A ESTRELA DALVA DE OLIVEIRA

julho 20, 2010

Se hoje a Música Popular Brasileira é essencialmente feita de grandes vozes femininas, nem sempre foi assim. Numa época em que eram dominantes as poderosas vozes masculinas, como a de Francisco Alves, surgiu Dalva de Oliveira, com os seus agudos fulminantes e voz de cantora lírica, que ao adaptá-la para o canto popular, tornou-se a primeira grande voz feminina da MPB.
Dalva de Oliveira surgiu na época de ouro do rádio, do glamour dos palcos dos grandes cassinos cariocas, no despertar do cinema nacional. Alcançou grande popularidade antes legada a Carmem Miranda. Se a Pequena Notável tinha o carisma, a originalidade e alegria diante dos palcos e das câmeras de cinema, Dalva de Oliveira tinha a voz, o drama e a emoção à flor da pele. Antes dela, nenhuma voz feminina alcançou tão arduamente o coração do brasileiro.
Porte de estrela, trazia consigo o estigma do destino infeliz das grandes divas, fazendo da sua emoção um dos cantos mais límpidos, belos e sinceros que já ecoaram pelo Brasil.
A Estrela Dalva, como era conhecida, numa alusão poética e tipicamente brasileira ao brilho ilusório do planeta Vênus, Dalva de Oliveira passou por todos os estágios que constituem uma vida farta de emoções e densidade dramática. Foi menina pobre, a lavar roupas nas soleiras dos cortiços, faxineira, costureira, cantora de circo, grande estrela da MPB, conheceu os lugares mais luxuosos do mundo, teve o Brasil aos seus pés, alcançou fortuna, perdeu-se nos labirintos do álcool, sofreu um acidente que lhe deixou uma grande cicatriz a lhe rasgar o rosto e a saúde debilitada, passou por amores atribulados, criou grandes polêmicas envolvendo sua vida amorosa, foi mãe, dona de casa, amante, mulher.
No fim da vida foi legada ao ostracismo, num cruel esquecimento de um país que pouco cultiva os seus ídolos. No ano da sua morte, em 1972, alcançou um último fôlego, voltando a mídia de então, quando se apresentou no Programa Silvio Santos, então apresentado pela poderosa TV Globo, onde ganhou um concurso de marchinhas de carnaval daquele ano. Quase nada para uma estrela, mas muito para quem teve poucas vezes os holofotes da televisão. Meses depois, Dalva de Oliveira voltou à mídia, mas para fazer a sua despedida lenta e agonizante, em uma internação hospitalar que durou meses. No momento da sua agonia, o Brasil voltou a idolatrá-la. Seu público fiel fez filas na porta do hospital. No dia 30 de agosto de 1972, Dalva de Oliveira morreu. O Brasil parou para homenageá-la. Milhares de pessoas acederam ao seu velório e enterro, gerando um momento de comoção nacional. Era o último adeus do povo brasileiro à Estrela Dalva.

Infância Pobre e Ligada à Musica

Em 5 de maio de 1917, nascia na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo, Vicentina Paula de Oliveira, primogênita do mulato Mário Antônio de Oliveira e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira.
Na infância pobre da menina Vicentina faltaram as bonecas, os brinquedos, mas não a música. O pai marceneiro ou carpinteiro, conforme lhe queiram classificar a profissão, era músico amador, que nas horas de folga tocava em serenatas ao lado dos amigos músicos, com quem chegou a organizar um conjunto para animar festas particulares. Mário Carioca, como era chamado, costumava ser acompanhado pela filha nas serenatas que promovia, e, reza a lenda, teria cantado com ele várias vezes em cima de um banquinho. Já desde cedo o contacto da futura cantora com a música estava estabelecido.
Além de músico e festeiro, Mário Carioca era conhecido pela facilidade de fazer filhos, tendo uma prole de cinco rebentos. Além de Vicentina, vieram mais três meninas, Nair, Margarida e Lila, e um menino, que nascera com a saúde debilitada, morrendo ainda criança. Mário Carioca também deixou a família muito cedo, vindo a falecer quando Vicentina tinha apenas oito anos.
Viúva, sem recursos financeiros e com quatro filhas para criar, dona Alice mudou-se para a cidade de São Paulo, empregando-se como governanta. Por esta época, conseguiu vaga para as filhas no Internato Tamandaré, dirigido por irmãs de caridade. No internato, entre as adversidades da vida, mais uma vez Vicentina teve contacto com a música, tendo ali aulas de piano, órgão e canto. A vida no internato durou três anos, quando a menina foi obrigada a sair, ao ser acometida de uma grave infecção nos olhos, que quase a deixou cega.
A presença de Vicentina na casa onde a mãe estava empregada não foi bem aceita pelos patrões, sendo ela demitida. Alice conseguiu emprego em um hotel, trabalhando como copeira, passando a contar com a ajuda da filha.
Logo cedo, Vicentina começou a trabalhar como arrumadeira, babá ou ainda como ajudante de cozinha de restaurantes, desenvolvendo grande talento para cozinhar, hábito que não abandonaria mesmo quando já era uma estrela da MPB. Foi numa das suas perambulações para sobreviver e ajudar a mãe, que se empregou em uma escola de dança, tendo ali contacto com um piano e com a música, uma constante em sua vida, quase como uma sina sem livre arbítrio. Depois que encerrava os trabalhos domésticos na escola de dança, costumava cantar algumas músicas, tentado tirar as melodias do piano da escola.

Nasce a Estrela Dalva nos Palcos de Um Circo

A ligação de Vicentina com a música crescia, assim como a sua voz, cada vez mais potente. Na escola de dança, um dia seria ouvida pelo maestro pianista, sendo por ele convidada para cantar na trupe de um circo de tablado, comandada por Antônio Zovetti.
Tendo a mãe sempre do lado, Vicentina passou a acompanhar o Circo Damasco, que percorria várias cidades do interior paulistano. A cantora apresentava-se nos intervalos das atrações circenses, sendo solenemente apresentava como “a menina prodígio da voz de ouro”.
Antônio Zovetti evitava-lhe chamar pelo nome, pois o considerava pouco sonoro para uma cantora. Por sugestão da mãe, Vicentina passou a usar o nome de Dalva. Desde então, passou a ser anunciada calorosamente: “A doçura da voz da menina prodígio, a estrela Dalva”. Nascia uma das mais cintilantes estrelas do firmamento da música brasileira.
As viagens do circo levaram a então Dalva, em uma bem-sucedida apresentação em Belo Horizonte. Na capital mineira, foi induzida a fazer um teste na Rádio Mineira, sendo aprovada. Mas a aprovação no rádio coincidiu com a dissolução do Circo Damasco, e Dalva e a mãe foram obrigadas a retornar para São Paulo.
Na capital paulistana, Alice foi aconselhada a levar a filha para o Rio de Janeiro, pois lá teria mais condições de ascender como cantora, visto que era dona de uma voz privilegiada e de um talento latente, pronto para explodir.

Início nas Rádios e nos Teatros

Em 1934, as filhas de Mário Carioca voltaram a morar todas com a mãe. Juntas, seguiram para o Rio de Janeiro, em busca de dias melhores. Na capital federal foram morar em um quarto de cortiço na Rua Senador Pompeu.
No Rio de Janeiro, Dalva empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos. Mais uma vez, o seu destino cruzou-se com a música. Um dos donos da fábrica era Milton Guita, conhecido pela alcunha de Milonguita, diretor da Rádio Ipanema. Dalva tinha o hábito de cantarolar enquanto trabalhava, sendo ouvida uma vez por Milonguita. O radialista convidou-a para um teste na Rádio Ipanema, no qual foi aprovada. Começava uma peregrinação pelas rádios do Rio de Janeiro, que futuramente, transformaria a cantora na Rainha do Rádio.
Da Rádio Ipanema, Dalva de Oliveira transferiu-se consecutivamente para a Rádio Sociedade e Rádio Cruzeiro do Sul, cantando ao lado do mítico Noel Rosa. Passou ainda, pela Rádio Philips, desembocando na Rádio Mayrink Veiga. Foi nesta rádio, que o então diretor Adhemar, levou- à presença do respeitado maestro Gambardella. O maestro encantou-se com o potencial da sua voz, pronta para ser uma grande cantora lírica. Mas Gambardella deu-lhe um conselho sábio, que seguisse carreira como cantora popular, visto que ser cantora lírica exigia recursos financeiros, e que uma moça pobre dificilmente conseguiria projeção em um universo tão fechado e sem futuro no Brasil da época.
Dalva de Oliveira prosseguiu a sua trajetória rumo ao sucesso. Passou pelo Teatro Glória, sendo figurante e corista em várias operetas. No Largo da Cancela, Dalva apresentou-se em números imitando a atriz Dorothy Lamour. Participou da temporada popular da Casa do Caboclo, do Teatro Fênix, numa roda viva constante em busca de um lugar ao sol, de poder mostrar para o Brasil a estrela que havia dentro dela.
A caminhada não lhe era fácil. Continuava a viver com a mãe e as irmãs na mais completa miséria em um cortiço carioca. A sua vida iria mudar definitivamente, quando, em 1936, conheceu o jovem cantor e compositor Herivelto Martins.

O Trio de Ouro

Reza a tradição que o encontro entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins deu-se no Cine Pátria, no Largo da Cancela, em São Cristóvão. Na época o cantor formava a dupla Preto e Branco, ao lado de Nilo Chagas, o preto da dupla. Originalmente, Francisco Sena era o parceiro de Herivelto Martins, tendo morrido em 1935, foi substituído por Nilo Chagas.
O encontro resultaria em alguns números de Dalva de Oliveira com a dupla. A seguir, Herivelto Martins foi contratado para trabalhar no Teatro Fênix. Sentindo-se atraído pela beleza da voz da jovem, e pelos seus olhos verdes cismadores e fatais, o rapaz propôs-lhe que viesse cantar com a dupla, formando o trio que chamaram de Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco. Juntos, gravaram, em 1937, pela RCA Victor, o primeiro disco, um compacto com as músicas “Itaquan” (Príncipe Pretinho) e “Ceci e Peri” (Príncipe Pretinho).
Dalva de Oliveira e Herivelto Martins iniciavam uma grande parceria musical, e uma tórrida história de amor, que marcaria para sempre as suas vidas. A marchinha “Ceci e Peri” tornou-se um grande sucesso. Quando Dalva de Oliveira ficou grávida do primeiro filho, os fãs escreviam ao casal, pedindo que a criança ao nascer fosse batizada de Ceci, se menina, ou de Peri, se menino. Assim foi feito, quando nasceu um menino, recebeu o nome de Pery Ribeiro, que mais tarde, assim como os pais, tornar-se-ia cantor da MPB.
Contratado pela Rádio Mayrink Veiga, o trio ao apresentar-se no programa de César Ladeira, mudaria de nome, quando o apresentador afirmou que aquele era um trio de ouro. Nascia o mítico Trio de Ouro.
Contratados pela Odeon, gravaram os primeiros discos com o Regional de Benedito Lacerda. O nome Trio de Ouro apareceria pela primeira vez em 1938, já na Odeon, quando da gravação do jongo “Na Bahia” (Herivelto Martins – Humberto Porto), ao lado de Carmen Miranda.
Dalva de Oliveira e Herivelto Martins passaram a viver maritalmente, oficializando a união em um ritual de umbanda, em 1939. Além de Pery Ribeiro, teriam outro filho, Ubiratan Martins.
O Trio de Ouro tornou-se sucesso em todo o Brasil, produzindo alguns clássicos da MPB. Em 1940 passaram a atuar na Rádio Clube do Brasil. Com o sucesso, também o dinheiro começou a fazer parte da vida de Dalva de Oliveira. Presa à arte de cantar, alheia às questões financeiras, a cantora deixou por conta do marido a administração da sua carreira, limitada às decisões de Herivelto Martins. Em 1942, o Trio de Ouro atingiria o seu auge, fazendo de “Praça Onze” (Herivelto Martins – Grande Otelo), o maior sucesso do carnaval daquele ano. A canção “Ave Maria no Morro” (Herivelto Martins), fazia a voz de Dalva de Oliveira ecoar por todas as dores de um Brasil sofrido, numa grande prece lírica, como um bálsamo na ferida de um povo.
Se Herivelto Martins era a cabeça do trio, Nilo Chagas os braços e pernas, Dalva de Oliveira era a alma, o coração, a essência da sua beleza musical. Na década de 1940, atingiram a fama incontestável. Apresentaram-se com sucesso nas noites do famoso Cassino da Urca, abarrotaram o mercado fonográfico com vários discos, e as rádios com grandes sucessos. Alcançavam não só a fama, como também a independência financeira.
Nos bastidores, a paixão intensa e conturbada de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins ia desgastando o casamento de ambos, minando o equilíbrio do trio, produzindo traições conjugais, violentas brigas, até o rompimento definitivo do casal, em 1947, culminando com o fim do Trio de Ouro.

A Rainha do Rádio

Com a separação de Herivelto Martins, Dalva de Oliveira viu-se solitária para dirigir a sua carreira. Não sabia que destino seguir. Atingira a fama ao lado do marido, não sabia o que era administrar uma carreira profissional.
Após vários escândalos, brigas e traições, o casal declarou a falência do casamento em 1947. Dalva de Oliveira passou a seguir os seus impulsos, a sua emoção, descobrindo na embriaguez do álcool um antídoto traiçoeiro para as suas decepções de amor.
Mesmo separados, Herivelto Martins não se desligava do sentimento de posse pela mulher, a quem, na sua visão, fizera uma estrela. Ao encontrá-la com outro, iniciou uma série de escândalos que se iriam tornar famosos, travando uma guerra pública que se estenderia por alguns anos, onde a munição era a música.
O rompimento definitivo de Dalva de Oliveira com o Trio de Ouro veio quando, em 1949, realizavam uma excursão à Venezuela com a Companhia de Dercy Gonçalves. Herivelto Martins voltou ao Brasil, mas Dalva continuou naquele país, apresentando-se com o maestro Vicente Paiva.
Sozinha, era hora de Dalva de Oliveira reiniciar a sua carreira e a sua vida amorosa. Ao retornar ao Brasil, encontrou grande rejeição por parte dos produtores da gravadora Odeon, que não acreditavam em uma carreira a solo da cantora, pressionando para que ela voltasse ao trio.
Na imprensa, Herivelto Martins abria forte campanha de difamação da ex-mulher e ex-colega de trio. Dalva de Oliveira contava com o seu grande talento e com a sua voz de filetes agudos capazes de quebrar os mais finos cristais da MPB.
A cantora encontrou o apoio decisivo para iniciar a sua carreira a solo em Vicente Paiva, na ocasião um dos diretores artísticos da gravadora Odeon. Vicente Paiva apostou no lançamento do samba-canção “Tudo Acabado” (J. Piedade – Osvaldo Martins), pondo o cargo à disposição caso o disco não se tornasse sucesso. A aposta vingou e, a canção tornou-se um grande sucesso da cantora. Era o ponto de partida de uma carreira que superaria a fase do Trio de Ouro, transformando Dalva de Oliveira numa das maiores cantoras da MPB. “Tudo Acabado” servia de resposta às ofensas de Herivelto Martins, iniciando uma polêmica musical que encantaria o público e faria com que as gravadoras vendessem cópias e cópias de discos. A cada canção que Dalva de Oliveira gravava, vinha uma resposta em outra de Herivelto Martins. O momento tornou-se mítico nos bastidores da MPB, com a cantora a interpretar os clássicos “Errei Sim” (Ataulfo Alves) e “Que Será” (Marino Pinto – Mario Rossi).
A briga pública com Herivelto Martins fez com que Dalva de Oliveira perdesse a guarda dos filhos, Pery e Ubiratan foram enviados para um internato por ordem judicial, causando grande dor à cantora e às crianças.
Longe do Trio de Ouro, tudo que Dalva de Oliveira gravava tornava-se sucesso. Logo no primeiro ano a solo, conseguiu pôr nas paradas das rádios brasileiras sucessos que se tornaram inesquecíveis, como “Olhos Verdes” (Vicente Paiva), “Zum-Zum” (Paulo Soledade – Fernando Lobo) e “Ave Maria” (Vicente Paiva – Jaime Redondo).
Em 1951, a cantora era a voz mais ouvida nas rádios. No ano seguinte, em 1952, Dalva de Oliveira foi eleita a Rainha do Rádio, a rainha da voz do Brasil. A menina Vicentina era incontestavelmente a Estrela Dalva.

Novos Amores e Casamentos

Com a carreira consolidada, tendo o público brasileiro aos seus pés, Dalva de Oliveira iniciou uma série de excursões ao exterior, apresentando-se na Argentina, no Uruguai, no Chile e na Inglaterra.
Na sua passagem pelo Reino Unido, cantou par a rainha Elizabeth II, no Hotel Savoy, acompanhada pelo maestro Robert Inglis. O repertório foi registrado em Londres, nos estúdios da Parlophone, sendo lançado em disco. O nome do maestro foi alterado no Brasil para Roberto Inglez, para facilitar a comercialização do álbum no país.
Na sua excursão à Argentina, conheceria o empresário Tito Climent, quando se apresentava na Rádio El Mondo, em Buenos Aires. Iniciou com ele uma amizade, fazendo-o empresário, e, mais tarde, o seu segundo marido.
O casamento com Tito Climent aconteceu em Paris, numa igreja de Montmartre, em 1952. Atravessaria a década de 1950 casada com o argentino, motivo que levou a cantora a ausentar-se do Brasil por um bom tempo, indo viver na Argentina. Sua união com o empresário não chegou a criar escândalos nos jornais como a que vivera com Herivelto Martins, mas nem por isto foi tranqüila. Brigas freqüentes minaram a ligação, que terminou em separação, em 1963. Com Tito Climent, a cantora adotou uma filha, Dalva Lúcia, motivo de disputa judicial entre o casal após a separação. A filha ficaria com o pai, permanecendo anos sem ver a mãe. O reencontro das duas aconteceria anos mais tarde, sendo promovido no Programa Silvio Santos, na TV Globo, em 1972.
Separada de Tito Climent, viu-se outra vez sozinha e tendo que administrar a carreira, algo que ela, após dois casamentos, ainda não aprendera a fazer. Os excessos com o álcool passaram a ser cada vez mais constantes e públicos, sendo amplamente evidenciados pela imprensa de então. Seus romances relâmpagos tornaram-se parte dos escândalos que se tornaram mais intensos do que a sua carreira e sucessos.
Aos 47 anos, a cantora apaixonou-se pelo jovem Manuel Nuno Carpinteiro, de 19 anos. A diferença de idade entre os dois não impediu que a relação crescesse, o rapaz tornar-se-ia o seu terceiro e último marido.

O Ocaso de Uma Estrela

No decorrer dos anos, a era de ouro das grandes rádios terminou. O governo fechou e proibiu os cassinos no país, encerrando o glamour da época da Urca. As grandes e potentes vozes masculinas foram dando passagem para vozes suaves e afinadas como as de João Gilberto. A Bossa Nova encerrou a época dos sofridos samba-canções, das ingênuas marchinhas carnavalescas e do samba-exaltação ao Brasil.
Dalva de Oliveira, com as suas mãos cruzadas no peito, sua emoção a exalar por todos os poros, passou a amargar um longo período de ostracismo. Os sucessos foram ficando cada vez mais raros.
Como se não bastasse, a tragédia bateria à sua porta, em agosto de 1965. Numa noite, quando voltava de uma festa com o marido Nuno, iniciaram uma intensa discussão dentro do carro. A briga resultou em um grande acidente, em circunstâncias obscuras, que culminou com atropelamento e morte de três pessoas. Dalva de Oliveira foi internada em estado grave no hospital, deixando os fãs apreensivos, sem saber se ela escaparia com vida. Durante o período de internação, Manuel Nuno declararia à polícia que era a cantora quem dirigia o carro. Mais tarde, a cantora já recuperada, viu-se em apuros com a justiça. Nuno confessaria que era ele quem dirigia o carro, e que culpara a cantora pensando que ela não sobrevivesse. O jovem seria processado e absolvido pela responsabilidade na morte das pessoas. O que se passou de verdade, na hora do acidente entre os dois, jamais ficou claro. O acidente deixaria uma marca profunda na saúde da cantora, e uma grande cicatriz a riscar-lhe o rosto para sempre.
A tragédia e o jogo de culpas levou o casal à separação. Dalva de Oliveira caminhou errante, abatida e envelhecida, entregando-se ao álcool e a amores fugazes. Limadas as mágoas, Dalva e Nuno reconciliaram-se tempos depois.
Sentindo-se esquecida, Dalva de Oliveira sofreu longos períodos de depressão e tristeza. A fortuna e o sucesso, assim como vieram, pareciam ter passado para sempre. Muitas foram às vezes que teve que voltar para a sua casa, em Jacarepaguá, entrando pela parte da frente de um ônibus coletivo, pois não tinha dinheiro para pagar a passagem. Bêbada e solitária, deixava-se dormir na poltrona do coletivo, sendo acordada pelo motorista, que a deixava na porta de casa. No fim da vida, ia todo mês receber a sua aposentadoria, não como uma estrela, mas como uma cidadã brasileira comum.
Nos anos sessenta, teve alguns sucessos pontuais, como “Rancho da Praça Onze” (João Roberto Kelly – Chico Anýsio) e “Máscara Negra” (Zé Kéti – Pereira Matos). Após uma longa ausência, retornaria às paradas em 1970, com um retumbante sucesso, “Bandeira Branca” (Max Nunes – Laércio Alves). Com a canção, Dalva de Oliveira pedia trégua ao ostracismo, aos amores, à vida. Parecia ter encontrado o seu Shangri-Lá na casa de Jacarepaguá.

O Adeus à Estrela Dalva

O ano de 1972 começou com um breve retorno de Dalva de Oliveira à mídia da época. Ganharia um concurso de marchinhas de carnaval, no Programa Sílvio Santos, na TV Globo. No mesmo programa, reencontrar-se-ia com a filha Dalva Lúcia, a quem não via fazia alguns anos. Desde então, a cantora passou a ser citada mais vezes pela mídia.
Mas a saúde precária da cantora interrompeu qualquer esperança de volta. Sozinha em casa, Dalva surpreendeu os funcionários da Rádio Globo, ao telefonar para lá pedindo socorro, pois estava a sentir-se muito mal. Socorrida, ela foi internada de emergência. A notícia causou um grande impacto no público, que passou a fazer vigília na porta do hospital. A internação foi demarcada por altos e baixos, com melhoras aparentes, tendo a imprensa a acompanhar a agonia da cantora, que persistiria por quase três meses. A atenção da imprensa só foi desviada devido à tragédia ocorrida em 18 de agosto daquele ano, quando um ataque cardíaco matou subitamente o grande ator e galã Sérgio Cardoso. O ano tinha sido de grandes perdas, assinalando também, a morte de Leila Diniz em um acidente de aviação em junho.
Três dias antes de morrer, Dalva de Oliveira teria pressentido o seu fim, pedindo a Dora Lopes, amiga que a acompanhara durante a internação, que a vestisse e a maquiasse com o esmero que se acostumara a vê-la o povo. Profetizou ainda, que todos iriam parar para vê-la passar. No dia 30 de agosto de 1972, às 17h15, aos 55 anos, Dalva de Oliveira calava-se para sempre, deixando a vida e com ela, uma das mais belas carreiras da história da música brasileira.
A morte da cantora comoveu o Brasil. Debaixo de uma chuva fria, milhares de pessoas compareceram ao Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro, onde o corpo de Dalva de Oliveira estava a ser velado. A vigília durou 17 horas, com uma fila que não se findava, todos querendo prestar a última homenagem. Amigos, familiares, artistas, políticos, todos encheram o velório de Dalva de Oliveira do brilho que ela sempre iluminou ao seu redor. Quando o corpo foi retirado do teatro, mais de trinta mil pessoas, aglomeradas na Praça Tiradentes, acenavam os seus lenços, derramando lágrimas pelo ídolo morto. O cortejo levou duas horas para atravessar a cidade do Rio de Janeiro e chegar ao cemitério Jardim da Saudade. Como Dalva de Oliveira previra, a cidade e o seu povo pararam. Meio milhão de pessoas espalharam-se pelas calçadas dos bairros por onde o cortejo passou, num adeus à Estrela Dalva.
A emoção que se alastrou pelo Brasil refletia bem quem fora Dalva de Oliveira, mulher de coragem e guerreira, que jamais se deixava inquietar pelas dores e adversidades. Desde criança que aprendera a crescer com as dificuldades. Teve o Brasil aos seus pés, mas jamais se comportou como diva. Tratou com carinho e amor todos os fãs, sem nunca ter sido acusada de estrelismo. Nunca perdeu a simplicidade, mesmo quando o mundo girava à sua volta. A sua emoção atingiu milhões de pessoas. Suas mãos cruzadas sobre o peito expressavam a força que vinha das entranhas, em um canto movido pela mais genuína emoção. No palco, ela transcendia-se em sangue, suor e lágrimas, como se fosse explodir em átomos todos os amores do mundo, fulminando a emoção com os seus agudos dilacerantes, mergulhada em uma das vozes mais belas que já abriram as cortinas da MPB.

Discografia

Álbuns de Carreira:

1957 – Os Tangos Mais Famosos na Voz de Dalva de Oliveira – Odeon
1958 – Dalva – Odeon
1959 – Dalva de Oliveira Canta Boleros – Odeon
1960 – Em Tudo Você – Odeon
1961 – Dalva de Oliveira – Odeon
1961 – Tangos – Odeon
1962 – O Encantamento do Bolero – Odeon
1963 – Tangos – Vol. II – Odeon
1965 – Rancho da Praça Onze – Odeon
1967 – A Cantora do Brasil – Odeon
1968 – É Tempo de Amar – Odeon
1970 – Bandeira Branca – Odeon

Extras:

1973 – O Amor é Ridículo da Vida – Odeon
1980 – Grossas Nuvens de Amor – Odeon
1987 – Dalva de Oliveira – Série Os Ídolos do Rádio Vol. V – Collector’s
2000 – Dalva de Oliveira e Roberto Inglez e Sua Orquestra – Revivendo


IVANI RIBEIRO – A GRANDE DAMA DAS TELENOVELAS

abril 10, 2010

Ivani Ribeiro é, ao lado de Janete Clair, considerada a maior autora da história das telenovelas do Brasil. Sua obra coincide com o início das telenovelas diárias no país, em 1963. Passou pelos dramalhões de época, sem as excentricidades de Glória Magadan, deixando a adaptação de grandes clássicos da literatura brasileira, como “A Muralha”, de Dináh Silveira de Queiroz, e “As Minas de Prata”, de José de Alencar, em momentos primorosos.
Ivani Ribeiro, assim como Janete Clair, destaca a sua obra no campo da teledramaturgia, tendo contribuído para que o gênero da telenovela evoluísse, tornando-se o principal veículo de comunicação da televisão brasileira. Esteve no ar por mais de três décadas, tendo nos anos 1960, escrito treze novelas ininterruptamente, numa produção de cerca de 1600 capítulos, de sucesso garantido. Foi a primeira das grandes autoras a encontrar a linguagem necessária para a evolução do gênero. Enquanto Glória Magadan perdia-se com os absurdos dos dramalhões e Janete Clair ainda tateava o estilo que a deixaria famosa, Ivani Ribeiro evoluía com as necessidades de um público incipiente, cada vez mais exigente, e mais apaixonado pela televisão.
Sua obra revelou para o Brasil grandes ícones da teledramaturgia, como Regina Duarte, transformou atores em grandes estrelas da pequena tela, como Eva Wilma, Carlos Zara, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Carlos Augusto Strazzer, Rosamaria Murtinho, Antonio Fagundes. Na década de 1970, quando a TV Globo tomou a liderança da audiência na televisão brasileira, Ivani Ribeiro garantiu a sobrevivência da então agonizante TV Tupi. Suas novelas competiram diretamente com as de Janete Clair, ameaçando, por várias vezes, a hegemonia da audiência global.
Passou pela TV Excelsior, sendo responsável pela maioria dos seus grandes sucessos. Atingiu sua maturidade como autora de telenovelas na TV Tupi, seguiu para a TV Bandeirantes, chegando à TV Globo, em 1982, onde esteve até a sua morte, em 1995. Na emissora de Roberto Marinho jamais teve o estatuto de grande dama, nunca escrevendo para o horário nobre, apesar de produzir grandes sucessos como as segundas versões de “Mulheres de Areia” e “A Viagem”.
Ivani Ribeiro era extremamente inquieta nos temas que abordava nas suas novelas, ousando escrever sobre os mais diversos. Escreveu sobre psicanálise, temas espirituais, ficção científica, teatro mambembe, dramas épicos, comédias. Deu grande destaque à paranormalidade, personagens com deficiências físicas, tratando-os com uma delicadeza emocionante.
Ivani Ribeiro deixou uma das mais belas obras da teledramaturgia brasileira, legando para as novas gerações de telespectadores, a garantia da qualidade no produto final do drama contado em capítulos. Seu nome é sinônimo da história bem acabada de um gênero que em pleno século XXI, parece ainda inesgotável.

Atriz, Cantora e Autora de Novelas do Rádio

Cleide de Freitas Alves Ferreira, entraria para a história da televisão brasileira com o nome artístico de Ivani Ribeiro. Nasceu no litoral paulista, na cidade histórica de São Vicente, em 20 de fevereiro, o ano diverge conforme seus biógrafos, sendo apontados por alguns em 1916, por outros em 1922.
Formada como normalista em Santos, Ivani Ribeiro deixou a baixada santista aos 16 anos, seguindo para São Paulo na intenção de cursar a faculdade de Filosofia. Na capital paulista tornar-se-ia cantora, compositora de sambas, atriz de rádio e autora de programas de variedades. Sua estréia como artista deu-se na Rádio Educadora, onde se apresentou como intérprete de sambas e canções folclóricas.
Na época em que o rádio era o principal veículo de comunicação no Brasil, Ivani Ribeiro alcançou relativo sucesso através de programas de sua autoria, como “Teatrinho de Dona Chiquinha” e “Hora Infantil”. Como atriz, interpretou “As Mais Belas Cartas de Amor”, de sua autoria. Passou pela Rádio Difusora, apresentando-se como cantora acompanhada de uma orquestra. Na ocasião, casou-se com o premiado radialista Dárcio Ferreira, com quem teria dois filhos, Luís Carlos e Eduardo.
Foi na Rádio Bandeirantes que, além de atuar como atriz, passou a adaptar peças, apresentando programas como “Teatro Romântico”, inspirado em poemas clássicos da literatura brasileira; “Os Grandes Amores da História”, dramatização da vida amorosa de vultos da história; e, “A Canção Que Viveu”, dramatização da música brasileira. Ivani Ribeiro tornou-se um grande nome do rádio, sendo a primeira mulher brasileira a ter um programa de teatro naquele veículo de comunicação.

As Primeiras Novelas na TV Excelsior e na TV Tupi

Com a inauguração da televisão no Brasil, em 1950, autores, diretores e atores, grandes nomes da rádio, migraram para o novo veículo. Seria na televisão que Ivani Ribeiro alcançaria fama como escritora de telenovelas, realizando grandes sucessos.
Foi na TV Tupi, a primeira emissora de televisão brasileira, que, em 1952, escreveu a série “Os Eternos Apaixonados”. Naquela década, dividiu-se entre as novelas escritas para o rádio, e algumas para a televisão. Na época, as telenovelas não eram apresentadas diariamente, não tendo horário definido e continuidade programada. Muitas delas eram encenadas ao vivo, dependendo das condições e improvisos que se lhe punham à frente.
Em 1963, a TV Excelsior produziu “2-5499 Ocupado”, de Dulce Santucci, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira, mãe do gênero atual. A emissora paulista criava assim, a continuidade, fazendo com que o telespectador voltasse no dia seguinte, no mesmo horário, tornando-se fiel à programação. Ivani Ribeiro escreveria a terceira novela diária da televisão, “Corações em Conflito”, adaptada do rádio, contando a história de um viúvo e os seus problemas ao realizar o seu segundo casamento. A novela, protagonizada por Carlos Zara, foi ao ar de dezembro de 1963 a fevereiro de 1964. Tinha ainda no elenco Flora Geny, Mauro Mendonça, Márcia Real e Edmundo Lopes.
No ano seguinte, a autora escreveria simultaneamente para a TV Excelsior e para a TV Tupi. Em fevereiro, foi ao ar a primeira novela diária da TV Tupi “Alma Cigana”, protagonizada por Ana Rosa, em papel duplo. A novela tornou-se um sucesso, revelando um novo galã, Amilton Fernandes. Em 1971, a TV Tupi reeditaria a novela com o nome de “A Selvagem”, tendo novamente Ana Rosa como protagonista. “Alma Cigana” dava mostras de que a telenovela diária viria para ficar.
As primeiras novelas tinham poucos capítulos, não se estendendo por mais de dois meses. Ainda em 1964, Ivani Ribeiro escreveria em simultâneo, “A Gata” e “Se o Mar Contasse”, para a TV Tupi; e, “Ambição” e “A Moça Que Veio de Longe”, para a TV Excelsior.
Foi a partir de “A Moça Que Veio de Longe”, que se conseguiu um grande sucesso entre o público e as telenovelas. A atriz Rosamaria Murtinho marcava de forma triunfante a sua estréia na televisão. Sua personagem Maria Aparecida, conseguiu grande empatia com os telespectadores. Na época as novelas eram adaptações de textos de autores latino-americanos. “A Moça Que Veio de Longe” não fugia à regra. Ivani Ribeiro transgrediu o texto original argentino, adaptando-o para a realidade brasileira, criando novas personagens e mudando o desfecho. Com isto, tornou-se a maior autora de teledramaturgia da época. A novela criaria um novo galã, Hélio Souto.
Ainda em 1964, Ivani Ribeiro escreveu um outro sucesso de público, “A Outra Face de Anita”, protagonizada por Flora Geny. Na novela, ela inseria pela primeira, um ícone das suas obras, o deficiente físico, aqui na figura de Vítor, um débil mental. A personagem, vivida por Bentinho, atingiu grande popularidade.
A partir de 1965, Ivani Ribeiro tornou-se autora exclusiva da TV Record, contribuindo para que a emissora se tornasse a maior produtora de telenovelas de qualidade daquela década. Seguiu-se “Onde Nasce A Ilusão”, que trazia o universo circense para a televisão; com uma produção milionária para a época, tendo em seu elenco Carlos Zara, Maria Helena Dias, Renato Máster, Célia Coutinho, Edmundo Lopes, Glauce Graieb e Bentinho.
A Indomável”, foi escrita em forma de comédia. Adaptação da peça “A Megera Domada”, de William Shakespeare, tinha a sua trama transportada para a São Paulo da década de 1920. Edson França e Aracy Cardoso viviam os míticos Petruchio e Catarina. A novela ganharia duas versões, “O Machão”, em 1974, e “O Cravo e a Rosa”, em 2000. O elenco contava ainda com David Neto, Nívea Maria, Fúlvio Stefanini, Edgard Franco, Yara Lins e Maria Aparecida Baxter, entre outros.
Vidas Cruzadas” trazia Carlos Zara em papel duplo, interpretando o marginal Henrique Varela, procurado pela polícia, e o do seu sósia Bruno Vieira, morto em um acidente. Henrique assume a identidade do morto, indo morar na sua casa. No elenco Irina Grecco, Márcia Real, Geraldo Del Rey, Célia Coutinho e Riva Nimitz.

Os Grandes Épicos da TV Excelsior

Em julho de 1965, Ivani Ribeiro escrevia aquela que seria a primeira superprodução da telenovela brasileira, “A Deusa Vencida”. A partir de então, os capítulos e as personagens das tramas aumentaram substancialmente. Mais longas, as novelas passaram a ter cuidados mais primorosos. “A Deusa Vencida” teve, entre outras curiosidades, trilha sonora própria, transformando-se em um romance. A história passava-se na São Paulo do fim do século XIX, relatando os desencontros amorosos entre a bela Cecília (Glória Menezes) e o jovem Edmundo Amarante (Tarcísio Meira). Diante da ruína da fortuna da família de Cecília, os jovens são separados por imposição dos pais. Cecília, para salvar a família da ruína, casa-se com Fernando Albuquerque (Edson França). Edmundo casa-se, por piedade, com Malu (Regina Duarte), jovem condenada por uma doença incurável. Durante toda a trama, cartas misteriosas geram intrigas e suspense. A autoria das cartas só é revelada no fim da novela, era a frágil Malu. O elenco era primoroso. Além do casal Glória Menezes e Tarcísio Meira, contava com Edson França, Altair Lima, Ivan Mesquita, Karin Rodrigues, Ruth de Souza, Rachel Martins, e marcava a estréia de uma jovem atriz, Regina Duarte, que conquistaria o país com o seu ar angelical e voz doce.
A Grande Viagem” trazia um grupo de pessoas que viajava em um navio luxuoso, do nordeste em direção ao sul. O navio era tomado pelo náufrago Pardini, sendo desviado para uma ilha, onde estava escondida uma fortuna. Seguindo a linha de suspense policial, trazia um grande mistério a ser desvendado, a identidade do cúmplice de Pardini. A imprensa da época revelou o mistério. Ivani Ribeiro escreveu um novo final, gravado apenas no dia em que foi ao ar. Henrique César viveu com sucesso o frio Pardini. Ainda no elenco Regina Duarte, Flora Geny, Mirian Mehler, Daniel Filho, Fúlvio Stefanini, Altair Lima, Márcia Real, Rodolfo Mayer, Mauro Mendonça, Bentinho, Riva Nimitz, Tony Vieira e a presença rara do grande ator do teatro brasileiro, Procópio Ferreira, em uma participação especial.
Em 1966, três novelas de Ivani Ribeiro iriam ao ar pela TV Excelsior: “Almas de Pedra”, “Anjo Marcado” e “As Minas de Prata”. A primeira era a adaptação da obra de Xavier de Montepin, transposta para a realidade brasileira do final do século XIX. De forma sutil, a novela questionava a opressão feminina da sua época. Glória Menezes, a protagonista, passava-se por homem, disfarçando-se com barba. No elenco Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Armando Bógus, Suzana Vieira, Íris Bruzzi, Silvana Lopes, Ivan Mesquita e Carminha Brandão.
Anjo Marcado” inovava na narrativa, sendo contada em flashback a partir do misterioso desaparecimento de Valquíria, protagonista interpretada por Karin Rodrigues. A novela consolidava a carreira de Regina Duarte, que atingia grande popularidade em todo o Brasil. Também criava um novo galã, Paulo Goulart. No elenco Geraldo Del Rey, Maria Izabel de Lizandra, Lolita Rodrigues, Carminha Brandão, Elizabeth Gasper, Otávio Augusto, Lurdinha Félix e Paulo Figueiredo.
As Minas de Prata”, foi até então, a novela mais longa de Ivani Ribeiro, indo ao ar de novembro de 1966 a julho de 1967. Inspirada no romance homônimo de José de Alencar, foi outra grande produção da TV Excelsior, sendo uma das mais luxuosas da década. A cidade de Salvador do século XVII foi recriada cenograficamente no sítio Alvarenga, em São Bernardo do Campo. Durante a novela, Glória Menezes, que interpretava Zana, foi substituída por Lídia Costa. Regina Duarte e Fúlvio Stefanini eram os protagonistas. No elenco Armando Bógus, Paulo Goulart, Carlos Zara, Arlete Montenegro, Renato Máster, Suzana Vieira, Ivan Mesquita, Sonia Oiticica, Maria Izabel de Lizandra, Stênio Garcia, Henrique César, David Neto, Procópio Ferreira, Silvana Lopes e Riva Nimitz. A novela inspirou “A Padroeira”, em 2001, na TV Globo.
Do épico para o suspense, a criatividade de Ivani Ribeiro não cessava. Sem pausa, escreveu “Os Fantoches”, inspirada no livro “O Caso dos Dez Negrinhos”, de Agatha Christie. A trama acontecia, quase que toda, dentro de um hotel de luxo, com um clima de suspense que atingiu o auge até o último capítulo. A pedido da emissora, a imprensa da época não revelou o autor das cartas anônimas, mantendo o total suspense até o fim. No elenco Átila Iório, Flora Geny, Regina Duarte, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Dina Sfat, Stênio Garcia, Ivan de Albuquerque, Márcia de Windsor, Elizabeth Gasper, Yara Lins, Vera Nunes, Lídia Costa, Mauro Mendonça, Renato Máster, Edgard Franco, Sílvio Rocha e Rogério Márcico entre outros.
O Terceiro Pecado”, de 1968, marcava a estréia de Ivani Ribeiro no mundo do sobrenatural, o que seria uma constante em sua obra, a partir de então. O Anjo da Morte enviava para a Terra um mensageiro, Alexandre, para buscar a jovem Carolina. Alexandre apaixona-se pela jovem, e pede para a Morte que troque Carolina pela irmã dela, a perversa Ruth. A Morte não concorda, mas concede uma nova oportunidade a Carolina, ela poderá cometer apenas dois pecados, o terceiro causará a sua morte. Regina Duarte, mais uma vez, conquistaria o público, vivendo a doce Carolina. Nathália Timberg destacou-se no papel da Morte, e Gianfrancesco Guarnieri como o emissário Alexandre. No elenco Maria Izabel de Lizandra, Paulo Goulart, Stênio Garcia, Lílian Lemmertz, Carminha Brandão, Edgard Franco, Yara Lins, Lélia Abramo e Silvio Rocha. Em 1989, a novela ganharia uma nova versão com o título de “O Sexo dos Anjos”.
Em 1968, outro grande épico da televisão brasileira era produzido, “A Muralha”, baseada no romance de Dináh Silveira de Queiroz. Ivani Ribeiro já tinha adaptado a história duas vezes, para a TV Record, que foi ao ar em 1954 e 1958, respectivamente. A TV Excelsior finalmente produziu a novela com o esmero que o texto exigia. A muralha era a serra como obstáculo aos bandeirantes paulistas, que sonhavam em deixar o litoral e conquistar o interior do Brasil colônia do século XVI. Através da família de Dom Braz Olinto, personagens desencadeavam os acontecimentos épicos que levaram à Guerra dos Emboabas. Era a história do Brasil contada com sofisticada produção, sem perder a sua veia novelística. Uma das produções mais caras da década de 1960, contou com um elenco primoroso, em interpretações antológicas, com cenas belíssimas em tomadas externas. Mauro Mendonça e Fernanda Montenegro protagonizavam a trama, que tinha em seu elenco Rosamaria Murtinho, Gianfrancesco Guarnieri, Nathália Timberg, Arlete Montenegro, Edgard Franco, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Maria Izabel de Lizandra, Stênio Garcia, Serafim Gonzalez, Cleyde Blota, Carlos Zara, Cláudio Correa e Castro, Paulo Celestino e Sílvio de Abreu. “A Muralha” foi uma das mais bem acabadas produções da TV Excelsior, numa qualidade de texto que se distanciava anos luz dos dramalhões que Gloria Magadan escrevia na época para a TV Globo. Em 2000, a história foi reeditada, tendo Mauro Mendonça no mesmo papel que vivera em 1968.
Em 1969, em plena época da chegada do homem na Lua, do sucesso de filmes como “2001, Uma Odisséia no Espaço”, foi inevitável que Ivani Ribeiro abordasse o tema. Surgiu “Os Estranhos”, uma novela de ficção científica, que se passava na ilha de um escritor, personagem vivido por Pelé. A ilha era visitada por extraterrestres, homens e mulheres de cor amarela e de rostos brilhantes. Apesar de fugir da realidade das novelas, a trama foi tecnicamente bem feita. Regina Duarte, Rosamaria Murtinho e Cláudio Corrêa e Castro eram os visitantes de outros planetas. Ainda no elenco Carlos Zara, Gianfrancesco Guarnieri, Átila Iório, Vida Alves, Stênio Garcia, Márcia de Windsor, Márcia Real, Serafim Gonzalez, Lídia Costa, Vera Nunes, Osmar Prado, Cleyde Blota, Roberto Maya, Lucy Meirelles e Silvio de Abreu.
Em 1969 a TV Excelsior era abatida por uma grave crise financeira, que resultaria no seu encerramento em 1970. Na fase final da emissora, Ivani Ribeiro escreveu duas tramas ao mesmo tempo, “A Menina do Veleiro Azul”, desenvolvida com o auxílio do marido Dárcio Ferreira e Teixeira Filho, que ia ao ar às 18h00 e 19h00; e, “Dez Vidas”, no ar às 19h30 e 20h00.
Com a crise que assolava a emissora, “A Menina do Veleiro Azul” teve o seu elenco escalado para duas novelas em simultâneo. Contava a história de Glorinha, em duas fases, vivida por Ana Maria Blota na infância, e por Maria Izabel de Lizandra na fase adulta. No elenco Edson França, Henrique Martins, Cleyde Yáconis, Cláudio Corrêa e Castro, Flora Geny, Lílian Lemmertz, Leila Diniz, Newton Prado, Arlete Montenegro, Márcia de Windsor, Cacilda Lanuza, Castro Gonzaga, Ronnie Von, Vera Nunes, João José Pompeu, Edmundo Lopes, Nádia Lippi, Lídia Costa, Serafim Gonzalez e Silvia Leblon. A trama marcava a estréia discreta da atriz Sonia Braga nas telenovelas.
Dez Vidas” foi a última tentativa da TV Excelsior em realizar uma grande produção. Novamente Ivani Ribeiro trazia a história do Brasil para os folhetins televisivos, desta vez contando a história da Inconfidência Mineira, tendo como espinha dorsal o herói Tiradentes, e o triângulo amoroso entre Marília, Dirceu e Carlota. Além dos problemas financeiros pelo qual passava a emissora, a trama teve problemas com a censura militar, que considerava a história de Tiradentes subversiva. A novela teve que mudar de horário e sofreu vários cortes impostos pelos censores. Regina Duarte, que vivia a personagem Pompom, descontente com os salários em atraso, deixou a novela logo no início, indo para a TV Globo, onde se tornaria a Namoradinha do Brasil. Leila Diniz substituiu a atriz. Diante da crise, os atores foram abandonando, aos poucos, a trama, mergulhando-a em um retumbante fracasso. Reza nos bastidores que no final, apenas cinco atores permaneceram no elenco. A TV Excelsior fechava, em 1970, as suas portas, “Dez Vidas” foi a última trama de Ivani Ribeiro naquela emissora. Deixava para trás épicos que ficaram para sempre na história das telenovelas.

De Volta à TV Tupi

Com o fim da TV Excelsior, a TV Globo demitiu Gloria Magadan, reformulou a linguagem das suas novelas, trouxe para o seu elenco os grandes nomes da emissora falida, transformando-se em uma potente produtora de telenovelas. Na nova fase da emissora carioca, Janete Clair firmava-se como grande novelista, conquistando o Brasil com as suas tramas movimentadas.
No mesmo período, Ivani Ribeiro transferiu-se para a TV Tupi, onde iria alcançar uma carreira excepcional. Sua primeira novela na emissora foi “As Bruxas”, em 1970. Mais uma vez a autora inovava no tema, trazendo a psicanálise como pano de fundo da sua trama. Separação de casais, adultério, a mente povoada de “bruxas”, provocando o medo, a angústia. A estréia da autora na TV Tupi bateu de frente com “Irmãos Coragem”, concorrente da TV Globo. A temática sofreu cortes da censura e foi obrigada a ser transmitida mais tarde. No elenco Nathália Timberg, Carlos Zara, Maria Izabel de Lizandra, Lima Duarte, Walter Forster, Cláudio Corrêa e Castro, Walmor Chagas, Débora Duarte, Maria Della Costa, Joana Fomm, Odete Lara, Tony Ramos, Aracy Cardoso, Denis Carvalho, Ivan Mesquita, Lélia Abramo, José Parisi, Patrícia Mayo, Kate Hansen, Juan de Bourbon e Zanoni Ferrite.
No fim de 1970, escreveu “O Meu Pé de Laranja Lima”, baseada na obra homônima de José Mauro de Vasconcelos. História leve e bem conduzida, alcançou um sucesso relativo. Marcava a estréia da atriz Eva Wilma nas tramas de Ivani Ribeiro, parceria que iria render grandes momentos. Ainda no elenco, Haroldo Botta a fazer o menino Zezé, Cláudio Corrêa e Castro, Carlos Zara, Bete Mendes, Gianfrancesco Guarnieri, Lélia Abramo, Silvio Rocha, Denis Carvalho, Nicette Bruno, Fausto Rocha, Annamaria Dias, Henrique Martins e Abrahão Farc.
Em 1971, “Alma Cigana” seria reeditava pela TV Tupi, com o nome de “A Selvagem”. A história foi reeditada para que se firmasse o plágio que Janete Clair foi acusada em “Irmãos Coragem”, com personagem de Glória Menezes a viver personalidades duplas, semelhante a que Ana Rosa tinha vivido em “Alma Cigana”. Sob o argumento de Ivani Ribeiro, a trama foi escrita por Geraldo Vietri e Gian Carlo.
Nossa Filha Gabriela”, tendo Eva Wilma como protagonista, trazia o teatro mambembe de Giuliano (Gianfrancesco Guarnieri). Gabriela, a estrela da companhia, voltava a uma pacata cidade, terra natal da sua mãe. Ali conheceria três simpáticos velhinhos, Candinho (Ivan Mesquita), Romeu (Abrahão Farc) e Napoleão (Cláudio Correa e Castro). No passado, eles tinham se casado com três irmãs gêmeas, sendo uma delas a mãe de Gabriela. O mistério da trama persiste em se descobrir quem seria o pai de Gabriela. No elenco Karin Rodrigues, Ana Rosa, Bete Mendes, Denis Carvalho, Lélia Abramo, Fausto Rocha e Carlos Zara.
Em 1972, Ivani Ribeiro, estreava simultaneamente “O Leopardo”, sob o pseudônimo de Arthur Amorim, para a TV Record, e, “Camomila e Bem-Me-Quer”, para a TV Tupi. “O Leopardo” tinha o texto escrito pelo marido da autora, Dárcio Ferreira e supervisionado por ela. Foi uma tentativa frustrada da TV Record entrar no mercado das telenovelas, tentativa iniciada com “As Pupilas do Senhor Reitor”, em 1970. No elenco Altair Lima, Maria Estela, Rodolfo Mayer, Laura Cardoso, David Neto, Jonas Mello, Silvana Lopes e Márcia Real.
Camomila e Bem-Me-Quer”, trama leve e bem alinhavada, contava a história de Tio Romão (Cláudio Corrêa e Castro), que com o seu chá levava amor e esperança às pessoas. Paralelo, a história adaptava a peça “O Avarento”, de Molière, com Gianfrancesco Guarnieri a fazer o avarento Olegário. No elenco Nicette Bruno, Juca de Oliveira, Maria Izabel de Lizandra, Marcelo Picchi, Tereza Teller, Geraldo Del Rey, Riva Nimitz, Serafim Gonzalez, Liza Vieira, Karin Rodrigues, Aldo César, Edwin Luísi, Carminha Brandão, Silvio Rocha, Jacyra Sampaio e Léa Camargo. Com esta novela agradável e de relativo sucesso, a autora encerrava a fase de estilo leve e bem-sucedida na TV Tupi.

Momentos Antológicos na Teledramaturgia da TV Tupi

Em 1973, Ivani Ribeiro voltaria ao horário nobre da TV Tupi, transformando-o em um forte concorrente da inatingível TV Globo. Revelaria a partir de então uma autora amadurecida e incansável em abordar diversos temas em suas tramas.
A mudança viria com “Mulheres de Areia”, adaptação de uma antiga radionovela da autora, “As Noivas Morrem no Ar”. Contava a história das irmãs gêmeas Ruth e Raquel, que disputavam o amor de Marcos. Eva Wilma interpretou com glamour as gêmeas antagônicas. A partir de então, a atriz foi promovida à primeira estrela da TV Tupi. A novela alcançou um grande sucesso, ameaçando a hegemonia da audiência da TV Globo, que exibia na época a fraca “Cavalo de Aço”. A química entre Eva Wilma e Carlos Zara foi instantânea, transformando-os no par romântico da emissora paulista, competindo com o casal Tarcísio Meira e Glória Menezes da TV Globo. Gianfrancesco Guarnieri comoveu o Brasil interpretando o doente mental Tonho da Lua. Apaixonado por Ruth, o jovem esculpia mulheres na areia das praias de Itanhaém. As esculturas eram feitas por Serafim Gonzalez, que participava da trama como ator. O sucesso respingou não só nos protagonistas, como nos coadjuvantes, entre eles o casal Malu e Alaôr, vividos por Maria Izabel de Lizandra e Antonio Fagundes, respectivamente. “Mulheres de Areia” entrou para a história como uma das telenovelas mais bem-sucedidas, tendo uma segunda versão, em 1993. No elenco Cláudio Corrêa e Castro, Cleyde Yáconis, Lucy Meirelles, Rolando Boldrin, Márcia Maria, Ana Rosa, Maria Estela, Silvio Rocha, Edgard Franco, Henrique Martins e Ivan Mesquita, entre muitos.
Em 1974, a TV Tupi reeditaria “A Indomável”, com o nome de “O Machão”, escrita por Sérgio Jockyman. O sucesso de Antonio Fagundes e Maria Izabel de Lizandra como par romântico em “Mulheres de Areia”, habilitou os dois a protagonizarem a novela, outro grande sucesso da TV Tupi.
Os Inocentes”, adaptação da peça “A Volta da Velha Senhora”, de Durrenmatt, contava a história de Maria Alice (Karin Rodrigues), que quando ficara viúva, fora assediada pelos homens da sua cidade. Ao recusar o assédio, foi difamada e expulsa do lugar, com a sua filha, a pequena Juliana. Apedrejada, Maria Alice ficara cega de um olho. Já adulta e rica, Juliana, interpretada por Cleyde Yáconis, volta à pequena cidade para vingar a mãe. A vingança estender-se-ia não só aos que ultrajaram a sua mãe, como também aos seus descendentes, chamados de inocentes. Ao longo da trama, a autora deixou o roteiro nas mãos do marido, Dárcio Campos, para escrever “A Barba Azul”. “Os Inocentes”, inicialmente feita em preto e branco, passou a ser transmitida, a partir de julho de 1974, em cores. No elenco Rolando Boldrin, Cláudio Corrêa e Castro, Luís Gustavo, Ana Rosa, Maria Estela, Adriano Reys, Tony Ramos, Elaine Cristina, Márcia Maria, Laura Cardoso, Jonas Mello, Serafim Gonzalez, Silvio Rocha e Paulo Figueiredo.
A Barba Azul” marcou a volta da autora ao horário das 19h00. Trazia o casal Eva Wilma e Carlos Zara como protagonistas. Mais uma vez, a química entre os autores colaborou para o sucesso da trama. Mais tarde, os atores tornar-se-iam marido e mulher na vida real. Contava a história de Jô Penteado, mulher que ficara noiva sete vezes, por isto chamada de Barba Azul. Geniosa e mimada, ela embarca em uma excursão escolar à Angra dos Reis, promovida pelo tranqüilo professor Fábio. O barco desvia do seu caminho, indo parar em uma ilha distante. A tripulação é dada como morta. Na ilha Jô e Fábio brigam como cão e gato, iniciando um tumultuado e imprevisível romance. A novela foi um sucesso, tendo direito a uma segunda versão, em 1985, com o nome de “A Gata Comeu”.
Em 1975, Ivani Ribeiro mergulhou no mundo do espiritismo como temática de novela, o resultado foi a bem-sucedida “A Viagem”. Estreada em horário nobre, mostrava a vida após a morte. A história da ciumenta Diná (Eva Wilma), casada com um homem mais jovem, Teo (Tony Ramos). Possessiva, ela destrói o casamento aos poucos. No meio da trama, perde o irmão Alexandre (Ewerton de Castro), que se suicida na prisão. Alexandre vaga como espírito, atormentando aqueles que lhe prejudicou em vida, vingando-se de cada um deles. Entre os que sofrem com o espírito de Alexandre está César Jordão (Altair Lima), advogado que lhe movera o processo. César e Diná apaixonam-se, mas o amor entre os dois é interrompido pela morte do advogado. César volta como espírito para ajudar os filhos, atormentados por Alexandre. No fim da trama, Diná também morre, encontrando-se com César no vale dos espíritos. Complexa, a trama alcançou sucesso de público, sendo transformada em livro. Contava com um elenco luxuoso, além dos citados: Irene Ravache, Elaine Cristina, Cláudio Corrêa e Castro, Rolando Boldrin, Joana Fomm, Adriano Reys, Ana Rosa, Carlos Alberto Riccelli, Carmem Silva, Lúcia Lambertini, Carminha Brandão, Abrahão Farc, Serafim Gonzalez, Yolanda Cardoso, Antonio Pitanga, Ricardo Blat, Suzy Camacho, Neuza Borges, Márcia Maria e Haroldo Botta.

A Última Fase na TV Tupi

Em 1976 Silvio Santos ganhou a concessão de um canal de televisão, a TVS, canal 11, com transmissão apenas para o Rio de Janeiro. O empresário decidiu investir na teledramaturgia, contratando, naquele ano, Ivani Ribeiro. A autora escreveu para a TVS a novela “O Espantalho”. A trama, ambientada em uma pequena cidade litorânea, retratava a luta do prefeito Breno contra o vice-prefeito Rafael, o primeiro tenta preservar as praias da cidade contra a poluição, o segundo, dono do maior hotel do lugar, quer trazer o maior número de turistas, sem se importar com o meio ambiente. Rafael espalha espantalhos pelas praias que Breno interditara, acusando-o de impedir o desenvolvimento da cidade. Ardilosamente, Rafael consegue a renúncia de Breno, assumindo a prefeitura. Como prefeito, ele passa a transmitir desequilíbrio mental, processo desencadeado por um aneurisma cerebral. Nos seus delírios, ele se vê perseguido por espantalhos. Acaba assassinado em uma praia. “O Espantalho” contou com um elenco luxuoso, vindo da TV Globo e da TV Tupi. Jardel Filho protagonizou a trama, tendo ao seu lado Nathália Timberg, Rolando Boldrin, Theresa Amayo, Fábio Cardoso, Hélio Souto, Ester Góes, Eduardo Tornaghi, Carlos Alberto Riccelli, Carmen Monegal, Newton Prado, Walter Stuart, Wanda Kosmo, Percy Aires, Roberto Maya, Reny de Oliveira, Léa Camargo e vários outros. A novela foi lançada em janeiro de 1977, pela TV Record e suas afiliadas, onde Silvio Santos era, na época, acionista. Só estreou no Rio de Janeiro em Junho, através da TVS. Apesar de ter um bom texto e um elenco primoroso, uma produção apurada, a dificuldade em lançar a novela no mercado contribuiu para o seu fracasso de público. A produção passou despercebida em várias partes do Brasil.
Com o fracasso de “O Espantalho”, Silvio Santos desistiu de investir nas telenovelas. Ivani Ribeiro estava presa à TVS por um contrato de quatro anos. Em 1977, Silvio Santos pôs a autora à disposição da TV Tupi, desde que a emissora pagasse o seu salário. A volta à TV Tupi foi triunfante, com “O Profeta”, estreada em 22 de outubro daquele ano. Novamente Ivani Ribeiro abordava o tema da paranormalidade. Vários temas ecumênicos foram tratados ao longo da trama, que se tornou um grande sucesso. É a história de Daniel, um paranormal que vê o passado e o futuro. Em vez de ajudar as pessoas, ele usa o poder em benefício próprio. Torna-se famoso e rico. Envolve-se com Sonia, noiva do amigo Murilo. A novela atingiu o seu clímax quando Daniel previu a morte de Murilo. Acusado de ter provocado a morte do rapaz para ficar com Sonia, Daniel é preso. No final mostra-se atormentado por seus poderes. Amparado por Carola, uma gordinha desengonçada que nutria uma paixão platônica por ele, descobre que só quer viver uma vida de homem simples ao lado dela. Carlos Augusto Strazzer, que vinha de um grande sucesso em “Éramos Seis”, foi promovido a protagonista da emissora, vivendo um dos maiores personagens da sua carreira. Débora Duarte então casada com o cantor Antonio Marcos, rescindiu com a TV Globo, voltando para a TV Tupi após cinco anos na emissora carioca. O motivo foi para que a atriz pudesse ficar em São Paulo, ao lado do marido. A atriz tinha dado à luz à filha Paloma Duarte, o que facilitou a composição de uma personagem gordinha. No fim da novela, Carola aparecia magra e bela. Irene Ravache e David José protagonizaram cenas hilariantes, vivendo o casal Teresa e Armando. A novela chegou a ameaçar a audiência de “O Astro”, de Janete Clair. No elenco Elaine Cristina, Cláudio Corrêa e Castro, Rolando Boldrin, Ana Rosa, Glauce Graieb, Márcia de Windsor, Aldo César, John Herbert, Yolanda Cardoso, Jacques Lagoa, Rildo Gonçalves, Suzy Camacho, Abrahão Farc e Luiz Carlos de Moraes.
Em 1978 Ivani Ribeiro surpreenderia novamente, com “Aritana”, abordando a temática indígena. Conta a história de Aritana, índio filho de um homem branco e de uma índia. Seu tio é um rico fazendeiro, que não quer dividir com a ele as terras que herdou do pai. Vivendo no Xingu, ele parte para a cidade em busca da herança, para garantir a sobrevivência do seu povo e defender as terras, ameaçadas de serem vendidas pelo tio para os americanos. Na cidade, apaixona-se pela bela veterinária Estela. Na sua simplicidade de índio, sofre com o escárnio dos brancos e com a indiferença de Estela. Carlos Alberto Riccelli, com o seu físico loiro, sofreu um profundo processo de caracterização para que se transformasse no índio Aritana, surpreendendo a todos. A novela incomodou fazendeiros, que viam nas reivindicações dos índios uma ameaça, o fato obrigou a TV Tupi a levar ao ar o especial “O Caso Aritana, uma Novela a Parte”. Atores e diretores , os irmãos Villas-Boas e outros órgãos de defesa dos índios, defendiam no especial as idéias da autora. Normalmente a TV Tupi gerava os seus ídolos e a TV Globo os contratava. Em “Aritana” aconteceu o contrário, grandes nomes vieram da emissora carioca. Bruna Lombardi, recém revelada pela TV Globo na novela “Sem Lenço, Sem Documento”, protagonizava a trama de Ivani Ribeiro, o seu encontro com Carlos Alberto Riccelli renderia um casamento que dura até os dias atuais. Carlos Vereza, Jorge Dória, Francisco Milani e Jayme Barcellos, também vieram da TV Globo. Wanda Stefânia, que naquele ano passara com sucesso pela aldeia global, protagonizando a telenovela “Te Contei?”, de Cassiano Gabus Mendes, voltava à TV Tupi. Outra contratação foi a do ator português Tony Correa, que fora revelado em “O Casarão”, em 1976, e um dos protagonistas da novela “Locomotivas”, em 1977, ambas na TV Globo. O luxuoso elenco de “Aritana” contava ainda com Geórgia Gomide, Cleyde Yáconis, Othon Bastos, John Herbert, Márcia Real, Ana Rosa, Maria Estela, Arlete Montenegro, Serafim Gonzalez, Carminha Brandão, Marcos Caruso, Haroldo Botta e Suzy Camacho.
Aritana” foi a última novela de Ivani Ribeiro para a TV Tupi, que entraria em dificuldades financeiras, fechando as suas portas em 1980, depois de agonizar por mais de um ano. No período de agonia da emissora, os sucessos de Ivani Ribeiro foram reprisados para suprir a falta de programação. Estava encerrada a era de ouro da TV Tupi, e a fase de Ivani Ribeiro como autora contundente do horário nobre.

Breve Passagem Pela TV Bandeirantes

Com o fim da TV Tupi, atores, diretores e autores das novelas da emissora foram contratados pela TV Bandeirantes e pela TV Globo. Ivani Ribeiro iniciaria uma nova fase da sua carreira de autora de telenovelas. Contratada pela TV Bandeirantes, viu dois dos seus grandes sucessos reeditados por aquela emissora, em 1980: “A Deusa Vencida”, de 1965, com Elaine Cristina, Roberto Pirillo, Altair Lima (interpretando a mesma personagem que fizera na primeira versão da TV Excelsior), Agnaldo Rayol, Márcia Maria, Neuci Lima, Leonor Lambertini, Neuza Borges, Oscar Felipe e Luiz Carlos Arutin; e, “O Meu Pé de Laranja Lima”, de 1970, com Dionísio Azevedo, Baby Garroux, Fausto Rocha, Regina Braga, Cristina Mullins, Rogério Márcico, Elias Gleizer, Enio Gonçalves, Maria Ferreira, Neuza Borges, Geny Prado e Alexandre Raymundo como o menino Zezé. As reedições das novelas cumpriram a sua função de entretenimento, sem causar grandes audiências.
A grande surpresa de Ivani Ribeiro na TV Bandeirantes foi “Cavalo Amarelo”, deliciosa novela em tom de comédia, que trazia a irreverente Dercy Gonçalves como protagonista. A novela era composta por um elenco vigoroso, com excelentes interpretações de Wanda Stefânia no papel de uma mulher que se vestia de homem para sustentar a família; Yoná Magalhães no seu primeiro encontro com uma trama de Ivani Ribeiro; além das presenças de Fúlvio Stefanini, Rodolfo Mayer, Jorge Dória, Rolando Boldrin, Márcia de Windsor, Kito Junqueira, Aldo César, Newton Prado, Etty Fraser, Carmen Monegal, Caminha Brandão, Maximira Figueiredo, Jacques Lagoa, Arlete Montenegro e Regina Dourado. O sucesso da personagem de Dercy Gonçalves, Dulcinéa, foi imenso, fazendo com que a emissora criasse uma continuação, a novela “Dulcinéa Vai a Guerra”. Ivani Ribeiro recusou-se a escrever a continuação, cabendo a Sérgio Jockyman e Jorge Andrade a escrever a trama.
Em 1981 Ivani Ribeiro escreveu “Os Adolescentes”, tendo como temática os problemas dos jovens na transição para a idade adulta. O tema era pouco explorado na época, com raras exceções para “Dancin’ Days”, novela de Gilberto Braga de 1978. A trama girava em torno de quatro adolescentes, Doca (André de Biasi), um viciado em drogas; Caíto (Flávio Guarnieri), que trazia tendências homossexuais; Majô (Tássia Camargo), apaixonada pelo padrasto; e, Bia (Júlia Lemmertz), que se encontrava grávida. No meio dos jovens transitava o professor Túlio, ex-viciado. O papel foi interpretado pelo ator Kito Junqueira. Roteiro ousado para época, onde a autora abordava com delicadeza temas que envolviam os adolescentes da época. Ivani Ribeiro não terminaria de escrever a novela, depois de um desgaste com a emissora, marcada por desencontros pontuais, a autora foi afastada da trama, sendo substituída por Jorge Andrade. A novela trazia uma série de novos atores que construiriam grandes carreiras, como Giuseppe Oristânio, Júlia Lemmertz, Tássia Camargo, Lília Cabral e André de Biasi. Ainda no elenco, Norma Benguell, Beatriz Segall, Selma Egrei, Márcia de Windsor, Paulo Vilaça, Roberto Maya, Emílio de Biasi, Imara Reis, Hugo Della Santa, Mayara Magri, Sonia Oiticica, Carmem Silva, Fábio Cardoso, Lúcia Mello, Ricardo Graça Mello e Arlete Montenegro.
Ivani Ribeiro encerrava a sua passagem meteórica na TV Bandeirantes, migrando, finalmente, para a poderosa TV Globo, onde permaneceria até a sua morte.

Sucessos e Reedições na TV Globo

Em 1982, Ivani Ribeiro foi contratada pela TV Globo. A grande dama das telenovelas, que na década anterior ameaçara tantas vezes a hegemonia de audiência da emissora, chegava àquela casa modestamente, no horário das 19h00. As limitações do horário não intimidaram a autora. Na sua estréia na emissora carioca trouxe uma história sucinta, bem acabada, com temas leves, mas tratados com maestria. A novela era “Final Feliz”, e seria a última trama inédita da autora. Natália do Valle vivia a geniosa Débora, a sua primeira protagonista, fazendo par romântico José Wilker. A química entre os atores sustentou a personalidade difícil e bombástica das suas personagens, tanto que voltariam a fazer par romântico em “Transas e Caretas”, em 1984. Paralelo à história tumultuada do romance entre Débora e Rodrigo, circulavam personagens interessantes e marcantes, como Mestre Antonio, um pescador nordestino humilde que vinha do nordeste à procura da filha Bartira. A personagem vivida magistralmente por Stênio Garcia, valeu ao ator o prêmio Destaque do Ano e da ABCA (Associação Brasileira de Críticos de Arte). A empatia entre Mestre Antonio e Rafael, um jovem com deficiência mental, comoveu o Brasil. Rafael é daquelas personagens desprotegidas, carismáticas, que todos querem amparar, típicas do universo de Ivani Ribeiro. A atuação de Irving São Paulo conquistou a autora, que passaria a tê-lo em todas as suas tramas. Última novela da extraordinária atriz Elza Gomes, considerada a mãe de todas as personagens das novelas das décadas de 1970 e 1980. A atriz viveu uma doce, alegre e trambiqueira velhinha, Dona Sinhá, fornecedora de carne de coelho a um restaurante; mas na verdade, ela criava gatos em casa e os vendia como coelhos. Outro momento histórico foi a campanha antitabagismo da autora, defendida na voz de Lucinha, personagem de Cissa Guimarães; numa época em que as fábricas de cigarro faziam grande merchandising nas telenovelas. “Final Feliz” foi uma novela sem pretensões da autora, que não se arriscou em uma trama densa no horário proposto. Não causou impacto na obra da autora, mas cumpriu a função de entretenimento. No elenco Lílian Lemmertz, Lídia Brondi, Walmor Chagas, Milton Moraes, Mirian Pires, Adriano Reys, Buza Ferraz, Roberto Maya, Priscila Camargo, Célia Biar, Lúcia Alves, Wolf Maya, Cininha de Paula, Aracy Cardoso, Angelina Muniz, Enio Santos, Tetê Pritzl, Ney Santana, Eduardo Lago, Oswaldo Louzada, Francisco Milani, Thais de Campos, Patrícia Bueno, José Augusto Branco, Cláudia Magno, Augusto Olímpio e Reny de Oliveira. Visto através do tempo, percebe-se o tanto que a morte já devastou este elenco, deixando uma saudade perene no público.
A partir de 1984, Ivani Ribeiro passou a rever as suas obras, recriando as suas histórias, dando-lhe títulos novos, mudando alguns nomes de personagens e acrescentando outros. Foi o caso de “Amor Com Amor Se Paga”, reedição de “Camomila e Bem-Me-Quer”, sucesso de 1972 da extinta TV Tupi. A novela alcançou um grande sucesso, em parte devido à personagem de Nonô Correia, personagem vivido magistralmente por Ary Fontoura, em um dos momentos mais marcantes da sua carreira. Berta Loran, grande humorista brasileira, fazia uma participação rara em novelas, vivendo Frosina, empregada do avarento Nonô Correia. Os duelos cômicos entre as personagens geraram cenas antológicas. A novela desfilava atores jovens, que pelas mãos de Ivani Ribeiro, firmavam as suas carreiras. Entre as estréias estava a atriz Claudia Ohana, vinda das telas do cinema nacional. Edson Celulari vivia o seu primeiro protagonista. Yoná Magalhães, após cinco anos de ausência, voltava às novelas da TV Globo. Fernando Torres deu o tom exato ao carismático tio Romão. Wanda Stefânia viveu uma sofrida personagem, que se anulou para que o marido formasse, sendo depois desprezada por ele, por não ser uma mulher culta. Flávio Galvão dividiu com a atriz momentos de pura emoção e reflexão da visão feminina de Ivani Ribeiro. O elenco era também composto por Carlos Eduardo Dolabella, Adriano Reys, Caíque Ferreira, Bia Nunes, Oberdan Junior, Milton Moraes, Arlete Salles, Mayara Magri, Matheus Carrieri, Beatriz Lyra, Miguel Falabella, Júlia Lemmertz, Carlos Kroeber, Wanda Cosmo, Paulo César Grande, Chica Xavier, Narjara Turetta, Mário Cardoso, Ana Ariel e Vera Gimenez.
A Gata Comeu”, em 1985, trazia de volta outro grande sucesso da autora, “A Barba Azul”, feita em 1974. Christiane Torloni e Nuno Leal Maia viviam o casal Jô e Fábio, originalmente vividos pela mítica dupla romântica Eva Wilma e Carlos Zara. Revigorada, a história tornou-se um dos maiores sucessos de audiência da década de 1980. O elenco infantil trazia nomes como Danton Mello, Juliana Martins e Oberdan Júnior, que fariam carreiras quando adultos. Ivani Ribeiro conseguia contar, mais uma vez, uma história antiga com a emoção de uma nova. No elenco Bia Seidl, Mauro Mendonça, Cláudio Corrêa e Castro, Eduardo Tornaghi, José Mayer, Deborah Evelyn, Roberto Pirillo, Dirce Migliaccio, Luiz Carlos Arutin, Anilza Leoni, Laerte Morrone, Marilu Bueno, Rogério Fróes, Fátima Freire, Monah Delacy, Aracy Cardoso, Norma Géraldy, Jayme Periard, Mayara Magri, Kleber Macedo, Nina de Pádua, Diana Morell e Germano Filho.
Em 1986 a autora reeditou “Nossa Filha Gabriela”, de 1971, desta vez com o título de “Hipertensão”. Mudou o nome da personagem central, de Gabriela para Carina. Maria Zilda viveu a personagem que outrora fora de Eva Wilma. Cláudio Corrêa e Castro voltou a fazer o mesmo papel que defendera na versão original, o do velho e autoritário Napoleão. Mais uma vez Ivani Ribeiro revelava uma safra de jovens atores que marcavam estréia na trama, entre eles Cláudia Abreu, Carla Marins, Antonio Calloni e Eri Johnson. Ainda no elenco Cláudio Cavalcanti, Elizabeth Savalla, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, José Mayer, Carlos Eduardo Dolabella, Geórgia Gomide, Paulo Betti, Taumaturgo Ferreira, Lúcia Alves, Stênio Garcia, Eloísa Mafalda, Deborah Evelyn, Nelson Xavier, Lília Cabral, Ruy Resende, Oswaldo Louzada, Ida Gomes e Ana Ariel.
Ivani Ribeiro encerrava a década de 1980 com “O Sexo dos Anjos”, em 1989, reedição de “O Terceiro Pecado”, novela da antiga TV Excelsior, feita em 1968. Na primeira versão, a história era ambientada na década de 1920, aqui ela era transportada para o tempo atual. Foi a novela que menos fez sucesso de todas as reedições de Ivani Ribeiro. Em parte por um elenco que não se mostrou apurado com o tema. Bia Seidl esteve sedutora como a Morte, mas longe da criação enraizada de Nathália Timberg. Isabela Garcia viveu com doçura a personagem central, mas sem as nuances da eterna Namoradinha do Brasil, Regina Duarte. Na composição do elenco, Joana Fomm recusou o papel de Vera, sendo substituída por Norma Benguell, fato curioso, pois em 1978 acontecera o contrário, Joana Fomm substituíra Norma Benguell em “Dancin’ Days”, interpretando a vilã Yolanda Pratini. Ainda no elenco Felipe Camargo, Marcos Frota, Caíque Ferreira, Irving São Paulo, Myrian Pérsia, Silvia Buarque, Carla Marins, Paulo Figueiredo, Otávio Muller, Eloísa Mafalda, Stepan Nercessian, Bianca Byngton, Tonico Pereira, Rodolfo Bottino, Emiliano Queiroz, Inês Galvão, Ilva Niño, Cosme dos Santos, Rosana Garcia, Paula Burlamaqui, Leina Krespi, Carlos Kroeber. Enquanto uns chegavam, como Humberto Martins, que fazia a sua estréia, outros partiam, como Lutero Luiz, que se despedia de cena.
Em 1990 Ivani Ribeiro decidiu reeditar aquela que tinha sido o seu maior sucesso, “Mulheres de Areia”. O projeto só foi aprovado pela TV Globo em 1992. Glória Pires foi escalada para viver as gêmeas Ruth e Raquel, personagens que alavancara a carreira de Eva Wilma. A gravidez da atriz atrasou o projeto, e a segunda versão de “Mulheres de Areia” só foi ao ar em 1993. Nesta versão, a autora incorporava à trama “O Espantalho”, com Raul Cortez a fazer o papel originalmente dado a Jardel Filho. Ivani Ribeiro tinha a difícil tarefa de transformar uma trama originalmente feita para ir ao ar mais tarde, em horário nobre, desta vez com formato de novela das 18h00. As limitações do horário não prejudicaram a reedição da novela, que se tornou, pela segunda vez, um dos maiores sucessos da televisão brasileira, e um dos maiores produtos de exportação para o mundo. Na Rússia a novela atingiu índices históricos de audiência, tanto que o governo exibiu o último capítulo no dia de eleições, evitando que os eleitores viajassem no feriado e aumentasse a ida às urnas. Em Portugal a trama pôs a SIC, emissora que havia sido fundada recentemente, na liderança, derrubando a hegemonia da RTP, que jamais se recuperou. Glória Pires viveu um dos momentos mais elogiados da sua carreira e, mais uma vez, Ivani Ribeiro mostrou que podia se reinventar e, o porque de ser uma das maiores novelistas do país. Além de Glória Pires e Raul Cortez, o elenco trazia Guilherme Fontes, Marcos Frota, Suzana Vieira, Laura Cardoso, Vivianne Pasmanter, Paulo Betti, Sebastião Vasconcelos, Humberto Martins, Nicette Bruno, Adriano Reys, Andréa Beltrão, Jonas Bloch, Thaís de Campos, Daniel Dantas, Isadora Ribeiro, Oscar Magrini, Irving São Paulo, Edwin Luísi, Paulo Goulart, Ricardo Blat, Henri Pagnocelli, Eduardo Moscovis, Gabriela Alves, Suely Franco, Denise Milfont, Stepan Nercessian, Lu Mendonça, além de Carlos Zara, que participara da versão original.
Com o triunfo de “Mulheres de Areia”, Ivani Ribeiro reeditou outro grande sucesso do antigo horário nobre da TV Tupi, “A Viagem”, desta vez indo ao ar à 19h00. A vida após a morte voltava a ser tema, e o sucesso da novela foi garantido. Christiane Torloni viveu Diná, mais uma vez tomando para si uma personagem que pertencera a Eva Wilma. A maturidade da atriz garantiu-lhe uma interpretação límpida, sincera e expressiva. Antonio Fagundes, que na versão de 1975 recusara o papel de Alexandre, voltava ao universo de Ivani Ribeiro, interpretando César Jordão, aqui com o nome alterado para Otávio Jordão. A inflexibilidade expressiva de Maurício Mattar no papel de Teo não garantiu o carisma alcançado por Tony Ramos na versão anterior. Momento de emoção conseguida pela figura misteriosa do Mascarado, interpretado por Breno Moroni, homem que escondia o rosto deformado atrás de uma máscara de Pierrô, personagem ícone do universo da autora. No elenco Guilherme Fontes, Yara Cortes, Cláudio Cavalcanti, Lucinha Lins, Ary Fontoura, Nair Bello, Laura Cardoso, Thaís de Campos, Lolita Rodrigues, Suzy Rêgo, Miguel Falabella, Jonas Bloch, Andréa Beltrão, John Herbert, Denise Del Vecchio, Felipe Martins, Jayme Periard, Tânia Scher, Eduardo Galvão, Irving São Paulo, Mara Carvalho, Mara Manzan, Fernanda Rodrigues, Ricardo Petráglia, Myrian Pérsia, Cláudio Mamberti, Maria Alves, Solange Couto, Gésio Amadeu, Jorge Pontual, Lafayette Galvão, Mylla Christie, Daniel Ávila, Roberta Índio do Brasil e Danton Mello.
Com “A Viagem”, Ivani Ribeiro despedia-se do seu público. Em 1995, bastante afetada pela diabetes, que lhe trazia dificuldades em enxergar, foi internada com insuficiência renal provocada pela doença. No período de internação, perdeu o marido, Dárcio Ferreira, companheiro de toda a vida. A autora jamais soube da perda, vinte dias depois da morte do marido, em 17 de julho de 1995, veio a falecer, fazendo a sua própria viagem.
Ivani Ribeiro legou uma das mais extensas obras da teledramaturgia brasileira, repleta êxitos e grandes sucessos. Deixou duas obras inéditas, sendo uma delas o roteiro de “Caminho dos Ventos”, que foi ao ar postumamente, em 1996 com o nome de “Quem É Você?”, escrita inicialmente por sua assistente, Solange Castro Neves, e concluída por Lauro César Muniz. A novela protagonizada por Elizabeth Savalla, Alexandre Borges, Cássia Kiss, Francisco Cuoco e Paulo Gorgulho, foi um fracasso de audiência. Faltou a mão de Ivani Ribeiro. Outra obra inédita, “O Sarau”, minissérie de doze capítulos, inspirada em obras de Machado de Assis, continua arquivada, sem ser produzida.
Em 1998 a TV Bandeirantes levou ao ar a terceira versão de “O Meu Pé de Laranja Lima”, adaptada por Ana Maria Moretzsohn, com Gianfrancesco Guarnieri, Caio Romei, Regiane Alves, Flávia Pucci, Leonardo Medeiros, Lu Grimaldi, Karla Muga e outros no elenco. Em 2006 Thelma Guedes e Duca Rachid adaptaram “O Profeta”. A novela perdeu a essência do universo de Ivani Ribeiro, sem o glamour que teve em 1977, quando foi levada ao ar em horário nobre pela TV Tupi. Ivani Ribeiro, mesmo não tendo sido escalada jamais para escrever uma novela para o horário nobre da TV Globo, garantiu por mais de uma década, grandes sucessos para a emissora. Seu nome está para sempre escrito em letras douradas na história das telenovelas brasileiras.

OBRAS:

Telenovelas

1954 – A Muralha (TV Record)
1958 – A Muralha (TV Tupi)
1959 – Desce o Pano (TV Record)
1962 – A Muralha (TV Cultura)
1963/1964 – Corações em Conflito (TV Excelsior)
1964 – Alma Cigana (TV Tupi)
1964 – Ambição (TV Excelsior)
1964 – A Gata (TV Tupi)
1964 – A Moça Que Veio de Longe (TV Excelsior)
1964 – Se o Mar Contasse (TV Tupi)
1964 – A Outra Face de Anita (TV Excelsior)
1965 – Onde Nasce a Ilusão (TV Excelsior)
1965 – A Indomável (TV Excelsior)
1965 – Vidas Cruzadas (TV Excelsior)
1965 – A Deusa Vencida (TV Excelsior)
1965 – A Grande Viagem (TV Excelsior)
1966 – Almas de Pedra (TV Excelsior)
1966 – Anjo Marcado (TV Excelsior)
1966/1967 – As Minas de Prata (TV Excelsior)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1968 – O Terceiro Pecado (TV Excelsior)
1968/1969 – A Muralha (TV Excelsior)
1969 – Os Estranhos (TV Excelsior)
1969 – A Menina do Veleiro Azul (TV Excelsior)
1969/1970 – Dez Vidas (TV Excelsior)
1970 – As Bruxas (TV Tupi)
1970/1971 – O Meu Pé de Laranja Lima (TV Tupi)
1971 – A Selvagem (argumento – TV Tupi)
1971/1972 – Nossa Filha Gabriela (TV Tupi)
1972 – O Leopardo (TV Record)
1972/1973 – Camomila e Bem-Me-Quer (TV Tupi)
1973/1974 – Mulheres de Areia (TV Tupi)
1974/1975 – O Machão (argumento – TV Tupi)
1974 – Os Inocentes (TV Tupi)
1974/1975 – A Barba Azul (TV Tupi)
1975/1976 – A Viagem (TV Tupi)
1977 – O Espantalho (TVS – TV Record)
1977/1978 – O Profeta (TV Tupi)
1978/1979 – Aritana (TV Tupi)
1980 – A Deusa Vencida (2ª versão – TV Bandeirantes)
1980 – Cavalo Amarelo (TV Bandeirantes)
1980/1981 – O Meu Pé de Laranja Lima (2ª Versão – TV Bandeirantes)
1981/1982 – Os Adolescentes (TV Bandeirantes)
1982/1983 – Final Feliz (TV Globo)
1984 – Amor Com Amor Se Paga (TV Globo)
1985 – A Gata Comeu (TV Globo)
1986/1987 – Hipertensão (TV Globo)
1989/1990 – O Sexo dos Anjos (TV Globo)
1993 – Mulheres de Areia (2 ª Versão – TV Globo)
1994 – A Viagem (2ª Versão – TV Globo)
1996 – Quem É Você? (Argumento – TV Globo)
1998 – O Meu Pé de Laranja Lima (3ª versão – TV Bandeirantes)
2006/2007 – O Profeta (Versão escrita por Duca Rachid e Thelma Guedes – TV Globo)

Séries e Teleteatros

1952 – Os Eternos Apaixonados (TV Tupi)
1960 – Teleteatro 9


DINA SFAT – MAGNETISMO E SEDUÇÃO

outubro 3, 2009

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela “Os Gigantes“, de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga


FERNANDO PESSOA – OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA

agosto 28, 2009

Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Infância e Adolescência na África do Sul

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu no Chiado, em Lisboa, num prédio em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de junho de 1888. Nascido no dia de Santo Antonio, o santo mais popular de Lisboa, o menino recebeu o nome, Fernando Antonio, em sua homenagem. Fernando devido ao nome de batismo do santo, Fernando de Bulhões, e Antonio o nome canônico. Era filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.
Filho de uma família de pequenos aristocratas, o menino Fernando teve a vida alterada aos cinco anos, em 1893, quando o pai morreu de tuberculose. Seguindo a tragédia, perderia o irmão mais novo, Jorge, em 1894, que não chegou a completar um ano. Diante das adversidades, Maria Magdalena viu-se obrigada a leiloar a mobília e a mudar para uma casa mais modesta da Rua de São Marçal.
No ano de 1895, a mãe casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.
Foi na África do Sul, então colônia da Grã-Bretanha, que Fernando Pessoa adquiriu uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida. Foi em Durban que viu despertar o seu talento para a literatura. Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês. Aos quinze anos, ele recebe pelo ensaio, o Queen Victoria Memorial Prize (Prêmio Rainha Vitória). Desde esta época, o poeta demonstrou o seu talento para escrever também em inglês, iniciando a produção de vários poemas nesta língua.

Participação na Vida Cultural Portuguesa

Fernando Pessoa só regressaria definitivamente a Portugal em 1905. Ele viria sozinho, para viver com a avó Dionísia e duas tias na Rua da Bela Vista, em Lisboa. No ano seguinte, em 1906, matricular-se-ia no Curso Superior de Letras. Nesta época entra em contacto com importantes escritores do modernismo português.
Morre-lhe a avó Dionísia, em 1907, deixando-lhe uma pequena herança. Com o dinheiro, o poeta funda uma pequena tipografia, a Empresa Íbis-Tipografia Editora – Oficina a Vapor. Para geri-la, ele abandona o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais. Trabalharia nessa profissão o resto da sua vida.
Fernando Pessoa passou a interessar-se pela obra de Cesário Verde e do Padre Antonio Vieira. Em 1912, toma para si a atividade de ensaísta e crítico literário, estreando-se com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado pela revista “Águia”, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Para esta revista, faria ainda os artigos “Reincidindo…” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”.
Pouco depois, desliga-se do grupo da Renascença, aliando-se à geração mais nova, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, que marcaria o modernismo português. Com os amigos, fundaria a revista “Orpheu”, em 1917. Em 1921 colabora com o único número de “Portugal Futurista”. Em 1921 seria lançada a “Contemporânea”. Em 1924, dirige com Ruy Vaz a “Athena”. Em 1927 escreve para a “Presença”, onde passa a dar conhecimento dos seus versos. Nesta época colabora com textos para os jornais. Passa a colaborar com uma agência publicitária, atividade que exerceria de 1925 a 1935, ano da sua morte.

Vida Sem Grandes Paixões e Voltada Para o Ocultismo

Fugindo ao estereótipo da vida dos grandes poetas, que na sua maioria, viveram grandes e atribulados romances, Fernando Pessoa teve uma vida amorosa em branco, o que levou alguns comentários sobre uma suposta homossexualidade, algumas vezes despejada em alguns poemas; ou mesmo, a ausência de uma vida sexual. Ele jamais se casou.
Uma única mulher fez parte da sua biografia, Ofélia Queiroz, colega de trabalho, com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor. Ofélia dirigia-se a ele nas cartas como Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Mais tarde, Agostinho da Silva, que conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, relataria que o poeta confidenciara-lhe arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ofélia , pois o fizera movido pela fantasia heteronímica, sem jamais ter tido paixão por ela. Quando viu que Ofélia, uma mulher carente, estava irremediavelmente apaixonada por ele, apercebeu-se do ardil do amor fictício que vivia e pôs fim a ele, para não fazer uma mulher real e apaixonada sofrer.
Se a vida amorosa foi feita de mistério, também o misticismo e ocultismo que teria praticado deixaram grandes lacunas de dados. Sua suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz jamais foi provada, não se conhecendo nenhuma filiação do poeta a essas escolas em suas lojas ou fraternidades. O que se tem registrado é a defesa pública dessas organizações, feita por ele no “Diário de Lisboa” , contra as perseguições do Estado Novo, em 1935.
Fernando Pessoa estabeleceu mapas astrológicos para a maioria dos seus heterônimos e para Portugal. Fazia consultas astrológicas para si mesmo. Durante os seus estudos de astrologia, teria realizado mais de mil horóscopos.
Das chamadas ciências ocultas, Fernando Pessoa mostrou-se um estudioso profundo, tendo deixado uma razoável biblioteca de temas esotéricos anotada, além de escritos da sua própria autoria. Proclamava-se um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal. Era um grande admirador de Jacques de Molay, último grão-mestre dos Templários queimado vivo na fogueira. Dizia em defesa do mártir dos cavaleiros do Templo, que todos deveriam combater “os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Os Heterônimos de Fernando Pessoa

A beleza estética da obra de Fernando Pessoa deve-se à criação dos diferentes e marcantes heterônimos. Neles, o eu do poeta diluiu-se na escrita, fragmentando-se em personalidades poéticas complexas e de personalidades definidas. Uma vez tendo escrito em privado, com uma única publicação em vida, a escrita repleta de inovações prosódicas não é alcançada por seus contemporâneos. Quando revelada, trar-lhe-ia fama internacional, construindo um grande elemento da literatura universal.
Fernando Pessoa faz a divisão do eu, levando ao extremo dos limites a multiplicação da personalidade, transformando a identidade falsa de cada um deles em verdadeira, tornando-as imiscíveis.
Os heterônimos mais conhecidos na obra de Fernando Pessoa foram três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Sobre eles o próprio poeta escreveu, em uma carta a Adolfo Casais Monteiro:
Criei, então uma coterie inexistente. Ricardo Reis nasceu em 1887, não me lembro do dia e mês (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como se sabe é engenheiro naval (por Glasgow) (…). Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, (…). Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Com personalidades definidas e histórias de vidas próprias, cada heterônimo vai assumir para si um tipo e tema de poesia. Alberto Caeiro, o mestre, guardador de rebanhos, tem uma poesia filosófica. Foi morto por seu demiurgo no mesmo ano que foi criado, na revista “Orpheu”. Álvaro de Campos é um engenheiro futurista, cultor da máquina e do progresso, sua poesia é mais crítica. Ricardo Reis, o monárquico, cultiva em seus poemas Horácio e a tradição clássica. Há ainda um quarto heterônimo de grande importância na obra do poeta, Bernardo Soares, que é tido como o mais parecido com Fernando Pessoa, daí, muitas vezes tido como pseudo-heterônimo. Bernardo Soares, o inadaptado social, rabisca os seus fragmentos e impressões de Lisboa em “O Livro do Desassossego”.
Fernando Pessoa morreria no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luis dos Franceses, em Lisboa, sua terra natal. As causas da morte seriam uma “cólica hepática”, associada a uma cirrose hepática, fruto das longas tertúlias no “Martinho da Arcada” e na “Brasileira do Chiado”, regadas à aguardente.Tinha 47 anos de idade. Conta-se que nos últimos instantes de vida, escreveu em inglês, a última frase: “I Know not what tomorrow will bring” – “Não sei o que amanhã trará”.

[275] – Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que fôr, quando fôr, é que será o que é.

Passagem das Horas (Enxertos) – Álvaro de Campos

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas – absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados…
Mary, eu sou infeliz…
Freddie, eu sou infeliz…
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh’alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

Vivem em Nós Inúmeros – Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Vaga, no Azul Amplo Solta – Fernando Pessoa

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Cronologia

1888 – Nasce, em 13 de junho, em Lisboa, Portugal, Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
1893 – Nasce, em janeiro, o irmão Jorge. Em 13 de julho morre-lhe o pai, vitimado pela tuberculose.
1894 – Morre o irmão Jorge, em janeiro, pouco antes de completar um ano.
1895 – Em julho, o pequeno poeta escreve o seu primeiro poema. João Miguel Rosas, pretendente da sua mãe, é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, partindo para aquela região. Em dezembro, o cônsul casa-se com a mãe de Fernando Pessoa, por procuração.
1896 – Parte com a família para Durban. Em novembro nasce a irmã, Henriqueta Madalena.
1897 – O poeta entra para o curso primário.
1898 – Nasce a segunda irmã, em outubro.
1899 – Ingressa na Durban High Scholl. Cria o pseudônimo Alexander Search.
1900 – Nasce Luís Miguel, terceiro irmão do poeta.
1901 – Aprovado no exame da Cape Scholl High Examination. Morre a irmã do meio. Começa a escrever poesias em inglês. Ao lado da família, parte em agosto para uma visita a Portugal.
1902 – Nasce em Lisboa, o irmão João Maria. Em setembro, volta para Durban.
1903 – Presta exame de admissão à Universidade do Cabo, obtendo a melhor nota no ensaio de inglês, ganhando o Prêmio Rainha Vitória.
1904 – Nasce, em agosto, a irmã Maria Clara. Conclui os estudos na África do Sul.
1905 – Sozinho, retorna definitivamente para Lisboa, passando a viver com a avó Dionísia.
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa. Morre a irmã Maria Clara.
1907 – Desiste do Curso Superior de Letras. Morre a avó Dionísia. Abre, por um curto período, uma tipografia.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1912 – Publica artigo literário na revista “Águia”.
1914 – Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” e o “Livro do Desassossego”.
1915 – No primeiro número da revista “Orpheu”, o poeta mata Alberto Caeiro.
1916 – Suicida-se o amigo Mário de Sá Carneiro.
1920 – Conhece Ofélia Queiroz. Os irmãos e a mãe voltam para Portugal. Deprimido, pensa em internar-se em uma casa de saúde. Rompe com Ofélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924 – Dirige com Ruy Vaz a revista “Athena”.
1925 – Morre, em 17 de março, em Lisboa, a mãe do poeta.
1927 – Passa a colaborar com a revista “Presença”.
1929 – Volta a relacionar-se com Ofélia Queiroz.
1931 – Rompe novamente com a namorada.
1934 – É publicado o seu livro “Mensagem”.
1935 – Internado em um hospital, no dia 29 de novembro, com diagnóstico de cólica hepática. Morre no dia 30


EDITH PIAF – O PEQUENO PARDAL DE PARIS

agosto 23, 2009

Nascida em Paris, Edith Piaf tornou-se um dos maiores nomes da canção francesa e universal. Amada por um público que nunca deixou de ser renovado através das gerações, ela é o símbolo do amor cantado e vivido em sua essência visceral. Trazia no rosto a expressividade dos sentimentos, na voz a força de um canto dilacerante, que fazia da tragédia humana a beleza da sua arte.
Após a Segunda Guerra Mundial, Edith Piaf tornou-se a voz da França em todo o mundo. Sua vida foi construída em estradas sinuosas, muitas vezes cobertas pelas neblinas dos mistérios e da sobrevivência. No fim da guerra, o canto de Edith Piaf traduzia aquele momento de um país em escombros. Aquela mulher de expressões densas, muitas vezes vertidas em gestos dramáticos, era como a França renascida das dores, da humilhação e da vergonha que lhe impregnara a República de Vichy. Piaf era trágica, mas fascinante, de uma beleza artística infindável. Sua voz era a calmaria, seu corpo o terremoto, o seu canto a sedução da arte e do amor.
Conhecida como “La Môme Piaf” (Pequeno Pardal), a cantora saiu dos salões de música para os grandes palcos franceses. Não chegou aos cinqüenta anos, mas viveu com uma intensidade dilacerante, rasgando a juventude através da sua arte e dos seus amores . Seu rosto foi sendo esculpido e dilapidado pelo tempo, pelas paixões, pelas tragédias, pelo álcool e pelos barbitúricos. Próxima da morte, trazia um semblante envelhecido e sugestivamente demarcado pela dor, pela tristeza que refletia nos olhos.
Edith Piaf cantou o amor, a paixão, a França. Deixou sucessos imortalizados, como “La Vie En Rose”, canção que se tornou a imagem do seu país no pós-guerra; “Hymne à L’Amour”, que em 1949 refletiu o abandono e a solidão que a morte do amante, o boxeador Marcel Cerdan, atirou-a; a clássica “Non, Je Ne Regrette Rien”, de 1960, ou “Milord”, de 1959. No estilo francês da chanson, ninguém brilhou tanto como ela.
Na sua casa Edith Piaf recebeu e promoveu encontros entre jovens talentos que se tornariam grandes nomes da música francesa e universal, tais como Gilbert Bécaud, Jacques Pills, Louis Amade, Yves Montand, Jacques Plante, Jean Broussolle, Charles Aznavour, Francis Lemarque e Jacques Prévert. Seu nome está indelevelmente ligado a estes gigantes da fonografia da França.
La Môme Piaf calou-se para sempre, em 10 de outubro de 1963. Não tinha completado 48 anos. Deixou um vazio imenso na arte francesa. Tornou-se um mito, que atravessou as fronteiras do seu país, arrebatando uma legião de fãs pelo mundo. Quase cinco décadas depois da sua morte, Edith Piaf, o mito, é um ícone do mundo contemporâneo, conhecida e reverenciada internacionalmente. Ainda hoje, o seu canto fascina e emociona o ser humano, transformando em arte e beleza a dor da existência e das paixões.

A Infância Vivida em Um Bordel

Edith Giovanna Gassion, reza a lenda, teria nascido na calçada da Rue de Belleville, em Paris, em 19 de dezembro de 1915. Sua certidão diz que nasceu no Hospital Tenon, que atendia aos moradores de Belleville, bairro de grande concentração de imigrantes em Paris.
Apesar de várias biografias escritas, há fases da vida de Edith Piaf que permanecem guardadas no desconhecido, envoltas por mistérios. Era filha de Louis-Alphonse Gassion, um contorcionista de circo de ascendência franco-italiana, que teve uma breve passagem pelo teatro; e, de Annetta Giovanna Maillard, uma cantora de ruas e de cafés, que tinha uma ascendência ítalo-cabila. A mãe de Edith Piaf usava o pseudônimo de Line Marsa quando cantava nos cafés de Paris.
A infância da pequena Edith foi marcada pela mais absoluta miséria e por graves doenças. Louis-Alphonse seguiria para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, servindo o seu país. Impossibilitada de criar o bebê, Annetta deixaria a filha com a mãe, Emma Said, com quem viveria um curto período de tempo. A mãe de Annetta era uma mulher alcoólica, escrava da bebida, não tinha cuidados de higiene com a neta. Encontrando a filha doente e coberta de eczema, na casa da avó materna, na Kabila, Louis-Alphonse levou o bebê, entregando-o à sua mãe, em 1916, voltando a seguir, para as trincheiras.
A avó paterna da pequena Edith dirigia um bordel na Normandia. Já bem cedo, a cantora teve contacto com as prostitutas e, reza algumas biografias, teria ela própria tornado-se uma. O ambiente de prostíbulo, com a sua moral duvidosa, influenciaria para sempre o universo de Edith Piaf, a sua forma de ver o mundo. Ali, a criança começou a compreender a malícia ambígua da vida . Em um ambiente hostil, a pequena conquistou as atenções da prostituta Titine, que lhe adquiriu amor, passando a tratá-la com muita ternura.
Quando aos sete anos, a menina perdeu momentaneamente a visão em conseqüência de uma ceratite, foi Titine quem cuidou dela. A dedicação da prostituta foi tanta, que ela foi ameaçada de ser expulsa do bordel por não cuidar da clientela. Com a ajuda das outras prostitutas, Titine promoveu uma peregrinação a Lisieux, onde fez uma promessa a Santa Thérèse de Lisieux para que a pequena voltasse a enxergar. Dez dias depois, a menina recuperava a visão, como se fosse acometida de um milagre. Ela tornar-se-ia devota da santa pelo resto da vida.

Os Primeiros Amores da Juventude

Somente em 1929, o pai voltou a procurá-la. Edith é uma jovem mulher de 14 anos. Louis-Alphonse Gassion retoma as atividades de artista, voltando a ser contorcionista. O normando apresentava-se nas ruas, sendo acompanhado pela filha. Mais tarde ingressaria em pequenos circos itinerantes, sempre tendo a companhia da jovem. É nesta ocasião que Edith descobre a sua vocação artística. Subitamente, começa a cantar sozinha pelas ruas.
Três anos depois, no auge dos seus 17 anos, a jovem Edith, sem a presença do pai, cantava sozinha pelas ruas de Paris, tirando dali os ganhos para sobreviver. Cantava com freqüência na Rue Pigalle e nos subúrbios da capital francesa.
Na ocasião, ela apaixonou-se profundamente por Louis Dupont, um entregador de lojas. Com Dupont teria a sua única filha, Marcelle. Assim como a mãe, a jovem tinha dificuldades em cuidar da criança, deixando-a com Dupont quando estava a cantar nas ruas da cidade. A pequena Marcelle viveria apenas dois anos de idade, morrendo vítima de uma meningite.
A jovem artista de rua apaixonou-se, em seguida, por Albert, um gigolô, com quem passou a ter um relacionamento. Albert levava uma comissão do dinheiro que Edith conseguia cantando nas ruas. Com isto, ela impedia que o namorado a forçasse a prostituir-se. Quando ela terminou o relacionamento, Albert quase a matou com um tiro.

Surge o Nome Edith Piaf

Aos vinte anos, em 1935, Edith é descoberta nas mediações da Rue Pigalle, por Louis Leplée, proprietário da casa noturna Le Gerny, situada nos Champs Élysées, em Paris. Era uma casa de grande movimento, freqüentada por pessoas de todas as classes sociais da cidade.
Diante de uma mulher de baixa estatura, Leplée passou a chamá-la de “La Môme Piaf”, expressão francesa que significa Pequeno Pardal. A alcunha seguiria a cantora para o resto da vida, tornando-se parte do seu nome artístico. Foi pelas mãos do empresário que ela tirou os vícios adquiridos nas ruas, perdeu o grande nervosismo e aprendeu a cantar nos palcos. A pedido de Leplée, Edith passou a usar vestido preto quando no palco, que se iria tornar uma marca registrada da cantora. Vinda das ruas de Paris, nascia a cantora Edith Piaf.
Louis Leplée investiu na nova cantora, fazendo uma enorme campanha publicitária antes da estréia. Os esforços de Leplée resultaram na presença de várias celebridades na noite de estréia de Edith Piaf no Lê Gerny, entre elas o ator e cantor Maurice Chevalier.
Longe das ruas, as apresentações da cantora nos palcos das casas noturnas, resultaram na possibilidade da gravação dos seus primeiros dois discos, fato acontecido no ano de 1936; sendo o primeiro, lançado pela Polydor, “Le Mômes de la Cloche”, que se tornaria um sucesso imediato . Um dos discos teve as canções escritas pela compositora Marguerite Monnot, que se tornaria presença imprescindível na carreira da cantora. As duas desenvolveriam uma amizade que duraria toda a vida, fazendo várias canções em parceria, como a mítica “Hymne à L’Amour”.
Mas resquícios de um passado marginal vivido pela cantora nas ruas de Paris, vieram à tona, ainda em 1936, quando, em 6 de abril, Louis Leplée foi morto em seu domicílio. O empresário foi assassinado por marginais ligados às drogas, que no passado tiveram ligações com a cantora. Edith foi interrogada e acusada de cumplicidade, mas conseguiu provar a sua inocência, sendo absolvida.
A morte de Louis Leplée atingiu dramaticamente a imagem e a carreira incipiente da cantora. Para reabilitar a imagem, ela chamou Raymond Asso, com quem viveria um romance. Asso começou por mudar o nome artístico da cantora, de La Môme Piaf para Edith Piaf. Em seguida, encomendou a Marguerite Monnot canções que retratassem o passado da cantora pelas ruas de Paris.

A Ascensão da Estrela

Já como Edith Piaf, ela marcou a sua estréia como cantora de música de salão, em 1937, tornando-se uma estrela da Chanson Française, sendo tocada incessantemente pelas rádios, arrebatando um público que passou a idolatrá-la. No fim daquela década, ela triunfa absoluta na famosa casa parisiense Bobino.
Em 1940, Jean Cocteau escreve uma peça para Edith Piaf, “Le-Bel Indifferent”, onde contracenava com o seu então companheiro, o ator Paul Meurisse. O mundo de Edith Piaf expandiu-se, fazendo com que se relacionasse com os maiores talentos da França. Ela também descobriu jovens talentos, como Yves Montand, que se tornaria uma celebridade, além de ser seu amante e parceiro por alguns anos.
No decorrer dos anos, Edith Piaf começa a escrever as suas canções, sendo auxiliada por compositores famosos.
Em 1944 a França era libertada da invasão nazista, que por quatro anos fizera do país uma nação submetida ao regime de Berlim. Em 1945, a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, trazendo a liberdade que se iria construir em cima dos escombros que assolavam a Europa. Neste ano, Edith Piaf escreveu aquela que se tornaria a mais famosa das suas canções, “La Vie en Rose”, que seria lançada em 1946, percorrendo os quatro cantos do mundo, tornando-se um clássico.
Após a Segunda Guerra Mundial, Edith Piaf saiu da imensa fama que tinha na França, alcançando-a pelo mundo. Tornar-se-ia a voz internacional do seu país, sendo idolatrada por milhares de fãs que conquistou pelo mundo. Apresentar-se-ia com grande sucesso em grandes casas noturnas da Europa, Estados Unidos e América do Sul. A apresentação da cantora nos Estados Unidos foi vista por muitas celebridades, entre elas a atriz Marlene Dietrich, de quem se iria fazer amiga para o resto da vida.
Como estrela máxima da música francesa naquele conturbado século XX, a cantora apresentou-se nos maiores palcos do mundo, do mítico Paris Olympia Concert Hall ao Carnegie Hall. Piaf tornar-se-ia um ícone do seu país e da canção universal. A menina que quase ficara cega quando morava em prostíbulo, que vivera nas ruas de Paris todo o clima da marginalidade, sobrevivendo como cantora, era um mito, o mito Edith Piaf.

Edith Piaf e Marcel Cerdan – Um Hino ao Amor

A vida de Edith Piaf foi marcada por grandes paixões. Amores fugazes compuseram a alma da cantora, demarcando momentos felizes e de grandes tragédias. Dos romances vividos, os mais conhecidos foram os que envolveram celebridades como Charles Aznavour, Yves Montand, Marlon Brando, Théo Sarapo, Georges Moustaki e Marcel Cerdan.
De todos os homens que passou pela vida atribulada da cantora, o pugilista Marcel Cerdan foi considerado o seu grande amor. Um amor vivido pelas limitações da sociedade, visto que Cerdan era casado, e pelo desfecho da tragédia, quando este morreu em um acidente de avião, em 1949.
Marcelino Cerdan, que entrou para a história como o maior pugilista da França e um dos maiores do mundo, nasceu em Sidi Bel Abbes, então Argélia Francesa, em 22 de julho de 1916. Era quase um ano mais novo do que Edith Piaf.
Marcel Cerdan teve uma vida intensa, marcada por grandes conquistas esportivas, por um estilo de vida que despertava as atenções dos holofotes e, finalmente, pela tragédia que lhe ceifou a vida, no auge da sua essência de homem e de ídolo.
Marcel Cerdan trazia um corpo másculo, um semblante de galã, uma força de touro, uma sensualidade viril à flor da pele, que fazia dele um homem desejado pelas mulheres e admirado pelos homens. Ainda aos dezoito anos, em 1934, Cerdan estreou-se profissionalmente no boxe, em Meknes, no Marrocos. A partir de então ele iniciou uma carreira brilhante, acumulando, no princípio, 47 vitórias consecutivas, só perdendo pela primeira vez, em 1939. Na sua carreira gloriosa, que até hoje causa orgulho à França e aos franceses, Cerdan participou de 117 lutas, tendo vencido 113 vezes, sendo 66 vitórias por nocaute, acumulando apenas 4 derrotas.
As vidas de Marcel Cerdan e Edith Piaf seriam cruzadas em Nova York, quando a cantora fazia uma turnê pelos Estados Unidos, no verão de 1948. Ambos eram celebridades idolatradas na França e no resto do mundo. A paixão foi fulminante. Irresistível. Edith Piaf viu-se perdidamente atrelada ao pugilista.
Apesar de Marcel Cerdan ser um homem casado e com filhos, residindo com a família em Casablanca, no Marrocos; ele iniciou com Edith Piaf um tórrido romance, que abalaria a vida emocional da cantora para sempre. Desafiando a todos os obstáculos, os dois apareceram juntos em fotografias espalhadas pela imprensa do mundo inteiro. Apareciam felizes, apaixonados. Há fotografias ao lado de Piaf, que o pugilista mostra as marcas deixadas pelas lutas pesadas que travava nos ringues, estando algumas vezes com o rosto inchado ou com algum dente partido.
A fragilidade de artista de Edith Piaf fundiu-se com a força bruta indomável do pugilista, desenhando um retrato de amor divulgado nas páginas dos jornais. Os escândalos sempre fizeram parte da vida de Piaf, um novo não afetava o seu modo de ver o mundo, que lhe fora delineado no bordel da avó na Normandia, e, nas ruas de Paris.
Em outubro de 1949, Edith Piaf sentia-se sozinha em Nova York. Para aliviar a sensação de vazio, ela telefonou para o amante pugilista, pedindo que a viesse ver. Marcel Cerdan, que vinha de uma derrota em uma luta travada com o norte-americano Jake LaMotta, em Detroit, tinha assinado um contrato para outra luta de revanche. Para que pudesse ser devidamente preparado para um novo confronto, teria que ficar confinado em um acampamento. Antes de ir para o acampamento, Cerdan acede ao pedido da amada e parte ao seu encontro em Nova York, embarcando no Lockheed L-749 Constellation, da Air France. No meio do oceano Atlântico, o avião colidiu contra o Monte Redondo, na Ilha de São Miguel, nos Açores, matando todos os 11 tripulantes e 37 passageiros que estavam a bordo, entre eles Marcel Cerdan.
Naquele trágico 27 de outubro de 1949, Edith Piaf recebeu, algumas horas antes de subir ao palco, a notícia de que o avião em que Marcel Cerdan viajava caíra em uma ilha dos Açores. Mesmo abalada pela notícia, Edith Piaf não cancelou o espetáculo. Quando subiu ao palco, dedicou aquela noite ao grande amor da sua vida. Movida pela dor da emoção, a cantora soltou a voz. Ao final da quinta canção, ela desmaiou no palco.
Para suportar a imensa dor da morte de Marcel Cerdan, e as dores físicas que se apoderavam do corpo frágil da cantora, provocada por crises reumáticas, ela recorreu à morfina, receitada pelos médicos, que na época consistia no mais poderoso analgésico disponível. Iniciava-se um processo de dependência química que debilitaria a saúde da cantora para sempre.
Em homenagem a Marcel Cerdan, considerado por Piaf o seu maior amor, a cantora dedicou-lhe um dos seus mais belos clássicos, “Hymne à L’Amour”, que ela tinha composto com Marguerite Monnot, e cantado pela primeira em 1949. A música, literalmente um hino ao amor, foi lançada em 1950, registrando o momento sublime da paixão vivida por uma cantora e um pugilista.

O Pequeno Pardal Cala-se Para Sempre

Desde a morte de Marcel Cerdan, arrasada pelo sofrimento, Edith Piaf passou a aplicar no corpo fortes doses de morfinas. O álcool, os barbitúricos, tudo serviu para a debilitação da saúde da cantora, fazendo com que envelhecesse rapidamente aos olhos dos milhares de fãs que a idolatravam pelo mundo.
Em 1952, ela ainda tenta recomeçar a vida amorosa, casando-se com o famoso cantor francês Jacques Pills. Mas o casamento não vai além dos quatro anos, terminando em divórcio, em 1956.
Após o divórcio, um novo amor bateu à porta da cantora, Georges Moustaki, o Jo, que ela lançaria no cenário da música francesa, e de quem gravaria a canção “Milord”. Ao lado de Moustaki, ela sofreu um grave acidente de automóvel, em 1958. Maiores doses de morfina foram aplicadas na cantora, fazendo com que a sua saúde, já bastante debilitada, deteriorasse-se rapidamente, e o seu corpo definhasse.
Mesmo debilitada, doente e drogada, Edith Piaf casou-se com Théo Sarapo, cantor de ascendência grega, vinte anos mais jovem do que ela. Nesta época fez a sua última grande apresentação no Olympia de Paris. Em abril de 1963, ela gravaria a sua última canção, “L’Homme de Berlin”. Logo a seguir, refugiou-se para descansar na Riviera Francesa.
No dia 10 de outubro de 1963, aos 47 anos, morria Edith Piaf, em Plascassier, Riviera Francesa. Coincidentemente, ela faleceu no mesmo dia do seu amigo Jean Cocteau. Encerrou-se naquele dia de outono, uma vida impar, escrita nas profundezas do sofrimento humano e na beleza da arte que movia uma grande mulher.Théo Sarapo transportou o corpo da cantora clandestinamente, da Riviera a Paris, para que os seus fãs pensassem que ela tinha falecido na sua cidade natal. A notícia da sua morte só foi divulgada oficialmente em 11 de outubro, quando o corpo já estava naquela cidade. Embora o arcebispo de Paris lhe negasse o réquiem do funeral, por condenar o estilo de vida da cantora, a marcha fúnebre da sua despedida atraiu milhares de pessoas às ruas de Paris, que marcharam até o cemitério do Père-Lachaise. Desde então, o seu túmulo é um dos mais visitados do mundo. O sepultamento da cantora reuniu cerca de cem mil pessoas. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que não se assistia a tamanha concentração de pessoas nas ruas de Paris. A cidade despedia-se da sua maior voz, da mais parisiense dos seus mitos, La Môme Piaf. Edith Piaf.


LEILA DINIZ, A MULHER E O MITO

maio 19, 2009
Quando se fala nas décadas de 1960 e 1970, Leila Diniz aparece como um ícone incontestável na galeria dos personagens que compuseram e modificaram o país. A construção do mito muito que se deve à contestação da mulher inquieta e libertária que ela foi. Como atriz não desempenhou papéis marcantes, que lhe valesse o estatuto de estrela, mas brilhou como poucas, sendo um objeto de mídia, quando esta ainda era incipiente, com pouco mais de meia dúzia de revistas e jornais de projeção nacional, e uma televisão ainda por encontrar a direção. Esta mídia rendia-se aos encantos de Leila Diniz, à sua espontaneidade, e, principalmente, a sua transgressão comportamental, dilacerante e revolucionária para a época, fazendo dela uma notícia vendável. Leila Diniz foi capa constante das principais revistas do país, não apenas das que cuidavam da vida dos famosos, como das emblemáticas “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Realidade” e “Manchete”.
Ser Leila Diniz na época em que viveu era caminhar nua diante de uma sociedade conservadora, manipulada e governada por uma burguesia repressiva, composta nas casernas. Leila Diniz falava do amor livre, da mulher que não tinha medo de sentir prazer sexual, muito menos de ter uma vida íntima com quem lhe inspirasse desejo. Falava palavrões como um homem, mostrando-se caçadora como eles, mas sem nunca perder a sensualidade ou a doçura que lhe era peculiar. Era vista pela direita como promíscua, muitas vezes chamada de prostituta pelos mais conservadores; e, estigmatizada como alienada e alienante pela esquerda. Leila Diniz representou o grito da mulher diante de um mundo machista e de voz histórica masculina. Contestou os costumes, atirou-se sem pudores ao amor e à liberdade de amar; foi a primeira mulher a aparecer grávida a trajar biquíni pelas praias cariocas, escandalizando e lançando moda. Não precisou de um grande papel para brilhar como estrela; foi essencialmente os seus impulsos, o seu jeito espontaneamente visceral de ser, foi mulher sem medo de sê-lo. Sua personalidade superou o seu meio e a sua profissão. Não teve tempo ou não quis buscar o seu grande papel no cinema, na televisão ou no teatro, vivendo-o brilhantemente na vida, ser mulher foi a sua maior representação.
Leila Diniz morreu precocemente aos 27 anos, em 1972, em um trágico acidente aéreo que comoveu o Brasil. Uma vez morta, eternizou-se no cenário nacional, deixou de ser a mulher para transformar-se no mito, deixou de ser vista como promíscua para ser exaltada como pioneira da liberação feminina no Brasil. Leila Diniz, o mito, é tão fascinante quanto foi a mulher, e quase quatro décadas depois da sua morte, continua presente no imaginário deste país, nas raízes da existência feminina e na sua luta para ser apenas mulher, sem as amarras de preconceitos e costumes seculares. Leila Diniz vive! Partiu a mulher, mas o mito está presente em cada rosto feminino, e como profetizou Rita Lee, hoje qualquer mulher é mesmo Leila Diniz!

Os Primeiros Anos e a Estréia Como Atriz

Leila Roque Diniz nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 25 de março de 1945. Filha de um dirigente do Partido Comunista, o seu nascimento coincidiu com o fim do casamento dos pais, que culminou na separação. Com o fim do casamento, a mãe de Leila Diniz entrou em depressão, não tendo condições psicológicas de cuidar da recém-nascida. Com apenas sete meses, a criança foi entregue à avó paterna, para que por ela fosse criada.
A partir dos três anos de idade, Leila Diniz foi separada da avó, indo viver com o pai e com a sua nova esposa. Ela cresceu sem que lhe fosse dito que a madrasta não era a sua mãe, vivendo esta mentira velada até os 15 anos, quando uma tia revelou-lhe a verdade. A revelação afetou-lhe profundamente, fazendo-a deixar a casa do pai e procurar a mãe verdadeira. Confusa, Leila Diniz passa a viver com algumas amigas, recorre à análise para chegar à conclusão que costumava vociferar: “tenho duas mães, a que pariu e a que criou”.
Foi aos 15 anos que começou a trabalhar como professora, ensinando crianças do maternal e do jardim da infância. Sua forma peculiar de ensinar incomodou aos professores e aos pais de alunos. Leila Diniz eliminou a mesa de professora, sentando-se no meio dos alunos, trocava lanches com eles, falava palavrões comuns às crianças, procurando tratá-las com a mesma linguagem. Jamais se adaptou às exigências convencionais dos diretores da escola ou do pai dos alunos, o que a levou a deixar de dar aulas.
Aos 17 anos, ainda professora primária e estudante do segundo grau, Leila Diniz conheceu o diretor de teatro e cinema, Domingos de Oliveira, com quem passaria a viver por três anos. Aos poucos, ela deixou o magistério, indo trabalhar em uma agência de modelos, fazendo anúncios e figuração em filmes. Como atriz, faria a sua estréia fazendo pequenos papéis no Teatrinho Trol e no Grande Teatro Tupi. A quem aponte para a peça infantil “Em Busca do Tesouro”, dirigida por Domingos de Oliveira, como a sua estréia oficial como atriz. Chegou a ser corista em um show do rei da noite, o mítico Carlos Machado.
Leila Diniz considerava a sua estréia como atriz dramática a partir do momento que fez a peça “O Preço de um Homem”, ao lado de Cacilda Becker, em 1964. A atriz nunca teve paixão pelo teatro, dedicando grande parte da sua carreira ao cinema nacional e à televisão.

Leila Diniz Conquista a Televisão

A relação com Domingos de Oliveira desgastou-se com o tempo. Em 1965 ela decidiu pela separação. Foi neste tumultuado ano de dor sentimental, que ela fez a sua estréia na televisão. Ao lado de Reginaldo Faria, protagonizou a primeira telenovela da recém nascida Rede Globo, “Ilusões Perdidas”, produzida em São Paulo, na antiga TV Paulista, comprada naquele ano por Roberto Marinho. Leila Diniz entrava definitivamente para a história da televisão brasileira em exatos 56 capítulos.
Aos poucos, Leila Diniz foi construindo uma carreira na televisão. Ainda em 1965, faria mais duas novelas na emissora de Roberto Marinho, “Paixão de Outono” e “Um Rosto de Mulher”. Simultaneamente, a atriz aparecia em anúncios televisivos de sabonetes e creme dental, e da Coca-Cola.
Em 1966, Leila Diniz viveria a vilã Úrsula, de “Eu Compro Esta Mulher”, novela de Gloria Magadan, baseada no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela seria o primeiro grande sucesso da TV Globo, transformando a autora em uma poderosa e temida novelista. Úrsula projetou Leila Diniz na televisão, o que a levou a ser escalada para “O Sheik de Agadir”, da mesma autora. Sua personagem Madelon, alcançou sucesso nacional. No ano seguinte, em 1967, ela faria outra novela de Gloria Magadan, “A Rainha Louca”. Ainda naquele ano, seria a protagonista de “Anastácia, a Mulher sem Destino”, novela que entrou para a história da teledramaturgia brasileira não pelo seu sucesso, mas pelos conturbados bastidores. Emiliano Queiroz, o autor da trama, perdeu-se depois de criar vários personagens, sendo substituído por Janete Clair, em sua mítica estréia como novelista da Globo. Com a missão de salvar a novela de um imenso fracasso, Janete Clair decidiu começar do zero, enxugando o elenco e recontado a história, para isto ela criou um grande terremoto que mataria quase todo o elenco, só restando quatro sobreviventes. A história dava um salto de vinte anos, Leila Diniz passou a interpretar duas personagens, Anastácia, e a sua filha.
A presença de Leila Diniz nos primórdios da Rede Globo foi uma constante. Em 1968, foi para a TV Excelsior protagonizar a telenovela “O Direito dos Filhos”, grande sucesso da emissora. Além da TV Excelsior e da TV Globo, Leila Diniz atuaria em novelas da TV Rio, “Os Acorrentados”, de Janete Clair, em 1969, e da TV Tupi, onde faria “E Nós, Aonde Vamos?”, em 1970, novela que seria a última da sua carreira e da de Gloria Magadan, a autora.

Leila Diniz no Cinema Brasileiro

Mas foi no cinema nacional que Leila Diniz alcançou o apogeu da carreira. Uma incursão da atriz que duraria seis anos. A estréia foi em 1966, em “O Mundo Alegre de Helô”, dirigido por Carlos de Souza Barros, filme que ela chamava de alucinante. Logo em seguida, atuou em “Jogo Perigoso” (Juego Peligroso), uma co-produção entre o Brasil e o México, dirigido por Luiz Alcoriza, famoso por seu trabalho de roteirista ao lado de Luis Buñuel.
O sucesso definitivo veio com “Todas as Mulheres do Mundo”, feito em 1966, com estréia no ano seguinte. A direção foi de Domingos de Oliveira, que se inspirou na sua vida com a atriz para criar as personagens. Quando o filme foi feito, Leila Diniz e Domingos de Oliveira já estavam separados, sendo o momento das filmagens a última tentativa do diretor para reconquistar a amada, mas ela preferiu seguir sozinha. Com este filme, Leila Diniz tornou-se a atriz mais famosa do cinema nacional. Foi a partir dele que a sua inquietante personalidade ganhou notoriedade, e passou a ser reconhecida como atriz. Mas a carreira de atriz não ascenderia tão brilhante como a personalidade da mulher. Com este filme, Leila Diniz torna-se um ícone do seu tempo e das mulheres de um Brasil que se desenhava os costumes. “Todas as Mulheres do Mundo” tornou-se um clássico do cinema brasileiro. A atriz voltaria a ser dirigida pelo ex-companheiro em “Edu, Coração de Ouro”.
Apesar de dizer que não se importava em fazer um texto de Shakespeare ou de Gloria Magadan, Leila Diniz encontrou-se nas telas do cinema. O seu amor pela sétima arte fez com que ela atuasse pelo simples prazer de trabalhar com grandes diretores, abrindo mão muitas vezes, de receber salário, como aconteceu quando trabalhou com Nelson Pereira dos Santos em “Fome de Amor”, e ele não lhe podia pagar. Com este filme, considerado pela atriz como um dos seus melhores papéis, foi representar o diretor na Alemanha, no Festival de Berlim, em 1968. Ela voltaria a trabalhar com Nelson Pereira dos Santos em “Azyllo Muito Louco”.
A sua atuação no cinema foi constante até a tragédia que a vitimou, em 1972. Alternou papéis de protagonista, coadjuvante ou simples participações especiais. Fez clássicos como “Madona de Cedro”, baseado no romance de Antonio Callado, ao lado de Sérgio Cardoso, ator que, assim como ela, comoveria o Brasil com a sua morte precoce, em 1972. “Madona de Cedro” teve a direção de Carlos Coimbra, com quem ela voltaria a trabalhar em “Corisco, o Diabo Loiro”.
Por duas vezes, a atriz surgiu nas telas a interpretar ela mesma, em “Os Paqueras”, em 1969, filme considerado o precursor das pornochanchadas dos anos setenta, e em “O Donzelo”, estreado nos cinemas em 1971. Nestas participações, percebe-se nitidamente a dimensão do mito Leila Diniz, mais famosa como ela mesma do que como qualquer personagem que veio a interpretar.
Mãos Vazias”, de 1971, de Luiz Carlos Lacerda, seu amigo íntimo desde a adolescência, foi o responsável pela viagem de Leila Diniz para um festival de cinema na Austrália, onde foi representá-lo. A atriz não voltaria ao Brasil, morrendo em um acidente de avião. No carnaval de 1972, ela filmou a sua última participação no cinema, “Amor, Carnaval e Sonhos”, de Paulo César Saraceni.
Os registros da trajetória da carreira de Leila Diniz foram feitos pela televisão, onde foi protagonista de várias telenovelas, e pelo cinema nacional. Infelizmente um incêndio na TV Globo, ocorrido em 1976, destruiu todas as novelas que ela participou. As outras emissoras, TV Excelsior, TV Tupi e TV Rio, também não deixaram os arquivos dessas produções. Resta o cinema, que além das reportagens históricas da atriz, é o registro vivo do mito Leila Diniz.

Leila Diniz nas Páginas do Pasquim

O registro mais importante do mito Leila Diniz aconteceu em 1969, quando deu uma entrevista histórica para o jornal “O Pasquim”. A entrevista causaria furor nos fãs e naqueles que ansiavam pela mudança dos costumes, pelo amor livre, tão disseminado pelos movimentos hippies e vanguardas de então; causaria mal-estar nos conservadores e moralistas, tanto da classe média hipócrita, quanto do próprio governo militar, sustentado essencialmente por setores de uma sociedade de costumes rígidos e moralismos esgotados. Após o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, era feita veladamente uma censura prévia ao que se saía na imprensa. O Pasquim era conhecido pela irreverência intelectual dos seus editores, publicando reportagens com entrevistas na íntegra, preservando a linguagem coloquial do entrevistado.
Em novembro de 1969, o jornal publicou sem retoques, a mítica entrevista de Leila Diniz. A atriz era conhecida no meio que freqüentava pela linguagem escancarada e espontânea que utilizava, os seus palavrões eram famosos pelas mesas dos bares de Ipanema. O Pasquim transcreveu esta linguagem na reportagem, até então desconhecida do público da atriz. Apesar da linguagem chula que às vezes utilizava, Leila Diniz não era uma mulher agressiva, muito menos vulgar, os palavrões ditos por ela soavam aos ouvidos dos amigos e parentes como um charme, uma rebeldia, numa época que se tornara moda ser contestador, derrubar tabus e procurar novos caminhos para os costumes sociais que explodiam.
A partir da reportagem do Pasquim, Leila Diniz tornou-se porta-voz da nova mulher que se construía numa sociedade machista e em ebulição, movida por um regime governamental repressivo e de parcos costumes. Para cobrir a grande quantidade de palavrões, o editor Tarso de Castro substituiu-os por asteriscos, não mudando a essência vulcânica das palavras da atriz. Dois meses após a publicação da polêmica entrevista, ainda indignada, a ditadura militar outorgou um decreto-lei instituído a censura prévia, dizendo que não mais toleraria na imprensa nacional, “exteriorizações contrárias à moral e aos costumes”. O decreto entrou para a história como “Decreto Leila Diniz”.
A repercussão da entrevista deixou marcas indeléveis na carreira e vida profissional de Leila Diniz. Vítima de perseguição moral, ela jamais conseguiria um bom emprego, sendo vetada nas novelas da Globo, casa que ajudou a construir nos primórdios, emprestando o seu talento de atriz. Sem conseguir bons papéis na televisão, ela começou a ter dificuldades em pagar as suas contas.
Lidas com a visão dos tempos atuais, as frases de Leila Diniz soam como as de qualquer adolescente que se expressa através da internet. Mas na época que foram ditas, eram consideradas libertárias, não dignas de uma mulher de moral. A repercussão negativa da entrevista fez da atriz um alvo perfeito de preconceitos e dos preconceituosos. Leila Diniz afirmava que fazia sexo com ou sem amor, que ter prazer não dependia da paixão ou de ser mulher, mas da essência de cada um. Declarar o amor livre em 1969 era um ato de rebeldia, principalmente se a declaração viesse de uma mulher e de uma influente figura pública. Separar sexo do amor era para as prostitutas, não para as esposas e para as mães de família.
A edição do Pasquim que trazia a entrevista de Leila Diniz foi a mais vendida da história do jornal. Também a mais marcante e comentada até os dias de hoje. Para Leila Diniz foi o crepúsculo profissional. Depois que a entrevista saiu, emissoras como a Rede Globo deixaram de contratá-la, alegando razões morais. O diretor Daniel Filho declararia que a novelista Janete Clair vetou Leila Diniz para fazer uma de suas novelas, alegando que a imagem da atriz não condizia com a da heroína do folhetim, o que poderia vir a afetar o desenvolvimento da personagem. O que não deixava de ser uma grande ingratidão, já que Daniel Filho tinha saído temporariamente da TV Globo, indo para a TV Rio, em 1969, convocando Janete Clair para escrever para aquela emissora uma novela, “Os Acorrentados”, na qual Leila Diniz fora a protagonista, emprestando o seu nome para a empreitada do diretor e, representando com maestria a heroína de Janete Clair.
Contrariando a versão de Daniel Filho, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o poderoso Boni, então diretor geral da TV Globo, alegou que Leila Diniz foi vetada na emissora por ter quebrado o contrato para fazer uma novela na TV Excelsior. Boni declararia: “Ficamos decepcionados. Quando quis voltar, estávamos naturalmente tristes com aquela quebra de contrato. Era política da empresa.” Seja qual for a versão verdadeira, o fato é que a TV Globo era extremamente conservadora e de orientação machista, não permitindo inclusive, que as suas atrizes posassem nuas para revistas masculinas, aquela que infringisse as normas da emissora sofria retaliações, esta política só caiu no fim da década de setenta.
Ser verdadeira e espontânea pôs Leila Diniz na contramão do seu tempo, fazendo dela o protótipo da mulher do futuro. A atriz pagou caro por sua irreverência, sendo perseguida pelo conservadorismo dilacerante daquele Brasil reprimido. Nunca quis ser líder de nada, queria apenas ser livre. Conseguia defender o amor livre e o casamento em uma mesma entrevista. Numa época em que as ideologias estavam divididas em dois grupos, o de esquerda e o de direita, e que não pertencer a nenhum dos lados era considerado alienante, numa época que não se podia fugir das idéias pré-concebidas, das dialéticas impostas, Leila Diniz defendia apenas o direito de ser livre, mesmo sendo mulher, não trazia receitas ideológicas, pensamentos intelectuais, mostrando-se como uma incógnita, como a interrogação desconcertante dos tabus que se quebravam dia após dia. A entrevista de Leila Diniz no Pasquim foi a primeira quebra da mulher com as amarras machistas no Brasil, foi o primeiro flash disparado sobre o rosto e o corpo da mulher brasileira do futuro.

Perseguida e Acossada Pelos Preconceitos Morais

A partir da entrevista que deu para O Pasquim, Leila Diniz amargou a pior fase da sua vida. Vetada pela TV Globo, que passava a ser a maior emissora do país, perseguida pelos conservadores e moralistas, ela passou a aceitar papéis menores em sua carreira.
Ignorada pela esquerda, perseguida pela direita, a atriz viu os caminhos profissionais sendo fechados à volta. A verdade é que Leila Diniz era senhora de uma personalidade marcante, maior do que a sua profissão, uma fomentadora de opiniões, que muitos jovens idolatravam e seguiam. Leila Diniz passou a incomodar os poderosos do regime militar, não por ser uma revolucionária de esquerda, ou militante política perigosa, mas por desafiar os costumes sociais estabelecidos. Ela desafiava ao poder do macho, refletido no casaco dos generais, nos olhos sombrios dos militares do poder, que escondiam atrás de óculos escuros o olhar frio dos torturadores. Leila Diniz passou a ser perseguida pelos militares, que a acusaram de ajudar militantes de esquerda, os quais eles chamavam de terroristas, mas a verdade é que a polícia política queria prendê-la por atentado ao pudor. Acossada, ela foi obrigada a viver escondida na casa de campo do apresentador Flávio Cavalcanti, considerado pelos intelectuais e militantes de esquerda como reacionário, sendo visto como a escória da televisão. Naquele momento crucial da vida da atriz, no fatídico ano de 1970, Flávio Cavalcanti não só a abrigou em sua casa de Petrópolis, como deu emprego para ela como jurada no seu programa de televisão. Com a ajuda de Flávio Cavalcanti e da sua família, Leila Diniz pôde respirar um pouco mais naquele momento que ninguém lhe queria dar emprego.
Passado o período mais negro da perseguição após a entrevista no Pasquim, a atriz trouxe de volta aos palcos brasileiros o teatro de revista, considerado extinto na época. Exuberante, ela brilhou nos palcos como vedete, protagonizando “Tem Banana na Banda”, revista feita a partir de textos escritos por Millôr Fernandes, Oduvaldo Viana Filho, Luiz Carlos Maciel e José Wilker, sobre os quais a atriz improvisava com maestria. O sucesso da revista deu a Leila Diniz a vitória no concurso de rainha das vedetes, recebendo o título das mãos da maior vedete do país, Virginia Lane. Para encerrar o período nebuloso pelo qual passara, ela foi eleita a Madrinha da Banda de Ipanema.
Leila Diniz voltava a ser notícia, a trazer novamente, o seu sorriso e comportamento espontâneo. A avalanche causada pelas declarações no Pasquim passara, mas deixara cicatrizes profundas. A carreira da atriz era definida antes e depois da entrevista. Era como se recomeçasse, mas a fatalidade da vida dizia o contrário, era um epílogo de vida que a atriz vivia.

Leila Diniz, a Mulher

Em 1971, Leila Diniz apaixonou-se pelo cineasta Ruy Guerra, com quem passou a viver um tórrido romance. O romance resultou na gravidez da atriz. Leila Diniz parecia atingir a sua plenitude de mulher. Recebeu a gravidez como a mutação perfeita da mulher, a concretização do seu corpo e das paixões.
Leila Diniz voltou para o mar, a sua grande paixão de vida. O único momento que gostava de ser ela, de não ser incomodada pelo assédio dos fãs, era aquele que jogava o seu corpo na areia e banhava-se no mar. Momento que gostava de estar só consigo mesma, a falar com o mar, como se dele obtivesse uma inspiração perene e a força para prosseguir livre. A atriz voltava às praias cariocas, voltava a reinar absoluta nas areias de Ipanema. Mas desta vez não estava sozinha, ela voltava grávida, trazendo uma barriga de oito meses, vestida apenas com um biquíni. Ao ser fotografada a exibir a sua gravidez, a trajar um biquíni, mais uma vez Leila Diniz escandalizava a sociedade. Até então a mulher tinha vergonha de exibir a sua gravidez, disfarçando-a em roupas recatadas até o nono mês. Uma grávida dentro de um biquíni era inconcebível. Mas Leila Diniz ousou, e a partir dela, virou moda a mulher grávida usar biquíni e ir à praia.
Grávida, Leila Diniz mais uma vez foi pioneira, deixando-se fotografar nua, com o ventre crescido, pelo fotógrafo David Drew Zingg. Décadas depois, celebridades como Luma de Oliveira e Demi Moore fizeram o mesmo, mas sem escandalizar como aconteceu com Leila Diniz. A plenitude daquele momento deu à atriz o título de grávida do ano.
Foi do mar que Leila Diniz encontrou inspiração para o nome da sua filha, Janaína, nascida em novembro de 1971. Se hoje é comum em campanhas do governo federal a mulher amamentando o filho, Leila Diniz incomodou a moral do governo militar, quando apareceu em fotografias a amamentar a pequena Janaína.
A descoberta da maternidade apaziguou um pouco os anseios da mulher. Leila Diniz viveu com intensidade os curtos oito meses que a vida lhe deu para ser mãe. Após dedicação total à Janaína, ele retomou a carreira, voltando aos palcos do teatro de revista e ao cinema. Em junho de 1972, ela deixou o Brasil para participar de um festival de cinema na Austrália, com o filme “Mãos Vazias”. Era a primeira separação que tinha da filha desde que ela nascera. A atriz não resistiu à saudade e à distância de Janaína, o que a levou a deixar o grupo de atores com o qual viajara e antecipasse a volta ao Brasil. Infelizmente Leila Diniz não voltou. O avião da Japan Airlines, em que viajava, explodiu no ar, quando sobrevoava Nova Déli, na Índia, no dia 14 de junho de 1972. Apenas sete pessoas sobreviveram. Leila Diniz estava entre os mortos, com o corpo incinerado, sendo reconhecido apenas pela arcada dentária.
Quando morreu, Leila Diniz tinha apenas 27 anos, causou uma grande comoção nacional, mesmo diante daqueles que a perseguiram e que tentaram silenciá-la. A atriz passou de pessoa maldita e promíscua a símbolo da liberação feminina. Mesmo morta, o seu rosto desenhou a face da nova mulher brasileira. Desaparecia a mulher, nascia o mito, do qual Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Soltou as mulheres de vinte anos presas no tronco de uma especial escravidão”. Leila Diniz, a mulher, revive em todas as grávidas que passeiam de biquíni pelas praias, em todas aquelas que não têm medo de sentir prazer. O mito é intocável, eterno, símbolo de uma época.
Se Leila Diniz não teve tempo de viver o seu grande papel nos palcos, cinema ou televisão, ela o viveu na vida, sendo o mito Leila Diniz o seu maior papel nos palcos sociais do Brasil. Irreverente e apaixonada pela vida, ela jamais deixou de se divertir com o seu trabalho, sobre o qual declararia:
Eu sou uma pessoa sem sentido porque o meu sentido é esse: eu gosto de me divertir. Eu escolho os meus trabalhos pela patota.”
Leila Diniz era o símbolo da contradição moral vigente, seu sorriso era contagiante, sua beleza estonteante, cheia de curvas sinuosas numa época em que o padrão de beleza feminino era o que ela trazia no corpo, sua visão naturalista do amor e do sexo era o que ansiava intimamente a mais reprimida das virgens, a mais mal amada das balzaquianas e das suas mães. Leila Diniz jamais pretendeu fazer qualquer revolução, mas terminou por ser o símbolo de uma, a dos costumes, a da independência feminina no trabalho, no amor e no sexo.

Frases Emblemáticas de Leila Diniz

“Não sei se foi loucura ou coragem minha, mas sempre me expus muito. De certa forma, acho que é isso que ainda sustenta essa coisa engraçada chamada mito.”

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo e de viver de amores.”

“Quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose.”

“Tem-se que brigar com o passado, ou melhor, estudá-lo. Arrancar de dentro da gente as raízes burguesas e mesquinhas, as tradições, o comodismo e a proteção…”

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo.”

“Não sou contra o casamento, Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom.”

“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco.”

“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas.”

“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um.”

“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite.”

“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma.”

“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem tabus e fantasias que as pessoas lhe dão.”

“Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente.”

“Quando eu estou representando em teatro, tenho vontade de parar e fazer careta para a platéia e dizer: o que é que vocês estão aí me olhando, o que é isso?”

“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir.”

“No fundo, eu sou uma mulher meiga, adoro amar, não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar.”

OBRA:

Televisão

1965 – Ilusões Perdidas – TV Paulista
1965 – Paixão de Outono – Rede Globo
1965/1966 – Um Rosto de Mulher – Rede Globo
1966 – Eu Compro Esta Mulher – Rede Globo
1966/1967 – O Sheik de Agadir – Rede Globo
1967 – A Rainha Louca – Rede Globo
1967 – Anastácia, a Mulher Sem Destino – Rede Globo
1968 – O Direito dos Filhos – TV Excelsior
1969 – Os Acorrentados – TV Rio
1969 – Vidas em Conflito – TV Excelsior
1969/1970 – A Menina do Veleiro Azul – TV Excelsior
1969/1970 – Dez Vidas – TV Excelsior
1970 – E Nós, Aonde Vamos? – TV Tupi

Cinema

1966 – O Mundo Alegre de Helô
1966 – Todas as Mulheres do Mundo
1967 – Juego Peligroso (Jogo Perigoso)
1967 – Mineirinho, Vivo ou Morto
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – O Homem Nu
1968 – A Madona de Cedro
1968 – Fome de Amor
1969 – Corisco, o Diabo Loiro
1969 – Os Paqueras
1970 – Azyllo Muito Louco
1971 – O Donzelo
1971 – Mãos Vazias
1972 – Amor, Carnaval e Sonhos


AS DUAS MORTES DE ELIS REGINA

abril 4, 2009

Na manhã de 19 de janeiro de 1982 o brasileiro tinha o seu almoço interrompido por uma trágica notícia, a cantora Elis Regina estava morta! Emissoras de rádios e televisão interromperam a programação normal para cobrir a tragédia. Elis Regina, 36 anos, no auge da sua vitalidade, com uma carreira de sucesso longe de se esgotar, morria de parada cardíaca no seu apartamento nos Jardins, em São Paulo. A notícia comoveu o Brasil, tendo uma repercussão que surpreendeu muita gente, já que a cantora tinha um público restrito, um repertório denso, apesar de vários sucessos de grande alcance popular. Pobres, ricos, intelectuais, gente humilde, todos choraram Elis Regina. O Brasil vestiu-se de luto.
À tarde, o corpo da cantora foi levado para o Teatro Bandeirantes, onde uma multidão de pessoas fazia uma gigantesca fila na porta, esperando o momento de prestar uma última homenagem. A fila estender-se-ia noite dentro, sendo ainda visível às cinco horas da manhã do dia 20. Diante do grande fluxo de pessoas, a família chegou a pedir à polícia que retirasse a multidão espalhada pelos palcos do teatro, mas a mãe, dona Ercy, abriu mão de velar a filha mais intimamente, cedendo o lugar da família para os fãs. Admiradores e amigos, aglomerados nos palcos do teatro, entoaram músicas da cantora, despedindo-se com “Está Chegando a Hora” (Rubens Campos – Henricão), momento de maior emoção.
No dia seguinte, mais de mil pessoas juntaram-se ao cortejo fúnebre, percorrendo lentamente as ruas da capital paulista, conduzindo o corpo de Elis Regina até o cemitério do Morumbi, onde foi enterrado ao som de “Canção da América”, cantada pela multidão: “… Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”. Era a última homenagem ao ídolo morto.
Ainda a recuperar-se da comoção da tragédia, o Brasil foi surpreendido, 48 horas depois, pela notícia de que a causa da morte tinha sido ingestão de cocaína. Os resultados do laudo ecoaram pelo país. A família, na esperança de preservar a imagem da cantora, negou veementemente o laudo. Eram criadas teorias da conspiração envolvendo o namorado da cantora Samuel Mac Dowell Figueiredo e o médico que emitira o laudo, o obscuro Harry Shibata. Iniciava-se a caça às bruxas, tendo como resultado a difamação da cantora. A imprensa não se limitou a informar as causas de tão súbita morte, mas a fazer uma condenação moral velada da vida de Elis Regina. O Brasil tornou-se moralista. Assim, após a comoção, as lágrimas e o enterro dramático, iniciava-se a depredação da imagem. Elis Regina teve em 1982, duas mortes, a morte física, que lhe tirou a vida, levando milhares de brasileiros às lágrimas; e a morte moral, promovida por uma imprensa preconceituosa e um país de costumes hipócritas. Com o passar do tempo, o mito superou às duas mortes, e Elis Regina continuou mais viva do que quando respirava, cantava e emocionava o Brasil, transpirando sangue nos palcos.

Os Últimos Momentos de Vida

Os últimos momentos de vida de Elis Regina foram tensos, com discussões ao telefone e regados de álcool e droga. Após a separação do músico César Camargo Mariano, a cantora passou por um período de romances fugazes, até que estabeleceu uma relação sólida com o advogado Samuel Mac Dowell, com quem construiu planos de casamento.
Elis Regina tinha planos de entrar em estúdio nos próximos dias, para gravar o seu novo disco, já com repertório definido. Jantou com amigos músicos e com o namorado. Nada fazia crer que ela vivia os seus últimos momentos. No fim da noite, já os amigos tinham ido embora, discutiu com Samuel Mac Dowell. Despediram-se em clima de rancor, embora o advogado negasse futuramente qualquer rusga. Com a briga, a cantora entrou em depressão, bebendo toda a noite. Sem dormir, pela manhã atendeu a um telefonema do namorado, pôs-se então, a discutir com ele. Enquanto falava, consumia Campari e cocaína, até que o seu coração não agüentou. Elis Regina silenciou a voz, não só ao telefone, como para a vida. Diante do silêncio repentino, Samuel Mac Dowell, do outro lado da linha, percebeu que alguma coisa de muito grave acontecera. Deixou o seu escritório e rumou para o apartamento da cantora. Foi encontrá-la trancada no quarto, sem responder aos chamados. Desesperado, derrubou a porta do quarto, encontrando-a caída, com o telefone fora do gancho.
Elis Regina foi levada de táxi para o Hospital das Clínicas, mas já estava sem vida. Aos 36 anos de idade, Elis Regina de Carvalho Costa, uma das maiores cantoras do Brasil, encerrava a sua carreira. Deixava três filhos e vários álbuns. Morria a mulher, nascia o mito.

O Adeus de Milhares de Pessoas a Elis Regina

Passado o primeiro impacto da morte da cantora, era hora de preparar a cerimônia final e prestar-lhe a última homenagem. Naquele instante uma enorme dúvida pairava no ar, o que levara uma mulher jovem e de uma vitalidade estonteante a ter uma parada cardíaca? Por que a médica que a recebera no Hospital das Clínicas não pôde ou não quis, fornecer o atestado de óbito, dizendo-se impossibilitada de afirmar ter sido morte natural? E ainda, diante desta dúvida, porque o cadáver foi remetido para o Instituto Médico Legal (IML) para ser autopsiado? Para os preparativos do adeus, as perguntas foram proteladas, mas não esquecidas.
Como local da última homenagem à cantora, foi decidido que o velório seria no Teatro Bandeirantes, no centro de São Paulo, palco do seu mais famoso show, “Falso Brilhante”, de 1976. Seria aberto para familiares e amigos, mas o corpo ainda lá não chegara, e uma grande multidão fazia fila na porta do teatro, à espera de poder dar o último adeus ao ídolo. A fila não parou de crescer, mantendo-se até o dia seguinte, quando seria o enterro.
Numa última homenagem, ficou estabelecido que a cantora vestiria em seu repouso final, uma camiseta com a bandeira do Brasil, que no centro trazia escrito “Elis Regina” no lugar da frase “Ordem e Progresso”. A camiseta de malha fora confeccionada para o show “Saudades do Brasil”, de 1980, mas a cantora tinha sido proibida pela censura militar de usá-la durante o espetáculo, que considerara um acinte à bandeira nacional.
Feitos os devidos preparativos, o corpo de Elis Regina chegou ao Teatro Bandeirantes à tarde. Entre a tarde do dia 19 e a manhã do dia 20 de janeiro, mais de vinte e cinco mil pessoas acederam ao velório da cantora, entoando músicas do seu vasto repertório. O corpo seguiu do centro de São Paulo para o cemitério do Morumbi. Mil pessoas acompanharam a cerimônia. Entre aplausos e os versos de “Canção da América” (Milton Nascimento – Fernando Brant), Elis Regina foi enterrada.

Amigos Defendem a Imagem da Cantora Morta

Dois dias depois, os rumores de que a morte da cantora tinha sido provocada por drogas espalharam-se pelo país. Samuel Mac Dowell e a família de Elis Regina, tentaram evitar que lhe fosse feita autópsia, tentando preservar a sua imagem. Esta recusa em esclarecer os fatos, contribuiu para que se aumentassem as suspeitas de uma morte obscura. Também as últimas palavras de Elis Regina ao telefone com Samuel Mac Dowell, suscitaram a imaginação de todos. A briga entre o casal só seria revelada muito tempo depois. Persistindo as dúvidas de que a cantora não morrera de causa natural, não se podia emitir um atestado de óbito, e por lei, a autópsia tornava-se obrigatória.
Entrava em cena a figura do médico Harry Shibata, que declarava ter sido ingestão de barbitúricos ou cocaína com álcool a causa da morte de Elis Regina, descartando a hipótese de morte natural. Uma dúvida punha em questão o laudo de Shibata, se cocaína era ingerida diluída em álcool, já que tradicionalmente era aspirada pelo nariz.
Mas o que pesou realmente foi a credibilidade do legista. Harry Shibata entrou para a história brasileira como colaborador do regime militar e da tortura que se praticou na época. Para justificar as mortes nos calabouços da ditadura, médicos legistas forneciam falsos laudos que apontavam morte natural, jamais tortura. Harry Shibata foi um desses legistas, tendo assinado o histórico laudo da morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975, que atestava suicídio e não morte por tortura. Na época, Samuel Mac Dowell foi um dos advogados que condenaram a União pela morte de Herzog, escancarando a farsa assinada por Shibata.
Na tentativa de defender Elis Regina, vários amigos, entre eles Edu Lobo, diziam que o laudo de Shibata era uma vingança a Samuel Mac Dowell, o que levantou grande polêmica na época.
Apesar da contestação do laudo, os estragos na imagem da cantora morta tinham sido feitos. Um pernicioso processo moralista assolou o Brasil, trazendo uma tempestade sem fim de preconceito contra a memória de Elis Regina, atingindo inclusive aos seus filhos, então crianças, que tinham que ouvir o escárnio dos colegas da escola. Diante desta difamação e depredação de memória, os amigos mais próximos da cantora partiram em sua defesa. Jair Rodrigues pediu pela preservação dos filhos da amiga, foi à televisão defendê-la com arroubos de emoção, apontando o dedo para “muitos” no meio artístico que se drogavam e ninguém dizia nada. As declarações do cantor criaram polêmicas, e vários famosos sentiram-se ameaçados, iniciando contra ele o tradicional patrulhamento ideológico, responsável pelo fim de tantas carreiras no país. Mas Jair Rodrigues não se intimidou, defendendo a inocência da amiga em relação às drogas até o fim.
Henfil, outro grande amigo de Elis Regina, defendeu-a no programa “TV Mulher”, da Rede Globo, onde tinha o quadro “TV Homem”, no qual apresentava os seus desenhos de animação. Na defesa, ele apresentou um quadro em que se propagava a difamação de Elis Regina pela imprensa, sempre com o tema da cocaína como pano de fundo, no meio da difamação, uma mulher do povo abraçava a fotografia da cantora, enquanto que se ouvia a voz da mesma a cantar “Maria, Maria”(Milton Nascimento – Fernando Brant). A mensagem era clara, enquanto a imprensa difamava Elis Regina, o povo brasileiro abraçava o seu mito e mostrava o seu amor e dor diante da perda.

O Mito Elis Regina

Mas as contestações e afirmações de que Elis Regina não costuma usar drogas não se sustentou por muito tempo, tão pouco a teoria da conspiração que envolvia Harry Shibata e Samuel Mac Dowell foi adiante. O laudo final, divulgado pelo delegado Geraldo Branco de Carvalho, assinado pelos legistas Chibly Hadad e José Luiz Lourenço, deixou claro, no cadáver autopsiado tinha sido encontrado álcool etílico e cocaína, o que lhe revelava embriaguez e estado tóxico, que em combinação tinham sido letais. Além dos três legistas citados, a autópsia foi feita também, pelo médico da família, Álvaro Machado Jr.
Confirmada a verdadeira causa da morte, vários depoimentos começaram a surgir, apontando que nos últimos tempos Elis Regina consumia excesso de álcool e drogas. Que experimentara cocaína e maconha em uma viagem aos Estados Unidos, um ano antes da sua morte. Contraditoriamente, Elis Regina foi a “careta” que morreu de overdose.
O “Fantástico”, TV Globo, levou ao ar o clipe da música “Me Deixas Louca” (A. Manzonero – Paulo Coelho), que a cantora gravara especialmente para tema de Luiza (Vera Fischer), personagem central da novela “Brilhante”, de Gilberto Braga, estreada nos últimos meses de 1981 em horário nobre, somente após a sua morte. O programa justificou que o clipe, última gravação da cantora, feita em 3 de dezembro de 1981, não tinha ido antes ao ar por não ter agradado à direção da emissora, que considerou a cantora visivelmente entorpecida. Visto depois da morte, o clipe emocionou, e percebeu-se que o estado etéreo de Elis Regina corria do sublime ao desespero, não só anunciava o fim da mulher, mas ao grito de um ser humano denso, que se explicava somente através da sua arte.
Elis Regina, carinhosamente chamada de Pimentinha pelos amigos, gaúcha nascida em 17 de março de 1945, atirou-se cedo ao mundo da música. Aos 11 anos já se apresentava no programa de rádio Clube do Guri, em Porto Alegre. Aos 16 anos, em 1961, já tinha o seu primeiro álbum gravado, “Viva a Brotolândia”. Já longe de Porto Alegre, Elis Regina ganhou o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, numa interpretação monumental de “Arrastão” (Edu Lobo), onde movimentava os braços como um moinho de ventos selvagens. Era a cantora na sua essência. Continuou emocionando o Brasil com grandes sucessos. Em vida não vendeu muitos discos, enquanto Maria Bethânia e Gal Costa chegavam ou ultrapassavam as 500 mil cópias, o último álbum em vida, “Elis”, vendeu pouco mais de 52 mil cópias. Mesmo com pouca vendagem, era uma das cantoras mais bem pagas no palco, além de assediada por músicos e emissoras de televisão, estando sempre presente na mídia de então ou em trilhas de novelas. Elis vendeu mais discos depois de morta, e até hoje, é a única cantora brasileira que nunca deixou de ter os seus álbuns comercializados em período algum.
O impacto da morte de Elis Regina pôde ser sentido pela comoção que trouxe milhares de pessoas ao seu velório e enterro. A perda da cantora em 1982 deixou um grande vazio na MPB, justamente quando esta voltava a ter grande força no cenário político e social da nação. A abertura política possibilitou a volta da canção de protesto, tirando das gavetas muitas das que foram censuradas. No álbum “Elis, Essa Mulher” (1979), a cantora gravava a música “O Bêbado e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), que se iria tornar o hino da Anistia. No grande show de MPB, o primeiro programado depois do atentado à bomba do Rio Centro, em 1981, que se daria poucos dias após a sua morte, o momento programado para ela cantar foi preenchido pela apresentação de João Bosco, com a sua fotografia ao fundo.
O vazio deixado por Elis Regina na história da MPB criou o mito, que por sua vez apagou para sempre o período que se seguiu à revelação das causas da sua morte. Período negro da história da intolerância no Brasil. Hoje parece confuso um momento como este, mas à altura, ser drogado no regime militar representava o que havia de mais vil na sociedade repressiva e hipócrita de então. A repressão aos entorpecentes levou Gilberto Gil e Rita Lee à prisão em 1976. O Brasil de 1982 ainda trazia os resquícios do preconceito que levou distintas senhoras de família às ruas, de rosários nas mãos, em 1964, a abraçar o golpe militar. Quase três décadas depois da morte de Elis Regina, ficou na lembrança apenas o carinho e a tristeza do povo brasileiro diante da trágica perda da cantora. A sua segunda morte, movida pelo preconceito ao pó que a matou, foi totalmente apagada, ficando apenas na memória daqueles que viveram o drama na época. Elis Regina, a mulher, deu passagem para o mito, perfeito e intocável na extensão da sua voz e do seu talento.