TODAS AS SAUDADES DO MUNDO – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Hoje acordei com todas as saudades do mundo.
Saudades do eu que um dia fui, saudades do eu que ainda não vi. Saudades das minhas mentiras mais profundas e das verdades ignoradas.
Hoje eu quero usar todas as palavras que me seduzem o intelecto; que me dilaceram os sentimos e me reduz ao homem que escreve. Neste momento exato que me cruzo ao céu do arco-íris, não há poetas que me consolam as angústias, epístolas que me aliviem os medos.
E continuo a clamar por todas as palavras do mundo. Palavras doces, como carinho, mel, deleite, ciranda, amigo, mãe… palavras frias, fim, solidão, espinho, indiferença, violeta… palavras tristes, lágrimas, esquecimento, dor, adeus… palavras quentes, ardor, torpor, vermelho, sexo, paixão, ilusão… palavras definitivas, passado, Deus, amor… Todas as palavras do mundo.

“Calo-me quando me perguntas quem sou, dar-te-ia as mais insinceras respostas, mas reflito no meu silêncio todas as minhas verdades”
Hoje acordei e deparei-me com todas as lembranças do mundo. Dos amigos que perdi pelas estradas por onde andei, dos amores que se foram na penumbra dos meus medos, das ilusões que me arrebatam o destino andarilho, do meu papagaio de estimação, do meu egoísmo diante do espelho. Todas as lembranças assaltaram-me a mente, retratando-me confuso, errático.
Não me quero confessar, quero vagar livre dentro da minha saudade. Navegar pelas ruas estreitas de Lisboa, pelas fontes de Roma, pelas luzes difusas das noites paulistanas, pelas pontes às margens do Sena, por todas as cidades que me apagaram os passos e diluíram a minha sombra.
Hoje quero espargir a lembrança do odor dos carinhos maternos, do suor dos corpos que amei ou mesmo dos que apenas ejaculei os meus desejos. Quero tocar na lembrança da pele, no torpor dos corpos, nos desenhos dos pêlos eretos às carícias. Quero agarrar cada amante que se foi, cada prazer que deixei nos lençóis molhados pela paixão.
Quero um momento sozinho comigo mesmo, para voltar a ler as algumas páginas do meu ser, que por motivo fugaz escrevi e virei sem as perceber. Não quero futuro, quero o presente, ardentemente o presente. Não quero as ilusões, quero a vida, tragada, bebida e entorpecida pelos sonhos que me conduzem.

“Não te quero ver a face que não me é permitida ver. Siga com os teus segredos que não te fustigarei por não mos revelar. E não me serás menor pelos teus mistérios.”

Hoje caminhei pela tarde nublada, incitado pela saudade de todos os meus erros. Sorvi todos os pecados que ousei cometer, todas as atrocidades que vociferei, todos os perdões que me permiti conceder. Revidei todas as faces que ofereci. Traguei todas as lágrimas que não verti, todos os soluços que sufoquei.
Hoje, quando a chuva chegou, e a tarde escureceu, iluminei a minha saudade. Revi todas as fases da minha vida, debrucei-me sobre as fotografias de um álbum existencialista. Não me reconheci em nenhum retrato, perfeito estranho que se perdeu no passado, reconheço-me apenas nas minhas lembranças, nos momentos que a minha saudade codificou, jamais nas molduras da parede.
Hoje me permiti ter saudades. Como um fado lusitano, dedilhei as guitarras dos sentimentos vividos. Apossei-me de todas as canções de amor, como se tivessem sido feitas para mim. Construí uma trilha sonora, envolta nos momentos que se foram, nas melodias que ecoaram pelas janelas dos quartos, nas notas musicais feitas de suor nos corpos que amei.

“E porque a vida corre como estações…
Sorria como se todos os dias fosse verão! Se te agarras às alegrias, o vento armazena os teus sorrisos soltos para o inverno!”

Hoje revi na chuva que escorria, todos os olhos que por mim lacrimejaram. Todas as bocas que gemeram na penumbra. Todas as línguas que navegaram pelo meu corpo, suspirando palavras quentes e sem sentido. Encontrei todos os olhares dos quais fugi, todas as mãos que me fizeram tremer, todos os braços que me apertaram as ilusões, todos os beijos que me sugaram os desejos.
Hoje me reencontrei com todos os meus erros, ironizei todos os acertos, desenhei todos os sortilégios, soprei os vendavais que me embalaram a paz. Olhei para o tempo e sorri. Descobri-me gênero humano.
Mas a chuva passou…
A lua cheia despontou no céu…
Outra ilusão, outra paixão, outra noite. Novos quartos, camas, lençóis, momentos. Outro espelho para Narciso amar. Nos jardins proibidos, outra rosa para seduzir e cravar seus espinhos na carne. Outras roupas a cobrirem as marcas esculpidas pelos anos, velhos jeans desbotados para despir.. E as horas dispararam o correr implacável do tempo. Quando a madrugada rasgou a noite, já não tinha saudades de mim.
Mas ontem acordei com todas as saudades do mundo.


Texto e Pensamentos: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Arquivo pessoal Jeocaz Lee-Meddi

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: