ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – UM ECO NA PAZ MUNDIAL

agosto 18, 2009
Nascida a partir dos escombros da Segunda Guerra Mundial e da antiga Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem como objetivos principais manter a paz mundial; proteger os direitos humanos, estimular a autonomia dos povos dependentes e sem pátria; incentivar o desenvolvimento econômico e social das nações; e, assegurar os laços entre todos os estados soberanos, integrando-os no contexto comum do planeta.
A ONU teve a sua fundação oficial em São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos, em 24 de outubro de 1945; sendo na época, retificada por 51 países. Desde a sua primeira Assembléia Geral, celebrada em 10 de janeiro de 1946, em Westminster Central Hall, em Londres, Grã-Bretanha, que a entidade tornou-se a voz das nações de todo o mundo. Passou pela reconstrução dos países destruídos pela Segunda Guerra Mundial, pela divisão do mundo em duas ideologias que gerou a Guerra Fria, viu muitos de seus países membros serem riscados do mapa, mudar de nome ou de regime; atuando sempre como mediadora dos grandes conflitos.
No jogo do poder das nações, a Organização das Nações Unidas muitas vezes viu os seus princípios ignorados por grandes potências, teve várias das suas resoluções em prol da paz mundial desrespeitadas, entrando algumas vezes, em colapso do descrédito. Nos tempos atuais, muito que se questiona a eficácia e a verdadeira função da ONU em um mundo globalizado, cada vez mais afetado pelo convívio difícil entre os povos e a ambição política das grandes potências. Questiona-se a falta de pulso da entidade diante dos grandes conflitos que desenham os interesses dos Estados Unidos, Rússia, China e Europa Ocidental, que promovem verdadeiros atos de arbitrariedade contra àqueles que se põem contra os seus objetivos.
Mesmo diante dos questionamentos, a ONU ainda é a grande voz dos povos do planeta, uma segurança ínfima para aqueles que vivem à deriva da história e dos jogos das potências. Com a sua sede em Nova York, a organização faz-se representar por 192 Estados membros soberanos reconhecidos internacionalmente. Durante a sua existência, tem sofrido derrotas históricas no objetivo de promover a paz e assegurar que os direitos humanos não sejam violados. A ONU promoveu o maior documento da era contemporânea, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, carta outorgada em 1948, que representa uma das mais belas e efetivas tentativas de proteção ao homem, que muitas vezes é diminuído diante do poder das nações. A ONU tenta conciliar a humanidade com as fronteiras por ela criada. Tenta, através da diplomacia e atos regulares, dar voz à liberdade política e social, garantido a sobrevivência do próprio homem, inserindo-o dentro das nações que ele inventou.

A Liga das Nações

A Sociedade das Nações (SDN), também conhecida como Liga das Nações, foi a verdadeira precursora da Organização das Nações Unidas. Os conflitos que levaram à Primeira Guerra Mundial, travada de 1914 a 1918, deixaram cicatrizes indeléveis, numa das maiores e mais sangrentas de todas as guerras da humanidade. Assim, em janeiro de 1919, as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial, reuniram em Versalhes, nos arredores de Paris, para que se negociasse um acordo de paz. Nas negociações, foi idealizado um amplo tratado, que se referia à criação de uma organização internacional, cuja função seria assegurar a paz entre as nações.
Em 28 de junho de 1919, foi assinado o Tratado de Versalhes, que estabelecia na sua I Parte, a Sociedade das Nações, que teve a sua Carta assinada nesta data por 44 Estados. Seis dias após a entrada em vigor do Tratado de Versalhes, em 16 de janeiro de 1920, foi reunido, pela primeira vez, em Paris, o Conselho da Sociedade das Nações.
A criação da SDN foi idealizada sobre a proposta feita pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson, conhecida como Quatorze Pontos, em mensagem enviada ao congresso do seu país, em 8 de janeiro de 1918. A proposta propunha as bases para a paz e a reestruturação das relações diplomáticas internacionais após o término da Primeira Guerra Mundial.
Em novembro de 1920 a Liga das Nações passou a ter a sua sede em Genebra, na Suíça. De início, os países membros criadores da Liga, deixaram em aberto o ingresso futuro de outros países do mundo, com claras exceções à Alemanha, à Rússia e à Turquia. Estes países só seriam aceitos futuramente, a Alemanha através do Tratado de Locarno, assinado em outubro de 1925; a Rússia, após consolidar a sua revolução Bolchevique, criando a União Soviética, foi aceita em 1934, juntamente com a Turquia.
Curiosamente, o Senado dos Estados Unidos promoveu um grande descaso para assinar o Tratado de Versalhes, fazendo com que esta emergente nação ficasse desvinculada das potências européias, e nunca se incorporasse à Sociedade das Nações, fazendo-o apenas a seus organismos afiliados.
Em 1939, o governo nazista de Adolf Hitler invadiu a Polônia, levando o mundo à Segunda Guerra Mundial. Era o grande fracasso da Liga das Nações, que se propusera a garantir a paz no planeta. Diante das estruturas frágeis da organização e do fracasso movido pela nova grande guerra, a Sociedade das Nações foi dissolvida, estando definitivamente extinta em meados de 1942. Em 1946, a SDN passou as suas funções à recém criada Organização das Nações Unidas (ONU), sua sucessora.

Criação da Organização das Nações Unidas

No decurso da Segunda Guerra Mundial, quando os países aliados sentiram que o conflito arquitetava para um final que lhes seria favorável, passaram a fomentar a idéia de uma organização internacional que promovesse, futuramente, a paz entre as nações. Não poderiam simplesmente ressuscitar a extinta Liga das Nações, vista que o seu descrédito não lhe fortaleceria diante dos povos e dos governos do planeta. Em 1943, em plena guerra, a conferência dos países Aliados, ocorrida em Moscou e liderada pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, o líder soviético Joseph Stalin e o ministro britânico Winston Churchill; elaborou formalmente a idéia da criação das Nações Unidas. Churchill e Roosevelt já haviam tido conversas preliminares, em dezembro de 1941, sobre a criação de uma nova organização internacional, sendo do presidente norte-americano a sugestão de chamá-la pelo nome de Nações Unidas.
Já nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os Aliados derrubavam os últimos bastiões de resistência dos países do Eixo, sendo travadas as batalhas finais; celebrou-se na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, em 25 de abril de 1945, a primeira conferência que trazia como objetivo a criação de uma nova organização das nações. Cinqüenta países faziam-se representar na conferência, que resultaria na assinatura conjunta da Carta das Nações Unidas, em 26 de junho de 1945. A Polônia não esteve representada na conferência, mas acrescentou o seu nome à Carta, algum tempo depois. Assim, nascia a Organização das Nações Unidas, com 51 Estados soberanos integrantes, chamados de membros fundadores.
No dia 24 de outubro de 1945, a ONU é oficialmente fundada, depois da ratificação da Carta pelos cinco países que se tornariam membros permanentes do Conselho de Segurança, Estados Unidos, União Soviética, China, França e Grã-Bretanha; e, pelos outros quarenta e seis países membros. Trazia como objetivos principais manter a paz entre as nações do planeta; proteger os direitos humanos entre os povos; fomentar o desenvolvimento econômico e social dos países; ajudar na autonomia e conquista da liberdade dos povos subjugados por outros; e, fortalecer os laços culturais entre os estados soberanos do mundo.
A primeira Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas foi realizada em Londres, em Westminster Central Hall, no dia 10 de janeiro de 1946. De 1949 a 1952, foi construída a sede atual da ONU, na parte leste de Manhattan, em Nova York. Ao contrário da sua antecessora, a SDN, a ONU tornou-se uma grande entidade internacional, acumulando, ao longo da sua existência, prestígio, grandes vitórias e grandes derrotas entre as nações por ela representada.

Organismos da ONU

Assembléia Geral

Constituída por todos os Estados membros, funcionando como um Parlamento, no qual cada país tem direito a um voto. Na Assembléia são debatidos os problemas mais urgentes da atualidade vivida; os orçamentos da Organização; a eleição do secretariado geral; as propostas do Conselho de Segurança e a admissão de novos membros. A Assembléia Geral não pode obrigar os países a cumprir as decisões adotadas.

Conselho de Segurança

É o órgão executivo dos temas políticos, onde todos os países são obrigados a acatar as suas decisões. É formado por quinze membros, dos quais cinco são permanentes: Estados Unidos, Rússia, França, Grã-Bretanha e China. Os outros dez integrantes do Conselho de Segurança são eleitos pela Assembléia Geral por um período de dois anos. A escolha obedece, em princípio, a critérios geográficos, assegurando que todas as áreas do planeta estejam representadas.
Há muito que se debate a ampliação do número de membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU. Os cinco países que constituem o Conselho permanente foram os líderes da criação das Nações Unidas, participantes da frente Aliada, que ao término da Segunda Guerra Mundial, tornaram-se as nações vencedoras e mais poderosas do mundo. O fato explica a razão pela qual a Alemanha e o Japão, duas grandes potências econômicas e políticas da atualidade, não fazem parte do grupo.
As Nações Unidas outorgam ao Conselho de Segurança a função de garantir a manutenção da paz internacional. Para que se efetive as decisões do Conselho, ele dispõe de poder para distribuir observadores militares, estabelecer mediações e impor sanções econômicas. Nos conflitos de maior gravidade, tem autonomia para autorizar uma intervenção militar.
Dos quinze integrantes do Conselho de Segurança, apenas os cinco membros permanentes têm poder de veto nas decisões. As decisões de grande porte não podem ser adotadas se um dos cinco países votar contra ou abster-se. O poder de veto tem sido utilizado historicamente para defender interesses das nações mais poderosas do planeta, tendo sido utilizado com maior evidência no período da Guerra Fria. Tais práticas têm contribuído para o desgaste e descrédito da ONU ante os olhos das nações internacionais, gerando grandes crises.

Conselho Econômico e Social

Tem como função coordenar os projetos da ONU nos âmbitos econômico, social, cultural e humanitário. O Conselho é composto por 54 membros, eleitos pela Assembléia Geral por um período de três anos. Vários órgãos subsidiários dependem do Conselho, para que possam pôr em prática as políticas da Organização das Nações Unidas. Entre estes órgãos subsidiários estão:
Banco Mundial – Responsável por proporcionar empréstimos e assistência técnica aos países em desenvolvimento.
FMI (Fundo Monetário Internacional) – Promove a cooperação monetária internacional e a estabilidade financeira em países afetados por uma crise financeira.
OMS (Organização Mundial da Saúde) – Coordena programas de assistência sanitária. Controla crises epidemiológicas, evitando que se espalhem pelo mundo.
FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola) – Coordena recursos financeiros para melhorar a produção de alimentos.
UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) – Tem como objetivo promover a defesa dos direitos das crianças no planeta.
FAO (Organização para a Agricultura e a Alimentação) – Tem como objetivo elevar os níveis de nutrição e desenvolvimento rural.

Conselho de Administração Fiduciária ou de Tutela

Composto por Estados membros que administram territórios sob tutela. Quando criado, o Conselho administrava onze territórios em fideicomisso após a Segunda Guerra Mundial. Através dele, vários territórios tutelados foram transformados em países soberanos. Em 1994, todos esses territórios já eram independentes, e os membros do Conselho foram reduzidos aos cinco permanentes do Conselho de Segurança. O último território transformado em soberano, antes que se encerrasse o Conselho de Tutela, foi o Palau, no Oceano Pacífico, em 1994.

Corte Internacional de Justiça

A Corte Internacional de Justiça, também conhecida como Tribunal de Haia, atua como principal órgão judiciário das Nações Unidas. O Tribunal Internacional tem a sua sede em Haia, na Holanda, estando aberto a todos os países membros da ONU e àqueles, que mesmo não sendo membros, aderiram ao estatuto da organização.
O tribunal é composto de quinze juízes eleitos pela Assembléia Geral e pelo Conselho de Segurança. Tem como função intervir nos litígios entre as nações. Os países optam voluntariamente pelo julgamento da Corte Internacional, mas depois que a sentença é executada, deve ser obrigatoriamente acatada.

Secretaria Geral

Órgão que realiza as funções administrativas da Organização das Nações Unidas. Seu representante máximo é o secretário-geral, eleito pela Assembléia Geral.
Ao longo dos anos, o papel do secretário-geral deixou de ser unicamente o de cumprir obrigações de um alto funcionário, ampliando as funções, convertendo-o em um mediador internacional, bem como um líder de grande visibilidade dentro da ONU.
As funções do secretário-geral da ONU são essencialmente consultivas, organizativas e diplomáticas, nunca executivas. Desde a fundação da Organização, foram secretários-gerais:

Sir Gladwyn Jebb (Grã-Bretanha) – Secretário-Geral interino de 1945 a 1946
Trygve Lie (Noruega) – De 1946 a 1953
Dag Hammarskjöld (Suécia) – De 1953 a 1961
U Thant (Birmânia – atual Mianmar) – De 1961 a 1971
Kurt Waldheim (Áustria) – De 1972 a 1981
Javier Pérez de Cuéllar (Peru) – De 1982 a 1991
Boutros Boutros-Ghali (Egito) – De 1992 a 1996
Kofi Annan (Gana) – De 1997 a 2007
Ban Ki-Moon (Coréia do Sul) – Desde 2007

Financiamento da Organização

A ONU é, essencialmente financiada mediante as contribuições voluntárias dos países membros. O montante a ser pago por cada país é calculado a partir da porcentagem que a sua economia representa em relação à situação mundial, em uma média de cinco anos.
De dois em dois anos são avaliados os orçamentos das Nações Unidas e das suas agências. A Assembléia Geral aprova o orçamento regular e determina a avaliação a ser paga por cada membro.
Em dezembro de 2000, houve uma revisão nos orçamentos da ONU, promovida pelos Estados Unidos, mudando os cálculos dos países. Assim, os Estados Unidos conseguiram diminuir sua contribuição de 25% para 22%, embora a sua economia corresponda à quarta parte do globo. Por outro lado está o Japão, que com 13% da economia mundial, paga 19% à ONU. Em 2000 foi estabelecida a cota máxima de 22% de contribuição.
Nas operações pela manutenção da paz no planeta, há uma sobretaxa para os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, que é quem aprova todas essas operações.

Países Membros das Nações Unidas

Em 1945, 51 países fundaram a ONU, sendo todos eles imediatamente admitidos, passando a ser conhecidos como membros fundadores. Destes, 49 são ainda membros ou tiveram o lugar substituído por um estado sucessor, como aconteceu à Rússia, que substituiu a extinta União Soviética. Os outros dois membros fundadores que já não existem como nação foram a Iugoslávia (atuais Sérvia, Montenegro, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Croácia e Macedônia) e a Tchecoslováquia (atuais República Tcheca e Eslováquia), fragmentadas em pequenas nações, que tomaram seus próprios postos dentro da ONU.
Com o decorrer das décadas, quase todas as nações soberanas passaram a fazer parte da ONU. Algumas nações foram fragmentadas, como as duas já citadas, ou ainda a Etiópia, que teve parte do seu território independente, formando a Eritréia. Também a extinção da antiga União Soviética gerou países soberanos como a Ucrânia, Estônia, Lituânia, Letônia, Cazaquistão, Armênia, Geórgia, Moldávia, Bielorrússia, Azerbaijão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão.
Por outro lado, outros países foram (re) unificados, como o Iêmen (antes dividido em Norte e Sul), a Alemanha (antes dividida em RFA e RDA) e o Vietnã (dividido pela Guerra Fria em Norte e Sul).
Muitos dos membros da ONU mudaram o nome, ao longo dos anos. Assim, o Daomé tornou-se Benim; o Zaire a República Democrática do Congo; o Alto Volta o Burkina Faso; a Birmânia o Mianmar; o Ceilão o Sri Lanka; a Rodésia o Zimbabwe.
Em 1971, a República da China foi substituída pela República Popular da China, como estado sucessor. Taiwan, apesar de independente, é considerada pelos chineses como uma província rebelde, não lhe sendo permitido assinar a carta de adesão.
Em 10 de setembro de 2002, a Suíça, país tradicionalmente conhecido por sua neutralidade, passou a fazer parte da ONU.
Com a adesão do Montenegro, que deixou a união com a Sérvia, formando um Estado soberano; em 28 de junho de 2006, a ONU passou a ter 192 países membros, que incluem todos os Estados soberanos reconhecidos internacionalmente. O Vaticano, sede da igreja católica, tem estatuto de observador.
Assim, a filiação à Organização das Nações Unidas é aberta a todos os países oficialmente reconhecidos pela comunidade internacional como soberanos e que se comprometam a acatar as decisões da Organização e a promover a paz entre as nações.
Fazem parte da ONU, os seguintes países:

Afeganistão – 19 de novembro de 1946
África do Sul – 7 de novembro de 1945
Albânia – 14 de dezembro de 1955
Alemanha – 18 de setembro de 1973
Andorra – 28 de julho de 1993
Angola – 1 de dezembro de 1976
Antígua e Barbuda – 11 de novembro de 1981
Arábia Saudita – 24 de outubro de 1945
Argélia – 8 de outubro de 1962
Argentina – 24 de outubro de 1945
Armênia – 2 de março de 1992
Austrália – 1 de novembro de 1945
Áustria – 14 de dezembro de 1955
Azerbaijão – 2 de março de 1992
Bahamas – 18 de setembro de 1973
Bahrein – 21 de setembro de 1971
Bangladesh – 17 de setembro de 1974
Barbados – 9 de dezembro de 1966
Bélgica – 27 de dezembro de 1945
Belize – 25 de setembro de 1981
Benim – 20 de setembro de 1960
Bielorrússia – 24 de outubro de 1945
Bolívia – 14 de novembro de 1945
Bósnia-Herzegovina – 22 de maio de 1992
Botsuana – 17 de outubro de 1966
Brasil – 24 de outubro de 1945
Brunei – 21 de setembro de 1984
Bulgária – 14 de dezembro de 1955
Burkina Faso – 20 de setembro de 1960
Burundi – 18 de setembro de 1962
Butão – 21 de setembro de 1971
Cabo Verde – 16 de setembro de 1975
Camarões – 20 de setembro de 1960
Camboja – 14 de dezembro de 1955
Canadá – 9 de novembro de 1945
Cazaquistão – 2 de março de 1992
Chade – 20 de setembro de 1960
Chile – 24 de outubro de 1945
China – 24 de outubro de 1945
Chipre – 20 de setembro de 1960
Colômbia – 5 de novembro de 1945
Comores – 12 de novembro de 1975
Congo – 20 de setembro de 1960
Congo, República Democrática do (ex Zaire) – 20 de setembro de 1960
Coréia do Norte – 17 de setembro de 1991
Coréia do Sul – 17 de setembro de 1991
Costa do Marfim – 20 de setembro de 1960
Costa Rica – 2 de novembro de 1945
Croácia – 22 de maio de 1992
Cuba – 24 de outubro de 1945
Dinamarca – 24 de outubro de 1945
Djibouti – 20 de setembro de 1977
Dominica – 18 de dezembro de 1978
Egito – 24 de outubro de 1945
Emirados Árabes Unidos – 9 de dezembro de 1971
El Salvador – 24 de outubro de 1945
Equador – 21 de dezembro de 1945
Eritréia – 28 de maio de 1993
Eslováquia – 19 de janeiro de 1993
Eslovênia – 22 de maio de 1992
Espanha – 14 de dezembro de 1955
Estados Unidos – 24 de Outubro de 1945
Estônia – 17 de setembro de 1991
Etiópia – 13 de novembro de 1945
Fiji – 13 de outubro de 1970
Filipinas – 24 de outubro de 1945
Finlândia – 14 de dezembro de 1955
França – 24 de outubro de 1945
Gabão – 20 de setembro de 1960
Gâmbia – 21 de setembro de 1965
Gana – 8 de março de 1957
Geórgia – 31 de julho de 1992
Granada – 17 de setembro de 1974
Grécia – 25 de outubro de 1945
Guiana – 20 de setembro de 1966
Guatemala – 21 de novembro de 1945
Guiné – 12 de dezembro de 1958
Guiné-Bissau – 17 de setembro de 1974
Guiné Equatorial – 12 de novembro de 1968
Haiti – 24 de outubro de 1945
Holanda – 10 de dezembro de 1945
Honduras – 17 de dezembro de 1945
Hungria – 14 de dezembro de 1955
Iêmen – 30 de setembro de 1947
Islândia – 19 de novembro de 1946
Índia – 30 de outubro de 1945
Indonésia – 28 de setembro de 1950
Irã – 24 de outubro de 1945
Iraque – 21 de dezembro de 1945
Irlanda – 14 de dezembro de 1955
Israel – 11 de maio de 1949
Itália – 14 de dezembro de 1955
Jamaica – 18 de setembro de 1962
Japão – 18 de dezembro de 1956
Jordânia – 14 de dezembro de 1955
Kiribati – 14 de setembro de 1999
Kuwait – 14 de maio de 1963
Laos – 14 de dezembro de 1955
Lesoto – 17 de outubro de 1966
Letônia – 17 de setembro de 1991
Líbano – 24 de outubro de 1945
Libéria – 2 de novembro de 1945
Líbia – 14 de dezembro de 1955
Liechtenstein – 18 de setembro de 1990
Lituânia – 17 de setembro de 1991
Luxemburgo – 24 de outubro de 1945
Macedônia – 8 de abril de 1993
Madagascar – 20 de setembro de 1960
Malawi – 1 de dezembro de 1964
Malásia – 17 de setembro de 1957
Maldivas – 21 de setembro de 1965
Mali – 28 de setembro de 1960
Malta – 1 de dezembro de 1964
Marrocos – 12 de novembro de 1956
Marshall, Ilhas – 17 de setembro de 1991
Mauritânia – 27 de outubro de 1961
Maurício – 24 de abril de 1968
México – 7 de novembro de 1945
Micronésia, Estados Federados da – 17 de setembro de 1991
Moldávia – 2 de março de 1992
Mônaco – 28 de maio de 1993
Mongólia – 27 de outubro de 1961
Montenegro – 28 de junho de 2006
Moçambique – 16 de setembro de 1975
Mianmar – 19 de abril de 1948
Namíbia – 23 de abril de 1990
Nauru – 14 de setembro de 1999
Nepal – 14 de dezembro de 1955
Nicarágua – 24 de outubro de 1945
Niger – 20 de setembro de 1960
Nigéria – 7 de outubro de 1960
Noruega – 27 de novembro de 1945
Nova Zelândia – 24 de outubro de 1945
Omã – 7 de outubro de 1971
Paquistão – 30 de setembro de 1947
Palau – 15 de dezembro de 1994
Panamá – 13 de novembro de 1945
Papua-Nova Guiné – 10 de outubro de 1975
Paraguai – 24 de outubro de 1945
Peru – 31 de outubro de 1945
Polônia – 24 de outubro de 1945
Portugal – 14 de dezembro de 1955
Qatar – 21 de setembro de 1971
Quênia – 16 de dezembro de 1963
Quirguistão – 2 de março de 1992
Reino Unido – 24 de outubro de 1945
República Centro-Africana – 20 de setembro de 1960
República Dominicana – 24 de outubro de 1945
República Tcheca – 19 de janeiro de 1993
Romênia – 14 de dezembro de 1955
Ruanda – 18 de setembro de 1962
Rússia – 24 de outubro de 1945
Salomão, Ilhas – 19 de setembro de 1978
Samoa – 15 de dezembro de 1976
São Marinho – 2 de março de 1992
São Cristóvão e Nevis – 23 de setembro de 1983
Santa Lúcia – 18 de setembro de 1979
São Tomé e Príncipe – 16 de setembro de 1975
São Vicente e Granadinas – 16 de setembro de 1980
Senegal – 28 de setembro de 1960
Sérvia – 1 de novembro de 2000
Serra Leoa – 27 de setembro de 1961
Seychelles – 21 de setembro de 1976
Singapura – 21 de setembro de 1965
Síria – 24 de outubro de 1945
Somália – 20 de setembro de 1960
Sri Lanka – 14 de dezembro de 1955
Suazilândia – 24 de setembro de 1968
Sudão – 12 de novembro de 1956
Suécia – 19 de novembro de 1946
Suíça – 10 de setembro de 2002
Suriname – 4 de dezembro de 1975
Tadjiquistão – 2 de março de 1992
Tailândia – 16 de dezembro de 1946
Tanzânia – 14 de dezembro de 1961
Timor-Leste – 27 de setembro de 2002
Togo – 20 de setembro de 1960
Tonga – 14 de setembro de 1999
Trinidad e Tobago – 18 de setembro de 1962
Tunísia – 12 de novembro de 1956
Turcomenistão – 2 de março de 1992
Turquia – 24 de outubro de 1945
Tuvalu – 5 de setembro de 2000
Ucrânia – 24 de outubro de 1945
Uganda – 25 de outubro de 1962
Uruguai – 24 de outubro de 1945
Uzbequistão – 2 de março de 1992
Vanuatu – 15 de setembro de 1981
Venezuela – 15 de novembro de 1945
Vietnã – 20 de setembro de 1977
Zâmbia – 1 de dezembro de 1964
Zimbabwe – 25 de agosto de 1980

A Real Eficácia da ONU

Mesmo tendo beneficiado muitas vezes as nações mais poderosas, a ONU continua a ser o maior ponto de referência a garantir a soberania dos povos. Sua eficácia só será plena quando da ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança e da diminuição da dependência monetária em relação às nações mais poderosas.
Problemas graves como a perseguição e genocídio aos Curdos, a soberania dos povos da Tchetchênia, são visivelmente ignorados pela ONU, o que demonstra o poder superior dos interesses das grandes potências sobre as Nações Unidas.
Na última década, a maior humilhação e derrota sofrida pela ONU foi a invasão do Iraque, promovida em 2003, pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Condenada pelo Conselho de Segurança, a invasão deu-se à revelia da Organização, demonstrando que os interesses norte-americanos são soberanos aos interesses e à manutenção da paz mundial. Diante da invasão, a ONU saiu enfraquecida, chegando mesmo a ser questionada a sua real função diante do cenário internacional, e se a sua força não seria apenas uma aparência criada e controlada pelas grandes potências.
Apesar de todas as limitações e desalentos de eficácia, o mundo sem dúvida está bem melhor com a existência da ONU, do que se estivesse à deriva, sem um órgão internacional a que pudesse recorrer os povos em momentos de aflição e de guerra diante da ambição implacável dos interesses das nações. Se a ONU é efetivamente ineficaz, moralmente ela traz uma segurança à soberania dos povos.

 


ORCHESTRE DES CHAMPS-ÉLYSÉES NO BRASIL

maio 8, 2009
Em 2005 foi realizado o “Ano do Brasil na França”, com eventos culturais brasileiros que eclodiram por terras francesas, marcando momentos de grande sucesso no intercâmbio, Em 2009 chegou a vez do Brasil retribuir, assim, em abril, foi aberto o “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”, com uma programação de mais de 600 eventos culturais a acontecer por todo o país tropical.
Na leva do “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”, pôde ser visto, pela primeira vez em solo tupiniquim, a apresentação de uma das mais conceituadas e famosas orquestras da Europa e do mundo, a Orchestre des Champs-Élysées de Paris, sob a regência do genial maestro Philippe Herreweghe.
A orquestra é conhecida pela pluralidade da sua formação, comportando cerca de 172 músicos, com idades distintas e nacionalidades diversas, como franceses, bósnios, alemães, romenos, norte-americanos, italianos, colombianos, belgas, holandeses, e muitas outras, o que lhe traz esta atmosfera universal e de unidade musical sempre a surpreender e fascinar a platéia. Pela quantidade de músicos e instrumentos, torna-se difícil trazer uma orquestra deste porte. Este obstáculo foi possível de ser vencido devido à generosidade do maestro Philippe Herreweghe, que abriu mão de grande parte dos músicos, criando um concerto grandioso com apenas 81 componentes da orquestra original.
Os momentos da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil foram marcados por quatro concertos, sendo três em São Paulo, dois na Sala São Paulo, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística; e, um no Sesc Itaquera; e um em Brasília, no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Com exceção das apresentações na Sala São Paulo, as demais tiveram entrada franca, sendo patrocinadas pelo “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”.
Mesmo com noventa músicos a menos, Philippe Herreweghe regeu um espetáculo monumental, com três concertos distintos, “Escocesa – Sinfonia nº 3 em La Menor, Op. 56”, de Felix Mendelssohn; “Sinfonia Fantástica – Episódios da Vida de um Artista, Op. 14”, e “Lélio ou Retorno à Vida – Op. 14”, criação de Hector Berlioz. A dimensão apoteótica dada pelo maestro, parecia que mais de uma centena de músicos enchiam as salas por onde passou a orquestra, como se os contrabaixos fossem mais de uma dúzia, e os violinos infinitos. O apogeu foi alcançado com a “Sinfonia Fantástica” de Berlioz, momento sublime de uma concepção que transcendia a platéia, fazendo-a ardorosa e emocionada. Grandiosa, eloqüente, emocionante, e vários adjetivos afins, são poucos para descrever as apresentações da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil, deixando-nos com a perspectiva do porque de ser uma das maiores orquestras do mundo, e com a certeza do seu retorno em solo brasileiro.

A Orchestre des Champs-Élysées

A Orchestre des Champs-Élysées foi fundada em 1991, numa iniciativa de Alan Durel, diretor do Théâtre des Champs-Élysées, e de Philippe Herreweghe, que se fez desde então, o seu diretor musical e regente. Ao longo de quase duas décadas, a orquestra acumulou prestígio, sendo uma das mais conceituadas e admiradas no mundo.
Após a sua fundação, a orquestra esteve residente por muitos anos no Théâtre des Champs-Élysées em Paris, e, no Palais des Beaux-Arts de Bruxelas, na Bélgica. Tornou-se uma orquestra com características distintas, que se especializou na interpretação da música que se estende desde a metade do século XVIII ao início do século XX. Os instrumentos tocados pelos músicos são originais da época, com cordas especiais feitas das tripas de ovelhas, o que lhe concebe a originalidade garantida do som que se fazia pelos séculos passados. A dimensão musical tornar-se, através da Orchestre des Champs-Élysées, uma concepção única, que passa por um vasto repertório, de Mahler a Berlioz, de Haydn a Mendelssohn.
Formada por músicos de nacionalidades plurais, o que lhe confere uma lufada de constante renovação e aprimoramento vindos de várias partes do mundo, garantindo-lhe uma erudição internacional, a Orchestre des Champs-Élysées já se apresentou nas principais salas de concertos da Europa e do mundo, entre elas, a Musikverein de Viena, Gewandhaus de Leipzig, Alter Oper de Frankfurt, Barbican Center de Londres, Philharmonic Hall de Berlim e Munique, Concertgebouw de Amsterdã e tantas outras. Além do circuito europeu, a orquestra apresentou-se com exímio sucesso, no Lincoln Center de Nova York, no Teatro Nacional de Brasília, e diversos países como Austrália, Japão, China e Coréia.
Desde a fundação, a orquestra esteve sempre sobre a direção artística de Philippe Herreweghe, com o seu perfeccionismo caracterizado pela execução de um repertório tecido por instrumentos de época. A Orchestre des Champs-Élysées esteve, ocasionalmente, sob a regência de famosos maestros convidados, entre eles Louis Langrée, Daniel Harding, Christophe Coin, Christian Zacharias, René Jacobs e Bruno Weil.
A Orchestre des Champs-Élysées produziu, ao longo da sua trajetória, uma extensa obra discográfica, que incluí interpretações de Mozart (“Grande Messe en ut Mineur”, “Requiem”), Mendelssohn (“Elias”, “Paulus”), Beethoven (“Missa Solemnis”), Brahms (“Un Requiem Allemand”), Schumann (“Symphonie nº 2 e 4”), Bruckner (“Symphonie nº 7”) e Mahler (“Des Knaben Wunderhorn”), entre tantos.

Philippe Herreweghe, o Regente

Conheci Philippe Herreweghe em Lisboa, em fevereiro de 1994, em um concerto do Ensemble Musique Oblique, da qual ele era regente, e que marcava a abertura do evento “Lisboa Capital Européia da Cultura – 1994”, realizado no Centro Cultural de Belém (CCB). Na noite que precedeu ao concerto, estivemos em uma tertúlia no Bar Mahjong, no Bairro Alto, ao lado do músico e amigo Michel Maldonado, da assessora de imprensa Sylvia Vaez, e do fotógrafo Stanislas Kalimerov. Dono de um humor agradável e de uma erudição cultural despida de pedantismos, Philippe Herreweghe conquista com o seu carisma particular, às pessoas que o ladeiam, mostrando-se afável e generoso.
Nascido na Bélgica, na cidade de Ghent, Herreweghe traz a simpatia sofisticada e arraigada dos flamingos. Foi na sua cidade natal, na Flandres, que estudou piano no conservatório. Desviou-se da música para que se pudesse dedicar aos estudos de medicina, especializando-se em psiquiatria. Já na faculdade, Philippe Herreweghe fundou o Collegium Vocale de Ghent, chamando para si as atenções de Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, fascinados pela qualidade do conjunto vocal por ele fundado, convidando-o de imediato para que se unisse a eles e participasse da gravação completa das “Cantatas de Bach”.
Desde então, Philippe Herreweghe empenhou-se em trazer para a sua regência um amplo repertório que vai do Renascimento à música erudita contemporânea, o que o levou a criar várias orquestras (ensembles), com integrações distintas e plurais, com as quais fez cerca de sessenta gravações em disco. Entre os ensembles estão: Ensemble Vocal Européen, especializado na interpretação da música polifônica renascentista; o Collegium Vocale de Ghent, que há trinta anos dedica-se à música de Bach e seus precursores; a Chapelle Royale, dedicada à Música Barroca Francesa; a Orchestre des Champs-Élysées, especializada em música clássica e romântica, e a Ensemble Musique Oblique, especialista em música erudita contemporânea.
Além de ser um dos fundadores da renomada Orchestre des Champs-Élysées, em 1991, é desde então, o seu diretor artístico e regente. Philippe Herreweghe costuma reger como convidado, outras grandes orquestras de prestígio internacional, como a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã; a Orquestra Rotterdam Philharmonic, de Roterdã; a Orquestra da Gewandhaus de Leipzig; a Mahler Chamber Orchestra; a Stavanger Symphony Orchestra; a Royal Flandres Philharmonic Orchestra, da qual é diretor desde 1997. Dirigiu também, as orquestras Filarmônicas de Berlim e de Viena.
Philippe Herreweghe participou como diretor artístico do prestigiado Festival de Saintes, no sudoeste da França, no período de 1982 a 2002. Em 1990 foi agraciado com o título de Personalidade Musical do Ano; Músico Europeu do Ano, em 1991; Embaixador Cultural da Flandres através do Collegium Vocale de Ghent, em 1993. Foi-lhe outorgado, em 1994, a Orden de Officier des Arts et Letters; nomeado Doctor Honoris Causa da Universidade da Lovaina, em 1997. Em 2003, foi nomeado Cavalheiro da Legião de Honneur, sendo-lhe concedido um título nobiliárquico pelo rei da Bélgica.
Pelo talento, por todas as qualidades mencionadas, Philippe Herreweghe é hoje um dos maiores nomes da música clássica, erudita e contemporânea do mundo, sendo um dos maiores regentes das últimas décadas.

A Orchestre des Champs-Élysées em São Paulo

Apesar de ter se apresentado nas maiores salas de espetáculos do planeta, a Orchestre des Champs-Élysées só aportou no Brasil graças às comemorações do “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”. Com cerca de 172 músicos, o deslocamento da orquestra exige uma grande infraestrutura, tornando-se demasiadamente dispendiosa, o que necessita sempre de mecenas e patrocinadores.
A negociação com os organizadores do “Ano da França no Brasil” e a Orchestre des Champs-Élysées foram longas, feitas em mais de um ano. Graças à generosidade de Philippe Herreweghe, que aceitou cortar substancialmente no número de músicos e, principalmente, conseguiu manter o nível de qualidade erudita com uma orquestra desfalcada de mais de noventa dos seus membros integrantes, que o Brasil pôde, finalmente conhecer este imponente ícone da música erudita mundial.
Feitos os cortes, a Orchestre des Champs-Élysées chegou ao Brasil no fim de abril de 2009, com 81 músicos, o ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, um grupo de bailarinas, o tenor Robert Getchell e o barítono Pierre-Yves Pruvot, todos sob a regência e direção de Philippe Herreweghe.
Na programação, a orquestra tinha a função de abrir oficialmente o “França.Br 2009” no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Mas os problemas de infraestrutura estavam longe de uma solução definitiva. Curiosamente, uma cidade como o Rio de Janeiro não ofereceu recursos para que se recebesse uma orquestra deste porte. O Teatro Municipal, uma das mais belas casas de espetáculos do país, foi fechado em outubro de 2008 para restauração. Como solução, chegou a ser anunciada a apresentação da orquestra no Teatro João Caetano, mas os organizadores chegaram à conclusão de que o teatro estava degradado, a necessitar de obras, não oferecendo condições para receber um concerto da grandiosidade da Orchestre des Champs-Élysées. Assim, uma cidade da importância do Rio de Janeiro, foi excluída do roteiro da orquestra, uma vergonha para os governantes e representantes da cultura carioca.
Em São Paulo, a orquestra apresentou-se ao ar livre, no Sesc Itaquera, brindando o paulistano com a belíssima apresentação de “Lélio ou Retorno à Vida – Op. 14″, de Hector Berlioz. A apresentação contava com intervenções narrativas do ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, dois cantores e um coro, tendo entrada franca, sendo registrada pela TV Cultura, que transmitiu o concerto ao vivo, alcançando grande sucesso e receptividade do público. A apresentação musical, a cenografia e a encenação foram complementadas por projeções em vídeo criadas por Jean-Philippe Clarac e Olivier Deloeuil. Foram feitas outras duas apresentações na Sala São Paulo, para um público pagante, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística. Concebido exclusivamente para São Paulo, quando a Orchestre des Champs-Élysées deixou a cidade, o ator, os cantores e bailarinos não os acompanharam até o Distrito Federal, antecipando a volta para a França.

A Orchestre des Champs-Élysées em Brasília

Após o contratempo que excluiu a cidade do Rio de Janeiro do roteiro, e o grande sucesso em São Paulo, a orquestra partiu para o Distrito Federal, com 81 músicos, tendo o honroso compromisso de abrir oficialmente o “França.Br 2009” na capital do Brasil.
Já familiarizados com o país, os músicos sentiram-se confortáveis em Brasília, o que contribuiu para que se pudessem entregar sem medos à composição de um grande concerto, que conquistaria a platéia brasiliense.
Em Brasília, o concerto foi organizado com grande pompa, com a presença de Antoine Pouillieute, embaixador da França no Brasil, a discursar na abertura. Para esta apresentação, Philippe Herreweghe preparou um concerto dedicado a Félix Mendelssohn e a Hector Berlioz.
Na primeira parte da apresentação, Mendelssohn abria o espetáculo, com “Escocesa – Sinfonia nº 3 em Lá menor, Op.56”. O perfeccionismo de Herreweghe dilatava-se logo à entrada, com a sua obsessão perene pela autenticidade do som e dos instrumentos de época. O toque precioso da emoção contagiava o público da Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional de Brasília, que aplaudia com veemência a cada movimento encerrado. A “Sinfonia nº 3”, devidamente intitulada “Escocesa”, alcançou com Herreweghe a conotação precisa da mobilidade da música de Mendelssohn, um romântico que nos dá um à vontade em suas fugas.
Ao fim da primeira parte, um breve intervalo foi regado por um autêntico Champagne oferecido ao público. Apesar de longo, o intervalo não quebrou a atmosfera que se conseguiu durante a execução da obra de Mendelssohn.
Na segunda parte do concerto, estava o momento mais esperado, a “Sinfonia Fantástica – Episódios de uma Vida, Op. 14”, de Hector Berlioz. A sinfonia conta a história de um jovem compositor que, por amor, envenena-se com ópio, mas ao ingerir uma dose não suficiente para matar, faz com que ele mergulhe em um estado letárgico repleto de visões. As visões apresentam-se na sinfonia, originalmente chamada de “Episódio da Vida de Um Artista”, que se desenvolve em cinco movimentos.
A apresentação econômica da orquestra desaparece diante das mãos decididas de Philippe Herreweghe, que faz com que a dimensão sonora seja grandiosa, e que a platéia pense que ali estão mais de 40 violinos, quando eram apenas 24. Ao fim de cada movimento, novos aplausos eclodiam de uma platéia totalmente rendida à orquestra. Os instrumentos usados são os mesmos que Berlioz idealizou e tocou, em 1830, quando escreveu a Sinfonia. Ao final suntuoso, com o último movimento, “Sonho de Uma Noite de Shabat”, a platéia foi ao delírio. Quando o concerto foi encerrado, a generosidade do público mostrou os resultados de um grande trabalho, os aplausos eclodiram incessantemente por longos dez minutos, obrigando Philippe Herreweghe a voltar ao palco por duas vezes. Encerrava-se assim, de forma apoteótica, a vinda da Orchestre des Champs-Élysées ao Brasil, deixando um gosto de quero mais e a imensa expectativa de que ela retorne muitas vezes, e brevemente, quem sabe, com todos os músicos.
Ao fim dos concertos, uma grande excursão de músicos fez-se presente pelas ruas e pelos monumentos da cidade inventada por Oscar Niemeyer. Em um ano que se programou mais de 600 eventos artísticos vindos da França, a Orchestre des Champs-Élysées foi o presente de estréia, em um momento de puro êxtase cultural e reverências a Philippe Herreweghe e aos seus 81 músicos.

Orchestre des Champs-Élysées – Composição

Original

Regente: Philippe Herreweghe

Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud, Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht, Catherine Arnoux, Marieke Blankestijn, Alessandro Braga, Karine Crocquenoy, Ilaria Cusano, Maud Giguet, Elisabeth Glab, Charlotte Grattard, Solenne Guilbert, Peter Hanson, Alexander Janiczek, Matilda Kaul, Thérèse Kipfer, Bérénice Lavigne, Catherine Montiers, Liesbeth Nijs, Aki Saulière, Henriette Scheytt, Kio Seiler, George Willms

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Bretagne, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger, Agathe Blondel, Mathilde Bernard, Laurent Bruni, Blandine Faidherbe, Jean-Charles Ferreira, Laurent Gaspar, Dorothée Leclair, Luigi Moccia, Wendy Rymen

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana, Florent Audibert, Julien Barre, Fabrice Bihan, Claire Giardelli, Jennifer Morsches

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore, Axel Bouchaux, Clothilde Guyon, Marion Mallevaes, James Munro, Francis Palma-Pelletier, Alessio Povolo, Jean-Baptiste Sagnier, Miriam Shalinsky, Maria Vahervuo

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel, Giulia Barbini, Laura Colucci, Oeds van Middelkoop, Jane Mitchell, Takashi Ogawa, Jan de Winne

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato, Pier-Luigi Fabretti, Christian Moreaux, Rafaël Palacios, Antoine Torunczyk, Stefaan Verdegem

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini, Benjamin Dieltiens, Luca Luchetta, Markus Springer, Marc Withers

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival, Margreet Bongers, Alain de Rijckere, Jani Sunnarborg, Javier Zafra

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse, Luc Bergé, Jeroen en Billiet, Mark De Merlier, Miek Laforce, Ursula Monberg, Martin Mürner, Martin Roos

Trompetes e Cornetas: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson, Leif Bengtsson, Alain de Rudder, Guy Ferber, Patrick Henrichs, Femke Lunter, Thibaud Robinne, Geerten Rooze

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet, Guy Hanssen, Saman Maroofi, Harry Ries

Oficleides, Tuba, Serpent: Marc Girardot, Stephen Wick, Erhard Schwartz

Tímpanos 1: Marie-Ange Petit, Peppie Wiersma

Tímpanos 2: Hervé Trovel, David Joignaux

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux, Hélène Brana, Bernard Heulin, Hervé Trovel

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

No Brasil

Regente: Philippe Herreweghe

Primeiros Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud

Segundos Violinos: Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Beaudon, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Joël Oechslin, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse

Trompetes: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson

Cornetas: Leif Bengtsson, Alain de Rudder

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet

Oficleides: Marc Girardot, Stephen Wick

Tímpanos: Marie-Ange Petit, Hervé Trovel

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

Discografia da Orquestra

1992 – Wolfgang Amadeus Mozart – Grande Messe en ut Mineur
1993 – Felix Mendelssohn – Elias
1994 – Felix Mendelssohn – Le Songe D’Une Nuit D’Été
1995 – Hector Berlioz – Nuits D’Été Herminie
1995 – Ludwig van Beethoven – Missa Solemnis
1996 – Felix Mendelssohn – Paulus
1996 – Johannes Brahms – Un Requiem Allemand
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Gran Partita K. 361 / Sérénade pour Vents K. 388
1997 – Robert Schumann – Symphonie nº 2 / Symphonie nº 4
1997 – Robert Schumann – Concerto pour Violoncelle / Concerto pour Piano
1997 – Hector Berlioz – L’Enfance du Christ
1998 – Robert Schumann – Scènes de Faust
1999 – Ludwig van Beethoven – Symphonie nº 9
2002 – Gabriel Fauré – Requiem (Version pour Grand Orchestre) / César Franck – Symphonie en Ré
2002 – Franz Schubert – Messe en La Bémol / Feliz Mendelssohn – Psaume 42
2004 – Anton Bruckner – Symphonie nº 7
2006 – Anton Bruckner – Symphonie nº 4 “Romantique”
2006 – Gustav Mahler – Des Knaben Wunderhorn
2007 – Robert Schumann – Symphonie nº 1 “Printemps” / Symphonie nº 3 “Rhénane”
2008 – Anton Bruckner – Messe nº 3 en Fa Mineur
2009 – Anton Bruckner – Symphonie nº 5


DE MARTIN LUTHER KING A BARACK OBAMA

janeiro 20, 2009

A vitória de Barack Obama nas eleições para presidente dos EUA em 2008, encerrou uma fase da participação do negro na história daquele país, iniciando outra, que à partida, desencadeou uma grande esperança de florescimento humano e intelectual no mais alto poder político da nação mais poderosa do planeta nos tempos contemporâneos.
Todas as atenções do mundo voltaram-se para a vitória de Obama, que causou comoção pelo inédito na história dos EUA, pela tenaz esperança de um novo tempo que se abre. Não que Obama seja um estadista pronto para mudar uma nação e o mundo, mas a sua eleição é a própria mudança na visão de um povo, que muitas vezes foi intransigente, reacionário e racista na condução da sua política interna e externa. Obama é a vitória de várias vertentes inéditas, primeiro negro a ser presidente do seu país, primeiro homem com raízes islâmicas acentuadas, e com a África histórica recente em seu DNA, distante dos afro-americanos, cuja origem do continente negro perde-se na distância dos séculos.
Quarenta anos antes da eleição de Obama para presidente, o líder negro Martin Luther King era assassinado por um branco furioso, racista e temente que os negros americanos alcançassem os seus direitos. Pregando a luta intensa pelos direitos civis dos negros, o pastor batista seguia os princípios de Gandhi, lutar, mas sem violência, algo quase que impossível numa época que o negro norte-americano não podia votar em alguns estados da união, não se podia sentar nos bancos da frente dos ônibus coletivos, não podiam freqüentar grandes universidades e, eram vítimas da violência de organizações racistas como a Ku Klux Klan.
Se a luta de Martin Luther King começou com a luta pelo direito do negro poder sentar-se em qualquer banco de um ônibus, ela estendeu-se por todas as vertentes da injustiça que se fazia aos seus, tomou proporções de sonhos e vitórias, suas palavras conquistaram o mundo, incomodou os mais radicais racistas e culminou com o seu assassínio em 1968. Quarenta anos depois, o sonho de liberdade e igualdade de Martin Luther King vingou, quando Barack Obama foi eleito presidente, ele negro e filho de pai muçulmano.

O Negro Americano Através da História

A história do negro nos EUA, assim como no restante do continente americano, iniciou-se com a escravidão, quando foram capturados e comprados na África, trazidos e vendidos nas Américas. Com o tempo, os EUA tinham o maior número de escravos do mundo, segregados e sem direito algum. O desenvolvimento industrial chegou apenas para o norte do país, o que dispensou a mão de obra de escravos negros, o mesmo não acontecendo no sul, região essencialmente agrícola, dependente do trabalho escravo para as suas lavouras. As diferenças econômicas entre o norte e o sul, a questão da escravidão, dividiriam profundamente o país, levando-o a uma guerra civil na segunda metade do século XIX, conhecida como a Guerra da Secessão.
No início da Guerra da Secessão, em 1861, havia 19 estados onde a escravidão era proibida e 15 estados onde a escravidão era permitida. Em 1860 Abraham Lincoln venceu as eleições para presidente, durante a campanha discursara contra a escravidão: “Metade livre, metade escrava”, o que levou os sulistas a temer que ele a abolisse de vez. Em 4 de março de 1961, antes que Lincoln assumisse a presidência, 11 estados que mantinham a escravidão declararam secessão da União, formando um novo país, os Estados Confederados da América. No dia 12 de abril, a guerra civil tinha início, só terminando em 1865, com a rendição dos confederados.
Após o fim da guerra civil, que deixaria marcas indeléveis nos estados sulistas, os americanos aprovaram a 13ª Emenda à Constituição, ratificada no fim de 1965, pondo fim oficialmente à escravidão nos EUA. Em 1968, era aprovada a 14ª Emenda, dando ao governo federal poderes amplos para obrigar os Estados a fornecerem proteção igualitárias às leis. Em 1870, a 15ª Emenda dava aos negros americanos do sexo masculino e maiores de idade, o direito ao voto, direito que não se estendeu para todo o país até meados da segunda metade do século XX.
Mesmo libertados, os negros americanos continuaram discriminados, perseguidos e sem um lugar definido na sociedade estadunidense. Com o fim da Guerra da Secessão, o sul continuaria ocupado por tropas do norte até 1877. Empobrecidos pela guerra, acostumados com a escravidão como realidade secular, os sulistas sentiram-se humilhados quando a União pôs, durante a ocupação, diversos negros libertos em importantes posições do governo dos estados do sul. Este desconforto, movido por um ódio racial latente, permitiu que surgissem sociedades secretas que empregavam a violência e a perseguição aos negros americanos, defendendo com veemência a segregação racial. Dessas sociedades, destacaram-se a dos Cavaleiros da Camélia Branca e a Ku Klux Klan.

Um País na África Para os Negros Americanos

Mesmo antes da guerra civil, no começo do século XIX, debatia-se nos EUA o destino dos escravos libertos naquele país. Na época duas idéias eram defendidas, e nenhuma delas pensava na integração do negro na sociedade norte-americana.
A primeira idéia, defendida por representantes do governo, queriam que se desse a liberdade aos escravos e que eles fossem reconduzidos à África. Um segundo grupo defendia a idéia de que os negros não tinham condições de se enquadrar no sistema capitalista, e era exaltada pelos cidadãos brancos. Assim, nascia em 1816, a American Colonization Society, organização criada por Robert Finley, cujo objetivo era levar para a África os antigos escravos negros e os negros nascidos livres, eliminando-se o problema do negro nos EUA, evitando-se o “perigo” de casamentos entre raças nos país, ou a criminalidade.
A American Colonization Society adquiriu na África, em 1821, um grande território perto da área do Cabo Mesurado, lugar ideal para enviar os negros livres dos EUA. Em 1824 a colônia foi chamada de Libéria (do latim, terra livre), e nela foram fixados os negros oriundos da América do Norte. Em 1847, a colônia declarou a independência, adotando símbolos norte-americanos na bandeira, lema e brasão de armas, além de uma constituição copiada da dos EUA. O primeiro presidente da Libéria foi Joseph Jenkins Roberts, um negro nascido no estado da Virginia. A Libéria nasceu com o objetivo de abrigar os negros livres dos EUA, ficando no país só os escravos, segregados e sem direitos, até que se abolisse a escravidão, em 1865.

O Protesto de Rosa Parks

Com o fim da escravidão, o negro foi, aos poucos, integrando-se como cidadão estadunidense, apesar de violenta pressão de uma segregação racial declarada. No século XX os EUA firmar-se-iam como a nação mais poderosa do planeta. Sua formação populacional era essencialmente de imigrantes europeus, além da contribuição africana e dos índios nativos.
O afro-americano teve que conquistar os seus direitos diante de uma sociedade declaradamente racista. Esta luta veio à tona em 1 de dezembro de 1955, quando
Rosa Parks negou-se a ceder o seu assento em um ônibus a um branco. Este ato desencadearia o processo de uma longa luta anti-racista que se travaria nos EUA, com proporções irreversíveis.
O marco da luta anti-racista deu-se em Montgomery, capital do Alabama, onde os primeiros assentos de bancos dos ônibus coletivos eram, por lei, reservados aos passageiros brancos. Os negros só podiam sentar-se nos assentos de trás. No dia 1 de dezembro de 1955, Rosa Parks, ao retornar do trabalho, tomou um desses ônibus de volta para casa. Cansada, Parks, ao lado de outros três negros, sentou-se nos assentos reservados. Quando passageiros brancos entraram, o motorista (também ele branco), exigiu que Rosa Parks e os três negros levantassem dos assentos e desse lugar aos bancos. Os outros obedeceram, mas Rosa Parks negou a cumprir a ordem, continuando a ocupar o assento, sendo por isto detida e levada à prisão.
A coragem de Rosa Parks, o seu protesto silencioso, repercutiu-se rapidamente, desencadeando grandes protestos. O Conselho Político Feminino, em solidariedade a ela, organizou como medida de protesto contra a discriminação racial, um boicote aos ônibus urbanos. A causa ganhou a adesão daquele que, a partir de então, tornar-se-ia o maior defensor dos direitos civis dos negros americanos, Martin Luther King Jr.
Milhares de negros aderiram ao boicote, recusando-se a andar de ônibus na ida e na vinda para o trabalho, caminhando muitas vezes quilômetros a pé, acenando e cantando pelas ruas, enquanto que eram agredidos física e verbalmente pelos brancos. Além de Martin Luther King, várias outras personalidades conhecidas apoiaram o boicote, entre elas o músico ativista Harry Belafonte e a cantora gospel Mahalia Jackson, que fez vários shows beneficentes para ajudar ativistas do movimento que estavam presos. Durante o boicote, as empresas de transporte coletivo amargaram com prejuízos cada vez maiores.
Pouco menos de um ano após o protesto de Rasa Parks, no dia 13 de novembro de 1956, a Suprema Corte dos EUA aboliu a segregação racial nos ônibus coletivos de Montgomery. Algumas semanas depois, a nova lei entrou em vigor na capital do Alabama e, no dia 21 de dezembro daquele ano, Martin Luther King e o sacerdote branco Glen Smiley, entraram juntos em um ônibus, ocupando lugares na primeira fila de assentos.
Rosa Parks seria, em 1999, condecorada pelo então presidente Bill Clinton, com a medalha de ouro do congresso estadunidense. Estava na época com 88 anos de idade.

Martin Luther King Firma-se Como Liderança

O reverendo Martin Luther King foi o negro que mais se engajou na luta pela igualdade dos direitos entre brancos e negros nos EUA, sua luta estender-se-ia pelas décadas de 1950 e de 1960, alcançando grandes vitórias. Como ativista, ele conseguiria atrair para si o amor e o ódio de grandes massas.
A luta de Martin Luther King iniciou-se quando os Estados Unidos, em combate à expansão do poderio soviético pelo mundo, promovia a Guerra Fria. Nação rica e poderosa, concentrava uma população fechada em seus valores e símbolos nacionais, movidos por um patriotismo exacerbado e por um forte sentido de racismo. Contraditoriamente, os americanos consideravam-se o modelo de democracia e liberdade para o mundo, e ao mesmo tempo, classificavam os seus habitantes de acordo com a raça. Na segregação de um país profundamente racista em suas raízes, os negros sofriam discriminações no aspecto social, na economia e na política. Em muitos lugares não podiam votar, tinham os trabalhos de menor remuneração, sendo chamados pejorativamente de “nigger” ou “boy”, as agressões dos brancos era uma rotina que não encontrava um eco para que fosse encerrada, não havendo leis que condenassem a discriminação.
Quando Rosa Parks foi presa por negar a levantar-se de um assento em ônibus destinado a brancos, Martin Luther King, pastor da cidade, conclamou o boicote dos negros aos transportes coletivos. A partir de então, em um ano tornou-se conhecido em todo o país, assumindo a liderança do movimento negro estadunidense. Seguiram-se marchas de protesto, cerceadas pela violação consciente da legislação racista, como freqüentar salas de esperas, restaurantes, lojas, museus, praças e teatros reservados a brancos. Tais protestos geravam uma violenta repressão policial, mas jamais intimidou o movimento de Martin Luther King e as suas lideranças adjacentes. Entretanto, o reverendo não deixava de advertir aos seus seguidores que não deixassem que os protestos degenerassem em violência.

Vitórias e Adversidades

As conquistas dos direitos dos negros eram lentas, mas definitivas. Em 1957 nove estudantes negros obtiveram nas cortes da União o direito de estudar na Escola Central de Little Rock, Arkansas, lugar em que as escolas eram todas segregadas. No primeiro dia, entre insultos e ameaças, foram proibidos pelos brancos de entrar na escola. Por ordem da Guarda Nacional, retornaram para casa. Em resposta ao desacato à justiça federal, o então presidente Dwight Eisenhower dissolveu a Guarda Nacional do Arkansas, enviando tropas de pára-quedistas para garantir a entrada e o estudo dos nove alunos negros em Little Rock. Quando o ano letivo terminou, os racistas da cidade preferiram fechar a escola de que aceitar negros nela. Outras escolas do Arkansas e do sul seguiram o exemplo.
O estudante James Meredith conseguiu através das cortes federais, em 1962, o direito de ingressar na Universidade do Mississipi, o estado racialmente mais conservador dos EUA. Mesmo sendo impedido algumas vezes de entrar no campus, por interferência do próprio governador, Meredith ingressou escoltado por agentes federais, e a corte federal instituiu uma multa diária de 10 mil dólares por cada dia que ele fosse impedido de assistir às aulas. Uma conflagração de civis e estudantes brancos na universidade terminou com a morte de 2 pessoas, 28 agentes federais feridos à bala e 160 feridos entre a população. No dia seguinte, o então presidente John Kennedy, enviou tropas do exército que garantissem a entrada e a permanência de Meridith na universidade.
Foi diante de todas as dificuldades descritas acima, que a liderança de Martin Luther King explodiu por todo o país. O líder negro manteve sempre a filosofia de protestos não violentos, mesmo quando 1100 líderes radicais do movimento negro exigiram, na Black Power Conference, em 1967, a divisão dos EUA em dois, para brancos e para negros.
Em agosto de1963, Martin Luther King organizou ao lado de Phillip Randolph e Bayard Rustin, a maior aglomeração pacífica realizada nos EUA, 250 mil pessoas, brancas e negras, vindas de todos os cantos do país, marcharam sobre Washington, realizando um dia de discursos, cantos e protestos a favor da igualdade dos direitos civis para todos os cidadãos.
Em 1964, Martin Luther King foi galardoado com o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pacíficos pelo fim da segregação racial e pelos direitos civis dos negros nos EUA. A premiação deu grande visibilidade internacional ao reverendo e à sua luta, o que gerou incômodo e ódios entre os mais conservadores dos seus opositores. No meio do ódio, Martin Luther King escaparia por um triz de dois atentados à sua vida.
Em 1965, Martin Luther King liderou passeatas e manifestação na cidade de Selma, no Alabama, em prol do direito dos cidadãos negros a registrarem-se com votantes. Durante uma manifestação, o pastor e vários manifestantes foram presos. Choques entre negros e brancos resultaram em tumultos com mortos e feridos. As cenas transmitidas pela televisão, causaram grande indignação por todo o país, o que levou o presidente Lyndon Johnson a conseguir aprovar junto ao congresso a Lei do Direito de Voto, de 1965. O direito de voto negro mudou definitivamente a face da política do sul do país, com a eleição de negros já em 1966, nos estados mais racistas da região, como o Mississipi.
Mas se Martin Luther King pregava a não violência em seus protestos, outros grupos negros de luta não pensavam igual. Em 1966 surgiu o movimento Black Power (Poder Negro), um grupo liderado por Storkely Caemichael, que pregava a violência e a necessidade de defesa dos negros diante dos ataques sofridos pela Ku Klux Klan, no sul do país. A partir de então, os negros sulistas passaram a enfrentar de armas nas mãos a violência sofrida, o que levou a Klan a desistir de aterrorizar os habitantes negros da região. Os Black Power enfrentavam a violência através da violência, passaram a difundir o orgulho de ser negro, ganhando maior identidade cultural, exigindo que não mais fossem chamados de negros, mas de afro-americanos.

“Eu Tenho Um Sonho”

O ano de 1968 foi um dos mais violentos nos EUA, com grandes protestos contra a Guerra do Vietnã, que passava a perder a razão ideológica para ser vista como um grande fracasso da maior nação do planeta. Se em 1967 espalhou-se que a guerra não duraria mais de um ano, no ano seguinte via-se a derrota ante os comunistas vietnamitas, vazava-se a notícia de que o exército enviaria mais 200 mil homens para o combate, o que significava mais baixas e mais mortes de jovens estadunidenses. Os ânimos acirraram-se e Lyndon Johnson foi obrigado a desistir de tentar a reeleição naquele ano.
Foi neste violento e confuso ano de 1968 que, a 4 de abril, o maior líder negro da história do século XX norte-americano, o Prêmio Nobel da Paz, Martin Luther King, seria definitivamente silenciado, sendo assassinado em Menphis, Tennessee. Vinte e quatro horas antes da sua morte, ele pronunciou o célebre discurso profético, em que anunciava ter avistado a terra prometida:
“Talvez eu não consiga chegar com vocês até lá, mas quero que saibam que o nosso povo vai atingi-la.”
Aos 39 anos, Martin Luther King era morto por um racista branco. Foi abatido a tiros na sacada de um hotel em Menphis. Anos mais tarde, um processo civil que correu no Tennessee, chegou à conclusão de que membros da máfia e do governo norte-americano engendraram o seu assassínio.
A morte de Martin Luther King provocou comoção e consternação internacional. Como conseqüência, as inquietações raciais agravaram-se em Washington e Chicago. Em junho, a mesma violência atingiu Robert Kennedy, candidato à presidência e, também ele, assassinado. Em 1983, a terceira segunda-feira de janeiro (data próxima do nascimento do pastor, 15 de janeiro) foi feita feriado nacional, em homenagem ao reverendo assassinado.
Martin Luther King tornou-se o ícone da luta do negro pelos direitos civis e igualdade, seu célebre discurso entraria para a história da humanidade como um dos mais belos em prol das causas humanistas. Sua frase “Eu tenho um sonho”, ecoou durante quatro décadas, até que Barack Obama, filho de um economista muçulmano queniano e de uma estadunidense, um negro, chegasse à presidência dos Estados Unidos. O sonho de Martin Luther King, a chegada da sua gente à terra prometida, concretizaram-se finalmente.


O DIA EM QUE SÃO PAULO PAROU

janeiro 14, 2009

A cidade de São Paulo é um dos maiores centros urbanos do mundo. Maior cidade brasileira, responsável por 12,26% do PIB do país, abrigando 63% de todas as multinacionais estabelecidas no Brasil. Por todas estas razões e tantas outras, São Paulo recebeu no século passado, o estigma de que não pára, dando veracidade à célebre frase: “São Paulo não pode parar”.
Parar uma cidade como São Paulo parecia impossível sob todos os aspectos, tanto econômicos, quantos sociais, certeza traduzida pela dinâmica que conduz a cidade e os seus habitantes. Mas um país de contrastes como o Brasil, a ilicitude marginal gerada por uma justiça lenta e capenga, pelas diferenças sociais e pela certeza da impunidade, muitas vezes assume aspectos de um poder paralelo, desafiando as instituições públicas e as suas leis.
Numa sociedade formada por um governo pouco comprometido com os seus cidadãos e com a sua evolução educacional e a sua saúde física, ciclicamente marginais assumem-se como falsos justiceiros sociais, delegando para si poderes que se elevam aos da própria justiça. De Lampião, feroz assassino e bandoleiro nascido sob o sol da caatinga, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), organização criminosa liderada das prisões de segurança máxima; o Brasil sofre com este poder paralelo que se estabelece à face da justiça, tendo como resultado a violência e o sangue derramado de inocentes. Foi justamente uma série de atos de violência provocados pelo poder paralelo do PCC para medir forças com a polícia do Estado, que levou ao colapso a capital paulistana. Contrariando a todas as previsões ou estatísticas, São Paulo, o coração financeiro do Brasil, literalmente parou no dia 15 de maio de 2006.

Breves Exemplos do Poder Paralelo no Brasil

A democracia de uma nação é garantida pela liberdade que o seu cidadão tem em poder exercer a sua cidadania, quer sob os aspectos do cumprimento dos direitos que ele tem, como do cumprimento dos seus deveres para com a sociedade. Mas os princípios éticos que constroem os elos morais de uma sociedade mostram uma ínfima diferença entre os direitos e os deveres de um cidadão, tão estreitos são eles, que ao se confundirem, esvaem-se literalmente, dando passagem para o chamado “poder paralelo”, totalmente desprovido de senso moral, mas travestido de uma linguagem popular que o confunde com a “justiça pelas mãos”, já que a justiça do Estado não satisfaz a sociedade.
O poder paralelo pode emanar de qualquer parte da sociedade, quer por organizações de criminosos e contraventores, como pela própria polícia criada para a defesa da sociedade, ou mesmo pelo Estado.
Em quase 190 anos da sua existência como nação, o Brasil exerceu poucas vezes a tão sonhada liberdade democrática. Desde a sua independência, em 1822, que se desenhou um estado pouco voltado para a democracia. Dom Pedro I, foi primeiro a dissolver a constituição e exercer o seu poder autoritário e absolutista. A República foi formada por um golpe contra a Monarquia e por muito tempo, sustentando-se com os contra-golpes, gerando os males da nação, como a República do Coronelismo (1889-1930), ou das oligarquias rurais; a ditadura do Estado Novo (oficialmente iniciada em 1937, mas nascida com a ascensão de Getúlio Vargas, em 1930); e a ditadura militar (1964-1985).
O Estado autoritário, por se manter aquém dos princípios democráticos e construído ilegitimamente, mas legitimado pela repressão e pela força bruta, gera um estado paralelo a ele mesmo. Nas duas fases de ditadura vividas pelo Brasil no século XX, este poder paralelo do Estado foi vergonhosamente exercido na forma de tortura e de assassínio clandestino dos opositores ao regime.
Se o próprio Estado, movido pelo autoritarismo, cria o seu poder paralelo, a sociedade reage, sentindo-se no direito de ela também fazer o mesmo. Foi assim com o cangaço, surgido durante a ditadura do Estado Novo, em que matadores profissionais (os jagunços), sustentados pelas oligarquias que se rivalizavam, ladrões e assassinos em nome da honra, uniram-se em bandos, saqueando e trazendo o terror para as cidades nordestinas. Protegidos pelos interesses dos coronéis, esses bandos de criminosos criaram verdadeiros mitos como o de Lampião, e quando o mito incomodou a própria oligarquia que dele se beneficiava, tornou-se necessário que o Estado demonstrasse ser mais forte, eliminando o bando. Assim aconteceu com Lampião e o seu bando, sendo morto pela polícia em 1938, tendo as cabeças cortadas e expostas em praça pública para que se evidenciasse o poder do Estado contra o poder paralelo.
Numa guerra ideológica, os princípios éticos, morais e de justiça, muitas vezes confundem-se tanto da parte dos opressores, como da parte dos oprimidos. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi o partido que mais fez parte da história do Brasil no século XX, apesar de ter permanecido grande parte da sua existência na clandestinidade. Erigido sob a direção da extinta União Soviética, os seus militantes tomavam-se por revolucionários, tendo estatuto próprio, que além das ordens vindas de Moscou, não aceitavam o poder emanado do Brasil. Dentro do PCB vários “tribunais revolucionários” foram formados, algumas vezes condenando pessoas à morte. Foi o caso do “tribunal revolucionário” de 1936, realizado logo após o fracasso da Intentona Comunista de 1935, que condenou à morte Elvira Cupelo Coloni, militante conhecida como Elza Fernandes. Elza era namorada de Miranda, um dos membros do Comitê Central do PCB. Com a prisão de Miranda, Elza foi condenada a morte por seus companheiros, que entenderam que ela representava perigo para eles. Foi executada a machadadas. Outro tribunal famoso da esquerda foi o que decretou a morte do capitão estadunidense Charles Rodney Chandler, executado pelo grupo de Carlos Marighela (futura Aliança Libertadora Nacional – ALN) e pelo grupo de Onofre Pinto (futura Vanguarda Popular Revolucionária – VPR), em 1968. Bolsista no Brasil, o capitão Chandler foi condenado pela esquerda por suspeita de colaborar com os militares.
Dentro da polícia, de tempos em tempos surgem grupos de extermínios, conhecidos como “esquadrões da morte”. Geralmente apresentam-se como justiceiros e exterminadores de bandidos, o que lhes confere forte respaldo popular. Na maioria das vezes são grupos liderados por policiais corruptos, que usam de um poder paralelo para eliminar possíveis delatores e silenciar testemunhas. Os esquadrões da morte fazem parte do imaginário popular há várias décadas, tendo visibilidade maior ou menor em determinadas épocas.
As favelas e as periferias das grandes cidades brasileiras, principalmente as de São Paulo e do Rio de Janeiro, foram durante décadas esquecidas pelo Estado e legadas à miséria e ao ostracismo sócio-cultural. Esquecidas pelo poder público, as favelas foram tomadas pela marginalidade, pelo tráfico e pelo consumo de drogas. Tidas como terra de ninguém, muitas dessas favelas vivem sob a opressão e sob o poder de traficantes, que estabelecem as próprias regras e “leis” dentro dessas comunidades. Movidos pelo tráfego de drogas e por leis próprias, os marginais mais perigosos do Brasil criaram dentro das prisões ou fora delas, poderosas organizações criminosas, formando verdadeiras irmandades, como o Comando Vermelho no Rio de Janeiro e o PCC em São Paulo. Também estas organizações têm o seu próprio tribunal, definindo como deve viver ou morrer não só os seus membros, como também os integrantes da sociedade. Em 2002 o Comando Vermelho, liderado na época por Elias Maluco, condenou à morte o jornalista da Rede Globo, Tim Lopes, executando-o de forma cruel, enterrando-o em uma vala cheia de corpos também por ele sentenciados.

O Primeiro Comando da Capital

De todas as rebeliões e atrocidades cometidas pelo poder paralelo estabelecido por marginais no Brasil, o que mais causou constrangimento ao poder público e ao Estado, foi sem dúvida o que atingiu o Brasil em maio de 2006, que culminou com o colapso que parou a cidade de São Paulo.
O PCC, a maior facção criminosa do país, numa demonstração clara de medição de forças com o poder público, iniciou na noite de 12 de maio, uma série de ataques contra as forças de segurança e a alvos civis, causando a maior onda de violência urbana da história brasileira, que se iniciou no estado de São Paulo e em poucos dias, espalhou-se como um rastilho pelo Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia, deixando a população civil ilhada e aterrorizada.
O Primeiro Comando da Capital (PCC), surgiu como organização criminosa em 1993. Fundado no dia 31 de agosto daquele ano, no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, no estado de São Paulo, nasceu durante uma partida de futebol, onde vários presos brigaram, e temendo retaliações, punições e mortes como as acontecidas em 2 de outubro de 1992, no sangrento e histórico massacre do Carandiru; firmaram entre si um pacto de ajuda mútua.
Criado no rescaldo da tragédia do pavilhão 9 do Carandiru, no início era chamado de Partido do Crime, sendo formado por Misa (Misael Aparecido da Silva), Cesinha (César Augusto Roris da Silva), Geleião (José Márcio Felício), Eduardo Gordo (Wander Eduardo Ferreira), Paixão (Antonio Carlos Roberto da Paixão), Bicho Feio (Antonio Carlos dos Santos), Dafé (Ademar dos Santos) e Isaías (Isaías Moreira do Nascimento). No início a organização proclamava-se como defensora das injustiças e dos maus tratos carcerários. Usava como símbolo o yin-yang chinês. Para manter a organização, os membros do grupo pagam uma taxa de cerca de 50 reais se estiverem presos e 500 reais se estão em liberdade. Além do dinheiro arrecado com os membros, promovem o tráfego de drogas, seqüestros e assaltos a bancos; compram armas e executam o resgate de alguns prisioneiros membros do grupo. Cada membro tem que cumprir um estatuto de 16 itens, que estabelece entre outras coisas, a lealdade, o respeito e a solidariedade entre os membros, além de prever a “execução sem perdão” aos que não cumprirem o estatuto quando livres.
Desde que foi criado o PCC teve várias lideranças, entre as mais famosas estão a do Sombra (Idemir Carlos Ambrósio), que liderou de dentro de uma cela, em 2001, através de um celular, a rebelião em 29 presídios. Sombra foi morto dentro da prisão, cinco meses depois, sendo substituído por Geleião e Cesinha, que promoveram uma união provisória com o Comando Vermelho (CV) do Rio de Janeiro. Sanguinários e radicais, foram substituídos na direção do PCC em 2002, por Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Foi sob o comando do Marcola que as autoridades públicas sofreram a maior humilhação da sua história, em maio de 2006.

São Paulo, Maio de 2006

Com o objetivo de desarticular o PCC, no dia 11 de maio de 2006, o governo de São Paulo decidiu transferir 765 presos para presídios de segurança máxima. A operação foi desencadeada, quando os presos foram enviados para Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. No dia 12, 8 líderes do PCC, entre eles o líder máximo, o Marcola, foram levados para a sede do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), localizada na zona norte da capital paulista. No dia anterior, Marcola havia reivindicado 60 aparelhos de televisão para que os prisioneiros assistissem aos jogos da copa de futebol daquele ano, o que lhe foi veementemente negado.
No dia 13 de maio, Marcola foi transferido para a penitenciária de Presidente Bernardes, no interior paulista, sendo esta considerada uma das mais seguras prisões do Brasil. Como represália à transferência dos líderes, principalmente a de Marcola, o PCC decidiu intervir, intimidando a polícia, organizando uma onda de violência que aterrorizaria o país, tirando toda a beleza do dia das mães daquele ano, expondo a fragilidade da segurança no país diante do mundo.
Os ataques começaram a tomar forma justamente durante a realização dos benefícios que os prisioneiros tinham pela comemoração ao dia das mães. Nesta data é costume os prisioneiros receberem visitas nas celas ou indulto. Os que visitaram seus presos saíram com a missão de organizar ataques à polícia, e os que receberam indultos do dia das mães, a de comandar esses ataques.
Na noite de 12 de maio, sexta-feira, começaram os ataques, sendo os primeiros alvos o 55º DP , no Parque São Rafael, e um policial civil atingido próximo à sua casa em Guaianazes. Estava estabelecido o objetivo principal dos ataques, delegacias e policiais tornam-se os alvos. Os primeiros atentados não ficam esclarecidos a quem pertence à sua autoria, suspeitando-se que sejam promovidos pelo PCC. Até a meia-noite a cidade de São Paulo registraria 8 policiais feridos e outros 7 mortos.
Já no dia 13, vários presídios de São Paulo rebelam-se. Os ataques, que desde o dia anterior tornaram-se contínuos, são finalmente atribuídos ao PCC. No domingo, 14, dia das mães, a onda sucessiva da violência intensifica-se, começando a tomar conta da mídia sensacionalista, gerando o pânico geral na população. Fala-se dos ataques e das mortes, mas a imprensa não relata à população a ofensiva da polícia, e que vários dos mortos já fazem parte de integrantes do próprio PCC. Para a população assustada, apenas os policiais estão a morrer. O governo cala-se diante da mídia e da população.

O Dia em que São Paulo Parou

No dia 15 de maio, segunda-feira, a falta de uma resposta imediata e contundente do governo do estado de São Paulo e da polícia, torna a população paulistana refém dos ataques criminosos e da imprensa sensacionalista.
Começam a correr boatos de que as estações do metropolitano de São Paulo seriam os próximos alvos. Tiros atingem a estação de Artur Alvim, na zona leste. Ônibus são incendiados, deixando a população sem condução em plena segunda-feira. As limitações de carros em São Paulo, conhecidas como rodízio, são suspensas, o que causa um dos maiores congestionamentos de automóveis registrados na cidade.
À tarde, para completar o caos, sem informar a fonte e deixando-se conduzir pelo sensacionalismo, a Rede Record anuncia que haveria um toque de recolher às 20 horas. Estava lançado o pânico. O que se viu a seguir foi a maior cidade da América do Sul entrar em colapso. As empresas liberaram, na parte da tarde, os seus funcionários; metropolitano e ônibus foram retirados de circulação; os shoppings foram fechados. Acossadas e sem transporte, milhares de pessoas transitavam a pé pelas ruas da metrópole, tentando desesperadamente chegar em casa e, principalmente, evitar passarem próximas às delegacias, que se tornaram alvos do PCC. Temendo retaliações, os policiais andavam pelas ruas da cidade em comboios, evitando assim, que se tornassem alvos fáceis dos bandidos.
São Paulo viveu, naquela segunda-feira, um clima de terrorismo comparável aos de uma guerra. No fim da tarde, a maioria da população está presa dentro de casa, a ouvir, finalmente as explicações do então governador Cláudio Lembo e dos chefes de segurança do estado, a revelar que estavam reagindo aos ataques, desmentindo o toque de recolher e acusando a imprensa de promover e acirrar o pânico entre a população.
Às 20 horas da noite de 15 de maio, as ruas de São Paulo ficaram desertas, como jamais acontecera na sua história. Ninguém ousou a sair de casa naquela triste segunda-feira. Reféns do medo e do poder paralelo, os paulistanos preferiram ficar em casa, a esperar o desfecho da impotência do estado e da sua polícia. Naquele dia, São Paulo parou.

Após o Fim dos Ataques

No dia 16 de maio, incitada pelo governo, a população voltou às ruas e ao trabalho, decidida a não mais ficar refém do poder paralelo dos bandidos. Naquele dia, o saldo era 128 mortos e 59 feridos. Entre os mortos estavam: 23 policiais militares, 6 policiais civis, 3 guardas municipais, 8 agentes penitenciários, 4 civis, 71 suspeitos e 13 presos. No balanço da tragédia, alguns dos suspeitos foram inocentemente mortos pela polícia. Aos poucos o estado controlava e dissipava a rebelião, que tornara o mês de maio de 2006, ano de eleições presidenciais e para governadores de estado, em um dos mais sangrentos e negros da história da violência e do poder paralelo no Brasil.
Em agosto daquele ano, o PCC ensaiou um novo ataque de pânico à população, desta vez divulgando a sua mensagem através da maior emissora de televisão do Brasil, a Rede Globo. Na manhã do dia 12 de agosto dois funcionários da emissora, o repórter Guilherme Portanova e o técnico Alexandre Coelho Calado, foram seqüestrados pelo PCC. A organização criminosa exigiu que a Rede Globo divulgasse um DVD, levado aos estúdios por Alexandre, enquanto Guilherme era mantido refém. Para não pôr em risco a vida do repórter, após consultar organizações jornalísticas internacionais, a emissora transmitiu o vídeo, que trazia uma mensagem pronunciada por um integrante do PCC, a pedir revisão de penas e melhorias carcerárias. Era obvio que mais uma vez, o PCC queria medir forças, disseminar o pânico. O repórter foi libertado 40 horas após a transmissão do vídeo, que não atingiu às massas, a tentativa de pressionar a população falhara. O que não falhou foi o registro histórico feito a 15 de maio de 2006, o dia que São Paulo parou.


AIDS, UM FLAGELO CONTEMPORÂNEO

dezembro 2, 2008

 


Em 1988, há vinte anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde), instituiu o Dia Mundial de Combate a AIDS, 1 de dezembro. Numa época em que ser declarado portador do vírus HIV constituía uma sentença de morte, era preciso que se chamasse a atenção do mundo para o maior flagelo do final do segundo milênio. Longe ia a descoberta de um tratamento eficaz, muito menos uma esperança de cura. O mundo assistia às imagens de pessoas debilitadas pelo flagelo, cadavéricas a definhar, cujo único destino era a morte. A face da AIDS assustava o mundo! A tragédia era iminente.
Longe vai da atualidade a imagem dos flagelados da AIDS dos anos de 1980 e da primeira metade da década de 1990. Tratamentos adormeceram o vírus, mas não o eliminou. Estudos sobre o HIV ainda vão longe de encontrar uma cura. Se a sobrevida dos portadores aumentou com as drogas, não os livrou da sina da doença. A AIDS não desapareceu do planeta, pelo contrário, está camuflada diante das terapias disponíveis. Tão perigosa quanto dantes, a doença mata silenciosamente os seus portadores, sem as imagens trágicas que se repetia no início da sua descoberta.
Relatórios recentes apontam que 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV em todo o planeta. O continente africano é o mais afetado pela epidemia. O tratamento é de alto custo, o que impossibilita que chegue aos países pobres do planeta. Nos países desenvolvidos a epidemia está camuflada pelas drogas terapêuticas, fazendo com que uma nova geração que não viu as mortes trágicas de outros tempos não a tema, descuidando-se da prevenção. Na primeira década de 2000 diminuiu o número de mortes causadas pela AIDS, em 2001 foram 2,2 milhões de mortos, em 2007 caiu para 2 milhões. Mas a ONU admite que a guerra está longe de ser vencida, e com a crise econômica mundial, teme que falte verba para o financiamento do tratamento em todo o planeta.
A AIDS hoje não tem cura, continua a matar silenciosamente. O melhor caminho para evitá-la continua a ser a prevenção, daí grandes campanhas pelo uso do preservativo nas relações sexuais. Desde o primeiro caso detectado no fim dos anos 1970 até os tempos atuais, a AIDS continua a ser um grande flagelo da humanidade.

Os Primeiros Anos da Epidemia

Em 12 de dezembro de 1977 morria, aos 47 anos, Margrethe P. Rask, médica e pesquisadora dinamarquesa, vítima de estranhos sintomas para a sua idade. Uma autópsia revelaria que os pulmões da médica estavam cheios de microorganismos que ocasionaram um tipo agressivo de pneumonia. Margrethe P. Rask tinha estado na África, a estudar o Ebola. Teria sido uma das primeiras vítimas da AIDS, mesmo não se tendo a certeza até os dias de hoje. Há relato ainda, de uma amostra sanguínea de um homem de Kinshasa, Congo, morto em 1959, que analisada recentemente ter-se-ia revelado soropositiva.
Em 1981 começaram a aparecer vários casos de doenças oportunistas em grupos de homossexuais americanos, principalmente na cidade de São Francisco, e em menor incidência, em Los Angeles e Nova York. A estranha doença chamou a atenção do centro de controle de doenças dos EUA. Descrevia-se pela primeira vez a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem nomeá-la cientificamente. A doença foi erroneamente vista como um mal que afetava apenas aos homossexuais, fazendo que o preconceito do governo Reagan ignorasse-a, não liberando verbas para um estudo mais profundo. Esta postura reacionária de Ronald Reagan, mantida por vários anos, atrasaria as descobertas de tratamentos por uma década, causando uma das maiores catástrofes de todos os tempos, a propagação da epidemia e, conseqüentemente, a morte de milhões de pessoas.
Em 1982 o centro de controle de doenças norte-americano começou a colher dados relacionados aos homossexuais, seus nomes e os nomes dos que com eles mantiveram relações sexuais, na tentativa de mapear a doença apenas em um determinado grupo de risco. Durante as entrevistas com os homossexuais, vários declararam ter tido relações sexuais com um mesmo homem, o comissário de bordo franco-canadense Gaetan Dugas. Este homem seria conhecido mais tarde como o paciente zero, teria sido através dele que a doença cruzou o Atlântico. Gaetan Dugas, o paciente zero, acusado pela história de ter trazido o vírus do HIV para os EUA, morreria em 1984.
A doença desconhecida começou a tomar proporções de uma epidemia iminente, atingido ainda em 1982, pessoas tóxico-dependentes, e as primeiras transmissões detectadas em transfusões sanguíneas. 14 países relataram ainda neste ano, casos da doença. Também no Brasil sete casos foram confirmados, todos em São Paulo e em pacientes homo ou bissexuais. Sem ainda ter um nome cientifico, a doença era chamada pela imprensa como GRID (Gay Related Immune Deficiency), ou como “Peste Gay”.
Completamente desconhecida, a doença causou pânico no mundo quando, em 1983, foram relatados casos de infecção em crianças nos EUA, sendo posta a hipótese de que poderia ser transmitida pelo ar e por utensílios domésticos comuns. Diante do alastramento epidemiológico, foi realizada em Denver, EUA, a primeira conferência sobre AIDS, chegando à triste conclusão de que 3000 casos da doença atingiam os americanos, com um total de 1283 mortos. A doença era ainda relatada em 33 países.
A identificação do agente etiológico da AIDS, um retrovírus, só foi feita em 1984, quando dois grupos de cientistas reclamaram para si a descoberta: o grupo do Dr. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris e o grupo do Dr. Robert Gallo, do Instituto de Virulogia Humana da Universidade de Maryland, Estados Unidos. Na França o agente etiológico da AIDS foi reconhecido como LAV, associado a linfadenopatia; nos EUA foi chamado de HTLV-3. Após uma longa disputa entre as comunidades científicas pelos louros da descoberta, chegou-se ao consenso de denominá-lo HIV (em português vírus da imunodeficiência humana).
Já nesta época 7000 norte-americanos tinham a doença, obrigando o governo Reagan a dar maior atenção à epidemia, fazendo com que a secretária de saúde e serviços humanos da época, declarasse que antes de 1990 haveria uma vacina e a cura da AIDS. A esta altura a população homossexual de São Francisco está em grande número infectada, como medida preventiva, todas as saunas gays da cidade, ponto de encontros sexuais, são fechadas. Esta medida estender-se-ia por várias cidades da Europa.

Rock Hudson, o Primeiro Rosto da AIDS

Já identificado, o HIV continuava a ser visto pejorativamente como o “Câncer Gay”. Esta concepção gerou o estigma da doença. Já se identificava que a principal via de transmissão era a sexual. A AIDS revelava-se como uma doença de comportamento, o que trazia para quem a contraía, além do sofrimento físico, a discriminação e a culpa. Para o portador do HIV, desmoronava-se muitas vezes, a imagem de uma vida escondida, camuflada pela pressão social. Esta culpa comportamental atinge até os dias atuais os infectados pelo HIV, causando o isolamento social dos mesmos.
Se a AIDS parecia atingir somente os homossexuais, aos poucos ela foi mostrando-se sem limites de classes, raças ou opções sexuais. Já em 1985, dois outros grupos de pessoas padecem com a epidemia, o dos dependentes químicos e o dos hemofílicos. Já a AIDS há muito fazia parte do mundo e as transfusões de sangue eram feitas sem a menor preocupação com a doença. Os bancos de sangue isolavam apenas os grupos de homossexuais, os únicos apontados como possíveis transmissores do HIV. Só em 1985 chegava ao mercado um teste sorológico de metodologia imunoenzimática para diagnosticar a infecção causada pelo HIV, podendo ser utilizado para triagem nos bancos de sangue. Este teste passou a ser usado em todo o mundo, diminuindo o risco de transmissão do HIV através de transfusões sanguíneas.
É em 1985 que a epidemia toma proporções que comovem e assustam o mundo. A contaminação do astro de Hollywood, Rock Hudson comove o planeta, e a mídia explora a exaustão, o definhar de um grande ídolo. O ator fazia a série “Dinastia”, quando revelou a doença ao mundo. O pânico instalou-se no meio das atrizes que em cena, trocaram beijos apaixonados com ele. A descoberta fez com que os estúdios norte-americanos obrigassem os atores a um teste de HIV para que pudessem fazer cenas mais quentes entre si. A medida causou pânico e discriminação entre a classe artística. Enquanto a polêmica corria o mundo, Rock Hudson definhava a olhos vistos diante dos fãs e do mundo.
Em julho de 1985, os jornais anunciavam a chegada de Rock Hudson à França, para submeter-se a tratamento. Era a primeira vez que uma figura pública conhecida em todo o planeta padecia do flagelo do fim do século. A AIDS deixava de ser uma doença de vítimas anônimas para adquirir um rosto, uma expressão que causaria a comoção de todos. Esta identificação entre a AIDS e a celebridade revela ao mundo a sua homossexualidade, a necessidade de aceitação desta condição pela sociedade, já não é o “gay” anônimo das saunas de São Francisco que está morrendo, mas um homem com uma história e uma dignidade, mais definida pela luta contra a doença. Luta em vão, pois não há cura para tão trágico flagelo. A celebridade de Rock Hudson faz da sua morte anunciada uma causa que toma proporções políticas. Torna-se o primeiro militante anti AIDS apontado pela cronologia histórica da doença.
Pela primeira vez desde que detectada, a AIDS, refletida na figura de Rock Hudson, desperta a atenção além da maldição e do terror, gera-se nas pessoas princípios como a solidariedade e a coragem lúcida para enfrentar o flagelo. Pela primeira vez celebridades de todo o mundo, como Elizabeth Taylor (amiga pessoal do ator), mobilizam-se para apoiar os doentes. Uma militância densa anti AIDS espalha-se pelo mundo, sendo amplamente apoiada e divulgada pela imprensa. Ao mesmo tempo em que a militância solidária expande-se pelo mundo, o medo da doença aumenta. Afinal, se uma celebridade era infectada por uma doença mortal, qualquer pessoa estaria sujeita a ela. A AIDS torna-se uma realidade temida. Já não se pode ignorá-la, ou achar que se está imune não tendo relações homossexuais. A AIDS torna-se uma doença de risco em todas as vertentes das sociedades do planeta.
Os curtos meses de agonia e de luta de Rock Hudson, fez dele uma figura exemplar da luta contra a AIDS. No dia 3 de outubro de 1985, o jornal francês “Libération” anunciava a morte do ator de forma contundente: “Rock Hudson é o primeiro rosto vivo da AIDS (…) existira então a AIDS antes de Rock Hudson e a AIDS depois de Rock Hudson”.

As Primeiras Drogas Anti-Virais

Só em 1986, na segunda conferência internacional da AIDS, em Paris, foi reportada experiências iniciais com a primeira droga antiviral, a azidotimidina (AZT). Neste mesmo ano o FDA (Food and Drug Administration) aprovou o seu uso. Pela primeira vez uma droga revelava um impacto, ainda que discreto, sobre a mortalidade dos infectados pelo HIV.
No mesmo ano a OMS lançou uma estratégia global de combate à AIDS. Seringas e agulhas foram recomendadas que fossem esterilizadas. Também o uso do preservativo passou a ser estimulado entre as pessoas como medidas preventivas. Controles mais rígidos foram impostos aos bancos de sangue. Mesmo assim a epidemia avançava e a morte dos portadores era uma questão de tempo tão logo recebesse o diagnóstico. O AZT era uma luz ínfima dentro de um túnel sombrio e sem fim.
Após a morte de Rock Hudson, várias celebridades abraçaram a causa da militância a favor dos portadores do HIV e contra a discriminação dos mesmos. Em 1987 a princesa Diana abriu o primeiro hospital especializado em tratamento da AIDS na Inglaterra. Durante a inauguração, a princesa não usou luvas quando apertou as mãos de pessoas com AIDS, fato que suscitou comentários de toda a imprensa mundial, ajudando a dissipar as atitudes preconceituosas das pessoas.
Para intensificar mais a militância e o apoio aos portadores do HIV, a OMS instituiu em 1988, o Dia Mundial da Luta Contra AIDS, em 1 de dezembro. A primeira edição do Dia Mundial da AIDS teve como tema: “Junte-se ao esforço mundial”. Neste mesmo ano, os irmãos Henfil e Chico Mário (irmãos de Herbert de Souza, o Betinho), hemofílicos e contaminados pelo HIV, morreriam.
Em 1989 algumas drogas estão disponíveis no mercado, entre elas o DDI. O alto preço do AZT torna-se 20% mais barato. No dia 1 de dezembro o tema do Dia Mundial da AIDS era: “Cuidemos uns dos outros”. A década de 1980 era encerrada tendo a AIDS como o maior flagelo da humanidade, e com um número cada vez maior de infectados pelo planeta. Falar sobre cura era uma utopia distante a anos-luz.

Uma Luz Sobre o Tratamento

A década de 1990 começou com a morte de grandes celebridades, como o cantor e compositor brasileiro Cazuza, o cantor britânico Freddie Mercury e o bailarino soviético Rudolf Nureyev. O mundo parece incapaz diante do flagelo. Programas de trocas de seringas nas farmácias pelos dependentes químicos como meios de prevenção são criticados, causando polêmicas, assim como a distribuição de preservativos pelas escolas e locais públicos. A epidemia é uma realidade, assim como os costumes morais vigentes. Era preciso que se conscientizasse que a AIDS era a própria contestação dos costumes, e para combatê-la era preciso que se modificasse hábitos e preconceitos seculares.
Enquanto a luta contra os costumes e os preconceitos, como a resistência do uso dos preservativos pelos homens e pela igreja, está acirrada, também a luta nos laboratórios é tenaz, mas lenta diante das mortes causadas pela AIDS. Em 1991 um outro antiretroviral, o DDC, é autorizado para pacientes intolerantes ao AZT. Mesmo diante de novas drogas, constatava-se que a eficácia do tratamento era limitada, criando a resistência do vírus com o passar do tempo. Só em 1992 começa a ser usado a combinação de duas drogas (AZT e DDC), com relativo sucesso. Em 1994 é que se passou a estudar um novo grupo de drogas, os inibidores da protease, que demonstraram um potente efeito contra a infecção quando associados com drogas do grupo inibidor da transcriptase reversa (AZT). Esta associação passou a ser chamada de “coquetel”. Mas esta descoberta não chegou cedo aos pacientes, devido aos custos elevados do tratamento. Além disso, para que se formasse a combinação ideal para obter resultados eficazes, um grande número de comprimidos tinha que ser ingeridos pelos infectados, o que dificultava imensamente o tratamento e a tolerância dos mesmos.
Os inibidores da protease só foram aprovados pela primeira vez pelo FDA em 1995. A esta altura a AIDS era a principal causa de morte entre americanos com idade entre 25 e 44 anos. A epidemia atingira, desde o início da infecção, 400 mil pessoas nos EUA, com 250 mil mortes.
A luz sobre o tratamento dos infectados pela AIDS chegou finalmente, em 1996, quando um grande número de drogas foi aprovado pelo FDA, fazendo que diminuísse o preço, facilitando os governos dos países a assumirem os custos do tratamento de cada infectado. Neste ano, na conferência internacional da AIDS, ocorrida em Vancouver, foi anunciada que a combinação de três drogas tinha efeitos mais eficazes do que a terapia dual. Estava lançado o tratamento que aumentaria a sobrevida dos infectados, melhorando a sua qualidade de vida e terminando com a sentença de morte que o diagnóstico da AIDS trazia para quem contraía o vírus.
No fim da década de 1990, a AIDS adquiria uma outra face, o rosto de uma doença que já não se mostrava fulminantemente mortal. Passou a ser vista como uma doença crônica, que poderia ser tratada por muitos anos. Foi nesta década, em 1994, que se criou o UNAIDS, integrado por cinco agências de cooperação de membros da Organização das Nações Unidas (Unesco, Unicef, OMS, UNDP e UNFPA), além do Banco Mundial, com o objetivo de defender e garantir uma ação global para prevenção da AIDS.

A Negação do HIV Como o Causador da AIDS

A epidemia chegou a ser negada por um grupo de cientistas, que afirmou em suas teorias que o HIV não era a causa da AIDS. Para os autores da hipótese, a AIDS não seria causada pelo HIV, e sim pela poluição, pela fome, pelas drogas e pela vida destrutiva do indivíduo. Alguns chegavam a afirmar que as drogas descobertas na terapêutica da doença eram ineficazes, outros que elas desenvolviam a doença.
Estas hipóteses nasceram com Peter Duesberg, em 1984, e alcançou grandes adeptos até a década de 1990, quando David Ho desenvolveu medicamentos potentes que destruíram 99% do vírus, proporcionando aos infectados uma vida quase normal.
Ainda hoje a teoria de que o HIV não causa a AIDS persiste como uma fagulha especulativa dentro do mundo científico. Recentemente, Robert Gallo, um dos descobridores históricos do HIV, alimentou na Austrália a polêmica, ao declarar que os seus estudos não comprovavam que o HIV causava a AIDS. Esta declaração contribuiu ainda mais para que Gallo fosse visto como um grande oportunista da ciência, sendo desacreditado pelo meio acadêmico.
A negação do HIV foi politicamente aproveitada por vários líderes políticos de países africanos, que usavam da teoria para não gastar com medicamentos para o povo infectado. Esta atitude causou uma grande catástrofe na África do Sul. O ex-presidente Thabo Mbeki por anos assumiu a teoria, tentando desacreditar a AIDS em seu país, minimizando o problema, como se ele não existisse, chegando a duvidar da relação entre o HIV e a AIDS. Com isto, o seu ministério da saúde recomendou ao povo sul-africano que incluísse alho e limão na alimentação para combater a doença, espalhando que os remédios de tratamento eram uma farsa. O resultado desta omissão pôs a África do Sul no topo das estatísticas, com 5,5 milhões de infectados, sendo hoje o país com o maior número absoluto de casos no mundo.

Em Memória dos que Foram Disseminados pela AIDS

Na primeira década do terceiro milênio a AIDS tornou-se uma doença silenciosa. Não se vê os infectados sucumbirem como foi visto no auge do flagelo. O controle da doença garante aos infectados um anonimato, algo impossível no início da descoberta da doença, que chegava fulminante, deixando exposta a vida e a saúde de quem padecia deste mal.
Os portadores sofrem com um tratamento difícil, repleto de efeitos colaterais, como a distribuição de peso corporal, transformando o corpo e o rosto dos portadores completamente, muitas vezes destruindo-lhes a auto-estima. Não há mais grupos de riscos, a AIDS afeta homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, homossexuais, heterossexuais. Continua a ser uma doença de comportamento, onde o uso da camisinha é o método mais eficaz de combate. Verifica-se um aumento da infecção em pessoas com mais de cinqüenta anos, que motivados por tratamentos com drogas contra a impotência, passaram a ter novamente uma vida sexual ativa, mas se esqueceram da prevenção, algo que não lhes é tão familiar quanto aos jovens.
Sem cura, a AIDS está longe de ser uma epidemia controlada, tão pouco extinta. 33 milhões de pessoas estão infectadas no mundo. A crise financeira pela qual passa os países, ameaça que os governos continuem a gastar tanto com o tratamento da doença. A AIDS continua a ser uma grande sombra camuflada no âmago da humanidade. Basta um sopro para que ela volte a devorar vidas com a mesma voracidade que se assistiu por mais de uma década.
No Dia Mundial da Aids, em 2008, um imenso laço vermelho, símbolo da luta contra a doença, foi erguido em frente à Casa Branca, em Washington, numa clara demonstração de respeito e empenho em seu combate pelo governo norte-americano, um grande contraste com a época do governo Ronald Reagan, que fechou os olhos à doença, discriminando-a como um “câncer gay”, condenando assim, milhões de vidas. É neste dia que o mundo inteiro reúne-se em uma militância benéfica através do planeta. Nestes momentos de luta, nomes ainda rondam as nossas memórias, nomes de vítimas deste grande flagelo, que de uma forma ou de outra, devem sempre ecoar na lembrança de todos nós: Rock Hudson, Rudolf Nureyev, Cazuza, Freddie Mercury, Brad Davis, Sandra Bréa, Thales Pan Chacon, Mário Viegas, Carlos Augusto Strazzer, Anthony Perkins, Cláudia Magno, Lauro Corona, Zacarias, Antonio Variações, Renato Russo, Herbert de Souza (o Betinho), Henfil… ou o nome de um amigo ou parente próximo.


ISRAEL 60 ANOS, A REALIZAÇÃO DA UTOPIA SIONISTA

setembro 13, 2008

Há sessenta anos a ONU dava um novo destino à Palestina, idealizando a criação de dois estados, um judeu e outro muçulmano. Nascia o Estado de Israel, que trazia uma luz sobre o estigma da sombra do holocausto. Conflitos deflagrados entre a nova nação e as nações árabes da região, fizeram com que só o estado judeu prevalecesse.
A Segunda Guerra Mundial ainda ardia na lembrança das pessoas, com o seu fim, em 1945, ficou um saldo de 6 milhões de judeus mortos nos campos de concentração nazistas. O mundo apercebeu-se da necessidade da criação de um estado judeu, restituindo a este povo uma indenização histórica devida às perseguições e ao genocídio que sofreram ao longo dos séculos. Seguindo o lema sionista “uma terra sem povo para um povo sem terra”, criou-se o estado judeu, que contrariamente a este lema, encontrou uma terra com uma população disseminada de palestinos, que com a chegada em massa dos judeus, com as guerras que se seguiram, resultou a este povo uma grande tragédia individual e coletiva, sustentada por ódios seculares.
Israel surgiu do conceito utópico do movimento sionista de Theodore Herzl, dentro de todas as catástrofes sofridas pelo povo hebreu no século XX, é um exemplo de como esta utopia superou os sofrimentos, a intolerância, o genocídio, e tornou-se uma realidade, talvez a única utopia bem sucedida no século passado. O jovem Estado de Israel, na sua comemoração de 60 anos, é um dos estados mais desenvolvidos do mundo, moderno, com mais de 6 milhões de habitantes, mas que ainda procura uma identidade, visto que foi formado por pessoas vindas de todas as partes do mundo, inseridas nos mais diversos costumes. Nesta busca por uma identidade, terá que aprender a conviver com os vizinhos da região, formada pelos árabes. Ainda há muitas arestas do ódio a ser limadas, para que se comemore verdadeiramente a criação desta nação e a volta dos hebreus à terra prometida, à terra dos seus antepassados.

Os Hebreus na Palestina

Abraão, considerado o pai das grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), teria migrado de Ur, sua terra natal, na Mesopotâmia, por ordem de Deus, para a região habitada pelos cananeus, situada entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo. À sua prole foi prometida habitar toda a terra. Do seu filho Isaac, fruto que teve com a mulher Sara, surgiria o povo hebreu, e do filho Ismael, que teve com a sua escrava Hagar, surgiria os ismaelitas, dos quais surgiria o povo árabe.
As escrituras bíblicas relatam que Abraão, provado por Deus, recebeu a ordem de executar o filho Isaac em honra ao Criador. O holocausto de Isaac seria no afloramento de rocha no monte Moriá. Quando já se preparava para nesta rocha sacrificar o filho, foi impedido por um anjo enviado por Deus. Provados o amor e a fidelidade de Abraão a Deus, ele foi recompensado, tornando-se o pai de nações e de religiões. Este relato mostra a presença mais antiga dos hebreus na Palestina.
Os netos de Isaac, os doze filhos de Jacó, teriam migrado para o Egito por volta de 1300 antes de Cristo, devido à fome que assolava a Palestina. José, um dos filhos de Jacó, abandonado quando criança pelos irmãos, ali vivia, a desfrutar dos favores do faraó. Restabelecida a amizade com os irmãos, José possibilitou que o clã vivesse confortavelmente no Egito. Com a morte de José, algumas gerações depois, os hebreus seriam feitos escravos do faraó Ramsés.
Moisés, o grande profeta de Israel, foi o escolhido para livrar os hebreus da escravidão no Egito, conduzindo-os em uma das maiores sagas da humanidade. Da fuga do Egito, da perambulação no deserto do Sinai por quarenta anos, surge a utopia da terra prometida de Canaã. É através de Moisés que Deus transmite as leis que os judeus deveriam cumprir para que se diferenciassem dos outros povos, tornando-se o povo eleito do Criador. Moisés morreu antes de entrar na terra prometida. Coube a Josué conduzir o seu povo, que lutou com várias tribos por aquelas terras. De 1220 a 1200 a.C. os hebreus conquistaram Canaã, atual Palestina. Uma vitória que nunca foi absoluta, pois viviam em guerras constantes com as tribos vizinhas dos moabitas, dos filisteus, dos amonitas, dos amalecitas, dos idumeus e dos arameus.
Na virada do primeiro milênio antes de Cristo, o rei Davi conquistou Jerusalém aos seus habitantes originários, os jebuseus. É nesta época que o rei dos judeus compra ao jebuseu Onã, o terreno onde Abraão sacrificaria Isaac, para que ali fosse construído um templo para abrigar a Arca da Aliança. Este templo só seria construído no reinado do seu filho, o rei Salomão.
A nação hebraica tem o seu apogeu tanto econômico, quanto em extensão territorial, no reinado de Salomão. Após a morte deste rei, o reino é dividido em dois: o de Judá e o do Israel. Assim permanece até a sua queda, quando os caldeus, sob o comando de Nabucodonosor, conquistaram a terra prometida, destruindo o Templo de Salomão, levando os judeus como escravos para a Babilônia, encerrando-se de vez a existência de um estado judeu independente. Os judeus só voltariam à Terra Prometida em 515 antes de Cristo, quando os persas conquistaram a região, e o rei Ciro permitiu que retornassem e que reconstruíssem um novo Templo em Jerusalém.
Mesmo de volta à Palestina, os judeus permaneceram sob o domínio de vários povos. Os macedônios, sob a espada de Alexandre, o Grande, conquistaram a região aos persas. Com a morte prematura de Alexandre, seu vasto império é dividido entre os seus generais. Por anos o antigo reino de Israel é disputado pelos ptolomeus, baseados no Egito, e pelos selêucidas, baseados na Mesopotâmia. Sem ter um rei, os judeus eram direcionados pelo sumo sacerdote em Jerusalém, que assumia algumas funções reais.
Mesmo sob o domínio de vários povos, os hebreus não aceitam pacificamente nenhum dos povos dominantes, mantendo a sua religião e os seus costumes. É assim com os gregos e, a seguir, com os romanos. Quando a região é dominada pelos romanos, é dado a Herodes o poder de rei dos judeus. Este homem, um rei cruel e tirano, tentou conciliar o poder submisso a ele, por sua vez submisso a Roma, com as tradições judaicas, ampliando o Segundo Templo, aumentando os seus alicerces pela construção de gigantescos muros de retenção a oeste, ao sul e a leste. O Templo foi uma das mais belas realizações do mundo antigo. Herodes alçou Israel a um nível de esplendor poucas vezes alcançado pela nação hebraica. Mas os seus feitos não foram suficientes para conter as insubordinações de um povo que ansiava por uma nação livre do domínio dos gentios e dos seus costumes pagãos. Com a morte de Herodes, a incompetência dos seus sucessores durante nove anos, fez com que Roma colocasse a Judéia sob o governo direto de um procurador romano, entre eles Pôncio Pilatos.
Sob o domínio das várias nações, surgiu aos hebreus a expectativa das promessas da vinda de um messias, que redimiria o povo de Israel, tornando-o uma nação livre outra vez, sob um reinado que se estenderia para sempre, e, conseqüentemente, redimir-se-ia através dos judeus, o próprio mundo. Na época do domínio romano, vários foram os homens que se proclamaram o messias, entre eles Yeshua Ben Yossef, ou Jesus Cristo, cuja pregação resultaria na seita dos cristãos, e futuramente, no cristianismo.
A intensa expectativa messiânica, juntamente com a certeza de ser o povo eleito de Deus desde os primórdios da história, fizeram com que o povo hebreu acirrasse a sua rebelião contra os romanos, que deflagraria a guerra total. No ano de 66, os judeus expulsaram os romanos, tornando-se senhores das suas próprias terras, organizando a sua defesa contra o retorno dos algozes. Sob o comando de Tito, eles voltariam, trazendo uma guerra sangrenta, que reduziria os redutos dos judeus a algumas fortalezas longínquas e à cidade de Jerusalém. A resistência feroz que os romanos encontraram, fez com que, em setembro de 70, quando finalmente entraram em Jerusalém, após seis meses de lutas intensas, despejassem todo o seu ódio sobre aquele povo, massacrando a população. Tito ordenou que toda a cidade fosse destruída, inclusive os escombros do Segundo Templo. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas morreram no cerco de Jerusalém, sendo escravizados os sobreviventes. Um grupo de rebeldes ainda resistiu na fortaleza de Massada. Quando finalmente os romanos entraram em Massada, encontraram quase mil pessoas mortas, elas mataram-se umas as outras, evitando assim, tornarem-se escravas dos romanos.
Com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo, iniciava-se a diáspora pelo mundo do povo hebreu. Cerca de sessenta anos após a queda de Massada, Simeon ben-Koseba foi reconhecido pelo rabi Akiba como o messias prometido. O novo “messias” iniciou uma outra rebelião contra os romanos, que apesar de ter êxito no início, duraria dezoito meses, até agosto de 135. A rebelião foi esmagada e Simeon ben-Koseba executado. A punição a esta rebelião foi severa, os judeus cativos eram mortos ou feitos escravos. A Judéia foi definitivamente abolida, tornando-se a província da Síria-Palestina. Todos os judeus foram excluídos da cidade de Jerusalém. No local do Templo, foram erguidos santuários ao imperador Adriano e ao deus Júpiter.

Canaã, Judéia ou Palestina, a Terra Sagrada das Religiões Monoteístas

No século VII surgiu o islamismo, através do profeta Maomé, um descendente de Ismael, filho de Abraão. Em 620, Maomé teve uma visão, na qual cavalgava um corcel celestial, el-Buruq, com o anjo Gabriel, até o monte do Templo, em Jerusalém, para encontrar Abraão, Moisés e Jesus, e daí ascendia ao trono de Deus, passando pelos sete céus. Maomé morreu na Arábia, em 632, após liderar uma peregrinação a Meca. Pela visão que teve, para o islamismo a sua ascensão aos céus teria sido feita no monte do Templo, da rocha onde Abraão sacrificaria o filho Isaac. Por este motivo, ao lado de Meca e Medina, Jerusalém foi considerada cidade sagrada para os muçulmanos.
Foi em Jerusalém que Jesus Cristo entrou, celebrou a Páscoa com os seus apóstolos, onde foi preso, julgado e executado na cruz, no ano 26 (ou 33 do calendário gregoriano). Ali teria ressuscitado e numa descrição parecida com a visão de Maomé, também teria ascendido aos céus. Com a separação do cristianismo do judaísmo, Jerusalém tornou-se uma cidade santa também para os cristãos.
Com a diáspora do povo judeu, surgiu a designação de Palestina às terras do antigo reino de Israel, ou Judéia. Com a cristianização de Roma, Jerusalém esteve por anos sob o domínio do Império Bizantino. Sendo chamada pelos cristãos de Terra Santa. Com o surgimento do islamismo, a Palestina é tomada pelos seguidores do profeta Maomé. Desde então, aos poucos, a maioria da sua população é constituída por árabes. Na Idade Média, a igreja, aliada aos nobres dos reinos cristãos da Europa, promove as Cruzadas, ou guerras para a conquista da Terra Santa. Os cruzados tomam Jerusalém e a Palestina aos sarracenos por várias vezes, originando várias cruzadas. Por fim, a região cairia definitivamente sob o domínio do Império Otomano.

O Surgimento do Estado de Israel

No século XIX, surgiu a utopia de um estado judeu, propagada pelo movimento sionista, com o objetivo de reunir o povo hebreu que estava espalhado pelo mundo, vítima de várias perseguições através dos séculos. Durante a Idade Média, os filhos de Israel foram expulsos de muitos dos reinos cristãos da Europa, além de se tornarem o alvo predileto do Tribunal da Inquisição, que resultou em forçadas conversões, torturas e condenações à morte nas fogueiras. No início do século XX a idéia do estado judeu começou a desenhar um esboço, e com o incentivo do movimento sionista, deu-se início a uma migração para a Terra Santa. Em julho de 1906, na Convenção dos Judeus de Yafo, feita no Yeshurun Club, Arieh Akiva Weiss, que tinha acabado de chegar à Palestina, propôs a criação de um novo bairro fora de Yafo. Em 1909, no segundo dia da Páscoa judaica, é feita a cerimônia do sorteio de lotes de terra, que marca oficialmente a fundação de Tel Aviv, bairro que se iria separar de Yafo, tornando-se a maior cidade judaica do mundo.
Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o já decadente Império Otomano fragmenta-se por completo. A Inglaterra herda deste império a Palestina e a península do Sinai (hoje parte do Egito), tomando-os como uma colônia britânica. A população árabe, maioria na região, não reagiu pacificamente à colonização européia. Também os judeus, que chegavam todos os dias de todas as partes do mundo, desejavam um estado judaico independente.
O movimento sionista pregava que só um estado judeu poderia evitar as perseguições e as tragédias como as que aconteceram durante o tempo que predominou a Inquisição. Com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, uma outra tragédia aconteceria aos israelitas: o holocausto promovido pelos nazistas, causando a morte de seis milhões de judeus. Por causa do holocausto, uma migração em massa dos israelitas europeus assolou a Palestina. Diante da divulgação do genocídio nazista ao povo judeu, o mundo indignou-se, a ONU viu-se pressionada a reparar a injustiça nazista. A Inglaterra deixava definitivamente a colônia da Palestina. Em 14 de maio de 1948, os judeus ganharam um estado independente. Nascia também um pequeno estado árabe, que descontentou os islâmicos.

Uma Nação Construída às Margens das Guerras e do Terrorismo

A criação de um estado judaico nunca agradou aos países árabes vizinhos. Mais do que criar um estado para o povo palestino, Jordânia, Síria e Egito estavam interessados em “varrer Israel para o mar”. Em 1948, 24 horas após ter sido criado, o Estado de Israel é invadido pelas nações árabes da Jordânia, Egito, Síria, Líbano e Iraque. A Jordânia conquista para si a Cisjordânia e parte de Jerusalém. Israel, com o apoio dos Estados Unidos, em 1949, vence a guerra e ainda expande as suas fronteiras. A anexação da Cisjordânia pela Jordânia e da Faixa de Gaza pelo Egito, deixa claro que a criação de um estado palestino não é o objetivo dos países árabes da região.
Os conflitos não se encerram em 1949. Egito, Jordânia e Síria proclamam internacionalmente, em 1956, o fim de Israel. Alertado para uma nova invasão, pouco antes de ela acontecer, tropas israelitas avançam e derrotam os inimigos. Uma paz passageira é obtida meses depois. Perduraria até 1967, quando novamente Egito, Síria e Jordânia lideram uma nova invasão para riscar Israel do mapa. Israel contra-ataca e toma da Jordânia, a Cisjordânia e Jerusalém. Da Síria anexa as colinas de Golã. Do Egito toma a Faixa de Gaza e a península do Sinai.
Outra investida do Egito, Jordânia e Síria foi tentada em 1973, desta vez sem que os países árabes anunciassem a invasão, mas novamente são derrotados.
A animosidade e a tensão com o Egito findaram, quando em 1978, após uma reunião em Camp Davis, foi assinado um acordo de paz entre as duas nações em 1979, chancelado por Anwar Al-Sadat, do Egito, e Menachen Béguin, de Israel. Este acordo possibilitou que Israel devolvesse a península do Sinai ao Egito, em 1982, mas custou o assassínio de Sadat, em 1981. Em 1994 um acordo de paz foi assinado com a Jordânia.
O maior avanço para solucionar o problema dos palestinos foi feito em 13 de setembro de 1993, com o acordo de paz entre Israel e a OLP de Yasser Arafat, o que valeu o Prêmio Nobel da Paz em 1994, para Yasser Arafat, Yitzak Rabin e Shimon Perez . A situação do conflito árabe-israelense tomava novos rumos, até então considerados inimagináveis. Com o acordo, vislumbrava-se a criação do estado palestino, engatinhando como nação em Gaza e no enclave de Jericó. Em 1995 radicais judeus assassinaram Yitzak Rabin. Em 2000 uma nova infantada palestina originou ataques terroristas, deixando mais distante o sonho de paz entre os dois povos, e a autodeterminação do estado da Palestina. A situação é agravada pelas dificuldades financeiras do incipiente estado palestino, pelos ataques dos grupos extremistas, quer de judeus, como a Espada de Davi, quer de islâmicos, como o Hamás e a Jihad Islâmica, que não aceitam sequer a existência do Estado de Israel, e pela disposição de Israel implementar, no futuro, a completa devolução da Cisjordânia.

Israel, 60 Anos

Israel é um estado diferente dos outros, não se formou naturalmente, não se desenvolveu gradualmente ao longo dos séculos, em redor de uma mesma população e de uma mesma história. Quando foi criado, em 14 de maio de 1948, era um pequeno país atrasado, com uma população de cerca de 600 mil judeus, que dependia para sobreviver, da generosidade do judaísmo mundial. 60 anos depois, é um país industrializado, tendo um PIB mais elevado que a soma dos PIB de todos os seus vizinhos árabes, que têm uma população 15 vezes superior ao estado judeu.
Israel desde que foi criado, viveu sempre no limiar da sua sobrevivência, passando por quatro guerras, vários atentados terroristas, e muitas hostilidades dos vizinhos. Para desenvolver e assegurar um futuro a esta nação, é preciso uma integração progressiva com os vizinhos árabes, uma capacidade maior para negociar a paz, e, principalmente, fazer uma integração irrestrita e bem sucedida de todos os cidadãos árabes que habitam o seu território. Quem sabe assim, quando completar 70 anos, a utopia sionista tornada realidade, veja finalmente a paz florir sobre Israel.


100 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

agosto 16, 2008

Quando o navio Kasato Maru atracou no porto de Santos, no dia 18 de junho de 1908, trazia a bordo 165 famílias, camponeses pobres, oriundos do norte e do sul do Japão. Vinham de um Japão assolado por uma crescente explosão demográfica, e incapaz de gerar empregos para toda esta população efervescente. 781 pessoas aventuravam-se naquela empreitada ambiciosa e imprevisível às terras do ocidente. Os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em busca de melhores meios de vida, e de enriquecimento que os possibilitasse de voltar para a terra do sol nascente.
Além da esperança de uma vida melhor, os japoneses traziam na bagagem a certeza de que voltariam à terra natal. Não voltaram, com perseverança, sabedoria, trabalho e determinação, construíram uma identidade própria, que atingiu a cultura brasileira; marcada pela assimilação de costumes e tradições, e, principalmente, pela miscigenação deste povo com os nativos do Brasil.
O Kasato Maru trouxe consigo, uma das mais bem-sucedidas imigrações que aportaram no Brasil. 100 anos depois, a colônia japonesa conta com cerca de 1,5 milhão de pessoas que fazem parte da população brasileira, seus descendentes estão inseridos como brasileiros, formando uma parte das várias digitais que identificam a população plural do Brasil.

A Bordo do Kasato Maru

Com a abolição da escravatura no Brasil, em 1888, os negros libertos, na sua maioria, marcados pelas cicatrizes profundas deixadas da relação senhor-escravo, abandonaram as lavouras, espalhando-se pelas cidades, em busca de uma nova vida. Esta fuga de mão-de-obra deixou as lavouras de café, principal riqueza do Brasil da época, carentes de quem nela trabalhasse. A solução foi o governo subsidiar e incentivar as migrações de mão-de-obra estrangeira. A imigração italiana foi a que trouxe mais mão-de-obra para as lavouras brasileiras. Mas a decepção dos italianos com a forma de vida que aqui encontraram, o não cumprimento dos contratos prometidos, causaram grandes problemas, o que levou o governo da Itália a proibir, em 1902, a imigração subsidiada.
Na mesma época, o Japão vivia a crise de uma explosão demográfica. O país nipônico deixava, no fim do século XIX, o feudalismo, mecanizava as lavouras, o que gerou a ociosidade da mão-de-obra nos campos japoneses. Milhares de pessoas migraram para os centros urbanos do Japão, causando um colapso de pessoas nas cidades. A solução encontrada para o problema, foi a emigração dos japoneses para o mundo. Esta emigração encontrou dificuldades na Austrália, onde sofreu com os maus tratos. Muitos foram para os Estados Unidos, que a partir de determinado momento, vetou a migração japonesa.
Diante da carência de mão-de-obra nas lavouras brasileiras, e da grande explosão demográfica pela qual passava o Japão, os dois países incentivaram a migração do povo nipônico para a América do Sul. Em novembro de 1907, Ryu Mizuno, diretor da Companhia de Migração do Império (Kokoku Shokumin Kaisha), assinou o acordo que foi o responsável pela primeira leva de imigrantes japoneses vinda para o Brasil.
Selado o acordo com o governo brasileiro, no dia 28 de abril de 1908, saía do porto de Kobe, o navio Kasato Maru, com 781 passageiros a bordo. Pelo acordo assinado, o governo brasileiro só aceitava os imigrantes casados, vetando veementemente a entrada de solteiros no país. No dia 28 de junho de 1908, o Kasato Maru chegou ao porto de Santos, em São Paulo. De Santos seguiram para a cidade de São Paulo, sendo hospedados na Pensão dos Imigrantes, de onde foram distribuídos pelas lavouras do país.
A imigração japonesa encontrou no solo brasileiro, condições para que se estabelecesse. Donos de uma exemplar aptidão para trabalhar a lavoura, não foi difícil desenvolver este talento nas férteis terras brasileiras, tornaram-se especialistas no cultivo de lavouras de hortaliças e legumes. Essencialmente agrícola nos seus primórdios em solo brasileiro, com o passar dos anos a colônia japonesa alcançou os centros urbanos, em destaque para a cidade de São Paulo.

O Período Negro da Segunda Guerra Mundial

De 1908 a 1930, a imigração japonesa tornou-se intensa, principalmente depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1932, os imigrantes nipônicos no Brasil passavam dos 130 mil. Em 1934, o presidente Getúlio Vargas, movido por sua política nacionalista, impõe cotas para esta imigração.
Concentrada no isolamento das colônias rurais, os imigrantes japoneses preservaram as suas tradições, continuando a falar a língua japonesa em suas casas. Criaram escolas japonesas para onde enviavam os filhos.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, em 1938, novamente o governo do presidente Vargas impõe medidas que atingem a colônia japonesa, desta vez restringindo às atividades culturais e educacionais dos imigrantes italianos, alemães e japoneses. Deflagrada a guerra, só em 1942 o Brasil é obrigado a participar dos seus conflitos, combatendo ao lado dos aliados, declarando assim, guerra ao eixo Alemanha-Itália-Japão. É o período mais conturbado da história da imigração japonesa no Brasil.
Declarada a guerra ao Japão, o governo brasileiro rompe relações com aquela nação, fecha definitivamente as escolas japonesas no país, em todo o território nacional é proibido que se fale à língua nipônica.
Durante a guerra, há cerca de 200 mil imigrantes japoneses no Brasil. Destes, a maioria não aceitou a derrota do Japão, em 1945. A colônia dividiu-se em duas, os “derrotistas” (makegumi), que representavam menos de 20% dos imigrantes, e os “vitoristas” (kachigumi). Foi criada a organização Shindo Renmei, após a rendição do Japão, com o propósito de propagar no Brasil a idéia de que o Japão não tinha perdido a guerra, que as notícias da rendição era uma invenção dos EUA para enfraquecer o Japão. O Shindo Renmei perseguiu os japoneses que acreditaram que o Japão realmente tinha perdido a guerra, com o objetivo de matar os “derrotistas”, também chamados de “corações sujos”. Entre kachigumis e makegumis, oficialmente, 23 pessoas foram mortas entre 1946 e 1947. A organização só foi desfeita em 1947, quando o presidente Dutra mandou interrogar mais de 30 mil pessoas, prendendo 300 suspeitos, ameaçando com a expulsão, a 155 indivíduos da colônia.

Brasil e Japão, Parceiros Financeiros

O Brasil e o Japão só viriam a retomar as suas relações diplomáticas em 1952. É no fim desta década, que o Japão, já reerguido do colapso econômico no qual fora lançado durante a Segunda Guerra Mundial, começa a investir economicamente no Brasil. Em 1958, o estaleiro Ishikawajima do Brasil, conhecido como Ishibras, começou as suas operações. Este foi o primeiro de vários investimentos industriais que vieram através de acordos bilaterais entre Brasil e Japão. Em 1967, empresas japonesas, como a Toshiba e a NEC, começaram a investir no Brasil.
Nos anos oitenta, devido à crise gerada pela instabilidade financeira pós-ditadura militar, aconteceu o inverso na migração japonesa, descendentes brasileiros dos japoneses, emigraram para o Japão, à procura de melhores oportunidades de trabalho. Os emigrantes brasileiros no Japão, conhecidos na sua maioria por dekasseguis (brasileiros de origem japonesa). Cerca de 2500.00 emigrantes brasileiros vivem atualmente no Japão.
Desde 1908, a imigração japonesa no Brasil vai na sua quarta geração. A cada geração, há um termo japonês para designá-la:

Isseis – Japoneses da primeira geração, nascidos no Japão – 12,51%
Nisseis – Filhos de japoneses – 30,85%
Sanseis – Netos de japoneses – 41,33%
Vonseis – Bisnetos de japoneses – 12,95%

Cerca de 1,5 milhão de pessoas fazem parte da colônia japonesa no Brasil, a maior colônia de japoneses fora do Japão. Quando chegaram ao porto de Santos, em 1908, a maioria vinha com o propósito de passar apenas alguns anos no Brasil, voltando logo a seguir. Não voltaram. Fizeram do Brasil uma segunda pátria, introduzindo aqui a sua cultura, a sua miscigenação. Deram à cultura do Brasil, uma identidade ainda mais plural, com traços da cultura oriental.