GLÓRIA PEREZ – ENTRE O DRAMALHÃO E A DENÚNCIA

agosto 30, 2010

  Autora de grandes sucessos dentro da teledramaturgia brasileira, Glória Perez nem sempre consegue unanimidade diante da sua obra. Misto de Glória Magadan moderna com a essência de Janete Clair, a teledramaturga apresenta tramas que oscilam entre a denúncia social, o dramalhão rocambolesco, a investigação algumas vezes científica e o humor folhetinesco.
Uma das características da atmosfera das novelas de Glória Perez é o subúrbio carioca. Se Manoel Carlos representa a zona sul aburguesada do Rio de Janeiro, a Bossa Nova soprada como brisa musical, Glória Perez é a visão suburbana da zona norte carioca, a ascensão emergente, sem perder jamais a raiz de uma sociedade socialmente dividida, é o pagode como trilha sonora, sem jamais atingir o samba vindo do romantismo secular das misérias dos morros.
Folhetim na sua mais pura essência, as mulheres do universo de Glória Perez são sempre vítimas do amor e da sua condição na sociedade que contestam. Por três vezes suas protagonistas entregam-se ao amor proibido que renega as tradições, e conseguem maridos apaixonados que lhe escondem o ultraje, forjando o defloramento da amada diante da família conservadora, sendo o tema motriz de “Explode Coração”, “O Clone” e “Caminho das Índias”.
Um filão bastante explorado pela autora é o exotismo de diversas culturas, como a árabe, a cigana ou a indiana hindu. Cada cultura explorada é veementemente contestada por Glória Perez, muitas vezes de forma inconsciente. Todas as heroínas que retratam as suas culturas, rejeitam-nas, tornando-se vítimas delas, numa visão parcialmente de caráter cristão e ocidental.
Textos incoerentes contrastam com a preocupação da autora em trazer à tona assuntos polêmicos, como homossexualismo, alcoolismo, esquizofrenia e dependência química, muitas vezes abordados com profunda delicadeza, de uma forma contundente, redimindo a obra da autora das suas fantasias mirabolantes.
Glória Perez é uma autora controversa nos temas que escolhe para escrever, que mesmo quando não trazem textos brilhantes, não negam a sinceridade da sua alma, marcada por dores e tragédias profundas. Quando escreve, entrega-se ao trabalho quase como forma de respirar e exorcizar os males da sua existência. Suas novelas não são uma obra-prima da teledramaturgia brasileira, mas são as mais sinceras dentro do gênero, superando a razão incoerente da pressão das emissoras pela audiência. Só o tempo poderá dizer se a autora nos legou uma obra perene como fez Ivani Ribeiro e Janete Clair, ou também como elas, apenas entreteve o público da época em que escreveu e levou ao ar as suas fantasias.

Início Sob a Tutela de Janete Clair

Nascida no último território a ser incorporado ao Brasil, o Acre, Glória Maria Ferrante Perez, é oriunda da cidade de Rio Branco, vinda ao mundo em 25 de setembro de 1948. Da sua terra natal levaria o carinho que a iria homenagear quase seis décadas depois do seu nascimento, na minissérie “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, posta no ar em 2007.
Foi na TV Globo que se iniciou como roteirista e autora de telenovelas. Em 1979 escreveu um episódio do seriado “Malu Mulher”, protagonizado por Regina Duarte. O roteiro nunca foi gravado, ficando arquivado nas gavetas da TV Globo até que chegou às mãos da poderosa e genial telenovelista Janete Clair, em 1983. Entusiasmada com o texto da jovem autora, Janete Clair convidou-a para que a ajudasse a escrever aquela que seria a sua última novela, “Eu Prometo”, levada ao ar no segundo semestre de 1983.
Janete Clair pertencia a uma época em que a telenovela era escrita unicamente por seu autor, sem qualquer ajuda ou parceria. Ela manteve-se sem interrupção por dez anos, escrevendo sozinha, sucessivas histórias de grande audiência. No início dos anos oitenta, os autores começaram a reclamar da dificuldade em conduzir uma trama por mais de duzentos capítulos. A TV Globo passou a fornecer roteiristas colaboradores para os seus autores. Janete Clair resistiu à idéia, mas a sua debilitação física, causada pela árdua luta que travava contra um câncer, fez com que aceitasse um colaborador. A escolha recaiu sobre Glória Perez.
Eu Prometo” foi ao ar de 19 de setembro de 1983 a 17 de fevereiro de 1984. Teve como função resgatar o antigo horário das 22h00 para exibição de telenovelas, extinto em 1979, quando foi substituído por seriados e minisséries nacionais. Nos bastidores, circulava comentários que a TV Globo ressuscitara o horário para que Janete Clair pudesse escrever a sua última novela. A autora, apesar de bastante debilitada pelas cirurgias que se submetera na luta contra o câncer, insistia com a emissora para escrever a novela substituta de “Louco Amor”, de Gilberto Braga, levada ao ar em horário nobre. A direção da TV Globo achava o projeto arriscado, temia investir em uma produção no horário nobre e ter que substituir a autora na metade da trama. Instigada pela emissora, que apostava no ressurgimento das novelas daquele horário, Janete Clair aceitou o desafio. Teve à disposição um elenco de luxo, escalando os seus atores preferidos para protagonistas, Francisco Cuoco e Dina Sfat, apostando na bela Renée de Vielmond como a heroína da história.
O horário, por ser mais tarde, permitia maiores ousadias do que os outros, gerando uma grande expectativa no público, que esperava mais uma trama eletrizante da rainha das telenovelas, diante de um tema que não se havia explorado por causa da censura da ditadura militar, a política. Sobre Glória Perez pairava uma grande curiosidade, todos queriam saber quem era aquela que Janete Clair aceitara dividir a sua prestigiada escrita. Mas a novela foi uma decepção. A política foi retratada de forma superficial e caricata na figura de Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), deputado de poucos escrúpulos, que ambicionava chegar ao senado. Casado com Darlene (Dina Sfat), mantém a relação apenas como fachada, pois não ama a mulher, mas a considera imprescindível para a construção da imagem de pai e marido exemplar. Seu moralismo dilui quando conhece a jovem fotógrafa Kelly Romani (Renée de Vielmond), com quem viverá uma grande história de amor. As filhas de Lucas e Darlene eram interpretadas por três jovens e promissoras atrizes: Fernanda Torres, Júlia Lemmertz e a estreante Malu Mader. Trazia ainda no elenco Joana Fomm, Walmor Chagas, Marcos Paulo, Ney Latorraca, Fúlvio Stefanini, Kadu Moliterno, Rosamaria Murtinho, Lúcia Alves, Cláudio Corrêa e Castro, Ewerton de Castro, Maria Padilha, Rogério Fróes, Inês Galvão, Heloísa Helena, Leonor Lambertini, Fernando Eiras e Ricardo Petráglia.
Janete Clair não chegaria ao final da novela, morrendo no dia 16 de novembro de 1983, deixando 60 capítulos escritos. Glória Perez assumiu a trama, sob a supervisão de Dias Gomes, na época marido da autora morta. Iniciava definitivamente a sua carreira de novelista, tendo como madrinha a maior de todas as novelistas. Um início naturalmente privilegiado. Glória Perez levaria a influência do universo de sonhos janeteclariano, mesclado com drama, humor, fantasia, tendo a denúncia social como um ínfimo pano de fundo.

A Decepção da Primeira Novela

Com o falecimento de Janete Clair e o afastamento de Manoel Carlos após deixar sem conclusão a novela “Sol de Verão”, devido à morte do protagonista Jardel Filho, no início de 1983, a TV Globo ficou desfalcada de autores no horário nobre. Optaram por investir em dois novos talentos, Glória Perez e Aguinaldo Silva, dando a eles a oportunidade de juntos, desenvolverem uma trama no horário nobre. O resultado foi a mal-sucedida “Partido Alto”.
Inicialmente chamada de “Quando as Mulheres Amam”, estreou em maio de 1984 com o título de “Partido Alto”. Cláudio Marzo, que desde “Véu de Noiva” (1969/1970), não protagonizava uma novela no horário nobre, foi a aposta da emissora. Também Elizabeth Savalla retornava ao horário nobre como protagonista. Outra aposta foi Betty Faria, que já estava escalada para a novela das 19h00 “Transas e Caretas”, de Lauro César Muniz, com o nome a aparecer inclusive nas chamadas, a atriz abandonou o projeto. Vindos do cinema, estavam Norma Benguell e Paulo César Pereio. Do teatro traziam Rubens Corrêa. Elenco de luxo, contando com Raul Cortez, Lílian Lemmertz, Débora Duarte, Suzana Vieira, Glória Pires, Eva Todor, Célia Helena, Herson Capri, Christiane Torloni e Jonas Mello.
Mesmo com um elenco constituído de grandes nomes, a história mostrou-se um fracasso, em um notável desequilíbrio de idéias dos autores, apesar de convergirem em muitos aspectos, principalmente na visão dos subúrbios cariocas comuns à obra dos dois. Aguinaldo Silva, jornalista de colunas policiais, tinha o estigma de autor de folhetins de inspiração policial. Era um dos roteiristas da série “Plantão de Polícia”, o que lhe impregnou ainda mais o estigma. O autor tenta mantê-lo na sua primeira novela, mas nenhum mistério resiste a mais de cinqüenta capítulos sem que se torne monótono. Glória Perez era cobrada como a sucessora de Janete Clair, o que a fez tentar assumir o universo da mestra, sem procurar desde o início uma identidade própria.
Partido Alto” trazia de volta o mundo da jogatina, da contravenção do jogo de bicho dos subúrbios cariocas, tema tão bem desenvolvido por Dias Gomes em “Bandeira Dois”, em 1971. O mundo obscuro de Célio Cruz (Raul Cortez), e das suas duas mulheres, Jussara (Betty Faria) e Isildinha (Célia Helena), não entusiasmou. Tão pouco o triângulo amoroso do correto professor Maurício (Cláudio Marzo), a rica Isadora (Elizabeth Savalla) e a sua aluna Celina (Glória Pires). Os melhores momentos da novela ficaram com as cenas de humor da fútil Gilda (Suzana Vieira) e do seu falso guru Políbio, vivido por um caricato Guilherme Karan. O ator iniciava uma amizade com autora, sendo futuramente, escalado em quase todas as suas novelas. Débora Duarte deixou a novela ainda no meio, quando foi escalada para protagonizar a sucessora de “Partido Alto”, “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga. José Mayer fazia a sua estréia em horário nobre, num papel que adquiriu um certo destaque durante a trama, dando visibilidade ao ator, até então um mero coadjuvante nas novelas globais.
A falta de equilíbrio entre os autores culminou com uma inevitável ruptura. Aguinaldo Silva abandonou a trama, sendo ela concluída por Glória Perez. A trama morna e mal alinhavada não agradou. O fracasso resultou no afastamento da autora da TV Globo. A emissora só voltaria a investir em uma história de Glória Perez seis anos depois.

Primeira Trama Genuinamente da Autora

Em 1987, a extinta TV Manchete apostou em uma grande produção, investindo em um texto de Glória Perez. Inspirada na novela de Prosper Mérimée e na ópera de Georges Bizet, as homônimas ”Carmen”, a autora decidiu adaptar para o contesto brasileiro a vida agitada da cigana espanhola que enfeitiçava e seduzia todos os homens à sua volta, levando-os à loucura.
Definido o tema, a novela “Carmem” surgia como o maior investimento da televisão brasileira naquele ano. Era preciso uma atriz de peso para viver a protagonista. Lucélia Santos, então contratada exclusiva da TV Globo, foi a escolhida. A atriz aceitou o desafio, rescindindo um contrato com a emissora carioca, onde usufruía uma confortável posição. A ousadia valeu um ostracismo, que lhe afastaria de vez do elenco estelar da TV Globo. Lucélia Santos quis romper de uma vez por todas com a imagem da sofrida escrava branca que a imortalizou pelo mundo na novela “Escrava Isaura”.
Na versão brasileira, Carmem, jovem ambiciosa, vinda dos subúrbios cariocas, fazia um pacto com a entidade Pomba-gira, prometendo servir-lhe para sempre, em troca teria o poder de sedução sobre todos os homens. Os preconceitos seculares e moralistas da sociedade de então, rejeitaram a personagem, que teve que sofrer algumas alterações em seu caráter, resultando na tradicional punição moral no fim da trama.
Além da ambição de Carmem e dos seus amores tempestuosos, a novela ousava tocar em um tema tabu na época, a Aids, ainda uma doença obscura sem qualquer tratamento médico. Numa época em que a infecção era um atestado de morte, havia uma grande rejeição e medo de se falar em Aids. Glória Perez o fez com maestria, uma característica que se tornaria peculiar na sua obra, falar sobre doenças físicas ou mentais. Apesar do grande investimento da TV Manchete na divulgação e produção, nos bons índices de audiência alcançados, a novela não se tornou um grande marco da televisão brasileira. “Carmem” foi a primeira obra genuinamente de Glória Perez, definindo-lhe o estilo e provando que era uma autora de fôlego dentro do folhetim televisivo. O elenco trazia astros e estrelas da TV Globo, como José Wilker, vindo direto do sucesso de “Roque Santeiro”. Trazia de volta a atriz Darlene Glória, afastada dos bastidores depois que se convertera a uma religião evangélica. Apostava no talento de jovens atores, como Paulo Betti e Paulo Gorgulho, e assegurava-se com a experiência de Theresa Amayo, Beatriz Segall, Selma Egrei, Luís de Lima, Luiz Carlos Arutin, Rosita Thomaz Lopez, Roberto Bonfim, Miriam Pires, Vanda Lacerda, Hélio Souto, Guilherme Karan, Nélia Paula, Maurice Vaneau, José Dumont , Neuza Borges, Odilon Wagner, Júlia Lemmertz, Bia Sion e Eduardo Tornaghi.

De Volta à TV Globo

A volta de Glória Perez à TV Globo deu-se em 1990, em uma minissérie de 17 capítulos, “Desejo”. Inspirada em fatos reais, a história conta um dos crimes mais famosos do Brasil, a do escritor e jornalista Euclides da Cunha, ocorrida em 1909, após uma troca de tiros com Dilermando de Assis, amante da esposa Ana.
Glória Perez recompôs os passos de Euclides da Cunha na semana que antecedeu à sua morte. Casada com Euclides da Cunha, a bela Ana apaixona-se pelo jovem Dilermando, vivendo com ele uma relação adúltera. Descobertos pelo marido, os dois são confrontados por ele. Uma tensa discussão resulta na troca de tiros que mata Euclides. Dilermando é preso, julgado e absolvido, casando-se com Ana. Mais tarde seria a vez do filho de Euclides da Cunha tentar vingar o pai. A tragédia volta a rondar o casal, em um confronto, o filho vingativo é morto por Dilermando, que mais uma vez é preso e absolvido em julgamento.
A produção de “Desejo” reconstituiu com primor a época da tragédia. O triângulo amoroso encontrou consistência nas brilhantes atuações de Tarcísio Meira, Vera Fischer e Guilherme Fontes. Texto bem conduzido, “Desejo” foi uma das mais belas séries já feitas pela televisão brasileira. Quando exibida, sofreu críticas dos descendentes de Dilermando e Ana, sendo bem aceita pelos descendentes de Euclides da Cunha. Marcou a volta de Glória Perez à emissora carioca.
O sucesso de “Desejo” levou a TV Globo a liberar uma sinopse de Glória Perez que estava arquivada há cinco anos. Ainda em 1990, ia ao ar “Barriga de Aluguel”, trama que levantava a polêmica em questões morais e jurídicas que se viram obsoletas diante dos avanços da ciência. Ana (Cássia Kiss) e Zeca (Victor Fasano), um casal jovem e bem sucedido vive o drama de não poder realizar o sonho de um filho, devido a problemas biológicos. Para concretizar o sonho, decidem contratar a barriga de uma mulher para gerar o óvulo fecundado de Ana. A escolhida é Clara (Claudia Abreu), jovem em dificuldades financeiras. Por uma quantia pré-estabelecida, Clara aceita alugar a barriga. Fecundada com o material genético de Ana, Clara sente-se presa à criança no seu ventre, passando a ter amor por ela. Quando dá à luz, recusa-se a entregar o recém-nascido. O caso vai parar na justiça. Quem era a verdadeira mãe, a biológica ou a que engravidou e teve a criança? A questão foi inteligentemente abordada pela autora, sendo analisada em todos as suas vertentes: a científica, a moral, a social e a jurídica.
O horário de exibição da novela, às 18h00, limitou o debate e a polêmica, mas não lhe tirou o questionamento social e científico.
A aposta no elenco foi ousada, o que possibilitou a ascensão de algumas carreiras, como Cássia Kiss, Cláudia Abreu e Humberto Martins, que viveram aqui os seus primeiros protagonistas. Outros já estreavam como protagonistas, como Victor Fasano, que viria a ser uma presença constante nas novelas da autora, e Jairo Mattos. A aposta em um elenco jovem revelou uma constelação de futuros talentos, como Denise Fraga, Tereza Seiblitz, Eri Johnson, outro que passaria a freqüentar as tramas da autora, e, Daniela Perez, filha de Glória Perez, em sua estréia na TV Globo. O elenco contou com grandes interpretações de Renée de Vielmond, Beatriz Segall, Mário Lago, Leonardo Villar, Adriano Reys, Sura Berditchewski, Francisco Milani, Lady Francisco, Lúcia Alves, Nicole Puzzi, Anilza Leoni, Sonia Guedes, Vera Holtz, Wolf Maya, Regina Restelli, Paulo César Grande e Emiliano Queiroz.
Barriga de Aluguel” foi a novela mais consistente de Glória Perez. A que teve um enredo comovente e bem desenvolvido, sem perder em momento algum o foco da temática abordada. A construção psicológica das personagens foi a mais elaborada dentro das tramas da autora. Mesmo quando a emissora pediu que se aumentasse o número de capítulos, não perdeu o interesse ou se assistiu a um enredo arrastado.

Tragédia Real Supera a Ficção

Com o sucesso de “Barriga de Aluguel”, Glória Perez voltaria ao horário nobre da TV Globo, com a novela “De Corpo e Alma”, em 1992, numa co-produção com a então recém inaugurada emissora portuguesa SIC (Sociedade Independente de Comunicação). O folhetim contava a história do juiz Diogo (Tarcísio Meira), de integridade inquestionável, vivendo um casamento de aparências com Antonia (Betty Faria). A vida do juiz vira do avesso quando ele decide viver o seu amor por Betina (Bruna Lombardi). Mas a família e os seus valores, pesam na hora da decisão e Diogo abandona Betina. Desesperada por causa do abandono, a jovem dirige o seu automóvel, lançando-se em um acidente que lhe rouba a vida. Naquele momento, a jovem Paloma (Cristiana Oliveira), agoniza em um hospital, à espera de um transplante de coração que lhe possa salvar a vida. O coração de Betina salvará a jovem da morte. Ao saber do transplante, Diogo persegue a jovem, apaixonando-se por ela, ou pelo coração da amada Betina.
Dramalhão denso, arrastado, sem o vigor de “Barriga de Aluguel”, a novela irritou Tarcísio Meira, que chegou a pedir para o seu personagem ser eliminado, por considerá-lo chato e sem atrativos. Antonia, primeira personagem de Betty Faria depois de ter vivido a estonteante protagonista de “Tieta”, desagradou às feministas, que a consideravam por demais submissa. Cristiana Oliveira, elevada à estrela da TV Manchete após o sucesso de “Pantanal”, fazia a sua estréia na TV Globo. A troca de crianças na maternidade foi abordada pelo casal vivido por José Mayer e Maria Zilda. Pela primeira vez era mostrado um clube de strippers, pondo o homem como objeto de prazer para a mulher. Victor Fasano e Guilherme Leme emprestavam os seus corpos atléticos para as personagens. Controversa foi a figura do gótico Reginaldo (Eri Johnson), que perambulava pelos cemitérios recitando poemas, enquanto que adorava Yasmin (Daniela Perez), com um retrato da musa estampada no seu quarto. As visitas de Reginaldo às tumbas atraíram aos supersticiosos, atribuindo a ele a tragédia que se iria abater sobre a autora.
No dia 28 de dezembro de 1992, a atriz Daniela Perez, filha de Glória Perez, foi assassinada pelo colega de trabalho Guilherme de Pádua, com quem vivia um romance na trama. O crime chocou o Brasil. Nunca na história da teledramaturgia brasileira havia acontecido tão dantesca tragédia. Abatida, Glória Perez foi substituída por Gilberto Braga e Leonor Basséres, que escreveram os capítulos onde sumiam as personagens de Daniela Perez e Guilherme de Pádua. Uma semana depois de perder a filha, Glória Perez voltou a escrever a novela, atirando-se de cabeça ao trabalho para aliviar a dor da perda. As motivações do crime jamais foram esclarecidas no todo. Daniela Perez tinha 22 anos e estava a desenvolver o seu maior trabalho na curta carreira de atriz.
De Corpo e Alma” entrou para a historia da teledramaturgia não pelo seu texto ou conteúdo, mas pela tragédia que resultou na morte de Daniela Perez. Fechou os seus capítulos com a tristeza de um drama real que superou a sua ficção. Além dos atores citados, o elenco contava ainda com Renée de Vielmond, Stênio Garcia, Nathália Timberg, Beatriz Segall, Carlos Vereza, Fábio Assunção, Ewerton de Castro, Vera Holtz, Eva Todor, Neuza Borges, Marilu Bueno, Aracy Cardoso, João Vitti, Tonico Pereira, Hugo Carvana, Márcia Real, Ida Gomes, Mário Lago, Marcelo Picchi, Hugo Gross, Carla Daniel, Paolette, Eduardo Caldas, Marcelo Faria e Lizandra Souto.

O Universo dos Ciganos e Uma Velha História de Janete Clair

Em 1995, Glória Perez começaria um ciclo de temas a explorar povos e costumes. Com “Explode Coração”, iniciava a sua saga através dos costumes e hábitos do povo cigano. Sua heroína Dara (Tereza Seiblitz) foi inspirada na vida real de uma cigana. Apesar de trazer o mundo cigano para a pequena tela, a visão de Glória Perez é negativa aos costumes, uma vez que os contesta através dos sofrimentos da sua heroína que se rebela contra eles. Dara quer estudar, romper com as velhas tradições do seu povo e entregar-se a um “gadjô”, ou não cigano. As cenas de amor entre Dara e Júlio (Edson Celulari), desagradaram à cigana na qual Glória Perez se inspirara, fazendo que ela movesse um processo contra a autora, sem que lhe causasse grandes polêmicas ou conseqüências jurídicas. Nos desencontros com o amor da sua vida, Dara é obrigada pela família a se casar com o cigano Igor (Ricardo Macchi), que apaixonado por ela, simula a virgindade da amada, apresentando à família o próprio sangue nos lençóis nupciais.
A novela desenvolveu uma campanha social em prol das crianças desaparecidas, ajudando a encontrar algumas na vida real. Numa época em que a internet era pouco difundida no Brasil, a autora promoveu o encontro de Dara e Júlio através do veiculo digital, então uma grande novidade, distante da realidade do povo.
Explode Coração” não apresentou nenhuma novidade, afinal a temática sobre a vida dos ciganos tinha sido explorada desde a época de Glória Magadan na TV Globo. Trama morna, cumpriu a função de entretenimento. Ricardo Macchi, ao viver o cigano Igor, um dos protagonistas, atraiu para si o estigma de que um rosto bonito era totalmente avesso ao talento, sendo rejeitado em muitos trabalhos futuros. Viver Dara não consolidou a carreira de Tereza Seiblitz, que desde então não teve nenhuma personagem de destaque na televisão. Renée de Vielmond, após a novela, deixaria a televisão por mais de uma década. Outro erro de escalação de elenco foi a do ator Floriano Peixoto para o papel do travesti Sarita Witt, que desenvolveu uma personagem caricata, não se sabendo se era um transformista ou um travesti. Destaque para o casal Lucineide e Salgadinho, vivido com humor magistral por Regina Dourado e Rogério Cardoso. Ainda no elenco Eliane Giardini, Laura Cardoso, Maria Luisa Mendonça, Françoise Forton, Paulo José, Cássio Gabus Mendes, Deborah Evelyn, Herson Capri, Helena Ranaldi, Nívea Maria, Reginaldo Faria, Elias Gleizer, Cláudio Cavalcanti, Débora Duarte, Stênio Garcia, Ester Góes, Rodrigo Santoro, Zezé Polessa, Leandra Leal, Isadora Ribeiro, Gracindo Junior, Daniel Dantas, Felipe Folgosi, Guilherme Karan, Odilon Wagner, Lady Francisco, Eri Johnson, Ivan de Albuquerque e Paula Burlamaqui.
Em 1998, Glória Perez deixava um pouco os folhetins novelescos, escrevendo uma outra minissérie de grande sucesso, “Hilda Furacão”, inspirada no romance homônimo de Roberto Drummond. A série trazia a instigante trajetória de Hilda Furacão (Ana Paula Arósio), personagem real, filha de uma tradicional família mineira, que escandalizou a sociedade ao fugir no dia do seu casamento, refugiando-se em um prostíbulo, tornando-se a prostituta mais desejada de Belo Horizonte na década de 1950. Hilda será a responsável pelo conflito do jovem Maltus (Rodrigo Santoro), que sonha ser um frade dominicano, dividindo-se entre os princípios da castidade e a atração pelo corpo de Hilda.
Hilda Furacão” marcou a estréia de Ana Paula Arósio na TV Globo, sendo de imediato elevada à estrela da emissora. Outra estréia foi a de Thiago Lacerda, que vivia Aramel, jovem que sonhava ser galã de Hollywood. No ano seguinte, Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda conquistariam o Brasil e o mundo ao viverem o par romântico da novela “Terra Nostra”, de Benedito Ruy Barbosa. Outro destaque foi para o trabalho de Matheus Nachtergaele, vivendo o travesti Cintura Fina, também personagem real, assim como a prostituta Maria Tomba-Homem, magistralmente interpretada por Rosi Campos. Danton Mello viveu Roberto Drummond, autor do livro. Glória Perez conseguiu desenvolver uma história de sucesso, que prendeu o telespectador, transformando-se em um clássico das minisséries brasileiras. O elenco contava com a presença rara na televisão do genial Paulo Autran.
Para encerrar a década, Glória Perez escreveria, ainda em 1998, uma nova versão da novela “Pecado Capital”, clássico de Janete Clair, levada ao ar pela primeira vez em 1975. Apesar de trazer novas personagens, a trama ficou aquém da magia do universo de Janete Clair, passando despercebida do grande público. Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz, que vinham de um grande sucesso como par romântico na novela “Por Amor”, ganharam os papéis de Carlão e Lucinha, vividos na primeira versão por Francisco Cuoco e Betty Faria. Francisco Cuoco retornou a esta versão, vivendo o rígido Salviano Lisboa, interpretado em 1975 por Lima Duarte. A trama narra a ascensão social de Carlão e Lucinha, casal apaixonado que vive modestamente em um subúrbio do Rio de Janeiro. Ele é um taxista, ela operária de fábrica. Um dia Carlão leva em seu táxi um casal que assaltara um banco, na pressa em fugir da polícia, eles esquecem a mala com o dinheiro do assalto no assento do carro. Carlão usa o dinheiro para enriquecer, enquanto que Lucinha é descoberta por um caçador de talento, tornando-se famosa como modelo. Na ascensão social o casal se perde, ela vivendo uma história de amor com o milionário Salviano Lisboa, ele casando-se com Eunice (Cássia Kiss), a mulher que ajudara o amante a assaltar o banco e esquecera o dinheiro no táxi de Carlão.
Na versão de 1998, há um desequilíbrio total entre Francisco Cuoco, já muito envelhecido para o papel, e Carolina Ferraz, que não consegue fazer a lapidação cultural que Lucinha sofre, conservando a essência suburbana, mais próxima de Carlão e não de Salviano. Diante da falta de química entre o casal, Glória Perez foi obrigada a mudar o original, criando uma personagem para viver um romance com o Salviano de Francisco Cuoco. Surge Laura, interpretada por Vera Fischer. Nesta versão, Lucinha volta para Carlão e para as suas raízes. A novela peca por dar uma atmosfera suburbana arraigada à trama, algo que não se vê na obra de Janete Clair, que ao escrever sobre os subúrbios cariocas, impregnava uma estrutura universal, com personagens carismáticos, trazendo o romantismo do samba carioca, enquanto que Glória Perez traz a essência do pagode que só se encontra no subúrbio do Rio de Janeiro, longe de um aspecto mais universal. “Pecado Capital” foi em 1975, responsável por um dos maiores sucessos de público da carreira de Débora Duarte, vivendo a louca Vilminha. Paloma Duarte fez o mesmo papel da sua mãe na versão de 1998, sem que o telespectador identificasse o carisma de tão complexa personagem.
Pecado Capital” de Glória Perez foi um sopro frustrado na grandiosidade da beleza da novela de Janete Clair, considerada a mais realista da sua obra. Glória Perez, que começara a década de noventa com a inesquecível e genial “Barriga de Aluguel”, terminava a mesma década ofuscada pelo fracasso de “Pecado Capital”. Ainda no elenco a inesquecível Zilka Salaberry, Alexandre Borges, Thaís de Campos, Floriano Peixoto, Thiago Lacerda, Marcos Winter, Leandra Leal, Marcelo Serrado, Tato Gabus, Betty Lago, Roberto Bonfim, André Valli, Suely Franco, Jackson Antunes, Pedro Paulo Rangel, Íris Bruzzi, Darlene Glória, Mario Lago, Camila Pitanga, Luís Mello, Othon Bastos, Oswaldo Loureiro, Lúcio Mauro, Guilherme Karan, Aracy Cardoso, Marco Ricca, Eri Johnson, Mara Manzan, Jiddu Pinheiro e Claudia Liz.

O Islamismo Como Tema

A maior obra de Glória Perez viria em 2001, “O Clone”, uma das mais bem sucedidas novelas da televisão brasileira. Mais uma vez a autora questionava os avanços morais em contraste com a evolução da ciência. A clonagem humana, aliada à cultura islâmica e o mundo devastador da droga, fizeram da trama uma das mais bem conduzidas e carismáticas da teledramaturgia.
Quando a autora apresentou a sinopse à direção da TV Globo, encontrou grande resistência, pois muitos não acreditavam na proposta. A produção teve problemas desde a escolha da direção à escalação dos atores. Denise Saraceni, inicialmente prevista para comandar a direção, não gostava do islamismo como tema. Luiz Fernando Carvalho não se adaptava ao estilo da autora. A terceira e acertada opção foi Jayme Monjardim, que além de uma bela direção, trouxe uma apurada trilha sonora, feita especialmente para a trama. Os papéis de Jade e Lucas (que se dividiria em três), foram feitos pensando em Ana Paula Arósio e Fábio Assunção, os atores alegaram cansaço, não acreditando nas personagens. Letícia Spiller também recusou fazer Jade. A direção apostou no talento de Giovana Antonelli, vinda do sucesso de “Laços de Família”, de Manoel Carlos, onde interpretou a prostituta Capitu. Coube a Murilo Benício viver os gêmeos Lucas e Diogo, e o seu clone Leo.
Lucas é um jovem sonhador, que se apaixona por Jade, uma jovem muçulmana. Logo no início perde o irmão gêmeo Diogo, morto em um acidente. Diogo era o preferido do pai Leônidas (Reginaldo Faria), e do geneticista Albieri (Juca de Oliveira). Na tentativa de trazer a vida de volta, Albieri, à revelia de Lucas, clona as suas células, trocando os embriões de Deusa (Adriana Lessa), mulher negra, que sem saber, gera e dá à luz ao clone de Lucas. Os costumes islâmicos e as adversidades separam Jade e Lucas, que se casam com Said (Dalton Vigh) e Maysa (Daniela Escobar), respectivamente. Vinte anos depois surge Leo, o clone, trazendo a juventude e os sonhos perdidos de Lucas, inclusive o amor preso no tempo que Jade tinha por ele. Lucas torna-se rival do seu próprio clone.
Burlesca, cientificamente improvável, a novela atraiu pelo exotismo do mundo islâmico ser aludido com grande pompa. A estréia em 1 de outubro de 2001, causou grande apreensão devido à tragédia das torres do World Trade Center em Nova York, ocorrida menos de um mês antes. O terrorismo por parte de idealistas islâmicos fez a curiosidade do povo aumentar. Jade é a visão ocidental do mundo islâmico, a sua renúncia diante dos costumes árabes traz a visão negativa do islã por parte da autora, que ao pôr as dúvidas na heroína, rejeita veementemente a cultura. Jade entrega-se ao ocidental, ficando nas mãos de um marido apaixonado que simula a sua virgindade para a família. Said, o marido apaixonado, representa a tradição dos costumes, por isto torna-se o vilão da história, o que se opõe ao amor ocidentalizado, aos princípios judaico-cristãos. O seu amor não serve para a heroína, que repudia os costumes da sua gente.
Noutra vertente da trama, surge o mundo obscuro das drogas, vivenciado pela doce Mel (Débora Falabella). Nunca o tema foi tão profundamente analisado em uma novela como aqui. Glória Perez foi magnífica, conseguindo levar através de depoimentos verdadeiros, um pouco do sofrimento do submundo das drogas. Islamismo e drogas fizeram o tema da clonagem coadjuvante, suportável nas suas falhas mirabolantes, brilhante na contestação moral, encerrando com Albieri, criador do clone, desaparecendo com ele ao seu encalce pelo deserto, sem saber em que lugar do mundo situá-lo.
Elenco bem escalado, texto empolgante, “O Clone” foi a obra maior de Glória Perez. Ainda no elenco Vera Fischer, Stênio Garcia, Nívea Maria, Letícia Sabatella, Jandira Martini, Antonio Calloni, Eliane Giardini, Marcelo Novaes, Cristiana Oliveira, Mara Manzan, Neuza Borges, Osmar Prado, Victor Fasano, Beth Goulart, Marcos Frota, Francisco Cuoco, Roberto Bonfim, Luciano Szafir, Cissa Guimarães, Thiago Fragoso, Myrian Rios, Guilherme Karan, Sebastião Vasconcelos, Carla Diaz, Françoise Forton, Elizangela, Thais Fersoza, Eri Johnson, Juliana Paes, Totia Meirelles, Raul Gazolla e Perry Salles.

Passagem Pela América, Amazônia e Índia

Após o sucesso de “O Clone”, gerou-se uma grande expectativa na estréia da novela “América”, em 2005. Imigração para os Estados Unidos e o mundo dos rodeios foram as temáticas da novela, com pitadas de cleptomania, deficiência visual e homossexualismo. Apesar dos ingredientes, “América” mostrou-se morna e sem carisma. Elenco que não se afinava, obrigando a autora a modificar o destino dos protagonistas. Sol, a heroína vivida por Deborah Secco, carregou na sua história todos os dramas colhidos de depoimentos de imigrantes reais, tornando-se insuportavelmente caricata e longe da realidade. As experiências interessantes, se distribuídas por várias personagens, não contaminariam a verve real. A maior expectativa da trama foi o prometido primeiro beijo homossexual levado ao ar no Brasil, entre os personagens vividos por Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro, que deveria acontecer no último capítulo. A cena foi escrita e gravada, mas por causa do moralismo da TV Globo, não foi ao ar, causando frustração, com protestos nos principais jornais do país no dia seguinte à exibição do capítulo. Os defensores dos animais fizeram protestos contra os rodeios exibidos na novela, chegando a atingir pessoalmente a autora com mensagens ofensivas em sua página na internet.
América” romperia com a parceria entre Jayme Monjardim e Glória Perez. O diretor foi afastado da novela ainda nos primeiros capítulos. “América” não empolgou o público brasileiro. No seu todo, passou despercebida e sem acrescentar grandes glórias à carreira dos atores e da autora. Deborah Secco teve um dos mais cansativos papéis da carreira. Faziam parte do elenco Murilo Benício, Christiane Torloni, Edson Celulari, Thiago Lacerda, Caco Ciocler, Nívea Maria, Betty Faria, Francisco Cuoco, Humberto Martins, Camila Morgado, Eva Todor, Jandira Martini, Paulo Goulart, Mariana Ximenez, Marcelo Novaes, Marcos Frota, Gabriela Duarte, Daniela Escobar, Floriano Peixoto, Neuza Borges, Claudia Jimenez, Lúcia Veríssimo, Murilo Rosa, Victor Fasano, Rosi Campos, Matheus Nachtergaele, Eri Johnson, Simone Spaladore, Rodrigo Faro, Raul Gazolla, Silvia Buarque, Sâmara Felippo, Chico Diaz, Bete Mendes, Duda Nagle, Luis Mello, Cacau Melo, José Dumont, Solange Couto, Roberto Bonfim, Bruna Marquezine, Juliana Paes, Paula Burlamaqui, Ailton Graça, Regina Dourado, Cleo Pires, Walter Breda, Rodrigo Hilbert, Juliana Knust, Marisol Ribeiro, Totia Meireles, Marcelo Brou, Guilherme Karan, Anderson Muller, Fernanda Paes Leme, Viviane Victorete, Lucy Mafra, Christiana Kalache, Lucas Balbin e Rafael Calomeni.
Em 2007, Glória Perez assinou mais uma minissérie, “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”. Desta vez ela retornava às origens, contando a história da sua terra, o Acre, último estado a ser integrado a União. Produção sofisticada, com cuidadosa reconstituição de época, elenco de peso, cenas gravadas no Amazonas e Acre, belas imagens da selva amazônica e bastidores de épico. A série foi dividida em três fases, começando em 1899, no auge do ciclo da borracha, com a conquista do Acre aos bolivianos, passando pela decadência dos seringais, fechando com a história do seringueiro Chico Mendes. A saga do Acre é contada cronologicamente em cem anos. Glória Perez inspirou-se nos romances “O Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante e, “Terra Caída”, de José Potiguara.
Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, apesar de apresentada com tiragens de épico, não conseguiu a beleza intimista e psicológica de “Desejo”, tão pouco a força explosiva e dramática de “Hilda Furacão”. Mostrou-se visualmente magnífica, com grandes interpretações, mas seca em arrancar grandes emoções, apesar de tramas com grande pujança. Talvez o desequilíbrio na duração das três fases, ou no excesso de capítulos para uma obra fechada, 52 ao todo, o que lhe dá uma sensação de novela, contribuíram para que uma produção de tão grande qualidade não apaixonasse o telespectador, que se manteve morno até o fim. José Wilker viveu o mítico herói acreano Luiz Galvez, Alexandre Borges fez o personagem histórico Plácido de Castro, e Cássio Gabus Mendes foi o líder Chico Mendes, compondo a espinha dorsal da trama. Ainda no elenco Vera Fischer, Irene Ravache, Christiane Torloni, Débora Bloch, José de Abreu, Giovana Antonelli, Regina Casé, Antonio Calloni, Cláudio Marzo, Matheus Nachtergaele, Paulo Betti, Victor Fasano, Humberto Martins, Emílio Orciollo Neto, Dan Stulbach, Letícia Spiller, Zezé Polessa, Caio Blat, Pedro Paulo Rangel, Diogo Vilela, Tereza Seiblitz, Lima Duarte, Vanessa Giácomo, Francisco Cuoco, Paulo Goulart, Leopoldo Pacheco, Cristiana Oliveira, Marcos Winter, Totia Meireles, Silvia Buarque, Leonardo Medeiros, Marcelo Faria, Ruth de Souza e Tato Gabus.
Em 2009, mais uma cultura seria retratada por Glória Perez, a indiana, tema de “Caminho das Índias”. Ao contrário do que aconteceu com a cultura islâmica abordada em “O Clone”, a cultura indiana não apaixonou o brasileiro. Por meses a novela amargou com baixa audiência. Sistema de castas, intocáveis, viúvas lançadas à fogueira, excesso de deuses para que se adorasse, fizeram a distância intransponível entre a realidade brasileira e a fantasia ali descrita. Uma Índia completamente folclórica, com famílias abastadas, longe da miséria que assola aquele país asiático, dos conflitos entre várias religiões, que atravessam desde o hinduísmo ao islamismo, a Índia da trama de Glória Perez só existiu nos estúdios da TV Globo. O maior agravante foi o branqueamento do povo indiano, fazendo dos atores meros estereótipos de uma cultura.
A novela ganhou audiência quando o núcleo do confuso Raul (Alexandre Borges) e da bela psicopata Yvone (Letícia Sabatella), forjaram a morte do milionário, em um golpe que prendeu o telespectador. A fogosa Norminha (Dira Paes) e o seu marido corno magnífico Abel (Anderson Muller) foram outro grande atrativo. A esquizofrenia, abordada através de Tarso (Bruno Gagliasso), também foi outro filão que não empolgou. Glória Perez ainda tentou introduzir depoimentos reais sobre esquizofrenia, recurso utilizado em “O Clone”, mas o pouco carisma da trama não permitiu que se estendesse por muitos capítulos. Os núcleos brasileiros salvaram a fantasia indiana da novela, garantindo que ela não se afundasse. Maya, a heroína vivida por Juliana Paes, foi um clone mal-sucedido de Jade, sem o carisma e força contestadora da outra. Bahuan, o protagonista da trama vivido por Márcio Garcia, foi rejeitado na primeira semana, quase que se tornando o vilão da trama.
Durante a exibição da novela, Glória Perez foi submetida a uma cirurgia na tiróide, acusando um câncer, o que levou a direção a chamar Carlos Lombardi e Elizabeth Jhin para prestar ajuda à autora, escrevendo algumas cenas. Desequilíbrio de elenco, excesso de fantasia e de informações apresentadas, contribuíram para que a novela não atingisse o fascínio de “O Clone”. Curiosamente, o burlesco da trama mostrou-se apoteótica aos jurados norte-americanos, que lhe atribuíram o prêmio Emmy Internacional, em novembro de 2009. Uma vitória para as telenovelas brasileiras em época de pouca criatividade e safra pouco empolgante. Ainda faziam parte de um elenco de luxo Tony Ramos, Christiane Torloni, Lima Duarte, Laura Cardoso, Rodrigo Lombardi, Vera Fischer, Débora Bloch, Humberto Martins, Eliane Giardini, Nívea Maria, Caco Ciocler, Osmar Prado, Eva Todor, Maitê Proença, Elias Gleizer, Marjorie Estiano, Tânia Khalil, Stênio Garcia, Antonio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Odilon Wagner, Victor Fasano, Totia Meireles, Cléo Pires, Isis Valverde, Flávio Migliaccio, Murilo Rosa, José de Abreu, Mara Manzan, Jandira Martini, Ricardo Tozzi, Duda Nagle, Silvia Buarque, Chico Anýsio, Marcius Melhem. André Gonçalves, Danton Melo, Betty Gofman, Maria Maya, Julia Almeida, Claudia Lira, Rosane Gofman e Java Mayan.

OBRAS

Telenovelas:

1983/1984 – Eu Prometo (colaboradora de Janete Clair) – TV Globo
1984 – Partido Alto (co-autoria com Aguinaldo Silva) – TV Globo
1987/1988 – Carmem – TV Manchete
1990/1991 – Barriga de Aluguel – TV Globo
1992/1993 – De Corpo e Alma – TV Globo
1995/1996 – Explode Coração – TV Globo
1998/1999 – Pecado Capital (2ª versão novela de Janete Clair) – TV Globo
2001/2002 – O Clone – TV Globo
2005 – América – TV Globo
2009 – Caminho das Índias – TV Globo

Minisséries:

1990 – Desejo – TV Globo
1998 – Hilda Furacão – TV Globo
2007 – Amazônia – De Galvez a Chico Mendes – TV Globo

Seriados:

1998 – Mulher (co-autoria) – TV Globo
2003 – A Diarista (episódio piloto) – TV Globo

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IVANI RIBEIRO – A GRANDE DAMA DAS TELENOVELAS

abril 10, 2010

Ivani Ribeiro é, ao lado de Janete Clair, considerada a maior autora da história das telenovelas do Brasil. Sua obra coincide com o início das telenovelas diárias no país, em 1963. Passou pelos dramalhões de época, sem as excentricidades de Glória Magadan, deixando a adaptação de grandes clássicos da literatura brasileira, como “A Muralha”, de Dináh Silveira de Queiroz, e “As Minas de Prata”, de José de Alencar, em momentos primorosos.
Ivani Ribeiro, assim como Janete Clair, destaca a sua obra no campo da teledramaturgia, tendo contribuído para que o gênero da telenovela evoluísse, tornando-se o principal veículo de comunicação da televisão brasileira. Esteve no ar por mais de três décadas, tendo nos anos 1960, escrito treze novelas ininterruptamente, numa produção de cerca de 1600 capítulos, de sucesso garantido. Foi a primeira das grandes autoras a encontrar a linguagem necessária para a evolução do gênero. Enquanto Glória Magadan perdia-se com os absurdos dos dramalhões e Janete Clair ainda tateava o estilo que a deixaria famosa, Ivani Ribeiro evoluía com as necessidades de um público incipiente, cada vez mais exigente, e mais apaixonado pela televisão.
Sua obra revelou para o Brasil grandes ícones da teledramaturgia, como Regina Duarte, transformou atores em grandes estrelas da pequena tela, como Eva Wilma, Carlos Zara, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Carlos Augusto Strazzer, Rosamaria Murtinho, Antonio Fagundes. Na década de 1970, quando a TV Globo tomou a liderança da audiência na televisão brasileira, Ivani Ribeiro garantiu a sobrevivência da então agonizante TV Tupi. Suas novelas competiram diretamente com as de Janete Clair, ameaçando, por várias vezes, a hegemonia da audiência global.
Passou pela TV Excelsior, sendo responsável pela maioria dos seus grandes sucessos. Atingiu sua maturidade como autora de telenovelas na TV Tupi, seguiu para a TV Bandeirantes, chegando à TV Globo, em 1982, onde esteve até a sua morte, em 1995. Na emissora de Roberto Marinho jamais teve o estatuto de grande dama, nunca escrevendo para o horário nobre, apesar de produzir grandes sucessos como as segundas versões de “Mulheres de Areia” e “A Viagem”.
Ivani Ribeiro era extremamente inquieta nos temas que abordava nas suas novelas, ousando escrever sobre os mais diversos. Escreveu sobre psicanálise, temas espirituais, ficção científica, teatro mambembe, dramas épicos, comédias. Deu grande destaque à paranormalidade, personagens com deficiências físicas, tratando-os com uma delicadeza emocionante.
Ivani Ribeiro deixou uma das mais belas obras da teledramaturgia brasileira, legando para as novas gerações de telespectadores, a garantia da qualidade no produto final do drama contado em capítulos. Seu nome é sinônimo da história bem acabada de um gênero que em pleno século XXI, parece ainda inesgotável.

Atriz, Cantora e Autora de Novelas do Rádio

Cleide de Freitas Alves Ferreira, entraria para a história da televisão brasileira com o nome artístico de Ivani Ribeiro. Nasceu no litoral paulista, na cidade histórica de São Vicente, em 20 de fevereiro, o ano diverge conforme seus biógrafos, sendo apontados por alguns em 1916, por outros em 1922.
Formada como normalista em Santos, Ivani Ribeiro deixou a baixada santista aos 16 anos, seguindo para São Paulo na intenção de cursar a faculdade de Filosofia. Na capital paulista tornar-se-ia cantora, compositora de sambas, atriz de rádio e autora de programas de variedades. Sua estréia como artista deu-se na Rádio Educadora, onde se apresentou como intérprete de sambas e canções folclóricas.
Na época em que o rádio era o principal veículo de comunicação no Brasil, Ivani Ribeiro alcançou relativo sucesso através de programas de sua autoria, como “Teatrinho de Dona Chiquinha” e “Hora Infantil”. Como atriz, interpretou “As Mais Belas Cartas de Amor”, de sua autoria. Passou pela Rádio Difusora, apresentando-se como cantora acompanhada de uma orquestra. Na ocasião, casou-se com o premiado radialista Dárcio Ferreira, com quem teria dois filhos, Luís Carlos e Eduardo.
Foi na Rádio Bandeirantes que, além de atuar como atriz, passou a adaptar peças, apresentando programas como “Teatro Romântico”, inspirado em poemas clássicos da literatura brasileira; “Os Grandes Amores da História”, dramatização da vida amorosa de vultos da história; e, “A Canção Que Viveu”, dramatização da música brasileira. Ivani Ribeiro tornou-se um grande nome do rádio, sendo a primeira mulher brasileira a ter um programa de teatro naquele veículo de comunicação.

As Primeiras Novelas na TV Excelsior e na TV Tupi

Com a inauguração da televisão no Brasil, em 1950, autores, diretores e atores, grandes nomes da rádio, migraram para o novo veículo. Seria na televisão que Ivani Ribeiro alcançaria fama como escritora de telenovelas, realizando grandes sucessos.
Foi na TV Tupi, a primeira emissora de televisão brasileira, que, em 1952, escreveu a série “Os Eternos Apaixonados”. Naquela década, dividiu-se entre as novelas escritas para o rádio, e algumas para a televisão. Na época, as telenovelas não eram apresentadas diariamente, não tendo horário definido e continuidade programada. Muitas delas eram encenadas ao vivo, dependendo das condições e improvisos que se lhe punham à frente.
Em 1963, a TV Excelsior produziu “2-5499 Ocupado”, de Dulce Santucci, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira, mãe do gênero atual. A emissora paulista criava assim, a continuidade, fazendo com que o telespectador voltasse no dia seguinte, no mesmo horário, tornando-se fiel à programação. Ivani Ribeiro escreveria a terceira novela diária da televisão, “Corações em Conflito”, adaptada do rádio, contando a história de um viúvo e os seus problemas ao realizar o seu segundo casamento. A novela, protagonizada por Carlos Zara, foi ao ar de dezembro de 1963 a fevereiro de 1964. Tinha ainda no elenco Flora Geny, Mauro Mendonça, Márcia Real e Edmundo Lopes.
No ano seguinte, a autora escreveria simultaneamente para a TV Excelsior e para a TV Tupi. Em fevereiro, foi ao ar a primeira novela diária da TV Tupi “Alma Cigana”, protagonizada por Ana Rosa, em papel duplo. A novela tornou-se um sucesso, revelando um novo galã, Amilton Fernandes. Em 1971, a TV Tupi reeditaria a novela com o nome de “A Selvagem”, tendo novamente Ana Rosa como protagonista. “Alma Cigana” dava mostras de que a telenovela diária viria para ficar.
As primeiras novelas tinham poucos capítulos, não se estendendo por mais de dois meses. Ainda em 1964, Ivani Ribeiro escreveria em simultâneo, “A Gata” e “Se o Mar Contasse”, para a TV Tupi; e, “Ambição” e “A Moça Que Veio de Longe”, para a TV Excelsior.
Foi a partir de “A Moça Que Veio de Longe”, que se conseguiu um grande sucesso entre o público e as telenovelas. A atriz Rosamaria Murtinho marcava de forma triunfante a sua estréia na televisão. Sua personagem Maria Aparecida, conseguiu grande empatia com os telespectadores. Na época as novelas eram adaptações de textos de autores latino-americanos. “A Moça Que Veio de Longe” não fugia à regra. Ivani Ribeiro transgrediu o texto original argentino, adaptando-o para a realidade brasileira, criando novas personagens e mudando o desfecho. Com isto, tornou-se a maior autora de teledramaturgia da época. A novela criaria um novo galã, Hélio Souto.
Ainda em 1964, Ivani Ribeiro escreveu um outro sucesso de público, “A Outra Face de Anita”, protagonizada por Flora Geny. Na novela, ela inseria pela primeira, um ícone das suas obras, o deficiente físico, aqui na figura de Vítor, um débil mental. A personagem, vivida por Bentinho, atingiu grande popularidade.
A partir de 1965, Ivani Ribeiro tornou-se autora exclusiva da TV Record, contribuindo para que a emissora se tornasse a maior produtora de telenovelas de qualidade daquela década. Seguiu-se “Onde Nasce A Ilusão”, que trazia o universo circense para a televisão; com uma produção milionária para a época, tendo em seu elenco Carlos Zara, Maria Helena Dias, Renato Máster, Célia Coutinho, Edmundo Lopes, Glauce Graieb e Bentinho.
A Indomável”, foi escrita em forma de comédia. Adaptação da peça “A Megera Domada”, de William Shakespeare, tinha a sua trama transportada para a São Paulo da década de 1920. Edson França e Aracy Cardoso viviam os míticos Petruchio e Catarina. A novela ganharia duas versões, “O Machão”, em 1974, e “O Cravo e a Rosa”, em 2000. O elenco contava ainda com David Neto, Nívea Maria, Fúlvio Stefanini, Edgard Franco, Yara Lins e Maria Aparecida Baxter, entre outros.
Vidas Cruzadas” trazia Carlos Zara em papel duplo, interpretando o marginal Henrique Varela, procurado pela polícia, e o do seu sósia Bruno Vieira, morto em um acidente. Henrique assume a identidade do morto, indo morar na sua casa. No elenco Irina Grecco, Márcia Real, Geraldo Del Rey, Célia Coutinho e Riva Nimitz.

Os Grandes Épicos da TV Excelsior

Em julho de 1965, Ivani Ribeiro escrevia aquela que seria a primeira superprodução da telenovela brasileira, “A Deusa Vencida”. A partir de então, os capítulos e as personagens das tramas aumentaram substancialmente. Mais longas, as novelas passaram a ter cuidados mais primorosos. “A Deusa Vencida” teve, entre outras curiosidades, trilha sonora própria, transformando-se em um romance. A história passava-se na São Paulo do fim do século XIX, relatando os desencontros amorosos entre a bela Cecília (Glória Menezes) e o jovem Edmundo Amarante (Tarcísio Meira). Diante da ruína da fortuna da família de Cecília, os jovens são separados por imposição dos pais. Cecília, para salvar a família da ruína, casa-se com Fernando Albuquerque (Edson França). Edmundo casa-se, por piedade, com Malu (Regina Duarte), jovem condenada por uma doença incurável. Durante toda a trama, cartas misteriosas geram intrigas e suspense. A autoria das cartas só é revelada no fim da novela, era a frágil Malu. O elenco era primoroso. Além do casal Glória Menezes e Tarcísio Meira, contava com Edson França, Altair Lima, Ivan Mesquita, Karin Rodrigues, Ruth de Souza, Rachel Martins, e marcava a estréia de uma jovem atriz, Regina Duarte, que conquistaria o país com o seu ar angelical e voz doce.
A Grande Viagem” trazia um grupo de pessoas que viajava em um navio luxuoso, do nordeste em direção ao sul. O navio era tomado pelo náufrago Pardini, sendo desviado para uma ilha, onde estava escondida uma fortuna. Seguindo a linha de suspense policial, trazia um grande mistério a ser desvendado, a identidade do cúmplice de Pardini. A imprensa da época revelou o mistério. Ivani Ribeiro escreveu um novo final, gravado apenas no dia em que foi ao ar. Henrique César viveu com sucesso o frio Pardini. Ainda no elenco Regina Duarte, Flora Geny, Mirian Mehler, Daniel Filho, Fúlvio Stefanini, Altair Lima, Márcia Real, Rodolfo Mayer, Mauro Mendonça, Bentinho, Riva Nimitz, Tony Vieira e a presença rara do grande ator do teatro brasileiro, Procópio Ferreira, em uma participação especial.
Em 1966, três novelas de Ivani Ribeiro iriam ao ar pela TV Excelsior: “Almas de Pedra”, “Anjo Marcado” e “As Minas de Prata”. A primeira era a adaptação da obra de Xavier de Montepin, transposta para a realidade brasileira do final do século XIX. De forma sutil, a novela questionava a opressão feminina da sua época. Glória Menezes, a protagonista, passava-se por homem, disfarçando-se com barba. No elenco Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Armando Bógus, Suzana Vieira, Íris Bruzzi, Silvana Lopes, Ivan Mesquita e Carminha Brandão.
Anjo Marcado” inovava na narrativa, sendo contada em flashback a partir do misterioso desaparecimento de Valquíria, protagonista interpretada por Karin Rodrigues. A novela consolidava a carreira de Regina Duarte, que atingia grande popularidade em todo o Brasil. Também criava um novo galã, Paulo Goulart. No elenco Geraldo Del Rey, Maria Izabel de Lizandra, Lolita Rodrigues, Carminha Brandão, Elizabeth Gasper, Otávio Augusto, Lurdinha Félix e Paulo Figueiredo.
As Minas de Prata”, foi até então, a novela mais longa de Ivani Ribeiro, indo ao ar de novembro de 1966 a julho de 1967. Inspirada no romance homônimo de José de Alencar, foi outra grande produção da TV Excelsior, sendo uma das mais luxuosas da década. A cidade de Salvador do século XVII foi recriada cenograficamente no sítio Alvarenga, em São Bernardo do Campo. Durante a novela, Glória Menezes, que interpretava Zana, foi substituída por Lídia Costa. Regina Duarte e Fúlvio Stefanini eram os protagonistas. No elenco Armando Bógus, Paulo Goulart, Carlos Zara, Arlete Montenegro, Renato Máster, Suzana Vieira, Ivan Mesquita, Sonia Oiticica, Maria Izabel de Lizandra, Stênio Garcia, Henrique César, David Neto, Procópio Ferreira, Silvana Lopes e Riva Nimitz. A novela inspirou “A Padroeira”, em 2001, na TV Globo.
Do épico para o suspense, a criatividade de Ivani Ribeiro não cessava. Sem pausa, escreveu “Os Fantoches”, inspirada no livro “O Caso dos Dez Negrinhos”, de Agatha Christie. A trama acontecia, quase que toda, dentro de um hotel de luxo, com um clima de suspense que atingiu o auge até o último capítulo. A pedido da emissora, a imprensa da época não revelou o autor das cartas anônimas, mantendo o total suspense até o fim. No elenco Átila Iório, Flora Geny, Regina Duarte, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Dina Sfat, Stênio Garcia, Ivan de Albuquerque, Márcia de Windsor, Elizabeth Gasper, Yara Lins, Vera Nunes, Lídia Costa, Mauro Mendonça, Renato Máster, Edgard Franco, Sílvio Rocha e Rogério Márcico entre outros.
O Terceiro Pecado”, de 1968, marcava a estréia de Ivani Ribeiro no mundo do sobrenatural, o que seria uma constante em sua obra, a partir de então. O Anjo da Morte enviava para a Terra um mensageiro, Alexandre, para buscar a jovem Carolina. Alexandre apaixona-se pela jovem, e pede para a Morte que troque Carolina pela irmã dela, a perversa Ruth. A Morte não concorda, mas concede uma nova oportunidade a Carolina, ela poderá cometer apenas dois pecados, o terceiro causará a sua morte. Regina Duarte, mais uma vez, conquistaria o público, vivendo a doce Carolina. Nathália Timberg destacou-se no papel da Morte, e Gianfrancesco Guarnieri como o emissário Alexandre. No elenco Maria Izabel de Lizandra, Paulo Goulart, Stênio Garcia, Lílian Lemmertz, Carminha Brandão, Edgard Franco, Yara Lins, Lélia Abramo e Silvio Rocha. Em 1989, a novela ganharia uma nova versão com o título de “O Sexo dos Anjos”.
Em 1968, outro grande épico da televisão brasileira era produzido, “A Muralha”, baseada no romance de Dináh Silveira de Queiroz. Ivani Ribeiro já tinha adaptado a história duas vezes, para a TV Record, que foi ao ar em 1954 e 1958, respectivamente. A TV Excelsior finalmente produziu a novela com o esmero que o texto exigia. A muralha era a serra como obstáculo aos bandeirantes paulistas, que sonhavam em deixar o litoral e conquistar o interior do Brasil colônia do século XVI. Através da família de Dom Braz Olinto, personagens desencadeavam os acontecimentos épicos que levaram à Guerra dos Emboabas. Era a história do Brasil contada com sofisticada produção, sem perder a sua veia novelística. Uma das produções mais caras da década de 1960, contou com um elenco primoroso, em interpretações antológicas, com cenas belíssimas em tomadas externas. Mauro Mendonça e Fernanda Montenegro protagonizavam a trama, que tinha em seu elenco Rosamaria Murtinho, Gianfrancesco Guarnieri, Nathália Timberg, Arlete Montenegro, Edgard Franco, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Maria Izabel de Lizandra, Stênio Garcia, Serafim Gonzalez, Cleyde Blota, Carlos Zara, Cláudio Correa e Castro, Paulo Celestino e Sílvio de Abreu. “A Muralha” foi uma das mais bem acabadas produções da TV Excelsior, numa qualidade de texto que se distanciava anos luz dos dramalhões que Gloria Magadan escrevia na época para a TV Globo. Em 2000, a história foi reeditada, tendo Mauro Mendonça no mesmo papel que vivera em 1968.
Em 1969, em plena época da chegada do homem na Lua, do sucesso de filmes como “2001, Uma Odisséia no Espaço”, foi inevitável que Ivani Ribeiro abordasse o tema. Surgiu “Os Estranhos”, uma novela de ficção científica, que se passava na ilha de um escritor, personagem vivido por Pelé. A ilha era visitada por extraterrestres, homens e mulheres de cor amarela e de rostos brilhantes. Apesar de fugir da realidade das novelas, a trama foi tecnicamente bem feita. Regina Duarte, Rosamaria Murtinho e Cláudio Corrêa e Castro eram os visitantes de outros planetas. Ainda no elenco Carlos Zara, Gianfrancesco Guarnieri, Átila Iório, Vida Alves, Stênio Garcia, Márcia de Windsor, Márcia Real, Serafim Gonzalez, Lídia Costa, Vera Nunes, Osmar Prado, Cleyde Blota, Roberto Maya, Lucy Meirelles e Silvio de Abreu.
Em 1969 a TV Excelsior era abatida por uma grave crise financeira, que resultaria no seu encerramento em 1970. Na fase final da emissora, Ivani Ribeiro escreveu duas tramas ao mesmo tempo, “A Menina do Veleiro Azul”, desenvolvida com o auxílio do marido Dárcio Ferreira e Teixeira Filho, que ia ao ar às 18h00 e 19h00; e, “Dez Vidas”, no ar às 19h30 e 20h00.
Com a crise que assolava a emissora, “A Menina do Veleiro Azul” teve o seu elenco escalado para duas novelas em simultâneo. Contava a história de Glorinha, em duas fases, vivida por Ana Maria Blota na infância, e por Maria Izabel de Lizandra na fase adulta. No elenco Edson França, Henrique Martins, Cleyde Yáconis, Cláudio Corrêa e Castro, Flora Geny, Lílian Lemmertz, Leila Diniz, Newton Prado, Arlete Montenegro, Márcia de Windsor, Cacilda Lanuza, Castro Gonzaga, Ronnie Von, Vera Nunes, João José Pompeu, Edmundo Lopes, Nádia Lippi, Lídia Costa, Serafim Gonzalez e Silvia Leblon. A trama marcava a estréia discreta da atriz Sonia Braga nas telenovelas.
Dez Vidas” foi a última tentativa da TV Excelsior em realizar uma grande produção. Novamente Ivani Ribeiro trazia a história do Brasil para os folhetins televisivos, desta vez contando a história da Inconfidência Mineira, tendo como espinha dorsal o herói Tiradentes, e o triângulo amoroso entre Marília, Dirceu e Carlota. Além dos problemas financeiros pelo qual passava a emissora, a trama teve problemas com a censura militar, que considerava a história de Tiradentes subversiva. A novela teve que mudar de horário e sofreu vários cortes impostos pelos censores. Regina Duarte, que vivia a personagem Pompom, descontente com os salários em atraso, deixou a novela logo no início, indo para a TV Globo, onde se tornaria a Namoradinha do Brasil. Leila Diniz substituiu a atriz. Diante da crise, os atores foram abandonando, aos poucos, a trama, mergulhando-a em um retumbante fracasso. Reza nos bastidores que no final, apenas cinco atores permaneceram no elenco. A TV Excelsior fechava, em 1970, as suas portas, “Dez Vidas” foi a última trama de Ivani Ribeiro naquela emissora. Deixava para trás épicos que ficaram para sempre na história das telenovelas.

De Volta à TV Tupi

Com o fim da TV Excelsior, a TV Globo demitiu Gloria Magadan, reformulou a linguagem das suas novelas, trouxe para o seu elenco os grandes nomes da emissora falida, transformando-se em uma potente produtora de telenovelas. Na nova fase da emissora carioca, Janete Clair firmava-se como grande novelista, conquistando o Brasil com as suas tramas movimentadas.
No mesmo período, Ivani Ribeiro transferiu-se para a TV Tupi, onde iria alcançar uma carreira excepcional. Sua primeira novela na emissora foi “As Bruxas”, em 1970. Mais uma vez a autora inovava no tema, trazendo a psicanálise como pano de fundo da sua trama. Separação de casais, adultério, a mente povoada de “bruxas”, provocando o medo, a angústia. A estréia da autora na TV Tupi bateu de frente com “Irmãos Coragem”, concorrente da TV Globo. A temática sofreu cortes da censura e foi obrigada a ser transmitida mais tarde. No elenco Nathália Timberg, Carlos Zara, Maria Izabel de Lizandra, Lima Duarte, Walter Forster, Cláudio Corrêa e Castro, Walmor Chagas, Débora Duarte, Maria Della Costa, Joana Fomm, Odete Lara, Tony Ramos, Aracy Cardoso, Denis Carvalho, Ivan Mesquita, Lélia Abramo, José Parisi, Patrícia Mayo, Kate Hansen, Juan de Bourbon e Zanoni Ferrite.
No fim de 1970, escreveu “O Meu Pé de Laranja Lima”, baseada na obra homônima de José Mauro de Vasconcelos. História leve e bem conduzida, alcançou um sucesso relativo. Marcava a estréia da atriz Eva Wilma nas tramas de Ivani Ribeiro, parceria que iria render grandes momentos. Ainda no elenco, Haroldo Botta a fazer o menino Zezé, Cláudio Corrêa e Castro, Carlos Zara, Bete Mendes, Gianfrancesco Guarnieri, Lélia Abramo, Silvio Rocha, Denis Carvalho, Nicette Bruno, Fausto Rocha, Annamaria Dias, Henrique Martins e Abrahão Farc.
Em 1971, “Alma Cigana” seria reeditava pela TV Tupi, com o nome de “A Selvagem”. A história foi reeditada para que se firmasse o plágio que Janete Clair foi acusada em “Irmãos Coragem”, com personagem de Glória Menezes a viver personalidades duplas, semelhante a que Ana Rosa tinha vivido em “Alma Cigana”. Sob o argumento de Ivani Ribeiro, a trama foi escrita por Geraldo Vietri e Gian Carlo.
Nossa Filha Gabriela”, tendo Eva Wilma como protagonista, trazia o teatro mambembe de Giuliano (Gianfrancesco Guarnieri). Gabriela, a estrela da companhia, voltava a uma pacata cidade, terra natal da sua mãe. Ali conheceria três simpáticos velhinhos, Candinho (Ivan Mesquita), Romeu (Abrahão Farc) e Napoleão (Cláudio Correa e Castro). No passado, eles tinham se casado com três irmãs gêmeas, sendo uma delas a mãe de Gabriela. O mistério da trama persiste em se descobrir quem seria o pai de Gabriela. No elenco Karin Rodrigues, Ana Rosa, Bete Mendes, Denis Carvalho, Lélia Abramo, Fausto Rocha e Carlos Zara.
Em 1972, Ivani Ribeiro, estreava simultaneamente “O Leopardo”, sob o pseudônimo de Arthur Amorim, para a TV Record, e, “Camomila e Bem-Me-Quer”, para a TV Tupi. “O Leopardo” tinha o texto escrito pelo marido da autora, Dárcio Ferreira e supervisionado por ela. Foi uma tentativa frustrada da TV Record entrar no mercado das telenovelas, tentativa iniciada com “As Pupilas do Senhor Reitor”, em 1970. No elenco Altair Lima, Maria Estela, Rodolfo Mayer, Laura Cardoso, David Neto, Jonas Mello, Silvana Lopes e Márcia Real.
Camomila e Bem-Me-Quer”, trama leve e bem alinhavada, contava a história de Tio Romão (Cláudio Corrêa e Castro), que com o seu chá levava amor e esperança às pessoas. Paralelo, a história adaptava a peça “O Avarento”, de Molière, com Gianfrancesco Guarnieri a fazer o avarento Olegário. No elenco Nicette Bruno, Juca de Oliveira, Maria Izabel de Lizandra, Marcelo Picchi, Tereza Teller, Geraldo Del Rey, Riva Nimitz, Serafim Gonzalez, Liza Vieira, Karin Rodrigues, Aldo César, Edwin Luísi, Carminha Brandão, Silvio Rocha, Jacyra Sampaio e Léa Camargo. Com esta novela agradável e de relativo sucesso, a autora encerrava a fase de estilo leve e bem-sucedida na TV Tupi.

Momentos Antológicos na Teledramaturgia da TV Tupi

Em 1973, Ivani Ribeiro voltaria ao horário nobre da TV Tupi, transformando-o em um forte concorrente da inatingível TV Globo. Revelaria a partir de então uma autora amadurecida e incansável em abordar diversos temas em suas tramas.
A mudança viria com “Mulheres de Areia”, adaptação de uma antiga radionovela da autora, “As Noivas Morrem no Ar”. Contava a história das irmãs gêmeas Ruth e Raquel, que disputavam o amor de Marcos. Eva Wilma interpretou com glamour as gêmeas antagônicas. A partir de então, a atriz foi promovida à primeira estrela da TV Tupi. A novela alcançou um grande sucesso, ameaçando a hegemonia da audiência da TV Globo, que exibia na época a fraca “Cavalo de Aço”. A química entre Eva Wilma e Carlos Zara foi instantânea, transformando-os no par romântico da emissora paulista, competindo com o casal Tarcísio Meira e Glória Menezes da TV Globo. Gianfrancesco Guarnieri comoveu o Brasil interpretando o doente mental Tonho da Lua. Apaixonado por Ruth, o jovem esculpia mulheres na areia das praias de Itanhaém. As esculturas eram feitas por Serafim Gonzalez, que participava da trama como ator. O sucesso respingou não só nos protagonistas, como nos coadjuvantes, entre eles o casal Malu e Alaôr, vividos por Maria Izabel de Lizandra e Antonio Fagundes, respectivamente. “Mulheres de Areia” entrou para a história como uma das telenovelas mais bem-sucedidas, tendo uma segunda versão, em 1993. No elenco Cláudio Corrêa e Castro, Cleyde Yáconis, Lucy Meirelles, Rolando Boldrin, Márcia Maria, Ana Rosa, Maria Estela, Silvio Rocha, Edgard Franco, Henrique Martins e Ivan Mesquita, entre muitos.
Em 1974, a TV Tupi reeditaria “A Indomável”, com o nome de “O Machão”, escrita por Sérgio Jockyman. O sucesso de Antonio Fagundes e Maria Izabel de Lizandra como par romântico em “Mulheres de Areia”, habilitou os dois a protagonizarem a novela, outro grande sucesso da TV Tupi.
Os Inocentes”, adaptação da peça “A Volta da Velha Senhora”, de Durrenmatt, contava a história de Maria Alice (Karin Rodrigues), que quando ficara viúva, fora assediada pelos homens da sua cidade. Ao recusar o assédio, foi difamada e expulsa do lugar, com a sua filha, a pequena Juliana. Apedrejada, Maria Alice ficara cega de um olho. Já adulta e rica, Juliana, interpretada por Cleyde Yáconis, volta à pequena cidade para vingar a mãe. A vingança estender-se-ia não só aos que ultrajaram a sua mãe, como também aos seus descendentes, chamados de inocentes. Ao longo da trama, a autora deixou o roteiro nas mãos do marido, Dárcio Campos, para escrever “A Barba Azul”. “Os Inocentes”, inicialmente feita em preto e branco, passou a ser transmitida, a partir de julho de 1974, em cores. No elenco Rolando Boldrin, Cláudio Corrêa e Castro, Luís Gustavo, Ana Rosa, Maria Estela, Adriano Reys, Tony Ramos, Elaine Cristina, Márcia Maria, Laura Cardoso, Jonas Mello, Serafim Gonzalez, Silvio Rocha e Paulo Figueiredo.
A Barba Azul” marcou a volta da autora ao horário das 19h00. Trazia o casal Eva Wilma e Carlos Zara como protagonistas. Mais uma vez, a química entre os autores colaborou para o sucesso da trama. Mais tarde, os atores tornar-se-iam marido e mulher na vida real. Contava a história de Jô Penteado, mulher que ficara noiva sete vezes, por isto chamada de Barba Azul. Geniosa e mimada, ela embarca em uma excursão escolar à Angra dos Reis, promovida pelo tranqüilo professor Fábio. O barco desvia do seu caminho, indo parar em uma ilha distante. A tripulação é dada como morta. Na ilha Jô e Fábio brigam como cão e gato, iniciando um tumultuado e imprevisível romance. A novela foi um sucesso, tendo direito a uma segunda versão, em 1985, com o nome de “A Gata Comeu”.
Em 1975, Ivani Ribeiro mergulhou no mundo do espiritismo como temática de novela, o resultado foi a bem-sucedida “A Viagem”. Estreada em horário nobre, mostrava a vida após a morte. A história da ciumenta Diná (Eva Wilma), casada com um homem mais jovem, Teo (Tony Ramos). Possessiva, ela destrói o casamento aos poucos. No meio da trama, perde o irmão Alexandre (Ewerton de Castro), que se suicida na prisão. Alexandre vaga como espírito, atormentando aqueles que lhe prejudicou em vida, vingando-se de cada um deles. Entre os que sofrem com o espírito de Alexandre está César Jordão (Altair Lima), advogado que lhe movera o processo. César e Diná apaixonam-se, mas o amor entre os dois é interrompido pela morte do advogado. César volta como espírito para ajudar os filhos, atormentados por Alexandre. No fim da trama, Diná também morre, encontrando-se com César no vale dos espíritos. Complexa, a trama alcançou sucesso de público, sendo transformada em livro. Contava com um elenco luxuoso, além dos citados: Irene Ravache, Elaine Cristina, Cláudio Corrêa e Castro, Rolando Boldrin, Joana Fomm, Adriano Reys, Ana Rosa, Carlos Alberto Riccelli, Carmem Silva, Lúcia Lambertini, Carminha Brandão, Abrahão Farc, Serafim Gonzalez, Yolanda Cardoso, Antonio Pitanga, Ricardo Blat, Suzy Camacho, Neuza Borges, Márcia Maria e Haroldo Botta.

A Última Fase na TV Tupi

Em 1976 Silvio Santos ganhou a concessão de um canal de televisão, a TVS, canal 11, com transmissão apenas para o Rio de Janeiro. O empresário decidiu investir na teledramaturgia, contratando, naquele ano, Ivani Ribeiro. A autora escreveu para a TVS a novela “O Espantalho”. A trama, ambientada em uma pequena cidade litorânea, retratava a luta do prefeito Breno contra o vice-prefeito Rafael, o primeiro tenta preservar as praias da cidade contra a poluição, o segundo, dono do maior hotel do lugar, quer trazer o maior número de turistas, sem se importar com o meio ambiente. Rafael espalha espantalhos pelas praias que Breno interditara, acusando-o de impedir o desenvolvimento da cidade. Ardilosamente, Rafael consegue a renúncia de Breno, assumindo a prefeitura. Como prefeito, ele passa a transmitir desequilíbrio mental, processo desencadeado por um aneurisma cerebral. Nos seus delírios, ele se vê perseguido por espantalhos. Acaba assassinado em uma praia. “O Espantalho” contou com um elenco luxuoso, vindo da TV Globo e da TV Tupi. Jardel Filho protagonizou a trama, tendo ao seu lado Nathália Timberg, Rolando Boldrin, Theresa Amayo, Fábio Cardoso, Hélio Souto, Ester Góes, Eduardo Tornaghi, Carlos Alberto Riccelli, Carmen Monegal, Newton Prado, Walter Stuart, Wanda Kosmo, Percy Aires, Roberto Maya, Reny de Oliveira, Léa Camargo e vários outros. A novela foi lançada em janeiro de 1977, pela TV Record e suas afiliadas, onde Silvio Santos era, na época, acionista. Só estreou no Rio de Janeiro em Junho, através da TVS. Apesar de ter um bom texto e um elenco primoroso, uma produção apurada, a dificuldade em lançar a novela no mercado contribuiu para o seu fracasso de público. A produção passou despercebida em várias partes do Brasil.
Com o fracasso de “O Espantalho”, Silvio Santos desistiu de investir nas telenovelas. Ivani Ribeiro estava presa à TVS por um contrato de quatro anos. Em 1977, Silvio Santos pôs a autora à disposição da TV Tupi, desde que a emissora pagasse o seu salário. A volta à TV Tupi foi triunfante, com “O Profeta”, estreada em 22 de outubro daquele ano. Novamente Ivani Ribeiro abordava o tema da paranormalidade. Vários temas ecumênicos foram tratados ao longo da trama, que se tornou um grande sucesso. É a história de Daniel, um paranormal que vê o passado e o futuro. Em vez de ajudar as pessoas, ele usa o poder em benefício próprio. Torna-se famoso e rico. Envolve-se com Sonia, noiva do amigo Murilo. A novela atingiu o seu clímax quando Daniel previu a morte de Murilo. Acusado de ter provocado a morte do rapaz para ficar com Sonia, Daniel é preso. No final mostra-se atormentado por seus poderes. Amparado por Carola, uma gordinha desengonçada que nutria uma paixão platônica por ele, descobre que só quer viver uma vida de homem simples ao lado dela. Carlos Augusto Strazzer, que vinha de um grande sucesso em “Éramos Seis”, foi promovido a protagonista da emissora, vivendo um dos maiores personagens da sua carreira. Débora Duarte então casada com o cantor Antonio Marcos, rescindiu com a TV Globo, voltando para a TV Tupi após cinco anos na emissora carioca. O motivo foi para que a atriz pudesse ficar em São Paulo, ao lado do marido. A atriz tinha dado à luz à filha Paloma Duarte, o que facilitou a composição de uma personagem gordinha. No fim da novela, Carola aparecia magra e bela. Irene Ravache e David José protagonizaram cenas hilariantes, vivendo o casal Teresa e Armando. A novela chegou a ameaçar a audiência de “O Astro”, de Janete Clair. No elenco Elaine Cristina, Cláudio Corrêa e Castro, Rolando Boldrin, Ana Rosa, Glauce Graieb, Márcia de Windsor, Aldo César, John Herbert, Yolanda Cardoso, Jacques Lagoa, Rildo Gonçalves, Suzy Camacho, Abrahão Farc e Luiz Carlos de Moraes.
Em 1978 Ivani Ribeiro surpreenderia novamente, com “Aritana”, abordando a temática indígena. Conta a história de Aritana, índio filho de um homem branco e de uma índia. Seu tio é um rico fazendeiro, que não quer dividir com a ele as terras que herdou do pai. Vivendo no Xingu, ele parte para a cidade em busca da herança, para garantir a sobrevivência do seu povo e defender as terras, ameaçadas de serem vendidas pelo tio para os americanos. Na cidade, apaixona-se pela bela veterinária Estela. Na sua simplicidade de índio, sofre com o escárnio dos brancos e com a indiferença de Estela. Carlos Alberto Riccelli, com o seu físico loiro, sofreu um profundo processo de caracterização para que se transformasse no índio Aritana, surpreendendo a todos. A novela incomodou fazendeiros, que viam nas reivindicações dos índios uma ameaça, o fato obrigou a TV Tupi a levar ao ar o especial “O Caso Aritana, uma Novela a Parte”. Atores e diretores , os irmãos Villas-Boas e outros órgãos de defesa dos índios, defendiam no especial as idéias da autora. Normalmente a TV Tupi gerava os seus ídolos e a TV Globo os contratava. Em “Aritana” aconteceu o contrário, grandes nomes vieram da emissora carioca. Bruna Lombardi, recém revelada pela TV Globo na novela “Sem Lenço, Sem Documento”, protagonizava a trama de Ivani Ribeiro, o seu encontro com Carlos Alberto Riccelli renderia um casamento que dura até os dias atuais. Carlos Vereza, Jorge Dória, Francisco Milani e Jayme Barcellos, também vieram da TV Globo. Wanda Stefânia, que naquele ano passara com sucesso pela aldeia global, protagonizando a telenovela “Te Contei?”, de Cassiano Gabus Mendes, voltava à TV Tupi. Outra contratação foi a do ator português Tony Correa, que fora revelado em “O Casarão”, em 1976, e um dos protagonistas da novela “Locomotivas”, em 1977, ambas na TV Globo. O luxuoso elenco de “Aritana” contava ainda com Geórgia Gomide, Cleyde Yáconis, Othon Bastos, John Herbert, Márcia Real, Ana Rosa, Maria Estela, Arlete Montenegro, Serafim Gonzalez, Carminha Brandão, Marcos Caruso, Haroldo Botta e Suzy Camacho.
Aritana” foi a última novela de Ivani Ribeiro para a TV Tupi, que entraria em dificuldades financeiras, fechando as suas portas em 1980, depois de agonizar por mais de um ano. No período de agonia da emissora, os sucessos de Ivani Ribeiro foram reprisados para suprir a falta de programação. Estava encerrada a era de ouro da TV Tupi, e a fase de Ivani Ribeiro como autora contundente do horário nobre.

Breve Passagem Pela TV Bandeirantes

Com o fim da TV Tupi, atores, diretores e autores das novelas da emissora foram contratados pela TV Bandeirantes e pela TV Globo. Ivani Ribeiro iniciaria uma nova fase da sua carreira de autora de telenovelas. Contratada pela TV Bandeirantes, viu dois dos seus grandes sucessos reeditados por aquela emissora, em 1980: “A Deusa Vencida”, de 1965, com Elaine Cristina, Roberto Pirillo, Altair Lima (interpretando a mesma personagem que fizera na primeira versão da TV Excelsior), Agnaldo Rayol, Márcia Maria, Neuci Lima, Leonor Lambertini, Neuza Borges, Oscar Felipe e Luiz Carlos Arutin; e, “O Meu Pé de Laranja Lima”, de 1970, com Dionísio Azevedo, Baby Garroux, Fausto Rocha, Regina Braga, Cristina Mullins, Rogério Márcico, Elias Gleizer, Enio Gonçalves, Maria Ferreira, Neuza Borges, Geny Prado e Alexandre Raymundo como o menino Zezé. As reedições das novelas cumpriram a sua função de entretenimento, sem causar grandes audiências.
A grande surpresa de Ivani Ribeiro na TV Bandeirantes foi “Cavalo Amarelo”, deliciosa novela em tom de comédia, que trazia a irreverente Dercy Gonçalves como protagonista. A novela era composta por um elenco vigoroso, com excelentes interpretações de Wanda Stefânia no papel de uma mulher que se vestia de homem para sustentar a família; Yoná Magalhães no seu primeiro encontro com uma trama de Ivani Ribeiro; além das presenças de Fúlvio Stefanini, Rodolfo Mayer, Jorge Dória, Rolando Boldrin, Márcia de Windsor, Kito Junqueira, Aldo César, Newton Prado, Etty Fraser, Carmen Monegal, Caminha Brandão, Maximira Figueiredo, Jacques Lagoa, Arlete Montenegro e Regina Dourado. O sucesso da personagem de Dercy Gonçalves, Dulcinéa, foi imenso, fazendo com que a emissora criasse uma continuação, a novela “Dulcinéa Vai a Guerra”. Ivani Ribeiro recusou-se a escrever a continuação, cabendo a Sérgio Jockyman e Jorge Andrade a escrever a trama.
Em 1981 Ivani Ribeiro escreveu “Os Adolescentes”, tendo como temática os problemas dos jovens na transição para a idade adulta. O tema era pouco explorado na época, com raras exceções para “Dancin’ Days”, novela de Gilberto Braga de 1978. A trama girava em torno de quatro adolescentes, Doca (André de Biasi), um viciado em drogas; Caíto (Flávio Guarnieri), que trazia tendências homossexuais; Majô (Tássia Camargo), apaixonada pelo padrasto; e, Bia (Júlia Lemmertz), que se encontrava grávida. No meio dos jovens transitava o professor Túlio, ex-viciado. O papel foi interpretado pelo ator Kito Junqueira. Roteiro ousado para época, onde a autora abordava com delicadeza temas que envolviam os adolescentes da época. Ivani Ribeiro não terminaria de escrever a novela, depois de um desgaste com a emissora, marcada por desencontros pontuais, a autora foi afastada da trama, sendo substituída por Jorge Andrade. A novela trazia uma série de novos atores que construiriam grandes carreiras, como Giuseppe Oristânio, Júlia Lemmertz, Tássia Camargo, Lília Cabral e André de Biasi. Ainda no elenco, Norma Benguell, Beatriz Segall, Selma Egrei, Márcia de Windsor, Paulo Vilaça, Roberto Maya, Emílio de Biasi, Imara Reis, Hugo Della Santa, Mayara Magri, Sonia Oiticica, Carmem Silva, Fábio Cardoso, Lúcia Mello, Ricardo Graça Mello e Arlete Montenegro.
Ivani Ribeiro encerrava a sua passagem meteórica na TV Bandeirantes, migrando, finalmente, para a poderosa TV Globo, onde permaneceria até a sua morte.

Sucessos e Reedições na TV Globo

Em 1982, Ivani Ribeiro foi contratada pela TV Globo. A grande dama das telenovelas, que na década anterior ameaçara tantas vezes a hegemonia de audiência da emissora, chegava àquela casa modestamente, no horário das 19h00. As limitações do horário não intimidaram a autora. Na sua estréia na emissora carioca trouxe uma história sucinta, bem acabada, com temas leves, mas tratados com maestria. A novela era “Final Feliz”, e seria a última trama inédita da autora. Natália do Valle vivia a geniosa Débora, a sua primeira protagonista, fazendo par romântico José Wilker. A química entre os atores sustentou a personalidade difícil e bombástica das suas personagens, tanto que voltariam a fazer par romântico em “Transas e Caretas”, em 1984. Paralelo à história tumultuada do romance entre Débora e Rodrigo, circulavam personagens interessantes e marcantes, como Mestre Antonio, um pescador nordestino humilde que vinha do nordeste à procura da filha Bartira. A personagem vivida magistralmente por Stênio Garcia, valeu ao ator o prêmio Destaque do Ano e da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte). A empatia entre Mestre Antonio e Rafael, um jovem com deficiência mental, comoveu o Brasil. Rafael é daquelas personagens desprotegidas, carismáticas, que todos querem amparar, típicas do universo de Ivani Ribeiro. A atuação de Irving São Paulo conquistou a autora, que passaria a tê-lo em todas as suas tramas. Última novela da extraordinária atriz Elza Gomes, considerada a mãe de todas as personagens das novelas das décadas de 1970 e 1980. A atriz viveu uma doce, alegre e trambiqueira velhinha, Dona Sinhá, fornecedora de carne de coelho a um restaurante; mas na verdade, ela criava gatos em casa e os vendia como coelhos. Outro momento histórico foi a campanha antitabagismo da autora, defendida na voz de Lucinha, personagem de Cissa Guimarães; numa época em que as fábricas de cigarro faziam grande merchandising nas telenovelas. “Final Feliz” foi uma novela sem pretensões da autora, que não se arriscou em uma trama densa no horário proposto. Não causou impacto na obra da autora, mas cumpriu a função de entretenimento. No elenco Lílian Lemmertz, Lídia Brondi, Walmor Chagas, Milton Moraes, Mirian Pires, Adriano Reys, Buza Ferraz, Roberto Maya, Priscila Camargo, Célia Biar, Lúcia Alves, Wolf Maya, Cininha de Paula, Aracy Cardoso, Angelina Muniz, Enio Santos, Tetê Pritzl, Ney Santana, Eduardo Lago, Oswaldo Louzada, Francisco Milani, Thais de Campos, Patrícia Bueno, José Augusto Branco, Cláudia Magno, Augusto Olímpio e Reny de Oliveira. Visto através do tempo, percebe-se o tanto que a morte já devastou este elenco, deixando uma saudade perene no público.
A partir de 1984, Ivani Ribeiro passou a rever as suas obras, recriando as suas histórias, dando-lhe títulos novos, mudando alguns nomes de personagens e acrescentando outros. Foi o caso de “Amor Com Amor Se Paga”, reedição de “Camomila e Bem-Me-Quer”, sucesso de 1972 da extinta TV Tupi. A novela alcançou um grande sucesso, em parte devido à personagem de Nonô Correia, personagem vivido magistralmente por Ary Fontoura, em um dos momentos mais marcantes da sua carreira. Berta Loran, grande humorista brasileira, fazia uma participação rara em novelas, vivendo Frosina, empregada do avarento Nonô Correia. Os duelos cômicos entre as personagens geraram cenas antológicas. A novela desfilava atores jovens, que pelas mãos de Ivani Ribeiro, firmavam as suas carreiras. Entre as estréias estava a atriz Claudia Ohana, vinda das telas do cinema nacional. Edson Celulari vivia o seu primeiro protagonista. Yoná Magalhães, após cinco anos de ausência, voltava às novelas da TV Globo. Fernando Torres deu o tom exato ao carismático tio Romão. Wanda Stefânia viveu uma sofrida personagem, que se anulou para que o marido formasse, sendo depois desprezada por ele, por não ser uma mulher culta. Flávio Galvão dividiu com a atriz momentos de pura emoção e reflexão da visão feminina de Ivani Ribeiro. O elenco era também composto por Carlos Eduardo Dolabella, Adriano Reys, Caíque Ferreira, Bia Nunes, Oberdan Junior, Milton Moraes, Arlete Salles, Mayara Magri, Matheus Carrieri, Beatriz Lyra, Miguel Falabella, Júlia Lemmertz, Carlos Kroeber, Wanda Cosmo, Paulo César Grande, Chica Xavier, Narjara Turetta, Mário Cardoso, Ana Ariel e Vera Gimenez.
A Gata Comeu”, em 1985, trazia de volta outro grande sucesso da autora, “A Barba Azul”, feita em 1974. Christiane Torloni e Nuno Leal Maia viviam o casal Jô e Fábio, originalmente vividos pela mítica dupla romântica Eva Wilma e Carlos Zara. Revigorada, a história tornou-se um dos maiores sucessos de audiência da década de 1980. O elenco infantil trazia nomes como Danton Mello, Juliana Martins e Oberdan Júnior, que fariam carreiras quando adultos. Ivani Ribeiro conseguia contar, mais uma vez, uma história antiga com a emoção de uma nova. No elenco Bia Seidl, Mauro Mendonça, Cláudio Corrêa e Castro, Eduardo Tornaghi, José Mayer, Deborah Evelyn, Roberto Pirillo, Dirce Migliaccio, Luiz Carlos Arutin, Anilza Leoni, Laerte Morrone, Marilu Bueno, Rogério Fróes, Fátima Freire, Monah Delacy, Aracy Cardoso, Norma Géraldy, Jayme Periard, Mayara Magri, Kleber Macedo, Nina de Pádua, Diana Morell e Germano Filho.
Em 1986 a autora reeditou “Nossa Filha Gabriela”, de 1971, desta vez com o título de “Hipertensão”. Mudou o nome da personagem central, de Gabriela para Carina. Maria Zilda viveu a personagem que outrora fora de Eva Wilma. Cláudio Corrêa e Castro voltou a fazer o mesmo papel que defendera na versão original, o do velho e autoritário Napoleão. Mais uma vez Ivani Ribeiro revelava uma safra de jovens atores que marcavam estréia na trama, entre eles Cláudia Abreu, Carla Marins, Antonio Calloni e Eri Johnson. Ainda no elenco Cláudio Cavalcanti, Elizabeth Savalla, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, José Mayer, Carlos Eduardo Dolabella, Geórgia Gomide, Paulo Betti, Taumaturgo Ferreira, Lúcia Alves, Stênio Garcia, Eloísa Mafalda, Deborah Evelyn, Nelson Xavier, Lília Cabral, Ruy Resende, Oswaldo Louzada, Ida Gomes e Ana Ariel.
Ivani Ribeiro encerrava a década de 1980 com “O Sexo dos Anjos”, em 1989, reedição de “O Terceiro Pecado”, novela da antiga TV Excelsior, feita em 1968. Na primeira versão, a história era ambientada na década de 1920, aqui ela era transportada para o tempo atual. Foi a novela que menos fez sucesso de todas as reedições de Ivani Ribeiro. Em parte por um elenco que não se mostrou apurado com o tema. Bia Seidl esteve sedutora como a Morte, mas longe da criação enraizada de Nathália Timberg. Isabela Garcia viveu com doçura a personagem central, mas sem as nuances da eterna Namoradinha do Brasil, Regina Duarte. Na composição do elenco, Joana Fomm recusou o papel de Vera, sendo substituída por Norma Benguell, fato curioso, pois em 1978 acontecera o contrário, Joana Fomm substituíra Norma Benguell em “Dancin’ Days”, interpretando a vilã Yolanda Pratini. Ainda no elenco Felipe Camargo, Marcos Frota, Caíque Ferreira, Irving São Paulo, Myrian Pérsia, Silvia Buarque, Carla Marins, Paulo Figueiredo, Otávio Muller, Eloísa Mafalda, Stepan Nercessian, Bianca Byngton, Tonico Pereira, Rodolfo Bottino, Emiliano Queiroz, Inês Galvão, Ilva Niño, Cosme dos Santos, Rosana Garcia, Paula Burlamaqui, Leina Krespi, Carlos Kroeber. Enquanto uns chegavam, como Humberto Martins, que fazia a sua estréia, outros partiam, como Lutero Luiz, que se despedia de cena.
Em 1990 Ivani Ribeiro decidiu reeditar aquela que tinha sido o seu maior sucesso, “Mulheres de Areia”. O projeto só foi aprovado pela TV Globo em 1992. Glória Pires foi escalada para viver as gêmeas Ruth e Raquel, personagens que alavancara a carreira de Eva Wilma. A gravidez da atriz atrasou o projeto, e a segunda versão de “Mulheres de Areia” só foi ao ar em 1993. Nesta versão, a autora incorporava à trama “O Espantalho”, com Raul Cortez a fazer o papel originalmente dado a Jardel Filho. Ivani Ribeiro tinha a difícil tarefa de transformar uma trama originalmente feita para ir ao ar mais tarde, em horário nobre, desta vez com formato de novela das 18h00. As limitações do horário não prejudicaram a reedição da novela, que se tornou, pela segunda vez, um dos maiores sucessos da televisão brasileira, e um dos maiores produtos de exportação para o mundo. Na Rússia a novela atingiu índices históricos de audiência, tanto que o governo exibiu o último capítulo no dia de eleições, evitando que os eleitores viajassem no feriado e aumentasse a ida às urnas. Em Portugal a trama pôs a SIC, emissora que havia sido fundada recentemente, na liderança, derrubando a hegemonia da RTP, que jamais se recuperou. Glória Pires viveu um dos momentos mais elogiados da sua carreira e, mais uma vez, Ivani Ribeiro mostrou que podia se reinventar e, o porque de ser uma das maiores novelistas do país. Além de Glória Pires e Raul Cortez, o elenco trazia Guilherme Fontes, Marcos Frota, Suzana Vieira, Laura Cardoso, Vivianne Pasmanter, Paulo Betti, Sebastião Vasconcelos, Humberto Martins, Nicette Bruno, Adriano Reys, Andréa Beltrão, Jonas Bloch, Thaís de Campos, Daniel Dantas, Isadora Ribeiro, Oscar Magrini, Irving São Paulo, Edwin Luísi, Paulo Goulart, Ricardo Blat, Henri Pagnocelli, Eduardo Moscovis, Gabriela Alves, Suely Franco, Denise Milfont, Stepan Nercessian, Lu Mendonça, além de Carlos Zara, que participara da versão original.
Com o triunfo de “Mulheres de Areia”, Ivani Ribeiro reeditou outro grande sucesso do antigo horário nobre da TV Tupi, “A Viagem”, desta vez indo ao ar à 19h00. A vida após a morte voltava a ser tema, e o sucesso da novela foi garantido. Christiane Torloni viveu Diná, mais uma vez tomando para si uma personagem que pertencera a Eva Wilma. A maturidade da atriz garantiu-lhe uma interpretação límpida, sincera e expressiva. Antonio Fagundes, que na versão de 1975 recusara o papel de Alexandre, voltava ao universo de Ivani Ribeiro, interpretando César Jordão, aqui com o nome alterado para Otávio Jordão. A inflexibilidade expressiva de Maurício Mattar no papel de Teo não garantiu o carisma alcançado por Tony Ramos na versão anterior. Momento de emoção conseguida pela figura misteriosa do Mascarado, interpretado por Breno Moroni, homem que escondia o rosto deformado atrás de uma máscara de Pierrô, personagem ícone do universo da autora. No elenco Guilherme Fontes, Yara Cortes, Cláudio Cavalcanti, Lucinha Lins, Ary Fontoura, Nair Bello, Laura Cardoso, Thaís de Campos, Lolita Rodrigues, Suzy Rêgo, Miguel Falabella, Jonas Bloch, Andréa Beltrão, John Herbert, Denise Del Vecchio, Felipe Martins, Jayme Periard, Tânia Scher, Eduardo Galvão, Irving São Paulo, Mara Carvalho, Mara Manzan, Fernanda Rodrigues, Ricardo Petráglia, Myrian Pérsia, Cláudio Mamberti, Maria Alves, Solange Couto, Gésio Amadeu, Jorge Pontual, Lafayette Galvão, Mylla Christie, Daniel Ávila, Roberta Índio do Brasil e Danton Mello.
Com “A Viagem”, Ivani Ribeiro despedia-se do seu público. Em 1995, bastante afetada pela diabetes, que lhe trazia dificuldades em enxergar, foi internada com insuficiência renal provocada pela doença. No período de internação, perdeu o marido, Dárcio Ferreira, companheiro de toda a vida. A autora jamais soube da perda, vinte dias depois da morte do marido, em 17 de julho de 1995, veio a falecer, fazendo a sua própria viagem.
Ivani Ribeiro legou uma das mais extensas obras da teledramaturgia brasileira, repleta êxitos e grandes sucessos. Deixou duas obras inéditas, sendo uma delas o roteiro de “Caminho dos Ventos”, que foi ao ar postumamente, em 1996 com o nome de “Quem É Você?”, escrita inicialmente por sua assistente, Solange Castro Neves, e concluída por Lauro César Muniz. A novela protagonizada por Elizabeth Savalla, Alexandre Borges, Cássia Kiss, Francisco Cuoco e Paulo Gorgulho, foi um fracasso de audiência. Faltou a mão de Ivani Ribeiro. Outra obra inédita, “O Sarau”, minissérie de doze capítulos, inspirada em obras de Machado de Assis, continua arquivada, sem ser produzida.
Em 1998 a TV Bandeirantes levou ao ar a terceira versão de “O Meu Pé de Laranja Lima”, adaptada por Ana Maria Moretzsohn, com Gianfrancesco Guarnieri, Caio Romei, Regiane Alves, Flávia Pucci, Leonardo Medeiros, Lu Grimaldi, Karla Muga e outros no elenco. Em 2006 Thelma Guedes e Duca Rachid adaptaram “O Profeta”. A novela perdeu a essência do universo de Ivani Ribeiro, sem o glamour que teve em 1977, quando foi levada ao ar em horário nobre pela TV Tupi. Ivani Ribeiro, mesmo não tendo sido escalada jamais para escrever uma novela para o horário nobre da TV Globo, garantiu por mais de uma década, grandes sucessos para a emissora. Seu nome está para sempre escrito em letras douradas na história das telenovelas brasileiras.

OBRAS:

Telenovelas

1954 – A Muralha (TV Record)
1958 – A Muralha (TV Tupi)
1959 – Desce o Pano (TV Record)
1962 – A Muralha (TV Cultura)
1963/1964 – Corações em Conflito (TV Excelsior)
1964 – Alma Cigana (TV Tupi)
1964 – Ambição (TV Excelsior)
1964 – A Gata (TV Tupi)
1964 – A Moça Que Veio de Longe (TV Excelsior)
1964 – Se o Mar Contasse (TV Tupi)
1964 – A Outra Face de Anita (TV Excelsior)
1965 – Onde Nasce a Ilusão (TV Excelsior)
1965 – A Indomável (TV Excelsior)
1965 – Vidas Cruzadas (TV Excelsior)
1965 – A Deusa Vencida (TV Excelsior)
1965 – A Grande Viagem (TV Excelsior)
1966 – Almas de Pedra (TV Excelsior)
1966 – Anjo Marcado (TV Excelsior)
1966/1967 – As Minas de Prata (TV Excelsior)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1968 – O Terceiro Pecado (TV Excelsior)
1968/1969 – A Muralha (TV Excelsior)
1969 – Os Estranhos (TV Excelsior)
1969 – A Menina do Veleiro Azul (TV Excelsior)
1969/1970 – Dez Vidas (TV Excelsior)
1970 – As Bruxas (TV Tupi)
1970/1971 – O Meu Pé de Laranja Lima (TV Tupi)
1971 – A Selvagem (argumento – TV Tupi)
1971/1972 – Nossa Filha Gabriela (TV Tupi)
1972 – O Leopardo (TV Record)
1972/1973 – Camomila e Bem-Me-Quer (TV Tupi)
1973/1974 – Mulheres de Areia (TV Tupi)
1974/1975 – O Machão (argumento – TV Tupi)
1974 – Os Inocentes (TV Tupi)
1974/1975 – A Barba Azul (TV Tupi)
1975/1976 – A Viagem (TV Tupi)
1977 – O Espantalho (TVS – TV Record)
1977/1978 – O Profeta (TV Tupi)
1978/1979 – Aritana (TV Tupi)
1980 – A Deusa Vencida (2ª versão – TV Bandeirantes)
1980 – Cavalo Amarelo (TV Bandeirantes)
1980/1981 – O Meu Pé de Laranja Lima (2ª Versão – TV Bandeirantes)
1981/1982 – Os Adolescentes (TV Bandeirantes)
1982/1983 – Final Feliz (TV Globo)
1984 – Amor Com Amor Se Paga (TV Globo)
1985 – A Gata Comeu (TV Globo)
1986/1987 – Hipertensão (TV Globo)
1989/1990 – O Sexo dos Anjos (TV Globo)
1993 – Mulheres de Areia (2 ª Versão – TV Globo)
1994 – A Viagem (2ª Versão – TV Globo)
1996 – Quem É Você? (Argumento – TV Globo)
1998 – O Meu Pé de Laranja Lima (3ª versão – TV Bandeirantes)
2006/2007 – O Profeta (Versão escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes – TV Globo)

Séries e Teleteatros

1952 – Os Eternos Apaixonados (TV Tupi)
1960 – Teleteatro 9


A ABERTURA POLÍTICA E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

fevereiro 15, 2010

A abertura política do regime militar, lenta e gradual, atingiu a todos os setores das artes, onde a censura imperou com mão de ferro por mais de uma década. Televisão, cinema, teatro, música, jornais, livros; todos sofreram com a falta de liberdade de expressão, sendo obrigados a encontrar soluções através do que se podia escrever, editar e mostrar visualmente.
Em 1978, após um longo inverno, a abertura política começa a florir no Brasil. O Ato Institucional número (AI-5) foi revogado. Apesar de deixar de vigorar apenas no dia 1 de janeiro de 1979, já no ano da sua revogação se sentia o efeito de não se viver sob ele, e conseqüentemente, o amenizar da censura.
No período da abertura à queda do regime militar, findado em 1985, o Brasil assistiu a uma nova proposta de linguagem dos meios de comunicação. Cenas do cotidiano, tantas vezes dissimuladas pelas telenovelas, passaram a discutir temas tabus como a complexidade das relações entre os casais, a sexualidade e as questões políticas. A crítica política tomou conta dos programas humorísticos, tornando-se a sua principal veia cômica.
O cinema brasileiro voltou a respirar, encerrando a fase das pornochanchadas, procurando a sua identidade dentro do país e do mundo. Timidamente, produziu alguns filmes de conotação política, como “Pra Frente Brasil“, vetado pela censura em 1982, mas logo liberado pelos ventos da abertura, que já não podia ser obstruída.
Os jornais deixaram de emitir tarjas às matérias censuradas, publicando-as na íntegra. As revistas de informação começaram a publicar reportagens de denúncia. A abertura refletiu-se também na moralidade hipócrita da nação, defendida pelo regime militar através da censura. A pornografia, a partir de 1980, foi permitida, sendo a sua liberação mais ligeira do que a de temas políticos. Revistas de sexo explícito inundaram as bancas, postas à venda ao lado dos jornais dos partidos clandestinos da esquerda, entre eles o “Hora do Povo”, do MR-8. Era a nova linguagem da comunicação brasileira, que explodia como um vulcão, após anos de liberdade reprimida. Incipiente, procurava respirar uma identidade de comunicação. Da liberdade política à pornografia, a abertura começou, finalmente a ser identificada pelos meios de comunicação e pelos brasileiros, sobreviventes ao furacão de 1964.

A Abertura e os Programas Humorísticos

Em 1978, o público brasileiro surpreendeu-se com a nova linguagem do programa humorístico “Planeta dos Homens”, da TV Globo. Os quadros apresentados deixaram de usar metáforas para satirizar os políticos, fazendo-o de forma mais direta. A pergunta era, “já se pode falar?”. Eram os primeiros ecos da abertura política, desenhada desde 1976 pelo governo Geisel, e que finalmente, começava a se fazer presente.
Quando da implantação do regime militar, em 1964, a televisão era um meio de comunicação sem influência sobre as grandes massas populares. Poucos tinham acesso aos aparelhos retransmissores. Na época da abertura, tornara-se o meio de comunicação mais consumido pelo povo brasileiro. Dentro das emissoras, era preciso encontrar a nova linguagem proposta pela abertura e pela censura amenizada, para que não fossem atropeladas pelo comboio da história.
Os programas humorísticos foram os primeiros a abraçar àquela liberdade que se vislumbrava. Adaptaram para a pequena tela a linguagem da sátira política dos antigos teatros de revista; que consistia em assimilar instantaneamente os acontecimentos políticos e jornalísticos. O “Planeta dos Homens”, programa que substituiu, em 1976, a série norte-americana “O Planeta dos Macacos”, trazia em seu elenco Jô Soares e Agildo Ribeiro. Sua mascote era o macaco Sócrates, uma alusão ao filósofo grego. Sócrates fazia perguntas indiscretas, de cunho político, e que impossibilitadas pela censura de serem respondidas, ele lançava o bordão “Não precisa explicar, eu só queria entender”. Sob as garras da censura, um quadro “Gandola”, em que Jô Soares procurava um bom emprego, exigindo um bom cargo, pois tinha sido enviado pelo Gandola, satirizava o nepotismo do regime. A palavra gandola, uma peça de vestuário, usada pelos militares em substituição ao capote, passou despercebida pela censura. Quando descoberto o ardil, Gandola foi substituído pelo “Bochecha”.
Já em 1979, a mão da censura não tinha tanto poder diante do processo de abertura, e a sátira política tornou-se a essência dos programas humorísticos. Na temporada do “Planeta dos Homens” daquele ano, Jô Soares vivia o doutor Sardinha, que diante de uma melancia, perguntava quem produzira um chuchu tão grande. Era uma alusão clara ao então ministro Delfim Neto, empossado na pasta da agricultura. Tido como um homem das finanças, Delfim Neto, renomado economista da época do “Milagre Brasileiro”, era tido como incapaz no ministério da agricultura. No final do quadro, o doutor Sardinha anunciava: “Meu negócio é número”. Era a ditadura e os seus homens a ser abertamente criticada. O “Planeta dos Homens” foi ao ar até 1980, sendo substituído, em 1981, por “Viva o Gordo”, tendo Jô Soares na frente do elenco.
Outro programa humorístico de sucesso era “Chico City”, do genial Chico Anýsio. Em 1979 o general João Batista Figueiredo subiu ao poder, sendo o último presidente da ditadura militar. Chico Anýsio criou Salomé, ex-professora de infância do presidente. Salomé de Passo Fundo, cidade natal do general, tinha uma linha telefônica direta com o presidente. Com o seu humor sagaz, mordaz e inteligente, satirizava o presidente e os seus colaboradores. Nunca o regime militar foi tão diretamente criticado. Salomé tornou-se um dos maiores sucessos de público de Chico Anýsio. O bordão final, “Ou eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”, alusão às personagens bíblicas homônimas, virou palavra de ordem nacional. Salomé conquistou até mesmo o presidente satirizado. Nas festas de fim de ano de 1979, Chico Anýsio foi convidado para representar Salomé no Palácio do Planalto, assistido pelo presidente e os seus parlamentares, diante de Salomé, a ditadura ria de si mesma.
Em 1981, “Viva o Gordo” voltava a satirizar a ditadura, na figura do Reizinho (presidente João Batista) e do seu eminente (Golbery). A oposição acusava o presidente de obtuso, sendo manipulado pelo temível ministro militar Golbery do Couto e Silva. Na figura do Reizinho, o povo ria dessa manipulação. A crítica política dos programas humorísticos durante a abertura, serviu para mostrar o desgaste de um regime que ruía, e que o povo e a arte já não podiam ser calados.

A Abertura e as Telenovelas

A abertura refletiu nas telenovelas através do ponto de vista moral da sociedade brasileira, que tinham temas tabus reprimidos pela censura. Até então, as personagens dos folhetins da televisão não podiam, em horário nobre, ter amantes, apaixonar-se por outra se fosse casado, falar em divórcio ou em sexo, ter crianças rebeldes, ou expressar qualquer posição política. Certos assuntos que pudessem oferecer perigo à moral estabelecida pela burguesia que sustentava a ditadura, poderiam ser falados com moderação, no horário das 22h00.
Em 1978, tão logo soprou a abertura, Dias Gomes retratou na telenovela “Sinal de Alerta”, temas políticos em evidência, como o ressurgimento dos movimentos sindicais, a rebelião dos operários contra a fábrica que poluía o seu bairro. O dramaturgo deixara as metáforas usadas em “O Bem Amado” (1973), para falar, pela primeira vez, das cicatrizes do Brasil.
Quanto à moral estética, a novela “O Astro”, de Janete Clair, exibiria no fim de 1977 o primeiro nu masculino da televisão. Tony Ramos, vivendo o rebelde Márcio Hayalla, em um protesto contra o dinheiro e o poderio do pai, Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo), protagonizou a cena. Era simples, com Márcio, uma espécie de São Francisco moderno, renunciando a todos os bens diante da família, inclusive as roupas. O rapaz despe-se, sai de casa, quando é amparado pelo jardineiro, que lhe põe uma capa velha em cima do corpo nu. A cena foi feita ao longe, ainda tímida diante do que se iria tornar a nudez dos atores nos tempos atuais. A cena escandalizou os moralistas, mas foi aplaudida por uma população que já se despia dos preconceitos. Até então, a cena de nudez mais audaciosa tinha acontecido fora do horário nobre, em “Gabriela”, às 22h00, em 1975, onde o casal vivido por Cidinha Milan e Pedro Paulo Rangel, vestindo uma roupa cor da pele, corriam pelas ruas da cidade, após serem apanhados pelo coronel mantenedor da moça. Mostrar o corpo nu na televisão, era impensável na época mais dura da ditadura militar.
Em 1979, iniciou-se o processo da quebra dos tabus sociais. Já era possível falar de sexo. O seriado “Malu Mulher” foi o pioneiro em dar sexualidade às heroínas da televisão. A virginal Namoradinha do Brasil, Regina Duarte, transformava-se em uma revolucionária feminista. Questões abominadas pela moral do regime, eram temas constantes. Malu, mulher separada e com uma filha pré-adolescente para criar, deparava-se com problemas existenciais à volta: a primeira menstruação da filha; o homossexualismo; as primeiras relações sexuais com outros parceiros após o divórcio; o uso de anticoncepcionais, que tiravam da mulher a função reprodutiva e possibilitava-lhe o sexo como forma de prazer. Assuntos vistos atualmente, como corriqueiros, mas que sem a abertura do regime moralista militar, jamais seria possível de se falar. Para culminar a ousadia de desafio à censura agonizante, Malu simulou o primeiro orgasmo feminino a ir ao ar. Ainda debaixo da abertura, em 1980, Débora Duarte, vivendo Catucha, na novela “Coração Alado”, de Janete Clair, simulava o primeiro orgasmo feminino em horário nobre.
Temas políticos chegaram lentamente às telenovelas. Em 1978, “Aritana”, de Ivany Ribeiro, realizada pela extinta TV Tupi, debatia a questão indígena e a tomada das suas terras. Em 1983, Janete Clair ensaiou uma visita ao mundo da política, em “Eu Prometo”, tratando a temática de forma superficial.
Enquanto as novelas evitavam temas políticos, as séries e seriados eram mais audaciosos. Em 1982, “Lampião e Maria Bonita”, contava parte da história do nordeste brasileiro. “Bandidos da Falange” (1983), mostrava pela primeira vez na televisão, o submundo do crime. O seriado símbolo da abertura foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes. O autor, em 1980, ressuscitou Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), morto na novela original, em 1973. Trouxe de volta os personagens originais, transformando a trama em um seriado de sucesso, que iria perdurar por quatro anos. Durante a existência do seriado, Dias Gomes um dos maiores perseguidos pela censura, pôde finalmente, de forma clara, criticar e ironizar a ditadura militar.
A religião era outro tabu para o regime militar. Qualquer tema que parecesse ofensivo à ala conservadora da igreja católica, era proibido. Não poderiam ter padres a quebrar o voto de castidade, tão pouco pertencerem à Teologia da Libertação. Outras religiões, como o espiritismo e o candomblé, eram retratadas de forma abstrata, sem profundidades. As senhoras de rosários nas mãos que promoveram passeatas de milhares de pessoas pelas ruas, em 1964, apoiando o golpe militar, eram católicas fervorosas e abominavam as outras religiões. A moralidade beata da família conservadora, sustentou a ditadura e impediu a retratação das mudanças sociais através dos meios de cultura e comunicação. Somente com a abertura, outras religiões puderam vir à tona nos seriados, séries e telenovelas.

Abertura e o Cinema Nacional

Após o AI-5, o cinema brasileiro passaria por profundas crises e cerceamento ideológicos. A partir de 1968, o Cinema Novo entraria no seu terceiro momento, voltando-se para as projeções alegóricas do Brasil real. Fazem parte desse ciclo “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha; “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; e, “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra.
A censura e a repressão deram origem ao cinema “udigrudi”, ou cinema underground, marginal. Mas a contracultura no cinema não deixou muitas produções, destacando-se “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969), de Júlio Bressane; e, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla.
Foram as pornochanchadas que garantiram a sobrevivência do cinema nacional durante o período mais negro do regime militar. As pornochanchadas eram assim chamadas por ser um gênero de comédia picante que lembravam as chanchadas da Atlântida dos anos 1940 e 1950, e devido ao erotismo que continham. Não tinham cenas pornográficas, mas eram consideradas pelo rígido moralismo como tais. Continham cenas de nudez parcial, que vistas através do tempo, parecem ingênuas. Construiu grandes mitos e estrelas, como Vera Fischer e David Cardoso. Grandes nomes da dramaturgia brasileira passaram pelas pornochanchadas, entre eles Juca de Oliveira, Reginaldo Faria, Nuno Leal Maia, Antonio Fagundes, Sandra Bréa, Marieta Severo, Nádia Lippi e Sônia Braga.
Com a abertura política, filmes internacionais que tinham sido proibidos pela censura, estrearam com sucesso em 1980, sendo eles “Emmanuelle” (1974), de Just Jaeckin, que revelara Sylvia Kristel ao mundo; “O Último Tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando; e, “O Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima. A estréia dos filmes no Brasil gerou polêmica e expectativa do que viria.
Diante das produções eróticas internacionais, as pornochanchadas tiveram que se adaptar às mudanças, fazendo filmes de cenas de teor erótico mais acentuado, mostrando a nudez total dos atores. A nova e final fase do gênero, gerou estrelas como Aldine Muller, Helena Ramos e Zaira Bueno.
Em 1982, os filmes pornográficos de alto escalão foram liberados, com a estréia de “Garganta Profunda” (Deep Throat, 1972), de Gerard Damiano, estrelado pela atriz pornô Linda Lovelace. No Brasil, estreava naquele ano, “Coisas Eróticas”, de Laente Calicchio e Raffaele Rossi, primeiro filme nacional do gênero. Para que se distinguisse da pornochanchada, passou a ser chamado de filme de sexo explícito. As velhas pornochanchadas não resistiram, e o gênero foi extinto. Curiosamente, os cinemas encheram para ver a estréia de “Coisas Eróticas”; populares, intelectuais, críticos, estudantes, políticos, todos foram ver como o brasileiro fazia sexo no cinema.
Com a abertura, o teor erótico foi amplamente explorado pelo cinema nacional não somente nas pornochanchadas, mas pelo chamado cinema sério, ou de arte. Um exemplo foi “A Dama do Lotação”, em 1978, de Neville de Almeida. Baseado em uma história de Nelson Rodrigues, o filme protagonizado por Sônia Braga, trazia um erotismo insinuante, pulsante e intenso. Seguiram o estilo: “Eu Te Amo” (1981), de Arnaldo Jabor; “Eros, Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Engraçadinha” (1981), de Haroldo Marinho Barbosa, com Lucélia Santos.
Dentro do contexto político social, a abertura trouxe ao cinema momentos raros, mas definitivos. “Pixote, A Lei do Mais Fraco” (1981), de Hector Babenco, relatava um problema que ainda persiste nos tempos atuais, os menores de rua. “Bye Bye Brasil” (1979), de Cacá Diegues, mostrava um Brasil pobre e de grandes contrastes, visto através das aventuras de uma trupe de atores mambembes. “Eles Não Usam Black Tie” (1981), de Leon Hirszman, baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, trazia para a grande tela os movimentos grevistas sindicais, as divergências ideológicas dentro da própria família.
O filme que mais incomodou a ditadura militar durante o processo de abertura foi “Pra Frente Brasil” (1982), de Roberto Faria. Filme denúncia, que mostrava o Brasil de 1970, em plena euforia da Copa do Mundo de Futebol, no México, quando a seleção brasileira tornou-se tricampeã mundial. Paralelo às festas nas ruas, nos porões a ditadura torturava e matava. Conta a história de Jofre (Reginaldo Faria), confundido pela polícia repressora como um ativista de esquerda, sendo preso, torturado e morto. À procura de notícias do irmão, Miguel (Antonio Fagundes), um pacato cidadão, envolve-se com a esquerda armada. O filme tocava numa grande ferida que a ditadura militar tentava esquecer, e, que negara por anos, a tortura. O filme, programado para estrear durante a Copa do Mundo de Futebol de 1982, sofreu o embargo da censura. A repercussão negativa da proibição, fez com que o desmoralizado regime o liberasse meses depois, em 1983. “Pra Frente Brasil” era só a primeira página de uma história que começaria a ser contada, sem jamais chegar ao capítulo final.

Outros Veículos de Comunicação

O teatro, massacrado em sua essência durante a ditadura militar, voltou a florir com a abertura. No período das trevas, Plínio Marcos foi o dramaturgo mais perseguido. Considerado um autor maldito, suas peças só voltaram a ser encenadas após a abertura, nos anos 1980.
Calabar: O Elogio à Traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, proibida em 1973, pôde finalmente ser encenada, em 1980. A abertura permitiu que se encenasse, sem problemas com a censura, em 1979, a mítica “Ópera do Malandro”, mordaz crítica à ditadura do Estado Novo, e que se refletia à repressão do regime militar.
A abertura pôs fim às censuras aos jornais e às revistas. Com maior liberdade, a notícia passou a ser mais confiável. Jornais de esquerda voltaram a ser impressos, tornando-se porta-voz dos partidos comunistas clandestinos. Assim, “Voz da Unidade” era o órgão oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB); “Hora do Povo” do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); “Tribuna da Luta Operária” do Partido Comunista do Brasil (PC do B); havendo ainda, a “Tribuna da Imprensa”; e, “Tribuna de Vitória”. De todos os jornais de esquerda que surgiram, o “Hora do Povo” foi o que mais incomodou. Escrito de forma popular, o órgão do MR-8 era vendido pelos militantes, em brigadas pelos centros de São Paulo e outras grandes cidades do país. A ala radical do regime militar, contrária à abertura, passou a explodir com bombas, as bancas de revistas que vendiam os jornais de esquerda. Os ataques aconteceram com intensidade, de abril a setembro de 1980, obrigando alguns jornais a fechar as portas. No dia 30 de maio de 1980, duas dessas bombas explodiram na sede do “Hora do Povo”, em São Paulo.
Voltando à abertura estética, as principais revistas masculinas do país, “Status”, “Playboy” e “Ele & Ela”, puderam exibir nas suas páginas, o nu frontal das celebridades fotografadas. Antes, a nudez, assim como no cinema, só era exibida parcialmente. O nu frontal chegou em 1980. Com liberdade plena na execução dos ensaios fotográficos, estrelas constantes das páginas dessas revistas, como Sonia Braga e Sandra Bréa, voltaram em novas edições, mostrando pela primeira vez, seus pêlos pubianos.
A partir de 1980, as revistas de fotos pornográficas, antes importadas, passaram a ser produzidas e vendidas livremente nas bancas. Numa mesma banca, encontravam-se os símbolos dos novos tempos propostos pela abertura: os jornais de esquerda, as revistas pornográficas, os jornais sem censura e as revistas masculinas com os seus modelos totalmente despidos. Liberdade política, erotismo e pornografia eram oferecidas no mesmo prato, uma tática da ditadura para confundir a população, e atrair de volta o apoio dos moralistas e conservadores. Muitos chegaram a ficar assustados com a quebra repentina de costumes e de tabus. Alguns chegaram a clamar pela volta da censura moral. Mas, com o tempo, as novidades foram assimiladas, e o desejo de liberdade falou mais alto. A abertura política do regime militar era irreversível, assim como o seu fim.


QUANDO AS CORES CHEGARAM À TELEVISÃO BRASILEIRA

janeiro 26, 2010

Em plena era digital, a televisão apresenta uma qualidade de imagem cada vez mais perfeita, deixando os caixotes originais para adquirir telas gigantes, semelhando-se cada vez mais ao grande ecrã dos cinemas.
Mas nem sempre a tecnologia das imagens televisavas foi tão perfeita. Desde que foi lançada na década de 1920, que vem sendo aprimorada década a década. O aparelho que revolucionou o mundo, mudou o hábito das famílias, foi criada em um tubo iconoscópico, preso a um grande caixote em volta, com imagens precárias transmitidas em preto e branco.
Na década de 1950 surgiram os primeiros aparelhos em cores no mundo. No Brasil, que teve a televisão instaurada em 1950, o sistema de transmissão colorida só chegaria oficialmente em 1972. Uma transmissão singela da festa da uva, feita a partir de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, no dia 19 de fevereiro daquele ano, inundaria de cores os olhos dos telespectadores brasileiros.
A passagem da transmissão em preto e branco para o sistema em cores foi feita gradualmente, levando quase uma década para ser concretizada. Ainda na década de 1980, encontravam-se aparelhos de televisores em preto e branco à venda nas lojas brasileiras de eletrodomésticos.
As telenovelas, principal produto de consumo de massas da televisão brasileira, também passaram por um longo período de adaptação à tecnologia em cores, até que pudessem se adequar à novidade. A primeira novela totalmente colorida foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes, levada ao ar em 1973. Quando as imagens da novela são vistas através do tempo, percebe-se o desequilíbrio entre os cenários, as luzes, as cores dos figurinos dos atores. Inaugurada por uma imposição não só tecnológica, mas por uma lei do governo, em 1971, a televisão em cores foi aos poucos, invadindo as programações de todas as emissoras brasileiras da época. A imagem em preto e branco só deixaria o cenário televisivo em 1977. Como numa saga, mais tempo se levou para colorir de vez a televisão do que a evolução da internet e da criação da tv digital. Ao contar a história do momento em que a imagem passou a ser transmitida em cores, parece ser banal nos dias de hoje, mas não deixa de ser uma página da história do aparelho que dominou o mundo, transformou os hábitos, sincronizando um novo conceito de reunião familiar e de manutenção do clã.

Surge a Televisão

A primeira manifestação do que seria a atual televisão, foi feita em 1923, quando o russo naturalizado norte-americano, Vladimir Zworykin, registrou a patente do tubo iconoscópico, o que possibilitou a criação da televisão eletrônica. Em fevereiro de 1924, foi apresentado em Londres um sistema mecânico de televisão analógica. As imagens em movimento foram demonstradas na data histórica de 30 de outubro de 1925. Mas um sistema completo foi somente demonstrado em 1927, por John Logie Bairde e Philo Taylor Farnsworth. Em 11 de maio de 1928, foi apresentado o primeiro serviço analógico do mundo, a WGY, em Nova York. Às vésperas da grande depressão de 1929, a recém-nascida televisão tornou-se o eletrodoméstico das abastardas famílias americanas da era do jazz.
Os aparelhos originais eram rústicos, sendo aprimorados na Alemanha nazista, que em 1935 passou a transmitir um serviço de alta definição. No ano seguinte, em 1936, era realizada a primeira grande transmissão, a dos Jogos Olímpicos de Berlim. A explosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, atrasaria a evolução tecnológica da televisão em quase uma década, só voltando a expandir com esplendor, após o fim da guerra.
A televisão em cores só passou a ser transmitida regularmente em 1954, nos Estados Unidos, pela rede NBC. Mas as primeiras imagens coloridas foram realizadas em 1929, em Nova York, por Herbert Eugene, com 50 linhas de definição por fio. Peter Goldmark aperfeiçoou o invento, fazendo demonstrações em 1940, com 343 linhas. Na década de 1950, foi criado nos Estados Unidos, o National Television System Committee, ou National Television Standards Committee (NTSC), para pôr fim ao sistema de imagens em preto e branco. As iniciais NTSC, deram nome ao novo sistema. Estava inaugurada a televisão em cores no mundo.

A Caixa Mágica Chega ao Brasil

A televisão só chegaria ao Brasil em 1950, trazida pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Todos os equipamentos para que se inaugurasse a televisão, foram importados dos Estados Unidos, chegando ao porto de Santos em 25 de março daquele ano. Em 10 de setembro, foi realizada em caráter experimental, a transmissão de um filme, onde o ex-presidente Getúlio Vargas anunciava a sua volta à política. Em 18 de setembro, foi oficialmente inaugurada a televisão no Brasil, através da TV Tupi, canal 3 de São Paulo (PRF-3 TV). As imagens eram geradas a partir da Rua 7 de Abril, no centro da Paulicéia. Assis Chateaubriand espalhou em lugares estratégicos de São Paulo, duzentos aparelhos de televisão. Uma criança de cinco anos de idade anunciava: “Está no ar a televisão no Brasil”.
A TV Tupi, primeiro canal de televisão, trazia o logotipo de um pequeno índio. As primeiras programações, assistidas por poucos brasileiros que tinham um aparelho retransmissor, eram feitas ao vivo, de improviso, longe da descoberta do vídeo-tape. Entre acertos e erros, a tecnologia foi aprimorando-se aos poucos. O número de televisores era restrito, visto que não eram aqui fabricados, sendo todos importados por um valor exorbitante.
Quatro meses depois da implantação da televisão no Brasil, em janeiro de 1951, Assis Chateaubriand, inaugurou o segundo canal do país, a TV Tupi do Rio de Janeiro, canal 6, sendo cada canal independente um do outro, com programações específicas. Em março de1952, surgiria a TV Paulista, canal 5 de São Paulo. Em setembro de 1953, era inaugurada a TV Record, canal 7 de São Paulo. A década de 1950 foi encerrada com três canais em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Dos quatro, só a TV Record persistiria até os tempos atuais.

As Primeiras Emissoras de TV no Brasil

Somente em 1960, surgiria uma nova emissora, a TV Excelsior, canal 9 de São Paulo. Inaugurada em 9 de julho daquele ano, ela pertencia às Organizações Victor Costa, donas da Rádio Excelsior e da TV Paulista. No mesmo ano, em setembro, Assis Chateaubriand e os seus Diários Associados, inauguravam a TV Cultura, canal 2 de São Paulo. Na época, era permitido por lei um mesmo grupo ter mais de um canal. A TV Cultura seria adquirida no fim da década de 1960, pela Fundação Padre Anchieta, sendo reinaugurada em 1969.
O surgimento da TV Excelsior proporcionou um grande desenvolvimento na programação da televisão brasileira. Fugindo aos famosos teleteatros, a emissora inovou as atrações, introduzindo programas humorísticos, musicais e de auditórios. Foi a pioneira em transmitir uma programação horizontal, que transmitia o mesmo programa na mesma hora todos os dias, e a programação vertical, em que a atração sucedia à outra, criando assim, um público fiel. A emissora conseguiu, em seis meses, alcançar a maior audiência em São Paulo. Em 1963, ao comprar a concessão do canal 2 do Rio de Janeiro, começou a implantar o conceito de televisão no Brasil, que perduraria até os dias atuais. A TV Excelsior passou a usar a tecnologia do vídeo-tape, trazida para o Brasil em 1960, por Chico Anísio, transmitindo o mesmo programa, à mesma hora, para as emissoras afiliadas, que logo se expandiram além do Rio de Janeiro, para Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília. Em 1963, a TV Excelsior nacionalizou o horário nobre, dantes ocupado por seriados estrangeiros. Lançou a telenovela diária, “2-5499 – Ocupado”, de Dulce Santucci, considerada a pioneira do gênero. Graças às grandes produções da TV Excelsior, as telenovelas tornar-se-iam a maior atração da televisão brasileira. A emissora revelaria para o Brasil, grandes nomes, em sua maioria, vindos dos palcos do teatro, que se iriam tornar ídolos da pequena tela, entre eles:Tarcísio Meira, Glória Menezes, Regina Duarte, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Mauro Mendonça. A emissora, mergulhada em uma grande crise financeira, fecharia as portas, em 1970.
Ainda na década de 1960, foi inaugurada aquela que se iria tornar a maior emissora do Brasil e uma das maiores do mundo, a TV Globo, surgida em 1965, com a concessão do canal 4 do Rio de Janeiro às organizações do jornalista Roberto Marinho. Em 1966, a emissora carioca comprava às Organizações Victor Costa o canal 5 de São Paulo, a TV Paulista. Após conquistar as terras paulistas, a emissora expandiu-se com afiliadas por todo o país. No início da década de 1970, produziria novelas históricas, conseguindo com o filão, monopolizar as audiências e o gênero.
Outra inovação viria nos anos sessenta, a transmissão via satélite, que possibilitaria a transmissão simultânea da mesma atração para todo o Brasil. As novelas, gravadas em vídeo-tapes, eram levadas das emissoras para as filiadas através de avião, transportes terrestres e outros, chegando às vezes, com atrasos de mais de um mês. O mesmo capítulo de novela da TV Globo, transmitido no Rio de Janeiro, chegava a São Paulo somente no dia seguinte, e ao restante do país em 15, 20, 30, 45 dias… Somente em janeiro de 1975, a emissora carioca passou a transmitir os capítulos em simultâneo com todas as emissoras afiliadas.

A Chegada das Cores

A história da cor na televisão brasileira foi longa, com avanços e retrocessos. A TV Excelsior foi a primeira emissora no país a tentar transmitir em cores, utilizando o sistema norte-americano NTSC, produzindo, em 1962, o programa “Moacyr Franco Show”. A tecnologia seria usada pela TV Tupi em 1964, quando passou a transmitir em cores, aos sábados, o seriado norte-americano “Bonanza”. No mesmo ano, também a TV Record fez experimentações em cores, sempre a utilizar o sistema NTSC. A programação colorida era inexistente, sendo vista apenas por abonados senhores que traziam os aparelhos do estrangeiro.
Em 1970, a Embratel reuniu convidados na sua sede no Rio de Janeiro, no Edifício Itália, em São Paulo, e, em Brasília, para transmitir em cores, o Mundial de Futebol de 1970, realizado no México. Era uma transmissão experimental, o sinal recebido em NTSC era convertido em PAL-M, captados pelos aparelhos instalados nas três cidades. Poucos assistiram à transmissão colorida da copa de 1970, pois os aparelhos eram praticamente inexistentes no Brasil.
Somente em 1971, as emissoras decidiram investir na tecnologia em cores, quando o governo militar decretou uma lei que determinava a transmissão de uma porcentagem mínima de programas coloridos. A emissora que não obedecesse, teria a concessão cancelada. Sem alternativa, foi criado o sistema oficial que geraria imagens em cores, o PAL-M, sendo o padrão M vindo do sistema NTSC, mesclado com o PAL da Europa, criando assim, um sistema próprio.
O sistema PAL-M foi autorizado em 1972. Naquele ano, em 19 de fevereiro, foi realizada a partir da TV Difusora de Porto Alegre, afiliada da TV Bandeirantes, a primeira transmissão oficial de um programa colorido feito no Brasil, a “Festa da Uva de Caxias do Sul”. A realização foi da TV Record e TV Rio, em parceria com a TV Tupi, TV Globo e TV Bandeirantes. Em 31 de março, data intencionalmente escolhida pelo governo militar, que comemorava neste dia a implantação do regime, em 1964, foi inaugurada oficialmente a televisão em cores no Brasil.
No dia 31 de março de 1972, a TV Globo exibiu a primeira produção em cores feita na televisão brasileira, o “Caso Especial – Meu Primeiro Baile”. Baseada no conto de Jacques Prevert, “Carnê de Baile”, adaptada pela então poderosa Janete Clair, dirigida por Daniel Filho, a história trazia Glória Menezes no papel de Marina, em torno dela ladeavam os maiores astros da televisão da época: Sérgio Cardoso, Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Marcos Paulo, Paulo José, entre outros. Era uma luxuosa produção para inaugurar de vez as cores na teledramaturgia brasileira.

As Cores Chegam às Telenovelas

Com a falência da TV Excelsior, a década de 1970 foi marcada pela briga de audiência entre a TV Globo e a TV Tupi, sendo a segunda também extinta, em 1980. Querendo sair na frente e abraçar a nova tecnologia, a TV Tupi anunciou aquela que deveria ser a primeira telenovela em cores no Brasil, “A Revolta dos Anjos”, escrita pela psicóloga Carmem da Silva. A emissora reuniu um elenco luxuoso: Eva Wilma, Oswaldo Loureiro, Geórgia Gomide, Bete Mendes, Denis Carvalho, Antonio Fagundes. Elaine Cristina, Ana Rosa, Ewerton de Castro e outros. Sua estréia aconteceu em 8 de novembro de 1972, mas um atraso na chegada de dois aparelhos de vídeo-tape coloridos fez com que fosse ao ar em preto e branco, para grande frustração dos atores e diretores.
A primeira telenovela colorida da televisão brasileira foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes, indo ao ar em 24 de janeiro de 1973, no extinto horário de novelas das 22h00, na TV Globo. A história trazia a saga do prefeito Odorico, magistralmente vivido pelo inesquecível Paulo Gracindo, que tudo fazia para conseguir um defunto e inaugurar o cemitério de Sucupira. Como pioneira das novelas em cores no Brasil, “O Bem Amado” sofreu os reveses da experimentação, passando por problemas quanto ao uso da nova tecnologia, como o reflexo das lentes dos óculos de determinados atores, que influenciavam na imagem. Além da dificuldade em usar os novos equipamentos, também o domínio no ajuste das tonalidades causava um certo desconforto aos atores, como Ida Gomes, que vivia a solteirona Dorotéia Cajazeira, as suas pernas excessivamente brancas saturava no vídeo. O primeiro figurino colorido das telenovelas trazia cores fortes e berrantes. Assim, quando a novela foi ao ar, as praias da pequena Sucupira inauguravam a cor do mar para os brasileiros do interior, que jamais o tinha visto.
A primeira novela colorida da TV Tupi, “A Volta do Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso, foi ao ar em 24 de março de 1973, no horário das 20h30. A emissora paulista tentava a continuação do seu grande sucesso, “Beto Rockfeller”, exibida em 1969. Trazia de volta a dupla Luís Gustavo e Bete Mendes como protagonistas. A sua sucessora, “O Conde Zebra”, de Sérgio Jockyman, não recebeu o sistema colorido. Aos poucos, a TV Tupi foi estendendo as cores para todos os seus horários de telenovelas: “Os Inocentes”, de Ivany Ribeiro, que teve a sua estréia no horário nobre, ás 20h00, em 5 de fevereiro de 1974, ainda em preto, passaria a ser transmitida colorida a partir do dia 1 de julho. No mesmo dia, também o horário das 19h00 era presenteado com as cores, com a novela “A Barba Azul”, de Ivany Ribeiro. “O Machão”, de Sérgio Jockyman, teve a sua estréia em preto e branco, passando a ser transmitida em cores também a 1 de julho, transformando o horário das 20h30 definitivamente colorido. Ao contrário da TV Globo, que manteve somente o horário das 22h00 em cores, a TV Tupi praticamente extinguiu o preto e branco, ficando apenas com o horário das 18h00 com o velho sistema. Em maio de 1977, a partir da telenovela “Cinderela 77”, de Walter Negrão e Chico de Assis, protagonizada pelos cantores Ronnie Von e Vanusa, as cores chegavam àquele horário.
Com o Mundial de Futebol de 1974, a venda de aparelhos de transmissão colorida disparou. A fábrica de televisores Colorado, em uma jogada de mercado, patrocinou as reprises dos jogos todas as tardes. Mais acessíveis, os aparelhos coloridos foram, aos poucos, substituindo os em preto e branco. Com esta proliferação, a TV Globo decidiu investir mais nas tramas coloridas. Em 1975, a cor chegava finalmente ao horário nobre da emissora, a partir da novela “Pecado Capital”, de Janete Clair. Também em 1975, o recém inaugurado horário das 18h00, trazia a sua primeira trama colorida, “Senhora”, adaptação de Gilberto Braga ao livro homônimo de José de Alencar. No dia 27 de fevereiro de 1977, ia ao ar o penúltimo capítulo de “Estúpido Cupido”, de Mário Prata, às 19h00. Com ele terminava a era do preto e branco na TV Globo. No último capítulo, a trama dava um salto dos anos 1960 para 1977, sendo apresentado em cores. “Loco-Motivas”, de Cassiano Gabus Mendes, marcava a estréia das cores naquele horário. As cores decretaram finalmente, extinta a televisão em preto e branco no Brasil.


VICENTE SESSO – O INVENTOR DO ESTILO DAS NOVELAS DAS SETE

outubro 16, 2009

Vicente Sesso é um dos mais importantes nomes da teledramaturgia brasileira, sendo muitas vezes negligenciado por aqueles que contam a história da televisão. Assim como Janete Clair e Ivani Ribeiro, Vicente Sesso foi um dos responsáveis pela modernização das telenovelas, levando-as ao formato atual.
O autor foi o responsável pelo último grande sucesso da extinta TV Excelsior, “Sangue do Meu Sangue”, em 1969. Sua ida para a TV Globo, em 1970, deu-se com a novela “Pigmalião 70”, primeira produção da emissora carioca para o horário das 19h00 com linguagem coloquial, sem os resquícios dos dramalhões de época. Com esta novela, Vicente Sesso inaugurava o estilo comédia água-com-açúcar que prevalece no horário até os dias atuais.
As poucas novelas que o autor escreveu tornaram-se grande sucessos, marcando uma época. Seu texto é inteligente, delicado e sempre ladeado por um humor sofisticado. Um elenco estelar é outra característica imprescindível em sua obra, tendo sempre os maiores nomes do teatro e da televisão da época em suas tramas. Foi numa novela de Vicente Sesso, “Minha Doce Namorada” (1971), que Regina Duarte foi aclamada a “Namoradinha do Brasil”. Suas personagens primam pelo carisma, pela identificação com o grande público, visto que o que o autor escreve é uma transcrição do cotidiano, com cenas que ele criou a partir do que viu ao seu redor.
Infelizmente Vicente Sesso trocou a televisão brasileira pelas emissoras latinas, escrevendo grandes sucessos para o público da Argentina, Peru, Chile, Espanha e Colômbia, entre muitos. Cultuado por grandes damas da dramaturgia brasileira, como Fernanda Montenegro e Tônia Carrero, é um dos autores mais respeitado por esta geração. Em 2009 o SBT comprou os direitos autorais de três novelas de Vicente Sesso para uma readaptação, entre elas “Uma Rosa Com Amor” e “Minha Doce Namorada”. Redescobrir Vicente Sesso é penetrar nas raízes mais profundas do gênero da telenovela brasileira. Mesmo nos tempos atuais, a leveza singela dos seus textos não permitiu que envelhecessem, porque descreve de forma cômica a própria sociedade universal, motivo que o faz ser aceito com sucesso nas emissoras de outros países. Ator, diretor, dramaturgo, novelista, pai adotivo do ator e diretor Marcos Paulo, Vicente Sesso é um marco da televisão brasileira.

Vicente Sesso, Autêntico Paulistano

Vicente Sesso nasceu na cidade de São Paulo, em 17 de maio de 1933. Sua verve paulistana jamais deixou de aflorar na formação da personalidade. Seu pai, Francisco Sesso era militar, e a mãe, Filomena Rotela Sesso, uma sofisticada proprietária de casa de modas e de chapéus. A junção dos pais ajudou na construção do universo teledramático do autor. Vicente Sesso chegou a fazer os figurinos para alguns dos personagens das suas novelas. Suas heroínas traziam a coragem e a dinâmica que se emanavam da mãe. O trabalho intenso dos pais, obrigava que fosse criado e educado por uma governanta alemã. A educação rígida da governanta fez com que aos cinco anos, lesse o alemão.
A paixão pelo teatro foi herdada do pai, um militar voltado para as artes cênicas. Francisco Sesso costuma levar os filhos a quase todos os espetáculos que passavam pela paulicéia. O fascínio do patriarca Sesso pelo teatro, fez com que ele travasse amizade com vários atores. Uma das amizades por ele cultivada era com a italiana Franca Bonni. A atriz montava uma peça para atuar com uma companhia na Argentina. Na peça havia um papel de criança, e o ator-mirim que o viveria, esperado da Itália, não veio. O então adolescente Vicente Sesso foi escalado para viver a personagem. Foi a estréia como ator daquele que se iria tornar um grande dramaturgo da televisão, em palcos argentinos, numa peça italiana. Quando retornou da excursão, a paixão pelo teatro já lhe corria nas veias.
Ainda na adolescência, ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Em Londres, na Inglaterra, observou os mecanismos do mais novo veículo de comunicação que aportara no Brasil, a televisão. Viu de perto como eram feitos os trabalhos televisivos na BBC de Londres. Quando retornou ao Brasil, trazia o aprendizado dos bastidores da televisão incipiente.

A Estréia Como Teledramaturgo

No Brasil, Vicente Sesso, um jovem de 18 anos, passou a trabalhar com um grupo de teatro amador. Embora muito jovem, candidatou-se a um concurso para o cargo de diretor teatral, tendo como função inaugurar vários teatros de bairro na cidade de São Paulo, sendo um dos vencedores. No cargo, passou a escolher e a dirigir peças, destacando-se precocemente na profissão.
A vida artística de Vicente Sesso confunde-se com a própria história da televisão brasileira. Logo que retornou de Londres, foi trabalhar na TV Tupi, a convite de Cassiano Gabus Mendes. Permaneceu naquela emissora até a saída de Graça Melo, que o levou para a TV Paulista, em 1952.
Na TV Paulista, passou a participar de “Grandes Teatros”, com grupos que faziam peças transmitidas às segundas-feiras. Sua genialidade logo despontou nos trabalhos. Passou a opinar nos textos, que considerava ruins. Diante das críticas, Graça Melo desafiou-o a escrever um texto melhor. Aceitando o desafio, escreveu uma peça de natal, “Meninos dos Ramos”. Ao entregar o texto, viu o rosto incrédulo de Graça Melo, que duvidava ser ele o autor. O resultado foi imediato, Vicente Sesso ganhou com o texto, o prêmio de melhor autor do ano. Nascia um novo teledramaturgo que escreveria o seu nome na história da televisão brasileira.

Passagens Pelas Maiores Emissoras Primordiais

Ainda na TV Paulista, Vicente Sesso passou a escrever os monólogos de um programa dirigido por Graça Mello. Passou a ser responsável pelos teatros exibidos no canal. Foi criando e adaptando com primor várias peças. O perfeccionismo do seu teatro envolvia muito trabalho. Cuidava de tudo minuciosamente, da maquiagem à iluminação. Passou a desenhar as roupas para as personagens que criava ou dirigia, uma característica que se seguiria em suas futuras novelas de época. O jovem Vicente Sesso era visto como genial, e dono de um gênio forte e exigente. Em um ano, adaptou e encenou dez textos de William Shakespeare. Na época, ele começou a questionar-se se queria seguir a carreira de ator ou a de escritor.
Vicente Sesso passaria pelas principais emissoras da televisão brasileira da década de 1960, sempre responsável pelo gênero do teleteatro, onde ganhou prêmio também como melhor diretor. Voltou para TV Tupi, onde passou a escrever seriados infanto-juvenis, como o “Teatro da Fantasia”, “As Aventuras de Marco Pólo”, que ficou no ar por quatro anos, e, “Jardim Encantado”.
Sempre a acompanhar Graça Melo, o autor foi parar na TV Record, onde aprendeu as mais avançadas técnicas de televisão, importadas dos Estados Unidos por engenheiros norte-americanos. Mais tarde, ele declararia que foi na TV Record que aprendeu, de fato, a trabalhar em televisão.
Vicente Sesso tornar-se-ia por certo tempo, um produtor independente, pois era conhecido por ser genioso e querer fazer tudo ao seu jeito. Passou ainda pelo departamento de televisão da McCann Erickson, contratado como diretor.
A sua estréia como autor de telenovelas iria acontecer quando foi contratado pela mítica e então poderosa, TV Excelsior de São Paulo.

O Último Sucesso da TV Excelsior

A TV Excelsior era conhecida pelo esmero que utilizava nas grandes produções. Suas novelas de época diferenciavam das da TV Globo pela qualidade dos textos, muitas vezes com inspiração em clássicos da literatura brasileiro. Seguindo a lógica, quando contratado pela emissora paulista, Vicente Sesso optou pela adaptação de obras de autores brasileiros, desenvolvendo trabalhos de fôlego, já no estilo da telenovela, como “O Guarani”, “As Minas de Prata” e “Senhora”, todas inspiradas em obras de José de Alencar.
Em 1966, escreveu e dirigiu o seriado semanal “As Aventuras de Eduardinho”, voltado para o público infanto-juvenil. Os episódios, apresentados aos sábados, mesclavam folclore nacional e internacional, com personagens históricas e atuais. Contava com um elenco fixo, recebendo vários atores convidados. O seriado tem como curiosidade ter lançado as carreiras dos atores Denis Carvalho e Marcos Paulo, este último filho adotivo de Vicente Sesso. Os atuais atores e diretores eram na época crianças. O seriado ficaria no ar até 1968. Inicialmente foi exibido e produzido pela TV Excelsior, depois pela TV Paulista/Globo, mas já sem o grande sucesso do começo.
Trabalhos intensos fizeram que o autor tivesse um princípio de enfarte, aos 35 anos. Com a saúde abalada, Vicente Sesso foi obrigado a parar com as atividades, afastando-se da televisão por um bom tempo.
Já recuperado, voltaria em 1969, para escrever a trama de “Sangue do Meu Sangue”, novela que se tornaria um clássico da história da televisão e o último grande sucesso da TV Excelsior, que viria a falir pouco tempo depois do seu término.
Sangue do Meu Sangue”, foi nos moldes das telenovelas atuais, a primeira a ser escrita por Vicente Sesso. Dramalhão de época, diferenciava-se das novelas contemporâneas de Glória Magadan na TV Globo por trazer um texto envolvente e fascinante, inspirado não em sheiks ou imperadores europeus, mas na história brasileira, com a temática abolicionista que incomodou a censura da ditadura militar, obrigando a emissora a mudar o horário de transmissão, das 19h00 para as 20h00. Além de escrever a trama, Vicente Sesso criou as roupas usadas pelos atores.
Uma das características das novelas do autor é o uso de um elenco luxuoso. “Sangue do Meu Sangue” trazia grandes estrelas do teatro e da televisão, que na época estavam no auge das suas carreiras. Francisco Cuoco, no papel de Lúcio Rezende, protagonista da trama, firmava-se definitivamente como grande galã das telenovelas, sendo logo a seguir, arrebatado pela TV Globo. Fernanda Montenegro fazia a sofrida Júlia, emocionando o Brasil. Tonia Carrero, outra grande dama do teatro, fazia a sua estréia nas novelas, no papel de Pola Renon, a atriz tornar-se-ia uma das preferidas do autor. Ainda faziam parte da constelação de estrelas Henrique Martins, Nicette Bruno, Rosamaria Murtinho, Armando Bógus, Mauro Mendonça, Sadi Cabral, Rodolfo Mayer, Nívea Maria, Edmundo Lopes, Rita Cléos, Sérgio Britto, Aldo de Maio, Nathália Timberg, Cláudio Corrêa e Castro, Enio Carvalho, Carminha Brandão, Nestor de Montemar, Edmundo Lopes, Antonio Pitanga, Rachel Martins, Gilmara Sanches, Eduardo Abbas, Gladys Maria, Eudóxia Acuña, Geny Prado, Silvio de Abreu, entre outros.
Em 1995, o SBT fez uma segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, trazendo Tarcísio Filho, Lucélia Santos e Bia Seidl nos papéis de Lúcio Rezende, Júlia e Pola Renon, respectivamente. Apesar de uma produção minuciosa da emissora, a versão não teve o grande sucesso da primeira, e Vicente Sesso mostrou-se insatisfeito com ela, chegando a declarar que o seu texto tinha sido descaracterizado. Completava o elenco da segunda versão, entre muitos, Rubens de Falco, Osmar Prado, Lucinha Lins, Othon Bastos, Denise Fraga, Suzy Rego, Guilherme Leme, Ewerton de Castro, Bete Coelho, Paulo Figueiredo, Marcos Caruso, Jussara Freire, Jandira Martini, Yara Lins, Edgard Franco, Jayme Periard, Delano Avelar, Vera Zimmermann, Flávia Monteiro, Jandir Ferrari, Luís Guilherme, Elisa Lucinda, Rogério Márcico, Marcos Plonka, Cacá Rosset, Walter Forster e Irene Ravache. Tônia Carrero, que brilhou na versão original, voltou em participação especial.

Inaugurado o Estilo das Novelas das 19h00 na TV Globo

O sucesso de “Sangue do Meu Sangue” levou a TV Globo a contratar, em 1970, Vicente Sesso como novelista. O autor tinha grandes desafios, como o de escrever uma novela para o mítico Sérgio Cardoso e, criar uma história atual, que encerrasse a era dos dramalhões de época no horário das 19h00. Surgia “Pigmalião 70”, inspirada na peça de Bernard Shaw, com inversão das personagens. Nando (Sérgio Cardoso), é um humilde feirante que trabalha ao lado da mãe, a Baronesa (Wanda Kosmo) e é noivo de Candinha (Suzana Vieira). Um dia um pequeno acidente automobilístico faz com que o seu destino cruze o da milionária Cristina (Tonia Carrero). Instigada pela situação, Cristina faz uma aposta com o pai (Álvaro Aguiar), de que transformaria aquele homem rude em um sofisticado cavalheiro para apresentar à alta sociedade. Cristina vence a aposta, mas se apaixona profundamente por Nando.
Pigmalião 70” foi um grande sucesso de audiência, marcando o estilo da linguagem de comédia do horário das 19h00 na TV Globo, que persiste até os tempos atuais. A partir de então, todas as novelas do horário foram escritas sobre os moldes da estrutura delineada por Vicente Sesso. A química entre Sérgio Cardoso e Tônia Carrero atingiu o grande público, que se deliciava com dois gigantes dos palcos brasileiros, mostrando-se então, fascinantes na televisão.
A beleza magnética de Tonia Carrero fez com que todas as mulheres brasileiras imitassem o seu corte de cabelo, chamando-o de pigmalião. Suzana Vieira marcava a sua estréia na TV Globo, onde construiria uma brilhante carreira.
Os grandes vilões sempre fizeram parte das tramas de Vicente Sesso, sem que se mostrassem caricatos; na novela, Carlito, magnificamente interpretado pelo ator Edney Giovenazzi, era o antagonista e vilão. No elenco, escolhido com rigor e primor, estavam ainda, Felipe Carone, Célia Biar, Eloísa Mafalda, Marcos Paulo, que seria uma presença constante nas tramas do pai, Maria Luiza Castelli, Betty Faria, Rachel Martins, Norah Fontes, Renato Máster, Jacyra Silva, Jardel Mello, Carmem Silva, Ruth de Souza, Ida Gomes, Elizabeth Gasper, Adriano Reys, Herval Rossano, Íris Bruzzi, Eleonor Bruno. Entre o elenco, havia a insólita presença da jornalista Marisa Raja Gabaglia, que era muito popular no telejornalismo da década de 1970.
A novela firmou o estilo do horário; alcançou o grande público; ao lado de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, transmitida em época simultânea, no horário das 20h00, transformou a TV Globo, pela primeira vez, em líder de audiência sobre todas as outras emissoras; lançou moda e, fez grande sucesso com a sua trilha sonora. Vicente Sesso tornar-se-ia um ícone daquele horário.

Nasce a Namoradinha do Brasil

Após a bem sucedida “Pigmalião 70”, Vicente Sesso tomou fôlego por alguns meses, voltando em 1971, com “Minha Doce Namorada”, novela que se iria tornar um dos maiores sucessos do horário na TV Globo, considerada um ícone do gênero.
A trama foi inspirada em vários textos que o autor já havia apresentado anteriormente em outros canais de televisão, tendo como núcleo central, uma história que tinha sido apresentada no “Teatro de Fantasia”, na década de 1950.
A novela trazia como protagonistas Regina Duarte e Cláudio Marzo, nos papéis de Patrícia e Renato, respectivamente. Era a terceira produção da TV Globo que utilizava os atores como um casal romântico, parceria bem aceita pelo público, iniciada em “Véu de Noiva” (1969). Os atores vinham do elenco da novela “Irmãos Coragem”, onde os seus personagens Duda Coragem e Ritinha, foram retirados da trama para as gravações da novela de Vicente Sesso. Regina Duarte, que engravidara durante o decorrer de “Irmãos Coragem”, vinha recuperada do seu primeiro parto, irradiando uma luz e doçura no papel da órfã criada por artistas mambembes, que lhe valeu, de imediato, ser conclamada a “Namoradinha do Brasil”, título carinhoso que perseguiu a atriz por quase uma década, influenciando na designação dos papéis que lhe seriam dados na TV Globo nos anos de 1970.
Minha Doce Namorada” trazia os mais singelos e fascinantes ingredientes do chamado estilo comédia “água-com-açúcar”. Iniciou-se na cidade histórica de Ouro Preto, mostrada através das repúblicas tradicionais de estudantes, onde vivia Renato, e de um parque de diversões, que abrigava a doce e decidida Patrícia. O encontro do casal dar-se-ia sobre a magia da cidade. Os altos custos da produção em Ouro Preto, fizeram com que as personagens mudassem para a cidade do Rio de Janeiro.
Além de Patrícia, personagens carismáticos conquistaram o Brasil, como a misteriosa e bondosa Tia Miquita, uma vendedora de maçãs do amor, magistralmente vivida por Célia Biar. Para interpretar a personagem, a atriz utilizou-se de uma maquiagem que a deixava bem mais velha. Também o veterano Sadi Cabral explodiu no gosto do público, vivendo a personagem do poderoso Hipólito Peçanha, que confundido por Patrícia como um faxineiro da fábrica que era dono, faz-se passar por Seu Pepê, iniciando com ela uma amizade carismática e cumplicidade que conquistou a simpatia dos telespectadores. Seu Pepê e Patrícia viraram tema de uma marchinha de carnaval no ano de 1972. A antagonista da vez era a grande vilã Madame Sarita, interpretada por Vanda Lacerda. A personagem despertou a ira do público, e a atriz sofreu com a perseguição dos mais exaltados.
Minha Doce Namorada” contava com um elenco coeso, que lhe permitiu uma ampla galeria de personagens carismáticos. Entre eles estavam a bela Maria Cláudia, Mário Lago, Suzana Vieira, Marcos Paulo, Heloisa Helena, Renata Fronzi, Roberto Pirillo, Paulo Padilha, Juan Daniel, Yara Cortes, Daniel Filho, Reynaldo Gonzaga, Dorinha Duval, Íris Bruzzi, Elza Gomes, Jardel Mello, Carmen Silva, Rachel Martins, Urbano Lóes, Carminha Brandão e Enio Carvalho, ator ícone do universo de Vicente Sesso, presença constante em suas novelas. Outra curiosidade foi a presença de Suzana Gonçalves, irmã de Suzana Vieira; a atriz transformar-se-ia em um grande sucesso da TV Globo, fazendo personagens marcantes. Ela abandonaria a carreira no auge, em 1976, partindo com o marido para desbravar o futuro estado de Rondônia.

O Apogeu Com Uma Rosa Com Amor

Com “Minha Doce Namorada”, Vicente Sesso escreveu de vez o seu nome como grande escritor de novelas de sucesso. Alcançaria o apogeu com a próxima trama, “Uma Rosa Com Amor”, que iria ao ar entre 1972 e 1973. Àquela altura, o autor sabia todas as técnicas do gênero de novelas que se tornara um mestre, para atrair grandes públicos.
A trama fugia dos casais românticos tradicionais, mostrando a história da solteirona Serafina Rosa Petrone (Marília Pêra), secretária romântica e atrapalhada, que vivia em um cortiço com os pais, Giovanni (Felipe Carone) e Amália (Lélia Abramo), e a irmã Terezinha (Nívea Maria), numa típica família de imigrantes italianos. O sonho de Serafina era um dia vir a casar; no escritório onde trabalhava como secretária, enviava todos os dias uma rosa para si mesma, para que os colegas pensassem que tinha um admirador secreto.
O patrão de Serafina, Claude Geraldi (Paulo Goulart), por quem ela suspirava, era noivo da sedutora Nara (Yoná Magalhães), e estava envolvido em negócios escusos, além de estar ilegal no país. Para regularizar a sua situação, teria que se casar, mas como Nara era desquitada e as leis da época não lhe permitia um segundo matrimônio, Claude não viu outra saída a não ser propor um casamento a Serafina, com data e hora para acabar. Após muitos desencontros e situações cômicas, Claude finalmente se deixará apaixonar pela secretária.
Marília Pêra consolidava-se como uma grande humorista através de Serafina, conquistando de vez o grande público brasileiro. Foi um dos papéis mais carismáticos que já viveu na televisão. O amor de Serafina e Claude era embalado pela música “Ben”, cantada pelo menino Michael Jackson, que desde então, passou a ser conhecido em todo o Brasil. O casal protagonista era uma novidade no horário. Paulo Goulart estava no seu auge de galã de telenovelas. Depois desta novela, o ator deixaria a TV Globo, sendo contratado pela TV Tupi. Só voltaria à emissora em 1980.
Yoná Magalhães, que na década de 1960 foi a grande estrela global, voltava à emissora carioca após dois anos na TV Tupi, para viver sua primeira vilã, abandonando o estereótipo das heroínas das novelas de Glória Magadan. A atriz usava durante toda a novela, uma peruca loira, uma moda na época. A atriz Lélia Abramo, ao viver Amália, uma autêntica e popular mãe italiana, ganhou rótulo na televisão como intérprete de grandes matriarcas imigrantes.
Tônia Carrero, presença quase que obrigatória nas telenovelas de Vicente Sesso, mostrou todo o seu glamour na pele da sofisticada atriz Roberta Vermont, que se envolvia com Sérgio (Marcos Paulo). Pela primeira vez, em uma novela das 19h00, foi desenvolvido o tema de uma mulher mais velha apaixonar-se por um homem mais jovem. Tônia Carrero e Marcos Paulo viveram com delicadeza este romance, sob os protestos de Joana (Vanda Lacerda), mãe do rapaz. Seria a última personagem de Tônia Carrero em uma novela, na década de 1970. Cansada da televisão, a atriz deixaria o veículo, só retornando em 1980.
Grande destaque para a participação de Grande Otelo, presença rara nas telenovelas. O ator viveu o velho Pimpinoni, artista criador de marionetes, que com os seus bonecos, contavam histórias da vida. Pimpinoni é uma das personagens típicas do universo de Vicente Sesso, carismático, desprovido de vaidades e no crepúsculo da idade, com palavras sábias para aconselhar e proteger com amor quem circula a sua volta.
O elenco de primeira grandeza, contava ainda com as presenças de Leonardo Villar, José Augusto Branco, Ênio Santos, Ary Fontoura, Rosita Thomaz Lopes, Aurimar Rocha, Roberto Pirillo, Henriqueta Brieba, Heloísa Helena, Monah Delacy, Jacyra Silva, Eleonor Bruno, Mirian Muller, Cléa Simões, Dinorah Marzullo, Gilberto Martinho e Nelson Caruso.
Apesar do grande sucesso de público, “Uma Rosa Com Amor” marcava a despedida de Vicente Sesso como novelista da TV Globo. O autor não aceitava muito bem o esquema de ter que esticar uma trama mediante os índices de audiência alcançados. Ainda naquele ano de 1973, assinaria contrato com a TV Tupi de São Paulo. Longe da emissora carioca, jamais voltou a obter o sucesso alcançado por suas novelas.

Breve Passagem Pela TV Tupi

Após o sucesso de “Uma Rosa Com Amor”, Vicente Sesso voltaria a TV em novembro de 1973, quando estreava outra novela de sua autoria, “As Divinas… e Maravilhosas”, escrita para a TV Tupi. O autor deixava os cenários cariocas para escrever sobre a tradicional família paulistana, retrato que ele, nascido em um casarão na Rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, conhecia muito bem.
A história girava em torno de três mulheres de idade distintas: a velha Haydée (Nathália Timberg), a jovem e bela Catarina (Beth Mendes) e a madura Helena (Nicette Bruno). Um testamento milionário, que deixava um típico palacete paulistano da época de ouro dos barões do café e, uma grande fortuna, modificaria para sempre a vida daquelas três mulheres.
Para interpretar Haydée, uma velhinha, Nathália Timberg teve que se submeter a uma pesada maquiagem, envelhecendo o seu rosto e gestos. Ao lado de Nicette Bruno, Maria Aparecida Baxter e Yolanda Cardoso, a atriz foi responsável pelo sucesso da trama, todas volvidas pelo tom carismático das personagens de Vicente Sesso.
Mas a novela não alcançou o mesmo sucesso que as antecessoras escritas pelo autor para a TV Globo. Teve vários fatores que contribuíram para um desenlace morno, sem o fascínio de “Uma Rosa Com Amor” ou “Minha Doce Namorada”. Na luta pela audiência, a TV Globo contratou o diretor da novela, Oswaldo Loureiro, que iria atuar como ator em “Corrida do Ouro”. Deixando a direção, Oswaldo Loureiro foi substituído por Egberto Luiz.
Outra mudança que afetou o curso da trama foi em relação à personagem Catarina, uma das protagonistas. Bete Mendes, a atriz que a interpretava, sofreu um grande acidente automobilístico, sendo submetida a um longo período de convalescença, obrigando Vicente Sesso a desaparecer com a personagem. Durante o período que se restabelecia, Bete Mendes foi contratada pela TV Globo para viver a protagonista de “O Rebu”, de Bráulio Pedroso. A atriz já tinha protagonizado “Beto Rockfeller”, grande sucesso do mesmo autor. Diante do impasse, a personagem só voltaria à trama no último capítulo da novela, em que a direção aproveitou a edição de imagens de capítulos já gravados, em que ela aparecia em cenas românticas com o ator Ênio Carvalho.
Apesar de todos os problemas, a novela manteve uma envolvente e carismática trama, com destaques para as interpretações sublimes de Nathália Timberg, Nicette Bruno e John Herbert, e as engraçadas tiragens de Ana Maria Baxter e Yolanda Cardoso.
No elenco constava como sempre, a presença de grandes nomes como o grande ator do teatro brasileiro Procópio Ferreira, Geórgia Gomide, Arlete Montenegro, Geraldo Del Rey, José Lewgoy, Sadi Cabral, Elaine Cristina, Célia Coutinho, Flávio Galvão, Pepita Rodrigues, Íris Bruzzi, Glauce Graieb, Elizabeth Hartman, Elizabeth Gasper, Nelson Caruso, Leonor Navarro, Eleonor Bruno, Graça Melo, Leonor Lambertini, Cazarré, Benjamin Cattan, Jacyra Sampaio, Marcelo Picchi, Walter Prado e Geny Prado.
Após concluir “As Divinas… e Maravilhosas”, em 1974, Vicente Sesso aceitou um convite da televisão Argentina para escrever uma novela inspirada em “Deus Lhe Pague”, de Juracyr Camargo. No país vizinho, ele ficaria por quatro anos, escrevendo e traduzindo os seus trabalhos para o mercado internacional latino.

O Retorno em 1979

Vicente Sesso só voltaria a escrever uma novela para o público brasileiro em 1979. Desta vez com a missão de inaugurar o núcleo de novelas da TV Bandeirantes, extinto desde o ano de 1970. Na ocasião, a TV Tupi entrava em franca decadência, rumando para a falência que decretaria a sua extinção em 1980. Sem concorrência, a TV Globo tornara-se a única a explorar as telenovelas. A TV Bandeirantes decidiu investir fortemente no gênero, convidando Vicente Sesso, um autor que atraía sempre grandes atores que gostavam dos seus textos.
Para este importante momento da história da televisão brasileira, Vicente Sesso escreveu “Cara a Cara”. A trama girava em torno de Ingrid von Herbert (Fernanda Montenegro), uma mulher sofrida, que teve um filho quando se encontrava prisioneira em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo o filho arrancado dos braços, Ingrid, agora uma milionária, vem ao Brasil para encontrar o seu herdeiro. No Brasil, envolve-se com as outras personagens da trama, como a rica e decadente Regina (Débora Duarte), que lutava para salvar a família da miséria, casando-se com o rústico fazendeiro Tonho (David Cardoso).
Vicente Sesso conseguiu uma grande vitória com “Cara a Cara”, trazer Fernanda Montenegro de volta às telenovelas. Há mais de uma década que a grande dama do teatro não atuava em uma produção do gênero. Tê-la no elenco significava grande prestígio. A TV Globo tentara contratá-la, sem sucesso, por muitos anos.
Além de Fernanda Montenegro, a novela contava com uma produção esmerada, indo buscar grandes estrelas da TV Globo e da TV Tupi. Entre elas estava Débora Duarte, que se indispusera com a TV Tupi, deixando o elenco da segunda versão da mítica “O Direito de Nascer”, onde iria fazer a personagem Isabel Cristina. Na época a atriz era casada com o cantor e compositor Antonio Marcos, que atuou como ator na trama, vivendo a personagem Nando. Antonio Marcos era quem cantava o tema de abertura da novela.
Outra novidade era o protagonista da história, David Cardoso, galã do cinema nacional, considerado o rei das pornochanchadas. O ator era tido como um símbolo sexual do país. Contava com grande prestígio, mesmo jamais fazendo uma interpretação que se pudesse considerar satisfatória.
Apesar do grande esforço da produção da TV Bandeirantes, de fazer renascer o apogeu da época de ouro de Vicente Sesso na TV Globo, a novela alcançou um sucesso relativo, sem grandes índices de audiência. Serviu como semente para o núcleo de teledramaturgia da TV Bandeirantes. A maior característica de “Cara a Cara” foi sem dúvida, o seu elenco: Luís Gustavo, Nathália Timberg, Irene Ravache, Fúlvio Stefanini, Rolando Boldrin, Edson França, Maria Isabel de Lizandra, Wanda Kosmo, Célia Coutinho, Márcia de Windsor, David José, Carmem Silva, Roberto Pirillo, Fausto Rocha, Arlindo Barreto, Ruthnéia de Moraes e Raymundo de Souza.
Cara a Cara” foi a última novela de Vicente Sesso feita para o Brasil. Voltaria, em 1992, a TV Globo, escrevendo a minissérie “Tereza Batista”, adaptação da obra de Jorge Amado. Mas a sua prioridade continua a ser o mercado internacional, onde escreve com sucesso, tramas exibidas na Argentina, Peru, Estados Unidos, Chile, Espanha, Colômbia, Turquia, Eslovênia, Japão e Itália.
Em 1995, a segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, feita pelo SBT, desagradou-o profundamente, que se negou a ver o seu texto a perder as características originais. Em 2009, concordou em vender à mesma emissora, os direitos autorais de “Minha Doce Namorada” e “Uma Rosa Com Amor”, para novas versões e para a redescoberta do seu trabalho. Vicente Sesso, assim como Janete Clair, é um daqueles autores que trabalha com o impacto de cada capítulo, jamais com o todo da obra. Seu estilo é inconfundível desde a montagem do capítulo, onde deixa a cena de impacto para o final, prendendo o telespectador. Sua obra é imprescindível para a história da televisão brasileira, essencial para que se perceba o desenvolvimento das telenovelas, o maior veículo de comunicação do país.

OBRAS

Novelas

1969/1970 – Sangue do Meu Sangue (TV Excelsior)
1970 – Pigmalião 70 (TV Globo)
1971/1972 – Minha Doce Namorada (TV Globo)
1972/1973 – Uma Rosa Com Amor (TV Globo)
1973/1974 – As Divinas… e Maravilhosas (TV Tupi)
1979 – Cara a Cara (TV Bandeirantes)
1982 – Verônica: El Rostro Del Amor (Mercado Internacional)
1995 – Sangue do Meu Sangue (SBT)

Minisséries

1959 – Jardim Encantando (TV Tupi)
1959 – O Guarani (TV Excelsior)
1959 – Senhora (TV Excelsior)
1992 – Tereza Batista (TV Globo)

Seriados

1958/1962 – As Aventuras de Marco Pólo (TV Tupi)
1966/1968 – As Aventuras de Eduardinho (TV Excelsior e TV Globo)


DINA SFAT – MAGNETISMO E SEDUÇÃO

outubro 3, 2009

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela “Os Gigantes“, de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga


GLÓRIA MAGADAN – A RAINHA DAS TELENOVELAS

julho 29, 2009

Para que a história da telenovela no Brasil seja contada e compreendida, é essencial que se escreva nela o nome de Glória Magadan. A escritora, nascida em Cuba, foi a mais importante novelista da década de sessenta, essencial no início do gênero, tornando-se a mulher mais poderosa da televisão da época.
Se Janete Clair foi a consolidação do gênero, Glória Magadan foi o seu alicerce. Suas histórias folhetinescas eram desprovidas de qualquer bom senso ou apego à realidade. Era a ilusão, a fantasia e o sonho na forma bruta, às vezes grotesca. Distanciados da realidade brasileira, os folhetins da autora traziam histórias mirabolantes e exóticas, que podiam ter como cenário o deserto do Saara, o Japão medieval, a corte francesa do século XVIII. Amarradas de forma consistente, mas longe de uma lógica narrativa, as suas aventuras fascinaram o então incipiente público das telenovelas, fazendo da TV Globo uma máquina de produção do gênero, assegurando a audiência que necessitava na época que se lançou como a mais nova emissora de televisão do Brasil.
De 1965 a 1969, Gloria Magadan tornou-se a principal novelista da TV Globo, acumulando o cargo de diretora do núcleo de teledramaturgia da emissora, o que lhe conferiu um poder quase que sem limites. Poderosa, ela era temida por atores, autores e diretores. Uma palavra de desabono da cubana, e determinadas carreiras de ator ou atriz, poderiam cair em desgraça, sendo riscada dos bastidores da televisão. Caíram no seu desagrado nomes de poderosos como o diretor Daniel Filho, o ator Tarcísio Meira, e até a novelista Janete Clair, que em princípio de carreira, atraiu para si a inveja de Glória Magadan, insatisfeita que ela fizesse novelas com maior sucesso do que as suas.
O estilo dramalhão e inconsistente de Glória Magadan foi, aos poucos, tornando-se obsoleto, até que se extinguiu de vez, quando as novelas passaram a ser o principal gênero da televisão brasileira e o público passou a ser mais seletivo, exigindo lógica e uma aproximação efetiva das personagens dos folhetins com a realidade brasileira. Assim, Glória Magadan foi engolida por suas tramas exóticas, sendo demitida da TV Globo, em 1969. Terminava o reinado daquela que se tornara a mulher mais temida e muitas vezes, a mais odiada pelos atores. Terminava a era de Glória Magadan na TV Globo, aonde chegou a ser chamada de “Rainha das Telenovelas”. Esquecida nos tempos atuais, o seu nome é imprescindível na história da novela brasileira, da poderosa TV Globo e da própria teledramaturgia do país.

Glória Magadan Chega à Televisão Brasileira

Maria Magdalena Iturrioz y Placencia nasceu em Cuba, numa data que foge aos arquivos biográficos disponíveis. Adotando o pseudônimo de Glória Magadan, escreveria para sempre o seu nome na história da teledramaturgia latina americana, tornando-se uma das mais famosas novelistas do Brasil.
A autora deixou Cuba após a vitória de Fidel Castro e à instalação dos ideais revolucionários naquele país, refugiando-se em Porto Rico. Seria neste pequeno país da América Central que Glória Magadan passaria a trabalhar na Telemundo, estação de televisão local. Ali, seria contratada pela agência publicitária da Colgate-Palmolive, principal patrocinadora das telenovelas na América Latina. Ainda em Porto Rico, escreveu a novela “Yo Compro Esa Mujer”, em 1960. A agência enviou-a para desenvolver telenovelas que patrocinaria na Venezuela, país em que faria uma nova adaptação de “Yo Compro Esa Mujer”, para a RCTV. Em 1964 seria transferida para o Brasil, chegando a São Paulo como supervisora da seção internacional de novelas da Colgate-Palmolive.
No Brasil, passou a supervisionar a adaptação de textos de telenovelas de autores latino-americanos para a extinta TV Tupi. Supervisionou várias adaptações feitas por Walter George Durst, como “O Sorriso de Helena”, “Gutierritos, o Drama dos Humildes”, “Teresa”, “O Cara Suja”, “A Outra” e “A Cor da Pele”; e a adaptação de Daniel Más que resultou na telenovela “Um Rosto de Mulher”.
Glória Magadan chegaria a TV Globo no final de 1965. Contratada pela recém inaugurada emissora do jornalista Roberto Marinho, marcaria a sua estréia como autora de telenovelas brasileiras com o folhetim “Paixão de Outono”, protagonizado por Yara Lins, Walter Forster, Leila Diniz e Reginaldo Faria. A novela iria inaugurar o horário das 21h30 da TV Globo, dando início a uma bem sucedida carreira de novelista, que faria de Glória Magadan a mulher mais poderosa da televisão brasileira dos anos sessenta.

Surge o Primeiro Serial Killer Misterioso das Telenovelas

O primeiro sucesso veio em 1966, com “Eu Compro Essa Mulher”, história que Glória Magadan dizia, tinha inspiração no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela marcou o início da gestão de Walter Clark na TV Globo, um dos responsáveis pela ascensão da emissora, que se iria transformar na maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Dramalhão totalmente desprovido da realidade brasileira, trazia como protagonistas Yoná Magalhães e Carlos Alberto, que ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes, seriam transformados nos maiores atores da televisão brasileira daquela década. No meio da história, Carlos Alberto e Yoná Magalhães casaram-se na realidade. Destacou-se na trama, a irreverente Leila Diniz, no papel da antagonista Úrsula. “Eu Compro Essa Mulher” definia bem o estilo da autora, trazendo na trama heróis perfeitos e lineares, heroínas sofridas e bondosas, sem quaisquer traços humanos, e vilões sem quaisquer vestígios de alma. O maniqueísmo da trama era explorado minuciosamente, sem qualquer compromisso com a realidade. A novela foi sucesso absoluto no Rio de Janeiro, alcançando relativa audiência em São Paulo.
Em 1966, Glória Magadan criou um dos seus maiores sucessos, “O Sheik de Agadir”, baseada no romance “Taras Bulba”, de Nicolai Gogol. Desta vez os delírios da autora centraram a história em Agadir, no Marrocos, transformando as dunas de Cabo Frio, litoral fluminense, no deserto do Saara. Nazistas, árabes e franceses são os protagonistas de uma história exótica, que mostra de forma fantasiosa a invasão da França pelos exércitos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Henrique Martins protagoniza a trama, no papel do Sheik de olhos azuis, Omar Ben Nazir, que se iria apaixonar pela princesa francesa Jeanette Legrand, personagem vivida por Yoná Magalhães. Grandes aplausos viriam para a Madelon de Leila Diniz, popularizando a atriz para o grande público brasileiro, e Amilton Fernandes, como o grande vilão Maurice Dumont.
Mas o grande destaque da trama foi a estréia nas novelas do “serial killer”, gênero que se tornaria parte de grandes folhetins televisivos futuros. Durante toda a trama aparecia o misterioso “Rato”, que eliminava cruelmente várias personagens, enforcando-os na maioria das vezes. Nas misteriosas aparições do “Rato”, era mostrado em cena apenas um par de luvas negras. O enigma despertou a curiosidade do público, o que levou a TV Globo a promover um concurso para que se tentasse descobrir a identidade do assassino. A pergunta ecoava na emissora, “Quem matou?”, mas nenhum telespectador conseguiu descobrir quem era o assassino. Impossível, tamanha a incoerência da autora, que revelou a identidade do “Rato” como sendo uma mulher, Éden de Bassora, personagem da atriz Marieta Severo. Até hoje não se explica como a atriz, então com 19 anos, de corpo franzino e frágil, conseguiu estrangular robustos nazistas. Isto era o universo de Glória Magadan, completamente sem coerência ou compromisso com o bom senso, mas que levava o público ao delírio, numa época em que a televisão brasileira ainda não descobrira uma linguagem a seguir.
Um dos personagens morto pelo “Rato” foi Jean, vivido por Sebastião Vasconcelos. O ator trazia barba e bigode que fizeram a autora se lembrar do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, despertando-lhe a animosidade, por isto ela eliminou-o da trama. Sobre as mortes que passariam a fazer parte das tramas, Gloria Magadan, já poderosa novelista e diretora de dramaturgia da TV Globo, declararia:
Primeiro crio os personagens. Depois é que nasce a história. Quando começo a escrever, fico obcecada, penso na trama o tempo todo. Pesquiso pessoalmente como os consumidores sentem os personagens e as situações. Quando constato que o público não aceita bem um personagem, reduzo seu papel, ou mato-o, sem o menor remorso. Nunca me arrependi de matar. Quem cai em desgraça junto ao público está liquidado.

O Grande Apogeu da Autora

As novelas de Gloria Magadan alcançariam o auge em 1967. Naquele ano, ela chegou a escrever duas novelas simultaneamente, “A Rainha Louca”, para o horário das 21h30, e “A Sombra de Rebeca”, inaugurando um novo horário de telenovelas na TV Globo, o das 20 horas.
A Sombra de Rebeca” reuniu em um único folhetim, as versões de “Madame Butterfly” de Puccini, e “Rebecca”, romance de Daphné de Murior. Yoná Magalhães era a protagonista, vivendo a japonesa Suzuki, com olhos orientais conseguidos através de uma densa maquiagem. Seu par romântico era, mais uma vez, o marido e ator Carlos Alberto. No final da trama, uma desilusão amorosa levava Suzuki a cometer um haraquiri. Glória Magadan só não explicou como a sua protagonista cometia um ato restrito apenas aos homens japoneses, afinal sua obra não carecia de tais explicações.
A Rainha Louca” levou os requintes de grande produção, característica que se tornaria uma marca nas novelas da TV Globo. As cenas que se passavam no México, tiveram as gravações feitas naquele país, um luxo para a época. Inicialmente foi pensada como uma adaptação da vida do rei Luís XVI da França e da sua mulher, Maria Antonieta, no século XVIII. Mas a direção da Globo sugeriu que fosse ambientada no século XIX, no México. Assim, Luís XVI foi transformado no imperador Maximiliano e Maria Antonieta em Charlotte, tendo como protagonistas Rubens de Falco e Nathália Timberg, vivendo as personagens, respectivamente. A trama marcou a estréia de Daniel Filho na direção das novelas da emissora carioca. Durante o decurso da trama, o ator Paulo Gracindo foi um dos perseguidos pela autora. Vivendo o conde Demétrios, que tinha poderes sobrenaturais, uma espécie de Drácula, o ator alcançou sucesso diante do público. Glória Magadan exigiu que ele fizesse caretas e contorções faciais, o que o ator recusou, assim, a personagem, que tinha uma grande participação no início da trama, foi desaparecendo ao longo do seu decorrer.
Foi ainda em 1967, que Janete Clair foi chamada por Glória Magadan para dar solução ao desastre que estava a ser a novela “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, escrita por Emiliano Queiroz. O autor criara tantos personagens, que se perdera no meio da história. Janete Clair chegou na TV Globo, provocando um grande terremoto na trama, matando quase todo o elenco, deixando apenas vivos quatro personagens, dando um salto de vinte anos. Começando do zero, Janete Clair deu coerência à trama, e jamais deixou a TV Globo, transformando-se na sua maior novelista, inovando a linguagem e levando a obra de Glória Magadan à decadência.

A Decadência da Era Magadan na TV Globo

A partir da novela “O Homem Proibido”, que em São Paulo teve o título de “Demian, o Justiceiro”, as tramas exóticas de Glória Magadan entraram em decadência. Carlos Alberto vivia um justiceiro moldado no perfil do famoso Zorro, que vivia na Índia. Yoná Magalhães era a heroína da trama, que contava ainda, com um elenco luxuoso: Paulo Gracindo, Rubens de Falco, Mário Lago, Celso Marques, Marieta Severo, Cláudio Cavalcanti, Karin Rodrigues, Diana Morell, Emiliano Queiroz, José Augusto Branco e muitos outros.
O Santo Mestiço”, de 1968, trouxe Sérgio Cardoso, grande astro da época, à emissora de Roberto Marinho. O ator fazia três papéis, e teve na novela, a primeira experiência desastrosa da sua carreira. Irritado, Sérgio Cardoso foi o primeiro a adotar uma postura concreta contra os textos de má qualidade escritos por Glória Magadan, que culminou em um movimento que iria tirar a autora da poderosa posição de diretora do núcleo de dramaturgia da TV Globo.
Com o passar dos anos, a televisão brasileira foi assumindo uma identidade própria, que tomou a telenovela como principal veículo que expressava esta linguagem. Era preciso que o folhetim adquirisse mais consistência e maior aproximação com o público, com a realidade do país. A primeira a perceber isto foi a TV Tupi, que lançou, em 1968, duas novelas com a linguagem coloquial das ruas brasileiras, “Antonio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão, e “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso. A linha da TV Excelsior passou a investir nos épicos da literatura brasileira, trazendo para a televisão clássicos nacionais, como “A Muralha”, de Dináh Silveira Queiroz, e “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, distanciando-se das histórias dos castelos medievais ou dos desertos da Arábia das novelas da TV Globo.
Glória Magadan não se apercebeu de tais mudanças, insistindo nas histórias extravagantes, distantes da realidade de um Brasil em ebulição, cuja televisão era tomada por festivais da canção que renovavam a linguagem da música e das artes. Em 1968, deflagrada a Tropicália e os festivais históricos da MPB, a autora cubana insistia nas suas alucinações folhetinescas, escrevendo “A Gata de Vison”, novela ambientada no Estados Unidos da época da Lei Seca, com direito a gangster e às suas metralhadoras. A emissora ainda tentou uma inovação, trocou os dois tradicionais casais protagonistas da televisão, desta vez Yoná Magalhães fez dupla romântica com Tarcísio Meira, enquanto que Carlos Alberto fazia dupla com Glória Menezes na novela “Passo dos Ventos”, de Janete Clair. Não houve grande química entre os protagonistas, nem entre o público e a trama. No decurso da novela, a autora apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey, trinta anos mais jovem do que ela, com quem teria iniciado um romance. Glória Magadan transformou a personagem de Del Rey em protagonista da trama, o que levou Tarcísio Meira a reclamar do destino que estava sendo dado ao seu personagem. Glória Magadan eliminou a personagem de Tarcísio Meira da trama, matou a protagonista vivida por Yoná Magalhães, criando-lhe uma irmã gêmea para ser a heroína e par romântico de Geraldo Del Rey. A novela foi um fracasso. Glória Magadan acusou Daniel Filho de dar maior atenção às novelas de Janete Clair, culpando-o do fracasso da sua trama, levando o diretor a demitir-se da TV Globo. Enciumada com o sucesso ascendente de Janete Clair, a cubana chegou a proibir a autora de ter contacto direto com o elenco.
Em 1969, Glória Magadan escreveu a sua última novela para a TV Globo, “A Última Valsa”, inspirada no filme “Moulin Rouge”, de John Houston. Foi a última viagem da autora ao mundo dos duques e imperadores europeus. Cláudio Marzo e Theresa Amayo foram os protagonistas da trama. O público diria, definitivamente, não ao estilo de Glória Magadan, transformando a novela em um fracasso. Glória Magadan, a mulher mais poderosa da televisão, a Rainha das Telenovelas, foi demitida da TV Globo, em 1969, obrigando a emissora a reestruturar a sua teledramaturgia, mudando a sua linguagem. A mudança veio com “Véu de Noiva” (1969), de Janete Clair, que trocou os cenários europeus e os desertos árabes pelas praias cariocas, pelo cotidiano brasileiro, encerrando de vez o universo de fantasia de Glória Magadan na TV Globo.
Após a demissão da emissora carioca, Glória Magadan foi contratada pela TV Tupi. Em 1970 escreveu para a emissora paulista “E Nós Aonde Vamos?”, trazendo no elenco Leila Diniz (última aparição da atriz em novela, pois morreria em um acidente aéreo em 1972), Geraldo Del Rey, Márcia de Windsor, Theresa Amayo, Jorge Dória, Ítalo Rossi, Eva Todor, Adriano Reys, Marieta Severo, Yara Amaral, Roberto Pirillo e Gracindo Júnior, entre muitos. Ela ainda tentou adaptar o universo da sua teledramaturgia à exigência dos novos tempos, escrevendo uma história longe dos conflitos dos nobres europeus, dos ciganos e dos sheiks árabes, modernizando a ação, tentando contar os problemas da juventude. Mas o estilo da autora era, definitivamente, o da fantasia sem coerência. A novela foi um fracasso. Glória Magadan, outrora poderosa e temida, viu a sua carreira de novelista encerrada no Brasil.
Diante do fracasso final de “E Nós Aonde Vamos?”, a autora deixou o país, indo morar em Miami, local de refúgio dos cubanos resistentes ao governo implantado por Fidel Castro. Nos Estados Unidos, escreveu folhetins românticos para livros e revistas. Em 1996, Glória Magadan submeteu uma sinopse à extinta TV Manchete, que trazia o título de “Homens Sem Mulher”. Sobre o projeto, a autora declararia:
Há alguns anos submeti à Manchete uma idéia que ainda estou bastante segura de que alcançaria os recordes de Ibope. O título é “Homens Sem Mulher”. É sobre a inversão sexual.
Não se sabe se as crises constantes que levaram a TV Manchete à falência foram as causas do projeto não ter vingado. Glória Magadan faleceu em Miami, em 27 de junho de 2001, completamente esquecida, longe do título que a fez a “Rainha das Telenovelas”.

OBRAS

1960 – Yo Compro Esa Mujer – Telemundo (Porto Rico)
1960 – Yo Compro Esa Mujer – RCTV (Venezuela)
1965 – Paixão de Outono – TV Globo
1966 – Eu Compro Essa Mulher – TV Globo
1966 – O Sheik de Agadir – TV Globo
1967 – A Sombra de Rebeca – TV Globo
1967 – A Rainha Louca – TV Globo
1968 – Yo Compro Esa Mujer – TV Argentina
1968 – O Homem Proibido (Demian, o Justiceiro) – TV Globo
1968 – O Santo Mestiço – TV Globo
1968 – A Gata de Vison – TV Globo
1969 – A Última Valsa – TV Globo
1970 – E Nós Aonde Vamos? – TV Tupi

Supervisão:

1964 – O Sorriso de Helena – TV Tupi
1964 – Gutierritos, o Drama dos Humildes – TV Tupi
1964 – Pecado de Mulher – TV Tupi
1965 – Teresa – TV Tupi
1965 – O Cara Suja – TV Tupi
1965 – A Outra – TV Tupi
1965 – A Cor da Sua Pele – TV Tupi
1965 – Um Rosto de Mulher – TV Globo