LISBOA: ALEXANDRE E EU – AL BERTO

julho 9, 2009

Há exatos quinze anos, Lisboa era aclamada a Capital Européia da Cultura 1994, trazendo uma série de eventos culturais que eclodiram por toda a cidade. Os velhos prédios da cidade foram restaurados, ganhando cores vivas e diversas. O Bairro Alto foi chamado de “A Sétima Colina”, sendo o principal símbolo dos eventos culturais. Seus bares tornaram-se efervescentes, renovando a juventude que o freqüentava. Foi neste clima festivo que mais convivi com o poeta Al Berto e com o seu grande amigo, Alexandre Matos (ambos juntos na fotografia colorida).
O convívio foi fugaz, mas para sempre. Das noites no Frágil aos jantares no Targus, dos encontros constantes n’A Brasileira do Chiado, ao desfile de formatura em estilista do Alexandre, no Coliseu dos Recreios, serviu para que eu pudesse perceber o texto que me seria entregue mais tarde.
Em junho de 1997, um câncer fulminante decepou a vida do Al Berto. Em agosto reencontrei Alexandre Matos no bar do Miradouro de Santa Luzia. Estava de férias em Lisboa, pois há pouco mais de um ano fora morar em Turim, na Itália. Estava deprimido, abatido e inconsolável pela recente morte do Al Berto. A partir deste encontro, Alexandre trouxe-me várias cartas e textos do poeta, feitas a ele, perguntando-me se poderia ajudá-lo a publicá-las. As cartas, de teor intimamente pessoais, foram devolvidas. Um texto chamou-me a atenção, “Lisboa: Alexandre e Eu”, escrito em 1994, em laudas ainda datilografadas. O texto foi um presente do Al Berto ao Alexandre, que lhe tinha dito, fizesse o que bem entendesse com ele. A idéia era aproveitar o texto, verdadeira poesia em prosa, em um pequeno livro com fotografias feitas por Alexandre Matos. Mas quis a vida que eu seguisse um caminho diferente e retornasse ao Brasil, e os planos de publicar o texto do Al Berto, que continuou inédito, malograram.
Um texto de rara beleza, “Lisboa: Alexandre e Eu”, de Al Berto, traz a atmosfera das noites lisboetas, nas ruas do Bairro Alto. Cita lugares, os coletivos dos bairros, a noite, a bebida, a paixão e o amor. Traz uma melancolia madura, de alguém que já pressentia que a morte estava por perto e fazia, da sua poesia, o legado, o testamento para aqueles que amava. O texto é um jogo de metáforas e palavras diluídas numa beleza etérea, contínua, de paisagens urbanas, tendo o Tejo como centro e Lisboa como protagonista das vidas e das paixões. O sangue e o desejo transbordam as palavras, servidas pelos quartos dos amantes em cálices de bebidas quentes e dilacerantes.
Al Berto e Alexandre Matos, dois amigos situados na memória do meu coração. O texto que segue, provavelmente ainda inédito, é a minha homenagem aos dois, com as fotografias feitas por Alexandre Matos, do jeito que ele sonhara um dia. A autorização para que fizesse o que bem entendesse com o texto veio do próprio Alexandre. Aqui, fotografia e poesia unidas em uma beleza singular, a mostrar que o amor vence o tempo e a morte, imagens e palavras eternizam o que o vento soprou em um passado para sempre gravado nas ruas de Lisboa.

Lisboa: Alexandre e Eu, por Al Berto

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar.
Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.
E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas, estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.
E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada.
Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.
Ponho os óculos, e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.

Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.
Por isso bebo.
Beber, ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de no perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi.
Não me abandones, fica…
E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos “A Dança” de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, os dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento a tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.
Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.
Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia disseste:
A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.
Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia-dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de-amêndoa que te diga:
O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.
Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso. E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.
Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos nos escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensangüentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.
O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema.
Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto, Lisboa, 1994

Fotos: Alexandre Matos

Veja também:

 AL BERTO

https://jeocaz.wordpress.com/2008/04/25/al-berto/

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ENCONTRO NO JARDIM DO ÉDEN – JEOCAZ LEE-MEDDI

janeiro 10, 2009

“E Deus prosseguiu dizendo:
‘Façamos homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança,
e tenham eles em sujeição os peixes do mar,
e os animais domésticos, e toda a terra,
e todo animal movente que se move sobre a terra.’
E Deus passou a criar o homem à sua imagem,
a imagem de Deus o criou;
macho e fêmea os criou.”
(Gênesis 1:26-27)

Quando a canção dos ventos faz dos mil dias os mil anos, dos mil anos o princípio do passado, onde a confusão do futuro continua a arremessar o nosso ser nas incertezas de Deus. Assim a noite torna-se a máquina do tempo, e o corpo as moléculas das ideologias.
Nas incertezas da minha mente, fugir para os jardins públicos nunca arrebatou os meus desejos. Naquela noite de estrelas e de galáxias sobre as cabeças, entrei pelo Jardim do Trianon. Tudo era escuro, e um cheiro nauseante de flores confundia a primavera. Sempre tive medo de atravessar o coração do jardim. Medo das surpresas, ali assaltantes, drogados e bichas dançavam um tango perigoso com cheiro de sangue e esperma. Não resisti ao cheiro das flores, teria que vomitar. Talvez fosse do absinto, mas preferia acreditar que era das flores, intelectualizava melhor os vícios. Entrei no coração do jardim para vomitar. Poderia tê-lo feito nos urinóis dos cães por ali espalhado, mas a minha condição de cão sem dono não me deixou fazer isto.
Quanto mais penetrava no interior do jardim, mais a noite corria, as nuvens no céu passavam por mim em grande velocidade. As estrelas davam passagem ao Sol, que por sua vez brilhava de um tom pastel, dando à paisagem cores tranqüilas, cromaticamente perfeitas. O jardim foi ampliando-se, tornara-se infinito, já não conseguia ver os prédios. Na minha boca o gosto do absinto dava passagem a um bem-estar quase bucólico. Já não tinha coragem de vomitar.
Caminhei pelo imenso jardim. Por mim passaram plantas, árvores, pássaros, formas da natureza que jamais tinha visto. Quanto mais caminhava, mais me perdia dentro do jardim. Andei alguns minutos, quando vi ao longe um lago. Parecia calmo, convidativo para beber água. Caminhei até o lago, na certeza de querer ver a minha imagem nele refletida. Debrucei-me sobre as margens. Bebi um pouco da água, era saborosa, fresca, pura. Molhei com as minhas mãos o meu rosto. Olhava-me no espelho das águas, quando uma outra imagem formou-se no reflexo das mesmas. A imagem tremia com o movimento das águas. Mas podia ver o corpo de um homem, um rosto a olhar-me. Uma beleza que jamais vi em revistas ou filmes. Levantei-me, vi atrás de mim o homem da imagem nas águas. Sorria-me com um sorriso quase ingênuo, talvez puro. Olhei para o seu corpo, estava nu, completamente nu. Um corpo perfeito, de uma beleza que jamais encontrei nos ginásios de atletas. Trazia músculos exatos, sem nunca ter recorrido aos alteres. Levantei-me, se aquele homem não era uma miragem, com certeza que atenderia a todos os engates de jardins, sem jamais sair dali. Toquei-lhe no ombro. A pele era perfeita, passei-lhe a mão pelo peito. Olhei para ele. Era real.
-Quem és tu, um anjo? – Perguntou-me.
Um anjo? Eu, um anjo? Sim, anjo, querubim, serafim, arcanjo, o que ele quisesse. Para quê dar títulos às coisas? Eu era a ilusão que me quisessem dar, seria difícil de explicar isto?
-Porque me fazes esta pergunta?
-És um anjo? Trazes vestes, deves ser um anjo de Deus.
-Um anjo de Deus? E tu quem és?
-Não sou nada, sou apenas a imagem da obra de Deus. Mas deves saber quem sou. Não fazes parte do jardim, fazes parte do conhecimento que eu ainda não tive, mas que procuro. Fazes parte dos anjos.
-Como te chamas?
-Não sabes? Todos os anjos sabem. Todos me chamam Adão, e não sei porque, todos eles, filhos de Deus, como eu, mas mais poderosos, invejam-me como criação perfeita. Acho que a inveja deles trará um dia o meu fim.
Adão. O jardim não era o Trianon? Olhei à minha volta. Tudo era perfeito, a harmonia da paisagem confundia-se com os animais que passeavam mansamente pelo jardim. Não, definitivamente aquele homem era por demais perfeito para ser um de nós. O seu corpo trazia a beleza divina, sim, agora percebia a inveja dos anjos que queriam ser como Adão. A beleza da criação de Deus ainda perfeita. O corpo como símbolo de beleza, não de desejo. De repente senti-me envergonhado por trazer roupas. As roupas traziam-me o pecado, trazia-me a traição àquela perfeição da obra de Deus.
-Sim, em parte tens razão, não sou um anjo, mas sou o resultado da luta dos anjos com Deus. Um anjo caído, porque sou o teu espelho desfocado, o teu filho mais distante, sem a importância que tens, sem a grandiosidade de ti. Olha o meu corpo. Traz marcas, é imperfeito, perecível, quase um monstro perto do teu. Olha bem o meu corpo, és tu futuramente, sou o que fizeste, sou a tua escolha. A tua liberdade diante da escolha. Mais do que tu, sou pó, porque assim mo fizeste.
Ele olhou-me. Tocou-me. Parecia sentir uma certa repugnância. Repugnância nas imperfeições dos corpos. Por mais que tentasse, não conseguia ver-se assim. Era uma visão hecatômbica diante da criação. Mas comoveu-se com a minha imperfeição. Reconhecia em mim o filho bastardo, mesmo a julgar-me indigno do seu Éden. Sorriu-me, estendeu-me a mão.
-Queres visitar o meu jardim?
-Sim, acho que é o sonho de todos nós, imperfeitos, mas filhos de uma obra perfeita.
Caminhamos pelos jardins. Mostrou-me todas as plantas, todos os animais. Disse-me dos anos de solidão que ali esteve a aprender, a fazer conhecimento com a natureza, com tudo o que estava à sua volta. Falou-me dos anos que passou a dar nome às coisas. A tudo dera um nome e um significado. Contou-me da companheira que agora habitava o seu mundo, da felicidade de ser a mais bela obra de Deus, sem talvez, aperceber-se da responsabilidade. Caminhamos até uma árvore. Ali encontramos um pássaro morto. Um melro. Ele debruçou-se sobre o cadáver do pássaro, apanhou-o nas mãos. Dedos longos, elegantes, onde o cadáver da ave quase desaparecia entre as linhas das mãos. Depois enterrou o corpo da ave ali, perto da árvore.
-Viste aquela ave?
-Sim, era bela. Gosto das aves.
-Nela já não havia o sopro de vida, a sua alma estava morta. É assim que acontece com todos os animais. Vês a árvore onde a enterrei?
-Sim.
-É a árvore da vida. Sou imortal, por este motivo sou diferente de todas as almas viventes. Aos animais não foi concedida a imortalidade. Se comer do fruto da árvore da vida, também eu morrerei, serei igual aos outros animais.
-Então tens conhecimento do que é a morte?
-Sim, vejo a morte todos os dias a abraçar os animais que ladeiam o Éden.
-Gostas de viver?
-Gosto, sou feliz, viver é ser feliz. Para que morrer se os sopros de todas as promessas percorrem os meus sentidos? Aprendo a sabedoria todos os dias. Às vezes tenho pressa, mas se tenho a eternidade, para que a pressa? Dizem que se comer da árvore da vida morro, mas dizem-me também, que saberei todos os segredos do mundo. Às vezes tenho fome do saber, por isto tenho medo da minha curiosidade ante ao que me é oculto.
-Não te preocupes, ainda somos assim, cheios de pressa, talvez por não termos a eternidade como a tens tu, para nós ela é apenas uma promessa. Mas somos tão imperfeitos que não acreditamos nas promessas, temos pressa de sabermos dela, mas, quanto mais pressa nós temos, mais próximos do fim caminhamos. Se tu que és perfeito tens pressa em abraçar a imperfeição, que posso fazer se não esperar pela eternidade de Deus?
Caminhamos por várias horas. Por fim o meu corpo cansou-se. Encostei-me a uma árvore e dormi. Não sei quanto tempo, quantas horas, só sei que dormi. Dormi no Éden, como um errante cuco, a invadir ninhos que não são seus. Acordei com alguém a me sacudir os ombros. Era Adão. Trazia no rosto um ar pesado. Olhei para ele e já não vi o seu sexo. Estava escondido, fazendo dele não um símbolo de beleza, mas um símbolo de desejo. Agora que não via o seu sexo, em mim um desejo louco ardia, queria vê-lo. Então me apercebi que ele já não era perfeito, já era como eu. Trazia o pecado no sexo, ladeado pela serpente, não pela pureza.
-O que aconteceu? – Perguntei-lhe.
-Temos que partir, fomos expulsos do jardim. A minha sede de conhecimento levou-me a ter pressa. Comi do fruto da árvore da vida. Agora fui amaldiçoado. Traí toda a obra do Criador. A sua obra era perfeita, mas eu a fiz imperfeita. Tornei-me apenas uma peça no jogo de Deus e de Satanás. Tenho pena de deixar o jardim, mas não posso aqui ficar. O meu sangue já traz a morte como herança. Manchei o meu sangue, está contaminado pela mortalidade dos sonhos. Perdi a eternidade para mim e para os meus descendentes. Nada deixarei de mais marcante aos meus herdeiros do que a morte. Eu fui perfeito porque fui gerado do pó, não do ventre que traz os genes da morte. Vou-me embora, para longe do jardim.
-E agora?
-Agora? Terás que esperar outro homem perfeito. A lei é sangue por sangue. Enquanto não for derramado o sangue do homem perfeito, teremos que expiar o pecado através de oferendas do sangue dos animais. Mas o sangue de um animal não é perfeito. Não basta, acalma a ira de Deus, mas não basta na lógica exata da sua lei, do seu senso de justiça. Agora somos apenas dignos da sua piedade, portanto quem é digno de piedade contenta-se com as sobras que lhe são oferecidas. Agora teremos que nos contentar com as sobras de Deus, somos apenas pobres mortais a não adorá-lo, mas a clamar pela sua misericórdia. Deus foi feito para ser amado, porque é amor, não para ser incomodado com lamúrias de alguém digno de piedade. O que fiz da curiosidade de obter sabedoria? Já não me achas belo, pois não?
-Ainda és o mais belo de todos. Mas já não és o que eu vi há pouco. Não, mudaste, tornaste-te mais um, causas-me desejo, não admiração. És como eu, agora és como eu.Assim partimos, ele seguiu uma direção e eu outra. Não sei onde foi dar o seu caminho, mas já sabia do resultado. Caminhei um pouco e fui sentar em um banco do jardim que já era o Trianon. Pessoas passavam por mim, com perfumes suaves, um cheiro atraente, o sexo escondido entre roupas que contornavam a promessa do corpo. Sim, por mim passavam os filhos de Adão. Tão obcecados pela perfeição dos corpos, pela pressa do conhecimento das verdades, pelo desajuste do desejo. Mas os que estavam escritos na eternidade de Deus, só Ele sabia. Nós, tal qual Adão, desfilávamos nossos corpos sem a grandiosidade de Deus.

Conto: Jeocaz Lee- Meddi
Fotografias: Paulo César (1 – One of the Angels, 2 – Orion e as Saudades, 3 – Alma por Inteiro, 5 – Life Can Be Strange); Guilherme Santos (4 – Os Homens Morrem no Chão), Nuno Manuel Baptista (6 – S/T) e DDiArte (7 – Laocoonte)