LUA DE MEL COMO O DIABO GOSTA, ADORÁVEL PROVOCAÇÃO ROMÂNTICA

 
A década de 80 transformou Gal Costa na primeira dama da música popular brasileira. Tornou-se recordista de vendas e de público. A cantora mergulhou numa roda viva que culminou com o estrondoso sucesso do álbum “Bem Bom” (1985), no Brasil e no exterior. Após este sucesso contínuo, indo na contra-mão da roda viva e da imagem de pop star, Gal Costa tirou o ano de 1986 para dar uma lufada naquela década que lhe sorria e tragava no ápice do sucesso. Na sua inquietante carreira, 1987 foi marcado pelos encontros musicais com Tom Jobim, ano do antológico encontro da dupla em show no mítico Wiltem Theatre, em Los Angeles, que ficaria registrado no álbum “Rio Revisited”, lançado no exterior em 1987, no Brasil só chegaria em 1992. Este ano de silêncio discográfico de Gal Costa, o primeiro da década, trouxe uma grande expectativa. Crítica e público esperavam ansiosos o novo álbum da cantora, curiosos de ver o seguimento da sua carreira. É neste contesto que, em 1987, é lançado o álbum “Lua de Mel Como o Diabo Gosta”. O álbum reflete uma fase de paixão na vida particular de Gal Costa, como se estivesse em lua de mel com os sentimentos, a deliciar-se com os prazeres da paixão. No auge dos vocais e dos agudos, ela encerraria a década com aquele que seria o seu álbum mais incompreendido, o que sofreu o amargo desprezo da crítica. Mas “Lua de Mel Como o Diabo Gosta”, ao contrário do que se imaginou na época, mostrou-se um disco que sobreviveu aos anos 80, e mesmo com arranhões de um repertório excessivamente romântico para o que se esperava da inquieta Gal Costa, musa de todos os movimentos que dilaceraram os costumes no país, chegando aos tempos atuais sem o mínimo traço de ser um registro datado.

Dos Agudos Indomáveis às Baladas Românticas

A capa do álbum vinha provocativa, ousada, em que a cantora aparecia de costas, a fumar, com uma toalha a esconder os cabelos, a transpirar sensualidade dentro de uma piscina. Quem se atreveria a mostrar as costas na capa de um álbum? A ousadia não terminava na capa do disco, já na primeira faixa o tom é altíssimo, os agudos parecem selvagens, com uma ave tropical, é “Arara” (Lulu Santos). Ao contrário do que parece, Gal Costa tem aqui o controle perfeito dos seus agudos e do canto, sabe até onde ir ou se expor. A voz está no auge do domínio técnico. Em “Arara” ela já diz que não quer se pertencer, quer ser dos outros, dos fãs, dos críticos, do público, dos amores, das paixões, mas não lhe “azucrinem”, porque a arara indomável estava preste a aflorar.

“Faça o quiser de mim
Eu sempre quis que fosse assim
Eu não quero me pertencer
Eu quero ser dos outros”

Após esta faixa de sensualidade à flor da pele, há uma pausa para voarmos na delicadeza da interpretação de “O Vento” (Ronaldo Bastos – Djavan), de mergulharmos na beleza da canção e dos versos. O violão e assovio de Djavan encaixam-se à voz de sereia que se faz aqui, a embriagar, a voar com o vento sobre as casas, sobre telas de tons pastéis do amor. Temos aqui um momento definitivo do casamento (sempre bem sucedido) de Gal Costa e Djavan.

“Minha mulher, minha irmã
Minha cara metade
Da carne maçã, maçã
Minha costela de Adão
Meu pé de romã, romã”

Tenda” (Caetano Veloso) traz a poesia inconfundível do poeta baiano e da sua musa eterna. Caetano Veloso tem nesta música uma sensibilidade diante da existência e do mundo, com momentos lúdicos de versos únicos:

“Que só sei dar vida à trama vã
Rei das belezas fugazes
Tu que trazes drama à vida sã”

Seguindo o ritmo das baladas românticas, Gal Costa transita em notas musicais por um antigo sucesso dos Beatles, “Viver e Reviver (Here, There and Everywhere)” (Paul McCartney – John Lennon – versão Fausto Nilo). A balada ressalta a doçura dos floreados que Gal Costa lhe empresta. É uma doce volta a época flower power, abandonada por ela definitivamente no álbum “Caras e Bocas” (1977), com uma roupagem delicada do fim da década de 80. Esta canção entraria para a trilha sonora da novela “Bebê a Bordo” (Globo) e marcaria a presença da cantora no programa “Globo de Ouro”.

“E eu bem que tentei construir
Sonhos de paz vendo a relva crescer
Pobre de quem
Pensar que o amor morreu”

Gal Costa encerra o lado A do disco com mais uma canção de amor, “Me Faz Bem” (Milton Nascimento – Fernando Brant). A canção é apaixonada e apaixonante. A preferida da cantora no disco, que confessou inspirar-se em Elis Regina e Angela Maria para interpretá-la. Um hino ao amor, quem não bebeu desta música pensando em alguém? Nesta canção viajamos entre os arrepios de se aninhar ao amor, nos mistérios de quem amamos e nos fazemos par. Chegamos ao fim da primeira parte do disco cheios de canções que usaremos como trilha sonora das paixões que vamos viver no nosso dia a dia.

A Última Provocação de Gal Costa na Década de 1980

Com mais ritmo, mas não menos romântica, vamos começar o lado B com “Morro de Saudade” (Gonzaguinha). Aqui sensualidade e romantismo rimam com perfeição, revela de vez a verve apaixonada pela qual passava Gal Costa. É também uma despedida entre Gal Costa e Gonzaguinha.
A canção mais esperada do disco, que dá título a ele, vem logo a seguir, “Lua de Mel” (Lulu Santos), aqui temos uma Gal Costa em sua mais completa explosão sensual. Literalmente ela mora, nesta canção, em um pedaço do céu. Nunca, em fase alguma da sua carreira, a cantora expôs tanto o romantismo, tanta vontade de cantar o amor saudável e erótico, a beleza da paixão na sua mais completa hipnose, do que neste álbum.
Lua de Mel Como o Diabo Gosta” tem um grande vencedor, Lulu Santos. Três canções em um único álbum da primeira dama da MPB, era a consolidação da sua carreira. “Creio” (Lulu Santos) é melancólica, existencialista, triste e bela. Os versos aqui advinham o que vai achar este álbum da crítica:

“Tudo é incerto
E por isso mesmo exato
Tudo que for pra ser, será”

E o incerto continua a tomar conta do álbum. Como se continuasse do ponto que deixara em “Musa de Qualquer Estação” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), do “Bem Bom”, Gal Costa entra em um tom mais alto e ousa a gravar novamente a dupla que entrara para o Guines como a que mais teve músicas interpretadas por cantores diversos: Michael Sullivan e Paulo Massadas, a canção é “Sou Mais Eu”, aqui Gal Costa afirma a proposta do álbum, arremata com esta última provocação que faria na década de 80. E para quem não acreditava, ela dizia “sou mais eu”.
Se o tom começou alto com “Arara”, não termina diferente. “Todos os Instrumentos” (Joyce) surge indomável, jazístico, quase a rimar um blues. Gal Costa encerra o álbum como começou, imprevisível.

“Está no sujo e no cristalino
Está na voz do cantor
Na loucura e no desatino”

Lua de Mel Como o Diabo Gosta” não correspondeu à expectativa que se fazia da volta de Gal Costa. Foi visto à época como um disco irregular e cheio de baladas românticas, algo inédito na discografia da musa da Tropicália e do desbunde. Teria sido o bis na interpretação da dupla Sullivan-Massada? Não. Na verdade o que a crítica não perdoou foi um disco de Gal Costa com três canções de Lulu Santos, na época visto como o eterno garotão surfista que debutava pela MPB. Visto à distância, o que faltou ao álbum? Quem pôde ver o show sabia. No show Gal Costa cantava “O Ciúme” (Caetano Veloso), música lançada por Caetano Veloso naquele ano, levando a platéia ao delírio. Trazia dos shows que fez com Tom Jobim uma interpretação ímpar de “Dindim” (Tom Jobim). Faltou esta bagagem para costurar tão ousada proposta, uma ode à paixão! Sobre o “Lua de Mel Como o Diabo Gosta” não prevalecerá o que disse a crítica da época, mas a longevidade das canções, que não envelheceram, não ficaram datadas e não foram recuperadas por nenhum aventureiro da MPB. Este álbum causou mais polêmica do que desagradou.

Ficha Técnica:

Lua de Mel Como o Diabo Gosta
BMG
1987

Direção artística: Guto Graça Mello e Gal Costa
Produzido por Guto Graça Mello
Coordenação de repertório: Miguel Plopschi
Engenheiros de gravação: Sergio Ricardo (G.G.M. Studios), Jackson Paulinho (G.G.M. Studios), Guilherme Reis (Multi-Studio), Cláudio Farias (Multi-Studio), Andy Mills (Mix) e Sergio Murilo (SINTH)
Assistentes de gravação: Celso Lessa (G.G.M. Studios), Magro (Multi-Studio) e Moleza (Multi-Studio)
Assistente de produção: Lia Sampaio e Celso Lessa
Engenheiros de mixagem: Eduardo Costa (Transamérica) e Vanderlei Loureiro (Transamérica)
Assistente de mixagem: Alcides (Transamérica), Edson Grandão (Transamérica), Fernando (Transamérica) e Paulo Campos (Transamérica)
Coordenação de mixagem: Sergio Ricardo (G.G.M. Studios) e Jackson Paulino (G.G.M. Studios)
Direção de mixagem: Guto Graça Mello
Corte: Oswaldo (RCA)
Voz gravada em sistema digital por Guilherme Reis
Capa: Noguchi
Concepção: Gal Costa
Fotos da capa: Márcia Ramalho
Produção: Marcelo Marinho
Make-up: Marlene Moura
Coordenação gráfica: Tadeu Valério

Músicos Participantes:

Arranjos e Regências: Guto Graça Mello, Djavan, Ricardo Cristaldi, Lincoln Olivetti, Robson Jorge e Torcuato Mariano
Bateria: Guto Graça Mello, Carlos Baía e Jorginho Gomes
Violão: Djavan e Torcuato Mariano
Violão 12 Cordas: Manassés
Guitarras: Torcuato Mariano e Robson Jorge
Guitarra Havaiana: Rick Ferreira
Baixo: Nico Assumpção, Fernando Alves e Pedro Baldanza (Pedrão)
Sax: Leo Gandelman
Piano: Luiz Avellar
Flautas: Zé Carlos Borges
Teclados: Ricardo Cristaldi e Robson Jorge
Percussão: Carlinhos Brown e Laudir de Oliveira
Vocais: Gal Costa, Nina Pancevski, Solange Borges, Michael Sullivan e Paulo Massadas

Faixas:

1 Arara (Lulu Santos), 2 O vento (Djavan – Ronaldo Bastos), 3 Tenda (Caetano Veloso), 4 Viver e reviver (Here, there and everywhere) (Paul McCartney – John Lennon – versão Fuasto Nilo), 5 Me faz bem (Milton Nascimento – Fernando Brant), 6 Morro de saudade (Gonzaguinha), 7 Lua de mel (Lulu Santos), 8 Creio (Lulu Santos), 9 Sou mais eu (Paulo Massadas – Michael Sullivan), 10 Todos os instrumentos (Joyce)

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