RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX

novembro 16, 2010

Desde que foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1 de março de 1565, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tornou-se local de importância estratégica, por estar no meio do território brasileiro na época do seu desbravamento e expansão das fronteiras. Crescendo como proeminente centro portuário e econômico, foi elevada à capital do Brasil, em 1763, quando o polêmico ministro Marquês de Pombal, transferiu para ali a sede da colônia, anteriormente em Salvador. Desde então, a cidade não parou de avançar política e economicamente. Com a chegada da família real portuguesa, em 1808, passou a ser a cidade de onde o reino de Portugal e Brasil eram administrados. Com a independência do Brasil, em 1822, passou a ser a capital do Império.
Pela sua importância política ao longo da história, o Rio de Janeiro foi a cidade que mais teve registros antigos de imagens. Muito antes da técnica da fotografia chegar ao Brasil, a cidade maravilhosa foi retratada em litografias, pinturas e aquarelas. Valeram-se da sua paisagem de beleza natural singular, situada na margem ocidental da baía de Guanabara, entre montanhas e morros, os mais importantes artistas do século XIX, entre eles Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas.
Graças aos artistas geniais que nos legou um rico acervo de paisagens pitorescas do Rio de Janeiro, podemos contemplar um passado distante, o pulsar de uma cidade movida pela beleza natural e pela essência da sua gente. Através das imagens das litografias de Debret, Rugendas, P. Bertichem, Maria Graham e Planitz, percorrermos ruas, casas e palacetes do Rio de Janeiro do século XIX, numa agradável viagem no tempo e à história de uma cidade de rara beleza natural.

Largo do Rocio, de Debret

Para fugir ao cerco de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa migrou para o Brasil, aqui desembarcando em 1808. A cidade do Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa do reino de Portugal e Brasil, aumentando freneticamente a sua importância, o desenvolvimento social e econômico.
Após a queda de Napoleão, Portugal e França reconciliaram-se. Por solicitação de Dom João VI, em 1816, chegou ao Brasil, vinda da França, uma missão artística comandada por Joachim Lebreton. Entre os artistas estava Jean-Baptiste Debret.
Debret viveu quinze anos no país, atravessando o período final do Brasil colônia à formação e fim do Primeiro Império. Durante o tempo que aqui esteve, estabeleceu uma relação emotiva e pessoal com o Brasil, registrando em sua pintura e desenho, a paisagem, o cotidiano, os costumes de uma jovem e recém-nascida nação. Por motivos de saúde, voltou à França em 1831. Em 1834 começou a publicar “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, num dos maiores documentos de imagens do Brasil do século XIX.
Na litografia aqui apresentada, “Real Teatro de São João, no Largo do Rocio”, podemos ver a vida pulular no coração da capital do Império. Escravos de ganho circundam o pelourinho, no lado direito. Senhores e senhoras bem vestidos transitam, concentrando uma multidão ao meio do Largo do Rocio, onde se encontra o Real Teatro de São João. A partir de 1831, o local e o teatro seriam rebatizados respectivamente como Praça da Constituição e Teatro Constitucional Fluminense. No decorrer dos anos, teriam os nomes mudados outras vezes, chegando aos tempos atuais como Praça Tiradentes e Teatro João Caetano.

Corcovado, de Maria Graham

Lady Maria Dundas Graham Callcott, foi uma notável pintora, desenhista, ilustradora e escritora britânica, que ficou conhecida no Brasil com Maria Graham. Em 1823 acertou com o imperador Dom Pedro I ser a preceptora da sua filha, a jovem princesa Dona Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Permaneceria no Brasil até 1826, quando a princesa retornou para Portugal.
No Rio de Janeiro residiu entre os belos casarões da enseada do Botafogo, lugar que considerava uma das mais belas paisagens do mundo.
Na sua passagem pelo Brasil, deixou registros preciosos da época, publicados em Londres, em 1824, na obra “Journal of a Voyage to Brazil and Residence There During Part of the Years 1821, 1822, 1823”.
Em “Corcovado”, a gravura de Maria Graham registra a beleza silvestre da cidade, do pico solitário, sem o marco do Cristo Redentor, ladeado das cores de uma flora tropical que tanto encantou a pintora.
“Todas as vezes que passo por um bosque no Brasil, vejo plantas e flores novas, e uma riqueza de vegetação que parece inexaurível. Hoje vi flores de maracujá de cores que dantes nunca observara: verdes, róseas, escarlates, azuis, ananases selvagens de belo carmesim e púrpura; chá selvagem ainda mais belo do que o elegante arbusto chinês, palmeiras de brejo e inúmeras plantas aquáticas novas para mim.”

Rua Direita, de Rugendas

Johann Moritz Rugendas, pintor alemão do século XIX, chegou ao Brasil em 1821, como desenhista da missão científica do barão de Langsdorff. Permaneceu no país por cinco anos, viajando por diversas regiões, coletando um rico material que registraria em suas pinturas e desenhos. Retratou com apurada beleza artística e científica a botânica, os tipos humanos, a paisagem física, a fauna e a flora do Brasil que ao sair da fase colonial, conservava os costumes em contraste com os tempos vindouros de uma nova nação.
Deixou o Brasil em 1826. Em 1835, publicaria as suas memórias de viagem através das litografias transpostas para o álbum “Viagem Pitoresca ao Interior do Brasil” (Voyage Pittoresque dans le Brésil).
Na litografia “Rua Direita” (Rue Droite), atual Rua Primeiro de Março, sente-se a pulsação no centro da capital do Império, desfilando vários personagens da cidade: senhores em seus trajes elegantes, escravos em suas funções seculares, padres, tropeiros, cavaleiros em seus cavalos, numa convulsão de cenas da vida cotidiana, tendo o morro do Castelo ao fundo, onde se pode observar um cavaleiro passando por baixo do arco de ligação entre o Paço e o convento do Carmo.
Sobre as edificações da parte antiga da cidade, Rugendas descreveria:
“As casas deste setor são, em geral, altas e estreitas; seus telhados são empinados e nada, em suas características construtivas, faz lembrar o clima tropical. Elas possuem, quase sempre, três ou quatro andares e apenas três panos de fachada. Como as janelas são muito alongadas, a desproporção que se observa entre a altura e a largura das casas se torna ainda mais chocante.”

O Palácio de São Cristóvão

Com a presença da corte no Rio de Janeiro, a cidade recebeu melhoras no saneamento e na urbanização. Com a ascensão de Dom João VI ao trono, em 1816, melhorou-se o calçamento das ruas; nivelou-se as principais artérias da cidade, favorecendo as ruas São José, do Ouvidor e da Cadeia; concluiu-se o revestimento de granito do Largo de São Francisco.
Entre as melhoras, estava o caminho percorrido pelo cortejo real, do Palácio de São Cristóvão ao Largo do Paço.
Aqui, duas litografias que apresentam a residência imperial de São Cristóvão em fases distintas. A primeira, “Residência Imperial de São Cristóvão”, é uma litografia aquarelada, de autor anônimo, de data imprecisa.
A segunda, “Paço de São Cristóvão de Pézerat”, foi desenhada pelo barão Karl Robert Planitz.
Pierre Joseph Pézerat, no Brasil Pedro José, foi um engenheiro politécnico francês, que chegou ao Brasil em 1825. Estudou na Escola de Belas Artes de Paris. Quando o Brasil declarou independência de Portugal, em 1822, era necessário que se fizesse obras de melhora na capital do Império. O francês tornar-se-ia arquiteto particular do imperador Dom Pedro I. Foi ele quem definiu o estilo do Palácio Imperial de São Cristóvão, acrescentando um pavilhão à casa de campo que já existia.
Pézerat daria estilo e elegância a várias residências da corte, entre elas a moradia da Marquesa de Santos. Seria condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul e com Ordem da Rosa. Após a abdicação e partida de Dom Pedro I para Portugal, em 1831, Pézerat também deixaria o Brasil, rumando para a Europa.

Águas Férreas, Colégio Episcopal de São Pedro e Alfândega, de P. Bertichem

Apesar de ter deixado registros preciosos do Rio de Janeiro do século XIX, Pieter Godfred Bertichen, pintor holandês, tem uma biografia escassa, sem que se lhe esclareça certas passagens de vida.
Contava com 41 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1837, vivendo no Brasil até a sua morte. Fez parte da Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes, em 1845, apresentando a pintura “Vista da Cidade do Rio de Janeiro Observada da Ilha dos Ratos”. Em 1856, publicaria “O Brasil Pitoresco e Monumental”, obra rara do Brasil do século XIX, contendo quarenta e seis paisagens litográficas.
Com o nome aportuguesado para Pedro Godofredo Bertichem, aparece muitas vezes grafado como P. G. Bertichem, ou simplesmente P. Bertichem.
Na primeira litografia de P. Bertichem, “Águas Férreas, Rio de Janeiro”, elegantes senhoras acompanhadas de um cavalheiro, estão paradas em frente a uma fonte, enquanto um sofisticado coche as aguarda. Debaixo de uma árvore frondosa, outro senhor aproveita-se da sombra. Na outra rua paralela, três crianças caminham em sentido contrário à fonte. A paisagem retrata a esquina formada pelas ladeiras do Pindura-Saia e Rua Indiana, onde existia uma fonte de água mineral ferruginosa, que deu origem ao nome pelo qual o local era chamado, Águas Férreas. No século XIX, visitar este ponto das Laranjeiras era um dos passeios prediletos dos habitantes da capital do Império.
Na litografia “Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara”, P. Bertichem retrata a luxuosa residência rural anteriormente conhecida como Quinta do Bispo. Em 1702, Dom Frei Francisco de São Jerônimo, segundo bispo do Rio de Janeiro, conseguiu do reitor do Colégio da Companhia de Jesus um terreno na sua fazenda do Rio Comprido, onde mandou edificar uma casa de campo e uma chácara de recreio. A casa ficou conhecida como Quinta do Bispo, sendo a sua arquitetura atribuída ao engenheiro José Fernandes Alpoim. Quando P. Bertichem fez a litografia, ali funcionava o Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara. Mais tarde, passaria a funcionar no local o Seminário São José. Debret também registrou o prédio, na litografia “A Grande Casa de Campo”, classificando-a como ideal “para dar uma idéia da mais nobre construção de uma antiga residência rural”. O prédio foi tombado, em 1938, como patrimônio histórico.
Na terceira litografia, temos “A Nova Alfândega do Rio de Janeiro”. Com edifícios novos e espaçosos, a então nova alfândega da capital do Império teve os seus armazéns erguidos na antiga praia dos Mineiros, tendo ao fundo o mar, abrindo-se para a atual rua Visconde de Itaboraí. A alfândega apresentava armazéns com condições de atender às crescentes necessidades econômicas do Império, que se sustentava através do trabalho escravo e da exportação do café.
Com o avanço das obras que mudaram por completo a paisagem urbanística do Rio de Janeiro, os prédios da então nova alfândega aqui retratados, foram demolidos, dando passagem à avenida Perimetral.
Para encerrar esta viagem pitoresca ao Rio de Janeiro do século XIX, vamos nos distanciar um pouco da cidade maravilhosa, desembarcando na vizinha Petrópolis, através do olhar generoso do holandês P. Bertichem, na litografia “Palacete Imperial de Petrópolis”. Este belo palácio foi construído entre 1845 e 1857, servindo como residência de verão da família imperial. A partir de 1940, o palácio foi transformado no Museu Imperial, trazendo em seu acervo ricas coleções de carruagens, armas e outros objetos que pertenceram à nobreza do Brasil Império.

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PRÊMIO DARDOS (via Arquivo68)

outubro 31, 2010

Recebemos o Prêmio Dardos   Recebemos de Jarbas Novelino Barato, do Boteco Escola, o Premio Dardos. O prêmio tem como objetivo valorizar e incentivar o trabalho dos blogueiros.

via Arquivo68


O DECÁLOGO

abril 29, 2010

Também conhecido como os Dez Mandamentos, o Decálogo, literalmente as dez palavras, constitui a página mais sagrada da Torá judaica, ou do Velho Testamento cristão. Constitui a essência da Lei que une o homem aos princípios estabelecidos por Deus, selando a aliança entre o humano e a divindade.
Tradicionalmente, o Decálogo teria sido escrito em tábuas de pedra, pelo dedo de Deus, e entregue a Moisés no monte Horeb, ou Djebel Musa (Montanha de Moisés), no sul da península do Sinai, atual Egito. Moisés permanecera por quarenta dias no monte, ao retornar com o par de tábuas, encontrou os israelitas a idolatrar um bezerro de ouro. Furioso, o profeta teria quebrado as tábuas originais, em protesto e indignação. Outras tábuas teriam sido escritas por Deus, sendo estas postas na Arca da Aliança, ali permanecendo até 586 a.C., quando o Templo em Jerusalém foi destruído pelos babilônios, e os documentos perdidos para sempre.
Escritos no livro do “Êxodo”, no capítulo 20, nos versículos de 2 ao 17, são repetidos novamente em Deuteronômio 5:6-21. Na sua essência, legislam o amor a Deus e ao próximo, através de condutas morais que melhoram o homem, aproximando-o do bem e do amor aos que se lhe circulam e ao próprio Deus criador. É renovada a Aliança estabelecida entre Abraão e Deus, fazendo da Lei a diferença entre o povo escolhido e o restante dos outros povos. A Lei ajudará os israelitas a enfrentar os povos que se lhe são hostis, mas também se voltará contra eles, quando não seguidas. Prepara o povo escolhido para ser redimido, e através dos israelitas, a própria humanidade será redimida. É o princípio do messianismo judaico, de onde surgirá Jesus Cristo, e as bases do cristianismo.
O Decálogo define os princípios básicos da moral judaico-cristã, assim como toda a extensão da moralidade contemporânea ocidental, e a formação da ética como ciência moderna. As Leis ditadas por Deus são temporais, avançando conforme a evolução da própria civilização que as recebeu, sem jamais perder o vínculo com Javé, o Deus israelita que as estabeleceu. Se a forma de adoração ao criador, assim como o dia da semana a ser tomado como sagrado, mudou conforme a evolução das religiões monoteístas, princípios básicos, que defendem o homem de si mesmo, como não matar ou levantar falso testemunho; garantem o amor ao próximo e a própria essências das leis civis, dando consistência perene aos dez mandamentos.

Moisés e as Tábuas da Lei

Abraão, fiel seguidor de Deus, recebeu como recompensa uma prole abençoada, que se tornaria o povo eleito do criador na Terra. Jacó, neto de Abraão, teria doze filhos, dando origem às tribos israelitas. Dispersos e escravizados no Egito, os israelitas foram conduzidos por Moisés à Terra prometida. A jornada estender-se-ia por longos e penosos quarenta anos, através do deserto que se abria hostil.
Teria sido no período de êxodo do Egito e peregrinação pelo deserto, que se estabeleceria o pacto entre Deus e o povo israelita. No sul da península do Sinai, Moisés foi convocado por Deus a subir os 2500 metros do monte Horeb, uma das três montanhas que formam o conjunto do Sinai. Ali permaneceria por quarenta dias, recebendo a manifestação direta da presença divina.
Deus apresentou-se a Moisés, revelando-lhe o nome sagrado, YHWH (Javé), pelo qual seria reconhecido, amado e respeitado. Estabelecia com os israelitas a Aliança, fazendo deles a nação escolhida entre todos os povos, destinada a redimir a imperfeição humana, e alcançar as promessas divinas estabelecidas desde a criação no jardim do Éden. Para que os israelitas se firmassem como nação escolhida por Deus e professarem o seu nome e as suas promessas, teriam que seguir leis que os diferenciasse dos demais. As leis trariam o benefício da proteção divina, mas deporiam contra eles, caso não fossem cumpridas. A Lei era o princípio que redimia, mas também o que destruía, caso não se cumprisse o pacto ali estabelecido.
Por quarenta dias, Deus escreveu em um par de tábuas de pedra, as leis que estabeleciam com os israelitas o pacto sagrado. Terminado o processo de expiação, Moisés retornou do alto do monte Horeb, reencontrado o seu povo, acampado ao pé das três montanhas do Sinai. Perdidos, pensando que o seu profeta maior os abandonara, os hebreus fundiram o seu ouro em um bezerro, tomando-o como adoração. Diante da blasfêmia, Moisés quebrou as tábuas da lei escritas por Deus, prostrando-se diante do criador, pedindo-lhe o perdão. Após a punição aos responsáveis pelo sacrilégio, Deus escreveria outro par de tábuas. A segunda versão das tábuas seria posta em um arca, tida como sagrada. A arca seria levada à frente do povo judeu, fazendo com que enfrentasse todas as diversidades e guerras, até que o povo eleito tomasse posse de Canaã, a Terra Prometida. Estava estabelecida a Aliança entre Deus e o povo de Israel.

O Texto do Decálogo

As tábuas da Lei permaneceriam dentro da Arca da Aliança, que por sua vez, seria guardada em Jerusalém, no Templo construído pelo rei Salomão. Durante o esplendor dos reis israelitas, era o símbolo visível da manifestação de Deus e da sua proteção ao povo escolhido. Em 586 a.C., quando a Judéia foi tomada pelos babilônios, e o primeiro Templo destruído, a Arca desapareceu, sem jamais ser localizada.
Às duas tábuas perdidas, escritas pelo dedo de Deus, e que traziam os dez mandamentos, foram acrescentados outros ensinamentos, ditados e escritos em pergaminhos por Moisés, estabelecendo as leis Mosaicas, compostas por 613 mandamentos, que deveriam ser seguidos por tempo indeterminado, constituindo a distinção dos israelitas ante as outras nações, e selando a aliança com Deus.
Conhecido como dos Dez Mandamentos, a Lei entregue a Moisés está registrada na Torá hebraica, no livro Chemol; ou no Antigo Testamento cristão, no livro Êxodo. Neste livro, o capítulo 20 descreve, ao longo dos versículos de 2 a 17, a Lei que representa a harmonia entre o homem e Deus.

2. Eu sou Javé teu Deus que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3. Não terás outros deuses em oposição a mim.
4. Não farás para ti imagem esculpida nem figura do que há em cima no céu, nem do que há em baixo na terra, nem do que há nas águas em baixo da terra.
5. Não adorarás tais coisas, nem lhes servirás. Eu, Javé, teu Deus, sou um Deus zeloso, que vinga a iniqüidade dos pais nos filhos, netos e bisnetos daqueles que me odeiam
6. e que usa da misericórdia até mil gerações com aqueles que me amam e guardam os meus preceitos.
7. Não tomarás o nome de Javé teu Deus para uma coisa vã, porque não inocentará Javé aquele que transportar o seu nome para uma coisa vã.
8. Lembra-te do dia de sábado para o santificar.
9. Durante seis dias trabalharás fazendo todas as tuas obras.
10. O sétimo dia é um sábado para Javé. Não farás nele obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o hóspede que está dentro das tuas portas.
11. Em seis dias Javé fez o céu e a terra, o mar e tudo o que nele existe, descansando no sétimo dia. Por isso Javé abençoou o sábado e o santificou.
12. Honra teu pai e tua mãe, a fim de que se prolonguem os teus dias sobre a terra que Javé, teu Deus, te dará.
13. Não matarás.
14. Não cometerás adultério.
15. Não furtarás.
16. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo.
17. Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu touro, nem seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença.

Êxodo 20:2-17

Os Dez Mandamentos na Divisão Judaica e na Cristã

Dezesseis versículos do Êxodo (20:2-17), formam os dez mandamentos, que no seu registro apresenta mais do que dez afirmações, fixando entre catorze ou quinze. O historiador judaico-romano, Flávio Josefo (37?38?-100 d.C.), em suas “Antiguidades Judaicas”, fixa a partir do versículo 3, o primeiro mandamento; os versículos 4 a 6 como o segundo mandamento; o versículo 7 como terceiro mandamento; os versículos 8 a 11 como o quarto mandamento; compondo os versículos de 12 a 17, respectivamente, os seis mandamentos restantes.
Na passagem do Êxodo, não sê lê como os dez mandamentos as leis recebidas por Moisés. O termo deriva da frase hebraica aseret had’varim, traduzida como as 10 palavras, afirmações ou coisas. O Decálogo também não é lido de forma idêntica pelo judaísmo e pelo cristianismo, tendo até mais do que uma interpretação, ou divisão, nas diversas correntes cristãs.
Compilando o texto, originalmente escrito em hebraico, teremos as seguintes denominações dos dez mandamentos:

Divisão Judaica

1 – Eu sou o Senhor, o teu Deus
2 – Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo
3 – Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus
4 – Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo
5 – Honra teu pai e tua mãe
6 – Não matarás
7 – Não cometerás adultério
8 – Não furtarás
9 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10 – Não cobiçarás a mulher e a casa do teu próximo

Divisão Cristã (Católica e Luterana)

1 – Eu sou o Senhor, o teu Deus. Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo
2 – Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus
3 – Lembra-te do dia de domingo, para santificá-lo
4 – Honra teu pai e tua mãe
5 – Não matarás
6 – Não cometerás adultério
7 – Não furtarás
8 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo
9 – Não cobiçarás a mulher do teu próximo
10 – Não cobiçarás a casa do teu próximo

Divisão Cristã (Ortodoxa)

1 – Eu sou o Senhor, o teu Deus. Não terás outros deuses além de mim
2 – Não farás para ti nenhum ídolo
3 – Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus
4 – Lembra-te do dia de domingo, para santificá-lo
5 – Honra teu pai e tua mãe
6 – Não matarás
7 – Não cometerás adultério
8 – Não furtarás
9 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10 – Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não cobiçarás a casa do teu próximo

Divisão Cristã (Anglicana, Presbiteriana e outras)

Prefácio – Eu sou o Senhor, o teu Deus
1 – Não terás outros deuses além de mim
2 – Não farás para ti nenhum ídolo
3 – Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus
4 – Lembra-te do dia de domingo, para santificá-lo
5 – Honra teu pai e tua mãe
6 – Não matarás
7 – Não cometerás adultério
8 – Não furtarás
9 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10 – Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não cobiçarás a casa do teu próximo

Divisão Cristã (Adventista do Sétimo Dia)

Prefácio – Eu sou o Senhor, o teu Deus
1 – Não terás outros deuses além de mim
2 – Não farás para ti nenhum ídolo
3 – Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus
4 – Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo
5 – Honra teu pai e tua mãe
6 – Não matarás
7 – Não cometerás adultério
8 – Não furtarás
9 – Não darás falso testemunho contra o teu próximo
10 – Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não cobiçarás a casa do teu próximo

O Decálogo, Poucas Divergências Entre Judeus e Cristãos

A Lei recebida por Moisés, estabelecia o princípio messiânico, que ao diferenciar o povo israelita das demais nações, preparava-o para receber o messias, que o conduziria à humanidade redimida. Na visão do cristianismo, o messianismo judaico teria sido concretizado, e, novas leis estabelecidas.
Objetivamente, Jesus Cristo seguiu todas as tradições judaicas. Profundo conhecedor das leis mosaicas, sempre as chancelou quando confrontado por situações pontuais. Quando questionado sobre as leis, reconheceu a todas, acrescentando-lhes o amor uns aos outros. Cristo questionou as tradicionais leis mosaicas dentro do envelhecimento que traziam mediante a evolução daquela civilização, como o apedrejamento das mulheres por causa do adultério, mas jamais deixou de ver como crime contra a Lei o próprio adultério.
Na questão do sábado, os sacerdotes do templo em Jerusalém, chegaram a manifestar desagrado porque Cristo fazia obras naquele dia. Ao que ele respondeu que não haveria dias santos para que se produzisse milagre e se proferisse a palavra de Deus. Foram raros os momentos que a Lei do Decálogo viesse em oposição aos ensinamentos de Jesus de Nazaré, pelo contrário, o messianismo ao qual se identificava, era a própria justificativa da existência de uma aliança dos homens com Deus, especificando um povo para segui-la.
Com a separação do cristianismo primitivo do judaísmo, o Decálogo perdeu pouquíssimo da sua essência judaica, sendo a santificação do sábado a mudança mais evidente. Os cristãos justificam a santificação do domingo, por ter sido o dia em que Cristo ressuscitara, e também o dia da descida do Espírito Santo, cinqüenta dias após a ressurreição. Assim, divergiu-se o dia sagrado para os judeus e cristãos, sem que se abolisse o princípio religioso e social de um dia santo para Deus e de descanso para o homem.
Essencialmente, os dez mandamentos sintetizam os princípios básicos do amor a Deus e ao próximo, o que faz com que o homem não se distancie de costumes morais que o distingue dos animais, protegendo-o contra a imperfeição social e contra a tendência destrutiva da alma. A justiça divina é estendida ao homem, trazendo-lhe um alento à inconstância perene, à insatisfação destrutiva, desenhando a moralidade básica da sociedade ocidental, que evolui constantemente, sendo obrigada a rever princípios. Mesmo cinco mil anos depois da compilação de Moisés, os dez mandamentos ainda continuam a ser a mais sólida base de toda a construção moral e ética da sociedade judaico-cristã.


HINO NACIONAL BRASILEIRO

março 19, 2010

O Hino Nacional Brasileiro é uma das mais belas e complexas composições de um símbolo pátrio do mundo. Originário da velha “Marcha Triunfal”, de Francisco Manuel da Silva, composta em 1922, o hino passou por duas versões na letra, até que encontrou a terceira definitiva, em 1909, com o poema de Joaquim Osório Duque Estrada.
Feito em versos decassílabos, a letra do Hino Nacional Brasileiro suscita polêmicas, tida como demasiadamente difícil e rebuscada para um país com deficiência na alfabetização total da sua população. Durante um século, várias manifestações para a simplificação da letra foram conclamadas, mas nenhuma vingou. O pomposo poema continua intacto, apesar de não percebido o seu significado pela maioria dos brasileiros.
Na época da ditadura militar (1964-1985), o Hino foi decretado como símbolo nacional, sendo obrigatório o seu aprendizado, e proibida a sua execução pública em manifestações que não fossem de comemoração cívica. Com a queda do regime militar, a obrigatoriedade do hino extinguiu-se, provocando o desconhecimento de grande parte da população, que não o consegue cantar na íntegra. Composto por um vocabulário em desuso, a juventude atual não sabe a interpretação de muitas das suas palavras. Para que se não perca a essência da letra, o governo brasileiro voltou, por decreto, a partir de setembro de 2009, a tornar novamente obrigatório cantar o hino, uma vez por semana, em todas as escolas públicas e particulares do país.
Controvérsias à parte, o Hino Nacional Brasileiro é considerado um dos mais carismáticos do mundo. A velha marcha nacionalista de Francisco Manuel da Silva, encontrou a exaltação eloqüente do poema de Joaquim Osório Duque Estrada. Sua perpetuação depende do ensinamento da letra e do entendimento do seu vocabulário diante das novas gerações. Com a evolução da linguagem coloquial do dia a dia, se não for feito um trabalho cívico intenso e educativo, a tendência é de que nas próximas décadas, ninguém saiba mais do que cantarolar alguns dos seus versos.

A Marcha Triunfal

Em 1822, com a consolidação da independência do Brasil, os símbolos nacionais da nova nação passaram a ser desenhados. Na exaltação às comemorações de um país livre, Francisco Manuel da Silva compôs uma música para banda, que ficou conhecida como “Marcha Triunfal”. O arrojo eloqüente da música fez com que se tornasse popular, passando a ser obrigatória nos eventos públicos do Primeiro Império.
Com o declínio da popularidade de Dom Pedro I, a “Marcha Triunfal” passou a ser usada como protesto contra o seu reinado. Quando o imperador abdicou do reino em favor do seu filho, em 1831, a música de Francisco Manuel da Silva recebeu a sua primeira letra, feita por Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva. Uma manifestação de desacato a Dom Pedro I, quando ele embarcava de volta a Portugal, em 13 de abril de 1831, era marcada pela execução do hino no cais do Largo do Paço, no Rio de Janeiro. Assim, a velha “Marcha Triunfal” passou a ser chamada de “Hino ao 7 de Abril”, uma alusão à data de abdicação de Dom Pedro I.
Com o fim das regências, e a subida de Dom Pedro II ao trono, era necessário que se mudasse a letra que desacatava a memória do pai do novo imperador. A marcha mais popular do Brasil passou a ter uma segunda letra. O seu autor é desconhecido.
No decorrer do Segundo Império, a “Marcha Triunfal” era executada nas solenidades oficiais do imperador. Sua popularidade foi quem a elegeu como hino nacional, sem que se lhe desse uma letra definitiva.

A República e o Hino Nacional

Com o fim do Império, em 1889, a recém nascida República tentou construir uma nova história para o Brasil. Minimizou a importância de Dom Pedro I na independência do país, passou a exaltar novos heróis nacionais, construindo a imagem de um mártir do século XVIII, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Também os símbolos nacionais perderam os brasões da família de Bragança, acompanhando a nova estética cívica da República. A velha “Marcha Triunfal” foi abolida dos atos solenes oficiais, e um concurso foi aberto para a escolha de um novo Hino Nacional. O vencedor foi um hino com música de Leopoldo Miguez e letra de Medeiros e Albuquerque. Mas a música foi rejeitada pela população, inclusive pelo próprio primeiro presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca. Assim, em 20 de janeiro de 1980, a música vencedora do concurso foi oficializada como “Hino da Proclamação da República”, e, a “Marcha Triunfal” de Francisco Manuel da Silva, voltou a ser o hino oficial.
Em 1906 foi aberto um novo concurso, desta vez para escolher uma nova letra para a “Marcha Triunfal”. Em 1909, o poema de Joaquim Osório Duque Estrada, foi declarado vencedor. O Hino Nacional Brasileiro adquiria a sua forma final. Só seria oficializado em decreto do presidente Epitácio Pessoa, assinado em 1922, durante as comemorações do centenário da independência do Brasil.
Durante a ditadura militar, foram decretados os símbolos nacionais: o Hino Nacional, a Bandeira Nacional, as Armas Nacionais e o Selo Nacional. A lei 5.700, de 1 de setembro de 1971, estabeleceu regras a ser cumpridas durante a execução do Hino Nacional, em que todos devem de pé e em silêncio, ter atitude de respeito. No período militar, era proibido que um artista cantasse o hino durante um show. A regra foi quebrada na época dos comícios pelas “Diretas Já”, em 1984. Apesar de vigente, já não se obedece a certas restrições à execução do Hino Nacional promulgadas na lei.
Com o fim do regime militar, o Hino Nacional deixou de ser obrigatório nas escolas públicas, o que levou a uma nova geração a não saber mais cantá-lo. Para que se superasse as dificuldades das pessoas ao cantar um hino de letra difícil e muito longa, o então presidente em exercício, José de Alencar, sancionou, em 22 de setembro de 2009, a lei que tornou obrigatório o ensino do hino, além de ser cantado pelo menos uma vez por semana nas escolas públicas e particulares de todo o Brasil. A medida é para que se evite a extinção de uma letra que se mostra cada dia mais difícil à evolução lingüística adotada pelas novas gerações.
Dificilmente a velha “Marcha Triunfal” de Francisco Manuel da Silva deixará de ser o Hino Nacional Brasileiro. Cem anos após a composição da letra de Joaquim Osório Duque Estrada, a sua perpetuação somente o tempo poderá dizer. Quem sabe, dois séculos depois, quantas letras terá tido a marcha que nasceu com a criação do Estado independente do Brasil.

Letra do Hino Nacional

I

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.

Terra adorada
Entre outras mil
És tu Brasil,
Ó Pátria Amada!

Dos filhos deste solo
És mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!

II

Deitado eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminando o sol do Novo Mundo!

Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida no teu seio mais amores.

Ò Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
-Paz no futuro e glória no passado.

Mas se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo
És mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!


DRÁCULA E OS VAMPIROS

novembro 14, 2009

Desde a antiguidade que o mito do vampiro suscita a curiosidade das pessoas. Suas lendas estão envoltas de mistério e perigo. O vampiro representa o homem e a sua eterna vontade de ser jovem, indo contra as leis da natureza e das religiões para obter essa juventude. O vampiro não morre, não envelhece, alimenta-se do sangue, o que lhe garante atravessar os séculos. É esta perenidade cruel que tanto seduz as pessoas, fazendo dos vampiros seres mitológicos cultuados, divulgados na literatura, no cinema, na televisão, nas revistas em quadrinhos e em diversos jogos digitais.
De todos os vampiros, Drácula é o mais famoso. Saído das páginas literárias, foi apresentado ao mundo em 1897, quando o escritor irlandês Bram Stoker publicou aquela que seria a sua obra-prima, “Drácula”. Apesar de nunca confirmado, o autor teria encontrado inspiração na figura de um nobre medieval, o voivoda (príncipe) da Valáquia Vlad Tepes. Drácula representa a obsessão pelo poder e pela eternidade. É desprovido de qualquer remorso ou compaixão. Para sobreviver, não hesita em matar e sorver o sangue das suas vítimas. É sedutor e misterioso, atraindo para si a paixão frívola das mulheres. Mas Drácula perde o seu lado demoníaco, quando persegue pelos séculos o amor da sua amada, que morta no passado, volta em reencarnações recentes. Um amor obsessivo, que faz do conde um ser humano, apesar da sua condição de vampiro. Esta vertente humana, obsessivamente apaixonada, a sua beleza fria e a cheirar a cadáver, os seus poderes ilimitados, sua capacidade de hipnotizar os que o ladeiam, fazem do conde Drácula um demônio sedutor, que atrai multidões aos cinemas, ou mesmo às páginas literárias.
Amados e temidos, Drácula e os vampiros construíram nas lendas modernas um espaço cada vez mais explorado e idolatrado. O fascínio dos vampiros fez com que deixassem de ser vistos como demônios das religiões pagãs, para serem cultuados como membros das lendas contemporâneas, exercendo curiosidade sem que se confundam com o misticismo. Algumas seitas modernas veneram os vampiros, mas não chegam a seduzir muitos seguidores, ao contrário das personagens fictícias exploradas na ficção. Drácula e os vampiros fazem parte da história do cinema e de uma literatura de culto. Continuam a hipnotizar milhares de pessoas com os seus poderes e a sua suposta juventude eterna.

O Sangue e os Vampiros

A lenda do vampiro surge da visão que o homem tem do sangue, como fator mantenedor da própria vida. Tanto as antigas religiões politeístas, chamadas de pagãs, quanto às monoteístas, consideram o sangue como sagrado, sendo o responsável pelo envelhecimento e pela morte do homem.
A importância do sangue nas religiões, fez com que várias delas derramasse-o nos altares, em sacrifício aos deuses. Na tradição hebraica, o sangue humano não poderia ser oferecido, posto que a vida é sagrada, inviolável e intocável. Nos sacrifícios ao Deus único de Abraão, era oferecido apenas o sangue de animais considerados puros. Os egípcios, as civilizações da Mesopotâmia e mesmo os gregos e os romanos, ofereciam o sangue humano em holocausto aos seus deuses.
Se o sangue era considerado o símbolo da vida, houve sempre um entendimento que se um velho fosse alimentado pelo sangue de um jovem, recuperaria as forças e venceria a morte. Foi a partir dessa teoria que se desenvolveu a própria ciência da transfusão sanguínea. Homens poderosos recorreram ao sangue de jovens quando já próximos da morte. O papa Inocêncio VIII, em seu leito de morte, em 1492, teve um tratamento especial, feito por um médico judeu, que lhe aplicou uma transfusão com o sangue extraído de três meninos de dez anos. As três crianças morreram e, conseqüentemente, o próprio papa. A transfusão sanguinea é amplamente descrita e divulgada no romance de Bram Stoker.
Os vampiros surgem como demônios que venceram os obstáculos da morte, alimentando-se com o sangue sagrado, de onde tiram a juventude e a eternidade, tornando-se portadores de poderes especiais e de uma força hercúlea. O sangue, de preferência humano, é o que lhes confere a imortalidade do corpo e a desintegração da alma, visto que são mortos vivos, e não possuem uma. Quando contaminado e transformado em vampiro, ele sente a morte da alma, ressuscitando em um ser com hábitos bestiais e atitudes de demônio, desprovidos da compaixão e de atos de generosidade. Ao conseguir a imortalidade, o vampiro perde as promessas divinas, pois está condenado a ser eternamente um assassino, a matar para comer. Qualquer templo religioso ser-lhe-á negado, e os símbolos, como a cruz, transformar-se-á em armas que o pode vir a castigar, repelir ou até mesmo a matá-lo.

As Características dos Vampiros

Seres mitológicos antigos, os vampiros estiveram presentes nas tradições dos povos e das civilizações do Médio Oriente, da Europa e do Egito. Foi nas civilizações antigas do Nilo que surgiram os primeiros relatos sobre esses seres misteriosos, sendo os mais conhecidos e sanguinários Khonsu e Sekhmet. Na Suméria, o vampiro chegou a ser visto como filho de Lilith, um ser mitológico da tradição judaica, considerada a primeira mulher do mundo e de Adão. Muitas vezes foi confundido com Incubus. Na antiguidade, os sacerdotes identificavam os vampiros através das unhas, que eram fortes e mais grossas do que o normal, assimilando-se às garras.
Ao se tornar um vampiro, o contaminado deixa de poder ter contacto com o sol, dormindo, assim como os morcegos, durante o dia e caçando alimento à noite. Seus olhos ficam mais sensíveis à luz, e passam a ter uma visão potente. Para que possa obter o sangue como alimento, desenvolve os dentes caninos, transformando-os em longas presas.
Poderes estranhos e demoníacos possibilitam que os vampiros transformem-se em morcegos e lobos. Tornam-se senhores dos animais noturnos, controlando-os e dirigindo-os. Originalmente, os vampiros tinham a pele escura e grossa, nas versões cinematográficas atuais, passaram a tê-la branca e fantasmagórica. A audição passa a ser extremamente sensível e alta, fazendo com que sejam capazes de ouvir a aproximação de pessoas ou de outros vampiros a quilômetros de distância. Quando em perigo, podem desaparecer em uma névoa.
O vampiro perde a maioria dos seus órgãos vitais, como fígado, rins e pâncreas, que deixam de ter utilidade. O coração é o órgão que continua a funcionar em seu peito. Mas não possui ritmos característicos como nos seres humanos, batendo quase que imperceptivelmente. É como uma bomba que quando detonada, pode matar e destruir o vampiro.
Aos vampiros não é permitido que se reproduzam entre si. O desejo sexual de um vampiro é tão latente quanto a sua sede de sangue. O desejo é refletido no seu poder irresistível de sedução, levando os humanos à paixão. Quando há um encontro de um vampiro com uma humana, ele pode engravidá-la. O filho dessa união terá poderes especiais, como saber distinguir quem é ou não vampiro, será dono de uma força extraordinária e de aguçado desenvolvimento dos cinco sentidos. As características são transmitidas geneticamente aos descendentes do humano e do vampiro.
Apesar de poderes quase que ilimitados, o vampiro passa a ter certas limitações que lhe podem ser fatais. O sol pode queimar-lhes a pele e afetar-lhes a visão, reduzindo-os a cinzas. Como foram desprovidos da alma, e matam para conseguir o alimento; a hóstia, a água benta, os metais consagrados, a cruz e os templos, tornam-se insuportáveis a eles, assim como o cheiro do alho. Podem ser mortos com uma estaca fincada no coração, transformando-os em pó.
Ao longo do tempo, várias características foram acrescentadas ao mito, sendo a imaginação o principal condutor das verdades vampirescas. Dos castelos medievais às tumbas de concreto, os vampiros modernizam-se, fazendo das suas aventuras uma sedutora paixão na legião dos seus fãs e mesmo daqueles que não os cultua, mas não lhes resiste.

O Mítico Príncipe Vlad Tepes

O lendário conde Drácula foi criado por Bram Stoker, que o lançou em um livro que levava o seu nome, em 1897. A idéia surgiu quando o autor trabalhava como administrador do Royal Lyceum Theatre de Londres, cargo oferecido pelo amigo Henry Irving, de quem era, ao mesmo tempo, secretário e empresário. Na época Bram Stoker entrou em contato com uma sociedade londrina que tinha fascínio pelo sobrenatural. Em 1890, ele começou a escrever um romance sobre vampiros, sem título definido. No verão daquele ano, estava em férias em Whitby, quando cogitou pela primeira o nome de “Drácula” para aquele romance.
Na última década da centúria oitocentista, a Inglaterra era tomada pela efervescência dos movimentos espiritualistas, o que influenciou profundamente Bram Stoker. Esoterismo e ciência mesclavam-se entre os intelectuais da época. Stoker passa a estudar certos detentos nas cadeias inglesas, obcecados por verterem sangue e ingeri-lo. Sete anos após ter sido iniciado, Bram Stoker publica “Drácula”. Lançando a personagem para o mundo, tornando-a mais importante do que a própria obra literária.
Baseado nas histórias de vampiros da Transilvânia, região da Romênia, “Drácula” pode ter sido inspirado no príncipe da Valáquia, Vlad Tepes Draculea, que viveu no século XV. Vlad III nasceu em 1431, em Sighisoara, atual Romênia. Tornar-se-ia voivoda (príncipe) da Valáquia por três vezes: em 1448, de 1456 a 1462 e em 1476. Vlad III viveu na época em que o Império Otomano tomou Constantinopla aos gregos, em 1453, e iniciou a sua expansão pelos Bálcãs, originando uma guerra sangrenta entre cristãos e muçulmanos.
Vlad III era filho de Vlad II, membro de uma sociedade cristã de Roma, chamada Ordem do Dragão, em que nobres da região se uniam para defender os territórios da invasão Otomana. Como membro da ordem, Vlad II era chamado de Vlad Dracul (dragão). Seu filho, Vlad III, herdou por conseqüência, a alcunha do pai, sendo chamado de Vlad Draculea – filho do dragão, já que a terminação “ea” significa filho.
Vlad Draculea ficou conhecido pela crueldade e perversidade com as quais tratava os seus inimigos. As suas atrocidades alimentavam o imaginário popular de alguns camponeses, que passaram a associá-lo com os mitológicos vampiros. Diante daquela crueldade, a palavra Dracul, que também significava “diabo”, passou a ter este sentido quando os inimigos de Vlad Draculea referiam-se a ele.
O voivoda tinha como costume empalar os seus inimigos, atravessando-os com uma estaca de madeira. Para assistir ao suplício, costumava montar uma mesa no local e saborear um banquete, enquanto os inimigos agonizavam empalados. Por esta razão, passou a ser chamado de Vlad Tepes (Tsepesh), que significava “O Empalador”.
Vlad Tepes Draculea foi morto em batalha pelos otomanos em Bucareste, em 1476. Seu corpo foi decapitado e sua cabeça enviada à Constantinopla, onde o sultão a manteve em exposição em uma estaca, como prova que o famoso empalador estava morto. Seu corpo foi enterrado numa ilha próxima de Bucareste, Snagov. O túmulo foi escavado por arqueólogos em 1931, mas no lugar do corpo só encontraram ossos de animais, o que reforçou a lenda de que Vlad Draculea era um vampiro.
Na Romênia e na Moldávia, Vlad Tepes Draculea é tido como herói nacional, por ter erguido vários mosteiros e combatido a expansão Otomana. Na vizinhança de Brasov, em Bran, ergue-se o castelo de Bran, conhecido como o castelo de Drácula. A fortaleza está situada na estrada 73, na fronteira da Transilvânia com a Valáquia e pode ser visitada por turistas. Vlad Draculea na verdade não residiu no castelo, a não ser quando teve que passar dois dias fechado na sua masmorra, quando os otomanos controlavam a Transilvânia. Por possuir torres pontiagudas e localização remota, o voivoda teria utilizado a fortaleza para fins militares.

O Conde Drácula

A descrição física da personagem de Drácula, segundo estudiosos, corresponde ao amigo de Bram Stoker, Henry Irving, que tinha uma voz sibilante. Drácula era um poderoso conde que vivia na Transilvânia na Idade Média, que confrontou inimigos, teve um grande amor na sua vida e ao perdê-lo, também se perde, envolvendo-se com o sobrenatural, tornando-se um frio vampiro.
Sendo uma personagem que se encontra em domínio público, Drácula sofreu grandes alterações nas diversas adaptações que se lhe foram criadas. Há aqueles que o descreve mais romântico, que ao receber a visita do inglês Jonathan Harker em seu castelo, descobre através de uma fotografia, que Mina, noiva de Harker, é a reencarnação do grande amor da sua vida. Assim, parte para a Inglaterra, em busca do amor renascido. Durante a viagem e ao chegar ao Reino Unido, transmite o terror e a morte por onde passa.
Não importa a versão, Drácula é sempre descrito como um vampiro sedutor, sanguinário e frio. Traz poderes sobrenaturais, uma força física extraordinária. Pode adquirir formas animais, hora como morcego, hora como lobo. Durante o dia dorme dentro de um caixão. Seus poderes estão concentrados na terra da Transilvânia, quando em viagem para a Inglaterra, leva sacos dela no navio em que embarca. Não tem a imagem refletida em um espelho. Utiliza-se da hipnose para controlar os seus inimigos. Tem controle absoluto sobre os seres noturnos, como morcegos ou corujas. Com um toque pode incendiar objetos, como a cruz, transformando-a em cinzas. Mata, sem remorsos, às suas presas, fazendo-as vampiras como ele, se lhes oferecer o próprio sangue.
Drácula é imortal, não envelhece, representa a virilidade juvenil eterna. Comanda o clima noturno, trazendo a névoa quando lhe for útil. Sua força sedutora encanta e faz perder as mulheres. Sua pele regenera-se quando arranhada, e os ferimentos são cicatrizados. Não fosse um vampiro, Drácula seria o exemplo perfeito do homem que apaixona o sexo oposto.
Mas Drácula pode perder a imortalidade diante de certas circunstâncias, que guarda como segredo. Se voa como um morcego ou caminha ágil como um lobo, o vampiro pode ser ferido com símbolos religiosos como a cruz e a água benta, que se lhe tocado à pele, pode queimá-la. O alho e a prata afastam-no momentaneamente de quem se lhe ergue. Não pode entrar na água, a não ser em uma embarcação. Um simples ramo de flores silvestres posto em seu caixão pode mantê-lo preso. O sangue é o alimento essencial que lhe dá o poder, a juventude e a suposta imortalidade. O sol é um grande inimigo, se exposto a ele, é reduzido instantaneamente a cinzas. Mas a sua maior e mais fatal fraqueza é o coração que, se trespassado por uma estaca de madeira, o levará à morte. Em algumas versões, após a estaca ser cravada no coração, e que ele for acometido pelo torpor da morte, deverá ser decapitado para que se conclua a sua morte.
Assim como o demônio é enganador, também Drácula é enganado, ao pensar ser eterno e, ser sempre apanhado e morto pelas suas fraquezas, deflagradas pelos eternos defensores do bem. Drácula é o sonho do homem em ter a juventude e a vida eterna, mas também o castigo para quem as obtém indo contra os princípios estabelecidos por Deus e pela natureza.

Drácula no Cinema

O fascínio que Drácula exerce sobre grandes platéias, fez com que o seu mito fosse explorado em dezenas de produções cinematográficas e televisivas. A primeira vez que a história do conde vampiro chegou às grandes telas foi em 1922, no genial filme de F. W. Murnau, “Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens”. Embora baseado na história de Bram Stoker, o filme teve que mudar o nome de Drácula para Nosferatu, devido a exigências dos herdeiros do escritor, que não permitiam que a obra fosse adaptada. “Nosferatu” foi um grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema universal. Com ele, inaugurava-se uma saga cinematográfica sobre o conde Drácula, que teria várias versões. Um filme de ficção sobre os bastidores do clássico de Murnau, “A Sombra do Vampiro” (2000), sugere que Max Schreck , ator que viveu Nosferatu, era um vampiro de verdade contratado pelo diretor.
Em 1931, surgiu o filme “Drácula”, de Tod Browning. Já a personagem tinha caído em domínio público, e pôde ser adaptada sem retoques para o cinema. O filme teve o ator austro-húngaro Bela Lugosi como Drácula. Embora tenha feito apenas dois filmes interpretando o conde, o já referido filme de 1931, e a comédia “Bud Abbott Lou Costello Mette Frankenstein” (“Às Voltas com Fantasmas”), em 1948, Bela Lugosi teve a sua imagem e carreira ligadas à personagem para sempre. Ainda hoje, tem-se a idéia de que o ator protagonizou várias vezes o famoso vampiro.
Em 1958, “Drácula”, de Terence Fisher, lançava o ator Christopher Lee como Drácula. Apesar de odiar a personagem, ele faria o conde em vários filmes, tornando-se o seu intérprete mais famoso. Nesta produção, iniciava-se uma grande parceria com Peter Cushing, outro grande ator que se especializaria em filmes de horror.
Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola, de 1992, foi uma das versões mais fiéis ao romance original. O filme pôde usufruir da tecnologia dos efeitos especiais, dando um clima de suspense luxuoso à velha história. Produção bem cuidada, a adaptação de Coppola só perde na interpretação quase que afetada de Gary Oldman. O ator imprime pouca virilidade ao conde, dando-lhe um aspecto que às vezes, beira à frivolidade, distante da frieza apaixonante e cruel de Bela Lugosi e Christopher Lee.
Mais de uma centena de filmes invocaram o mito de Drácula, fazendo do cinema o principal veículo de apresentação do mais famoso, sedutor e cruel dos condes da história. Drácula continuará por muito tempo, a encantar e aterrorizar as platéias do mundo inteiro.

Drácula nas Artes

Literatura

Drácula – Bram Stoker

Cinema

1922 – Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens (Nosferatu) – Com Max Schreck
1931 – Drácula – Com Bela Lugosi
1936 – Dracula’s Daughter – Com Otto Kruger e Gloria Holden
1943 – Son of Dracula (O Filho de Drácula) – Com Lon Chaney Jr.
1945 – House of Drácula – Com Lon Chaney Jr e John Carradine
1958 – Dracula (O Horror de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1960 – The Brides of Dracula (As Noivas do Vampiro) – Com Peter Cushing
1964 – Batman Dracula – Com Gregory Battcock e Jack Smith
1966 – Dracula: Prince of Darkness (Drácula – O Príncipe das Trevas) – Com Christopher Lee
1968 – Dracula Has Risen from the Grave – Com Christopher Lee
1970 – Count Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Taste the Blood of Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Scars of Dracula – Com Christopher Lee
1972 – Dracula A.D. 1972 – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1973 – Dracula – Com Jack Palance
1973 – The Satanic Rites of Dracula (Os Ritos Satânicos de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1974 – The Legend of the Seven Golden Vampiros – Com John Forbes-Robertson e Peter Cushing
1974 – Blood for Dracula – Com Udo Kier e Joe Dalessandro
1976 – Drácula Père et Fils (Drácula, Pai e Filho) – Com Christopher Lee
1979 – Dracula – Com Frank Langella e Laurence Olivier
1979 – Nosferatu: Phantom der Nacht (Nosferatu – O Vampiro da Noite) – Com Klaus Kinski
1992 – Bram Stoker’s Dracula (Drácula de Bram Stoker) – Com Gary Oldman e Anthony Hopkins
2004 – Van Helsing – Com Hugh Jackman e Richard Roxburgh

Séries de TV

1990 – Dracula: The Series
2006 – Young Dracula


OS SETE PECADOS CAPITAIS

setembro 23, 2009

O conceito do pecado é usado na tradição judaico-cristã para descrever a transgressão do homem diante da Lei de Deus, à desobediência deliberada diante de um mandamento divino.
O conceito do pecado nas grandes religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, embora sempre visto como a inclinação humana em errar contra a perfeição divina, tem interpretações diferentes. O judaísmo descreve o pecado como uma violação da Lei, não sendo visto propriamente como uma falta moral; para os hebreus o pecado é um ato, não um estado da alma do homem, não passando de geração em geração, já que o homem é dotado de vontade livre. Para os cristãos católicos, o pecado é a herança que o primeiro homem, Adão, deixou para todas as gerações. É o pecado original, que diante da rebelião de Eva e Adão contra Deus, causou todos os males do mundo. O pecado original, visto que Adão era perfeito, só poderia ser expiado por outro homem perfeito, no caso Jesus Cristo, que não concebido da estirpe imperfeita de Adão e Eva, redime a humanidade diante do seu sangue derramado.
Na doutrina católica, três pecados são assinalados: o pecado original, vindo da rebelião de Adão e Eva no Éden, e transmitida para todas as gerações da humanidade; o pecado mortal, desobediência do homem após adquirir o perdão do pecado original através do batismo, que o leva à morte da alma; e, o pecado venial, cometido pelo homem quando em estado de ignorância das leis, digno do perdão divino. Através desses conceitos, a igreja católica classificou o que hoje é conhecido como os sete pecados capitais.
Os sete pecados capitais precedem ao próprio cristianismo, sendo vícios que se conhecia na antiga cultura grega, adaptados quando se deu a helenização dos preceitos cristãos. Os sete pecados capitais não são encontrados enumerados nas escrituras sagradas judaico-cristãs. A Bíblia refere-se a todos eles e muitos outros de forma dispersa. Eles só vieram a ser classificados e agrupados pela igreja medieval, a partir do século VI, pelo papa Gregório Magno (540-604), que tomou como referências as cartas apostólicas de Paulo de Tarso. Gregório Magno considerou os sete pecados como mortais, que ao contrastar com os veniais, significavam a morte da alma. Capital, do latim caput (cabeça), significa que os sete pecados são os mais altos de todos os outros, sendo eles: a soberba, a ira, a inveja, a avareza, a gula, a preguiça e a luxúria. Para combater cada pecado capital, foram classificadas sete virtudes: a humildade (soberba), a paciência (ira), a caridade (inveja), a generosidade (avareza), a temperança (gula), a disciplina (preguiça) e a castidade (luxúria). Mais do que um conceito geral da oposição do homem à Lei divina, os sete pecados capitais é uma visão moral dos princípios do cristianismo católico e da igreja que ele representa.

As Listas dos Sete Pecados Capitais

A classificação dos sete pecados capitais tem como raiz velhas tradições dos vícios apontados pela filosofia grega, mescladas às cartas apostólicas cristãs. Com a conversão de Roma ao cristianismo, esta religião perde grande parte da sua essência judaica, sofrendo uma helenização que lhe acrescentaria princípios filosóficos vistos como pagãos. Se para os gregos havia a ausência do pecado, as virtudes eram perseguidas como um ideal. Aristóteles mencionava as virtudes como princípio fundamental da busca da felicidade humana. No ascetismo do cristão medieval, o politeísmo grego é substituído pela Lei de Deus, transgredi-la era pecar contra o amor com o qual o Criador nos concebera. Assim, os pecados capitais são extremos opostos às virtudes, que, ao contrário do que pensavam os gregos, não servem para a felicidade do homem medieval, mas para salvar-lhe a alma.
Na origem mais remota da lista dos sete pecados capitais, está a classificação do grego Evágrio Pôntico (346-399), um monge cristão e asceta, que fez parte da comunidade monástica do Baixo Egito, vivendo as suas experiências ao lado dos homens do deserto. O monge traçou as principais doenças espirituais que afligiam ao homem, chamando-as de os oito males do corpo. Os oito crimes ou paixões humanas constavam na lista de Evrágio Pôntico em ordem crescente, conforme o que ele pensava ter mais gravidade, sendo eles:
A gula, a avareza, a luxúria, a ira, a melancolia, a acídia (preguiça espiritual), a vaidade e o orgulho.
Na lista, a melancolia, vista pelos gregos como uma enfermidade da saúde, é transformada em pecado. Evágrio Pôntico parte do conceito de que, à medida que o homem fechava-se no egoísmo de si mesmo, os pecados tornavam-se mais intensos e degradantes da alma, atingindo um apogeu com o orgulho ou soberba.
A doutrina de Evágrio Pôntico foi conhecida pelo monge Joannes Cassianus, que a divulgou no oriente, espalhando-a pelos reinos cristãos.
No século VI, o papa Gregório Magno ouviu falar na lista do monge grego, adaptando-a para o ocidente. Gregório Magno reduziu a lista de oito para sete itens. Juntou a vaidade ao orgulho, preteriu a acídia à melancolia, e, adicionou a inveja. À lista o papa chamou de os sete pecados capitais, sendo eles:
O orgulho, a inveja, a ira, a melancolia, a avareza, a gula e a luxúria.
Gregório Magno usou a sua própria hierarquia na concepção da lista, classificando-a por ordem decrescente, demarcando os pecados que mais ofendiam ao amor.
Os sete pecados capitais foram difundidos pelo mundo cristão medieval, tornaram-se símbolos da agressão do homem contra Deus, e responsáveis pela perda da alma. Várias listas foram elaboradas por teólogos sobre eles. O dominicano Tomás de Aquino fez um grande estudo sobre os sete pecados, dando-lhes princípios filosóficos inspirados na ética grega. Na sua lista, ele enumera como os sete pecados capitais:
A vaidade (soberba), a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a acídia (preguiça).
No contexto final, a igreja católica classificou os pecados humanos em dois tipos, os pecados que podem ser perdoados através de penitencias, sacramentos e confissões; e, os pecados capitais, dignos da perdição e condenação da alma. Popularizados pelo ascetismo do homem medieval, os sete pecados capitais foram exaustivamente difundidos nas artes e nas lendas da época. No século XVII, a igreja subtraiu oficialmente da lista do papa Gregório Magno a melancolia, por considerá-la vaga como pecado, trocando-a pela preguiça. Por fim, chegou aos nossos dias a seguinte lista de classificação dos sete pecados capitais:
A soberba (ou vaidade), a inveja, a ira, a preguiça, a avareza, a gula e a luxúria.

Evolução dos Sete Pecados Capitais no Mundo Contemporâneo

Para cada pecado foi criada uma ligação com o oposto, originando as sete virtudes, que servem de salvação à alma dos pecadores. São elas:
A humildade, que combate à soberba; a caridade, que quando usada neutraliza a inveja; a paciência, virtude que apazigua a ira; a disciplina, que combate qualquer ociosidade da preguiça da alma e do corpo; a generosidade, poderosa virtude oponente à avareza; a temperança, que evita os excessos da gula; e, a castidade, que protege o corpo, invólucro da alma, da luxúria.
Outras associações foram feitas ao sete pecados capitais. Já na Renascença, Peter Binsfeld comparou-os, em 1589, com um respectivo demônio. Na Binsfeld’s Classification of Demons, seguindo os significados míticos mais usados, a ligação dos sete pecados e os respectivos demônios estão assim enumerados:
Lilith é responsável pela tentação do pecado da soberba (vaidade ou orgulho); Leviatã conduz o homem à inveja; Azazel acende a ira na mente humana; Belphegor está ligado à preguiça; Mammon personifica a avareza; Belzebu está relacionado com a gula; e, Asmodeus, o demônio do sexo e da luxúria.
Mesmo sendo classificados e enumerados pela visão moral e religiosa do homem medieval, os sete pecados capitais continuam presentes na cultura ocidental. Embora o homem contemporâneo tenha amenizado o conceito moral de cada pecado como forma de punição e culpa, a igreja católica continua a usá-los como parâmetros de expiação e prevenção. Em pleno século XXI, o Vaticano não só os ratificou, como atualizou a lista, adaptando-a à realidade de um mundo unido pela globalização. Novos pecados capitais foram acrescentados pelo papa Bento XVI, sendo eles:
A manipulação genética; o uso de drogas; a desigualdade social e, a poluição ambiental, entre outros.
A nova lista de pecados capitais apresentada pelo Vaticano deixa clara que o cristão necessitará de pedir perdão, através da confissão, se cometer tais atos. O homem que acometer contra a natureza, o planeta e à vida, continua a ofender a Deus, cometendo os pecados capitais contemporâneos.

Primeiro Pecado – A Soberba

A soberba, ou vaidade, ou orgulho, é considerada a mãe de todos os pecados. Foi através dela que Eva levou Adão à desobediência, na expectativa de que, ao experimentar do fruto da árvore dos conhecimentos, tornar-se-iam superiores e independentes do próprio Criador. A soberba cega o homem, que através dela, enxerga a grandeza através da distorção da ambição.
Ao procurar a perfeição na extremidade da obsessão, o homem perde-se das suas limitações. De forma passional somos levados a procurar a glória, perdendo a essência de Deus no ápice do poder terreno.
Através da soberba, o homem transforma a sua autonomia de escolha e livre arbítrio em vício, enganando-se sobre si próprio, abraçando o orgulho, a insensatez e a vaidade pessoal, desprezando aos que estão à sua volta e à sua cabeça, como o próprio amor a Deus e à Lei.
A soberba leva o homem a augurar a glória através da falsidade; passando a cultivar a cobiça e a hipocrisia do poder; submetendo-se à imprudência do próprio espelho onde mirou a vaidade e a visão distorcida da sua verdade.
A soberba distancia o homem da humildade, a virtude que se opõe a ela. Distanciando-se da virtude, o homem comete o pecado. Oposta à humildade, a soberba impede o homem de conhecer a ele próprio.

Segundo Pecado – A Inveja

Se a soberba faz o homem voltar à vã glória de si mesmo, a inveja leva-o a atingir outrem, tornando-o mesquinho e repleto de atos que o levam à vilania. Um dos sentimentos mais comuns às pessoas, a inveja reduz a grandeza do ser humano, tornando-o infeliz diante da felicidade alheia.
O homem é atingido pela inveja quando se apega à tristeza ante a glória de outrem, sendo movido por uma força súbita e destrutiva que o faz odiar, ou mesmo atentar contra essa glória ou felicidade alheia.
A inveja leva à maledicência, à intriga e ao falso testemunho. É um pecado que pode passar despercebido pelos que estão à volta de quem o comete, pois é acionado muitas vezes de forma sutil. Ter inveja é uma das maiores características da essência humana. Alimentá-la é muitas vezes, acometer gravemente contra os princípios morais e aos desígnios da fraternidade universal.
A inveja não vem somente em forma de ambicionar o que o outro tem, mas de comparar o Eu e o Outro, numa tentativa muitas vezes inconsciente de subtrair as diferenças, nivelando a sensação de não se suportar alguém que se nos ponha à frente. A inveja distancia-se da caridade, a virtude responsável pela magnificência do homem diante do outro.

Terceiro Pecado – A Ira

A ira leva o homem à insanidade dos atos, fazendo-o travar o sentimento de vingança contra aquele que o ofendeu. Fere não só os princípios do amor divino, como um conceito fundamental do cristianismo, o de oferecer a outra face. A ira leva à vingança, à cólera exacerbada e sem limites, que faz com que se ofenda verbalmente o outro, ou mesmo que se agrida e lese corporalmente aquele que a atiçou.
A ira é completa perda da razão, afetando indelevelmente à construção moral humana. É um estado fugaz na desconstrução da dignidade, não fazendo parte constantemente da personalidade humana. Ela pode vir rápida como um relâmpago, transformando-se mortalmente em um raio. Evitá-la requer um conhecimento do homem por ele mesmo. Não se pode confundi-la com o ódio, que se manifesta muitas vezes de forma racional. A ira é um estado ilógico, em que se perde a razão por completo. É uma explosão irracional da alma, movendo-a para o pecado da existência. É o domínio total da emoção sobre a razão.
A ira opõe-se à virtude da paciência, fazendo com que se perca todos os seus elementos. Pode vir em forma de palavras ultrajantes contra o outro, ou de agressão física, muitas vezes de forma perigosa. É uma explosão destrutiva dos sentimentos ruins, muitas vezes arraigados no inconsciente humano. A paciência é uma virtude que combate a ira, para tê-la, é necessário um grande conhecimento do mundo à volta e de si próprio.

Quarto Pecado – A Preguiça

Dotado da inteligência e da autonomia de criar, caminhar, realizar tarefas e prover o próprio sustento, visto que se perdeu a prosperidade do jardim do Éden; o homem tem por obrigação empenhar toda a sua capacidade, fazendo-o com louvor por herdar do Criador a capacidade das suas ações.
Ao quedar-se diante do empenho da própria sobrevivência e labuta, volvendo-se na procura sem limites do repouso e do prazer em nada fazer, o homem omite-se e passa a negligenciar o seu bem espiritual. Então ele comete o pecado secular da preguiça, fazendo da vida um tédio e uma tristeza não somente ao exterior em que se sobrevive, mas ao interior do espírito.
A preguiça leva à indolência do homem, que não se vê capaz de realizar os atos para os quais Deus o criou, deixando-se levar pela inércia e pelo pecado de desprezar a própria vida, fazendo-a morna e sem o seu devido valor divino e sagrado. A preguiça impede o homem de buscar novos conhecimentos, tantos universais como espirituais, limitando as idéias e o iluminismo à sua volta.
O pecado da preguiça faz com que o homem não perceba o momento, mergulhando em um eterno depois às coisas, sem a preocupação de vivenciar a vida que se lhe foi presenteada pela grandiosidade de Deus. A preguiça opõe-se à virtude da disciplina, responsável pela organização e aprendizado humano, tornando-o objetivo diante do que se lhe põe à frente.

Quinto Pecado – A Avareza

O apego e amor exacerbado pelo dinheiro e pelos bens materiais constituem a principal característica da avareza. A vontade insaciável do possuir liga-se profundamente com a cobiça.
O homem avarento inclina-se em juntar para si todos os tipos de bens materiais, guardando-os e preservando-os como se tivessem vida. O coração avaro endurece, fechando-se às necessidades dos outros que giram ao seu redor. O desejo de possuir bens materiais faz parte da essência humana, tomá-lo como objetivo principal aflora o pecado capital da avareza.
O avarento tenta através da busca e preservação dos bens, suprir uma carência afetiva e dificuldade em receber e dar o afeto, fazendo do possuir uma sensação efêmera de vitória e realização. À medida que a avareza toma conta da alma, a insatisfação pessoal ultrapassa ao bem estar material, deixando o avarento inquieto e solitário, preso em uma busca constante de querer para si todos os bens palpáveis e materiais, sobressaindo-se aos afetivos e espirituais. A avareza tira do homem a satisfação em dividir, presentear e conviver em grupos sociais. Só o seu mundo inconstante em busca de bens passa a fazer sentido, o medo de perdê-lo faz com que se isole cada vez mais.
O pecado da avareza opõe-se à virtude da generosidade. O homem deixa de ser generoso com o próximo, apegando-se ao dinheiro e à necessidade de gastá-lo em algo que possa reter. É através da generosidade que o homem atinge a sua essência universal, a avareza corrói esta virtude, aflorando a parte mesquinha do gênero humano, fazendo dele uma ilha isolada.

Sexto Pecado – A Gula

Os princípios básicos da sobrevivência de qualquer ser vivo na natureza, seja o homem ou os animais, estão na capacidade de comer e de fazer sexo. A comida garante que se mantenha vivo, o sexo que se perpetue como prole. Comida e sexo garantem a perpetuação da vida, através de um prazer que causa o bem estar de todo ser vivo.
Comer e beber faz parte da alegria humana, da garantia da sua sobrevivência. São prazeres que normalmente o homem transgride, fazendo da necessidade o desejo, resumindo-o à satisfação do desejo de um pecado venial, não ao prazer de sobreviver.
Ordenar o prazer natural que rege as nossas vidas nem sempre é possível, gerando o pecado da gula, que constitui numa procura intensa do prazer no beber e no comer. A razão esvai-se, sucumbindo ante da vontade. O apetite em excesso transforma-se na fome de viver, não no prazer dele se retirar a sobrevivência. A gula trava luta constante entre o prazer da carne e o crescimento espiritual, afastando o homem de Deus, que se torna no furor do seu apetite, negligente com a alimentação espiritual.
A gula é o pecado capital que contrasta com a virtude da temperança. Seus excessos levam à degradação do próprio corpo humano, que uma vez sendo alimentado com mais do que necessita, perde o seu equilíbrio natural e saudável. A saúde esvai-se se não mantida com a temperança.

Sétimo Pecado – A Luxúria

Se o sexo é o prazer que o homem tem no seu instinto básico para que se perpetue a sua prole, ele em excesso traz o vício, a desonra e o desequilíbrio da harmonia. A luxúria é a procura obsessiva e desordenada dos prazeres da carne, levando-nos ao vazio absoluto dos sentimentos.
A visão do sexo como luxúria torna este pecado capital o mais controverso no século XXI. A evolução moral da civilização judaico-cristã trouxe a chamada liberação sexual, em que o sexo passou a ser visto como fonte de prazer físico e psicológico e não apenas como função reprodutiva. Muito do que era visto como luxúria pela igreja medieval, foi diluída na liberação dos costumes sexuais da sociedade ocidental.
Mesmo diante da revolução sexual que aflorou na segunda metade do século XX, a visão do pecado da luxúria, o sexo em excesso, continua a ser a mesma que se apresentava quando o papa Gregório Magno criou a lista dos sete pecados capitais. O dominicano Tomás de Aquino, classificava a luxúria em duas vertentes: a primeira, quando praticada contraria o bom senso e a razão, originando a fornicação excessiva, a agressão contra os princípios da castidade, o adultério entre os casais, e o incesto entre os membros da família; a segunda vertente de Tomás de Aquino é a luxúria que contraria a ordem natural do ato venéreo, como a sexualidade praticada entre pessoas do mesmo sexo. Se Tomás de Aquino utilizou a ética aristotélica em sua teologia dos sete pecados, com a luxúria ele deixa a filosofia grega, apegando-se aos preceitos judaico-cristãos, que condenam o homossexualismo, transformando o ato no mais grave dentro da luxúria, sendo visto como mais abominável do que o adultério e o incesto.
O pecado da luxúria opõe-se à virtude da castidade, muito apreciada pelo homem através dos séculos, mas que perdeu a importância da sua essência quando das mudanças culturais que a cristandade católica sofreu nas últimas décadas. A castidade embora minimizada, continua a ser uma virtude admirada, mas deixou de fazer parte essencial da sexualidade do homem contemporâneo.


QUANDO OS BONDES E OS AUTOMÓVEIS INVADIRAM AS RUAS DE SÃO PAULO

agosto 30, 2009
São Paulo é uma metrópole com cerca de 13 milhões de automóveis, uma das maiores frotas do mundo. O imenso número obrigou a promulgação de uma lei municipal que criou um sistema de rodízio, proibindo que todos os automóveis circulem ao mesmo, evitando assim, congestionamentos caóticos e uma poluição a nível insuportável na atmosfera da cidade.
Uma vasta rede de transportes ajuda o deslocamento diário de milhões de habitantes. Metropolitano, trens suburbanos, ônibus, tudo faz parte de um complexo, e nem sempre eficaz, serviço de locomoção que não deixa a maior cidade do Brasil parar.
Mas nem sempre foi assim. Durante séculos a capital paulista não passou de uma vila atrasada, que mesmo quando elevada à categoria de cidade, manteve-se fechada ao país, longe de vislumbrar o progresso. Nas ruas de chão batido, carros de bois, mulas e outros animais serviam de transporte. Com a chegada das estradas de ferro, que transpunham a Serra do Mar e ligavam a capital paulistana com as terras produtoras cafeeiras do interior, rompeu-se finalmente, o isolamento ao qual São Paulo estava confinada.
Primeiro chegaram as estações ferroviárias, trazendo o progresso. Depois, em 1872, vieram os bondes, a princípio movidos à tração animal, depois à eletricidade. Finalmente, o primeiro automóvel chegou às ruas em 1893. Desde então, jamais parou de circular. O progresso veio como um meteoro atingindo a pacata cidade, transformando-a em grande metrópole. Este artigo é um passeio pelos primórdios dos transportes em São Paulo, ilustrado por fotografias de cartões postais da época, que registraram com primor o pulsar do progresso daquela que se tornaria uma das maiores cidades do planeta.

As Estações Ferroviárias

O difícil acesso a São Paulo, fez dela uma vila pobre e isolada. Entre o litoral e os vales genéticos havia a grande muralha da Serra do Mar, quase que instransponível. Os bandeirantes desbravaram as matas, partindo da vila paulistana, que se tornou um entroncamento entre o mar e o interior sertanejo. Com o passar dos anos, o progresso chegou, aos poucos, à vila, elevando-a a uma cidade isolada, suja e sem brilho. Assim foi até que se entrou na época em que a produção cafeeira tornou-se a principal economia do Brasil. Novamente São Paulo servia de entroncamento entre o porto para onde o café era escoado, e as terras férteis do interior do Estado, onde era cultivado.
Com a necessidade de se escoar o café, exportando-o para o resto do mundo, era preciso modernizar os meios de transporte. Surgiram as estradas de ferro que ligavam o interior produtor de café com a capital paulistana, transpondo a Serra do Mar. Primeiro veio a Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867, na década seguinte surgiram a Sorocabana e a Central do Brasil, fazendo de São Paulo um importante entroncamento viário, trazendo-lhe um súbito surto de progresso. Através das estradas de ferro circulavam as riquezas que convergiam do interior e do litoral, e as industrias, nascidas ao longo dos desvios ferroviários.
A The São Paulo Railway, ou Estrada de Ferro dos Ingleses, interligava Santos a Jundiaí. Foi idealizada pelo Barão de Mauá, que associado a capitalistas ingleses, conseguiu a aprovação do imperador ao projeto, em 1859. Sua abertura ao tráfego foi feita oficialmente em 16 de fevereiro de 1867.
A principal estação da São Paulo Railway era a mítica Estação da Luz. Trazendo na sua versão original uma arquitetura modesta, a primeira Estação da Luz foi inaugurada no mesmo dia que se abriu o tráfego da Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867. Ao seu redor, foram desenvolvendo pequenas indústrias e bairros operários como o Bom Retiro e o Brás. A estação atual, um prédio neoclássico, foi construída entre 1895 e 1901, provavelmente inspirada na Flinders Street Station, de Melbourne ou Sidney, na Austrália. O material usado na construção foi todo importado da Inglaterra. Tendo a torre mais alta de São Paulo na época, a Estação da Luz tornou-se um chamativo atrativo da cidade, transformando-se em um grande cartão-postal, tornando-se por muitos anos o símbolo da Paulicéia. Um grande incêndio, em 1946, destruiu o prédio parcialmente. Reformada, ela teve o acréscimo de um pavilhão, sendo reinaugurada em 1950. A estação passou, ao longo das décadas, a receber ônibus vindos de todo o Brasil. A função de estação rodoviária foi extinta em 1982, com a inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê.
A Estrada de Ferro Sorocabana, que ligava o interior paulistano e os estados do sul à Paulicéia, foi inaugurada em 10 de julho de 1875. Inicialmente, a estação que servia à estrada era a de um prédio antigo da Praça General Osório, construído em 1914, sobre um projeto do escritório de Ramos de Azevedo. Este prédio viria a ser as instalações do tétrico Dops (Departamento de Ordem Política e Social), tornando-se um dos locais de tortura de presos políticos durante a ditadura militar. Atualmente abriga a Pinacoteca de São Paulo.
Em 1938 foi inaugurada uma nova estação da Estrada de Ferro Sorocabana, chamada de Estação Júlio Prestes. O prédio da estação, projeto do arquiteto Christiano Stockler das Neves, começou a ser construído em 1926. Trazia uma belíssima torre de 75 metros de altura e um magnífico salão. Nos dias atuais, depois de reformado, o prédio foi destinado a ser utilizado como espaço cultural.
Finalmente, a Estrada de Ferro Central do Brasil (aqui em uma fotografia de um cartão postal de 1905), que ligava a capital do Brasil, Rio de Janeiro, à capital paulista, tinha a sua estação na Avenida Rangel Pestana, nas proximidades do Largo da Concórdia, no Brás. Popularmente conhecida por Estação do Norte, foi inaugurada em 1875. A partir de 1887, dois trens noturnos, um deles de luxo, mantinham a ligação com a capital federal. A estação foi demolida no começo do século XX, sendo substituída pela Estação Roosevelt.
Para completar o ciclo ferroviário primitivo de São Paulo, existia a Estação da Cantareira, situada na Rua 25 de Março, em frente ao mercado. Dali saía uma pequena linha de tramways, depois uma ferrovia, inaugurada em 1894. Um pequeno trem, chamado de “trenzinho da Cantareira”, atravessava a cidade rumo a Serra da Cantareira, onde estava o Horto Florestal e os açudes que abasteciam de água a cidade. Era uma viagem que servia como turismo ecológico, com paisagens pitorescas. O trenzinho parava em Santana, Mandaqui, Tremembé e na Cantareira. A última viagem do trenzinho da Cantareira foi feita em 31 de maio de 1965, pela locomotiva 3131. Na plataforma, uma faixa feita pelos servidores dizia-lhe adeus:
Os funcionários do Trenzinho da Cantareira desejam ao comércio e ao povo muitas felicidades, no adeus saudoso de despedida ao velho e inesquecível trenzinho.”

A Implantação dos Bondes

O progresso lento da capital paulista foi aos poucos, acelerando. Transformada em uma cidade de entroncamento ferroviário, era preciso que transportes eficazes vencessem as distâncias e chegassem aos novos bairros operários. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha das chamadas diligências sobre trilhos da cidade, efetuada pela Carris de Ferro de São Paulo. Os primeiros transportes eram efetuados por tração animal. O sistema era tido como um passo importante rumo à modernidade de uma cidade que começava a ter importância no cenário econômico do Brasil.
Mas o sistema de bondes só ganhou grande impulso quando a energia elétrica chegou à Paulicéia, iluminando as suas ruas. Em 1900 começaram a circular os bondes elétricos da Light. A primeira linha inaugurada foi a da Barra Funda. As linhas de bondes elétricos foram, aos poucos, conectadas a todos os bairros da cidade. Os serviços oferecidos pelo transporte eram distintos, tendo bondes de primeira e segunda classe; alguns especiais para transportar operários; ou ainda, aqueles que circulavam à saída dos teatros e dos campos de futebol, que se tornaram a nova febre da Paulicéia.
A vida dos bondes elétricos pelas ruas de São Paulo foi longa, durou mais da metade do século XX. Em 27 de março de 1968, foi realizada a última viagem de bonde elétrico na Paulicéia. O último bonde foi o carro “Camarão 1543”, da linha de Santo Amaro. Saiu todo enfeitado com bandeiras. A população paulistana veio às ruas despedir-se do tradicional transporte. Senhoras já saudosas punham os filhos nas janelas para fotografar o bonde. Pelos bairros, mesas preparadas com banquetes interrompiam o trajeto, obrigando-o a parar. A população cantava velhas marchinhas de carnaval, acenando com lenços brancos, causando comoção e lágrimas na despedida do último bonde elétrico de São Paulo.

O Automóvel Chega às Ruas da Paulicéia

O primeiro automóvel circulou pelas ruas de São Paulo em 1893. Pertencia a Henrique Santos Dumont, irmão do célebre aviador Alberto Santos Dumont. Há relatos que apontam para o próprio Santos Dumont como dono do primeiro carro que teria circulado não só em São Paulo, como no Brasil. O Pai da Aviação teria trazido da França, em 1891, um Peugeot que havia comprado por 1200 francos.
O segundo automóvel a circular pela capital paulista viria em 1898, sendo de propriedade do doutor Tobias de Aguiar. Tinha dois lugares, rodas dianteiras menores que as traseiras, portando uma alavanca horizontal como volante.
Nos primeiros anos do século XX, diante da novidade nas ruas paulistanas, o prefeito Antonio Prado obrigou os veículos a utilizarem placas, mediante pagamento de taxa. Henrique Santos Dumont teria solicitado a isenção do pagamento da taxa, alegando que as ruas da cidade estavam em más condições para a circulação de tráfego. A crítica não agradou ao prefeito. Henrique Santos Dumont teve a sua licença para dirigir automóvel caçada e perdeu a placa P-1, que foi posta, em 1903, no carro do industrial Francisco Matarazzo.
Antonio Prado baixou uma portaria, que garantia a velocidade máxima “a de um homem a passo” nos locais com aglomeração de pessoas, podendo exceder aos 12 quilômetros por hora nas ruas da cidade, aos 20 quilômetros nos locais habitados, e a 30 quilômetros em campo raso. A licença de habilitação dada pela prefeitura exigia que o motorista conhecesse todos os componentes do automóvel e saber manobrá-lo, além de ser necessário ter “prudência, sangue frio e visualidade”, segundo a portaria baixada.
Em 1904 foi criada a Inspetoria de Veículos, que registrou a existência de 84 automóveis em São Paulo.
Em 1908 foi fundado o Automóvel Club de São Paulo, que logo à partida, organizou uma corrida, chamada de “Bandeirantes Sobre Rodas de Borracha”. Quinze carros participaram, tendo o conde Silvio Penteado chegado em primeiro lugar, após percorrer setenta quilômetros em uma hora e trinta minutos.
Em 1912, foi inaugurado o transporte motorizado de passageiros, que viriam a ser os futuros táxis, pela empresa Auto Viária Paulista.
A direção dos carros era uma exclusividade dos homens. Quando a Senhora Batista Franco, em 1918, chegou a São Paulo dirigindo o seu automóvel, provocou grande escândalo, incitando a indignação e o repúdio das famílias tradicionais paulistanas.
Diante do crescimento de veículos circulando pelas ruas de São Pulo, em 1915, no governo de Washington Luís, foi instituído o policiamento do trânsito, com guardas que, usando luvas e polainas brancas, montados em cavalos, dirigiam o tráfego de veículos e pedestres. Para que se pudesse ser um policial do trânsito, o candidato ao cargo tinha que ter no mínimo 1,80 metro de altura.
Em 1920, a Ford chegou ao Brasil; numa oficina da Rua Florêncio de Abreu, começou a fabricar carros no país.
Os primeiros ônibus que invadiram a capital paulistana surgiram em 1924, numa conseqüência da crise que o bonde elétrico atravessava como transporte público. Os primeiros ônibus que circularam foram chamados pelos populares de “Mamãe-me-leva”. Posteriormente passaram a ser chamados de “Jardineiras”.
Os automóveis, particulares ou públicos, pequenos ou grandes como os ônibus, aos poucos tomaram as ruas de São Paulo, banindo os velhos bondes elétricos e os animais que ainda serviam como transportes. Tornaram-se imprescindíveis quando a cidade transformou-se numa grande metrópole. Nos tempos atuais, cerca de treze milhões de veículos circulam pela Paulicéia.