CHARLES BAUDELAIRE – ABSINTO E FLORES DO MAL

Charles Baudelaire, uma das mais controversas personalidades da literatura francesa, foi um dos maiores poetas universais de todos os tempos. Dedicou a sua vida à boemia embriagante e à força da palavra em forma da mais genuína emoção da poesia.
Numa visão muitas vezes cáustica do mundo e da realidade, ele consegue impregnar a esta visão o lirismo agudo, quase imposto à realidade. Homem de emoções extremas, dilapidou o seu dinheiro nas noites e cafés parisienses, entregando-se ao sabor do absinto, extraindo da bebida verde, reza a lenda, todas as alucinações poéticas do mundo.
Viveu amores intensos, elevou a beleza da mulher em seus poemas, idolatrando-a e ao mesmo tempo, mostrando-se reticente e desconfiado, fazendo da paixão feminina o seu céu e inferno dilatados em um mesmo contesto lírico. Das paixões e dos leitos herdou a sífilis, mal que o consumiria por toda a vida. Do absinto, do ópio, do haxixe e dos excessos, definhou a saúde até perdê-la para a morte, com pouca mais de 46 anos de idade.
Considerado obsceno e maldito ao publicar a obra poética “As Flores do Mal”, em 1857, Baudelaire teve o volume original amputado em seis poemas, sendo condenado pela justiça a pagar pesada multa por blasfêmia e obscenidade. Sua obra introduzia novos elementos na linguagem poética, onde o existencialismo era fundido em seus opostos, mostrando-se sublime e grotesco, numa atitude de rebeldia perene diante das moralidades sociais, indignando os mais conservadores da sua época.
Buscando sempre por temas frívolos, a poesia de Baudelaire flerta com o romantismo levado ao extremo, sendo vista como precursora do Simbolismo, ou mesmo como antecedente ao Parnasianismo. Pouco compreendido e muito criticado no seu tempo, influenciou poetas como Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, e conquistou a admiração de romancistas como Victor Hugo e Gustave Flaubert, passando de forma indelével pela intelectualidade francesa do século XIX.
Baudelaire deixou uma obra única e intocável, com o lirismo a derramar sobre o céu e o inferno, a beleza e o medo, o anjo e o vampiro. Nos seus retratos, o rosto trazia um olhar duro e impenetrável, quase indomável, como a sua poesia.

A Infância e o Convívio com o Padrasto

Considerado um dos ícones da poesia francesa, Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 9 de abril de 1821, na Rua Hautefeuille, número 13, onde hoje está localizada a Livraria Hachette. Filho de Joseph-François Baudelaire e de Caroline Archimbaut-Dufays, o pequeno Charles-Pierre viu-se órfão do pai muito cedo, que morreu quando ele tinha seis anos, sendo criado pela mãe e por sua enfermeira, Mariette, sob uma proteção feminina absoluta.
O destino da criança mudaria bruscamente, quando sua mãe Caroline, casou-se em novembro de 1828, quase dois anos depois da morte do pai, com o militar Jacques Aupick. Começaria uma relação tensa entre a natureza libertária de Baudelaire e a rigidez de caserna do padrasto. O poeta jamais conseguiu gostar do padrasto, apesar de ter convivido a maior parte da infância e adolescência sob a sua tutela. Não se podia conciliar o caráter rebelde de um com a disciplina eloqüente do outro, gerando uma convivência acentuada pelas diferenças.
A condição de militar brilhante e em ascensão permanente, fazia com que Jacques Aupick fosse periodicamente transferido de uma cidade para a outra. Em 1832, o então coronel foi transferido para Lyon, levando a família para ali morar no ano seguinte. Naquela cidade freqüentou o Colégio Real de Lyon. Na escola militar, Baudelaire sentiu a rigidez disciplinar e o estudo rigoroso a confrontar com a sua personalidade, gerando uma maior animosidade com o padrasto.
Na adolescência, aos quinze anos, o poeta passou a freqüentar o Louis-Le-Grand, tradicional colégio de Lyon. Tornara-se um jovenzinho rebelde e insolente, tomado de empáfia que desagradava aos professores, culminando com a sua expulsão do estabelecimento, em 1839, por não querer mostrar ao mestre um bilhete que lhe havia passado um colega. Seria enviado para Paris para ali concluir o liceu.
Para decepção da mãe e do padrasto, o jovem declara muito cedo a intenção de ser escritor. Mais uma vez entrava em confronto com os ideais do padrasto, que naquele ano fora promovido a general de Brigada.
A relação de Baudelaire com o padrasto é uma página especial na biografia do poeta. Foi desta relação densa e delicada que surgiu o caráter rebelde, diluído em atitudes que desafiavam as convenções dos costumes morais e sociais da época. Foi após uma viagem com a mãe e o padrasto aos Pirineus, em 1838, que ao regressar, Baudelaire escreveria o poema “Incompatibilité”, já a evidenciar a sua característica inovadora na poesia de então. Por sua vez, Jacques Aupick seguiria uma carreira militar brilhante, distinguindo-se como general, chegando a ser embaixador e senador. O que deveria ser um exemplo a seguir por Baudelaire, contrastou-se com a sua índole de poeta e boêmio, fazendo que sempre procurasse o oposto da conduta disciplinada do padrasto.

Vida de Excessos em Paris

Para amenizar as relações familiares, o jovem poeta aceitou seguir estudos na escola de Direito de Paris, a Ecole de Droit. Na capital francesa, passou a morar na famosa pensão para estudantes Lévêque Bailly. Ali fez amizade com diversos jovens boêmios, iniciando-se em um estilo de vida marcado pelos excessos e pelo desejo de transgredir, ir além dos limites morais do que lhe permitia o século XIX. Foi na pensão de estudantes que ele travou amizade com os poetas Gustave Vavasseur e Enerts Prarond.
Em Paris, as noites frívolas do poeta distanciaram-no dos estudos. Entregou-se às descobertas do corpo e da mente. Deixou-se embalar pelo absinto, bebida de alto teor alcoólico, que ingerida em grandes quantidades produz alucinações, o que levou à sua proibição na Europa. Também o ópio e o haxixe tornaram-se familiares ao poeta. Durante aquele tempo, iria endividar-se todo.
Totalmente seduzido pela noite, Baudelaire começava a descobrir os encantos da beleza feminina, que ele exalta como um esplendor de luz e de trevas, de desejos e de precipícios, de caminhos edênicos e labirintos tortuosos. Vive um intenso relacionamento amoroso com Sarah, uma prostituta de origem judia, conhecida na Cidade Luz como Louchette. Suas aventuras românticas e sexuais nos prostíbulos parisienses deixam-lhe sensações que encherão as páginas da sua poesia, mas também deixará uma triste e definitiva realidade, a contração da sífilis, doença que na época não tinha cura, e o acompanharia até a morte.

Hymne à la Beauté (original)

Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme,
O Beauté? Ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l’on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l’aurore;
Tu répands des parfums comme un soir oraguex;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l’enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charme suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l’Horreur n’est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L’éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crepite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L’amoureux pantelant incliné sur belle
A l’air d’un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l’enferm qu’importe,
Ô Beauté! Monstre enorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m’ouvrent la porte
D’un Infini que j’aime et n’ai jamais connu?

De Satan ou de Dieu, qu’importe? Ange ou Sirène,
Qu’importe, si tu rends, – fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! –
L’univers moins hideux et les instants moins lourds?

Hino à Beleza (tradução)

Virás do céu profundo ou surges do abismo,
Beleza? O teu olhar, infernal e divino,
Gera confusamente o crime e o heroísmo,
E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora;
Expandes os teus odores qual noite de trovoada;
Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca
Tornando o herói covarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros?
Encantado, o Destino é um cão que te segue;
Semeias ao acaso alegrias, desastres,
E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;
Das tuas jóias, o Horror é das que mais fascina,
E entre tais enfeites, o próprio Assassínio,
Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O inseto, deslumbrado, procura-te a chama,
Arde crepita e diz: Benzamos esta Luz!
O apaixonado trêmulo, aos pés da sua dama,
Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! Monstro ingênuo, assustador, excessivo!
Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta
De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,
Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! –
Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Atribulações da Juventude

Ao ver Baudelaire afastado dos estudos, contraindo cada vez mais dívidas, perdendo-se nas noites parisienses, a família decidiu enviá-lo em uma viagem para Calcutá, na Índia. Assim, sob pressão do padrasto, em junho de 1941, mesmo contrariado, o poeta embarcou no navio Des Mers du Sud de Paquebot, sob a supervisão do comandante Saliz.
A viagem mostrava-se monótona para o poeta, que se fechou em um mau humor constante. Preferia estar em Paris, a divagar errante pelos cafés e prostíbulos. O navio parou nas Ilhas Maurício, seguindo para a Ilha da Reunião. Após passar por uma violenta tempestade, o navio foi obrigado a atracar em um estaleiro para reparos. Baudelaire já tinha decidido que não seguiria a viagem até o seu destino final. Na Ilha da Reunião, abandonou de vez o navio. Meses depois, o general Jacques Aupick receberia uma carta do comandante Saliz, sendo informado de que o enteado tinha abandonado o navio, não concluindo a viagem até Calcutá.
Ao retornar a Paris, Baudelaire atingiria a maioridade, em 1842, tendo direito a receber uma herança de cerca de cem mil francos, deixada pelo pai. De posse da fortuna, passou a viver em um apartamento na ilha de Saint-Louis, em Paris. Começa a freqüentar as galerias de arte, aprofundando-se na matéria, tornando-se grande conhecedor e critico de arte, com grande influência no seu tempo. Abastado pela herança recebida, adquiriu um comportamento excêntrico, trajando roupas extravagantes, ganhando a reputação de dândi nos salões parisienses.
Ainda em 1842, o poeta conheceu no Teatro Porte Saint-Antoine, a mulata Jeanne Duval, atriz figurante do Quartier Latin. A bela mulher também exercia a prostituição como ocupação. A mãe de Baudelaire desaprovava o romance, pelo fato da jovem ser mestiça. Por dois anos, o poeta viveu ao lado de Jeanne Duval, numa vida regada de drogas e álcool. Seria na beleza morena da jovem que ele encontraria inspiração para escrever diversos dos seus poemas, dedicando-lhe o ciclo de poemas “Vênus Negra”. O romance com Jeanne Duval terminou em grande decepção, quando ele soube, anos mais tarde, que ela tinha vivido com outro amante por meses, dizendo a Baudelaire que era o seu irmão.
Em apenas dois anos, Baudelaire já havia gastado quase a metade da sua fortuna. Para evitar que ele dilapidasse os seus bens, a mãe entrou na justiça, em 1944, acusando-o de pródigo, pondo-o sob a guarda legal de um tutor, sendo Narcisse-Desejam Ancelle o escolhido. Para eliminar os inúmeros débitos contraídos, foi obrigado a viver com uma renda baixa, muita aquém daquela que estava acostumado a gastar excessivamente.
Humilhado, Baudelaire sentiu-se desesperado com a nova condição social. Em 1945 tentou cometer suicídio, aumentando ainda mais a preocupação da mãe e do padrasto, que cogitaram a hipótese dele voltar a viver com eles em Paris. Mas ele preferiu continuar a viver sozinho, ainda que mais modestamente.
Além de Jeanne Duval, Baudelaire viveria um romance com outra atriz, Marie Daubrun, tendo-a como amante entre 1855 e 1860. Outra paixão marcante foi pela cortesã Apollonie Sabatier. Todas foram fundamentais na obra do autor, que tomou a paixão por elas como abundante fonte inspiradora.

À Une Passante (original)

La rue assourdissante autour de moi hurlait,
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispe comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Aileus, bieb loin d’ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A Uma Passante (tradução)

A rua ia gritando e eu ensurdecia,
Alta, magra, de tudo, dor tão majestosa,
Passou uma mulher que, com as mãos suntuosas,
Erguia e agitava a orla do vestido;

Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua.
Crispado como um excêntrico, eu bebia, então,
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão,
A doçura que encanta e o prazer que mata.

Um raio… e depois noite! – Efêmera beldade
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito,
Só te verei de novo na eternidade?

Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca!
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias,
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!

Tradução: Fernando Pinto do Amaral

Escândalo na Publicação de “As Flores do Mal

Se a vida econômica e social de Baudelaire era um completo caos, o seu talento literário crescia vertiginosamente. Tornou-se um influente crítico de arte, destacando-se nas mostras anuais de pintura e de escultura, conhecidas como “Salão”. A partir do Salão de 1845, a sua crítica de arte avançou os costumes da época, definindo o princípio que iria seguir vários artistas de então.
Em 1847, lançou “Fanfarlo”, único romance que escreveu, constituindo uma obra autobiográfica. No ano seguinte, em 1848, envolver-se-ia na revolta que assolou a França, ajudando na publicação de alguns jornais de protestos radicais. Não teve grande atuação no levante, saindo sem que se prejudicasse.
A partir de 1852, Baudelaire passou a traduzir para o francês os textos do escritor norte-americano Edgar Alan Poe, de quem era um acirrado admirador. Concluiria a tradução em 1865.
O momento mais importante e polêmico da vida e da obra de Baudelaire, dar-se-ia em 1857, quando da publicação da primeira edição de “As Flores do Mal”. Considerada a obra-prima de Baudelaire, “As Flores do Mal” trazia um volume com cem poemas. Numa linguagem inovadora, que oscilava entre o sublime e o grotesco, numa imposição lírica à realidade fria da vida. Ao abordar temas controversos para a época, como o lesbianismo e o satanismo, o livro escandalizou os leitores e os críticos. A edição foi publicada por um velho amigo do poeta, Poulet-Malassis. Menos de um mês após ser posto à venda, o livro sofreu uma mordaz crítica do jornal “Le Figaro”, com efeito devastador na carreira de Baudelaire, sendo estigmatizado como poeta maldito. Baudelaire e o seu editor, Poulet-Malassis, foram acusados de obscenos, de atentarem à moral e aos bons costumes, sendo multados em quinhentos francos, sendo trezentos pagos pelo poeta e duzentos pelo editor do livro. Seis poemas foram considerados demasiadamente imorais, sendo-lhes proibida a publicação. Baudelaire escreveria seis novos poemas para substituí-los. Em 1861, quando do lançamento da segunda edição, acrescentaria outros trinta e cinco poemas. A edição completa, trazendo os poemas proibidos, só seria publicada a partir de 1911, muitos anos após a morte do autor.
Por muito tempo Baudelaire freqüentou o famoso “Club des Hashishins”, formado por um grupo de fumantes de haxixe que se reuniam no Hotel Pimodan, onde o poeta viveu por um bom tempo. A experiência com as drogas resultaria no livro “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”, publicado em 1860, trazendo uma confissão pessoal e especulação sobre plantas alucinógenas, que teve inspiração parcial na obra do escritor inglês Thomas de Quincey, “Confissões de Comedor de Ópio”.
Baudelaire ainda tentou candidatar-se à Academia Francesa de Letras, na esperança de agradar à mãe, elevar a sua carreira de escritor e perder o estigma de poeta maldito. Mas teve a sua pretensão desencorajada pelos amigos.

Vítima e Carrasco de Si Mesmo

A dilapidação dos seus bens na boemia parisiense, fez com que Baudelaire mergulhasse a vida em dívidas, resignando-se ao controle rígido das medidas judiciais tomadas pela família. Viveu o resto da vida atolado em constantes crises financeiras. Quando o amigo e editor, Poulet-Malassis, viu-se impossibilitado de pagar as dívidas, nada pôde fazer para evitar que ele fosse preso.
As dificuldades financeiras fizeram com que voltasse a viver com a mãe, em 1859, limitando-lhe cada vez mais a essência de liberdade do caráter. Paralelamente, a saúde passou a definhar. A partir de 1862, passou a queixar-se constantemente de dores de cabeça, vertigens, náuseas e pesadelos. Os efeitos colaterais da sífilis adquirida quando jovem, devastavam-lhe a saúde, impondo-lhe sintomas que lhe traziam a sensação de estar a enlouquecer.
Para tentar amenizar a situação financeira, deixou a França, em 1863, rumando para Bruxelas, na Bélgica, na tentativa de conseguir um editor para publicar os seus livros. Na capital belga piorou ainda mais a saúde. Desde então, viveu obscurecido por inúmeras doenças de origem nervosa. Em 1965 sofreu um ataque de apoplexia, que se tornaria constante, levando-o a afasia e paralisia parcial. Em 1867, internou-se em uma casa de repouso por dois meses, retornando a Paris em 2 de julho. No dia 31 de agosto, esgotado monetariamente e fisicamente, Charles Baudelaire foi vítima de uma paralisia geral, morrendo assim como nascera, nos braços da mãe. Tinha 46 anos.
Talvez o poema que mais descreva o caráter insólito e de radical contestação existencial de Charles Baudelaire seja “Heautontimoroumenos”, título inspirado em “Heauton Timoroumenos”, peça escrita no século IV a.C., pelo poeta ateniense Menandro, desaparecida ao longo dos tempos. Terêncio, dramaturgo romano, escreveu a versão em 163 a.C., tendo esta sobrevivido. Literalmente, quer dizer “o carrasco de si mesmo”, ou o que pune ou devora a si mesmo. Uma constante na obra de Baudelaire.

L’Héautontimorouménos (original)

À J.G.F.

Je te frapperai sans colère
Et sans haine, comme um boucher,
Comme Moïse le rocher
Et je ferai de ta paipière,

Pour abreuver mon Saharah
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon désir gonflé d’espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu’ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord

Elle est dans ma voix, la criarde!
C’est tout mon sang ce poison noir!
Je suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
– Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés
Et qui ne peuvent plus sourire!

Heautontimoroumenos (tradução)

À J.G.F.

Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E nem meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
– Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir!

Tradução: Ivan Junqueira

Cronologia

1821 – Nasce, em 9 de abril, em Paris, Charles-Pierre Baudelaire.
1827 – Morre, em fevereiro, Joseph-François Baudelaire, pai de Charles Baudelaire.
1828 – Casamento da mãe, Caroline Archimbaut-Dufays, com o militar Jacques Aupick, em novembro.
1832 – Transferência para Lyon do coronel Jacques Aupick. Baudelaire e a mãe mudam-se para aquela cidade.
1833 – Baudelaire ingressa como interno no Collège Royal de Lyon.
1836 – Jacques Aupick é nomeado para o Estado Maior do Exército em Paris, mudando-se com a família para a capital francesa.
1838 – Viaja com a mãe e o padrasto para os Pirineus. Quando retorna, escreve o poema “Incompatibilité”.
1839 – Em Paris, Baudelaire conclui o liceu. Jacques Aupick é promovido a general da Brigada.
1840 – Passa a viver na pensão Lévêque Bailly, onde trava amizade com os jovens poetas Enerts Prarond e Gustave Le Vavasseur.
1841 – Baudelaire é embarcado em um navio pelo padrasto, para Calcutá, na Índia. O jovem abandona o navio na Ilha da Reunião.
1842 – Retorna à França. Inicia um romance com a jovem atriz mulata Jeanne Duval. Recebe 75 mil francos de herança deixada pelo pai. Vai viver para a Ilha de Saint-Louis, em Paris.
1843 – Publica numa coletânea literária intitulada “Vers”. Muda-se para o Hotel Pimodan.
1847 – Conhece a atriz Marie Daubrun, futura amante.
1852 – Conhece Apollonie Sabatier, futura paixão. Publica o primeiro ensaio sobre o escritor norte-americano Edgar Allan Poe.
1857 – Publicado a primeira edição de “As Flores do Mal”. O livro é classificado como amoral, obrigando Baudelaire e o seu editor a pagar multas. Seis poemas são proibidos.
1859 – Passa a viver com a mãe em Paris.
1860 – Morre Marie Daubrun, com quem o poeta vivera um romance desde 1855. Publica “Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe”.
1861 – Publicada a segunda edição de “As Flores do Mal”, com trinta e cinco novos poemas. Candidata-se à Academia Francesa de Letras.
1862 – Sua saúde começa a definhar, em decorrência da sífilis que contraíra quando mais jovem.
1863 – Parte para Bruxelas, em busca de um editor que publique as suas obras.
1865 – Sofre um ataque de apoplexia.
1867 – Morre de paralisia geral, em 31 de agosto.

OBRAS:

1845 – Salon de 1845 (Salão de 1845)
1846 – Salon de 1846 (Salão de 1846)
1847 – La Fanfarlo (Fanfarlo)
1857 – Les Fleurs du Mal (As Flores do Mal)
1860 – Les Paradis Artificiels (Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe)
1861 – Réflexions sur Quelques-Uns de Mes Contemporains
1863 – Le Peintre de la Vie Moderne
1868 – Curiosités Esthétiques (Curiosidades Estéticas)
1868 – L’Art Romantique (A Arte Romântica)
1869 – Le Spleen de Paris (O Spleen de Paris)
1869 – Petits Poèmes en Prose (Pequenos Poemas em Prosa)
1887 – Oeuvres Posthumes et Correspondance Générale
1897 – Fusées
1897 – Mon Coeur Mis à Un (Meu Coração Desnudo)
1922 – Oeuvres Completes (19 volumes concluída publicação em 1953)
1992 – Cristique D’Art; Critique Musicale

4 respostas para CHARLES BAUDELAIRE – ABSINTO E FLORES DO MAL

  1. José Duarte disse:

    Caro Jeocazz Lee-Meddi,

    Peço imenso desculpe de o incomodar, mas li um dos seus texto sobre Al Berto, um poeta que eu aprecio muito. Gostaria que pudessemos trocar algumas impressões sobre esse texto e, talvez, sobre a possibilidade da publicação dessa obra. É um crime ela estar sem ser publicada. Também sou poeta e, neste momento, estou a ser publicado pela Edium Editores, talvez eles possam dar um empurrãozinho na publicação deste poema do Al Berto, com fotografias, tal como era o seu desejo. Se, de facto, tem na sua posse o texto original e os direitos sobre esse texto, penso que não devia deixar passar esta oportunidade.

    Contacte-me.
    Cumprimentos,

    José Duarte

  2. Caro José Duarte

    Será um prazer trocar impressões consigo. O episódio relativo ao texto é uma parte bonita e delicada da vida do Al Berto, da qual fui testemunha, sendo amigo dele e do Alexandre. E tanto tempo passou, tanta coisa aconteceu, mas sim, o texto continua intacto!
    Para poder falar sobre o assunto, profundamente pessoal, por favor, mande-me o seu e-mail, através de jeocazleemeddi@yahoo.com.br.

    Cumprimentos

    Jeocaz Lee-Meddi

  3. “Não sou acaso um falso acorde
    Nessa divina sinfonia,
    Graças à voraz Ironia
    Que me sacode e que me morde?”

    Baudelaire – Pra quem (des)entende a complexidade! Gênio!

  4. Gledson Bonella disse:

    Com seus brandos poemas caóticos e sua inolvidável poesia apoteótica fez eu tentar entender a dor e a loucura que há numa existência, onde somos Sísifos em uma jornada breve.
    O maldito entre os malditos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: