ENDIMIÃO E JOHN KEATS – UM PENSAMENTO DE BELEZA


A perseguição à beleza e à juventude vem desde a perda da eternidade da vida por Adão e Eva no jardim do Éden. Nos dias de hoje o homem utiliza-se da tecnologia para preservar um pouco mais a beleza, para transformá-la esteticamente. Já os gregos inseriam em sua cultura a busca latente pela perfeição do belo. Na Grécia clássica os filhos defeituosos eram abandonados. Vários são os mitos gregos que perseguem a beleza, como Afrodite, Narciso, Adônis, Helena ou Endimião. Com o Renascimento, o velho ideal da beleza perfeita é a temática da obra dos artistas como Michelangelo. Também na literatura esta busca é exaustivamente perseguida e quase esteticamente tocada, em versos líricos. Das esculturas renascentistas aos bisturis da cirurgia plástica moderna, o terno sonho do homem de dominar a juventude e a beleza.

O Mito de Endimião

Endimião faz parte das personagens da mitologia grega que traduzem a perseguição ao ideal de beleza. Na lenda Endimião é um pastor portador de uma beleza perfeita e inatingível. O próprio Zeus, senhor do Olimpo e dos deuses, encantara-se pela beleza do jovem pastor. Prometera-lhe realizar o seu maior desejo. E o belo pastor, quando adulto, pediu a Zeus que não lhe tirasse nunca o que tinha de mais perfeito e valioso, a beleza rara de um simples mortal. O tempo e a beleza eram inimigos mortais, um dilacerava ao outro, até que sucumbisse a mais frágil, a mais delicada, restando apenas os ecos de uma perfeição efêmera, mas ambicionada por todo ser humano.
Zeus realiza o pedido do rapaz com o sortilégio sarcástico dos imortais diante da perecividade humana. Numa tarde de verão Zeus promete ao pastor que naquele dia, quando adormecesse, jamais envelheceria e perderia a beleza. Feliz, Endimião banha o seu belo corpo na fonte. A água molha a perfeição dos contornos dos músculos, delineando os mais recônditos pêlos ao vento em contraste com a pele aveludada e sem cicatrizes. Endimião apalpa o próprio corpo. Sabe que será eternamente jovem. Uma forte tempestade ameaça vir do céu. O belo pastor reúne todo o rebanho para protegê-lo da chuva ameaçadora. Sente o corpo fustigado pelo esforço. À sombra de uma árvore, encosta-se a uma pedra e suspira cansado. Olha para o céu com um leve sorriso. Tão logo adormecesse seria jovem e belo para todo o sempre. Com o seu olhar perdido no horizonte celeste, cansado e feliz, Endimião adormece. Jamais iria acordar. Zeus o envolvera em um sono eterno, poupando-o assim, da velhice e da perda da beleza.
À noite Selene, a Lua, corre o céu em sua carruagem prateada, conduzida por dois cavalos alados. Seu brilho prateado inunda a terra de luz e claridade, amenizando a escuridão da noite. Do céu Selene avista a figura adormecida de Endimião. É o homem mais belo que um dia pousara os seus olhos. Apaixonada, desce do céu e aproxima-se mansamente do jovem, para que não acorde. Emocionada, Selene contempla aquele rosto sorridente e adormecido. Impulsionada pelo amor, ela não resiste, aproxima-se do rapaz, sente o cheiro de Ambrósia a exalar daquele corpo. Beija-lhe os lábios entreabertos e sorridentes. O corpo está quente e pulsa normalmente, mas não desperta. Selene abraça-se àquele homem com paixão. Mas ele não desperta. Por fim ela adormece ao seu lado.
Assim, a Lua todos os dias desce do céu, abraça-se ao seu amor, adormecendo ao seu lado, na esperança de que ele um dia desperte. Mas Endimião adormece para sempre na eternidade da sua beleza e da sua juventude. Sempre com um sorriso nos lábios. A bela Lua contempla aquele amor impossível. E conforme a sua dor pela paixão impossível, em dias diferentes às vezes brilha, às vezes está pálida no céu.

John Keats

John Keats nasceu em Londres, em 31 de outubro de 1795. Tornou-se um dos maiores poetas da língua inglesa. Keats perdeu muito cedo os pais, sendo obrigado por seu tutor a aprender o ofício de assistente de cirurgião, que o levaria a trabalhar em dois hospitais. Mas o jovem poeta abandona a medicina e mergulha na literatura.
A obra de Keats é de início, esculpida pelo romantismo e o seu “Poems” de 1817, não foi bem aceito, sendo classificado como um escritor vulgar e de formação inferior. Conhecedor da obra de Homero e apaixonado pela mitologia grega, Keats vai perseguir o ideal de beleza dos gregos, em longos versos que não são épicos, mas líricos, de uma ode à beleza jamais vista na literatura. Com base em leituras mitológicas, concebeu o seu “Endymion” (1818; Endimião), fez de Endimião uma alegoria do amor pela beleza ideal e estética, definiu a beleza no verso magistral que também diz muito de sua atitude para com a vida: “A thing of beauty is a joy for ever” (“Uma coisa bela é uma alegria para sempre”).
John Keats apaixonou-se pela vizinha Fanny Brawne, mas teve que fugir dessa paixão, pois ao cuidar do irmão vítima da tuberculose, também ele contraiu a doença, sendo obrigado a ir para a Itália na esperança de ali se vir a curar. Assim como Endimião, não envelheceu, morreu aos 25 anos, em 23 de fevereiro de 1821. Só teria o reconhecimento da sua obra na segunda metade do século XIX, quando é aclamado como um dos maiores poetas do romantismo inglês.
Antes do morrer, Keats pediu que fosse escrito na sua lápide o epitáfio: “Here lies One / Whose Name was writ in Water” (“Aqui jaz alguém / Cujo Nome foi escrito na Água”).

From Edymion, by John Keats


“A thing of beauty is a joy for ever:
Its loveliness increases; it will never
Pass into nothingness; but still will keep
A bower quiet for us, and a sleep
Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing.
Therefore, on every morrow, are we wreathing
A flowery band to bind us to the earth,
Spite of despondence, of the inhuman dearth
Of noble natures, of the gloomy days,
Of all the unhealthy and o’er-darkened ways
Made for our searching: yes, in spite of all,
Some shape of beauty moves away the pall
From our dark spirits. Such the sun, the moon,
Trees old and young sprouting a shady boon
For simple sheep; and such are daffodils
With the green world they live in; and clear rills
That for themselves a cooling covert make,
‘Gainst the hot season; the mid forest brake,
Rich with a sprinkling of fair musk-rose blooms:
And such too is the grandeur of the dooms
We have imagined for th mighty dead;
All lovely tales that we have heard or read:
An endless fountain of immortal drink,
Pouring unto us from the heaven’s brink.”

CRONOLOGIA


1795 – Filho de família modesta, nasce em Londres, John Keats, no dia 31 de Outubro. No dia 18 de dezembro é batizado.
1804 – Aos 8 anos, perde o pai.
1817 – Publica “Poems” (Poemas).
1818 – Concebe “Endymion” (Endimião). Concebe “Hyperion” (Hiperião) para dez cantos.
1819 – Abandona “Hyperion” (Hiperião) com apenas quatro cantos. Cria o belo “The Eve of St. Agnes” (Às Vésperas de Santa Inês), considerado por muitos como o seu melhor poema.
1820 – Embarca para a Itália na esperança de se curar da tuberculose.
1821 – Morre John Keats, em 23 de fevereiro, vítima da tuberculose. É sepultado em 26 de fevereiro.

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