O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN – ANG LEE

outubro 3, 2011
Um dos mais belos filmes feitos na primeira década de 2000, “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain), é, acima de qualquer tendência ou classificação, uma história de amor, um conceito da vida refletida nas escolhas que se faz, nas imposições morais da sociedade construída sobre os valores seculares, nos medos da vulnerabilidade dos sentimentos. O filme é o lado invisível da sociedade, que todos sabem existir, mas que relevam ao ostracismo dos seus pilares de moralidade.
Brokeback Mountain” é o amor vivido por dois homens, presos aos medos e às convenções do meio de onde vieram. Mais do que um filme de vertente homossexual, é uma história profunda da alma humana. É o amor vivido nos leitos clandestinos da existência, é a paixão essencial no seu íntimo e coadjuvante diante da sociedade. Uma história que se identifica não só a visão masculina, mas a da mulher, refletida no sofrimento contido de Alma Del Mar. Uma história que poderia facilmente ser identificada como vivida entre um homem e uma mulher casados, numa atmosfera que lembra outro drama, “As Pontes de Madison County”. É o amor consentido em seus labirintos, nos momentos de total sinceridade íntima, e de mentiras que constroem a vida social. Dois homens caminham a sua existência edificada no segredo puro dos seus sentimentos, paralelamente constroem família, uma vida social que não lhes refletem a essência, mas que é a oficial. Vivem o segredo da verdadeira alma, deixando respingos das suas verdades nos olhos contemplativos dos que os rodeiam. O amor é soberano entre eles, mas jamais a verdade social contada. Dividem o segredo, a existência, mas quando a vida ou a morte os separa, ficam à deriva das decisões da família civil, emergindo como meros coadjuvantes de cada um. Não lhes é permitido o corpo morto, as cinzas, a realização do mais tenro desejo final da eternidade. Para eles existem apenas as lembranças, o amor vivido na madrugada fria antes da sociedade despertar. A montanha como cúmplice, como uma verdade panorâmica magistral e silenciosa, guardiã do mais sincero segredo da alma humana, o sentimento.
Brokeback Mountain” é um drama na sua mais extensa composição. Ao contrário do que se propaga, não é um western, tão pouco a história de cowboys, mas de dois homens contemporâneos, presos nas limitações sociais do seu tempo, atemporais através dos sentimentos que vivem. Infinitos nas valias sociais, que mesmo no século XXI, continuam a respeitar seus conceitos de clã e família. É um filme de rara beleza fotográfica, música épica, e, principalmente, de atores. É nas interpretações memoráveis de Heath Ledger e Jake Gyllenhall que se sustenta toda a sua grandiosidade, estendida cronologicamente por mais de duas décadas. É um drama de amor, fazendo menor os conceitos de quem o vive, enaltecendo a coragem de quem não se deixa perder da sua essência emocional, mesmo vivida em segredo, clandestinamente.

A Montanha Inóspita

Produção canadense e norte-americana, realizada em 2005, “O Segredo de Brokeback Mountain” narra o relacionamento complexo e tempestivo de dois homens, numa seqüência cronológica que atravessa quase vinte anos.
Dirigido pelo cineasta taiwanês Ang Lee, é uma adaptação do conto homônimo de Annie Proulx, publicado pela primeira vez em 1997. Por trazer um tema delicado, que apesar de todos os tabus quebrados nas últimas décadas, o roteiro de Larry McMurtry e Diana Ossana, escrito no fim da década de 1990, ficou arquivado durante anos, sem conseguir financiamento para ser filmado.
Apesar de personagens fortes e fascinantes, os protagonistas da história assustavam aos atores diante de uma temática controversa e com cenas tão explícitas de romance homoerótico. O ator Mark Wahlberg, inicialmente convidado para viver Ennis Del Mar, recusou o papel por medo do preconceito. Heath Ledger e Jake Gyllenhall aceitaram o desafio, vencendo o medo da rejeição, sendo compensados com o reconhecimento do público e da crítica. Foram, pelo trabalho, indicados ao Oscar nas categorias de melhor ator e melhor ator coadjuvante respectivamente. Mais do que a polêmica da temática, o filme mostrou-se vitorioso na sua vertente humana, conquistando não um público específico, mas a todos com sensibilidade diante dos sentimentos e do amor, universais para quem os vive, não importando se um casal heterossexual ou homossexual.
A história abre-se no verão de 1963. Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhall), dois jovens pobres, conhecem-se ao procurar emprego como pastores de ovelhas, em Wyoming, estado rural e conservador do oeste dos Estados Unidos. São contratados pelo rancheiro Joe Aguirre (Randy Quaid), para um difícil trabalho, enquanto um vigia as ovelhas numa área de proteção ambiental no alto da montanha, o outro fica na base, responsável pelos alimentos e pela vigilância da área.
Juntos, os jovens sobem para a montanha. Levam consigo a força da juventude e a necessidade da sobrevivência, construída pela penúria da pobreza, irrigada pelo sonho limitado de cada um. Ennis é conciso, quieto, quase rude na alma introspectiva. Jack é mais solto, quem puxa pelo silêncio do companheiro de labuta. O ambiente é inóspito, quase hostil, cercado por lobos, ursos e outros animais silvestres, pelo calor escaldante do dia e o frio cortante das noites. A comida é precária, vivem de mesquinhas rações fornecidas por um patrão sovina. A labuta é quase insuportável, uma escravidão remunerada. Na solidão da montanha, somente a amizade poderá fazê-la suportável. Jack é quem arranca das entranhas de Ennis as palavras, o estoicismo latente, o fio que conduz os diálogos e as revelações que se vão quebrando os silêncios. Ele aprenderá a extrair para sempre os mais verdadeiros e negados sentimentos do companheiro.
As imagens da montanha vão surgindo como uma beleza radiante, como um bem acabado cartão postal. A solidão da paisagem é quebrada pela música contundentemente sedutora composta pelo argentino Gustavo Santaolalla.
No meio da paisagem, Ennis e Jack lutam contra as diversidades do ambiente silvestre. Enfrentam feras, caçam cervos para não morrerem de fome, revezam nas funções, ora um sobe ao topo da montanha, ora o outro desce.
Nos momentos que se encontram, conseguem fazer parte do gênero humano, não da paisagem selvagem da montanha. Alimentam-se, falam, bebem, trocam confidências de vida. Numa noite Ennis bebe demais, não conseguindo partir para o topo da montanha. Completamente embriagado, decide dormir no acampamento de Jack. Na sua visão viril do mundo, prefere dormir junto à fogueira, ao relento e ao frio, do que ao lado de Jack, dentro da tenda. A noite é áspera e fria, Ennis sente os ossos congelar. Jack ouve o amigo tremer de frio, vai buscá-lo, trazendo-o para a tenda. Deitam-se um ao lado do outro. A solidão da noite transforma-se na solidão da vida. Jack está decidido a quebrá-la. Envolve o braço do amigo em seu corpo. Aos poucos começa a despi-lo. Ennis, ainda sob o torpor da bebida, acorda assustado com os gestos de Jack. Levanta-se, deixando-se acossar pelos carinhos do outro. Sua atitude é brusca, quase selvagem, deixa-se levar pelos instintos, não pelos carinhos. A cena é crua, de forma bruta, quase que violenta, Ennis subjuga Jack, possuindo-o com a fúria da virilidade solitária. O sexo como explosão é o início do encontro complexo que prenderá as almas dos dois para sempre.

Estabelecido o Segredo na Montanha

Na manhã seguinte, Ennis acorda ao lado do companheiro de jornada. Veste as calças e saí. Não considera o que fizera um ato digno, mas sim uma explosão do desejo viril. Rejeita o prazer, cobrindo-se de culpa. Jack aparece. Senta-se à fogueira, ao lado de Ennis, que lhe permanece virado de costas. Não consegue olhar para Jack. Consegue apenas dizer que aquilo terminava ali, não haveria uma outra vez. Jack responde convicto: “Isto não interessa a mais ninguém além de nós”. Para Ennis, a verdade é a que encerra, a que lhe cobra o mundo. Ele só quer uma afirmação: “Ain’t no queer”, ou seja, não era anormal, não era um maricas. Jack também diz que não o é.
Ennis monta o cavalo e parte para o alto da montanha. Ficará a tarde toda preso à culpa latente pela noite que se permitira ser mais animal, ejacular sobre a solidão. É o momento mais contundente à frase que se está estampada nos cartazes do filme, o slogan “Love is a force of nature” (O amor é uma força da natureza).
Mais complacente com a sua culpa, Jack despe-se à beira do rio, lavando as suas roupas nas águas límpidas e correntes, como se lavasse a fúria da noite, o cheiro de Ennis, o seu sêmen. São notáveis os momentos em que as personagens cuidam da sua higiene pessoal, mesmo com a precariedade do local, banhando-se com improvisadas canecas e água fervida na fogueira.
Ennis só retorna já muito tarde da noite. Encontra Jack deitado dentro da tenda. Pede-lhe desculpa, deita-se ao seu lado, e desta vez o sexo dá passagem para o sentimento. O carinho substitui o ato animal. O ato físico cru e selvagem dá passagem para o ato amoroso, iniciando uma relação que os seguirá para o resto de suas vidas. Permitem-se amar um ao outro, encontrando o que há de mais genuíno em suas almas, assumindo o maior segredo das suas vidas.
A partir de então, o filme mostra a força pujante de dois homens, que se equilibram pelo sentimento, jamais por suas naturezas. Rolar bruscamente na relva, trocar socos, cavalgar, fazem parte dos carinhos viris que dissimulam a condição de amantes. Jamais se diz “eu te amo”, jamais será dito com palavras, apenas com olhares e silêncios emanados da alma.
Cada vez mais envolvidos, descuidam-se do trabalho escravo que fazem. Ovelhas são mortas por lobos, tempestades fazem com que elas se misturem a outros rebanhos. Para eles é mais importante preservar a vida juntos, aquecidos na tenda, em uma noite de tempestade do que enfrentá-la na escuridão atrás de ovelhas desgarradas. Suas vidas tornam-se mais importantes do que a servidão humana que lhe exigem aquele trabalho.
As cenas dos dois na montanha são envolvidas sempre por um carinho latente que explode em leves lutas corporais. Heath Ledger rodou uma cena de nu frontal, numa seqüência que o seu personagem e o de Jake Gyllenhall, atiram-se sem roupas ao rio. O diretor Ang Lee, temeu que a ousadia fosse por demais, cortando a cena, mas fotografias com as imagens de nudez do ator foram parar na internet, rodando o mundo. Na cena, Jake Gyllenhall foi substituído por um dublê, não sendo ele quem está ao lado de Heath Ledger.
Enquanto Jack e Ennis distraem-se em viver os seus sentimentos, o idílio da montanha é visto por Joe Aguirre, o contratante, que os observa de longe. O segredo de ambos torna-se tão frágil quanto a própria existência daquele sentimento nascido ao topo da montanha.
Uma tempestade de neve fora de hora encerra o trabalho dos dois improvisados pastores de ovelhas. Inicialmente contratados para chegarem até o fim de setembro, são dispensados um mês antes. Ennis recebe mal a ordem de desmontar o acampamento um mês antes. Tenso e mal-humorado com a decisão, Ennis inicia uma briga com Jack, ambos saem feridos e com as camisas manchadas de sangue.
Os dois deixam em silêncio a montanha. Sabem que a vida continuaria mesquinha e programada para eles. A paisagem silvestre da montanha permitia que fossem livres para amar um ao outro, mas não a sociedade para a qual voltavam. Assim, deduzem que aquele encontro fora um calor de verão, só existente nas leis da natureza presa na montanha. Jack promete voltar no ano seguinte, mas Ennis apenas diz que se vai casar, seguir a vida como acha que deve ser.
Após a contagem das ovelhas, são humilhados pelas palavras do patrão, que diante de tanta perda no rebanho, diz que não prestam para olhar animal algum. Os dois despedem-se sem trocar um aperto de mão, sem uma garantia de que se iriam rever um dia. Separam-se como dois estranhos. Pelo retrovisor da sua velha caminhonete, Jack observa o amigo desaparecer na distância, friamente, sem ousar olhar para trás. O que ele não vê é que debaixo da frieza aparente do Ennis, uma dor insuportável apodera-se dele. Pensando que vai vomitar, Ennis encosta-se em um canto, mas termina por chorar escondido, esmurrando a parede, deixando explodir o sofrimento da separação. Ao perceber que é observado, vocifera para que o deixem em paz. Assim, o mais contido dos homens, chora desesperadamente por perder o seu companheiro, por voltar ao cotidiano da sua vida sem brilho, coberta pelos mistérios da sua existência.

Casamentos e Reencontros

Ennis Del Mar e Jack Twist seguem caminhos separados. A tênue cumplicidade adquirida entre os dois parece ter ficado presa no passado. A amizade que se estabelecera, não fosse o envolvimento emocional, perduraria como exemplo para toda a sociedade, e eles poderiam ser apresentados a todos sem qualquer culpa além da unidade fraterna. Mas o sentimento secreto de ambos, fazia que só existissem um para o outro, longe dos olhares do mundo.
Ennis Del Mar não tinha nada na vida. Perdera os pais muito cedo, sendo criado por irmãos que, à medida que se casavam, excluíam-no das suas vidas. Só lhe restava casar e construir a sua própria família. Assim, já com a marca de Jack fincada em seu ser, casa-se com Alma Beers (Michelle Williams). Construindo com ela uma vida simples, complementada pelo nascimento de duas crianças.
Jack Twist ainda debate-se com a sua solidão. No ano seguinte, conforme prometera ao amigo, volta para tentar trabalhar como pastor na montanha. É recusado por Joe Aguirre. Jack ainda pergunta por Ennis. A resposta do contratador é irônica, elucidando o jovem de que ele sabia o que se havia passado entre ele e o amigo. Jack nada responde. Segue errante o seu caminho pelos rodeios da vida. Atira-se por vezes a possíveis companheiros, sentindo-se rejeitado por sua homossexualidade cada vez mais latente. Por fim casa-se com a impulsiva Lureen Newsome (Anne Hathaway), filha de um rico comerciante de máquinas agrícolas. Gerará com ela um filho.
A vida de Ennis segue monótona, sem grandes sonhos. Assume o seu lar como um marido comum e bom pai de família. Trabalha muito em vários empregos rurais, ganha pouco, mas o suficiente para conduzir a sua vida modesta e simplória. Poderia viver assim para sempre, não fosse em 1967, quatro anos depois de ter trabalhado como pastor na montanha, receber um inesperado cartão postal de Jack, avisando que estaria na sua região, e se ele o queria ver. O mundo familiar de Ennis, construído sobre alicerce frágil, parece desmoronar. Como um sopro no coração, atende ao chamado de Jack, dizendo que sim, que queria vê-lo.
No dia marcado do encontro, Ennis prepara-se como um adolescente perdido. Pela primeira vez a dureza da vida, a maturidade precoce, dá passagem para um jovem sonhador, à espera do amor da sua vida. Ao lado da mulher, espera com uma ansiedade latente a chegada do amigo. Chega a dizer que não acredita que ele virá. De repente abre a cortina da janela, e lá está a caminhonete de Jack, mostrando que a vida tinha sido menos dura financeiramente com o amigo.
O reencontro de Ennis e Jack é convulsivo desde o primeiro instante. O contido Ennis, que guarda as emoções por anos, e que as explode em situações de brigas, sexo ou beijos, mostra-se um homem passional. Ao rever Jack, não se contenta com um simples abraço, inadvertidamente puxa-o para um canto e o beija com fúria ali mesmo. O contacto físico é à flor da pele e dos sentimentos, quase que de forma explosiva. Tão forte que ao se rodar o filme, Heath Ledger quase quebrou o nariz de Jake Gyllenhall em uma cena de beijo. Tão intenso, que deu ao filme o prêmio MTV Movie Award de melhor beijo.
Ao seguir o seu impulso, Ennis não se dá conta do quão insensato tinha sido o seu ato. Da janela da sua casa, Alma assiste ao beijo do marido e do amigo, descobrindo o seu segredo. Pela segunda vez o amor entre os dois é convertido em um segredo aberto. Se o momento é de felicidade extrema para Ennis, é o fim das ilusões de um casamento tranqüilo para Alma. O início do seu sofrimento, da sua tristeza solitária. Alma conviverá com o segredo do marido silenciosamente, sem nunca confessar que sabe. Passará a ser uma mulher triste e infeliz, presa à teia de uma infidelidade que jamais compreenderá. Michelle Williams compõe uma sofrida personagem, vítima do segredo do marido, da sua indecisão de viver uma escolha. A atriz foi nomeada ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante. Durante as filmagens, iniciou um relacionamento com Heath Ledger, que duraria dois anos, dando ao ator a sua única filha, Matilda Rose, sendo Jake Gyllenhall o padrinho da menina.

O Amor Clandestino

O reencontro de Jack e Ennis define para sempre o destino dos dois. Estão irremediavelmente destinados a viver aquele amor clandestino. Juntos, em um momento de intimidade incontida, Jack dá a sentença: “Brokeback Mountain nos pegou de jeito”. Não podiam mais fugir daquele sentimento.
Jack propõe a Ennis que abandonem suas vidas de casados e construam um rancho isolado, vivendo juntos para sempre. É quando Ennis revela o seu medo do mundo, de enfrentar a sociedade. Conta ao amigo que quando criança, na sua terra, um casal homossexual decidiu viver junto, sendo motivo de repulsa e hostilidade da comunidade. Um dia, o seu pai o levou para ver o cadáver de um deles, que fora assassinado, puxado pelo pênis e atirado em um canal de irrigação. O pequeno Ennis foi obrigado pelo pai a ver aquele cadáver, para que o filho compreendesse os valores morais e inabaláveis da sua comunidade. Ennis confessa que sempre suspeitara que o próprio pai cometera aquele crime ignóbil.
Revela a Jack que dois homens juntos jamais seriam aceitos. Que mais uma vez a vida os pusera juntos fora de hora, tarde demais. Mas que já não seguiria sem ele. Viveriam aquele sentimento clandestinamente, até onde se lhes fosse possível de agüentar.
O que Ennis não sabia é que agüentariam aqueles reencontros furtivos por toda a juventude dos dois. Encontrar-se-iam duas vezes por ano, fugindo para um acampamento na montanha, onde a força da natureza permitia que vivessem aquela paixão em segredo. Ennis e Jack só não sabiam que o seu segredo era mais frágil do que se imaginava. Assim como Joe Aguirre, também Alma sabia do amor proibido vivido pelos dois. Ennis pensa que engana o seu mundo, à sociedade em que está inserido, quando o segredo da sua verdade é compartilhado com outras tantas pessoas, que se calam por um ou outro motivo.

Separação e Decepção

Ennis construirá o sentido da sua vida baseado nos seus encontros com Jack, que se darão por toda vida. Ennis teme a sociedade, mas teme a si mesmo, pois não se consegue ver um homem homossexual. Para ele Jack é o único homem que aceita tocar, beijar, e amar. Longe dele não existe um mundo de opção sexual entre homens. Jack é mais que um ato sexual, é o amor na mais profunda cicatriz da existência, é o sentimento genuíno e revelador. É fácil para ele esperar cada dia pelo encontro, em que pode ser feliz sem medo, sem as pressões de uma vida sofrida e repleta de privações financeiras. Sem perceber, Ennis faz da esposa a mulher mais infeliz do mundo. Não enxerga o que se passa no coração feminino de Alma, porque ela não é o centro do seu universo, é a coadjuvante, a capa que o protege do mundo, que lhe possibilita amar o amigo sem ser confrontado pelas valias, dogmas e moralidades do mundo.
Por sua vez, Jack amadurece a sua homossexualidade. Vive-a sem medo. Corre os riscos, expõe-se sempre. Seu casamento não tem o mesmo peso do de Ennis. A mulher vive distante, mergulhada no seu mundo, deixando o marido livre para percorrer os labirintos do seu ser. Jack não tem o respeito do sogro, que o enxerga como um simples aproveitador. Limita-o dentro da própria casa, como se fosse um nada. Jack sonha em deixar aquela vida, aquela casa onde é um simples figurante. E Ennis está nos seus sonhos. É com ele que quer dividir um rancho, cuidar das suas próprias ovelhas. Jack não reprime a sua opção sexual. Ela é latente no seu ser. Longe de Ennis, ele procura bares em que homens se vendem por dinheiro. Vive encontros furtivos. Envolve-se com o vizinho, sem nunca deixar de ver Ennis. Por mais que tente, não consegue se libertar do velho companheiro. Segue a vida, preso às decisões de Ennis, sem poder realizar o seu sonho. Para aliviar o seu desejo latente, quando está longe, envolve-se com outros homens, sem jamais conseguir ir além do sexo. Os outros representam o ato sexual, Ennis é o amor vivido, o sentimento verdadeiro, a esperança do companheirismo eterno. Uma curiosidade é a cena em que Jack paga um homem no México para ter relações, o gigolô é vivido por Rodrigo Prieto, diretor de fotografia do filme.
Se a mentira de Ennis faz a infelicidade de Alma, ela um dia dá um basta naquela vida angustiada, sofrida e menor ao lado do marido, pedindo o divórcio. Alma voltaria a casar novamente, reconstruindo a sua vida longe do segredo do marido.
A notícia da separação reacende as esperanças de Jack, em ver finalmente, que poderia realizar o sonho de viver ao lado de Ennis. Tão logo sabe da separação, dirige apressado por longos quilômetros para ver o amigo. Ao chegar, é recebido com as limitações impostas por Ennis. Jack é recebido formalmente, pois as filhas de Ennis estão com ele no rancho. O recém divorciado pede ao amigo que parta, pois não via as filhas há um mês, e teria que ficar com elas naquele fim de semana. Ennis diz a Jack que tem que trabalhar para pagar a pensão às filhas, que jamais poderia abandoná-las.
Mais uma vez Jack acata as decisões do amigo. Parte com a certeza que jamais realizaria o sonho de viver ao lado de Ennis. Que está para sempre condenado a vir ao encontro dele, e a buscar sexo nos perigos da noite. As lágrimas rolam pelo rosto de Jack, enquanto ele dirige, como se com elas escorressem todos os seus sonhos. Pela primeira vez ele sente que se um dia realizasse o sonho de ser ele mesmo, de ter a paz vivida em seu rancho, teria que ser sem Ennis. Jack irá permitir-se envolver além do sexo com um vizinho.

O Último Encontro

O tempo passa. Ennis vive na completa solidão social. Em um jantar com Alma e com a sua nova família, ela insinua que sabe a verdade que o unia realmente ao amigo de pescaria. Ennis não suporta ouvir que outra pessoa saiba do seu segredo. Deixa a casa da ex-mulher furioso. Dirige com raiva, envolvendo-se em uma discussão com outro motorista, parte para cima do homem e descarrega nele toda a sua raiva diante de uma iminente revelação da sua vida particular. Agride com socos violentos o homem que por má sorte, cruzara o seu caminho.
Para manter a sua imagem viril, ele envolve-se com Cassie Cartwrigth (Linda Cardellini), jovem que trabalha no bar onde costuma comer.
Um novo encontro na montanha entre Jack e Ennis será decisivo. Juntos revisam as suas vidas. Ennis fala do seu namoro com Cassie, e Jack fala do dele com uma vizinha, o que é mentira, pois é com o marido dela que ele faz insinuações. Falar de mulheres é fundamental para Ennis, que vê naquele momento a sua virilidade não se esvair diante do amor que o prende a Jack. É um elo que o mantém firme à sociedade da qual se despe em frente à montanha.
Quando se preparam para partir, Ennis diz a Jack que só poderá revê-lo em novembro. Jack exaspera-se, perguntando o que tinha acontecido com agosto? Ennis explica que precisa trabalhar para pagar a pensão das filhas. Que já está a envelhecer, já não podia abandonar os trabalhos e seguir ao encontro do amigo. Os empregos já não lhe vinham com facilidade. Jack não se conforma. Uma longa discussão é estabelecida entre os dois. Ennis questiona o amigo se ele foi ao México atrás de outros homens, se ficasse sabendo da traição, era capaz de matá-lo. Jack explode, finalmente. Revelando que ia buscar o que nunca tinha, que não era como ele, que conseguia ter uma vida sexual apenas duas vezes ao ano. Questiona o que tinham de verdade, a não ser a montanha? Desfere finalmente a frase: “Quem me dera saber como te deixar”. Diante da revelação, Ennis desmorona, cai de joelhos a chorar, dizendo que por causa do que sente por Jack, não tinha mais nada na vida, não construíra nada além daqueles momentos, não tinha forças nem mesmo para suportar aquela situação. Jack aproxima-se de Ennis, sendo afastado por ele. Mas o amigo volta, abraço-o. Mais calmos, despendem-se. Ennis não sabe que será a última vez que verá Jack.
Ao ver Ennis partir, Jack revive um momento, preso em 1963, quando jovem, cansado pela labuta com as ovelhas, dormia em pé, em frente à fogueira, e Ennis abraçava-lhe por trás, como se quisesse protegê-lo da fadiga. Ennis sussurrava umas palavras aos ouvidos do amigo, depois partia para o alto da montanha. Os olhos de Jack voltam ao presente. Ele vê Ennis já maduro, partir na sua caminhonete. Jack sabe que é a última vez que o verá. Está decidido a viver o seu sonho de liberdade, numa casinha ao fundo do rancho dos seus pais. Viveria o seu sonho, ainda que não fosse com Ennis.

Em Busca das Cinzas

Passam os meses. Ennis recebe de volta o cartão que enviara a Jack para confirmar a próxima viagem. No postal o carimbo do correio diz “falecido”. Ennis desespera-se. Rompe as barreiras que impusera e telefona para a casa de Jack. Conversa com Lureen, que lhe relata sobre a morte do marido, supostamente em um acidente na estrada, quando ao trocar um pneu, este explodiu na sua cara. Imagens de Jack sendo assassinado são intercaladas, numa ambigüidade em que parece ter vindo da cabeça de Ennis, que vê o mesmo fim que levara o homem que supunha o pai tinha matado por ser homossexual, quando ainda criança; ou que, Jack tinha tido o mesmo fim. Lureen diz a Ennis que não sabia do seu endereço, por isto não lhe comunicou a morte do marido. Que o último pedido de Jack tinha sido para que as suas cinzas fossem espalhadas na montanha Brokeback, mas que ela não sabia onde era, o se o lugar existia realmente. Ennis revela que sim, a montanha existia. O silêncio de Lureen é como se lhe fosse confirmada uma suspeita que tinha em relação ao marido. Ela diz que tinha enterrado parte das cinzas de Jack, a outra parte enviara para os seus pais, em Lighting Flats, para que eles cumprissem o desejo final do marido. Sugere a Ennis que procure os pais de Jack, e cumpra o pedido do marido.
Ennis segue para o rancho dos pais de Jack. Diante da sociedade, não representa nada na vida do amigo. Não lhe conhecia o filho, a mulher, a vida paralela que tinha. Nada lhe era permitido, nem mesmo as cinzas do amigo, espalhadas onde deveriam estar, no lugar em que os dois construíram as suas vidas, existente em segredo, na face invisível da sociedade. Ennis vai resgatar o que lhe é permitido, as cinzas de Jack.
Ao chegar ao local, Ennis encontra um rancho pobre e decadente. É recebido pelos pais de Jack. O pai, John Twist (Peter McRobbie) traz as palavras duras e tacanhas de um homem sofrido e rude. Através dele, Ennis descobre que Jack jamais escondeu a sua existência dos pais. As palavras duras de John Twist revelam as frustrações de vida do filho morto. Conta que ele prometera um dia construir uma casa atrás do rancho, e que viria para ali morar com o amigo Ennis, e juntos iriam ajudá-lo. Revela que para o fim, traria um outro amigo, um vizinho do Texas, decisão que precipitara o seu fim. Ennis escuta todas as revelações em silêncio, como se visse nelas os sonhos desfeitos de Jack, sonhos que ele sempre soube da existência.
Se as palavras do pai são frias, o olhar da mãe de Jack (Roberta Maxwell) é cheio de cumplicidade e revelações de ternura. Ela sabe quem é o homem que está à sua frente, conhece os segredos do filho morto, o seu silêncio traduz que está diante daquele que realmente dera verdade à vida do filho. Diz a Ennis que vá até o quarto que fora de Jack, pois lá conserva tudo que lhe pertencera, desde criança. Tudo está como ele o deixou.
Ennis aceita entrar no quarto do amigo. Pela primeira vez percorre o mundo do companheiro além daquele que criaram e estabeleceram um para o outro. Olha todos os detalhes. De repente depara-se com duas camisas no armário. Encontra manchas de sangue sobre elas. Ennis reconhece as camisas, são as mesmas que Jack e ele traziam no último dia em que estiveram juntos em Brokeback Mountain, em 1963, quando brigaram e verteram sangue um do outro. O contraste entre as ações se intercala, a primeira vez que se atracaram sexualmente, como animais, Jack sentira necessidade de lavar a sua roupa no rio no dia seguinte. Quando verteram o sangue um do outro, era porque o sexo dera passagem ao amor, Jack guardou as camisas sem jamais as ter lavado, perpetuando através do seu sangue e do de Ennis, o amor que levaria para o resto da sua vida.
Ennis tem a certeza de que Jack sempre o amara, que assim como ele, sofrera com a separação. Encolhe-se ao canto do armário e, com lágrimas nos olhos, abraça-se à camisa de Jack, como se nela sentisse o seu cheiro. Como se abraçasse toda a sua vida, todos os seus segredos. De volta à sala, ele traz as camisas. Nada diz, mostra-as à mãe de Jack, que lhe acena permitindo-o levar aquela lembrança. Ela pega um saco e guarda as camisas, entregando-as a Ennis. Seu olhar diz que ela sabe que as camisas lhe pertencem, pois ao guardá-las sujas de sangue, respeitou a vontade do filho, segredo que ela como mãe, soube velar, e que a cada olhar lançado a Ennis, divide-o finalmente.
Nos últimos momentos da visita de Ennis, John Twist sentencia que as cinzas do filho serão enterradas no jazigo da família. Antes de partir, a mãe de Jack troca mais um olhar cúmplice com Ennis, pedindo a ele que volte, que venha visitá-los, como se estabelecessem um acordo velado para que se cumprisse o último desejo de Jack. Ennis acena que sim.

A Promessa Final

Na cena final, Ennis vive em um trailer. Jamais teve um fôlego financeiro, ou mesmo a liberdade de ser a sua essência. Ali, é visitado pela filha, Alma Jr (Kate Mara), agora com 19 anos. A filha revela-lhe que se vai casar, e pede para que ele a conduza até ao altar. Ennis pergunta se os dois se amam de verdade. Ela diz que sim. Ela tem a mesma idade que ele quando conheceu Jack e a verdade do amor.
A princípio Ennis, sempre estóico e contido, reluta em ir ao casamento da filha, alegando que tem que trabalhar. De repente percebe que dissera o mesmo a Jack, quando o viu pela última vez. É como se, não tivesse faltado ao encontro de agosto, o amado ainda pudesse estar vivo. Ennis diz que sim, que acompanhará a filha ao altar. A jovem parte feliz, com a certeza da presença do pai.
Ennis percebe que Alma Jr se esqueceu do suéter. Dobra-o, abre o armário para guardá-lo. Salta-nos a imagem das duas camisas penduradas na porta, desta vez com a de Ennis por cima da de Jack, ao lado, um cartão postal da montanha Brokeback. Ennis olha para as camisas, cuidadosamente abotoa a parte de cima da camisa que pertencera a Jack. Os olhos estão marejados. Com um olhar turvo, diz: “Jack eu prometo”. Endireita o postal da montanha e fecha a porta. A câmara é fixada na imagem da porta fechada. A música de Gustavo Santaolalla eleva-se. O filme é encerrado. O que prometera Ennis à memória de Jack? Que voltaria a visitar a sua mãe, trazendo-lhe as cinzas para a montanha Brokeback, juntando-as, futuramente às suas? Realizaria o sonho de Jack, unindo as suas cinzas as dele na montanha?
A composição longa do tempo gerou uma forte maquiagem nos atores, demasiados jovens para os anos que se lhe são impregnados. Se a imagem é pesadamente forçada, a essência do envelhecimento das personagens é magistralmente assimilada pelos atores. Jake Gyllenhall, tido como coadjuvante, ultrapassa em importância o papel, indo muito além do que lhe foi proposto, sem a sua personagem não há a outra, portanto não há coadjuvantes. Heath Ledger viveu o grande papel da sua vida, curta e rápida, sem tempo para outros grandes papéis. Viveu a juventude e a maturidade que a vida lhe negou através do olhar de Ennis Del Mar. O ator viria a falecer em 22 de janeiro de 2008, aos 28 anos.
O Segredo de Brokeback Mountain”, inicialmente previsto para ser sucesso em um circuito fechado, ultrapassou os preconceitos e as barreiras, atingindo grandes públicos. Sendo indicado para oito Oscars da academia, arrebatando três, inclusive o de melhor diretor. Recebeu o Leão de Ouro como melhor filme no Festival de Veneza, e o Globo de Ouro na mesma categoria. Apesar de ter sido barrado em vários países de cultura conservadora, transformou-se no oitavo filme romântico recorde de bilheteria nos Estados Unidos.
O pôster do filme foi inspirado no de “Titanic”, trazendo a instigante frase “O amor é uma força da natureza”.
O filme é essencialmente, o reflexo das escolhas que fazemos. Ao recusar viver com Jack, Ennis não temia somente os preconceitos da sociedade, mas também os seus próprios. Optara por uma vida em segredo, sem se aperceber que era um segredo aberto. Quantos não o sabiam? A sua mulher Alma, o patrão Joe Aguirre, a mãe de Jack. Quantos não suspeitavam? Tragicamente, Ennis escondia um segredo que só ele imaginava existir. O seu medo gerou a infelicidade de Alma, a vida errante de Jack, e quem sabe, a sua morte prematura. Ao fim, do que se escondeu Ennis Del Mar senão de si mesmo? Quem que sabia dos seus segredos ameaçou-o concretamente? Joe Aguirre apenas insinuou que sabia a Jack, mas nada fez para expô-los, estava mais preocupado com o bem estar das ovelhas do que com o relacionamento dos seus pastores. Não dispensou Jack por causa do preconceito, mas pelo prejuízo que julgou ter pelo ilídio amoroso dos dois. Alma calou-se impotente diante da verdade do marido, jamais aceitaria os sentimentos do marido, mas pior foi ter que conviver com tão pungente realidade todas às vezes que ele deixava tudo para ir ter com o amigo. Doía-lhe saber o que faziam de verdade nas fictícias pescarias. Por fim, os pais de Jack esperavam o dia em que o filho traria Ennis pelas mãos. Portanto o empecilho maior sempre esteve na mente de Ennis, que na escolha de viver uma vida em segredo, perdeu a única verdade da sua alma, fazendo da vida uma rara felicidade, vertida apenas ao pé da montanha Brokeback. Mas quem pode culpar Ennis? Em pleno século XXI, quantos não vivem os sentimentos à margem da sociedade? Quantos amores clandestinos não se tornam visíveis em leitos fechados e invisíveis à sociedade?

Ficha Técnica:

O Segredo de Brokeback Mountain

Direção: Ang Lee
Ano: 2005
Pais: Estados Unidos e Canadá
Gênero: Drama Romântico
Duração: 134 minutos / Cor
Título Original: Brokeback Mountain
Roteiro: Larry McMurtry e Diana Ossana, baseado no conto de Annie Proulx
Produção: Michael Costigan, Scott Ferguson, Michael Hausman, Larry McMurtry, Diana Ossana, William Pohlad e James Schamus
Música: Gustavo Santaolalla
Direção de Fotografia: Rodrigo Prieto
Direção de Arte: Laura Ballinger e Tracey Baryski
Produção de Design: Judy Becker
Decoração de Set: Catherine Davis
Figurino: Marit Allen
Maquiagem: Mary-Lou Green-Benvenuti, Linda Melazzo, Manlio Rocchetti, Penny Thompson e Sharon Toohey
Edição: Geraldine Peroni e Dylan Tichenor
Direção de Elenco: Avy Kaufman
Efeitos Especiais: Kelly Coe e Maurice Routly
Efeitos Visuais: Sarah Coatts, Jason Giberson, Ara Khanikian, Bruno-Olivier Laflamme, Jean-François Laffleur, Louis Morin, Alexandre Lafortune, Pierre-Simon Lebrun-Chaput, Chris Ross, Mathew Rouleau, Robin Tremblay e Mark Turesk
Som: Philip Stockton, Larry Wineland, Marko A. Costanzo, Michael J. Fox, Eugene Gearty, Kenton Jakub, Frank Kern, Drew Kunin, Avi Laniado, George A. Lara, Wyatt Sprague, Peter Melnychuck, Geo Major, Igor Nikolic, Relly Steele, Sara Stern e David Warzynski
Estúdio: Paramount Pictures / Good Machine / This is That Productions / River Road Entertainment / Alberta Filmworks Inc.
Distribuição: Focus Features / Europa Filmes
Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhall, Anne Hathaway, Michelle Williams, Randy Quaid, Linda Cardellini, Anna Faris, Scott Michael Campbell, Kate Mara, Cheyenne Hill, Brooklyn Proulx, Tom Carey, Graham Beckel, David Harbour, Mary Liboiron, Roberta Maxwell, Peter McRobbie, Valerie Planche, David Trimble, Victor Reyes, Lachlan Mackintosh, Larry Reese, Marty Antonini
Sinopse: Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhall) são dois jovens pobres que se conhecem no verão de 1963, quando contratados para cuidar das ovelhas de Joe Aguirre (Randy Quaid), na montanha Brokeback. Jack quer ser um astro de rodeios, enquanto que Ennis tenciona casar-se com Alma (Michelle Williams), tão logo regresse da montanha. Isolados por semanas, sobrevivendo a um ambiente inóspito e de penúria, os dois tornam-se cada vez mais amigos, até que iniciam um relacionamento amoroso. No término do serviço, cada um segue o seu caminho, mas permanecerão ligados para sempre, vivendo uma paixão clandestina por duas décadas.

Ang Lee

Ang Lee é um dos vários cineastas talentosos que Hollywood importou nos anos noventa. Nascido em Pngtung, Taiwan, em 23 de outubro de 1954, o cineasta, ator e produtor, teve a sua formação na National Taiwan College of Arts, concluindo-a na Universidade do Illinois, nos Estados Unidos, país para o qual se mudou em 1978.
Em 1983, casou-se com Jane Lin, com quem teve dois filhos nascidos nos Estados Unidos.
Ang Lee estrear-se-ia como diretor em 1992, com o longa-metragem “A Arte de Viver”. A consagração viria em 1993, com o filme “O Banquete de Casamento”, sendo indicado para o Globo de Ouro, além de arrebatar o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim.
Em 1994, outro filme seu receberia a indicação do Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, “Comer, Beber e Viver”. No ano seguinte traria para as telas um clássico da literatura, “Sense and Sensibility”, inspirado no romance de Jane Austen, desta vez contando com um elenco internacional luxuoso, com Emma Thompson e Hugh Grant.
Ao longo do tempo, Ang Lee foi acumulando grandes sucessos, como “O Tigre e o Dragão”, em 2000, sendo, com este filme, ovacionado no festival de Cannes. A consagração maior viria com o polêmico “Brokeback Mountain”, em 2005, com o qual ganhou os prêmios Globo de Ouro e Oscar na categoria de melhor diretor. Ang Lee é hoje um dos mais respeitados cineastas de Hollywood e do mundo.

Filmografia de Ang Lee:

1992 – Tui Shou (A Arte de Viver)
1993 – Xi Yan (O Banquete de Casamento)
1994 – Yin Shi Nan Nu (Comer, Beber e Viver)
1995 – Sense and Sensibility (Razão e Sensibilidade)
1997 – The Ice Storm (Tempestade de Gelo)
1999 – Ride With the Devil (Cavalgada com o Diabo)
2000 – Wo Hu Cang Long (O Tigre e o Dragão)
2001 – Chosen
2003 – Hulk
2005 – Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain)
2007 – Se, Jie (Desejo e Perigo)
2009 – Taking Woodstock
2011 – Life of Pi (pré-produção)

 


ATENA, A DEUSA DA SABEDORIA E DA GUERRA

julho 28, 2011

Atena (Minerva), deusa da sabedoria, da idéia civilizadora, da vitória nas guerras e da inteligência das estratégias, era uma das divindades mais importantes e cultuadas na Grécia antiga.
Na tradição mais aceita da lenda, Atena teria nascido do crânio de Zeus (Júpiter), herdando do pai a sabedoria roubada a Métis (Prudência). O mito de Atena interliga a sabedoria à castidade, o sexo escraviza o homem, atrai-lhe a paixão, desequilibra-o emocionalmente. A castidade constrói, alia-se à pureza do corpo e da alma, assim, entre os gregos, sabedoria e sexo opõem-se, prudência e bom senso aliam-se. Atena escolhe a virgindade como símbolo da sua sabedoria. Sendo uma das mais belas deusas do Olimpo, ela não cede aos assédios impetuosos e constantes dos outros deuses, mantendo-se casta.
Entidade guerreira, é justa nos campos de batalhas. Enquanto Ares (Marte), faz verter o sangue dos dois lados da guerra, Atena protege os justos, fazendo tombar os insensatos. Na concepção grega, os seus soldados são o mais próximos da filosofia da razão estratégica, os mais justos contra os outros povos beligerantes que os cerceiam, Atena é a protetora universal dos exércitos helenos. Na guerra de Tróia, manteve-se corajosamente ao lado dos gregos, enquanto que outras divindades olímpicas dividiram-se entre gregos e troianos.
Atena é a maior protetora da civilização grega, a mais nacionalista, a que mais contribui para o seu avanço, oferecendo àquele povo a oliveira, o leme, o tear e a flauta, simbolizando respectivamente o alimento (azeite), o progresso (como conduzir os barcos), o trabalho têxtil, e a arte, neste caso a música, essência da sabedoria daquele povo do extremo oriente do mar Mediterrâneo.
Deusa da sabedoria e da arte da guerra, Atena foi uma das entidades com mais representações na arte, deixando um legado de obras com temas envolvidos no seu mito, que vão desde o Partenon, em Atenas, até as famosas esculturas de Fídias. Em Roma, o seu mito foi assimilado ao de Minerva, não encontrando a mesma importância que adquiriu na Grécia. Deusa guerreira, traz sempre a lança em punho, às vezes o escudo, e, elmo divino na cabeça, transbordando o seu garbo sábio e justo.

As Várias Lendas Sobre o Nascimento da Deusa

O nascimento de Atena possuí várias versões, dependendo da lenda. Uma versão pouco difundida atribui a paternidade da deusa a Poseidon (Netuno), o senhor dos mares. A associação aos dois mitos explica-se por Atena ter nascido à margem de um lago, precedendo ao relâmpago e ao raio que trazem a chuva. É a deusa da luz antes da tempestade, que ilumina o céu antes de transbordar as suas nuvens, assim com Poseidon domina os mares e os seus maremotos. É a deusa do orvalho, elemento úmido que protege a agricultura contra o frio seco da noite. Os elementos úmidos da deusa dão a aproximação ao deus dos mares.
Noutra vertente da lenda, seria filha do gigante Palas, filho de Gaia (Terra). O mito de Atena e de Palas fundem-se não só como filha e pai, mas em um confronto entre a força e a manutenção da pureza casta. Palas teria tentado violar a deusa, que obstinada em manter o corpo intacto, matou-o e, ao esfolar a sua pele, fez dela o aigis, ou manto da virgindade. Além do manto, a deusa passa a demarcar a sua vitória sobre o gigante, usando o nome de Palas Atenas. Era através deste nome que seria invocada por todos os gregos quando lhe pediam a proteção para as suas cidades.
A tradição mais corrente do mito é a do seu nascimento através da cabeça de Zeus, o senhor dos deuses. Após vencer a guerra contra os Titãs e os Gigantes, Zeus tornou-se o senhor dos deuses e dos homens, tomando como primeira esposa Métis, a Prudência. Quando a deusa esperava o primeiro filho, Zeus soube através do oráculo de Gaia que nasceria uma filha. O oráculo profetizou ainda, que da segunda gestação nasceria um filho, que destronaria o pai. Preocupado, Zeus decidiu engolir a esposa. A seguir tomou a sua irmã Hera (Juno) como esposa. Pouco depois, ao encerrar o tempo de gestação da mulher engolida, Zeus, ao passear às margens do lago Tritônis, foi surpreendido por uma dor insuportável na cabeça, como se fosse espetado por uma lança. As pontadas tornavam-se cada vez mais fortes dentro da cabeça do imortal, fazendo o poderoso deus dos trovões emitir um grito que ecoou pelos céus e pela terra. Outros gritos de dor saltaram da boca desesperada do senhor dos deuses. Ao ouvir os gritos de Zeus, todos os deuses do Olimpo correram em seu socorro. Hermes (Mercúrio), o mensageiro dos deuses, ao ver a aflição de Zeus, saiu em busca de Hefestos (Vulcano), o ferreiro divino. O deus dos vulcões e do ferro, ao ver a cabeça do pai vibrando, como se dela quisesse sair algo muito grande, golpeou-a com um machado de ouro. Da ferida aberta por Hefestos surgiu uma mulher belíssima, empunhando o escudo e a lança, nos quais materializava o raio que iluminava a altura etérea e divina; vestia uma reluzente armadura, representando os meteoros e os fenômenos luminosos da natureza; e, ainda, o elmo de ouro na cabeça, reluzindo-lhe a proteção da inteligência diante das batalhas nas guerras. Naquele momento, o céu relampejou, o lago explodiu em ondas. Zeus ficou radiante com a beleza da filha surgida do seu crânio. Nascia a deusa da sabedoria e da guerra estratégica.
Em outra versão da lenda, Métis não seria a primeira esposa de Zeus, sendo Hera, a única, jamais a segunda. Seria uma das várias amantes do deus. Não teria sido o medo de um segundo filho e uma possível usurpação do trono divino que o afligia, que o teria motivado a engolir a amante; mas a condição da mulher na sociedade grega, visto que Métis era a deusa da prudência. Na civilização grega, a sabedoria não era uma das características atribuída às mulheres. Ao engolir Métis, Zeus, divindade masculina, tornou-se o mais sábio dos deuses, passando através dele, a sabedoria a Atena, divindade feminina. A deusa da sabedoria herdara do pai, jamais da mãe, o seu principal atributo.

A Criação da Oliveira

Ao ser associado à sabedoria, o mito de Atena contrasta com a sua função guerreira. Na visão grega, havia duas vertentes em uma guerra: a batalha, que representava a luta corporal, o sangue vertido, a utilização da força; e, a estratégia ou arte bélica, que define a vitória. Ares é o responsável pela batalha, pela força nela empregada, pelo massacre sem propósito. Atena é a deusa da arte bélica, da inteligência das estratégias, dos ideais elevados da luta, da vitória justa e racional diante do inimigo. É a deusa defensora perpétua dos gregos.
Além dos atributos bélicos, a deusa também era invocada como entidade agrícola. Não tem para si a responsabilidade de proteger a terra contra as calamidades da natureza, mas a de orientar, trazer da natureza benefícios para que se civilize o homem. Sua identificação com a natureza está no orvalho, pelo qual é a deusa responsável, elemento que protege a planta dentro do sereno noturno.
Também foi a deusa que ofereceu aos gregos a oliveira, ensinando-os a extrair da planta o fruto para o alimento e o óleo, utilizado na cozinha, na higiene corporal e na iluminação das casas e dos templos. Atena ensinou o homem a estocar o azeite e a azeitona durante o inverno, e a arte de vendê-lo aos outros povos. É atribuída a ela a confecção dos potes de barro, para o armazenamento dos alimentos. É a deusa dos oleiros, ensinando-os a guardar o óleo.
A associação de Atena com a oliveira remete à fundação da cidade que levaria o seu nome. Segundo a lenda, Cécrope ao fundar uma cidade na região da Ática, convocou os imortais do Olimpo para uma disputa, na qual o vencedor seria o protetor da cidade. Toda cidade grega tinha uma entidade como protetora, sendo a ela atribuída as funções de protegê-la nas guerras, nos temporais, nas colheitas dos alimentos e nos momentos de tribulações públicas. Poseidon e Atena foram os deuses que aceitaram o desafio proposto por Cécrope. Fizeram uma disputa acirrada, levando o povo da nova terra a ficar dividido em escolher um dos dois.
Na prova final, Cécrope pediu aos deuses que criassem alguma coisa útil para a cidade. Poseidon bateu o tridente no chão, fazendo jorrar na Acrópole uma fonte de água salgada, além de um esplêndido cavalo. Atena feriu a terra com a sua lança, fazendo dela brotar uma árvore repleta de pequenos frutos. A deusa ofereceu um ramo com os frutos a Cécrope, comovendo o soberano. Diante do povo, chamou a árvore de oliveira, ensinou como extrair o seu óleo e preparar o fruto como alimento. A cidade entendeu que a oliveira era mais importante para a cidade. Atena foi aclamada a protetora do lugar, que passou a ser chamado de Atenas, em homenagem a deusa e ao presente que se lhe oferecera aos seus habitantes. Desde então, tornar-se-ia a principal divindade da cidade de Atenas, influenciando o seu culto por toda a Grécia.

As Invenções Civilizadoras de Atena

Várias foram as atribuições civilizadoras legadas a Atena. Teria sido a deusa quem ensinara às mulheres gregas as técnicas de fiar, tecer e bordar. Atena era uma exímia tecelã, tecendo os mais belos bordados do Olimpo. A lenda que conta a história de Aracne reflete os dons da deusa. A mortal Aracne era filha de um modesto tintureiro de Cólofon. Tinha o dom de tecer os mais belos bordados de todos os mortais. Seu talento atraia todos os olhos, homens de toda a Grécia vinham ver e comprar os seus trabalhos. As Ninfas deixavam os bosques para admirar a beleza mágica dos mantos bordados pela mortal.
Sabedora do seu talento, Aracne proclamou-se a maior tecelã e bordadeira do mundo, dizendo-se superior à própria deusa Atena. A falta de modéstia da mortal irritou a deusa, que desafiada, aceitou tecer uma magnífica tapeçaria. Atena bordou os doze imortais do Olimpo, trazendo nas bordas do tecido, cenas em que os deuses puniam a irreverência dos mortais. Aracne bordou em sua tapeçaria os amores proibidos dos mortais pelos humanos, as traições e as vinganças. Ao fim da composição, não se sabia dizer qual a mais bela tecelagem. Aracne olhava para a sua obra, deslumbrada com a sua perfeição de mortal. Irritada com a falta de modéstia, Atena pegou a obra feita pela jovem, amarrotando-a e a rasgando. Ainda furiosa, feriu a jovem mortal com a agulha. Sentindo-se humilhada, a fiandeira tentou suicidar-se. Atena não permitiu que morresse, transformando-a em um pequeno animal que recebeu o seu nome, a aranha (aracne, em grego). Condenou-a tecer para sempre nas alturas, uma delicada teia que os ventos rasgam facilmente.
A lenda de Aracne, segundo historiadores, traduzia a rivalidade existente entre os atenienses e um povo originário da ilha de Creta, onde florescia uma crescente indústria têxtil primitiva.
Atena presenteara aos seus devotos outro significativo invento, o leme, para evitar que os barcos fossem à deriva das ondas e das correntes, não se perdendo pelas águas.
Para embelezar a vida dos humanos, Atena inventou a flauta, de onde a beleza da música era extraída. Uma lenda conta que ao apresentar o seu invento às deusas Hera e Afrodite (Vênus), foi motivo de riso, porque ao soprar o instrumento, as suas bochechas inchavam, deformando a sua beleza. Irritada, Atena arremessou a flauta do alto do Olimpo, amaldiçoando-a. O sátiro Mársias encontrou o instrumento musical, arrebatando para si a maldição. Mársias desafiou o deus Apolo com o seu instrumento. Ao ser vencido, foi esfolado vivo pelo deus da luz.

As Festas em Homenagem à Atena

Sendo amplamente cultuada em toda a Grécia, várias eram as festas oferecidas à deusa. Seu culto espalhou-se de Atenas, passando pela ilha de Rodes, chegando a Saís, no Egito. Possuía três grandes templos que lhe eram consagrados, sendo o mais suntuoso o Partenon, na Acrópole.
Na cidade de Atenas, da qual era protetora, a população celebrava em sua homenagem as Panatenéias, festas tradicionais, onde eram realizados torneios de música e poesia, lutas e corridas. Durante as festas, as mulheres iam em procissão até a Acrópole, levando um grande manto tecido pelas melhores tecelãs e fiandeiras da cidade; os jovens montavam fogosos cavalos; e, os mais velhos, traziam ramos de oliveiras para ofertar à deusa.
Nas festas Cálceas, Atena era homenageada juntamente com Hefestos. Ela como artesã e fiandeira dos mais belos bordados, ele como o artesão dos deuses, para quem confeccionava objetos de bronze e belas jóias. Na lenda que envolve os deuses, Hefestos deixara-se abater por uma grande paixão por Atena, mas foi repudiado pela deusa, que insistia em manter a sua castidade. Sedento de desejo, o deus a perseguiu, tentando violá-la. Ao encostar-se à pele macia de Atena, Hefestos não resistiu, ejaculando precocemente sobre a coxa da deusa. Satisfeito, ele partiu. Sentindo grande repugnância, a deusa limpou o sêmen com um pedaço de lã, atirando o pano ao chão. O fruto da violência de Hefestos fecundou Gaia, a Terra, que gerou um ser monstruoso, metade homem, metade serpente, sendo chamado de Erictônio. A deusa encerrou a criança monstro em um cofre, deixando-o aos cuidados da princesa Aglauro, filha de Cécrope, o rei fundador de Atenas. Aglauro teria sido transformada em pedra pelo deus Ares, deixando o cofre sozinho, sendo este encontrado pelas irmãs da princesa petrificada. Quando abriram o cofre, as princesas enlouqueceram ao ver o monstro recém-nascido, atirando-se do alto da Acrópole. Uma gralha branca assisitiu ao infortúnio das filhas de Cécrope, indo relatar a tragédia a Atena, que se encontrava no meio de uma batalha. No calor da luta, Atena revoltou-se, tingindo de negro as penas da ave, proibindo que as gralhas voltassem às proximidades de Atenas. A lenda evidencia a importância que o mito de Atena dá ao culto da castidade, preservada mesmo diante do assédio dos deuses.
Atena e Afrodite eram homenageadas simultaneamente durante as Arreforias, pelas jovens mulheres de Atenas. Durante a festa, as virgens prestavam homenagens à deusa casta, seguindo depois com oferendas à deusa do amor. Traduzida como festa do orvalho, unia o elemento feminino que revelava a vida da jovem mulher, ainda casta como Atena, mas pronta para ser iniciada nas malhas da proteção de Afrodite, a deusa do amor.
As Asquiforias, ao contrário das Arreforias, eram celebradas pelos rapazes, homenageando Atena e Dioniso (Baco). Eram realizadas quando as uvas começavam a amadurecer. Os rapazes levavam do templo do deus do vinho, ramos de videira ao santuário de Atena.
Havia ainda outras duas festas em homenagem à deusa da sabedoria, as Plintarias, que davam início às colheitas da primavera; e, as Esquiroforias, onde os participantes usavam guarda-sóis, simbolizando a proteção, assim como o orvalho, que protegia a lavoura contra a seca.

Representações de Atena nas Artes

Nas artes, Atena teve grandes representações, sendo mais significativas as esculturas atribuídas a Fídias (500? a.C. – 432? a.C.). Nenhuma escultura original chegaria aos tempos atuais, tendo apenas cópias. No maior templo consagrado à deusa, o Partenon, em Atenas, encontrava-se a Atena Partenos, escultura de Fídias, toda feita em ouro e marfim. A deusa é representada vestida com uma túnica, aberta em um dos lados, apertada na cintura. No peito tem a égide guarnecida de escamas, ladeada por serpentes, trazendo a cabeça da Górgona no centro. Na cabeça traz um capacete com a esfinge e dois grifos, animais metade leão, metade águia. Na mão esquerda porta a lança e o escudo, onde está representado o combate dos gregos contra as Amazonas; atrás do escudo a figura do monstro Erictônio. O braço direito está estendido para frente, sustentando uma pequena Nique (Vitória) alada, posta obliquamente, parecendo voar à frente da deusa. Uma versão moderna da estátua foi erigida na frente do parlamento austríaco.
Fídias representou a deusa sem armas, com expressão doce e graciosa, na estátua Atena Lemnia. Outra estátua atribuída ao famoso artista grego era a enorme Atena Promachos, que trazia a expressão bélica e altiva da deusa.
Outra representação famosa do mito, já com o seu nome na mitologia romana, é a renascentista têmpera sobre tela, “Minerva e o Centauro”, de Sandro Botticelli. A lenda de Aracne produziu grandes pinturas, como a de René Houasse.
As primeiras estátuas de Atena eram chamadas de paládios, onde se dizia, eram feitas com pedras caídas do céu. Outras representações do mito podem ser encontradas em objetos de cerâmica e potes de barro.

Minerva, a Deusa da Vitória Romana

Em Roma, o mito de Atena foi identificado com o de Minerva. Os romanos veneravam a deusa como protetora da oliveira, médica, divindade da vitória, inspiradora dos políticos e dos poetas.
Minerva recebia o culto de diversos poetas romanos, que se reuniam alegando receber inspiração da deusa. Grandes políticos prestavam cultos à deusa, como o imperador Augusto (63 a.C. – 14 d.C.), que lhe erigiu um templo na entrada da Cúria Júlia, onde era reunido o senado. Para os políticos romanos, a deusa inspirava sabedoria e bons conselhos aos senadores.
As festas mais famosas em honra a deusa eram chamadas de Minervais, ou Quinquatria. Durante as comemorações da festa, os estudantes ofereciam prendas aos professores, chamando os presentes de minerválias. Ainda na ocasião comemorativa, os principais lugares intelectuais da cidade eterna, como as escolas, os tribunais e as academias, permaneciam fechados, indo os seus membros homenagear a deusa.
Com o tempo, Minerva foi uma das deusas que mais perdeu as características romanas, assimilando por completo os traços helenísticos da deusa Atena. Nas artes, os artistas latinos limitaram-se a buscar inspiração nas lendas da deusa grega. Em Roma, Minerva jamais conseguiu a importância de Marte, outro deus bélico, que foi assimilado ao Ares grego. Ao contrário da civilização grega, que contrapunha a sabedoria e a estratégia bélica de Atena à destruição sanguinária e sem sentido do cruel Ares.


POEMAS LUSITANOS

dezembro 31, 2010

Portugal, último pedaço de terra da Europa ocidental. Ao longe… o mar! Pátria dos destemidos navegantes, que rasgando os oceanos, levou a língua e o sentimento lusitano para terras desconhecidas.
Portugal do fado. Da poesia. Da saudade. Tão estranha e solitária palavra, só existente em língua portuguesa, porque a saudade é genuinamente lusitana.
Das vinhas do Douro às cortiças do Alentejo, das ruas de Alfama aos labirintos noturnos do Bairro Alto. Em cada canto um poeta, utilizando da velha língua extraída da extinção do latim, do paganismo eclético, do cristianismo asséptico.
Portugal e sua gente eternamente saudosista, do ontem que se foi, do hoje que se esvai e do amanhã que se esgotará. Porque a saudade portuguesa é lei, é identidade, é a essência de um povo que sorri com as lágrimas.
Terra de grandes poetas, que destilam nas suas palavras a emoção à flor da pele, as dúvidas da existência, a constatação da vida.
Neste artigo faremos uma visita breve aos poemas lusitanos, aos poetas que ecoaram as suas palavras pelos quatro cantos do solo português. Da coragem épica de Luís de Camões, navegaremos pelo oceano do pai de todos os poetas de língua portuguesa. Da ribeira secular da cidade do Porto, atravessaremos o mar lírico de Sophia de Mello Breyner Andresen. Das montanhas geladas transmontanas, escalaremos as palavras de Miguel Torga. Da Lisboa eterna, cruzaremos as ruas estreitas do existencialismo de Fernando Pessoa e de David Mourão-Ferreira. Da beleza agreste do Alentejo, arrebataremos a poesia passional de Florbela Espanca. Do coração da Coimbra histórica, beberemos a mais doce melancolia de Al Berto.
Poetas lusitanos. As suas palavras dispensam qualquer análise, qualquer apresentação formal. Foram escritas para que sejam sentidas, na mais pura essência da emoção, do encontro do leitor com a alma do poeta.

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades – Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mais Triste do Que o Que Acontece – Fernando Pessoa

 

Mais triste do que o que acontece
É o que nunca aconteceu.
Meu coração, que o entristece?
Quem o faz meu?

Na nuvem vem o que escurece
O grande campo sob o céu.
Memórias? Tudo é o que esquece.
A vida é quanto se perdeu.
E há gente que não enlouquece!
Ai do que em mim me chamo eu!

Saudades – Florbela Espanca


Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem me dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Réquiem Por Mim – Miguel Torga

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Há-de Flutuar Uma Cidade… – Al Berto

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
á beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Paira à Tona de Água – Fernando Pessoa

Paira à tona de água
Uma vibração,
Há uma vaga mágoa
No meu coração.

Não é porque a brisa
Ou o que quer que seja
Faça esta indecisa
Vibração que adeja,

Nem é porque eu sinta
Uma dor qualquer.
Minha alma é indistinta
Não sabe o que quer.

É uma dor serena,
Sofre porque vê.
Tenho tanta pena!
Soubesse eu de quê!…

Escada em Caracol – David Mourão-Ferreira


É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

Tarde Demais – Florbela Espanca

Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu era nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
Porque chegaste tarde, ó meu Amor?!…

Súplica – Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto,
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Quando – Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Na Véspera de Nada – Fernando Pessoa

Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.

Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

Fotos: José Luís Mendes (1 Odisseia), Helena Margarida Pires de Sousa (2 Andei Léguas de Sombra), CrisSant (3 Vergonha), Daniel Pedrogam (4 In My Dreams, I Found Someone Like You), Marvimm (5 Única Saída), Thiago Phelipe (6 – , 7 A Carta), Paulo César (8 Faz-me Voar, 10 O Sabor da Tua Pele no Céu da Minha Boca), Gonzales (9 Untiled), Ugly (11 Apple Tree), DDiArte (12 Brainstorming)


RIO DE JANEIRO DO SÉCULO XIX

novembro 16, 2010

Desde que foi fundada pelo português Estácio de Sá, em 1 de março de 1565, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tornou-se local de importância estratégica, por estar no meio do território brasileiro na época do seu desbravamento e expansão das fronteiras. Crescendo como proeminente centro portuário e econômico, foi elevada à capital do Brasil, em 1763, quando o polêmico ministro Marquês de Pombal, transferiu para ali a sede da colônia, anteriormente em Salvador. Desde então, a cidade não parou de avançar política e economicamente. Com a chegada da família real portuguesa, em 1808, passou a ser a cidade de onde o reino de Portugal e Brasil eram administrados. Com a independência do Brasil, em 1822, passou a ser a capital do Império.
Pela sua importância política ao longo da história, o Rio de Janeiro foi a cidade que mais teve registros antigos de imagens. Muito antes da técnica da fotografia chegar ao Brasil, a cidade maravilhosa foi retratada em litografias, pinturas e aquarelas. Valeram-se da sua paisagem de beleza natural singular, situada na margem ocidental da baía de Guanabara, entre montanhas e morros, os mais importantes artistas do século XIX, entre eles Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas.
Graças aos artistas geniais que nos legou um rico acervo de paisagens pitorescas do Rio de Janeiro, podemos contemplar um passado distante, o pulsar de uma cidade movida pela beleza natural e pela essência da sua gente. Através das imagens das litografias de Debret, Rugendas, P. Bertichem, Maria Graham e Planitz, percorrermos ruas, casas e palacetes do Rio de Janeiro do século XIX, numa agradável viagem no tempo e à história de uma cidade de rara beleza natural.

Largo do Rocio, de Debret

Para fugir ao cerco de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa migrou para o Brasil, aqui desembarcando em 1808. A cidade do Rio de Janeiro passou a ser a sede administrativa do reino de Portugal e Brasil, aumentando freneticamente a sua importância, o desenvolvimento social e econômico.
Após a queda de Napoleão, Portugal e França reconciliaram-se. Por solicitação de Dom João VI, em 1816, chegou ao Brasil, vinda da França, uma missão artística comandada por Joachim Lebreton. Entre os artistas estava Jean-Baptiste Debret.
Debret viveu quinze anos no país, atravessando o período final do Brasil colônia à formação e fim do Primeiro Império. Durante o tempo que aqui esteve, estabeleceu uma relação emotiva e pessoal com o Brasil, registrando em sua pintura e desenho, a paisagem, o cotidiano, os costumes de uma jovem e recém-nascida nação. Por motivos de saúde, voltou à França em 1831. Em 1834 começou a publicar “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, num dos maiores documentos de imagens do Brasil do século XIX.
Na litografia aqui apresentada, “Real Teatro de São João, no Largo do Rocio”, podemos ver a vida pulular no coração da capital do Império. Escravos de ganho circundam o pelourinho, no lado direito. Senhores e senhoras bem vestidos transitam, concentrando uma multidão ao meio do Largo do Rocio, onde se encontra o Real Teatro de São João. A partir de 1831, o local e o teatro seriam rebatizados respectivamente como Praça da Constituição e Teatro Constitucional Fluminense. No decorrer dos anos, teriam os nomes mudados outras vezes, chegando aos tempos atuais como Praça Tiradentes e Teatro João Caetano.

Corcovado, de Maria Graham

Lady Maria Dundas Graham Callcott, foi uma notável pintora, desenhista, ilustradora e escritora britânica, que ficou conhecida no Brasil com Maria Graham. Em 1823 acertou com o imperador Dom Pedro I ser a preceptora da sua filha, a jovem princesa Dona Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Permaneceria no Brasil até 1826, quando a princesa retornou para Portugal.
No Rio de Janeiro residiu entre os belos casarões da enseada do Botafogo, lugar que considerava uma das mais belas paisagens do mundo.
Na sua passagem pelo Brasil, deixou registros preciosos da época, publicados em Londres, em 1824, na obra “Journal of a Voyage to Brazil and Residence There During Part of the Years 1821, 1822, 1823”.
Em “Corcovado”, a gravura de Maria Graham registra a beleza silvestre da cidade, do pico solitário, sem o marco do Cristo Redentor, ladeado das cores de uma flora tropical que tanto encantou a pintora.
“Todas as vezes que passo por um bosque no Brasil, vejo plantas e flores novas, e uma riqueza de vegetação que parece inexaurível. Hoje vi flores de maracujá de cores que dantes nunca observara: verdes, róseas, escarlates, azuis, ananases selvagens de belo carmesim e púrpura; chá selvagem ainda mais belo do que o elegante arbusto chinês, palmeiras de brejo e inúmeras plantas aquáticas novas para mim.”

Rua Direita, de Rugendas

Johann Moritz Rugendas, pintor alemão do século XIX, chegou ao Brasil em 1821, como desenhista da missão científica do barão de Langsdorff. Permaneceu no país por cinco anos, viajando por diversas regiões, coletando um rico material que registraria em suas pinturas e desenhos. Retratou com apurada beleza artística e científica a botânica, os tipos humanos, a paisagem física, a fauna e a flora do Brasil que ao sair da fase colonial, conservava os costumes em contraste com os tempos vindouros de uma nova nação.
Deixou o Brasil em 1826. Em 1835, publicaria as suas memórias de viagem através das litografias transpostas para o álbum “Viagem Pitoresca ao Interior do Brasil” (Voyage Pittoresque dans le Brésil).
Na litografia “Rua Direita” (Rue Droite), atual Rua Primeiro de Março, sente-se a pulsação no centro da capital do Império, desfilando vários personagens da cidade: senhores em seus trajes elegantes, escravos em suas funções seculares, padres, tropeiros, cavaleiros em seus cavalos, numa convulsão de cenas da vida cotidiana, tendo o morro do Castelo ao fundo, onde se pode observar um cavaleiro passando por baixo do arco de ligação entre o Paço e o convento do Carmo.
Sobre as edificações da parte antiga da cidade, Rugendas descreveria:
“As casas deste setor são, em geral, altas e estreitas; seus telhados são empinados e nada, em suas características construtivas, faz lembrar o clima tropical. Elas possuem, quase sempre, três ou quatro andares e apenas três panos de fachada. Como as janelas são muito alongadas, a desproporção que se observa entre a altura e a largura das casas se torna ainda mais chocante.”

O Palácio de São Cristóvão

Com a presença da corte no Rio de Janeiro, a cidade recebeu melhoras no saneamento e na urbanização. Com a ascensão de Dom João VI ao trono, em 1816, melhorou-se o calçamento das ruas; nivelou-se as principais artérias da cidade, favorecendo as ruas São José, do Ouvidor e da Cadeia; concluiu-se o revestimento de granito do Largo de São Francisco.
Entre as melhoras, estava o caminho percorrido pelo cortejo real, do Palácio de São Cristóvão ao Largo do Paço.
Aqui, duas litografias que apresentam a residência imperial de São Cristóvão em fases distintas. A primeira, “Residência Imperial de São Cristóvão”, é uma litografia aquarelada, de autor anônimo, de data imprecisa.
A segunda, “Paço de São Cristóvão de Pézerat”, foi desenhada pelo barão Karl Robert Planitz.
Pierre Joseph Pézerat, no Brasil Pedro José, foi um engenheiro politécnico francês, que chegou ao Brasil em 1825. Estudou na Escola de Belas Artes de Paris. Quando o Brasil declarou independência de Portugal, em 1822, era necessário que se fizesse obras de melhora na capital do Império. O francês tornar-se-ia arquiteto particular do imperador Dom Pedro I. Foi ele quem definiu o estilo do Palácio Imperial de São Cristóvão, acrescentando um pavilhão à casa de campo que já existia.
Pézerat daria estilo e elegância a várias residências da corte, entre elas a moradia da Marquesa de Santos. Seria condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul e com Ordem da Rosa. Após a abdicação e partida de Dom Pedro I para Portugal, em 1831, Pézerat também deixaria o Brasil, rumando para a Europa.

Águas Férreas, Colégio Episcopal de São Pedro e Alfândega, de P. Bertichem

Apesar de ter deixado registros preciosos do Rio de Janeiro do século XIX, Pieter Godfred Bertichen, pintor holandês, tem uma biografia escassa, sem que se lhe esclareça certas passagens de vida.
Contava com 41 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1837, vivendo no Brasil até a sua morte. Fez parte da Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes, em 1845, apresentando a pintura “Vista da Cidade do Rio de Janeiro Observada da Ilha dos Ratos”. Em 1856, publicaria “O Brasil Pitoresco e Monumental”, obra rara do Brasil do século XIX, contendo quarenta e seis paisagens litográficas.
Com o nome aportuguesado para Pedro Godofredo Bertichem, aparece muitas vezes grafado como P. G. Bertichem, ou simplesmente P. Bertichem.
Na primeira litografia de P. Bertichem, “Águas Férreas, Rio de Janeiro”, elegantes senhoras acompanhadas de um cavalheiro, estão paradas em frente a uma fonte, enquanto um sofisticado coche as aguarda. Debaixo de uma árvore frondosa, outro senhor aproveita-se da sombra. Na outra rua paralela, três crianças caminham em sentido contrário à fonte. A paisagem retrata a esquina formada pelas ladeiras do Pindura-Saia e Rua Indiana, onde existia uma fonte de água mineral ferruginosa, que deu origem ao nome pelo qual o local era chamado, Águas Férreas. No século XIX, visitar este ponto das Laranjeiras era um dos passeios prediletos dos habitantes da capital do Império.
Na litografia “Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara”, P. Bertichem retrata a luxuosa residência rural anteriormente conhecida como Quinta do Bispo. Em 1702, Dom Frei Francisco de São Jerônimo, segundo bispo do Rio de Janeiro, conseguiu do reitor do Colégio da Companhia de Jesus um terreno na sua fazenda do Rio Comprido, onde mandou edificar uma casa de campo e uma chácara de recreio. A casa ficou conhecida como Quinta do Bispo, sendo a sua arquitetura atribuída ao engenheiro José Fernandes Alpoim. Quando P. Bertichem fez a litografia, ali funcionava o Colégio Episcopal de São Pedro de Alcântara. Mais tarde, passaria a funcionar no local o Seminário São José. Debret também registrou o prédio, na litografia “A Grande Casa de Campo”, classificando-a como ideal “para dar uma idéia da mais nobre construção de uma antiga residência rural”. O prédio foi tombado, em 1938, como patrimônio histórico.
Na terceira litografia, temos “A Nova Alfândega do Rio de Janeiro”. Com edifícios novos e espaçosos, a então nova alfândega da capital do Império teve os seus armazéns erguidos na antiga praia dos Mineiros, tendo ao fundo o mar, abrindo-se para a atual rua Visconde de Itaboraí. A alfândega apresentava armazéns com condições de atender às crescentes necessidades econômicas do Império, que se sustentava através do trabalho escravo e da exportação do café.
Com o avanço das obras que mudaram por completo a paisagem urbanística do Rio de Janeiro, os prédios da então nova alfândega aqui retratados, foram demolidos, dando passagem à avenida Perimetral.
Para encerrar esta viagem pitoresca ao Rio de Janeiro do século XIX, vamos nos distanciar um pouco da cidade maravilhosa, desembarcando na vizinha Petrópolis, através do olhar generoso do holandês P. Bertichem, na litografia “Palacete Imperial de Petrópolis”. Este belo palácio foi construído entre 1845 e 1857, servindo como residência de verão da família imperial. A partir de 1940, o palácio foi transformado no Museu Imperial, trazendo em seu acervo ricas coleções de carruagens, armas e outros objetos que pertenceram à nobreza do Brasil Império.


PRÊMIO DARDOS (via Arquivo68)

outubro 31, 2010

Recebemos o Prêmio Dardos   Recebemos de Jarbas Novelino Barato, do Boteco Escola, o Premio Dardos. O prêmio tem como objetivo valorizar e incentivar o trabalho dos blogueiros.

via Arquivo68


GLÓRIA PEREZ – ENTRE O DRAMALHÃO E A DENÚNCIA

agosto 30, 2010

  Autora de grandes sucessos dentro da teledramaturgia brasileira, Glória Perez nem sempre consegue unanimidade diante da sua obra. Misto de Glória Magadan moderna com a essência de Janete Clair, a teledramaturga apresenta tramas que oscilam entre a denúncia social, o dramalhão rocambolesco, a investigação algumas vezes científica e o humor folhetinesco.
Uma das características da atmosfera das novelas de Glória Perez é o subúrbio carioca. Se Manoel Carlos representa a zona sul aburguesada do Rio de Janeiro, a Bossa Nova soprada como brisa musical, Glória Perez é a visão suburbana da zona norte carioca, a ascensão emergente, sem perder jamais a raiz de uma sociedade socialmente dividida, é o pagode como trilha sonora, sem jamais atingir o samba vindo do romantismo secular das misérias dos morros.
Folhetim na sua mais pura essência, as mulheres do universo de Glória Perez são sempre vítimas do amor e da sua condição na sociedade que contestam. Por três vezes suas protagonistas entregam-se ao amor proibido que renega as tradições, e conseguem maridos apaixonados que lhe escondem o ultraje, forjando o defloramento da amada diante da família conservadora, sendo o tema motriz de “Explode Coração”, “O Clone” e “Caminho das Índias”.
Um filão bastante explorado pela autora é o exotismo de diversas culturas, como a árabe, a cigana ou a indiana hindu. Cada cultura explorada é veementemente contestada por Glória Perez, muitas vezes de forma inconsciente. Todas as heroínas que retratam as suas culturas, rejeitam-nas, tornando-se vítimas delas, numa visão parcialmente de caráter cristão e ocidental.
Textos incoerentes contrastam com a preocupação da autora em trazer à tona assuntos polêmicos, como homossexualismo, alcoolismo, esquizofrenia e dependência química, muitas vezes abordados com profunda delicadeza, de uma forma contundente, redimindo a obra da autora das suas fantasias mirabolantes.
Glória Perez é uma autora controversa nos temas que escolhe para escrever, que mesmo quando não trazem textos brilhantes, não negam a sinceridade da sua alma, marcada por dores e tragédias profundas. Quando escreve, entrega-se ao trabalho quase como forma de respirar e exorcizar os males da sua existência. Suas novelas não são uma obra-prima da teledramaturgia brasileira, mas são as mais sinceras dentro do gênero, superando a razão incoerente da pressão das emissoras pela audiência. Só o tempo poderá dizer se a autora nos legou uma obra perene como fez Ivani Ribeiro e Janete Clair, ou também como elas, apenas entreteve o público da época em que escreveu e levou ao ar as suas fantasias.

Início Sob a Tutela de Janete Clair

Nascida no último território a ser incorporado ao Brasil, o Acre, Glória Maria Ferrante Perez, é oriunda da cidade de Rio Branco, vinda ao mundo em 25 de setembro de 1948. Da sua terra natal levaria o carinho que a iria homenagear quase seis décadas depois do seu nascimento, na minissérie “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, posta no ar em 2007.
Foi na TV Globo que se iniciou como roteirista e autora de telenovelas. Em 1979 escreveu um episódio do seriado “Malu Mulher”, protagonizado por Regina Duarte. O roteiro nunca foi gravado, ficando arquivado nas gavetas da TV Globo até que chegou às mãos da poderosa e genial telenovelista Janete Clair, em 1983. Entusiasmada com o texto da jovem autora, Janete Clair convidou-a para que a ajudasse a escrever aquela que seria a sua última novela, “Eu Prometo”, levada ao ar no segundo semestre de 1983.
Janete Clair pertencia a uma época em que a telenovela era escrita unicamente por seu autor, sem qualquer ajuda ou parceria. Ela manteve-se sem interrupção por dez anos, escrevendo sozinha, sucessivas histórias de grande audiência. No início dos anos oitenta, os autores começaram a reclamar da dificuldade em conduzir uma trama por mais de duzentos capítulos. A TV Globo passou a fornecer roteiristas colaboradores para os seus autores. Janete Clair resistiu à idéia, mas a sua debilitação física, causada pela árdua luta que travava contra um câncer, fez com que aceitasse um colaborador. A escolha recaiu sobre Glória Perez.
Eu Prometo” foi ao ar de 19 de setembro de 1983 a 17 de fevereiro de 1984. Teve como função resgatar o antigo horário das 22h00 para exibição de telenovelas, extinto em 1979, quando foi substituído por seriados e minisséries nacionais. Nos bastidores, circulava comentários que a TV Globo ressuscitara o horário para que Janete Clair pudesse escrever a sua última novela. A autora, apesar de bastante debilitada pelas cirurgias que se submetera na luta contra o câncer, insistia com a emissora para escrever a novela substituta de “Louco Amor”, de Gilberto Braga, levada ao ar em horário nobre. A direção da TV Globo achava o projeto arriscado, temia investir em uma produção no horário nobre e ter que substituir a autora na metade da trama. Instigada pela emissora, que apostava no ressurgimento das novelas daquele horário, Janete Clair aceitou o desafio. Teve à disposição um elenco de luxo, escalando os seus atores preferidos para protagonistas, Francisco Cuoco e Dina Sfat, apostando na bela Renée de Vielmond como a heroína da história.
O horário, por ser mais tarde, permitia maiores ousadias do que os outros, gerando uma grande expectativa no público, que esperava mais uma trama eletrizante da rainha das telenovelas, diante de um tema que não se havia explorado por causa da censura da ditadura militar, a política. Sobre Glória Perez pairava uma grande curiosidade, todos queriam saber quem era aquela que Janete Clair aceitara dividir a sua prestigiada escrita. Mas a novela foi uma decepção. A política foi retratada de forma superficial e caricata na figura de Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco), deputado de poucos escrúpulos, que ambicionava chegar ao senado. Casado com Darlene (Dina Sfat), mantém a relação apenas como fachada, pois não ama a mulher, mas a considera imprescindível para a construção da imagem de pai e marido exemplar. Seu moralismo dilui quando conhece a jovem fotógrafa Kelly Romani (Renée de Vielmond), com quem viverá uma grande história de amor. As filhas de Lucas e Darlene eram interpretadas por três jovens e promissoras atrizes: Fernanda Torres, Júlia Lemmertz e a estreante Malu Mader. Trazia ainda no elenco Joana Fomm, Walmor Chagas, Marcos Paulo, Ney Latorraca, Fúlvio Stefanini, Kadu Moliterno, Rosamaria Murtinho, Lúcia Alves, Cláudio Corrêa e Castro, Ewerton de Castro, Maria Padilha, Rogério Fróes, Inês Galvão, Heloísa Helena, Leonor Lambertini, Fernando Eiras e Ricardo Petráglia.
Janete Clair não chegaria ao final da novela, morrendo no dia 16 de novembro de 1983, deixando 60 capítulos escritos. Glória Perez assumiu a trama, sob a supervisão de Dias Gomes, na época marido da autora morta. Iniciava definitivamente a sua carreira de novelista, tendo como madrinha a maior de todas as novelistas. Um início naturalmente privilegiado. Glória Perez levaria a influência do universo de sonhos janeteclariano, mesclado com drama, humor, fantasia, tendo a denúncia social como um ínfimo pano de fundo.

A Decepção da Primeira Novela

Com o falecimento de Janete Clair e o afastamento de Manoel Carlos após deixar sem conclusão a novela “Sol de Verão”, devido à morte do protagonista Jardel Filho, no início de 1983, a TV Globo ficou desfalcada de autores no horário nobre. Optaram por investir em dois novos talentos, Glória Perez e Aguinaldo Silva, dando a eles a oportunidade de juntos, desenvolverem uma trama no horário nobre. O resultado foi a mal-sucedida “Partido Alto”.
Inicialmente chamada de “Quando as Mulheres Amam”, estreou em maio de 1984 com o título de “Partido Alto”. Cláudio Marzo, que desde “Véu de Noiva” (1969/1970), não protagonizava uma novela no horário nobre, foi a aposta da emissora. Também Elizabeth Savalla retornava ao horário nobre como protagonista. Outra aposta foi Betty Faria, que já estava escalada para a novela das 19h00 “Transas e Caretas”, de Lauro César Muniz, com o nome a aparecer inclusive nas chamadas, a atriz abandonou o projeto. Vindos do cinema, estavam Norma Benguell e Paulo César Pereio. Do teatro traziam Rubens Corrêa. Elenco de luxo, contando com Raul Cortez, Lílian Lemmertz, Débora Duarte, Suzana Vieira, Glória Pires, Eva Todor, Célia Helena, Herson Capri, Christiane Torloni e Jonas Mello.
Mesmo com um elenco constituído de grandes nomes, a história mostrou-se um fracasso, em um notável desequilíbrio de idéias dos autores, apesar de convergirem em muitos aspectos, principalmente na visão dos subúrbios cariocas comuns à obra dos dois. Aguinaldo Silva, jornalista de colunas policiais, tinha o estigma de autor de folhetins de inspiração policial. Era um dos roteiristas da série “Plantão de Polícia”, o que lhe impregnou ainda mais o estigma. O autor tenta mantê-lo na sua primeira novela, mas nenhum mistério resiste a mais de cinqüenta capítulos sem que se torne monótono. Glória Perez era cobrada como a sucessora de Janete Clair, o que a fez tentar assumir o universo da mestra, sem procurar desde o início uma identidade própria.
Partido Alto” trazia de volta o mundo da jogatina, da contravenção do jogo de bicho dos subúrbios cariocas, tema tão bem desenvolvido por Dias Gomes em “Bandeira Dois”, em 1971. O mundo obscuro de Célio Cruz (Raul Cortez), e das suas duas mulheres, Jussara (Betty Faria) e Isildinha (Célia Helena), não entusiasmou. Tão pouco o triângulo amoroso do correto professor Maurício (Cláudio Marzo), a rica Isadora (Elizabeth Savalla) e a sua aluna Celina (Glória Pires). Os melhores momentos da novela ficaram com as cenas de humor da fútil Gilda (Suzana Vieira) e do seu falso guru Políbio, vivido por um caricato Guilherme Karan. O ator iniciava uma amizade com autora, sendo futuramente, escalado em quase todas as suas novelas. Débora Duarte deixou a novela ainda no meio, quando foi escalada para protagonizar a sucessora de “Partido Alto”, “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga. José Mayer fazia a sua estréia em horário nobre, num papel que adquiriu um certo destaque durante a trama, dando visibilidade ao ator, até então um mero coadjuvante nas novelas globais.
A falta de equilíbrio entre os autores culminou com uma inevitável ruptura. Aguinaldo Silva abandonou a trama, sendo ela concluída por Glória Perez. A trama morna e mal alinhavada não agradou. O fracasso resultou no afastamento da autora da TV Globo. A emissora só voltaria a investir em uma história de Glória Perez seis anos depois.

Primeira Trama Genuinamente da Autora

Em 1987, a extinta TV Manchete apostou em uma grande produção, investindo em um texto de Glória Perez. Inspirada na novela de Prosper Mérimée e na ópera de Georges Bizet, as homônimas ”Carmen”, a autora decidiu adaptar para o contesto brasileiro a vida agitada da cigana espanhola que enfeitiçava e seduzia todos os homens à sua volta, levando-os à loucura.
Definido o tema, a novela “Carmem” surgia como o maior investimento da televisão brasileira naquele ano. Era preciso uma atriz de peso para viver a protagonista. Lucélia Santos, então contratada exclusiva da TV Globo, foi a escolhida. A atriz aceitou o desafio, rescindindo um contrato com a emissora carioca, onde usufruía uma confortável posição. A ousadia valeu um ostracismo, que lhe afastaria de vez do elenco estelar da TV Globo. Lucélia Santos quis romper de uma vez por todas com a imagem da sofrida escrava branca que a imortalizou pelo mundo na novela “Escrava Isaura”.
Na versão brasileira, Carmem, jovem ambiciosa, vinda dos subúrbios cariocas, fazia um pacto com a entidade Pomba-gira, prometendo servir-lhe para sempre, em troca teria o poder de sedução sobre todos os homens. Os preconceitos seculares e moralistas da sociedade de então, rejeitaram a personagem, que teve que sofrer algumas alterações em seu caráter, resultando na tradicional punição moral no fim da trama.
Além da ambição de Carmem e dos seus amores tempestuosos, a novela ousava tocar em um tema tabu na época, a Aids, ainda uma doença obscura sem qualquer tratamento médico. Numa época em que a infecção era um atestado de morte, havia uma grande rejeição e medo de se falar em Aids. Glória Perez o fez com maestria, uma característica que se tornaria peculiar na sua obra, falar sobre doenças físicas ou mentais. Apesar do grande investimento da TV Manchete na divulgação e produção, nos bons índices de audiência alcançados, a novela não se tornou um grande marco da televisão brasileira. “Carmem” foi a primeira obra genuinamente de Glória Perez, definindo-lhe o estilo e provando que era uma autora de fôlego dentro do folhetim televisivo. O elenco trazia astros e estrelas da TV Globo, como José Wilker, vindo direto do sucesso de “Roque Santeiro”. Trazia de volta a atriz Darlene Glória, afastada dos bastidores depois que se convertera a uma religião evangélica. Apostava no talento de jovens atores, como Paulo Betti e Paulo Gorgulho, e assegurava-se com a experiência de Theresa Amayo, Beatriz Segall, Selma Egrei, Luís de Lima, Luiz Carlos Arutin, Rosita Thomaz Lopez, Roberto Bonfim, Miriam Pires, Vanda Lacerda, Hélio Souto, Guilherme Karan, Nélia Paula, Maurice Vaneau, José Dumont , Neuza Borges, Odilon Wagner, Júlia Lemmertz, Bia Sion e Eduardo Tornaghi.

De Volta à TV Globo

A volta de Glória Perez à TV Globo deu-se em 1990, em uma minissérie de 17 capítulos, “Desejo”. Inspirada em fatos reais, a história conta um dos crimes mais famosos do Brasil, a do escritor e jornalista Euclides da Cunha, ocorrida em 1909, após uma troca de tiros com Dilermando de Assis, amante da esposa Ana.
Glória Perez recompôs os passos de Euclides da Cunha na semana que antecedeu à sua morte. Casada com Euclides da Cunha, a bela Ana apaixona-se pelo jovem Dilermando, vivendo com ele uma relação adúltera. Descobertos pelo marido, os dois são confrontados por ele. Uma tensa discussão resulta na troca de tiros que mata Euclides. Dilermando é preso, julgado e absolvido, casando-se com Ana. Mais tarde seria a vez do filho de Euclides da Cunha tentar vingar o pai. A tragédia volta a rondar o casal, em um confronto, o filho vingativo é morto por Dilermando, que mais uma vez é preso e absolvido em julgamento.
A produção de “Desejo” reconstituiu com primor a época da tragédia. O triângulo amoroso encontrou consistência nas brilhantes atuações de Tarcísio Meira, Vera Fischer e Guilherme Fontes. Texto bem conduzido, “Desejo” foi uma das mais belas séries já feitas pela televisão brasileira. Quando exibida, sofreu críticas dos descendentes de Dilermando e Ana, sendo bem aceita pelos descendentes de Euclides da Cunha. Marcou a volta de Glória Perez à emissora carioca.
O sucesso de “Desejo” levou a TV Globo a liberar uma sinopse de Glória Perez que estava arquivada há cinco anos. Ainda em 1990, ia ao ar “Barriga de Aluguel”, trama que levantava a polêmica em questões morais e jurídicas que se viram obsoletas diante dos avanços da ciência. Ana (Cássia Kiss) e Zeca (Victor Fasano), um casal jovem e bem sucedido vive o drama de não poder realizar o sonho de um filho, devido a problemas biológicos. Para concretizar o sonho, decidem contratar a barriga de uma mulher para gerar o óvulo fecundado de Ana. A escolhida é Clara (Claudia Abreu), jovem em dificuldades financeiras. Por uma quantia pré-estabelecida, Clara aceita alugar a barriga. Fecundada com o material genético de Ana, Clara sente-se presa à criança no seu ventre, passando a ter amor por ela. Quando dá à luz, recusa-se a entregar o recém-nascido. O caso vai parar na justiça. Quem era a verdadeira mãe, a biológica ou a que engravidou e teve a criança? A questão foi inteligentemente abordada pela autora, sendo analisada em todos as suas vertentes: a científica, a moral, a social e a jurídica.
O horário de exibição da novela, às 18h00, limitou o debate e a polêmica, mas não lhe tirou o questionamento social e científico.
A aposta no elenco foi ousada, o que possibilitou a ascensão de algumas carreiras, como Cássia Kiss, Cláudia Abreu e Humberto Martins, que viveram aqui os seus primeiros protagonistas. Outros já estreavam como protagonistas, como Victor Fasano, que viria a ser uma presença constante nas novelas da autora, e Jairo Mattos. A aposta em um elenco jovem revelou uma constelação de futuros talentos, como Denise Fraga, Tereza Seiblitz, Eri Johnson, outro que passaria a freqüentar as tramas da autora, e, Daniela Perez, filha de Glória Perez, em sua estréia na TV Globo. O elenco contou com grandes interpretações de Renée de Vielmond, Beatriz Segall, Mário Lago, Leonardo Villar, Adriano Reys, Sura Berditchewski, Francisco Milani, Lady Francisco, Lúcia Alves, Nicole Puzzi, Anilza Leoni, Sonia Guedes, Vera Holtz, Wolf Maya, Regina Restelli, Paulo César Grande e Emiliano Queiroz.
Barriga de Aluguel” foi a novela mais consistente de Glória Perez. A que teve um enredo comovente e bem desenvolvido, sem perder em momento algum o foco da temática abordada. A construção psicológica das personagens foi a mais elaborada dentro das tramas da autora. Mesmo quando a emissora pediu que se aumentasse o número de capítulos, não perdeu o interesse ou se assistiu a um enredo arrastado.

Tragédia Real Supera a Ficção

Com o sucesso de “Barriga de Aluguel”, Glória Perez voltaria ao horário nobre da TV Globo, com a novela “De Corpo e Alma”, em 1992, numa co-produção com a então recém inaugurada emissora portuguesa SIC (Sociedade Independente de Comunicação). O folhetim contava a história do juiz Diogo (Tarcísio Meira), de integridade inquestionável, vivendo um casamento de aparências com Antonia (Betty Faria). A vida do juiz vira do avesso quando ele decide viver o seu amor por Betina (Bruna Lombardi). Mas a família e os seus valores, pesam na hora da decisão e Diogo abandona Betina. Desesperada por causa do abandono, a jovem dirige o seu automóvel, lançando-se em um acidente que lhe rouba a vida. Naquele momento, a jovem Paloma (Cristiana Oliveira), agoniza em um hospital, à espera de um transplante de coração que lhe possa salvar a vida. O coração de Betina salvará a jovem da morte. Ao saber do transplante, Diogo persegue a jovem, apaixonando-se por ela, ou pelo coração da amada Betina.
Dramalhão denso, arrastado, sem o vigor de “Barriga de Aluguel”, a novela irritou Tarcísio Meira, que chegou a pedir para o seu personagem ser eliminado, por considerá-lo chato e sem atrativos. Antonia, primeira personagem de Betty Faria depois de ter vivido a estonteante protagonista de “Tieta”, desagradou às feministas, que a consideravam por demais submissa. Cristiana Oliveira, elevada à estrela da TV Manchete após o sucesso de “Pantanal”, fazia a sua estréia na TV Globo. A troca de crianças na maternidade foi abordada pelo casal vivido por José Mayer e Maria Zilda. Pela primeira vez era mostrado um clube de strippers, pondo o homem como objeto de prazer para a mulher. Victor Fasano e Guilherme Leme emprestavam os seus corpos atléticos para as personagens. Controversa foi a figura do gótico Reginaldo (Eri Johnson), que perambulava pelos cemitérios recitando poemas, enquanto que adorava Yasmin (Daniela Perez), com um retrato da musa estampada no seu quarto. As visitas de Reginaldo às tumbas atraíram aos supersticiosos, atribuindo a ele a tragédia que se iria abater sobre a autora.
No dia 28 de dezembro de 1992, a atriz Daniela Perez, filha de Glória Perez, foi assassinada pelo colega de trabalho Guilherme de Pádua, com quem vivia um romance na trama. O crime chocou o Brasil. Nunca na história da teledramaturgia brasileira havia acontecido tão dantesca tragédia. Abatida, Glória Perez foi substituída por Gilberto Braga e Leonor Basséres, que escreveram os capítulos onde sumiam as personagens de Daniela Perez e Guilherme de Pádua. Uma semana depois de perder a filha, Glória Perez voltou a escrever a novela, atirando-se de cabeça ao trabalho para aliviar a dor da perda. As motivações do crime jamais foram esclarecidas no todo. Daniela Perez tinha 22 anos e estava a desenvolver o seu maior trabalho na curta carreira de atriz.
De Corpo e Alma” entrou para a historia da teledramaturgia não pelo seu texto ou conteúdo, mas pela tragédia que resultou na morte de Daniela Perez. Fechou os seus capítulos com a tristeza de um drama real que superou a sua ficção. Além dos atores citados, o elenco contava ainda com Renée de Vielmond, Stênio Garcia, Nathália Timberg, Beatriz Segall, Carlos Vereza, Fábio Assunção, Ewerton de Castro, Vera Holtz, Eva Todor, Neuza Borges, Marilu Bueno, Aracy Cardoso, João Vitti, Tonico Pereira, Hugo Carvana, Márcia Real, Ida Gomes, Mário Lago, Marcelo Picchi, Hugo Gross, Carla Daniel, Paolette, Eduardo Caldas, Marcelo Faria e Lizandra Souto.

O Universo dos Ciganos e Uma Velha História de Janete Clair

Em 1995, Glória Perez começaria um ciclo de temas a explorar povos e costumes. Com “Explode Coração”, iniciava a sua saga através dos costumes e hábitos do povo cigano. Sua heroína Dara (Tereza Seiblitz) foi inspirada na vida real de uma cigana. Apesar de trazer o mundo cigano para a pequena tela, a visão de Glória Perez é negativa aos costumes, uma vez que os contesta através dos sofrimentos da sua heroína que se rebela contra eles. Dara quer estudar, romper com as velhas tradições do seu povo e entregar-se a um “gadjô”, ou não cigano. As cenas de amor entre Dara e Júlio (Edson Celulari), desagradaram à cigana na qual Glória Perez se inspirara, fazendo que ela movesse um processo contra a autora, sem que lhe causasse grandes polêmicas ou conseqüências jurídicas. Nos desencontros com o amor da sua vida, Dara é obrigada pela família a se casar com o cigano Igor (Ricardo Macchi), que apaixonado por ela, simula a virgindade da amada, apresentando à família o próprio sangue nos lençóis nupciais.
A novela desenvolveu uma campanha social em prol das crianças desaparecidas, ajudando a encontrar algumas na vida real. Numa época em que a internet era pouco difundida no Brasil, a autora promoveu o encontro de Dara e Júlio através do veiculo digital, então uma grande novidade, distante da realidade do povo.
Explode Coração” não apresentou nenhuma novidade, afinal a temática sobre a vida dos ciganos tinha sido explorada desde a época de Glória Magadan na TV Globo. Trama morna, cumpriu a função de entretenimento. Ricardo Macchi, ao viver o cigano Igor, um dos protagonistas, atraiu para si o estigma de que um rosto bonito era totalmente avesso ao talento, sendo rejeitado em muitos trabalhos futuros. Viver Dara não consolidou a carreira de Tereza Seiblitz, que desde então não teve nenhuma personagem de destaque na televisão. Renée de Vielmond, após a novela, deixaria a televisão por mais de uma década. Outro erro de escalação de elenco foi a do ator Floriano Peixoto para o papel do travesti Sarita Witt, que desenvolveu uma personagem caricata, não se sabendo se era um transformista ou um travesti. Destaque para o casal Lucineide e Salgadinho, vivido com humor magistral por Regina Dourado e Rogério Cardoso. Ainda no elenco Eliane Giardini, Laura Cardoso, Maria Luisa Mendonça, Françoise Forton, Paulo José, Cássio Gabus Mendes, Deborah Evelyn, Herson Capri, Helena Ranaldi, Nívea Maria, Reginaldo Faria, Elias Gleizer, Cláudio Cavalcanti, Débora Duarte, Stênio Garcia, Ester Góes, Rodrigo Santoro, Zezé Polessa, Leandra Leal, Isadora Ribeiro, Gracindo Junior, Daniel Dantas, Felipe Folgosi, Guilherme Karan, Odilon Wagner, Lady Francisco, Eri Johnson, Ivan de Albuquerque e Paula Burlamaqui.
Em 1998, Glória Perez deixava um pouco os folhetins novelescos, escrevendo uma outra minissérie de grande sucesso, “Hilda Furacão”, inspirada no romance homônimo de Roberto Drummond. A série trazia a instigante trajetória de Hilda Furacão (Ana Paula Arósio), personagem real, filha de uma tradicional família mineira, que escandalizou a sociedade ao fugir no dia do seu casamento, refugiando-se em um prostíbulo, tornando-se a prostituta mais desejada de Belo Horizonte na década de 1950. Hilda será a responsável pelo conflito do jovem Maltus (Rodrigo Santoro), que sonha ser um frade dominicano, dividindo-se entre os princípios da castidade e a atração pelo corpo de Hilda.
Hilda Furacão” marcou a estréia de Ana Paula Arósio na TV Globo, sendo de imediato elevada à estrela da emissora. Outra estréia foi a de Thiago Lacerda, que vivia Aramel, jovem que sonhava ser galã de Hollywood. No ano seguinte, Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda conquistariam o Brasil e o mundo ao viverem o par romântico da novela “Terra Nostra”, de Benedito Ruy Barbosa. Outro destaque foi para o trabalho de Matheus Nachtergaele, vivendo o travesti Cintura Fina, também personagem real, assim como a prostituta Maria Tomba-Homem, magistralmente interpretada por Rosi Campos. Danton Mello viveu Roberto Drummond, autor do livro. Glória Perez conseguiu desenvolver uma história de sucesso, que prendeu o telespectador, transformando-se em um clássico das minisséries brasileiras. O elenco contava com a presença rara na televisão do genial Paulo Autran.
Para encerrar a década, Glória Perez escreveria, ainda em 1998, uma nova versão da novela “Pecado Capital”, clássico de Janete Clair, levada ao ar pela primeira vez em 1975. Apesar de trazer novas personagens, a trama ficou aquém da magia do universo de Janete Clair, passando despercebida do grande público. Eduardo Moscovis e Carolina Ferraz, que vinham de um grande sucesso como par romântico na novela “Por Amor”, ganharam os papéis de Carlão e Lucinha, vividos na primeira versão por Francisco Cuoco e Betty Faria. Francisco Cuoco retornou a esta versão, vivendo o rígido Salviano Lisboa, interpretado em 1975 por Lima Duarte. A trama narra a ascensão social de Carlão e Lucinha, casal apaixonado que vive modestamente em um subúrbio do Rio de Janeiro. Ele é um taxista, ela operária de fábrica. Um dia Carlão leva em seu táxi um casal que assaltara um banco, na pressa em fugir da polícia, eles esquecem a mala com o dinheiro do assalto no assento do carro. Carlão usa o dinheiro para enriquecer, enquanto que Lucinha é descoberta por um caçador de talento, tornando-se famosa como modelo. Na ascensão social o casal se perde, ela vivendo uma história de amor com o milionário Salviano Lisboa, ele casando-se com Eunice (Cássia Kiss), a mulher que ajudara o amante a assaltar o banco e esquecera o dinheiro no táxi de Carlão.
Na versão de 1998, há um desequilíbrio total entre Francisco Cuoco, já muito envelhecido para o papel, e Carolina Ferraz, que não consegue fazer a lapidação cultural que Lucinha sofre, conservando a essência suburbana, mais próxima de Carlão e não de Salviano. Diante da falta de química entre o casal, Glória Perez foi obrigada a mudar o original, criando uma personagem para viver um romance com o Salviano de Francisco Cuoco. Surge Laura, interpretada por Vera Fischer. Nesta versão, Lucinha volta para Carlão e para as suas raízes. A novela peca por dar uma atmosfera suburbana arraigada à trama, algo que não se vê na obra de Janete Clair, que ao escrever sobre os subúrbios cariocas, impregnava uma estrutura universal, com personagens carismáticos, trazendo o romantismo do samba carioca, enquanto que Glória Perez traz a essência do pagode que só se encontra no subúrbio do Rio de Janeiro, longe de um aspecto mais universal. “Pecado Capital” foi em 1975, responsável por um dos maiores sucessos de público da carreira de Débora Duarte, vivendo a louca Vilminha. Paloma Duarte fez o mesmo papel da sua mãe na versão de 1998, sem que o telespectador identificasse o carisma de tão complexa personagem.
Pecado Capital” de Glória Perez foi um sopro frustrado na grandiosidade da beleza da novela de Janete Clair, considerada a mais realista da sua obra. Glória Perez, que começara a década de noventa com a inesquecível e genial “Barriga de Aluguel”, terminava a mesma década ofuscada pelo fracasso de “Pecado Capital”. Ainda no elenco a inesquecível Zilka Salaberry, Alexandre Borges, Thaís de Campos, Floriano Peixoto, Thiago Lacerda, Marcos Winter, Leandra Leal, Marcelo Serrado, Tato Gabus, Betty Lago, Roberto Bonfim, André Valli, Suely Franco, Jackson Antunes, Pedro Paulo Rangel, Íris Bruzzi, Darlene Glória, Mario Lago, Camila Pitanga, Luís Mello, Othon Bastos, Oswaldo Loureiro, Lúcio Mauro, Guilherme Karan, Aracy Cardoso, Marco Ricca, Eri Johnson, Mara Manzan, Jiddu Pinheiro e Claudia Liz.

O Islamismo Como Tema

A maior obra de Glória Perez viria em 2001, “O Clone”, uma das mais bem sucedidas novelas da televisão brasileira. Mais uma vez a autora questionava os avanços morais em contraste com a evolução da ciência. A clonagem humana, aliada à cultura islâmica e o mundo devastador da droga, fizeram da trama uma das mais bem conduzidas e carismáticas da teledramaturgia.
Quando a autora apresentou a sinopse à direção da TV Globo, encontrou grande resistência, pois muitos não acreditavam na proposta. A produção teve problemas desde a escolha da direção à escalação dos atores. Denise Saraceni, inicialmente prevista para comandar a direção, não gostava do islamismo como tema. Luiz Fernando Carvalho não se adaptava ao estilo da autora. A terceira e acertada opção foi Jayme Monjardim, que além de uma bela direção, trouxe uma apurada trilha sonora, feita especialmente para a trama. Os papéis de Jade e Lucas (que se dividiria em três), foram feitos pensando em Ana Paula Arósio e Fábio Assunção, os atores alegaram cansaço, não acreditando nas personagens. Letícia Spiller também recusou fazer Jade. A direção apostou no talento de Giovana Antonelli, vinda do sucesso de “Laços de Família”, de Manoel Carlos, onde interpretou a prostituta Capitu. Coube a Murilo Benício viver os gêmeos Lucas e Diogo, e o seu clone Leo.
Lucas é um jovem sonhador, que se apaixona por Jade, uma jovem muçulmana. Logo no início perde o irmão gêmeo Diogo, morto em um acidente. Diogo era o preferido do pai Leônidas (Reginaldo Faria), e do geneticista Albieri (Juca de Oliveira). Na tentativa de trazer a vida de volta, Albieri, à revelia de Lucas, clona as suas células, trocando os embriões de Deusa (Adriana Lessa), mulher negra, que sem saber, gera e dá à luz ao clone de Lucas. Os costumes islâmicos e as adversidades separam Jade e Lucas, que se casam com Said (Dalton Vigh) e Maysa (Daniela Escobar), respectivamente. Vinte anos depois surge Leo, o clone, trazendo a juventude e os sonhos perdidos de Lucas, inclusive o amor preso no tempo que Jade tinha por ele. Lucas torna-se rival do seu próprio clone.
Burlesca, cientificamente improvável, a novela atraiu pelo exotismo do mundo islâmico ser aludido com grande pompa. A estréia em 1 de outubro de 2001, causou grande apreensão devido à tragédia das torres do World Trade Center em Nova York, ocorrida menos de um mês antes. O terrorismo por parte de idealistas islâmicos fez a curiosidade do povo aumentar. Jade é a visão ocidental do mundo islâmico, a sua renúncia diante dos costumes árabes traz a visão negativa do islã por parte da autora, que ao pôr as dúvidas na heroína, rejeita veementemente a cultura. Jade entrega-se ao ocidental, ficando nas mãos de um marido apaixonado que simula a sua virgindade para a família. Said, o marido apaixonado, representa a tradição dos costumes, por isto torna-se o vilão da história, o que se opõe ao amor ocidentalizado, aos princípios judaico-cristãos. O seu amor não serve para a heroína, que repudia os costumes da sua gente.
Noutra vertente da trama, surge o mundo obscuro das drogas, vivenciado pela doce Mel (Débora Falabella). Nunca o tema foi tão profundamente analisado em uma novela como aqui. Glória Perez foi magnífica, conseguindo levar através de depoimentos verdadeiros, um pouco do sofrimento do submundo das drogas. Islamismo e drogas fizeram o tema da clonagem coadjuvante, suportável nas suas falhas mirabolantes, brilhante na contestação moral, encerrando com Albieri, criador do clone, desaparecendo com ele ao seu encalce pelo deserto, sem saber em que lugar do mundo situá-lo.
Elenco bem escalado, texto empolgante, “O Clone” foi a obra maior de Glória Perez. Ainda no elenco Vera Fischer, Stênio Garcia, Nívea Maria, Letícia Sabatella, Jandira Martini, Antonio Calloni, Eliane Giardini, Marcelo Novaes, Cristiana Oliveira, Mara Manzan, Neuza Borges, Osmar Prado, Victor Fasano, Beth Goulart, Marcos Frota, Francisco Cuoco, Roberto Bonfim, Luciano Szafir, Cissa Guimarães, Thiago Fragoso, Myrian Rios, Guilherme Karan, Sebastião Vasconcelos, Carla Diaz, Françoise Forton, Elizangela, Thais Fersoza, Eri Johnson, Juliana Paes, Totia Meirelles, Raul Gazolla e Perry Salles.

Passagem Pela América, Amazônia e Índia

Após o sucesso de “O Clone”, gerou-se uma grande expectativa na estréia da novela “América”, em 2005. Imigração para os Estados Unidos e o mundo dos rodeios foram as temáticas da novela, com pitadas de cleptomania, deficiência visual e homossexualismo. Apesar dos ingredientes, “América” mostrou-se morna e sem carisma. Elenco que não se afinava, obrigando a autora a modificar o destino dos protagonistas. Sol, a heroína vivida por Deborah Secco, carregou na sua história todos os dramas colhidos de depoimentos de imigrantes reais, tornando-se insuportavelmente caricata e longe da realidade. As experiências interessantes, se distribuídas por várias personagens, não contaminariam a verve real. A maior expectativa da trama foi o prometido primeiro beijo homossexual levado ao ar no Brasil, entre os personagens vividos por Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro, que deveria acontecer no último capítulo. A cena foi escrita e gravada, mas por causa do moralismo da TV Globo, não foi ao ar, causando frustração, com protestos nos principais jornais do país no dia seguinte à exibição do capítulo. Os defensores dos animais fizeram protestos contra os rodeios exibidos na novela, chegando a atingir pessoalmente a autora com mensagens ofensivas em sua página na internet.
América” romperia com a parceria entre Jayme Monjardim e Glória Perez. O diretor foi afastado da novela ainda nos primeiros capítulos. “América” não empolgou o público brasileiro. No seu todo, passou despercebida e sem acrescentar grandes glórias à carreira dos atores e da autora. Deborah Secco teve um dos mais cansativos papéis da carreira. Faziam parte do elenco Murilo Benício, Christiane Torloni, Edson Celulari, Thiago Lacerda, Caco Ciocler, Nívea Maria, Betty Faria, Francisco Cuoco, Humberto Martins, Camila Morgado, Eva Todor, Jandira Martini, Paulo Goulart, Mariana Ximenez, Marcelo Novaes, Marcos Frota, Gabriela Duarte, Daniela Escobar, Floriano Peixoto, Neuza Borges, Claudia Jimenez, Lúcia Veríssimo, Murilo Rosa, Victor Fasano, Rosi Campos, Matheus Nachtergaele, Eri Johnson, Simone Spaladore, Rodrigo Faro, Raul Gazolla, Silvia Buarque, Sâmara Felippo, Chico Diaz, Bete Mendes, Duda Nagle, Luis Mello, Cacau Melo, José Dumont, Solange Couto, Roberto Bonfim, Bruna Marquezine, Juliana Paes, Paula Burlamaqui, Ailton Graça, Regina Dourado, Cleo Pires, Walter Breda, Rodrigo Hilbert, Juliana Knust, Marisol Ribeiro, Totia Meireles, Marcelo Brou, Guilherme Karan, Anderson Muller, Fernanda Paes Leme, Viviane Victorete, Lucy Mafra, Christiana Kalache, Lucas Balbin e Rafael Calomeni.
Em 2007, Glória Perez assinou mais uma minissérie, “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”. Desta vez ela retornava às origens, contando a história da sua terra, o Acre, último estado a ser integrado a União. Produção sofisticada, com cuidadosa reconstituição de época, elenco de peso, cenas gravadas no Amazonas e Acre, belas imagens da selva amazônica e bastidores de épico. A série foi dividida em três fases, começando em 1899, no auge do ciclo da borracha, com a conquista do Acre aos bolivianos, passando pela decadência dos seringais, fechando com a história do seringueiro Chico Mendes. A saga do Acre é contada cronologicamente em cem anos. Glória Perez inspirou-se nos romances “O Seringal”, de Miguel Jeronymo Ferrante e, “Terra Caída”, de José Potiguara.
Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”, apesar de apresentada com tiragens de épico, não conseguiu a beleza intimista e psicológica de “Desejo”, tão pouco a força explosiva e dramática de “Hilda Furacão”. Mostrou-se visualmente magnífica, com grandes interpretações, mas seca em arrancar grandes emoções, apesar de tramas com grande pujança. Talvez o desequilíbrio na duração das três fases, ou no excesso de capítulos para uma obra fechada, 52 ao todo, o que lhe dá uma sensação de novela, contribuíram para que uma produção de tão grande qualidade não apaixonasse o telespectador, que se manteve morno até o fim. José Wilker viveu o mítico herói acreano Luiz Galvez, Alexandre Borges fez o personagem histórico Plácido de Castro, e Cássio Gabus Mendes foi o líder Chico Mendes, compondo a espinha dorsal da trama. Ainda no elenco Vera Fischer, Irene Ravache, Christiane Torloni, Débora Bloch, José de Abreu, Giovana Antonelli, Regina Casé, Antonio Calloni, Cláudio Marzo, Matheus Nachtergaele, Paulo Betti, Victor Fasano, Humberto Martins, Emílio Orciollo Neto, Dan Stulbach, Letícia Spiller, Zezé Polessa, Caio Blat, Pedro Paulo Rangel, Diogo Vilela, Tereza Seiblitz, Lima Duarte, Vanessa Giácomo, Francisco Cuoco, Paulo Goulart, Leopoldo Pacheco, Cristiana Oliveira, Marcos Winter, Totia Meireles, Silvia Buarque, Leonardo Medeiros, Marcelo Faria, Ruth de Souza e Tato Gabus.
Em 2009, mais uma cultura seria retratada por Glória Perez, a indiana, tema de “Caminho das Índias”. Ao contrário do que aconteceu com a cultura islâmica abordada em “O Clone”, a cultura indiana não apaixonou o brasileiro. Por meses a novela amargou com baixa audiência. Sistema de castas, intocáveis, viúvas lançadas à fogueira, excesso de deuses para que se adorasse, fizeram a distância intransponível entre a realidade brasileira e a fantasia ali descrita. Uma Índia completamente folclórica, com famílias abastadas, longe da miséria que assola aquele país asiático, dos conflitos entre várias religiões, que atravessam desde o hinduísmo ao islamismo, a Índia da trama de Glória Perez só existiu nos estúdios da TV Globo. O maior agravante foi o branqueamento do povo indiano, fazendo dos atores meros estereótipos de uma cultura.
A novela ganhou audiência quando o núcleo do confuso Raul (Alexandre Borges) e da bela psicopata Yvone (Letícia Sabatella), forjaram a morte do milionário, em um golpe que prendeu o telespectador. A fogosa Norminha (Dira Paes) e o seu marido corno magnífico Abel (Anderson Muller) foram outro grande atrativo. A esquizofrenia, abordada através de Tarso (Bruno Gagliasso), também foi outro filão que não empolgou. Glória Perez ainda tentou introduzir depoimentos reais sobre esquizofrenia, recurso utilizado em “O Clone”, mas o pouco carisma da trama não permitiu que se estendesse por muitos capítulos. Os núcleos brasileiros salvaram a fantasia indiana da novela, garantindo que ela não se afundasse. Maya, a heroína vivida por Juliana Paes, foi um clone mal-sucedido de Jade, sem o carisma e força contestadora da outra. Bahuan, o protagonista da trama vivido por Márcio Garcia, foi rejeitado na primeira semana, quase que se tornando o vilão da trama.
Durante a exibição da novela, Glória Perez foi submetida a uma cirurgia na tiróide, acusando um câncer, o que levou a direção a chamar Carlos Lombardi e Elizabeth Jhin para prestar ajuda à autora, escrevendo algumas cenas. Desequilíbrio de elenco, excesso de fantasia e de informações apresentadas, contribuíram para que a novela não atingisse o fascínio de “O Clone”. Curiosamente, o burlesco da trama mostrou-se apoteótica aos jurados norte-americanos, que lhe atribuíram o prêmio Emmy Internacional, em novembro de 2009. Uma vitória para as telenovelas brasileiras em época de pouca criatividade e safra pouco empolgante. Ainda faziam parte de um elenco de luxo Tony Ramos, Christiane Torloni, Lima Duarte, Laura Cardoso, Rodrigo Lombardi, Vera Fischer, Débora Bloch, Humberto Martins, Eliane Giardini, Nívea Maria, Caco Ciocler, Osmar Prado, Eva Todor, Maitê Proença, Elias Gleizer, Marjorie Estiano, Tânia Khalil, Stênio Garcia, Antonio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Odilon Wagner, Victor Fasano, Totia Meireles, Cléo Pires, Isis Valverde, Flávio Migliaccio, Murilo Rosa, José de Abreu, Mara Manzan, Jandira Martini, Ricardo Tozzi, Duda Nagle, Silvia Buarque, Chico Anýsio, Marcius Melhem. André Gonçalves, Danton Melo, Betty Gofman, Maria Maya, Julia Almeida, Claudia Lira, Rosane Gofman e Java Mayan.

OBRAS

Telenovelas:

1983/1984 – Eu Prometo (colaboradora de Janete Clair) – TV Globo
1984 – Partido Alto (co-autoria com Aguinaldo Silva) – TV Globo
1987/1988 – Carmem – TV Manchete
1990/1991 – Barriga de Aluguel – TV Globo
1992/1993 – De Corpo e Alma – TV Globo
1995/1996 – Explode Coração – TV Globo
1998/1999 – Pecado Capital (2ª versão novela de Janete Clair) – TV Globo
2001/2002 – O Clone – TV Globo
2005 – América – TV Globo
2009 – Caminho das Índias – TV Globo

Minisséries:

1990 – Desejo – TV Globo
1998 – Hilda Furacão – TV Globo
2007 – Amazônia – De Galvez a Chico Mendes – TV Globo

Seriados:

1998 – Mulher (co-autoria) – TV Globo
2003 – A Diarista (episódio piloto) – TV Globo


A ESTRELA DALVA DE OLIVEIRA

julho 20, 2010

Se hoje a Música Popular Brasileira é essencialmente feita de grandes vozes femininas, nem sempre foi assim. Numa época em que eram dominantes as poderosas vozes masculinas, como a de Francisco Alves, surgiu Dalva de Oliveira, com os seus agudos fulminantes e voz de cantora lírica, que ao adaptá-la para o canto popular, tornou-se a primeira grande voz feminina da MPB.
Dalva de Oliveira surgiu na época de ouro do rádio, do glamour dos palcos dos grandes cassinos cariocas, no despertar do cinema nacional. Alcançou grande popularidade antes legada a Carmem Miranda. Se a Pequena Notável tinha o carisma, a originalidade e alegria diante dos palcos e das câmeras de cinema, Dalva de Oliveira tinha a voz, o drama e a emoção à flor da pele. Antes dela, nenhuma voz feminina alcançou tão arduamente o coração do brasileiro.
Porte de estrela, trazia consigo o estigma do destino infeliz das grandes divas, fazendo da sua emoção um dos cantos mais límpidos, belos e sinceros que já ecoaram pelo Brasil.
A Estrela Dalva, como era conhecida, numa alusão poética e tipicamente brasileira ao brilho ilusório do planeta Vênus, Dalva de Oliveira passou por todos os estágios que constituem uma vida farta de emoções e densidade dramática. Foi menina pobre, a lavar roupas nas soleiras dos cortiços, faxineira, costureira, cantora de circo, grande estrela da MPB, conheceu os lugares mais luxuosos do mundo, teve o Brasil aos seus pés, alcançou fortuna, perdeu-se nos labirintos do álcool, sofreu um acidente que lhe deixou uma grande cicatriz a lhe rasgar o rosto e a saúde debilitada, passou por amores atribulados, criou grandes polêmicas envolvendo sua vida amorosa, foi mãe, dona de casa, amante, mulher.
No fim da vida foi legada ao ostracismo, num cruel esquecimento de um país que pouco cultiva os seus ídolos. No ano da sua morte, em 1972, alcançou um último fôlego, voltando a mídia de então, quando se apresentou no Programa Silvio Santos, então apresentado pela poderosa TV Globo, onde ganhou um concurso de marchinhas de carnaval daquele ano. Quase nada para uma estrela, mas muito para quem teve poucas vezes os holofotes da televisão. Meses depois, Dalva de Oliveira voltou à mídia, mas para fazer a sua despedida lenta e agonizante, em uma internação hospitalar que durou meses. No momento da sua agonia, o Brasil voltou a idolatrá-la. Seu público fiel fez filas na porta do hospital. No dia 30 de agosto de 1972, Dalva de Oliveira morreu. O Brasil parou para homenageá-la. Milhares de pessoas acederam ao seu velório e enterro, gerando um momento de comoção nacional. Era o último adeus do povo brasileiro à Estrela Dalva.

Infância Pobre e Ligada à Musica

Em 5 de maio de 1917, nascia na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo, Vicentina Paula de Oliveira, primogênita do mulato Mário Antônio de Oliveira e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira.
Na infância pobre da menina Vicentina faltaram as bonecas, os brinquedos, mas não a música. O pai marceneiro ou carpinteiro, conforme lhe queiram classificar a profissão, era músico amador, que nas horas de folga tocava em serenatas ao lado dos amigos músicos, com quem chegou a organizar um conjunto para animar festas particulares. Mário Carioca, como era chamado, costumava ser acompanhado pela filha nas serenatas que promovia, e, reza a lenda, teria cantado com ele várias vezes em cima de um banquinho. Já desde cedo o contacto da futura cantora com a música estava estabelecido.
Além de músico e festeiro, Mário Carioca era conhecido pela facilidade de fazer filhos, tendo uma prole de cinco rebentos. Além de Vicentina, vieram mais três meninas, Nair, Margarida e Lila, e um menino, que nascera com a saúde debilitada, morrendo ainda criança. Mário Carioca também deixou a família muito cedo, vindo a falecer quando Vicentina tinha apenas oito anos.
Viúva, sem recursos financeiros e com quatro filhas para criar, dona Alice mudou-se para a cidade de São Paulo, empregando-se como governanta. Por esta época, conseguiu vaga para as filhas no Internato Tamandaré, dirigido por irmãs de caridade. No internato, entre as adversidades da vida, mais uma vez Vicentina teve contacto com a música, tendo ali aulas de piano, órgão e canto. A vida no internato durou três anos, quando a menina foi obrigada a sair, ao ser acometida de uma grave infecção nos olhos, que quase a deixou cega.
A presença de Vicentina na casa onde a mãe estava empregada não foi bem aceita pelos patrões, sendo ela demitida. Alice conseguiu emprego em um hotel, trabalhando como copeira, passando a contar com a ajuda da filha.
Logo cedo, Vicentina começou a trabalhar como arrumadeira, babá ou ainda como ajudante de cozinha de restaurantes, desenvolvendo grande talento para cozinhar, hábito que não abandonaria mesmo quando já era uma estrela da MPB. Foi numa das suas perambulações para sobreviver e ajudar a mãe, que se empregou em uma escola de dança, tendo ali contacto com um piano e com a música, uma constante em sua vida, quase como uma sina sem livre arbítrio. Depois que encerrava os trabalhos domésticos na escola de dança, costumava cantar algumas músicas, tentado tirar as melodias do piano da escola.

Nasce a Estrela Dalva nos Palcos de Um Circo

A ligação de Vicentina com a música crescia, assim como a sua voz, cada vez mais potente. Na escola de dança, um dia seria ouvida pelo maestro pianista, sendo por ele convidada para cantar na trupe de um circo de tablado, comandada por Antônio Zovetti.
Tendo a mãe sempre do lado, Vicentina passou a acompanhar o Circo Damasco, que percorria várias cidades do interior paulistano. A cantora apresentava-se nos intervalos das atrações circenses, sendo solenemente apresentava como “a menina prodígio da voz de ouro”.
Antônio Zovetti evitava-lhe chamar pelo nome, pois o considerava pouco sonoro para uma cantora. Por sugestão da mãe, Vicentina passou a usar o nome de Dalva. Desde então, passou a ser anunciada calorosamente: “A doçura da voz da menina prodígio, a estrela Dalva”. Nascia uma das mais cintilantes estrelas do firmamento da música brasileira.
As viagens do circo levaram a então Dalva, em uma bem-sucedida apresentação em Belo Horizonte. Na capital mineira, foi induzida a fazer um teste na Rádio Mineira, sendo aprovada. Mas a aprovação no rádio coincidiu com a dissolução do Circo Damasco, e Dalva e a mãe foram obrigadas a retornar para São Paulo.
Na capital paulistana, Alice foi aconselhada a levar a filha para o Rio de Janeiro, pois lá teria mais condições de ascender como cantora, visto que era dona de uma voz privilegiada e de um talento latente, pronto para explodir.

Início nas Rádios e nos Teatros

Em 1934, as filhas de Mário Carioca voltaram a morar todas com a mãe. Juntas, seguiram para o Rio de Janeiro, em busca de dias melhores. Na capital federal foram morar em um quarto de cortiço na Rua Senador Pompeu.
No Rio de Janeiro, Dalva empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos. Mais uma vez, o seu destino cruzou-se com a música. Um dos donos da fábrica era Milton Guita, conhecido pela alcunha de Milonguita, diretor da Rádio Ipanema. Dalva tinha o hábito de cantarolar enquanto trabalhava, sendo ouvida uma vez por Milonguita. O radialista convidou-a para um teste na Rádio Ipanema, no qual foi aprovada. Começava uma peregrinação pelas rádios do Rio de Janeiro, que futuramente, transformaria a cantora na Rainha do Rádio.
Da Rádio Ipanema, Dalva de Oliveira transferiu-se consecutivamente para a Rádio Sociedade e Rádio Cruzeiro do Sul, cantando ao lado do mítico Noel Rosa. Passou ainda, pela Rádio Philips, desembocando na Rádio Mayrink Veiga. Foi nesta rádio, que o então diretor Adhemar, levou- à presença do respeitado maestro Gambardella. O maestro encantou-se com o potencial da sua voz, pronta para ser uma grande cantora lírica. Mas Gambardella deu-lhe um conselho sábio, que seguisse carreira como cantora popular, visto que ser cantora lírica exigia recursos financeiros, e que uma moça pobre dificilmente conseguiria projeção em um universo tão fechado e sem futuro no Brasil da época.
Dalva de Oliveira prosseguiu a sua trajetória rumo ao sucesso. Passou pelo Teatro Glória, sendo figurante e corista em várias operetas. No Largo da Cancela, Dalva apresentou-se em números imitando a atriz Dorothy Lamour. Participou da temporada popular da Casa do Caboclo, do Teatro Fênix, numa roda viva constante em busca de um lugar ao sol, de poder mostrar para o Brasil a estrela que havia dentro dela.
A caminhada não lhe era fácil. Continuava a viver com a mãe e as irmãs na mais completa miséria em um cortiço carioca. A sua vida iria mudar definitivamente, quando, em 1936, conheceu o jovem cantor e compositor Herivelto Martins.

O Trio de Ouro

Reza a tradição que o encontro entre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins deu-se no Cine Pátria, no Largo da Cancela, em São Cristóvão. Na época o cantor formava a dupla Preto e Branco, ao lado de Nilo Chagas, o preto da dupla. Originalmente, Francisco Sena era o parceiro de Herivelto Martins, tendo morrido em 1935, foi substituído por Nilo Chagas.
O encontro resultaria em alguns números de Dalva de Oliveira com a dupla. A seguir, Herivelto Martins foi contratado para trabalhar no Teatro Fênix. Sentindo-se atraído pela beleza da voz da jovem, e pelos seus olhos verdes cismadores e fatais, o rapaz propôs-lhe que viesse cantar com a dupla, formando o trio que chamaram de Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco. Juntos, gravaram, em 1937, pela RCA Victor, o primeiro disco, um compacto com as músicas “Itaquan” (Príncipe Pretinho) e “Ceci e Peri” (Príncipe Pretinho).
Dalva de Oliveira e Herivelto Martins iniciavam uma grande parceria musical, e uma tórrida história de amor, que marcaria para sempre as suas vidas. A marchinha “Ceci e Peri” tornou-se um grande sucesso. Quando Dalva de Oliveira ficou grávida do primeiro filho, os fãs escreviam ao casal, pedindo que a criança ao nascer fosse batizada de Ceci, se menina, ou de Peri, se menino. Assim foi feito, quando nasceu um menino, recebeu o nome de Pery Ribeiro, que mais tarde, assim como os pais, tornar-se-ia cantor da MPB.
Contratado pela Rádio Mayrink Veiga, o trio ao apresentar-se no programa de César Ladeira, mudaria de nome, quando o apresentador afirmou que aquele era um trio de ouro. Nascia o mítico Trio de Ouro.
Contratados pela Odeon, gravaram os primeiros discos com o Regional de Benedito Lacerda. O nome Trio de Ouro apareceria pela primeira vez em 1938, já na Odeon, quando da gravação do jongo “Na Bahia” (Herivelto Martins – Humberto Porto), ao lado de Carmen Miranda.
Dalva de Oliveira e Herivelto Martins passaram a viver maritalmente, oficializando a união em um ritual de umbanda, em 1939. Além de Pery Ribeiro, teriam outro filho, Ubiratan Martins.
O Trio de Ouro tornou-se sucesso em todo o Brasil, produzindo alguns clássicos da MPB. Em 1940 passaram a atuar na Rádio Clube do Brasil. Com o sucesso, também o dinheiro começou a fazer parte da vida de Dalva de Oliveira. Presa à arte de cantar, alheia às questões financeiras, a cantora deixou por conta do marido a administração da sua carreira, limitada às decisões de Herivelto Martins. Em 1942, o Trio de Ouro atingiria o seu auge, fazendo de “Praça Onze” (Herivelto Martins – Grande Otelo), o maior sucesso do carnaval daquele ano. A canção “Ave Maria no Morro” (Herivelto Martins), fazia a voz de Dalva de Oliveira ecoar por todas as dores de um Brasil sofrido, numa grande prece lírica, como um bálsamo na ferida de um povo.
Se Herivelto Martins era a cabeça do trio, Nilo Chagas os braços e pernas, Dalva de Oliveira era a alma, o coração, a essência da sua beleza musical. Na década de 1940, atingiram a fama incontestável. Apresentaram-se com sucesso nas noites do famoso Cassino da Urca, abarrotaram o mercado fonográfico com vários discos, e as rádios com grandes sucessos. Alcançavam não só a fama, como também a independência financeira.
Nos bastidores, a paixão intensa e conturbada de Dalva de Oliveira e Herivelto Martins ia desgastando o casamento de ambos, minando o equilíbrio do trio, produzindo traições conjugais, violentas brigas, até o rompimento definitivo do casal, em 1947, culminando com o fim do Trio de Ouro.

A Rainha do Rádio

Com a separação de Herivelto Martins, Dalva de Oliveira viu-se solitária para dirigir a sua carreira. Não sabia que destino seguir. Atingira a fama ao lado do marido, não sabia o que era administrar uma carreira profissional.
Após vários escândalos, brigas e traições, o casal declarou a falência do casamento em 1947. Dalva de Oliveira passou a seguir os seus impulsos, a sua emoção, descobrindo na embriaguez do álcool um antídoto traiçoeiro para as suas decepções de amor.
Mesmo separados, Herivelto Martins não se desligava do sentimento de posse pela mulher, a quem, na sua visão, fizera uma estrela. Ao encontrá-la com outro, iniciou uma série de escândalos que se iriam tornar famosos, travando uma guerra pública que se estenderia por alguns anos, onde a munição era a música.
O rompimento definitivo de Dalva de Oliveira com o Trio de Ouro veio quando, em 1949, realizavam uma excursão à Venezuela com a Companhia de Dercy Gonçalves. Herivelto Martins voltou ao Brasil, mas Dalva continuou naquele país, apresentando-se com o maestro Vicente Paiva.
Sozinha, era hora de Dalva de Oliveira reiniciar a sua carreira e a sua vida amorosa. Ao retornar ao Brasil, encontrou grande rejeição por parte dos produtores da gravadora Odeon, que não acreditavam em uma carreira a solo da cantora, pressionando para que ela voltasse ao trio.
Na imprensa, Herivelto Martins abria forte campanha de difamação da ex-mulher e ex-colega de trio. Dalva de Oliveira contava com o seu grande talento e com a sua voz de filetes agudos capazes de quebrar os mais finos cristais da MPB.
A cantora encontrou o apoio decisivo para iniciar a sua carreira a solo em Vicente Paiva, na ocasião um dos diretores artísticos da gravadora Odeon. Vicente Paiva apostou no lançamento do samba-canção “Tudo Acabado” (J. Piedade – Osvaldo Martins), pondo o cargo à disposição caso o disco não se tornasse sucesso. A aposta vingou e, a canção tornou-se um grande sucesso da cantora. Era o ponto de partida de uma carreira que superaria a fase do Trio de Ouro, transformando Dalva de Oliveira numa das maiores cantoras da MPB. “Tudo Acabado” servia de resposta às ofensas de Herivelto Martins, iniciando uma polêmica musical que encantaria o público e faria com que as gravadoras vendessem cópias e cópias de discos. A cada canção que Dalva de Oliveira gravava, vinha uma resposta em outra de Herivelto Martins. O momento tornou-se mítico nos bastidores da MPB, com a cantora a interpretar os clássicos “Errei Sim” (Ataulfo Alves) e “Que Será” (Marino Pinto – Mario Rossi).
A briga pública com Herivelto Martins fez com que Dalva de Oliveira perdesse a guarda dos filhos, Pery e Ubiratan foram enviados para um internato por ordem judicial, causando grande dor à cantora e às crianças.
Longe do Trio de Ouro, tudo que Dalva de Oliveira gravava tornava-se sucesso. Logo no primeiro ano a solo, conseguiu pôr nas paradas das rádios brasileiras sucessos que se tornaram inesquecíveis, como “Olhos Verdes” (Vicente Paiva), “Zum-Zum” (Paulo Soledade – Fernando Lobo) e “Ave Maria” (Vicente Paiva – Jaime Redondo).
Em 1951, a cantora era a voz mais ouvida nas rádios. No ano seguinte, em 1952, Dalva de Oliveira foi eleita a Rainha do Rádio, a rainha da voz do Brasil. A menina Vicentina era incontestavelmente a Estrela Dalva.

Novos Amores e Casamentos

Com a carreira consolidada, tendo o público brasileiro aos seus pés, Dalva de Oliveira iniciou uma série de excursões ao exterior, apresentando-se na Argentina, no Uruguai, no Chile e na Inglaterra.
Na sua passagem pelo Reino Unido, cantou par a rainha Elizabeth II, no Hotel Savoy, acompanhada pelo maestro Robert Inglis. O repertório foi registrado em Londres, nos estúdios da Parlophone, sendo lançado em disco. O nome do maestro foi alterado no Brasil para Roberto Inglez, para facilitar a comercialização do álbum no país.
Na sua excursão à Argentina, conheceria o empresário Tito Climent, quando se apresentava na Rádio El Mondo, em Buenos Aires. Iniciou com ele uma amizade, fazendo-o empresário, e, mais tarde, o seu segundo marido.
O casamento com Tito Climent aconteceu em Paris, numa igreja de Montmartre, em 1952. Atravessaria a década de 1950 casada com o argentino, motivo que levou a cantora a ausentar-se do Brasil por um bom tempo, indo viver na Argentina. Sua união com o empresário não chegou a criar escândalos nos jornais como a que vivera com Herivelto Martins, mas nem por isto foi tranqüila. Brigas freqüentes minaram a ligação, que terminou em separação, em 1963. Com Tito Climent, a cantora adotou uma filha, Dalva Lúcia, motivo de disputa judicial entre o casal após a separação. A filha ficaria com o pai, permanecendo anos sem ver a mãe. O reencontro das duas aconteceria anos mais tarde, sendo promovido no Programa Silvio Santos, na TV Globo, em 1972.
Separada de Tito Climent, viu-se outra vez sozinha e tendo que administrar a carreira, algo que ela, após dois casamentos, ainda não aprendera a fazer. Os excessos com o álcool passaram a ser cada vez mais constantes e públicos, sendo amplamente evidenciados pela imprensa de então. Seus romances relâmpagos tornaram-se parte dos escândalos que se tornaram mais intensos do que a sua carreira e sucessos.
Aos 47 anos, a cantora apaixonou-se pelo jovem Manuel Nuno Carpinteiro, de 19 anos. A diferença de idade entre os dois não impediu que a relação crescesse, o rapaz tornar-se-ia o seu terceiro e último marido.

O Ocaso de Uma Estrela

No decorrer dos anos, a era de ouro das grandes rádios terminou. O governo fechou e proibiu os cassinos no país, encerrando o glamour da época da Urca. As grandes e potentes vozes masculinas foram dando passagem para vozes suaves e afinadas como as de João Gilberto. A Bossa Nova encerrou a época dos sofridos samba-canções, das ingênuas marchinhas carnavalescas e do samba-exaltação ao Brasil.
Dalva de Oliveira, com as suas mãos cruzadas no peito, sua emoção a exalar por todos os poros, passou a amargar um longo período de ostracismo. Os sucessos foram ficando cada vez mais raros.
Como se não bastasse, a tragédia bateria à sua porta, em agosto de 1965. Numa noite, quando voltava de uma festa com o marido Nuno, iniciaram uma intensa discussão dentro do carro. A briga resultou em um grande acidente, em circunstâncias obscuras, que culminou com atropelamento e morte de três pessoas. Dalva de Oliveira foi internada em estado grave no hospital, deixando os fãs apreensivos, sem saber se ela escaparia com vida. Durante o período de internação, Manuel Nuno declararia à polícia que era a cantora quem dirigia o carro. Mais tarde, a cantora já recuperada, viu-se em apuros com a justiça. Nuno confessaria que era ele quem dirigia o carro, e que culpara a cantora pensando que ela não sobrevivesse. O jovem seria processado e absolvido pela responsabilidade na morte das pessoas. O que se passou de verdade, na hora do acidente entre os dois, jamais ficou claro. O acidente deixaria uma marca profunda na saúde da cantora, e uma grande cicatriz a riscar-lhe o rosto para sempre.
A tragédia e o jogo de culpas levou o casal à separação. Dalva de Oliveira caminhou errante, abatida e envelhecida, entregando-se ao álcool e a amores fugazes. Limadas as mágoas, Dalva e Nuno reconciliaram-se tempos depois.
Sentindo-se esquecida, Dalva de Oliveira sofreu longos períodos de depressão e tristeza. A fortuna e o sucesso, assim como vieram, pareciam ter passado para sempre. Muitas foram às vezes que teve que voltar para a sua casa, em Jacarepaguá, entrando pela parte da frente de um ônibus coletivo, pois não tinha dinheiro para pagar a passagem. Bêbada e solitária, deixava-se dormir na poltrona do coletivo, sendo acordada pelo motorista, que a deixava na porta de casa. No fim da vida, ia todo mês receber a sua aposentadoria, não como uma estrela, mas como uma cidadã brasileira comum.
Nos anos sessenta, teve alguns sucessos pontuais, como “Rancho da Praça Onze” (João Roberto Kelly – Chico Anýsio) e “Máscara Negra” (Zé Kéti – Pereira Matos). Após uma longa ausência, retornaria às paradas em 1970, com um retumbante sucesso, “Bandeira Branca” (Max Nunes – Laércio Alves). Com a canção, Dalva de Oliveira pedia trégua ao ostracismo, aos amores, à vida. Parecia ter encontrado o seu Shangri-Lá na casa de Jacarepaguá.

O Adeus à Estrela Dalva

O ano de 1972 começou com um breve retorno de Dalva de Oliveira à mídia da época. Ganharia um concurso de marchinhas de carnaval, no Programa Sílvio Santos, na TV Globo. No mesmo programa, reencontrar-se-ia com a filha Dalva Lúcia, a quem não via fazia alguns anos. Desde então, a cantora passou a ser citada mais vezes pela mídia.
Mas a saúde precária da cantora interrompeu qualquer esperança de volta. Sozinha em casa, Dalva surpreendeu os funcionários da Rádio Globo, ao telefonar para lá pedindo socorro, pois estava a sentir-se muito mal. Socorrida, ela foi internada de emergência. A notícia causou um grande impacto no público, que passou a fazer vigília na porta do hospital. A internação foi demarcada por altos e baixos, com melhoras aparentes, tendo a imprensa a acompanhar a agonia da cantora, que persistiria por quase três meses. A atenção da imprensa só foi desviada devido à tragédia ocorrida em 18 de agosto daquele ano, quando um ataque cardíaco matou subitamente o grande ator e galã Sérgio Cardoso. O ano tinha sido de grandes perdas, assinalando também, a morte de Leila Diniz em um acidente de aviação em junho.
Três dias antes de morrer, Dalva de Oliveira teria pressentido o seu fim, pedindo a Dora Lopes, amiga que a acompanhara durante a internação, que a vestisse e a maquiasse com o esmero que se acostumara a vê-la o povo. Profetizou ainda, que todos iriam parar para vê-la passar. No dia 30 de agosto de 1972, às 17h15, aos 55 anos, Dalva de Oliveira calava-se para sempre, deixando a vida e com ela, uma das mais belas carreiras da história da música brasileira.
A morte da cantora comoveu o Brasil. Debaixo de uma chuva fria, milhares de pessoas compareceram ao Teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro, onde o corpo de Dalva de Oliveira estava a ser velado. A vigília durou 17 horas, com uma fila que não se findava, todos querendo prestar a última homenagem. Amigos, familiares, artistas, políticos, todos encheram o velório de Dalva de Oliveira do brilho que ela sempre iluminou ao seu redor. Quando o corpo foi retirado do teatro, mais de trinta mil pessoas, aglomeradas na Praça Tiradentes, acenavam os seus lenços, derramando lágrimas pelo ídolo morto. O cortejo levou duas horas para atravessar a cidade do Rio de Janeiro e chegar ao cemitério Jardim da Saudade. Como Dalva de Oliveira previra, a cidade e o seu povo pararam. Meio milhão de pessoas espalharam-se pelas calçadas dos bairros por onde o cortejo passou, num adeus à Estrela Dalva.
A emoção que se alastrou pelo Brasil refletia bem quem fora Dalva de Oliveira, mulher de coragem e guerreira, que jamais se deixava inquietar pelas dores e adversidades. Desde criança que aprendera a crescer com as dificuldades. Teve o Brasil aos seus pés, mas jamais se comportou como diva. Tratou com carinho e amor todos os fãs, sem nunca ter sido acusada de estrelismo. Nunca perdeu a simplicidade, mesmo quando o mundo girava à sua volta. A sua emoção atingiu milhões de pessoas. Suas mãos cruzadas sobre o peito expressavam a força que vinha das entranhas, em um canto movido pela mais genuína emoção. No palco, ela transcendia-se em sangue, suor e lágrimas, como se fosse explodir em átomos todos os amores do mundo, fulminando a emoção com os seus agudos dilacerantes, mergulhada em uma das vozes mais belas que já abriram as cortinas da MPB.

Discografia

Álbuns de Carreira:

1957 – Os Tangos Mais Famosos na Voz de Dalva de Oliveira – Odeon
1958 – Dalva – Odeon
1959 – Dalva de Oliveira Canta Boleros – Odeon
1960 – Em Tudo Você – Odeon
1961 – Dalva de Oliveira – Odeon
1961 – Tangos – Odeon
1962 – O Encantamento do Bolero – Odeon
1963 – Tangos – Vol. II – Odeon
1965 – Rancho da Praça Onze – Odeon
1967 – A Cantora do Brasil – Odeon
1968 – É Tempo de Amar – Odeon
1970 – Bandeira Branca – Odeon

Extras:

1973 – O Amor é Ridículo da Vida – Odeon
1980 – Grossas Nuvens de Amor – Odeon
1987 – Dalva de Oliveira – Série Os Ídolos do Rádio Vol. V – Collector’s
2000 – Dalva de Oliveira e Roberto Inglez e Sua Orquestra – Revivendo