DRÁCULA E OS VAMPIROS

Novembro 14, 2009

Desde a antiguidade que o mito do vampiro suscita a curiosidade das pessoas. Suas lendas estão envoltas de mistério e perigo. O vampiro representa o homem e a sua eterna vontade de ser jovem, indo contra as leis da natureza e das religiões para obter essa juventude. O vampiro não morre, não envelhece, alimenta-se do sangue, o que lhe garante atravessar os séculos. É esta perenidade cruel que tanto seduz as pessoas, fazendo dos vampiros seres mitológicos cultuados, divulgados na literatura, no cinema, na televisão, nas revistas em quadrinhos e em diversos jogos digitais.
De todos os vampiros, Drácula é o mais famoso. Saído das páginas literárias, foi apresentado ao mundo em 1897, quando o escritor irlandês Bram Stoker publicou aquela que seria a sua obra-prima, “Drácula”. Apesar de nunca confirmado, o autor teria encontrado inspiração na figura de um nobre medieval, o voivoda (príncipe) da Valáquia Vlad Tepes. Drácula representa a obsessão pelo poder e pela eternidade. É desprovido de qualquer remorso ou compaixão. Para sobreviver, não hesita em matar e sorver o sangue das suas vítimas. É sedutor e misterioso, atraindo para si a paixão frívola das mulheres. Mas Drácula perde o seu lado demoníaco, quando persegue pelos séculos o amor da sua amada, que morta no passado, volta em reencarnações recentes. Um amor obsessivo, que faz do conde um ser humano, apesar da sua condição de vampiro. Esta vertente humana, obsessivamente apaixonada, a sua beleza fria e a cheirar a cadáver, os seus poderes ilimitados, sua capacidade de hipnotizar os que o ladeiam, fazem do conde Drácula um demônio sedutor, que atrai multidões aos cinemas, ou mesmo às páginas literárias.
Amados e temidos, Drácula e os vampiros construíram nas lendas modernas um espaço cada vez mais explorado e idolatrado. O fascínio dos vampiros fez com que deixassem de ser vistos como demônios das religiões pagãs, para serem cultuados como membros das lendas contemporâneas, exercendo curiosidade sem que se confundam com o misticismo. Algumas seitas modernas veneram os vampiros, mas não chegam a seduzir muitos seguidores, ao contrário das personagens fictícias exploradas na ficção. Drácula e os vampiros fazem parte da história do cinema e de uma literatura de culto. Continuam a hipnotizar milhares de pessoas com os seus poderes e a sua suposta juventude eterna.

O Sangue e os Vampiros

A lenda do vampiro surge da visão que o homem tem do sangue, como fator mantenedor da própria vida. Tanto as antigas religiões politeístas, chamadas de pagãs, quanto às monoteístas, consideram o sangue como sagrado, sendo o responsável pelo envelhecimento e pela morte do homem.
A importância do sangue nas religiões, fez com que várias delas derramasse-o nos altares, em sacrifício aos deuses. Na tradição hebraica, o sangue humano não poderia ser oferecido, posto que a vida é sagrada, inviolável e intocável. Nos sacrifícios ao Deus único de Abraão, era oferecido apenas o sangue de animais considerados puros. Os egípcios, as civilizações da Mesopotâmia e mesmo os gregos e os romanos, ofereciam o sangue humano em holocausto aos seus deuses.
Se o sangue era considerado o símbolo da vida, houve sempre um entendimento que se um velho fosse alimentado pelo sangue de um jovem, recuperaria as forças e venceria a morte. Foi a partir dessa teoria que se desenvolveu a própria ciência da transfusão sanguínea. Homens poderosos recorreram ao sangue de jovens quando já próximos da morte. O papa Inocêncio VIII, em seu leito de morte, em 1492, teve um tratamento especial, feito por um médico judeu, que lhe aplicou uma transfusão com o sangue extraído de três meninos de dez anos. As três crianças morreram e, conseqüentemente, o próprio papa. A transfusão sanguinea é amplamente descrita e divulgada no romance de Bram Stoker.
Os vampiros surgem como demônios que venceram os obstáculos da morte, alimentando-se com o sangue sagrado, de onde tiram a juventude e a eternidade, tornando-se portadores de poderes especiais e de uma força hercúlea. O sangue, de preferência humano, é o que lhes confere a imortalidade do corpo e a desintegração da alma, visto que são mortos vivos, e não possuem uma. Quando contaminado e transformado em vampiro, ele sente a morte da alma, ressuscitando em um ser com hábitos bestiais e atitudes de demônio, desprovidos da compaixão e de atos de generosidade. Ao conseguir a imortalidade, o vampiro perde as promessas divinas, pois está condenado a ser eternamente um assassino, a matar para comer. Qualquer templo religioso ser-lhe-á negado, e os símbolos, como a cruz, transformar-se-á em armas que o pode vir a castigar, repelir ou até mesmo a matá-lo.

As Características dos Vampiros

Seres mitológicos antigos, os vampiros estiveram presentes nas tradições dos povos e das civilizações do Médio Oriente, da Europa e do Egito. Foi nas civilizações antigas do Nilo que surgiram os primeiros relatos sobre esses seres misteriosos, sendo os mais conhecidos e sanguinários Khonsu e Sekhmet. Na Suméria, o vampiro chegou a ser visto como filho de Lilith, um ser mitológico da tradição judaica, considerada a primeira mulher do mundo e de Adão. Muitas vezes foi confundido com Incubus. Na antiguidade, os sacerdotes identificavam os vampiros através das unhas, que eram fortes e mais grossas do que o normal, assimilando-se às garras.
Ao se tornar um vampiro, o contaminado deixa de poder ter contacto com o sol, dormindo, assim como os morcegos, durante o dia e caçando alimento à noite. Seus olhos ficam mais sensíveis à luz, e passam a ter uma visão potente. Para que possa obter o sangue como alimento, desenvolve os dentes caninos, transformando-os em longas presas.
Poderes estranhos e demoníacos possibilitam que os vampiros transformem-se em morcegos e lobos. Tornam-se senhores dos animais noturnos, controlando-os e dirigindo-os. Originalmente, os vampiros tinham a pele escura e grossa, nas versões cinematográficas atuais, passaram a tê-la branca e fantasmagórica. A audição passa a ser extremamente sensível e alta, fazendo com que sejam capazes de ouvir a aproximação de pessoas ou de outros vampiros a quilômetros de distância. Quando em perigo, podem desaparecer em uma névoa.
O vampiro perde a maioria dos seus órgãos vitais, como fígado, rins e pâncreas, que deixam de ter utilidade. O coração é o órgão que continua a funcionar em seu peito. Mas não possui ritmos característicos como nos seres humanos, batendo quase que imperceptivelmente. É como uma bomba que quando detonada, pode matar e destruir o vampiro.
Aos vampiros não é permitido que se reproduzam entre si. O desejo sexual de um vampiro é tão latente quanto a sua sede de sangue. O desejo é refletido no seu poder irresistível de sedução, levando os humanos à paixão. Quando há um encontro de um vampiro com uma humana, ele pode engravidá-la. O filho dessa união terá poderes especiais, como saber distinguir quem é ou não vampiro, será dono de uma força extraordinária e de aguçado desenvolvimento dos cinco sentidos. As características são transmitidas geneticamente aos descendentes do humano e do vampiro.
Apesar de poderes quase que ilimitados, o vampiro passa a ter certas limitações que lhe podem ser fatais. O sol pode queimar-lhes a pele e afetar-lhes a visão, reduzindo-os a cinzas. Como foram desprovidos da alma, e matam para conseguir o alimento; a hóstia, a água benta, os metais consagrados, a cruz e os templos, tornam-se insuportáveis a eles, assim como o cheiro do alho. Podem ser mortos com uma estaca fincada no coração, transformando-os em pó.
Ao longo do tempo, várias características foram acrescentadas ao mito, sendo a imaginação o principal condutor das verdades vampirescas. Dos castelos medievais às tumbas de concreto, os vampiros modernizam-se, fazendo das suas aventuras uma sedutora paixão na legião dos seus fãs e mesmo daqueles que não os cultua, mas não lhes resiste.

O Mítico Príncipe Vlad Tepes

O lendário conde Drácula foi criado por Bram Stoker, que o lançou em um livro que levava o seu nome, em 1897. A idéia surgiu quando o autor trabalhava como administrador do Royal Lyceum Theatre de Londres, cargo oferecido pelo amigo Henry Irving, de quem era, ao mesmo tempo, secretário e empresário. Na época Bram Stoker entrou em contato com uma sociedade londrina que tinha fascínio pelo sobrenatural. Em 1890, ele começou a escrever um romance sobre vampiros, sem título definido. No verão daquele ano, estava em férias em Whitby, quando cogitou pela primeira o nome de “Drácula” para aquele romance.
Na última década da centúria oitocentista, a Inglaterra era tomada pela efervescência dos movimentos espiritualistas, o que influenciou profundamente Bram Stoker. Esoterismo e ciência mesclavam-se entre os intelectuais da época. Stoker passa a estudar certos detentos nas cadeias inglesas, obcecados por verterem sangue e ingeri-lo. Sete anos após ter sido iniciado, Bram Stoker publica “Drácula”. Lançando a personagem para o mundo, tornando-a mais importante do que a própria obra literária.
Baseado nas histórias de vampiros da Transilvânia, região da Romênia, “Drácula” pode ter sido inspirado no príncipe da Valáquia, Vlad Tepes Draculea, que viveu no século XV. Vlad III nasceu em 1431, em Sighisoara, atual Romênia. Tornar-se-ia voivoda (príncipe) da Valáquia por três vezes: em 1448, de 1456 a 1462 e em 1476. Vlad III viveu na época em que o Império Otomano tomou Constantinopla aos gregos, em 1453, e iniciou a sua expansão pelos Bálcãs, originando uma guerra sangrenta entre cristãos e muçulmanos.
Vlad III era filho de Vlad II, membro de uma sociedade cristã de Roma, chamada Ordem do Dragão, em que nobres da região se uniam para defender os territórios da invasão Otomana. Como membro da ordem, Vlad II era chamado de Vlad Dracul (dragão). Seu filho, Vlad III, herdou por conseqüência, a alcunha do pai, sendo chamado de Vlad Draculea – filho do dragão, já que a terminação “ea” significa filho.
Vlad Draculea ficou conhecido pela crueldade e perversidade com as quais tratava os seus inimigos. As suas atrocidades alimentavam o imaginário popular de alguns camponeses, que passaram a associá-lo com os mitológicos vampiros. Diante daquela crueldade, a palavra Dracul, que também significava “diabo”, passou a ter este sentido quando os inimigos de Vlad Draculea referiam-se a ele.
O voivoda tinha como costume empalar os seus inimigos, atravessando-os com uma estaca de madeira. Para assistir ao suplício, costumava montar uma mesa no local e saborear um banquete, enquanto os inimigos agonizavam empalados. Por esta razão, passou a ser chamado de Vlad Tepes (Tsepesh), que significava “O Empalador”.
Vlad Tepes Draculea foi morto em batalha pelos otomanos em Bucareste, em 1476. Seu corpo foi decapitado e sua cabeça enviada à Constantinopla, onde o sultão a manteve em exposição em uma estaca, como prova que o famoso empalador estava morto. Seu corpo foi enterrado numa ilha próxima de Bucareste, Snagov. O túmulo foi escavado por arqueólogos em 1931, mas no lugar do corpo só encontraram ossos de animais, o que reforçou a lenda de que Vlad Draculea era um vampiro.
Na Romênia e na Moldávia, Vlad Tepes Draculea é tido como herói nacional, por ter erguido vários mosteiros e combatido a expansão Otomana. Na vizinhança de Brasov, em Bran, ergue-se o castelo de Bran, conhecido como o castelo de Drácula. A fortaleza está situada na estrada 73, na fronteira da Transilvânia com a Valáquia e pode ser visitada por turistas. Vlad Draculea na verdade não residiu no castelo, a não ser quando teve que passar dois dias fechado na sua masmorra, quando os otomanos controlavam a Transilvânia. Por possuir torres pontiagudas e localização remota, o voivoda teria utilizado a fortaleza para fins militares.

O Conde Drácula

A descrição física da personagem de Drácula, segundo estudiosos, corresponde ao amigo de Bram Stoker, Henry Irving, que tinha uma voz sibilante. Drácula era um poderoso conde que vivia na Transilvânia na Idade Média, que confrontou inimigos, teve um grande amor na sua vida e ao perdê-lo, também se perde, envolvendo-se com o sobrenatural, tornando-se um frio vampiro.
Sendo uma personagem que se encontra em domínio público, Drácula sofreu grandes alterações nas diversas adaptações que se lhe foram criadas. Há aqueles que o descreve mais romântico, que ao receber a visita do inglês Jonathan Harker em seu castelo, descobre através de uma fotografia, que Mina, noiva de Harker, é a reencarnação do grande amor da sua vida. Assim, parte para a Inglaterra, em busca do amor renascido. Durante a viagem e ao chegar ao Reino Unido, transmite o terror e a morte por onde passa.
Não importa a versão, Drácula é sempre descrito como um vampiro sedutor, sanguinário e frio. Traz poderes sobrenaturais, uma força física extraordinária. Pode adquirir formas animais, hora como morcego, hora como lobo. Durante o dia dorme dentro de um caixão. Seus poderes estão concentrados na terra da Transilvânia, quando em viagem para a Inglaterra, leva sacos dela no navio em que embarca. Não tem a imagem refletida em um espelho. Utiliza-se da hipnose para controlar os seus inimigos. Tem controle absoluto sobre os seres noturnos, como morcegos ou corujas. Com um toque pode incendiar objetos, como a cruz, transformando-a em cinzas. Mata, sem remorsos, às suas presas, fazendo-as vampiras como ele, se lhes oferecer o próprio sangue.
Drácula é imortal, não envelhece, representa a virilidade juvenil eterna. Comanda o clima noturno, trazendo a névoa quando lhe for útil. Sua força sedutora encanta e faz perder as mulheres. Sua pele regenera-se quando arranhada, e os ferimentos são cicatrizados. Não fosse um vampiro, Drácula seria o exemplo perfeito do homem que apaixona o sexo oposto.
Mas Drácula pode perder a imortalidade diante de certas circunstâncias, que guarda como segredo. Se voa como um morcego ou caminha ágil como um lobo, o vampiro pode ser ferido com símbolos religiosos como a cruz e a água benta, que se lhe tocado à pele, pode queimá-la. O alho e a prata afastam-no momentaneamente de quem se lhe ergue. Não pode entrar na água, a não ser em uma embarcação. Um simples ramo de flores silvestres posto em seu caixão pode mantê-lo preso. O sangue é o alimento essencial que lhe dá o poder, a juventude e a suposta imortalidade. O sol é um grande inimigo, se exposto a ele, é reduzido instantaneamente a cinzas. Mas a sua maior e mais fatal fraqueza é o coração que, se trespassado por uma estaca de madeira, o levará à morte. Em algumas versões, após a estaca ser cravada no coração, e que ele for acometido pelo torpor da morte, deverá ser decapitado para que se conclua a sua morte.
Assim como o demônio é enganador, também Drácula é enganado, ao pensar ser eterno e, ser sempre apanhado e morto pelas suas fraquezas, deflagradas pelos eternos defensores do bem. Drácula é o sonho do homem em ter a juventude e a vida eterna, mas também o castigo para quem as obtém indo contra os princípios estabelecidos por Deus e pela natureza.

Drácula no Cinema

O fascínio que Drácula exerce sobre grandes platéias, fez com que o seu mito fosse explorado em dezenas de produções cinematográficas e televisivas. A primeira vez que a história do conde vampiro chegou às grandes telas foi em 1922, no genial filme de F. W. Murnau, “Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens”. Embora baseado na história de Bram Stoker, o filme teve que mudar o nome de Drácula para Nosferatu, devido a exigências dos herdeiros do escritor, que não permitiam que a obra fosse adaptada. “Nosferatu” foi um grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema universal. Com ele, inaugurava-se uma saga cinematográfica sobre o conde Drácula, que teria várias versões. Um filme de ficção sobre os bastidores do clássico de Murnau, “A Sombra do Vampiro” (2000), sugere que Max Schreck , ator que viveu Nosferatu, era um vampiro de verdade contratado pelo diretor.
Em 1931, surgiu o filme “Drácula”, de Tod Browning. Já a personagem tinha caído em domínio público, e pôde ser adaptada sem retoques para o cinema. O filme teve o ator austro-húngaro Bela Lugosi como Drácula. Embora tenha feito apenas dois filmes interpretando o conde, o já referido filme de 1931, e a comédia “Bud Abbott Lou Costello Mette Frankenstein” (“Às Voltas com Fantasmas”), em 1948, Bela Lugosi teve a sua imagem e carreira ligadas à personagem para sempre. Ainda hoje, tem-se a idéia de que o ator protagonizou várias vezes o famoso vampiro.
Em 1958, “Drácula”, de Terence Fisher, lançava o ator Christopher Lee como Drácula. Apesar de odiar a personagem, ele faria o conde em vários filmes, tornando-se o seu intérprete mais famoso. Nesta produção, iniciava-se uma grande parceria com Peter Cushing, outro grande ator que se especializaria em filmes de horror.
Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola, de 1992, foi uma das versões mais fiéis ao romance original. O filme pôde usufruir da tecnologia dos efeitos especiais, dando um clima de suspense luxuoso à velha história. Produção bem cuidada, a adaptação de Coppola só perde na interpretação quase que afetada de Gary Oldman. O ator imprime pouca virilidade ao conde, dando-lhe um aspecto que às vezes, beira à frivolidade, distante da frieza apaixonante e cruel de Bela Lugosi e Christopher Lee.
Mais de uma centena de filmes invocaram o mito de Drácula, fazendo do cinema o principal veículo de apresentação do mais famoso, sedutor e cruel dos condes da história. Drácula continuará por muito tempo, a encantar e aterrorizar as platéias do mundo inteiro.

Drácula nas Artes

Literatura

Drácula – Bram Stoker

Cinema

1922 – Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens (Nosferatu) – Com Max Schreck
1931 – Drácula – Com Bela Lugosi
1936 – Dracula’s Daughter – Com Otto Kruger e Gloria Holden
1943 – Son of Dracula (O Filho de Drácula) – Com Lon Chaney Jr.
1945 – House of Drácula – Com Lon Chaney Jr e John Carradine
1958 – Dracula (O Horror de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1960 – The Brides of Dracula (As Noivas do Vampiro) – Com Peter Cushing
1964 – Batman Dracula – Com Gregory Battcock e Jack Smith
1966 – Dracula: Prince of Darkness (Drácula – O Príncipe das Trevas) – Com Christopher Lee
1968 – Dracula Has Risen from the Grave – Com Christopher Lee
1970 – Count Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Taste the Blood of Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Scars of Dracula – Com Christopher Lee
1972 – Dracula A.D. 1972 – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1973 – Dracula – Com Jack Palance
1973 – The Satanic Rites of Dracula (Os Ritos Satânicos de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1974 – The Legend of the Seven Golden Vampiros – Com John Forbes-Robertson e Peter Cushing
1974 – Blood for Dracula – Com Udo Kier e Joe Dalessandro
1976 – Drácula Père et Fils (Drácula, Pai e Filho) – Com Christopher Lee
1979 – Dracula – Com Frank Langella e Laurence Olivier
1979 – Nosferatu: Phantom der Nacht (Nosferatu – O Vampiro da Noite) – Com Klaus Kinski
1992 – Bram Stoker’s Dracula (Drácula de Bram Stoker) – Com Gary Oldman e Anthony Hopkins
2004 – Van Helsing – Com Hugh Jackman e Richard Roxburgh

Séries de TV

1990 – Dracula: The Series
2006 – Young Dracula


OS FOTÓGRAFOS DO IMPÉRIO DO BRASIL

Novembro 10, 2009

 No século XIX a arte da fotografia floria, arrastando novos artistas de um universo antes dominado pela pintura. A realidade crua da imagem fotografada tirava o glamour da imagem pintada. As pessoas retratadas saíram dos quadros da parede para os álbuns portáteis. A inspiração do artista já não era mesclada pelo ludismo imaginário, mas por um incontestável retrato jornalístico.
No Brasil Império, Dom Pedro II apaixonou-se pela fotografia. Ele próprio construiu um acervo belíssimo de imagens das suas viagens e do país que governava. Durante o segundo império, grandes fotógrafos pioneiros construíram as primeiras imagens do Brasil, registrando mais realistamente o retrato de uma jovem nação. Geniais, esses artistas, em sua maioria europeus, venciam os obstáculos e as limitações técnicas da época, deixando uma obra grandiosa. Entre eles destacam-se os franceses Auguste Stahl e Jean Victor Frond; o alemão Revert Henry Klumb; o suíço George Leuzinger; e, o franco-brasileiro Marc Ferrez.
Rever os retratos desses fotógrafos grandiosos, é redescobrir um Brasil que já não existe, uma paisagem física e humana que o tempo varreu, deixando-nos órfãos de uma identidade civil de uma força aterradora.
Auguste Stahl deixou-nos imagens do Rio de Janeiro na época que era capital do império, e a sua obra-prima no Brasil, a Cachoeira de Paulo Afonso, varrida do mapa pela imposição do progresso. Marc Ferrez, herdeiro de todos os outros, destacou-se na fotografia por cerca de cinqüenta anos. Sua obra é imprescindível, retratando não só paisagens que deram origem a grandes cartões postais, como também documentou construções de ferrovias; a reconstrução do centro da cidade do Rio de Janeiro, a partir dos primeiros anos do século XX; fotografias da família imperial, ou de celebridades como Machado de Assis; além de várias paisagens humanas, mostrando a população ambulante da jovem nação, constituída por brancos, negros, índios e mestiços.
Este artigo faz uma viagem breve ao Brasil de Marc Ferrez e Auguste Stahl, através de imagens únicas, definitivas, de um país que mudou a sua paisagem, mas nunca perdeu a identidade aqui registrada através das objetivas e da sensibilidade dos grandes artistas.

Auguste Stahl e a Principal Imagem dos Primórdios da Fotografia

Theophile Auguste Stahl nasceu em 23 de maio de 1824. O local de nascimento do fotógrafo criou algumas controversas históricas, tendo sido atribuído a Bergamo, na Itália, ou ainda na Alemanha. Estudos mais recentes dão-lhe como nacionalidade a francesa. Filho dos franceses Jean Frederic Stahl e Marie Elise Stamm, teria nascido na Alsácia e passado a infância em Bergamo.
A atuação como fotógrafo no Brasil começou em 1854, quando abriu o seu primeiro estabelecimento no Recife, Pernambuco. Stahl chegara àquela cidade em 31 de dezembro de 1853. No Brasil, estabeleceria um trabalho fotográfico pioneiro que duraria quinze anos, de 1854 a 1869.
Em 22 de novembro de 1854, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina, visitaram pela primeira vez o Recife. Stahl fez o registro da chegada da família imperial na cidade pernambucana, num registro visualmente jornalístico, algo inédito para a época. Autorizado a fotografar o casal imperial, o seu trabalho empolgou o imperador, sendo agraciado com o título de “Fotógrafo de Sua Majestade o Imperador do Brasil”. Desde então, passou a deter o monopólio da imagem dos monarcas na província de Pernambuco.
Durante o tempo que ficou em Pernambuco, Dom Pedro II confidenciou ao fotógrafo o desejo de ter uma vista da imensa queda d’água chamada de Cachoeira de Paulo Afonso. O imperador visitara o local recentemente e ficara encantado com a sua beleza.
Foi assim que, em 1860, Auguste Stahl rumou para a Cachoeira de Paulo Afonso, para registrar a sua vista. O resultado seria a sua obra-prima. O registro é considerado a principal imagem dos primórdios da fotografia sobre papel no Brasil. Paulo Afonso era à época a mais famosa cachoeira do país. A beleza do trabalho mostra uma imagem grandiosa e ambiciosa, tendo sido feita com a junção de dois negativos em vidro, obtendo assim, uma dimensão esplendorosa de 27 cm x 54 cm, feito inédito para a época. No registro, vê-se a figura de um escravo a arriscar a vida no meio de uma pedra, proposta de Stahl, que nos dá a dimensão de grandiosidade da queda d’água. O contraste entre luz e sombra, remete a um cenário dramático, de beleza singular, que na sua monumentalidade deixa um certo alerta ao perigo. Os tons sépias contrastam a paisagem natural com a paisagem humana. Registro espetacular de um patrimônio natural do Brasil, que foi extinto pelo progresso. A cachoeira foi coberta pela represa que leva o mesmo nome, localizada entre as divisas dos estados de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas. A fotografia foi redescoberta em meados da década de 1990, fazendo parte do acervo da Biblioteca Nacional. A imagem seria copiada, em 1869, pelo fotógrafo Auguste Riedel, com sutis alterações, sendo por ele apropriada.
Auguste Stahl mudou-se, em 1862, para a capital do império. Durante o tempo que esteve no Brasil, interessou-se profundamente pelo paisagismo tropical. Retratou as cidades brasileiras por onde passou, influenciando com o seu trabalho, todos os grandes fotógrafos que viriam a partir dele. Casado com Marie-Julie Bing, teve dois filhos nascidos no Brasil, Olga-Marie Stahl e Valdemar Stahl.
Em 1870, Auguste Stahl viu-se acometido por uma terrível doença, a sífilis, o que o fez regressar à França. Acredita-se que sendo obrigado a deixar bruscamente o Brasil, o fotógrafo teria legado seu estoque de tiragens originais e negativos de vidro para o jovem Marc Ferrez, que teria editado posteriormente algumas imagens de Stahl com o seu nome.
Nos dias atuais, menos de 150 fotografias suas de paisagens do Rio de Janeiro e do Recife são conhecidas. Auguste Stahl viria a morrer em um hospital da Alsácia, em 30 de outubro de 1877. Suas imagens constituem um acervo precioso do Brasil imperial e oitocentista, numa obra pioneira e sem precedentes.

Marc Ferrez e os Primeiros Anos

Marc Ferrez é considerado o maior fotógrafo brasileiro de todos os tempos. Nascido no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, era filho dos franceses Zéphyrin Ferrez, escultor e gravurista, que veio para o Brasil em 1816 com a Missão Artística Francesa; e de Alexandrine Caroline Chevalier. Marc Ferrez herdou o nome do tio paterno, também integrante da missão. Sexto e último filho do casal, o fotógrafo viu-se órfão aos oito anos de idade, em 1851. Naquele ano, após a morte dos pais, partiu em julho para a França, vivendo em Paris com o escultor e gravador Alphée Dubois.
Marc Ferrez só retornaria ao Brasil em 1859. Na capital do império, passou a trabalhar na Casa Leuzinger, de George Lauzinger, famosa casa editorial, papelaria e estabelecimento fotográfico, localizada na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro. Em 1860, Marc Ferrez aprendeu técnicas fotográficas com o alemão Franz Keller-Leuzinger, fotógrafo responsável pela seção de fotografia da Casa Leuzinger.
Em 1865, aos 21 anos, abriu a própria firma, a Marc Ferrez & Cia, um estúdio fotográfico bem-sucedido, com sede na Rua São José, e que o iria pôr entre os principais profissionais da sua cidade e do próprio Império. Em 1868, já um fotógrafo famoso, recebeu menção honrosa do Almanaque Laemment.
Em 1873, uma tragédia abater-se-ia sobre o trabalho do fotógrafo, um incêndio de grandes proporções consumuria e destruiria o seu atelier, que lhe servia também de residência. Na catástrofe foram perdidos o seu acervo, chapas e equipamentos fotográficos. No ano seguinte, em 1874, ele viajaria para a França com o objetivo de readquirir novo material fotográfico e restabelecer a profissão no Rio de Janeiro.

Marc Ferrez Durante o Segundo Império

De volta ao Brasil, em 1875, Marc Ferrez foi convidado para integrar como fotógrafo à Comissão Geográfica e Geológica do Império do Brasil, comandada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. A expedição percorreria os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, e partes da Amazônia. Marc Ferrez fotografaria, quinze anos após Auguste Stahl o ter feito, a Cachoeira de Paulo Afonso. No sul da Bahia, registraria com maestria os índios Botocudos. A imagem reflete a dureza no olhar da maioria dos índios, longe de perceber que posavam para a posteridade da sua própria etnia. Olhares que se oferecem à manipulação da objetiva, sem perder a essência primitiva do homem, mais do que universal, substancialmente brasileiro.
Durante o Império, Marc Ferrez participou de várias exposições tanto no Brasil, como no exterior, obtendo alguns prêmios. Fotografou várias paisagens do Brasil imperial, do Rio de Janeiro como capital da corte. Documentou em imagens, várias obras essenciais para o desenvolvimento daquela cidade. Sob as lentes de Marc Ferrez, a capital carioca deslumbrava na sua beleza natural, bem distante dos prédios que um dia tomariam a sua paisagem. Desta época, é o registro do fotógrafo que revelam um Rio de Janeiro pulsante pelo progresso que lhe batia às portas. As paisagens da cidade feitas pelo fotógrafo, transmitem uma tranqüilidade efêmera, associada à natureza privilegiada da sua construção física. São imagens que até os dias atuais, inspiram fotógrafos de um Rio de Janeiro futurista.
Considerado herdeiro legítimo de Auguste Stahl, Marc Ferrez tornou-se impar em sua obra. Conquistou o Império e sobreviveu com prestígio, ao seu fim. Em 1880 recebeu o título de “Photografo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império.
Nos últimos anos da Monarquia, registrou as obras de construção da Estrada de Ferro do Corcovado. Viajou para Minas Gerais e São Paulo, registrando as obras de ampliação da ferrovia The Minas and Rio Railway Company. Registrou as obras da ferrovia Paranaguá-Curitiba. As principais obras do Império passaram pelas lentes de Marc Ferrez. Sua competência e dedicação ao que fazia seduziram o imperador, que o agraciou, em 1885, com o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa.

O Desfile Humano nas Imagens de Marc Ferrez

Já na época da República, em 1890, o fotógrafo associou-se a Henri Gustave Lombaets, importante encadernador da Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, fundaram a Lombaets, Marc Ferrez & Cia. Da sociedade resultou a publicação de postais e o jornal “A Estação”. Mas a associação durou pouco, sendo desfeita em 1892.
Em 1899, a Casa Ferrez continuou a apostar na publicação de postais. Já o século XIX findava e Marc Ferrez trouxe, nessa época, um Brasil das ruas, uma paisagem humana que retratava a formação de um povo. Os ofícios urbanos estampavam na sensibilidade das suas objetivas. Por ela desfilaram o verdureiro, o cesteiro, o quitandeiro, o garrafeiro, o vassoureiro, o jornaleiro, o amolador de facas, o funileiro… Profissões, muitas das quais, já extintas, e que não se teria noção do que significaram, caso não tivesse tais registros.
O Brasil mudara, a escravidão tinha sido abolida, a República proclamada. Se na época do Império vender nas ruas significava uma tarefa não dignificante, exercida pelos escravos de ganho, que vendiam doces, miudezas, e depois dividiam os lucros com o seu dono; no Brasil que despontava com o alvorecer do século XX transbordava as ruas de imigrantes, vendendo ou oferecendo serviços. Na fotografia que Marc Ferrez registrou a “Vendedora de Miudezas”, podemos constatar as mudanças. Uma mulher branca, de olhar altivo, posa para Ferrez. Há nela nuances de quem sabe que está tendo a imagem registrada. Seu olhar desafia a objetiva, numa dignidade etérea, sem perder a sua função secular. Se a paisagem trazia um Ferrez sofisticado, o registro humano não lhe fica a dever. A vendedora de miudezas traz as surpresas da sua cesta – o que ela venderia?, singelamente amparada por uma providencial sombrinha.
Procurando exercitar uma imagem viril, os dois rapazes de “Jornaleiros” transitam entre a austeridade de vender nas ruas da cidade, e uma maturidade precoce, com a perda da infância sem o direito de uma adolescência. Os dois trazem os jornais de então nas mãos, “O Paiz” e “A Notícia“. Numa época em que os jornais eram vendidos no grito, a presença desses profissionais ambulantes garantia a notícia a ecoar das páginas imprensas pelas ruas da cidade. Curiosamente, esses jornaleiros não sabiam, em sua maioria, ler ou escrever. De chapéus e casacos, eles portam a elegância da época, estendida para os mais humildes, naturalmente cavalheiros de um tempo.
O Mascate” mostra o homem claramente imigrante, uma nova realidade que mudaria o Brasil não só física, mas culturalmente. Marc Ferrez registrou as escravas de serviço, que deixavam as senzalas para praticarem o que a elite chamava de vergonhosa profissão de ambulantes, sustentando com aquele trabalho os seus amos. Elas vendiam doces que faziam, legumes que cultivavam, peixe que pescavam. O mascate trabalhava para si mesmo. Vendia tecidos, tapeçarias, eram andarilhos não só pelas capitais, mas por todo o interior de uma imensa nação. Se as escravas retornavam para os seus amos no fim da jornada, os mascates desbravavam estradas, redescobriam um país.
Assim, o desfile humano das imagens de Marc Ferrez, tornou-se o desfile do próprio Brasil, velho na sua história, mas novo como nação independente. Negros, brancos, escravos e ex-escravos, imigrantes, índios, todos eles passaram por Marc Ferrez, fazendo dele um contador de história através das imagens que se nos são apresentadas, e que tanto nos fascinam.
Marc Ferrez ainda registraria a renovação da arquitetura urbana da cidade do Rio de Janeiro, como as obras da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Foi um dos pioneiros do cinema no Brasil, obtendo, em 1905, a autorização da firma francesa Pathé Frères, para ser fornecedor exclusivo dos cinematógrafos ambulantes. Em novembro de 1907 inaugurou o Cine Pathé.
Marc Ferrez traz uma das obras fotográficas mais abrangentes do século XIX e início do século XX. Fotografou o Brasil por quase cinco décadas consecutivas, mantendo sempre um trabalho magnífico, quer com a Monarquia ou com a República. No fim da vida viveu algum tempo na França, de lá retornando já muito doente, em 1920. Marc Ferrez morreria em 12 de janeiro de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, cenário que ele tão bem retratou, imortalizando o glamour que ela tinha quando foi capital do Império e da República do Brasil.


MACBETH – WILLIAM SHAKESPEARE

Novembro 6, 2009

Uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare, “Macbeth” descreve o homem no limiar da sua essência, tornando-a traiçoeira e assassina pela ambição do poder. Macbeth é o anti-herói que insulta a dignidade, corrói as virtudes e banha as mãos de sangue. Nele o medo e a coragem diluem-se em uma compulsão desenfreada pelo poder. Ser rei é maior do que ser homem. A vida não lhe parece uma dádiva divina, mas um encanto de bruxas. Macbeth assusta quem lhe assiste no palco, pois traz à tona todo o lado obscuro que existe dentro de nós. Sua crueldade inquietante fez dele uma obra universal, lida e encenada milhares de vezes, quer nos palcos teatrais, quer no cinema ou na televisão.
Ambição e assassínio povoam o universo de Macbeth, apoiado e incitado por sua bela e fria mulher, Lady Macbeth. Ambos sujam as mãos de sangue em um regicídio que os levariam a ascender como rei e rainha da Escócia. Mas o peso da culpa, inicialmente legada a Macbeth, transtorna e enlouquece os monarcas. Lady Macbeth vaga pelas noites acometida por um cáustico sonambulismo. Macbeth devora a sua culpa através da crueldade, pois sangue chama sangue, e o cetro do rei está manchado por ele. A queda dos soberanos não vem como um castigo moralista, mas como conseqüência de um reinado construído sobre a violência e as mentiras das profecias enganadoras dos homens. “Macbeth”, é sem dúvida, uma das maiores obras da dramaturgia universal e uma das que mais amplia e mostra poética e cruamente a alma humana.
Dentro da obra de Shakespeare, “Macbeth” é a menor das suas peças, o que leva alguns estudiosos shakespereanos, dada a complexidade e profundidade do texto, a suporem que ela pode ter chegado aos tempos atuais com partes amputadas e perdidas. Há os que defendem que partes do texto tenham sido acrescentadas ao longo dos séculos, embora tais teorias estejam cada vez mais enfraquecidas. Seja como for, é um dos melhores momentos da literatura inglesa e da dramaturgia do pai do teatro britânico. Nenhuma platéia em todo o planeta, ficou imune quando as cortinas do último ato foram cerradas. “Macbeth” é próprio espelho do homem, visto pelo lado convexo dos seus princípios morais.

As Três Bruxas Tecem a Tragédia

Macbeth não é apenas uma personagem literária, ele realmente existiu. Figura de destaque nos meandros da monarquia escocesa, ele viria a subir ao trono, em 1040. Para ascender à realeza, assassinou o rei Duncan, que se via enfraquecido no poder após sofrer derrotas pelo norueguês Thorfinn. Várias conspirações foram urgidas para derrubá-lo do trono. Em 1054, Siward, conde de Nortúmbria, derrotou Macbeth, que se viu obrigado a fugir para o norte do país. Em 1057, Malcolm, filho de Duncan, abateu-o, sendo morto em Lumphanan. Enquanto rei, Macbeth trouxe prosperidade à Escócia e benefícios à Igreja. Reza a tradição, que o seu corpo está sepultado na ilha de Iona, ao lado de vários dos seus antecessores.
Foi inspirado nesta figura histórica, que Shakespeare criou a mítica tragédia “Macbeth”. Não se sabe ao certo, em que ano ela foi escrita, a maioria dos estudiosos aceitam 1606 como o mais provável. Estudos situam a data cronológica criativa entre 1605 a 1607. Entretanto, o primeiro registro de encenação da peça aparece no manuscrito de Simon Forman, “The Bocke of Plaies and Notes Therof per Formans for Common Pollicie”, em 20 de abril de 1611.
Dividida em cinco atos, “Macbeth” envolve as pessoas desde o primeiro deles. Inicia-se com trovões e relâmpagos, demarcando a entrada em cena das três bruxas. Personagens abstratas, saídas do agouro da vida e do seu misticismo sombrio, elas são essenciais para o decorrer das cenas. Suas mentiras determinarão as verdades, a ascensão e a queda do ambicioso Macbeth.
O rei Duncan e os seus exércitos enfrentam tropas norueguesas em uma batalha sangrenta. Macbeth é o intrépido guerreiro que sem medo, mais se destaca na luta contra o inimigo, conquistando o respeito e admiração do rei. No meio da batalha, o thane de Cawdor é descoberto como traidor, sendo executado. Para compensar a valentia de Macbeth, Duncan o faz o novo thane de Cawdor.
Enquanto isto, numa charneca, sob fortes trovões, Macbeth e o seu companheiro de luta Banquo, são surpreendidos pela aparição súbita da três bruxas. Numa armadilha das artimanhas dos adivinhos, elas tecem a tragédia, saudando Macbeth, então thane de Glamis, como thane de Cawdor. Ele ainda não sabe da traição do antigo thane de Cawdor, muito menos de que tinha sido agraciado com título pelo rei.
Mas as bruxas estão ali, para com as suas mentiras, fazer as falsas profecias, induzindo que os profetizados cumprissem a profecia idealizada. A Macbeth vaticinam que será rei, e a Banquo que será pai de reis. Prometem um reino estéril ao mais ambicioso, e um frutificado ao mais bondoso. Está demarcada a trama que se deverá estender sob o destino dos dois companheiros.

Assassínio de Duncan

A idéia de ser rei só toma forma na mente do ambicioso Macbeth, quando, ao lado de Banquo, encontra-se com Duncan e os seus súditos. O rei mostra-se grato, comovido e paternal para com o seu fiel servidor. Anuncia oficialmente, que Macbeth é o novo thane de Cawdor. Cumpria-se a primeira promessa das bruxas.
Cansados da batalha, o rei, seus filhos e súditos, aceitam pernoitar no palácio de Macbeth e da sua bela mulher.
Em casa, Macbeth conta para a mulher a profecia que lhe lançara as aparições. O casal deixa-se possuir pela chama da ambição. Para que pudessem ascender ao trono, era preciso que se eliminasse Duncan. O rei dormia sob o teto dos Macbeth, nunca fora tão fácil fazê-lo desaparecer. Desenha-se cada vez mais, as formas de um assassínio. Mas Macbeth reluta. Apesar de ambicioso, é um homem que admira Duncan, sendo-lhe grato. A inquietude da honra demove Macbeth de tão vil atitude. Mas Lady Macbeth é uma mulher fria e ambiciosa, está determinada a ver o marido ascender como rei da Escócia e, conseqüentemente, tornar-se ela a sua rainha. Não há tempo para remorsos da alma, a ambição do corpo é maior. Retroceder ao que lhe prometera as forças estranhas dos presságios era, na concepção de Lady Macbeth, a covardia da virilidade do marido. Juntos, decidem eliminar o rei naquela noite fatídica e abrir caminho para que se cumprisse a segunda profecia das bruxas.
Quando Duncan dorme, a própria Lady Macbeth embriaga os dois vigilantes à porta do rei. Tomados pelo vinho, os homens adormecem. Já com o punhal na mão, Macbeth dá uma última oportunidade à consciência, mostrando-se incapaz de vir a ser um assassino. Até então era um bravo e corajoso súdito do rei, capaz de por ele enfrentar com a vida as maiores batalhas. Mas a ambição é maior do que a dignidade; incitado pela mulher, ele logo percebe a sua própria verdade. Movido pelo aceno do poder, ele adentra o aposento do rei, assassinando-o.
Macbeth retorna do crime com as mãos ensangüentadas. Está visivelmente perturbado, demonstrando um cínico, mas sincero, arrependimento. Não se sente capaz de concluir o plano, sendo a própria Lady Macbeth que o executa. Friamente, ela apodera-se do punhal na mão do marido, entra no quarto onde jaz o rei, suja de sangue as adagas e os rostos dos vigilantes embriagados. Volta para o marido, com as mãos, assim como as dele, manchadas de sangue.

O Espectro de Banquo

A descoberta do assassínio de Duncan precipita os acontecimentos. Os vigilantes, cobertos de sangue, são os suspeitos. Macbeth, fingindo revolta e indignação, mata-os ao fio da sua espada. A corte escocesa está confusa diante de tão grande e misteriosa tragédia. Desconfiados da verdade, Malcolm e Donalbain, filhos do rei, decidem fugir para que não sejam assassinados. Malcolm foge para a Inglaterra, e Donalbain para a Irlanda. Diante da fuga, são acusados de parricídio. Os nobres escoceses decidem entregar o trono a Macbeth.
A segunda profecia das bruxas estava cumprida. Macbeth era o rei da Escócia. Banquo desconfia que o amigo tenha sabotado o destino e facilitado o cumprimento da profecia. Mas não se deixa intimidar. Mantém-se sereno e confiante, fiel ao amigo, afinal a terceira e última parte da profecia dizia respeito a ele e à sua prole. Seria pai de reis, não tinha que temer o que fosse.
Mas Macbeth também sabe da última parte da profecia. Traíra o seu rei, sujara as mãos de sangue para deixar o trono para a prole de Banquo? Tanto sacrifício para herdar um reino estéril, findo nele mesmo? Pensamentos obscuros permeiam a mente do novo rei. Sangue atraía sangue, fora longe demais para que a tão pouco se chegasse. Decide mudar o rumo da profecia. Prepara uma emboscada para Banquo e o seu filho, Fleance. Desta vez não se deixa inquietar pela consciência de um novo crime. Está mais frio. Três assassinos contratados por ele, degolam Banquo, mas o seu filho consegue escapar, fugindo para o meio da floresta.
Morto Banquo, o medo de Macbeth é atenuado. Mas a sua consciência não lhe deixa comemorar o triunfo. Em um banquete que promove para a alta nobreza do seu reino, é surpreendido pela aparição do espectro de Banquo, que se senta à mesa, no seu lugar. Transtornado, diante dos convidados, Macbeth grita para que o fantasma desapareça. O júbilo sucumbe. Os súditos desconfiam do rei. Lady Macbeth contorna a situação, controlando o acesso do marido. Com a sua frieza calculista, ela pede desculpa à corte, manipula o marido desnorteado, mas não consegue evitar que o júbilo naufrague. Os convidados vão embora. Também o espectro de Banquo desaparece.

Novas Profecias das Aparições

Macbeth torna-se um tirano cruel, que não hesita matar todos os seus inimigos. Muitos nobres deixam de apóia-lo, entres eles Macduff, thane de Fife, que foge para a Inglaterra, reunindo-se ao filho do falecido rei Duncan, Malcolm. Juntos, apoiados pelo rei inglês, armam uma esquadra de dez mil soldados.
Na Escócia, desencadeia-se uma guerra civil contra Macbeth. A mulher e o filho de Macduff são assassinados. Notícias que uma grande tropa de soldados vem para destituí-lo do trono, faz com que procure as bruxas, ordenando que elas digam o que se irá passar futuramente. Mas a principal verdade do demônio é a mentira. E Macbeth deixa-se enganar de forma fatal.
As três bruxas dançam ao redor do rei. Só elas lhe fazem reverências ao suposto triunfo. Com confusas visões, elas mostram a tragédia dissimulada. Palavras enganosas tecem o destino do rei. Uma das visões traz uma cabeça com um elmo, que diz para Macbeth ter cuidado com Macduff. Outra aparição mostra oito homens que são seguidos por Banquo, significando as gerações que se tornariam reis. Macbeth inquieta-se diante da revelação.
Mas as palavras enganosas dão certezas a Macbeth. Ele não deve temer as tropas inimigas até que a floresta de Birnam suba contra o monte de Dunsinane. Macbeth sorri aliviado. Afinal quem recrutaria as árvores da floresta para que subissem ao monte?
As aparições incitam Macbeth a ser enérgico e cruel, sanguinário e resoluto, pois nenhum homem nascido de mulher conseguiria fazer-lhe mal. Macbeth sente-se regozijado. Sua vida era intocável. Pertencia aos encantamentos das bruxas, não à Divindade Criadora. Todos os homens eram nascidos de mulher, o que o tornava imortal diante das espadas que se lhe viessem.

A Revelação das Palavras Enganosas

Se Macbeth tornou-se cruel e sanguinário, Lady Macbeth, até então volvida pela frieza da ambição, passa a ser atormentada pelo peso dos seus crimes. Perde a cada instante, a razão. Caminha pelo castelo à noite, empunhando uma vela, acometida por um estranho sonambulismo. Como um fantasma atormentado, tenta, diante de todos, lavar as mãos manchadas do sangue das suas vítimas. Aos poucos, deixa-se atormentar pelo peso da consciência, até então menor do que a sua ambição em ser rainha.
Lady Macbeth murmura pela noite. Sua personalidade vai definhando diante da culpa e da loucura. Distancia-se cada vez mais do marido, deixando-o sozinho com a sua tirania, com a sua sede de sangue e de poder. A crueldade latente daquela mulher veste a máscara da loucura. Por fim, não suporta a realidade do destino que escolhera, pondo fim à vida com as próprias mãos.
Macbeth recebe com frieza a notícia da morte da mulher. Já não há espaço para comoção ou sentimentos de amor em seu coração. Ao seu redor só há inimigos, a todos combate com altivez e crueldade. Está sozinho com o seu poder. Seu cetro estava manchado de sangue, também o seu reinado, a sua alma.
Envolto pela sedução solitária do poder, Macbeth descobre a primeira mentira das palavras das bruxas. Dez mil soldados vindos da Inglaterra camuflaram-se, cada um, com o galho de uma árvore da floresta de Birnam, avançando quase que imperceptíveis contra Dunsinane. Macbeth ri do malogro das bruxas. Assiste à queda dos últimos homens que lhe eram fiéis.
O rei sanguinário não teme aqueles homens. Tem a certeza de que não morrerá pela espada de nenhum deles. Todos nasceram de mulher. A todos que confronta, derruba pelo fio da sua espada. Por fim vê-se posto frente a frente com Macduff. De todos, só ao thane de Fife tentou evitar. Macbeth zomba do seu oponente, não lhe teme a espada, pois ele nascera de mulher. Mas Macduff faz a revelação que derrubaria as palavras enganosas das bruxas: ele tinha sido tirado antes do tempo do ventre maternal. Macbeth vê esvair o encantamento que parecia proteger a sua vida. Fora enganado e traído pelas profecias das bruxas. Acossado, ele luta com Macduff até o fim, sendo morto pela espada do seu maior e mais temido adversário.
Malcolm retoma o trono que fora usurpado do seu pai. É aclamado o novo rei da Escócia. Macduff traz ao novo soberano, a cabeça decepada do sanguinário Macbeth.

William Shakespeare

Considerado o maior escritor da língua inglesa, e um dos maiores dramaturgos do mundo, William Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, a cinqüenta quilômetros de Londres, Inglaterra; provavelmente no dia 23 de abril de 1564. Na igreja local, há o registro do seu batismo, datado de 26 de abril. Era o terceiro filho de John Shakespeare e Mary Arden, sendo o primeiro a chegar à idade adulta, escapando à peste, que dizimara a vida das irmãs mais velhas.
Embora demonstre grande conhecimento da gramática inglesa e da língua latina, não há registros de que tenha freqüentando alguma universidade.
Aos dezoito anos, após engravidar Anne Hathaway, oito anos mais velha, casou-se com ela. Antes de completar vinte e um anos, era pai de um casal de gêmeos e de mais uma menina.
Em 1592, William Shakespeare já era um conhecido ator, poeta e dramaturgo em Londres. Dois anos mais tarde ingressou na companhia teatral de Lorde Chamberlain, que no reinado de James I receberia o nome de King’s Men. O dramaturgo permaneceria na companhia até o fim da sua carreira em Londres.
A família de Shakespeare receberia, em 1596, um brasão de armas, o que lhe faria melhorar a condição financeira, que lhe possibilitaria adquirir uma imponente residência em Stratford, em que viveria até o fim da sua vida.
Durante a vida, Shakespeare atuou como ator em várias das suas peças. Tornou-se sócio-proprietário do Globe Theatre e do Blackfriars Theatre. Viria a aposentar-se em 1613, após um incêndio no Globe Theatre durante uma apresentação, voltando para Stratford.
Há várias versões sobre a morte de Shakespeare, a mais conhecida é a de que teria contraído uma febre fatal após uma ceia com os amigos escritores Ben Johnson e Michael Drayton. O registro do seu sepultamento data de 25 de abril de 1616, quando acabara de completar cinqüenta e dois anos. Shakespeare deixou uma obra imprescindível para a literatura universal, sendo o dramaturgo que mais exerce influência em todo o mundo.

OBRAS:

Tragédias

Macbeth
Lei Lear
Hamlet
Romeu e Julieta
Otelo, o Mouro de Veneza
Tito Andrônico
Júlio César
Tróilo e Créssida
Antonio e Cleópatra
Coriolano
Timão de Atenas

Comédias

O Mercador de Veneza
A Tempestade
Sonho de Uma Noite de Verão
A Megera Domada
A Comédia dos Erros
Muito Barulho por Nada
Os Dois Cavalheiros de Verona
Conto de Inverno
Noite de Reis
Medida por Medida
Péricles, Príncipe de Tiro
As Alegres Comadres de Windsor
Cimbelino
Os Dois Nobres Parentes
Como Gostais
Tudo Bem Quando Termina Bem
Trabalhos de Amores Perdidos

Dramas Históricos

Henrique VIII
Rei João
Ricardo II
Henrique IV, Parte 1
Henrique IV, Parte 2
Ricardo III
Henrique V
Henrique VI, Parte 1
Henrique VI, Parte 2
Henrique VI, Parte 3
Eduardo III

Poemas

Sonetos
Vênus e Adônis
O Estupro de Lucrécia
O Pequeno Apaixonado
A Fênix e a Tartaruga
Uma Queixa de Um Amante

CRONOLOGIA:

1564 – Em abril, provavelmente no dia 23, nasce William Shakespeare, em Stratford-on-Avon.
1582 – Aos dezoito anos, casa-se com Anne Hathaway, em 27 de novembro.
1583 – Nasce, em maio, a filha Susanna.
1585 – Nascem, em fevereiro, os gêmeos Hamnet e Judith.
1592 – Em Londres, Shakespeare é reconhecido como ator e poeta talentoso. Torna-se membro da companhia teatral Os Homens, de Lorde Chamberlain.
1596 – Morre, aos 11 anos, o filho Hamnet. O pai, John Shakespeare, recebe um brasão de armas do College of Heralds; Shakespeare torna-se cavalheiro.
1597 – Compra, em Stratford, uma casa a qual dá o nome de “The Great House of New Place” (A Casa Grande do Novo Lugar).
1599 – Construído, em julho, sobre as ruínas do The Theater, o Globe Theater.
1603 – A companhia teatral de Lorde Chamberlain, em maio, passa a se chamar King’s Men (Homens do Rei).
1613 – Um fogo assola o Globe Theater durante uma apresentação de “Henrique VIII”. Shakespeare aposenta-se, voltando para Stratford.
1616 – Morre, em Stratford, em 23 de abril, aos 52 anos, William Shakespeare. É sepultado, em 26 de abril, na igreja de Stratford.


A MARCHA SOBRE ROMA

Outubro 31, 2009

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália vivia um momento difícil sócio econômico, levando a população ao desalento com os governos tradicionais. Movimentos de esquerda, inspirados na Revolução Bolchevique, atraíam cada vez mais adeptos. Em direção oposta à esquerda, surgiam os movimentos de extrema direita, entre eles o movimento fascista, liderado por Benito Mussolini, jornalista e um antigo socialista. Transformado no Partido Fascista Italiano, em 1921, o movimento atraiu par si um grande número de italianos desencantados com a política.
Os fascistas pregavam a implantação de uma ditadura na Itália, que combatesse o perigo bolchevique e elevasse o país à glória de outrora. Em dois anos, as milícias fascistas moviam-se contra os seus adversários usando da violência, tomando de assalto às sedes dos partidos de esquerda, às dos sindicatos, iniciando governos paralelos através da intimidação e até mesmo do assassínio de adversários.
Com mensagens nacionalistas extremadas, os fascistas iniciaram, em outubro de 1922, uma ação decisiva que os levaria ao poder. No congresso do partido, em 24 de outubro, em Nápoles, Mussolini ameaçou abertamente os poderes constituídos, acusando-os de incapacitados de controlar a anarquia que se instaurara na Itália. Incitados por Mussolini, os fascistas iniciaram uma ação cautelosamente encenada, rompendo numa marcha que chamaram de grande cruzada dos camisas negras, deflagrada oficialmente no dia 28 de outubro. Três grandes colunas de camisas negras, formadas por paramilitares do partido, responderam à convocação de Mussolini, dirigindo-se para Roma. Postas estrategicamente em Tivoli, Monterotondo e Civitavecchia, as colunas fecharam o cerco sobre Roma. Cerca de 50 mil homens marcharam para a capital italiana.
Diante do impasse, movido pelo medo de um possível derramamento de sangue, o governo declarava estado de sítio. Mas o rei da Itália, Vittorio Emanuel III, recusou a medida de exceção do Parlamento, levando-o à demissão. O rei, em 30 de outubro, nomeou Benito Mussolini chefe do gabinete. Quando os camisas negras chegaram a Roma, em vez de desencadearem uma guerra civil, transformaram a cidade em um grande palco de festa para comemorar a ascensão do partido ao governo. Pacificamente, os fascistas desfilaram triunfantes sobre Roma. Iniciava-se um dos momentos mais controversos da história da Itália, instaurando uma das maiores ditaduras de direita do século XX, que iria durar duas décadas. Durante aquele tempo, o país envolver-se-ia na Segunda Guerra Mundial ao lado de Adolf Hitler, de quem o governo de Mussolini tornar-se-ia dependente e totalmente submisso.
A marcha sobre Roma representou, nos palcos da política, uma grande encenação e aparato, que levaram, de forma apoteótica, os fascistas ao poder.

Consolidação do Movimento Fascista Como Partido

Em março de 1919, Benito Mussolini fundou, em Milão, o movimento fascista. Vindo dos movimentos de esquerda, Mussolini fora militante do Partido Socialista Italiano, chegando a dirigir o jornal “Avanti”. Após fundar o jornal “Il Popolo d’Italia”, foi expulso do partido, em 1914.
Em 1921, o movimento fascista foi transformado em partido, regido por uma exacerbada ideologia de direita, que pregava entre outras coisas, o nacionalismo, a abolição do direito de greve dos funcionários públicos e a implantação da ditadura na Itália, como solução para os seus problemas econômicos e sociais.
Os camisas negras, nome derivado do uniforme oficial dos militantes fascistas, transformaram-se rapidamente, em uma poderosa organização paramilitar, usava da intimidação e da violência para acossar os seus opositores. Italo Balbo, o mais poderoso comandante dos camisas negras no norte da Itália, realizou, em 1922, entre maio e agosto, uma seqüência de façanhas que desmoralizou o governo vigente, ocupando com a sua esquadra importantes cidades, como Ferrara, Ravena e Parma, substituindo as autoridades locais pelos seus homens, instalando um governo ilegítimo e paralelo.
A ascensão dos fascistas, em apenas três anos da criação do movimento e pouco menos de um ano da sua consolidação como partido, foi vertiginosa. Estrategicamente Mussolini acenou para o exército, evitando que os seus homens entrassem em combate direto com ele, conseguindo assim, a simpatia de vários comandantes dentro das forças armadas italianas. Também fez parte da estratégia a igreja, que em janeiro de 1922, com a morte de Bento XV, elegia Pio XI como novo papa, e que Mussolini saudou com veemência e respeito. Exército e igreja deixaram de temer os fascistas, restava conquistar o apoio da monarquia.
Em simultâneo com a ascensão do fascismo, veio a decadência dos socialistas, que minavam aos poucos, muitas vezes eliminados fisicamente em emboscadas preparadas por seus inimigos.

Os Fascistas Tranqüilizam a Monarquia

Nos primeiros meses de 1922, após fracassar na tentativa para a formação de um gabinete de esquerda, que contivesse a ascensão dos fascistas, o governo de Bonomi pediu demissão. Para substituí-lo, foi designado o liberal e inexpressivo Luigi Facta.
Em julho, os fascistas promoveram uma invasão à cidade de Cremona, saqueando a sede do Partido Socialista, ocupando prédios municipais e incendiando a casa do deputado do Partido Popolare, Guido Miglioli. Em resposta às atrocidades sofridas, membros dos dois partidos moveram uma moção de desconfiança contra o governo de Facta, enfraquecendo-o e levando-o à queda ainda naquele mês. Após doze dias de negociações, Facta foi novamente empossado no governo.
Paralelamente, os fascistas demonstravam a sua força diante dos opositores. Na Emilia-Romanha, foi promovida uma greve geral pelos socialistas, em protesto contra as ações dos fascistas. Como o governo não conseguiu conter a greve, os fascistas tomaram conta dos serviços públicos essenciais, garantido que fossem mantidos durante a greve. A ação resultou numa humilhante derrota aos socialistas.
Com ações cada vez mais contundentes, os fascistas continuaram a ter êxito em ataques às cidades e sedes dos partidos inimigos, formando governos paralelos. Maturava a idéia de uma revolução fascista que tomasse o poder. Mussolini mostrava-se indeciso entre deflagrar uma revolução ou tentar a conquista pacífica do poder.
Diplomaticamente, Mussolini havia tranqüilizado o exército e a igreja, de que não seriam atingidos com a ascensão fascista ao poder. Faltava tranqüilizar a monarquia. Em 20 de setembro, o líder dos fascistas discursou em uma manifestação do partido em Udine. Afirmava que mudanças radicais poderiam ser promovidas sem que afetassem à monarquia. Assim, o exército, a igreja e a monarquia, deixaram de inquietarem-se diante de uma possível revolução fascista. Habilmente, Mussolini conquistava a simpatia de vários membros daqueles poderosos setores da política e da sociedade italiana.

Delineados os Planos para a Marcha

No decorrer do segundo semestre de 1922, o espectro de uma marcha sobre Roma que resultasse na tomada de poder pelos fascistas, fazia eco no cenário político. Um avanço sobre a capital do país parecia iminente. Em 11 de outubro, a intenção da marcha ficou clara publicamente, quando em Cremona, a multidão aclamou o líder Mussolini aos gritos de “Para Roma, para Roma…
Em outubro de 1922, finalmente Mussolini decidira por desencadear o processo revolucionário. Reuniu-se em sigilo na Vila São Marcos, em Milão, em 16 de outubro, com os companheiros Italo Balbo, Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi e o marechal Emilio De Bono, entre outros. Decidiu-se que as milícias seriam unificadas sob um comando, a cargo de Balbo, De Bono e De Vecchi. A marcha sobre Roma seria realizada; a data da sua deflagração viria a ser marcada no Congresso Fascista, que se iria realizar a partir de 24 de outubro, em Nápoles.
A princípio, De Vecchi, um ex-monarquista que não tinha simpatia pelo método revolucionário; e, De Bono, não achavam que o momento da grande marcha sobre Roma seria aquele, mas retrocederam diante do grande entusiasmo revolucionário de Italo Balbo e do próprio Mussolini.
Inicialmente, o plano estratégico sugerido por Mussolini era de que três grandes colunas das milícias fascistas ficassem concentradas nas províncias da Emilia-Romanha, Toscana e nos Lagos, de onde convergiriam para Roma. Os generais da ativa Fara e Cecherini, que não pertenciam oficialmente ao partido, mas que estavam na reunião em Milão como convidados de Mussolini; alertaram para a imprudência de percorrer um caminho tão longo, praticamente a metade do território italiano. Diante das ressalvas, Italo Balbo deu a sugestão que seria a executada, a concentração dar-se-ia em três pontos próximos de Roma: no Tivoli, Civitavecchia e Monterotondo, instalando-se o quartel general na Perugia. Os planos para a grande marcha sobre Roma estavam, finalmente, estabelecidos.

Durante o Congresso em Nápoles

Passaram-se cerca de oito dias entre a reunião secreta de Milão e o congresso do partido fascista em Nápoles. Tempo suficiente para que se eliminassem todos os obstáculos e aperfeiçoassem o grande plano revolucionário.
No dia 23 de outubro Mussolini, vindo de Milão, a caminho de Nápoles, passou por Roma, onde teve um encontro com Salandra, que tencionava, junto com os fascistas, formar um governo de direita. No dia seguinte, em Nápoles, quarenta mil fascistas desfilaram à tarde, pela praça do Plebiscito. Diante deles, Mussolini fez um inflamado discurso, que abalaria a nação. Eloqüentemente declarava:
Garanto-vos solenemente, porém, que a nossa hora soou. Ou nos concedem o governo ou nós iremos a Roma conquistá-lo. É uma questão de dias ou horas.
Os preparativos finais para a marcha foram estabelecidos naquela noite, no Hotel Vesúvio, em Nápoles, antes de Mussolini deixar a cidade, secretamente, rumo a Milão. Os poderes da operação militar, quando fosse desencadeada, seriam dados plenamente ao quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, e a eles deveriam ser transmitidos à meia-noite do dia 26 de outubro. Uma mobilização secreta começaria a ser feita em 27 de outubro, e, finalmente, no dia 28 de outubro começariam os ataques revolucionários às prefeituras, jornais, sedes de entidades opositoras aos fascistas, postos policiais, sindicatos, estações de correios e diversos outros pontos estratégicos. A seguir aos ataques, ainda no dia 28 de outubro, uma concentração dos camisas negras em três pontos distintos, iniciaria a marcha sobre Roma.
Em frente ao Hotel Vesúvio, as milícias fascistas desfilavam, a cantar e a gritar eloqüentemente: “Para Roma! Para Roma!

A Marcha da Vitória Fascista

No dia 26 de outubro, os comandantes fascistas assumiram os seus postos nas concentrações das milícias. Em Civitavecchia, o comando foi entregue a Perrone Compagni, auxiliado pelo general Cecherini; a coluna de Monterotondo seria comandada por Ulisses Igliorie; e, a de Tivoli, por Giuseppe Botai. O quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, assinou o manifesto redigido por Mussolini, que seria divulgado no auge da deflagração da marcha.
Em Roma espalhou-se o pânico diante de uma marcha revolucionária fascista com conseqüências imprevisíveis. Facta é aconselhado a demitir-se. Após relutar, diante das notícias da marcha das três colunas de camisas negras, que chegavam alarmantes à capital, Facta, decidiu finalmente, demitir-se.
Ante à notícia da demissão de Facta, uma das exigências para que os fascistas não atacassem Roma, De Bono, Balbo e Bianchi decidiram suspender a ação por 24 horas, à espera de novas orientações. Mas o movimento já estava em curso, sendo impossível de retroceder ou controlar. Debaixo de chuva e frio, a marcha sobre Roma prosseguiu.
Na madruga de 28 de outubro, Luigi Facta, já demissionário e a aguardar a designação do seu substituto, recebeu um telefonema de Michele Bianchi, acusando-o de vir a ser o responsável por um possível derramamento de sangue. Às cinco horas da manhã, Facta convocou uma reunião de emergência do gabinete do governo. Simultaneamente, o jornal “O Popolo d’Italia”, foi posto em circulação, trazendo o manifesto redigido por Mussolini e assinado pelo quadrunvirato revolucionário. Publicado na íntegra, o manifesto conclamava:
Fascistas italianos. Soou a hora da batalha decisiva. (…)
(…) Fascistas de toda a Itália, apelai para o vosso espírito e para a vossa força. Temos de vencer. Venceremos.
Viva a Itália, viva o fascismo.

Enquanto a proclamação do manifesto fascista circulava pelas ruas, Luigi Facta e o seu gabinete decidiram decretar estado de sítio. Dirigiu-se a Vittorio Emanuel III para que assinasse o decreto, mas o rei afirma que se deve evitar o conflito, e recusa-se a assinar o documento. Sem saída, Facta comunicava aos políticos e às autoridades militares de que o estado de sítio não tinha mais valor.
No dia 29 de outubro, Mussolini publicava no jornal “O Popolo d’Italia”, aquele que viria a ser o seu último artigo como jornalista. Enfaticamente, o líder fascista concluía: “O fascismo quer o poder e há de obtê-lo”.
As palavras são cumpridas. Em Roma, De Vecchio é chamado ao palácio, recebendo a missão de convocar Mussolini a Roma para ser nomeado primeiro ministro da Itália.
Em Milão, Mussolini recebe o telegrama com a notícia da sua designação para primeiro ministro. Aceita-o imediatamente. Passa a direção do jornal “O Popolo d’Italia” para o irmão Arnaldo, deixando instruções para que se destrua completamente os jornais socialistas “Avanti” e “Giustizia”. Segue à noite, de trem, para Roma.
No dia 30 de outubro, o trem que trazia Mussolini chega, às 9h30, a Civitavecchia. Ali, usando a camisa negra, passa em revista as milícias fascistas que estavam preparadas para marchar sobre Roma. Uma hora depois, ele chega triunfante à capital italiana. Ainda a trajar a camisa negra, é recebido cordialmente pelo rei, no Palácio Quirinal. Minutos depois, Vittorio Emanuel e Benito Mussolini aparecem na sacada do Quirinal, sendo aclamados e aplaudidos pela multidão.
Na noite de 30 de outubro, às 19h00, Benito Mussolini, já despido da camisa negra, a trajar uma casaca, levou ao rei da Itália uma lista com os nomes dos ministros que iriam formar o seu gabinete. Aos 39 anos, era o mais jovem italiano a exercer o cargo nos últimos sessenta anos. Os fascistas chegavam ao poder. A ditadura era instaurada na Itália.
Nas ruas de Roma, as milícias dos camisas negras, que se haviam preparado para uma intensa luta armada, realizavam, na presença do rei, uma alegre e triunfante passeata, a conclamar a vitória. Após o ato público, Mussolini, já primeiro ministro da Itália, ordenou que se dispersassem as colunas, e que todos retornassem para casa. Na noite de 31 de outubro, os trens levavam de Roma os últimos camisas negras, agora no poder, que se iria estender por duas décadas. As mais conturbadas da história recente da Itália e do mundo.


GUERNICA – A INDIGNAÇÃO DE PABLO PICASSO

Outubro 31, 2009

A tragédia que se abateu sobre a aldeia basca de Guernica, em 1937, no auge da Guerra Civil Espanhola, indignou o mundo. Atingidos por bombas e rajadas de metralhadoras, os moradores do pequeno lugarejo viram dizimados quase que metade da população. A destruição da aldeia fazia parte de um treinamento de guerra executado pela Luftwaffe alemã, e servia para intimidar os inimigos do general Franco, cujas tropas estavam em guerra com a esquerda do país.
Pelas ruas de Guernica, em meio aos escombros, milhares de mortos jaziam insepultos, e centenas de feridos contemplavam o horror. A repercussão do ataque a Guernica correu o planeta. Foi tão negativa, que Franco em vez de usar o fato para intimidar os guerrilheiros rebeldes, culpou-os, tentando imputar-lhes a autoria do bombardeio. Ante tão imensa tragédia, ninguém quis assumir as responsabilidades.
Jornais e revistas da época registraram o banho de sangue. Mas nenhum registro foi tão contundente e definitivo quanto o de Pablo Picasso, em sua obra “Guernica”, um painel de 350 cm por 782 cm. Pintado a óleo, com cores em preto e branco e cinza, foi feita por ocasião da Exposição Internacional de Paris, em 1937. Na pintura, Pablo Picasso revela toda a indignação e repulsa pelo sucedido a Guernica e aos seus habitantes.
Retrato pungente, com figuras ao estilo dos frisos e das tumbas dos templos gregos, dimensionado pelo enquadramento triangular das alegorias. O resultado gera nos observadores, uma sensação de mal-estar, diante do horror cubista. É um grito do sangue derramado. Ao ser exposta, a obra suscitou o menosprezo das pessoas, que a tinham como repulsiva e pouco compreensível.
Com o tempo, “Guernica” tornou-se símbolo de protesto contra a violência e a barbárie das guerras. É uma manifestação da cultura contra a violência, difundida em todo o mundo. O painel foi levado para Nova York, onde lá permaneceu, proibido de retornar à Espanha, por ordem do próprio Picasso, até que o franquismo fosse extinto e a democracia restaurada. Com o fim da ditadura espanhola, em 1975, a obra retornaria ao país em 1981, sendo tida como o último exilado. Em 1992, foi definitivamente para o Museu Reina Sofia, em Madrid.
Pungente, sua beleza estética diluí-se diante do horror que retrata, “Guernica” é a própria repulsa da arte às atrocidades dos homens e dos seus regimes opressivos. É o retrato de uma civilização que se fez armada e poderosa, mas que ruiu diante das suas ideologias totalitaristas. “Guernica” é a arte contra a guerra.

O Bombardeio de Guernica

A Guerra Civil Espanhola tornou-se símbolo de uma luta ideológica da esquerda e da direita ibéricas, que suscitou o apoio de pessoas de todo o mundo. Legiões de estrangeiros engrossaram as fileiras dos guerrilheiros que combatiam contra a ditadura de Francisco Franco.
Em julho de 1936, o governo nazista de Adolf Hitler decidiu apoiar o caudilho espanhol. O acordo com os nacionalistas espanhóis concedia grande autonomia às forças nazistas. Quando a Luftwaffe alemã chegou à área do conflito, estava ansiosa para aplicar manobras militares envolvendo bombardeios de tática de terra arrasada, com levas de esquadrilhas que conduziriam bombas diferentes, de fragmentação, incendiárias; e assim, poder descobrir os efeitos.
No início de 1937, foi escolhido o local a ser bombardeado pelos nazistas. A operação tinha como finalidades, testar a capacidade bélica da Alemanha nazista em caso de uma guerra futura e, intimidar os inimigos de Francisco Franco. Seria Guernica, pequeno vilarejo situado entre Bilbao e San Sebastián, ao norte da Espanha, nos Países Bascos. O lugar possuía cerca de sete mil habitantes, refugiando muitos republicanos que para ali fugiram durante a guerra.
No dia 26 de abril de 1937, sob o comando do tenente coronel Wolfran von Richthofen, a unidade aérea alemã “Legião Condor” iniciou um bombardeio sobre Guernica. Era uma segunda-feira, dia de feira livre na aldeia. Ainda havia bastante movimento na praça, no fim da tarde, quando os sinos começaram a badalar. Às 16h45 foi despejada a primeira leva de Heinkels-11 sobre o lugarejo. Por quase três horas consecutivas, uma população horrorizada viu o inferno vindo do céu, com bombas, rajadas de metralhadoras contra os que fugiam para os arredores dos escombros formados, deixando um grande rastro de sangue e cerca de 1.654 mortos e 889 feridos. A aldeia levou um dia para apagar o incêndio.
A tragédia de Guernica entrou para a história como o primeiro cenário para ensaio de guerra, antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Os alemães viram-se satisfeitos com o resultado do treinamento militar. Franco usou os acontecimentos para culpar os exércitos de esquerda. O mundo mostrou-se estarrecido diante daquela atrocidade. A população do vilarejo perdeu cerca de 40% da sua população. A morte, a destruição, o solo banhado por sangue, foi o resultado concreto diante daquele dia infernal.

Guernica, de Pablo Picasso

Pablo Picasso, um dos maiores pintores do século XX, passara pela Primeira Guerra Mundial sem que se deixasse inquietar por ela. Quando a guerra civil foi deflagrada em seu país, deixou a neutralidade costumeira e solidarizou-se com os republicanos.
A tragédia de Guernica chegou ao pintor, em maio de 1937, quando os jornais publicaram fotografias do bombardeio à aldeia. Picasso sentiu-se profundamente tocado pelo derramamento de sangue do povo basco. Da tragédia, surgiu a inspiração para pintar a mais terrível e genial das suas obras.
Fechado em seu atelier em Paris, o artista criou 45 estudos preliminares, resultando em um painel de 3,50 m x 7,82 m, pintado a óleo, nas cores preta, cinza e branca; ao qual chamou de “Guernica”, feito para ser posto em frente ao pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris de 1937.
Exposta pela primeira em 4 de junho de 1937, menos de dois meses após o bombardeio, a obra era um tenaz registro daquele momento tétrico da história espanhola. O painel trazia uma carga emotiva que inquietava as pessoas, com imagens sombrias, rompendo com qualquer efusão lírica. Na exposição de Paris, o público não percebeu o sentido de retrato tão cáustico, virando as costas ao painel.
“Guernica” despeja as emoções, tornando-as avassaladoras, como se as imagens fossem explosões de colagens cubistas, em um artifício ilusionista. No alto, o painel é dominado pela presença da luz de um olho em forma de lâmpada. As figuras provocam imagens fragmentadas, elucidadas pela violência proposta, numa agonia latente. Rigorosamente, Picasso parece dividir a tela em quatro retângulos, com um triângulo cujo vértice em seu eixo vertical, divide-a em duas partes iguais.
No primeiro retângulo, a angústia e desespero de uma mãe a chorar a morte do filho, como uma trágica Pietá moderna, ladeada por um touro ameaçador com cabeça humana. O touro é uma presença marcante no universo de Pablo Picasso.
No segundo retângulo, o imenso olho luminoso, com uma lâmpada no centro, rasga a dramaticidade exposta, sobre a figura de um cavalo ferido e em disparada. A figura do cavalo centraliza o triângulo já mencionado.
No terceiro retângulo, mais luz vem da lâmpada que uma mulher traz na mão, como se fosse uma alegoria da Estátua da Liberdade. No quarto retângulo, o desespero latente de um homem diante do horror, a levantar os braços ao céu.
Touro e cavalo, animais símbolos da mitologia espanhola, simbolizam a brutalidade e as forças do mal (touro), numa cruel repressão ao povo (cavalo). No chão, um cadáver empunha a espada partida, símbolo da resistência do povo espanhol.
No início rejeitada pelo público, “Guernica” tornou-se com o tempo, a obra que simboliza a repulsa às guerras. Pablo Picasso, em solidariedade com os mortos na tragédia e com o povo espanhol, que lutou contra a ditadura de Franco, ao tornar a sua obra famosa, proibiu que ela fosse exposta em solo ibérico, até que a democracia voltasse ao país. A obra ficou exposta em Nova York, até que, em 1981, voltou à Espanha, já redemocratizada. Desde 1992 encontra-se na exposição permanente do Museu Reina Sofia, em Madrid.
Reza a lenda que, em 1940, quando a França estava sob a ocupação nazista, um oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, em uma exposição, em Paris, perguntou a Picasso se tinha sido ele quem fizera tão horrível obra, ele respondeu: “Não, foram vocês!

Pablo Picasso

Um dos mais geniais mestres da arte do século XX e de todos os tempos, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, nasceu em Málaga, na Espanha, em 25 de outubro de 1881.
O pai, um pintor medíocre, teria sido uma influência para que o talento de Picasso fosse despertado. Aos treze anos, já atingia a perícia do pai.
Após passar por Barcelona, chegou a Madrid, em 1897, onde se instalou em um atelier e inscreveu-se na conceituada Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Sua estadia em Madrid seria interrompida quando o artista adoeceu, em julho, com escarlatina. Para convalescer, retornou à Barcelona, onde vivia a família.
Em 1900, levado pelo sonho de conhecer Paris, ele partiu para a capital francesa. Seria ali que Picasso iria ascender para a fama, tornando-se um dos maiores artistas do século que despontava.
As obras de Picasso não se resumem somente à pintura, constam esculturas e cerâmicas. Ao lado de Georges Braque, é considerado o fundador do Cubismo. Pablo Picasso viveria grandes amores e intensamente. Morreu aos 91 anos, em Mougins, riviera francesa, em 8 de abril de 1973. Produziu suas obras até o último instante, não se deixando perder a inspiração pela velhice.

Algumas Obras de Pablo Picasso

1899 – Auto-Retrato
1901 – Absinto (Rapariga no Café)
1901 – A Morte de Casagemas
1901 – Evocação – O funeral de Casagemas
1901 – A Maternidade
1903 – Velho Guitarrista Cego
1903 – Miseráveis Diante do Mar
1903 – A Vida
1904 – Mulher Passando a Ferro
1904 – Retrato de Suzanne Bloch
1905 – Auto-Retrato com Capa
1905 – Rapaz com Cachimbo
1905/1906 – Fernanda com um Lenço Preço
1906 – Vasilhas
1907 – Mulher com Leque
1907 – Jovem Nu (Jovem Rapaz com Braços Levantados)
1907 – Lês Demoiselles d’Avingnon
1908 – Banho
1908 – Três Mulheres
1908 – Composição com Crânio
1909 – Garrafa, Jarra e Frutas
1914 – Vaso sobre a Mesa
1931 – Mulher Loira
1932 – La Lecture (Woman Reading)
1933 – Minotauro, Bebedor e Mulheres
1937 – Guernica
1941 – Dora Maar au Chat
1944 – O Tomateiro
1960 – Mulher Sentada num Cadeirão
1965 – Lagosta e Gato
1969 – Arlequim com Batom
1971 – Busto de Mulher


A LEI DO DESEJO

Outubro 30, 2009

Um dos filmes mais instigantes e transgressores da obra de Pedro Almodóvar, “A Lei do Desejo” (La Ley Del Deseo), é uma ode à paixão e ao sexo, levados ao extremo. Provocante, marginal, underground, o filme encerra a fase mais criativa e cáustica do diretor espanhol. A partir de então, Almodóvar conquistaria fama mundial, lapidaria a sua obra, perdendo a linguagem crua que permeava com humor corrosivo as suas personagens.
O filme traz uma galeria de personagens complexos, labirínticos nas suas identidades e segredos. Todos eles são movidos pela verve do sexo, atirando-se ao precipício latente do desejo. Tina (Carmen Maura), mulher doce e passional na sua essência, é no reflexo do seu espelho um homem sofrido, que quando criança foi sexualmente molestado pelo pai. Para viver esta paixão incestuosa, submeteu-se a uma cirurgia para mudar de sexo, tornando-se um transexual. Pablo (Eusebio Poncela), irmão de Tina, é um bem-sucedido diretor de teatro e cinema. No seu vazio, usa da cocaína para fugir às verdades dos sentimentos, nutre uma paixão pelo belo Juan (Miguel Molina), mas não é correspondido em seu esplendor. Finalmente Antonio (Antonio Banderas), um jovem impulsivo à procura da sua identidade, luta contra a sua homossexualidade, mas se deixa levar pela paixão, logo transformada em obsessão, por Pablo. E num contexto passional, repleto de ciladas e armadilhas sentimentais, que se forma o triângulo fatal entre as três personagens, envolvidas nos impulsos irresistíveis do sexo e da paixão.
Nunca a temática homossexual, comum na obra de Almodóvar, foi tão explicitamente exposta por ele. Nunca o amor foi tão arrancado a unha em sua verve dilacerante como aqui. Os sentimentos labirínticos são extraídos à flor da pele, conduzindo a platéia a um retumbante final, deixando-a sem fôlego. Nunca Antonio Banderas foi tão maliciosamente inocente, passional, eloqüente e sincero como ator como aqui, mantendo-se anos luz da imagem do machão latino que desenvolveria no cinema norte-americano. Nunca a tragédia do amor derrubou tanto os preconceitos como em “A Lei do Desejo”.
O filme não é considerado o melhor de Pedro Almodóvar, mas é um dos mais cultuado por seus admiradores e pelos críticos. Corajosamente ele encerrava a fase underground da sua carreira, deixando o universo da Madri marginal, para conquistar o mundo como um grande cineasta. Última grande parceria com Carmen Maura, que se diluiria em “Mulheres á Beira de Um Ataque de Nervos” (1988), só voltando em “Volver” (2006). “A Lei do Desejo” é, ao longo dos anos, um retrato histórico do cinema de Pedro Almodóvar, e, das carreiras de Antonio Banderas e Carmen Maura. É o diretor na sua mais pura essência criativa.

O Desfile de Estranhos Personagens

O início do filme é já um afronto que prepara a platéia para o que viria. Na primeira cena, um belo rapaz aparece de costas, nu, tocando o seu corpo conforme ordena uma voz. Constrangido, mas pronto para cumprir o seu papel, o rapaz toca-se em gestos obscenos, quase pornográficos. Encerra-se a filmagem e o modelo nu, conta o seu dinheiro. Do outro lado das câmeras, inicia-se, finalmente “A Lei do Desejo”.
As personagens são apresentadas de forma crua, em ambientes dúbios e marginais de Madri. O cineasta Pablo Quintero (Eusebio Poncela) transita pelos bares noturnos, trocando olhares com belos rapazes, movendo-se à cocaína. À sombra de Pablo, surge Antonio Benitez (Antonio Banderas), jovem bonito e impetuoso, que mesmo negando a sua vertente homossexual, masturba-se por banheiros sujos a pensar em ser possuído por um homem.
Do outro lado da cidade, caminha Tina (Carmen Maura) e uma criança, Ada (Manuela Velasco). Um estranho relacionamento de mãe e filha une as duas. Em uma igreja, Tina, ao entoar uma área, revela inesperadamente ao padre, que era o menino que cantava nos corais anos atrás. Conta-lhe a sua mais dilacerante verdade, quando transitava para a adolescência, foi possuída pelo pai. A relação incestuosa de ambos fez com que o casamento dos pais chegasse ao fim. Para viver aquele estranho amor, Tina foi levada pelo pai para o Marrocos, onde foi submetida a uma cirurgia para a troca de sexo. Sim, Tina é um transexual. Ada, a menina, fora adotada por ela.
As personagens contaminam os espectadores com as suas verdades, ditas com um humor cáustico, lancinante, em um cenário barroco. Pablo, Tina e Ada trocam momentos de ternura e amor, formando a família possível dentro do universo de cada um. Exótica, diferente, é o retrato da nova família que os tempos gerou, onde pai e mãe, nem sempre correspondem ao que decretara a natureza, mas os sentimentos.
Tina é solitária, entrega-se à arte, interpretando como atriz o monólogo “A Voz Humana”, de Jean Cocteau. Apega-se a Ada, cuidando da menina desde que a mãe viajara. Curiosamente Carmen Maura interpreta um transexual, e a mãe de Ada é interpretada por Bibi Andersen, um transexual com presença constante nos filmes de Pedro Almodóvar. A pequena Ada nutre uma paixão platônica por Pablo. Bons momentos do filme são vividos por Tina e Ada, como o da performance no palco, em um momento sublime, sendo feita sob a música “Ne me Quitte Pas”, de Jacques Brel, cantada pela voz aveludada da cantora Maysa. Nos créditos do filme, a brasileira aparece ainda com o nome de Maysa Matarazzo.
Pablo, Tina e Antonio, três personagens que se irão entrelaçar em breve, em um encontro explosivo, sensual, inquietante e fatal, como jamais assistiria outra vez o cinema espanhol.

O Amor Obsessivo de Antonio

Pablo é um homem que passeia pelos sentimentos de forma leve, sem neles se perder. Caminha quase que alienado ao que se passa ao seu redor. Jamais soube ou suspeitou do envolvimento de Tina com o pai. Sua máquina de escrever é a sua verdade, dela extrai os textos que tece a sua obra.
Famoso como cineasta, Pablo freqüenta bares noturnos undergrounds, como qualquer homem homossexual de Madri o faz. Ciente do assédio que sofre, é promíscuo e caçador. Intimamente, Pablo é apaixonado pelo jovem e belo Juan (Miguel Molina). Mas Juan está no auge da sua juventude e descobertas, não amando o cineasta com o mesmo ardor. Desvinculando-se de Pablo, o jovem parte para o interior, deixando-o sob as garras da solidão de Madri.
Pablo pensa em Juan, erra pela solidão dos bares da cidade. Será na boca da noite que encontrará Antonio, um jovem envolvente e rebelde. Nutrindo uma atração por Pablo, o rapaz cerca-o decidido. Logo são envolvidos pela atração e sedução mútuas. Mesmo apaixonado por Juan, Pablo aceita o assédio de Antonio. Será ele quem iniciará o jovem na vida sexual entre dois homens. Pedro Almodóvar descreve o encontro em uma cena crua, onde Antonio deixa-se possuir por Pablo sob a dor da penetração. A cena é transgressora, surpreendeu e escandalizou a platéia da década de 1980. Mais tarde, foi motivo de desentendimento entre Antonio Banderas e Almodóvar; por causa dela, o ator tentou impedir que o filme fosse exibido nos Estados Unidos, onde construíra uma imagem de macho latino nas películas de Hollywood. O diretor sentiu-se ultrajado com a tentativa de veto.
Iniciado na vida sexual, apaixonado, extasiado, Antonio era ainda inocente nos amores delicados movidos pela noite. Se para Pablo fora uma agradável noite de sexo, para Antonio fora a entrega, a paixão, o amor incondicional. Mesmo diante da recusa de Pablo, Antonio faz-se presente na sua vida. Faz do amante a sua existência. Torna-se um homem terno, disposto a fazer todas as vontades do amado, cobrindo-o de mimos. Antonio passa a nutrir uma paixão violenta e obsessiva por Pablo, mostrando-se ciumento e impulsivo.
Mas a verdade de Pablo é somente uma, Antonio é uma aventura, nada mais. Juan era o escolhido por ele para caminhar a sua vida. Quando Antonio descobre que o coração do amado está ocupado, preenchido pela inconstância de Juan, ele é acometido pela sombra negra do ciúme.
Antonio parte de Madri, rumando ao encontro de Juan. No interior, ele seduz aquele que lhe parecia o maior rival. Antonio quer saber tudo sobre os sentimentos de Pablo, inclusive como ele se sentia ao possuir Juan. Antonio é o próprio Pablo, vestindo inclusive uma camisa igual a do amado. Movido pelo ciúme, Antonio atrai Juan para uma cilada fatal. Num ato de fúria, empurra o rival no precipício, lançando-o em um vôo mortal. Antes de cair, Juan agarra-se a Antonio, arrancando-lhe o bolso da camisa. Aquela seria a pista que levaria a polícia a chegar a Pablo, que se tornaria o principal suspeito.

A Paixão Vivida ao Extremo

Pablo tinha ido ao encontro de Juan, quando soube da sua morte. Até então, ele não levara Antonio a sério. Começa a suspeitar que o jovem amante era capaz de tudo por seu amor, inclusive matar. Transtornado, ele sofre um acidente quando dirigia o automóvel.
Pablo permanece algum tempo no hospital. Enquanto convalesce, é visitado por Tina. A irmã revela que está apaixonada, que encontrara o homem da sua vida. Pablo não suspeita que o homem misterioso é Antonio. Excluído da vida do amante, o jovem decide fechar o círculo, seduzindo Tina. Em um momento exuberante, Carmen Maura conduz uma apaixonada Tina. Sua interpretação foge da caricatura e do estereótipo que se desenvolve em torno de personagens transexuais. A atriz é perfeita, vivendo um dos maiores desafios da sua carreira. Uma cena antológica do filme é quando Tina caminha com Ada pelas ruas de Madrid, numa noite quente de verão. Ao passar por um jardineiro que molha a rua, vira-se para ele e pede: “Rega-me! Rega-me!
Quando Pablo deixa o hospital, a verdade vem à tona. Era Antonio o amor de Tina. Desesperado, ele entra em pânico, pois só consegue ver no rapaz o assassino, longe do amante que fora. Antonio vê-se cada vez mais sem saída. Em breve seria perseguido e preso pela morte de Juan. Num gesto desesperado, ele usa Tina como refém, forçando um encontro com Pablo.
O filme atinge o seu clímax quando Antonio, armado e decidido, consegue ficar sozinho com Pablo. Do lado de fora do prédio, a polícia e a imprensa fecha o cerco. Acossado, Antonio põe a arma atrás da calça jeans, abraça-se a Pablo e começa a dançar com ele. Revela-se mortalmente apaixonado. Tudo fizera para ter aquele momento de amor com Pablo, e mais o faria, se preciso fosse. Não importava o mundo lá fora. Naquele momento Antonio entregava-se ao seu verdadeiro universo. Quebrara todas as regras, infringira todas as leis, para viver apenas a lei maior do desejo.
Pablo comove-se com a paixão de Antonio. Tardiamente descobre a força do amor daquele jovem impetuoso. Juntos descortinam as ciladas dos sentimentos. Entregam-se como dois amantes ternos e apaixonados. Nos braços de Pablo, Antonio conseguira o seu momento de felicidade e plenitude. Já não precisava de mais nada. Deixa o amante na cama e volta para a sala. Pablo desperta do torpor pelo barulho do disparo de um tiro. Corre até a sala e encontra Antonio no chão, coberto de sangue, morto. Ele desespera-se. Perdera Juan, perdera Antonio, ambos tragados pela lei do desejo. Pablo chora a morte do mais estranho e intenso amante que já tivera. Num gesto de fúria, pega a máquina de escrever e a atira pela janela. Diante daquele ato, a polícia decide invadir o apartamento. Apoteoticamente, Pedro Almodóvar encerrava o filme e a primeira fase do seu cinema.

Ficha Técnica:

A Lei do Desejo

Direção: Pedro Almodóvar
Ano: 1986
País: Espanha
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Duração: 102 minutos / cor
Título Original: La Ley Del Deseo
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Miguel Ángel Perez Campos e Agustín Almodóvar
Música: Bernardo Bonezzi, Pedro Almodóvar, Fred Bongusto, Fany McNamara e Maysa Matarazzo (Ne me Quitte Pas)
Direção de Fotografia: Angel Luís Fernández
Direção de Arte: Javier Fernández
Decoração de Set: Ramón Moya
Figurino: José Maria de Cossio
Maquiagem: Jorge Hernández, Juan Pedro Hernández e Teresa Matías
Edição: José Salcedo
Efeitos Especiais: Reyes Abades
Som: Jim Willis
Estúdio: El Deseo S.A.
Distribuição: Paramount Home Entertainement
Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Fernando Guillén, Manuela Velasco, Nacho Martinez, Bibi Andersen, Helga Liné, Germán Cobos, Fernando Guillén Cuervo, Marta Fernández Muro, Lupe Barrado, Alfonso Vallejo, Muruchi Leon, José Manuel Bello, Augustin Almodóvar, Rossy de Palma, José Ramón Pardo, Juan A. Granja, Angie Gray, Hector Saurint, José Ramón Fernández, Pepe Patatín, Victoria Abril, Pedro Almodóvar
Sinopse: Pablo (Eusebio Poncela), diretor de cinema homossexual, é apaixonado por Juan (Miguel Molina), que não o ama. Na noite madrilena conhece Antonio (Antonio Banderas), que fará de tudo para ter o seu amor, inclusive matar os que se lhe fizerem frente. Tina (Carmen Maura), é irmã de Pablo; nascera homem, mas seduzida pelo pai, fez uma operação para mudar de sexo. Os dois irmãos envolvem-se em um triângulo trágico, onde a lei do desejo conduz os sentimentos em uma história original, intensa e instigante.

Pedro Almodóvar

Considerado um dos maiores cineastas contemporâneos, Pedro Almodóvar Caballero nasceu em 24 de setembro de 1951, em Calzada de Calatrava, na Espanha. Filho de família humilde, rumou para Madri logo cedo, exercendo várias profissões, entre elas a de funcionário da companhia telefônica da Espanha.
Em Madri, Pedro Almodóvar circulava pelos ambientes undergrounds da cidade, onde colheria material suficiente para desenvolver e explorar futuramente em seus filmes. Homossexual assumido, enveredou pelos meandros da vida artística, atuando como ator e como cantor de uma banda de rock, na qual se apresentava travestido.
Mas foi como diretor de cinema que Almodóvar se iria tornar um nome consagrado em todo o mundo. Seus filmes, inicialmente, traziam uma linguagem crua, um humor cáustico e corrosivo, repletos de personagens transgressoras. Na primeira fase da sua carreira, iniciada com “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón”, revela um universo que desconstroi o caráter das personagens, em situações exóticas e surpreendentes. A atriz Carmen Maura é a grande musa desta fase, que revelaria também, o ator Antonio Banderas.
Em 1987, os filmes de Pedro Almodóvar ultrapassaram as fronteiras da Espanha, chegando a Portugal, onde ganhou com “Matador” o prêmio maior do festival Fantasporto. A partir de então sua obra passou a ser vista internacionalmente. O grande sucesso internacional viria em 1988, com “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”, indicado para o Oscar, inaugurando uma nova fase da sua filmografia.
Pedro Almodóvar é um diretor polêmico, amado e cultuado em todo o mundo. O seu filme “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999), finalmente arrebataria o Oscar. Grandes atores e atrizes sonham em ser dirigidos por ele. Mas o diretor costuma eleger os seus favoritos, tendo três musas distintas em fases diferentes: a já citada Carmen Maura, Victoria Abril e Penélope Cruz. Sua obra é sempre uma agradável surpresa. Suas personagens trazem uma bomba pronta a ser detonada no centro dos costumes.

Filmografia de Pedro Almodóvar:

Longa Metragem

1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1988 – Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios (Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos)
1990 – Átame! (Ata-me!)
1991 – Tacones Lejanos (Saltos Altos)
1993 – Kika (Kika)
1995 – La Flor de Mi Secreto (A Flor do Meu Segredo)
1997 – Carne Trémula (Carne Trêmula)
1999 – Todo Sobre Mi Madre (Tudo Sobre a Minha Mãe)
2002 – Hable Con Ella (Fale com Ela)
2004 – La Mala Educación (Má Educação)
2006 – Volver (Volver)
2009 – Los Abrazos Rotos

Curta Metragem

1974 – Film Político
1974 – Dos Putas, O Historia de Amor Que Termina en Boda
1975 – La Caída de Sódoma
1975 – Homenaje
1975 – El Sueño, o la Estrella
1975 – Blancor
1976 – Tráiler de “Who’s Afraid of Virginia Woolf?”
1976 – Sea Caritativo
1976 – Muerte en la Carretera
1977 – Sexo Va, Sexo Viene
1978 – Folle… Folle… Fólleme Tim!

Média Metragem

1978 – Salomé
1985 – Trailer Para Amantes de Lo Prohibido (TV)

Participações Como Ator

1978 – Tiempos de Constitución
1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1991 – Truth or Dare / In Bed With Madonna (Na Cama Com Madonna)


ÉDIPO – O MAIS HUMANO E TRÁGICO DOS MITOS

Outubro 30, 2009

A mitologia grega é constituída por uma vasta e rica galeria de personagens, dividida em deuses, semideuses e heróis. O mito de Édipo é o mais humano de todos, uma síntese da visão grega antiga diante da miséria e tragédia humana. Édipo nasce rei, portador de uma maldição que herdara do pai. Afastado da mãe, ele cresce criado por outra família de reis. Bonito, viril e inteligente, seu mito foge dos heróis tradicionais, como Aquiles, que têm a força guerreira como essência da virilidade e das aventuras épicas. Édipo tem a inteligência como aliada, que o faz justo, decifrador dos enigmas humanos e dos deuses, tornando-o, através da sabedoria, líder e vencedor do seu povo.
Mas justamente o maior enigma, o que rege a sua própria vida, será o ponto de busca de Édipo. Preso ao emaranhado das suas verdades, Édipo mata o próprio pai Laio, e casa-se com a mãe, a bela Jocasta. Torna-se um rei poderoso, reinando com justiça e sabedoria sobre Tebas. Mas Édipo, inocente nos atos que praticou, é culpado pelo assassínio do pai e pelo incesto com a mãe. O Destino decidira a sua tragédia, os deuses induziram-no aos crimes, para que se concretizasse a maldição que a ele estava legado.
Uma das características das religiões politeístas é de que o homem nasce e vive já com a determinação do Destino, entidade maior e soberana aos deuses. Os monoteístas afirmam que o homem é quem, através do livre arbítrio, determina o seu destino. O mito de Édipo alinhava as contradições, pois mesmo inocente, ele é culpado por herdar a maldição lançada sobre as gerações da sua família; assim como o Adão do cristianismo católico lança a maldição da morte sobre a sua geração humana.
Édipo é o mais humano e trágico dos mitos. A vitória sobre a esfinge, a vontade de triunfar sobre a maldição dos deuses, o assassínio do pai, o casamento com a própria mãe, e a necessidade inquietante de descobrir as verdades da alma humana, fazem de Édipo o mais vulnerável dos homens diante do espelho, assim como é a humanidade diante das suas próprias verdades. Édipo é a chave para o eterno amor involuntário entre mãe e filho, entre a verdade e a mentira. Ao descobrir quem é, não suporta a imagem do mundo e de si mesmo, furando os próprios olhos. Édipo, dentro da sua tragédia, é a mais perfeita concepção humana da criação mitológica, a visão que foge do herói e dos deuses, esboçando o retrato universal da psicologia da mente do homem e da sua eterna luta contra os deuses criados para justificar a solidão da alma.

Édipo, o Símbolo da Tragédia do Teatro Grego

Inicialmente, o mito de Édipo foi apenas mencionado nas obras “Odisséia” e “Ilíada”, de Homero (século IX a.C.). Aos poucos, sua saga mitológica foi desenvolvida, segundo alguns historiadores, num composto de poemas dos séculos VIII e VII a.C., que se intitulava “Edipodia”, e que ao longo do tempo, perder-se-ia definitivamente.
Foi o teatro grego que se apropriou do mito de Édipo, transformando o tema na sua maior tragédia. Foi através do teatro que a personagem atravessou os séculos, transformando-se no símbolo da tragédia humana, revelada em toda concepção, quer na sua psicologia, sexualidade, ambição e inteligência.
O perfil do mito de Édipo mais conhecido é o que Sófocles (496?-406? a.C.) descreveu nas suas tragédias “Édipo Rei”, “Édipo em Colona” e “Antígona”. “Édipo Rei” descreve-o como um jovem e impetuoso, que no auge da sua apoteose, vence a esfinge, mata o pai, casa-se com a mãe e torna-se o mais poderoso dos reis de Tebas. No auge do poder e da sua felicidade, Édipo é confrontado com as verdades dos seus atos. A peça de Sófocles traz um clímax de suspense, que se desenvolve como um teorema matemático rígido e preciso, onde fato a fato, desvenda-se a mais cruel das verdades. A peça culmina com a morte de Jocasta e a cegueira de Édipo. Na peça “Édipo em Colona”, o soberano aparece já velho e cego, exilado e conduzido pela filha Antígona. Finalmente, “Antígona”, última parte da Trilogia Tebana, mostra a tragédia na prole de Édipo, que atinge Antígona, Ismena, Etéocles e Polinice, filhos que teve com a própria mãe.
Ésquilo (525-456 a.C.) também dedicou parte da sua obra na criação de peças sobre o mito de Édipo, fazendo-as parte do ciclo tebano: “Laio”, “Édipo”, “Sete Contra Tebas” e “A Esfinge”, sendo a última um drama satírico. Finalmente, Eurípides (480?-406 a.C.), último dos três maiores tragediógrafos gregos, escreveu “As Fenícias”, onde mostra um Édipo já velho, vivendo em Tebas, enclausurado pelos próprios filhos.
Assim, Édipo é sinônimo da maior tragédia do teatro grego. Ponto fundamental da sua essência. É a maior personagem humana criada pela genialidade imaginativa da cultura da Grécia antiga.

As Raízes da Tragédia Sobre os Filhos de Lábdaco

A maldição que se abateu sobre Édipo teve início com Laio, filho de Lábdaco, sábio rei tebano. Quando o soberano morreu, Laio ainda era muito jovem para governar Tebas, o que levou Lico, fiel seguidor do rei, a assumir a regência do trono. Mas Lico teve o trono usurpado pelos sobrinhos Anfião e Zeto. Temendo ser morto, Laio fugiu para a Élida, sendo acolhido por Pélope, rei do lugar.
No reino de Pélope, Laio e Crisipo, filho mais jovem e preferido do rei, apaixonam-se violentamente. Escondidos, os jovens vivem aquele amor com a fúria dos amantes. Cego pelos sentimentos, Laio decide raptar o belo Crisipo. Na fuga, atrai para si a fúria de Pélope, que persegue implacável os amantes. Temendo os castigos do pai, Crisipo suicida-se. Tomado pela dor e pelo ódio, Pélope lança uma maldição que se irá abater sobre todas as gerações descendentes de Lábdaco, presentes, passadas e futuras. Ao ouvir a maldição de Pélope, os deuses olímpicos cuidam para que ela se cumpra, e o Destino assume a missão de concretizá-la por três gerações.
Após a morte de Crisipo, Laio retornou a Tebas, travou uma batalha árdua contra os usurpadores do trono, retomando-o definitivamente para si. Para reinar soberano e absoluto, o rei decidiu tomar como esposa à bela e sensível Jocasta. Tão logo a viu, tomou-se de paixão por ela, sendo perfeitamente correspondido pela mulher. Juntos, reinaram sobre Tebas, trazendo prosperidade para a cidade, e despertando o respeito do povo.
Feliz ao lado de Jocasta, Laio já não se lembrava da tragédia que se abateu sobre Crisipo. Reconstruíra a vida, fazendo-se justo e bondoso, amante e ardente. Para completar a felicidade, só lhes faltava um filho, que seria herdeiro de toda a opulência de um dos mais prósperos reinos da Grécia.

Édipo Nasce Sob os Presságios do Oráculo

Toda a Tebas regozijou-se quando a bela rainha Jocasta anunciou que esperava a vinda do herdeiro. Inicialmente feliz com a gravidez, Laio debruçou-se sobre o ventre crescido da mulher, sentindo repentinamente, uma forte dor. Involuntariamente, o rei deixava-se abater por uma tristeza desconhecida, por um estranho desespero quanto mais se aproximava a hora do parto.
Tomado pelo presságio, Laio decidiu seguir para Delfos, onde consultaria o templo de Apolo. No oráculo, perguntou sobre o herdeiro que nasceria do ventre de Jocasta. Implacavelmente, o oráculo revelou uma terrível profecia: “O filho que a rainha trazia no ventre mataria o próprio pai, e iria esposar a mãe, e, finalmente, levaria a ruína ao palácio de Tebas.”
Laio ficou transtornado diante de tão trágica revelação. Ao voltar para o palácio, ele revelou as palavras do oráculo a Jocasta. A rainha entristeceu, desolada, já não sentia alegria ao olhar para o ventre. Mesmo triste, não deixou de amar aquele que dela iria nascer, mesmo sabendo que trazia a maldição sobre todos.
Quando a criança nasceu, Jocasta uniu todas as forças do seu ser para entregá-lo ao marido. Com sofrimento, viu o filho ser-lhe arrancado dos braços pela força das profecias. Laio, em silêncio, tomou a criança para si e partiu. Jocasta deixou-se tombar sobre o leito, chorando todas as lágrimas de mãe, mas com a certeza que preservava a justiça de soberana.
Longe do palácio, Laio seguiu ao lado de um escravo, para o monte Citerão, com a determinação de eliminar o filho. No meio do bosque, ele olhou para o pequeno. Não teve coragem de matá-lo diretamente. Determinado, perfurou com violência os pés do recém-nascido, amarrando-os com uma correia, pendurando-o em uma árvore. Ali, deixou o pequeno para que morresse.
Mas o Destino já decidira que a criança não morreria, que cumpriria as palavras dos deuses, proferidas através do oráculo. Ao caminhar aos pés do monte Citerão, um pastor ouviu os choros do pequeno. Compadecido, tomou-o para si. Levou-o para Corinto, entregando-o ao rei Pólibo. O soberano limpou o sangue dos pezinhos da criança, lavando-os com água quente. Viu-o parar de chorar e sorrir na sua inocência infantil. Pólibo levou o pequeno à presença da mulher, Mérope. A rainha foi tomada de felicidade, pois o seu ventre jamais pôde conceber um filho. Juntos, os soberanos decidem adotar a criança. Deposita-o em um berço de seda branca. Chamam-no de Édipo, seria criado com todo o amor que lhe recusara os pais verdadeiros.

Pai e Filho em Um Embate Fatal

Édipo cresceu feliz em Corinto. Era admirado por todos. Crescera belo, trazendo um porte esguio que todos os rapazes imitavam. Nunca lhe fora revelada a verdadeira origem. Pólibo e Mérope criaram-no como filho e legítimo herdeiro do trono.
Mas já adulto, ele ouviu rumores de que era adotado. Apesar da negativa dos pais, tornou-se desconfiado, inseguro sobre quem era. Édipo jamais se fechava para as suas verdades, desde jovem que a perseguia, fosse ela terrível ou alegre. Assim, sob a desconfiança dos rumores que lhe chegavam, procurou o oráculo de Apolo, em Delfos, para que os deuses proferissem as suas verdades escondidas. Mais uma vez o oráculo foi cruel em suas palavras, dizendo ao jovem: “Hás de matar o teu pai e desposar a tua própria mãe.
Diante da cruel profecia, Édipo tentou anular as palavras dos deuses. Desesperado, abandonou Corinto, fugindo pelas estradas gregas. Decidira jamais retornar, para que não cumprisse a profecia de matar Pólibo e desposar Mérope. Seria eternamente errante, exilando-se de Corinto.
Mas os deuses já tinham decidido que se cumpriria a profecia. Errante pelas estradas, Édipo chegou à encruzilhada de Megas, onde os caminhos de Dáulis e Tebas convergiam. Pára indeciso. Onde caminhar? Para Tebas? Por que a sensação quase que vital de seguir o caminho daquela cidade? Na estrada, surge inesperado, o arrogante Polifontes, exigindo do forasteiro que se retire do caminho, para que o seu amo, Laio, possa passar. Diante das palavras rudes do servo, Édipo não se move, mantendo-se impassível. Irritado, Polifontes investe contra o jovem. Ao defender-se, Édipo desfere um golpe violento no agressor. Irado, Laio vinga o servo, atingindo com golpes o forasteiro. Édipo volta-se para Laio, fitando-o profundamente. Pai e filho, frente a frente, não se reconhecem. Atracam-se em uma violenta luta, batendo-se como ferozes inimigos. Laio tomba sob a espada de Édipo. Ao cair, banhado em sangue, olha para o agressor acometido de uma estranha ternura. A morte toma-o nos braços. Édipo continua a lutar com os arautos do rei, fazendo dois deles tombarem. Só um foge, escapando da fúria do forasteiro.
Apesar de ter cometido os crimes numa luta em defesa pessoal, Édipo sente-se estranho diante daqueles mortos. Prossegue o seu caminho errante, rumo a Tebas, onde os deuses reservavam para ele o total cumprimento da maldição. Na estrada, Laio jazia após o sangue derramado pela espada do filho.

Édipo Decifra a Esfinge e Desposa a Mãe

Após ainda errar pelas estradas, Édipo chega a Tebas. Encontra a cidade tomada pelo pânico. A Esfinge, um monstro metade mulher, metade leão, com cauda de dragão e asas de ave de rapina, lançava um terrível enigma a todos que passavam pela estrada: “Qual o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três no entardecer?
Ninguém sabia a resposta. Como punição, ela escolhia um cidadão tebano e devorava-o, fazendo a população refém do medo e do terror. Ao encontrar a Esfinge, Édipo aceitou-lhe o desafio. Ao ouvir o enigma, ele respondeu prontamente: “O homem. Na infância arrasta-se sobre os pés e as mãos; na idade adulta, mantém-se sobre os dois pés; e na velhice precisa usar um bastão para andar.
Diante da inteligência de Édipo, a Esfinge afligiu-se. Propôs lançar-lhe um novo enigma: “São duas irmãs. Uma gera a outra. E a segunda, por seu turno, é gerada pela primeira. Quem são elas?
Édipo respondeu sem hesitar: “A luz e a escuridão. A luz do dia clareia aberta no céu, gera a escuridão da noite, que, por sua vez, precede a luz do dia”.
O jovem respondera a todos os enigmas da Esfinge. Com sabedoria, desvenda-lhe as artimanhas e sortilégios. Envergonhada, ela subiu ao alto do rochedo, atirando-se sobre as pedras. O suicídio do monstro foi aplaudido pela população tebana. Édipo foi aclamado pelo povo como o seu rei, uma vez que o Laio estava morto e não deixara herdeiros.
Já rei, Édipo procurou conhecer a triste viúva de Laio. Triste, a bela Jocasta encontrava-se encerrada nos seus aposentos. Impetuoso, o novo rei invadiu-lhe a privacidade. Frente a frente, Édipo e Jocasta contemplam-se, movidos por uma estranha atração, um reconhecimento que urgia das entranhas. Sem que pudessem identificar quais eram aqueles sentimentos confusos, julgaram-nos frutos da paixão. Magneticamente atraídos um para o outro, entregaram-se numa dança de abraços e beijos ardentes. Extasiados, uniram os corpos nus em uma só alma. Mãe e filho amaram-se a exaustão dos sentidos. Na mente de Édipo estava decidido, a viúva de Laio seria a sua mulher e rainha.

Na Verdade a Cegueira

Por muitos anos, Édipo viveu feliz ao lado de Jocasta. Com ela gerou quatro filhos, duas mulheres, Ismena e Antígona, e dois homens, Etéocles e Polinice. Tornou-se um soberano sábio e amado pela população tebana. Mas um dia, Tebas foi assolada por uma terrível pestilência. Nos campos, as plantas secavam, os vegetais morriam, levando à fome a todos.
Preocupado com a tragédia que se abatera sobre o seu reino, Édipo decidiu consultar o oráculo. Enviou Creonte, irmão de Jocasta, para Delfos. Mais uma vez, os deuses foram implacáveis: “A peste só findará quando o assassínio de Laio for vingado”.
Ao saber da determinação do oráculo de Apolo, Édipo inicia uma contundente investigação para descobrir o assassino de Laio. Implacável na busca da verdade e da justiça, Édipo consultou Tirésias, um velho adivinho cego, capaz de na escuridão dos seus olhos, ver o futuro e o passado. Pressionado por Édipo, não resta ao adivinho senão revelar a pungente verdade, o rei de Tebas era o assassino de Laio.
Pensando ser vítima de uma conspiração para tirá-lo do poder, Édipo expulsa Tirésias do seu reino. Mas não desiste de buscar a verdade. Ao ver a aflição do marido, Jocasta tenta tranqüilizá-lo, pois não poderia ele ter morto Laio. Conta-lhe que uma profecia dissera que o marido seria morto pelo próprio filho, mas que anularam a profecia ao abandonar a criança à morte, no monte Citerão. Laio, afirmava Jocasta, morrera em combate em uma encruzilhada, por um estranho.
Quanto mais ouvia Jocasta, mais Édipo perdia-se nas verdades que se lhe empestava o ar. Inquieto, angustiado, Édipo começa a questionar os detalhes da morte de Laio. Sabe que houve um sobrevivente. Pede para que ele seja encontrado e venha à sua presença.
Simultaneamente, um mensageiro chega de Corinto, anunciando a morte de Pólibo. Mesmo diante da tristeza pela notícia, Édipo respira aliviado, a profecia dos deuses falhara, o pai não morrera pelas suas mãos. Mas o alívio dura pouco, o mensageiro revela-lhe que ele não era filho de Pólibo, que havia sido recolhido por um pastor, que vira Laio abandoná-lo no monte Citerão. Ainda um recém-nascido, foi levado para Corinto e criado pelos soberanos da cidade.
Ao ouvir aquela revelação do mensageiro de Corinto, Jocasta entende a verdade. O homem a quem amara e com quem concebera quatro filhos, era o herdeiro maldito gerado por seu ventre. Desesperada, a rainha fugiu para os seus aposentos. A dor da revelação queimava-lhe o peito. Por toda a vida, sonhara em ter o filho nos braços, tivera-o de forma indigna, como marido e amante. Édipo era o seu filho. Perdida no desespero da revelação, a bela Jocasta enforca-se. Morre sem soltar um único gemido. No rosto pálido pela chegada da morte, duas últimas lágrimas percorrem a sua extensão.
No imenso salão do palácio, Édipo, ao chegar o servo de Laio, ouve dele a última revelação, o homem reconhecia no rei o mesmo forasteiro que matara o amo na encruzilhada de Megas. Édipo finalmente, decifra o seu próprio enigma, era filho de Laio, a quem matara; e de Jocasta, a quem desposara. Desesperado diante da revelação, Édipo corre para os aposentos da rainha, na esperança de abraçá-la como mãe e pedir perdão pelo seu erro ignóbil. Quando chega ao quarto, encontra a bela rainha sem vida, morta pelas próprias mãos e pela culpa. Diante do espelho das suas verdades, Édipo decide não mais ver o mundo. A imagem da mãe e esposa morta seria a última que iria enxergar. Em um ato de desespero, justiça e de punição, ele arrancou os broches que enfeitavam o vestido de Jocasta. Com eles perfurou os próprios olhos, mergulhando para sempre no mundo da cegueira.

Uma Fenda Traga o Corpo de Édipo

Para livrar Tebas da peste, Édipo prometera banir o assassino de Laio do meio da sua população. Ao se lhe revelar a verdade, o infeliz soberano, viu-se vítima do próprio decreto. Banido, cego, mendigo e esquálido, Édipo partiu pelas estradas da Grécia, a expiar a sua culpa e maldição. Na sua caminhada, foi sempre conduzido pela filha Antígona, que jamais abandonaria o pai.
Depois de permanecer andarilho por várias terras, Édipo chegou a Colona, na Ática. Ali, refugiou-se no templo das Eumênides, onde finalmente sentiu um alívio para a sua culpa, descansando na felicidade dos justos. Velho e mendigo, Édipo perdera tudo que pode perder um homem, a juventude, a mãe e esposa, o trono, a riqueza, a visão. Restara-lhe o amor incondicional de Antígona.
Após ver Édipo errar e a viver o castigo que impusera para si mesmo, Apolo, o deus que sempre profetizara a sua miséria, e através das armadilhas do Destino, cobrara-lhe o cumprimento dela, finalmente compadecera-se do seu sofrimento. O deus da luz confortou-o nos últimos anos de vida, atraindo a benção do Olimpo para o lugar que lhe serviria de sepultara.
Já velho e cansado, Édipo caminhou até a beira de um precipício, ali se sentou em uma pedra, vestindo-se com uma mortalha. Ouviu-se um grande estrondo no céu. A terra abriu-se suavemente, recebendo o corpo sofrido e expurgado de Édipo. O local da tumba do mais famoso rei de Tebas jamais foi revelado. Sabe-se apenas que está na Ática, e por isto, aquele solo é abençoado pelos deuses do Olimpo.

A Concretização da Maldição

Mas a maldição sobre a descendência de Lábdaco não se encerrou na tragédia de Édipo. Após a morte do pai, Antígona retornou a Tebas, para juntar-se aos irmãos, Ismena, Etéocles e Polinice, únicos parentes que lhe restaram no mundo.
Ao retornar a Tebas, Antígona encontrara os irmãos, Etéocles e Polinice em uma acirrada disputa pelo trono. Num confronto final, os dois irmãos envolveram-se em uma luta sangrenta e fatal. O resultado foi a morte de ambos.
Creonte, tio dos irmãos fratricidas, irmão de Jocasta, herdou o trono de Tebas. Etéocles era o sobrinho preferido de Creonte, por isto ele o enterrou com todas as honras, deixando o corpo de Polinice abandonado onde tombara morto, proibindo sob pena de morte, qualquer pessoa de enterrá-lo.
Antígona não se conformou com a sorte de Polinice, tentou sob todos os argumentos, convencer o tio a deixar que o irmão fosse sepultado, pois sabia que sem os rituais fúnebres, o malogrado príncipe seria condenado a vagar por cem anos pelas margens do rio dos mortos. Diante da indiferença de Creonte, Antígona desobedeceu às suas ordens, e enterrou Polinice com as próprias mãos. Como castigo, o soberano condenou-a a ser enterrada viva. Mesmo diante das súplicas de Ismena, a mais bondosa filha de Édipo foi cruelmente enterrada viva pelos arautos de Creonte.
Ismena, a última sobrevivente dos filhos de Édipo e Jocasta, seria morta mais tarde pelo guerreiro Tideu. Ao atingir a terceira geração, estava concretizada a maldição lançada por Pélope sobre os Labdácidas.


A QUEBRA DA BOLSA DE VALORES DE NOVA YORK EM 1929

Outubro 27, 2009

A Primeira Guerra Mundial deixou a Europa economicamente arruinada e endividada. No período que ela durou (1914-1918), caíram impérios poderosos, como o czarista da Rússia, sucumbiram economias coloniais poderosas e surgiu uma nova potência econômica mundial, os Estados Unidos da América.
No período da guerra, a indústria de armas norte-americana alcançou grande prosperidade, vendendo seus produtos bélicos para os países europeus. No pós-guerra, os campos europeus estavam devastados, as indústrias em ruínas, os norte-americanos passaram a exportar alimentos e produtos industriais para aquele continente. A economia dos Estados Unidos cresceu vigorosamente, atingido uma grande produção entre 1918 e 1928. Era o período de prosperidade que entraria para a história com o sugestivo nome de “American Way of Life”, literalmente, modo de vida americano. O consumismo da classe média norte-americana era incentivado pela facilidade e expansão do crédito, levando a população, mergulhada no fascínio da ilusão consumista, ao endividamento. Grande parte dessa classe média investiu as suas posses na economia volátil da bolsa de valores.
Com o a recuperação da economia européia, a economia americana foi seriamente afetada. Nos campos a agricultura produzia demasiadamente, nas cidades as indústrias não tinham para quem vender. A oferta passou a ser maior do que a demanda, forçando a queda dos preços e a diminuição da produção; o desemprego atingiu todos os setores, o período de prosperidade findara, a retração da economia levou à queda das ações da bolsa de valores, levando-a ao colapso.
Mergulhada numa valorização excessiva e especulativa quanto ao valor real das suas ações, em 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York assistiu ao preço das ações cair vertiginosamente, levando à miséria aos milhares de investidores. O dia passou a ser chamado de “Quinta-Feira Negra” da economia. Desesperados, os investidores tentaram vender suas ações, que àquela altura já não tinham valor algum. Excesso de ações à venda e a falta de compradores levou, em 29 de outubro, conhecido por “Terça-Feira Negra” da economia, ao colapso e quebra da bolsa. Era o crash da Bolsa de Nova York, que levaria à ruína grandes fortunas, afetando toda a economia mundial. Durante três anos o valor das ações na bolsa flutuou, conduzindo os Estados Unidos à depressão econômica, que só terminaria na década seguinte, quando a Europa voltou a mergulhar na guerra. O outubro negro de 1929, que conduziu ao crash, pôs fim aos sonhos e ao consumo da mítica geração da era do jazz.

A Expansão da Economia Norte-Americana no Período Primeira Guerra Mundial

No fim do século XIX os Estados Unidos teve um significativo crescimento econômico, beneficiando-se dos resquícios da Revolução Industrial. Do outro lado do Atlântico, os conflitos coloniais começavam a aparecer, ameaçando a hegemonia econômica da Inglaterra e do restante da Europa. Ventos de prosperidade sopravam para o ocidente, mostrando que um novo império econômico começava a florir no mundo.
A partir de 1913, com a subida do democrata Thomas Woodrow Wilson à presidência dos Estados Unidos, o país entrou em uma nova era econômica, alcançando grande expansão industrial. Paralelamente, em 1914, conflitos e disputas territoriais levaram a Europa àquela que seria até então, a mais sangrenta das guerras, a Primeira Guerra Mundial. Enquanto a prosperidade econômica despontava no norte do continente americano, o continente europeu amargava com as conseqüências de uma longa guerra, que devastava os campos, mutilava e matava a população, levando-a à miséria e à fome.
Mantendo-se neutro no conflito, os Estados Unidos passou a investir na indústria bélica, fornecendo armas aos países aliados. Somente em 1917, quando a guerra já chegava ao fim, os norte-americanos entraram no conflito ao lado da Inglaterra. Em 1918 a Alemanha assinava a derrota, pondo fim à guerra.
Apesar de ter participado da última etapa da guerra, os americanos não sofreram diretamente as suas conseqüências, já que as batalhas foram travadas longe do seu território. No pós-guerra, os Estados Unidos firmou-se como a nova potência mundial. Expandiu o comércio com a América Latina e Ásia, antes dominado pela Inglaterra. Abriu a concessão de créditos e empréstimos à França e à Inglaterra, permitindo expansão da exportação de produtos agrícolas e industriais àqueles países. De 1918 a 1928, o país atingiria o auge econômico da chamada era de ouro da geração do jazz.

O Prólogo da Crise

Com o fim da grande guerra, o apogeu da prosperidade econômica sofreu uma estabilização. A indústria bélica foi a mais afetada, pois a produção de armas diminuiu em tempos de paz. Os soldados que retornaram do conflito não conseguiam ser inseridos no mercado de trabalho. Aos poucos, a Europa começou a recuperar-se das conseqüências da guerra. França e Inglaterra, principais devedores dos norte-americanos, passaram a saldar as suas dívidas, a partir de 1922. As exportações diminuíram para o continente europeu.
De 1924, até a crise de 1929, a economia norte-americana viveu a euforia do período que ficou conhecido como “Big Business”. Para garantir o recebimento da dívida da França e da Inglaterra, que em contrato viria do pagamento da Alemanha, nação condenada internacionalmente a pagar as reparações da guerra, os Estados Unidos investiu nas empresas germânicas, garantindo o recebimento dos seus débitos na Europa.
No período do “Big Business”, também a paisagem dos centros urbanos foi alterada substancialmente, com velhos edifícios sendo demolidos e dando passagem a grandes arranha-céus, símbolos absolutos da opulência que se vivia; as ruas encheram-se de automóveis, a evidenciar o crescimento das fábricas automobilísticas; e , nas casas, as famílias de classe média usufruíam-se de aparelhos eletrodomésticos, outra característica do desenvolvimento tecnológico que o país alcançara. Sem perceber as armadilhas de uma economia volátil, o governo estimulava o desenvolvimento econômico em vários setores, inibia as importações e incentivava o consumo, além da concentração de capitais.
A prosperidade conseguida durante a Primeira Guerra Mundial, foi substancialmente perdendo espaço à medida que a Europa recuperava-se economicamente. Grande parte dos produtos industriais norte-americanos exportados foi deixando de ter mercado. Produzia-se mais do que se vendia, tanto na agricultura quanto na indústria. O desemprego nos campos originou um êxodo da população para os centros urbanos, saturando o mercado.
Nos grandes centros urbanos, a economia estava cada vez mais voltada para o mercado especulativo. Com o crescimento e mecanização das indústrias e o lucro exorbitante que geravam, as suas ações passaram a ser cotadas além do que valiam, atingindo grandes preços, fazendo com que o número de investidores na bolsa aumentasse significativamente. No meio da euforia, surgiram as sociedades anônimas e as empresas responsáveis somente em gerir e investir dinheiro. Sem controle, a especulação do mercado camuflou o real valor das ações.
Com a diminuição das exportações agrícolas, os proprietários rurais deixaram de poder saldar a suas dívidas, tendo que pagar milhões para armazenar os grãos não vendidos. Do campo, a crise expandiu-se para as cidades e, conseqüentemente, atingiu as indústrias, que diante de uma produção maior do que a consumida, foi obrigada a demitir trabalhadores. O desemprego retraiu o consumo, e atingiu as instituições bancárias. Estava armado o cenário para o grande colapso econômico.

A Quinta-Feira Negra

Pouco antes da crise que seria deflagrada em outubro de 1929, a situação do mercado econômico já se mostrava alarmante. Desde junho daquele ano, que a produção industrial fabril e do aço estavam em queda, apesar de alguns empresários negarem o declínio. No dia 3 de setembro, o jornal “The New York Times” publicava que a Bolsa de Nova York atingira o ápice histórico de 452 pontos. O marco atraiu ainda mais novos investidores, que seduzidos pela valorização das ações, arriscaram todo o capital que tinham naquele aparente negócio seguro, sem que se apercebessem do engodo.
Mas a realidade dos Estados Unidos, em 1929, estava aquém da euforia do mercado. Num desencadear avassalador, o desemprego, o aumento dos estoques do que se produzia, impossibilitaram que os industriais tivessem capital para saldar as dívidas e continuassem a manter os seus negócios. Acossados, muitos empresários foram obrigados a vender as suas ações no mercado, elevando o seu valor para que pudessem obter maiores lucros. Ao deslumbrar aquela forma de lucro, milhares de investidores fizeram o mesmo, aumentando e pondo à venda as suas ações. O efeito surtiu na direção contrária, com a elevação no valor das ações, elas não encontraram compradores, passando a flutuar no mercado especulativo, atingindo um valor nulo. Sem compradores, as ações despencaram vertiginosamente as suas cotações, levando à falência de bancos e industrias.
No dia 24 de outubro de 1929, uma quinta-feira, o pregão da Bolsa de Nova York passaria para a história como o dia mais negro da história da economia moderna. Desde o início daquela semana que as vendas de ações no mercado tiveram um aumento significativo. Na quinta-feira, ao perceberem que poderiam estar arruinados, os investidores puseram à venda, logo pela manhã, 6.091.870 títulos, gerando um dos maiores volumes de negócios da história da bolsa. O excesso de volume de vendas fez com que os preços caíssem rapidamente. Diante da gravidade do momento, o desespero tomou conta dos investidores, que puseram as suas ações à venda a qualquer preço. Às 11h30, o pânico era geral. Uma multidão de pessoas aglomerava-se nos arredores de Wall Street e Broad Street, formando um imenso cordão de desesperados. Amanhã ainda não terminara, e já onze conhecidos especuladores de Wall Street, então arruinados, já se tinham suicidado. Ao meio dia as portas da Bolsa de Nova York foram cerradas, evitando que a multidão a invadisse.
Diante da catástrofe iminente, os maiores banqueiros americanos fizeram uma reunião de emergência. Entre eles estavam Albert H. Wiggin, do Chase National Bank; Thomas W. Lamont, do Morgan Bank; e, Charles E. Mitchell, do National Bank. Juntos, decidiram injetar milhões de dólares na Bolsa de Valor, dando um pequeno alívio à catástrofe. No fim do dia, 12.894.650 títulos foram negociados, um volume de vendas que atingira todos os recordes de Wall Street. Estava consumada a “Quinta-Feira Negra” da história da economia e, um dos maiores colapsos econômicos do mundo.

A Quebra da Bolsa de Nova York

Após as turbulências do dia 24, os dias que se sucederam, sexta-feira e sábado, 25 e 26 de outubro respectivamente, uma aparente tranqüilidade parecia ter voltado aos negócios da Bolsa de Valores. Empresas de mercado chegaram a anunciar na sexta-feira, que o mercado estava sólido e mais atrativo do que antes.
Na segunda-feira, 28 de outubro, obteve-se um valor menor de vendas, mas com quedas acentuadas de pontos, obrigando que os banqueiros fizessem uma outra reunião emergencial. Ao fim de duas horas, ficou decidido que não haveria nenhuma ação de resgate e injeção de mais dólares no mercado. Já não havia como controlar a situação. Era a “Segunda-Feira Negra”.
No dia seguinte, 29 de outubro de 1929, o colapso da Bolsa de Valores de Nova York foi concretizado. Logo pela manhã, um grande volume de papéis foi posto à venda sem que encontrasse compradores. Ações outrora bem cotadas, chegaram a ser vendidas a 1 dólar. Rumores de que os grandes magnatas da economia norte-americana estavam a vender as suas ações, causaram ainda mais pânico aos investidores. Naquele dia, o volume de vendas atingiu 16.410.030 de títulos, quantidade ainda maior do que o da “Quinta-Feira Negra”.
O dia 29 de outubro de 1929, entrou para a história como a “Terça-Feira Negra”. Quando chegou ao fim, deixara milhões de pessoas na miséria em todo o mundo. Muitos dos arruinados eram ricos empresários, ou herdeiros de famílias abastadas. A desolação criava uma cena trágica, especuladores caminhavam sem rumo pelas ruas de Nova York, totalmente falidos. Ocorreram suicídios dos falidos por todo o mundo, como o de um corretor que se atirou ao rio Hudson. Após o crash da bolsa, os preços das ações valiam 80% a menos. Continuariam a flutuar por mais três anos, perdendo gradativamente o seu valor.
Após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, os Estados Unidos entrou num período de recessão econômica conhecido como “Grande Depressão”, levando a população à fome e à miséria. A depressão econômica só seria encerrada uma década depois. Os Estados Unidos eram os maiores credores do mundo, com a quebra das suas indústrias, passou a exercer pressão para receber os seus pagamentos, levando a Europa e a América Latina a sentir a crise econômica. No Brasil, ela afetou diretamente a já capenga exportação do café, na época a principal economia do país.
Especulação, economia volátil e predadora, ambição, vários foram os fatores que levaram à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. O mercado financeiro parece que não aprendeu com a catástrofe financeira. Outra ameaça aconteceria em 1987, quando um novo crash pairou sobre Wall Street.


CARAS & BOCAS – GAL COSTA COM A BOCA NO MUNDO

Outubro 25, 2009

Em 1977, Gal Costa vinha, nos últimos anos, de três momentos distintos da sua carreira: o primeiro, em 1974, culminara em dois discos, “Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia”, que dividia com Caetano Veloso e Gilberto Gil, e “Cantar”, onde a cantora registrou a beleza da sua voz, optando por um canto límpido que valorizava o esplendor da sua voz única, quase que a nos trazer um recital de luxo. Apesar do esplendor do momento, o público do desbunde e a crítica rejeitaram a perfeição daquela obra, conclamando de volta a Gal Costa rebelde que acostumaram a ver desde o psicodélico “Gal”, de 1969. O segundo momento originou o “Gal Canta Caymmi”, lançado em março de 1976, que nasceu na carona da novela “Gabriela” (1975), quando Dorival Caymmi compôs o tema da abertura, “Modinha Para Gabriela”, com exclusividade para a cantora interpretar. E finalmente, o terceiro momento, o espetáculo “Doces Bárbaros”, em 1976, que registrou no palco o encontro histórico de Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Com certeza, a inspiração do show “Com a Boca no Mundo” e, conseqüentemente, a do disco “Caras & Bocas”, vieram dos cenários circenses, das roupas coloridas, e de um momento “flower power” tardio dos “Doces Bárbaros”.
Caras & Bocas”, lançado em 1977, conseguiu ser um registro do desequilibrado show “Com a Boca no Mundo”, desvencilhando-se e superando, em qualidade, o espetáculo. O canto rascante e os agudos rebeldes que se registrou no palco, desapareciam em todas as faixas, mostrando uma cantora madura dentro de um repertório jovial. A temática “flower power” é quase imperceptível no álbum, com uma criação existencialista atemporal em faixas como “Negro Amor” e “Caras e Bocas”. O disco derruba todo experimentalismo do show, mostrando as rupturas de Gal Costa, definitivas, prontas para fazer que ela se torne uma grande dama da MPB. “Caras & Bocas” é definitivo, depois dele, não se poderia mais voltar à fase da rebeldia de outrora, mas sim inaugurar uma nova, pois a cantora superara a si mesma, rasgando a cena nacional, pronta para desabrochar. O álbum é isto, uma contrastante beleza juvenil e madura da Gal Costa que se iria transformar, no ano seguinte, na maior intérprete da Música Popular Brasileira em todas as suas vertentes. O disco é isto, uma sedutora e definitiva ruptura da verdadeira baiana.

Com a Boca no Mundo – Ecos do Desbunde

Gal Costa tornara-se, no fim da década de 1960, na musa da Tropicália, cantou solitária o movimento quando os amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil partiram para o exílio em Londres. Da Tropicália à psicodelia e à filosofia existencialista underground do desbunde, Gal Costa tornou-se um ícone da juventude dos barbudos e intelectuais ideologicamente “sem lenço, sem documento”. Aos poucos a cantora cresceu em prestígio e maturidade vocal e de palco. Sua sensualidade exuberante contrastava com o intimismo natural, fazendo dela algo único e definitivo. O desbunde foi ficando pela estrada, e Gal Costa era mais do que uma cantora de um determinado setor da sociedade brasileira.
Quando chegou aos trinta anos, navegando triunfante pelo universo musical do conceituado Dorival Caymmi, esperava-se e exigia-se dela vôos mais ousados dentro da essência da MPB. Mas, teimosamente, ela retrocedeu, queria voltar a abraçar aquela juventude que se rasgava por ela, esquecendo que as barbas já tinham sido raspadas, e caras mais limpas contornavam as tendências. O espetáculo “Os Doces Bárbaros”, de 1976, ia contra o momento, e insistia em dizer que o sonho “flower power” não havia acabado. Foi recebido por fortes críticas. Após o show, Maria Bethânia seguiu a carreira sem que se deixasse afetar pelo clima, e Gilberto Gil, depois da humilhação sofrida pela prisão por posse de droga, uniu-se a Rita Lee, em um espetáculo único. Gal Costa e Caetano Veloso deixaram-se tomar pela nostalgia hippie que se encerrara em Woodstock. O mestre baiano deixava claro aquele momento, com o lançamento de “Odara”, palavra que virou sinônimo de alienação em um Brasil sufocado por uma ditadura militar.
Contrária ao que se exigia dela, Gal Costa optou por um show jovial, com o clima rebelde que transitava entre o tropicalismo e o desbunde. Guilherme Araújo, então empresário da cantora, foi contra, mas ela insistiu e nasceu “Com a Boca no Mundo”, espetáculo que causou polêmica e desprezo da crítica carioca, na sua estréia no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. Gal Costa deslumbrava em cena com um vestido longo, com um corte na frente. Vinha rebelde, provocativa, apagando de vez o efeito dos recitais do “Cantar”. Voltava com um canto rascante, quase sujo, acompanhada por metais estridentes, e, a explorar a exaustão os agudos desafiadores, lembrando a época do “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”. Mas a semelhança apagava-se diante do aparato cênico, algo inédito nos shows da cantora. A iluminação sofreu crítica negativa de todos, sem exceções. No repertório, ela trazia de volta as canções ícones do desbunde, “Pérola Negra” (Luiz Melodia) e “Vapor Barato” (Jards Macalé – Waly Salomão), e do tropicalismo psicodélico, “Cinema Olímpia” (Caetano Veloso). Numa época que Maria Bethânia declarava publicamente ser a única cantora no Brasil que sabia interpretar Chico Buarque, Gal Costa ousava em palco, o que nunca fizera em disco, cantar o compositor, fazendo-o em dois momentos brilhantes e únicos com “Flor da Idade” e “O Que Será (À Flora da Terra)”, só pelas interpretações históricas, culminando com a cantora sozinha, ao violão, interpretando “Um Favor”, valia todos os equívocos do espetáculo.
Com a Boca no Mundo”, que tinha como objetivo o lançamento do disco “Caras & Bocas”, sofreu forte rejeição, que não afetaria em nada o disco. Assim, aos 32 anos, a cantora promoveu a maior ruptura da sua carreira, encerrando com o espetáculo, todos os ecos do desbunde. O resultado viria no ano seguinte, com o disco “Água Viva”.

Da Voz, a Nota de Cristal Transparente

Caras & Bocas”, álbum de 1977, é quase a totalidade das canções que Gal Costa interpretou no show “Com a Boca no Mundo”. Teve a produção e excelentes arranjos de Perinho Albuquerque. Diferente do show, as interpretações do disco iam longe dos cantos rascantes e agudos rebeldes, trazendo momentos de suavidade e intensidade de um canto amadurecido, pronto para ser explorado em toda a sua técnica. A capa mesclava a descontração da era “flower power” com a sofisticação de uma mulher balzaquiana. Trazia a cantora de perfil, cabelos propositalmente revoltos, sobre um fundo preto. As fotografias, inventando caras e bocas, que justificavam o título, foram feitas por Marisa Alvarez Lima. Traz dez faixas, das quais três são versões de compositores norte-americanos.
A cantora iniciava o disco com a delicadeza intensa de “Caras e Bocas” (Caetano Veloso – Maria Bethânia), canção que por si só, define e alinha toda a proposta. Versos soltos, de um existencialismo mais sofisticado do que eloqüente, adquirem cor na interpretação intimista, mas intensa de Gal Costa. A música desenha a tradução perfeita de uma grande mulher que se pôs a seguir a vida como cantora do Brasil:

“Mas se dessa garganta
Das cordas escondidas
Desse peito sufocado
Desse coração atrapalhado
Surge uma nota brilhante
De cristal transparente”

E o cristal da voz, explicitamente revelado na letra e na interpretação, seguia rasgando e invadindo as faixas. “Me Recuso” (Rita Lee – Luís Sérgio – Lee Marcucci), dá passagem da leveza efêmera de Rita Lee para a jovialidade perene de Gal Costa. Vibrante, alegre, quase adolescente, a canção é uma rebeldia agradável contra a solidão, escancarando as portas da paixão para que se entre alguém sem medo. A cantora brinca com a canção, sem em momento algum, deixar de levar a sério o seu canto. Afinal, tudo era “relativo aos bons costumes do lugar” E a baiana sabia como ninguém romper qualquer tradição de costume.
O momento de paixão juvenil dá passagem para uma canção intimista, quase épica, “Louca Me Chamam” (Crazy He Call’s Me) (Carl Sigman – Bob Russel – versão Augusto de Campos). Grande sucesso da música norte-americana, a versão de Augusto de Campos, poeta concretista, é poética, combinando-se à beleza do lirismo do timbre e canto de Gal Costa. E ela canta no fogo dos sentimentos, sem andar sobre ele. Move montanhas com a doçura de uma voz de sereia, e nas palavras poéticas da melodia, recebemos a chave do seu céu musical, sem ousarmos a chamá-la sequer um momento, de louca.
Em “Clariô” (Péricles Cavalcanti), percebe-se a maturidade que atingira o canto de Gal Costa, conduzindo um momento que em outros tempos, não fugiria ao passionalismo do desbunde. Interpretação que rasga de forma elaborada um intimismo supostamente latente. “Clariô” teve duas versões públicas, a do álbum e a do compacto simples 6069.177, lançado pela Philips. E na esperança de um novo momento que não se escondia, clareava a carreira da cantora rumo à identidade definitiva.
No mesmo ritmo, o lado A do LP era encerrado com “Minha Estrela é do Oriente (Tindoró Dindinha)” (Jorge Ben). O mundo alegre de Benjor sempre alcançou porto seguro na voz e no estilo de Gal Costa. O compositor teve as suas canções gravadas por ela desde a época da Tropicália. A leveza existencialista, quase bicho grilo, da canção, acentua a proposta neotropical do disco, aburguesando com elegância a hippie balzaquiana que se apresentava deslumbrante. Música típica do universo ousado da musa do tropicalismo e do desbunde.

Momentos de Densidade Poética e Interpretativa

O lado B do disco era iniciado pela mítica “Tigresa” (Caetano Veloso), numa das interpretações mais sublimes e contundentes da carreira da cantora. Naquele ano, a canção foi gravada em simultâneo, por Caetano Veloso, no álbum “Bicho”; e, por Maria Bethânia, em “Pássaro da Manhã”. Mas foi na interpretação intimista contrastada com uma intensidade latente, de Gal Costa que a canção adquiriu o tom exato da sua vitalidade transgressora, tornando-se um grande sucesso de 1977. A música foi tema da personagem de Sonia Braga na novela “Espelho Mágico”, de Lauro César Muniz, produzida pela TV Globo. Reza a lenda que “Tigresa” foi feita para a atriz. Vários aspectos da trajetória de Sonia Braga mostram-se reveladores nos versos, que trabalhara como atriz na montagem brasileira do mítico musical “Hair”, no início de 1970. “Tigresa” cita outros momentos datados, mas que no conjunto, desaparecem sob uma canção marcante e atemporal. Letra extensa e de momentos poéticos intensos, que Gal Costa sabe conduzir com perfeição, tornando-se, com sua vasta cabeleira negra, a própria tigresa dos versos.

“Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel”

E a intensidade do disco prossegue, atingido um apogeu em “Negro Amor (It’s All Over Now, Baby Blue)” (Bob Dylan – Versão Caetano Veloso – Péricles Cavalcanti). Inquietante, densa, profunda, temática símbolo da geração “flower power”, “Negro Amor” traz de volta a Gal Costa da época do desbunde, numa interpretação que transita entre a técnica perfeita do canto e o passionalismo que sempre rompera em emoção o intimismo da voz. Pungente, quase sem saída, o mundo de Bob Dylan chegava à poesia singular da MPB. A precipitação no abismo existencialista da canção não destrói o equilíbrio emotivo que Gal Costa passa com esta interpretação sublime e única. Ela encerrava aqui, oficialmente, o empréstimo do seu canto àquele movimento que se iniciara lá no princípio de tudo. E para os que insistiam que o sonho não acabara, ela dizia:

“Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor”

Final ao Vivo

A densidade alcançada é diluída na proposta de “Meu Doce Amor” (Marina – Duda Machado), onde os agudos retumbantes da cantora são usados com um domínio incomum, fazendo a canção crescer vertiginosamente. Marina Lima era introduzida na MPB como compositora com extraordinário brilho. Gal Costa é aqui jovial, intensa, apaixonante. E se o sangue era doce, todos os ouvintes sangravam naquela voz que já não vacilava em busca do apogeu.
E o intimismo épico voltava em “Solitude” (Duke Ellington – Eddie de Lange – Irving Mills – Versão Augusto de Campos), terceira e última versão do disco. Nunca o mundo se fez tão solitário como nesta interpretação de sereia embriagante. Gal Costa enlouquece a dor com a sua voz doce e cortante, quando o tema é a solidão. “Solitude”, apesar de intimista, alcançou relativo sucesso, tornando-se parte da trilha sonora da novela “Dancin’ Days”, de Gilberto Braga, em 1978. O sucesso foi imediato, e a cantora foi convidada a participar de um capítulo da novela, encontrando-se com as personagens de Sonia Braga e Joana Fomm. Na faixa, outro momento de delicadeza e interpretação de emotividade intuitiva.
No decorrer do show “Com a Boca no Mundo”, um dos momentos mais aplaudidos foi quando Gal Costa sentou-se em um pequeno banco e, a solo no violão, interpretou “Um Favor” (Lupicínio Rodrigues). A platéia ia ao delírio. A cantora trouxe para o álbum aquele momento de beleza, encerrando com esta canção as dez faixas de “Caras & Bocas”. A versão aqui apresentada não foi gravada em estúdio, veio diretamente dos palcos, ao vivo. Inteligentemente, o álbum era encerrado em um tom que dava a sensação de ter sido feito todo ao vivo, no calor da platéia que lhe ouvira todas as faixas. Gal Costa tira o tom pungente do universo solitário de Lupicínio Rodrigues, dando-lhe, com a cumplicidade do público, uma dimensão de esperança diante dos reveses da paixão. Depois desta interpretação, a música tornou-se um clássico da MPB.
Caras & Bocas” arremata, com sofisticação e beleza, o que apenas ficou sugerido em “Com a Boca no Mundo”. Consolida o prestígio de Gal Costa, deixando claro que já era hora de tirar os pés descalços da cantora do palco, para que pisasse com sandálias de prata no âmago da Música Popular Brasileira.

“Minha cara invade a cena
Rasga a vida
Mostra o brilho
Agudo musical”

Ficha Técnica:

Caras & Bocas
Philips
1977

Direção de Produção: Perinho Albuquerque
Direção de Estúdio: Perinho Albuquerque
Técnicos de Gravação: Chocolate, Ary Carvalhaes, Jairo Gualberto e Luiz Cláudio Coutinho
Técnico de Mixagem: Luigi Hoffer
Auxiliares de Estúdio: Julinho, Aníbal e Varella
Montagem: Luiz Cláudio Coutinho
Capa: Aldo Luiz
Fotos: Marisa Alvarez Lima
Arte Final: Jorge Vianna
Estúdio: Phonogram
Arranjos e Regências: Perinho Albuquerque e Thomas Improta

Músicos Participantes:

Piano: Thomas Improta
Guitarra: Perinho Albuquerque, Vinícius Cantuária e Beto Gomes
Baixo: Rubão Sabino e Moacyr Albuquerque
Violão: Rubão Sabino e Gal Costa (Um Favor)
Bateria: Robertinho Silva, Paulinho Braga, Enéas Costa e Vinícius Cantuária
Violão Folk: Rick Ferreira
Flauta: Jorginho
Gaita: Maurício Einhorn
Percussão: Mônica Millet, Bira da Silva e Djalma Corrêa
Pistom: Wanderley
Sax-Alto: Tuzé Abreu
Sax-Tenor: Raul Mascarenhas
Sax Solo: Juarez Araújo

Faixas:

1 Caras e Bocas (Caetano Veloso – Maria Bethânia), 2 Me Recuso (Rita Lee – Luís Sérgio – Lee Marcucci), 3 Louca Me Chamam (Crazy He Call’s Me) (Carl Sigman – Bob Russel – versão Augusto de Campos), 4 Clariô (Péricles Cavalcanti), 5 Minha Estrela É do Oriente (Tindoró Dindinha) (Jorge Ben), 6 Tigresa (Caetano Veloso), 7 Negro Amor (It’s All Over Now, Baby Blue) (Bob Dylan – versão Caetano Veloso – Péricles Cavalcanti), 8 Meu Doce Amor (Marina – Duda Machado), 9 Solitude (Duke Ellington – Eddie de Lange – Irving Mills – versão Augusto de Campos), 10 Um Favor (Lupicínio Rodrigues)


ANISTIA – A VOLTA DOS EXILADOS

Outubro 23, 2009

Com o fim do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que deixou de vigorar em janeiro de 1979, estava aberto o caminho para que se aprovasse uma lei que trouxesse a anistia aos presos, exilados e processados pelos chamados crimes por motivação política.
A luta pela anistia no Brasil tornara-se intensa, ultrapassando os partidos de esquerda clandestina, atingindo, desde 1975, setores concretos e importantes da sociedade brasileira. Se em 1964 as mulheres, a igreja e os empresários uniram-se em passeatas para receber o golpe militar, o panorama político mudara diante da truculência da ditadura instaurada no país e, já não se acreditava no engodo que foi contado sobre uma possível revolução comunista. Mães, esposas, filhos e amigos de presos políticos, ao lado de estudantes, políticos, jornalistas e fortes adesões populares, uniram-se e formaram comitês de luta pela anistia geral, ampla e irrestrita a todos os brasileiros exilados naquele triste e obscuro período da ditadura militar.
Pressionado pelos movimentos pela anistia, o governo encaminhou, em julho de 1979, um projeto de lei ao Congresso Nacional, que previa o perdão aos crimes políticos. A proposta do governo, que excluía os condenados por terrorismo e favorecia aos militares e às autoridades responsáveis pelos atos de tortura, já tinha sido rejeitada antes, pela oposição do partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que exigia uma anistia ampla, geral e irrestrita.
Mesmo sob protestos e limitada diante do que ansiava a sociedade brasileira, por 206 votos contra 201, foi aprovada a Lei 6.683, sancionada no dia 28 de agosto de 1979, pelo último presidente da ditadura militar, João Figueiredo. A Lei da Anistia beneficiou 4.650 pessoas, fazendo com que retornassem ao país os políticos que, em 1964, foram tidos como os maiores inimigos do regime militar: os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes. Algum tempo depois, os aeroportos brasileiros foram tomados pelo regresso, um a um, dos chamados apátridas, que um dia, por lutar contra a ditadura militar, saíram pelas portas do fundo da história do Brasil. A volta era apoteótica, em clima de festa, com ampla cobertura da imprensa. Era a maior vitória contra o governo repressivo instalado desde 1964.
Três décadas após a promulgação da lei, em 2009, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, ex-marinho e militante de organizações de esquerda, foi o último exilado político a retornar ao Brasil, fechando para sempre o ciclo.
A Lei da Anistia desde que promulgada, teve alguns dos seus artigos revogados, e ainda é polêmica, uma vez que deixou isenta da punição os carniceiros dos porões da ditadura, que torturam e mataram centenas de pessoas. Mesmo diante das contestações, foi sem dúvida o maior passo para a volta das lideranças opositoras e históricas e para que se enterrasse de vez, a ditadura militar, finda em 1985.

As Mulheres Dão Início à Luta Pela Anistia

Após a imensa passeata pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu as tropas insurgentes comandadas pelo general golpista Olympio Mourão Filho, e a deposição do presidente João Goulart consolidada; começaram de imediato, a perseguição, a cassação, a tortura e os expurgos, que atingiram civis e militares contrários ao golpe.
Na primeira fase da ditadura, pré-AI-5, a tortura, embora mais discreta, só perdeu para as cassações. Após dezembro de 1968, promulgado o AI-5, retirou-se o hábeas corpus aos presos políticos, tendo como conseqüência à banalização e a institucionalização da tortura. Leis repressivas, como a Lei de Segurança Nacional, ou a da pena de morte para os chamados terroristas, foram implementadas. Os militantes de esquerda perderam os seus direitos civis, passando a viver na clandestinidade.
Numa resposta imediata às medidas repressivas do governo militar, a esquerda instituiu as guerrilhas urbanas e os seqüestros a diplomatas estrangeiros no Brasil. Vários presos políticos foram trocados pelos reféns. Na troca, eles eram postos em aviões e enviados para qualquer país que se dignasse a recebê-los. Uma vez fora do Brasil, esses presos políticos perdiam o direito à cidadania, tornando-se apátridas. Desde então, iniciava-se, timidamente, uma luta para que se anistiasse os presos e perseguidos do regime.
A luta pela anistia não significava somente a busca da redemocratização e a reconquista dos direitos políticos, como também da devolução da cidadania aos clandestinos e aos apátridas, além de pôr fim às torturas nos calabouços.
Oficialmente, a luta ela anistia partiu das mulheres brasileiras. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU), declarou aquele como o Ano Internacional da Mulher. Nas comemorações ao evento, Therezinha de Godoy Zerbini, respeitada advogada, mulher do general Euryale Zerbini, cassado em 1964 por dar o seu apoio ao governo de João Goulart; fundou em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), que se tornaria uma voz da sociedade civil na luta contra as medidas repressivas do regime, a favor do fim dos atos de exceção contra os presos políticos e os exilados.
Curiosamente, o movimento partia de uma tradicional família de militares, confirmando que nem todos daquele setor da sociedade brasileira eram favoráveis à ditadura instaurada em 1964. Therezinha de Godoy Zerbini foi sempre vigiada pela polícia repressiva do regime. Chegara a ser presa sob a acusação de ter intermediado o empréstimo do sítio em Ibiúna, onde se deu o famoso e fatídico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Ao lado de mais oito mulheres, a advogada redigiu um manifesto em prol da anistia, lendo-o na Cidade do México, durante uma conferência da ONU, em comemoração ao Ano Internacional da Mulher.

Eclodem os Movimentos Pela Anistia

Conclamando toda a nação a lutar pela anistia, o movimento feminino espalhou-se por vários setores da sociedade, trazendo para si as adesões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da igreja católica e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, entre outras. Em 1976, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, teve o aplauso de três mil pessoas quando, em reunião, aprovou uma moção pela anistia. Em 1978, foi fundado na cidade do Rio de Janeiro, o Comitê Brasileiro pela Anistia, com sede na ABI. O Brasil aderia, de norte a sul, àquele movimento.
A luta alcançou, também, setores liderados por políticos que faziam parte da sustentação do governo, como o senador Teotônio Vilela. Ao visitar os 84 presos políticos que faziam greve de fome por todo o Brasil, o senador entrou em contacto com a triste realidade da tortura no país, comprovando o terror que se abatia sobre aqueles prisioneiros. Emocionado, Teotônio Vilela ajoelhou-se diante das vítimas da tortura e pediu perdão por não ter visto antes tamanha barbárie. O senador tornar-se-ia um veemente defensor da redemocratização do Brasil. Na luta pela anistia, saiu em comícios pelo país, soltando uma pomba como símbolo da esperança. O seu gesto seria repetido nos comícios do movimento pelas Diretas Já, em 1984. Teotônio Vilela entraria para a história com a alcunha de “Menestrel das Alagoas”.
Ao ver aflorar tantos movimentos, o governo decidiu ele próprio enviar um projeto de anistia para o Congresso, evitando que se estendesse para os seus maiores inimigos, chamados de terroristas, e que salvaguardasse os militares e civis envolvidos diretamente com a tortura no Brasil, evitando que sofressem punições ou retaliações futuras.
Assim, o então ministro da justiça, Petrônio Portella, redigiu o projeto de lei, em julho de 1979, enviando-o para ser votado no Congresso em agosto. O texto final seria divulgado em uma cerimônia transmitida pela televisão.
Nos bastidores, a oposição ao regime militar condenava o projeto e às limitações que trazia. De 22 de julho a 22 de agosto de 1979, foi realizada uma greve de fome em todo o Brasil pelos presos políticos, contrários ao projeto da lei da anistia redigido por Petrônio Portella. Nos movimentos que eclodiam pelo país, as palavras de ordem eram: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”.

Promulgada a Lei

Concretamente, o projeto beneficiava aos presos que se enquadravam nas punições previstas pela Lei de Segurança Nacional. De abril de 1964 a julho de 1979, 2.429 pessoas tinham sido condenadas por aquela lei. Eles estavam divididos em dois grupos para efeito de anistia:
O primeiro grupo, composto por 1.729 pessoas, era o dos punidos por crimes políticos propriamente ditos, sendo eles os militantes clandestinos que não se haviam envolvido com o terrorismo. Assim, a lei beneficiava de imediato, o líder comunista histórico Luís Carlos Prestes; antigos líderes estudantis, como Vladimir Palmeira; o líder político e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola; o sociólogo Herbert de Souza, o irmão do Henfil, que seria imortalizado pela música “O Bêbedo e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc; e vários outros.
O segundo grupo, composto por 700 condenados, reunia os condenados por assalto a bancos e atos de terrorismo. Diante das críticas, Petrônio Portella declararia que futuramente, alguns deles, poderiam receber indultos.
Finalmente, no dia 22 de agosto de 1979, o projeto seguiu para votação no Congresso. Naquele dia, em Brasília, três mil pessoas foram às ruas em um ato público para exigir a anistia geral e irrestrita. No plenário do Congresso Nacional, não sobrou espaço vazio mediante a multidão que o encheu. Nas galerias, ouvia-se os populares, que vaiavam retumbantemente a cada discurso proferido pelos representantes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o repressivo partido do governo. Ao fim de uma votação acirrada, foi aprovada, por 206 votos contra 201, a anistia aos crimes praticados por motivações políticas no Brasil.
Em 28 de agosto de 1979, o presidente militar, general João Batista Figueiredo, sancionava a Lei nº 6.683, redigida pelo governo da ditadura, que seria conhecida como a Lei da Anistia. Era o chamado perdão que o governo repressivo, vencedor em 1964, dava aos seus inimigos vencidos e futuros vencedores da redemocratização, em 1985. Eram anistiados todos os cidadãos punidos desde 9 de abril de 1964, data da edição do Ato Institucional nº 1 (AI-1). Estudantes, intelectuais, professores, cientistas, ex-militares, principalmente de baixas patentes, muitos afastados das suas funções, receberam o benefício da nova lei.
Mas a Lei da anistia trazia as suas restrições. O reaproveitamento de servidores públicos e de militares anistiados, ficou sujeito à decisão de comissões especiais criadas pelos respectivos ministérios para estudar cada caso. Ficaram de fora as pessoas condenadas pelos classificados “crimes de sangue” ou atos terroristas, praticados por aqueles que recorreram a grupos de luta armada. Os que cometeram crimes de sangue contra a esquerda, os militares torturadores e assassinos, foram todos beneficiados.
A Lei da Anistia atingiu e beneficiou 4.650 pessoas. Libertou presos políticos que se encontravam nos calabouços brasileiros; beneficiou os destituídos dos seus empregos e funções; possibilitou a volta dos exilados. No dia 1 de novembro de 1979, começavam a chegar nos aeroportos, os primeiros exilados políticos. Miguel Arraes, Herbert de Souza, Leonel Brizola, Fernando Gabeira… Cada um que chegava, era recebido entre aplausos e sorrisos, sob o registro da imprensa nacional.
Em 1985, Theodomiro Romeiro dos Santos, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o único preso político que havia sido condenado à morte por ter assassinado um sargento da Aeronáutica, em 1970; foi o último exilado político a ser anistiado, perdão concedido pela redemocratização do país. Mas, curiosamente, o último exilado político a voltar para o Brasil, em 2009, trinta anos depois da promulgação da Lei da Anistia, foi o ex-marinheiro e militante das guerrilhas urbanas, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, aos 75 anos. Ele vivera até então, exilado na Suécia, com uma identidade falsa. Não retornou antes, porque não acreditava que a anistia concedida era verdadeira.
Ao trazer os brasileiros “apátridas” de volta, libertar os opositores ao regime das prisões, foi encerrado um período de dor e de vergonha da história do Brasil. Os anistiados torturados, agradeceram à Lei da Anistia, apesar de contestá-la em vários pontos; os anistiados torturadores, jamais fizeram um pedido de desculpa à nação, arrogantemente, continuam a conclamar que cumpriram com o dever patriótico, protegendo a nação. Que nação eles protegeram? A da minoria da elite que representaram?