ATENA, A DEUSA DA SABEDORIA E DA GUERRA

julho 28, 2011

Atena (Minerva), deusa da sabedoria, da idéia civilizadora, da vitória nas guerras e da inteligência das estratégias, era uma das divindades mais importantes e cultuadas na Grécia antiga.
Na tradição mais aceita da lenda, Atena teria nascido do crânio de Zeus (Júpiter), herdando do pai a sabedoria roubada a Métis (Prudência). O mito de Atena interliga a sabedoria à castidade, o sexo escraviza o homem, atrai-lhe a paixão, desequilibra-o emocionalmente. A castidade constrói, alia-se à pureza do corpo e da alma, assim, entre os gregos, sabedoria e sexo opõem-se, prudência e bom senso aliam-se. Atena escolhe a virgindade como símbolo da sua sabedoria. Sendo uma das mais belas deusas do Olimpo, ela não cede aos assédios impetuosos e constantes dos outros deuses, mantendo-se casta.
Entidade guerreira, é justa nos campos de batalhas. Enquanto Ares (Marte), faz verter o sangue dos dois lados da guerra, Atena protege os justos, fazendo tombar os insensatos. Na concepção grega, os seus soldados são o mais próximos da filosofia da razão estratégica, os mais justos contra os outros povos beligerantes que os cerceiam, Atena é a protetora universal dos exércitos helenos. Na guerra de Tróia, manteve-se corajosamente ao lado dos gregos, enquanto que outras divindades olímpicas dividiram-se entre gregos e troianos.
Atena é a maior protetora da civilização grega, a mais nacionalista, a que mais contribui para o seu avanço, oferecendo àquele povo a oliveira, o leme, o tear e a flauta, simbolizando respectivamente o alimento (azeite), o progresso (como conduzir os barcos), o trabalho têxtil, e a arte, neste caso a música, essência da sabedoria daquele povo do extremo oriente do mar Mediterrâneo.
Deusa da sabedoria e da arte da guerra, Atena foi uma das entidades com mais representações na arte, deixando um legado de obras com temas envolvidos no seu mito, que vão desde o Partenon, em Atenas, até as famosas esculturas de Fídias. Em Roma, o seu mito foi assimilado ao de Minerva, não encontrando a mesma importância que adquiriu na Grécia. Deusa guerreira, traz sempre a lança em punho, às vezes o escudo, e, elmo divino na cabeça, transbordando o seu garbo sábio e justo.

As Várias Lendas Sobre o Nascimento da Deusa

O nascimento de Atena possuí várias versões, dependendo da lenda. Uma versão pouco difundida atribui a paternidade da deusa a Poseidon (Netuno), o senhor dos mares. A associação aos dois mitos explica-se por Atena ter nascido à margem de um lago, precedendo ao relâmpago e ao raio que trazem a chuva. É a deusa da luz antes da tempestade, que ilumina o céu antes de transbordar as suas nuvens, assim com Poseidon domina os mares e os seus maremotos. É a deusa do orvalho, elemento úmido que protege a agricultura contra o frio seco da noite. Os elementos úmidos da deusa dão a aproximação ao deus dos mares.
Noutra vertente da lenda, seria filha do gigante Palas, filho de Gaia (Terra). O mito de Atena e de Palas fundem-se não só como filha e pai, mas em um confronto entre a força e a manutenção da pureza casta. Palas teria tentado violar a deusa, que obstinada em manter o corpo intacto, matou-o e, ao esfolar a sua pele, fez dela o aigis, ou manto da virgindade. Além do manto, a deusa passa a demarcar a sua vitória sobre o gigante, usando o nome de Palas Atenas. Era através deste nome que seria invocada por todos os gregos quando lhe pediam a proteção para as suas cidades.
A tradição mais corrente do mito é a do seu nascimento através da cabeça de Zeus, o senhor dos deuses. Após vencer a guerra contra os Titãs e os Gigantes, Zeus tornou-se o senhor dos deuses e dos homens, tomando como primeira esposa Métis, a Prudência. Quando a deusa esperava o primeiro filho, Zeus soube através do oráculo de Gaia que nasceria uma filha. O oráculo profetizou ainda, que da segunda gestação nasceria um filho, que destronaria o pai. Preocupado, Zeus decidiu engolir a esposa. A seguir tomou a sua irmã Hera (Juno) como esposa. Pouco depois, ao encerrar o tempo de gestação da mulher engolida, Zeus, ao passear às margens do lago Tritônis, foi surpreendido por uma dor insuportável na cabeça, como se fosse espetado por uma lança. As pontadas tornavam-se cada vez mais fortes dentro da cabeça do imortal, fazendo o poderoso deus dos trovões emitir um grito que ecoou pelos céus e pela terra. Outros gritos de dor saltaram da boca desesperada do senhor dos deuses. Ao ouvir os gritos de Zeus, todos os deuses do Olimpo correram em seu socorro. Hermes (Mercúrio), o mensageiro dos deuses, ao ver a aflição de Zeus, saiu em busca de Hefestos (Vulcano), o ferreiro divino. O deus dos vulcões e do ferro, ao ver a cabeça do pai vibrando, como se dela quisesse sair algo muito grande, golpeou-a com um machado de ouro. Da ferida aberta por Hefestos surgiu uma mulher belíssima, empunhando o escudo e a lança, nos quais materializava o raio que iluminava a altura etérea e divina; vestia uma reluzente armadura, representando os meteoros e os fenômenos luminosos da natureza; e, ainda, o elmo de ouro na cabeça, reluzindo-lhe a proteção da inteligência diante das batalhas nas guerras. Naquele momento, o céu relampejou, o lago explodiu em ondas. Zeus ficou radiante com a beleza da filha surgida do seu crânio. Nascia a deusa da sabedoria e da guerra estratégica.
Em outra versão da lenda, Métis não seria a primeira esposa de Zeus, sendo Hera, a única, jamais a segunda. Seria uma das várias amantes do deus. Não teria sido o medo de um segundo filho e uma possível usurpação do trono divino que o afligia, que o teria motivado a engolir a amante; mas a condição da mulher na sociedade grega, visto que Métis era a deusa da prudência. Na civilização grega, a sabedoria não era uma das características atribuída às mulheres. Ao engolir Métis, Zeus, divindade masculina, tornou-se o mais sábio dos deuses, passando através dele, a sabedoria a Atena, divindade feminina. A deusa da sabedoria herdara do pai, jamais da mãe, o seu principal atributo.

A Criação da Oliveira

Ao ser associado à sabedoria, o mito de Atena contrasta com a sua função guerreira. Na visão grega, havia duas vertentes em uma guerra: a batalha, que representava a luta corporal, o sangue vertido, a utilização da força; e, a estratégia ou arte bélica, que define a vitória. Ares é o responsável pela batalha, pela força nela empregada, pelo massacre sem propósito. Atena é a deusa da arte bélica, da inteligência das estratégias, dos ideais elevados da luta, da vitória justa e racional diante do inimigo. É a deusa defensora perpétua dos gregos.
Além dos atributos bélicos, a deusa também era invocada como entidade agrícola. Não tem para si a responsabilidade de proteger a terra contra as calamidades da natureza, mas a de orientar, trazer da natureza benefícios para que se civilize o homem. Sua identificação com a natureza está no orvalho, pelo qual é a deusa responsável, elemento que protege a planta dentro do sereno noturno.
Também foi a deusa que ofereceu aos gregos a oliveira, ensinando-os a extrair da planta o fruto para o alimento e o óleo, utilizado na cozinha, na higiene corporal e na iluminação das casas e dos templos. Atena ensinou o homem a estocar o azeite e a azeitona durante o inverno, e a arte de vendê-lo aos outros povos. É atribuída a ela a confecção dos potes de barro, para o armazenamento dos alimentos. É a deusa dos oleiros, ensinando-os a guardar o óleo.
A associação de Atena com a oliveira remete à fundação da cidade que levaria o seu nome. Segundo a lenda, Cécrope ao fundar uma cidade na região da Ática, convocou os imortais do Olimpo para uma disputa, na qual o vencedor seria o protetor da cidade. Toda cidade grega tinha uma entidade como protetora, sendo a ela atribuída as funções de protegê-la nas guerras, nos temporais, nas colheitas dos alimentos e nos momentos de tribulações públicas. Poseidon e Atena foram os deuses que aceitaram o desafio proposto por Cécrope. Fizeram uma disputa acirrada, levando o povo da nova terra a ficar dividido em escolher um dos dois.
Na prova final, Cécrope pediu aos deuses que criassem alguma coisa útil para a cidade. Poseidon bateu o tridente no chão, fazendo jorrar na Acrópole uma fonte de água salgada, além de um esplêndido cavalo. Atena feriu a terra com a sua lança, fazendo dela brotar uma árvore repleta de pequenos frutos. A deusa ofereceu um ramo com os frutos a Cécrope, comovendo o soberano. Diante do povo, chamou a árvore de oliveira, ensinou como extrair o seu óleo e preparar o fruto como alimento. A cidade entendeu que a oliveira era mais importante para a cidade. Atena foi aclamada a protetora do lugar, que passou a ser chamado de Atenas, em homenagem a deusa e ao presente que se lhe oferecera aos seus habitantes. Desde então, tornar-se-ia a principal divindade da cidade de Atenas, influenciando o seu culto por toda a Grécia.

As Invenções Civilizadoras de Atena

Várias foram as atribuições civilizadoras legadas a Atena. Teria sido a deusa quem ensinara às mulheres gregas as técnicas de fiar, tecer e bordar. Atena era uma exímia tecelã, tecendo os mais belos bordados do Olimpo. A lenda que conta a história de Aracne reflete os dons da deusa. A mortal Aracne era filha de um modesto tintureiro de Cólofon. Tinha o dom de tecer os mais belos bordados de todos os mortais. Seu talento atraia todos os olhos, homens de toda a Grécia vinham ver e comprar os seus trabalhos. As Ninfas deixavam os bosques para admirar a beleza mágica dos mantos bordados pela mortal.
Sabedora do seu talento, Aracne proclamou-se a maior tecelã e bordadeira do mundo, dizendo-se superior à própria deusa Atena. A falta de modéstia da mortal irritou a deusa, que desafiada, aceitou tecer uma magnífica tapeçaria. Atena bordou os doze imortais do Olimpo, trazendo nas bordas do tecido, cenas em que os deuses puniam a irreverência dos mortais. Aracne bordou em sua tapeçaria os amores proibidos dos mortais pelos humanos, as traições e as vinganças. Ao fim da composição, não se sabia dizer qual a mais bela tecelagem. Aracne olhava para a sua obra, deslumbrada com a sua perfeição de mortal. Irritada com a falta de modéstia, Atena pegou a obra feita pela jovem, amarrotando-a e a rasgando. Ainda furiosa, feriu a jovem mortal com a agulha. Sentindo-se humilhada, a fiandeira tentou suicidar-se. Atena não permitiu que morresse, transformando-a em um pequeno animal que recebeu o seu nome, a aranha (aracne, em grego). Condenou-a tecer para sempre nas alturas, uma delicada teia que os ventos rasgam facilmente.
A lenda de Aracne, segundo historiadores, traduzia a rivalidade existente entre os atenienses e um povo originário da ilha de Creta, onde florescia uma crescente indústria têxtil primitiva.
Atena presenteara aos seus devotos outro significativo invento, o leme, para evitar que os barcos fossem à deriva das ondas e das correntes, não se perdendo pelas águas.
Para embelezar a vida dos humanos, Atena inventou a flauta, de onde a beleza da música era extraída. Uma lenda conta que ao apresentar o seu invento às deusas Hera e Afrodite (Vênus), foi motivo de riso, porque ao soprar o instrumento, as suas bochechas inchavam, deformando a sua beleza. Irritada, Atena arremessou a flauta do alto do Olimpo, amaldiçoando-a. O sátiro Mársias encontrou o instrumento musical, arrebatando para si a maldição. Mársias desafiou o deus Apolo com o seu instrumento. Ao ser vencido, foi esfolado vivo pelo deus da luz.

As Festas em Homenagem à Atena

Sendo amplamente cultuada em toda a Grécia, várias eram as festas oferecidas à deusa. Seu culto espalhou-se de Atenas, passando pela ilha de Rodes, chegando a Saís, no Egito. Possuía três grandes templos que lhe eram consagrados, sendo o mais suntuoso o Partenon, na Acrópole.
Na cidade de Atenas, da qual era protetora, a população celebrava em sua homenagem as Panatenéias, festas tradicionais, onde eram realizados torneios de música e poesia, lutas e corridas. Durante as festas, as mulheres iam em procissão até a Acrópole, levando um grande manto tecido pelas melhores tecelãs e fiandeiras da cidade; os jovens montavam fogosos cavalos; e, os mais velhos, traziam ramos de oliveiras para ofertar à deusa.
Nas festas Cálceas, Atena era homenageada juntamente com Hefestos. Ela como artesã e fiandeira dos mais belos bordados, ele como o artesão dos deuses, para quem confeccionava objetos de bronze e belas jóias. Na lenda que envolve os deuses, Hefestos deixara-se abater por uma grande paixão por Atena, mas foi repudiado pela deusa, que insistia em manter a sua castidade. Sedento de desejo, o deus a perseguiu, tentando violá-la. Ao encostar-se à pele macia de Atena, Hefestos não resistiu, ejaculando precocemente sobre a coxa da deusa. Satisfeito, ele partiu. Sentindo grande repugnância, a deusa limpou o sêmen com um pedaço de lã, atirando o pano ao chão. O fruto da violência de Hefestos fecundou Gaia, a Terra, que gerou um ser monstruoso, metade homem, metade serpente, sendo chamado de Erictônio. A deusa encerrou a criança monstro em um cofre, deixando-o aos cuidados da princesa Aglauro, filha de Cécrope, o rei fundador de Atenas. Aglauro teria sido transformada em pedra pelo deus Ares, deixando o cofre sozinho, sendo este encontrado pelas irmãs da princesa petrificada. Quando abriram o cofre, as princesas enlouqueceram ao ver o monstro recém-nascido, atirando-se do alto da Acrópole. Uma gralha branca assisitiu ao infortúnio das filhas de Cécrope, indo relatar a tragédia a Atena, que se encontrava no meio de uma batalha. No calor da luta, Atena revoltou-se, tingindo de negro as penas da ave, proibindo que as gralhas voltassem às proximidades de Atenas. A lenda evidencia a importância que o mito de Atena dá ao culto da castidade, preservada mesmo diante do assédio dos deuses.
Atena e Afrodite eram homenageadas simultaneamente durante as Arreforias, pelas jovens mulheres de Atenas. Durante a festa, as virgens prestavam homenagens à deusa casta, seguindo depois com oferendas à deusa do amor. Traduzida como festa do orvalho, unia o elemento feminino que revelava a vida da jovem mulher, ainda casta como Atena, mas pronta para ser iniciada nas malhas da proteção de Afrodite, a deusa do amor.
As Asquiforias, ao contrário das Arreforias, eram celebradas pelos rapazes, homenageando Atena e Dioniso (Baco). Eram realizadas quando as uvas começavam a amadurecer. Os rapazes levavam do templo do deus do vinho, ramos de videira ao santuário de Atena.
Havia ainda outras duas festas em homenagem à deusa da sabedoria, as Plintarias, que davam início às colheitas da primavera; e, as Esquiroforias, onde os participantes usavam guarda-sóis, simbolizando a proteção, assim como o orvalho, que protegia a lavoura contra a seca.

Representações de Atena nas Artes

Nas artes, Atena teve grandes representações, sendo mais significativas as esculturas atribuídas a Fídias (500? a.C. – 432? a.C.). Nenhuma escultura original chegaria aos tempos atuais, tendo apenas cópias. No maior templo consagrado à deusa, o Partenon, em Atenas, encontrava-se a Atena Partenos, escultura de Fídias, toda feita em ouro e marfim. A deusa é representada vestida com uma túnica, aberta em um dos lados, apertada na cintura. No peito tem a égide guarnecida de escamas, ladeada por serpentes, trazendo a cabeça da Górgona no centro. Na cabeça traz um capacete com a esfinge e dois grifos, animais metade leão, metade águia. Na mão esquerda porta a lança e o escudo, onde está representado o combate dos gregos contra as Amazonas; atrás do escudo a figura do monstro Erictônio. O braço direito está estendido para frente, sustentando uma pequena Nique (Vitória) alada, posta obliquamente, parecendo voar à frente da deusa. Uma versão moderna da estátua foi erigida na frente do parlamento austríaco.
Fídias representou a deusa sem armas, com expressão doce e graciosa, na estátua Atena Lemnia. Outra estátua atribuída ao famoso artista grego era a enorme Atena Promachos, que trazia a expressão bélica e altiva da deusa.
Outra representação famosa do mito, já com o seu nome na mitologia romana, é a renascentista têmpera sobre tela, “Minerva e o Centauro”, de Sandro Botticelli. A lenda de Aracne produziu grandes pinturas, como a de René Houasse.
As primeiras estátuas de Atena eram chamadas de paládios, onde se dizia, eram feitas com pedras caídas do céu. Outras representações do mito podem ser encontradas em objetos de cerâmica e potes de barro.

Minerva, a Deusa da Vitória Romana

Em Roma, o mito de Atena foi identificado com o de Minerva. Os romanos veneravam a deusa como protetora da oliveira, médica, divindade da vitória, inspiradora dos políticos e dos poetas.
Minerva recebia o culto de diversos poetas romanos, que se reuniam alegando receber inspiração da deusa. Grandes políticos prestavam cultos à deusa, como o imperador Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), que lhe erigiu um templo na entrada da Cúria Júlia, onde era reunido o senado. Para os políticos romanos, a deusa inspirava sabedoria e bons conselhos aos senadores.
As festas mais famosas em honra a deusa eram chamadas de Minervais, ou Quinquatria. Durante as comemorações da festa, os estudantes ofereciam prendas aos professores, chamando os presentes de minerválias. Ainda na ocasião comemorativa, os principais lugares intelectuais da cidade eterna, como as escolas, os tribunais e as academias, permaneciam fechados, indo os seus membros homenagear a deusa.
Com o tempo, Minerva foi uma das deusas que mais perdeu as características romanas, assimilando por completo os traços helenísticos da deusa Atena. Nas artes, os artistas latinos limitaram-se a buscar inspiração nas lendas da deusa grega. Em Roma, Minerva jamais conseguiu a importância de Marte, outro deus bélico, que foi assimilado ao Ares grego. Ao contrário da civilização grega, que contrapunha a sabedoria e a estratégia bélica de Atena à destruição sanguinária e sem sentido do cruel Ares.


URANO E GAIA – CÉU E TERRA GERAM A VIDA

maio 20, 2010

O gênero humano ao adquirir uma consciência intelectual,tornou-se superior a todos os seres viventes na Terra. As civilizações mais primitivas questionavam as raízes dessa consciência, deparando-se com um mistério nunca decifrado: de onde viemos? Como surgiu o universo, a terra, o céu, a vida? O questionamento jamais foi elucidado, acompanhando a evolução das civilizações, e mesmo no seu grau mais avançando, jamais houve uma reposta concreta, a não ser as teorias, tanto científicas quanto místicas.
Os gregos antigos, assim como os povos que os cerceavam, na busca por repostas ao princípio de tudo, criaram o mito cosmogônico. A origem da vida era mais misteriosa do que a própria existência concreta. Assim, situando o Caos como princípio desordenado e solitário de tudo, engendraram a primeira divindade a habitar este nada, Gaia, a poderosa mãe Terra. Ser imortal e de importância cosmogônica, cabe a Gaia povoar o Caos, gerar incessantemente a vida, todos os seres do universo. Mãe de deuses e de monstros, não cabe a ela questionar a prole, mas dar a vida. Gaia concebe até mesmo sem a fecundação de outro ser, dentro da sua solidão no Caos gerou Urano, o Céu. Será com ele que terá as divindades primordiais do universo, dando origem à linhagem dos deuses que governarão o mundo e criarão a raça humana.
Urano, o Céu estrelado, é tão grandioso quanto Gaia, a Terra, cobrindo-a por completo. Sua função é fecundá-la, sua força é fálica, é o primeiro governante do mundo, tendo como cetro o órgão reprodutivo, como garantia do trono o sêmen fecundador. Cabe a Gaia gerar a vida, a Urano fecundá-la.
Urano e Gaia, Céu e Terra, juntos povoam o universo de seres monstruosos, como os Ciclopes, que só possuem um olho no meio da testa, os Hecatônquiros, gigantes de cem braços e cinqüenta cabeças; e ainda os Titãs, deuses primitivos, já com a forma que será transmitida quando Prometeu criar o homem.
Urano não suporta as forças violentas e ações aterradoras dos filhos. Para evitar que destruam as coisas, encerra-os no Tártaro. Gaia é a mãe de todos, não suporta ver os filhos presos. Não os culpa pela forma que têm, culpa a Urano, que a fecunda todos os minutos do dia. No embate entre Gaia e Urano, virá Cronos (Saturno), o maior dos Titãs, que incitado pela revolta da mãe, destronará o pai e será o próximo senhor dos deuses. Urano não pode morrer, pois é imortal, mas é castrado pelo filho. Sem a força fecundadora, tem a morte do seu poder. Assim, está cumprido o reinado de Urano e Gaia. O Céu e a Terra geraram a vida, os deuses, cabe a eles continuar a evolução, gerando os homens, a maior de todas as criações dos seres mitológicos.

A partir do Caos Surge a Vida

No primórdio dos tempos havia o Caos, uma extensão ilimitada e desordenada, um espaço aberto em um abismo sem fundo. Antes do Caos nada existia, o princípio extinguia-se abruptamente. No meio do abismo do Caos, em determinado momento um ínfimo chão foi instaurado, surgindo Gaia, a Terra, através do mito do cosmo e da força intelectual, encerrando a desordem do nada.
Gaia trazia em si a pulsação da vida, a latência de uma natureza que não se continha sozinha. Na solidão fria do Caos, surgiu, seguido a Gaia, Eros, o amor. A partir dele, nada mais poderia caminhar sozinho.
Antes de ser atingida pela força de Eros, Gaia trazia o principio que fecundava e era fecundada por si mesma. Podia sozinha gerar a vida. No ímpeto de querer um ser tão poderoso quanto ela, concebeu Urano, o Céu estrelado, que a cobriu por inteiro. Ainda sozinha, gerou as Montanhas, o Mar, o Ponto e as Ninfas.
No meio do Caos, depois de Gaia, surgiu a Noite, ser constituído por uma treva profunda. Assim como Gaia, a Noite engendrou sozinha o Éter, a luz feita somente para iluminar os deuses; e, o Dia, claridade maior que se iria estender não somente aos imortais, como às criaturas perecíveis, entre elas os homens.
No instante em que se gerou a Noite, o Caos viu nascer o Érebo, lugar sombrio que se alojaria debaixo da Terra, constituindo a morada das sombras, das almas.
Mas Eros, o amor, força maior do que a própria madre geradora de Gaia, já não permitia que entidade alguma fecundasse solitariamente. O amor exigia dois pólos como geradores da vida: o fecundador e o fecundado. Movida pelo impulso determinador de Eros, Gaia uniu-se ao seu filho primogênito, Urano.
Urano mostrou-se um amante apaixonado. Ao lado de Gaia, tornou-se o senhor de todos os seres e deuses. Da união e do amor dos dois, nasceram seres violentos e primitivos, povoando o universo e a Terra.
O Caos, princípio de tudo, já não seria o presente ou o futuro, perdera a solidão do nada diante da vida. Antes dele não se sabe o que existia. Nunca será revelado aos deuses e aos homens. Depois de organizado, o Caos chamar-se-á Cosmos.

Gaia e Urano, Cultos e Representações

A primeira geração dos seres imortais da mitologia foi classificada como divindades primordiais. Com a evolução da civilização grega, tais divindades perderam o sentido religioso, adquirindo apenas uma importância cosmogônica, ou seja, para justificar a origem do universo, dos deuses e dos homens. São seres unicamente mitológicos, sem que se ergam templos, ou que sejam cultuados.
Eros, o amor, a segunda força primordial a existir, muitas vezes assume a existência como uma segunda geração de deuses, o que lhe retira apenas a alusão mitológica, sendo considerado filho de Afrodite (Vênus), a deusa do amor, inserido assim no seu séquito e recebendo o seu culto.
Gaia é, talvez, a única divindade primordial que recebeu culto dos gregos antigos. É a deusa mãe, difundida ou assimilada em todas as religiões politeístas. Se no monoteísmo Deus é onipotente, deidade absoluta, criador através da sua força divina, sem a conotação de gênero masculino ou feminino, no politeísmo a força geradora é feminina. Todo ser vem da preparação do ventre da mulher, portanto uma deusa trará a madre procriadora, concebendo a vida. Gaia é a Terra, o planeta da vida, tudo passa a existir a partir dela. É o símbolo da fecundidade universal. Faz parte dos deuses primordiais que constituem a ordem material, a força indomável do universo, causando o desequilíbrio divino, impedindo-o de chegar aos homens. Zeus (Júpiter), será quem constituíra a ordem espiritual, governando Céu e Terra com a ajuda dos deuses do Olimpo.
Tidos como geradores da ordem material e não espiritual, os deuses primitivos não carecem de cultos ou adoração. Gaia é diferente, é a deusa mãe. Nos primórdios da civilização grega, recebia cultos em Patras, onde lhe era atribuído o dom de poder curar todas as doenças. Também a cidade de Delfos lhe atribuiu um templo. Com o decorrer da civilização grega, Gaia perde espaço para os deuses filosóficos, os olímpicos que se assemelham mais ao homem, não só fisicamente, como na personalidade de cada divindade. Delfos substituiu a adoração a Gaia pela de Apolo, o deus da luz. Nas outras partes da Grécia, Gaia vai tendo o mito confundido com o de Afrodite e o de Hera (Juno), a esposa de Zeus e rainha do Olimpo, deusa da família.
As representações artísticas de Gaia na arte grega são ínfimas. Normalmente é figurada como uma mulher enorme, assim como o é o planeta Terra; com os seios fartos, para amamentar todos os filhos. É a própria concepção materna que jamais se perde.
Urano, por sua vez, é um ser mitológico, sem a conotação do culto. Pai de todos, é o maior representante da ordem material. Será destronado pelo filho Cronos, que também não trará a ordem espiritual ao mundo. Urano é o pai que fecunda, mas não o pai que ama os filhos. Questiona sempre a prole, as suas ações devastadoras. Limita-se a prendê-los no Érebo. Nas artes, Urano tem poucas representações, permanecendo o estigma procriador, sendo figurado com os órgãos genitais desproporcionalmente grandes diante do resto do corpo. Assim, Gaia e Urano, trazem como símbolos principais os seios fartos e falo gigante, respectivamente, demonstrando que o Céu tem como função básica fecundar a Terra, reproduzindo a vida pululante do mundo.

Urano Aprisiona os Filhos

Ao perder a capacidade de gerar os filhos sozinha, Gaia submete-se à força universal de Eros, o deus do amor, que estabelece o princípio de dois corpos, tanto aos imortais como aos mortais, para que se faça a fusão que resultará na vida.
Gaia une-se ao seu primeiro filho, Urano. Envolvida por Eros, sente pelo marido a paixão dos grandes amantes, no que é correspondida na plenitude. Juntos, Gaia e Urano irão governar os imortais, as forças da natureza, constituindo a primeira dinastia dos deuses.
O reinado de Urano é marcado pela violência das forças naturais dos seus filhos. Do amor entre Gaia e Urano nascerão primeiro os doze filhos mais poderosos, sendo seis homens, os Titãs: Hipérion, Iápeto, Cronos, Crio, Ceo e Oceano; e, seis mulheres, as Titânias: Mnemósine, Tétis, Réia (Cibele), Têmis, Febe e Téia. Os Titãs constituem um caráter violento, proporcionando ao mundo imortal o desequilíbrio e a desordem.
As proles seguintes de Urano e Gaia são compostas pelos Ciclopes, seres gigantes, que possuem apenas um olho no meio da testa; e, os Hecatônquiros, criaturas monstruosas, possuidoras de cem braços e cinqüentas cabeças. São seres indomáveis, fazendo parte da primeira geração evolutiva dos deuses. São responsáveis pelas forças catastróficas da natureza, fazendo os vulcões entrarem em erupção, os terremotos abalarem a Terra, as tempestades e os furacões assolarem os campos e os mares, provocando todos os cataclismos que transformam a face do planeta desordenadamente, preparando-o para a evolução da vida e para o surgimento do próprio homem.
Urano é o pai e o irmão desses seres. O sentimento paterno é menor do que o fraterno. Não consegue aceitar a força devastadora dos filhos sobre a Gaia, a Terra. Urano não suporta os Titãs. Odeia ainda mais os Ciclopes e os Hecatônquiros. Revolta-se contra a violência destruidora da sua prole. Na sua revolta de pai, decide que não verá mais a face dos filhos rebeldes, encerrando-os para sempre no Tártaro, a parte subterrânea do Érebo.
Gaia, a mãe Terra, que a tudo suporta, sofre com a reclusão dos filhos no subterrâneo do seu ventre. Ela é a mãe natureza, não podendo impedir os fenômenos naturais provocados pelos filhos na construção da vida. Urano não suporta os filhos, mas não deixa de gerá-los. Impõe a Gaia uma fecundidade contínua. Desde que se unira a Urano, a deusa jamais deixou de ver o seu ventre crescer, não parando de gerar um só dia.
O que lhe causava mais dor do que o parto, era ver os filhos arrancados do seu convívio e aprisionados no Érebo. O coração de Gaia encheu-se de mágoa, transformando o amor que sentia por Urano em ódio. Já não suportava mais ser fecundada por ele.

Cronos Destrona Urano

Gaia revolta-se contra Urano. À revelia do marido, decide libertar os Titãs. Reúne os filhos e ordena-os que destronem o pai. Mas os Titãs se recusam a obedecer à mãe, com exceção de Cronos, o deus do tempo, que não se conformava com o sofrimento da mãe diante da fecundação continua de Urano.
Juntos, Gaia e Cronos urdem um plano para destronar Urano. A deusa mãe afia uma foice que há muito talhara, entregando-a ao filho. Na mitologia grega, a foice é o símbolo da morte, é através dela que se ceifa a vida; ambiguamente é também o símbolo da colheita, da esperança vinda dos grãos da natureza. Será com a foice afiada por Gaia que Cronos destronará o pai.
Num embate final entre Cronos, o deus do Tempo, e Urano, o Céu estrelado, a hierarquia dos deuses terá um novo líder, iniciando um novo reinado. Urano, em seu princípio insaciável pela fecundação, sente o falo procriador crescido. Imediatamente aproxima-se de Gaia, na intenção de possuí-la e gerar um novo filho. Mas Cronos, preparado pela mãe, espreita e aguarda aquele momento fatídico. O deus do tempo atira-se sobre o pai, lutando ferozmente com ele, subjugando-o. Num gesto ligeiro e certeiro, atravessa os testículos cheios do pai, cortando-os com a foice. No chão, Urano sangra intensamente, contorcendo-se de dor. Agarrando-se ao desespero da perda da viriliade, o deus solta um grito ensurdecedor, que ecoa pelos quatro cantos do mundo.
Cronos segura os testículos do pai. Estava concretizado o fim do seu reinado. Urano é imortal, não pode ser morto. O seu reinado é constituído pelo princípio da fecundação. Extirpar-lhe os testículos é usurpar-lhe o poder, condená-lo à morte divina. Declarar o fim do seu reinado. Era a vez de de Cronos fazer ecoar o seu grito de vitória, para que todas as criaturas imortais saibam. Em seguida, atira os testículos do pai pelo espaço. Era o novo rei dos deuses.
Em um último momento de fertilidade absoluta, o sangue de Urano escorre sobre a terra, mais uma vez fecundando a natureza. Do sangue do deus derramado sobre a terra, nasce as Melíadas, ninfas dos carvalhos; os Gigantes, seres de grande força e altura; e, as Erínias, divindades vingadoras dos crimes, inclusive o que cometera Cronos contra o pai. Mas o deus do tempo é o novo senhor dos deuses. As Erínias nada fazem contra ele.
Os testículos de Urano vão parar no mar. Os órgãos extirpados carregam a última quantidade de sêmen do deus, que expelidos nas águas, formam uma espuma branca, dela emergindo Afrodite, a deusa do amor e da beleza.

Os Mitos de Gaia e Urano na Evolução do Culto Grego

A ascensão de Cronos ao poder não trará para Gaia o objetivo que planejara. Tão logo sobe ao poder, o filho liberta somente os Titãs e as Titânias, deixando permanecer os Ciclopes e os Hecatônquiros no Tártaro.
A traição de Cronos faz com que Gaia se revolte contra ele. Será ela quem ajudará a Titânia Réia, mulher de Cronos, a salvar o filho Zeus (Júpiter), de ser devorado pelo pai. Zeus será quem destronará Cronos e libertará definitivamente os Ciclopes e os Hecatônquiros. Mas Gaia jamais verá todos os filhos em liberdade. Estabelecido o reinado de Zeus, ela verá os filhos Titãs e os Gigantes derrotados e confinados no Tártaro.
Além de gerar filhos sozinha e com Urano, Gaia, divindade símbolo da fecundação, teve filhos com outras entidades. Com o Mar gerou Nereu, Taumante, Fórcis, Ceto e Euríbia. Com o Tártaro engendrou Equidna, e segundo algumas versões da lenda, o monstro Tifão. Outros monstros são tidos como filhos de Gaia por variantes das lendas do mito, sendo eles Pitão, Caribde, Anteu e Fama.
O mito de Urano está intimamente ligado ao de Gaia. É através dela que ele gerará a prole da qual irá nascer os deuses do Olimpo, e o próprio homem. Não lhe cabe a organização espiritual do universo, mas sim a sua formação material. O seu reinado é turbulento, responsável pelo surgimento das forças primitivas do planeta. Caberá aos olímpicos a implantação da ordem, e, da essência espiritual.
Gaia, a força da fecundidade, é considerada a mãe do universo e de todos os deuses. Nos primórdios da formação do povo grego, era tida como inspiradora dos oráculos. Com tempo, deixou de ser divindade cultuada, para ser apenas mitológica dentro do politeísmo grego, passando a ser a explicação para a origem do universo. Foi perdendo espaço para outras deusas, mais elaboradas e mais próximas da personalidade humana. Assim, Afrodite, a deusa do amor, passou a representar também a fecundidade. Réia, mãe de Zeus, tomou para si o título de mãe do senhor dos deuses, sendo por este motivo mais venerada. Deméter (Ceres), passou a ser a deusa que fecunda os campos e proporciona o alimento e as colheitas aos homens. Finalmente Hera, a ciumenta esposa de Zeus, tornou-se a deusa protetora da família e dos lares. Gaia, aos poucos, ficou somente com a função de revelar aos homens a origem divina de todas as coisas e da vida.


ARES, O DEUS DA GUERRA

abril 16, 2010

De todos os deuses da mitologia grega, Ares (Marte) era o mais detestável, muitas vezes menosprezado por uma civilização que quanto mais avançava filosoficamente, mais se distanciava dos conflitos bélicos, comuns aos povos da antiguidade. Senhor absoluto da guerra, Ares tinha a crueldade como inspiração. Filho de Hera (Juno) e de Zeus (Júpiter), herdara da mãe a impetuosidade, a cólera e a teimosia. Para Ares a guerra representava a carnificina, o sofrimento, o derramamento do sangue, não importando os lados, longe da inteligência tática, era a verdade diante da armas, jamais da estratégia militar.
Companheiro eterno do medo, personificava a morte sem glória, à devastação sem o propósito da estratégia, não havendo merecimento na vitória, mas a força bruta como palavra final. Seus filhos representam a força destrutiva humana, sendo eles Fobos, o medo incessante; Deimos, o terror; e, Éris, a discórdia. Terror e Discórdia são seus companheiros eternos. O mais contestado pelos deuses do Olimpo, Ares tem na figura de Atena (Minerva), a sua grande rival. Ambos são deuses da guerra, mas Atena é a deusa da estratégia, da sabedoria na guerra, enquanto que Ares é apenas a destruição sem lógica.
Se na Grécia a figura de Ares é desprezada, em Roma ele é identificado com Marte, o deus da guerra justa e estratégica. A prole de Marte dará origem aos gêmeos Rômulo e Remo, fundadores da cidade eterna, o que lhe confere o estatuto de grande deus, o mais importante a ser cultuado pelos romanos. Ares e Marte, unificados em um só mito, são os que mais divergem na assimilação greco-romana.
O mito de Ares traz um deus forte, de músculos perfeitos, que vestindo armadura e capacete, empunha uma lança e um escudo; percorrendo os campos de guerra em um carro puxado por exuberantes cavalos. Mistura-se aos litigiosos, sem se ater a qualquer lado, à justiça ou às leis. Desfere golpes ao acaso, lançando um brado de terror. Quando termina, contempla a destruição absoluta. É o retrato ímpio da guerra, que transforma os campos em desertos, e as cidades em ruínas. Ao contemplar o sangue derramado, Ares segue vitorioso no seu carro, desaparecendo nos céus do Olimpo.

Ares, o Senhor da Guerra

As civilizações antigas existiram a partir das conquistas. As guerras criavam ou erradicavam grandes impérios. As religiões justificavam a necessidade da guerra, para que se perpetuasse a existência de uma civilização, daí o culto aos deuses da guerra nas religiões politeístas. No monoteísmo não foi diferente, o Deus de Abraão permitiu a posse da Terra Prometida aos hebreus através da guerra. Maomé sustentou a sobrevivência do seu clã através de grandes batalhas. E em tempos não tão remotos, as cruzadas promoveram a hegemonia cristã no mundo ocidental. Na Grécia antiga não foi diferente, a guerra era comum ao seu povo, mesmo sendo uma civilização mais voltada para o comércio, para as artes e para a filosofia. Daí a necessidade de recorrer a divindades bélicas.
Dois eram os deuses cultuados como divindades guerreiras: Ares e Atena. Como a guerra foi menos relevante à civilização grega, as duas entidades tinham funções diversas. Atena era responsável pela justiça nas contendas bélicas, pela inteligência da estratégia e pela vitória justa. Ares era o deus do ato mortífero da guerra, a causa da intriga, o sangue que se vertia, o responsável pela dor e pela destruição. Para ele não havia o justo, a lei, apenas o desejo da guerra na sua mais pura concepção. A expansão grega refletiu-se pelo mundo mais por sua arte e filosofia do que pelas guerras que travou, daí Ares ser um deus menor do que Atena, sendo pouco cultuado, ou mesmo amado.
Ares é uma divindade que teve a sua origem na Trácia, sendo importado pela cultura helênica. Jamais perdeu a característica de divindade estrangeira, já que os trácios eram vistos pelos helenos como um povo belicoso, bárbaro e desprezível. Ares era a destruição da civilização, a guerra como o mal necessário, um deus que devia ser atenuado em sua ira destrutiva, através de cultos pontuais. Não se pedia a proteção a Ares, mas sim que ele não intervisse. Os sacrifícios destinados ao deus eram para que permanecesse no Olimpo, enquanto Atena protegia o povo grego nos campos de batalha.

O Mais Detestável dos Olímpicos

Nas lendas sobre o mito de Ares, Atena é sempre retratada como superior ao deus. Por várias vezes desafio-o, e, com a sua sabedoria, vence-lhe a força e a agilidade da brutalidade. Numa batalha entre os deuses, na planície de Ílion, nas proximidades de Tróia, Ares lança injúrias sobre a deusa, e com o seu ódio cego e força bruta, arrebata-lhe com a espada o escudo que a protegia. Atena retira-se estrategicamente, traça a sua estratégia, aguarda o momento certo e atira uma pedra no pescoço do deus. Ares cai e as suas armas espalham-se pelo campo de batalha. Atena saboreia a vitória, mostrando que o ataque inteligente vencia qualquer força bruta e violência sem objetivos.
Ares é por diversas vezes humilhado no Olimpo. Os deuses menosprezam-lhe o comportamento impetuoso e sem razão. O próprio pai, Zeus, o senhor dos deuses, diz, na “Ilíada” de Homero: “És, para mim, o mais detestável dos deuses que mora no Olimpo, pois amas sempre a discórdia, a guerra e as batalhas.
A humilhação maior do deus é feita através de um homem, Diomedes, filho de Tideu. Incitado por Atena, o mortal dirige os seus cavalos em combate e ataca o deus da guerra, ferindo-o. Ares brada de dor, sendo obrigado a fugir para o Olimpo. Apresenta-se ferido diante de Zeus, que o censura, mas como pai, não deixa de curar a ferida do filho. Ares sente, diante dos deuses, a humilhação suprema de ser ferido e afastado de combate por um mortal.
As derrotas de Ares representam a rejeição do povo grego às guerras, ao terror que elas causavam e à destruição insana, sem justiça ou vitória honrosa. Ares é a imagem da vitória sem glória, da guerra sem honra.

O Julgamento de Ares em Atenas

Outra lenda que mostra a fragilidade moral de Ares diante dos outros deuses do Olimpo é a do seu julgamento pela morte de Halirrótio. Pela primeira vez um deus estava a ser julgado em um crime de homicídio por todos os deuses olímpicos.
O crime acontecera próximo à fonte de Asclépio, em Atenas. Ares descansava de um longo combate, refestelando-se com o som das águas cristalinas, quando ouviu gritos desesperados. O deus da guerra depara-se com uma jovem correndo desesperada sobre a relva. Suas vestes estão em pedaços. Halirrótio, ofegante de desejo, persegue a jovem, na tentativa insana de possuí-la, não se apercebendo da presença da divindade olímpica. Furioso, Ares investe contra o jovem, em um momento de grande violência, dilacerando o seu corpo, fazendo o seu sangue jorrar nas águas límpidas da fonte.
A jovem assiste com horror àquela cena de violência e impacto. Está muda, sem fala, quando o deus oferece-lhe a mão e a leva do local do homicídio. A jovem era Alcipe, a sua filha. Não poderia deixar que lhe ultrajasse o corpo.
Ao saber do crime, Poseidon (Netuno), o senhor dos mares, fica enfurecido. Halirrótio era o seu filho. Movido pela cólera, Poseidon decide uma vingança pessoal, humilhar o deus da guerra. A princípio pensa em elimar a prole de Ares. Não lhe poderia matar, visto que era imortal. Pensando com a razão, exigiria a justiça dos outros deuses. Poseidon foi até o Olimpo e exigiu que o irmão Zeus, convocasse todas as divindades e levasse Ares a um julgamento.
Os deuses reúnem-se na colina de Atenas. Ares sofre a humilhação de um julgamento. As divindades escutam os argumentos de Poseidon e os do réu. Ares fala com eloquência sobre o que se passara. Após ouvir os dois lados, os olímpicos confabulam e chegam a um veredicto, Ares era inocente. Findo o julgamento, os imortais retiram-se, aos poucos, deixando os ecos das suas palavras diluídas sobre a colina. O local, onde Ares fora julgado e inocentado, passou a chamar-se Colina de Ares, ou em grego, Areópago. Ali serviria de cenário para vários julgamentos dos atenienses e de mortais vindos de outros lugares.

Poucas Representações na Arte Grega Clássica

Dos deuses olímpicos, Ares foi aquele que menos teve cultos em sua honra difundidos pela Grécia. O mais célebre dos poucos santuários erigidos ao senhor da guerra foi o Areópago, em Atenas. Nenhuma cidade grega fez de Ares o seu protetor. Muitas lendas descreveram-no favorável a outros povos, como na guerra de Tróia, que ficou do lado dos troianos.
Por sofrer uma rejeição velada dos helenos, o deus pouco inspirou as artes, tendo raras representações. Não gerou moedas com a sua efígie, prática comum nas cidades gregas. Nas primeiras imagens em que foi representado, aparece como um senhor de certa idade, armado dos pés à cabeça. Nas obras arcaicas surge com barba, vestido de armadura e empunhando lança e escudo.
Nas representações posteriores, do século V a.C., surge a imagem de um deus jovem, forte e belo, com cabelos densos e longos, ostentando uma lança, geralmente quase ou totalmente nu. A famosa estátua de Ares da Villa Ludovisi, supõe-se ser uma cópia do grande escultor grego Escopas (século IV a.C).
Há representações de Ares em episódios de batalhas, acompanhado pelos filhos Fobos, Deimos e Éris. Mas o motivo de Ares mais explorado nas artes é o do seu amor proibido com a bela Afrodite (Vênus), a deusa do amor.

Marte, o Deus Maior dos Romanos

Ares foi assimilado na mitologia romana com Marte, o deus da guerra. Se na Grécia Ares sofreu a rejeição dos helenos, em Roma Marte tornou-se o deus mais importante, sobressaindo-se ao culto do próprio Júpiter, o Zeus grego, o senhor dos deuses.
Roma, em seus primórdios, foi uma cidade agrícola, sendo fundada, segundo a lenda, por Rômulo, irmão gêmeo de Remo. Com a evolução da civilização romana, ela deixou de ser essencialmente agrícola, expandindo-se através das conquistas geradas pela guerra. A evolução de Roma coincide com a evolução do mito de Marte. Inicialmente o deus, assim como o cidadão romano, era uma divindade agrícola, cultuado como o senhor das tempestades que traziam as chuvas torrenciais, a neve ou o granizo. Era invocado para evitar os efeitos maléficos dos temporais sobre as plantações. Mais tarde, quando Roma tornou-se uma grande potência, com os seus exércitos de soldados invencíveis, Marte não só era invocado pela força das tempestades, como o deus que trazia a força cega nas batalhas, tornando-se uma divindade da guerra.
Roma dependia da força das batalhas para dominar o mundo antigo. A guerra era mais importante do que a filosofia ou a arte; por este motivo Marte era mais enobrecido do que Ares na Grécia.
Quando Roma tornou-se o centro do mundo, era preciso que a lenda da sua fundação fosse associada a uma divindade, jamais a um simples mortal. Marte foi considerado o pai de Rômulo e Remo, o que lhe conferiu ser o deus mais importante dos romanos. Era venerado após cada vitória dos exércitos numa batalha. Assim como Ares, era um deus cruel e violento, sendo tais características admiradas pelos romanos, tornando-se uma divindade essencialmente guerreira, que trazia a vitória àqueles que se tornaram os senhores da antiguidade. Ao contrário de Ares, Marte era cultuado como um deus da vitória honrosa.

Um Deus de Amores Impetuosos

Ares era conhecido não somente por sua crueldade e violência nas guerras, mas por sua impulsividade como amante. É um deus vigoroso, impetuoso. Nenhuma mulher ousava recusar o seu amor. As que o fazia, eram violentamente possuídas.
Suas aventuras amorosas geraram vários filhos. A rejeição do povo grego ao mito de Ares atingiu a sua prole. Dos inúmeros filhos que teve com ninfas e mortais, todos morreram de forma violenta. Da prole de Ares destacam-se:
A bela Alcipe, fruto da sua aventura amorosa com a princesa Aglauro, a qual, mais tarde, defenderia de ser violada por Halirrótio, filho de Poseidon. Com Crisa gerou Flégias, fundador de Flégia, cidade onde se reuniam os maiores guerreiros da Grécia antiga. Com Pelópia engendrou o terrível e temível bandoleiro Cicno. O fruto da sua união com Harpina foi Enômao, que viria a ser rei de Pisa, na Élida. Com a malograda Aeropa teve Aeropo, que segundo a lenda, amamentou-se nos seios da mãe morta. Da aventura com Pirene nasceram os cruéis tiranos Licaão e Diomedes, mortos por Héracles (Hércules). Com Astínome engendrou Calidão, transformado em rochedo pela deusa Ártemis (Diana). Com Astioquéia, engendrou os futuros argonautas Ascálafo e Iálmeno. Com Protogênia gerou Oxilo.
De todos os amores de Ares, o mais famoso foi o que viveu com Afrodite, a deusa do amor. A aventura teve fim quando Hefestos (Vulcano), descobriu a traição da esposa, e aprisionou os amantes numa rede tecida com finíssimos fios de ouro. Afrodite foi a única deusa amada por Ares, dando-lhe quatro filhos. Dois deles representam o elemento positivo do mito de Afrodite, Cupido, o traquino deus do amor, e Harmonia, esposa de Cadmo. Os outros dois, o aspecto negativo do mito de Ares: Deimos, o terror, a força que aterroriza; e, Fobos, o medo. Deimos e Fobos acompanham o pai nos combates, levando a destruição e a morte.
Em Roma, o mito de Ares associado a Marte, acrescenta à prole os gêmeos Rômulo e Remo. Marte apaixonara-se pela bela Réia Silvia, única filha de Numitor, rei de Alba Longa. Amúlio depôs o irmão, Numitor, e temendo que Réia Silvia concebesse um herdeiro que reclamasse o trono usurpado, consagrou-a à castidade no colégio das Vestais. Marte sente-se irremediavelmente apaixonado pela vestal, usando da violência para tê-la como amante. Da união nasceram Rômulo e Remo, que quando adultos, tomaram de volta para o avô o trono usurpado, recebendo como recompensa um território às margens do rio Tibre. Ali, Rômulo fundaria a cidade de Roma.
Impetuoso no amor e na guerra, Ares representa a força, a negação da razão. A essência bruta da humanidade, sua ferocidade primitiva, tendo em tempos de guerra, a crueldade que jamais seria aflorada em momentos de paz. Ares é a crueldade que exala o homem quando posto em campos de batalhas, movido apenas pelo ato da violência, representando naquele momento, o assassínio, a sobrevivência ou a morte, sem as raízes da razão.


HERMES – O MENSAGEIRO DOS DEUSES

fevereiro 3, 2010

A mais esperta e eloqüente das divindades gregas, Hermes, identificado como Mercúrio na mitologia romana, é o mensageiro dos deuses olímpicos. Sua capacidade de dominar a palavra, demonstrar astúcia e diplomacia, fez dele o deus do comércio e dos ladrões.
Hermes representa a jovialidade divina. Seu vigor faz com que viaje por todos os lugares do mundo, o que o torna o deus dos viajantes e protetor das estradas. Para percorrer os céus, traz um chapéu de abas com duas asas e sandálias aladas, que lhe permite voar com eximia ligeireza. Numa das mãos porta o caduceu, varinha mágica que recebeu de Apolo.
Símbolo da juventude fálica, Hermes tinha suas imagens itifálicas erguidas nos templos. Era, assim como Apolo, tido como o ideal de beleza, possuidor de uma agilidade viril. É na figura de Hermes que a androgenia da perfeição da beleza idealizada pelos gregos toma forma, através de Hermafrodito, fruto do seu amor com a bela Afrodite (Vênus), ser que nascera com os dois sexos.
Nascido da aventura amorosa entre Zeus (Júpiter) e Maia, Hermes foi o único filho tido pelo senhor do Olimpo fora do casamento, que não despertou a ira da ciumenta Hera (Juno). Seu carisma conquistara a deusa, que chegou a alimentá-lo no peito quando ainda criança. Hermes é sedutor, atraente com as palavras, senhor absoluto da astúcia.
Deus dos lucros das transações, é ambíguo como o é o próprio comércio. Se protege a lábia dos ladrões, também os condena por atos espúrios. Odeia a guerra e a discórdia, prezando a diplomacia como solução às querelas divinas e humanas.
Sem nunca parar, Hermes percorre todos os caminhos entre a Terra e o Olimpo. Incansável, leva nos lábios as mensagens dos deuses, propagando-as para os mortais. Seu poder de persuadir embriaga a humanidade, fazendo dele o mais sedutor de todos os olímpicos.

Os Epítetos e Atributos de Hermes

Não se sabe ao certo a origem desta divindade mitológica, sendo a Trácia o local mais provável. Os pelasgos, primitivos habitantes da Grécia, difundiram o culto ao deus. A lenda mais recorrente conta que Maia, sua mãe, era uma ninfa que vivia no cume do monte Cilene, na Arcádia. Ali, entregara-se a Zeus e dera à luz ao deus.
É nas terras geladas da Arcádia que se registra a veneração mais primitiva de Hermes, essencialmente pelos pastores, que lhe deram os epítetos de Hermes Epimélio e Hermes Nômio, sendo invocado como o protetor das cabanas, dos cavalos, dos cães, dos rebanhos, dos leões e dos javalis. Certas características primitivas seriam perdidas para Apolo Nômio, após o domínio dos dóricos.
Em épocas ainda remotas, recebeu na Samotrácia o epíteto de Hermes Casmilo, com características de um deus ctônico, protetor do subsolo e da vegetação. Era nesta época, representado com um falo desenvolvido, evidenciando o vigor viril, sendo cultuado ao lado das deusas da fecundidade.
Com a evolução do mito, a divindade sofreu transformações significantes, desenvolvendo novas características e recebendo outros atributos. Com o epíteto de Hermes Logio, era venerado como o deus da eloqüência e da persuasão, com o poder de praticar boas transações, favorecendo o comércio, proporcionando bons lucros aos helenos.
Hermes Krysorrais (munido de vara de ouro), mostrava o deus com o famoso caduceu, uma vara mágica que transformava em ouro tudo o que tocava, além de distribuir abundância aos homens. Portador das mensagens de Zeus, através do caduceu, transmitia aos mortais a benção dos olímpicos.
Com os epítetos de Hermes Empolaios (que preside o comércio) e Hermes Agoraios (que dirige as tarefas da praça pública), era venerado nas terras do Mediterrâneo visitadas pelos gregos. Trazia uma bolsa cheia como atributo, representando os lucros nas transações comerciais.
Hermes Agonios (que preside os certames), cultuava a juventude e a virilidade do deus, sendo venerado nos ginásios e estádios atléticos da Beócia. Com este epíteto, recebia homenagens periódicas através de lutas de jovens, efetuadas em Atenas, Creta, Acaia e cidades da Arcádia. Recebia culto como sendo o patrono dos desportistas, o criador do pugilato e das práticas atléticas.
Hermes Trismegisto (três vezes santo), era cultuado pelos poetas e cantores, como o protetor da música e inventor da lira; como criador das ciências, da matemática e da astronomia. Hermes Trismegisto era venerado juntamente com Apolo, as funções que se lhe eram atribuídas confundiam-se com as do deus solar. Várias lendas eram comuns aos dois, como a invenção da lira.
Quanto mais se aceitava um mito, maiores e mais complexas eram as atribuições dadas a ele. A figura mitológica de Hermes foi adquirindo diversas funções conforme evoluía a civilização grega. Com o epíteto de Hermes Psicopompo (condutor de almas), passou a ser venerado nas festas dos mortos e próximo às tumbas, como aquele que conduzia as almas dos mortos ao Hades.

Hermes, o Deus dos Ladrões

Tido como um deus natural da Arcádia, onde era primitivamente venerado como divindade agrícola e pastoril, Hermes foi aos poucos, adquirindo atribuições ligadas ao comércio, passando as funções primitivas a Apolo.
A astúcia do deus é descrita desde que era um recém nascido na Arcádia. Após amamentá-lo, Maia deixou-o no berço. Na calada da noite, o bebê libertou-se das faixas com as quais a mãe lhe envolvera o corpo. Silenciosamente, para que não acordasse Maia, deixou o berço. Era um bebê precoce e diferente de todos os imortais.
Hermes caminhou pela noite, direcionando-se para a Tessália. Na mente, o deus planejava roubar o rebanho do rei Admeto, de Feras, cidade daquela região; guardado por Himeneu e Apolo. Afinal, quem poderia desconfiar de um bebê?
Ao chegar aos campos onde estava o gado real, Hermes aproveitou-se de um descuido de Apolo, que caminhava enternecido ao lado do amado Himeneu, roubando-lhes o rebanho.
Apagando as pegadas do gado e às suas próprias, o travesso bebê atravessou a Tessália e a Beócia, chegando a Pilo. Ali encontrou Bato, um velho andarilho. Para que o homem não lhe denunciasse, Hermes ofereceu-lhe um bezerro em troca do silêncio. O velho aceitou a proposta. Mas o pequeno deus não se convenceu da fidelidade do homem. Deixou o gado em uma caverna, tomou a forma de um pastor e voltou para junto de Bato. Diante do velho, simulou desespero, dizendo que se lhe tinham roubado o rebanho, oferecendo uma recompensa a quem lhe desse uma pista do ladrão. Sem desconfiar da verdadeira identidade do pastor, Bato aceitou de imediato o suborno, denunciando o roubo. Após testar a falsa fidelidade do homem, o astuto deus transformou-o em uma rocha.
Antes que a noite terminasse, Hermes chegou com o gado ao cume do gélido monte Cileno, morada da sua mãe na Arcádia. Deparou-se com uma tartaruga, tomando-a como um sinal de sorte. Pegou o animal e o matou, esvaziando-lhe a carcaça, prendendo a ela pedaços de cana de tamanhos diferentes. Do intestino do animal, distendeu sete cordas. Tocou o instrumento, que produziu o mais belo de todos os sons, tinha inventado a lira.
Cansado da longa jornada, o pequeno voltou ao berço e adormeceu, certo de que a sua esperteza enganaria os guardadores dos animais.
Na Tessália, Himeneu deparou-se com a falta do rebanho. Sentindo-se culpado, recorreu a Apolo para que o ajudasse. Os dons divinos do deus fizeram com que descobrisse que Hermes era o autor do roubo, e que o rebanho real estava no monte Cileno. Furioso, Apolo dirigiu-se para a Arcádia, onde encontrou Hermes, um bebê recém nascido, a fingir dormir inocentemente, a dissimular sua precoce astúcia. Mas o deus da luz não se deixou intimidar pelos protestos de Maia, que se sentia ofendida com as acusações, muito menos pela imagem inocente do bebê. Interrogou Hermes, que negou o roubo. Mostrou-se um hábil orador diante das acusaçãoes do irmão. Exasperado, Apolo recorreu a Zeus, senhor do Olimpo, que não se deixou enganar, fazendo o filho confessar e devolver o rebanho.
Vencido, Hermes pegou a lira nas mãos. Quando se preparava para partir, Apolo ouviu uma canção que saía do instrumento que o pequeno tocava. O deus da luz comoveu-se, jamais tinha ouvido tão límpido e perfeito som. Sorriu para Hermes. Não conseguiu nutrir rancor por tão amável ser. Admirou-se com aquela esperteza. Diante da astúcia do pequeno, Apolo o consagrou como o deus dos ladrões, tornando-se desde então, o seu maior amigo e companheiro.

O Deus dos Viajantes e do Comércio

Desde bebê, que Hermes se mostra um andarilho veloz. Sua primeira grande viagem, da Arcádia à Tessália, foi marcada pela astúcia e pela malícia. A negociação com Bato representou o quanto a esperteza é necessária para que se realize uma empreitada bem sucedida, ainda que ilícita. As lendas de Hermes e de suas viagens com propósitos ambíguos, repletos de engodos e de vitórias diplomáticas, fizeram com que os gregos antigos o venerasse como o deus viajante, que se encontrava em todas as estradas do mundo. A certeza da presença de um deus, fazia com que os viajantes gregos se sentissem protegidos diante dos perigos. Assim, Hermes passou a ser cultuado como o deus dos andarilhos e dos viajantes, o condutor de uma viagem tranqüila, protetor de todas as artimanhas que se pudessem deslumbrar nas estradas.
Para invocar a proteção de Hermes aos viajantes, os marcos de pedra que indicavam o rumo, passaram a ser chamados de hermas, transformando-se no símbolo do deus, fazendo-o definitivamente o protetor das longas e perigosas caminhadas pelas terras desconhecidas. No decorrer do tempo, os marcos passaram a ser esculpidos com as características do deus. Estátuas de Hermes eram erguidas nas encruzilhadas ao longo das estradas. Por muitos séculos, as hermas e o falo foram os principais símbolos do mito de Hermes e das representações feitas pelos artistas.
Com a expansão da civilização grega, as suas viagens passaram a ter maiores objetivos comerciais. Hermes deixou de proteger apenas o viajante, estendendo o seu poder às transações dos comerciantes que viajavam em busca de bons negócios. Sua astúcia era essencial para que se realizasse boas empreitadas. A ambigüidade que envolvia o comércio, calcada na lábia e na habilidade, muitas vezes regida pela falta de escrúpulos dos helenos, a esperteza como fonte de sobrevivência, tudo volvia à lenda do deus ladrão. Hermes passou a ser cultuado como o deus do comércio e das transações bem sucedidas, além de eterno protetor dos ladrões, inspirador das suas lábias.
Hermes era o deus dos mercadores, seu caduceu quando estendido aos comerciantes, proporcionava bons lucros, quando estendido à Grécia, trazia as bênçãos dos olímpicos. Hermes propiciava as fortunas. Ao mesmo tempo em que propiciava os lucros, dispensava-os, sendo visto como doador de bens.
Outra ambigüidade do mito era a sua proteção aos ladrões. Ao mesmo tempo em que os protegia, poderia voltar-se contra eles, repudiando-os. Inventou a balança, instrumento que garantia aos compradores e aos vendedores o mesmo peso. Evitando que uma das partes fosse enganada.

A Representação da Imagem de Hermes

As viagens constantes pelo mundo, a ligeireza em que atravessava os céus do Olimpo, fazia de Hermes um deus vigoroso e atlético, ágil e viril. Assim, era imaginado pelos gregos como belo e jovem. As mais antigas representações do deus ressaltavam-lhe o falo. Suas estátuas viris eram espalhadas pelas encruzilhadas das estradas, à porta das casas, à entrada dos ginásios e estádios.
A imagem do Hermes arcaico era a de um jovem barbado e de cabelos longos, caídos sobre a nuca e o tórax; a cabeça era protegida por um chapéu pontudo ou de abas largas, portando pequenas asas; vestia uma túnica curta; trazia um manto preso ao ombro; um par de sandálias com asas, que o ajudava a voar como o vento; e, o caduceu, às vezes um simples bastão, outras vezes possuidor de três hastes que se encontravam na ponta, fazendo um nó. No decorrer dos tempos, as hastes foram substituídas por duas serpentes.
No século V a.C., a imagem do deus foi reformulada, provavelmente por Fídias (500?-432? a.C.), sendo esculpido nu, sem barba, com uma túnica sobre o braço esquerdo, e, com o braço direito erguido.
Seja qual fosse a representação, a imagem era sempre jovial, viril, repleta de beleza física. Ao lado de Apolo, Hermes era tido como o símbolo da beleza masculina idealizada pela civilização grega.

A Identificação com Mercúrio

Se Atena (Minerva), era a deusa da sabedoria, promovendo tanto a guerra, como a sua estratégia expansionista; e, Ares (Marte), promovia o horror sanguinário da guerra, as suas calamidades; Hermes era o deus da astúcia das palavras, da diplomacia e da conciliação. Ao contrário de Ares e Atena, ele não é um deus guerreiro, é o menos colérico dos olímpicos. Odeia a guerra e castiga severamente quem a desencadeia. Sua esperteza é usada como embaixadora das soluções pacíficas, é o deus da diplomacia.
Ao mesmo tempo em que propicia os lucros, Hermes condena as guerras que são travadas por causa deles. Seu maior amigo é Apolo, deus da luz e das artes. Num paradoxo anacrônico, a arte e o lucro caminham juntos
A característica de deus do comércio, levou Hermes a ser identificado com a entidade romana de Mercúrio. A partir do século V a.C., Mercúrio foi aos poucos, sendo helenizado, adquirindo todas as características de Hermes. Tornou-se na Roma antiga, o mensageiro de Júpiter, sendo nas lendas romanas, fiel servidor e cúmplice dos amores extraconjugais do senhor dos deuses.
Ao contrário de Hermes, que primitivamente foi cultuado como deus pastoril, Mercúrio sempre foi o protetor do comércio. Teve o seu primeiro templo erguido em Roma, em 496 a.C., no vale do Circo Máximo, próximo ao porto do rio Tibre, centro comercial fluvial da cidade. Assim como Hermes, o caduceu, o chapéu e as sandálias alados, são os principais símbolos de Mercúrio. A ele é acrescentando uma bolsa, simbolizando os lucros das transações comerciais.
Hermes e Mercúrio possuem uma prole com vários filhos em comum. Como a identificação do deus grego com o romano só aconteceu no século V a.C., as lendas dos filhos dos deuses, umas mais antigas do que as outras, fizeram a diferença da prole.
São filhos de Mercúrio: Evandro, fruto do amor do deus com a ninfa Carmena, tido como quem ensinou a escrita e a música aos latinos. Com a ninfa Lara, gerou os gêmeos Lares, entidades protetoras das casas e das encruzilhadas.
A prole de Hermes, mais tarde adotada por Mercúrio, é extensa. Com Afrodite teve Hermafrodito, ser de dupla natureza, metade homem, metade mulher. Com Antianira teve Equíon, o arauto dos Argonautas, e Êurito, famoso arqueiro. Com Quíone engendrou o famoso ladrão Autólico, avô de Odisseu. Com a ninfa Acacális teve Cidão, fundador da Cidônia, cidade da ilha de Creta. Com a princesa Herse teve Céfalo, por quem Eos, a Aurora, viria a nutrir uma grande paixão. A ninfa Driopéia foi quem o fez pai do mito mais famoso da sua prole, Pã, divindade dos pastores e dos rebanhos. Com Daíra teve Elêusis, herói da Ática. Com a princesa Polimela gerou Eudoro, um dos companheiros de Pátroclo na guerra de Tróia. Com Faetusa concebeu Mírtilo, que teve um infeliz destino como cocheiro do rei Enômao. Com a princesa Aglauro teve Cérix, grande sacerdote de Deméter.


AFRODITE – A DEUSA DO AMOR

dezembro 21, 2009

Na rebelião dos deuses pelo poder, Cronos (Saturno), destronou o pai Urano (Céu), amputando-lhe os testículos. Lançados ao mar, os órgãos de Urano fecundaram mais uma vez, formando uma grande espuma. Dessa espuma, surgiu amparada numa grande concha de madrepérola, Afrodite (Vênus), a mais bela de todas as deusas.
Afrodite, a deusa do amor, é uma das mais poderosas divindades do Olimpo. Deuses e mortais estão a ela submetidos, pois todos são suscetíveis à paixão, e às armadilhas do desejo. Afrodite é a deusa da paixão, que pode amenizar o coração dos homens, ou fazê-los enlouquecer. É a sexualidade latente, deusa do sêmen que reproduz a vida, do prazer que envolve o ato, do torpor que une os corpos.
Sendo a deusa mais bela do Olimpo, atraiu para si o desejo e a paixão de todos os deuses, mas foi obrigada por Zeus (Júpiter), a desposar Hefestos (Vulcano), o deus feio e coxo da forja e do ferro. Inconformada com o casamento, a deusa não deixou de viver a voluptuosidade impetuosa do seu ser. Traiu Hefestos com os mais belos deuses, sendo a sua paixão com Ares (Marte), o deus da guerra, a mais famosa das suas lendas.
Afrodite é voluntariosa, amiga dos amantes, mas inimiga da sensatez. Representa a doçura dos apaixonados, a languidez dos desejos, o idílio da entrega dos corpos. Foi ela quem prometeu o amor da bela Helena ao príncipe Paris, sem se importar com uma sangrenta guerra que devastou Tróia para que os amantes vivessem a paixão prometida. O amor passional e a loucura estão muitas vezes unidos no mesmo cântico de louvor à deusa. Podem juntos, destruir ou construir o mundo.
Sendo a mais bela de todas as deusas, Afrodite foi representada em diversas obras de arte gregas. Ela era considerada o ideal da beleza feminina na Grécia antiga. Apolo representava o ideal de beleza masculino. Os artistas esculpiam a deusa com traços humanos perfeitos, distanciando-na cada vez mais de uma representação divina. Em Roma foi assimilada Vênus, mantendo as suas principais características: deusa do amor, do sexo e da paixão, sendo a mais bela de todas as divindades. Afrodite ou Vênus, a deusa teve o mito a inspirar artistas de todas as épocas, quer na poesia, na pintura ou na escultura. Ainda hoje, Afrodite desperta o fascínio das pessoas, suas lendas são as mais difundidas da mitologia greco-romana, seu mito um dos mais explorados nas artes.

A Origem do Culto à Deusa

O culto a Afrodite tem as suas origens no oriente, entre as civilizações semíticas. Foi introduzida na Grécia pelos marinheiros e mercadores. No início ela era uma variação da deusa Astarte, divindade da Síria e da Fenícia; Ishtar, deusa da Mesopotâmia; e, Milila, da Babilônia. À entidade oriental, os gregos transferiram os caracteres de Atena Tritogenéia, primeira deusa do amor venerada por eles.
Assim como a deusa oriental na qual foi inspirada, Afrodite era primitivamente a deusa do instinto sexual e da fecundidade, abrangendo não somente aos homens, mas a toda natureza. Era ela quem espalhava o elemento úmido, nos animais e humanos representados pelo sêmen, e nos vegetais a chuva, que disseminava as sementes. As flores, as árvores, os frutos, eram obras de Afrodite, que uniam Gaia (Terra) e Urano (Céu) na grande inspiração da fecundidade.
Mais tarde, Afrodite teve as suas funções ampliadas, passando a ser a deusa do amor, sendo no início protetora apenas do amor construtivo e honroso. A pureza dos sentimentos era muito preservada pelos gregos. O amor tinha que ser honroso, e Afrodite garantia a nobreza dos sentimentos. Com a evolução do mito, ela passou a simbolizar o amor passional, a paixão desenfreada e nociva, a loucura dos sentimentos. Deixou de ser apenas venerada pelas jovens puras, para ser a deusa das meretrizes. Muitas foram as meretrizes profissionais que se tornaram sacerdotisas da deusa, erigindo-lhe santuários.
Várias foram as vertentes das lendas sobre a origem de Afrodite. Na época de Homero (século IX a.C.), era tida como filha de Zeus e Dione. A lenda sobre o seu nascimento através da espuma do mar fecundada pelos testículos de Urano, foi contada mais tarde, por Hesíodo (século VIII a.C.), em sua “Teogonia”, sendo a mais difundida e representada nas artes.
A lenda relata que depois do nascimento no mar, Afrodite foi soprada suavemente pelo vento Zéfiro, levada pelas ondas, desembarcando em sua concha na ilha de Citera, que atualmente corresponde ao rochedo vulcânico chamado Cérico. Pouco mais tarde, partiu para a ilha de Chipre, onde as Horas estavam à sua espera. Elas vestiram a deusa com um traje imortal, adornando-lhe os cabelos longos com vistosas violetas. Depois de adornada pelas Horas, a deusa foi conduzida para o Olimpo, sendo apresentada na assembléia dos deuses. Sua beleza impar foi aclamada pelos imortais, que jamais tinham visto tão sedutora formosura.

Os Vários Epítetos

O poder do amor, a paixão e o sexo, fazem parte da vida humana. Afrodite representa a própria vida, a sua beleza e o seu torpor. Protege os amantes, detendo a força de satisfazer ou provocar os desejos amorosos.
Nas atribuições à deusa, ela foi cultuada por diversos santuários com vários epítetos. Na Ática e na Argólida foram erigidos templos dedicados a Afrodite Urânia (celeste), que protegia ao amor puro e nobre. Afrodite Nínfia, era a protetora dos matrimônios, sendo mais tarde assimilada pelos romanos a Vênus Genitrix. Era sempre representada com pouca nudez.
Afrodite Pândemos (de todo o povo), venerada em toda a Ática, era a deusa do amor sensual e venal. Com o passar do tempo, passou a ser associada à prostituição. Afrodite Pândemos passou a ser chamada de Afrodite Pandemia, Hetaira e Porné (meretriz), sendo representada nas estátuas nua e em atitude luxuriosa. Seus templos em Corinto, Éfeso e Abido, tinham as prostitutas como sacerdotisas.
Um outro epíteto, Afrodite Pelagia ou Pontia (marinha), era atribuído à deusa, tida como a protetora dos marinheiros, sendo assim venerada em Ermion, porto da Argólida. Afrodite Euplóia, venerada em Cnidos, também era uma divindade que favorecia à navegação e aos marinheiros.
Cada cidade grega apresentava um determinado epíteto à deusa. Em Chipre, considerada oficialmente a ilha de nascimento da deusa, era chamada de Afrodite Ciprogenéia (nativa de Chipre); em Pafos era Afrodite Páfis; em Amatunte Afrodite Amatúsia; e, em Idálio Afrodite Idália.
Além das cidades citadas, vários outros templos famosos foram erigidos à deusa por toda a Grécia: na ilha de Cós, no monte Erice, na Sicília…

Os Amores de Afrodite

O mito de Afrodite é repleto de lendas que descrevem vários amores por ela vividos. Sendo a mais bela de todas as deusas, Afrodite suscitou as mais acirradas paixões entre os olímpicos. Atraiu para si o amor de Hefestos, deus da forja e do fogo. Hefestos era o mais feio dos deuses olímpicos, tão feio que quando nasceu, a mãe Hera (Juno), atirou-o do alto do Olimpo, na queda, ficaria com um defeito na perna que o deixaria coxo. Mais tarde, Hefestos vingou-se de Hera, presenteando-lhe com um trono de ouro. Ao se sentar no trono, Hera tornou-se dele prisioneira. Só foi libertada quando Zeus, senhor dos deuses e marido de Hera, a pedido de Hefestos, deu Afrodite como sua esposa. A deusa protestou, mas teve que acatar a ordem do rei do Olimpo.
Afrodite jamais honrou o marido. Passou a ter amantes constantes, entre eles Hermes (Mercúrio), o mensageiro do Olimpo, do qual teve Hermafrodito, que nasceu metade homem, metade mulher. Da paixão que viveu com Dioniso (Baco), o deus do vinho, gerou Príapo, protetor dos bosques, jardins e vinhas, conhecido por seu falo avantajado e grande pujança sexual.
Afrodite amou o mortal Anquises, o que era pouco permitido aos homens, deitar-se com uma deusa. Do amor proibido, surgiria Enéias, personagem mitológico criado pelos romanos para justificar a origem divina de Roma. Enéias seria o único sobrevivente de Tróia, partindo para o Lácio, da sua descendência viria os gêmeos Rômulo e Remo, fundadores de Roma.
Uma das mais belas lendas do mito de Afrodite é a do seu amor pelo belo Adônis. O jovem teria sido criado pela deusa e por Perséfone (Prosérpina). Fascinadas com a beleza do mortal, as deusas disputaram o lugar em que ele viveria, no Hades, onde Perséfone era rainha, ou na terra. A disputa chegou a Zeus, que determinou a Adônis que passasse quatro meses no Hades com Perséfone, quatro meses com Afrodite e quatro meses onde bem o entendesse.
Adônis era o jovem mais belo de toda a Grécia. Aprendeu com Afrodite a arte do amor, os segredos do corpo e do prazer. Um dia, a deusa descansava à sombra de uma árvore, enquanto o amante caçava javalis. Atingiu um deles com uma flecha; mesmo ferido, o animal teve forças para atacar e abater mortalmente o belo caçador. Ao ouvir os gritos de Adônis, Afrodite correu ao seu socorro. Mas chegou tarde demais, encontrando- já sem vida. Abatida por uma dor infinita, a deusa recolheu algumas gotas do sangue do amado, regando com elas o chão. Do sangue de Adônis nasceu uma flor, a anêmona, de vida efêmera, sendo a primeira a florir na primavera, renascendo a cada ano, a relembrar o amor perdido da deusa do amor. A lenda de Adônis está ligada ao ciclo das estações. Representa a face primaveril da deusa, a importância da estação na fecundidade da vida.

A Paixão Avassaladora Entre Afrodite e Ares

Dos amores de Afrodite, a lenda mais famosa é do seu envolvimento com Ares, o deus da guerra. A lenda traz uma grande simbologia, o amor e a guerra juntos em um idílio; a paixão e o ódio; a beleza e a rudeza…
Ares é descrito como um deus impetuosamente viril, despertando o desejo nas mulheres e nas deusas. Mas a sua brutalidade é maior do que qualquer afeto, a mulher que se recusasse a deitar com o deus era por ele violada.
Apaixonado por Afrodite, o deus mudou o seu jeito brutal de amar. Aproximou-se da deusa com palavras ternas, ofereceu-lhe o corpo viril e perfeito. Cobriu-a dos mais belos ornamentos. Aos poucos, a amizade entre os deuses evoluiu em uma irresistível paixão. Cegos pelo desejo, tornaram-se amantes fervorosos.
Hefestos, o deus coxo, trabalhava a noite inteira na forja, para atender aos pedidos dos olímpicos e dos heróis gregos. Ares aproveitava-se daqueles momentos de labuta do irmão, para visitar a sua bela esposa, Afrodite. No leito sensual da deusa do amor, o senhor da guerra era despido da sua armadura, entregando-se ao desejo e à paixão. Enquanto Afrodite e Ares uniam os seus corpos, nenhuma guerra explodia pelo mundo, a paz reinava absoluta. Ao fim da noite, os amantes saciados, despediam-se, antes que Hefestos retornasse.
Por muito tempo, os deuses viveram aquela intensa paixão. Para que não fossem surpreendidos, Ares levava sempre aos encontros o jovem Alectrião, deixando-o de vigília enquanto amava a bela deusa do amor. Uma noite Alectrião deixou-se adormecer. Ares e Afrodite entregavam-se voluptuosamente, quando Hélios (Sol), despontou o dia, surpreendendo os amantes. Indignado, Hélios procurou Hefestos e contou-lhe da traição da mulher.
Na sua fúria de marido traído, Hefestos deixou-se abater pela tristeza. Já recuperado, traçou um plano de vingança. Confeccionou uma rede invisível com finíssimos fios de ouro, tão resistente que homem ou imortal não pudesse rompê-la. Sobre o leito da traição, o deus da forja armou a sua rede. Disse à esposa que se iria ausentar por alguns dias, partindo sem maiores explicações.
Pensando Hefestos ausente, os amantes encheram-se de felicidade. Viveriam uma noite de amor sem o medo da interrupção. Movidos pela paixão, deitaram-se felizes sobre o leito. Só deram pelo ardil minutos depois, quando se aperceberam prisioneiros da rede invisível. Naquele instante, Hefestos surgiu. Coberto pela cólera, o deus gritou com a voz da sua dor, fazendo-se ouvir em todo o Olimpo. Todos os deuses vieram a testemunhar os amantes presos na rede.
Hefestos estava disposto a deixar para sempre os amantes prisioneiros. Após longa diplomacia, foi convencido por Apolo a soltá-los. Livre e envergonhada, Afrodite partiu para Chipre, sua ilha predileta. Ares foi para os campos de batalha da Trácia, para esquecer na guerra, as dores do amor findado.
Da paixão entre Ares e Afrodite nasceram quatro filhos: Cupido, entidade que personifica o desejo amoroso, sendo assimilado a Eros pelos romanos; Harmonia, a infeliz esposa de Cadmo; Deimos, o terror; e, Fobos, o medo. Os dois primeiros filhos simbolizam o elemento positivo no encontro entre o deus da guerra e a deusa do amor, sintetizada no mito de Afrodite; os outros dois relatam o elemento negativo do encontro, contido na impetuosidade brutal de Ares; Deimos é a força que aterroriza, e Fobos o medo vindo do terror, ambos são entidades malignas. Os filhos de Ares e Afrodite demonstram o equilíbrio entre a beleza construtiva da paixão e o aspecto violento da sua condução. Ares despe as armaduras e as armas ao deitar-se com Afrodite, mas a sua verdadeira natureza está momentaneamente entorpecida pelos sortilégios da deusa do amor. Não há vitoriosos no encontro, os filhos herdam as características verdadeiras dos progenitores.

Afrodite, Símbolos e Representação nas Artes

O mito de Afrodite representava para os gregos a consciência do poder da reprodução na perpetuação das espécies e dos seres humanos. Personificava o instinto natural do sexo e o sentido da fecundação. Era a deusa do amor no sentido mais extensivo da palavra. Na época homérica, o atrativo sexual incontrolável e sem limites era considerado pernicioso, aspecto refletido na lenda da paixão proibida entre Ares e Afrodite.
A honra, o lar, o amor puro, era símbolo da civilização homérica. Somente três deusas não se deixavam corromper pelo poder do amor, do desejo e da paixão incitados por Afrodite: Héstia (Vesta), deusa do lar; Atena (Minerva), deusa da sabedoria; e, Ártemis (Diana), deusa da caça. As três deusas trazem como característica principal a virgindade, a completa ausência dos desejos sexuais.
Na representação do mito, os seus principais símbolos são, entre os vegetais, o mirto, a maçã e a rosa; a pomba, o bode, a tartaruga, o pássaro e o delfim, entre os animais; além da concha, a de madrepérola que a transportou quando nasceu da espuma do mar, e as conchas de nácar, com as quais era feito o seu carro, puxado por pombas ou cisnes.
A deusa trazia em seu séquito a presença constante das Graças ou Carides; Eros, assimilado a Cupido, o deus do amor e do desejo; Peito, tida como filha da deusa, sendo com ela venerada em Atenas, era a deusa da persuasão; e Himeneu, divindade que conduzia o cortejo nupcial, sendo considerado filho de Apolo com uma Musa em algumas versões, e de Afrodite e Dioniso em outras. Himeneu era invocado nos casamentos, as lendas descrevem-no como um belo jovem, que fora amado por Apolo.
Nas artes, Afrodite, ou Vênus, inspirou vários artistas em diferentes épocas. Na escultura, chegou aos tempos atuais a famosa Vênus de Milo, descoberta na ilha de Melos, em 1820. Outras grandes estátuas foram perdidas no decorrer dos séculos. A deusa passou a ser o ideal grego de beleza feminina, levando a ser representada em corpos perfeitos, que com o tempo perdeu a característica divina, assumindo a beleza humana em seu esplendor. Na pintura, “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli (1444-1510), é a obra mais famosa do mito da deusa do amor. Também os seus amores com Ares e Adônis geraram belíssimas telas de grandes pintores como Ticiano (1490?-1576), Veronese (1528-1588), Rubens (1577-1640) e Botticelli.
Deusa do amor e da beleza, Afrodite é, ao lado de Apolo, o símbolo maior da eterna obsessão dos gregos de atingir a perfeição do belo. Representa a paixão e o desejo sexual, o ser humano em sua maior essência, responsável pela felicidade diante da fecundação e da perpetuação da vida.


ÉDIPO – O MAIS HUMANO E TRÁGICO DOS MITOS

outubro 30, 2009

A mitologia grega é constituída por uma vasta e rica galeria de personagens, dividida em deuses, semideuses e heróis. O mito de Édipo é o mais humano de todos, uma síntese da visão grega antiga diante da miséria e tragédia humana. Édipo nasce rei, portador de uma maldição que herdara do pai. Afastado da mãe, ele cresce criado por outra família de reis. Bonito, viril e inteligente, seu mito foge dos heróis tradicionais, como Aquiles, que têm a força guerreira como essência da virilidade e das aventuras épicas. Édipo tem a inteligência como aliada, que o faz justo, decifrador dos enigmas humanos e dos deuses, tornando-o, através da sabedoria, líder e vencedor do seu povo.
Mas justamente o maior enigma, o que rege a sua própria vida, será o ponto de busca de Édipo. Preso ao emaranhado das suas verdades, Édipo mata o próprio pai Laio, e casa-se com a mãe, a bela Jocasta. Torna-se um rei poderoso, reinando com justiça e sabedoria sobre Tebas. Mas Édipo, inocente nos atos que praticou, é culpado pelo assassínio do pai e pelo incesto com a mãe. O Destino decidira a sua tragédia, os deuses induziram-no aos crimes, para que se concretizasse a maldição que a ele estava legado.
Uma das características das religiões politeístas é de que o homem nasce e vive já com a determinação do Destino, entidade maior e soberana aos deuses. Os monoteístas afirmam que o homem é quem, através do livre arbítrio, determina o seu destino. O mito de Édipo alinhava as contradições, pois mesmo inocente, ele é culpado por herdar a maldição lançada sobre as gerações da sua família; assim como o Adão do cristianismo católico lança a maldição da morte sobre a sua geração humana.
Édipo é o mais humano e trágico dos mitos. A vitória sobre a esfinge, a vontade de triunfar sobre a maldição dos deuses, o assassínio do pai, o casamento com a própria mãe, e a necessidade inquietante de descobrir as verdades da alma humana, fazem de Édipo o mais vulnerável dos homens diante do espelho, assim como é a humanidade diante das suas próprias verdades. Édipo é a chave para o eterno amor involuntário entre mãe e filho, entre a verdade e a mentira. Ao descobrir quem é, não suporta a imagem do mundo e de si mesmo, furando os próprios olhos. Édipo, dentro da sua tragédia, é a mais perfeita concepção humana da criação mitológica, a visão que foge do herói e dos deuses, esboçando o retrato universal da psicologia da mente do homem e da sua eterna luta contra os deuses criados para justificar a solidão da alma.

Édipo, o Símbolo da Tragédia do Teatro Grego

Inicialmente, o mito de Édipo foi apenas mencionado nas obras “Odisséia” e “Ilíada”, de Homero (século IX a.C.). Aos poucos, sua saga mitológica foi desenvolvida, segundo alguns historiadores, num composto de poemas dos séculos VIII e VII a.C., que se intitulava “Edipodia”, e que ao longo do tempo, perder-se-ia definitivamente.
Foi o teatro grego que se apropriou do mito de Édipo, transformando o tema na sua maior tragédia. Foi através do teatro que a personagem atravessou os séculos, transformando-se no símbolo da tragédia humana, revelada em toda concepção, quer na sua psicologia, sexualidade, ambição e inteligência.
O perfil do mito de Édipo mais conhecido é o que Sófocles (496?-406? a.C.) descreveu nas suas tragédias “Édipo Rei”, “Édipo em Colona” e “Antígona”. “Édipo Rei” descreve-o como um jovem e impetuoso, que no auge da sua apoteose, vence a esfinge, mata o pai, casa-se com a mãe e torna-se o mais poderoso dos reis de Tebas. No auge do poder e da sua felicidade, Édipo é confrontado com as verdades dos seus atos. A peça de Sófocles traz um clímax de suspense, que se desenvolve como um teorema matemático rígido e preciso, onde fato a fato, desvenda-se a mais cruel das verdades. A peça culmina com a morte de Jocasta e a cegueira de Édipo. Na peça “Édipo em Colona”, o soberano aparece já velho e cego, exilado e conduzido pela filha Antígona. Finalmente, “Antígona”, última parte da Trilogia Tebana, mostra a tragédia na prole de Édipo, que atinge Antígona, Ismena, Etéocles e Polinice, filhos que teve com a própria mãe.
Ésquilo (525-456 a.C.) também dedicou parte da sua obra na criação de peças sobre o mito de Édipo, fazendo-as parte do ciclo tebano: “Laio”, “Édipo”, “Sete Contra Tebas” e “A Esfinge”, sendo a última um drama satírico. Finalmente, Eurípides (480?-406 a.C.), último dos três maiores tragediógrafos gregos, escreveu “As Fenícias”, onde mostra um Édipo já velho, vivendo em Tebas, enclausurado pelos próprios filhos.
Assim, Édipo é sinônimo da maior tragédia do teatro grego. Ponto fundamental da sua essência. É a maior personagem humana criada pela genialidade imaginativa da cultura da Grécia antiga.

As Raízes da Tragédia Sobre os Filhos de Lábdaco

A maldição que se abateu sobre Édipo teve início com Laio, filho de Lábdaco, sábio rei tebano. Quando o soberano morreu, Laio ainda era muito jovem para governar Tebas, o que levou Lico, fiel seguidor do rei, a assumir a regência do trono. Mas Lico teve o trono usurpado pelos sobrinhos Anfião e Zeto. Temendo ser morto, Laio fugiu para a Élida, sendo acolhido por Pélope, rei do lugar.
No reino de Pélope, Laio e Crisipo, filho mais jovem e preferido do rei, apaixonam-se violentamente. Escondidos, os jovens vivem aquele amor com a fúria dos amantes. Cego pelos sentimentos, Laio decide raptar o belo Crisipo. Na fuga, atrai para si a fúria de Pélope, que persegue implacável os amantes. Temendo os castigos do pai, Crisipo suicida-se. Tomado pela dor e pelo ódio, Pélope lança uma maldição que se irá abater sobre todas as gerações descendentes de Lábdaco, presentes, passadas e futuras. Ao ouvir a maldição de Pélope, os deuses olímpicos cuidam para que ela se cumpra, e o Destino assume a missão de concretizá-la por três gerações.
Após a morte de Crisipo, Laio retornou a Tebas, travou uma batalha árdua contra os usurpadores do trono, retomando-o definitivamente para si. Para reinar soberano e absoluto, o rei decidiu tomar como esposa à bela e sensível Jocasta. Tão logo a viu, tomou-se de paixão por ela, sendo perfeitamente correspondido pela mulher. Juntos, reinaram sobre Tebas, trazendo prosperidade para a cidade, e despertando o respeito do povo.
Feliz ao lado de Jocasta, Laio já não se lembrava da tragédia que se abateu sobre Crisipo. Reconstruíra a vida, fazendo-se justo e bondoso, amante e ardente. Para completar a felicidade, só lhes faltava um filho, que seria herdeiro de toda a opulência de um dos mais prósperos reinos da Grécia.

Édipo Nasce Sob os Presságios do Oráculo

Toda a Tebas regozijou-se quando a bela rainha Jocasta anunciou que esperava a vinda do herdeiro. Inicialmente feliz com a gravidez, Laio debruçou-se sobre o ventre crescido da mulher, sentindo repentinamente, uma forte dor. Involuntariamente, o rei deixava-se abater por uma tristeza desconhecida, por um estranho desespero quanto mais se aproximava a hora do parto.
Tomado pelo presságio, Laio decidiu seguir para Delfos, onde consultaria o templo de Apolo. No oráculo, perguntou sobre o herdeiro que nasceria do ventre de Jocasta. Implacavelmente, o oráculo revelou uma terrível profecia: “O filho que a rainha trazia no ventre mataria o próprio pai, e iria esposar a mãe, e, finalmente, levaria a ruína ao palácio de Tebas.”
Laio ficou transtornado diante de tão trágica revelação. Ao voltar para o palácio, ele revelou as palavras do oráculo a Jocasta. A rainha entristeceu, desolada, já não sentia alegria ao olhar para o ventre. Mesmo triste, não deixou de amar aquele que dela iria nascer, mesmo sabendo que trazia a maldição sobre todos.
Quando a criança nasceu, Jocasta uniu todas as forças do seu ser para entregá-lo ao marido. Com sofrimento, viu o filho ser-lhe arrancado dos braços pela força das profecias. Laio, em silêncio, tomou a criança para si e partiu. Jocasta deixou-se tombar sobre o leito, chorando todas as lágrimas de mãe, mas com a certeza que preservava a justiça de soberana.
Longe do palácio, Laio seguiu ao lado de um escravo, para o monte Citerão, com a determinação de eliminar o filho. No meio do bosque, ele olhou para o pequeno. Não teve coragem de matá-lo diretamente. Determinado, perfurou com violência os pés do recém-nascido, amarrando-os com uma correia, pendurando-o em uma árvore. Ali, deixou o pequeno para que morresse.
Mas o Destino já decidira que a criança não morreria, que cumpriria as palavras dos deuses, proferidas através do oráculo. Ao caminhar aos pés do monte Citerão, um pastor ouviu os choros do pequeno. Compadecido, tomou-o para si. Levou-o para Corinto, entregando-o ao rei Pólibo. O soberano limpou o sangue dos pezinhos da criança, lavando-os com água quente. Viu-o parar de chorar e sorrir na sua inocência infantil. Pólibo levou o pequeno à presença da mulher, Mérope. A rainha foi tomada de felicidade, pois o seu ventre jamais pôde conceber um filho. Juntos, os soberanos decidem adotar a criança. Deposita-o em um berço de seda branca. Chamam-no de Édipo, seria criado com todo o amor que lhe recusara os pais verdadeiros.

Pai e Filho em Um Embate Fatal

Édipo cresceu feliz em Corinto. Era admirado por todos. Crescera belo, trazendo um porte esguio que todos os rapazes imitavam. Nunca lhe fora revelada a verdadeira origem. Pólibo e Mérope criaram-no como filho e legítimo herdeiro do trono.
Mas já adulto, ele ouviu rumores de que era adotado. Apesar da negativa dos pais, tornou-se desconfiado, inseguro sobre quem era. Édipo jamais se fechava para as suas verdades, desde jovem que a perseguia, fosse ela terrível ou alegre. Assim, sob a desconfiança dos rumores que lhe chegavam, procurou o oráculo de Apolo, em Delfos, para que os deuses proferissem as suas verdades escondidas. Mais uma vez o oráculo foi cruel em suas palavras, dizendo ao jovem: “Hás de matar o teu pai e desposar a tua própria mãe.
Diante da cruel profecia, Édipo tentou anular as palavras dos deuses. Desesperado, abandonou Corinto, fugindo pelas estradas gregas. Decidira jamais retornar, para que não cumprisse a profecia de matar Pólibo e desposar Mérope. Seria eternamente errante, exilando-se de Corinto.
Mas os deuses já tinham decidido que se cumpriria a profecia. Errante pelas estradas, Édipo chegou à encruzilhada de Megas, onde os caminhos de Dáulis e Tebas convergiam. Pára indeciso. Onde caminhar? Para Tebas? Por que a sensação quase que vital de seguir o caminho daquela cidade? Na estrada, surge inesperado, o arrogante Polifontes, exigindo do forasteiro que se retire do caminho, para que o seu amo, Laio, possa passar. Diante das palavras rudes do servo, Édipo não se move, mantendo-se impassível. Irritado, Polifontes investe contra o jovem. Ao defender-se, Édipo desfere um golpe violento no agressor. Irado, Laio vinga o servo, atingindo com golpes o forasteiro. Édipo volta-se para Laio, fitando-o profundamente. Pai e filho, frente a frente, não se reconhecem. Atracam-se em uma violenta luta, batendo-se como ferozes inimigos. Laio tomba sob a espada de Édipo. Ao cair, banhado em sangue, olha para o agressor acometido de uma estranha ternura. A morte toma-o nos braços. Édipo continua a lutar com os arautos do rei, fazendo dois deles tombarem. Só um foge, escapando da fúria do forasteiro.
Apesar de ter cometido os crimes numa luta em defesa pessoal, Édipo sente-se estranho diante daqueles mortos. Prossegue o seu caminho errante, rumo a Tebas, onde os deuses reservavam para ele o total cumprimento da maldição. Na estrada, Laio jazia após o sangue derramado pela espada do filho.

Édipo Decifra a Esfinge e Desposa a Mãe

Após ainda errar pelas estradas, Édipo chega a Tebas. Encontra a cidade tomada pelo pânico. A Esfinge, um monstro metade mulher, metade leão, com cauda de dragão e asas de ave de rapina, lançava um terrível enigma a todos que passavam pela estrada: “Qual o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três no entardecer?
Ninguém sabia a resposta. Como punição, ela escolhia um cidadão tebano e devorava-o, fazendo a população refém do medo e do terror. Ao encontrar a Esfinge, Édipo aceitou-lhe o desafio. Ao ouvir o enigma, ele respondeu prontamente: “O homem. Na infância arrasta-se sobre os pés e as mãos; na idade adulta, mantém-se sobre os dois pés; e na velhice precisa usar um bastão para andar.
Diante da inteligência de Édipo, a Esfinge afligiu-se. Propôs lançar-lhe um novo enigma: “São duas irmãs. Uma gera a outra. E a segunda, por seu turno, é gerada pela primeira. Quem são elas?
Édipo respondeu sem hesitar: “A luz e a escuridão. A luz do dia clareia aberta no céu, gera a escuridão da noite, que, por sua vez, precede a luz do dia”.
O jovem respondera a todos os enigmas da Esfinge. Com sabedoria, desvenda-lhe as artimanhas e sortilégios. Envergonhada, ela subiu ao alto do rochedo, atirando-se sobre as pedras. O suicídio do monstro foi aplaudido pela população tebana. Édipo foi aclamado pelo povo como o seu rei, uma vez que o Laio estava morto e não deixara herdeiros.
Já rei, Édipo procurou conhecer a triste viúva de Laio. Triste, a bela Jocasta encontrava-se encerrada nos seus aposentos. Impetuoso, o novo rei invadiu-lhe a privacidade. Frente a frente, Édipo e Jocasta contemplam-se, movidos por uma estranha atração, um reconhecimento que urgia das entranhas. Sem que pudessem identificar quais eram aqueles sentimentos confusos, julgaram-nos frutos da paixão. Magneticamente atraídos um para o outro, entregaram-se numa dança de abraços e beijos ardentes. Extasiados, uniram os corpos nus em uma só alma. Mãe e filho amaram-se a exaustão dos sentidos. Na mente de Édipo estava decidido, a viúva de Laio seria a sua mulher e rainha.

Na Verdade a Cegueira

Por muitos anos, Édipo viveu feliz ao lado de Jocasta. Com ela gerou quatro filhos, duas mulheres, Ismena e Antígona, e dois homens, Etéocles e Polinice. Tornou-se um soberano sábio e amado pela população tebana. Mas um dia, Tebas foi assolada por uma terrível pestilência. Nos campos, as plantas secavam, os vegetais morriam, levando à fome a todos.
Preocupado com a tragédia que se abatera sobre o seu reino, Édipo decidiu consultar o oráculo. Enviou Creonte, irmão de Jocasta, para Delfos. Mais uma vez, os deuses foram implacáveis: “A peste só findará quando o assassínio de Laio for vingado”.
Ao saber da determinação do oráculo de Apolo, Édipo inicia uma contundente investigação para descobrir o assassino de Laio. Implacável na busca da verdade e da justiça, Édipo consultou Tirésias, um velho adivinho cego, capaz de na escuridão dos seus olhos, ver o futuro e o passado. Pressionado por Édipo, não resta ao adivinho senão revelar a pungente verdade, o rei de Tebas era o assassino de Laio.
Pensando ser vítima de uma conspiração para tirá-lo do poder, Édipo expulsa Tirésias do seu reino. Mas não desiste de buscar a verdade. Ao ver a aflição do marido, Jocasta tenta tranqüilizá-lo, pois não poderia ele ter morto Laio. Conta-lhe que uma profecia dissera que o marido seria morto pelo próprio filho, mas que anularam a profecia ao abandonar a criança à morte, no monte Citerão. Laio, afirmava Jocasta, morrera em combate em uma encruzilhada, por um estranho.
Quanto mais ouvia Jocasta, mais Édipo perdia-se nas verdades que se lhe empestava o ar. Inquieto, angustiado, Édipo começa a questionar os detalhes da morte de Laio. Sabe que houve um sobrevivente. Pede para que ele seja encontrado e venha à sua presença.
Simultaneamente, um mensageiro chega de Corinto, anunciando a morte de Pólibo. Mesmo diante da tristeza pela notícia, Édipo respira aliviado, a profecia dos deuses falhara, o pai não morrera pelas suas mãos. Mas o alívio dura pouco, o mensageiro revela-lhe que ele não era filho de Pólibo, que havia sido recolhido por um pastor, que vira Laio abandoná-lo no monte Citerão. Ainda um recém-nascido, foi levado para Corinto e criado pelos soberanos da cidade.
Ao ouvir aquela revelação do mensageiro de Corinto, Jocasta entende a verdade. O homem a quem amara e com quem concebera quatro filhos, era o herdeiro maldito gerado por seu ventre. Desesperada, a rainha fugiu para os seus aposentos. A dor da revelação queimava-lhe o peito. Por toda a vida, sonhara em ter o filho nos braços, tivera-o de forma indigna, como marido e amante. Édipo era o seu filho. Perdida no desespero da revelação, a bela Jocasta enforca-se. Morre sem soltar um único gemido. No rosto pálido pela chegada da morte, duas últimas lágrimas percorrem a sua extensão.
No imenso salão do palácio, Édipo, ao chegar o servo de Laio, ouve dele a última revelação, o homem reconhecia no rei o mesmo forasteiro que matara o amo na encruzilhada de Megas. Édipo finalmente, decifra o seu próprio enigma, era filho de Laio, a quem matara; e de Jocasta, a quem desposara. Desesperado diante da revelação, Édipo corre para os aposentos da rainha, na esperança de abraçá-la como mãe e pedir perdão pelo seu erro ignóbil. Quando chega ao quarto, encontra a bela rainha sem vida, morta pelas próprias mãos e pela culpa. Diante do espelho das suas verdades, Édipo decide não mais ver o mundo. A imagem da mãe e esposa morta seria a última que iria enxergar. Em um ato de desespero, justiça e de punição, ele arrancou os broches que enfeitavam o vestido de Jocasta. Com eles perfurou os próprios olhos, mergulhando para sempre no mundo da cegueira.

Uma Fenda Traga o Corpo de Édipo

Para livrar Tebas da peste, Édipo prometera banir o assassino de Laio do meio da sua população. Ao se lhe revelar a verdade, o infeliz soberano, viu-se vítima do próprio decreto. Banido, cego, mendigo e esquálido, Édipo partiu pelas estradas da Grécia, a expiar a sua culpa e maldição. Na sua caminhada, foi sempre conduzido pela filha Antígona, que jamais abandonaria o pai.
Depois de permanecer andarilho por várias terras, Édipo chegou a Colona, na Ática. Ali, refugiou-se no templo das Eumênides, onde finalmente sentiu um alívio para a sua culpa, descansando na felicidade dos justos. Velho e mendigo, Édipo perdera tudo que pode perder um homem, a juventude, a mãe e esposa, o trono, a riqueza, a visão. Restara-lhe o amor incondicional de Antígona.
Após ver Édipo errar e a viver o castigo que impusera para si mesmo, Apolo, o deus que sempre profetizara a sua miséria, e através das armadilhas do Destino, cobrara-lhe o cumprimento dela, finalmente compadecera-se do seu sofrimento. O deus da luz confortou-o nos últimos anos de vida, atraindo a benção do Olimpo para o lugar que lhe serviria de sepultara.
Já velho e cansado, Édipo caminhou até a beira de um precipício, ali se sentou em uma pedra, vestindo-se com uma mortalha. Ouviu-se um grande estrondo no céu. A terra abriu-se suavemente, recebendo o corpo sofrido e expurgado de Édipo. O local da tumba do mais famoso rei de Tebas jamais foi revelado. Sabe-se apenas que está na Ática, e por isto, aquele solo é abençoado pelos deuses do Olimpo.

A Concretização da Maldição

Mas a maldição sobre a descendência de Lábdaco não se encerrou na tragédia de Édipo. Após a morte do pai, Antígona retornou a Tebas, para juntar-se aos irmãos, Ismena, Etéocles e Polinice, únicos parentes que lhe restaram no mundo.
Ao retornar a Tebas, Antígona encontrara os irmãos, Etéocles e Polinice em uma acirrada disputa pelo trono. Num confronto final, os dois irmãos envolveram-se em uma luta sangrenta e fatal. O resultado foi a morte de ambos.
Creonte, tio dos irmãos fratricidas, irmão de Jocasta, herdou o trono de Tebas. Etéocles era o sobrinho preferido de Creonte, por isto ele o enterrou com todas as honras, deixando o corpo de Polinice abandonado onde tombara morto, proibindo sob pena de morte, qualquer pessoa de enterrá-lo.
Antígona não se conformou com a sorte de Polinice, tentou sob todos os argumentos, convencer o tio a deixar que o irmão fosse sepultado, pois sabia que sem os rituais fúnebres, o malogrado príncipe seria condenado a vagar por cem anos pelas margens do rio dos mortos. Diante da indiferença de Creonte, Antígona desobedeceu às suas ordens, e enterrou Polinice com as próprias mãos. Como castigo, o soberano condenou-a a ser enterrada viva. Mesmo diante das súplicas de Ismena, a mais bondosa filha de Édipo foi cruelmente enterrada viva pelos arautos de Creonte.
Ismena, a última sobrevivente dos filhos de Édipo e Jocasta, seria morta mais tarde pelo guerreiro Tideu. Ao atingir a terceira geração, estava concretizada a maldição lançada por Pélope sobre os Labdácidas.


MUSAS E GRAÇAS – BELEZA E HARMONIA DA ARTE

setembro 25, 2009

A civilização grega evoluiu no domínio da filosofia, da arte e na percepção de encontrar a personificação da beleza suprema e da harmonia. No contexto da inspiração humana, os gregos consideravam a arte e a beleza dons divinos, provenientes dos deuses, que em determinado momento de generosidade transmitia-os aos mortais, através de entidades específicas.
A inspiração criativa dos humanos era dada através das Musas e das Graças, seres mitológicos que constituem uma das mais esplendorosas concepções que a cultura helênica inventou para simbolizar o poder de criação da mente. Musas e Graças extraiam do homem o que de mais belo havia em seu coração, fazendo dos pastores poetas, dos brutais guerreiros suaves cantores, dos navegantes escultores de uma obra quase perfeita.
Na acepção mais antiga das lendas, as Musas eram Ninfas habitantes dos bosques e das montanhas, vivendo próximas dos rios e das fontes. Belas e harmoniosas, caminhavam por vales bucólicos, de beleza poética e inspiradora, sendo, em determinado momento da cultura grega, elevadas à categoria de divindades inspiradoras da poesia e do canto.
O poeta grego expressava a sua poesia através do canto e da música, o que tornava as Musas também cantoras e músicas, e exímias criadoras das danças. Na versão mais completa do mito das Musas, eram nove divindades, filhas de Zeus (Júpiter) e Mnemósine (a Memória). Foram geradas pelo senhor do Olimpo para que através da memória universal herdada da mãe, perpetuassem a façanha dos deuses através do tempo, através de todos os cantos do mundo. Numa das versões do mito, habitavam o monte Helicão, na Beócia, um local repleto de bosques e fontes. Nas versões mais poéticas, eram habitantes do monte Parnaso, em Delfos, ao lado do deus da luz, Apolo, a quem cortejavam e ajudavam na inspiração criativa dos mortais.
As três Graças são as entidades mitológicas que alegram a natureza e o coração dos homens, fazendo com que aflorem a sensibilidade do poeta e do cantar. Representam tudo que é doce, como a flor desabrochada, as ramagens renascidas e verdes, o encanto, a doçura humana, fazendo com que a vida seja menos triste.
Musas e Graças representam na mitologia grega a inspiração que significa a própria essência da arte, a personificação da beleza suprema harmonizando o homem com a natureza, o corpo com a perfeição dos músculos e dos traços, a estética com a palavra, o canto com a poesia.

Origem e Habitação das Musas

O mito das Musas suscita várias versões relativas às origens. Mimnermo, poeta do século VII a.C., atribui-lhes a paternidade a Urano (Céu), fruto do seu amor procriador com Gaia (Terra). Outras versões consideram-nas filhas de Píero, sem indicar, ao certo, a mãe, que seria Antíopa, ou Pimpléia. Há os autores que atribuem a maternidade a Pimpléia, mas não com Píero, e sim com Zeus. A versão mais comum é a de que seriam filhas de Zeus com a titânia Mnemósine,a Memória.
Reza a lenda que quando Zeus venceu Cronos (Saturno) e os Titãs na guerra pelo poder dos deuses, sentiu a necessidade de registrar a vitória através dos cânticos do mundo. Para perpetuar o esplendor da nova era que originou o governo dos deuses do Olimpo sobre os mortais, era preciso que seres especiais e dotados de memória o fizessem através dos tempos. Zeus escolheu a titânia Mnemósine, a deusa da memória, para com ela engendrar o filho que iria perpetuar o canto da vitória dos deuses. Durante nove noites, o senhor do Olimpo amou Mnemósine. Desse amor feito em forma de um poema de horas, nasceu não um filho, mas nove filhas. Nove irmãs que traziam entre si a beleza e a harmonia, mescladas ao dom da inspiração. Eram as nove Musas.
A lenda que atribui Mnemósine como a mãe das Musas, diz que elas nasceram em Piéria, leste do Olimpo, lugar onde morava a deusa. Por isto eram chamadas de Musas Pierias. Vertentes da lenda atribuem o local como o da habitação das divindades. Muitos apontam o monte Helicão, na Beócia, como a verdadeira moradia, sendo as entidades denominadas de Musas Beocias. A versão mais propagada pelos poetas através dos tempos é de que habitavam o mítico monte Parnaso, em Delfos, no centro da Grécia, sendo conhecidas como Musas Délficas. Seja qual for a versão da moradia das Musas, era sempre um local repleto de fontes e bosques, onde as águas (em especial as do monte Helicão) tinham propriedades de conceber o dom profético e inspirar os poetas.

O Culto às Divindades Inspiradoras da Arte

Os gregos antigos consideravam as Musas não como um sinônimo da arte, mas como a própria arte. Eram cultuadas como divindades inspiradoras da verdade, pois os poetas recorriam às palavras como fonte segura de não se contar mentiras e falsidades aos homens, a palavra, soprada aos ouvidos, ao ser escrita, virava um registro, que mesmo envolvido pela fantasia da liberdade criativa, tornava-se um relato fincado na verdade. Também as profecias eram vociferadas em forma de poesia.
O templo mais antigo erigido às Musas estava na Trácia, onde se originou o culto a elas. Mais tarde, propagou-se esse culto para a Beócia, tendo grande importância ao pé do monte Helicão, considerado o local mágico onde habitavam. Inspiradoras da arte, em especial da poesia e da música, elas faziam parte do séquito do deus Apolo, sendo por isto, veneradas juntamente com o deus em Delfos, um dos maiores santuários da Grécia antiga, erigido em honra do deus da luz.
Em tempos mais remotos, as Musas eram veneradas como deusas virgens, que puniam gravemente àqueles que tentassem tocá-las e possuí-las. Com a evolução da cultura grega e das suas cidades estados, o mito das Musas também evoluiu e deixaram de ser vistas como eternas virgens, surgindo lendas de uniões amorosas por elas vividas e de filhos. Calíope ou Clio, duas das Musas, seriam mãe de Orfeu, conforme a versão da lenda.
Seguindo à evolução cultural grega, passaram a ser vistas como inspiradoras dos grandes reis, tornando-os mais sensíveis à arte e mais justos. Mais tarde, além dos poetas, foram conclamadas inspiradoras dos médicos, cientistas, legisladores e navegantes. A inspiração era vista pelos gregos como sagrada, fazendo dos poetas homens próximos da imortalidade dos deuses, a origem divina da energia interior do artista era apenas uma, a Musa.

Os Artistas e as Musas

Habitantes dos montes, quer o Helicão ou o Parnaso, dos bosques e das fontes, as Musas também passavam grande parte do tempo no monte Olimpo, a morada oficial dos deuses. Tinham como função alegrar o banquete dos imortais, entretendo-os com seus cantos melódicos e danças suaves.
Mas não eram apenas os deuses olímpicos que eram contemplados com o encanto e beleza das Musas, também os mortais usufruíam pessoalmente da arte das deusas. Conta a lenda que, à noite, as nove deusas envoltas em suaves nuvens, desciam às casas dos mortais, participando das suas festas e celebrações. Discretamente, juntavam-se ao coro de vozes humanas, tornando-os melodiosos e de uma suavidade divina. Quando um coro alcançava o ápice da beleza, dizia-se que eram as Musas que o regiam naquele instante fecundo.
Grandes poetas atribuíam às Musas a sua inspiração. Homero (século IX a.C.), invocou-as para auxiliá-lo na concepção e elaboração dos seus poemas épicos, “A Odisséia” e “A Ilíada”. Safo (século VI a.C.), escritora da ilha de Lesbos, aclama uma musa como fonte de inspiração da sua escrita e de todos os poetas. Píndaro (518-446 a.C.), evoca-as em suas famosas “Odes”. Hesíodo (século VIII a.C.), afirmava que fora as Musas quem lhe despertara o dom da poesia, quando ele era ainda um pastor, sendo as responsáveis pela criação da sua obra-prima, “Teogonia”. Em toda a Grécia antiga, os poetas épicos e líricos, invocavam as Musas, chamando os seus nomes em público. Ocuparam um lugar importante na comédia do teatro grego, não acontecendo o mesmo no drama trágico. Também os escultores buscavam a inspiração da beleza de suas estátuas não só em Apolo, como naquelas que faziam parte do seu séquito.

Nomes e Funções das Nove Musas

As características lendárias mais freqüentes no mito das Musas foram atribuídas por Hesíodo, desde a concepção que confere Zeus e Mnemósine como os pais das deusas, à fixação do seu número em nove. Se Homero não especificou nomes e o número, referindo-as como um todo, Hesíodo nomeou cada uma delas: Clio, Euterpe, Talia, Melpômene, Urânia, Calíope, Terpsícore, Érato e Polímnia.
Se Hesíodo e outros poetas antigos deram nomes às nove Musas, a função de cada uma delas foi atribuída em época mais recente. Assim, cada Musa é responsável por uma parte da arte e da ciência:
Clio – Seu nome significa “glória e reputação”, a ciência que representa é a História, tendo como função relatar o feito de todos os heróis gregos e universais. Tem como símbolos a clepsidra e o clarim. Nas artes, é representada como uma jovem coroada de louros, trazendo na mão direita uma trombeta e na esquerda um pergaminho entreaberto.
Euterpe – Seu nome significa “deleite”. Preside à música, representada pela poesia lírica cantada pelos poetas antigos. Tinha como símbolo a flauta. Nas artes é representada como uma jovem coroada por flores, trazendo a flauta, tendo ao lado papéis de músicas e instrumentos musicais.
Talia – Seu nome significa “a que sempre floresce”. Personifica a comédia do teatro grego, é representada como uma jovem vestindo uma máscara cômica, coroada por ramos de hera e calçando borzeguins.
Melpômene – Seu nome significa “a que diz e canta”. Representa a tragédia no teatro grego, o drama, apesar de não se fazer alusões às Musas nas grandes tragédias clássicas, Melpômene era a Musa protetora do gênero. Na arte é representada com uma máscara trágica, coroada por folhas de videira. Traz um semblante sério, portando ricos vestidos, calçando coturnos.
Terpsícore – Seu nome significa “prazer”. Simboliza a dança. É representada coroada por grinaldas, tocando uma lira ou a cítara, instrumento também tocado por Apolo e considerado de som perfeito pelos gregos antigos.
Érato – Seu nome significa “a amável”, a que desperta desejo. Personifica a poesia lírica e erótica. Na arte é representada como uma jovem coroada de mirto e rosas, segurando na mão direita uma lira, na esquerda um arco.
Polímnia – Seu nome significa “muitos hinos”, ou segundo algumas versões, “muita memória”. É a Musa protetora da oratória e do ditirambo, composição lírica que, por exprimir uma forte pulsação de entusiasmo, foi utilizada como hino em honra a Dioniso (Baco). Na arte é representada com semblante pensativo, vestindo roupa branco e a portar um véu.
Urânia – Seu nome significa “a celeste”, representa a Astronomia e as Ciências Exatas em geral. Tem como símbolos um globo celeste e um compasso. Na arte, é representada trajando um vestido azul, coroada de estrelas, trazendo um globo na mão.
Calíope – Seu nome significa “a voz bela”, sendo apontada como a mais sábia das nove Musas. Suas atribuições sofrem divergências dos autores, sendo vista por alguns como a Musa da eloqüência, da retórica e da poesia heróica, e, por outros, como representante da poesia épica. Na arte, Calíope é representada com um diadema de ouro que a distingue de suas irmãs, sendo apontada e identificada como a rainha das Musas. Segundo algumas versões, o amor entre Calíope e Éagro, rei da Trácia, frutificou no nascimento de Orfeu, o maior cantor de toda a mitologia grega. Outras vertentes da lenda apontam Orfeu como filho de Clio e do deus Apolo.

As Três Graças

Entidades que personificam a alegria e beleza extraída do coração dos homens, as Graças, também chamadas de Cárites, têm várias vertentes quanto à origem, sendo apontadas por alguns autores como filhas de Hélios (Sol) e Egle. Outros referem-nas como filhas de Zeus com a oceânida Eurínome.
Assim como as Musas, as Graças são inspiradoras do bom e do belo. O culto às três divindades era geralmente realizado na Grécia juntamente com o das Musas. A poetisa Safo criou em Lesbos uma confraria consagrada à Afrodite (Vênus), às Musas e às Graças. A confraria era chamada popularmente como a morada das servas das Musas, designada por “museu”, que originou a palavra usada nos dias atuais onde são guardadas obras de arte. O principal centro do culto às Graças situava-se em Orcômeno, na Beócia, ali eram veneradas juntamente com Afrodite.
As Graças eram vistas pelos poetas como entidades que refletiam a doçura da natureza, da terra e dos frutos, refletidas na beleza das flores, das ramagens das árvores. As mulheres gregas cultuavam as deusas, com quem aprendiam a arte e a educação que lhes dava boas maneiras. No culto às Graças, elas cultivavam o ideal da beleza feminina, a graciosidade e a delicadeza. A mulher grega deveria saber dançar e saber tocar algum instrumento, para acompanhar a sua voz, que deveria ser suave e harmoniosa. Para este fim, deveriam pedir inspiração às Musas e às Graças, para que pudessem ser belas e saudáveis, sendo assim, aptas a dar prazer ao homem.
Divergências sobre o número e os nomes das Graças são encontradas ao longo dos séculos e dos autores. Em épocas mais remotas, apenas duas Graças eram mencionadas. Seus nomes mudavam conforme a região. Em Atenas eram chamadas de Hegemone e Auxo; em Esparta eram denominadas Cléia e Faena. Também Homero, o maior poeta da Grécia antiga, considerava que havia apenas duas Graças, chamando-as de Cáris e Pasitéia. Crisipo (281-208 a.C.), apontava duas Graças, Caris e Cárite, cujos nomes significam “graça” e “beleza” respectivamente; o filósofo grego sugeria aos mortais que se inspirassem nos dois nomes, pois assim o eram para que fizessem belas ações e fossem gratos aos que a praticavam.
As lendas mais comuns referentes às Graças, denominam que são três: Eufrosina, Aglaia e Talia. Nas artes são sempre representadas como três jovens, em círculo, de mãos dadas, com duas irmãs nas extremidades viradas para frente, enquanto que a do meio está de costas. Muitas vezes são representadas como fazendo parte do séquito da deusa da beleza e do amor, Afrodite.
Aglaia – Seu nome significa “a brilhante”, que resplandece. Era considerada a mais bela das irmãs, simbolizando a inteligência e a criatividade intuitiva.
Eufrosina – Seu nome significa “aquela que alegra o coração”. Personifica a alegria e graciosidade, sintetizando os benefícios do Sol.
Talia – Nome também dado a uma das nove Musas, cujo significado é “a que sempre floresce” ou “a que faz florescer”, trazendo o calor solar que fazia a primavera brotar.