POEMAS DOS LIVROS SAGRADOS

junho 3, 2013

 

A Bíblia, livro sagrado do cristianismo em seu todo, e do judaísmo nas chamadas “Escrituras Antigas”, ou “Velho Testamento”, traz em seu texto religioso os princípios fundamentais da palavra de Deus transmitida aos homens.
Escrita de forma épica, conta a história do homem desde a sua criação, aos pactos que o fez ligado ao Criador. Traz, fundamentalmente, as leis que servem de preceitos morais para que o homem seja digno do amor divino.
Importante fonte histórica, imprescindível na formação da moral ocidental, nos princípios que ligam o homem a Deus, o livro sagrado também é uma fonte de beleza poética, com textos de rara estética visual e metáforas líricas, que nos seduz pelas palavras, transcendendo o princípio da fé, pousando como uma suave e definitiva sensação de regozijo literário.
Na força das palavras reveladoras, a beleza verbal da palavra sagrada, que nos afasta dos precipícios da solidão universal, conduzindo-nos pela certeza do amor como adjetivo supremo para a ligação dos mortais a Deus.
“No amor não há temor, mas o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor exerce uma restrição. Deveras, quem está em temor não tem sido aperfeiçoado no amor.” (1 João 4:18)
Três trechos são mostrados neste artigo, que se limita apenas a apresentar a poesia sonora e estética, sem se aprofundar na mensagem profética, sapiencial ou religiosa; atendo-se na beleza poética da descrição mais sublime do amor (1 Coríntios), na condição do homem diante de Deus, do tempo estabelecido à humanidade (Eclesiastes), e, na beleza etérea do leito nupcial (Cântico de Salomão). Três momentos do sagrado em uma visão unicamente literária. Três textos de envolvente beleza entre o erudito e o lúdico, o sagrado e o poético, o finito do homem com o infinito de Deus.

O Cântico dos Cânticos

Um dos livros mais poéticos da Bíblia é o “Cântico de Salomão”, também conhecido como “Cantares”, “Cântico dos Cânticos” ou “Cântico Superlativo”. Faz parte do que é chamado pelos cristãos de “Antigo Testamento”. A sua autoria é atribuída ao rei Salomão, filho de Davi. É um livro curto, constituído apenas de oito capítulos, formado por uma estrutura complexa, onde diferentes personagens adquirem voz, numa construção lírica. Três personagens constituem o poema: o noivo, o rei Salomão e a noiva identificada como Sulamita. Construindo um hino nupcial, coros sopram o doce ecoar dos sentimentos, dividindo-o no momento do início do amor e no do seu amadurecimento. Escrito de maneira sensual, com imagens telúricas a tocar no limiar entre o sagrado e o profano, oCântico de Salomão vem, ao longo dos séculos, suscitando algumas interpretações agnósticas e sendo questionado como texto sagrado. O belo poema nupcial permanece, entretanto, como parte do maior livro religioso do mundo ocidental, sendo interpretado por alguns como alegórico, em que os noivos seriam Deus e Israel na visão judaica, e Cristo e a igreja, na concepção cristã. Seja como for, é um dos mais belos poemas líricos de todos os tempos.

1 Ah, se fosses meu irmão, amamentando ao seio de minha mãe! Então, encontrando-te fora, poderia beijar-te sem que ninguém me desprezasse.
2 Eu te levaria, far-te-ia entrar na casa de minha mãe; dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs.
3 Sua mão esquerda está sob a minha cabeça; e sua direita abraça-me. 
4 Conjuro-vos, oh filhas de Jerusalém, não desperteis nem perturbeis o amor, antes que ele queira.
5 Quem é esta mulher que sobe do deserto apoiada em seu bem-amado?
Debaixo da macieira eu te despertei, onde em dores te deu à luz tua mãe. Onde em dores te pôs no mundo tua mãe.
6 Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços, porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o Seol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama de Jah.
7 As torrentes não poderiam extinguir o amor, nem os rios poderiam submergi-lo. Se um homem desse toda a riqueza de sua casa em troca do amor, só obteria desprezo.
8 Temos uma irmã pequenina que não tem ainda os seus seios formados. Que faremos nós de nossa irmã no dia que for pedida?
9 Se ela for uma muralha, construiremos sobre ela ameias de prata; mas se ela for uma porta, fechá-la-emos com batentes de cedro.
10 Sou uma muralha, e meus seios são como torres. Neste caso me tornei aos seus olhos uma fonte de alegria.
11 Salomão tinha uma videira em Baal-Hamon. Confiou-a aos guardas, cada um dos quais devia dar mil moedas de prata pelos frutos colhidos.
12 Eu disponho de minha videira. Mil moedas para ti, ó Salomão! Duzentas para aqueles que velam a colheita.
13 Ó tu que moras nos jardins, os amigos estão atentos. Faze-me ouvir a tua voz.
14 Foge, meu bem-amado, como a gazela ou à cria dos veados sobre os montes perfumados!
 (Cântico de Salomão 8: 1-14)

O Tempo de Todas as Coisas

Outro livro poético e sapiencial do “Antigo Testamento” é “Eclesiastes”, ou Kohelet na versão hebraica. Sua autoria é atribuída ao mítico e sábio rei Salomão. No trecho descrito abaixo, o poema afirma a tranqüilidade de saber esperar o tempo certo de todas as coisas da vida. A descoberta de cada momento, do amor divino, das tribulações, dos segredos do trabalho árduo, do labutar secular, da procura única pelo repouso das armas, da guerra e da paz, como se a paisagem humana fosse o resultado de cada tempestade ou bonança, contida ou expandida nos ventos da existência. É a beleza pura da palavra divina na sua concepção poética.

1 Para tudo há um tempo determinado, sim, há um tempo para todo assunto debaixo dos céus;
2 Tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para desarraigar o que se plantou;
3 Tempo para matar e tempo para curar; tempo para derrocar e tempo para construir;
4 Tempo para chorar e tempo para rir, tempo para lamentar e tempo saltitar;
5 Tempo para lançar fora pedras e tempo para reunir pedras, tempo para abraçar e tempo para manter-se longe dos abraços;
6 Tempo para procurar e tempo para dar por perdido; tempo para guardar e tempo para lançar fora;
7 Tempo para rasgar e tempo para costurar; tempo para ficar quieto e tempo para falar;
8 Tempo para amar e tempo para odiar, tempo para guerra e tempo para paz;
9 Que vantagem tem o realizador naquilo em que trabalha arduamente?
10 Vi a ocupação que Deus deu aos filhos da humanidade para se ocuparem nela.
11 Tudo ele fez bonito no seu tempo. Pôs até mesmo tempo indefinido no seu coração, para que a humanidade nunca descobrisse o trabalho que Deus tem feito do começo ao fim.
(Eclesiastes 3: 1-11)

O Amor na Inspiração Apostólica

Uma das mais belas descrições do amor, no sentido mais latente e extensivo da palavra, do abranger do significado universal das coisas, está na primeira epístola que Paulo de Tarso enviou à congregação de Corinto, no livro “1 Coríntios”, parte do Novo Testamento cristão. É o amor como sentido verdadeiro, construtivo e supremo. Nada o faz mais real se não a verdade, nada o dizima no todo como a mentira. Só no âmago do genuíno amor é feita a luz que conduz o fio tênue entre o homem e a magnificência de Deus. O amor aqui é soprado como o mais lírico de todos os cantos. Nunca a inspiração divina foi tão sensivelmente tão poética.

1 Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que retine.
2 E ainda que tivesse o dom de profetizar, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse o amor, nada seria.
3 E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4 O amor é longânime e benigno. O amor não é invejoso, o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. 
5 Não se comporta indecentemente, não busca os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano.
6 Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade.
7 Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas.
8 O amor nunca falha. Mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas; cessarão; havendo ciência, desaparecerá.
9 Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10 Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11 Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12 Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13 Agora, porém, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.
 (1 Coríntios 13: 1-13)

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POEMAS LUSITANOS

dezembro 31, 2010

Portugal, último pedaço de terra da Europa ocidental. Ao longe… o mar! Pátria dos destemidos navegantes, que rasgando os oceanos, levou a língua e o sentimento lusitano para terras desconhecidas.
Portugal do fado. Da poesia. Da saudade. Tão estranha e solitária palavra, só existente em língua portuguesa, porque a saudade é genuinamente lusitana.
Das vinhas do Douro às cortiças do Alentejo, das ruas de Alfama aos labirintos noturnos do Bairro Alto. Em cada canto um poeta, utilizando da velha língua extraída da extinção do latim, do paganismo eclético, do cristianismo asséptico.
Portugal e sua gente eternamente saudosista, do ontem que se foi, do hoje que se esvai e do amanhã que se esgotará. Porque a saudade portuguesa é lei, é identidade, é a essência de um povo que sorri com as lágrimas.
Terra de grandes poetas, que destilam nas suas palavras a emoção à flor da pele, as dúvidas da existência, a constatação da vida.
Neste artigo faremos uma visita breve aos poemas lusitanos, aos poetas que ecoaram as suas palavras pelos quatro cantos do solo português. Da coragem épica de Luís de Camões, navegaremos pelo oceano do pai de todos os poetas de língua portuguesa. Da ribeira secular da cidade do Porto, atravessaremos o mar lírico de Sophia de Mello Breyner Andresen. Das montanhas geladas transmontanas, escalaremos as palavras de Miguel Torga. Da Lisboa eterna, cruzaremos as ruas estreitas do existencialismo de Fernando Pessoa e de David Mourão-Ferreira. Da beleza agreste do Alentejo, arrebataremos a poesia passional de Florbela Espanca. Do coração da Coimbra histórica, beberemos a mais doce melancolia de Al Berto.
Poetas lusitanos. As suas palavras dispensam qualquer análise, qualquer apresentação formal. Foram escritas para que sejam sentidas, na mais pura essência da emoção, do encontro do leitor com a alma do poeta.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mais Triste do Que o Que Acontece – Fernando Pessoa

 

Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, que o entristece?
Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!

Saudades – Florbela Espanca


Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem me dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Réquiem Por Mim – Miguel Torga

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Há-de Flutuar Uma Cidade… – Al Berto

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
á beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Paira à Tona de Água – Fernando Pessoa

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!…

Escada em Caracol – David Mourão-Ferreira


É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

Tarde Demais – Florbela Espanca

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!…

Súplica – Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto,
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Quando – Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Na Véspera de Nada – Fernando Pessoa

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fotos: José Luís Mendes (1 Odisseia), Helena Margarida Pires de Sousa (2 Andei Léguas de Sombra), CrisSant (3 Vergonha), Daniel Pedrogam (4 In My Dreams, I Found Someone Like You), Marvimm (5 Única Saída), Thiago Phelipe (6 – , 7 A Carta), Paulo César (8 Faz-me Voar, 10 O Sabor da Tua Pele no Céu da Minha Boca), Gonzales (9 Untiled), Ugly (11 Apple Tree), DDiArte (12 Brainstorming)


CHARLES BAUDELAIRE – ABSINTO E FLORES DO MAL

julho 17, 2010

Charles Baudelaire, uma das mais controversas personalidades da literatura francesa, foi um dos maiores poetas universais de todos os tempos. Dedicou a sua vida à boemia embriagante e à força da palavra em forma da mais genuína emoção da poesia.
Numa visão muitas vezes cáustica do mundo e da realidade, ele consegue impregnar a esta visão o lirismo agudo, quase imposto à realidade. Homem de emoções extremas, dilapidou o seu dinheiro nas noites e cafés parisienses, entregando-se ao sabor do absinto, extraindo da bebida verde, reza a lenda, todas as alucinações poéticas do mundo.
Viveu amores intensos, elevou a beleza da mulher em seus poemas, idolatrando-a e ao mesmo tempo, mostrando-se reticente e desconfiado, fazendo da paixão feminina o seu céu e inferno dilatados em um mesmo contesto lírico. Das paixões e dos leitos herdou a sífilis, mal que o consumiria por toda a vida. Do absinto, do ópio, do haxixe e dos excessos, definhou a saúde até perdê-la para a morte, com pouca mais de 46 anos de idade.
Considerado obsceno e maldito ao publicar a obra poética “As Flores do Mal”, em 1857, Baudelaire teve o volume original amputado em seis poemas, sendo condenado pela justiça a pagar pesada multa por blasfêmia e obscenidade. Sua obra introduzia novos elementos na linguagem poética, onde o existencialismo era fundido em seus opostos, mostrando-se sublime e grotesco, numa atitude de rebeldia perene diante das moralidades sociais, indignando os mais conservadores da sua época.
Buscando sempre por temas frívolos, a poesia de Baudelaire flerta com o romantismo levado ao extremo, sendo vista como precursora do Simbolismo, ou mesmo como antecedente ao Parnasianismo. Pouco compreendido e muito criticado no seu tempo, influenciou poetas como Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, e conquistou a admiração de romancistas como Victor Hugo e Gustave Flaubert, passando de forma indelével pela intelectualidade francesa do século XIX.
Baudelaire deixou uma obra única e intocável, com o lirismo a derramar sobre o céu e o inferno, a beleza e o medo, o anjo e o vampiro. Nos seus retratos, o rosto trazia um olhar duro e impenetrável, quase indomável, como a sua poesia.

A Infância e o Convívio com o Padrasto

Considerado um dos ícones da poesia francesa, Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821, na Rua Hautefeuille, número 13, onde hoje está localizada a Livraria Hachette. Filho de Joseph-François Baudelaire e de Caroline Archimbaut-Dufays, o pequeno Charles-Pierre viu-se órfão do pai muito cedo, que morreu quando ele tinha seis anos, sendo criado pela mãe e por sua enfermeira, Mariette, sob uma proteção feminina absoluta.
O destino da criança mudaria bruscamente, quando sua mãe Caroline, casou-se em novembro de 1828, quase dois anos depois da morte do pai, com o militar Jacques Aupick. Começaria uma relação tensa entre a natureza libertária de Baudelaire e a rigidez de caserna do padrasto. O poeta jamais conseguiu gostar do padrasto, apesar de ter convivido a maior parte da infância e adolescência sob a sua tutela. Não se podia conciliar o caráter rebelde de um com a disciplina eloqüente do outro, gerando uma convivência acentuada pelas diferenças.
A condição de militar brilhante e em ascensão permanente, fazia com que Jacques Aupick fosse periodicamente transferido de uma cidade para a outra. Em 1832, o então coronel foi transferido para Lyon, levando a família para ali morar no ano seguinte. Naquela cidade freqüentou o Colégio Real de Lyon. Na escola militar, Baudelaire sentiu a rigidez disciplinar e o estudo rigoroso a confrontar com a sua personalidade, gerando uma maior animosidade com o padrasto.
Na adolescência, aos quinze anos, o poeta passou a freqüentar o Louis-Le-Grand, tradicional colégio de Lyon. Tornara-se um jovenzinho rebelde e insolente, tomado de empáfia que desagradava aos professores, culminando com a sua expulsão do estabelecimento, em 1839, por não querer mostrar ao mestre um bilhete que lhe havia passado um colega. Seria enviado para Paris para ali concluir o liceu.
Para decepção da mãe e do padrasto, o jovem declara muito cedo a intenção de ser escritor. Mais uma vez entrava em confronto com os ideais do padrasto, que naquele ano fora promovido a general de Brigada.
A relação de Baudelaire com o padrasto é uma página especial na biografia do poeta. Foi desta relação densa e delicada que surgiu o caráter rebelde, diluído em atitudes que desafiavam as convenções dos costumes morais e sociais da época. Foi após uma viagem com a mãe e o padrasto aos Pirineus, em 1838, que ao regressar, Baudelaire escreveria o poema “Incompatibilité”, já a evidenciar a sua característica inovadora na poesia de então. Por sua vez, Jacques Aupick seguiria uma carreira militar brilhante, distinguindo-se como general, chegando a ser embaixador e senador. O que deveria ser um exemplo a seguir por Baudelaire, contrastou-se com a sua índole de poeta e boêmio, fazendo que sempre procurasse o oposto da conduta disciplinada do padrasto.

Vida de Excessos em Paris

Para amenizar as relações familiares, o jovem poeta aceitou seguir estudos na escola de Direito de Paris, a Ecole de Droit. Na capital francesa, passou a morar na famosa pensão para estudantes Lévêque Bailly. Ali fez amizade com diversos jovens boêmios, iniciando-se em um estilo de vida marcado pelos excessos e pelo desejo de transgredir, ir além dos limites morais do que lhe permitia o século XIX. Foi na pensão de estudantes que ele travou amizade com os poetas Gustave Vavasseur e Enerts Prarond.
Em Paris, as noites frívolas do poeta distanciaram-no dos estudos. Entregou-se às descobertas do corpo e da mente. Deixou-se embalar pelo absinto, bebida de alto teor alcoólico, que ingerida em grandes quantidades produz alucinações, o que levou à sua proibição na Europa. Também o ópio e o haxixe tornaram-se familiares ao poeta. Durante aquele tempo, iria endividar-se todo.
Totalmente seduzido pela noite, Baudelaire começava a descobrir os encantos da beleza feminina, que ele exalta como um esplendor de luz e de trevas, de desejos e de precipícios, de caminhos edênicos e labirintos tortuosos. Vive um intenso relacionamento amoroso com Sarah, uma prostituta de origem judia, conhecida na Cidade Luz como Louchette. Suas aventuras românticas e sexuais nos prostíbulos parisienses deixam-lhe sensações que encherão as páginas da sua poesia, mas também deixará uma triste e definitiva realidade, a contração da sífilis, doença que na época não tinha cura, e o acompanharia até a morte.

Hymne à la Beauté (original)

Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme,
O Beauté? Ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l’on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l’aurore;
Tu répands des parfums comme un soir oraguex;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l’enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charme suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l’Horreur n’est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L’éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crepite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L’amoureux pantelant incliné sur belle
A l’air d’un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l’enferm qu’importe,
Ô Beauté! Monstre enorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m’ouvrent la porte
D’un Infini que j’aime et n’ai jamais connu?

De Satan ou de Dieu, qu’importe? Ange ou Sirène,
Qu’importe, si tu rends, – fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! –
L’univers moins hideux et les instants moins lourds?

Hino à Beleza (tradução)

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza? O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora;
Expandes os teus odores qual noite de trovoada;
Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca
Tornando o herói covarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros?
Encantado, o Destino é um cão que te segue;
Semeias ao acaso alegrias, desastres,
E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;
Das tuas jóias, o Horror é das que mais fascina,
E entre tais enfeites, o próprio Assassínio,
Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O inseto, deslumbrado, procura-te a chama,
Arde crepita e diz: Benzamos esta Luz!
O apaixonado trêmulo, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Monstro ingênuo, assustador, excessivo!
Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta
De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,
Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! –
Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Atribulações da Juventude

Ao ver Baudelaire afastado dos estudos, contraindo cada vez mais dívidas, perdendo-se nas noites parisienses, a família decidiu enviá-lo em uma viagem para Calcutá, na Índia. Assim, sob pressão do padrasto, em junho de 1941, mesmo contrariado, o poeta embarcou no navio Des Mers du Sud de Paquebot, sob a supervisão do comandante Saliz.
A viagem mostrava-se monótona para o poeta, que se fechou em um mau humor constante. Preferia estar em Paris, a divagar errante pelos cafés e prostíbulos. O navio parou nas Ilhas Maurício, seguindo para a Ilha da Reunião. Após passar por uma violenta tempestade, o navio foi obrigado a atracar em um estaleiro para reparos. Baudelaire já tinha decidido que não seguiria a viagem até o seu destino final. Na Ilha da Reunião, abandonou de vez o navio. Meses depois, o general Jacques Aupick receberia uma carta do comandante Saliz, sendo informado de que o enteado tinha abandonado o navio, não concluindo a viagem até Calcutá.
Ao retornar a Paris, Baudelaire atingiria a maioridade, em 1842, tendo direito a receber uma herança de cerca de cem mil francos, deixada pelo pai. De posse da fortuna, passou a viver em um apartamento na ilha de Saint-Louis, em Paris. Começa a freqüentar as galerias de arte, aprofundando-se na matéria, tornando-se grande conhecedor e critico de arte, com grande influência no seu tempo. Abastado pela herança recebida, adquiriu um comportamento excêntrico, trajando roupas extravagantes, ganhando a reputação de dândi nos salões parisienses.
Ainda em 1842, o poeta conheceu no Teatro Porte Saint-Antoine, a mulata Jeanne Duval, atriz figurante do Quartier Latin. A bela mulher também exercia a prostituição como ocupação. A mãe de Baudelaire desaprovava o romance, pelo fato da jovem ser mestiça. Por dois anos, o poeta viveu ao lado de Jeanne Duval, numa vida regada de drogas e álcool. Seria na beleza morena da jovem que ele encontraria inspiração para escrever diversos dos seus poemas, dedicando-lhe o ciclo de poemas “Vênus Negra”. O romance com Jeanne Duval terminou em grande decepção, quando ele soube, anos mais tarde, que ela tinha vivido com outro amante por meses, dizendo a Baudelaire que era o seu irmão.
Em apenas dois anos, Baudelaire já havia gastado quase a metade da sua fortuna. Para evitar que ele dilapidasse os seus bens, a mãe entrou na justiça, em 1944, acusando-o de pródigo, pondo-o sob a guarda legal de um tutor, sendo Narcisse-Desejam Ancelle o escolhido. Para eliminar os inúmeros débitos contraídos, foi obrigado a viver com uma renda baixa, muita aquém daquela que estava acostumado a gastar excessivamente.
Humilhado, Baudelaire sentiu-se desesperado com a nova condição social. Em 1945 tentou cometer suicídio, aumentando ainda mais a preocupação da mãe e do padrasto, que cogitaram a hipótese dele voltar a viver com eles em Paris. Mas ele preferiu continuar a viver sozinho, ainda que mais modestamente.
Além de Jeanne Duval, Baudelaire viveria um romance com outra atriz, Marie Daubrun, tendo-a como amante entre 1855 e 1860. Outra paixão marcante foi pela cortesã Apollonie Sabatier. Todas foram fundamentais na obra do autor, que tomou a paixão por elas como abundante fonte inspiradora.

À Une Passante (original)

La rue assourdissante autour de moi hurlait,
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispe comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Aileus, bieb loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A Uma Passante (tradução)

A rua ia gritando e eu ensurdecia,
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com as mãos suntuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado como um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efêmera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Escândalo na Publicação de “As Flores do Mal

Se a vida econômica e social de Baudelaire era um completo caos, o seu talento literário crescia vertiginosamente. Tornou-se um influente crítico de arte, destacando-se nas mostras anuais de pintura e de escultura, conhecidas como “Salão”. A partir do Salão de 1845, a sua crítica de arte avançou os costumes da época, definindo o princípio que iria seguir vários artistas de então.
Em 1847, lançou “Fanfarlo”, único romance que escreveu, constituindo uma obra autobiográfica. No ano seguinte, em 1848, envolver-se-ia na revolta que assolou a França, ajudando na publicação de alguns jornais de protestos radicais. Não teve grande atuação no levante, saindo sem que se prejudicasse.
A partir de 1852, Baudelaire passou a traduzir para o francês os textos do escritor norte-americano Edgar Alan Poe, de quem era um acirrado admirador. Concluiria a tradução em 1865.
O momento mais importante e polêmico da vida e da obra de Baudelaire, dar-se-ia em 1857, quando da publicação da primeira edição de “As Flores do Mal”. Considerada a obra-prima de Baudelaire, “As Flores do Mal” trazia um volume com cem poemas. Numa linguagem inovadora, que oscilava entre o sublime e o grotesco, numa imposição lírica à realidade fria da vida. Ao abordar temas controversos para a época, como o lesbianismo e o satanismo, o livro escandalizou os leitores e os críticos. A edição foi publicada por um velho amigo do poeta, Poulet-Malassis. Menos de um mês após ser posto à venda, o livro sofreu uma mordaz crítica do jornal “Le Figaro”, com efeito devastador na carreira de Baudelaire, sendo estigmatizado como poeta maldito. Baudelaire e o seu editor, Poulet-Malassis, foram acusados de obscenos, de atentarem à moral e aos bons costumes, sendo multados em quinhentos francos, sendo trezentos pagos pelo poeta e duzentos pelo editor do livro. Seis poemas foram considerados demasiadamente imorais, sendo-lhes proibida a publicação. Baudelaire escreveria seis novos poemas para substituí-los. Em 1861, quando do lançamento da segunda edição, acrescentaria outros trinta e cinco poemas. A edição completa, trazendo os poemas proibidos, só seria publicada a partir de 1911, muitos anos após a morte do autor.
Por muito tempo Baudelaire freqüentou o famoso “Club des Hashishins”, formado por um grupo de fumantes de haxixe que se reuniam no Hotel Pimodan, onde o poeta viveu por um bom tempo. A experiência com as drogas resultaria no livro “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”, publicado em 1860, trazendo uma confissão pessoal e especulação sobre plantas alucinógenas, que teve inspiração parcial na obra do escritor inglês Thomas de Quincey, “Confissões de Comedor de Ópio”.
Baudelaire ainda tentou candidatar-se à Academia Francesa de Letras, na esperança de agradar à mãe, elevar a sua carreira de escritor e perder o estigma de poeta maldito. Mas teve a sua pretensão desencorajada pelos amigos.

Vítima e Carrasco de Si Mesmo

A dilapidação dos seus bens na boemia parisiense, fez com que Baudelaire mergulhasse a vida em dívidas, resignando-se ao controle rígido das medidas judiciais tomadas pela família. Viveu o resto da vida atolado em constantes crises financeiras. Quando o amigo e editor, Poulet-Malassis, viu-se impossibilitado de pagar as dívidas, nada pôde fazer para evitar que ele fosse preso.
As dificuldades financeiras fizeram com que voltasse a viver com a mãe, em 1859, limitando-lhe cada vez mais a essência de liberdade do caráter. Paralelamente, a saúde passou a definhar. A partir de 1862, passou a queixar-se constantemente de dores de cabeça, vertigens, náuseas e pesadelos. Os efeitos colaterais da sífilis adquirida quando jovem, devastavam-lhe a saúde, impondo-lhe sintomas que lhe traziam a sensação de estar a enlouquecer.
Para tentar amenizar a situação financeira, deixou a França, em 1863, rumando para Bruxelas, na Bélgica, na tentativa de conseguir um editor para publicar os seus livros. Na capital belga piorou ainda mais a saúde. Desde então, viveu obscurecido por inúmeras doenças de origem nervosa. Em 1965 sofreu um ataque de apoplexia, que se tornaria constante, levando-o a afasia e paralisia parcial. Em 1867, internou-se em uma casa de repouso por dois meses, retornando a Paris em 2 de julho. No dia 31 de agosto, esgotado monetariamente e fisicamente, Charles Baudelaire foi vítima de uma paralisia geral, morrendo assim como nascera, nos braços da mãe. Tinha 46 anos.
Talvez o poema que mais descreva o caráter insólito e de radical contestação existencial de Charles Baudelaire seja “Heautontimoroumenos”, título inspirado em “Heauton Timoroumenos”, peça escrita no século IV a.C., pelo poeta ateniense Menandro, desaparecida ao longo dos tempos. Terêncio, dramaturgo romano, escreveu a versão em 163 a.C., tendo esta sobrevivido. Literalmente, quer dizer “o carrasco de si mesmo”, ou o que pune ou devora a si mesmo. Uma constante na obra de Baudelaire.

L’Héautontimorouménos (original)

À J.G.F.

Je te frapperai sans colère
Et sans haine, comme um boucher,
Comme Moïse le rocher
Et je ferai de ta paipière,

Pour abreuver mon Saharah
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon désir gonflé d’espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu’ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord

Elle est dans ma voix, la criarde!
C’est tout mon sang ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
– Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés
Et qui ne peuvent plus sourire!

Heautontimoroumenos (tradução)

À J.G.F.

Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!

Tradução: Ivan Junqueira

Cronologia

1821 – Nasce, em 9 de abril, em Paris, Charles-Pierre Baudelaire.
1827 – Morre, em fevereiro, Joseph-François Baudelaire, pai de Charles Baudelaire.
1828 – Casamento da mãe, Caroline Archimbaut-Dufays, com o militar Jacques Aupick, em novembro.
1832 – Transferência para Lyon do coronel Jacques Aupick. Baudelaire e a mãe mudam-se para aquela cidade.
1833 – Baudelaire ingressa como interno no Collège Royal de Lyon.
1836 – Jacques Aupick é nomeado para o Estado Maior do Exército em Paris, mudando-se com a família para a capital francesa.
1838 – Viaja com a mãe e o padrasto para os Pirineus. Quando retorna, escreve o poema “Incompatibilité”.
1839 – Em Paris, Baudelaire conclui o liceu. Jacques Aupick é promovido a general da Brigada.
1840 – Passa a viver na pensão Lévêque Bailly, onde trava amizade com os jovens poetas Enerts Prarond e Gustave Le Vavasseur.
1841 – Baudelaire é embarcado em um navio pelo padrasto, para Calcutá, na Índia. O jovem abandona o navio na Ilha da Reunião.
1842 – Retorna à França. Inicia um romance com a jovem atriz mulata Jeanne Duval. Recebe 75 mil francos de herança deixada pelo pai. Vai viver para a Ilha de Saint-Louis, em Paris.
1843 – Publica numa coletânea literária intitulada “Vers”. Muda-se para o Hotel Pimodan.
1847 – Conhece a atriz Marie Daubrun, futura amante.
1852 – Conhece Apollonie Sabatier, futura paixão. Publica o primeiro ensaio sobre o escritor norte-americano Edgar Allan Poe.
1857 – Publicado a primeira edição de “As Flores do Mal”. O livro é classificado como amoral, obrigando Baudelaire e o seu editor a pagar multas. Seis poemas são proibidos.
1859 – Passa a viver com a mãe em Paris.
1860 – Morre Marie Daubrun, com quem o poeta vivera um romance desde 1855. Publica “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”.
1861 – Publicada a segunda edição de “As Flores do Mal”, com trinta e cinco novos poemas. Candidata-se à Academia Francesa de Letras.
1862 – Sua saúde começa a definhar, em decorrência da sífilis que contraíra quando mais jovem.
1863 – Parte para Bruxelas, em busca de um editor que publique as suas obras.
1865 – Sofre um ataque de apoplexia.
1867 – Morre de paralisia geral, em 31 de agosto.

OBRAS:

1845 – Salon de 1845 (Salão de 1845)
1846 – Salon de 1846 (Salão de 1846)
1847 – La Fanfarlo (Fanfarlo)
1857 – Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal)
1860 – Les Paradis Artificiels (Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe)
1861 – Réflexions sur Quelques-Uns de Mes Contemporains
1863 – Le Peintre de la Vie Moderne
1868 – Curiosités Esthétiques (Curiosidades Estéticas)
1868 – L’Art Romantique (A Arte Romântica)
1869 – Le Spleen de Paris (O Spleen de Paris)
1869 – Petits Poèmes en Prose (Pequenos Poemas em Prosa)
1887 – Oeuvres Posthumes et Correspondance Générale
1897 – Fusées
1897 – Mon Coeur Mis à Un (Meu Coração Desnudo)
1922 – Oeuvres Completes (19 volumes concluída publicação em 1953)
1992 – Cristique D’Art; Critique Musicale


DYLAN THOMAS – O HOMEM COMO METÁFORA

março 30, 2010

Considerado um dos maiores poetas do século XX, Dylan Thomas retratou em sua obra a essência humana, a existência em sua mais entranhada manifestação. Poeta de obra isolada, quase solitária no tempo em que foi escrita, com versos que fugiam ao estilo dos seus contemporâneos, sem a preocupação intelectual ou a vertente social, Dylan Thomas não se atrelou aos movimentos literários do século em que viveu.
Como um bardo galês e poeta de sensibilidade extrema, soprou as suas palavras, de intensa sonoridade, através das colinas, das brisas, das árvores, da noite, do âmago do homem, romantizando a própria existência.
Freqüentemente encontramos em sua obra palavras enigmáticas, que nos conduz a um poeta apocalíptico, que mesmo ao esbarrar nas sombras da vida, faz com um profundo lirismo e densa emoção, tornando o homem a sua metáfora, e a existência o princípio e fim da procura de um eu. Assim como o homem, a mensagem é contraditória, mas indelével.
Dylan Thomas escreveu a maior parte da sua obra no auge da juventude. Homem de voz grave, que arrebatava as platéias quando declamava os seus poemas em teatros e auditórios universitários, teve uma existência marcada por amores furtivos e uma única musa, a esposa Caitlin Macnamara, com quem dividiu o caminho até uma morte precoce, aos 39 anos.
Boêmio inveterado, teve a biografia assinalada por suas bebedeiras homéricas. Em vida, alcançou grande popularidade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, tornando-se um ídolo que transpôs os costumes, influenciando os poetas da beat generation. Cultuado por uma geração em ebulição, teve no cantor e compositor norte-americano Robert Allen Zimmerman, um dos maiores seguidores, que, em sua homenagem, adotou o nome de Bob Dylan.
Romântico, lírico, contraditório, Dylan Thomas deixou um legado poético que traduz a alma humana no seu ato de existir. Ler a sua poesia e descobrir um mundo que emociona e empolga a sensibilidade retraída em todos nós.

Os Primeiros Anos do Poeta

Dylan Marlais Thomas nasceu em Swansea, País de Gales, em 9 de novembro de 1914, quando explodia a Primeira Guerra Mundial. Seu pai, David John Thomas, era professor de inglês em Swansea. DJ Thomas costumava recitar William Shakespeare para o pequeno poeta, antes mesmo de ele aprender a ler. Apesar da família falar fluentemente o galês, Dylan e a irmã, Nancy Thomas Marles, jamais aprenderam a língua pátria. A obra do poeta é toda escrita em inglês.
Na escola, o estudante Dylan Thomas destacava-se em literatura e língua inglesa, matérias que abraçava com afinco, enquanto que ignorava as restantes, o que o fazia um péssimo aluno. Foi no tempo que freqüentava a escola em Swansea, aos dezesseis anos, que começou a escrever os seus primeiros poemas, iniciando os “Cadernos” de poesia, onde registraria a sua obra.
Aos dezessete anos, Dylan Thomas deixou a escola, indo trabalhar como repórter no “South Wales Daily Post”. No ano seguinte, juntar-se-ia a irmã Nancy Thomas, então atriz, à companhia de teatro de Swansea. Contando com dezoito anos, ele escreveria na época, a maior parte da sua obra poética.
Em 1933 , seria publicado o primeiro poema do autor fora do País de Gales, “E a Morte Perderá o Seu Domínio”, no “New English Weekly”. A seguir, visitou Londres pela primeira. No ano seguinte, ganharia o prêmio literário “Poet’s Corner”, e publicaria, em dezembro, o seu primeiro livro “18 Poemas”, coleção dos seus “Cadernos” de poesia, escritos quando ainda adolescente.
Aos vinte anos, um grande poeta era revelado para os leitores da Grã-Bretanha. A beleza da sua poesia alcançaria, aos poucos, admiradores assíduos no mundo inteiro.

E a Morte Perderá o Seu Domínio (tradução)

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
Com o homem no vento e na lua do poente;
Quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
Hão de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
Mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão de ressurgir;
Mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Ainda que, na roda da tortura, comecem
Os tendões a ceder, jamais se partirão;
Entre as suas mãos será destruída a fé
E, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
Embora sejam divididos eles manterão a sua unidade,
E a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
Nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
Onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
Erguer a sua corola em direção à força das chuvas;
Ainda que estejam mortas e loucas, hão de descer
Como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
É no sol que irrompem até que o sol se extinga,
E a morte perderá o seu domínio.

Tradução: Fernando Guimarães

And Death Shall Have No Dominion (original)

And death shall have no dominion.
Dead mean naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to whell, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift is head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down;
And death shall have no dominion.

Dylan Thomas e Caitlin Macnamara

Na segunda metade da década de 1930, Dylan Thomas estabelecer-se-ia em Londres, onde conheceria Caitlin Macnamara, com quem iniciaria um tórrido romance. O encontro dos dois aconteceu em 1936, em um pub londrino. Conta-se que tão logo se conheceram, passaram alguns dias juntos no Torre Eiffel Hotel, sendo a conta paga por Augustus John, amante da jovem.
O triângulo estabelecido entre Caitlin, Dylan e John Augustus, resultaria em um embate corporal entre os dois apaixonados, em que o poeta sairia perdedor. Após o episódio da luta, Caitlin decidiu-se por Dylan.
Em 11 de julho de 1937, Dylan Thomas e Caitlin Macnamara casaram-se, contra a vontade dos pais do poeta. O amigo Wyn Henderson emprestou três libras para a licença de casamento, e cedeu a sua casa de hóspedes para o jovem casal.
Apesar das turbulências que sofreu com as aventuras amorosas de Dylan Thomas, Caitlin permaneceu ao lado do marido até a sua morte, dando-lhe os filhos e herdeiros. Crises conjugais constantes levaram à separação do casal, seguida de uma reconciliação. Mesmo volúvel em pequenas paixões, o poeta foi homem de um só casamento, fato inédito à maioria dos seus contemporâneos.

A Mão Ao Assinar Este Papel (tradução)

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
Cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
Duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
Estes cinco reis levaram a morte a um rei.

A mão soberana chega até um ombro descaído,
E as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
Uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
Que pôs fim às palavras.

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
E cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
Maior se torna a mão que estende o seu domínio
Sobre o homem por ter escrito um nome.

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
A ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
Há mãos que governam a piedade como outras o céu;
Mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

Tradução: Fernando Guimarães

The Hand That Signed The Paper (original)

The hand that signed paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The might hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose’s quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand that holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

Cultuado nos Estados Unidos

Na década de cinqüenta, Thomas Dylan alcançou grande sucesso nos Estados Unidos. Em 20 de fevereiro de 1950, fez a sua primeira viagem àquele país, numa excursão organizada por John Malcolm Kauffmann. Em Nova York, atrairia para si a admiração dos leitores e jovens norte-americanos, que iam ao delírio com as leituras do poeta em seus auditórios.
O sucesso nos Estados Unidos fez com que a obra de Dylan Thomas fosse conhecida no mundo inteiro. Ele passaria a ser uma figura lendária no circulo intelectual estadunidense. Ganharia fama de grande boêmio e de beberrão inveterado. Uma vida mundana passou a caracterizar o universo em que transitava. Seus poemas existencialistas e voltados para o eu humano, de forma revestida de emoção profunda e lirismo latente, inspirou toda uma geração de poetas que ficaram conhecidos como a “Geração Beat”.
Cultuado nos Estados Unidos, Dylan Thomas, em suas perambulações noturnas e de embriaguez física e poética, tomou como amante a norte-americana Pearl Kazin, ocasionando uma crise em seu casamento com Caitlin Macnamara, que levaria o casal a uma breve separação.
No outono de 1951, Dylan Thomas escreveu um dos mais belos de todos os seus poemas, “Do Not Go Gentle Into That Good Night”, feito para o pai, que se encontrava profundamente doente, vindo a falecer em dezembro de 1952.
Em outubro de 1953, Dylan Thomas partiu para Nova York, iniciando aquela que seria a última das suas excursões pelo mundo e pela vida. No dia 29 de outubro, faz a sua última apresentação em público. O alcoolismo tomara conta do seu organismo, levando-o à degradação física. No dia 5 de novembro, segundo alguns biógrafos do poeta, após ingerir dezoito copos de uísque, passaria mal no hotel Chelsea, em Nova York. No dia 9 de novembro de 1953, o poeta sucumbiria ao álcool, vindo a morrer em um hospital, longe da sua terra natal. Seu corpo seria levado pela esposa, Caitlin Macnamara, para Laugharme, onde foi sepultado em 25 de novembro. O bardo galês calava-se em corpo, eternizando-se através das palavras secas da sua obra lírica.

Não Entres Docilmente Nessa Noite Escura (tradução)

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o vôo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Tradução: Fernando Guimarães

Do Not Go Gentle Into That Good Night (original)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sigth
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Cronologia

1914 – Nasce em Swansea, no País de Gales, em 27 de outubro, Dylan Marlais Thomas.
1925 – Entra para a Swansea Grammar Scholl.
1930 – Inicia, em abril, o primeiro dos “Notebooks”, onde escreveu os seus primeiros poemas.
1931 – Dylan Thomas deixa a Swansea Grammar Scholl. Torna-se repórter do “South Wales Daily Post”.
1932 – Ao lado da irmã, Nancy Thomas, junta-se a Swansea Little Theatre Company. Escreve, na época, dois terços da sua produção poética.
1933 – Publicado, em maio, no “New English Weekly”, o primeiro poema de Dylan fora de Gales. Em agosto, visita Londres.
1934 – Segunda visita a Londres. Em abril, ganha o prêmio literário “Poet’s Corner”. Publica, em dezembro, “18 Poems”.
1936 – Encontro de Dylan e Caitlin Macnamara, no pub Whetsheaf, em Londres. Publicado, em setembro, “Twenty-Five Poems”.
1937 – Casa-se em julho, contra a vontade dos pais, com Caitlin.
1939 – Nasce, em janeiro, Llewelyn Edouard Thomas, primeiro filho do poeta. Publicado, em agosto, “The Map of Love”.
1943 – Publicado, nos Estados Unidos, “New Poems”. Nasce, em março, Aeronwy Bryn Thomas, em Londres.
1946 – Publica “Deaths and Entrances”.
1949 – Visita, em março, Praga, como convidado da União dos Escritores da Tchecoslováquia. Nasce, em julho, Colm Garan Thomas Hart.
1950 – Parte, em fevereiro, para Nova York, na sua primeira excursão aos Estados Unidos. Retorna à Grã-Bretanha em junho.
1951 – Após uma crise conjugal, Dylan e Caitlin reconciliam-se.
1952 – Dylan e Caitlin partem, em janeiro, para os Estados Unidos. Publicado “Collected Poems”. Morre, em dezembro, em Laugharme, David John Thomas, pai de Dylan Thomas.
1953 – Em outubro, parte para a sua quarta e última turnê aos Estados Unidos. Faz sua última aparição pública, em 29 de outubro, em Nova York. No dia 5 de novembro, cai no Chelsea Hotel. Em 9 de novembro, morre, em Nova York, Dylan Thomas.

OBRAS:

Poesia

1934 – Eighteen Poems
1936 – Twenty-Five Poems
1939 – The Map of Love
1943 – New Poems
1946 – Deaths and Entrances
1952 – Collected Poems
1971 – Poems

Prosa

1934 – Notebooks
1940 – The Portrait of the Artists as a Young Dog
1953 – The Doctor and the Devils
1954 – Under Milkwood
1954 – A Child’s Christmas in Wales
1954 – Quite Early One Morning
1955 – Adventures in the Skin Trade, and Other Stories
1957 – Letters to Vernon Watkins
1964 – The Beach of Falesá
1969 – Collected Prose
1971 – Early Prose Writings

Teatro

1953 – The Doctor and the Devils and Other Scripts
1954 – Under Milk Wood


O PEQUENO PRÍNCIPE – ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

fevereiro 22, 2010

Vindo de um micro planeta distante, o Pequeno Príncipe conquistou todas as gerações da Terra, desde que foi criado, em 1943. Saído da mente fértil de Antoine de Saint-Exupéry, o livro é o legado do seu autor ao mundo. Ele mesmo desapareceria entre as nuvens, naqueles fatídicos anos da maior guerra contemporânea do planeta.
Não se pode classificar o livro de infanto-juvenil, porque ele arrebata todas as idades, toca no coração de todos nós como uma doce intenção de redimirmos nossos conceitos diante dos erros da moral. O romance desenvolve-se a partir do encontro de um aviador com um menino sonhador e de cabelos dourados, vindo de outro planeta. Através de parábolas, a narrativa adquire um teor poético e filosófico, que encanta e nos faz pensar nos pequenos momentos da vida, nos sentimentos de amor e solidariedade que às vezes não percebemos, mas que se encontram em todos os quartos da nossa existência. Faz-nos reconhecer através dos detalhes do cotidiano, aquele algo que definimos como especial, apenas porque assim o fizemos. A parábola do amor à rosa, tão feminina e humana; da conquista do coração selvagem da raposa, tão amiga e símbolo da fraternidade universal, da morte do corpo para o vôo da alma.
O Pequeno Príncipe”, ou “O Principezinho” (Le Petit Prince), traz ilustrações originais do próprio autor. É o livro francês mais vendido no mundo, tendo sido traduzido em 160 idiomas ou dialetos. É um dos romances mais lido em todo o planeta. Escrito no auge da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa, em especial a França, estava mergulhada nas trevas, oprimida pela ambição nazista; revela um canto de esperança, um hino à fraternidade, como se Saint-Exupéry viajasse pelo sonho de voar, tão distante da insensatez bélica, ultrapassando o seu tempo, sem perder de vista a essência da vida. “O Pequeno Príncipe” é um convite à criança sonhadora e etérea que há dentro de cada um de nós, para que emirja sem medo de voar.

A Rosa Mais Perfumada do Mundo

Na paisagem árida do deserto do Saara, um aviador é obrigado a aterrissar, devido a uma avaria no motor. Será neste ambiente inóspito que encontrará àquele que lhe modificaria para sempre o modo de pensar, o menino de cabelos dourados, vindo de um planeta distante, em busca dos seus sonhos e conhecimentos do universo em que o cerca.
No meio do nada do deserto, o solitário aviador ouve uma suave voz de criança, que lhe pede para desenhar uma ovelha. Como numa miragem a contrastar com o ambiente selvagem, a figura doce e impetuosa daquele menino surpreende o errante piloto. Não sabendo desenhar ovelhas, o homem desenha uma jibóia que trazia no ventre um elefante. O príncipe protesta, dizendo que não quer aqueles dois animais. Para surpresa do aviador, ele foi o único que decifrara o desenho, que todos insistiam em dizer que era um chapéu. Aquele desenho outrora incompreendido, motivo da frustração do artista que havia dentro do aviador, encontrara finalmente quem lhe percebera a arte. Feliz, desenhou a ovelha que lhe pedira o menino. Inicia-se a amizade entre os dois.
Aos poucos, a criança encantadora, começa a narrar as suas aventuras pelo universo. Viera de um pequeno planeta, o Asteróide B612, tão distante que não se podia ver no horizonte. Tão pequeno, que tinha apenas dois vulcões ativos e um extinto, e uma rosa. De lá o pôr do sol poderia ser visto a qualquer momento.
Dos poucos atrativos do seu planeta, o principezinho tem como principal a rosa, que com amor e carinho, regava e cuidava todos os dias. Queria uma ovelha para que comesse os embondeiros ou baobás, árvores que quando pequenas não passavam de arbustos, mas que depois de grandes tornavam-se gigantescas, tomando todo o pequeno planeta e matando a sua rosa. O aviador revela-lhe que as ovelhas não comiam somente os arbustos, mas também as flores. O pequeno teme pela sorte da sua rosa.
Nos cuidados com a rosa, ela tornou-se exigente, muitas vezes presunçosa e voluntariosa. Sendo única, defendia-se com os seus espinhos, seduzia o pequeno com a sua beleza e a delícia do seu perfume. Na figura da rosa, Saint-Exupéry retrata a sedução das paixões, as exigências do amor e do afeto, que muitas vezes nos parece sem sentido, mas que são essenciais aos sentimentos. Na beleza da rosa, o principezinho encontra os espinhos da sua primeira decepção, ou talvez, incompreensão dos labirintos de quem se ama.
Assim, para fugir dos caprichos da rosa, o pequeno e sonhador, parte do seu planeta, levado por uma revoada de pássaros, perseguindo as aventuras do seu ser, numa ardente vontade de voar pelos mistérios do universo.

Viagem aos Pequenos Planetas

Viajando pelo espaço, o principezinho visita seis pequenos planetas. Em cada um deles, descobre diferentes pessoas, vivendo no universo egocêntrico das suas personalidades e limitações.
No primeiro planeta, encontrou um rei sem súditos, que a tudo queria governar, permitir ou mandar. Talvez uma visão rebuscada do totalitarismo nazista que dominava a França ocupada. Sem a preocupação do dogma dialético, o rei é mais trágico e louco do que absolutista. Decepcionado com o universo dos adultos, o príncipe deixou o mundo do rei solitário.
No segundo planeta, encontrou um homem vaidoso e presunçoso, a ansiar pelas palmas dos admiradores que não tinha. Para satisfazer tão incontrolável vaidade, o principezinho bateu palmas, em retribuição, o homem tirava o chapéu. Cansado de alimentar a futilidade das palmas, o pequeno partiu novamente.
No terceiro planeta, deparou-se com um bêbedo, que se embriagava para esquecer a vergonha do ato. Diante de tanta melancolia, a visita do pequeno foi breve, sem maiores lições.
No quarto planeta, conheceu o homem de negócios, que contava as estrelas do céu, julgando-se dono delas. Quanto mais estrelas contava, mais rico se sentia. Apoderara-se das estrelas que jamais tinham sido reivindicadas. Sua fortuna brilhava no céu, impalpável, como a ilusão de todas as riquezas do mundo. Desiludido com a ganância do homem, o principezinho seguiu a sua jornada.
O quinto planeta era o menor de todos eles, com espaço apenas para um acendedor de lampiões. Por causa do seu tamanho, o planeta dava a volta a si mesmo em apenas um minuto, gerando um dia fugaz, o que obrigava o acendedor a ter uma tarefa sem fim, já que tinha que acender o candeeiro à noite e apagá-lo ao amanhecer, tudo em segundos. Mesmo sabendo da inutilidade do seu trabalho, o homem não deixava de executá-lo, pois assim estava estabelecido, cumpria cabalmente as funções designadas. Foi o único que o principezinho não considerou ridículo, pois acreditava que as obrigações eram maiores do que os prazeres, como um determinante senhor da deontologia.
No sexto planeta, o maior de todos eles, o principezinho encontrou um homem idoso, que sabiamente escrevia livros enormes. Era um geógrafo que desenhava todos os lugares do mundo. Lugares que nunca visitara, pois baseava os conhecimentos através dos relatos dos exploradores. Como não tinha exploradores, desconhecia por completo o aspecto físico do seu planeta. Entusiasmado com a visita, o geógrafo confunde o pequeno com um explorador. Pede a ele que descreva o planeta de onde veio. O principezinho o faz com modéstia, quando descreve a sua rosa, é interrompido pelo geógrafo, que lhe diz somente os mares e as montanhas, por sua eternidade, eram postos nas cartas geográficas, e que a rosa, por sua existência efêmera, não poderia constar na sua lista. Com tristeza, o principezinho descobre que a sua rosa tão querida, um dia iria morrer. Desolado, decide deixar aquele planeta. Antes de ir, o geógrafo aconselhou-a a visitar a Terra, por considerá-la um planeta de boa reputação.
O principezinho partiu em direção a Terra. Viajou melancólico e triste, por descobrir que a sua rosa era efêmera, e que a tinha deixado sozinha, com apenas quatro espinhos para se defender dos perigos do mundo.

O Principezinho e a Raposa

O sétimo planeta visitado pelo principezinho foi a Terra. Percebeu que era um lugar gigantesco, com uma paisagem que se perdia no horizonte. Sem saber que estava em pleno deserto do Saara, no norte da África, o pequeno pensou que chegara em um planeta desabitado.
Como numa alusão ao Gênesis, a primeira criatura viva que encontrou na Terra foi uma astuciosa serpente, que, através dos seus enigmas, descreveu-se mais poderosa do que o próprio homem:

“Quando toco em alguém, devolvo-o imediatamente à terra de onde veio. Mas tu és puro e vieste de uma estrela…”

Embora o diálogo com a serpente passe despercebido diante de outras parábolas do livro, esta frase é a codificação para que se perceba o desfecho final da aventura do principezinho na Terra.
Desvencilhando-se dos sortilégios da serpente, o pequeno príncipe prosseguiu a sua jornada pelo deserto da Terra. Passou por uma flor de três pétalas, simples e sem a beleza da sua rosa… Subiu montanhas, atravessou rochas e vales, até que se deparou com um jardim coberto por cinco mil rosas iguais à sua. Descobriu que a rosa que tanto amava não era única no universo. Ao sentir-se príncipe de uma única rosa comum, deitou na relva e chorou as lágrimas da decepção.
Foi quando lhe apareceu a raposa. Travou com o animal a sinceridade dos sentimentos e a genuinidade das palavras. O diálogo com a raposa é um dos momentos mais bonitos do livro, em que se desenha a essência da narrativa. Numa sabedoria filosófica, o animal revela ao menino que todos somos iguais na paisagem humana, assim como os animais e as rosas, e que só passamos a ser diferenciados para alguém, quando somos por ele conquistado. Revela-lhe que a sua rosa era única, porque ela o cativara, tornando-se fundamental em sua vida. Por fim, a raposa ensina ao príncipe que ele era responsável por aqueles que cativara.

“Adeus – disse a raposa. – Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos..”

“Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa…”

Com as palavras da raposa, o principezinho prosseguiu o seu caminho, com a certeza que jamais as esqueceria. Seguiu feliz, com a certeza de que a sua rosa era única, a mais bela de todas aquelas cinco mil que avistara no jardim terrestre. Porque era a rosa que ele cuidara. Sentia-se culpado por deixá-la tão solitária.

O Pequeno Príncipe e a Serpente

Após passar por algumas aventuras, o principezinho encontra-se com o aviador. A ele irá transmitir tudo o que aprendeu em suas aventuras. De indagador, passa e indagar, tornando-se a luz nas dúvidas do amigo solitário.
A amizade feita no deserto acontece em oito dias, tempo que duraria a sua provisão de água. Quando ela acaba, no meio da sede e do desespero, surge a esperança dos sonhos. Juntos, eles encontram um poço no meio do deserto. É a fonte límpida da melhor água do mundo, a da natureza da fraternidade e do amor.
O aviador conserta a avaria do seu avião. É hora de partir. Também o principezinho quer voltar para o seu planeta. Sente-se culpado por ter abandonado a rosa amada à deriva. Quer voltar a cuidar dela. Mas sabe que o corpo lhe pesa e impede a viagem de regresso. Precisa libertar a alma e deixá-la voar, regressando ao seu mundo e ao amor da rosa.
Contrariando o aviador, o principezinho decide aceitar a ajuda da serpente. Sabe que o seu veneno é mortal. Através dele, libertará o corpo, ao qual considera apenas uma “casca”, que quando levada pelo vento, nada significa. Fugindo do amigo, ele parte na calada da noite, em busca da serpente. Ao se deparar com a fuga, o aviador vai ao seu encontro. Não consegue demovê-lo daquele objetivo enigmático. Assim, atado à vontade do príncipe, ele assiste ao momento em que a serpente pica mortalmente o amigo. O pequeno príncipe cai na areia, sem vida. Iniciara a viagem de volta à rosa e ao seu pequeno planeta. No outro dia, quando voltou ao local onde o corpo tombara, já não o encontra. Assim como surgira, desaparecera para sempre.
Seis anos depois, o aviador olha para o seu, na esperança que o lume das estrelas sorria para ele, pois sabe que em alguma delas, está o planeta do pequeno príncipe, e de lá ele o observa.

“Fixem bem esta paisagem para a poderem reconhecer se um dia fizerem uma viagem a África e forem ao deserto. Se passarem por este local, suplico-vos; não tenham pressa, fiquem um bocadinho à espera mesmo por baixo da estrela! Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou…”

Antoine de Saint-Exupéry

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, foi uma das personalidades mais interessante da história da literatura francesa. Viveu entre as aventuras de uma aviador e a filosofia poética da sua escrita. Saint-Exupéry nasceu em 29 de junho de 1900, em Lyon, na França. Nascido de uma família aristocrática, era o terceiro filho do conde Jean-Marie Saint-Exupéry e da condessa Marie Boyer Foscolombe.
Com a morte do pai, quando tinha apenas quatro anos, e o empobrecimento da família, Saint-Exupéry, sob a guarda da mãe, passou muito tempo da sua infância entre o Castelo da Molê, propriedade da avó materna, e o castelo de Saint-Maurice-de-Remens, perto de Ambérieu, propriedade de uma tia.
A educação do pequeno Antoine foi rígida, efetuada no colégio jesuíta Notre Dame de Saint-Croix. Na adolescência descobriu a poesia, lendo vários autores e escrevendo alguns versos.
Na juventude, Saint-Exupéry tinha como ambição fazer parte da Armada Francesa, mas foi reprovado, aos dezenove anos, nos exames de acesso à Escola Naval. Tinha fascínio pelos aviões e pela mecânica. Quando convocado para o serviço militar, em abril de 1921, alistou-se no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof, próximo de Estrasburgo. O sonho de voar só foi concretizado após nove meses de instrução, quando se transformou em piloto civil. No exército, conseguiu o diploma de piloto de guerra e segundo-tenente.
O mundo da aviação jamais o abandonaria, influenciando toda a sua obra. Aos vinte e seis anos, tornou-se piloto de aviação da empresa aérea Latécoère, assegurando o transporte do correio entre Toulouse, na França, e Dacar, no norte da África. A paixão pelos desertos africanos faria parte da sua vida.
Viajando pela África, América do Norte e do Sul, Saint-Exupéry parecia estar onde sempre o fascinou, no céu. Nas pausas da sua vida atribulada de aviador, escrevia a sua obra. Em 1939, o livro “Terre des Hommes” (Terra dos Homens), alcançaria um relativo sucesso.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor-aviador pôs-se à disposição da força aérea francesa, sendo nomeado capitão. Com o armistício assinado entre a França e a Alemanha, que possibilitou o domínio nazista sobre o seu país, Saint-Exupéry exilou-se nos Estados Unidos. Foi no exílio que, em 1943, escreveria aquela que se tornaria a sua maior obra, “O Pequeno Príncipe”.
Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, alistou-se ao comando americano, disposto a pilotar os Lightning P-38, mas encontrou, a princípio, dificuldades em obter permissão para fazê-lo, devido já ter uma idade acima do limite. Vencidos os obstáculos, realizaria oito missões. A última seria a de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, a 31 de julho de 1944. Às 8h45 daquela manhã, levantou vôo de Borgo, na Córsega. Jamais voltou. Em 3 de novembro, recebeu, em homenagem póstuma, as maiores honras do exército.
Recentemente, o alemão Horst Rippert, declarou-se o autor dos disparos que abateram o avião do escritor. Em 2004, foram encontrados no Mediterrâneo, próximo a Marselha, os destroços do avião. O corpo, assim como do “Pequeno Príncipe”, desapareceu no horizonte.

Cronologia

1900 – Nasce, em Lyon, França, em 29 de junho, Antoine de Saint-Exupéry.
1904 – Morre o pai, o conde Jean-Marie de Saint-Exupéry.
1919 – Reprovado nos testes para a Escola Naval.
1921 – Cumpre serviço militar em Estrasburgo, no 2º regimento de Aviação de Caças em Neuhof.
1923 – Deixa o exército, passando por vários empregos.
1925 – Começa a escrever o seu primeiro livro, “L’Aviateur” (O Aviador), publicando-o no ano seguinte.
1926 – Passa a trabalhar como piloto para a companhia de aviação Latécoère.
1929 – Escreve “Courrier Sud” (Correio do Sul).
1931 – Publica “Vol de Nuit” (Vôo Noturno), alcançando relativo sucesso.
1935 – Com a falência da Latécoère, tenta em vão, ao serviço da Air France, bater o recorde aéreo Paris-Saigon.
1938 – Tenta fazer a ligação aérea de Nova York à Terra do Fogo, sofrendo um acidente que quase lhe custa a vida.
1939 – Publica “Terre des Hommes”.
1940 – Com a ocupação da França pelos nazistas, exila-se nos Estados Unidos.
1942 – Publica “Pilote de Guerre”.
1943 – Publica “Lettre à un Otage”. Publica aquela que seria a sua obra-prima, “O Pequeno Príncipe”.
1944 – Numa missão de reconhecimento sobre Grenoble e Annecy, tem o avião abatido em 31 de julho. Seu corpo jamais foi encontrado.

OBRAS:

1926 – L’Aviateur (O Aviador)
1929 – Courrier Sud (Correio do Sul)
1931 – Vol de Nuit (Vôo Noturno)
1939 – Terre des Hommes (Terra dos Homens)
1942 – Pilote de Guerre (Piloto de Guerra)
1943 – Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe)
1943 – Lettre à Un Otage (Carta a Um Refém)

Publicações Póstumas

1948 – Citadelle
1953 – Lettres de Jeunesse
1953 – Camets
1955 – Lettres à sa Mère
1982 – Écrits de Guerre
2007 – Manon, Danseuse


TODAS AS SAUDADES DO MUNDO – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

fevereiro 20, 2010
Hoje acordei com todas as saudades do mundo.
Saudades do eu que um dia fui, saudades do eu que ainda não vi. Saudades das minhas mentiras mais profundas e das verdades ignoradas.
Hoje eu quero usar todas as palavras que me seduzem o intelecto; que me dilaceram os sentimos e me reduz ao homem que escreve. Neste momento exato que me cruzo ao céu do arco-íris, não há poetas que me consolam as angústias, epístolas que me aliviem os medos.
E continuo a clamar por todas as palavras do mundo. Palavras doces, como carinho, mel, deleite, ciranda, amigo, mãe… palavras frias, fim, solidão, espinho, indiferença, violeta… palavras tristes, lágrimas, esquecimento, dor, adeus… palavras quentes, ardor, torpor, vermelho, sexo, paixão, ilusão… palavras definitivas, passado, Deus, amor… Todas as palavras do mundo.

“Calo-me quando me perguntas quem sou, dar-te-ia as mais insinceras respostas, mas reflito no meu silêncio todas as minhas verdades”
Hoje acordei e deparei-me com todas as lembranças do mundo. Dos amigos que perdi pelas estradas por onde andei, dos amores que se foram na penumbra dos meus medos, das ilusões que me arrebatam o destino andarilho, do meu papagaio de estimação, do meu egoísmo diante do espelho. Todas as lembranças assaltaram-me a mente, retratando-me confuso, errático.
Não me quero confessar, quero vagar livre dentro da minha saudade. Navegar pelas ruas estreitas de Lisboa, pelas fontes de Roma, pelas luzes difusas das noites paulistanas, pelas pontes às margens do Sena, por todas as cidades que me apagaram os passos e diluíram a minha sombra.
Hoje quero espargir a lembrança do odor dos carinhos maternos, do suor dos corpos que amei ou mesmo dos que apenas ejaculei os meus desejos. Quero tocar na lembrança da pele, no torpor dos corpos, nos desenhos dos pêlos eretos às carícias. Quero agarrar cada amante que se foi, cada prazer que deixei nos lençóis molhados pela paixão.
Quero um momento sozinho comigo mesmo, para voltar a ler as algumas páginas do meu ser, que por motivo fugaz escrevi e virei sem as perceber. Não quero futuro, quero o presente, ardentemente o presente. Não quero as ilusões, quero a vida, tragada, bebida e entorpecida pelos sonhos que me conduzem.

“Não te quero ver a face que não me é permitida ver. Siga com os teus segredos que não te fustigarei por não mos revelar. E não me serás menor pelos teus mistérios.”

Hoje caminhei pela tarde nublada, incitado pela saudade de todos os meus erros. Sorvi todos os pecados que ousei cometer, todas as atrocidades que vociferei, todos os perdões que me permiti conceder. Revidei todas as faces que ofereci. Traguei todas as lágrimas que não verti, todos os soluços que sufoquei.
Hoje, quando a chuva chegou, e a tarde escureceu, iluminei a minha saudade. Revi todas as fases da minha vida, debrucei-me sobre as fotografias de um álbum existencialista. Não me reconheci em nenhum retrato, perfeito estranho que se perdeu no passado, reconheço-me apenas nas minhas lembranças, nos momentos que a minha saudade codificou, jamais nas molduras da parede.
Hoje me permiti ter saudades. Como um fado lusitano, dedilhei as guitarras dos sentimentos vividos. Apossei-me de todas as canções de amor, como se tivessem sido feitas para mim. Construí uma trilha sonora, envolta nos momentos que se foram, nas melodias que ecoaram pelas janelas dos quartos, nas notas musicais feitas de suor nos corpos que amei.

“E porque a vida corre como estações…
Sorria como se todos os dias fosse verão! Se te agarras às alegrias, o vento armazena os teus sorrisos soltos para o inverno!”

Hoje revi na chuva que escorria, todos os olhos que por mim lacrimejaram. Todas as bocas que gemeram na penumbra. Todas as línguas que navegaram pelo meu corpo, suspirando palavras quentes e sem sentido. Encontrei todos os olhares dos quais fugi, todas as mãos que me fizeram tremer, todos os braços que me apertaram as ilusões, todos os beijos que me sugaram os desejos.
Hoje me reencontrei com todos os meus erros, ironizei todos os acertos, desenhei todos os sortilégios, soprei os vendavais que me embalaram a paz. Olhei para o tempo e sorri. Descobri-me gênero humano.
Mas a chuva passou…
A lua cheia despontou no céu…
Outra ilusão, outra paixão, outra noite. Novos quartos, camas, lençóis, momentos. Outro espelho para Narciso amar. Nos jardins proibidos, outra rosa para seduzir e cravar seus espinhos na carne. Outras roupas a cobrirem as marcas esculpidas pelos anos, velhos jeans desbotados para despir.. E as horas dispararam o correr implacável do tempo. Quando a madrugada rasgou a noite, já não tinha saudades de mim.
Mas ontem acordei com todas as saudades do mundo.


Texto e Pensamentos: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Arquivo pessoal Jeocaz Lee-Meddi


O RETRATO DE DORIAN GRAY – OSCAR WILDE

janeiro 18, 2010

O tempo passa e o fútil Dorian Gray não envelhece. Permanece belo como um adolescente, conservando um semblante puro e angelical. Por trás do rosto imperturbável pelo tempo, há uma alma cruel, luxuriante, amoral e assassina, refletida em um quadro, que envelhece e altera o seu semblante a cada assassínio moral do seu dono.
O Retrato de Dorian Gray” (The Picture of Dorian Gray), único romance escrito pelo escritor irlandês Oscar Wilde, é o próprio retrato da Inglaterra vitoriana, vítima da sua hipocrisia e insistência em vencer com a tradição a mudança dos costumes. Romance gótico, ícone do decadentismo inglês, traz uma mordaz visão do homem e da sua ambição em alcançar a juventude eterna, a perfeição da beleza estética. Através de diálogos inteligentes, que vertem um torpor literário pulsante, o livro mergulha no fantástico, questionando a eterna incompatibilidade do tempo e da arte, uma a querer devorar a outra.
Dorian Gray, ao ser pintado pelo amigo Basil Hallward, descobre a fragilidade da sua beleza diante do tempo, da imortalidade da arte. Basil Hallward atinge o que ambiciona todo artista, a criação da sua obra perfeita. Lorde Henry Wotton vê na beleza pura de Dorian Gray a perfeição de uma alma que deveria ser corrompida, unindo o belo ao cruel, o hedonismo ao cinismo. O retrato pintado dará a cada um deles o pretendido. Dorian Gray não quer envelhecer e ver o seu retrato de jovem permanecer intocável. Oferece a alma para trocar de posição com o retrato. O seu pedido será atendido. O retrato irá envelhecer, tomar para si as marcas dos registros de toda a obra de vida de Dorian Gray.
Mas não se pode enganar o tempo, a arte sobrevive ao homem, impossível lutar com ela. Dorian Gray ganha a juventude eterna, mas perde a sua alma. Henry Wotton é o mentor intelectual da sua desintegração. Basil Hallward é o criador da obra perfeita, que vai perdendo os traços e adquirindo um aspecto repulsivo. Se a beleza humana parece ganhar da arte, o retrato é a consciência de uma alma corrupta por natureza. Dorian Gray, ao tentar destruir o quadro, destrói a si mesmo, porque a arte é imortal, o homem perecível ao tempo.
O livro traz diálogos mais brilhantes do que a própria narrativa. A palavra é quem dilata a trama, dá força infinita à narrativa. Mordaz com o seu tempo, “O Retrato de Dorian Gray” mergulha em uma sutil atmosfera homoerótica, traduzindo com perfeição o decadentismo inglês. É uma profusão do mito de Fausto, retratado por Goethe. Considerado amoral pela crítica e pela sociedade da época em que foi lançado, o romance é hoje um dos maiores marcos da literatura universal.

A Criação do Retrato

O romance “O Retrato de Dorian Gray” apareceu pela primeira vez em junho de 1890, quando o “Lippincott’s Magazine” publicou o seu primeiro capítulo. A obra sairia em volume somente em março de 1991, quando Oscar Wilde acrescentou-lhe seis capítulos e um prefácio.
Dorian Gray é um jovem fútil e ingênuo dentro da sua tenra idade. Sua beleza incomum atrai os sentimentos do pintor Basil Hallward. Fascinado por aquela beleza, o pintor passa a nutrir uma obsessão pelo jovem. Começa a pintar aquela que seria a mais perfeita de suas obras, o retrato de Dorian Gray.
Quando posava para Basil Hallward, Dorian Gray foi apresentado a um dos seus amigos, o cínico e hedonista Lorde Henry Wotton. O interesse do nobre pelo jovem é imediato. Mesmo à revelia dos protestos de Hallward, Lorde Wotton presencia as pinceladas finais do quadro.
Quando pronto, o retrato causa grande impacto nos três homens. Para Basil Hallward é a ambição maior de qualquer artista, o encontro com a beleza perfeita da sua obra. Para Lorde Henry Wotton, o retrato mais perfeito já produzido pela arte. Para Dorian Gray, a revelação definitiva da sua beleza etérea. O retrato de Dorian Gray seduz desde o primeiro momento da sua criação.
Mas Dorian Gray, um jovem sem grandes ambições intelectuais, envolto no seu narcisismo adolescente, na volúpia do seu caráter, tão logo vê o quadro, é acometido de uma profunda tristeza. É movido pela inveja diante da própria imagem retratada. Sente-se infeliz em saber que a beleza venerada permaneceria para sempre no quadro, enquanto que ele iria envelhecer, definhar.

“– Como é triste – murmurou Dorian, ainda com os olhos fixos em seu retrato. – Eu me tornarei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem. Não será nunca mais velho do que neste dia de junho… Se acontecesse o contrário! Se eu ficasse sempre jovem, e se este retrato envelhecesse! Por isso… por isso eu daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha própria alma!”

O texto acima define o caráter de Dorian Gray, ainda que muito jovem e inconseqüente, e é a chave para que se perceba a temática de Oscar Wilde, e o que se sucede a seguir. O escritor, ao contrário de “Fausto”, não diz ter sido o diabo quem atendeu ao pedido impossível de Dorian Gray, mas a arte, o próprio retrato, que aceita a proposta. Dorian Gray jamais envelhecerá, o seu retrato assumirá as agressões do tempo, as suas marcas, o seu verdadeiro caráter.

Paixões Fugazes

O tempo continua a passar. No início, Dorian Gray não percebe as mudanças do quadro ou a perfeição inalterada da sua beleza física. O jovem trava uma amizade intensa e ambígua com Lorde Henry Wotton, que passa a ser seu mentor intelectual. O cinismo latente do amigo encontra eco perfeito no caráter duvidoso de Dorian Gray, florindo no mundo cruel de uma mente devassa.
Enquanto a amizade de Lorde Henry Wotton evolui para a construção sarcástica do universo psicológico de Dorian Gray, há um grande distanciamento entre o jovem e Basil Hallward. O pintor sente que perdeu para sempre a sua obra perfeita e ao seu inspirador. Segue amargurado e sozinho.
Na inconstância dos seus sentimentos volúveis, Dorian Gray descobre-se irremediavelmente apaixonado por Sibyl Vane, uma jovem atriz de dezessete anos. O talento da jovem em interpretar personagens de Shakespeare seduz a futilidade de Dorian Gray. Nos impulso da paixão, ele decide pedir à atriz em casamento. Numa noite, quando leva os amigos para que vejam Sibyl Vane no palco, a jovem sente-se nervosa com a presença de todos, fazendo uma péssima atuação. Já no camarim, ela declara o seu amor incondicional ao amado. Jura-lhe fidelidade eterna, quer deixar de ser atriz para dedicar-se a ele. Mas Dorian Gray, envergonhado diante dos amigos pela péssima atuação de Sibyl Vane, e a menosprezar as suas juras de amor, encerra o romance com a jovem.
Ao ver Dorian Gray virar-lhe as costas, menosprezando-lhe os sentimentos e partir para sempre, Sibyl Vane desespera-se, fora sincera, entregara sem disfarces o seu coração. No afã do seu sofrimento, a jovem suicida-se.
Ao terminar o seu romance com Sibyl Vane, Dorian Gray vai para casa. Naquela noite trágica, ao olhar para o seu retrato, percebe que ele já não traz a beleza ingênua de antes. O quadro apresenta uma imagem cínica e fria. Dorian Gray percebe que a tela estava a absorver as suas emoções e o seu verdadeiro caráter. Está certo de que o quadro refletia a sua consciência.
A mudança na imagem tinha sido por causa da crueldade com a qual tratara Sibyl Vane. Num momento de rara crise de consciência, Dorian Gray decide reparar o seu erro, está disposto a casar com a jovem atriz, ser uma pessoa melhor. Mas era tarde. No dia seguinte, é informado da morte da infeliz jovem. Ao olhar novamente para o retrato, ele percebe que a imagem tornara-se ainda mais sarcástica e repugnante. Dorian Gray percebe por definitivo, o segredo que traz o seu quadro. Esconde-o atrás de um biombo, e futuramente, conforme vai se transformando, encerra-o em uma sala, coberto por um pano de cor púrpura.
A morte de Sibyl Vane é o momento da revelação do segredo de Dorian Gray. É o último momento de consciência aos seus atos, e o mais próximo de uma humanização dos sentimentos de uma personagem fria e fútil. Na noite que parecia sofrer com a notícia da morte da amada, Dorian Gray vai com a consciência apaziguada, ver uma apresentação de ópera.

O Encontro do Criador Com a Sua Obra

A partir da morte de Sibyl Vane, o caráter de Dorian Gray vai degradando. Todos que se aproximam dele são corrompidos, levados à deterioração moral. Seu rosto continua impassível, jovial e com a pureza retratada na pintura.
Se a degradação da alma de Dorian Gray fascina Lorde Henry Wotton, ela preocupa Basil Hallward. Inconformado com a má fama daquele que fora a sua maior inspiração, preste a partir para Paris, o pintor procura o seu modelo, na esperança de devolver-lhe a consciência da alma.
Um dos momentos mais densos do romance, Dorian Gray irrita-se com o pintor. Culpa-o do seu destino, pois era o autor do retrato da sua consciência. Em um momento de sinceridade cínica, o eterno jovem decide revelar o seu segredo a Basil Hallward. Leva-o à sala onde está confinada a sua obra-prima. Ao ver um retrato repugnante à frente, o pintor percebe a mentira que fora acreditar que tinha tido naquele jovem de caráter degradado a maior inspiração da sua vida. Já não acredita na perfeição da sua obra, apenas na soberba insana da admiração que dedicara à obra e ao modelo dela.
Dorian Gray deixa-se tomar por uma impulsividade vingativa, apodera-se de uma faca e desfere várias vezes sobre o pintor. Era como se matasse o autor não do seu retrato, mas da sua alma, da sua consciência diante das maldades as quais entregara a sua vida. A sua degradação estava completa, diante do corpo de Basil Hallward, a confirmação de que agora era também um assassino. No retrato, a sua mão passa a estar manchada de sangue.
Após o crime, Dorian Gray, através da chantagem, convence o jovem Alan Campbell, um legista, a transportar o corpo para ser dissecado como indigente em um laboratório. Repudiando o seu ato, Alan Campbell suicida-se logo após cumprir às ordens de Dorian Gray. O sangue aumenta nas mãos do retrato.

Duelo Entre o Retrato e o Seu Modelo

O tempo continua a passar veloz. Todos envelhecem. Dorian Gray continua jovial. É visto em Londres com repulsa. As pessoas temem ao seu poder de persuadir e perder os jovens. Homens e mulheres desejam-no. Dorian Gray é o próprio retrato da devassidão, da corrupção e da mentira humana.
Do seu passado volta o fantasma de Sibyl Vane, através do marinheiro James Vane, irmão da malograda atriz. James Vane jamais soubera o nome do homem que destruíra a vida da irmã. Descobre-o por acaso, nos bordéis do cais de Londres, onde Dorian Gray costumava freqüentar. Aproxima-se do homem misterioso, pronto para matá-lo com um tiro, mas Dorian Gray confunde-o, não poderia ser o homem que levara a irmã ao suicídio, há dezoito anos atrás. Era demasiadamente jovem. Diante do logro, deixa o jovem partir.
Mas James Vane não se deixa vencer. Descobre que Dorian Gray, apesar da aparência jovial, é um homem com a idade muito além da que trazia no rosto. Começa a persegui-lo, para vingar a irmã. Numa caçada no campo, James Vane é atingido mortalmente por acidente, pela espingarda de um caçador.
O desaparecimento misterioso de Basil Hallward cai no esquecimento. James Vane estava morto. Alan Campbell pusera fim à vida sem revelar o que lhe levara àquele ato extremo. Dorian Gray estava livre de todos os seus inimigos e daqueles que se lhe puseram no caminho. Não se sentia responsável por nenhuma das mortes. Todos a mereceram. Sentia-se leve. Apenas o retrato o incomodava. A tela repugnante era a sua consciência, a sua culpa que jamais seria redimida. Era hora de desaparecer com aquela cobrança retratada da sua alma.
Pensando poder dormir tranqüilo, sem jamais voltar a ver o retrato da sua alma e das suas rugas, Dorian Gray decide eliminar o quadro. Entra na sala onde a obra está encerrada. Olha-a mais uma vez. Está cada vez mais degradada, insuportável de ser olhada. Dorian Gray vai até uma escrivaninha e pega uma faca que se encontra sobre ela. É a mesma faca com a qual matara Basil Hallward, com ela iria destruir-lhe a obra perfeita. Não restaria mais nem autor, nem obra. Ficaria livre, finalmente. Com a força do seu ódio, investiu com a faca contra a pintura. Ecoa-se um terrível grito por toda a casa. Assustados, os criados vão até a sala misteriosa. Deparam-se com a imagem bela e perfeita do retrato do patrão. No chão encontram um cadáver envelhecido, com uma faca no peito. Nunca tinham visto ser tão repugnante. Só identificam que o corpo é de Dorian Gray pelos anéis que traz nos dedos.
Ao tentar matar a obra de Basil Hallward, Dorian Gray matou a si mesmo. Ao retrato foi devolvido a sua beleza e perfeição originais. A arte venceu a vida.

Oscar Wilde

Vindo de uma família de protestantes irlandeses, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde nasceu em Dublin, Irlanda, em 16 de outubro de 1854. Iniciou os estudos na Portora Scholl, de Enniskillen, transferindo-se mais tarde para o Trinity College, em Dublin, onde permaneceria até ganhar uma bolsa de estudos, em 1874, para o Magdalen College, em Oxford. O período em Oxford seria encerrado com o prêmio Newdigate de poesia, em 1878, por seu poema “Ravena”. Depois que deixou Oxford, estabeleceu residência em Londres.
Oscar Wilde sempre foi um homem controverso, gerando polêmicas não só pelas suas obras, como pela forma em que conduzia a sua vida. Apresentava-se em público com as suas atitudes extravagantes, os seus longos cachos, casaco de veludo, camisa larga de colarinho baixo, gravata de cores exóticas. Costumava trazer nas mãos ou na lapela, um lírio ou um girassol.
Sua vida amorosa era conturbada, com amores fugazes, muitas vezes proibidos pela moral vitoriana. Ao chegar a Londres, apaixonou-se pela bela Lily Langtry, com quem viveria a sua primeira grande aventura amorosa. No início da década de 1880, escreveu e viu encenadas as suas primeiras peças. Tornou-se um conferencista requisitado, tendo conhecido em uma das suas conferências, a bela e jovem Constance Lloyd, única herdeira de uma grande fortuna. Em 29 de maio de 1884, casou-se com Constance. Do casamento nasceriam dois filhos: Cyril, em 1885, e Vyvyan, em 1886.
Os registros sobre a homossexualidade de Oscar Wilde viriam a partir de 1886, quando o escritor conhecera o jovem Robert Ross, com quem teria iniciado as experiências homossexuais, tornando-as constantes a partir de 1889.
Em 1890, publicou em capítulos, no “Lippincott’s Magazine”, o romance “O Retrato de Dorian Gray”, publicando-o em volume em 1891. O romance teve uma péssima aceitação da crítica, os mais moralistas chegaram a classificá-lo como uma obra envenenadora dos costumes.
A partir de 1892, escreveu para o teatro uma série de peças bem-sucedidas, que traziam uma linguagem sofisticada, tornando-se comédias com um teor mordaz de crítica aos costumes vitorianos. Muitas foram imortalizadas como obras universais, destacando-se entre outras: “O Leque de Lady Windermere” (1893), “Um Marido Ideal” (1895) e “A Importância de Ser Fervoroso” (1895).
Em paralelo com o sucesso, Oscar Wilde passou a viver um torrencial romance com o jovem nobre Alfred Douglas, o Bosie, que conhecera em 1891. O seu envolvimento com o jovem passou a ser alvo de chantagistas, que ameaçavam divulgá-lo . Em 1895, sentiu-se ofendido pelo Marquês de Queensberry, pai de Bosie, levando-o a tribunal por difamação. O julgamento terminou com o nobre sendo inocentando e o escritor sendo acusado de homossexualismo, prática considerada crime pelas leis da época. Durante o processo, Oscar Wilde teve os seus livros retirados do mercado, sua casa foi vendida, sendo pilhada durante o leilão dos bens. No dia 25 de maio de 1895, foi condenado a dois anos de trabalhos forçados.
Posto em liberdade, em 1897, nada lhe restara da época de fama e prestígio. Passou a ser considerado um escritor maldito e amoral, sendo proibido citar as suas obras na casa das pessoas que se consideravam honestas. Sem casa, sem dinheiro, com os filhos e a esposa distantes, a usarem identidades disfarçadas, Oscar Wilde decidiu ir viver na França, numa vila pesqueira, Berneval, adotando o nome de Sebastian Melmoth.
Mais tarde, o escritor viria para Paris, onde, em 1898, soube da morte de Constance. Em Paris, Oscar Wilde vivia quase que sem amigos. No outono de 1900, começou a queixar-se de fortes dores de cabeça. Internado, chegou a ser operado do ouvido, mas alguns dias depois, o abscesso do ouvido provocou uma inflamação no cérebro. No dia 30 de novembro de 1900, Oscar Wilde morria de meningite, agravada pelo álcool e pela sífilis. Seu último desejo foi ser aceito pela igreja católica. No leito de morte, recebeu de um padre o batismo e a extrema unção.
Após um modesto velório na igreja de Saint-Germain-des-Prés, Oscar Wilde foi enterrado no cemitério de Bagneux, nos arredores de Paris. Somente em 1909, após o pagamento de todas as suas dívidas, foi transladado para um lugar de honra no Père Lachaise. Sobre o túmulo foi erguido um monumento, sendo nos dias de hoje, um dos mais visitados por turistas do mundo inteiro.

Cronologia

1854 – Nasce, em Dublin, Irlanda, em 16 de outubro, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde.
1864 – Inscrito na Portora Scholl, de Enniskillen.
1871 – É transferido para o Trinity College, em Dublin.
1874 – Ganha a medalha de ouro Berkeley no Trinity College. Passa a freqüentar como bolsista, em outubro, o Magdalen College, em Oxford.
1875 – Viaja para a Itália.
1876 – Morre, em 19 de abril, o seu pai, Sir William Robert Wills Wilde.
1879 – Passa a viver em Londres. Apaixona-se por Lily Langtry.
1880 – Escreve, em cinco atos, o drama “Vera, ou Os Niilistas”.
1881 – Publica o livro “Poemas”.
1882 – Realiza conferências nos Estados Unidos e no Canadá.
1883 – Viaja para Paris, pela primeira vez. Escreve “A Duquesa de Pádua”.
1884 – Casa-se com Constance Lloyd, fixando residência na Tite Street, Chelsea. Escreve crítica literária para diversas revistas.
1887 – Torna-se diretor da revista feminina “Woman’s World”.
1890 – Edita em capítulos, “O Retrato de Dorian Gray”, no “Lippincott’s Magazine”.
1891 – Apresentada na Alemanha e nos Estados Unidos a peça “A Duquesa de Pádua”.
1892 – Escreve “O Leque de Lady Windermere”. Proibida a apresentação da peça “Salomé”.
1893 – Apresentada com sucesso a peça “Uma Mulher Sem Importância”.
1895 – Estréia, em janeiro, “Um Marido Ideal”. Em fevereiro estréia “A Importância de Ser Fervoroso”. Começa em abril, o julgamento por homossexualismo. Condenado, em maio, a dois anos de trabalhos forçados.
1896 – Conclui a obra “De Profundis”. Morre Jane Francesca, sua mãe.
1897 – Posto em liberdade, em maio. Começa a escrever “Balada da Prisão de Reading”.
1898 – Morre, em abril, Constance, a sua esposa.
1900 – Oscar Wilde morre em Paris, em 30 de novembro, vitimado por uma meningite.

OBRAS:

Romance

1891 – O Retrato de Dorian Gray

Poesia

1878 – Ravena
1881 – Poemas
1894 – A Esfinge
1894 – Poemas em Prosa
1898 – Balada da Prisão de Reading

Teatro

1880 – Vera, ou Os Niilistas
1883 – A Duquesa de Pádua
1892 – O Leque de Lady Windermere
1892 – Salomé
1893 – Uma Mulher Sem Importância
1895 – Um Marido Ideal
1895 – A Importância de Ser Fervoroso

Contos

1887 – O Fantasma de Canterville
1888 – O Príncipe Feliz e Outras Histórias (contos de fadas)
1892 – A Casa das Romãs (contos de fadas)

Coletâneas

1891 – Intentions (Intenções)
1891 – O Crime de Lorde Arthur Saville e Outras Histórias

Artigos

1889 – The Decay of Lying
1905 – De Profundis (póstumo)