar, vai falando,
de novo as que já falou.
E então continua amando
Só porque já começou.

Méditation (original)

On aime d’abord par hasard,
par jeu, par curiosité,
pour avoir dans um regard
lu des possibilites.

Et puis comme au fond soi-même
on s’aime beaucoup,
se quelqu’un vous aime, on l’aime
par conformité de goût.

On se rend grâce, on s’invite
à partager ses moindres maux.
On prend l’habitude, vite,
d’échanger de petits mots.

Quand on a longtemps dit les mêmes,
on les redit sans y penser.
Et alors, mon Dieu, l’on aime
Parce qu’on a commencé.

Derrota

Mas isso não é justo! Eu sou muito sensível…
Qualquer maldade que você me faça e que eu tente
retribuir, não consigo, é impossível!
Eu sofro mais do que você.

Você suporta bem os acintes sem fim,
os silêncios ruins e os olhares brutais…
Mas não seja cruel, tenha pena de mim!
Quando eu sofro, eu sofro demais…

… Mas, não! Não ouça! Eu confessei
ingênuo e fraco, uma cousa que eu não devia confessar…
Você sabe agora o meu fraco:
e vai talvez se aproveitar…

Défaite (original)

Ce n’est pas juste enfin! Moi je suis trop sensible.
Quand tu m’as fait du mal, je tente bien parfois
de te le rendre. Mais ça n’est jamais possible!
Je souffre toujours plus que toi.

Toi, tu sais supporter les longues bouderies,
les regards durs et lês silences obstines…
Ah! ne sois pas méchante avec moi, ma chérie!
J’ai trop de chagrin quand j’em ai…

… Mais je suis fou! N’écoute pas! Je te confesse
naïvement de dangereuses vérités…
Tu sais à présent ma faiblesse:
tu vas peut-être em profiter…

Sabedoria

Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.

Sagesse (original)

Ne soyons pas trop exigeants:
le Bonheur n’est pas accessible
à toutes les sortes de gens.
Il faudrait être moins sensible,
ou bien avoir beaucoup d’argent…
Ne demandons pas l’impossible.
Nous devons nous trouver contents
d’être les êtres que nous sommes:
des amoureux intermittents
qui sont fous l’un de l’autre en somme
de temps en temps.
C’est déja beaucoup d’être deux,
deux côte à cote sur la Terre,
qui peuvent souffrir entre eux
et vivre sans trop se taire.
Et si l’on est plus exigeant,
si l’on se sent en y songeant
l’âme encor trop célibataire,
c’est qu’on a mauvais caractère…
ou qu’on est trop intelligent.

Mea Culpa

Afinal, meu gesto doido,
meu erro, querida,
foi ter posto em você
todo o peso da minha vida.

Ao começar este amor
num coração tão diverso do meu
pensei poder pôr
todo o meu universo.

E é desse erro tão profundo
que vamos sofrendo então.
Não se pode pôr um mundo
sobre um coração.

O seu coração é sincero,
ardente comigo
Mas, só, será suficiente
para afastar-me dos parentes
e dos meus amigos?

Mea Culpa (original)

Au fond, vois-tu, mon erreur,
ma grande folie,
c’est d’avoir charge ton coeur
de tout le poids de ma vie.

Le jours où l’on s’est aimé,
j’ai cru qu’en ce coeur offert
j’allais pouvoir enfermer
tout mon univers.

C’est de cette erreur profonde
que maintenant nous souffrons.
On ne fait pas tenir le monde
derrière un front.

Ton coeur est tendre et sincère,
ardent et soumis.
Mais, tout seul, pouvait-il faire
que je me passe de ma mère
et de me amis?

Final

Pois bem, adeus. Nada esqueceu?… Tem tudo já?
Não temos nada mais a dizer face a face.
Pode ir… Mas, não! Espere um pouco!
Como está chovendo!… Espere que isso passe.

Agasalhe-se bem! Está frio lá fora.
Você devia pôr um “manteau” mais pesado.
Já tem tudo o que é seu? Nada me resta agora?
As suas cartas? O retrato?…

Já que a gente se vai separar, olhe-me ainda um instante…
Mas sem chorar: seria idiota.
Como é horrível agora a lembrança remota
Do que nós fomos numa vida antiga e linda!

Nossas vidas se confundiram totalmente…
E agora cada qual retoma o seu caminho!
Nós vamos partir, cada qual mais sozinho,
Recomeçar, vagar por aí… Certamente,

Sofreremos também… Mas há de vir, depois
O esquecimento, a única cousa que perdoa.
E há de haver eu haver você; sermos dois;
Sermos isto: uma pessoa e outra pessoa.

Veja! Você já vai entrar no meu passado!
Havemos de nos ver na rua, casualmente…
Eu hei de olhar e de ir, sem ter atravessado…
Você irá com vestidos novos, diferentes…

E viveremos nossas vidas paralelas…
E amigos contarão a você minha história…
E eu direi de você, que foi a minha glória,
A minha força e a minha fé: “Como vai ela?”

O nosso amor… era esta cousa sem valor!…
No entanto, que loucura a dos primeiros dias!
Lembra-se bem? Que apoteose, que magia!…
Se nos amávamos!… E era isto o nosso amor!

Mesmo nós, até nós então, quando dizemos “eu te amo!”,
O que é que vale o que estamos dizendo?…
É humilhante, meu Deus!… Somos todos os mesmos?
Iguais aos outros, nós?… Mas, como está chovendo!

Você não sai com um tempo assim… Fique comigo!
Fique! Vamos viver – não sei… – mais conformados…
Os nossos corações, embora bem mudados,
Se reforçam talvez às luzes do sonho antigo…

Vamos tentar. Ser bons, de novo. Que remédio!
Podem falar: a gente tem seus hábitos…
Então? Não vá! Fique! E retome ao meu lado o seu tédio,
Eu retomo ao seu lado a minha solidão.

Finale (original)

Alors, adieu. Tu n’oublies rien?… C’est bien. Va-t’em.
Nous n’avons plus rien à nous dire. Je te laisse.
Tu peux partir… Pourtant, attends encore, attends.
Il pleut… Attends que cela, cesse.

Couvre-toi bien surtout! Tu sais qu’il fait très froid
dehors. C’est um manteau d’hiver qu’il fallait mettre…
Je t’ai bien tout rendu? Je n’ai plus rien à toi?
Tu as pris ton portrait, tes lettres?…

Allons! Regarde-moi, puisqu’on va se quitter…
Mais prends garde! Ne pleurons pas! Ce serait bete.
Quel effort il faut faire, hein? dans nos pauvres têtes,
pour revoir les amants que nous avons été!

Nos deux viés s’étaient l’une à l’autre données toutes,
pour toujours… Et voici que nous les reprenons!
Et nous allons partir, chacun avec son nom,
recommencer, errer, vivre ailleurs… Oh! sans doute,

nous souffrirons… pendant quelque temps. Et puis, quoi!
l’oubli viendra, la seule chose qui pardonne.
Et il y aura toi, et il y aura moi,
at nous serons parmi les autres deux persones.

Ainsi, déjà, tu vas entrer dans mon passe!
Nous nous rencontrerons par hasard, dans lês rues.
Je te regarderai de loin, sans traverser.
Tu passeras avec des robes inconnues.

Et puis nous resterons sans nous voir de longs móis.
Et des amis te donneront de mes nouvelles.
Et je dirai de toi qui fus ma vie, de toi
qui fus ma force et ma douceur: “Comment va-t-elle?”

Notre grand coeur, c’était cette petite chose!
Étions-nous assez fous, pourtant, les premiers jours!
Tu te souviens, l’enchantement, l’apothéose?
S’aimait-on!… Et voilà: c’était ça, notre amour!

Ainsi nous, même nous, quand nous disons “je t’aime”,
voilá donc la valeur que cela a! Mon Dieu!
Vrai, c’est humiliant. On est donc tous les mêmes?
Nous sommes donc pareils aux autres?… Comme il pleut!

Tu ne peux pas partir par ce temps… Allons, reste!
Oui, reste, va! On tâchera de s’arranger.
On ne sait pas. Nos coeurs, quoiqu’ils aient bien changé,
se reprendront peut-être au charme des vieux gestes.

On fera son possible. On sera bon. Et puis,
on a beau dire, au fond, on a des habitudes…
Assieds-toi, va! Reprends près de moi ton ennui
Moi près de toi je reprendrai ma solitude.

OBRAS

Antologias Poéticas:

1908 – Les Petites Ames
1912 – Toi et Moi (Eu e Você)
1960 – Vous et Moi

Narrativas:

1916 – La Guerre, Madame!
1938 – Le Prélude
1951 – L’Homme et L’Amour

Teatro:

1917 – Les Noces d’Argent
1921 –Aimer
1922 – Les Grands Garçon
1925 – Robert et Marianne
1932 – Christine
1938 – Duo, d’Aprés Colette