COPA DE 1970 E A DITADURA MILITAR

junho 7, 2010

Há quatro décadas a seleção brasileira conquistava o tri-campeonato de futebol mundial, no México. Sendo a primeira a almejar o título três vezes, desde que o campeonato fora estabelecido em 1930, tendo o direito de trazer para o solo brasileiro a taça Jules Rimet.
A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Ao arrematar em apoteose a taça, tomou para si o estigma de um feito heróico, num espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda do regime militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como o foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente de então, Emílio Garrastazu Médici.
1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e do próprio regime militar implantado em 1974. No ano anterior as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país, o seqüestro de um embaixador norte-americano pela esquerda oposicionista, revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país. O ano da copa começou com outro seqüestro da esquerda, a do cônsul do Japão Nobuo Okushi. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros. A finalidade era caçar a todos e eliminar, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.
Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a copa, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Feitas as arestas ideológicas, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco luxuoso, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo entre eles.
Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país próspero e feliz. Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da copa ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!
A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores. Comparado a história contemporânea, o uso da imagem da seleção brasileira do tri-campeonato só perdeu para a propaganda do regime nazista, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

A Era do Milagre Econômico

Na época da Copa de 1970, o Brasil vivia o auge do que foi chamado de “Milagre Econômico”, que aconteceu de 1969 a 1973, coincidindo com o governo do presidente general Emílio Garrastazu Médici.
O milagre econômico proporcionou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), que atingiu um crescimento anual de cerca de 11,2%, e uma inflação estabilizada em 18%. A produção industrial aumentou, proporcionando melhores níveis de emprego. A época coincidia com os juros baixos no mercado internacional, que passava por um momento de tranqüilidade, investindo fortemente nos países em desenvolvimento, visando os grandes recursos naturais dessas nações como fiança aos empréstimos concedidos. Também as multinacionais faziam os seus investimentos no país. A facilidade de créditos internacionais levaria o Brasil a contrair, na época do regime militar, a maior dívida externa da sua história.
Durante o milagre, as indústrias automobilísticas foram as que mais cresceram no país, gerando muitos empregos, e conseqüentemente, levando desenvolvimento a outros setores. Diante da prosperidade que parecia infindável, o governo militar aumentou a arrecadação de impostos.
Para justificar a continuação da sua ilegitimidade e permanecer no poder, os militares investiam em fortes campanhas de propaganda. Frases que evidenciavam a exaltação militar eram vinculadas nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” , “Ninguém Segura Este País”, ou “Pra Frente Brasil”. A propaganda era estimulada através da música, de programas de televisão, jornais, revistas e rádios.
Aproveitando-se da facilidade dos empréstimos internacionais, o milagre econômico gerou a era das obras monumentais, como a construção da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis, de barragens gigantescas, como a de Itaipu.
No avesso da era do milagre, que beneficiou apenas a uma classe média emergente, estavam os arrochos salariais, favorecendo poucos capitalistas brasileiros e essencialmente, aos capitalistas de multinacionais. Os grandes investimentos estatais em obras colossais geraram mais o endividamento do país do que empregos seguros. Durante o período, houve quase que um abandono do governo aos programas sociais.
O fim do milagre aconteceu em 1973, com a crise do petróleo, que acabou com o combustível barato e gerou uma das mais agudas crises da econômica mundial. Na época o Brasil dependia da importação de 80% do petróleo consumido internamente. A dívida externa, que em 1967 era de U$ 40 bilhões, chegava em 1972, quando o milagre já estava no fim, a 97 bilhões de dólares.

O Brasil Político nos Meandros da Copa de 1970

Nos bastidores da ditadura militar, nunca a contestação ao regime atingira tanta violência. Com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, ficaram suspensos todos os direitos de hábeas corpus a quem se opusesse ao regime ou fosse por ele declarado suspeito. O resultado foi o surgimento de organizações de esquerda que optaram pela guerrilha como forma de combater o regime militar. Entre as organizações que pegaram em armas estavam a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella; o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); e, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca.
Em setembro de 1969, os guerrilheiros seqüestraram o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. A operação foi um sucesso, resultando na troca de quinze presos políticos pelo embaixador. Os prisioneiros foram postos em um avião e levados ao exílio. A vitória foi também política, pois evidenciou a prática da tortura, tantas vezes negada pelo regime militar. Em março de 1970, outro seqüestro seria realizado, a do cônsul japonês Nabuo Okushi. Mais uma vez o Brasil e o mundo assistiram ao embarque de presos políticos para o exílio. A humilhação levou o regime militar a usar como lema da sua propaganda política a máxima “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, numa alusão a expatriação dos presos políticos, que perdiam direito à nacionalidade brasileira.
A resposta do regime militar aos seqüestros foi rápida e violenta. Em novembro de 1969, o líder da ALN, Carlos Marighella, foi morto em São Paulo. A Operação Bandeirantes (Oban), institucionaliza a tortura, prendendo e matando lideranças de esquerda, acossando cada vez mais os opositores ao regime. Em janeiro de 1970 foi criado os Centros de Operações para a Defesa Interna (CODI), e os Departamentos de Operações Internas (DOI), que juntos formaram o DOI-CODI, responsáveis pela prisão, tortura e morte de centenas de líderes de oposição.
O cenário para ver a seleção brasileira brilhar na Copa de 1970 estava pronto. O de terror nos cárceres da ditadura também.

João Saldanha, o Técnico Temido Pelo Regime

O presidente Emílio Garrastazu Médici, que entrou para a história como o mais truculento e de linha dura do regime militar, assumia diante do povo a imagem do pai da nação, preocupado com o bem-estar moral da população e o progresso do país. Fazia parte do pacote a sua paixão pelo futebol, chegando a intervir na própria concepção da seleção brasileira.
Médici fazia questão de interar a imagem do governo com a do futebol, que na época tinha em campo o maior jogador do mundo, o incomparável Pelé. Em 1969, o Brasil aguardava com ansiedade o milésimo gol de Pelé. Quando o rei do futebol conquistou o seu feito, foi recebido em Brasília pelo presidente. Em novembro daquele ano, Pelé desfilava pela capital em carro aberto. Médici encerrava a apoteose do ídolo concedendo-lhe a medalha do mérito nacional e o título de comendador. Era apenas o início do namoro entre a propaganda política do Estado e o futebol brasileiro.
A escalação da seleção que iria ao mundial de 1970 enfrentou vários problemas de percurso. João Saldanha foi o técnico que depois de uma árdua e sofrida luta, conseguiu classificar a seleção para a copa. Durante a escalação, espalharam-se rumores de que o presidente Médici queria ver o jogador Dario, o Dadá Maravilha, escalado. Os boatos, jamais confirmados oficialmente, irritaram João Saldanha, que declararia à imprensa uma de suas mais contundentes frases: “O presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time”. João Saldanha foi, em seguida, demitido da seleção, pouco antes de ela seguir para o campeonato no México, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo.
O motivo da demissão de João Saldanha ia muito além da sua declaração intempestiva. Suspeito de simpatizar e militar no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o governo temia que o técnico chegasse ao México com uma lista de presos políticos no bolso, e que, em entrevistas coletivas, denunciasse para o mundo a tortura e o desrespeito aos direitos humanos que o regime militar infringia ilimitadamente.
Resolvido o grande impasse político, a seleção, sob a tutela do técnico Zagallo, partiu para o México, em busca do título de tri-campeão do mundo, entrando de maneira mítica para a história do futebol brasileiro.

Pra Frente Brasil

De 31 de maio a 21 de junho, a Copa do Mundo de 1970 foi disputada no México. No dia 3 de junho de 1970, o Brasil disputava a sua primeira partida no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra Tchecoslováquia. No campo desfilava Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gérson, Piazza, Clodoaldo e tantos outros que seriam apontados como os componentes da maior seleção de todos os tempos. O Brasil venceria a Tchecoslováquia por 4×1. Em 7 de junho, venceria a Inglaterra por 1×0. Em 11 de junho, venceria a Romênia por 3×2, passando para a segunda fase de forma magnífica, empolgando o país e o mundo.
No Brasil, o povo acompanhava a seleção em jogos transmitidos pela primeira vez pela televisão. O impacto era visível. Poucos privilegiados deram-se ao luxo de ver a transmissão em cores, adiantando-se em dois anos à chegada da tecnologia ao país, que se confirmaria em 1972. No meio da vibração do povo, ecoava com grande sucesso por todo o país, o hino da copa, “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo.

“Noventa Milhões em ação,
Pra frente Brasil,
Do meu coração…
Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Salve a seleção!”


O sucesso do hino e a empolgação extasiante do povo, fizeram com que o governo começasse a usar a seleção como objeto de propaganda política. Paralelamente, no dia 11 de junho de 1970, em plena copa, os guerrilheiros executavam um novo seqüestro, desta vez ao embaixador alemão Von Holleben. O regime recrudesceu ainda mais, abarrotando as celas de presos políticos, intensificando a tortura e o número de mortos e desaparecidos.

“De repente
É aquela corrente pra frente
Parece que todo Brasil deu a mão…
Todos ligados na mesma emoção…
Tudo é um só coração!”

Em 14 de junho, a seleção brasileira derrotava o Peru por 4×2. Em 17 de junho derrotou o Uruguai por 3×1, passando para a fase final. No dia 21 de junho de 1970, o Brasil enfrentava a Itália, na Cidade do México. Numa das partidas mais emocionantes da história do futebol brasileiro, venceu os italianos por 4×1, tornando-se tri-campeão mundial. Apagava de vez a fraca atuação na copa de 1966, na Inglaterra. O último titulo tinha vindo em 1962, no governo democrático de João Goulart. O Brasil assistia em frente à televisão, o capitão da seleção, Carlos Alberto Torres, a erguer a taça Jules Rimet, um troféu com quase quatro quilos de ouro. A taça era definitivamente do Brasil, seria trazido pela seleção para o país. Já no Brasil, em 1983, ela seria roubada e derretida pelos ladrões, desaparecendo para sempre.

“Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil!
Brasil!
Salve a Seleção”

No retorno, a seleção seria recebida pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O general ergueu vitorioso a taça Jules Rimet. A conquista do tri-campeonato passava a ser o maior triunfo da propaganda do regime militar. Outros pilares que sustentavam o regime militar, como o do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, tiraram proveito da popularidade da seleção, e, em 20 de julho, presenteava 25 fuscas aos jogadores e à comissão técnica, todos pagos com o cofre público. Anos mais tarde, Paulo Maluf teria um processo contra ele para que devolvesse o dinheiro à prefeitura paulistana, sendo inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por duas vezes, em 1995 e, definitivamente, em 2006.
O ano de 1970 era encerrado com mais um seqüestro da esquerda, desta vez ao embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher e, com mais de quinhentos presos políticos. A esquerda guerrilheira dava os seus últimos suspiros, e os seus principais líderes ou estavam presos, desaparecidos ou mortos pela ditadura.

Duas Listas de 1970

Lista da Seleção de 1970

Carlos Alberto Torres
Clodoaldo Tavares de Santana
Dario José dos Santos (Dadá Maravilha)
Edson Arantes do Nascimento (Pelé)
Eduardo Gonçalves de Andrade (Tostão)
Eduardo Roberto Stinghen (Ado)
Emerson Leão (Leão)
Everaldo Marques da Silva
Félix Miéli Venerando
Gérson de Oliveira Nunes
Hércules Brito Ruas (Brito)
Jair Ventura Filho (Jairzinho)
Joel Camargo
Jonas Eduardo Américo (Edu)
José de Anchieta Fontana (Fontana)
José Guilherme Baldocchi (Baldocchi)
José Maria Rodrigues Alves (Zé Maria)
Marco Antônio Feliciano
Paulo César Lima (Paulo Cezar Caju)
Roberto Lopes de Miranda (Roberto Miranda)
Roberto Rivelino
Wilson da Silva Piazza (Piazza)

Lista de Mortos Pela Ditadura Militar em 1970*

Abelardo Rausch Alcântara
Alceri Maria Gomes da Silva
Ângelo Cardoso da Silva
Antônio Raymundo Lucena
Ari de Abreu Lima da Rosa
Avelmar Moreira de Barros
Dorival Ferreira
Edson Neves Quaresma
Eduardo Collen Leite
Eraldo Palha Freire
Hélio Zanir Sanchotene Trindade
Joaquim Câmara Ferreira
Joelson Crispim
José Idésio Brianesi
José Roberto Spingir
Juarez Guimarães de Brito
Lucimar Brandão Guimarães
Marco Antônio da Silva Lima
Norberto Nehring
Olavo Hansen
Roberto Macarini
Yoshitame Fujimore

*Na lista não consta os mortos em 1970, cujos corpos nunca foram encontrados, sendo oficialmente dados como desaparecidos.

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A ABERTURA POLÍTICA E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO

fevereiro 15, 2010

A abertura política do regime militar, lenta e gradual, atingiu a todos os setores das artes, onde a censura imperou com mão de ferro por mais de uma década. Televisão, cinema, teatro, música, jornais, livros; todos sofreram com a falta de liberdade de expressão, sendo obrigados a encontrar soluções através do que se podia escrever, editar e mostrar visualmente.
Em 1978, após um longo inverno, a abertura política começa a florir no Brasil. O Ato Institucional número (AI-5) foi revogado. Apesar de deixar de vigorar apenas no dia 1 de janeiro de 1979, já no ano da sua revogação se sentia o efeito de não se viver sob ele, e conseqüentemente, o amenizar da censura.
No período da abertura à queda do regime militar, findado em 1985, o Brasil assistiu a uma nova proposta de linguagem dos meios de comunicação. Cenas do cotidiano, tantas vezes dissimuladas pelas telenovelas, passaram a discutir temas tabus como a complexidade das relações entre os casais, a sexualidade e as questões políticas. A crítica política tomou conta dos programas humorísticos, tornando-se a sua principal veia cômica.
O cinema brasileiro voltou a respirar, encerrando a fase das pornochanchadas, procurando a sua identidade dentro do país e do mundo. Timidamente, produziu alguns filmes de conotação política, como “Pra Frente Brasil“, vetado pela censura em 1982, mas logo liberado pelos ventos da abertura, que já não podia ser obstruída.
Os jornais deixaram de emitir tarjas às matérias censuradas, publicando-as na íntegra. As revistas de informação começaram a publicar reportagens de denúncia. A abertura refletiu-se também na moralidade hipócrita da nação, defendida pelo regime militar através da censura. A pornografia, a partir de 1980, foi permitida, sendo a sua liberação mais ligeira do que a de temas políticos. Revistas de sexo explícito inundaram as bancas, postas à venda ao lado dos jornais dos partidos clandestinos da esquerda, entre eles o “Hora do Povo”, do MR-8. Era a nova linguagem da comunicação brasileira, que explodia como um vulcão, após anos de liberdade reprimida. Incipiente, procurava respirar uma identidade de comunicação. Da liberdade política à pornografia, a abertura começou, finalmente a ser identificada pelos meios de comunicação e pelos brasileiros, sobreviventes ao furacão de 1964.

A Abertura e os Programas Humorísticos

Em 1978, o público brasileiro surpreendeu-se com a nova linguagem do programa humorístico “Planeta dos Homens”, da TV Globo. Os quadros apresentados deixaram de usar metáforas para satirizar os políticos, fazendo-o de forma mais direta. A pergunta era, “já se pode falar?”. Eram os primeiros ecos da abertura política, desenhada desde 1976 pelo governo Geisel, e que finalmente, começava a se fazer presente.
Quando da implantação do regime militar, em 1964, a televisão era um meio de comunicação sem influência sobre as grandes massas populares. Poucos tinham acesso aos aparelhos retransmissores. Na época da abertura, tornara-se o meio de comunicação mais consumido pelo povo brasileiro. Dentro das emissoras, era preciso encontrar a nova linguagem proposta pela abertura e pela censura amenizada, para que não fossem atropeladas pelo comboio da história.
Os programas humorísticos foram os primeiros a abraçar àquela liberdade que se vislumbrava. Adaptaram para a pequena tela a linguagem da sátira política dos antigos teatros de revista; que consistia em assimilar instantaneamente os acontecimentos políticos e jornalísticos. O “Planeta dos Homens”, programa que substituiu, em 1976, a série norte-americana “O Planeta dos Macacos”, trazia em seu elenco Jô Soares e Agildo Ribeiro. Sua mascote era o macaco Sócrates, uma alusão ao filósofo grego. Sócrates fazia perguntas indiscretas, de cunho político, e que impossibilitadas pela censura de serem respondidas, ele lançava o bordão “Não precisa explicar, eu só queria entender”. Sob as garras da censura, um quadro “Gandola”, em que Jô Soares procurava um bom emprego, exigindo um bom cargo, pois tinha sido enviado pelo Gandola, satirizava o nepotismo do regime. A palavra gandola, uma peça de vestuário, usada pelos militares em substituição ao capote, passou despercebida pela censura. Quando descoberto o ardil, Gandola foi substituído pelo “Bochecha”.
Já em 1979, a mão da censura não tinha tanto poder diante do processo de abertura, e a sátira política tornou-se a essência dos programas humorísticos. Na temporada do “Planeta dos Homens” daquele ano, Jô Soares vivia o doutor Sardinha, que diante de uma melancia, perguntava quem produzira um chuchu tão grande. Era uma alusão clara ao então ministro Delfim Neto, empossado na pasta da agricultura. Tido como um homem das finanças, Delfim Neto, renomado economista da época do “Milagre Brasileiro”, era tido como incapaz no ministério da agricultura. No final do quadro, o doutor Sardinha anunciava: “Meu negócio é número”. Era a ditadura e os seus homens a ser abertamente criticada. O “Planeta dos Homens” foi ao ar até 1980, sendo substituído, em 1981, por “Viva o Gordo”, tendo Jô Soares na frente do elenco.
Outro programa humorístico de sucesso era “Chico City”, do genial Chico Anýsio. Em 1979 o general João Batista Figueiredo subiu ao poder, sendo o último presidente da ditadura militar. Chico Anýsio criou Salomé, ex-professora de infância do presidente. Salomé de Passo Fundo, cidade natal do general, tinha uma linha telefônica direta com o presidente. Com o seu humor sagaz, mordaz e inteligente, satirizava o presidente e os seus colaboradores. Nunca o regime militar foi tão diretamente criticado. Salomé tornou-se um dos maiores sucessos de público de Chico Anýsio. O bordão final, “Ou eu faço a cabeça do João Batista ou não me chamo Salomé”, alusão às personagens bíblicas homônimas, virou palavra de ordem nacional. Salomé conquistou até mesmo o presidente satirizado. Nas festas de fim de ano de 1979, Chico Anýsio foi convidado para representar Salomé no Palácio do Planalto, assistido pelo presidente e os seus parlamentares, diante de Salomé, a ditadura ria de si mesma.
Em 1981, “Viva o Gordo” voltava a satirizar a ditadura, na figura do Reizinho (presidente João Batista) e do seu eminente (Golbery). A oposição acusava o presidente de obtuso, sendo manipulado pelo temível ministro militar Golbery do Couto e Silva. Na figura do Reizinho, o povo ria dessa manipulação. A crítica política dos programas humorísticos durante a abertura, serviu para mostrar o desgaste de um regime que ruía, e que o povo e a arte já não podiam ser calados.

A Abertura e as Telenovelas

A abertura refletiu nas telenovelas através do ponto de vista moral da sociedade brasileira, que tinham temas tabus reprimidos pela censura. Até então, as personagens dos folhetins da televisão não podiam, em horário nobre, ter amantes, apaixonar-se por outra se fosse casado, falar em divórcio ou em sexo, ter crianças rebeldes, ou expressar qualquer posição política. Certos assuntos que pudessem oferecer perigo à moral estabelecida pela burguesia que sustentava a ditadura, poderiam ser falados com moderação, no horário das 22h00.
Em 1978, tão logo soprou a abertura, Dias Gomes retratou na telenovela “Sinal de Alerta”, temas políticos em evidência, como o ressurgimento dos movimentos sindicais, a rebelião dos operários contra a fábrica que poluía o seu bairro. O dramaturgo deixara as metáforas usadas em “O Bem Amado” (1973), para falar, pela primeira vez, das cicatrizes do Brasil.
Quanto à moral estética, a novela “O Astro”, de Janete Clair, exibiria no fim de 1977 o primeiro nu masculino da televisão. Tony Ramos, vivendo o rebelde Márcio Hayalla, em um protesto contra o dinheiro e o poderio do pai, Salomão Hayalla (Dionísio Azevedo), protagonizou a cena. Era simples, com Márcio, uma espécie de São Francisco moderno, renunciando a todos os bens diante da família, inclusive as roupas. O rapaz despe-se, sai de casa, quando é amparado pelo jardineiro, que lhe põe uma capa velha em cima do corpo nu. A cena foi feita ao longe, ainda tímida diante do que se iria tornar a nudez dos atores nos tempos atuais. A cena escandalizou os moralistas, mas foi aplaudida por uma população que já se despia dos preconceitos. Até então, a cena de nudez mais audaciosa tinha acontecido fora do horário nobre, em “Gabriela”, às 22h00, em 1975, onde o casal vivido por Cidinha Milan e Pedro Paulo Rangel, vestindo uma roupa cor da pele, corriam pelas ruas da cidade, após serem apanhados pelo coronel mantenedor da moça. Mostrar o corpo nu na televisão, era impensável na época mais dura da ditadura militar.
Em 1979, iniciou-se o processo da quebra dos tabus sociais. Já era possível falar de sexo. O seriado “Malu Mulher” foi o pioneiro em dar sexualidade às heroínas da televisão. A virginal Namoradinha do Brasil, Regina Duarte, transformava-se em uma revolucionária feminista. Questões abominadas pela moral do regime, eram temas constantes. Malu, mulher separada e com uma filha pré-adolescente para criar, deparava-se com problemas existenciais à volta: a primeira menstruação da filha; o homossexualismo; as primeiras relações sexuais com outros parceiros após o divórcio; o uso de anticoncepcionais, que tiravam da mulher a função reprodutiva e possibilitava-lhe o sexo como forma de prazer. Assuntos vistos atualmente, como corriqueiros, mas que sem a abertura do regime moralista militar, jamais seria possível de se falar. Para culminar a ousadia de desafio à censura agonizante, Malu simulou o primeiro orgasmo feminino a ir ao ar. Ainda debaixo da abertura, em 1980, Débora Duarte, vivendo Catucha, na novela “Coração Alado”, de Janete Clair, simulava o primeiro orgasmo feminino em horário nobre.
Temas políticos chegaram lentamente às telenovelas. Em 1978, “Aritana”, de Ivany Ribeiro, realizada pela extinta TV Tupi, debatia a questão indígena e a tomada das suas terras. Em 1983, Janete Clair ensaiou uma visita ao mundo da política, em “Eu Prometo”, tratando a temática de forma superficial.
Enquanto as novelas evitavam temas políticos, as séries e seriados eram mais audaciosos. Em 1982, “Lampião e Maria Bonita”, contava parte da história do nordeste brasileiro. “Bandidos da Falange” (1983), mostrava pela primeira vez na televisão, o submundo do crime. O seriado símbolo da abertura foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes. O autor, em 1980, ressuscitou Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), morto na novela original, em 1973. Trouxe de volta os personagens originais, transformando a trama em um seriado de sucesso, que iria perdurar por quatro anos. Durante a existência do seriado, Dias Gomes um dos maiores perseguidos pela censura, pôde finalmente, de forma clara, criticar e ironizar a ditadura militar.
A religião era outro tabu para o regime militar. Qualquer tema que parecesse ofensivo à ala conservadora da igreja católica, era proibido. Não poderiam ter padres a quebrar o voto de castidade, tão pouco pertencerem à Teologia da Libertação. Outras religiões, como o espiritismo e o candomblé, eram retratadas de forma abstrata, sem profundidades. As senhoras de rosários nas mãos que promoveram passeatas de milhares de pessoas pelas ruas, em 1964, apoiando o golpe militar, eram católicas fervorosas e abominavam as outras religiões. A moralidade beata da família conservadora, sustentou a ditadura e impediu a retratação das mudanças sociais através dos meios de cultura e comunicação. Somente com a abertura, outras religiões puderam vir à tona nos seriados, séries e telenovelas.

Abertura e o Cinema Nacional

Após o AI-5, o cinema brasileiro passaria por profundas crises e cerceamento ideológicos. A partir de 1968, o Cinema Novo entraria no seu terceiro momento, voltando-se para as projeções alegóricas do Brasil real. Fazem parte desse ciclo “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha; “Macunaíma” (1969), de Joaquim Pedro de Andrade; e, “Os Deuses e os Mortos” (1970), de Ruy Guerra.
A censura e a repressão deram origem ao cinema “udigrudi”, ou cinema underground, marginal. Mas a contracultura no cinema não deixou muitas produções, destacando-se “Matou a Família e Foi ao Cinema” (1969), de Júlio Bressane; e, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla.
Foram as pornochanchadas que garantiram a sobrevivência do cinema nacional durante o período mais negro do regime militar. As pornochanchadas eram assim chamadas por ser um gênero de comédia picante que lembravam as chanchadas da Atlântida dos anos 1940 e 1950, e devido ao erotismo que continham. Não tinham cenas pornográficas, mas eram consideradas pelo rígido moralismo como tais. Continham cenas de nudez parcial, que vistas através do tempo, parecem ingênuas. Construiu grandes mitos e estrelas, como Vera Fischer e David Cardoso. Grandes nomes da dramaturgia brasileira passaram pelas pornochanchadas, entre eles Juca de Oliveira, Reginaldo Faria, Nuno Leal Maia, Antonio Fagundes, Sandra Bréa, Marieta Severo, Nádia Lippi e Sônia Braga.
Com a abertura política, filmes internacionais que tinham sido proibidos pela censura, estrearam com sucesso em 1980, sendo eles “Emmanuelle” (1974), de Just Jaeckin, que revelara Sylvia Kristel ao mundo; “O Último Tango em Paris” (1972), de Bernardo Bertolucci, com Marlon Brando; e, “O Império dos Sentidos” (1976), de Nagisa Oshima. A estréia dos filmes no Brasil gerou polêmica e expectativa do que viria.
Diante das produções eróticas internacionais, as pornochanchadas tiveram que se adaptar às mudanças, fazendo filmes de cenas de teor erótico mais acentuado, mostrando a nudez total dos atores. A nova e final fase do gênero, gerou estrelas como Aldine Muller, Helena Ramos e Zaira Bueno.
Em 1982, os filmes pornográficos de alto escalão foram liberados, com a estréia de “Garganta Profunda” (Deep Throat, 1972), de Gerard Damiano, estrelado pela atriz pornô Linda Lovelace. No Brasil, estreava naquele ano, “Coisas Eróticas”, de Laente Calicchio e Raffaele Rossi, primeiro filme nacional do gênero. Para que se distinguisse da pornochanchada, passou a ser chamado de filme de sexo explícito. As velhas pornochanchadas não resistiram, e o gênero foi extinto. Curiosamente, os cinemas encheram para ver a estréia de “Coisas Eróticas”; populares, intelectuais, críticos, estudantes, políticos, todos foram ver como o brasileiro fazia sexo no cinema.
Com a abertura, o teor erótico foi amplamente explorado pelo cinema nacional não somente nas pornochanchadas, mas pelo chamado cinema sério, ou de arte. Um exemplo foi “A Dama do Lotação”, em 1978, de Neville de Almeida. Baseado em uma história de Nelson Rodrigues, o filme protagonizado por Sônia Braga, trazia um erotismo insinuante, pulsante e intenso. Seguiram o estilo: “Eu Te Amo” (1981), de Arnaldo Jabor; “Eros, Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Engraçadinha” (1981), de Haroldo Marinho Barbosa, com Lucélia Santos.
Dentro do contexto político social, a abertura trouxe ao cinema momentos raros, mas definitivos. “Pixote, A Lei do Mais Fraco” (1981), de Hector Babenco, relatava um problema que ainda persiste nos tempos atuais, os menores de rua. “Bye Bye Brasil” (1979), de Cacá Diegues, mostrava um Brasil pobre e de grandes contrastes, visto através das aventuras de uma trupe de atores mambembes. “Eles Não Usam Black Tie” (1981), de Leon Hirszman, baseado na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri, trazia para a grande tela os movimentos grevistas sindicais, as divergências ideológicas dentro da própria família.
O filme que mais incomodou a ditadura militar durante o processo de abertura foi “Pra Frente Brasil” (1982), de Roberto Faria. Filme denúncia, que mostrava o Brasil de 1970, em plena euforia da Copa do Mundo de Futebol, no México, quando a seleção brasileira tornou-se tricampeã mundial. Paralelo às festas nas ruas, nos porões a ditadura torturava e matava. Conta a história de Jofre (Reginaldo Faria), confundido pela polícia repressora como um ativista de esquerda, sendo preso, torturado e morto. À procura de notícias do irmão, Miguel (Antonio Fagundes), um pacato cidadão, envolve-se com a esquerda armada. O filme tocava numa grande ferida que a ditadura militar tentava esquecer, e, que negara por anos, a tortura. O filme, programado para estrear durante a Copa do Mundo de Futebol de 1982, sofreu o embargo da censura. A repercussão negativa da proibição, fez com que o desmoralizado regime o liberasse meses depois, em 1983. “Pra Frente Brasil” era só a primeira página de uma história que começaria a ser contada, sem jamais chegar ao capítulo final.

Outros Veículos de Comunicação

O teatro, massacrado em sua essência durante a ditadura militar, voltou a florir com a abertura. No período das trevas, Plínio Marcos foi o dramaturgo mais perseguido. Considerado um autor maldito, suas peças só voltaram a ser encenadas após a abertura, nos anos 1980.
Calabar: O Elogio à Traição”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, proibida em 1973, pôde finalmente ser encenada, em 1980. A abertura permitiu que se encenasse, sem problemas com a censura, em 1979, a mítica “Ópera do Malandro”, mordaz crítica à ditadura do Estado Novo, e que se refletia à repressão do regime militar.
A abertura pôs fim às censuras aos jornais e às revistas. Com maior liberdade, a notícia passou a ser mais confiável. Jornais de esquerda voltaram a ser impressos, tornando-se porta-voz dos partidos comunistas clandestinos. Assim, “Voz da Unidade” era o órgão oficial do Partido Comunista Brasileiro (PCB); “Hora do Povo” do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); “Tribuna da Luta Operária” do Partido Comunista do Brasil (PC do B); havendo ainda, a “Tribuna da Imprensa”; e, “Tribuna de Vitória”. De todos os jornais de esquerda que surgiram, o “Hora do Povo” foi o que mais incomodou. Escrito de forma popular, o órgão do MR-8 era vendido pelos militantes, em brigadas pelos centros de São Paulo e outras grandes cidades do país. A ala radical do regime militar, contrária à abertura, passou a explodir com bombas, as bancas de revistas que vendiam os jornais de esquerda. Os ataques aconteceram com intensidade, de abril a setembro de 1980, obrigando alguns jornais a fechar as portas. No dia 30 de maio de 1980, duas dessas bombas explodiram na sede do “Hora do Povo”, em São Paulo.
Voltando à abertura estética, as principais revistas masculinas do país, “Status”, “Playboy” e “Ele & Ela”, puderam exibir nas suas páginas, o nu frontal das celebridades fotografadas. Antes, a nudez, assim como no cinema, só era exibida parcialmente. O nu frontal chegou em 1980. Com liberdade plena na execução dos ensaios fotográficos, estrelas constantes das páginas dessas revistas, como Sonia Braga e Sandra Bréa, voltaram em novas edições, mostrando pela primeira vez, seus pêlos pubianos.
A partir de 1980, as revistas de fotos pornográficas, antes importadas, passaram a ser produzidas e vendidas livremente nas bancas. Numa mesma banca, encontravam-se os símbolos dos novos tempos propostos pela abertura: os jornais de esquerda, as revistas pornográficas, os jornais sem censura e as revistas masculinas com os seus modelos totalmente despidos. Liberdade política, erotismo e pornografia eram oferecidas no mesmo prato, uma tática da ditadura para confundir a população, e atrair de volta o apoio dos moralistas e conservadores. Muitos chegaram a ficar assustados com a quebra repentina de costumes e de tabus. Alguns chegaram a clamar pela volta da censura moral. Mas, com o tempo, as novidades foram assimiladas, e o desejo de liberdade falou mais alto. A abertura política do regime militar era irreversível, assim como o seu fim.


BACURI – UM GUERRILHEIRO BRASILEIRO

fevereiro 7, 2010

Quatro décadas se passaram da deflagração das guerrilhas urbanas, mas muitas sombras ainda pairam sobre aquele momento de turbulência da história do Brasil. A figura do guerrilheiro, transformada em terrorista pela propaganda do regime militar, ainda é um ponto nevrálgico e um caminho estreito para que se possa percorrer e identificá-lo. Heróis para uns, terroristas para outros, o guerrilheiro passou para a história como um enigma da violência ideológica, um instigante proclamador de uma revolução que nunca chegou, de uma ideologia que se esvaiu da atualidade do mundo.
No contesto da luta armada no Brasil, nomes controversos emergiram numa história nem sempre contada com imparcialidade, quer pela direita, quer pela esquerda. Nomes ecoaram pelo país, guerrilheiros para os companheiros, terroristas para o regime militar. Com o fim da ditadura militar, a imagem do guerrilheiro foi dividida nos “redimidos” pela história, tendo muitos deles chegado ao poder; nos esquecidos, desaparecidos nas valas dos desconhecidos ou no ostracismo que o tempo lhes designou; e, nos eternamente malditos. Eduardo Collen Leite, o Bacuri, faz parte dos que ainda hoje são tidos como malditos. Sua morte, efetuada sob torturas, é considerada a mais cruel e violenta de todas as vítimas do regime militar.
Eduardo Leite era conhecido pelo vigor da sua militância nas organizações de esquerda que resistiram ao governo militar. Enérgico, violento e objetivo, era o companheiro certo para a concretização dos planos logísticos de sobrevivência da esquerda, que incluíram assaltos a bancos, a quartéis e seqüestros de embaixadores. Bacuri, como era chamado pelos companheiros, foi o militante perfeito para a execução da parte sórdida da guerrilha. Destemido, enfrentou armas e fuzis, matou quando determinada operação o exigiu, tornou-se ao lado de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, o mais temido e odiado dos guerrilheiros.
Eduardo Leite, o homem, revelou-se para os poucos que com ele conviveram, passou despercebido pela sua época. Bacuri, o guerrilheiro, ainda é uma incógnita. Temido, odiado, exaltado… É daquelas personagens controversas que ainda não foram revisadas pela história. Sobre ele paira o estigma da violência dos seus atos, da complexidade que é uma ideologia morta e o seu significado naquela época. Bacuri faz parte de um momento da história, seu suplício não o faz mártir, mas sim vítima do seu tempo, do sistema da guerra fria. Atirou-se de cabeça em um caminho que não tinha volta. Pegou em armas, assaltou bancos, matou, seqüestrou; garantindo assim, a sobrevivência das células dos aparelhos e, a de muitos companheiros. Herói ou terrorista, só o tempo poderá decifrar Bacuri, um homem que se tornou guerrilheiro, e em nome da militância, viveu e morreu de forma violenta.

Eduardo Leite e a Sua Época

Eduardo Collen Leite, nasceu em 28 de agosto de 1945, em Campo Belo, Minas Gerais. Nascera no ano em que as nações encerraram a Segunda Guerra Mundial, e que uma paz aparente pairava sobre o planeta. No Brasil, a ditadura do Estado Novo chegava ao fim. Por um curto espaço de tempo, o país viveria uma democracia a engatinhar. Com a promulgação da Constituinte de 1946, couberam na nova história da nação até os que eram considerados velhos inimigos da elite, os comunistas, que obtiveram a legalização do PCB. Eduardo Leite cresceria nesse prelúdio democrático, que aos poucos foi minguando, ameaçado por golpes sucessivos.
Se a tragédia da grande guerra passara, as nações desenhavam uma outra, a Guerra Fria, que dividiu o mundo entre duas ideologias: a capitalista, liderada pelos Estados Unidos e pela Europa Ocidental, e a socialista, liderada pela extinta União Soviética e a Europa do leste. As novas tendências no quadro político mundial obrigaram que as nações escolhessem o lado que iriam ficar. O Brasil ficou do lado dos norte-americanos, e em 1947, o PCB teve a legenda cassada, passando a vigorar na clandestinidade. Era o primeiro golpe à democracia instituída em 1946.
Eduardo Leite mudou com a família para São Paulo ainda criança. Viveu na adolescência o efervescer das ideologias. Nunca no Brasil a mobilização política voltou a ser tão organizada, como naquele período que antecedeu ao golpe de 1964. As ligas camponesas, os sindicatos, as entidades estudantis, todos, sob a benção das ideologias de esquerda, ocupavam espaço na política do país, incomodando e assustando as elites do poder.
No cenário internacional, a Revolução Cubana de 1959 dava um basta às oligarquias corruptas do seu país, acenando para o resto da América Latina, inspirando aos que sonhavam com a revolução proletária. O medo de que o Brasil viesse a ser uma nova Cuba, deixou a elite direitista em alerta. As reformas agrárias e sociais propostas pelo governo João Goulart foram determinantes para que a direita temesse a implantação de um governo sindicalista e de esquerda. O velho fantasma do comunismo foi usado como propaganda contra a esquerda, e serviu para aliciar o apoio da classe média e setores da população ao golpe militar. A década de 1960 foi a década da quebra dos tabus, das revoluções sociais a explodirem pelo mundo. Das ideologias de esquerda a se fragmentarem em várias linhas intelectuais e dogmáticas. O maoísmo chinês; o castrismo; a visão romântica da revolução de Che Guevara, de fazer da América Latina uma só voz socialista; os trotskistas; os stalinistas; os reformistas liderados pelos soviéticos. Um cenário em princípio caótico para a atualidade contemporânea, mas que influenciaria uma geração pensante e preste a quebrar todos os tabus moralistas até então impostos à cultura ocidental
A juventude à qual Eduardo Leite pertenceu, assistiu a todas as tendências citadas. Vivera uma ínfima democracia, única até então na história da República, a ser encerrada pelos tanques e fuzis militares, naquele negro 1 de abril de 1964. Era tarde demais para aqueles jovens, acostumados ao debate político, à liberdade que em quinze anos marcara, ainda que de forma imperceptível, uma concepção diferente do Brasil e do mundo.
Muito cedo, Eduardo Leite ingressou na militância política. Tinha dezoito anos quando o golpe militar foi instaurado. Como a maior parte da juventude do seu tempo, acreditava que a esquerda traria a solução para os problemas do mundo, e que o mundo velho e de velhos, teria que ruir em nome de uma revolução socialista. Repudiava a ditadura das elites, economicamente voltada para poucos, acreditava na ditadura do proletariado, extensiva para todos. Assim, integrou-se à Polop (Política Operária), entidade de esquerda.

Codinome Bacuri

Como bom cidadão do regime militar, em 1967 foi incorporado ao exército, servindo na 7ª Companhia de Guarda, e, no Hospital do Exército, no bairro do Cambuci, região central de São Paulo. Na época em que freqüentou o exército, a grande ala da esquerda dos oficiais de menores patentes, tradicionalmente históricas no Brasil, tinha sido completamente expurgada.
O erro de avaliação do Partido Comunista Brasileiro quanto ao perigo de um golpe militar e, a falta de mobilização quando da sua concretização; a posição reformista e conciliatória com a burguesia; a luta pelo poder interno do comitê central, tudo contribuiu para que se fragmentasse em várias organizações.
Em 1968, Eduardo Leite passou a integrar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma organização política armada de extrema esquerda. Mostrou-se um militante arrojado e destemido, que se iria notabilizar pela eficiência em executar as mais difíceis tarefas das guerrilhas urbanas.
Para não ser identificado pelos serviços repressivos do regime, Eduardo Leite passou a usar o codinome de Bacuri, apagando de vez o antigo técnico de telefonia, tornando-se um ávido militante da esquerda opositora à ditadura. O codinome virou alcunha, grudou-se de forma indelével à pele e à alma de Eduardo Leite, que se despiu totalmente do pacato cidadão para dar passagem ao vigoroso guerrilheiro. Bacuri, descrito pelos companheiros de luta como simples, afável e bem-humorado, tornar-se-ia para o regime militar um terrorista sanguinolento e temível. Bacuri passou a ser uma lenda na história das guerrilhas da esquerda. A alcunha se lhe perseguiria até a sua morte.

Assaltos e Mortes

1968 foi o ano das grandes manifestações estudantis francesas e européias, da Primavera de Praga, das grandes passeatas pelo Brasil. Desde 1964, que não se ousara tanto a enfrentar a ditadura militar. A resposta do regime não tardou, veio com o Ato Institucional número 5 (AI-5), que aboliu o hábeas corpus, permitindo que o governo dissolvesse partidos e cassasse parlamentares, prendesse supostos inimigos à segurança nacional, sem que lhe fossem dados os direitos legais. O regime recrudescera, fechando-se por completo a qualquer esperança de democracia e de liberdade civil.
Sem as esperanças que haviam florescido em 1968 e encerradas com o AI-5, a esquerda decidira que a única solução era a luta armada, só ela atrairia as grandes massas, derrubaria a ditadura e consolidaria a revolução proletária. As diferenças de opinião quanto à estratégia da guerrilha; a dificuldade de reunir os militantes em grandes aparelhos, devido à vigilância intensa dos órgãos repressores; a carência de verba para manter os companheiros; fez com que surgissem várias organizações da extrema esquerda.
O ano de 1969 despontou como uma ressaca do AI-5. Seria um dos anos mais violentos tanto para a ditadura, quanto para as organizações de esquerda. Em abril, Bacuri deixou a VPR para fundar a Resistência Democrática (REDE). Destacou-se rapidamente nas empreitadas da guerrilha urbana. Praticou dezenas de assaltos a bancos, supermercados e carros fortes, sem nunca se deixar apanhar. Sua reputação de perigoso subversivo logo se espalhou. Ainda naquele fatídico 1969, seu rosto aparecia estampado, ao lado de Carlos Marighella, nos cartazes de “Procurados” espalhados pelo país. Bacuri tornara-se uma lenda, um nome que incomodava os agentes da repressão.
As operações de assaltos a bancos e supermercados envolviam grandes riscos, podendo vitimar tanto os assaltados quanto os assaltantes. Não era objetivo dos guerrilheiros matar inocentes, mas a pressão, a violência do ato, jamais poderia garantir quaisquer seguranças. Os assaltos tinham como finalidade levantar dinheiro para as operações de luta armada, além de poder manter a sobrevivência dos que viviam na clandestinidade, impedidos de trabalhar e ter o seu próprio sustento. Muitas vezes, dentro dos aparelhos, a fome falou mais alto do que a ideologia. Bacuri tornou-se o militante mais eficiente para executar essas operações, o que lhe acarretou uma vida de extrema violência e de mortes nas costas, aumentando-lhe a fama de “terrorista” perigoso.
Entre os mortos nas operações de assalto, foram imputados direta ou indiretamente a Bacuri, as mortes de:
Abelardo Rosa Lima, soldado da policia militar de São Paulo, metralhado numa tentativa de assalto ao Mercado Peg-Pag, em 6 de outubro de 1969. Além de Bacuri, participaram do assalto Walter Olivieri, Devanir José de Carvalho, Ismael Andrade dos Santos e Mocide Bucherone. A operação foi realizada em conjunto, pela REDE e pelo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
Orlando Girolo, bancário de uma agência do Bradesco em São Paulo, morto numa operação executada por Bacuri e Devanir José de Carvalho, representando a REDE e o MRT, respectivamente.
João Batista de Souza, guarda de segurança da Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Cambuci, em São Paulo. Bacuri foi identificado como o autor do assassínio, aumentando-lhe substancialmente a fama de guerrilheiro. A operação foi novamente executada pela REDE e pelo MRT, reunindo outros militantes das duas organizações.

Participação em Dois Seqüestros

O seqüestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, realizado pela Aliança Libertadora Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), resultou na libertação de vários presos políticos, servindo de inspiração para novos seqüestros.
Além dos assaltos a bancos, os seqüestros passaram a ser engendrados como meio de libertar a grande militância que se encontrava nos calabouços, sendo torturada e pondo em risco à segurança dos companheiros, caso não resistissem ao suplício e entregasse os nomes, além de chamar a atenção internacional para as atrocidades do regime.
A competência de Bacuri nas operações de guerrilha, fez dele o militante ideal para novos seqüestros. Ao lado da mulher Denise Crispim, participou ativamente no seqüestro do cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okushi. VPR, REDE e MRT, realizaram a operação, em 11 de março de 1970. As negociações com o governo resultaram na libertação de cinco prisioneiros políticos.
No dia 11 de junho de 1970, em plena Copa Mundial de Futebol, realizada no México, mais uma vez Bacuri fazia parte de outro seqüestro, o do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben. Durante a operação de seqüestro, Bacuri disparou três tiros contra o agente da polícia federal Irlando de Souza Régis, matando-o com um tiro na cabeça. A morte do agente, que fazia a segurança do embaixador, gerou um recrudescimento dos órgãos de repressão do governo, que se lançaram implacáveis na perseguição aos guerrilheiros, em especial, na captura de Bacuri. Alfredo Sirkis, um dos seqüestradores, relataria mais tarde, que Bacuri aparecera sem capuz diante do embaixador, o que lhe causou constrangimento e irritação, pedindo que ninguém se apresentasse a ele com o rosto descoberto. A operação rendeu a libertação de quarenta presos, entre eles Fernando Gabeira e Vera Sílvia Magalhães, envolvidos no seqüestro de Charles Elbrick.

Bacuri Negocia a Libertação da Mulher Grávida

O caminho da guerrilha era sem volta. Ao ingressar nas organizações de luta armada, o guerrilheiro era tido como terrorista. Sob as garras do AI-5, não tinha direito a hábeas corpus, julgamento por júri popular, além de estar sujeito à pena de morte, prevista para os que praticavam atos que pusessem em perigo a segurança nacional, ou seja, que ameaçassem o regime ilegítimo dos militares.
Com o desmembramento da REDE, Bacuri e a mulher, Denise Crispim, passaram a militar na ALN. Ele já tinha realizado operações sob o comando de Carlos Marighella, assassinado pelos militares em novembro de 1969.
No dia 15 de julho de 1970, a militante Ana Bursztyn aguardava a hora para dirigir-se ao ponto combinado com os companheiros. Como estava adiantada, passou pela loja de departamentos do Mappin, pegando alguns cosméticos. Seu nervosismo atraiu as desconfianças de um fiscal; quando se dirigia ao caixa para pagar, o fiscal pediu para que abrisse a bolsa. Levada à sala do chefe de segurança, Ana Bursztyn apavorou-se quando pediram para revistá-la, sabia que na bolsa estava uma arma, o suficiente para incriminá-la. Ao ser descoberta, tentou fugir, puxou da arma, uma taurus 32, atingindo o chefe de segurança na perna. Ferimento suficiente para causar uma hemorragia e matá-lo. Ana Bursztyn foi presa, no dia seguinte os jornais anunciavam que se havia prendido a guerrilheira ladra. Submetida a intensas e ininterruptas torturas durante oito dias, Ana Bursztyn deixou escapar o endereço do aparelho de Bacuri.
Como conseqüência, Denise, grávida de poucos meses, foi presa. Silenciosamente, à distância, Bacuri, ao lado dos companheiros Carlos Eugênio Paz e Ana Maria Nacinovic, assistiu à prisão da mulher. Mais tarde, tentando evitar que Denise fosse torturada, telefonou para o comandante do II Exército, identificando-se como Bacuri, guerrilheiro da ALN. Avisou ao militar que Denise tinha sido presa pelo DOI-CODI, e que se alguma coisa acontecesse a ela e à criança, iria matar o general-comandante do II Exército. Os militares só deram importância à ameaça, quando Carlos Eugênio voltou a telefonar, dando detalhes da rotina do general, ameaçando ceifar-lhe a vida. Acossados, os militares negociaram com Bacuri a libertação da mulher e do filho. Denise Crispim foi libertada mediante acordo para que se preservasse a vida do general. Foi a última vitória do guerrilheiro Bacuri sobre a ditadura. A partir de então, seria procurado e, se apanhado, sua vida não teria mais valor.

Uma Morte Anunciada

Quando a esquerda engendrava um triplo seqüestro de diplomatas, que tinha como objetivo libertar duzentos prisioneiros de uma só vez, Bacuri caiu nas mãos da repressão durante os levantamentos preliminares. Foi preso no Rio de Janeiro, em 21 de agosto de 1970, pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, tido como o carniceiro dos calabouços da ditadura.
Durante 109 dias, consecutivamente, Bacuri foi brutalmente torturado, recebendo sobre o corpo, toda a ira que se projetara sobre ele. A tortura a que foi submetido talvez tenha sido a mais cruel de todos os supliciados pelo regime militar. Bacuri resistiu bravamente ao seu calvário, sem nunca entregar qualquer companheiro.
Inicialmente, passou pelo Cenimar e pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi visto pela então presa política, Cecília Coimbra. Estava completamente mutilado e, já quase a não poder se locomover.
Mais tarde, foi removido da prisão para uma casa particular. Os gritos que emitia durante as ininterruptas sessões de tortura chamaram a atenção da vizinhança, que assustada, chegou a chamar a polícia. Ao chegar à residência, os policiais depararam-se com a equipe do delegado Fleury, calmamente, pediram para que mudassem o local de torturas. O guerrilheiro foi levado de volta para o Cenimar. Algum tempo depois, foi transferido para o 41º Distrito Policial de São Paulo, covil do delegado Sérgio Fleury.
O suplício de Bacuri continuou, foi diversas vezes transferido de lugar. Voltou ao Cenimar carioca, sendo ali torturado até setembro, quando retornou aos cárceres de São Paulo, sendo levado para a sede do DOI-CODI.
Em outubro, Bacuri foi levado para o Dops de São, onde viveria os últimos dias do seu calvário, sendo encarcerado na cela 4 do chamado “fundão”, que consistia em celas isoladas, reservadas aos presos mais perigosos. A prisão de Bacuri estava sendo ocultada, a sua morte começava a ser engendrada.
No dia 23 de outubro, o então comandante da ALN, Joaquim Câmara Ferreira, foi morto sob tortura. Só no dia 25 de outubro, o Dops de São Paulo divulgou oficialmente sua morte para a imprensa. Na mesma nota, foi inserida a informação de que o temido Bacuri, mantido em prisão sigilosa por motivos de segurança, tinha conseguido fugir. Com aquela falsa notícia, a morte de Bacuri tinha sido anunciada. Mesmo vivo, Bacuri já era considerado morto.

Os 109 Dias de Tortura

No dia 25 de outubro de 1970, o comandante da equipe de choque do Dops, tenente Chiari, em um momento de crueldade sádica, mostrou ao guerrilheiro a nota divulgada na imprensa, anunciando a sua fuga. Das grades da carceragem, Bacuri, aos gritos, revelou aos presos o que acabara de saber. Lúcido, bradou: “Eu vou ser morto, tenho certeza”.
Ao serem informados do que se sucedia, os demais prisioneiros do Dops, montaram um esquema de vigilância à porta da cela de Bacuri, na vã tentativa de impedirem que o companheiro fosse assassinado.
Para facilitar a retirada de Bacuri da sua cela, sem que os demais prisioneiros percebessem, o delegado responsável pela carceragem do Dops, Luiz Gonzaga dos Santos Barbosa, fez com que os presos fossem remanejados e o guerrilheiro transferido para a cela 1, que ficava em frente à sala dos carcereiros, longe da visão dos outros presos. As dobradiças da porta da cela foram lubrificadas, para que não rangessem quando da remoção do encarcerado. Àquela altura, Bacuri já era considerado oficialmente morto, tendo o seu nome retirado da relação de presos.
Às 0h50 da madrugada de 27 de outubro de 1970, Bacuri foi retirado da cela, sendo carregado, pois já não conseguia andar devido às torturas que sofrera. Ao perceberem o que acontecia, cerca de cinqüenta presos que se encontravam no Dops, começaram a gritar e bater nas portas de metal com pratos e canecos. Bacuri jamais foi visto outra vez por qualquer preso político. Sua vida estava nas mãos dos torturadores. Um policial do esquadrão da morte, Carlinhos Metralha, disse que Bacuri tinha sido levado para o sítio particular de Fleury, usado para torturar os presos especiais e os que deveriam ser executados.
No dia 7 de dezembro de 1970, o seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher selou de vez o fim de Bacuri. Era certo que os guerrilheiros seqüestradores iriam acrescentar o nome do guerrilheiro à lista dos presos que deveriam ser trocados pelo embaixador. Não havia como apresentá-lo em público devido ao estado de mutilação que se encontrava.
Elio Gaspari, no livro “As Ilusões Armadas”, relata que Bacuri viveu o último dia da sua vida no forte dos Andradas, no Guarujá. Chegara ao local dentro de um saco de lona, sendo encarcerado em uma solitária erguida na praia do Bueno. Dali teria sido levado para um túnel do depósito de munições. No dia 8 de dezembro, segundo narrativa do soldado Rinaldo Campos de Carvalho, uma veraneio parou em frente à entrada do depósito, de onde saltaram um major e dois tenentes. Foram ao local onde Bacuri estava trancado, anunciando que iriam levá-lo para o hospital militar. Segundo o soldado, que ajudava o prisioneiro a encostar-se na pia para que se pudesse lavar, o major ordenou que saísse. Ele só ouviu uma pancada, que ambiguamente não sabe tratar-se de um tiro ou de uma cabeça a bater contra a parede. Testemunhou que, logo a seguir, o corpo foi retirado do banheiro no mesmo saco de lona em que fora para ali trazido. Acabaram-se os 109 dias da sua agonia.
Oficialmente, as autoridades anunciaram para a imprensa que Carlos Collen Leite, o Bacuri, morrera em tiroteio em Boracéia, estrada que liga Bertioga a São Sebastião, litoral paulista, após oferecer selvagem resistência. Para confirmar a farsa, o laudo da sua morte, assinado pelos médicos legistas Aloysio Fernandes e Décio Brandão Camargo, responde “não” à pergunta se houve tortura.
O corpo de Eduardo Leite foi entregue à família coberto de hematomas, cortes profundos, escoriações, queimaduras generalizadas por toda a parte, dentes arrancados ou quebrados, orelhas decepadas e olhos vazados, dois tiros no peito e outros dois na cabeça.
No dia 13 de janeiro de 1971, após uma longa negociação, setenta presos políticos trocados pelo embaixador suíço, embarcaram em um avião da Varig para o exílio. Faltara o 71º, Bacuri, o arrojado e temido guerrilheiro.

Bacuri, o Guerrilheiro

Ao vestir a roupa do guerrilheiro Bacuri, Eduardo Leite escolheu para si uma vida mergulhada na violência. Em momento algum duvidou da ideologia pela qual ele e grande parte da sua geração lutaram, renunciando a si mesmo. Os que sobreviveram àqueles tempos, assistiram ao fim da ideologia. Bacuri congelou a sua vida no tempo, não desmoronou com o ruir dos ideais, não sentiu que perder a vida em nome de uma causa não lhe foi inútil.
Dos nomes que a guerrilha urbana consagrou, Bacuri foi o retrato fiel do guerrilheiro brasileiro. Enquanto Carlos Marighella é o mentor, idealizador e intelectual da guerrilha; e, Carlos Lamarca o comandante que atraiu para si a admiração romântica da guerrilha; Bacuri é o guerrilheiro, o executor da guerrilha. Seu vigor, sua coragem e obstinação, fizeram com que ele matasse sem remorsos quando preciso. Assim como Marighella e Lamarca, estava condenado a não sobreviver ao seu tempo. A violência dos assaltos por ele praticado privou vários companheiros da fome e da miséria estabelecidas pela clandestinidade; com os seqüestros salvou a vida de muitos companheiros. Para Bacuri não houve tempo de analisar ou combater o ideal revolucionário, não houve tempo para avaliação ou uma autocrítica histórica do mundo ao qual se lançara. A autocrítica ficou para os que sobreviveram às torturas e à queda da guerra fria.
Descritos como terroristas pela ditadura militar, os guerrilheiros ainda hoje causam polêmicas e controversas. No decorrer das décadas, muitos ex-guerrilheiros tiveram a sua imagem transformada e redimida diante da nação, que muitas vezes os temia, sem perceber a essência da causa. Muitos chegaram ao poder, como José Genuíno, Franklin Martins e Fernando Gabeira. Outros entraram para a história como o guerrilheiro romântico, caso do capitão Lamarca. Carlos Marighella, até pouco tempo considerado maldito, vem sendo revisado pela história. Falta Eduardo Leite, o Bacuri, perder o estigma de maldito. Ceifou vidas quando em combate corporal, mas jamais torturou e supliciou os que se lhe puseram na frente. Quem foi mais selvagem, ele que matou à queima roupa, ou os homens que o torturam brutalmente até matá-lo 109 dias depois? Lampião, um assassino da caatinga, aclamado o rei do cangaço, herói do sertão, matou sem piedade ou ideologia. Os mortos de Bacuri é um quase nada diante dos de Lampião. Cangaceiro e guerrilheiro, porque se redime um e execra-se o outro?
Eduardo Collen Leite foi morto aos 25 anos, no esplendor da sua juventude. A mulher, Denise Crispim, exilou-se logo após a sua morte. Deixou uma filha, Eduarda, nascida no exílio, jamais a conheceu. Não se tornou um mártir da história nacional, mas um mártir da guerrilha, do seu tempo e dos seus ideais.


A ABERTURA POLÍTICA E A MPB

janeiro 31, 2010

Na conturbada década de 1960, a história da Música Popular Brasileira seria totalmente reescrita, revelando grandes músicos, cantores e compositores, que dariam um contorno definitivo a ela. Sob os ventos da Bossa Nova, uma nova mensagem estética e sonora iria gerar movimentos históricos como a Tropicália e a Jovem Guarda, essenciais para que se perceba os caminhos que a MPB seguiu na segunda metade do século XX.
Uma pulsante renovação explodia no cenário musical na década de 1960, sendo drasticamente afetada pela implantação do regime militar através de um golpe de estado, em 1964. Para manter o poder de um governo ilegítimo, a ditadura militar teve que reprimir e conter todos os seus opositores. A juventude estudantil foi a primeira a ser atingida, tendo os seus órgãos oficiais, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), sendo lançados na clandestinidade. Silenciados os movimentos, a MPB passou a ser a voz rebelde daquela juventude. Os festivais de música explodiram nas emissoras de televisão da época, promovendo um grande alcance popular e revelando para o país talentos definitivos, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Milton Nascimento e tantos outros.
Com o endurecimento do regime militar, a partir de dezembro de 1968, a MPB que se fazia na época, considerada pelo governo como porta voz da juventude universitária comunista, passou a ser vigiada e censurada, sendo classificada como subversiva.
A censura aos meios de comunicação imperou rígida por mais de uma década. Atingiu à música, aos jornais, à televisão, ao teatro, à literatura, ao cinema, às artes plásticas, nenhum meio de expressão cultural foi poupado. Ao contrário do que se pensa, não era uma censura apenas política, mas essencialmente moralista, sustentando assim, o conceito de moralidade de uma classe conservadora da população brasileira, que sob os canhões militares, desenhava um Brasil estética e moralmente perfeito. Com o declínio do apoio da elite brasileira aos militares, a revelação das torturas nos calabouços e o desaparecimento de muitos dos filhos dessa elite; o regime militar começou a enfraquecer, sendo obrigado, a partir de 1975, a acenar com uma abertura lenta e gradual, que culminaria com o fim da censura e da própria ditadura.
Em 1978 a abertura chegou às artes e, conseqüentemente, à MPB. Canções outrora proibidas, como “Cálice” (Gilberto Gil – Chico Buarque), foram liberadas. Em 1979, a Lei da Anistia trazia de volta ao país os exilados políticos. A MPB passou a ser a voz daquele novo período da história. Voltou com fôlego, deixando de ser elite e alcançando as grandes massas. De 1978, data do início da abertura do regime militar, a1985, data do seu fim, a MPB alcançou um apogeu de vendas de discos e uma influência que jamais se repetiu. É o período que podemos chamar de “A MPB da Abertura”.

A MPB e os Primeiros Anos da Ditadura

Em 1958, emergia a partir da zona sul carioca, um movimento musical que passou a ser conhecido como Bossa Nova. Incipientes e talentosos músicos e cantores como Tom Jobim e João Gilberto, lançavam um novo conceito de MPB, que influenciaria todos os movimentos vindouros. Paralelamente ao surgimento da Bossa Nova e à sua expansão para a década de 1960, a juventude brasileira alcançava um nível de conscientização e de organização políticas jamais vistas. A UNE, principal órgão estudantil, passou a ter grande influência nas decisões políticas do país. Tradicionalmente ligada aos partidos de esquerda clandestinos, a UNE concentrava uma pululante militância de jovens artistas e intelectuais. No início da década de 1960 criou o Centro Popular de Cultura (CPC), idealizado pelo dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. O recém-criado órgão cultural estudantil trazia Ferreira Gullar como diretor do setor de poesia e literatura; Leon Hirszman dirigia o setor de cinema; Vianinha o de teatro; e, Carlos Lyra o de música. Grandes espetáculos e eventos foram realizados, em sua maioria, na sede da própria UNE. Na parte musical, nascia o que se pode chamar de MPB universitária. Com a chegada da ditadura militar, a UNE foi posta na ilegalidade e o CPC deixou de existir.
Ainda no princípio da ditadura militar, a resistência da música ao regime instaurado trazia demarcada evidência. Nara Leão, musa da Bossa Nova, deixou o movimento e abraçou o tradicional samba dos morros cariocas. Literalmente, a cantora subiu o morro e trouxe o samba para o asfalto. No dia 11 de dezembro de 1964 estreava o “Show Opinião”, na sede do Teatro de Arena do Rio de Janeiro. Com textos concebidos por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, sob a direção de Augusto Boal, trazendo Nara Leão ao lado de legítimos sambistas das batucados dos morros, João do Vale e Zé Kéti. A produção coletiva reunia os integrantes do extinto CPC e do Arena. Teatro e música uniam-se naquele que significava o primeiro grito de protesto contra o regime militar. A canção “Carcará” (João do Vale), apresentada no show, ecoava como um grito latente de revolta da voz da MPB. Nara Leão tornava-se um símbolo da música de protesto, atraindo para si a vigilância e desconfiança do regime militar.
As limitações vocais de Nara Leão impediram que ela resistisse a uma longa temporada. Doente, a ex-musa da Bossa Nova mandou vir da Bahia uma jovem cantora desconhecida, de voz agreste e grave: Maria Bethânia.

Os Grandes Festivais de Música dos Anos 1960

A partir de 1965, a TV Excelsior, uma pioneira na renovação e definição dos programas da televisão brasileira, lançou os festivais de música, que seria o grande marco da história mais recente da MPB. Naquele ano, em abril, foi realizado o 1º Festival de Música Popular. Uma certa Elis Regina, jovem cantora gaúcha, movendo os braços no ar como se fosse um moinho atômico, encantou e empolgou o Brasil, interpretando “Arrastão” (Edu Lobo – Vinícius de Moraes). A canção venceu o festival e Elis Regina escreveu para sempre o seu nome na MPB.
Em setembro de 1965 a TV Record lançou o programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. O nome designaria um movimento musical ameno, sem pretensões ou seguimentos ideológicos, mais próximo do grande público, o que agradou aos moralistas e aos vigilantes da ditadura militar.
Em 1966, o Festival Nacional da Música Popular, premiava a vencedora “Porta Estandarte” (Geraldo Vandré – Fernando Lona). A música de protesto, através da figura engajada de Vandré, dava os contornos da linha principal dos festivais. Ainda naquele ano, em outubro, dois festivais eram realizados: o 1º Festival Internacional da Canção (FIC) transmitido pela TV Rio, futura TV Globo; e, o 2º Festival de Música Popular Brasileira, a partir de então transmitido pela TV Record. “Saveiros” (Dori Caymmi – Nelson Motta), interpretada por Nana Caymmi, ganhou o primeiro FIC. “A Banda” (Chico Buarque), interpretada por Nara Leão, dividiu com “Disparada” (Geraldo Vandré – Theo de Barros), o prêmio de melhor canção.
Os festivais, aos poucos, revelavam para o Brasil novos cantores e compositores. A nova MPB que estava sendo feita tornava-se um forte canal de oposição ao regime militar. Os grandes festivais alcançariam o auge de 1967 a 1969. Com o decreto do Ato Institucional número 5 (AI-5), em dezembro de 1968, o endurecimento do regime militar perseguiu de forma implacável a chamada MPB universitária. Sem liberdade plena de expressão, os festivais foram cada vez mais cerceados e, aos poucos, descaracterizados, minguando definitivamente.O Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, chegaria à sua quinta edição, findando em 1969, com “Sinal de Alerta“, de Paulinho da Viola, sendo a vencedora. O FIC, transmitido pela TV Globo, atravessaria a década de 1960, chegando à sétima edição, em 1972, quando “Fio Maravilha” (Jorge Ben), interpretada por Maria Alcina, vencia e encerrava, para alívio do regime militar, aquela página da história da MPB.

Os Engajados e os Tropicalistas

Se os festivais definiram uma nova linha engajada àquela MPB, em 1967, uma nova vertente mudaria todo o cenário, a instigante Tropicália, movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Domingo no Parque” (Gilberto Gil), não abandonava a linha de protesto engajado, mas reformulava toda a estética musical de então. “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, mudava por completo o conceito de melodia e letra, a estética entre a poesia e a música. Considerados alienados e alienantes pelos engajados, os tropicalistas sofriam com o preconceito da MPB universitária e, ao mesmo tempo, eram repudiados pelo regime militar.
Para que se perceba o paradoxo entre a música engajada e a contestação tropicalista, é necessário que se conheça as diferenças, hoje aparentemente sutis, mas que na época geravam um grande abismo entre ambas. A primeira, encabeçada por Geraldo Vandré, consistia no engajamento político da militância da esquerda, direta ou indiretamente. Era feita por jovens talentos intelectuais, dentro ou em volta do então clandestino Partido Comunista Brasileiro. Cantos de protestos tinham um objetivo claro, derrubar a ditadura militar. A segunda, liderada pelos tropicalistas, trazia uma canção de protesto social, mais próxima da ideologia do “Maio de 1968” de Paris. Para os tropicalistas, mais importante do que derrubar o regime militar, era derrubar os seus costumes morais falidos. A censura do governo era política e moralista, afinal os militares, sem a legitimidade do povo, sustentava-se através da repressão e do apoio de uma moralista classe média, que em uma visão ambígua, zelava pela moral e pelos bons costumes da família e dos brasileiros. Assim, tanto o engajamento de Geraldo Vandré quanto à subversão social dos tropicalistas, eram postos no mesmo saco e perseguidos pelo regime.
A promulgação do AI-5 permitiu que se sufocasse o que restara do movimento estudantil, perseguindo, prendendo, torturando e matando os seus líderes. A música de protesto foi aos poucos, abafada e silenciada. “Caminhando (Para Não Dizer Que Não Falei das Flores)”, de Geraldo Vandré, tornou-se um hino de resistência contra a ditadura, fazendo do seu autor o inimigo número um do regime militar, dentro da MPB. Lançada em setembro de1968, no 3º FIC, ficou em segundo lugar, provocando protestos e vaias sobre a vencedora, “Sabiá” (Chico Buarque – Tom Jobim). Às vésperas do fechamento do Congresso Nacional, a canção de Vandré foi o último grande grito de protesto da MPB dentro dos festivais. As edições posteriores foram mornas, sem a evidência de uma resistência ao regime, trazendo canções com insinuações sutis, jamais diretas. A canção de Vandré foi censurada e proibida de ser cantada ou tocada durante o tempo que durou o AI-5.
Com o endurecimento da ditadura militar, seguido de várias prisões e perseguições, muitos dos novos nomes da MPB, revelados pelos festivais, foram obrigados a seguir para o exílio, entre eles Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Geraldo Vandré e Taiguara. Aos artistas que ficaram, restou um imposto silêncio, o cerceamento ideológico e a submissão das suas obras à censura.

A MPB e a Opressão do Regime Militar

A primeira metade da década de 1970 foi sufocante para a MPB. A censura prévia à música, fez com que grandes canções fossem proibidas, indo parar nas gavetas dos seus autores. Quando o general Emílio Garrastazu Médici subiu ao poder, a guerra entre o governo e a resistência comunista foi intensa, gerando seqüestros e guerrilhas urbanas. Para combater os guerrilheiros, a tortura foi institucionalizada, a delação incentivada, e os atos culturais vigiados e silenciados, censurados com rigidez quando ofereciam qualquer tipo de contestação ao regime.
Vivendo sob vigilância constante do Estado repressivo, os autores da MPB passaram a usar metáforas de bastidores dentro das suas composições. Sob pressão e reféns do medo, as canções de protestos tornaram-se cada vez mais escassas. A censura tornou-se moralista, defendia a ideologia política do governo e a moral que lhe ladeava. O nu artístico era limitado, filmes pornográficos e políticos eram proibidos em um só pacote. Músicas com teor sensual eram consideradas tão subversivas quanto às de protesto. A lógica dos censores perdeu-se nos seus preconceitos, tornando-se absurdas, burocráticas e desprovidas de qualquer inteligência ideológica.
Em 1973, a morte sob tortura do estudante Alexandre Vanucchi Leme, o Minhoca, estudante de geologia da USP, comoveu os seus colegas. Em protesto, eles chamaram Gilberto Gil para um concerto em homenagem ao estudante morto, realizado na Politécnica. Gilberto Gil, desafiando à censura e ao regime, cantou a proibida “Cálice”. Foi a primeira manifestação estudantil desde o massacre dos seus líderes, promovida após a instituição do AI-5. Mais uma vez MPB e movimento estudantil davam as mãos, numa clara demonstração de que a resistência às atrocidades do regime não tinha sido extinta.
Na direção oposta da censura, a produção de qualidade da MPB adquiriu uma grande sofisticação, juntando com esplendor poesia e melodia. Raramente esse conteúdo chegava às grandes massas. A música de língua inglesa era soberana de vendas e de sucesso nos meios de comunicação. Cantores brasileiros, como Christian e Michael Sullivan, usavam nomes estrangeiros, compunham e cantavam sucessos instantâneos. Os sucessos nacionais não aliciavam a compra dos “long plays” de vinil, para vendê-los no mercado, as gravadoras lançavam os discos compactos, que mantinham o vigor das carreiras dos cantores de MPB. O brasileiro não tinha o hábito de ouvir um álbum inteiro do mesmo intérprete.
A censura colaborava com a falta de interesse do público, pois mantinha os shows sob severa vigilância, e os discos, muitas vezes eram mutilados pelo corte de certas canções, que apareciam sem letras, lançadas apenas instrumentalmente. Chico Buarque, o mais perseguido pela censura na década de setenta, usou de subterfúgios, como usar o pseudônimo de Julinho da Adelaide, para que tivesse as suas canções aprovadas. A MPB prosseguia como um vulcão silencioso, preste a derramar as suas larvas sobre a opressão que se lhe era imposta.

O Florescer da Abertura

Em 1975, já sob o governo do presidente Ernesto Geisel, as atrocidades do governo começaram a vir à tona. A morte sob tortura do jornalista Wladimir Herzog obrigou o governo, pela primeira vez, a admitir que existiam prisioneiros torturados no país, e aquela realidade já não podia ser ignorada. Sob pressão da comunidade internacional, o governo foi obrigado a acenar com uma possível abertura política do regime.
Curiosamente, a TV Globo decidiu ressuscitar os velhos festivais, lançando, em 1975, uma edição sem grande repercussão, que trazia o ambíguo e sugestivo nome de Festival Abertura. Carlinhos Vergueiro vencia com a música de sua autoria, “Como Um Ladrão”.
A abertura viria de forma lenta, quase a exasperar. Em 1978 foi decretado o fim do AI-5, que deixaria de vigorar a partir do dia 1 de janeiro de 1979. Novos ventos soprariam sobre a MPB, modificando a sua trajetória. Ainda em 1978, canções proibidas há anos foram finalmente liberadas. Chico Buarque, em seu álbum de 1978, pôde gravar três ícones da sua música engajada: “Cálice”, com participação vocal de Milton Nascimento; “Tanto Mar”, música em homenagem à Revolução dos Cravos, deflagrada em Portugal, vetada em 1975; e, “Apesar de Você”, tirada com truculência das lojas quando lançada em compacto, em 1970.
Não só a censura política foi liberada, como também a censura moralista. Se dantes a simples menção da palavra pêlo em “Atrás da Porta” (Chico Buarque – Francis Hime) era considerada obscena, a sensualidade e o erotismo explodiram na voz das cantoras de MPB. “O Meu Amor” (Chico Buarque), revelava um dueto sensual e provocativo entre duas mulheres, a canção foi registrada no disco de Chico Buarque de 1978, num dueto de Marieta Severo e Elba Ramalho, e, por Maria Bethânia e Alcione, no álbum “Álibi”, também daquele ano. “Condenados” (Fátima Guedes), gravado por Simone, declarava que a mulher estava mais “safada” e a tirar maior proveito do prazer. Gal Costa, era daquelas mulheres que só diziam sim, na memorável interpretação de “Folhetim” (Chico Buarque). As senhoras que se diziam representantes da moral e dos bons costumes da família, que com os seus rosários nas mãos marcharam pelas ruas das grandes cidades, abraçando o golpe militar, tremeram e protestaram diante de tanta ousadia. Mas o regime e a moral que elas defendiam estavam corroídos pela hipocrisia e prontos para ruírem. A MPB e as suas cantoras, a exalar talento e sensualidade, já não podiam ser caladas. A abertura chegara, ainda que lenta, mas definitiva.

A Ascensão da MPB

Com maior possibilidade de expressão, a MPB passou a chegar ao grande público. “Álibi”, álbum lançado por Maria Bethânia no fim de 1978, tornou-se no ano seguinte um fenômeno de vendas. Jamais uma cantora tinha ido tão longe em vendagem de discos no Brasil. Com “Álibi” o brasileiro passou a ouvir um disco inteiro de MPB, fazendo com que os discos compactos fossem, aos poucos, perdendo mercado. A MPB deixava de ser elite, atingindo grandes massas, mostrando que qualidade também podia ser vendável e agradar a todos.
A abertura política proporcionou a Lei da Anistia, promulgada em agosto de 1979, possibilitando o retorno dos exilados políticos. A MPB tornou-se porta voz do movimento, através das canções “Tô Voltando” (Maurício Tapajós – Paulo César Pinheiro), cantada por Simone, e, “O Bêbedo e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), numa interpretação antológica de Elis Regina, transformada no hino da Anistia.
Em 1979 a UNE era reconstruída, apesar de não ser reconhecida legalmente. Movimento estudantil e MPB começavam a pulsar arrebatadoramente dentro da já moribunda ditadura militar. Atenta ao fato, a TV Tupi voltou a promover um festival de música, o Festival 79 da Música Popular. Apesar de não ter obtido a repercussão esperada, o festival destacou a presença de Fagner, com “Quem Me Levará Sou Eu” (Dominguinhos – Manduka), e do então desconhecido Oswaldo Montenegro, com “Bandolins”. No ano seguinte seria a vez da TV Globo voltar a investir nos festivais. Lançou o Festival da Nova Música Popular Brasileira – MPB 80, alcançando um grande sucesso. O festival, rebatizado como “MPB Shell”, teve mais duas edições, em 1981 e 1982. Em 1985, o Festival dos Festivais seria a última grande produção do gênero feita no Brasil.
A partir de 1979, a MPB foi tomando o espaço da música de língua inglesa, ultrapassando as vendas dos discos estrangeiros no país. Novos nomes eram revelados, alcançando relativo sucesso: Zizi Possi, Diana Pequeno, Ângela Ro Ro, Joanna, Marina, Fátima Guedes, Oswaldo Montenegro, Elba Ramalho, Zé Ramalho. Muitos que há anos estavam no mercado, mas que não tinham reconhecimento, projetaram-se com solidez: Gonzaguinha, Fagner, Simone, Ney Matogrosso, Djavan, Belchior. E os grandes reprimidos pela censura, ascenderam vertiginosamente: Gal Costa, Chico Buarque, Elis Regina, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Caetano Veloso. Todos encontravam espaço, e, principalmente, um público ávido para consumir o que eles produziam.

A Concretização da Abertura e a MPB

A militância da MPB no cenário nacional foi escancarada ao país depois do fim do AI-5. Já nada podia deter as vozes do Brasil. No fim de 1979, Simone deu um espetáculo no Canecão. No meio do show, cantou a música há tantos anos proibida pela ditadura, “Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)”. Emocionado, o público acompanhou a cantora, sem medo, após dez anos de silêncio, de entoar o refrão do hino da luta contra a ditadura. A canção de Vandré voltou a fazer parte das manifestações contra o regime militar, sendo cantada nos comícios e eventos políticos.
Incontestavelmente, a MPB tornara-se porta voz da luta pela volta da democracia e pelo fim do regime militar. Grandes concertos de MPB foram feitos em apoio e junto com as manifestações sindicais. O show-comício das comemorações do 1 de Maio de 1980, alcançou grande número de público. Concertos de protesto eclodiram por todo o país. Setores radicais do regime militar, contrários à abertura, passaram a olhar os cantores como inimigos e perigosos subversivos. Na noite de 30 de abril de 1981, a ala radical promoveria o maior atentado público da ditadura militar. No Pavilhão Riocentro era realizado um grande show comemorativo do Dia do Trabalhador. Na decorrência do espetáculo, os militares, sargento Guilherme Pereira e o então capitão Wilson Dias Machado, punham em prático um ardil mortal, a plantação de bombas que daria fim à apresentação, e eliminaria vários nomes oponentes ao regime que ali se encontravam, entre eles Chico Buarque, Gonzaguinha, Gal Costa e Elba Ramalho. No estacionamento do pavilhão, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão. O atentado foi frustrado, e a MPB não foi calada.
Na campanha pelas “Diretas Já”, em 1984, novamente cantores da MPB vestiram as camisas amarelas e subiram aos comícios. A canção “O Menestrel das Alagoas” (Milton Nascimento – Fernando Brant), feita em homenagem ao líder político Teotônio Vilela, foi aclamada hino do movimento, sendo cantada em todos os comícios por Fafá de Belém. Com a frustração do movimento, Chico Buarque criou e cantou “Pelas Tabelas”.
Da abertura política iniciada em 1978 e concretizada em 1985, com o fim da ditadura militar, a MPB teve uma ascensão vertiginosa. Pela primeira vez ela deixava de ser elite. Cumpriu o sentido histórico interrompido pela promulgação do AI-5, tornou-se uma voz essencialmente feminina, de grandes cantoras, e, uma voz de luta em favor da queda da opressão política e moralista no Brasil pós-1964. Nunca se consumiu tanta música de MPB como naquele período. Nunca o povo e a qualidade musical caminharam tão juntos. O apogeu declinou após o fim da ditadura, a MPB voltou a ser elitizada, à espera que novos ventos ideológicos façam com que lance as suas larvas incandescentes sobre a cultura brasileira.

Veja também

A MÚSICA BRASILEIRA E A CENSURA DA DITADURA MILITAR
https://jeocaz.wordpress.com/2008/09/03/a-musica-brasileira-e-a-censura-da-ditadura-militar/


MARIGHELLA – O INIMIGO NÚMERO UM DA DITADURA

dezembro 2, 2009

A história do Brasil é feita de personagens controversas, muitas vezes tidas como heróis por alguns e como marginais por outros. Carlos Marighella é uma dessas personagens. Dedicou a sua vida à causa revolucionária comunista, passou a maior parte dela preso ou na clandestinidade.
Ainda na juventude, Marighella descobriu a ideologia comunista, tornou-se um destacado membro do Partido Comunista, abraçando a sua luta. Passou pelo Estado Novo preso nas masmorras, educando os companheiros de cela para que se rebelassem contra a ditadura vigente. A partir de 1945, experimentou por um curto espaço de tempo a democracia no Brasil, vendo inclusive a legalização do PCB, por onde se elegeu deputado, mostrando-se um grande articulador político.
Com a extinção da legalidade do PCB, Marighella teve os seus direitos parlamentares cassados. Passou a exercer a sua influência nos bastidores da política. Escreveu discursos para vários políticos, desde João Goulart ao traiçoeiro cabo Anselmo.
Com o golpe de estado militar, em 1964, Carlos Marighella viu uma nova ditadura florir no Brasil. Mais uma vez conheceu o ostracismo da clandestinidade. Passou a exercer uma grande resistência ao regime da caserna. Defendia que para derrotar a ditadura militar, só mesmo pegando em armas e provocando um estado revolucionário, incitado por guerrilhas. Sua posição ia contra o PCB, que adotara uma linha mais moderada, ditada por Moscou. Marighella ousou a ir contra o partido pelo qual dedicara toda a sua juventude. Desligou-se da sua direção central e terminou por ser expulso. Após a saída do PCB, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), movimento de esquerda que radicalizou a luta contra o governo militar. De armas em punho, Carlos Marighella promoveu, através da ALN, assaltos a bancos, guerrilhas urbanas e o famoso seqüestro ao embaixador norte-americano Charles Elbrick, realizado em associação com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
Em 1969, Carlos Marighella foi declarado pelo regime militar o inimigo número um do Brasil. Sua cabeça foi posta a prêmio, tendo cartazes com sua imagem espalhados por todo o país. A derrota da ditadura diante da bem-sucedida ação de seqüestro, fez com que ela endurecesse ainda mais. Iniciou-se uma caça implacável a Carlos Marighella, que só encerrou com a sua execução em 4 de novembro de 1969. Naquele dia, o líder da guerrilha foi atraído para um ponto da alameda Casa Branca, em São Paulo; ao chegar, foi recebido a tiros, sem possibilidades de defesa. Os militares eliminavam o seu maior inimigo. Morria um dos homens mais inteligentes da resistência e militância comunista no Brasil. Marighella é hoje um nome que atrai a curiosidade e o respeito dos brasileiros. Por muitos é visto como um herói revolucionário, por outros como um terrorista de esquerda. Sua importância na história recente do país vem sendo cada vez mais analisada, ganhando mais admiradores do que críticos. Marighella tornou-se uma figura mítica, retrato de uma época que se tentou apagar ou amenizar, de um Brasil que pegou em armas e em nome das ideologias, fez o sangue jorrar.

A Primeira Prisão

A história de Carlos Marighella confunde-se com o período das grandes ditaduras do governo republicano, a do Estado Novo (1937 – 1945) e a militar (1964 – 1985). Nascido na segunda década do século XX, em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, Bahia; Carlos Marighella era filho de um imigrante italiano, Augusto Marighella, um operário dono de uma oficina mecânica, e da baiana Maria Rita do Nascimento, negra filha de escravos haussás. Era um dos sete filhos do casal. A mistura de raças refletia na sua pele mulata, nos olhos verdes, cabelos aloirados, e na singularidade da raça brasileira.
A origem humilde definiu o caráter de Marighella. Era visto como um homem alegre, inteligente e de sensível percepção social, que gostava de fazer versos, revelando-se um poeta surpreendente. Na época da sua adolescência, o Brasil passava por um progresso lento, quase letárgico, vivendo a decadência das oligarquias da República Velha, os movimentos tenentistas, a fundação do Partido Comunista em 1922, a Coluna Prestes. Um Brasil sufocado que insistia em sair das garras de uma elite secular.
Aluno brilhante, estudou no Ginásio da Bahia. No quinto ano, em 1929, respondeu a uma dissertação de Física, sobre espelhos, em versos. Aos dezoito anos, Carlos Marighella, passou a freqüentar o curso de engenharia na Escola Politécnica da Bahia. A queda da Bolsa de Nova York atingia ao Brasil, levando à falência vários senhores da oligarquia sustentada pelo café. A crise mundial contribuiu para o fim da República Velha, culminando na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas à presidência. O jovem Marighella entrava em contacto com o PCB, ingressando na Juventude Comunista, em 1932. Revela-se um arrebatado militante, deixando-se seduzir pelas manifestações contra o regime do governador da Bahia, Juracy Magalhães, então nomeado para o cargo por Getúlio Vargas, em 1931, intitulando-se como interventor. Marighella compõe versos que ridicularizam o interventor, enfurecendo-o a ponto de ordenar que prenda e espanque o jovem. Seria a primeira prisão da vida de Marighella. Após ter sido libertado, continuou com firmeza na militância política. Deixaria, em 1932, o curso de engenharia e seguiria para São Paulo.

Os Comunistas e a Ditadura do Estado Novo

Na primeira metade da década de 1930, Luiz Carlos Prestes tornou-se um grande líder dos comunistas brasileiros. Passou alguns anos na União Soviética sendo treinado, voltando ao país com a intenção de promover um movimento revolucionário. Em 1935, um grande levante programado para atingir todo o país, foi violentamente reprimido pela polícia secreta do governo Vargas. O levante ficou conhecido como a Intentona Comunista, levando as maiores lideranças do PCB à prisão, entre eles o próprio Prestes e a mulher, Olga Benário. Com a prisão dos seus líderes, o PCB sofreu um duro golpe em suas fileiras. Carlos Marighella foi designado pela direção a vir para São Paulo, com a finalidade de reorganizar as células do partido e combater a cisão trotskista interna. Mas cai nas malhas da repressão da polícia política liderada por Filinto Muller na perseguição aos comunistas. No dia 1 de maio de 1936, Carlos Marighella é preso, sendo torturado durante vinte e três dias, tendo as solas dos pés queimadas por maçarico, as unhas separadas da pele por finos estiletes nelas enfiadas. A sua resistência às torturas, sem dizer uma palavra, atraiu até a admiração dos seus algozes, o delegado Romano, diretor do DOPS carioca em 1936, afirmava: “Só existe um macho no Partido Comunista, é esse baiano Marighella”. Só seria libertado em 1937, através da anistia assinada pelo ministro Macedo Soares. Naquele ano, Getúlio Vargas, no poder desde 1930, consolidava a sua ditadura, criando o Estado Novo, inaugurando um dos momentos de maior repressão da história da República no Brasil.
Após a libertação, Marighella foi designado pelo PCB a ir para São Paulo, tendo como missão principal combater a eterna dissidência interna que sofria o partido. A liberdade durou pouco. Em 1939, sob a truculência cada vez maior do Estado Novo, foi preso e confinado em Fernando de Noronha. Na prisão, os presos revolucionários criaram uma espécie de universidade popular, cabendo a Marighella dar aulas de filosofia e matemática. Provocada pela Segunda Guerra Mundial, a prisão em Fernando de Noronha foi extinta em 1942, quando a ilha passou a ser usada como base de apoio às operações militares dos aliados no Atlântico Sul. Os presos foram transferidos para a Ilha Grande, no litoral fluminense.
Mesmo sob a mão pesada da repressão do governo ditatorial de Getúlio Vargas, o PCB passou a apoiá-lo em razão da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Marighella era contra a posição do partido, mas a acatou em nome da militância. Em 1943, mesmo nas masmorras da Ilha Grande, ele foi eleito para o Comitê Central do partido, na Conferência da Mantiqueira. Marighella e outros líderes comunistas, como Luiz Carlos Prestes, só seriam libertados com a anistia decretada em abril de 1945. Terminava naquele ano a Segunda Guerra Mundial, e também a ditadura do Estado Novo, com o fim do governo de quinze anos de Getúlio Vargas.

O Brasil Adere à Guerra Fria

Com o fim da ditadura, em 1945, o Brasil entraria em um período de curta primavera democrática. Pela primeira e única vez desde a sua fundação, em 1922, o PCB é legalizado, tornando-se uma força nacional, visível e elegível. Uma nova Constituinte é elaborada e o partido participa da sua elaboração. Carlos Marighella foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia, com uma ampla votação. Ele participaria ativamente como um dos redatores da nova Constituinte, promulgada em 1946.
Em 1946 Marighella conheceria Clara Charf, aquela que futuramente seria a sua esposa e companheira pelo resto da vida. Viveria, entretanto, uma relação amorosa com Elza Sento Sé, durante 1947, romance que resultaria no nascimento do seu filho Carlos Augusto, em maio de 1948.
O tempo que Marighella hauriu a liberdade física e política, duraria pouco. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma nova guerra começava a desenhar-se no cenário mundial, a Guerra Fria, promovida pelas potências aliadas vencedoras, de um lado os capitalistas liderados pelos Estados Unidos, do outro os comunistas, liderados pela União Soviética. Entre 15 de agosto e 2 de setembro de 1947, realizou-se em Petrópolis, Rio de Janeiro, a Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança, na qual participou Eva Perón, mulher do presidente da Argentina Juan Domingo Perón. Na conferência foi assinado o Tratado da Assistência Recíproca, que permitia aos Estados Unidos intervir onde quer que a paz e a segurança estivessem ameaçadas. Na conferência, a expansão da ideologia soviética pela Europa foi apontada como a grande ameaça ao mundo. Assinando o tratado, o Brasil participava da gestação da Guerra Fria, escolhendo o seu lado.
As conseqüências logo vieram. A União da Juventude Comunista foi a primeira a ser fechada. Em outubro de 1947, o Brasil rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética. No início de 1948, o PCB foi posto novamente na clandestinidade, sendo cassados os mandatos dos deputados, senadores e vereadores eleitos pela legenda. Como deputado, Carlos Marighella proferiu, em menos de dois anos de mandato, cerca de duzentos discursos, ficando conhecido como um combatente parlamentar, denunciando sempre as precárias condições de vida do brasileiro e a sua miséria contemporânea, promovendo intensamente as lutas sindicais e agrárias no país. Tornou-se um político respeitado até mesmo por seus inimigos.
Cassado o deputado, extinto o PCB, restava o militante clandestino, o homem, que naquele ano iniciaria um romance com Clara Charf, companheira de vida e de luta, que permaneceria ao seu lado até a sua morte.

A Ditadura Militar e as Organizações de Guerrilhas

O período que decorreu entre a cassação parlamentar e a instauração da ditadura militar, fez Marighella redigir vários textos de reflexão sobre a questão agrária no Brasil. Viajou pela China e pela União Soviética. Através das viagens, observava de perto as experiências dos países que aderiram aos regimes revolucionários.
Com a morte de Stálin, a União Soviética adotou uma política revisionista, expandindo-a aos partidos comunistas de todo o mundo. Em 1956, foi divulgado o Relatório Kruschev, denunciando os crimes de Stálin. Marighella, um stalinista histórico, passou um mês sem dormir, chorando na cama como uma criança. A nova linha seguida por Moscou, era considerada demasiadamente branda e conciliadora para que se instaurasse um clima revolucionário. A questão gerou uma crise dentro do PCB, que culminaria com a mudança de nome na legenda, passando de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro. Uma cisão no partido, em 1962, gerou o PC do B, que assumiu o antigo nome do partido.
A linha reformista do PCB contribuiu para que fizesse uma avaliação errônea do golpe militar de 1964. Os militares já marchavam nas estradas e ruas do país, e o Comitê Central do partido insistia que não ofereciam perigo, que não havia clima para um golpe no Brasil. Um erro de avaliação política fatal.
Após o golpe, Luiz Carlos Prestes foi um dos primeiros a perder qualquer direito político. Carlos Marighella foi acossado pela polícia política do novo regime, em um cinema do bairro carioca da Tijuca, em 9 de maio de 1964. Resistiu à prisão, levou três tiros no peito, foi carregado no meio do público até a rua. Já dentro do carro da polícia, ferido, ainda acertou com socos os inimigos, sendo finalmente vencido pelos golpes físicos desferidos por seus algozes. Sua prisão causou repercussão nacional, sua resistência foi transformada em um ato de coragem contra as novas forças políticas instauradas. Após oitenta dias de prisão, foi solto através de hábeas corpus pedido pelo mítico advogado Sobral Pinto.
A falta de visão do PCB diante do golpe militar, a linha reformista que insistia em seguir, divergências entre lideranças, a perseguição do regime, fizeram com que o partido enfraquecesse e fragmentasse, surgindo várias organizações de esquerda. Carlos Marighella passou a criticar abertamente a linha seguida pelo PCB, defendendo a luta armada contra a ditadura. As divergências tornaram-se claras, quando na Conferência Estadual de São Paulo, em 1967, as idéias de Marighella, em oposição às de Luiz Carlos Prestes, saíram vitoriosas. Prestes passou a intervir nos estados brasileiros, para evitar que delegados ligados a Marighella saíssem vitoriosos no VI Congresso.
A crise entre Marighella e o PCB tornou-se aguda quando ele viajou para Cuba, para participar da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS). O PCB enviou um telegrama ao militante, desautorizando-o a participar do evento, ameaçando-o de expulsão. Marighella respondeu que um comunista não precisa de autorização para participar de atos revolucionários, rompendo oficialmente com o Comitê Central. Em represália, o PCB concretizou a sua expulsão.
Longe do PCB, partido no qual militara toda a sua vida, Marighella fundou, em julho de 1968, a Ação Nacional Libertadora (ALN). Através da ALN, promove e dá início à luta armada no Brasil. As ações surpreendem e irritam ao governo. Assaltos a bancos e supermercados possibilitam a arrecadação de fundos para a sobrevivência da organização. Armas são saqueadas dos quartéis. Em setembro de 1969, a ALN e o MR-8 realizavam em conjunto, o mais audacioso dos seus planos, o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. O ato expõe internacionalmente a prática de tortura, até então veementemente negada pelo regime, cria uma situação diplomática desconfortável com o governo da Casa Branca, culminando com a troca de presos políticos pela vida do embaixador. A ação foi a maior vitória dos guerrilheiros revolucionários contra a ditadura dos militares.
A humilhação acirrou o endurecimento da ditadura, deflagrando uma grande operação para prender Carlos Marighella e os seus companheiros, considerados como terroristas. O líder da ALN passou a ser considerado como inimigo público número um, com cartazes de “Procura” espalhados por todo o país. Um ato institucional introduziu a prisão perpétua e a pena de morte para quem praticasse atos terroristas. Estava aberta a caça a Marighella, vivo ou morto.

Prelúdio da Emboscada Final

No último ano de vida de Carlos Marighella, o seu nome apareceu constantemente na imprensa nacional. Chegou a ser capa da revista Veja, na edição número 11, de 20 de novembro de 1968, voltando várias vezes às suas páginas durante 1969. Marighella causava nas pessoas medo pelos seus atos de violência e de guerrilha, e ao mesmo tempo, uma certa admiração aos que se opunham às truculências da ditadura. A imprensa descrevia-o de forma imparcial, fazendo dele uma figura cruel, e ao mesmo tempo romântica, numa época sangrenta e de radicalização da esquerda agonizante e da direita especializada na arte da tortura e do assassínio.
Por outro lado, Marighella apostava intensamente na deflagração da guerrilha rural. Planejava deixar São Paulo e o perímetro urbano, mudando-se para o meio rural. Tinha a viagem programada para 9 de novembro de 1969. Os seus planos vazaram, e os militares tinham pressa em capturá-lo e eliminá-lo de vez.
Em 1969, a “Veja” número 59, de 22 de outubro, três edições antes de trazer na capa um Marighella fuzilado e morto, apontava para um possível fim dos atos terroristas no Brasil, sugerindo explicitamente que o líder da ALN estaria em São Paulo, e que todas as saídas para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, litoral e oeste paulistas estavam vigiados, e que não havia como o líder guerrilheiro fugir sem ser morto. O cerco e a morte estavam anunciados.
Sob tortura, o militante da ALN Paulo de Tarso Venceslau, revelou uma importante pista à polícia do regime, a de que Marighella tinha uma ligação com membros da ordem religiosa dos dominicanos.
Ao investigar a pista, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, considerado o maior carniceiro dos porões da ditadura, descobriu que era verdadeira. Os dominicanos Fernando, Betto, Ivo, Ratton, Oswaldo, Tito e Magno colaboravam com algumas organizações ligadas às guerrilhas urbanas, escondiam perseguidos, ajudavam a que atravessassem as fronteiras no sul do país ou que se deslocassem para outras cidades. Os dominicanos passaram a ser alvo de intensas investigações.
No primeiro fim de semana de novembro de 1969, Frei Fernando seguiu para o Rio de Janeiro, para encontrar Sinval de Itacaramby Leão, da Editora Vozes, para acertar uma publicação. Fernando trabalhava na Livraria Duas Cidades, em São Paulo. Na viagem, foi acompanhado por Frei Ivo, que aproveitaria para visitar a família. No domingo, 2 de novembro, foram presos no Catete, pela equipe de Fleury, levados para o Cenimar (Centro de Informações da Marinha), e submetidos a torturas durante horas consecutivas. Frei Fernando sucumbiu às torturas, revelando a senha que possibilitaria um encontro com Marighella.
Transferido para a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, Fernando teve a permissão para um banho e para fazer a barba. No dia 4 de novembro foi levado para a Livraria Duas Cidades, para que trabalhasse sob vigilância. Por volta das 16h00 recebeu um telefonema cifrado: “Ernesto pediu que vocês o encontrem na gráfica hoje, às 20h00.” Fernando respondeu: “Sim”.
A voz era de Antonio Flávio Médici de Camargo, contato de Marighella. “Ernesto” era a senha. O telefonema estava sob escuta. Imediatamente foi montado um esquema de emboscada para que se efetuasse a prisão de Marighella. Horas depois, Fernando e Ivo foram obrigados a participarem da emboscada, sendo postos no fusca azul que costumavam usar para os encontros com o líder da ALN. Escoltados, seguiram para o bairro dos Jardins, no centro de São Paulo.

Emboscada e Morte

Por volta das 18h30, começava a ser armada a emboscada na Alameda Casa Branca, no bairro dos Jardins. Coordenada por Rubens Cardoso de Mello Tucunduva e executada pelo delegado Sérgio Fleury. Cinco veículos trouxeram os policiais que participariam da operação. Em um dos carros estava Fleury e duas investigadoras, dois outros automóveis foram distribuídos no cruzamento das alamedas Casa Branca e Lorena, servindo de cobertura; um carro foi posto na esquina da rua Tatuí, outro em um estacionamento da Alameda Casa Branca. O número de policiais envolvidos na emboscada diverge nos relatos, uns apontam para 29 homens, outros para exatos 45 e mais o cão Átila.
A noite parecia tranqüila, era uma terça-feira, 4 de novembro de 1969. Poucos minutos antes das 20h00, o militante Jeová de Assis Gomes deixou Carlos Marighella e Luís José Cunha, o Gaúcho, na esquina da rua Oscar Freire com a Alameda Casa Branca. Marighella ficou à espera que Gaúcho fizesse o reconhecimento do local e atestasse a sua segurança. Gaúcho caminhou lentamente pela Casa Branca, observando todos os detalhes e possíveis perigos. Viu um dos carros ocupados por Fleury, um investigador e duas investigadoras, que simulavam um encontro de inocentes namorados. Chegou a um ponto onde estavam policiais disfarçados de operários, a simularem a entrega de material numa construção. Avistou o fusca com Frei Fernando e Frei Ivo dentro. Tranqüilizou-se, indo ao encontro de Marighella, apontou o polegar para cima, em sinal de que estava tudo sobre controle. O líder guerrilheiro começou a atravessar a alameda, rumo ao carro dos frades. Naquele momento, ignorava que 23 dominicanos tinham sido presos, entre eles Frei Fernando e Frei Ivo. Imprudentemente, ele caminhou sozinho e confiante até o carro dos frades, trajando um terno claro, camisa branca de riscas azuis, tendo apenas uma peruca de cabelos castanhos como disfarce. De repente, tiros começaram a soar de todas as direções. Cinco minutos depois, o temido guerrilheiro estava morto.
A versão oficial dos detalhes da emboscada, dizia que Sérgio Fleury deu ordem para que Marighella se rendesse, mas ele não obedeceu. A polícia afirmava que entrou em confronto com cerca de treze homens da segurança de Marighella, o que gerou o tiroteio que mataria além do guerrilheiro, a investigadora Estela Borges, que se fazia de namorada de Fleury, e, o alemão Friedrich Adolf Rohmann, um protético de 54 anos, que passava pelo local, dirigindo um Buick preto. Feriria ainda Tucunduva na perna, fazendo-o passar por doze cirurgias.
Na versão oficial, divulgada pela revista “Veja”, dois tiros teriam atingido o rosto de Carlos Marighella, um outro no ventre, e o que lhe causara a morte, na perna, perfurando a artéria femoral, provocando intensa hemorragia seguida de morte. Ele teria sido morto dentro do fusca dos frades dominicanos. A imagem de Marighella morto dentro do fusca, estampada na capa da revista, ficaria famosa. Marighella não teve tempo de usar a arma que trazia, ela estava intacta, dentro da capanga, que continha ao lado uma escova de dente, um aparelho de barbear e duas cápsulas de cianureto, que deveria engolir caso fosse capturado.
O laudo cadavérico foi feito pelo legista Harry Shibata, famoso por assinar falsos atestados de óbitos de militantes mortos por tortura. Este laudo foi cuidadosamente analisado pelo médico legista Nelson Massini, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Massini analisou também dezessete fotografias dos arquivos, tiradas da emboscada. Concluiu que Marighella não foi morto dentro do fusca, nas fotos a camisa dele está levantada e a calça um pouco abaixada, o que sugere que foi arrastado pelos braços. Também as balas encontradas no corpo não coincidem com as marcas encontradas no fusca. O ângulo da perfuração, segundo Massini, torna impossível que o tiro final tenha sido dado dentro do veículo. Na sua análise, Marighella recebeu quatro tiros, um nas nádegas, outro na região pélvica, um de raspão no queixo e o quarto, à queima-roupa, que lhe perfurou a aorta e o pulmão, provocando a hemorragia interna que o matou. O tiro de misericórdia foi desferido ainda com Marighella vivo, que tentou, intuitivamente defender-se segurando a arma do seu algoz, fazendo com que a bala que o matou, dilacerasse um dos seus dedos da mão esquerda. O tiro fatal foi feito de uma curta distância. Depois de morto, o seu corpo foi carregado para dentro do fusca, deixado em estranha posição.
O tiroteio que a polícia alegou ocorreu entre ela mesma, e não contra os seguidores de Marighella, visto que em um confronto entre supostos treze militantes e quarenta policiais, não tombou um guerrilheiro. Carlos Marighella morreria executado sem nenhuma possibilidade de defesa. Sua morte já tinha sido determinada nos bastidores da ditadura. Após a autópsia realizada em sigilo, foi enterrado em uma cova rasa, no cemitério de Vila Formosa, São Paulo. Seu corpo foi escoltado por duas viaturas do DOPS, além de quinze agentes armados de metralhadoras, impedindo que alguém se aproximasse.
Dez anos depois, em dezembro de 1979, o corpo foi trasladado para o cemitério das Quintas dos Lázaros, em Salvador. Foi proferido um discurso em sua homenagem, escrito por Jorge Amado. Seu túmulo foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. No local da execução de Marighella, no número 822 da Alameda Casa Branca, foi posta uma placa em sua homenagem, com nome e data. Em 1996, o Estado reconheceu a sua responsabilidade na execução de Marighella, e a sua mulher, Clara Charf, teve direito a indenização, em 2008.
Quatro décadas após a morte de Carlos Marighella, ele continua a ser uma personagem enigmática da história brasileira. Poeta, revolucionário, político, guerrilheiro, inteligente, violento, sua mítica fascina muitos e traz repugnância a outros. Aclamado assassino e terrorista pelas autoridades, e, herói da resistência à ditadura pela população, Marighella continuará a ser um enigma, que se decifrado, revelará uma face ainda obscura do Brasil recente.


ANISTIA – A VOLTA DOS EXILADOS

outubro 23, 2009

Com o fim do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que deixou de vigorar em janeiro de 1979, estava aberto o caminho para que se aprovasse uma lei que trouxesse a anistia aos presos, exilados e processados pelos chamados crimes por motivação política.
A luta pela anistia no Brasil tornara-se intensa, ultrapassando os partidos de esquerda clandestina, atingindo, desde 1975, setores concretos e importantes da sociedade brasileira. Se em 1964 as mulheres, a igreja e os empresários uniram-se em passeatas para receber o golpe militar, o panorama político mudara diante da truculência da ditadura instaurada no país e, já não se acreditava no engodo que foi contado sobre uma possível revolução comunista. Mães, esposas, filhos e amigos de presos políticos, ao lado de estudantes, políticos, jornalistas e fortes adesões populares, uniram-se e formaram comitês de luta pela anistia geral, ampla e irrestrita a todos os brasileiros exilados naquele triste e obscuro período da ditadura militar.
Pressionado pelos movimentos pela anistia, o governo encaminhou, em julho de 1979, um projeto de lei ao Congresso Nacional, que previa o perdão aos crimes políticos. A proposta do governo, que excluía os condenados por terrorismo e favorecia aos militares e às autoridades responsáveis pelos atos de tortura, já tinha sido rejeitada antes, pela oposição do partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que exigia uma anistia ampla, geral e irrestrita.
Mesmo sob protestos e limitada diante do que ansiava a sociedade brasileira, por 206 votos contra 201, foi aprovada a Lei 6.683, sancionada no dia 28 de agosto de 1979, pelo último presidente da ditadura militar, João Figueiredo. A Lei da Anistia beneficiou 4.650 pessoas, fazendo com que retornassem ao país os políticos que, em 1964, foram tidos como os maiores inimigos do regime militar: os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes. Algum tempo depois, os aeroportos brasileiros foram tomados pelo regresso, um a um, dos chamados apátridas, que um dia, por lutar contra a ditadura militar, saíram pelas portas do fundo da história do Brasil. A volta era apoteótica, em clima de festa, com ampla cobertura da imprensa. Era a maior vitória contra o governo repressivo instalado desde 1964.
Três décadas após a promulgação da lei, em 2009, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, ex-marinho e militante de organizações de esquerda, foi o último exilado político a retornar ao Brasil, fechando para sempre o ciclo.
A Lei da Anistia desde que promulgada, teve alguns dos seus artigos revogados, e ainda é polêmica, uma vez que deixou isenta da punição os carniceiros dos porões da ditadura, que torturam e mataram centenas de pessoas. Mesmo diante das contestações, foi sem dúvida o maior passo para a volta das lideranças opositoras e históricas e para que se enterrasse de vez, a ditadura militar, finda em 1985.

As Mulheres Dão Início à Luta Pela Anistia

Após a imensa passeata pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu as tropas insurgentes comandadas pelo general golpista Olympio Mourão Filho, e a deposição do presidente João Goulart consolidada; começaram de imediato, a perseguição, a cassação, a tortura e os expurgos, que atingiram civis e militares contrários ao golpe.
Na primeira fase da ditadura, pré-AI-5, a tortura, embora mais discreta, só perdeu para as cassações. Após dezembro de 1968, promulgado o AI-5, retirou-se o hábeas corpus aos presos políticos, tendo como conseqüência à banalização e a institucionalização da tortura. Leis repressivas, como a Lei de Segurança Nacional, ou a da pena de morte para os chamados terroristas, foram implementadas. Os militantes de esquerda perderam os seus direitos civis, passando a viver na clandestinidade.
Numa resposta imediata às medidas repressivas do governo militar, a esquerda instituiu as guerrilhas urbanas e os seqüestros a diplomatas estrangeiros no Brasil. Vários presos políticos foram trocados pelos reféns. Na troca, eles eram postos em aviões e enviados para qualquer país que se dignasse a recebê-los. Uma vez fora do Brasil, esses presos políticos perdiam o direito à cidadania, tornando-se apátridas. Desde então, iniciava-se, timidamente, uma luta para que se anistiasse os presos e perseguidos do regime.
A luta pela anistia não significava somente a busca da redemocratização e a reconquista dos direitos políticos, como também da devolução da cidadania aos clandestinos e aos apátridas, além de pôr fim às torturas nos calabouços.
Oficialmente, a luta ela anistia partiu das mulheres brasileiras. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU), declarou aquele como o Ano Internacional da Mulher. Nas comemorações ao evento, Therezinha de Godoy Zerbini, respeitada advogada, mulher do general Euryale Zerbini, cassado em 1964 por dar o seu apoio ao governo de João Goulart; fundou em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), que se tornaria uma voz da sociedade civil na luta contra as medidas repressivas do regime, a favor do fim dos atos de exceção contra os presos políticos e os exilados.
Curiosamente, o movimento partia de uma tradicional família de militares, confirmando que nem todos daquele setor da sociedade brasileira eram favoráveis à ditadura instaurada em 1964. Therezinha de Godoy Zerbini foi sempre vigiada pela polícia repressiva do regime. Chegara a ser presa sob a acusação de ter intermediado o empréstimo do sítio em Ibiúna, onde se deu o famoso e fatídico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Ao lado de mais oito mulheres, a advogada redigiu um manifesto em prol da anistia, lendo-o na Cidade do México, durante uma conferência da ONU, em comemoração ao Ano Internacional da Mulher.

Eclodem os Movimentos Pela Anistia

Conclamando toda a nação a lutar pela anistia, o movimento feminino espalhou-se por vários setores da sociedade, trazendo para si as adesões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da igreja católica e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, entre outras. Em 1976, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, teve o aplauso de três mil pessoas quando, em reunião, aprovou uma moção pela anistia. Em 1978, foi fundado na cidade do Rio de Janeiro, o Comitê Brasileiro pela Anistia, com sede na ABI. O Brasil aderia, de norte a sul, àquele movimento.
A luta alcançou, também, setores liderados por políticos que faziam parte da sustentação do governo, como o senador Teotônio Vilela. Ao visitar os 84 presos políticos que faziam greve de fome por todo o Brasil, o senador entrou em contacto com a triste realidade da tortura no país, comprovando o terror que se abatia sobre aqueles prisioneiros. Emocionado, Teotônio Vilela ajoelhou-se diante das vítimas da tortura e pediu perdão por não ter visto antes tamanha barbárie. O senador tornar-se-ia um veemente defensor da redemocratização do Brasil. Na luta pela anistia, saiu em comícios pelo país, soltando uma pomba como símbolo da esperança. O seu gesto seria repetido nos comícios do movimento pelas Diretas Já, em 1984. Teotônio Vilela entraria para a história com a alcunha de “Menestrel das Alagoas”.
Ao ver aflorar tantos movimentos, o governo decidiu ele próprio enviar um projeto de anistia para o Congresso, evitando que se estendesse para os seus maiores inimigos, chamados de terroristas, e que salvaguardasse os militares e civis envolvidos diretamente com a tortura no Brasil, evitando que sofressem punições ou retaliações futuras.
Assim, o então ministro da justiça, Petrônio Portella, redigiu o projeto de lei, em julho de 1979, enviando-o para ser votado no Congresso em agosto. O texto final seria divulgado em uma cerimônia transmitida pela televisão.
Nos bastidores, a oposição ao regime militar condenava o projeto e às limitações que trazia. De 22 de julho a 22 de agosto de 1979, foi realizada uma greve de fome em todo o Brasil pelos presos políticos, contrários ao projeto da lei da anistia redigido por Petrônio Portella. Nos movimentos que eclodiam pelo país, as palavras de ordem eram: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”.

Promulgada a Lei

Concretamente, o projeto beneficiava aos presos que se enquadravam nas punições previstas pela Lei de Segurança Nacional. De abril de 1964 a julho de 1979, 2.429 pessoas tinham sido condenadas por aquela lei. Eles estavam divididos em dois grupos para efeito de anistia:
O primeiro grupo, composto por 1.729 pessoas, era o dos punidos por crimes políticos propriamente ditos, sendo eles os militantes clandestinos que não se haviam envolvido com o terrorismo. Assim, a lei beneficiava de imediato, o líder comunista histórico Luís Carlos Prestes; antigos líderes estudantis, como Vladimir Palmeira; o líder político e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola; o sociólogo Herbert de Souza, o irmão do Henfil, que seria imortalizado pela música “O Bêbedo e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc; e vários outros.
O segundo grupo, composto por 700 condenados, reunia os condenados por assalto a bancos e atos de terrorismo. Diante das críticas, Petrônio Portella declararia que futuramente, alguns deles, poderiam receber indultos.
Finalmente, no dia 22 de agosto de 1979, o projeto seguiu para votação no Congresso. Naquele dia, em Brasília, três mil pessoas foram às ruas em um ato público para exigir a anistia geral e irrestrita. No plenário do Congresso Nacional, não sobrou espaço vazio mediante a multidão que o encheu. Nas galerias, ouvia-se os populares, que vaiavam retumbantemente a cada discurso proferido pelos representantes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o repressivo partido do governo. Ao fim de uma votação acirrada, foi aprovada, por 206 votos contra 201, a anistia aos crimes praticados por motivações políticas no Brasil.
Em 28 de agosto de 1979, o presidente militar, general João Batista Figueiredo, sancionava a Lei nº 6.683, redigida pelo governo da ditadura, que seria conhecida como a Lei da Anistia. Era o chamado perdão que o governo repressivo, vencedor em 1964, dava aos seus inimigos vencidos e futuros vencedores da redemocratização, em 1985. Eram anistiados todos os cidadãos punidos desde 9 de abril de 1964, data da edição do Ato Institucional nº 1 (AI-1). Estudantes, intelectuais, professores, cientistas, ex-militares, principalmente de baixas patentes, muitos afastados das suas funções, receberam o benefício da nova lei.
Mas a Lei da anistia trazia as suas restrições. O reaproveitamento de servidores públicos e de militares anistiados, ficou sujeito à decisão de comissões especiais criadas pelos respectivos ministérios para estudar cada caso. Ficaram de fora as pessoas condenadas pelos classificados “crimes de sangue” ou atos terroristas, praticados por aqueles que recorreram a grupos de luta armada. Os que cometeram crimes de sangue contra a esquerda, os militares torturadores e assassinos, foram todos beneficiados.
A Lei da Anistia atingiu e beneficiou 4.650 pessoas. Libertou presos políticos que se encontravam nos calabouços brasileiros; beneficiou os destituídos dos seus empregos e funções; possibilitou a volta dos exilados. No dia 1 de novembro de 1979, começavam a chegar nos aeroportos, os primeiros exilados políticos. Miguel Arraes, Herbert de Souza, Leonel Brizola, Fernando Gabeira… Cada um que chegava, era recebido entre aplausos e sorrisos, sob o registro da imprensa nacional.
Em 1985, Theodomiro Romeiro dos Santos, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o único preso político que havia sido condenado à morte por ter assassinado um sargento da Aeronáutica, em 1970; foi o último exilado político a ser anistiado, perdão concedido pela redemocratização do país. Mas, curiosamente, o último exilado político a voltar para o Brasil, em 2009, trinta anos depois da promulgação da Lei da Anistia, foi o ex-marinheiro e militante das guerrilhas urbanas, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, aos 75 anos. Ele vivera até então, exilado na Suécia, com uma identidade falsa. Não retornou antes, porque não acreditava que a anistia concedida era verdadeira.
Ao trazer os brasileiros “apátridas” de volta, libertar os opositores ao regime das prisões, foi encerrado um período de dor e de vergonha da história do Brasil. Os anistiados torturados, agradeceram à Lei da Anistia, apesar de contestá-la em vários pontos; os anistiados torturadores, jamais fizeram um pedido de desculpa à nação, arrogantemente, continuam a conclamar que cumpriram com o dever patriótico, protegendo a nação. Que nação eles protegeram? A da minoria da elite que representaram?


DIRETAS JÁ! – QUANDO O POVO VOLTOU ÀS RUAS

agosto 28, 2009

1984 seria o último ano de governo do presidente João Figueiredo. Era preciso escolher o seu sucessor. Desde que o golpe militar fora instalado em abril de 1964, a escolha de cada presidente militar que governou a ditadura era feita por um colégio eleitoral, sem a participação do povo. Figueiredo terminava o mandato ante a um panorama político e histórico diferente do dos seus antecessores. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) tinha sido extinto, a lei da anistia, que permitia a volta dos exilados políticos tinha sido promulgada, em 1979. Avanços que vislumbravam o fim dos militares no poder e a abertura do sistema ditatorial foram alcançados, um deles tinha sido as eleições de 1982, que trouxeram de volta o voto direto para eleger os governadores dos Estados. Faltava a ambição máxima do sonho de liberdade política, o voto direto para a escolha do presidente da República.
Aproveitando a esmagadora vitória que obtivera nos estados economicamente mais importantes do país, a oposição chegou à conclusão que seria hora de iniciar um movimento para voltar a ter eleições diretas para presidente, ato que acontecera pela última vez em 1960.
Assim, os partidos de oposição da época, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) de Ulisses Guimarães, o PT (Partido dos Trabalhadores) de Lula, e o PDT (Partido Democrático Trabalhista) de Leonel Brizola, pela primeira esqueceram as divergências políticas e se uniram na luta pela volta das eleições presidenciais no Brasil. O movimento tomou forma em torno do projeto de Emenda Constitucional do deputado do PMDB, Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições presidenciais já para o ano de 1984, extinguido de vez o Colégio Eleitoral. O projeto foi apresentado em 2 de março de 1983.
Na casa do então governador de São Paulo, Franco Montoro, uma reunião de alguns líderes da oposição, feita em outubro de 1983, decidiu que deveriam ser feitos alguns comícios favoráveis à aprovação da Emenda Dante de Oliveira, como o projeto daquele deputado passou a ser chamado. Nasciam os grandes comícios do movimento das Diretas Já, que levou milhares de brasileiros às ruas, numa manifestação popular jamais vista pelo regime militar.
Os comícios pelas Diretas Já trouxeram grande euforia à população, crescendo como um estopim a partir do carnaval de 1984. Políticos e artistas subiam aos palanques, sendo aplaudidos por milhares de manifestantes, que passaram a trajar camisas amarelas, bater panelas e fazer do ato político uma grande festa. A festa da esperança, do fim da opressão e da ditadura instaurada há vinte anos. O povo, após um silêncio mantido pela repressão e pela tortura, voltou às ruas para exigir os seus direitos cívicos e um governo legítimo.
A Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso Nacional, em 25 de abril de 1984. Mas os quatro meses que durou o Movimento das Diretas Já mudaram para sempre a face da política no Brasil, trazendo um novo tempo e o desgaste final do regime militar, que expiraria nos próximos meses. As Diretas Já fez o brasileiro acreditar que era possível lutar pelo fim da mais negra das ditaduras do país.

O Cenário Político Pré Diretas Já

A abertura política no Brasil foi sendo dada lentamente, quase a conta gotas. A máquina construída pelo regime militar instituído em 1964 parecia perfeita, digna de ser comparada às maiores ditaduras do mundo e ao estado nazista. Na estrutura de abertura, minuciosamente programada pela genialidade opressiva dos que insistiam em associar democracia com perigo à soberania nacional, chamar de Estado de exceção a um regime sanguinário e ilegítimo; vários golpes foram dados no povo e nos oposicionistas.
O governo militar extinguira , logo no início, o pluripartidarismo, criando apenas dois partidos: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido do governo, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição confiável. Com o passar dos anos, o MDB transformou-se em uma grande frente democrática, abrigando sob a sua legenda todos os partidos clandestinos, como o PCB (Partido Comunista Brasileiro), o PC do B (Partido Comunista do Brasil) e o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).
Em 1979 o AI-5 foi extinto e a Anistia promulgada. Vários líderes oposicionistas, inimigos históricos da ditadura, puderam voltar ao país. A abertura política previa eleições mais amplas, que trariam de volta o voto direto para governador de Estado, programadas para 1982. Temendo uma grande derrota nas urnas, os militares e os seus aliados criaram grandes obstáculos na realização dessas eleições. Transformaram a antiga Arena no PDS (Partido Democrático Social), que se manteve coeso, e incitaram a volta do pluripartidarismo, no intuito de dividir a oposição. No novo contexto político, o MDB passou a ser o PMDB. Surgiu uma nova frente política, o PT, liderado por sindicalistas e intelectuais. Num golpe histórico, os militares não deixaram que Leonel Brizola ressuscitasse o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de Getúlio Vargas, dando a legenda a Ivete Vargas, uma política próxima ao PDS. Ao perder a legenda, Brizola fundou um novo partido, o PDT, que já nasceu pequeno e sem grande força política, o que favoreceu ao regime.
Outro conjunto de medidas foi criado para que o partido do governo não perdesse nas urnas. Foram proibidas as coligações partidárias e instituído o voto vinculado, ou seja, o eleitor teria que escolher candidatos do mesmo partido para vereador, prefeito, deputados estadual e federal, senador e governador, sob pena de anular o voto se assim não o fizesse. Mesmo diante de medidas que confundiam um povo que há vinte anos exercera o sufrágio pouquíssimas vezes, no dia 15 de novembro de 1982, a oposição venceu nos principais estados do Brasil: São Paulo, com Franco Montoro; Minas Gerais, com Tancredo Neves; e, Rio de Janeiro, com Leonel Brizola. Estavam formadas as bases para que se lutasse pelas diretas presidenciais.

Surge o Movimento das Diretas Já

Após as eleições de 1982, a oposição sentia que poderia tentar eleger o presidente sucessor de João Batista Figueiredo através do voto direto, e não esperar até 1989 para ir às urnas, conforme o que estava programado pelos militares. Em 1983, o senador Teotônio Vilela ousou a propor na televisão, no “Programa Livre”, a criação de um movimento que tivesse como objetivo a luta pela volta das eleições diretas para presidente. No mesmo ano, Ulisses Guimarães, deputado federal, fundador e presidente do PMDB, despertou para o proposto por Teotônio Vilela, quando participou em Goiânia, de um ato público pelas eleições diretas. O evento estava programado para ser realizado no auditório de uma faculdade. Surpreendentemente, o local tornou-se pequeno, pois uma multidão parou nas ruas para ouvir o que os oradores falavam, gerando uma manifestação espontânea que reuniu cinco mil pessoas.
Ainda no início de 1983, Dante de Oliveira, deputado federal eleito pelo PMDB, em 1982, apresentou o Projeto de Emenda Constitucional nº 5, que previa a volta das eleições diretas para presidente em 1984, que passaria para a história como a Emenda Dante de Oliveira.
No fim do ano de 1983, após comícios acontecidos em alguns locais, como o da Praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu, em São Paulo, que reuniu dez a quinze mil pessoas; Ulisses Guimarães chegou à conclusão que o movimento estava a crescer, e teria que ter coesão e apoio de todas as lideranças. Para atingir o objetivo, era preciso que o presidente do maior partido de oposição negociasse com as diferentes estâncias da oposição.
Após todas as negociações, em 5 de dezembro de 1983, Ulisses Guimarães e os governadores da oposição, eleitos no ano anterior, criam um calendário oficial de comícios e passeatas em favor da antecipação das eleições diretas, programadas pelo governo para 1989.
Em 1984 tem início a Caravana das Diretas, comissão formada pelos principais partidos de oposição ao regime militar, tendo o apoio de mais de duzentas entidades. Oficialmente, Curitiba foi a cidade que viu nascer a maior mobilização popular da história do Brasil. O comício, realizado em janeiro de 1984 na capital paranaense, reuniu cerca de quarenta mil pessoas, sendo chamado de Campanha das Diretas Já.
O movimento, logo assimilado pelo povo, foi atraindo mais e mais pessoas às ruas e aos comícios. Durante quatro meses, milhares de pessoas foram às ruas, pedindo para votar para presidente e pelo fim da ditadura. A poderosa força que uniu a população em torno de um ideal comum, assustaria profundamente o regime da caserna, desgastando-o e dividindo-o.

Os Grandes Comícios

O movimento ganhou grande visibilidade quando realizado em São Paulo. Naquele ano a cidade atingia a idade histórica de 430 anos. O comício das Diretas Já foi marcado para o dia do aniversário da Paulicéia, 25 de janeiro. Subitamente, a Praça da Sé, local da manifestação, reuniu trezentas mil pessoas. Na época, a maior emissora do Brasil, a TV Globo, não percebendo a importância e as conseqüências daquele momento histórico, omitiu o fato de que se tratava de um comício pelas eleições diretas, transmitindo o evento para todo o país como uma festa de aniversário da capital paulista. A partir de então, todos os comícios que assolariam as principais cidades do Brasil, quando recebiam a cobertura da Globo, ouviam a multidão gritar: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!
Não se poderia mais ignorar o movimento, muito menos minimizar a sua importância. Os comícios alastraram-se por Pernambuco, Rio de Janeiro, Amapá, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e diversos outros estados. O comício realizado na Candelária, no centro do Rio de Janeiro, reuniria cerca de um milhão de pessoas. Foi tão marcante que, o próprio presidente Figueiredo, na época em viagem ao Marrocos e à Espanha, teria declarado que seria o um milhão e um na Candelária. Mais tarde, o presidente desmentiria o comentário.
No carnaval de 1984, duas epidemias marcaram aquele verão, um grande surto de conjuntivite, que infectou milhares de brasileiros; e, o das Diretas Já, que arrebatou e contaminou toda a nação, unida por um grito de liberdade e sonho de terminar com uma ditadura de vinte anos.

Negociações de Bastidores

Mas a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, apesar da grande pressão popular, estava longe de ser aprovada. Várias negociações passaram a ser feitas entre a oposição e muitos líderes do governo, que diante do desgaste político da ditadura, passaram a temer por seus futuros como políticos no novo cenário que se desenhava no país. Passaram a surgir os chamados arrependidos. Eram neles que a oposição apostava, já que para a emenda ser aprovada, eram necessários 320 votos, o equivalente a dois terços dos votos da Câmara, e outro tanto no Senado. Não contando com tantos parlamentares, a oposição investiu nos “arrependidos”.
Mas o governo apercebeu-se da possível debandada que ameaçava o seu partido. Para evitar a traição da base aliada, já temente de ir contra a reação daquela manifestação massiva do povo, que com o possível fim da ditadura, tornar-se-ia legítimo eleitor e eleitorado; o chefe do Gabinete da Casa Civil, João Leitão de Abreu, formulou, às pressas, uma emenda que antecipava as eleições de 1989 para 1988. Com esta emenda, negociou com os parlamentares indecisos.
A votação da Emenda Dante de Oliveira foi marcada para o dia 25 de abril de 1984. Nos bastidores, negociações entre oposição e situacionistas apontavam para uma outra solução que não seria a da aprovação da emenda, sonhada e exigida pelo povo. O PMDB jogava com duas frentes, de um lado o da mobilização popular que clamava pelas eleições diretas, com Ulisses Guimarães como candidato a presidente; e a frente que negociava com deputados e senadores, que diante de um possível fracasso na aprovação da emenda, apostariam no Colégio Eleitoral, com o nome de Tancredo Neves para presidente.

A Festa das Diretas Já

As manifestações de ruas, normalmente impulsionadas pelos comícios, passaram a adquirir características particulares. Os próprios comícios tinham uma estrutura peculiar. Reunindo políticos e artistas no palanque, eles eram iniciados pelo jornalista Osmar Santos, comentarista esportivo da TV Globo, que tinha grande prestígio de público e de mídia na época. No microfone discursavam além das lideranças políticas, artistas, líderes estudantis e sindicalistas. Alguns nomes passaram a dar rosto e voz aos comícios: Ulisses Guimarães, tido como a própria voz do movimento; Leonel Brizola, Franco Montoro, Luiz Inácio Lula da Silva, Mário Covas, José Serra, Miguel Arraes, Eduardo Suplicy, José Richa, Chico Buarque, Taiguara, Fernando Henrique Cardoso, Fafá de Belém, Tancredo Neves, Christiane Torloni, e muitos outros.
Em 27 de novembro de 1983 Teotônio Vilela, que deixara o governo militar e aliara-se à oposição para combatê-lo, morreu vítima de um câncer. A morte do senador foi lamentada pelo país, que via nele uma grande evolução da política que representara durante décadas, no caminho rumo à democracia. Nos comícios foi eleito o patrono do movimento pelas Diretas Já. Como num ritual, a cantora Fafá de Belém iniciava a sua intervenção soltando uma pomba branca, repetindo o gesto do próprio Teotônio Vilela quando discursou em comícios pela promulgação da Anistia. A seguir, Fafá de Belém cantava “Menestrel das Alagoas”, canção que Milton Nascimento e Fernando Brant fizeram em homenagem a Teotônio Vilela. Nos últimos comícios, passou a cantar o Hino Nacional Brasileiro, causando grande polêmica aos militares, que julgaram um insulto a um símbolo nacional. Outras canções eram puxadas pelo coro de milhares de pessoas, como “Caminhando”, de Geraldo Vandré. No fim do ano, já com o sonho das Diretas Já encerrado pela história, Chico Buarque compôs em sua homenagem a canção “Pelas Tabelas”.
Na última semana que antecedeu à votação, a população brasileira passou a vestir-se diariamente de camisa amarela, agitando bandeiras, batendo panelas, trajando fantasias, adereços, máscaras, bonecos gigantes; lembrando ao regime que o povo queria os seus direitos de cidadãos há duas décadas usurpados. As ruas das cidades brasileiras viraram palcos de festas pelo sonho da volta da democracia. Ao contrário do famoso comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, que manifestações da esquerda assustaram com os seus cartazes de teor comunista, os comícios das Diretas Já traziam não só palavras de ordem, mas uma festa de caráter nacional. Esta postura intimidava aos políticos do regime, e ao próprio regime, que diante de uma festa tão grandiosa de teor político, viu-se acossado, sem poder tomar medidas abertas de estratégica repressiva. O regime militar calou-se diante das festas e dos comícios. Um silêncio velado, pronto para explodir a sua truculência a qualquer momento.
O último comício antes da votação da emenda Dante de Oliveira foi realizado no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril, reunindo um milhão e meio de pessoas. Era a apoteose da festa, o baile final do maior movimento popular do Brasil.

O Dia da Votação da Emenda

Mas a resposta da ditadura agonizante não tardou. Na tentativa de intimidar a população, uma pane misteriosa no sistema elétrico do país deixou, por uma hora, três estados na completa escuridão, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os mais populosos e governados pelos líderes das Diretas Já.
No dia da votação, 25 de abril de 1984, veio a truculência da ditadura militar sobre o povo brasileiro. O então ministro da justiça, Ibrahim Abi-Ackel, assinou as medidas que pôs Brasília em estado de emergência. Numa demonstração de forças, o general Newton Cruz, comandante militar do Planalto, desfilou nas ruas os seus tanques de guerra. Uma grande marcha de estudantes e pessoas civis que se dirigia para Brasília para pressionar a aprovação da emenda, foi impedida de entrar no Distrito Federal. Tropas tomaram as fronteiras de Brasília e do sul do estado de Goiás, declarando esta parte do país zona de segurança nacional. As comunicações da capital federal com o resto do Brasil foram cortadas. Nenhum veículo, televisão ou rádio, transmitia quaisquer notícias vindas do Congresso. Newton Cruz , numa truculência decadente, desfilava pelas ruas de Brasília montado em um cavalo, de rebenque na mão, tentando silenciar o povo. Alguns líderes estudantis foram presos na capital federal.
O povo não se deixou intimidar. Um placar foi instalado na Praça da Sé, em São Paulo, com o objetivo de registrar nomes e votos dos congressistas. A todas as medidas repressivas de emergência, respondeu batendo panelas e apertando buzinas dos automóveis, os chamados “panelaços” e “buzinaços”. No dia da votação, vários palanques foram montados nas praças das principais cidades brasileiras. Mesmo sem notícias do Congresso, as pessoas mantiveram unidas em torno dos palanques da sua cidade. A votação estender-se-ia pela madrugada. Notícias vinham através de telefonemas, numa época em que não se existia telefones móveis.
Na madrugada veio o resultado: a emenda não foi aprovada. 298 deputados disseram sim; 65 disseram não; 113 não compareceram e 3 se abstiveram. A emenda foi derrotada por uma diferença de 22 votos. Estava mantida a eleição indireta para a sucessão do presidente João Figueiredo.
No dia seguinte, a nação brasileira estava de luto. As pessoas desfilavam pelas ruas de camisa amarela com uma fita preta no peito. Os deputados que votaram contra a emenda, tinham os seus nomes divulgados nas câmaras das suas cidades. Muitos foram recebidos com vaias no aeroporto dos seus estados. Os grandes jornais brasileiros trouxeram uma tarja preta na primeira página, sem manchetes, mostrando repúdio e um silêncio simbólico. O sonho de votar para presidente tinha findado, as Diretas Já foram encerradas.Poucas vezes na história do Brasil os congressistas foram confrontados com um desejo tão explícito do povo. Diante da pressão popular, o partido da ditadura rachou. Muitos migraram para os partidos de oposição. Naquele ano, no Colégio Eleitoral, foi eleito um presidente civil e de oposição, Tancredo Neves. Estava encerrada a época dos generais na presidência do Brasil.