ALEXANDRE DA MACEDÔNIA, O GRANDE

janeiro 1, 2015

Alexandre, príncipe e rei da Macedônia, foi o maior conquistador do mundo antigo, estendendo o seu império do Mar Egeu ao Indo, do Cáspio às cataratas do Nilo, praticamente todo o mundo do seu tempo. Sua importância histórica é tida como imprescindível à cultura ocidental, considerado como quem consolidou e espalhou o helenismo pelas grandes civilizações antigas, difundido a filosofia que construiu as bases do Ocidente, sendo o precursor das idéias helenísticas mais tarde difundidas no mundo antigo pelos romanos e associados aos conceitos judaico-cristãos, na composição da atual civilização ocidental.
Personalidade controversa, movida pela intelectualidade moldada por Aristóteles, seu preceptor quando mancebo, pela vitalidade mística da mãe Olímpia, uma bacante iniciada em cultos orgíacos, pela ambição de ser um grande conquistador, trazia uma alma inquieta, conciliadora com os mundos que conquistou, violenta com os que se lhe opunham à grandiosidade de querer a glória, sanguinário com quem se lhe traísse, benevolente com aqueles que conquistava.
Se para a maioria dos historiadores foi o responsável pela expansão do helenismo, para outros foi apenas um general que acumulou glórias, deixando corromper-se pelos costumes orientais, dos quais usufruiu sem pudores, traindo os princípios filosóficos herdados de Aristóteles. Sua figura mítica confunde a história com a mitologia, na sua época, muitos consideravam-no filho do próprio deus do vinho, Dioniso (Baco), ou de Zeus (Júpiter), com lendas criadas ao seu redor que se confundem com a do mito do herói grego Aquiles.
Sua vida pessoal foi conturbada, com amores obscuros, vividos com eunucos e princesas orientais. Heféstion, amigo íntimo de toda a vida, é por muitos considerado o grande amor do imponente imperador do mundo. Sua vida breve foi marcada pela conquista do império, que não se sabe, até onde iria se tivesse vivido mais tempo, ou até onde o iria manter. Morreu aos trinta e três anos, de uma febre misteriosa. Seu império não sobreviveria à sua morte, restando o mito, a figura histórica, perpetuada por todos os milênios da humanidade.
Alexandre passou para a história como o Grande, ou o Magno. Nunca outro líder conquistou um império tão vasto em tão pouco tempo. Deixou como herança o encontro entre duas culturas, a ocidental e a oriental, quer como força motriz propulsora do helenismo ou transmissor dos valores orientais ao Ocidente. Alexandre, o Grande, riscou o céu da história como um cometa brilhante e fugaz, marcando-a para sempre.

Os Pais de Alexandre

O dia do nascimento de Alexandre III da Macedônia, diverge conforme a fonte, sendo aceitos os dias 20 e 22 de julho, em 356 a.C. Era filho de Filipe II da Macedônia e de Olímpia de Épiro. Nasceu na Macedônia, pequeno reino dos Bálcãs, ao norte da Grécia, com língua e influência direta do mundo helênico.
Filipe II era o terceiro filho do rei Amintas, sendo quando jovem, enviado para Tebas como refém. O fato seria decisivo, pois marcaria o contacto do macedônio com a cultura helênica, fundamental na sua formação. Com a morte do irmão Pérdicas III, Filipe tornou-se regente do sobrinho Amintas IV, proclamando-se rei durante aquele período. Filipe II tornou-se um rei poderoso, armando um imponente exército, com uma falange própria para o combate, ultrapassando a capacidade de manobra das milícias gregas. Filipe II assegurou as fronteiras macedônias nos Bálcãs, reforçou o seu domínio na Tessália e Trácia, sendo neutralizado em Atenas, quando já se preparava para ocupar toda a Grécia. Atenas e Tebas aliaram-se contra o rei macedônio, sendo mais tarde, sob o seu comando e do filho Alexandre, derrotadas na batalha da Queronéia, em 338 a.C.
A mãe de Alexandre era uma princesa do Épiro, conhecida como terra das bruxas, de adivinhos e das bacantes. Olímpia, segundo algumas fontes, realizava cerimônias trazendo serpentes domesticadas envoltas no corpo, comandando o coro das bacantes que a acompanhavam. A devoção de Olímpia a Dioniso, nome grego de Baco, o deus do vinho, gerou a lenda em torno do nascimento de Alexandre, que seria filho de Zeus-Sabas, o Baco do oriente. O deus no leito nupcial de Filipe e Olímpia, teria vindo em forma de serpente, entrando pelas entranhas da rainha. Filipe, ao tentar ver a intimidade da mulher no rito sexual sagrado com a serpente, teria perdido um olho pela fúria do animal-deus. Alexandre seria fruto dessa união do deus com Olímpia. O próprio Alexandre, quando se tornou o maior imperador do seu tempo, deu alento à lenda, assim, justificando a sua origem divina.
Quando criança, Alexandre não tinha os olhos da mesma cor, sendo o esquerdo azul claro e o direito castanho-escuro, o que alimentou ainda mais a lenda da sua origem divina. Além de conferir poder místico ao filho, a lenda justificava as iniciações orgíacas de Olímpia, fato que marcaria profundamente o caráter libertário e silvestre de Alexandre e, possivelmente a sua sexualidade.

Aristóteles, o Preceptor do Príncipe Macedônio

Em 343 a.C., o filósofo Aristóteles foi chamado à Macedônia para ser o preceptor do filho de Filipe II. Instalado no castelo de Ninféia de Mieza, próximo de Pella, a capital, Aristóteles iniciou o príncipe mancebo nas disciplinas de medicina, moral, geografia, metafísica, retórica, ciências físicas e naturais, problemas políticos, poesia de Homero, dos líricos, em especial, Píndaro, e dos trágicos. O filósofo grego ensinou a arte de governar ao príncipe.
A formação de Alexandre foi essencialmente helênica, contrapondo-se à da mãe Olímpia, que incentivava a natureza levada aos excessos, à brutalidade e à crueldade. O futuro conquistador levaria nos seu caráter a educação intelectual de Aristóteles e a educação física latente de Olímpia.
Nos seus ensinamentos, Aristóteles impôs a importância da superioridade da filosofia grega, tida como unidade suprema a ser assimilada pela antiguidade. A idéia de democracia grega jamais foi absorvida no todo pelo pupilo, tão pouco a supremacia do helenismo. Quando dominou o Oriente, Alexandre assimilou o que achou de mais interessante naquela cultura, mesclando-a com a helenística. O ideal de democracia grega já era decadente na própria Grécia de Aristóteles.
Os ensinamentos do preceptor formaram os pensamentos de Alexandre. Já feito rei, ele levaria sempre consigo, durante a campanha da Ásia a “Ilíada”, de Homero, sobre a guerra de Tróia, obra que revisou incansavelmente com Aristóteles. O príncipe macedônio teve um dos maiores sábios da sua época e de todos ostempos como preceptor. Os conhecimentos do mestre atingiam todos os domínios: histórico, literário, físico, matemático e lógico. Aristóteles proporcionava a educação erudita de um grande rei e estadista.
Alexandre era dotado de uma aguçada inteligência, sabendo absorver sagazmente os ensinamentos de Aristóteles, tornando-se o seu aluno preferido. Aluno e mestre travaram discussões filosóficas, mantidas por correspondências trocadas mesmo quando Alexandre estava na distante Ásia. Conceitos essenciais para aquele que entraria para a história como uma das personagens mais importantes do mundo antigo, senhor absoluto de um dos maiores impérios que já se teve notícia.

O Cavalo Bucéfalo

Ainda mancebo, Alexandre assistiu à negociação do pai por conta de um cavalo. Filipe II recusara pagar 13 talentos pelo animal, visto que ninguém o conseguia montar. O príncipe lamentou a atitude do pai em dispensar tão imponente animal. Lançou um desafio a todos os presentes de que poderia domar o cavalo.
Filipe II irritou-se com a intromissão do filho, que pôs em causa experientes cavaleiros, considerando um afronto aos mais velhos a censura do mancebo. Mas Alexandre insistiu que poderia domar aquele animal. O rei decidiu apostar com o filho, pronto para que se lhe fosse dada uma lição pela prepotência.
O episódio tornar-se-ia uma grande página na biografia de Alexandre. Usando da inteligência, o príncipe aproximou-se e agarrou o animal pelo freio, apercebera-se que o cavalo sentia-se atormentado com a própria sombra, por isto voltou-o contra o sol. Acariciou-o com as mãos, pronunciando-lhe palavras dóceis, até acalmá-lo. Subitamente montou o animal, sem lhe bater, correndo toda a brida.
Ao ver o príncipe em cima do animal, todos à volta temeram por sua sorte. Angustiado, Filipe II manteve-se calado. Com espanto viu Alexandre montar o animal com destreza e inteligência, sendo aplaudido por todos. Diante do feito do filho, o rei abraçou-o e beijou-o, dizendo-lhe que procurasse outro reino, porque a Macedônia não lhe bastava, não lhe podia conter as ambições.
Alexandre tomou o cavalo para si. Era Bucéfalo. O animal acompanhar-lhe-ia por toda uma vida, marcando como um símbolo da presença de seu dono nas batalhas que iria travar. Bucéfalo morreria, segundo algumas versões, envenenado, segundo outras, de velho, em 326 a.C., pouco tempo antes do próprio dono. Inconsolável com a perda do seu velho companheiro, Alexandre erigiu às margens do rio Hidaspes, local onde o animal morreu, a cidade de Bucéfala, em memória ao seu cavalo.
Ao domar Bucéfalo, Alexandre demonstrou cedo o seu caráter intrépido e destemido, associado à inteligência e à estratégia. Montado no animal, romperia praticamente todas as fronteiras do seu tempo, conquistando para si um colossal império, ainda pequeno diante da sua ambição sem fim.

A Batalha de Queronéia

Filipe II pôde constatar o valor enérgico e estratégico do filho ainda em seus exércitos. Na maior batalha que garantiu o seu poder sobre toda a Grécia, o rei contou com a presença do jovem príncipe.
A coalizão das cidades de Atenas e Tebas contra as pretensões expansionistas dos macedônios era a que mais atemorizava Filipe II. Uma batalha sangrenta seria travada entre os exércitos gregos e macedônios em 338 a.C., pondo fim à democracia ateniense. O episódio sucedido no dia 2 agosto daquele ano ficou conhecido como a Batalha da Queronéia.
Filipe II marchou para a planície de Queronéia, contra os gregos, com um exército composto por cerca de vinte e cinco mil infantes e cinco mil cavaleiros. À esquerda do rei encontrava-se toda a cavalaria dos Eteros, entre eles o seu filho Alexandre. Num embate violento, os exércitos atenienses foram isolados dos soldados tebanos, encontrando a derrota. O chamado Batalhão Sagrado dos tebanos teve os seus membros aniquilados, tombando um a um.
No final do dia, dois mil atenienses estavam mortos ou feitos escravos. Os exércitos tebanos sofreram grande carnificina. A vitória na Batalha de Queronéia consolidou o poderio de Filipe II, findando o período cultural e filosófico que assolara a Grécia antiga, tornando-a uma das maiores civilizações da antiguidade. Serviu para popularizar o jovem príncipe Alexandre, então com dezoito anos, que se mostrou um exímio estrategista e valente soldado.
Apesar de reconhecer a bravura do filho, Filipe II deteriorou a relação dos dois quando decidiu fazer de Cleópatra, sobrinha do poderoso Átalo, a sua segunda esposa. Durante as bodas, Átalo conclamou que a sobrinha geraria o verdadeiro herdeiro de Filipe II como rei da Macedônia. A afirmação irritou Alexandre, que lhe atirou uma taça de vinho no rosto.
O gesto de Alexandre irritou o pai. Furioso, Filipe II empunhou uma espada contra o filho, na intenção de matá-lo. Embriagado, o rei caiu, não conseguindo acertar o jovem príncipe. Irônico, Alexandre teria dito:
Meu pai quer ir da Europa à Ásia, mas é incapaz de passar de uma mesa para a outra.
Depois do incidente, Alexandre e sua mãe Olímpia, viram-se obrigados a deixar Pella, indo ela a exilar-se em sua pátria Épiro, e o jovem príncipe na Iliria. Mais tarde, Alexandre e Filipe II reconciliar-se-iam, marcando a sua volta à Macedônia.

Alexandre Torna-se o Rei da Macedônia

O reinado de Filipe II foi marcado pelo fortalecimento dos exércitos macedônios, pela expansão e subjugação dos inimigos, pela utilização da guerra e da força bruta como consolidação. O rei adquiriu ao longo do tempo, grandes aliados e inúmeros inimigos, o que lhe fez presa fácil de constantes conspirações.
Em 336 a.C., após desentendimentos com o pai, e um breve exílio, Alexandre retornou à Macedônia, assistindo à conspiração, que segundo alguns relatos, ele e a mãe Olímpia, teriam conhecimento, e que resultaria no assassínio de Filipe II por Pausânias.
Com a morte de Filipe II, gerou-se um impasse em quem seria o sucessor do rei. Átalo, fiel seguidor do rei morto, reclamava o trono para o filho nascido pouco antes do seu assassínio, fruto do segundo casamento com Cleópatra. Como tio da segunda esposa de Filipe II, Átalo esperava usar do prestígio que usufruía e tornar-se regente do sobrinho.
Outro candidato à sucessão era Amintas, filho de Pérdicas III, herdeiro legítimo do reino, de quem Filipe II usurpara o trono quando ele ainda era criança.
Alexandre, visto como o verdadeiro herdeiro do rei morto, não contava com o apoio dos mais poderosos da corte. O fato não se devia à falta de preparo do príncipe, então com vinte anos, mas ao temor de que se ele ascendesse ao trono, trouxesse consigo a mãe Olímpia, conhecida por ser uma mulher vingativa e sem escrúpulos. Os fiéis seguidores de Filipe II temiam que a rainha preterida vingasse de todos que ficaram ao lado do rei quando ele decidira dela se separar. Outros não queriam que o príncipe continuasse as guerras do pai, principalmente a obsessão pela conquista da Pérsia. A conspiração que matara o rei teria contado com a ajuda dos persas.
Mas a bravura e a coragem de Alexandre eram admiradas pelos macedônios, que lhe tinham uma grande estima. O povo macedônio considerava Alexandre um herói, sendo apreciado por sua generosidade. Alexandre teve os seus direitos reais proclamados nas ruas, gerando uma pressão popular que lhe era favorável.
Assim, aos vinte anos, Alexandre tornou-se o sucessor de Filipe II, recebendo um reino tumultuado e convulsivamente político. O jovem rei mostrou-se desde cedo um monarca de grande pulso, tomando medidas enérgicas que puseram fim às agitações e perturbações dos seus inimigos. Tão logo subiu ao trono, deixou claro que estenderia os domínios do seu reino muito além do que fora o pai.

A Carnificina em Tebas

Baseado nos princípios helênicos, Alexandre construiu o seu reinado movido pela ambição de expandir o seu reino até o outro lado extremo do mar da antiguidade. Menos eloqüente do que o pai, ele preferia a ação, a busca da magnificência da glória. Montado no seu cavalo Bucéfalo, ele comandou um grande exército, seguindo sempre para o leste, expandido as suas fronteiras.
O caráter de Alexandre, o homem, é visto conforme o lado que se quer estudar do mito. Não se pode ter a visão contemporânea, pois estaríamos a limitar à crueldade a essência de um homem que viveu mais de dois milênios atrás, numa época em que os reinos conquistavam as suas fronteiras através da guerra e do fio das espadas sedentas de sangue. Para manter o reino herdado de um rei que o usurpara e o transformara em grande através de guerras e do sangue derramado, Alexandre utilizou-se da razão que lhe ensinara o mestre Aristóteles, e da essência brutal dos pais, fundamental para que sobrevivesse às hostilidades que o levariam a um império gigantesco, tomado a outros povos.
As diversidades foram aos poucos, limadas de forma bruta e muitas vezes, cruel. O jovem resolveu as diferenças com Átalo, que simplesmente foi assassinado. Olímpia assegurou que o filho não corresse o risco de um dia ser traído e ter o trono usurpado pelo irmão, o segundo na sucessão, filho de Filipe II com Cleópatra. Para isto, fez com que fosse assassinado, e que a mãe cometesse suicídio. Olímpia não só afastava possíveis fantasmas futuros, como também regozijava uma vingança pessoal sobre os que lhe arrastara ao exílio e à expulsão da Macedônia. Alexandre, consta em relatos, teria repudiado os atos da mãe, mas nada fez para evitá-los. Era o preço de herdar um reino construído pela força.
No ano de 335 a.C., Alexandre consolidou o seu poder nos Bálcãs; atravessou o Istro (Danúbio); e, enfrentou mais uma vez a elevação dos gregos. Os helenos sentiam-se humilhados por verem a sua cultura propagada por um macedônio, povo que consideravam inferior.
Apesar da assembléia federal realizada em Corinto reconhecer a hegemonia de Alexandre, os gregos viram-se incitados pelo rei persa Dario a mover uma guerra ao rei macedônio. Dario enviou dinheiro às cidades-estados gregas, para que se armassem contra Alexandre. Somente Atenas recusou a ajuda persa, mas Demóstenes aceitou a ajuda de trezentos talentos, utilizados para instalar uma revolta contra Alexandre.
Os exércitos de Alexandre marcharam contra a Grécia. No meio da confusão, correram rumores de que o jovem rei tinha sido morto em combate. Demóstenes aproveitou-se da notícia, espalhando-a ao povo ateniense em um discurso que incitava à revolta. Aproveitando-se da empolgação ateniense, Demóstenes enviou armas para Tebas, cidade que guardara a mágoa da carnificina que lhes causara os exércitos de Filipe II, em 338 a.C., na humilhante derrota na batalha da planície de Queronéia.
Enquanto corria a falsa notícia sobre a morte de Alexandre, os exércitos macedônicos aproximavam-se de Tebas. Os tebanos não acreditavam que o comando era do filho de Filipe II. Surpreenderam-se com a rápida chegada das falanges comandadas pelo jovem rei. Alexandre ainda tentou evitar entrar em Tebas, propondo uma negociação onde oferecia promessas de clemência. Pérdicas, comandante da vanguarda do exército macedônico, já em posição de ataque a Tebas, iniciou o combate sem esperar pelas negociações do seu rei.
A resistência heróica dos tebanos fez grandes baixas no exército inimigo, ferindo gravemente o seu comandante, Pérdicas, fazendo tombar muitos arqueiros. Ao ver os macedônios acossados, Alexandre avançou sobre Tebas, esmagando os defensores da cidade. A resistência tebana teve um alto preço, a cidade mergulhou em sangue, em um morticínio que atingiu mulheres e crianças. O sangue correu até nos altares dos templos, considerados sagrados por aqueles povos, matando quem ali se abrigara. Quando Alexandre ordenou que cessasse o combate, seis mil tebanos tinham sido mortos.
O destino de Tebas foi entregue por Alexandre, no dia seguinte ao fim das batalhas, à Assembléia da Liga de Corinto, para que os gregos decidissem o que fazer com a cidade. Inimigos históricos de Tebas, como os focenses, os beócios e os platenses, decretaram que a cidade deveria ser arrasada e que toda a população, incluindo mulheres e filhos, seriam vendidos como escravos, sendo somente poupados os sacerdotes e as sacerdotisas. Diante da decisão, Alexandre pediu para que a casa do poeta Píndaro fosse poupada. Tebas foi transformada em uma grande ruína, causando o lamento e a indignação dos gregos.
Finda a punição aos tebanos, chegara a hora do acerto final com os atenienses. Alexandre exigiu que os atenienses entregassem Demóstenes, Licurgo e Caridmo. Diante de uma possível revolta da população daquela cidade, o rei da Macedônia aceitou que os próprios atenienses julgassem os sublevados, conseguindo com este ato, apaziguar finalmente a Grécia.

Expansão Pela Ásia Menor e Pelo Egito

Quando a tranqüilidade voltou à Grécia, Alexandre pôde finalmente iniciar o seu projeto de expansão sobre a Ásia. O jovem rei achava que a hegemonia do seu reino e dos reinos gregos só estaria assegurada se o perigo que vinha do Oriente, especialmente da Pérsia, fosse eliminado.
Em 334 a.C., o rei partiu no início da primavera, em uma expedição militar rumo à Ásia Menor, atravessando o Helesponto, avançando até o rio Grânico, enfrentando ali, pela primeira vez, os persas, obtendo uma significativa vitória, conquistando a costa e o interior da Ásia Menor.
Após a Batalha de Grânico, Alexandre enterrou os seus mortos. Isentou dos impostos os pais e os filhos dos macedônios que caíram durante a batalha. Mostrou-se humano com os vencidos, ao mesmo tempo em que procurava saber como eles foram feridos, para que assim ampliasse os seus conhecimentos bélicos. Iniciava um diálogo com os orientais, respeitando-lhes os costumes, aprendendo com eles, e, livrando-os do julgo e da cultura persa.
Para ressaltar a vitória, enviou a Atenas trezentas armaduras completas, com a inscrição que afirmava a vitória do filho de Filipe II e dos helenos sobre os povos bárbaros. A cada cidade conquistada da Ásia Menor, Alexandre implantava a cultura helena, exaltando-a como vitoriosa. Ironicamente, os pensamentos gregos eram expandidos pelo mundo por um macedônio.
Em Sardes, cidade da Lídia, os seus habitantes vieram entregar ao rei conquistador os seus famosos tesouros. Para honrar os cidadãos conquistados, Alexandre escolheu um lugar ali apropriado, ordenando que se erigisse um templo em homenagem a Zeus, o senhor do Olimpo, e deus protetor dos macedônios. No meio de uma chuva torrencial, começou a ser erguido o templo onde outrora fora um antigo palácio real de Creso, rei da Lídia. A estátua de Zeus ali esculpida pelos lídios, assumiram, segundo algumas fontes históricas, não os traços famosos do deus, designada pelo escultor Fídias, mas os de Alexandre, o rei vitorioso.
Alexandre seguiu a sua marcha sobre a Ásia. Diante de uma aproximação iminente dos exércitos do filho de Filipe II, Dario III foi ao seu encontro. Em novembro de 333 a.C., a Batalha de Isso deu a vitória de Alexandre sobre o poderoso rei da Pérsia, iniciando o ocaso daquele grande império. Após a vitória, Alexandre seguiu, tomando a cidade de Damasco. Ainda naquele ano, prepararia a conquista da Fenícia e da Síria.
Em 332 a.C., promoveu o cerco a Tiro. Em agosto chegou a Gaza, seguindo para o Egito, sendo sagrado faraó em Mênfis. No Egito, o jovem rei começava o processo de expansão pessoal, assimilando à formação helênica que recebera, a cultura oriental. Nas terras egípcias respeitou os antigos cultos aos seus deuses. No oásis de Siwa, foi reconhecido em seu templo como o filho de Amon e sucessor dos faraós. Ainda no Egito, fundou naquele ano Alexandria, a cidade que se iria transformar em um dos maiores centros de erudição da antiguidade.

Conflito Entre o Ideal Helênico e o Oriental

No ano de 331 a.C., Alexandre voltaria a enfrentar as tropas do poderoso Dario III. Em 1 de outubro, o rei persa seria definitivamente derrotado na Batalha de Gaugamelos, forçando à queda definitiva da Pérsia ante os macedônios.
Alexandre foi conquistando as principais cidades daquela região. Da Mesopotâmia à Pérsia, uma a uma caiu-lhe nas mãos: Babilônia, Susa e Persépolis.
Ao ser derrotado, Dario III fugiu, deixando para trás a família. Ao deparar-se com Sisigâmbis, a rainha-mãe, e com a mulher e as filhas do rei persa, Alexandre viu-as a saudar, por engano Heféstion. Como o amigo intimo do conquistador era o mais alto dos dois, a rainha-mãe pensou que ele fosse Alexandre, ajoelhando-se aos seus pés. Irônico, Alexandre disse à senhora: “Não te enganas, minha venerada mãe, este é Alexandre”, insinuando que Heféstion também era uma parte dele. Alexandre assegurou à rainha que nada aconteceria a ela e aos filhos de Dario, num gesto de comiseração humana.
Em julho de 330 a.C., a fuga de Dario III chegaria ao fim, quando foi morto, não pelas mãos de Alexandre, mas por uma conspiração dos sátrapas, que guiados por Besso, Barsaentes e Nabárzanes, adentraram-se durante a noite na tenda do rei persa, arrastando-o na intenção de levá-lo prisioneiro para a Bactriana, onde negociariam com Alexandre, trocando-o pela paz.
A notícia da conspiração causou tumultos entre os persas, provocando um grande número de sediciosos, obrigando Alexandre a ir ao encalço dos conspiradores, antes que se gerasse uma revolta sem contornos. Quando Alexandre cercou os conspiradores, Besso trespassou o corpo de Dario III com um dardo. Alexandre encontrou o cadáver do grande rei persa, cobrindo-o com o seu manto púrpura. Em seguida, honrou-o como um rei, enviando o cadáver para que fosse enterrado em Persépolis, por sua mãe Sisigâmbis.
Morto Dario III, Alexandre foi proclamado rei da Ásia e sucessor da dinastia persa. O processo de orientalização de Alexandre acentuou-se ainda mais, quando ele passou a usar a tiara persa e a participar do ritual cerimonial da corte oriental. Alexandre deparou-se então, com o conflito entre duas civilizações, a Oriental e a Ocidental, numa separação clara de dois mundos que não se queriam conciliar, e quando o fazia, era através das lanças e das espadas.
Fiéis seguidores do rei começaram a ver com desconfiança a simpatia dele pelos orientais. Não aceitavam que os vencidos fossem tratados com tanta simpatia e benevolência, tão pouco que se lhe impusessem os seus costumes. O ideal grego era considerado pelos exércitos de Alexandre como superior, não podendo ser contaminado pelo ideal oriental. Supostas conspirações chegaram aos ouvidos de Alexandre, sendo Filotas, filho de Parmênion, o principal acusado. Reunindo-se em um conselho de guerra, ficou decidido que Filotas seria executado. Sem direito à defesa, ele foi morto a golpes de dardos e pedradas pelos seus antigos amigos e companheiros de batalhas.
Temendo uma revolta de Parmênion, pela morte do filho, também o destino de um dos mais bravos comandantes dos exércitos de Alexandre foi decidido. Polidamos foi enviado por Alexandre a Ecbátamos com ordem explícita para eliminar Parmênion. Mortos pai e filho, não morreu a visão que tinham dos orientais, considerados por eles bárbaros. Tão pouco o sentimento helênico, sabendo que a sua cultura era difundida não por um grego, mas por um macedônio.
A morte de Parmênion e Filotas abriu uma ferida que jamais foi cicatrizada. Dois anos depois, quando Alexandre oferecia um banquete, Clito, fiel companheiro do conquistador e um dos maiores chefes militares do exército macedônico, não conteve a sua irritação diante do rei, lembrando-o da chacina que vitimara Parmênion e os seus filhos, acusando-o de convidar bárbaros para a sua mesa e matar fiéis companheiros. Movido pela ira, alentada em parte pelo excesso de vinho, Alexandre levantou-se da mesa, empunhando a espada contra Clito. Os demais convidados tentaram impedir o ato insensato do rei, escondendo-lhe as armas. Mas Alexandre não conteve a fúria, tomando a lança das mãos de um guarda, arremessando-a contra Clito, que caiu morto aos seus pés. Ao tomar consciência do seu ato, Alexandre foi acometido de um terrível remorso. Em um impulso, arrancou a lança do corpo de Clito, tentando com ela matar a si próprio. Os amigos do rei impediram que cometesse mais um ato de insensatez, levando-o para o seu leito. Alexandre era conduzido em meio de gritos lancinantes que emitia, acompanhado de um choro compulsivo. Durante três dias ficou junto ao cadáver de Clito, chorando a sua morte.
Outra conspiração envolvendo a condenação à orientalização de Alexandre foi efetuada pelos pajens, assim denominados os filhos dos nobres macedônios quando chegavam à adolescência e eram chamados para começar as suas carreiras, formando um escorte especial do rei em campanha. A revolta foi causada por Hermolau, admirador da filosofia de Calistenes, sobrinho de Aristóteles. Hermolau, ao desobedecer a Alexandre por conta da caça a um javali, foi açoitado por ordem do rei, causando revolta nos amigos pajens. Juntos, decidiram assassinar Alexandre. Descobertos, foram todos lapidados.
Calistenes, historiador do seu tempo, era um admirador de Alexandre. Não era soldado. Quando chegou a Ásia, revoltou-se com os costumes orientais praticados pelo rei. Heleno convicto, durante um banquete em que Heféstion quis introduzir o cerimonial usado na corte persa, onde todos deveriam se prostrar diante do rei e receber o beijo de gratidão, recusou-se se submeter a tais práticas bárbaras. Foi encarcerado e posto a ferros, morrendo, segundo historiadores, enforcado. Mais uma vez o encontro de duas culturas eram confrontadas, gerando mártires. A morte de Calistenes pôs fim à longa correspondência trocada entre Alexandre e Aristóteles. Talvez fim ao último contacto do imperador com os pensamentos filosóficos do mundo helênico.

O Conquistador Chega à Índia

As conquistas de Alexandre pareciam não ter limites. Quanto mais avançava e estendia as fronteiras do seu império, mais se distanciava da sua terra natal. Seu carisma e triunfo compensavam a longa ausência, fazendo os macedônios um povo fiel ao poderoso rei ausente.
A fama de Alexandre percorria todas as terras. Em Jerusalém chegou a ser identificado com aquele que os livros sagrados profetizaram através de Daniel. Perdoou aos hebreus e prestou adoração ao Deus único, dizendo ter visto os sacerdotes do templo vestidos de branco em sonhos. Poupou Jerusalém, isentou o sétimo ano de impostos e ordenou que se lhe fosse respeitados a crença e os costumes monoteístas. Alexandre tornou-se uma figura mítica no seu tempo, sendo criadas várias lendas em torno da sua personalidade. Muitos identificavam-no com o próprio Aquiles.
Na sua conquista ao mundo, Alexandre atravessou em 329 a.C., o Parapamiso (Hindu-Cuxe). Conquistou a Samarcanda e a Bactriana, conquistando a seguir a Sogdiana, tomando Maracanda. Durante a conquista, conheceria a bela Roxane, com quem se iria casar.
Em 327 a.C. partiu em sua expedição indiana, ultrapassando o Hindu-Cuxe. Seguiu o Indo, atravessando o rio Hidaspes. Às margens deste rio, erigiu Bucéfala, em homenagem ao seu famoso cavalo ali morto. Em 326 a.C. chegou ao rio Hifaso, ou Bias. Após enfrentar grandes batalhas na Índia, completamente esgotadas fisicamente, as tropas do conquistador amotinaram-se, recusando-se a continuar, obrigando-o a retornar. Numa volta penosa, o grande rei desceu o Hidaspes. Venceu os males e os seus aliados, mas foi ferido gravemente em batalha, sendo retirado da luta sob a proteção fechada dos seus homens.
No seu regresso, em 325 a.C. atravessou o deserto de Gedrósia. Durante a passagem pelo deserto, perdeu dez mil homens. Quando chegaram a Pura, pareciam zumbis errantes. Um bacanal em Pura restabeleceu a força das tropas. Alexandre partiu para a Carmânia, inquieto pela falta de notícias de parte da suas tropas comandadas por Nearco. Grande foi a emoção que sentiu Alexandre ao reencontrar Nearco e os seus soldados. Ao vê-los, chorou emocionado, pois já os pensava mortos.
Diante do cansaço e desgaste físico dos seus exércitos, Alexandre retornaria a Persépolis e a Susa. Ao retornar, em 324 a.C., cairia gravemente doente no ano seguinte, não tendo mais tempo de conquistar o mundo. Alexandre, já a esta altura conhecido como o Grande, encerrava abruptamente a expansão do seu império.

Vida Sentimental e Pessoal de Alexandre

Alexandre passou a maior parte da sua vida em campos de batalhas. Pouco tempo teve para viver uma vida pessoal intensiva. Poucos relatos amorosos fizeram parte da sua biografia, sendo oficialmente citados os seus dois casamentos, registrados em documentos históricos. Apócrifos são os relatos do seu envolvimento com homens. Muito que se tem especulado ao longo dos séculos sobre a sua homossexualidade, embora não tenha documento algum do seu tempo que a comprove.
Era um homem vaidoso, de cuidados especiais com a sua aparência. Vestia-se com esmero e luxo. Contrariando os da sua época, trazia o rosto raspado, sem a tradicional barba dos macedônios.
Relatos apontam que aos dezessete anos, Alexandre mostrava-se totalmente apático ao sexo. A mãe Olímpia, recorreu a Calixena, uma cortesã, para iniciar o filho nas artes do sexo. Conta-se que no decorrer da noite, diante da indiferença do príncipe, a cortesã fez-se autoritária, violando-o. Após grande esforço, conseguiu realizar um ato rápido e pouco satisfatório para ambos.
Em 328 a.C., Alexandre tomou como esposa Roxane, filha do aristocrata bactriano Oxyartes. A bela mulher foi capturada pelas tropas de Alexandre durante a conquista da Sogdiana. Muitos relatos afirmam que o casamento do rei macedônio com Roxane teria sido fruto de uma grande paixão. Outros acreditam que não passou de um ato político, com o qual Alexandre consolidava o seu poder no Oriente, unindo oficialmente as culturas helênicas e orientais. Roxane foi quem gerou o único filho do grande rei, Alexandre Aigos, nascido postumamente na Babilônia, em 323 a.C. Na disputa pela herança do império de Alexandre, Roxane e o filho ficaram sobre a proteção da rainha-mãe Olímpia, mas quando esta foi morta, em 316 a.C., os dois tiveram a sorte selada, sendo ambos assassinados em 309 a.C.
Um suposto amor vivido entre Alexandre e a rainha Cléofis de Massaga é rejeitado pela maioria dos historiadores. Jovem de rara beleza, Cléofis teria gerado um filho de Alexandre, chamando-o pelo nome do pai. O episódio é obscuro, sem que se apóie à veracidade histórica, sendo visto com uma lenda.
Em fevereiro de 324 a.C., Alexandre retornou a Susa, sendo recebido com festas e grande solenidade. Ali decidiu tomar uma segunda esposa. Optou por Estatira, a filha mais velha de Dario III, seu velho inimigo. Dripetes, a filha mais jovem do falecido rei persa, foi dada em matrimônio a Heféstion, o favorito de Alexandre. Num ato político, Alexandre ordenou que os seus soldados macedônios tomassem mulheres persas como esposas. No dia do casamento de Alexandre e Estatira, dez mil soldados gregos também se casaram com mulheres persas. Estatira, a segunda esposa do rei macedônio, não passou de um grande jogo político nas mãos do marido, que consolidava o seu império na Pérsia.
Outro personagem obscuro na vida de Alexandre seria o eunuco Bagoas, um cortesão persa, segundo alguns historiadores, um dos amantes preferidos do grande imperador. Bagoas teria tido grande influência sobre Alexandre em relação às atitudes favoráveis aos persas. Ter um eunuco como amante não era considerado entre os antigos um ato de homossexualismo, visto que os eunucos eram tidos sexualmente como mulheres.
Mas o companheiro de toda a vida de Alexandre teria sido Heféstion Amintoros, filho de Amíntor, um aristocrata da Macedônia. Heféstion teria tido Aristóteles como professor. Acompanhou Alexandre em toda a sua campanha pela Ásia, combatendo na cavalaria. O amor homossexual entre homens era uma prática na Grécia antiga, sendo aceito entre um homem mais velho e um jovem. Alexandre e Heféstion eram da mesma idade, o que fazia dos dois uma diferença aos costumes. Era costume aos homossexuais gregos a visita ao suposto túmulo de Pátroclo, companheiro inseparável de Aquiles. Numa visita a Tróia, Alexandre teria induzido Heféstion a visitar aquele túmulo com oferendas, enquanto ele fazia uma oferenda ao túmulo de Aquiles. O ato revelava ao seu exército de soldados a verdadeira face da amizade viril entre os dois. Esta passagem da vida do rei macedônio foi a que mais gerou o debate da sua suposta homossexualidade. Muitos são os relatos que afirmam ter sido Heféstion a pessoa que o grande rei mais amou em vida.
Apesar de toda especulação em torno do relacionamento entre Heféstion e Alexandre, em que se deduz que ambos foram amantes, a suposição jamais foi citada pelas fontes históricas mais antigas, sendo a citação ao fato atribuída a uma carta de Diógenes de Sinope, em que afirmava que Alexandre jamais seria capaz de deixar Heféstion, visto estar preso a ele pelas coxas.
Alexandre conferiu grandes poderes a Heféstion, fazendo dele o segundo homem do seu imenso império. Ao casá-lo com Dripetes, tornou-o seu cunhado. Na primavera de 324 a.C., Heféstion deixou Susa, acompanhando Alexandre até Ecbátanos, aonde chegaram no outono. Ali, Heféstion caiu gravemente doente, com sintomas de febre tifóide, apesar das suspeitas de envenenamento. Viria a morrer subitamente em sete dias. Alexandre quase enlouqueceu ao saber da morte do amigo. Em desespero, cortou os cabelos e as crinas e os rabos dos cavalos do exército, além de mandar executar Glaucias, o médico que atendera Heféstion. Em sinal de luto, Alexandre proibiu o toque de flautas no acampamento. Ficou esticado em cima do cadáver do amigo todo o dia e toda a noite. Durante o funeral, Alexandre pôs uma mecha dos seus cabelos nas mãos do companheiro, levando todo o exército às lágrimas.
Em meio aos eventos fúnebres, o rei massacrou os revoltosos da tribo dos Cosseanos, chamando a vitória de Sacrifício Fúnebre de Heféstion, repetindo a fúria de Aquiles quando vingou a morte de Pátroclo. Alexandre celebrou jogos fúnebres em homenagem ao amigo morto, determinando que ele deveria ser adorado como um herói divino. Guardou luto por meses. Alexandre ainda erigia um grande monumento funerário em homenagem a Heféstion, quando ele próprio foi acometido de uma febre mortal ao se encontrar em Babilônia.

A Morte de Alexandre, O Grande

Após a morte de Heféstion, Alexandre retornou à Babilônia, lá chegando na primavera de 323 a.C. Mesmo de luto, profundamente abatido pela morte do amigo, ele não desistiu da obstinação de conquistar o mundo. Em Babilônia ele traçou planos para conquistar a África e a Arábia, iniciando os preparativos de uma grande expedição que jamais se iria concretizar.
Alexandre desejava sair de Babilônia em breve, partindo rumo à península Arábica e ao norte da África. Durante o tempo que permaneceu na cidade, iniciou a construção de uma grande pira em homenagem a Heféstion, conclamando o início dos grandes jogos fúnebres.
Ainda na Babilônia, encontrou com uma grande embaixada helênica, além de incorporar aos seus exércitos mais vinte mil soldados persas. No mês de maio de 323 a.C., deu a ordem para que se celebrasse os funerais de Heféstion. Parte das muralhas de Babilônia foram derrubadas para que se construísse o grandioso edifício da pira, que resplandecia de ouro, prata e esculturas de bronze e mármore, custando doze mil talentos. Cânticos fúnebres em homenagem ao morto foram entoados por coros. Ao atear o fogo, Alexandre fez a libação ao amigo, elevando-o à categoria de herói divino. Dez mil touros foram sacrificados e distribuídos a todos, num grande banquete em memória a Heféstion. Foi a última festa grandiosa celebrada por Alexandre.
Na noite de 18 daesios (3 de junho), Alexandre voltou ao palácio, após ter comido e bebido muito. Após banhar-se, começou a sentir uma forte febre. Desde então, a sua saúde foi debilitando consecutivamente. Durante os três primeiros dias que foi consumido pela febre, Alexandre não se deixou abater. Foi sempre levado de liteira ao templo, onde fez sacrifícios aos deuses. Reuniu-se com os seus oficiais, confirmando a intenção de partir em expedição para a Arábia e para a África. Ainda no dia 21 daesios, após os banhos, continuava a ter febre, ainda assim, chamou os comandantes dos navios, recomendando-lhes que se apressassem nos preparativos para a grande expedição. No fim daquela tarde, após outro banho, o seu estado febril agravou-se.
Já bastante debilitado, no dia 22 daesios, celebrou com dificuldades sacrifícios aos deuses, reuniu-se mais uma vez com os oficiais, nomeando alguns cargos que faltavam no exército e para traçar as últimas medidas da campanha naval. A partir de então, já não conseguiu dar novas ordens. Piorava a cada hora. No dia 25 daesios, foi trazido dos aposentos do jardim para o palácio. Já não tinha voz, sendo tomado pela febre cada vez mais violenta. No dia seguinte, os soldados macedônios cercam as portas do palácio, na esperança de ainda ver com vida o seu rei. Aos gritos, a usar a força, conseguiram que se lhe abrissem as portas, e, um a um, sem armas e armaduras, desfilaram em túnica em frente do grande rei, que jazia mudo no leito, sem forças. Alexandre reuniu as últimas forças e levantou a cabeça a cada um dos seus soldados, acenando-lhes com os olhos. No dia 28 daesios, ou 13 de junho de 323 a.C., morria Alexandre, o Grande, acometido de uma grande febre, provavelmente em conseqüência de uma malária.
Durante o tempo em que esteve no leito de morte, vários foram os relatos que pontuaram aquele momento dramático. Um deles conta que, já tendo a certeza do fim, Alexandre pediu a Roxane a ajuda em um plano: quando desse o último suspiro, fosse o seu corpo atirado secretamente nas águas profundas do rio, para que os seus soldados e o povo pensassem que os deuses o haviam raptado. Roxane, então grávida do seu herdeiro, recusou cumprir a vontade do marido, deixando-o morrer não como um deus, mas como um simples mortal.
Alexandre, ainda no leito de morte, teria escrito uma carta a Olímpia, sua mãe:
Teu filho, depois de ter contado alguns instantes de vida, vai ser presa da morte; ele se dissipa como um relâmpago e só deixa depois de si um tema de conversação para as gerações futuras.”
Alexandre morreu um mês antes de completar 33 anos. Durante os treze anos do seu reinado, construiu um império que dominou quase todo o mundo da sua época. Passou a maior parte do reinado longe da Macedônia, a expandir o grande império em que foi rei absoluto. Muitos anos longe do mundo helênico onde foi gerado e onde se formou os seus princípios políticos e intelectuais, foi inevitável que adquirisse visões das terras orientais as quais conquistou, demonstrando concretas influências, sendo por isto criticado e acusado de traição ao helenismo por parte dos seus mais influentes generais e súditos.
O grande império de Alexandre não lhe sobreviveu, sendo dividido entre os seus generais, que entraram em discórdia tão logo ele morreu. A importância deste império efêmero foi vital para a história do Ocidente. Alexandre evitou que o poderoso império Persa ultrapassasse as fronteiras da Ásia Menor e dominasse a Grécia e, conseqüentemente, a Europa, na época ainda um berço de civilizações incipientes e atrasadas. O domínio persa certamente destruiria os princípios helênicos, fundamentais para a construção moral e ética da civilização ocidental. Ao fazer ruir o império persa, Alexandre voluntária ou involuntariamente, assegurou a sobrevivência da civilização grega, a helenização do judaísmo, abriu as portas para o grande e helenizado império romano, que por sua vez, concretizaria o cristianismo, formando os conceitos morais da atual civilização ocidental.
Não se sabe até onde iria Alexandre, se não tivesse morrido ainda longe de atingir a maturidade dos anos. Se ampliaria ainda mais o seu império, ou mesmo se o iria conseguir manter por mais tempo. Sabe-se apenas, que na história da civilização ocidental, poucos conquistaram tão grandioso império como ele, poucos foram tão longe. Nenhum foi o Grande, como Alexandre.

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VIADUTO DO CHÁ – SÍMBOLO DA MODERNIDADE PAULISTANA

fevereiro 25, 2014
Uma ponte fria de concreto armado é um dos maiores ícones da cidade de São Paulo, o Viaduto do Chá. O que lhe falta de beleza estética sobra-lhe de tradição e força histórica. O viaduto do Chá é o símbolo vivo da transformação da cidade, de simples entroncamento entre o litoral e o interior, em grande metrópole do planeta.
Construído no Morro do Chá, local de cultivo de hortaliças e chá no fim do século XIX, o viaduto era inicialmente, uma estrutura metálica que atravessava o Vale do Anhangabaú, ligando a Rua Direita a Rua Barão de Itapetininga, numa travessia que se faria ao longo da convulsão de progresso que gerou a imensa cidade de São Paulo. Por aquela estrutura passavam pedestres, bondes elétricos, carroças, e, à medida do tempo, os automóveis.
Do alto do viaduto, assistiu-se à transformação do vale do Anhangabaú, a chegada dos arranha-céus, dos automóveis mais potentes e sofisticados, do aumento demográfico; até que a velha estrutura metálica tornou-se obsoleta, ultrapassada pelo próprio progresso que ajudara a desencadear algumas décadas antes.
Em 1938, o velho viaduto foi demolido. No seu lugar surgiu uma gigantesca estrutura de concreto armado. Sem a harmonia estética do primeiro, o novo Viaduto do Chá enquadrou-se na paisagem de edifícios e concretos que cobriram o céu paulistano, fazendo parte do seu frio, mas instigante cartão postal.
Mais de um século depois da sua construção original, o Viaduto do Chá faz parte do coração pulsante do centro velho da cidade de São Paulo. Milhares de pessoas atravessam-no todos os dias, olhando de cima, ainda que sem tempo de parar, a própria história urbana da imensa metrópole da garoa.

A Cidade Nova

Na segunda metade do século XIX, a cidade de São Paulo passou por um processo de crescimento que iria transformar a sua paisagem urbana, fazendo-lhe uma importante capital do Brasil Império. O progresso veio com o ciclo do café, produto que por décadas garantiria a economia do país.
A emergente cidade tinha no seu coração ruas de terra batida, quintais baldios e grandes chácaras, contrastando a paisagem urbana com o bucolismo rural. No meio daquele cenário bucólico estendia-se um vale de chácaras, local preferido para as crianças da época praticarem a caça aos passarinhos, onde eram cultivados hortaliças e o chá, ali introduzido por José Arouche de Toledo. Por este motivo o local passou a ser denominado Morro do Chá.
O aspecto bucólico do Morro do Chá foi aos poucos, sofrendo alterações com o progresso iminente, sendo abertas ali vielas e novas ruas como a Barão de Itapetininga, Formosa, 7 de Abril e Xavier de Toledo, transformando-se assim, em um novo bairro, que ficou conhecido como Cidade Nova.
Opondo-se à Cidade Nova, ficava do outro lado do Vale do Anhangabaú o núcleo tradicional do centro paulistano, a Cidade Velha, no qual se encontravam as principais ruas de comércio da cidade, desembocando no famoso Triângulo, delimitação das ruas 15 de Novembro, São Bento e Direita.
Constituído de ruas estreitas e irregulares, ladeado por pequenos largos e acentuadas ladeiras, o centro urbano velho da cidade passou a ser delimitado pelo excesso de atividade comercial que desenvolveu, ficando asfixiado pela falta de saída e interligação com o núcleo novo. Aos poucos, a idéia de uma ponte que pudesse unir a Cidade Nova à Cidade Velha passou a ser cogitada, fazendo-se cada vez mais necessária em face da grande cidade que ameaçava emergir a qualquer momento.

A Inauguração do Viaduto

Para atender às necessidades de crescimento do centro paulistano, foi apresentado, em setembro de 1877, um projeto do engenheiro francês Jules Martin, para a construção de um viaduto de 180 metros de extensão sobre o Vale do Anhangabaú, unindo os dois núcleos, ou seja, a Cidade Velha à Cidade Nova.
O projeto de Jules Martin consistia em estabelecer a ligação entre a Rua Direita e a Rua Barão de Itapetininga, atravessando os terrenos de cultivo de chá da Baronesa de Itapetininga, sendo executado mediante a cobrança de pedágio pela passagem, através da Companhia Paulista Viaduto do Chá.
O processo de loteamento da chácara da Baronesa de Itapetininga e arredores foi demorado, atrasando o projeto de Jules Martin. As obras só se iriam iniciar em 30 de abril de 1888, já no fim da monarquia, sendo interrompidas um mês depois, devido à resistência de alguns moradores dos arredores. Foram retomadas em 1889, após um longo e arrastado processo de desapropriação do sobrado do Barão de Tatuí, localizado em uma das cabeceiras do vale. Conta-se que o Barão recusava-se a sair da sua casa, só o fazendo quando a população paulistana, favorável à construção do viaduto, lançara às mãos picaretas e começou a atacar as paredes do sobrado. Diante da pressão popular, o Barão de Tatuí decidiu abandonar a casa, pondo fim ao último empecilho para a construção do viaduto.
As obras só seriam concluídas já na época da República. Em 6 de novembro de 1892, os paulistanos assistiram à inauguração daquele que se tornaria um dos símbolos míticos da cidade, o Viaduto do Chá. Era originalmente, uma estrutura metálica de 180 metros, importada da Alemanha, sendo a balaustrada decorada aristocraticamente em ferro forjado, numa largura de 14 metros.
No dia da inauguração, o viaduto foi enfeitado com flores e bandeiras. A cerimônia que o inaugurou foi festiva, com direito aos discursos solenes, tendo até quem sugerisse que o nome fosse alterado para “Viaduto do Café”, visto que era o poder cafeeiro que sustentava o crescimento da cidade, proporcionando aquela obra que simbolizava o progresso latente. Desfiles oficiais marcharam por arcos do triunfo, inaugurando a passagem, seguida por inseguros populares, que tinham medo de atravessar aquela gigantesca estrutura metálica, erguida em tão frondosa altura. A festa só foi interrompida por uma inesperada chuva que serviu de batismo.

O Novo Viaduto de Concreto Armado

O Viaduto do Chá original trazia portões e guaritas de madeira em suas extremidades, sendo vigiadas por guardas. Para atravessá-lo, eram cobrados três vinténs por pessoa, obrigando-a a passar por uma catraca. Quem não tinha como pagar, atravessava o percurso pelo matagal ali existente. Sobre a estrutura metálica atravessavam vigas de madeira, cruzadas longitudinalmente pelos trilhos dos bondes de tração animal. Nas laterais traziam passeios com pisos de tábuas de madeira, com vãos de um a dois centímetros, fazendo com que os transeuntes sentissem medo e vertigens. Era vetado o trânsito de carros com eixo fixo. No centro do viaduto tinha ainda, um grande portão, em que as carruagens passavam após pagamento. Este portão era fechado durante a noite. Era permitido aos pedestres admirarem de cima do viaduto, a paisagem das chácaras e dos pomares ainda abundantes nos arredores, tendo para isto bancos para descanso à disposição. O pagamento de pedágio fez com que os populares chamassem o local de “Viaduto dos Três Vinténs”.
Por quatro anos o Viaduto do Chá foi utilizado apenas pela elite paulistana. Um abaixo assinado correu pela cidade, sendo enviado à Câmara Municipal, protestando contra o pagamento do pedágio. Em 1896, a prefeitura adquiriu o viaduto, encerrando de vez com o pedágio, abrindo às portas do viaduto à população e ao progresso de uma cidade que já não podia parar de crescer.
Quando os bondes de tração animal foram substituídos pelos de tração elétrica, foi necessário um estudo sobre a resistência do material utilizado no viaduto. Para poder receber os novos transportes, foi feita no leito central uma laje de concreto. Os passeios laterais, então de tábuas de madeiras, foram substituídos por lajes postas sobre a estrutura metálica, que conforme fossem pisadas, oscilavam, fazendo com que os transeuntes não se sentissem seguros. Conta-se que quando os bondes elétricos passavam, todo o viaduto trepidava.
Com o crescimento desenfreado de São Paulo, pouco a pouco, o viaduto de estrutura metálica ficou obsoleto. No final da década de 1930, diante da nova realidade urbana e exigências do progresso, o então prefeito Fábio Prado decidiu construir um novo viaduto, abrindo um concurso para a escolha de um projeto. Elisiário Bahiana foi o vencedor, sendo o criador do novo Viaduto do Chá.
Em 18 de abril de 1938, os paulistanos assistiram ao início da demolição do velho Viaduto do Chá. No mesmo ano, um enorme viaduto feito de concreto, com uma largura duplicada, surgiu no lugar da velha ponte metálica. Era o novo e definitivo Viaduto do Chá, feito para resistir ao progresso e atravessar o novo milênio.
Desde 1938, poucas alterações foram feitas no Viaduto do Chá. Em 1977 foi alargada a calçada que liga a Rua Xavier de Toledo com a Rua Falcão Filho; e, proibido o tráfego de veículos particulares. Para a comemoração do centenário do viaduto, em 1992, o piso foi totalmente reformado.
Das chácaras de plantação de chá aos arranha-céus modernos, o Viaduto do Chá é o testemunho mais perene da evolução física e econômica de São Paulo, uma das maiores cidades do planeta.


AS SUFRAGISTAS – A MULHER E O DIREITO AO VOTO

novembro 2, 2012

Inserida com direitos iguais na sociedade ocidental, a mulher atual está longe da opressão que sofreu ao longo dos tempos. Leitura, estudo, trabalho, voto, pílula anticoncepcional, ou mesmo o direito de usar calças e biquínis, coisas corriqueiras do cotidiano, foram motivos de longas batalhas femininas.

Durante alguns milênios, a participação da mulher na sociedade foi legada ao princípio da procriação e de coadjuvante do homem. Por séculos não lhes era permitido sequer o aprendizado da leitura, estando elas resignadas aos trabalhos no campo e em casa.
Com a industrialização, a mulher foi obrigada aos poucos, a se lançar no mercado de trabalho, adquirindo mais relevância nas decisões sociais do lugar de onde estava inserida. Direito à leitura, à educação, ao trabalho, ao voto e à sexualidade foram batalhas árduas, com vitórias relativamente recentes na cronologia da história das civilizações.
Uma das maiores vitórias femininas ao longo dos tempos foi o direito ao voto. Uma luta que se travou por quase um século, através de movimentos feministas que foram, no fim do século XIX, chamado de sufragistas. Com vitórias lentas, mas conclusivas, as sufragistas foram, aos poucos, ganhando o direito de voto por todos os países do planeta.
O primeiro país a conceder o direito de voto às mulheres foi a Nova Zelândia, em 1893. Desde então, as sufragistas foram às ruas das principais cidades do planeta, exigindo a participação das mulheres nas decisões políticas dos seus países. Só a partir da década de 1920 é que as nações ocidentais foram, aos poucos, dando direito ao voto às sufragistas. Ainda em pleno século XXI, alguns países de costumes mais conservadores, não permitem o voto feminino, as mulheres locais, continuam uma batalha igual à que viveram as do fim do século XIX e início do século XX.

A Evolução dos Direitos Femininos

Nas civilizações mais organizadas da humanidade, a mulher tinha sempre um papel fundamental dentro da casa, demarcando a sua importância na capacidade de gerar os filhos dos homens, servindo-lhes de alicerce invisível, sem jamais se sobressaírem a eles. Mesmo em civilizações consideradas mais avançadas, como a grega, a mulher era intelectualmente bastante limitada, sendo a sabedoria uma das virtudes tida como impossível ao caráter feminino.
A Revolução Industrial ocasionou um grande êxodo do campo para as cidades. Viver num centro urbano envolvia mais o homem com os problemas políticos do seu país, obrigando-o a ter maior participação nas decisões, até então comandadas por uma minoria milenar. Aos poucos, o homem da era industrial passou a conquistar direitos de sufrágio e trabalhistas que se lhe tornaram perpétuos. Com o colapso dos grandes impérios, a formação de países com governos eleitos, o direito ao voto pelo homem, na escolha de quem o iria governar, passou a ser universal .
Na conquista desses direitos, a mulher foi relevada ao segundo plano, apesar de começar a ser usada como mão-de-obra nas fábricas. Não tinham quaisquer direitos. Já na segunda metade do século XIX, os países mais desenvolvidos como a Inglaterra, tinha uma elevada população feminina solteira, mudando a face do processo matrimonial. As várias guerras travadas pelas nações européias, entre elas a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), obrigaram um número cada vez maior de mulheres substituindo a mão de obra masculina, visto que os homens partiam para os campos de batalha, sendo muitos feridos, mutilados ou mortos.
Esta participação feminina feita quase que compulsivamente às mudanças bruscas dos tempos, aguçou o sentindo de participação da mulher e a vontade de também poder opinar nas decisões civis e na escolha dos governantes. Diante da opressão da sociedade patriarcal, que negavam direitos básicos às mulheres, surgiram os primeiros movimentos feministas do século XIX. Com eles, surgiram as sufragistas, cuja principal reivindicação era o direito ao voto.

Nova Zelândia, Primeiro País a Conceder o Voto Feminino

A luta pelo direito da mulher ao voto só foi possível graças aos movimentos feministas surgidos no século XIX. O ponto inicial desses movimentos foi a Convenção dos Direitos da Mulher, realizada em Seneca Falls, no Estado de Nova York, Estados Unidos, em 1848. Durante o encontro, Susan Brownell Anthony e Elizabeth Cady Stanton, lideraram o início de uma luta pelo fim da escravidão nos Estados Unidos.
Susan Brownell Anthony tinha como idéia inicial inserir na luta a aprovação de uma emenda que desse o direito de voto às mulheres. A sua proposta sofreu grande dificuldade para ser aceita, fazendo com que as mulheres só assumissem a luta pelo fim da escravidão. Durante a Guerra Civil, Susan liderou a campanha que angariou quatrocentas mil assinaturas dos cidadãos norte-americanos, culminando com o a aprovação da emenda que extinguiu a escravidão naquele país. Foi a primeira vitória de um movimento feminino.
Em 1869, o território do Wyoming tornou-se pioneiro em permitir o direito ao voto feminino nos Estados Unidos. Três outros estados norte-americanos seguiriam o exemplo e, posteriormente, aprovariam o direito das mulheres ao voto, sendo eles Utah, em 1870; e, Colorado, em 1893. A aprovação não foi um consenso nos Estados Unidos. Quando o Wyoming foi elevado de território à Estado, parte da União exigiu a abolição do direito. O governo local declarou que preferia retardar cem anos a entrada do Wyoming para a União do que retardar os direitos políticos femininos. 
Susan Brownell Anthony, Lucy Stone e Elizabeth Cady Stanton concentraram a sua luta através da Associação Nacional Americana pelo Sufrágio da Mulher (National American Woman Suffrage Association), surgida em 1890, promovendo frenéticas campanhas pelo direito de votar. Nenhuma das três assistiriam em vida à aprovação do voto feminino. Lucy Stone faleceria em 1893; Elizabeth Cady Stanton, em 1902; e, Susan Brownell Anthony, em 1906. Ainda no século XIX, o Estado do Idaho aprovaria o voto feminino, em 1896.
Enquanto a luta feminina pelo voto nos Estados Unidos percorria um tumultuado caminho, um país da distante Oceania, a Nova Zelândia, tornava-se, em 1893, o primeiro do mundo a conceder o direito de voto à mulher, reafirmando os direitos políticos que elas tinham no âmbito municipal desde 1886.

As Sufragistas Britânicas

Paralelamente às lutas feministas nos Estados Unidos e na Oceania, na Europa os movimentos pelo direito da mulher ao voto foram intensos na Grã-Bretanha. Em 1866, o filósofo e jurista John Stuart Mill, apresentou ao Parlamento uma emenda assinada em conjunto por Sarah Emile Davis e por Garret Anderson, que dava direito às inglesas ao voto. A emenda foi derrotada por ampla maioria. Em 1884, uma nova emenda foi apresentada e novamente rejeitada.
O conservadorismo dos ingleses impedia que se aprovasse a emenda do voto feminino, apesar dele ser consentido para mulheres que fossem proprietárias, consideradas de forma legal como os homens. A luta tornou-se mais contundente, quando em 1897, a educadora Millicent Garret Fawcett e Lydia Becker fundaram a União Nacional de Sociedade de Sufrágio Feminino (National Union of Women’s Suffrage Societies – NUWSS).
A NUWSS, era uma associação de movimento inicialmente pacifista, mas a falta de resultados fez com que mudassem de estratégia. No início do século XX, as inglesas assistiram a outro país da Oceania a conceber o direito ao voto às mulheres, desta vez a Austrália, em 1901.
Espelhadas nos exemplos da Nova Zelândia e da Austrália, as inglesas radicalizaram. Em 1903, Emmeline Pankhurst rompeu com a NUWSS, criando a União Social e Política das Mulheres (Women’s Social and Political Union – WSPU), que por suas manifestações táticas de violência e sabotagem, passaram a ser chamadas pejorativamente de “suffragettes”, ou sufragistas. Elas promoviam incêndios a estabelecimentos públicos, ataques a casas de políticos e membros do Parlamento. Seus atos de protestos geraram uma violenta repressão por parte do governo, culminando com constantes prisões de suas líderes. Encarceradas, elas iniciaram uma greve de fome, interrompida pela administração carcerária com uma brutal alimentação à força. Os maltratos infringidos às sufragistas nas prisões, levaram a opinião pública a questionar a forma violenta do sistema carcerário britânico da época.
As manifestações públicas das sufragistas britânicas tornaram cada vez mais intensas e perigosas. Culminou com a atitude desesperada de uma das suas militantes, Emily Wilding Davison, que em junho de 1913, atirou-se na frente do cavalo do rei durante uma prova hípica, tornando-se a primeira mártir da luta pelo direito do voto feminino. O enterro da sufragista resultou em violentos protestos, causando quase que uma guerrilha urbana.

O Direito ao Sufrágio Feminino Espalha-se Pelo Mundo

Sem grandes manifestações ou protestos, outros países do mundo foram concedendo o voto feminino ao longo das primeiras décadas do século XX. Os países nórdicos da Europa foram os primeiros: a Finlândia, em 1906; a Noruega, em 1913; e, em 1915, a Dinamarca e a Islândia; sendo a Suécia o último país escandinavo a conceder o voto feminino, em 1918.
A Primeira Guerra Mundial levou os homens europeus para os campos de batalhas, obrigando as mulheres a exercerem os seus trabalhos nas fábricas. Tornando-se provedoras essenciais da família, as mulheres adquiriram maiores direitos, obrigando os governos de seus países à concessão do direito do voto a elas. Assim, o poder político foi tomando consistência. O voto feminino chegou à Holanda, em 1917; à Rússia, após a Revolução Bolchevique, em 1917; à Alemanha, em 1918; à Irlanda, em 1922; à Áustria, à Polônia e à Tchecoslováquia, em 1923.
A batalha árdua das sufragistas britânicas só teria a sua grande vitória em 1918, já no fim da Primeira Guerra Mundial, quando uma lei eleitoral foi promulgada, permitindo o voto às mulheres maiores de 30 anos. O direito pleno só viria dez anos depois, em 1928, quando foi promulgada a lei “Equal Franchise Act”, dando direito ao voto a todas as mulheres maiores de idade.
Nos Estados Unidos, alguns estados foram, através de consultas populares, permitindo o voto às mulheres: Washington, em 1910; Califórnia, em 1911; Arizona, Kansas e Oregon, em 1912; Montana e Nevada, em 1914. Em 1917, Jeanette Rankin foi eleita a primeira congressista norte-americana pelo Estado do Montana. Somente em 1920, seria aprovada a emenda constitucional que daria direito de voto às mulheres em todo o território americano.
Curiosamente, os países europeus de origem latina foram os últimos a conceder o voto feminino. Em Portugal, excepcionalmente, em 1911, a médica e viúva Carolina Beatriz Ângelo, contornando as leis, foi a primeira mulher a votar. O direito ao voto feminino da portuguesa só viria em maio de 1931, com várias limitações impostas, sendo só permitido plenamente após a Revolução dos Cravos, em 1974.
A Espanha permitiria o voto feminino em 1931. A França e a Itália somente após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. A Suíça em 1971.
Na América Latina, o primeiro país a conceder o voto feminino foi o Equador, em 1929. Na Argentina, o voto feminino só viria em 1947, conseguido através de uma campanha liderada pela então primeira dama do país, Eva Perón.

O Sufrágio Feminino no Brasil

Sem a efervescência dramática das feministas européias e norte-americanas, o movimento pelo voto da mulher no Brasil foi uma luta bem mais branda, curiosamente iniciada por um homem, o intelectual César Zama, que em setembro de 1890, propôs o sufrágio universal, incluindo o feminino, durante a elaboração da primeira constituição da República.
Em 1891, Almeida Nogueira, outro constituinte, voltou a defender o voto feminino. Em janeiro daquele ano, 31 constituintes assinaram uma emenda ao projeto de Constituição, concedendo o voto à mulher. A rejeição à emenda foi imediata, tão violenta, que foi retirada. Se tivesse sido aprovada, o Brasil teria sido o primeiro país do mundo a conceder o voto feminino, antecipando-se à Nova Zelândia, que o faria em 1893.
No despertar do século XX, o desejo da mulher brasileira em votar manifestava-se em casos isolados como em Minas Gerais, em 1905, onde três mineiras alistaram-se e votaram.
A baiana Leolinda de Figueiredo Daltro é considerada a pioneira da luta feminina pelo voto no Brasil. Em 1910, ela fundou a Junta Feminina Pró-Hermes da Fonseca, em apoio à candidatura do mesmo à presidência do país. Quando o seu candidato saiu vitorioso, intensificou a sua campanha para que se concedesse o direito de voto da mulher.
No correr do século, o então deputado Maurício Lacerda apresentou por duas vezes, em 1917 e em 1920, emendas à Constituição que instituíam o voto feminino, sendo ambas rejeitadas. Dois projetos de lei, um elaborado no senado em 1919, e outro na câmara em 1924, também não vingaram.
Os movimentos femininos afloraram no Brasil. Em 1922, Bertha Lutz fundou no Rio de Janeiro, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, desenvolvendo uma importante campanha para que se fosse implantado os direitos eleitorais e políticos da mulher.
Em 1928, o Rio Grande do Norte tornou-se o Estado pioneiro em conceder o direito de voto à mulher. Naquele ano, as potiguares Celina Vianna Guimarães e Julia Barbosa foram as primeiras mulheres alistadas como eleitoras brasileiras. Ainda no Rio Grande do Norte, em 1928, a votação histórica no município de Lages, deu vitória a Alzira Teixeira Soriano, primeira prefeita do Brasil, eleita pelo Partido Republicano. A prefeita não terminaria o seu mandato, pois a Comissão de Poderes do Senado Federal, analisou as eleições naquele estado nordestino, pedindo a anulação de todos os votos que foram dados às mulheres.
O direito ao voto feminino no Brasil só seria obtido em 24 de fevereiro de 1932, através do Decreto nº 21.076, instituído no Código Eleitoral Brasileiro. O voto só era concedido às mulheres casadas e com a autorização do marido, limitando as viúvas e as solteiras, que só poderiam exercer o sufrágio se tivessem renda própria. As restrições só seriam eliminadas no Código Eleitoral de 1934, que ainda assim, não tornava o voto feminino obrigatório. Somente em 1946, com a promulgação de uma nova constituição naquele ano, o voto feminino perdeu totalmente às restrições, passando a ser obrigatório.
Ainda hoje, em pleno século XXI, as mulheres são minorias na vida política brasileira, com um número irrisório a ocupar cargos políticos. Mesmo diante deste desequilíbrio, têm os mesmos direitos que os homens. No mundo, algumas já se tornaram presidentes e ministras dos seus países. Já se distancia a época em que as sufragistas eram presas, faziam greve de fome ou atiravam-se em frente a um cavalo. Em contrapartida, muitos países no mundo, como o Kuwait, ainda negam o sufrágio às suas mulheres.


RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX

novembro 16, 2010

Desde que foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1 de março de 1565, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tornou-se local de importância estratégica, por estar no meio do território brasileiro na época do seu desbravamento e expansão das fronteiras. Crescendo como proeminente centro portuário e econômico, foi elevada à capital do Brasil, em 1763, quando o polêmico ministro Marquês de Pombal, transferiu para ali a sede da colônia, anteriormente em Salvador. Desde então, a cidade não parou de avançar política e economicamente. Com a chegada da família real portuguesa, em 1808, passou a ser a cidade de onde o reino de Portugal e Brasil eram administrados. Com a independência do Brasil, em 1822, passou a ser a capital do Império.
Pela sua importância política ao longo da história, o Rio de Janeiro foi a cidade que mais teve registros antigos de imagens. Muito antes da técnica da fotografia chegar ao Brasil, a cidade maravilhosa foi retratada em litografias, pinturas e aquarelas. Valeram-se da sua paisagem de beleza natural singular, situada na margem ocidental da baía de Guanabara, entre montanhas e morros, os mais importantes artistas do século XIX, entre eles Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas.
Graças aos artistas geniais que nos legou um rico acervo de paisagens pitorescas do Rio de Janeiro, podemos contemplar um passado distante, o pulsar de uma cidade movida pela beleza natural e pela essência da sua gente. Através das imagens das litografias de Debret, Rugendas, P. Bertichem, Maria Graham e Planitz, percorrermos ruas, casas e palacetes do Rio de Janeiro do século XIX, numa agradável viagem no tempo e à história de uma cidade de rara beleza natural.

Largo do Rocio, de Debret

Para fugir ao cerco de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa migrou para o Brasil, aqui desembarcando em 1808. A cidade do Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa do reino de Portugal e Brasil, aumentando freneticamente a sua importância, o desenvolvimento social e econômico.
Após a queda de Napoleão, Portugal e França reconciliaram-se. Por solicitação de Dom João VI, em 1816, chegou ao Brasil, vinda da França, uma missão artística comandada por Joachim Lebreton. Entre os artistas estava Jean-Baptiste Debret.
Debret viveu quinze anos no país, atravessando o período final do Brasil colônia à formação e fim do Primeiro Império. Durante o tempo que aqui esteve, estabeleceu uma relação emotiva e pessoal com o Brasil, registrando em sua pintura e desenho, a paisagem, o cotidiano, os costumes de uma jovem e recém-nascida nação. Por motivos de saúde, voltou à França em 1831. Em 1834 começou a publicar “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, num dos maiores documentos de imagens do Brasil do século XIX.
Na litografia aqui apresentada, “Real Teatro de São João, no Largo do Rocio”, podemos ver a vida pulular no coração da capital do Império. Escravos de ganho circundam o pelourinho, no lado direito. Senhores e senhoras bem vestidos transitam, concentrando uma multidão ao meio do Largo do Rocio, onde se encontra o Real Teatro de São João. A partir de 1831, o local e o teatro seriam rebatizados respectivamente como Praça da Constituição e Teatro Constitucional Fluminense. No decorrer dos anos, teriam os nomes mudados outras vezes, chegando aos tempos atuais como Praça Tiradentes e Teatro João Caetano.

Corcovado, de Maria Graham

Lady Maria Dundas Graham Callcott, foi uma notável pintora, desenhista, ilustradora e escritora britânica, que ficou conhecida no Brasil com Maria Graham. Em 1823 acertou com o imperador Dom Pedro I ser a preceptora da sua filha, a jovem princesa Dona Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Permaneceria no Brasil até 1826, quando a princesa retornou para Portugal.
No Rio de Janeiro residiu entre os belos casarões da enseada do Botafogo, lugar que considerava uma das mais belas paisagens do mundo.
Na sua passagem pelo Brasil, deixou registros preciosos da época, publicados em Londres, em 1824, na obra “Journal of a Voyage to Brazil and Residence There During Part of the Years 1821, 1822, 1823”.
Em “Corcovado”, a gravura de Maria Graham registra a beleza silvestre da cidade, do pico solitário, sem o marco do Cristo Redentor, ladeado das cores de uma flora tropical que tanto encantou a pintora.
“Todas as vezes que passo por um bosque no Brasil, vejo plantas e flores novas, e uma riqueza de vegetação que parece inexaurível. Hoje vi flores de maracujá de cores que dantes nunca observara: verdes, róseas, escarlates, azuis, ananases selvagens de belo carmesim e púrpura; chá selvagem ainda mais belo do que o elegante arbusto chinês, palmeiras de brejo e inúmeras plantas aquáticas novas para mim.”

Rua Direita, de Rugendas

Johann Moritz Rugendas, pintor alemão do século XIX, chegou ao Brasil em 1821, como desenhista da missão científica do barão de Langsdorff. Permaneceu no país por cinco anos, viajando por diversas regiões, coletando um rico material que registraria em suas pinturas e desenhos. Retratou com apurada beleza artística e científica a botânica, os tipos humanos, a paisagem física, a fauna e a flora do Brasil que ao sair da fase colonial, conservava os costumes em contraste com os tempos vindouros de uma nova nação.
Deixou o Brasil em 1826. Em 1835, publicaria as suas memórias de viagem através das litografias transpostas para o álbum “Viagem Pitoresca ao Interior do Brasil” (Voyage Pittoresque dans le Brésil).
Na litografia “Rua Direita” (Rue Droite), atual Rua Primeiro de Março, sente-se a pulsação no centro da capital do Império, desfilando vários personagens da cidade: senhores em seus trajes elegantes, escravos em suas funções seculares, padres, tropeiros, cavaleiros em seus cavalos, numa convulsão de cenas da vida cotidiana, tendo o morro do Castelo ao fundo, onde se pode observar um cavaleiro passando por baixo do arco de ligação entre o Paço e o convento do Carmo.
Sobre as edificações da parte antiga da cidade, Rugendas descreveria:
“As casas deste setor são, em geral, altas e estreitas; seus telhados são empinados e nada, em suas características construtivas, faz lembrar o clima tropical. Elas possuem, quase sempre, três ou quatro andares e apenas três panos de fachada. Como as janelas são muito alongadas, a desproporção que se observa entre a altura e a largura das casas se torna ainda mais chocante.”

O Palácio de São Cristóvão

Com a presença da corte no Rio de Janeiro, a cidade recebeu melhoras no saneamento e na urbanização. Com a ascensão de Dom João VI ao trono, em 1816, melhorou-se o calçamento das ruas; nivelou-se as principais artérias da cidade, favorecendo as ruas São José, do Ouvidor e da Cadeia; concluiu-se o revestimento de granito do Largo de São Francisco.
Entre as melhoras, estava o caminho percorrido pelo cortejo real, do Palácio de São Cristóvão ao Largo do Paço.
Aqui, duas litografias que apresentam a residência imperial de São Cristóvão em fases distintas. A primeira, “Residência Imperial de São Cristóvão”, é uma litografia aquarelada, de autor anônimo, de data imprecisa.
A segunda, “Paço de São Cristóvão de Pézerat”, foi desenhada pelo barão Karl Robert Planitz.
Pierre Joseph Pézerat, no Brasil Pedro José, foi um engenheiro politécnico francês, que chegou ao Brasil em 1825. Estudou na Escola de Belas Artes de Paris. Quando o Brasil declarou independência de Portugal, em 1822, era necessário que se fizesse obras de melhora na capital do Império. O francês tornar-se-ia arquiteto particular do imperador Dom Pedro I. Foi ele quem definiu o estilo do Palácio Imperial de São Cristóvão, acrescentando um pavilhão à casa de campo que já existia.
Pézerat daria estilo e elegância a várias residências da corte, entre elas a moradia da Marquesa de Santos. Seria condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul e com Ordem da Rosa. Após a abdicação e partida de Dom Pedro I para Portugal, em 1831, Pézerat também deixaria o Brasil, rumando para a Europa.

Águas Férreas, Colégio Episcopal de São Pedro e Alfândega, de P. Bertichem

Apesar de ter deixado registros preciosos do Rio de Janeiro do século XIX, Pieter Godfred Bertichen, pintor holandês, tem uma biografia escassa, sem que se lhe esclareça certas passagens de vida.
Contava com 41 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1837, vivendo no Brasil até a sua morte. Fez parte da Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes, em 1845, apresentando a pintura “Vista da Cidade do Rio de Janeiro Observada da Ilha dos Ratos”. Em 1856, publicaria “O Brasil Pitoresco e Monumental”, obra rara do Brasil do século XIX, contendo quarenta e seis paisagens litográficas.
Com o nome aportuguesado para Pedro Godofredo Bertichem, aparece muitas vezes grafado como P. G. Bertichem, ou simplesmente P. Bertichem.
Na primeira litografia de P. Bertichem, “Águas Férreas, Rio de Janeiro”, elegantes senhoras acompanhadas de um cavalheiro, estão paradas em frente a uma fonte, enquanto um sofisticado coche as aguarda. Debaixo de uma árvore frondosa, outro senhor aproveita-se da sombra. Na outra rua paralela, três crianças caminham em sentido contrário à fonte. A paisagem retrata a esquina formada pelas ladeiras do Pindura-Saia e Rua Indiana, onde existia uma fonte de água mineral ferruginosa, que deu origem ao nome pelo qual o local era chamado, Águas Férreas. No século XIX, visitar este ponto das Laranjeiras era um dos passeios prediletos dos habitantes da capital do Império.
Na litografia “Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara”, P. Bertichem retrata a luxuosa residência rural anteriormente conhecida como Quinta do Bispo. Em 1702, Dom Frei Francisco de São Jerônimo, segundo bispo do Rio de Janeiro, conseguiu do reitor do Colégio da Companhia de Jesus um terreno na sua fazenda do Rio Comprido, onde mandou edificar uma casa de campo e uma chácara de recreio. A casa ficou conhecida como Quinta do Bispo, sendo a sua arquitetura atribuída ao engenheiro José Fernandes Alpoim. Quando P. Bertichem fez a litografia, ali funcionava o Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara. Mais tarde, passaria a funcionar no local o Seminário São José. Debret também registrou o prédio, na litografia “A Grande Casa de Campo”, classificando-a como ideal “para dar uma idéia da mais nobre construção de uma antiga residência rural”. O prédio foi tombado, em 1938, como patrimônio histórico.
Na terceira litografia, temos “A Nova Alfândega do Rio de Janeiro”. Com edifícios novos e espaçosos, a então nova alfândega da capital do Império teve os seus armazéns erguidos na antiga praia dos Mineiros, tendo ao fundo o mar, abrindo-se para a atual rua Visconde de Itaboraí. A alfândega apresentava armazéns com condições de atender às crescentes necessidades econômicas do Império, que se sustentava através do trabalho escravo e da exportação do café.
Com o avanço das obras que mudaram por completo a paisagem urbanística do Rio de Janeiro, os prédios da então nova alfândega aqui retratados, foram demolidos, dando passagem à avenida Perimetral.
Para encerrar esta viagem pitoresca ao Rio de Janeiro do século XIX, vamos nos distanciar um pouco da cidade maravilhosa, desembarcando na vizinha Petrópolis, através do olhar generoso do holandês P. Bertichem, na litografia “Palacete Imperial de Petrópolis”. Este belo palácio foi construído entre 1845 e 1857, servindo como residência de verão da família imperial. A partir de 1940, o palácio foi transformado no Museu Imperial, trazendo em seu acervo ricas coleções de carruagens, armas e outros objetos que pertenceram à nobreza do Brasil Império.


COPA DE 1970 E A DITADURA MILITAR

junho 7, 2010

Há quatro décadas a seleção brasileira conquistava o tri-campeonato de futebol mundial, no México. Sendo a primeira a almejar o título três vezes, desde que o campeonato fora estabelecido em 1930, tendo o direito de trazer para o solo brasileiro a taça Jules Rimet.
A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Ao arrematar em apoteose a taça, tomou para si o estigma de um feito heróico, num espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda do regime militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como o foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente de então, Emílio Garrastazu Médici.
1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e do próprio regime militar implantado em 1974. No ano anterior as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país, o seqüestro de um embaixador norte-americano pela esquerda oposicionista, revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país. O ano da copa começou com outro seqüestro da esquerda, a do cônsul do Japão Nobuo Okushi. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros. A finalidade era caçar a todos e eliminar, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.
Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a copa, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Feitas as arestas ideológicas, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco luxuoso, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo entre eles.
Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país próspero e feliz. Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da copa ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!
A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores. Comparado a história contemporânea, o uso da imagem da seleção brasileira do tri-campeonato só perdeu para a propaganda do regime nazista, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

A Era do Milagre Econômico

Na época da Copa de 1970, o Brasil vivia o auge do que foi chamado de “Milagre Econômico”, que aconteceu de 1969 a 1973, coincidindo com o governo do presidente general Emílio Garrastazu Médici.
O milagre econômico proporcionou o aumento do Produto Interno Bruto (PIB), que atingiu um crescimento anual de cerca de 11,2%, e uma inflação estabilizada em 18%. A produção industrial aumentou, proporcionando melhores níveis de emprego. A época coincidia com os juros baixos no mercado internacional, que passava por um momento de tranqüilidade, investindo fortemente nos países em desenvolvimento, visando os grandes recursos naturais dessas nações como fiança aos empréstimos concedidos. Também as multinacionais faziam os seus investimentos no país. A facilidade de créditos internacionais levaria o Brasil a contrair, na época do regime militar, a maior dívida externa da sua história.
Durante o milagre, as indústrias automobilísticas foram as que mais cresceram no país, gerando muitos empregos, e conseqüentemente, levando desenvolvimento a outros setores. Diante da prosperidade que parecia infindável, o governo militar aumentou a arrecadação de impostos.
Para justificar a continuação da sua ilegitimidade e permanecer no poder, os militares investiam em fortes campanhas de propaganda. Frases que evidenciavam a exaltação militar eram vinculadas nas rádios, televisões e jornais, como “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” , “Ninguém Segura Este País”, ou “Pra Frente Brasil”. A propaganda era estimulada através da música, de programas de televisão, jornais, revistas e rádios.
Aproveitando-se da facilidade dos empréstimos internacionais, o milagre econômico gerou a era das obras monumentais, como a construção da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, da usina nuclear de Angra dos Reis, de barragens gigantescas, como a de Itaipu.
No avesso da era do milagre, que beneficiou apenas a uma classe média emergente, estavam os arrochos salariais, favorecendo poucos capitalistas brasileiros e essencialmente, aos capitalistas de multinacionais. Os grandes investimentos estatais em obras colossais geraram mais o endividamento do país do que empregos seguros. Durante o período, houve quase que um abandono do governo aos programas sociais.
O fim do milagre aconteceu em 1973, com a crise do petróleo, que acabou com o combustível barato e gerou uma das mais agudas crises da econômica mundial. Na época o Brasil dependia da importação de 80% do petróleo consumido internamente. A dívida externa, que em 1967 era de U$ 40 bilhões, chegava em 1972, quando o milagre já estava no fim, a 97 bilhões de dólares.

O Brasil Político nos Meandros da Copa de 1970

Nos bastidores da ditadura militar, nunca a contestação ao regime atingira tanta violência. Com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, ficaram suspensos todos os direitos de hábeas corpus a quem se opusesse ao regime ou fosse por ele declarado suspeito. O resultado foi o surgimento de organizações de esquerda que optaram pela guerrilha como forma de combater o regime militar. Entre as organizações que pegaram em armas estavam a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella; o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); e, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca.
Em setembro de 1969, os guerrilheiros seqüestraram o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. A operação foi um sucesso, resultando na troca de quinze presos políticos pelo embaixador. Os prisioneiros foram postos em um avião e levados ao exílio. A vitória foi também política, pois evidenciou a prática da tortura, tantas vezes negada pelo regime militar. Em março de 1970, outro seqüestro seria realizado, a do cônsul japonês Nabuo Okushi. Mais uma vez o Brasil e o mundo assistiram ao embarque de presos políticos para o exílio. A humilhação levou o regime militar a usar como lema da sua propaganda política a máxima “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, numa alusão a expatriação dos presos políticos, que perdiam direito à nacionalidade brasileira.
A resposta do regime militar aos seqüestros foi rápida e violenta. Em novembro de 1969, o líder da ALN, Carlos Marighella, foi morto em São Paulo. A Operação Bandeirantes (Oban), institucionaliza a tortura, prendendo e matando lideranças de esquerda, acossando cada vez mais os opositores ao regime. Em janeiro de 1970 foi criado os Centros de Operações para a Defesa Interna (CODI), e os Departamentos de Operações Internas (DOI), que juntos formaram o DOI-CODI, responsáveis pela prisão, tortura e morte de centenas de líderes de oposição.
O cenário para ver a seleção brasileira brilhar na Copa de 1970 estava pronto. O de terror nos cárceres da ditadura também.

João Saldanha, o Técnico Temido Pelo Regime

O presidente Emílio Garrastazu Médici, que entrou para a história como o mais truculento e de linha dura do regime militar, assumia diante do povo a imagem do pai da nação, preocupado com o bem-estar moral da população e o progresso do país. Fazia parte do pacote a sua paixão pelo futebol, chegando a intervir na própria concepção da seleção brasileira.
Médici fazia questão de interar a imagem do governo com a do futebol, que na época tinha em campo o maior jogador do mundo, o incomparável Pelé. Em 1969, o Brasil aguardava com ansiedade o milésimo gol de Pelé. Quando o rei do futebol conquistou o seu feito, foi recebido em Brasília pelo presidente. Em novembro daquele ano, Pelé desfilava pela capital em carro aberto. Médici encerrava a apoteose do ídolo concedendo-lhe a medalha do mérito nacional e o título de comendador. Era apenas o início do namoro entre a propaganda política do Estado e o futebol brasileiro.
A escalação da seleção que iria ao mundial de 1970 enfrentou vários problemas de percurso. João Saldanha foi o técnico que depois de uma árdua e sofrida luta, conseguiu classificar a seleção para a copa. Durante a escalação, espalharam-se rumores de que o presidente Médici queria ver o jogador Dario, o Dadá Maravilha, escalado. Os boatos, jamais confirmados oficialmente, irritaram João Saldanha, que declararia à imprensa uma de suas mais contundentes frases: “O presidente escala o ministério dele que eu escalo o meu time”. João Saldanha foi, em seguida, demitido da seleção, pouco antes de ela seguir para o campeonato no México, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo.
O motivo da demissão de João Saldanha ia muito além da sua declaração intempestiva. Suspeito de simpatizar e militar no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o governo temia que o técnico chegasse ao México com uma lista de presos políticos no bolso, e que, em entrevistas coletivas, denunciasse para o mundo a tortura e o desrespeito aos direitos humanos que o regime militar infringia ilimitadamente.
Resolvido o grande impasse político, a seleção, sob a tutela do técnico Zagallo, partiu para o México, em busca do título de tri-campeão do mundo, entrando de maneira mítica para a história do futebol brasileiro.

Pra Frente Brasil

De 31 de maio a 21 de junho, a Copa do Mundo de 1970 foi disputada no México. No dia 3 de junho de 1970, o Brasil disputava a sua primeira partida no Estádio Jalisco, em Guadalajara, contra Tchecoslováquia. No campo desfilava Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gérson, Piazza, Clodoaldo e tantos outros que seriam apontados como os componentes da maior seleção de todos os tempos. O Brasil venceria a Tchecoslováquia por 4×1. Em 7 de junho, venceria a Inglaterra por 1×0. Em 11 de junho, venceria a Romênia por 3×2, passando para a segunda fase de forma magnífica, empolgando o país e o mundo.
No Brasil, o povo acompanhava a seleção em jogos transmitidos pela primeira vez pela televisão. O impacto era visível. Poucos privilegiados deram-se ao luxo de ver a transmissão em cores, adiantando-se em dois anos à chegada da tecnologia ao país, que se confirmaria em 1972. No meio da vibração do povo, ecoava com grande sucesso por todo o país, o hino da copa, “Pra Frente Brasil”, de autoria de Miguel Gustavo.

“Noventa Milhões em ação,
Pra frente Brasil,
Do meu coração…
Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil,
Salve a seleção!”


O sucesso do hino e a empolgação extasiante do povo, fizeram com que o governo começasse a usar a seleção como objeto de propaganda política. Paralelamente, no dia 11 de junho de 1970, em plena copa, os guerrilheiros executavam um novo seqüestro, desta vez ao embaixador alemão Von Holleben. O regime recrudesceu ainda mais, abarrotando as celas de presos políticos, intensificando a tortura e o número de mortos e desaparecidos.

“De repente
É aquela corrente pra frente
Parece que todo Brasil deu a mão…
Todos ligados na mesma emoção…
Tudo é um só coração!”

Em 14 de junho, a seleção brasileira derrotava o Peru por 4×2. Em 17 de junho derrotou o Uruguai por 3×1, passando para a fase final. No dia 21 de junho de 1970, o Brasil enfrentava a Itália, na Cidade do México. Numa das partidas mais emocionantes da história do futebol brasileiro, venceu os italianos por 4×1, tornando-se tri-campeão mundial. Apagava de vez a fraca atuação na copa de 1966, na Inglaterra. O último titulo tinha vindo em 1962, no governo democrático de João Goulart. O Brasil assistia em frente à televisão, o capitão da seleção, Carlos Alberto Torres, a erguer a taça Jules Rimet, um troféu com quase quatro quilos de ouro. A taça era definitivamente do Brasil, seria trazido pela seleção para o país. Já no Brasil, em 1983, ela seria roubada e derretida pelos ladrões, desaparecendo para sempre.

“Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil!
Brasil!
Salve a Seleção”

No retorno, a seleção seria recebida pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. O general ergueu vitorioso a taça Jules Rimet. A conquista do tri-campeonato passava a ser o maior triunfo da propaganda do regime militar. Outros pilares que sustentavam o regime militar, como o do então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, tiraram proveito da popularidade da seleção, e, em 20 de julho, presenteava 25 fuscas aos jogadores e à comissão técnica, todos pagos com o cofre público. Anos mais tarde, Paulo Maluf teria um processo contra ele para que devolvesse o dinheiro à prefeitura paulistana, sendo inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por duas vezes, em 1995 e, definitivamente, em 2006.
O ano de 1970 era encerrado com mais um seqüestro da esquerda, desta vez ao embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher e, com mais de quinhentos presos políticos. A esquerda guerrilheira dava os seus últimos suspiros, e os seus principais líderes ou estavam presos, desaparecidos ou mortos pela ditadura.

Duas Listas de 1970

Lista da Seleção de 1970

Carlos Alberto Torres
Clodoaldo Tavares de Santana
Dario José dos Santos (Dadá Maravilha)
Edson Arantes do Nascimento (Pelé)
Eduardo Gonçalves de Andrade (Tostão)
Eduardo Roberto Stinghen (Ado)
Emerson Leão (Leão)
Everaldo Marques da Silva
Félix Miéli Venerando
Gérson de Oliveira Nunes
Hércules Brito Ruas (Brito)
Jair Ventura Filho (Jairzinho)
Joel Camargo
Jonas Eduardo Américo (Edu)
José de Anchieta Fontana (Fontana)
José Guilherme Baldocchi (Baldocchi)
José Maria Rodrigues Alves (Zé Maria)
Marco Antônio Feliciano
Paulo César Lima (Paulo Cezar Caju)
Roberto Lopes de Miranda (Roberto Miranda)
Roberto Rivelino
Wilson da Silva Piazza (Piazza)

Lista de Mortos Pela Ditadura Militar em 1970*

Abelardo Rausch Alcântara
Alceri Maria Gomes da Silva
Ângelo Cardoso da Silva
Antônio Raymundo Lucena
Ari de Abreu Lima da Rosa
Avelmar Moreira de Barros
Dorival Ferreira
Edson Neves Quaresma
Eduardo Collen Leite
Eraldo Palha Freire
Hélio Zanir Sanchotene Trindade
Joaquim Câmara Ferreira
Joelson Crispim
José Idésio Brianesi
José Roberto Spingir
Juarez Guimarães de Brito
Lucimar Brandão Guimarães
Marco Antônio da Silva Lima
Norberto Nehring
Olavo Hansen
Roberto Macarini
Yoshitame Fujimore

*Na lista não consta os mortos em 1970, cujos corpos nunca foram encontrados, sendo oficialmente dados como desaparecidos.


SÃO PAULO EM CHAMAS

junho 4, 2010

Desde os tempos mais remotos das grandes civilizações que as cidades urbanas são atingidas por catástrofes naturais, ou propositadamente produzidas pelo homem, ou ainda, simplesmente acontecidas por negligência.
Em toda a história da humanidade, terremotos intensos varreram ou destruíram parcialmente grandes cidades e grandes monumentos. Lisboa, em Portugal, foi quase que totalmente destruída por um terremoto, em 1755; e, São Francisco, nos Estados Unidos, por outro, em 1906. Erupções vulcânicas como a do Vesúvio, cobriram as cidades de Pompéia e Herculano, matando toda a população. Enchentes, maremotos e furacões juntam-se às catástrofes naturais. As guerras produzidas pelos homens destruíram cidades inteiras, como Babilônia e Jerusalém. Berlim e Londres foram devastadas por violentos bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial.
Outra grande tragédia que assolou e ainda assola os centros urbanos são os incêndios. Suas origens são as mais diversas, desde a intenção dolosa, até a negligência na manutenção de casas, monumentos e prédios. A Roma antiga ardeu em uma grande fogueira no primeiro século da era cristã, nos tempos de Nero. Londres, Paris, Berlim, nenhuma grande cidade foi poupada de um grande incêndio em determinado momento da sua história. Um exemplo mais recente ocorreu em Lisboa, em 1988, quando o imenso bairro do Chiado foi totalmente destruído pelas chamas. Ainda agora, no século XXI, a capital portuguesa sofre com o incêndio de algum prédio em seu centro histórico.
São Paulo, a maior cidade do Brasil, e uma das maiores do mundo, não ficou isenta de catástrofes causadas por grandes incêndios. Entre 1972 e 1981, três grandes incêndios abalaram a capital paulista, causando tragédias que comoveram o Brasil e o mundo. Os incêndios dos edifícios Andraus, Joelma e Grande Avenida, ocorridos em 1972, 1974 e 1981 respectivamente, deixaram um espetáculo de horror que jamais se extinguiu da lembrança dos paulistanos. Juntos, os incêndios causaram a morte de 221 pessoas e centenas de feridos. Curiosamente os três incêndios ocorreram no mês de fevereiro. Depois da tragédia, os edifícios foram restaurados, mas nunca perderam o estigma de serem amaldiçoados. Os três incêndios ainda hoje causam grande curiosidade e enigmáticas interpretações. Retratam em cores de fogo os momentos em que São Paulo teve a fumaça da sua poluição ofuscada pela fumaça das labaredas da tragédia, em um céu tingido por chamas.

A Tragédia do Edifício Andraus

A expansão industrial de São Paulo deixou marcas definitivas na paisagem arquitetônica da cidade. Tornando-se o maior núcleo econômico do país, a população cresceu vertiginosamente. O centro histórico da cidade viu os seus grandes casarões demolidos, dando passagem para colossais edifícios.
A verticalização da cidade começou ainda na década de 1920. O surgimento dos edifícios era tido como símbolo de modernidade na época. Considerado o pai dos grandes prédios, o Edifício Sampaio Moreira, construído na Rua Líbero Badaró, foi inaugurado em 1924. Tinha catorze andares, considerado pela população da época como excessivamente alto. Em 1929, o maior arranha-céu da América Latina da época, foi inaugurado na Avenida São João, o Edifício Martinelli. Tinha 1.267 dependências, distribuídas entre apartamentos, salões, restaurantes, night clubs e até mesmo uma igreja no 17º andar. Giuseppe Martinelli, proprietário e construtor do edifício, teve que ir morar no local, pois ninguém se atrevia a fazê-lo, com medo da altura. Aos poucos os arranha-céus tomaram conta da cidade, até que São Paulo virou um onipotente cinturão de concreto. Nada parecia afetar aqueles colossos que rasgavam a paisagem, quase que tocando as nuvens.
Em 1957 foi lançada a primeira pedra de um edifício no número 32 da Rua Pedro Américo, na esquina com Avenida São João. Quando inaugurado, em 1962, tinha 115 metros e 32 andares. Era o imponente Edifício Andraus, construído por Roberto Andraus.
No início da década de setenta, o Edifício Andraus era conhecido como “Prédio da Pirani”, por abrigar na época, no térreo, subsolo e primeiros andares, as Casas Pirani, loja muito conhecida pela população, que já não existe mais. Abrigava ainda, escritórios empresariais de importantes multinacionais, como a Siemes e, a Henkel; e empresas nacionais como a Petrobrás e Companhia Adriática de Seguros.
Na tarde de 24 de fevereiro de 1972, o Edifício Andraus entraria para a história de São Paulo como o palco de uma das maiores tragédias da cidade. Por volta das 16h15, labaredas começaram a arder na sobreloja das Casas Pirani, e numa proporção avassaladora, invadiu em poucos minutos todos os andares do edifício, atingido três prédios da Avenida São João e dois na esquina da Rua Aurora. Os paulistanos ficaram atônitos diante do fogo. Uma multidão tomou conta dos arredores, acompanhando o drama das pessoas que se viram prisioneiras das chamas nos andares do arranha-céu. Calcula-se que mais de duas mil pessoas estavam no prédio quando o fogo começou, concentradas essencialmente entre a primeira e a segunda sobreloja das Casas Pirani.
Aos poucos uma imensa pira desenhava a tragédia nos céus paulistanos. No edifício, as pessoas eram acossadas pelo calor das labaredas e intoxicadas pela fumaça. No desespero de ter que escolher entre morrer queimado pelo fogo, ou asfixiado pela fumaça, muitos se atiraram das janelas ou do terraço, saltando para morte, caindo no chão da Avenida São João e no da Rua Pedro Américo.
Pela primeira vez, a televisão brasileira transmitia uma tragédia nacional em tempo real. Em meio à agonia dos prisioneiros do fogo, um homem tentou impedir o amigo de se jogar do alto, agarrando-o pelas pernas, mas foi inútil, o homem viu o amigo flutuar no ar, deixando-lhe os sapatos nas mãos.
O vento soprava as chamas para o lado da Avenida São João, formando um assustador volume de fogo, como não se viu em qualquer outro incêndio. Desesperadas, as pessoas aglomeravam-se no terraço do edifício. Somente uma hora depois do início do incêndio, às 17h15, o primeiro helicóptero conseguiu pousar no terraço. Ao desespero das pessoas, que se debatiam na ânsia de serem salvas, juntou-se ventos de trinta quilômetros por hora, dificultando a descida dos helicópteros. Aos poucos, helicópteros do governo de São Paulo, da prefeitura, da FAB e de particulares, conseguiam sucesso na operação de resgate. Mais de 300 pessoas foram tiradas do terraço, sendo levadas para o Campo de Marte, para a Praça Princesa Isabel, Congonhas e Campo do Palmeiras.
Após 7 horas e 45 minutos, o fogo foi controlado e o incêndio extinto. Não se sabe ao certo onde o fogo começou, acredita-se que se iniciou nos cartazes de publicidade das Casas Pirani, postos sobre a marquise do prédio. Outras versões afirmam que o incêndio se deu a partir dos fundos do terceiro andar, na seção de crediário das Casas Pirani.
Após o fim do incêndio, 16 pessoas tinham morrido, entre elas os executivos da Henkel, Ottmar Flick e Paul Jurgen Pondorf, presidente da empresa. 352 ficaram gravemente feridas. As imagens das pessoas atirando-se das janelas transmitidas pela televisão, correram o mundo, incitando pela primeira vez, os debates sobre a segurança em edifícios, até então pouco questionada e deliberadamente negligenciada.
Completamente restaurado, o Edifício Andraus continua a ser um dos mais imponentes prédios do centro de São Paulo, sendo ironicamente, um dos mais seguros do mundo. Mas nunca tirou o estigma da tragédia, sendo visto pela população paulistana como um lugar fantasmagórico e amaldiçoado.

Edifício Joelma, Sob o Estigma da Maldição

Em 1948, em uma casa da Rua Santo Antônio, no Bexiga, morava o professor Paulo Ferreira de Camargo, a sua mãe e duas irmãs. O cotidiano do local foi quebrado quando a polícia passou a investigar a denúncia do desaparecimento das mulheres da casa. No dia 23 de novembro daquele ano, as investigações culminaram com a descoberta de um poço no fundo da casa do químico, onde foram encontrados os corpos da mãe e das irmãs do morador, mortas 19 dias antes por ele. No exato momento em que se descobria os cadáveres, Paulo Camargo suicidou-se, sem nunca revelar a motivação de tamanha crueldade. Especula-se que teria sido vingança do professor contra a família, que seria contra o seu romance com a enfermeira Isaltina Florêncio dos Amaros. O caso ficou conhecido como “O Crime do Poço”. O local ficou estigmatizado como maldito.
No decorrer dos anos, a casa do professor Paulo Camargo foi demolida. No terreno foi lançada, duas décadas depois do crime, a pedra de construção de um grande prédio. Em 1971, foi inaugurado no número 225 da Avenida Nove de Julho, um prédio de 25 andares, com uma fachada lateral voltada para a Praça da Bandeira, e os fundos para a Rua Santo Antônio. Era o Edifício Joelma, que entraria para história paulistana como o palco da maior tragédia com vítimas fatais em um prédio da cidade.
O Edifício Joelma, construído em sentido contrário da casa de Paulo Ferreira de Camargo, ou seja, com as costas para a Rua Santo Antônio, era composto nos seus dez primeiros andares por estacionamentos, tendo os restantes ocupados em grande parte pelo Banco Crefisul. Apesar de tão alto, o prédio não possuía escada de incêndio, o que lhe seria fatal.
Em 1 de fevereiro de 1974, o dia parecia normal para os funcionários do edifício. Cerca de 756 pessoas percorriam tranqüilamente pelos seus andares. Às 8h30, um funcionário ouviu o ruído de um vidro quebrando, vindo de um dos escritórios do 12º andar. Ao verificar, deparou-se com um aparelho de ar condicionado em curto-circuito. Correu para desligar o quadro de luz do andar, porém, quando retornou viu que o fogo espalhara-se em um rastilho pela fiação da parede, propagando-se pelas cortinas, e, rapidamente, alcançando as placas combustíveis do forro. O funcionário correu em busca de um extintor portátil, quando retornou, já não conseguiu entrar na sala, devido a fumaça intensa que o asfixiava. O homem subiu pelas escadas até o andar seguinte, alertando os ocupantes e pedindo ajuda para apagar o incêndio. Quando as pessoas tentaram chegar ao 12º andar, já não conseguiram adentrá-lo, pois o fogo já se propagara de forma incontrolável. Aos poucos foi tomando todo o prédio.
Na falta de uma escada de incêndio, as pessoas começaram a ser retiradas habilmente pelos ascensoristas por elevadores, conseguindo assim, salvar várias vidas. Com a propagação do fogo, o sistema elétrico dos elevadores foi finalmente afetado, e, as viagens de resgate deixaram de ser possíveis. Em uma dessas viagens, treze pessoas morreram carbonizadas, sem que os seus corpos pudessem ser identificados. Foram enterradas no Cemitério de São Pedro. O episódio gerou lendas, e pessoas afirmam que ao passar pelo cemitério, ouvem choro e vozes a pedir por socorro. A lenda só aumenta o estigma da maldição ao prédio. Verdadeira é a história de uma ascensorista, que ao tentar ainda resgatar vidas, morreu no 20º andar, após realizar a sua ultima viagem de elevador.
O corpo de bombeiros recebeu o primeiro chamado de socorro às 9h03, chegando ao local às 9h10. Encontraram um cenário catastrófico, já com o incêndio a propagar-se intensamente pela fachada para os andares superiores. O único alento era que no dia não havia ventos fortes soprando, e o vão que se formada entre o Edifício Joelma e o seu vizinho, o Edifício Saint Patrick, impedia que o fogo se alastrasse.
Acossadas pelo fogo, as pessoas corriam para as laterais onde estavam os banheiros e para a parte mais alta do edifício. Muitas foram retiradas das aéreas dos banheiros através de escadas mecânicas.
A tragédia que se abatera sobre o Edifício Andraus dois anos antes, repetia-se em maior escala no Edifício Joelma. No céu de São Paulo, pessoas se atiravam do alto do prédio em chamas, para que pudessem escapar ao calor que chegara aos 100 º C e à fumaça que os asfixiava. 40 pessoas lançaram-se naquele vôo mortal.
Às 10h30 daquela manhã fatídica, o fogo já tinha consumido todo o material inflamável do prédio. Muitas pessoas procuravam resistir, permanecendo nos andares, a molharem-se com água das mangueiras, à espera de um resgate. Nem todas conseguiram, sendo mortas pelo calor ou pela fumaça. O heliponto do edifício da Câmara Municipal de São Paulo, vizinho ao Joelma, foi transformado em pronto-socorro.
Às 13h30 todos os sobreviventes tinham sido resgatados. No balanço final, todo material combustível do 12º ao 25º andar tinha sido consumido pelo fogo. Pilares e vigas tiveram poucos danos, e a estrutura do edifício não foi afetada. Na parte humana, 188 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas.
O Edifício Joelma foi fechado durante quatro anos. Após intensa reforma, foi reaberto, em 1978, com outro nome: Edifício Praça da Bandeira, sendo assim chamado até os dias atuais. Mesmo reformado, o prédio é visto como maldito, gerando várias lendas urbanas que já se tornaram típicas da Paulicéia. Os habitantes da capital paulista evitam passar pelos arredores do edifício à noite. Muitos afirmam ouvir vozes e pedidos de socorro vindos dali. Superstição ou não, o local foi palco de duas tragédias, a de um crime macabro e a de um incêndio que ceifou quase duas centenas de vidas.

Fogo na Avenida Paulista

Os incêndios dos edifícios Andraus e Joelma acirraram os debates populares que questionavam os sistemas de segurança nos prédios, de prevenção e combate a incêndio. Concluiu-se o óbvio após as deficiências serem evidenciadas nas duas tragédias ocorridas em dois anos: era preciso a implantação de uma legislação com normas de segurança para prédios, pois na época, o Código de Obras em Vigor era o de 1934, quando a cidade ainda começava a construir os seus arranha-céus, os aparelhos elétricos eram poucos e a cidade não chegava a um milhão de habitantes. Mas as medidas legais de segurança no combate a incêndio só foram implantadas em 1994 e 2001, através de decretos. 38 instruções técnicas para o aprimoramento da segurança nos edifícios foram publicadas em 2005. Antes da concretização de todas as providências legais, São Paulo assistiria a outro incêndio com grande número de vítimas fatais, o do Edifício Grande Avenida, na mítica Avenida Paulista.
No inicio do século XX, a Avenida Paulista despontou como importante local de moradia das ricas famílias paulistanas, apresentando luxuosos palacetes. Com o decorrer das décadas, a majestosa avenida teve os seus palacetes demolidos, dando passagem para sofisticados edifícios, que passaram a concentrar a elite dos negócios paulistanos, instalando grandes bancos e empresas econômicas.
Entre a arquitetura imponente da Avenida Paulista estava o Edifício Grande Avenida, localizado no número 1754, a poucos metros da esquina da Rua Peixoto Gomide. O prédio já havia desenhado o princípio de uma tragédia, quando foi palco de um incêndio, em 1969, que não atingiu grandes proporções.
Em 1981, enquanto o Brasil acompanhava uma das mais acirradas rebeliões de presos em Jacareí, São Paulo assistiria a outro triste espetáculo de incêndio no mês de fevereiro. No dia 14, um sábado de carnaval, pouco antes do meio dia, uma sobrecarga de energia em uma rede elétrica antiga, já defasada para as necessidades de consumo da época, deu início às chamas na parte debaixo do Edifício Grande Avenida.
As chamas atingiram, em pouco tempo, quase todo o edifício. O maior perigo iminente era de que o fogo atingisse o último andar, onde estava a torre de transmissão da TV Record, armazenando ali, mais de vinte latas de tintas para a pintura da torre, e, o óleo diesel que lhe mantinha o gerador em funcionamento. Dos 20 andares, apenas os três últimos não foram completamente destruídos pelo fogo. Paralelamente, uma ventania soprada de uma corrente vinda da Avenida Nove de Julho, atingia o prédio por trás, aumentando o volume de fogo.
O incêndio evidenciava que mesmo numa avenida de grande importância econômica e social como a Paulista, as instalações de segurança eram precárias, descaracterizando a imponência dos seus prédios. Na época não existiam heliportos nos edifícios da avenida, o que obrigava os helicópteros a pousarem no vão da feira de antiguidades do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Mais uma vez desfilavam pelas ruas paulistanas os comboios de bombeiros, vindos da Praça da Sé, adentrando a avenida através da Rua da Consolação ou da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
Naquela manhã fatídica, o edifício estava praticamente vazio, pois era fim de semana de carnaval, funcionando apenas com funcionários de uma construtora com serviços em atraso e com os habituais empregados de segurança. Este detalhe evitou que se fizesse um grande número de vítimas, que em dias normais, poderia ter matado mais do que no malogrado Edifício Joelma.
A Avenida Paulista, na época reduto de consulados, grandes empresas financeiras e bancos, chamou a atenção do mundo com aquele incêndio, sendo transmitido pela televisão para todo o planeta. Um dos momentos mais dramáticos do incêndio foi mostrado pela TV Globo no Jornal Nacional, quando o auxiliar de escritório Cosme Adolfo Barreira atirou os dois filhos, Luciano, de cinco anos, e Elaine de quatro; de uma altura de dez metros, na tentativa de salvá-los das chamas. Os três foram resgatados sem ferimentos graves.
Quando o fogo foi dominado, a tragédia consumou-se em 17 mortos e mais de cinqüenta feridos. Mais uma vez os colossos de concretos de São Paulo mostraram-se vulneráveis e fatais.
Outro grande incêndio ainda assolaria São Paulo, na década de oitenta. Em 1987, desta vez não em fevereiro, mas na noite de 21 de maio, incendiou-se os edifícios Sede 1 e Sede 2 da CESP (Companhia Energética de São Paulo), também na Avenida Paulista. No momento do incêndio, apenas funcionários da limpeza e manutenção estavam no local. Em junho de 1987, a estrutura comprometida pelo incêndio foi explodida por dinamites em exatos 4 segundos. Por quase duas décadas, o edifício onde fica parte do Center 3, ficou com os escombros da tragédia à mostra, estando até hoje inacabado.
São Paulo dos arranha-céus, dos colossais cinturões de concreto, que olhada em uma visão instantânea parece inatingível, teve no mês de fevereiro, geralmente mês de chuvas e de calor, as labaredas do fogo a desnudar o gigante, mostrando-o palco de grandes tragédias que jamais serão esquecidas pelos habitantes da terra da garoa.


COLISEU – SÍMBOLO DO ESPLENDOR DE ROMA

abril 30, 2010

Considerado o maior símbolo da grandiosidade do Império Romano, o Anfiteatro Flaviano atravessou os séculos, transformou-se em uma grande ruína, mas jamais perdeu a sua imponência. Chegou ao século XXI conhecido pelo nome latino de Colosseum, ou simplesmente Coliseu, em português.
Localizado no centro de Roma, o Coliseu desperta a curiosidade de milhões de pessoas que o visita durante todo o ano. Usado como palco de espetáculos de luta, demarcou o poder de Roma, tendo muito sangue vertido em sua arena por quase cinco séculos. Talvez por abrigar tão violentos combates, foi legado à decadência e à pilhagem, sem que se lhe encontrasse outra forma de entretenimento ao longo dos séculos.
Muitas histórias de animais ferozes e gladiadores fazem a mítica do Coliseu. Sua estrutura gigantesca consiste em 48,5 metros de altura; na sua forma elíptica traz 189 metros no seu eixo maior e, 156 metros no seu eixo menor; e, uma arena de 85 por 53 metros. Levou quase uma década para ser construído. Quando inaugurado, tinha capacidade para receber cerca de cinqüenta mil pessoas.
O Império Romano dominou o mundo antigo através da eficiência dos seus exércitos e da habilidade que tinha em tratar os povos dominados, assimilando muitas vezes, o que melhor encontrava nas culturas dominadas. O Coliseu era o palco da demonstração da força, da batalha pela sobrevivência na arena, assim como era a própria sobrevivência do imenso império, conquistado pela espada e pelo sangue derramado.
Com a decadência do Império Romano, as lutas de gladiadores e as opulentas batalhas navais travadas no Coliseu chegaram ao fim. O esplendor do anfiteatro deu passagem para as igrejas medievais, numa Roma convertida ao cristianismo. O velho Coliseu pagão também entrou em decadência. Por séculos foi esquecido, sendo pilhado. Em Roma há a lenda de que cada casa construída foi feita com um pedaço roubado do Coliseu.
Reduzido a uma grande carcaça, o anfiteatro mostra-se imponente no coração da capital italiana. Sobreviveu a terremotos, saques e ataques do próprio tempo. Não se sabe por quantos séculos ainda resistirá, mas mesmo em ruínas, é o maior símbolo da antiguidade da civilização ocidental. Em Roma, podemos até não ver o papa, mas visitar o Coliseu é imprescindível. Impossível não se render ao fascínio silencioso das suas ruínas, bem no meio do coração da civilização latina.

As Origens do Monumento

Após a morte do imperador Nero, em 68 d.C., Roma viveu um conturbado momento político, com uma guerra civil que gerou imperadores efêmeros. Em 69, Galba sucessor de Nero, foi assassinado por Otão, que por sua vez foi derrotado por Vitélio. Inconformados, os partidários de Otão decidiram apoiar Tito Flávio Sabino Vespasiano para imperador de Roma. Flávio Vespasiano foi proclamado imperador pelos seus soldados, em Alexandria, província do Egito. Ali, ascendeu ao poder em dezembro daquele conturbado 69, que passou para a história de Roma como o “Ano dos Quatro Imperadores”.
O fim do reinado de Nero coincidiu com várias revoltas dentro do Império Romano. Entre elas, a sublevação judaica, desencadeada em 66. Flávio Vespasiano foi designado para conduzir a guerra contra a rebelião dos hebreus, que ameaçava a hegemonia romana no oriente. O fim da rebelião resultou na queda de Jerusalém, sendo a cidade destruída por completo pelos romanos, entre as perdas estava o segundo Templo.
No decorrer dos acontecimentos, Flávio Vespasiano enfrentou uma sangrenta batalha contra as forças de Vitélio. Devido ao mau tempo, só retornaria a Roma em 70. Além da sublevação judaica, enfrentou protestos em Alexandria, e levantamentos na Gália. A rebelião provocou fortes derrotas às legiões romanas, só sendo sufocada nos fins daquele ano.
Ao chegar a Roma, em meados de 70, já como imperador, Flávio Vespasiano empreendeu uma série de manobras políticas para consolidar o seu poder, tão ameaçado pela guerra civil. Entre as empreitadas estava uma autêntica campanha de propaganda, resultando em grandes obras erigidas na capital do império, para que agradassem aos cidadãos romanos. Entre as obras estão o Templo da Paz e o de Cláudio Deificado. Ergueu uma estátua colossal do deus Apolo, feita sobre um projeto antigo do reinado de Nero.
Mas a obra que mais se destacaria no conturbado reinado de Flávio Vespasiano foi a de um grande anfiteatro no centro de Roma, que iria entrar para a história com a denominação popular de Coliseu.

Inaugurado o Anfiteatro

Para escorar a instabilidade do seu governo, Flávio Vespasiano ordenou, em 72 d.C., que se começasse a construção de um monumental anfiteatro. O local escolhido para que se erigisse o monumento foi o de um antigo palácio de Nero. Por todo Império Romano havia mais de 250 anfiteatros, por isto era esperado que se fizesse um grandioso dentro da capital do mundo.
As obras do anfiteatro arrastaram-se por longos oito anos. Em 79, uma infecção intestinal matou o imperador Flávio Vespasiano, privando-o de ver a sua maior obra concluída. Em 80 d.C., Tito, filho de Vespasiano, inaugurou o imenso monumento, ainda inacabado. Em homenagem ao pai, chamou-o de Anfiteatro Flaviano.
Tito teve um reinado curto e promissor, apesar de abalado por catástrofes da natureza. Destacara-se como comandante militar, sob as ordens do seu pai, durante o conflito da rebelião judaica (67-70). Após a nomeação do pai como imperador de Roma, em 69, coube a Tito a missão de finalizar a sedição dos judeus. Sob o seu comando, as legiões romanas sitiaram Jerusalém, em 70, destruindo a cidade e demolindo o segundo Templo. A vitória sobre os hebreus valeu a Tito grandes recompensas. Mais tarde, em 81, seria erigido em Roma o Arco Triunfal ou Arco de Tito, ressaltando a vitória do imperador na Palestina.
Sessenta dias após subir ao poder, Tito viu-se confrontado pela grande catástrofe da erupção do Vesúvio, em agosto de 79, que resultou na destruição das cidades de Pompéia e Herculano. Em 80, Roma foi novamente consumida por um incêndio. Um surto de peste assombrou a cidade. Diante das catástrofes, o imperador decidiu antecipar a inauguração do anfiteatro, que começara a ser erguido pelo seu pai, e ainda não estava com as obras concluídas. Era um alento que o imperador oferecia à sofrida população romana.
Os jogos de inauguração do Anfiteatro Flaviano, em 80, duraram cem dias. Fascinou pela representação de batalhas navais, simuladas com a inundação do anfiteatro; corridas de cavalos e carros de guerra; combates de gladiadores; e, confronto entre animais selvagens trazidos das províncias romanas do norte da África. Há relatos de que centenas de gladiadores e cinco mil animais ferozes foram mortos nos espetáculos inaugurais do Coliseu.

O Coliseu no Apogeu do Seu Esplendor

O reinado de Tito foi breve, encerrando-se dois anos depois de iniciado, com a sua morte súbita em setembro de 81, vítima de uma febre quando se encontrava em missão nos territórios dos sabinos. Foi sucedido pelo irmão Domiciano.
Coube a Domiciano a conclusão final do Anfiteatro Flaviano. À estrutura acrescentou um quarto nível e o acabamento da zona interior nas quais se sentava o público.
Concluídas as obras, o imenso anfiteatro, no seu esplendor, envergava uma altura de 48,5 metros, numa forma elíptica de 189 metros no seu eixo maior e, 156 metros no seu eixo menor, com uma arena de 85 por 53 metros. Inicialmente possuía três andares, sendo-lhe acrescentado um quarto no reinado de Alexandre Severo e Gordiano III. Na fachada, arcadas eram ornadas com colunas dóricas no térreo, jônicas no primeiro andar e coríntias no segundo. Cada um dos pisos tinha 80 arcos, com cerca de 7 metros de altura cada. Ainda na fachada, encontravam-se centenas de estátuas de bronze a decorá-la.
O Coliseu foi construído em mármore, pedra calcária de origem vulcânica (tufo), pedra travertina e ladrilho. Os assentos eram em mármore, sendo as arquibancadas divididas em três partes, que evidenciavam as classes sociais romanas: o podium, destinado às classes abastadas, encontrando-se dentro do dele o pulvinar, tribuna imperial com assentos reservados aos senadores e magistrados; as maeniana, setor destinado aos de condição social mediana; e, os portici, setor destinado à plebe e às mulheres. Por cima dos muros do anfiteatro, tinham 240 mastros a sustentar o velarium, enorme cobertura de lona que servia para proteger os espectadores do sol.
Nos subterrâneos do estádio ficavam as jaulas de animais ferozes, que eram suspensas por um elevador, até um corredor, que se abria na arena. Era no subterrâneo que se encontrava todas as celas e galerias necessárias aos serviços do anfiteatro.
No seu esplendor, o Coliseu recebia cerca de cinqüenta mil pessoas, numa estrutura que se compara aos estádios da era contemporânea, sem que se lhes fique atrás.

Os Combates de Gladiadores

O espetáculo que mais atraia os romanos era a luta mortal entre os gladiadores, travada na arena do anfiteatro. O local possuía um piso de madeira, coberto por areia para absorver o sangue dos combatentes.
Por um curto período, os gladiadores usados nos jogos eram soldados em treinamento. Com a sofisticação do espetáculo, os combates passaram a ser cada vez mais elaborados, sangrentos e mortais. Povos aprisionados nas guerras de conquistas do Império, escravos e criminosos passaram a ser utilizados como gladiadores. Com lanças, tridentes, espadas e escudos, eles travavam um combate mortal, duelando entre si ou enfrentando animais ferozes, como leopardo e leões. Mais de dez mil gladiadores teriam sucumbido durante os séculos que ocorreram os combates no Coliseu.
Apesar de contestado historicamente, sem documentação que prove a veracidade do fato, há muitos relatos de que os cristãos primitivos da Roma pagã foram transformados em gladiadores, vindo a ser sacrificados nas arenas do Coliseu. Mesmo sem evidências conclusivas, a igreja romana sustentou por séculos essa versão do martírio cristão. A alusão à matança cristã fez do Coliseu, ao longo do tempo, após a conversão de Roma ao cristianismo, um lugar sagrado, que resultou na própria sobrevivência do anfiteatro, livrando-o das depredações e do destino que lhe queriam reservar papas e nobres, ansiosos para usar o rico material da construção em suas igrejas e palácios. Imponentes catedrais como a de São Pedro, no Vaticano, e a de São João Latrão, utilizaram-se de material pilhado do Coliseu, assim como o Palazzo Venezia, ou ainda as proteções em torno do rio Tibre.
Além dos combates entre gladiadores, outros espetáculos eram oferecidos aos romanos dentro do Coliseu. Entre eles a caça de animais exóticos ou ferozes, como leões, girafas, leopardos, elefantes, crocodilos, hipopótamos, avestruzes e rinocerontes. Para tal, cenários removíveis eram inseridos na arena, como árvores e edifícios. Também a batalha naval fazia parte da sofisticação das atrações oferecidas no maior estádio de entretenimento romano. As apresentações de combate no Coliseu eram gratuitas.

A Decadência e as Ruínas Atuais

O Anfiteatro Flaviano foi o maior palco de entretenimento de Roma até o século V. Em 404, o imperador Honório proibiu os combates entre gladiadores, pondo fim aos espetáculos que apesar da crueldade, fascinaram os romanos por quase quatro séculos.
Assim como o Império Romano, o esplendoroso Anfiteatro Flaviano conheceu a decadência como palco de espetáculos. Além do ostracismo das suas funções, passou por vários terremotos. Ainda no século V, foi danificado por um forte tremor de terra, sendo restaurado durante o período do reinado de Valentiniano III (425-455). Voltaria a ser abalado no século VI, entre os anos 523 e 526. Outro terremoto, no século IX, destruiu-lhe as colunas do piso superior.
Não se sabe ao certo quando o anfiteatro passou a ser chamado de Coliseu. Historiadores apontam como sendo bem mais tarde, a partir do século XI, devido ao Colosso de Nero, uma grande estátua de bronze do antigo imperador romano, com 35 metros de altura, que ficava ao lado do anfiteatro.
Naquele século, dominado por uma família de nobres, o Coliseu foi transformado em uma fortaleza, abrigando membros da família Frangipane, sendo utilizado como proteção em suas batalhas contra grupos rivais.
No decorrer da Idade Média, o mármore e o bronze do Coliseu foram saqueados, usados para ornamentar igrejas e palácios. Várias casas teriam sido construídas com material pilhado do anfiteatro. Em 1231, um novo abalo sísmico de grande intensidade derrubou uma parte da fachada externa.
No século XVII o papa Bento XIV declarou-o lugar sagrado, consagrando-o ao ritual anual da paixão de Cristo, o que evitou que fosse demolido, como desejava os que se lhe queriam utilizar o material de construção.
O Coliseu chegou aos séculos XVIII e XIX completamente em ruínas. Até então, parcas escavações arqueológicas foram feitas. No século XX, passou por várias restaurações, o que lhe permitiu um melhor estado de conservação do que no século anterior. Em 2000, ano do jubileu de Roma, e encerramento do segundo milênio, foi concluída uma minuciosa restauração, recuperando-lhe a face externa dos arcos de mármore. Em 2007 foi eleito umas das sete maravilhas do mundo moderno; como se fosse possível apagar-lhe a eternidade do mundo antigo.
No século XXI, o Coliseu ainda resiste, apesar de reduzido às ruínas. Cravado no centro de Roma, entre avenidas modernas e edifícios que se intercalam por construções de todos os séculos, o velho Anfiteatro Flaviano constitui o maior símbolo do esplendor do Império Romano, e um testemunho edificado da própria história da civilização ocidental. Mais frágil do que as sólidas pirâmides do Egito, o Coliseu é a essência da expansão da propagação dos valores ocidentais. Não se sabe até quando resistirá à carcaça que se lhe foi confinado pelo tempo, mas está para sempre gravado no coração da cidade eterna.