VICENTE SESSO – O INVENTOR DO ESTILO DAS NOVELAS DAS SETE

Outubro 16, 2009

Vicente Sesso é um dos mais importantes nomes da teledramaturgia brasileira, sendo muitas vezes negligenciado por aqueles que contam a história da televisão. Assim como Janete Clair e Ivani Ribeiro, Vicente Sesso foi um dos responsáveis pela modernização das telenovelas, levando-as ao formato atual.
O autor foi o responsável pelo último grande sucesso da extinta TV Excelsior, “Sangue do Meu Sangue”, em 1969. Sua ida para a TV Globo, em 1970, deu-se com a novela “Pigmalião 70”, primeira produção da emissora carioca para o horário das 19h00 com linguagem coloquial, sem os resquícios dos dramalhões de época. Com esta novela, Vicente Sesso inaugurava o estilo comédia água-com-açúcar que prevalece no horário até os dias atuais.
As poucas novelas que o autor escreveu tornaram-se grande sucessos, marcando uma época. Seu texto é inteligente, delicado e sempre ladeado por um humor sofisticado. Um elenco estelar é outra característica imprescindível em sua obra, tendo sempre os maiores nomes do teatro e da televisão da época em suas tramas. Foi numa novela de Vicente Sesso, “Minha Doce Namorada” (1971), que Regina Duarte foi aclamada a “Namoradinha do Brasil”. Suas personagens primam pelo carisma, pela identificação com o grande público, visto que o que o autor escreve é uma transcrição do cotidiano, com cenas que ele criou a partir do que viu ao seu redor.
Infelizmente Vicente Sesso trocou a televisão brasileira pelas emissoras latinas, escrevendo grandes sucessos para o público da Argentina, Peru, Chile, Espanha e Colômbia, entre muitos. Cultuado por grandes damas da dramaturgia brasileira, como Fernanda Montenegro e Tônia Carrero, é um dos autores mais respeitado por esta geração. Em 2009 o SBT comprou os direitos autorais de três novelas de Vicente Sesso para uma readaptação, entre elas “Uma Rosa Com Amor” e “Minha Doce Namorada”. Redescobrir Vicente Sesso é penetrar nas raízes mais profundas do gênero da telenovela brasileira. Mesmo nos tempos atuais, a leveza singela dos seus textos não permitiu que envelhecessem, porque descreve de forma cômica a própria sociedade universal, motivo que o faz ser aceito com sucesso nas emissoras de outros países. Ator, diretor, dramaturgo, novelista, pai adotivo do ator e diretor Marcos Paulo, Vicente Sesso é um marco da televisão brasileira.

Vicente Sesso, Autêntico Paulistano

Vicente Sesso nasceu na cidade de São Paulo, em 17 de maio de 1933. Sua verve paulistana jamais deixou de aflorar na formação da personalidade. Seu pai, Francisco Sesso era militar, e a mãe, Filomena Rotela Sesso, uma sofisticada proprietária de casa de modas e de chapéus. A junção dos pais ajudou na construção do universo teledramático do autor. Vicente Sesso chegou a fazer os figurinos para alguns dos personagens das suas novelas. Suas heroínas traziam a coragem e a dinâmica que se emanavam da mãe. O trabalho intenso dos pais, obrigava que fosse criado e educado por uma governanta alemã. A educação rígida da governanta fez com que aos cinco anos, lesse o alemão.
A paixão pelo teatro foi herdada do pai, um militar voltado para as artes cênicas. Francisco Sesso costuma levar os filhos a quase todos os espetáculos que passavam pela paulicéia. O fascínio do patriarca Sesso pelo teatro, fez com que ele travasse amizade com vários atores. Uma das amizades por ele cultivada era com a italiana Franca Bonni. A atriz montava uma peça para atuar com uma companhia na Argentina. Na peça havia um papel de criança, e o ator-mirim que o viveria, esperado da Itália, não veio. O então adolescente Vicente Sesso foi escalado para viver a personagem. Foi a estréia como ator daquele que se iria tornar um grande dramaturgo da televisão, em palcos argentinos, numa peça italiana. Quando retornou da excursão, a paixão pelo teatro já lhe corria nas veias.
Ainda na adolescência, ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Em Londres, na Inglaterra, observou os mecanismos do mais novo veículo de comunicação que aportara no Brasil, a televisão. Viu de perto como eram feitos os trabalhos televisivos na BBC de Londres. Quando retornou ao Brasil, trazia o aprendizado dos bastidores da televisão incipiente.

A Estréia Como Teledramaturgo

No Brasil, Vicente Sesso, um jovem de 18 anos, passou a trabalhar com um grupo de teatro amador. Embora muito jovem, candidatou-se a um concurso para o cargo de diretor teatral, tendo como função inaugurar vários teatros de bairro na cidade de São Paulo, sendo um dos vencedores. No cargo, passou a escolher e a dirigir peças, destacando-se precocemente na profissão.
A vida artística de Vicente Sesso confunde-se com a própria história da televisão brasileira. Logo que retornou de Londres, foi trabalhar na TV Tupi, a convite de Cassiano Gabus Mendes. Permaneceu naquela emissora até a saída de Graça Melo, que o levou para a TV Paulista, em 1952.
Na TV Paulista, passou a participar de “Grandes Teatros”, com grupos que faziam peças transmitidas às segundas-feiras. Sua genialidade logo despontou nos trabalhos. Passou a opinar nos textos, que considerava ruins. Diante das críticas, Graça Melo desafiou-o a escrever um texto melhor. Aceitando o desafio, escreveu uma peça de natal, “Meninos dos Ramos”. Ao entregar o texto, viu o rosto incrédulo de Graça Melo, que duvidava ser ele o autor. O resultado foi imediato, Vicente Sesso ganhou com o texto, o prêmio de melhor autor do ano. Nascia um novo teledramaturgo que escreveria o seu nome na história da televisão brasileira.

Passagens Pelas Maiores Emissoras Primordiais

Ainda na TV Paulista, Vicente Sesso passou a escrever os monólogos de um programa dirigido por Graça Mello. Passou a ser responsável pelos teatros exibidos no canal. Foi criando e adaptando com primor várias peças. O perfeccionismo do seu teatro envolvia muito trabalho. Cuidava de tudo minuciosamente, da maquiagem à iluminação. Passou a desenhar as roupas para as personagens que criava ou dirigia, uma característica que se seguiria em suas futuras novelas de época. O jovem Vicente Sesso era visto como genial, e dono de um gênio forte e exigente. Em um ano, adaptou e encenou dez textos de William Shakespeare. Na época, ele começou a questionar-se se queria seguir a carreira de ator ou a de escritor.
Vicente Sesso passaria pelas principais emissoras da televisão brasileira da década de 1960, sempre responsável pelo gênero do teleteatro, onde ganhou prêmio também como melhor diretor. Voltou para TV Tupi, onde passou a escrever seriados infanto-juvenis, como o “Teatro da Fantasia”, “As Aventuras de Marco Pólo”, que ficou no ar por quatro anos, e, “Jardim Encantado”.
Sempre a acompanhar Graça Melo, o autor foi parar na TV Record, onde aprendeu as mais avançadas técnicas de televisão, importadas dos Estados Unidos por engenheiros norte-americanos. Mais tarde, ele declararia que foi na TV Record que aprendeu, de fato, a trabalhar em televisão.
Vicente Sesso tornar-se-ia por certo tempo, um produtor independente, pois era conhecido por ser genioso e querer fazer tudo ao seu jeito. Passou ainda pelo departamento de televisão da McCann Erickson, contratado como diretor.
A sua estréia como autor de telenovelas iria acontecer quando foi contratado pela mítica e então poderosa, TV Excelsior de São Paulo.

O Último Sucesso da TV Excelsior

A TV Excelsior era conhecida pelo esmero que utilizava nas grandes produções. Suas novelas de época diferenciavam das da TV Globo pela qualidade dos textos, muitas vezes com inspiração em clássicos da literatura brasileiro. Seguindo a lógica, quando contratado pela emissora paulista, Vicente Sesso optou pela adaptação de obras de autores brasileiros, desenvolvendo trabalhos de fôlego, já no estilo da telenovela, como “O Guarani”, “As Minas de Prata” e “Senhora”, todas inspiradas em obras de José de Alencar.
Em 1966, escreveu e dirigiu o seriado semanal “As Aventuras de Eduardinho”, voltado para o público infanto-juvenil. Os episódios, apresentados aos sábados, mesclavam folclore nacional e internacional, com personagens históricas e atuais. Contava com um elenco fixo, recebendo vários atores convidados. O seriado tem como curiosidade ter lançado as carreiras dos atores Denis Carvalho e Marcos Paulo, este último filho adotivo de Vicente Sesso. Os atuais atores e diretores eram na época crianças. O seriado ficaria no ar até 1968. Inicialmente foi exibido e produzido pela TV Excelsior, depois pela TV Paulista/Globo, mas já sem o grande sucesso do começo.
Trabalhos intensos fizeram que o autor tivesse um princípio de enfarte, aos 35 anos. Com a saúde abalada, Vicente Sesso foi obrigado a parar com as atividades, afastando-se da televisão por um bom tempo.
Já recuperado, voltaria em 1969, para escrever a trama de “Sangue do Meu Sangue”, novela que se tornaria um clássico da história da televisão e o último grande sucesso da TV Excelsior, que viria a falir pouco tempo depois do seu término.
Sangue do Meu Sangue”, foi nos moldes das telenovelas atuais, a primeira a ser escrita por Vicente Sesso. Dramalhão de época, diferenciava-se das novelas contemporâneas de Glória Magadan na TV Globo por trazer um texto envolvente e fascinante, inspirado não em sheiks ou imperadores europeus, mas na história brasileira, com a temática abolicionista que incomodou a censura da ditadura militar, obrigando a emissora a mudar o horário de transmissão, das 19h00 para as 20h00. Além de escrever a trama, Vicente Sesso criou as roupas usadas pelos atores.
Uma das características das novelas do autor é o uso de um elenco luxuoso. “Sangue do Meu Sangue” trazia grandes estrelas do teatro e da televisão, que na época estavam no auge das suas carreiras. Francisco Cuoco, no papel de Lúcio Rezende, protagonista da trama, firmava-se definitivamente como grande galã das telenovelas, sendo logo a seguir, arrebatado pela TV Globo. Fernanda Montenegro fazia a sofrida Júlia, emocionando o Brasil. Tonia Carrero, outra grande dama do teatro, fazia a sua estréia nas novelas, no papel de Pola Renon, a atriz tornar-se-ia uma das preferidas do autor. Ainda faziam parte da constelação de estrelas Henrique Martins, Nicette Bruno, Rosamaria Murtinho, Armando Bógus, Mauro Mendonça, Sadi Cabral, Rodolfo Mayer, Nívea Maria, Edmundo Lopes, Rita Cléos, Sérgio Britto, Aldo de Maio, Nathália Timberg, Cláudio Corrêa e Castro, Enio Carvalho, Carminha Brandão, Nestor de Montemar, Edmundo Lopes, Antonio Pitanga, Rachel Martins, Gilmara Sanches, Eduardo Abbas, Gladys Maria, Eudóxia Acuña, Geny Prado, Silvio de Abreu, entre outros.
Em 1995, o SBT fez uma segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, trazendo Tarcísio Filho, Lucélia Santos e Bia Seidl nos papéis de Lúcio Rezende, Júlia e Pola Renon, respectivamente. Apesar de uma produção minuciosa da emissora, a versão não teve o grande sucesso da primeira, e Vicente Sesso mostrou-se insatisfeito com ela, chegando a declarar que o seu texto tinha sido descaracterizado. Completava o elenco da segunda versão, entre muitos, Rubens de Falco, Osmar Prado, Lucinha Lins, Othon Bastos, Denise Fraga, Suzy Rego, Guilherme Leme, Ewerton de Castro, Bete Coelho, Paulo Figueiredo, Marcos Caruso, Jussara Freire, Jandira Martini, Yara Lins, Edgard Franco, Jayme Periard, Delano Avelar, Vera Zimmermann, Flávia Monteiro, Jandir Ferrari, Luís Guilherme, Elisa Lucinda, Rogério Márcico, Marcos Plonka, Cacá Rosset, Walter Forster e Irene Ravache. Tônia Carrero, que brilhou na versão original, voltou em participação especial.

Inaugurado o Estilo das Novelas das 19h00 na TV Globo

O sucesso de “Sangue do Meu Sangue” levou a TV Globo a contratar, em 1970, Vicente Sesso como novelista. O autor tinha grandes desafios, como o de escrever uma novela para o mítico Sérgio Cardoso e, criar uma história atual, que encerrasse a era dos dramalhões de época no horário das 19h00. Surgia “Pigmalião 70”, inspirada na peça de Bernard Shaw, com inversão das personagens. Nando (Sérgio Cardoso), é um humilde feirante que trabalha ao lado da mãe, a Baronesa (Wanda Kosmo) e é noivo de Candinha (Suzana Vieira). Um dia um pequeno acidente automobilístico faz com que o seu destino cruze o da milionária Cristina (Tonia Carrero). Instigada pela situação, Cristina faz uma aposta com o pai (Álvaro Aguiar), de que transformaria aquele homem rude em um sofisticado cavalheiro para apresentar à alta sociedade. Cristina vence a aposta, mas se apaixona profundamente por Nando.
Pigmalião 70” foi um grande sucesso de audiência, marcando o estilo da linguagem de comédia do horário das 19h00 na TV Globo, que persiste até os tempos atuais. A partir de então, todas as novelas do horário foram escritas sobre os moldes da estrutura delineada por Vicente Sesso. A química entre Sérgio Cardoso e Tônia Carrero atingiu o grande público, que se deliciava com dois gigantes dos palcos brasileiros, mostrando-se então, fascinantes na televisão.
A beleza magnética de Tonia Carrero fez com que todas as mulheres brasileiras imitassem o seu corte de cabelo, chamando-o de pigmalião. Suzana Vieira marcava a sua estréia na TV Globo, onde construiria uma brilhante carreira.
Os grandes vilões sempre fizeram parte das tramas de Vicente Sesso, sem que se mostrassem caricatos; na novela, Carlito, magnificamente interpretado pelo ator Edney Giovenazzi, era o antagonista e vilão. No elenco, escolhido com rigor e primor, estavam ainda, Felipe Carone, Célia Biar, Eloísa Mafalda, Marcos Paulo, que seria uma presença constante nas tramas do pai, Maria Luiza Castelli, Betty Faria, Rachel Martins, Norah Fontes, Renato Máster, Jacyra Silva, Jardel Mello, Carmem Silva, Ruth de Souza, Ida Gomes, Elizabeth Gasper, Adriano Reys, Herval Rossano, Íris Bruzzi, Eleonor Bruno. Entre o elenco, havia a insólita presença da jornalista Marisa Raja Gabaglia, que era muito popular no telejornalismo da década de 1970.
A novela firmou o estilo do horário; alcançou o grande público; ao lado de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, transmitida em época simultânea, no horário das 20h00, transformou a TV Globo, pela primeira vez, em líder de audiência sobre todas as outras emissoras; lançou moda e, fez grande sucesso com a sua trilha sonora. Vicente Sesso tornar-se-ia um ícone daquele horário.

Nasce a Namoradinha do Brasil

Após a bem sucedida “Pigmalião 70”, Vicente Sesso tomou fôlego por alguns meses, voltando em 1971, com “Minha Doce Namorada”, novela que se iria tornar um dos maiores sucessos do horário na TV Globo, considerada um ícone do gênero.
A trama foi inspirada em vários textos que o autor já havia apresentado anteriormente em outros canais de televisão, tendo como núcleo central, uma história que tinha sido apresentada no “Teatro de Fantasia”, na década de 1950.
A novela trazia como protagonistas Regina Duarte e Cláudio Marzo, nos papéis de Patrícia e Renato, respectivamente. Era a terceira produção da TV Globo que utilizava os atores como um casal romântico, parceria bem aceita pelo público, iniciada em “Véu de Noiva” (1969). Os atores vinham do elenco da novela “Irmãos Coragem”, onde os seus personagens Duda Coragem e Ritinha, foram retirados da trama para as gravações da novela de Vicente Sesso. Regina Duarte, que engravidara durante o decorrer de “Irmãos Coragem”, vinha recuperada do seu primeiro parto, irradiando uma luz e doçura no papel da órfã criada por artistas mambembes, que lhe valeu, de imediato, ser conclamada a “Namoradinha do Brasil”, título carinhoso que perseguiu a atriz por quase uma década, influenciando na designação dos papéis que lhe seriam dados na TV Globo nos anos de 1970.
Minha Doce Namorada” trazia os mais singelos e fascinantes ingredientes do chamado estilo comédia “água-com-açúcar”. Iniciou-se na cidade histórica de Ouro Preto, mostrada através das repúblicas tradicionais de estudantes, onde vivia Renato, e de um parque de diversões, que abrigava a doce e decidida Patrícia. O encontro do casal dar-se-ia sobre a magia da cidade. Os altos custos da produção em Ouro Preto, fizeram com que as personagens mudassem para a cidade do Rio de Janeiro.
Além de Patrícia, personagens carismáticos conquistaram o Brasil, como a misteriosa e bondosa Tia Miquita, uma vendedora de maçãs do amor, magistralmente vivida por Célia Biar. Para interpretar a personagem, a atriz utilizou-se de uma maquiagem que a deixava bem mais velha. Também o veterano Sadi Cabral explodiu no gosto do público, vivendo a personagem do poderoso Hipólito Peçanha, que confundido por Patrícia como um faxineiro da fábrica que era dono, faz-se passar por Seu Pepê, iniciando com ela uma amizade carismática e cumplicidade que conquistou a simpatia dos telespectadores. Seu Pepê e Patrícia viraram tema de uma marchinha de carnaval no ano de 1972. A antagonista da vez era a grande vilã Madame Sarita, interpretada por Vanda Lacerda. A personagem despertou a ira do público, e a atriz sofreu com a perseguição dos mais exaltados.
Minha Doce Namorada” contava com um elenco coeso, que lhe permitiu uma ampla galeria de personagens carismáticos. Entre eles estavam a bela Maria Cláudia, Mário Lago, Suzana Vieira, Marcos Paulo, Heloisa Helena, Renata Fronzi, Roberto Pirillo, Paulo Padilha, Juan Daniel, Yara Cortes, Daniel Filho, Reynaldo Gonzaga, Dorinha Duval, Íris Bruzzi, Elza Gomes, Jardel Mello, Carmen Silva, Rachel Martins, Urbano Lóes, Carminha Brandão e Enio Carvalho, ator ícone do universo de Vicente Sesso, presença constante em suas novelas. Outra curiosidade foi a presença de Suzana Gonçalves, irmã de Suzana Vieira; a atriz transformar-se-ia em um grande sucesso da TV Globo, fazendo personagens marcantes. Ela abandonaria a carreira no auge, em 1976, partindo com o marido para desbravar o futuro estado de Rondônia.

O Apogeu Com Uma Rosa Com Amor

Com “Minha Doce Namorada”, Vicente Sesso escreveu de vez o seu nome como grande escritor de novelas de sucesso. Alcançaria o apogeu com a próxima trama, “Uma Rosa Com Amor”, que iria ao ar entre 1972 e 1973. Àquela altura, o autor sabia todas as técnicas do gênero de novelas que se tornara um mestre, para atrair grandes públicos.
A trama fugia dos casais românticos tradicionais, mostrando a história da solteirona Serafina Rosa Petrone (Marília Pêra), secretária romântica e atrapalhada, que vivia em um cortiço com os pais, Giovanni (Felipe Carone) e Amália (Lélia Abramo), e a irmã Terezinha (Nívea Maria), numa típica família de imigrantes italianos. O sonho de Serafina era um dia vir a casar; no escritório onde trabalhava como secretária, enviava todos os dias uma rosa para si mesma, para que os colegas pensassem que tinha um admirador secreto.
O patrão de Serafina, Claude Geraldi (Paulo Goulart), por quem ela suspirava, era noivo da sedutora Nara (Yoná Magalhães), e estava envolvido em negócios escusos, além de estar ilegal no país. Para regularizar a sua situação, teria que se casar, mas como Nara era desquitada e as leis da época não lhe permitia um segundo matrimônio, Claude não viu outra saída a não ser propor um casamento a Serafina, com data e hora para acabar. Após muitos desencontros e situações cômicas, Claude finalmente se deixará apaixonar pela secretária.
Marília Pêra consolidava-se como uma grande humorista através de Serafina, conquistando de vez o grande público brasileiro. Foi um dos papéis mais carismáticos que já viveu na televisão. O amor de Serafina e Claude era embalado pela música “Ben”, cantada pelo menino Michael Jackson, que desde então, passou a ser conhecido em todo o Brasil. O casal protagonista era uma novidade no horário. Paulo Goulart estava no seu auge de galã de telenovelas. Depois desta novela, o ator deixaria a TV Globo, sendo contratado pela TV Tupi. Só voltaria à emissora em 1980.
Yoná Magalhães, que na década de 1960 foi a grande estrela global, voltava à emissora carioca após dois anos na TV Tupi, para viver sua primeira vilã, abandonando o estereótipo das heroínas das novelas de Glória Magadan. A atriz usava durante toda a novela, uma peruca loira, uma moda na época. A atriz Lélia Abramo, ao viver Amália, uma autêntica e popular mãe italiana, ganhou rótulo na televisão como intérprete de grandes matriarcas imigrantes.
Tônia Carrero, presença quase que obrigatória nas telenovelas de Vicente Sesso, mostrou todo o seu glamour na pele da sofisticada atriz Roberta Vermont, que se envolvia com Sérgio (Marcos Paulo). Pela primeira vez, em uma novela das 19h00, foi desenvolvido o tema de uma mulher mais velha apaixonar-se por um homem mais jovem. Tônia Carrero e Marcos Paulo viveram com delicadeza este romance, sob os protestos de Joana (Vanda Lacerda), mãe do rapaz. Seria a última personagem de Tônia Carrero em uma novela, na década de 1970. Cansada da televisão, a atriz deixaria o veículo, só retornando em 1980.
Grande destaque para a participação de Grande Otelo, presença rara nas telenovelas. O ator viveu o velho Pimpinoni, artista criador de marionetes, que com os seus bonecos, contavam histórias da vida. Pimpinoni é uma das personagens típicas do universo de Vicente Sesso, carismático, desprovido de vaidades e no crepúsculo da idade, com palavras sábias para aconselhar e proteger com amor quem circula a sua volta.
O elenco de primeira grandeza, contava ainda com as presenças de Leonardo Villar, José Augusto Branco, Ênio Santos, Ary Fontoura, Rosita Thomaz Lopes, Aurimar Rocha, Roberto Pirillo, Henriqueta Brieba, Heloísa Helena, Monah Delacy, Jacyra Silva, Eleonor Bruno, Mirian Muller, Cléa Simões, Dinorah Marzullo, Gilberto Martinho e Nelson Caruso.
Apesar do grande sucesso de público, “Uma Rosa Com Amor” marcava a despedida de Vicente Sesso como novelista da TV Globo. O autor não aceitava muito bem o esquema de ter que esticar uma trama mediante os índices de audiência alcançados. Ainda naquele ano de 1973, assinaria contrato com a TV Tupi de São Paulo. Longe da emissora carioca, jamais voltou a obter o sucesso alcançado por suas novelas.

Breve Passagem Pela TV Tupi

Após o sucesso de “Uma Rosa Com Amor”, Vicente Sesso voltaria a TV em novembro de 1973, quando estreava outra novela de sua autoria, “As Divinas… e Maravilhosas”, escrita para a TV Tupi. O autor deixava os cenários cariocas para escrever sobre a tradicional família paulistana, retrato que ele, nascido em um casarão na Rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, conhecia muito bem.
A história girava em torno de três mulheres de idade distintas: a velha Haydée (Nathália Timberg), a jovem e bela Catarina (Beth Mendes) e a madura Helena (Nicette Bruno). Um testamento milionário, que deixava um típico palacete paulistano da época de ouro dos barões do café e, uma grande fortuna, modificaria para sempre a vida daquelas três mulheres.
Para interpretar Haydée, uma velhinha, Nathália Timberg teve que se submeter a uma pesada maquiagem, envelhecendo o seu rosto e gestos. Ao lado de Nicette Bruno, Maria Aparecida Baxter e Yolanda Cardoso, a atriz foi responsável pelo sucesso da trama, todas volvidas pelo tom carismático das personagens de Vicente Sesso.
Mas a novela não alcançou o mesmo sucesso que as antecessoras escritas pelo autor para a TV Globo. Teve vários fatores que contribuíram para um desenlace morno, sem o fascínio de “Uma Rosa Com Amor” ou “Minha Doce Namorada”. Na luta pela audiência, a TV Globo contratou o diretor da novela, Oswaldo Loureiro, que iria atuar como ator em “Corrida do Ouro”. Deixando a direção, Oswaldo Loureiro foi substituído por Egberto Luiz.
Outra mudança que afetou o curso da trama foi em relação à personagem Catarina, uma das protagonistas. Bete Mendes, a atriz que a interpretava, sofreu um grande acidente automobilístico, sendo submetida a um longo período de convalescença, obrigando Vicente Sesso a desaparecer com a personagem. Durante o período que se restabelecia, Bete Mendes foi contratada pela TV Globo para viver a protagonista de “O Rebu”, de Bráulio Pedroso. A atriz já tinha protagonizado “Beto Rockfeller”, grande sucesso do mesmo autor. Diante do impasse, a personagem só voltaria à trama no último capítulo da novela, em que a direção aproveitou a edição de imagens de capítulos já gravados, em que ela aparecia em cenas românticas com o ator Ênio Carvalho.
Apesar de todos os problemas, a novela manteve uma envolvente e carismática trama, com destaques para as interpretações sublimes de Nathália Timberg, Nicette Bruno e John Herbert, e as engraçadas tiragens de Ana Maria Baxter e Yolanda Cardoso.
No elenco constava como sempre, a presença de grandes nomes como o grande ator do teatro brasileiro Procópio Ferreira, Geórgia Gomide, Arlete Montenegro, Geraldo Del Rey, José Lewgoy, Sadi Cabral, Elaine Cristina, Célia Coutinho, Flávio Galvão, Pepita Rodrigues, Íris Bruzzi, Glauce Graieb, Elizabeth Hartman, Elizabeth Gasper, Nelson Caruso, Leonor Navarro, Eleonor Bruno, Graça Melo, Leonor Lambertini, Cazarré, Benjamin Cattan, Jacyra Sampaio, Marcelo Picchi, Walter Prado e Geny Prado.
Após concluir “As Divinas… e Maravilhosas”, em 1974, Vicente Sesso aceitou um convite da televisão Argentina para escrever uma novela inspirada em “Deus Lhe Pague”, de Juracyr Camargo. No país vizinho, ele ficaria por quatro anos, escrevendo e traduzindo os seus trabalhos para o mercado internacional latino.

O Retorno em 1979

Vicente Sesso só voltaria a escrever uma novela para o público brasileiro em 1979. Desta vez com a missão de inaugurar o núcleo de novelas da TV Bandeirantes, extinto desde o ano de 1970. Na ocasião, a TV Tupi entrava em franca decadência, rumando para a falência que decretaria a sua extinção em 1980. Sem concorrência, a TV Globo tornara-se a única a explorar as telenovelas. A TV Bandeirantes decidiu investir fortemente no gênero, convidando Vicente Sesso, um autor que atraía sempre grandes atores que gostavam dos seus textos.
Para este importante momento da história da televisão brasileira, Vicente Sesso escreveu “Cara a Cara”. A trama girava em torno de Ingrid von Herbert (Fernanda Montenegro), uma mulher sofrida, que teve um filho quando se encontrava prisioneira em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo o filho arrancado dos braços, Ingrid, agora uma milionária, vem ao Brasil para encontrar o seu herdeiro. No Brasil, envolve-se com as outras personagens da trama, como a rica e decadente Regina (Débora Duarte), que lutava para salvar a família da miséria, casando-se com o rústico fazendeiro Tonho (David Cardoso).
Vicente Sesso conseguiu uma grande vitória com “Cara a Cara”, trazer Fernanda Montenegro de volta às telenovelas. Há mais de uma década que a grande dama do teatro não atuava em uma produção do gênero. Tê-la no elenco significava grande prestígio. A TV Globo tentara contratá-la, sem sucesso, por muitos anos.
Além de Fernanda Montenegro, a novela contava com uma produção esmerada, indo buscar grandes estrelas da TV Globo e da TV Tupi. Entre elas estava Débora Duarte, que se indispusera com a TV Tupi, deixando o elenco da segunda versão da mítica “O Direito de Nascer”, onde iria fazer a personagem Isabel Cristina. Na época a atriz era casada com o cantor e compositor Antonio Marcos, que atuou como ator na trama, vivendo a personagem Nando. Antonio Marcos era quem cantava o tema de abertura da novela.
Outra novidade era o protagonista da história, David Cardoso, galã do cinema nacional, considerado o rei das pornochanchadas. O ator era tido como um símbolo sexual do país. Contava com grande prestígio, mesmo jamais fazendo uma interpretação que se pudesse considerar satisfatória.
Apesar do grande esforço da produção da TV Bandeirantes, de fazer renascer o apogeu da época de ouro de Vicente Sesso na TV Globo, a novela alcançou um sucesso relativo, sem grandes índices de audiência. Serviu como semente para o núcleo de teledramaturgia da TV Bandeirantes. A maior característica de “Cara a Cara” foi sem dúvida, o seu elenco: Luís Gustavo, Nathália Timberg, Irene Ravache, Fúlvio Stefanini, Rolando Boldrin, Edson França, Maria Isabel de Lizandra, Wanda Kosmo, Célia Coutinho, Márcia de Windsor, David José, Carmem Silva, Roberto Pirillo, Fausto Rocha, Arlindo Barreto, Ruthnéia de Moraes e Raymundo de Souza.
Cara a Cara” foi a última novela de Vicente Sesso feita para o Brasil. Voltaria, em 1992, a TV Globo, escrevendo a minissérie “Tereza Batista”, adaptação da obra de Jorge Amado. Mas a sua prioridade continua a ser o mercado internacional, onde escreve com sucesso, tramas exibidas na Argentina, Peru, Estados Unidos, Chile, Espanha, Colômbia, Turquia, Eslovênia, Japão e Itália.
Em 1995, a segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, feita pelo SBT, desagradou-o profundamente, que se negou a ver o seu texto a perder as características originais. Em 2009, concordou em vender à mesma emissora, os direitos autorais de “Minha Doce Namorada” e “Uma Rosa Com Amor”, para novas versões e para a redescoberta do seu trabalho. Vicente Sesso, assim como Janete Clair, é um daqueles autores que trabalha com o impacto de cada capítulo, jamais com o todo da obra. Seu estilo é inconfundível desde a montagem do capítulo, onde deixa a cena de impacto para o final, prendendo o telespectador. Sua obra é imprescindível para a história da televisão brasileira, essencial para que se perceba o desenvolvimento das telenovelas, o maior veículo de comunicação do país.

OBRAS

Novelas

1969/1970 – Sangue do Meu Sangue (TV Excelsior)
1970 – Pigmalião 70 (TV Globo)
1971/1972 – Minha Doce Namorada (TV Globo)
1972/1973 – Uma Rosa Com Amor (TV Globo)
1973/1974 – As Divinas… e Maravilhosas (TV Tupi)
1979 – Cara a Cara (TV Bandeirantes)
1982 – Verônica: El Rostro Del Amor (Mercado Internacional)
1995 – Sangue do Meu Sangue (SBT)

Minisséries

1959 – Jardim Encantando (TV Tupi)
1959 – O Guarani (TV Excelsior)
1959 – Senhora (TV Excelsior)
1992 – Tereza Batista (TV Globo)

Seriados

1958/1962 – As Aventuras de Marco Pólo (TV Tupi)
1966/1968 – As Aventuras de Eduardinho (TV Excelsior e TV Globo)


DINA SFAT – MAGNETISMO E SEDUÇÃO

Outubro 3, 2009

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela “Os Gigantes“, de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga


GLÓRIA MAGADAN – A RAINHA DAS TELENOVELAS

Julho 29, 2009

Para que a história da telenovela no Brasil seja contada e compreendida, é essencial que se escreva nela o nome de Glória Magadan. A escritora, nascida em Cuba, foi a mais importante novelista da década de sessenta, essencial no início do gênero, tornando-se a mulher mais poderosa da televisão da época.
Se Janete Clair foi a consolidação do gênero, Glória Magadan foi o seu alicerce. Suas histórias folhetinescas eram desprovidas de qualquer bom senso ou apego à realidade. Era a ilusão, a fantasia e o sonho na forma bruta, às vezes grotesca. Distanciados da realidade brasileira, os folhetins da autora traziam histórias mirabolantes e exóticas, que podiam ter como cenário o deserto do Saara, o Japão medieval, a corte francesa do século XVIII. Amarradas de forma consistente, mas longe de uma lógica narrativa, as suas aventuras fascinaram o então incipiente público das telenovelas, fazendo da TV Globo uma máquina de produção do gênero, assegurando a audiência que necessitava na época que se lançou como a mais nova emissora de televisão do Brasil.
De 1965 a 1969, Gloria Magadan tornou-se a principal novelista da TV Globo, acumulando o cargo de diretora do núcleo de teledramaturgia da emissora, o que lhe conferiu um poder quase que sem limites. Poderosa, ela era temida por atores, autores e diretores. Uma palavra de desabono da cubana, e determinadas carreiras de ator ou atriz, poderiam cair em desgraça, sendo riscada dos bastidores da televisão. Caíram no seu desagrado nomes de poderosos como o diretor Daniel Filho, o ator Tarcísio Meira, e até a novelista Janete Clair, que em princípio de carreira, atraiu para si a inveja de Glória Magadan, insatisfeita que ela fizesse novelas com maior sucesso do que as suas.
O estilo dramalhão e inconsistente de Glória Magadan foi, aos poucos, tornando-se obsoleto, até que se extinguiu de vez, quando as novelas passaram a ser o principal gênero da televisão brasileira e o público passou a ser mais seletivo, exigindo lógica e uma aproximação efetiva das personagens dos folhetins com a realidade brasileira. Assim, Glória Magadan foi engolida por suas tramas exóticas, sendo demitida da TV Globo, em 1969. Terminava o reinado daquela que se tornara a mulher mais temida e muitas vezes, a mais odiada pelos atores. Terminava a era de Glória Magadan na TV Globo, aonde chegou a ser chamada de “Rainha das Telenovelas”. Esquecida nos tempos atuais, o seu nome é imprescindível na história da novela brasileira, da poderosa TV Globo e da própria teledramaturgia do país.

Glória Magadan Chega à Televisão Brasileira

Maria Magdalena Iturrioz y Placencia nasceu em Cuba, numa data que foge aos arquivos biográficos disponíveis. Adotando o pseudônimo de Glória Magadan, escreveria para sempre o seu nome na história da teledramaturgia latina americana, tornando-se uma das mais famosas novelistas do Brasil.
A autora deixou Cuba após a vitória de Fidel Castro e à instalação dos ideais revolucionários naquele país, refugiando-se em Porto Rico. Seria neste pequeno país da América Central que Glória Magadan passaria a trabalhar na Telemundo, estação de televisão local. Ali, seria contratada pela agência publicitária da Colgate-Palmolive, principal patrocinadora das telenovelas na América Latina. Ainda em Porto Rico, escreveu a novela “Yo Compro Esa Mujer”, em 1960. A agência enviou-a para desenvolver telenovelas que patrocinaria na Venezuela, país em que faria uma nova adaptação de “Yo Compro Esa Mujer”, para a RCTV. Em 1964 seria transferida para o Brasil, chegando a São Paulo como supervisora da seção internacional de novelas da Colgate-Palmolive.
No Brasil, passou a supervisionar a adaptação de textos de telenovelas de autores latino-americanos para a extinta TV Tupi. Supervisionou várias adaptações feitas por Walter George Durst, como “O Sorriso de Helena”, “Gutierritos, o Drama dos Humildes”, “Teresa”, “O Cara Suja”, “A Outra” e “A Cor da Pele”; e a adaptação de Daniel Más que resultou na telenovela “Um Rosto de Mulher”.
Glória Magadan chegaria a TV Globo no final de 1965. Contratada pela recém inaugurada emissora do jornalista Roberto Marinho, marcaria a sua estréia como autora de telenovelas brasileiras com o folhetim “Paixão de Outono”, protagonizado por Yara Lins, Walter Forster, Leila Diniz e Reginaldo Faria. A novela iria inaugurar o horário das 21h30 da TV Globo, dando início a uma bem sucedida carreira de novelista, que faria de Glória Magadan a mulher mais poderosa da televisão brasileira dos anos sessenta.

Surge o Primeiro Serial Killer Misterioso das Telenovelas

O primeiro sucesso veio em 1966, com “Eu Compro Essa Mulher”, história que Glória Magadan dizia, tinha inspiração no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela marcou o início da gestão de Walter Clark na TV Globo, um dos responsáveis pela ascensão da emissora, que se iria transformar na maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Dramalhão totalmente desprovido da realidade brasileira, trazia como protagonistas Yoná Magalhães e Carlos Alberto, que ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes, seriam transformados nos maiores atores da televisão brasileira daquela década. No meio da história, Carlos Alberto e Yoná Magalhães casaram-se na realidade. Destacou-se na trama, a irreverente Leila Diniz, no papel da antagonista Úrsula. “Eu Compro Essa Mulher” definia bem o estilo da autora, trazendo na trama heróis perfeitos e lineares, heroínas sofridas e bondosas, sem quaisquer traços humanos, e vilões sem quaisquer vestígios de alma. O maniqueísmo da trama era explorado minuciosamente, sem qualquer compromisso com a realidade. A novela foi sucesso absoluto no Rio de Janeiro, alcançando relativa audiência em São Paulo.
Em 1966, Glória Magadan criou um dos seus maiores sucessos, “O Sheik de Agadir”, baseada no romance “Taras Bulba”, de Nicolai Gogol. Desta vez os delírios da autora centraram a história em Agadir, no Marrocos, transformando as dunas de Cabo Frio, litoral fluminense, no deserto do Saara. Nazistas, árabes e franceses são os protagonistas de uma história exótica, que mostra de forma fantasiosa a invasão da França pelos exércitos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Henrique Martins protagoniza a trama, no papel do Sheik de olhos azuis, Omar Ben Nazir, que se iria apaixonar pela princesa francesa Jeanette Legrand, personagem vivida por Yoná Magalhães. Grandes aplausos viriam para a Madelon de Leila Diniz, popularizando a atriz para o grande público brasileiro, e Amilton Fernandes, como o grande vilão Maurice Dumont.
Mas o grande destaque da trama foi a estréia nas novelas do “serial killer”, gênero que se tornaria parte de grandes folhetins televisivos futuros. Durante toda a trama aparecia o misterioso “Rato”, que eliminava cruelmente várias personagens, enforcando-os na maioria das vezes. Nas misteriosas aparições do “Rato”, era mostrado em cena apenas um par de luvas negras. O enigma despertou a curiosidade do público, o que levou a TV Globo a promover um concurso para que se tentasse descobrir a identidade do assassino. A pergunta ecoava na emissora, “Quem matou?”, mas nenhum telespectador conseguiu descobrir quem era o assassino. Impossível, tamanha a incoerência da autora, que revelou a identidade do “Rato” como sendo uma mulher, Éden de Bassora, personagem da atriz Marieta Severo. Até hoje não se explica como a atriz, então com 19 anos, de corpo franzino e frágil, conseguiu estrangular robustos nazistas. Isto era o universo de Glória Magadan, completamente sem coerência ou compromisso com o bom senso, mas que levava o público ao delírio, numa época em que a televisão brasileira ainda não descobrira uma linguagem a seguir.
Um dos personagens morto pelo “Rato” foi Jean, vivido por Sebastião Vasconcelos. O ator trazia barba e bigode que fizeram a autora se lembrar do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, despertando-lhe a animosidade, por isto ela eliminou-o da trama. Sobre as mortes que passariam a fazer parte das tramas, Gloria Magadan, já poderosa novelista e diretora de dramaturgia da TV Globo, declararia:
Primeiro crio os personagens. Depois é que nasce a história. Quando começo a escrever, fico obcecada, penso na trama o tempo todo. Pesquiso pessoalmente como os consumidores sentem os personagens e as situações. Quando constato que o público não aceita bem um personagem, reduzo seu papel, ou mato-o, sem o menor remorso. Nunca me arrependi de matar. Quem cai em desgraça junto ao público está liquidado.

O Grande Apogeu da Autora

As novelas de Gloria Magadan alcançariam o auge em 1967. Naquele ano, ela chegou a escrever duas novelas simultaneamente, “A Rainha Louca”, para o horário das 21h30, e “A Sombra de Rebeca”, inaugurando um novo horário de telenovelas na TV Globo, o das 20 horas.
A Sombra de Rebeca” reuniu em um único folhetim, as versões de “Madame Butterfly” de Puccini, e “Rebecca”, romance de Daphné de Murior. Yoná Magalhães era a protagonista, vivendo a japonesa Suzuki, com olhos orientais conseguidos através de uma densa maquiagem. Seu par romântico era, mais uma vez, o marido e ator Carlos Alberto. No final da trama, uma desilusão amorosa levava Suzuki a cometer um haraquiri. Glória Magadan só não explicou como a sua protagonista cometia um ato restrito apenas aos homens japoneses, afinal sua obra não carecia de tais explicações.
A Rainha Louca” levou os requintes de grande produção, característica que se tornaria uma marca nas novelas da TV Globo. As cenas que se passavam no México, tiveram as gravações feitas naquele país, um luxo para a época. Inicialmente foi pensada como uma adaptação da vida do rei Luís XVI da França e da sua mulher, Maria Antonieta, no século XVIII. Mas a direção da Globo sugeriu que fosse ambientada no século XIX, no México. Assim, Luís XVI foi transformado no imperador Maximiliano e Maria Antonieta em Charlotte, tendo como protagonistas Rubens de Falco e Nathália Timberg, vivendo as personagens, respectivamente. A trama marcou a estréia de Daniel Filho na direção das novelas da emissora carioca. Durante o decurso da trama, o ator Paulo Gracindo foi um dos perseguidos pela autora. Vivendo o conde Demétrios, que tinha poderes sobrenaturais, uma espécie de Drácula, o ator alcançou sucesso diante do público. Glória Magadan exigiu que ele fizesse caretas e contorções faciais, o que o ator recusou, assim, a personagem, que tinha uma grande participação no início da trama, foi desaparecendo ao longo do seu decorrer.
Foi ainda em 1967, que Janete Clair foi chamada por Glória Magadan para dar solução ao desastre que estava a ser a novela “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, escrita por Emiliano Queiroz. O autor criara tantos personagens, que se perdera no meio da história. Janete Clair chegou na TV Globo, provocando um grande terremoto na trama, matando quase todo o elenco, deixando apenas vivos quatro personagens, dando um salto de vinte anos. Começando do zero, Janete Clair deu coerência à trama, e jamais deixou a TV Globo, transformando-se na sua maior novelista, inovando a linguagem e levando a obra de Glória Magadan à decadência.

A Decadência da Era Magadan na TV Globo

A partir da novela “O Homem Proibido”, que em São Paulo teve o título de “Demian, o Justiceiro”, as tramas exóticas de Glória Magadan entraram em decadência. Carlos Alberto vivia um justiceiro moldado no perfil do famoso Zorro, que vivia na Índia. Yoná Magalhães era a heroína da trama, que contava ainda, com um elenco luxuoso: Paulo Gracindo, Rubens de Falco, Mário Lago, Celso Marques, Marieta Severo, Cláudio Cavalcanti, Karin Rodrigues, Diana Morell, Emiliano Queiroz, José Augusto Branco e muitos outros.
O Santo Mestiço”, de 1968, trouxe Sérgio Cardoso, grande astro da época, à emissora de Roberto Marinho. O ator fazia três papéis, e teve na novela, a primeira experiência desastrosa da sua carreira. Irritado, Sérgio Cardoso foi o primeiro a adotar uma postura concreta contra os textos de má qualidade escritos por Glória Magadan, que culminou em um movimento que iria tirar a autora da poderosa posição de diretora do núcleo de dramaturgia da TV Globo.
Com o passar dos anos, a televisão brasileira foi assumindo uma identidade própria, que tomou a telenovela como principal veículo que expressava esta linguagem. Era preciso que o folhetim adquirisse mais consistência e maior aproximação com o público, com a realidade do país. A primeira a perceber isto foi a TV Tupi, que lançou, em 1968, duas novelas com a linguagem coloquial das ruas brasileiras, “Antonio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão, e “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso. A linha da TV Excelsior passou a investir nos épicos da literatura brasileira, trazendo para a televisão clássicos nacionais, como “A Muralha”, de Dináh Silveira Queiroz, e “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, distanciando-se das histórias dos castelos medievais ou dos desertos da Arábia das novelas da TV Globo.
Glória Magadan não se apercebeu de tais mudanças, insistindo nas histórias extravagantes, distantes da realidade de um Brasil em ebulição, cuja televisão era tomada por festivais da canção que renovavam a linguagem da música e das artes. Em 1968, deflagrada a Tropicália e os festivais históricos da MPB, a autora cubana insistia nas suas alucinações folhetinescas, escrevendo “A Gata de Vison”, novela ambientada no Estados Unidos da época da Lei Seca, com direito a gangster e às suas metralhadoras. A emissora ainda tentou uma inovação, trocou os dois tradicionais casais protagonistas da televisão, desta vez Yoná Magalhães fez dupla romântica com Tarcísio Meira, enquanto que Carlos Alberto fazia dupla com Glória Menezes na novela “Passo dos Ventos”, de Janete Clair. Não houve grande química entre os protagonistas, nem entre o público e a trama. No decurso da novela, a autora apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey, trinta anos mais jovem do que ela, com quem teria iniciado um romance. Glória Magadan transformou a personagem de Del Rey em protagonista da trama, o que levou Tarcísio Meira a reclamar do destino que estava sendo dado ao seu personagem. Glória Magadan eliminou a personagem de Tarcísio Meira da trama, matou a protagonista vivida por Yoná Magalhães, criando-lhe uma irmã gêmea para ser a heroína e par romântico de Geraldo Del Rey. A novela foi um fracasso. Glória Magadan acusou Daniel Filho de dar maior atenção às novelas de Janete Clair, culpando-o do fracasso da sua trama, levando o diretor a demitir-se da TV Globo. Enciumada com o sucesso ascendente de Janete Clair, a cubana chegou a proibir a autora de ter contacto direto com o elenco.
Em 1969, Glória Magadan escreveu a sua última novela para a TV Globo, “A Última Valsa”, inspirada no filme “Moulin Rouge”, de John Houston. Foi a última viagem da autora ao mundo dos duques e imperadores europeus. Cláudio Marzo e Theresa Amayo foram os protagonistas da trama. O público diria, definitivamente, não ao estilo de Glória Magadan, transformando a novela em um fracasso. Glória Magadan, a mulher mais poderosa da televisão, a Rainha das Telenovelas, foi demitida da TV Globo, em 1969, obrigando a emissora a reestruturar a sua teledramaturgia, mudando a sua linguagem. A mudança veio com “Véu de Noiva” (1969), de Janete Clair, que trocou os cenários europeus e os desertos árabes pelas praias cariocas, pelo cotidiano brasileiro, encerrando de vez o universo de fantasia de Glória Magadan na TV Globo.
Após a demissão da emissora carioca, Glória Magadan foi contratada pela TV Tupi. Em 1970 escreveu para a emissora paulista “E Nós Aonde Vamos?”, trazendo no elenco Leila Diniz (última aparição da atriz em novela, pois morreria em um acidente aéreo em 1972), Geraldo Del Rey, Márcia de Windsor, Theresa Amayo, Jorge Dória, Ítalo Rossi, Eva Todor, Adriano Reys, Marieta Severo, Yara Amaral, Roberto Pirillo e Gracindo Júnior, entre muitos. Ela ainda tentou adaptar o universo da sua teledramaturgia à exigência dos novos tempos, escrevendo uma história longe dos conflitos dos nobres europeus, dos ciganos e dos sheiks árabes, modernizando a ação, tentando contar os problemas da juventude. Mas o estilo da autora era, definitivamente, o da fantasia sem coerência. A novela foi um fracasso. Glória Magadan, outrora poderosa e temida, viu a sua carreira de novelista encerrada no Brasil.
Diante do fracasso final de “E Nós Aonde Vamos?”, a autora deixou o país, indo morar em Miami, local de refúgio dos cubanos resistentes ao governo implantado por Fidel Castro. Nos Estados Unidos, escreveu folhetins românticos para livros e revistas. Em 1996, Glória Magadan submeteu uma sinopse à extinta TV Manchete, que trazia o título de “Homens Sem Mulher”. Sobre o projeto, a autora declararia:
Há alguns anos submeti à Manchete uma idéia que ainda estou bastante segura de que alcançaria os recordes de Ibope. O título é “Homens Sem Mulher”. É sobre a inversão sexual.
Não se sabe se as crises constantes que levaram a TV Manchete à falência foram as causas do projeto não ter vingado. Glória Magadan faleceu em Miami, em 27 de junho de 2001, completamente esquecida, longe do título que a fez a “Rainha das Telenovelas”.

OBRAS

1960 – Yo Compro Esa Mujer – Telemundo (Porto Rico)
1960 – Yo Compro Esa Mujer – RCTV (Venezuela)
1965 – Paixão de Outono – TV Globo
1966 – Eu Compro Essa Mulher – TV Globo
1966 – O Sheik de Agadir – TV Globo
1967 – A Sombra de Rebeca – TV Globo
1967 – A Rainha Louca – TV Globo
1968 – Yo Compro Esa Mujer – TV Argentina
1968 – O Homem Proibido (Demian, o Justiceiro) – TV Globo
1968 – O Santo Mestiço – TV Globo
1968 – A Gata de Vison – TV Globo
1969 – A Última Valsa – TV Globo
1970 – E Nós Aonde Vamos? – TV Tupi

Supervisão:

1964 – O Sorriso de Helena – TV Tupi
1964 – Gutierritos, o Drama dos Humildes – TV Tupi
1964 – Pecado de Mulher – TV Tupi
1965 – Teresa – TV Tupi
1965 – O Cara Suja – TV Tupi
1965 – A Outra – TV Tupi
1965 – A Cor da Sua Pele – TV Tupi
1965 – Um Rosto de Mulher – TV Globo


CASSIANO GABUS MENDES – O REI DAS NOVELAS DAS 19 HORAS

Abril 15, 2009

Na história da teledramaturgia brasileira, não se pode esquecer de Cassiano Gabus Mendes, cuja trajetória confunde-se com a da própria televisão no Brasil. Em 1950 a criação da TV Tupi inaugurava a televisão no país, Cassiano Gabus Mendes já lá estava, tornando-se o primeiro diretor artístico da emissora, onde permaneceria por vários anos consecutivos.
Homem de televisão, tornou-se essencial na consolidação da teledramaturgia. Escreveu o seriado “Alô, Doçura!”, que esteve no ar por mais de dez anos, sendo um marco da época. Em 1966 escreveu a sua primeira telenovela, “O Amor Tem Cara de Mulher”. Em 1968 idealizou o roteiro de “Beto Rockfeller” , escrita por Bráulio Pedroso, que revolucionaria para sempre o gênero novelesco no país. Mas foi em 1976 que ele chegou à TV Globo como autor da telenovela “Anjo Mau”, mudando a concepção do gênero da comédia, criando um estilo que se iria tornar padrão às novelas globais do horário das 19 horas, sendo desde então, exaustivamente copiado por outros autores até os dias atuais.
O universo de Cassiano Gabus Mendes é suave, elegante, irônico e aveludado por uma fina camada cômica. Suas personagens não vão além do folhetinesco, mas trazem uma empatia que seduz o mais exigente dos públicos. Memoráveis criações como “Anjo Mau” (1976), “Locomotivas” (1977), “Ti Ti Ti” (1985), “Brega & Chique” (1987) e “Que Rei Sou Eu?” (1989), trouxeram um brilho único às telenovelas, sem em momento algum, criar uma expectativa pretensiosa de uma veia dramática profunda ou complexa, pelo contrário, suas tramas são ágeis e leves, preocupando-se com o entretenimento do público, sem que com isto, perca a qualidade do texto. Responsável por momentos hilariantes e antológicos na história da telenovela, Cassiano Gabus Mendes deixou para sempre o seu nome gravado no gênero, fazendo dos seus textos algo perene, mostrando que se pode ser suave e elegante trazendo a qualidade sincera de um bom texto.

Os Primeiros Trabalhos na TV Tupi

O paulistano Cassiano Gabus Mendes nasceu em 29 de julho de 1929. Filho do famoso radialista Otávio Gabus Mendes, herdou do pai a sensibilidade criativa e o domínio da dramaturgia da rádio transportada para a pequena tela. Foi um dos pioneiros da televisão no Brasil, estando lá desde a sua inauguração, em 1950. Substituindo Lima Duarte, que se recusou a ser o diretor artístico da TV Tupi, assumiu o cargo por mais de uma década. Nos primórdios da televisão, adaptou filmes para “A Vida Por Um Fio”, participou da idealização da “TV de Vanguarda”, um dos maiores marcos da incipiente televisão dos anos cinqüenta.
Em 1953 Cassiano Gabus Mendes criou o seriado “Alô, Doçura!”, uma comédia romântica inspirada em “I Love Lucy”, grande sucesso da televisão norte-americana. No início era exibido apenas um episódio por semana, passando mais tarde a dois. O seriado tinha sido criado para a rádio pelo pai, Otávio Gabus Mendes, com o título de “O Encontro das Cinco e Meia”, sendo protagonizado pelos atores Haydée Miranda e Paulo Maurício. Na televisão, já com o nome “Alô, Doçura!”, Eva Wilma e Mário Sérgio foram os escolhidos para viver as aventuras de diferentes personagens a cada episódio. No ano de 1954 Mário Sérgio foi substituído por John Herbert. O sucesso da nova dupla foi imediato, com grande aceitação do público. A química entre os dois protagonistas foi além da ficção, em 1955 Eva Wilma e John Herbert casaram-se, passando a ser conhecidos como o “Casal Doçura”. Os textos inteligentes e divertidos de Cassiano Gabus Mendes e o carisma do casal protagonista foram responsáveis pela longevidade do seriado, que só chegaria ao fim em 1964. Durante o período, Eva Wilma engravidou duas vezes, aparecendo assim em vários episódios, quando sua gravidez atingia o estado mais avançado, era substituída pela atriz Marly Bueno. “Alô, Doçura!” foi um dos primeiros grandes sucessos da teledramaturgia nacional, ficando para sempre no imaginário e na lembrança do público brasileiro, preparando Cassiano Gabus Mendes para uma carreira futura de novelista de sucesso.
Em 1966 Cassiano Gabus Mendes escreveria a novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, baseada no original do argentino Nené Cascallar, que se tornara um grande sucesso na Argentina, Chile e Uruguai. A trama mostrava conflitos entre casais, que se iniciavam a partir de um instituto de beleza. Trazia histórias completas a cada semana. No elenco Eva Wilma, Vida Alves, Cleyde Yáconis, Aracy Balabanian, Luís Gustavo, Walmor Chagas, Dina Sfat e Tony Ramos, entre outros. “O Amor Tem Cara de Mulher” ficou nove meses no ar, mas não alcançou o mesmo sucesso que obtivera no restante da América do Sul, tendo o horário de exibição sido mudado duas vezes.
Em 1968 Cassiano Gabus Mendes idealizou o roteiro daquela que se tornaria a novela que mudaria para sempre o estilo do gênero no Brasil, “Beto Rockfeller”, chamando Bráulio Pedroso para escrevê-la. Lima Duarte, diretor da novela, transpunha para a televisão o texto teatral de Bráulio Pedroso. Assim o trio histórico Cassiano Gabus Mendes, Lima Duarte e Bráulio Pedroso, através de uma história simples, condenavam para sempre os dramalhões mexicanos como linguagem das telenovelas, introduzindo os diálogos coloquiais e o dia a dia do brasileiro em sua teledramaturgia. Luís Gustavo, irmão da esposa de Cassiano Gabus Mendes, foi o ator escolhido para protagonizar a novela. Futuramente, tornar-se-ia o maior intérprete dos textos do cunhado. Bete Mendes, Débora Duarte, Walter Forster, Plínio Marcos, Maria Della Costa, Ana Rosa, Irene Ravache, Marília Pêra, Rodrigo Santiago, Pepita Rodrigues, faziam, entre outros, parte do elenco. Muitos desses atores estavam em início de carreira, tornando-se algum tempo depois, grandes estrelas do cenário artístico brasileiro.

Anjo Mau” Cria o Estilo de Escrever Comédia na Televisão

Em 1976 Cassiano Gabus Mendes chegou a TV Globo, onde permaneceria até a sua morte. Estreou-se no horário das 19 horas, dirigido às comédias, com a novela “Anjo Mau”. A novela trazia uma forte vertente cômica, inaugurando uma nova fase de comédia no horário, que se iria perpetuar como estilo. O gênero comédia às 19 horas na TV Globo havia sido iniciado com Vicente Sesso na novela “Pigmalião 70” (1970), tornando-se característica do horário. “Anjo Mau” confirma o gênero comédia e dá às bases obrigatórias para os demais autores que viriam.
Até então, as protagonistas das telenovelas traziam um caráter integro, que se deparava com as vilanias das suas antagonistas. A novela muda, pela primeira vez, este caráter. Nice, interpretada magistralmente por Suzana Vieira, elevada pela primeira vez à protagonista global, é a anti-heroína, a babá malvada e ambiciosa, que por amor ao patrão Rodrigo (José Wilker), destrói o seu noivado com Paula (Vera Gimenez) e, conseqüentemente, com a doce Léa (Renée de Vielmond). Pela primeira vez na história da televisão a protagonista era má. Mas as características românticas de Nice superaram a sua vilania, e o Brasil apaixonou-se por ela. Rodrigo casa-se com Nice, mas faz com que ela sofra e pague por todas as maldades. Redimida e finalmente amada por Rodrigo, Nice morre ao dar à luz ao filho do seu amor. A sua morte, embora negada por Cassiano Gabus Mendes, teria sido uma imposição da censura da época, servindo de alerta moralista às tantas babás que sonhavam com o patrão. A cena da morte de Nice emocionou o Brasil, gerando a polêmica entre o público de que mais uma vez Suzana Vieira tinha perdido para Renée de Vielmond. Esta polêmica vinha desde a novela “Escalada” (1975), de Lauro César Muniz, em que a doce Cândida (Suzana Vieira) perdia o amor do marido Antonio Dias (Tarcísio Meira) para a bela Marina (Renée de Vielmond).
Durante a novela, a atriz Vera Gimenez sofreu um acidente automobilístico que lhe deixou graves seqüelas no rosto, obrigando-a a um afastamento da novela para uma intervenção plástica. José Wilker e Renée de Vielmond, que iniciaram um romance durante a novela, casando-se por alguns anos, descontentes com as suas personagens, criaram alguns atritos com a direção; em conseqüência ficariam longe das novelas globais por alguns anos. Hortência Tayer, uma linda atriz em início de carreira, teve uma grande ascensão na novela, mas foi interrompida quando exigiu que lhe aumentassem o salário, um dos mais baixos do elenco, ela que viva Ligia, a mulher que conquistara o coração do mulherengo Ricardo (Luís Gustavo), foi excluída da novela, tendo apenas o seu nome mencionado pelas outras personagens. O grande destaque da novela foi para Stela, a ciumenta mulher de Getúlio (Osmar Prado), vivida com maestria por Pepita Rodrigues, em sua estréia na Globo. Outro que vinha da antiga TV Tupi para a emissora carioca era Luís Gustavo.
“Anjo Mau” foi ao ar ainda em preto e branco, já nesta época os demais horários das novelas da TV Globo traziam produções coloridas. A novela teria uma nova versão em 1997, feita por Maria Adelaide Amaral. Nos primeiros capítulos o universo de Cassiano Gabus Mendes foi fielmente recriado, inclusive a elegância do seu texto e ironia da sua comédia. A partir de determinando momento, a história assumiu um aspecto de dramalhão, perdendo-se do original, e a Nice de Glória Pires tornou-se uma sofredora heroína mexicana; não havendo motivos para um castigo no final, a nova Nice não morre. Suzana Vieira é homenageada no último capítulo, aparecendo como a babá do filho de Nice e Rodrigo (Kadu Moliterno). Na primeira versão, a mesma cena era vivida por Débora Duarte, que fechava a trama com a criança no colo, a sorrir para Rodrigo, insinuando um futuro e conturbado romance, já que Nice estava morta.

Locomotivas, Definição do Estilo

A segunda novela de Cassiano Gabus Mendes na TV Globo foi “Locomotivas”, em 1977. Foi a primeira novela totalmente a cores no horário das 19 horas. Em “Locomotivas” o autor elimina os excessos dramáticos de “Anjo Mau”, consolidando de vez o seu estilo elegante, tecendo um folhetim de luxo, com personagens irônicas e cômicas, de um carisma irrepreensível. Conta a história de Kiki Blanche (Eva Todor), uma ex-atriz do teatro de vedete, dona de um luxuoso instituto de beleza, e da sua filha Milena (Aracy Balabanian), que traz um grande segredo, é a verdadeira mãe de Fernanda (Lucélia Santos), criada como sua irmã. Para proteger a filha do preconceito de ser mãe solteira, Kiki cria outros filhos adotivos, Paulo (João Carlos Barroso), Renata (Thaís de Andrade) e Regininha (Gisele Rocha). A partir do instituto de beleza de Kiki partem as tramas principais A idéia foi recuperada de “O Amor Tem Cara de Mulher”, sendo aqui desenvolvida com uma eficácia técnica perfeita. A história toma a sua veia dramática quando Fernanda apaixona-se por Fábio (Walmor Chagas), grande amor de Milena, o impasse só termina com a revelação final de que as duas são mãe e filha.
Um dos grandes destaques da trama foi Netinho (Denis Carvalho) e a sua mãe possessiva Margarida (Miriam Pires), que faz tudo para separar o filho das namoradas, mantendo-o só para ela. Ao som de “Filho Único”, tema cantado por Erasmo Carlos, Netinho e a sua mãe promoveram cenas hilariantes. Outro destaque foi Machadinho, vivido pelo ator português Tony Correia, revelação da novela “O Casarão” (1976), que conquistaria o coração de Fernanda.
Mas o grande destaque da novela foram as atrizes Eva Todor e Lucélia Santos. Kiki Blanche rendeu à primeira o seu melhor papel na televisão, a aceitação do público foi tão grande, que se cogitou criar um seriado com Kiki Blanche e a sua família, mas os planos não vingaram. Lucélia Santos fazia a sua segunda telenovela, vinda do grande sucesso que fora a sua estréia em “Escrava Isaura” (1976), e que vinculara de forma indelével a sua imagem. A atriz fez uma metamorfose, apagando a sofrida escrava, transformando-se em uma Fernanda rebelde, caprichosa e mimada. O público amou Fernanda, Lucélia Santos foi transformada na “Nova Namoradinha do Brasil”, título pertencente à Regina Duarte. Diante do sucesso, a TV Globo incluiu Lucélia Santos no quadro de contratada exclusiva da emissora, transformando-a em uma das suas estrelas por vários anos. “Locomotivas” foi um grande sucesso de Cassiano Gabus Mendes, fazendo-o rei absoluto do horário das 19 horas.

Encerrando a Primeira Fase na TV Globo

Em 1978 foi lançada “Te Contei?”, novela que obedecia a todos os itens do estilo de Cassiano Gabus Mendes, comédia leve, texto elegante, um número que não ultrapassava 30 atores, com tramas que dava igual importância a todos eles em determinados momentos da história, sem concentrar o crescimento das personagens apenas nas protagonistas. Outra característica das tramas de Cassiano Gabus Mendes era o tempo cronológico, um dia durava vários capítulos. As histórias desenvolviam-se à beira da piscina ou na praia. “Te Contei?” teve a sua abertura mudada, já que a primeira não agradara à direção da novela. Era centrada nos amores de Leo (Luís Gustavo), que ficara cego aos 14 anos, divido entre a misteriosa Sabrina (Wanda Stefânia) e a temperamental e bela Shana (Maria Cláudia). Sabrina era uma mulher rica que tinha um terrível segredo, é cleptomaníaca, refugia-se na pensão de Lola (Eva Todor), fazendo-se passar por uma pobre vendedora de cosméticos. Envolve-se com Leo, um homem divertido e alegre, que vive a sua cegueira sem traumas. Shana, a bela filha de Lola, nutre um amor intenso por Leo, mas o reprime diante do envolvimento do rapaz com Sabrina. No meio de todas as tramas, surgem misteriosas cartas de amor dirigidas a todas as mulheres. Só no último capítulo é revelada a autora das cartas, é Mônica (Heloísa Millet). Maria Cláudia vivia a sua primeira protagonista. Wanda Stefânia, uma atriz do elenco fixo da TV Tupi, apesar do grande sucesso da sua personagem (prejudicada pela censura, que limitou as cenas de cleptomania de Sabrina), não renovou contrato com a Globo, voltando para a emissora paulista. A novela trazia um elenco luxuoso, Suzana Vieira, Denis Carvalho, Maria Della Costa (que não apareceu mais em novelas), Esther Góes, Brandão Filho, Mauro Mendonça, Hélio Souto, Ilka Soares (atriz de presença constante nas tramas do autor), Kito Junqueira, Elizangela, Osmar Prado e muitos outros.
Marron Glacé”, de 1979, foi outro grande sucesso de Cassiano Gabus Mendes. Contava a história de Madame Clô (Yara Cortes), dona do bufê Marron Glacé, e das suas filhas Vanessa (Sura Berditchewsky) e Vânia (Louise Cardoso), e dos garçons do bufê, o solitário Oscar (Lima Duarte), o misterioso Otávio (Paulo Figueiredo), o alegre Nestor (Armando Bógus), o ciumento Juliano (Ricardo Blat), o revoltado Luís César (João Carlos Barroso) e o afetado Waldomiro (Laerte Morrone). Após a morte da mãe, Otávio deixa a sua cidade rumo ao Rio de Janeiro, disposto a vingar de Clô e das suas filhas, por achar que no passado, foram os responsáveis pela miséria da família e morte do pai. Mas Otávio envolve-se com as duas filhas de Clô, apaixonando-se por Vanessa, por quem decide esquecer a sua vingança. O grande sucesso da personagem Miguel de “A Sucessora” (1978), elevara Paulo Figueiredo à protagonista de “Marron Glacé”, o mesmo sucedendo a Sura Berditchewsky, que vinha de um bom momento na novela “Dancin’ Days” (1978), os dois atores não voltaram a protagonizar outras novelas na emissora carioca. Yara Cortes, a eterna Dona Xepa, vivia a protagonista que se envolveria com a personagem Oscar, mas, não se sabe se por imposição do ator, da direção, do autor, ou de ambos, decidiu-se que a atriz estava muita envelhecida para par romântico com Lima Duarte, o que levou, já no meio da trama, a aparecer Lola, interpretada pela atriz Tereza Rachel, que se tornaria o amor de Oscar. Primeira novela da atriz Mila Moreira, na época modelo famosa, que usava apenas Mila como nome artístico (na abertura da novela não vinha o Moreira, acrescentado a partir de “Plumas & Paetês”). Mila Moreira passaria a ser uma presença constante nas novelas de Cassiano Gabus Mendes. Outro destaque foi a relação de Oscar com as velhinhas Beá (Ema D´Ávila) e Angelina (Dirce Migliaccio), para quem roubava comida no bufê. Lima Duarte fez cenas hilariantes com as atrizes. Uma cena antológica da novela foi quando Oscar trazia no guarda-chuva, comida da cozinha do bufê, ao encontrar com a patroa, Clô, cai uma grande chuva, ela pede o guarda-chuva emprestado, bolos e comidas caem-lhe sobre a cabeça, sujando-lhe todo o cabelo, recém penteados em um salão de beleza.
Em 1980 Cassiano Gabus Mendes visitou o mundo da moda e das modelos na novela “Plumas & Paetês”. Contava a história de Marcela (Elizabeth Savalla), que viajava com um casal quando o carro sofreu um acidente, sendo ela a única sobrevivente. Marcela é confundida pela família do morto, como a sua noiva, também ela morta no acidente. Grávida e desamparada, ela assume a falsa identidade, sendo acolhida pela família, que pensa que ela traz o herdeiro do morto. Edgar (Cláudio Marzo), o mais velho da família, apaixona-se por Marcela, vivendo com ela um romance. Para complicar a situação da intrusa, aparece Paulo (José Wilker), o verdadeiro pai do seu filho, noivo de Amanda (Maria Cláudia), que se tornara sua grande amiga. No outro núcleo aparecia Rebeca (Eva Wilma), uma viúva milionária, assediada por Márcio (John Herbert), mas que descobriria o amor nos braços de Gino (Paulo Goulart). Após tantos sucessos consecutivos, a fórmula de Cassiano Gabus Mendes sofria uma certa saturação. Para complicar, o autor sofreu um enfarte, sendo obrigado a deixar a novela com pouco mais de cem capítulos escritos. Silvio de Abreu, indicado pelo próprio Cassiano Gabus Mendes, assumiu a história até o fim, elevando o seu índice de audiência. “Plumas & Paetês” marcou a estréia de Eva Wilma na Globo; a atriz era a grande estrela da TV Tupi, que falira naquele ano, fechando as suas portas para sempre. José Wilker, que se afastara das novelas desde “Anjo Mau” (1976), a odiar a sua personagem, ironicamente voltava em uma trama de Cassiano Gabus Mendes. Grandes momentos da novela foram conseguidos através de Veroca, personagem vivida magistralmente por Lúcia Alves. A química entre Cláudio Marzo e Elizabeth Savalla seria repetida em outras novelas que eles protagonizariam, “Pão Pão, Beijo Beijo” (1983) e “Partido Alto” (1984). Com esta novela, Cassiano Gabus Mendes encerrava uma fase de sua carreira de novelista. Ficaria algum tempo longe das laudas criativas, só retornando em 1982. Foi a partir desta novela que as tramas do autor deixaram as praias do Rio de Janeiro e trouxeram os arranha-céus de São Paulo como cenário.

A Estréia no Horário Nobre

Após um descanso forçado, para a recuperação de um enfarte, Cassiano Gabus Mendes voltaria com um grande sucesso, “Elas Por Elas”, em 1982. A história girava em torno de Márcia (Eva Wilma), que após vinte anos, promove um encontro com as suas amigas do colegial Helena (Aracy Balabanian), Wanda (Sandra Bréa), Natália (Joana Fomm), Adriana (Esther Góes), Marlene (Mila Moreira) e Carmem (Maria Helena Dias). Todos comparecem ao encontro, menos Natália, que no passado perdeu o irmão Zé Roberto, caído do alto de uma pedra. Natália suspeita que uma das amigas o atirou do alto, por isto manda, no dia do encontro, um pássaro morto para as amigas. No reencontro, Wanda descobre que o seu amante Átila (Mauro Mendonça) é marido de Márcia. Para complicar a situação, Átila morre em um motel, ao lado de Wanda. Sem desconfiar da amiga, Márcia quer saber quem era a amante do marido, para isto contrata Mário Fofoca (Luís Gustavo), um desastrado e divertido detetive, por quem ela se irá apaixonar. Apesar de tantos mistérios para desvendar-se ao longo da trama, “Elas Por Elas” era uma grande e divertida comédia. Mário Fofoca repetia mais uma vez a bem sucedida dupla Cassiano Gabus Mendes e Luís Gustavo. O sucesso da personagem gerou um longa-metragem para o cinema e um seriado de televisão, que não alcançaram o sucesso da telenovela. O amor do patinho feio, Ieda (Cristina Pereira), pelo galã René (Reginaldo Faria), foi outro grande momento da novela. Tássia Camargo e Cássio Gabus Mendes, filho do autor, marcaram as suas estréias na televisão. O elenco luxuoso garantiu à novela um grande sucesso, além dos atores citados, contava com Carlos Zara, Christiane Torloni, Herson Capri, Nathália Timberg, Mário Lago, Marco Nanini, Suzana Vieira, Norma Blum, Lauro Corona e outros.
Em 1983 a Globo encomendou uma novela para o horário nobre a Cassiano Gabus Mendes. A doença de Janete Clair obrigara a emissora a ressuscitar o horário das 22 horas, uma vez que seria menos complicado, em caso da autora vir a falecer, a substituí-la fora do horário nobre. Cassiano Gabus Mendes aceita o convite, sem prometer criar algo diferente do seu estilo. Pela primeira vez, longe do horário das 19 horas, ele escreve “Champagne”, que estrearia no segundo semestre de 1983. A história girava em torno de um crime que acontecera em 1970, quando a jovem copeira Zaíra (Suzane Carvalho) foi assassinada, tendo como principal suspeito Gastão (Sebastião Vasconcelos), que treze anos depois, ao tentar provar a sua inocência, envolve vários suspeitos. A trama, por ser exibida em horário nobre, perdeu um pouco da leveza característica de Cassiano Gabus Mendes, não acrescentando nada ao autor, muito menos à história da teledramaturgia. Tony Ramos vivia Nil, uma personagem linear e sem grandes atrativos. O melhor da novela ficou por conta de Antônia Regina (Irene Ravache) e João Maria (Antonio Fagundes), uma dupla de ladrões de jóias que se envolviam em grandes e hilariantes confusões. A novela marcou a volta de Marieta Severo às novelas, que devido à censura contra o seu então marido, Chico Buarque, ficara mais de uma década afastada da emissora global. “Champagne” cumpriu apenas a missão de preencher o horário nobre, sem grandes atrativos ou pretensões. O elenco era uma verdadeira constelação, trazendo ainda, Lúcia Veríssimo, Jorge Dória, Mauro Mendonça, Nuno Leal Maia, Carla Camuratti, Louise Cardoso, Isabel Ribeiro, Beatriz Segall, Cláudio Corrêa e Castro, Carlos Augusto Strazzer, Maria Izabel de Lizandra, Cássio Gabus Mendes, Armando Bógus, Ilka Soares, Mila Moreira e outros.

Grandes Obras nos Anos Oitenta

Em 1985 Cassiano Gabus Mendes voltou ao horário das 19 horas, com mais uma obra-prima, “Ti Ti Ti”. A história de Ariclenes (Luís Gustavo) e André (Reginaldo Faria), dois amigos de infância que passaram a vida toda brigando. Adultos, eles virariam Victor Valentin e Jacques L’Eclair, respectivamente, dois costureiros da alta costura, que rivalizavam entre si. A inspiração teria vindo na famosa rivalidade entre Clodovil e Denner, nos anos setenta. Victor Valentin, um malandro que copiava os modelos de vestidos das bonecas de Cecília (Nathália Timberg), conquistava as mulheres com o seu beijo e batom “Boca Loca”. Mais um grande momento de Luís Gustavo, que se tornou imprescindível na obra do autor. Sandra Bréa vivia Jacqueline, uma mulher apaixonada por L’Eclair, papel que herdara de Renée de Vielmond, que não chegara a um acordo com a emissora quanto ao salário, recusando-o. Destaque para Marieta Severo, que vivia Suzana, ex-mulher de Ariclenes. Aracy Balabanian, Myriam Rios, Tânia Alves, Malu Mader, Cássio Gabus Mendes, Lúcia Alves, José de Abreu, Yara Cortes, Paulo Castelli, Adriano Reys e muitos outros, faziam parte do elenco. A novela marcou ainda, a estréia de Tato Gabus, outro filho de Cassiano Gabus Mendes.
Brega & Chique”, de 1987, traz um novo fôlego à obra de Cassiano Gabus Mendes. O autor parece renovado, apesar de utilizar os mesmos truques e a mesma fórmula de contar o seu folhetim, consegue ser original em cenas antológicas da televisão brasileira. “Brega & Chique” é o inverso da lógica, o que deveria ser brega é chique, mostrando o avesso dos costumes. Herbert Alvaray (Jorge Dória), um milionário falido, simula a própria morte para fugir às dividas. Ele tem duas famílias, chamando à mulher oficial Rafaela (Marília Pêra), de Alfa I e à amante Rosemere (Glória Menezes), de Alfa II. Com as duas ele tem filhos. No meio da história aparece Zilda (Nívea Maria), a Alfa III, uma amante menor. Supostamente morto, o malandro deixa a família de Rafaela na miséria, e a sua caixa dois permite presentear Rosemere com alguns milhões de dólares. Rafaela, a chique, entra em decadência, muda de posição, deixando a mansão para viver uma vida modesta em uma casa de vila. Para sobreviver, torna-se cozinheira, fazendo marmitas para as pessoas da vila. Rosemere, a brega, ascende socialmente, mudando-se para uma mansão, tornando-se uma mulher rica. A situação atinge o ápice quando Herbert volta após ter feito várias cirurgias e ter mudado definitivamente a sua aparência física, apresentando-se como Cláudio Serra (Raul Cortez). Na sua nova vida modesta, Rafaela tem o apoio de Montenegro (Marco Nanini), fiel empregado de Herbert. Montenegro nutre uma paixão platônica por Rafaela, ajudando-a em todos os momentos difíceis, ao mesmo tempo sabe de toda a verdade sobre a falsa morte de Herbert e a sua nova identidade.
Brega & Chique” trazia Marília Pêra de volta às novelas, afastada desde “Supermanoela” (1974), interpretando aquele que seria o seu melhor papel na televisão. Momentos inesquecíveis e antológicos foram criados pela dupla Marco Nanini e Marília Pêra, uma parceria que não se repetiria, visto que os atores, por desentendimentos pessoais, afastaram-se um do outro. A cena que Rafaela vai à feira fazer compras, vestida com um casaco de peles, é antológica, um bom momento de criatividade na televisão brasileira. A provocação da abertura da novela, que trazia no final o modelo Vinicius Manne totalmente nu, caminhando com as nádegas descobertas, fez com que a censura obrigasse a direção da Globo a pôr uma folha de parreira sobre a região glútea do modelo, folha que, devido à pressão popular, caiu definitivamente dois dias após ser inserida. “Brega & Chique” tornou-se um dos maiores sucessos de Cassiano Gabus Mendes, trazia ainda no elenco Denis Carvalho, Marcos Paulo, Patrícia Pillar, Cássia Kiss, Cássio Gabus Mendes, Patrícia Travassos, Neuza Amaral, Célia Biar, Cristina Müllins, Fábio Sabag, Hélio Souto, Bárbara Fázio, Percy Aires, Jayme Periard, Tarcísio Filho e outros.
E para quem acreditava que a criatividade de Cassiano Gabus Mendes estava esgotada, ele conseguiu surpreender em 1989, escrevendo aquela que é considerada a sua maior novela, “Que Rei Sou Eu?”. Uma aventura de capa e espada medieval, que refletia o Brasil da época do governo de José Sarney, com todos os erros econômicos, planos falhados e inflação galopante. O reino de Avilan era uma sátira inteligente ao momento político que o país vivia. Uma paródia perfeita de um Brasil que tentava sobreviver após vários anos de ditadura. Tereza Rachel brilhou absoluta no papel da rainha Valentine, fazendo da sua voz aguda uma técnica perfeita para o riso inteligente, deixando as suas risadas como marca inesquecível. Antonio Abujamra criou um insuperável bruxo Ravengar. Edson Celulari e Giulia Gam, Jean Pierre e Aline respectivamente, promoviam excelentes cenas românticas e de esgrima. Com um elenco luxuoso, Marieta Severo, Aracy Balabanian, Natália do Valle, Daniel Filho, Stênio Garcia, Carlos Augusto Strazzer (na sua última novela, o ator já se encontrava doente, vitimado pelo vírus da Aids), Jorge Dória, Ítala Nandi, Cláudia Abreu, Tato Gabus, John Herbert, Mila Moreira, Oswaldo Loureiro, Fábio Sabag, Laerte Morrone, Zilka Salaberry e Dercy Gonçalves entre outros; Cassiano Gabus Mendes encerrava a década de oitenta, senhor absoluto de sua obra.

Últimos Trabalhos

Em 1990 o autor voltava a escrever uma novela para o horário nobre, “Meu Bem, Meu Mal”, um horário que devido ao estilo mais austero, nunca favoreceu ao universo de Cassiano Gabus Mendes, tornando-se uma obra menor. Lázaro Venturini (Lima Duarte), um rico empresário, é obrigado a conviver com a presença incômoda de Ricardo (José Mayer), detentor de uma porcentagem dos seus negócios, e que mantém uma relação de amor e ódio com Isadora (Silvia Pfeifer), casada com o filho de Lázaro, que enviúva nos primeiros capítulos da novela. Responsável pela ruína de Felipe (Armando Bógus), Ricardo é alvo da vingança de sua filha, Patrícia (Adriana Esteves), uma adolescente que se irá apaixonar por ele, apesar da diferença de idade. Silvia Pfeifer estreava em novelas como protagonista do horário nobre, o que lhe rendeu várias críticas negativas sobre a interpretação de Isadora. Adriana Esteves ascenderia com esta novela à protagonista da TV Globo. Lídia Brondi e Cássio Gabus Mendes viviam um romance na trama, estenderam a relação para a vida pessoal, casando-se, a atriz encerrou com esta novela a sua carreira, não voltando mais a interpretar, quer no cinema, teatro e televisão. O grande destaque foi para o mordomo Porfírio (Guilherme Karan) e a sua obsessão pela “Divina” Magda (Vera Zimermann). Entre as estréias promissoras, estava a do ator Fábio Assunção. “Meu Bem, Meu Mal” não representou um grande marco na teledramaturgia da televisão e do seu autor, mas cumpriu a sua função de entretenimento inteligente. O elenco contava ainda com Yoná Magalhães, Thales Pan Chacon, Jorge Dória, Nívea Maria, Marcos Paulo, Luciana Braga, Zilda Cardoso, Mila Moreira, Sérgio Viotti, Isis de Oliveira, Maria Estela, Luma de Oliveira e Mylla Christie, entre outros.
Em 1992 Cassiano Gabus Mendes participou como ator, da novela “Perigosas Peruas”, de Carlos Lombardi, participação que ele confessaria mais tarde, ter detestado, não querendo repetir uma outra vez.
O Mapa da Mina”, de 1993, seria a última novela de Cassiano Gabus Mendes, que voltava ao horário das 19 horas. Elisa (Carla Marins), uma noviça enclausurada, tinha na parte superior das suas nádegas, a tatuagem de um mapa de diamantes feita por seu vizinho Ivo (Paulo José), quando ela era criança. Ivo, um ladrão que é atropelado, revela o segredo do mapa antes de morrer. Inicia-se uma caça ao tesouro. A trama trazia um grande elenco, Luís Gustavo, Malu Mader, Eva Wilma, Fernanda Montenegro, Cássio Gabus Mendes, Bete Mendes, Nair Bello, Gianfrancesco Guarnieri, Mauro Mendonça, John Herbert, Beth Goulart, Antonio Abujamra, Denis Carvalho, Ana Rosa e Mila Moreira, entre outros; mas não conseguiu empolgar os telespectadores, sendo considerada a novela mais fraca de Cassiano Gabus Mendes na TV Globo. No dia 18 de agosto de 1993, algumas semanas antes da novela terminar, Cassiano Gabus Mendes sofreu um enfarto do miocárdio, deixando para sempre a sua magia voltada para a história da televisão brasileira. Ao morrer, ele tinha deixado todos os capítulos de “O Mapa da Mina” escritos. Após ir ao ar a última cena da novela, seu grande amigo Lima Duarte fez um discurso emocionado, despedindo-se do rei das novelas das 19 horas.

OBRAS

Seriados

1953/1964 – Alô, Doçura! – TV Tupi

Novelas

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher – TV Tupi
1968/1969 – Beto Rockfeller (argumento) – TV Tupi
1976 – Anjo Mau – TV Globo
1977 – Locomotivas – TV Globo
1978 – Te Contei? – TV Globo
1979/1980 – Marron Glacé – TV Globo
1980/1981 – Plumas & Paetês (terminada por Silvio de Abreu) – TV Globo
1982 – Elas Por Elas – TV Globo
1983/1984 – Champagne – TV Globo
1985/1986 – Ti Ti Ti – TV Globo
1987 – Brega & Chique – TV Globo
1989 – Que Rei Sou Eu? – TV Globo
1990/1991 – Meu Bem, Meu Mal – TV Globo
1993 – O Mapa da Mina – TV Globo
1997 – Anjo Mau – Readaptação de Maria Adelaide Amaral – TV Globo


O UNIVERSO FANTÁSTICO DAS NOVELAS DE DIAS GOMES

Janeiro 25, 2009

Alfredo Dias Gomes foi um dos maiores dramaturgos e novelistas do Brasil. Dono de uma obra com um contexto social de denúncia à injustiça, à corrupção e à perda dos valores, Dias Gomes soube como ninguém retratar os bastidores da política brasileira, a ditadura e a repressão do brasileiro diante das forças que se lhe impunha a sociedade e a história. Denunciava em suas obras o preconceito, a hipocrisia, o autoritarismo viciado dos donos do poder no Brasil.
Autor de telenovelas que marcaram para sempre a teledramaturgia brasileira, como “O Bem-Amado” e “Roque Santeiro”, e de personagens que se fizeram inesquecíveis no imaginário do público que os assistiu, como Odorico Paraguaçu e a viúva Porcina. É como tele-dramaturgo que será aqui analisado. As suas telenovelas que foram ao ar durante a década de 1970, constituíram o mais sincero elo da palavra e da arte calada pela censura da ditadura, e o público que ansiava pela denúncia e pela liberdade.
Da estréia sob o pseudônimo de Stela Calderón, em 1969, com “A Ponte dos Suspiros”, à última novela, “O Fim do Mundo”, em 1996, ambas na TV Globo, Dias Gomes deixou um acervo de personagens que construíram com humor e análise crítica, o perfil do brasileiro e de um Brasil corroído por tradições impostas ou cultivadas, sem perder a essência intelectual e emotiva, ou sem perder jamais a identidade de uma nação e da sua gente.

A Estréia Como Stela Calderón

Alfredo Dias Gomes nasceu em 19 de outubro de 1922, em Salvador, Bahia. Aos 12 anos de idade chegou ao Rio de Janeiro, onde passaria a maior parte da sua vida, mas sem jamais deixar a essência nordestina, que impregnaria a sua obra, tanto no teatro como na televisão. Será da Bahia que virá a imensa galeria dos personagens mais marcantes, como os habitantes das fictícias cidades de Sucupira, Bole-Bole (Saramandaia) e Asa Branca.
Militante histórico da esquerda e do Partido Comunista Brasileiro, Dias Gomes foi um dos autores mais perseguidos e dos mais censurados dentro do teatro e da televisão. Mesmo assim não se exilou, escrevendo textos corrosivos de denúncia durante todo o período da ditadura militar. Intelectual incorrigível, revelava nos textos que escrevia ser dono de um refinado humor mesclado com forte impacto dramático. Menosprezava a televisão, mas ironicamente, foi através dela que pôde traduzir tão bem a sua obra e levá-la para milhões de pessoas, adquirindo uma notoriedade e popularidade que jamais alcançaria no teatro.
Casado com a novelista Janete Clair durante 33 anos (ficaria viúvo em 1983), Dias Gomes e a mulher tornar-se-iam já em 1970, os novelistas que mudariam a linguagem da telenovela da emissora do jornalista Roberto Marinho, que seguia como linha principal os dramalhões de época sob o comando de Glória Magadan.
Dias Gomes chegaria à pequena tela no auge da repressão militar, após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968. Sua estréia aconteceu em junho 1969, na Rede Globo, com a novela “A Ponte dos Suspiros”, inspirada no romance homônimo de Michel Zevaco. Temendo à repressão e à perseguição política, adotou neste trabalho o pseudônimo de Stela Calderón. A novela era um dramalhão que se passava em Veneza, tendo como protagonistas a famosa dupla de atores Carlos Alberto e Yoná Magalhães, na época casados na vida real. Dias Gomes escrevia sob a supervisão de Glória Magadan, quando ela foi demitida pela Globo, o autor mudou completamente a linha do texto, passando a abordar problemas políticos dentro da trama. A mudança de estilo narrativo fez a censura paulista obrigar o Canal 5 a transferir a novela para o horário das 22 horas. Nascia assim, um novo horário de telenovelas na Rede Globo, que só seria extinto em 1979.

O Realismo Urbano Chega à Televisão Brasileira

Ainda em 1969, com o fim da era Magadan, a Rede Globo renovou a linguagem das suas telenovelas, abolindo os dramalhões de época. Começou pelo horário nobre, com a novela “Véu de Noiva”, de Janete Clair. Em 1970 estendeu a linguagem do dia a dia e tramas contemporâneas brasileiras, para as novelas das 19 horas, com “Pigmalião 70”, de Vicente Sesso, e do novo horário recém-inaugurado das 22 horas, com “Verão Vermelho”, de Dias Gomes.
Verão Vermelho” foi a primeira trama da televisão a ter como cenário a cidade de Salvador. Nesta novela o autor já assinou com o nome de Dias Gomes, jamais voltando a usar pseudônimos para fugir do regime militar. Drama urbano, a novela trazia pela primeira vez à telinha, as festas típicas das ruas da Bahia, a capoeira, o candomblé e ícones populares que até então, incomodavam as conservadoras famílias católicas que ergueram os seus rosários em 1964 para receber os militares e limpar o Brasil das religiões “pagãs” e dos comunistas. A novela trazia para o elenco de estrelas globais a atriz Dina Sfat. Pela primeira um desquite fazia parte da trama dos protagonistas, Carlos (Jardel Filho) e Adriana (Dina Sfat) separavam-se, e uma nova personagem construiria o triângulo, o médico Flávio (Paulo Goulart). Jardel Filho, que fora um dos protagonistas de “A Ponte dos Suspiros”, tornar-se-ia um dos atores preferidos do autor, fazendo ao longo dos anos, várias parcerias em novelas de sucesso. “Verão Vermelho” abordava os problemas de erros médicos, o racismo e a reforma agrária. Temas ousados para a época. Durante as gravações, Dina Sfat, que vinha das telas do cinema com o sucesso de “Macunaíma”, engravidou do então marido, Paulo José, o autor teve que improvisar a primeira gravidez inesperada de uma protagonista. “Verão Vermelho” deu o tom definitivo das tramas das 22 horas, que pelo horário adiantado da sua exibição, tinham mais fôlego do que as outras novelas diante da pressão da censura e da audiência, podendo ousar mais do que as outras.
Sem qualquer intervalo, Dias Gomes estreou a sua terceira novela consecutiva, “Assim na Terra Como no Céu”, em julho de 1970. Nesta trama o autor aproveitou quase todo o elenco de “Verão Vermelho”, como Dina Sfat e Jardel Filho. Com esta novela a Globo conseguiu contratar um dos maiores galãs da época, Francisco Cuoco, que se tornaria o maior protagonista da emissora na década de 1970. Também uma jovem atriz marcaria de forma indelével a sua estréia na Globo e nas novelas, Renata Sorrah. Dias Gomes usou um truque até então inédito, matar a protagonista da novela no vigésimo capítulo. A história girava em volta de Vítor (Francisco Cuoco), padre que se apaixona pela bela e doce Nívea (Renata Sorrah), por quem deixa a batina para com ela se casar. Nívea era assassinada às vésperas do casamento. A morte da personagem repercutiu em todo o Brasil, gerando a grande pergunta estampada nas capas das revistas da época: “Quem matou Nívea”. Com a morte da protagonista, Helô (Dina Sfat) passou a ser o centro da trama e o novo amor de Vítor. Mas o público não se conformou com a morte de Nívea, que teve que voltar várias vezes em flash-back. A novela trazia fortes contestações sociais, como o voto de castidade imposto aos padres pela igreja católica, o problema com as drogas (primeira vez que o tema chegou à televisão), além do homossexualismo velado do costureiro Gugu (Ary Fontoura), temática que só voltaria a ser abordada abertamente por Bráulio Pedroso em “O Rebu” (1974). Outra personagem que fez grande sucesso foi Ricardinho (Carlos Vereza), que matava o amante da mãe. Carlos Vereza e Renata Sorrah eram casados na época, e esta novela abria as portas da televisão para o jovem e talentoso casal.
Após três novelas consecutivas, Dias Gomes teve um breve período de férias, dividindo pela primeira vez, o horário das 22 horas com Bráulio Pedroso. Voltaria em novembro de 1971, com um novo sucesso, “Bandeira 2”. Desta vez o autor trazia o mundo da contravenção e dos bicheiros cariocas. O bicheiro Tucão, uma das mais soberbas criações de Dias Gomes, encantou o Brasil e os bicheiros do Rio de Janeiro, que se sentiram honrados com o retrato pintado na telinha. “Bandeira 2” teve vários incidentes de bastidores, transformando-se em uma das mais ricas produções a ter o que contar atrás das câmeras. Começou com o protagonista, que seria Sérgio Cardoso, o ator não gostou da personagem e exigiu mudanças. Diante da recusa de Dias Gomes, Sérgio Cardoso desistiu do papel, que foi entregue a Paulo Gracindo. Já com uma idade madura, Paulo Gracindo nunca havia protagonizado uma novela, na pele do bicheiro Tucão, o ator foi elevado ao estrelato. Com “Bandeira 2” iniciava-se uma grande parceria entre Dias Gomes e Paulo Gracindo, que resultaria em personagens inesquecíveis do grande público. Marília Pêra vivia a protagonista Noeli, uma motorista de táxi, profissão até então tabu para uma mulher. A atriz sentiu a personagem preterida diante da de Tucão, por este motivo pediu para sair da trama, mas não foi atendida, permanecendo até o fim. Aqui Dias Gomes usou o texto de uma de suas peças proibidas pela censura, “A Invasão”, traduzida nas personagens dos retirantes nordestinos Severino (Sebastião Vasconcelos), Santa (Ilva Niño) e Licinha (Anecy Rocha), que sem teto para morar, invadem a garagem do prédio de Noeli. O antagonista de Tucão, o bicheiro Jovelino Sabonete (Felipe Carone), foi outra personagem de grande sucesso na novela. O sucesso e a simpatia do público por Tucão incomodaram bastante os moralista do regime militar, ao fim da novela, a censura exigiu que Dias Gomes matasse a personagem, para dar exemplo moral ao público. Assim Tucão morria no último capítulo, causando grande comoção ao público.

O Bem Amado

Alternando mais uma vez, o horário das 22 horas com Bráulio Pedroso, Dias Gomes voltaria em janeiro de 1973 com aquela que seria uma das maiores obras da televisão brasileira, “O Bem-Amado”. A novela foi a transposição de uma peça teatral de Dias Gomes, “Odorico, o Bem Amado”, que esteve sete anos proibida, só sendo liberada em 1969. Pela primeira vez o autor deixava os cenários urbanos e criava a sua mítica Sucupira, cidade fictícia do interior baiano. Foi a primeira telenovela colorida da televisão brasileira, por este motivo enfrentou grandes problemas técnicos nos ajustes das cores, sendo marcante o figurino de cores berrantes que os atores usavam.
A história do prefeito Odorico Paraguaçu, que ao ver a dificuldade que era enterrar um morto devido à falta de cemitério em sua cidade, promete a construção de um como mote principal da sua campanha eleitoral. Eleito, Odorico realiza a sua grande obra, mas não consegue inaugurá-la pela falta de um morto. Ninguém morre em Sucupira. Frustrado e sem escrúpulos, o prefeito usa de todas as artimanhas para conseguir um defunto, inclusive promove a volta de um ilustre cangaceiro e assassino da cidade, o temido capitão Zeca Diabo (Lima Duarte). Mas o velho cangaceiro de fala fina volta redimido, querendo apenas ser digno de Deus, do padrinho padre Cícero e realizar um velho sonho, ser protético. Diante do impasse, Odorico incita o capitão a matar, usando de intrigas e subterfúgios. Ironicamente Zeca Diabo volta a matar, fazendo justiça à cidade, matando o próprio Odorico. Melancolicamente o prefeito inaugura a sua própria obra, sendo enterrado no tão amaldiçoado cemitério.
Paulo Gracindo não queria, a princípio, interpretar Odorico, por temer que viver duas personagens de caráter duvidoso consecutivamente pudesse comprometer a sua imagem. O ator sugeriu trocar a sua personagem com a de Jardel Filho, que vivia o doutor Juarez, um médico problemático e alcoólico, mas Dias Gomes bateu o pé, perguntando a Paulo Gracindo se ele conhecia algum prefeito louro e de olhos azuis no sertão baiano (Jardel Filho era um ator louro e de olhos azuis). Lima Duarte vinha de um grande fracasso em sua estréia na TV Globo. A novela antecessora de “O Bem Amado”, “O Bofe”, de Bráulio Pedroso, que ele fora convidado a dirigir, fora um fiasco. Para encerrar o contrato com a Globo, ele foi convidado, desta vez como ator, para fazer uma participação especial na novela, interpretando Zeca Diabo. Toda a caracterização da personagem foi feita pelo próprio Lima Duarte, que comprou um terno velho numa tinturaria próxima da Estação Rodoviária da Luz, em São Paulo, e decidiu que a personagem tão temida e sanguinária teria uma voz fina. Zeca Diabo, que deveria aparecer apenas em alguns capítulos, tornou-se um sucesso e foi crescendo gradualmente na trama, permanecendo até o fim.
Paralelamente à trama de Odorico, outras personagens circulavam com empatia e sucesso. Entre estas personagens estava o tímido e pacato Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz). Fiel funcionário de Odorico, gago e introvertido, Dirceu passa a vida a servir o prefeito e a caçar borboletas. Jurou castidade, mas foi obrigado a quebrar a promessa quando Dulcinéia Cajazeira (Dorinha Duval) é engravidada por Odorico, e para salvar a honra dela e do prefeito, aproveitam-se do sonambulismo de Dirceu, e inventam que ele possuiu a jovem, fazendo-o acreditar que é o pai do filho que ela espera. No final, quando descobre a mentira, o pacato e tranqüilo Dirceu estrangula a mulher. As irmãs Cajazeiras, Dulcinéia, Dorotéia (Ida Gomes) e Judicéia (Dirce Migliaccio) constituíram outro bem sucedido e mítico núcleo de personagens da novela. Refletiam a hipocrisia da sociedade, três mulheres solteironas, representantes de uma família tradicional, apresentavam-se para a cidade como exemplos de virtude e religiosidade a serem seguidos, mas que na intimidade, viviam todas as três uma sexualidade tórrida com um único homem, o bem amado Odorico Paraguaçu.
A bela Sandra Bréa, que se apaixonaria na trama pela personagem do galã Jardel Filho, fazia a sua primeira protagonista, sendo elevada à estrela da emissora, ela vivia Telma, a problemática e revoltada filha de Odorico Paraguaçu. A atriz vivia uma das cenas mais antológicas da novela, que define bem o universo de Dias Gomes; transitando entre a geração que contestava os costumes sociais e a liberação da sexualidade feminina, Telma era um grito dentro desta luta. Uma noite ela decide tomar banho nua, sua beleza estonteante é vista pelo pai Odorico, que se constrange diante do medo de um escândalo, e por humildes pescadores da região. Zelão das Asas (Milton Gonçalves), um pescador que um dia escapou da fúria do mar e prometeu a Iemanjá que faria um par de asas e voaria da torre da igreja. O pescador foi liberado pelo vigário (Rogério Fróes), de tão absurda promessa. Quando Zelão e os pescadores vêem a beleza nua de Telma, acreditam que estão diante de uma aparição de Iemanjá. Zelão tem a certeza que a senhora dos mares veio cobrar-lhe a promessa e, ali, diante da nudez de Telma-Iemanjá, ele renova a promessa que fizera em alto mar. Este paralelo irônico entre duas personagens e dois universos, é típico de Dias Gomes. Se o banho nu de Telma representava para ela a liberdade, a conquista do direito de ser dona do seu corpo e da sua sexualidade, para Zelão representava a fé, a crença popular, o místico e as sua manifestações. Zelão lutará até o fim da novela com o padre da cidade para cumprir a promessa. Não deixa de ser uma adaptação com outra cor e conotação sublime da peça do autor, “O Pagador de Promessas”. Dias Gomes não usa o enterro antológico do prefeito Odorico Paraguaçu para encerrar a trama, mas sim o cumprimento da promessa de Zelão das Asas. Na última cena da novela, o autor utiliza, pela primeira vez em suas tramas, o realismo fantástico. Num descuido da vigilância do padre e da mulher Chiquinha do Parto (Ruth de Souza), Zelão consegue chegar ao alto da torre da igreja e, diante de todos os curiosos, atira-se no ar. Dias Gomes avisa, em uma voz gravada em “off”, que a partir dali só acredita quem tem fé. A imagem torna-se preto e branco e Zelão voa sobre Sucupira. A novela encerra-se, entrando para sempre na história da televisão brasileira.

O Grande Golpe da Censura Sobre a Obra de Dias Gomes

Mais uma pausa para um breve fôlego, e Dias Gomes voltaria com uma nova novela, “O Espigão”, de 1974. O autor voltava aos grandes centros urbanos, desta vez para debater temas ainda não explorados nas novelas, como o crescimento desordenado das metrópoles, que derrubava prédios históricos e seculares para em seu lugar erguer os arranha-céus (os chamados “espigões” do título). Mostra a frieza que agasalha o homem, cada vez mais desumano diante do progresso sem limites da cidade. Pela primeira vez a ecologia entra como tema de uma telenovela, numa época em que obras faraônicas do regime militar (Transamazônica, ponte Rio Niterói) devastam o meio ambiente em nome do progresso, ocultando o lado autoritário e assassino da ditadura. A novela inicia com uma outra cena antológica, até então jamais vista, Dora (Débora Duarte), a protagonista, tem o seu filho em um engarrafamento de trânsito dentro do túnel Rebouças, no meio da confusão ela é socorrida por Leo (Cláudio Marzo), que formariam o casal sofrido da trama. Personagens bizarros percorrem a novela, dentre eles, Baltazar (Ary Fontoura), um homem reprimido, que às escondidas, corta mechas de cabelos das mulheres, guardando-as em sua coleção. Destaques para o casal Lauro Fontana (Milton Moraes) e Cordélia (Suely Franco), que centralizam as tramas e momentos hilários de humor.
Em 1975 Dias Gomes decidiu adaptar para a televisão uma de suas peças proibidas pelo regime militar, “O Berço do Herói”, censurada em 1965. A história trazia a saga do falso santo, Roque Santeiro e a sua fogosa viúva Porcina. A novela entraria nas comemorações dos dez anos da Rede Globo. Pela primeira vez Dias Gomes iria estrear em horário nobre. Adaptando a história para a literatura de cordel, a novela trazia o mais longo título da história da teledramaturgia brasileira: “A Saga de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido”. Para protagonistas foram escolhidos Francisco Cuoco (Roque), Lima Duarte (Sinhozinho Malta) e Betty Faria (Porcina). Amplamente anunciada como a próxima trama do horário nobre, que entraria substituindo “Escalada”, a novela já tinha 10 capítulos editados e 30 gravados, quando foi proibida pela censura militar. Numa última esperança de liberar a trama, chegou a ser anunciada pela emissora uma mudança de horário, assim a novela “Gabriela”, grande sucesso da época, que ia ao ar às 22 horas, e já a entrar na sua fase final, passaria para o horário nobre e “Roque Santeiro” estrearia às 22 horas. Mas a censura voltou atrás na liberação e proibiu de vez a novela de ir ao ar, alegando que ela era ofensiva à moral e aos bons costumes, ofendendo à igreja e aos princípios católicos. Diante da catástrofe, Janete Clair criou personagens para 90% do elenco da novela censurada, aproveitando-o na mítica “Pecado Capital”. “Roque Santeiro” ficaria dez anos na gaveta até que uma nova versão, em 1985, fosse ao ar.

O Realismo Fantástico Chega à Telenovela

Depois da proibição de “Roque Santeiro”, Dias Gomes faria um intervalo considerado longo demais para a época, em que o autor emendava uma novela na outra. O longo período de ausência encerrar-se-ia em 1976, com “Saramandaia”, trazendo de volta um Dias Gomes ousado, que mudaria novamente a linguagem da telenovela, inaugurando de vez o realismo fantástico, que faria escola, e influenciaria na década seguinte, outros autores, como Agnaldo Silva.
A história da pacata cidade do interior da Bahia, Bole-Bole, e dos seus estranhos moradores chegou a ser comparada ao livro de Gabriel Garcia Márquez, “Cem Anos de Solidão”, mas Dias Gomes alegou que se inspirara no universo da literatura de cordel, e não gostava do termo “realismo fantástico”. Personagens estranhos e fascinantes atraíam o público, que além do vôo de Zelão das Asas em “O Bem Amado”, não tinha visto nada igual na televisão brasileira.
Na novela, Bole-Bole estava dividida entre os conservadores, que queriam manter o nome histórico da cidade, originário de uma aventura local de dom Pedro I; e os modernistas, que queriam mudar o nome da cidade para Saramandaia. Este nome fora revelado em sonho ao protagonista João Gibão (Juca de Oliveira), um homem inteligente, mas estranho em sua conduta. João Gibão trazia uma corcunda tapada por um gibão, daí a origem da alcunha. Na verdade João não era corcunda, o que ele escondia debaixo do gibão era um par de asas, que todos os dias era aparado pela mãe.
Diante de tão grande segredo, João foge à sedução e ao amor da bela Marcina (Sonia Braga), que literalmente arde de paixão, quando ela está excitada, a temperatura do corpo eleva-se de tal forma que incendeia os lençóis e queima todos que a tocam.
Para complicar a situação, o filho de Lua Viana (Antonio Fagundes em sua estréia na Globo), prefeito da cidade e irmão de João Gibão, e da bela Zélia (Yoná Magalhães), herda a anomalia do tio. A criança nasce com asas, mas morre logo a seguir, causando escândalo e espanto na cidade.
Entre as personagens esdrúxulas está o coronel Zico Rosado (Castro Gonzaga), homem conservador e cruel, que expele formigas pelo nariz. No final da novela ele morre soterrado na sua casa, que desaba após ter os alicerces corroídos e transformado em um grande ninho de bilhões de formigas.
Destaque para as cenas antológicas entre Risoleta (Dina Sfat) e o professor Aristóbulo (Ary Fontoura), homem estranho que não consegue dormir há décadas, perambulando à noite pela cidade, onde tem encontros com dom Pedro I e Tiradentes. Risoleta é fascinada pela fama do professor virar lobisomem, no fim da novela ela o seduz e consegue que se transforme em lobisomem na sua frente. É a primeira vez que a figura do lobisomem é explorada em uma novela. A temática voltaria em 1986, com “Roque Santeiro”.
Há ainda Cazuza (Rafael de Carvalho), pai de Marcina e marido de Maria Aparadeira (Eloísa Mafalda), que morre e ressuscita no início da novela, mas que todas às vezes que perde a calma, ameaça soltar o coração pela boca.
Uma das cenas mais antológicas da novela foi a da morte de dona Redonda (Wilza Carla), que de tanto comer explode em praça pública, tendo partes do corpo lançada em toda a cidade. No local da explosão foi formada uma grande cratera, onde surge uma flor gigante, que exala um cheiro terrível sobre a cidade.
O fim antológico da novela mostra um perseguido e injustiçado João Gibão, que para escapar de ser morto, já com as asas crescidas, voa rumo ao infinito. A última cena traz o vôo de João ao som da música “Pavão Mysteriozo”, de Ednardo, tema de abertura da novela , que se tornara um grande sucesso radiofônico da época.

O Fim do Horário das 22 Horas

Após o sucesso estrondoso de “Saramandaia”, Dias Gomes declara-se saturado das novelas. Diz querer escrever seriados e obras com menos capítulos. A Globo decide acabar com o horário de novelas das 22 horas, criando seriados nacionais para substitui-las. Como transição, apresenta “Sinal de Alerta”, de Dias Gomes, a última novela do horário, estreada em 1978. Naquele ano já a abertura política começava a ser desenhada e o AI-5 seria extinto, passando a não mais existir a partir do primeiro dia de 1979. A novela discutia amplamente a poluição das fábricas e a deterioração do meio ambiente. Trazia como protagonistas o empresário Tião Borges (Paulo Gracindo), dono da fábrica responsável pela poluição de um bairro; sua noiva, que poderia ser a sua filha, a bela e virginal Sulamita (Vera Fischer): a ex-mulher Talita (Yoná Magalhães) e o aventureiro e bom caráter Rudi (Jardel Filho). A novela não obteve uma boa audiência e foi a criação mais fraca de Dias Gomes na sua produtiva década de 1970. Nos últimos 30 capítulos, o autor teve a ajuda de Walter George Durst para escrever a novela. No meio da trama Vera Fischer engravidou, e como a sua personagem era uma virgem, filha de um rígido pastor evangélico, o autor teve que improvisar um estupro para a personagem, para que não fugisse do perfil psicológico quando a gravidez da atriz começasse a aparecer.
Com a inauguração dos seriados em 1979, Dias Gomes seria ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e Walter George Durst, o criador e roteirista do seriado “Carga Pesada”, protagonizado por Antonio Fagundes e Stênio Garcia, acumulando a função da supervisão de texto.
Em 1980 deixa “Carga Pesada” e transforma “O Bem Amado” em seriado semanal. Para isto ressuscita Odorico Paraguaçu, morto no último capítulo da novela, em 1973, alegando que ele tivera uma catalepsia. Nesta nova fase de “O Bem Amado”, com o passar do tempo o prefeito Odorico torna-se uma sátira ao então governador de São Paulo, Paulo Maluf. O A seriado seria um grande sucesso e ficaria no ar até 1984.

Roque Santeiro

Em 1985 a ditadura militar tornou-se uma página virada da história brasileira. “Roque Santeiro”, censurada dez anos antes, pôde finalmente ir ao ar. À exceção de Lima Duarte e Luiz Armando Queiroz, que assumiram os mesmos personagens da versão de 1975, a novela veio à tona com um elenco totalmente renovado, tendo como protagonistas Regina Duarte (Viúva Porcina) e José Wilker (Roque). Agnaldo Silva pegou os 50 capítulos escritos por Dias Gomes e ampliou-os para o dobro. Sob a supervisão do autor, ele transformou a novela em um grande sucesso.
Roque Santeiro” era uma crítica contumaz às cidades que viviam do comércio da religiosidade e da fé das pessoas. Asa Branca, cidade do interior da Bahia, tinha sofrido um ataque de Navalhada (Oswaldo Loureiro), para não pilhar a cidade e matar grande parte dos seus habitantes, o bandido exigiu uma grande quantia à população. O dinheiro foi entregue ao corajoso Roque, que serviria de negociador com Navalhada. Mas Roque teria sido morto, tornando-se um mártir. Mais tarde, tornar-se-ia milagreiro. Asa Branca cresce em torno do mito de Roque, que é tido como santo. Recebe romeiros de todos os cantos. Neste período, Porcina, amante do poderoso Sinhozinho Malta, chega a Asa Branca e para camuflar o caso entre os dois, é apresentada como a viúva de Roque, sem nunca ter sido. O tempo passa e um dia um homem misterioso volta à cidade. É Roque, que nunca fora mártir, e sim um vigarista que fugira com o dinheiro que deveria ter sido entregue a Navalhada. Rico e arrependido, Roque volta para rever a família e redimir-se diante da cidade. Na volta encontra-se com o mito, com o santo e mártir que se tornara, com uma vida que se lhe fora criada, inventando-lhe até mesmo uma viúva. Reconhecido pelos poderosos de Asa Branca, Roque é impedido de revelar a verdade, pois a revelação destruiria a cidade que vivia da mentira e dos falsos milagres de um santo vigarista.
Dias Gomes tem aqui um dos enredos mais fascinantes da sua teledramaturgia. Com o passar dos capítulos, o autor acusou Agnaldo Silva de dar às personagens um certo tom brega. Para finalizar a trama, tomou para si os últimos capítulos, afastando de vez Agnaldo Silva. Dos 209 capítulos da novela, Agnaldo Silva escreveu 111 deles. Pela primeira vez, o autor poderia debater temas polêmicos como a reforma agrária, os falsos milagres e a comercialização da fé, sem uma censura prévia a tentar calá-lo. O resultado foi uma das novelas mais bem sucedida da história da televisão brasileira.

Do Mito de Édipo ao Apocalipse do Mundo

Em 1987, Dias Gomes escreveu “Expresso Brasil”, uma mini novela com 40 capítulos, que tinha a duração de 5 minutos cada, indo ao ar de segunda a sábado, entre o Jornal Nacional e a novela do horário nobre. Na verdade a novela era uma ode ao universo das grandes personagens da televisão. Desfilavam dentro de uma locomotiva todos as grandes personagens do autor, além de algumas personagens de outros autores. “Expresso Brasil” era uma singela homenagem às personagens das telenovelas brasileiras. Dentro da locomotiva pudemos rever Tucão, Sinhozinho Malta e Odorico Paraguaçu, entre tantos.
Em 1987 Dias Gomes, em parceria com Marcílio Moraes, decidiu levar para a telenovela o mito grego de Édipo, adaptando para o Brasil do século XX a peça “Édipo Rei”, de Sófocles. A novela sofreu com a censura, que não queria aprovar a sinopse, considerando o tema impróprio para o horário das 21 horas. Após longas negociações com a Globo, a novela foi ao ar.
Mandala” foi dividida em duas fases. A primeira trazia um Dias Gomes na sua essência e verve política, pela finalmente falando abertamente sobre os tristes anos da ditadura política. Nesta fase era contada a história da jovem Jocasta (Giulia Gam) e de Laio (Taumaturgo Ferreira), unidos pelo amor e separados pela maldição de que o filho do casal mataria o pai e casar-se-ia com a mãe. A primeira fase da novela foi um sucesso, marcada pelo forte conteúdo político. Na segunda fase da novela Jocasta (Vera Fischer), apaixonar-se-ia sem saber, pelo filho Édipo (Felipe Camargo), levado dos seus braços quando nascera. A novela sofreu pressão do público e da censura, que não queriam assistir ao beijo de mãe e filho. Diante de tantos obstáculos, Dias Gomes decepcionou-se com a trama, deixando-a no capítulo 35, que seria escrita por Marcílio Moraes e Lauro César Muniz. A novela chegou ao fim sem brilho e sem o carisma habitual de Dias Gomes.
Em 1988 Dias Gomes adaptou a sua famosa peça “O Pagador de Promessas”, para uma mini série, protagonizada por José Mayer. A fraca e contida interpretação do ator, e um texto com um discurso por demais dogmático, tiraram a essência dramática e beleza contestatória da peça. A mesma peça já tinha sido adaptada para o cinema, em um filme de Anselmo Duarte, de 1962, que contara com a extraordinária interpretação de Leonardo Villar, ganhando a Palma de Ouro em Cannes, naquele ano.
Em 1990 a TV Manchete alcançou um grande sucesso com a novela “Pantanal”, que começava pouco antes de terminar o capítulo da novela global “Rainha da Sucata”, roubando a tradicional audiência da emissora. Para fazer frente a este sucesso, Dias Gomes foi chamado para escrever uma trama que entraria em horário inédito, após o término da novela do horário nobre. Surgiu “Araponga”, escrita em parceria com Lauro César Muniz e Ferreira Gullar. A história de Araponga, codinome da personagem de Tarcísio Meira, um ex-agente informante da ditadura militar, apesar de ser contada de forma cômica, sucumbiu diante do sucesso de “Pantanal”, e praticamente passou despercebida.
A falta de carisma de “Araponga” deixaria Dias Gomes longe das novelas até 1995, quando pela primeira vez, trabalharia no horário das dezoito horas, trazendo de volta um grande sucesso da teledramaturgia brasileira, “Irmãos Coragem”, da sua falecida mulher Janete Clair. Inadequada para o horário, escrita a obedecer uma estruturação psicológica moldada sobre os esboços de Janete Clair, a novela perdeu o seu impacto dramático e carisma emotivo, faltando, principalmente, a espontaneidade intuitiva genial da autora.
A última novela escrita por Dias Gomes foi “O Fim do Mundo”, de 1996, que teve apenas 35 capítulos. A novela foi criada para ser uma mini série, mas entrou no horário nobre devido aos atrasos na produção da novela “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa. Trazia a divertida história de uma cidade do interior, que acreditou na promessa do vidente Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti), que anunciava dia e hora para o fim do mundo. Acreditando na promessa do Apocalipse, todos passam a fazer o que bem entendem, sem a preocupação com as aparências e o futuro. Uma corrosiva crítica à sociedade, que diante da iminência de um fim, mergulha na sua hipocrisia de forma libertina e sem limites, sem pensar na redenção dos atos. Com “O Fim do Mundo”, Dias Gomes despedia-se das novelas sem o brilho de “O Bem Amado” e “Roque Santeiro”, mas senhor absoluto do seu universo de denúncia social.
Se na última década de vida, as telenovelas traziam uma certa saturação e decepção do autor, as mini séries que escreveu foram de uma qualidade excepcional, originando clássicos como “As Noivas de Copacabana” (1992), “Decadência” (1995) e “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1998). Dias Gomes morreu em São Paulo, num acidente de automóvel, acontecido em 18 de maio de 1999. Tinha 76 anos. Era na época, um imortal da Academia Brasileira de Letras. A sua morte deixou uma grande lacuna no teatro e na teledramaturgia do país. Suas personagens tornaram-se eternas e únicas. Quem não se lembra da eterna viúva Porcina? Quem que não se maravilhou com o universo único de Dias Gomes? O Brasil agradece o retrato criado pelas teclas deste grande baiano.

OBRAS

Peças de Teatro:

1937 – A Comédia dos Moralistas
1942 – Pé de Cabra
1942 – João Cambão
1943 – Amanhã Será Outro Dia
1943 – Doutor Ninguém
1943 – Zeca Diabo
1943 – Toque de Recolher
1944 – Dr. Ninguém
1949 – A Dança das Horas
1949 – É Amanhã
1954 – Os Cinco Fugitivos do Juízo Final
1960 – O Pagador de Promessas
1962 – A Invasão
1962 – A Revolução dos Beatos
1965 – O Berço do Herói
1966 – O Santo Inquérito
1968 – Dr. Getúlio, Sua Vida e Sua Obra
1969 – Odorico, o Bem Amado
1969 – Vamos Soltar Demônios
1979 – O Rei de Ramos
1979 – O Túnel
1979 – As Primícias
1980 – Campeões do Mundo
1983 – Vargas
1984 – Amor em Campo Minado
1989 – Meu Reino por um Cavalo

Novelas:

1969 – A Ponte dos Suspiros – TV Globo
1970 – Verão Vermelho – TV Globo
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu – TV Globo
1971/1972 – Bandeira 2 – TV Globo
1973 – O Bem Amado – TV Globo
1974 – O Espigão – TV Globo
1975 – A Saga de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido (1ª versão censurada de Roque Santeiro) – TV Globo
1976 – Saramandaia – TV Globo
1978/1979 – Sinal de Alerta – TV Globo
1985/1986 – Roque Santeiro (co-autoria com Agnaldo Silva) – TV Globo
1987/1988 – Mandala (até o capítulo 35) – TV Globo
1990 – Araponga – TV Globo
1995 – Irmãos Coragem (supervisão de texto) – TV Globo
1996 – O Fim do Mundo – TV Globo

Casos Especiais:

1971 – O Crime do Silêncio – TV Globo
1971 – A Pérola – TV Globo
1974 – Gino – TV Globo
1988 – Boi Santo – TV Globo

Mini-Séries:

1987 – Expresso Brasil – TV Globo
1988 – O Pagador de Promessas – TV Globo
1992 – As Noivas de Copacabana – TV Globo
1995 – Decadência – TV Globo
1998 – Dona Flor e Seus Dois Maridos – TV Globo

Seriados:

1979 – Carga Pesada (supervisão de texto) – TV Globo
1980-1984 – O Bem Amado – TV Globo


OS NEGROS NAS TELENOVELAS

Dezembro 16, 2008

O Brasil é um país plural, com uma população formada por várias raças e etnias. País construído por colonizadores europeus, nativos indígenas e negros africanos em sua essência. Se o índio faz parte de uma minoria de brasileiros, negros e brancos quase que empatam em número populacional. Apesar da paridade numérica, os abismos sociais entre negros e brancos continuam a ser uma grande ferida na integridade racial do Brasil.
A presença dos negros nas telenovelas brasileiras, o maior veículo de comunicação de público do país, apesar de ter avançado nos últimos anos, ainda é tímida e muitas vezes feita de uma forma negativa e presa ao estereótipo. Apesar de ser um país de grandes atores negros, que desfilaram ou desfilam pelas décadas da dramaturgia brasileira, como Grande Otelo, Ruth de Souza, Lázaro Ramos, Milton Gonçalves, Isaura Bruno, Taís Araújo, Chica Xavier, Neuza Borges, Jacira Silva, Zezé Motta, Cléa Simões, Zózimo Bulbul, Lea Garcia e tantos outros; os negros vêm sendo ignorados há décadas pelas telenovelas. Desde a primeira levada ao ar em 1963, este veículo tornou-se o condutor que moldou comportamentos, opiniões, criando ou derrubando preconceitos. A linguagem da telenovela reprimiu por muitos anos a imagem da verdadeira face do Brasil, fazendo dele um país de falsa identidade branca, negando a sua história e cultura. A televisão foi, e ainda o é (apesar de hoje em dia sofrer mais críticas e render-se às evidências da pluralidade) a maior propagandista e difusora dos conceitos do branqueamento da população brasileira, iniciada ainda no Brasil colônia.
Se hoje uma telenovela de horário nobre da poderosa TV Globo insere em suas tramas o amor entre raças, e o público, já moldado para aceitar a verdadeira identidade do país, aceita as personagens, nem sempre foi assim. Já houve tempo em que a rejeição ao amor entre um casal de cor branca e negra atingiu a total intolerância. A presença do negro na ficção da teledramaturgia era visível apenas em pequenas tramas paralelas às principais. De Mamãe Dolores (Isaura Bruno) a Xica da Silva (Taís Araújo), do Rodney de Zózimo Bulbul em “Vidas em Conflito” (1969) ao Foguinho de Lázaro Ramos em “Cobras & Lagartos” (2006), o espaço do negro nas telenovelas vem sendo conquistado com perseverança à discriminação. Um longo e árduo caminho foi percorrido pela constelação de grandes talentos negros, até que se deslumbrasse como protagonistas de algumas telenovelas.

O Branqueamento Histórico da População Brasileira

A presença negra na formação do Brasil veio através dos grupos étnicos africanos capturados em suas tribos e feitos escravos nas terras da colônia. Desde então negros, brancos e índios misturaram-se, construindo uma população miscigenada com maioria visível de negros. O impacto da presença negra na população do Brasil sempre foi motivo de preocupação entre os colonizadores, que temiam uma rebelião da raça contra a minoria branca. Em 1609, para aumentar a população branca do Brasil, o rei Filipe II de Portugal (III da Espanha), proibiu a fundação de conventos no Brasil, para que os brancos europeus que migravam à colônia não fossem somente padres e missionários sem compromissos com a procriação. O medo de uma rebelião negra aumentou drasticamente em 1804, quando os escravos nativos de Hispaniola, no mar do Caribe, tomaram a parte ocidental da ilha e declararam a independência do Haiti, abolindo a escravidão. Muitos receavam que se sucedesse o mesmo no Brasil, e antes que acontecesse, foi iniciado um branqueamento da população brasileira durante o primeiro e o segundo impérios. Esta medida culminou com o incentivo do governo em trazer para o Brasil o imigrante europeu. Derrubadas as últimas fronteiras de disputa com a Espanha, o sul do Brasil passou a ser colonizado por imigrantes europeus, fazendo parte do processo político de branqueamento da população brasileira. Este conceito ultrapassou o Brasil imperial, não se esvaiu com a abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888.
No século XX, já com o poder da mídia como fonte de propaganda de uma nação, a partir dos anos sessenta, a televisão tornou-se o principal veículo desta propaganda. A telenovela é o produto de comunicação mais consumido pela população. Tornou-se tão poderosa, que dita a moda e os modismos, os conceitos sociais e políticos e a forma linear de difusão de pensamentos de uma nação.
Se a telenovela dominou o Brasil com a sua linguagem, estes domínios atravessaram as fronteiras, atingindo outros países. O sucesso das exportações das telenovelas para o exterior fez com que se pensasse nela como um cartão postal, trazendo um conceito de imagem da geografia humana do Brasil idealizado por uma falsa identidade. Tanto que se discute em Portugal, na Itália, Espanha, China, e outros países para onde a telenovela brasileira foi exportada e tornou-se grande sucesso de consumo, se no Brasil afinal não há negros. Sim, esta pergunta foi feita nos outros países, porque na telenovela brasileira a presença do negro era quase decorativa, quase exótica, como se raro fosse no cotidiano desta imensa nação.

O Negro nas Primeiras Telenovelas Brasileiras

Uma das primeiras telenovelas a ter muitos negros em seu elenco foi “A Gata”, novela de Ivani Ribeiro que estreou em 1964, na extinta TV Tupi. O tema da telenovela não era dos problemas do negro brasileiro, mas os dos escravos das Antilhas do início do século XIX . A trama girava em volta de uma senhora branca, Adriana (Marisa Woodward), chamada de Gata. O fracasso diante do público levou os patrocinadores a uma pesquisa para saber os motivos. Um deles era o excesso de escravos da trama. Para solucionar o problema, a autora fez com que uma epidemia na senzala matasse mais da metade dos escravos. Apesar de um grande número de atores negros, nenhum deles teve o nome creditado junto ao restante do elenco branco da telenovela.
Ainda em 1964, estreou na TV Tupi, “O Direito de Nascer”, primeira telenovela de grande sucesso no Brasil. O folhetim era uma adaptação de Talma de Oliveira e Teixeira Filho ao texto original do cubano Félix Caignet. A história da negra Dolores (Isaura Bruno) comoveu o Brasil. Empregada de uma abastarda e poderosa família, que ao ver Maria Helena (Nathália Timberg), a filha do patrão, engravidar e ter que, por imposição do preconceito por ser mãe solteira, abandonar o filho, tomou para os seus cuidados esta criança, criando-a como filho. Mamãe Dolores e o seu filho adotivo Albertinho Limonta (Hamilton Fernandes) levaram o Brasil às lágrimas. Isaura Bruno tornou-se a primeira atriz negra a fazer grande sucesso diante do público. Com ela inicia-se a imagem benevolente da mãe preta gorda, de colo amplo para acolher os filhos, que se encaixaria em outras atrizes negras, como Cléa Simões, que seria a Mamãe Dolores da versão de 1978 da novela; Zeny Pereira e Jacira Sampaio, a eterna Tia Anastácia do seriado “Sítio do Picapau Amarelo”. Mas o grande sucesso de Isaura Bruno foi logo esquecido devido à inexistência de papéis à altura do seu talento e carisma, sempre interpretando pequenos papéis subalternos até a sua morte.
Um momento raro da história do negro na televisão brasileira nos incipientes anos sessenta aconteceu na telenovela “A Cor da Pele”, de Walter George Durst, que estreou na TV Tupi em 1965. Apesar da sua obscuridade como registro, foi a primeira novela a propor falar sobre o preconceito racial. A história de amor entre a mulata de olhos verdes Clotilde (Yolanda Braga), e o português Dudu (Leonardo Villar), trouxe para a pequena tela o primeiro beijo inter-racial da sua história. Yolanda Braga foi a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira.
O ano de 1969 marcaria de formas diferentes, a história dos negros nas telenovelas. Três produções, duas na extinta TV Excelsior – “Vidas em Conflito” e “Os Estranhos” – e uma na TV Globo – “A Cabana do Pai Tomás” -, assinalam uma página bizarra na presença dos atores negros.
Vidas em Conflito”, de Teixeira Filho, traz pela primeira vez à telenovela uma família de classe média negra. Zózimo Bulbul viveu o primeiro protagonista negro da televisão. A história seria válida não fosse construída sobre uma sinopse racista, Débora (Leila Diniz) apaixona-se por Walter (Paulo Goulart), homem que a sua mãe Cláudia (Nathália Timberg) ama, por vingança, ela começa a namorar o negro Rodney (Zózimo Bulbul). A idéia de vingança revela a agressão que era uma mulher branca namorar um negro, eliminando da trama o convite à reflexão contra o racismo, sem nunca deixar de evidenciá-lo.
Os Estranhos”, de Ivani Ribeiro, aconteceu no momento histórico em que o homem pisava na lua, daí a imaginação da autora estar voltada para os extraterrestres. A novela era protagonizada por Regina Duarte, Rosamaria Murtinho, Cláudio Correa e Castro, seres que vinham do planeta Gama Y-12, e por Pelé. A presença inesperada do rei do futebol brasileiro, à época no auge da sua carreira , como protagonista de uma telenovela, não contribuiu em nada para a presença do ator negro no gênero. Na trama estava uma celebridade, não um ator. Pelé vivia Plínio Pompeu, escritor rico e dono de uma ilha, que se deparava com os extraterrestres. A personagem tinha pouco texto e em nenhum momento teve um envolvimento amoroso dentro da trama. Apesar de protagonista, tornou-se meramente decorativo. Caso o papel de Plínio tivesse sido entregue a um ator de verdade, a dimensão do crescimento e a importância na trama seriam diferentes.
A Cabana do Pai Tomás”, escrita por Hedy Maia, Péricles Leal e Walter Negrão, é o caso mais bizarro e vergonhoso de racismo registrado em uma telenovela. Baseada no romance homônimo de Harriet Beecher Stowe, é a história do escravo Tomás, homem de bom coração, que passa por vários e cruéis senhores de engenhos durante a Guerra da Secessão nos Estados Unidos. Feita com esmero e dentro de um grande orçamento, a novela foi pensada para ser um grande sucesso épico, mas tornou-se um dos maiores fracassos e de um resultado grotesco. Para viver o protagonista negro Pai Tomás, a subsidiária norte-americana da Colgate-Palmolive no Brasil, que patrocinava as telenovelas da época, exigiu que o papel fosse vivido pelo ator branco Sérgio Cardoso. O absurdo obrigou Sérgio Cardoso a pintar o corpo com uma tinta negra, usar peruca e rolhas no nariz. A novela estreou sob os tumultos de aclamados protestos, um movimento liderado pelo jornalista e dramaturgo Plínio Marcos, em sua coluna diária no jornal “Última Hora”, achava que o personagem deveria ser interpretado pelo ator Milton Gonçalves. Tudo em vão. A novela foi um fiasco em seus 205 capítulos. Mesmo de cunho racista, “A Cabana do Pai Tomás” teve o maior elenco negro até então.

Subalternos e Escravos

Nos anos setenta a telenovela deixava os dramalhões de época, as histórias que dantes se passavam nas Antilhas, nos desertos árabes, no sul dos EUA, são transportadas para o cotidiano brasileiro, mostrando as praias cariocas, os subúrbios paulistanos. A telenovela torna-se uma espécie de retrato da urbanidade nacional, ou, em raras exceções, do ruralismo além do litoral. Nesta nova composição do gênero, o negro é esquecido. O ator Antonio Pitanga desabafaria mais tarde, que na época as personagens das tramas noveleiras sequer tinham um vizinho negro. O negro passava a figurar em tramas paralelas, a viver personagens subalternas. Zezé Motta conta que ao fazer um curso de interpretação, foi abordada por alguém que lhe questionou o porquê de tanto preparo se iria fazer só papel de empregada nas novelas. Diante dessa dura realidade, a atriz deixou de fazer telenovelas por muitos anos, recusando-se ser a eterna serviçal das tramas televisivas.
Na industrialização das telenovelas, os negros tiveram que gritar e protestar por papéis mais importantes, mas nem sempre o grito ecoava diante do preconceito. Temáticas de racismo eram retratadas timidamente, como em “Verão Vermelho”, novela de Dias Gomes, estreada na TV Globo em 1970. Na trama Geralda (Lúcia Alves), jovem de cor branca, esconde a mãe negra Clementina (Ruth de Souza). Em 1971 Janete Clair cria a personagem de Otto von Muller (Jardel Filho), um dos protagonistas de “O Homem Que Deve Morrer”, um vilão racista que é salvo da morte ao receber em transplante o coração de um negro. Zeny Pereira interpreta Conceição, mãe do negro que doou o coração a Otto. Para que ele não se esqueça, ela anda com o coração inutilizado dentro de um vidro, lembrando-lhe que o que bate em seu peito é o de um negro. Em “O Rebu” (1974), de Bráulio Pedroso, a desequilibrada Lupe (Tereza Rachel), mulher rica e frágil, tem no final da novela a proteção e o amor do negro Astorige (Haroldo de Oliveira). Milton Gonçalves que interpretaria um padre na versão proibida pela censura de “Roque Santeiro” (1975), pediu para Janete Clair uma personagem que pudesse usar gravata. Para presenteá-lo a autora criou o doutor Percival de “Pecado Capital” (1975), um psiquiatra negro formado em Havard. Quando “Roque Santeiro” foi levada ao ar em 1985, o padre negro embranqueceu, sendo interpretado por Paulo Gracindo.
Na segunda metade da década de setenta a Globo começa a adaptar vários clássicos da literatura brasileira. “Gabriela” (1975), novela de Walter George Durst extraída das páginas de Jorge Amado, teve várias pretendentes ao papel, entre elas duas atrizes negras, Zezé Motta e Vera Manhãs, esta última na época casada com o ator Antonio Pitanga, mãe dos atores Rocco e Camila Pitanga. A emissora preferiu escurecer a pele de Sonia Braga, transformando-a na mulata Gabriela. Outras adaptações da literatura geraram as personagens dos escravos. Durante muito tempo o negro viveu o escravo das novelas das 18 horas da TV Globo. Entre as novelas estavam “A Moreninha” (1975), “Escrava Isaura” (1976), “Sinhazinha Flô” (1977) e “Memórias de Amor” (1979).
Escrava Isaura”, adaptação de Gilberto Braga da obra de Bernardo Guimarães, é sem dúvida um dos marcos do racismo velado, mas tenaz, que paira na cultura brasileira. Tanto o romance, como a novela, consegue ser o registro literário mais racista feito no Brasil. Nele o problema da escravidão não reflete a injustiça contra a raça negra, mas a uma infeliz mulher de pele branca que teve a pouca sorte de nascer escrava. Na novela Isaura (Lucélia Santos) é perseguida e maltratada por Leôncio (Rubens de Falco). Várias vezes ela era ameaçada de ser açoitada no tronco, quando isto acontecia, o público ficava arrepiado, indignado. Os açoites à Isaura não passavam de ameaças, enquanto que os escravos negros da novela eram açoitados e não havia a comoção do público, afinal a lógica dizia aos telespectadores que os negros eram naturalmente escravos, não havia injustiça ou injustiçados, mas Isaura era branca, uma verdadeira iniqüidade ela ser escrava.

Rejeição do Público aos Amores Entre Raças

Nos anos oitenta movimentos em defesa do negro começam a ganhar força e a exigir uma maior presença dentro da teledramaturgia. Afinal é a década do centenário da Abolição, é preciso que o negro saia da senzala e das cozinhas dos patrões brancos, que se torne vizinho do branco, colega de escola. É preciso acreditar que em 100 anos do fim da escravidão no país, o negro faça parte da identidade nacional, ou da identidade vendida pelas telenovelas no exterior e apresentada para o público no Brasil.
Janete Clair foi confrontada em um programa de rádio em 1980, do porquê de não ter atores negros em papéis que não fossem de subalternos em suas novelas, ou que tivessem uma maior importância. A autora respondeu que nunca havia parado para pensar no assunto, e prometeu criar melhores papéis para os negros. Realmente ela amplia um pouco esta participação em suas tramas, “Coração Alado” (1980) e “Sétimo Sentido” (1982) refletiram um pouco a promessa, com papéis mais destacados criados para Jacira Silva e Ruth de Souza.
Em 1984 Gilberto Braga decidiu ousar um pouco mais, abordando o preconceito racial em “Corpo a Corpo”, criando o amor inter-racial entre Cláudio (Marcos Paulo) e Sônia (Zezé Motta). O público rejeitou o romance. Marcos Paulo chegou a ser indagado se estava a precisar de dinheiro para aceitar a beijar uma negra. Também Zezé Motta foi hostilizada pelo preconceito do público. Curiosamente, os atores tinham vivido um romance na vida real anos antes.
Sinhá Moça”, adaptação de Benedito Ruy Barbosa da obra homônima de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, trazia um herói mascarado branco Rodolfo (Marcos Paulo na versão de 1986 e Danton Mello na de 2006), que libertava os negros do cativeiro, transportando-os para os quilombos. A Abolição era tratada como pano de fundo no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, mas que Benedito Ruy Barbosa deu ênfase, transformando a novela em um grande sucesso. Tony Tornado teve um bom momento na televisão como o Capitão do Mato. A segunda versão de “Sinhá Moça”, vinte anos depois da primeira, foi vista com outros olhos pelos movimentos negros do Brasil. Um inquérito civil foi instalado contra a novela, acusada de deturpar a história da escravidão no Brasil e de prejudicar a auto-estima da população negra. Um promotor do Ministério Público da Bahia acusou Benedito Ruy Barbosa de mostrar o negro como apático, passivo, que precisava de heróis brancos para libertá-lo.
Roque Santeiro”, novela de Dias Gomes, censurada em 1975, foi finalmente ao ar em 1985, com co-autoria de Agnaldo Silva. Tony Tornado, viveu Rodésio, o fiel capataz da viúva Porcina (Regina Duarte), o ator revelaria mais tarde que foram gravados três finais diferentes para a telenovela, cada um deles dando destinos distintos à fogosa viúva, em um dos finais ela terminaria com Roque (José Wilker), em outro com Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e em um terceiro, terminaria com Rodésio. A emissora divulgou apenas os dois primeiros finais, segundo Tony Tornado, por temer que a reação do público fosse negativa diante de um possível final de Porcina com um negro.
Várias obras de Jorge Amado foram adaptadas para as telenovelas, e todas às vezes que se sucederam as adaptações, o universo da Bahia negra de Jorge Amado quase que desapareceu. Além de “Gabriela”, quase não havia negros nas novelas “Terras do Sem Fim” (1981), “Tieta” (1989) e “Porto dos Milagres” (2001). Imperdoável o branqueamento dado pela Globo à Bahia de Jorge Amado.

Maior Integração e Participação nas Novelas Atuais

A década de noventa trouxe mudanças ao conceito da imagem do brasileiro retratada pela teledramaturgia. O negro passou a ter mais espaço, saindo da submissão ao homem branco para uma classe média mais próxima da realidade. Esta mudança pequena, mas significativa, passou a ser feita de forma irreversível e contínua, já não se podia negar a identidade negra no universo teledramático.
A Próxima Vítima” (1995), de Silvio de Abreu, soprou os ventos da mudança na participação dos negros, que aqui teve um núcleo sólido, retratando uma família de classe média encabeçada por Fátima (Zezé Motta), o marido Cleber (Antonio Pitanga) e os filhos Sidney (Norton Nascimento), Jefferson (Lui Mendes) e Patrícia (Camila Pitanga). Desde então, os eternos papéis de subalternos destinados aos negros não foram extintos, mas deixaram de ser o único retrato apresentado de uma raça.
Em 1996 Walcyr Carrasco, sob o pseudônimo de Adamo Angel, levou para a televisão a personagem histórica de Xica da Silva. Dirigida por Walter Avancini e produzida pela extinta TV Manchete, “Xica da Silva” trazia Taís Araújo como protagonista, sendo um grande sucesso de público. A trama trazia vários personagens negros. Zezé Motta que vivera Xica da Silva no cinema, na telenovela fez o papel de mãe da personagem.
Nos últimos anos, a TV Globo, numa tentativa histórica de redimir-se da segregação negra em suas telenovelas, não por fazer uma autocrítica, mas por pressão das mudanças sociais dos tempos, criou em suas tramas várias personagens negras bem-sucedidas. Em 2004 lançou a sua primeira telenovela protagonizada por uma atriz negra, “Da Cor do Pecado”, de João Emanuel Carneiro, retratando o amor do milionário Paco (Reynaldo Gianecchini) pela romântica Preta (Taís Araújo). Além de “Da Cor do Pecado”, outras novelas globais trouxeram personagens negros bem-sucedidos, como “Mulheres Apaixonadas” (2003), “Celebridade” (2003), “Páginas da Vida” (2006). Em 2006 Lázaro Ramos conquistou o público brasileiro ao viver o Foguinho de “Cobras & Lagartos”, tornando-se protagonista absoluto da telenovela de João Emanuel Carneiro, fazendo cenas antológicas ao lado de Marília Pêra e Taís Araújo. Em 2007 o mesmo Lázaro Ramos viveu em “Duas Caras” o tórrido amor da sua personagem Evilásio pela rica Júlia (Débora Falabella). Ao contrário do que sucedera em Corpo a Corpo”, de 1984, o romance inter-racial conquistou o público. Em 2008, Milton Gonçalves voltou às gravatas para interpretar o rico e corrupto político Romildo Rosa de “A Favorita”. Já não precisou pedir ao autor da novela para poder usá-las, como aconteceu na década de setenta.
Se hoje há uma maior visibilidade do negro na telenovela, as oscilações continuam conforme sopram os ventos. No começo da primeira década de 2000, um polêmico projeto de lei do então senador Paulo Paim, obrigava que as emissoras de televisão incluíssem 25% de negros nas telenovelas. Imposição que causou mal estar inclusive entre os atores afro-brasileiros. O racismo não desapareceu da telenovela, a participação dos negros tão pouco alcançou o patamar que reflita o seu real lugar na identidade do Brasil. Mas perto do que já foi, um longo caminho foi percorrido, alcançado grandes vitórias. Para isto as mudanças sociais tiveram que ser absorvidas por uma conservadora e preconceituosa sociedade. E a telenovela tem esta função de mudar preconceitos e moldar opiniões. Cabe aos autores, diretores e produtores do gênero assumirem este compromisso de querer mostrar a verdadeira face do brasileiro e do Brasil.


O AMOR ENTRE IGUAIS NAS TELENOVELAS

Novembro 4, 2008

As telenovelas brasileiras foram evoluindo a sua linguagem desde1963, quando 2-5499 Ocupado foi ao ar, sendo considerada o marco zero desse gênero de teledramaturgia. Com o passar das décadas, as telenovelas tornaram-se o principal veículo de comunicação entre a televisão e o povo brasileiro. Em quase 5 décadas, a telenovela ditou modas, mexeu com os costumes, tocou nas feridas de uma sociedade mutante, às vezes de uma forma hipócrita, outras de um jeito menos superficial. A única certeza é que a telenovela brasileira promoveu, ao longo da sua história, modelos de comportamento e tendências a ser seguidas pelo seu público.
Mas, nem sempre os espelhos refletidos da sociedade brasileira na pequena tela da televisão eram sinceros ou realistas. Houve um tempo, e não muito longe, que os estereótipos dos protagonistas deveriam ser perfeitos, maniqueístas e de um racismo velado. O herói não poderia ter relacionamentos entre raças, ou sexo entre iguais. Era bom, perfeito e branco. Preconceitos raciais e sexuais foram, aos poucos, tendo abordagens tímidas, superficiais, mas que diante das imposições de uma sociedade plural como é a brasileira, sedenta de transgressões e de mudanças de costumes, tiveram que ter uma explosão temática mais evidenciada.
Discutir o homossexualismo, seja ele masculino ou feminino, tornou-se um filão obrigatório nas telenovelas atuais. Mesmo assim, ainda é um tema delicado, coberto de tabus e medos de que a nudez da temática seja escancarada ao público. Dos anos 70, quando o tema foi abordado abertamente pela primeira vez, à década atual, quando é uma constante nos núcleos das telenovelas, muito foi discutido sobre a diversidade sexual do brasileiro, mas muito ficou por ser dito. Porque esta sexualidade é universal, indo além do que uma sociedade formada por várias raças e religiões quis, através dos seus preconceitos, impor como um modelo padrão.

As Primeiras Abordagens da Temática

Antes da telenovela, a primeira vez que a televisão brasileira abordou o tema do homossexualismo foi na década de 60, num dos episódios do Grande Teatro Tupi, na extinta Rede Tupi, em que as atrizes Vida Alves e Geórgia Gomide protagonizaram o primeiro beijo entre mulheres da pequena tela. Depois deste episódio histórico, o tema sempre foi tabu, e quando era abordado, era feito de uma forma camuflada, que só os mais atentos conseguiam perceber a intenção do autor ou do diretor.
Em 1974, o novelista Bráulio Pedroso, pioneiro e criador de uma nova linguagem da telenovela desde que Beto Rockfeller (1969), de sua autoria, foi ao ar; resolveu ousar mais uma vez, criou o primeiro personagem homossexual da televisão brasileira, o milionário Conrad Mahler (Ziembinski), da novela O Rebu. A novela era exibida no extinto horário das 22 horas da Rede Globo. A personagem não era secundária, era uma das principais da trama. Conrad não trazia trejeitos, tinha um caso velado com o jovem Cauã (Buza Ferraz). Por ciúme, o milionário matou Silvia (Bete Mendes), a namorada do rapaz. Além do caso de Conrad e Cauã, também é revelado um relacionamento entre Glorinha (Isabel Ribeiro) e Roberta (Regina Viana). Pela primeira vez, depois das 22 horas da noite, o homossexualismo foi tratado abertamente em uma telenovela brasileira. Bráulio Pedroso voltaria ao tema em 1978, em O Pulo do Gato, com a personagem Pacheco (Carlos Kroeber), milionário casado com Regina (Lady Francisco), que gostava dos garotões da praia, seduzindo com o dinheiro o aproveitador surfista Billy (Kadu Moliterno). Aqui o relacionamento faz parte de um golpe do protagonista Bubby Mariano (Jorge Dória), que usa o jovem Billy para arrancar dinheiro de Pacheco e da sua “fraqueza”.
Durante toda a década de 70 e 80, época que decorreu a censura às artes no Brasil, os políticos moralistas e defensores dos costumes tradicionais, vetaram várias vezes o tema. Numa ditadura militar, supostamente composta por homens rudes e viris, seguidores fiéis das práticas cristãs da igreja romana medieval, era inconcebível falar abertamente sobre homossexualismo numa telenovela, era fazer uma apologia a qual os militares chamavam de fraqueza e desvio de caráter e moral. Daí vários personagens caricatos, afetados e exagerados transitavam em papéis decorativos pelas novelas, sem um perfil psicológico definido. Foi assim em Pecado Capital (1975), de Janete Clair, em que Rogê (Nestor de Montemar), um afetado costureiro, redime-se no último capítulo e apaixona-se por Djanira (Maria Pompeu), deixando a afetação que o consumira durante a novela. Também o afetado Everaldo (Renato Pedrosa), de Dancin’ Days (1978), de Gilberto Braga, mordomo de Yolanda Pratini (Joana Fomm), vivia para idolatrar a patroa, fazendo da sua afetação um ser assexuado.

Muitos Bonzinhos e Poucos Vilões

Em 1981, na novela Brilhante, Gilberto Braga decidiu enfrentar de vez o tema, trazendo-o finalmente, para o horário nobre da televisão brasileira. Inácio (Denis Carvalho), é o herdeiro de uma rica, conservadora e tradicional família. É homossexual, mas é obrigado a esconder da família a sua opção. A censura proibiu que a palavra “homossexual” fosse dita, dificultando o crescimento psicológico da personagem. Mesmo enfrentando os cortes da censura, Gilberto Braga tentou aprofundar a personagem, fazendo com que Inácio forjasse um casamento com a ambiciosa Leonor (Renata Sorrah). Leonor aceita o casamento por dinheiro, mas apaixona-se por Inácio, que termina a farsa e assume o seu romance com Sérgio (João Paulo Adour). Foi um momento tenso entre a censura, o público e a teledramaturgia brasileira. O tema era abordado abertamente, mas as cenas e a ação eram feitas nas entrelinhas, com uma discrição franciscana, longe do que é abordado nos dias de hoje.
Gilberto Braga voltaria ao tema em Vale Tudo (1988), desta vez abordando o homossexualismo feminino com as personagens Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin), duas mulheres que viviam juntas há muitos anos. Já a ditadura militar tinha acabado, mas a censura continuava moralista. O autor teve que reescrever vários diálogos censurados. Na trama Cecília morria, para alívio do telespectador, que na época sentia-se incomodado com o romance lésbico. Esta morte não foi uma imposição do público ou da censura, e sim do tema que o autor queria abordar: os direitos legais que tinha um casal homossexual diante da morte de um dos parceiros. O tema vinha do escândalo então recente, que envolvera o processo que o fotógrafo Marco Rodrigues movia contra a família do seu companheiro, o artista plástico Jorginho Guinle Filho, com quem vivera 17 anos, e que falecera em 1987, vítima da Aids. No processo, Marco Rodrigues reivindicava a metade dos bens do companheiro, negada pela mãe do falecido. Gilberto Braga soube conduzir o tema com inteligência, sem criar grandes polêmicas. Ironicamente, Gilberto Braga, desbravador do tema na televisão brasileira, criou em Paraíso Tropical (2007) um casal homossexual sem veia dramática e de caráter decorativo: Tiago (Sérgio Abreu) e Rodrigo (Carlos Casagrande), apenas demarcando a temática na sua trama.
Para que o grande público aceitasse a temática das opções sexuais de determinadas personagens, várias condições aos perfis psicológicos foram-lhes impostas. Além de regras padronizadas e intocáveis. Normalmente as personagens homossexuais não podem ser vilãs, têm que ser boas, amigas dos protagonistas e de carisma indelével. Lauro César Muniz fugiu a este padrão, criando o grande vilão homossexual Mário Liberato (Cecil Thiré) de Roda de Fogo (1986). Mário persegue durante toda a trama da novela o protagonista Renato Villar (Tarcísio Meira), por nutrir por ele uma paixão platônica implacável. Cenas de insinuações explícitas entre Mário e o mordomo Jacinto (Cláudio Curi) deram grandes cortes aos censores da época. Lauro César Muniz abordou o tema outras vezes em suas novelas, como em Cidadão Brasileiro, de 2006.
Também Dias Gomes transitou na contramão das regras, criando dois grandes vilões homossexuais em Mandala (1987): Laio (Perry Salles) e Argemiro (Carlos Augusto Strazzer), que viviam um triângulo composto no seu terceiro vértice por Cris (Marcelo Picchi). Laio, um bissexual dividido entre o amor da bela Jocasta (Vera Fischer) e do jovem Cris, saiu diretamente da tragédia grega de Sófocles, Édipo Rei, para as telas da televisão. A conotação homossexual não foi criada por Dias Gomes, mas pelo próprio mito grego de Laio, que na mitologia, enamora-se do príncipe Crisipo, filho do rei Pélope.

Personagens Que Não Agradaram

Silvio de Abreu é um dos autores que abordou o tema várias vezes, mas raramente teve bons resultados com o público, que nunca aceitou complacente as personagens homossexuais do autor. Em A Próxima Vítima (1995), Silvio de Abreu só revelou o caso entre iguais de Jefferson (Lui Mendes) e Sandrinho (André Gonçalves) lá pela metade da novela, quando o público já se acostumara com as personagens. Mesmo assim, uma certa rejeição foi inevitável. Diante da rejeição do público, o ator André Gonçalves chegou a ser agredido e ameaçado de morte por alguns mais radicais.
Silvio de Abreu voltou à temática em Torre de Babel (1998), com as personagens Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), duas empresárias bem-sucedidas que viviam juntas. A rejeição às personagens foi imediata e total, obrigando o autor a matar as duas em uma explosão do shopping. Na sinopse a morte de Rafaela estava prevista, deixando Leila livre para viver um romance com a madura Marta (Glória Menezes), diante da rejeição do público, Leila também morreu e a atriz Silvia Pfeifer voltou à novela como a heterossexual Leda, irmã gêmea da personagem morta.
Em 2001 Silvio de Abreu criou, em tom de comédia, o transexual Ramona (Cláudia Raia), na novela As Filhas da Mãe. Aqui o autor não quis criar polêmicas, Ramona tinha um perfil psicológico superficial e enganava o público com um certo mistério à sua volta, de que ela poderia ser uma mulher a se fazer passar por um transexual. Não houve rejeição do público, mas a novela também não marcou, sendo um grande fracasso, apesar de contar com um elenco de luxo, sendo encurtados os números de capítulos.

Delicadeza do Tema nas Ópticas de Glória Perez e Manoel Carlos

Glória Perez soube tratar sempre com maestria e delicadeza este tema. Criou o carismático e afetado Lulu (Eri Johnson) em Barriga de Aluguel (1990), que teve um bom índice de popularidade. Em Explode Coração (1995) a autora foi mais ousada, trazendo um transexual para o horário nobre: Sarita Vitti (Floriano Peixoto). Glória Perez emprestou uma grande dignidade e generosidade à personagem, criando uma empatia do público com ela, numa das mais bem sucedidas abordagens ao tema em uma telenovela.
Em América (2005), Glória Perez abordou com grande delicadeza a descoberta da homossexualidade por Júnior (Bruno Gagliasso), e a sua paixão pelo peão Zeca (Erom Cordeiro). A aceitação das personagens foi tão grande, que se anunciou, para o último capítulo, o primeiro beijo entre um casal gay na televisão brasileira, gerando grande expectativa, fazendo a novela bater índices de audiência na hora que a cena iria ao ar. A Tv Globo não quis arriscar, cortando a cena do beijo, que tinha sido escrita e gravada, o que causou grande protesto e indignação das comunidades gays.
Manoel Carlos, um dos autores de novelas que mais se utiliza de um elaborado perfil psicológico para desenhar as suas personagens, sempre tratou temas polêmicos com sofisticação, delicadeza e sensibilidade, dando uma veracidade humana às personagens que criou. Foi com seriedade que ele mostrou o casal Virginia (Ângela Vieira) e Rafael (Odilon Wagner) em Por Amor (1997). Na trama ambos viviam um casamento supostamente feliz e sem crises, até que Rafael descobre a sua bissexualidade, e aos poucos, distancia-se da mulher e dos filhos, decidindo por fim, sair de casa para ir viver com um homem mais novo pelo qual se apaixonara.
Em Mulheres Apaixonadas (2003), a temática gira em torno de um casal lésbico de adolescentes, Clara (Aline Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli). A beleza e carisma das atrizes, juntamente com o texto de Manoel Carlos, conquistaram o Brasil. Uma pesquisa feita diante do público, revelou que todos aceitavam o casal, desde que não houvesse cenas de beijos entre elas. No último capítulo da novela, Clara e Rafaela encenam na trama a peça Romeu e Julieta. Manoel Carlos faz com que elas se beijem como as personagens da peça, não da novela.
Em Páginas da Vida (2006), o autor criou Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi), que viviam juntos. Através deles, abordou os problemas de um casal gay, como ter que ir dormir em outra casa quando os pais de um deles decidem visitá-los.

O Homossexualismo Latente das Novelas de Carlos Lombardi

Carlos Lombardi raramente aborda abertamente o tema do homossexualismo em suas tramas, mas é com certeza o autor que mais emana uma atmosfera de uma homossexualidade latente em suas personagens. Os protagonistas do autor são homens machistas, mulherengos, limitados pela força bruta e exploração da sua suposta nudez viril. Nas novelas de Carlos Lombardi os corpos dos atores são explorados capítulo a capítulo, onde aparecem musculosos e sem camisa, quando não estão nus. As mulheres lombardianas veneram o machismo dos homens e se sentem atraídas por aquela brutalidade viril que esconde um homossexualismo latente.
O homossexualismo no universo das telenovelas de Carlos Lombardi torna-se evidente na obsessão que o autor tem pelo amor viril entre irmãos, quase uma paixão camuflada, maior que o herói sente pela heroína da trama. Esta obsessão começou na novela Bebê a Bordo (1988), onde os irmãos Rei (Guilherme Fontes) e Rico (Guilherme Leme), aparentemente têm um amor fraternal que os une, mas que se torna tão profundo, quase que uma conotação sexual, revelando-lhes uma homossexualidade a flor da pele, escondida diante da palavra fraternal. O mesmo filão é explorado pelo autor, à exaustão e cada vez mais obsessivamente nas novelas Viralata (1996), com os irmãos Lênin (Humberto Martins) e Fidel (Marcelo Novaes); Uga Uga (2000), com os irmãos Baldochi (Humberto Martins) e Casimiro (Marcos Pasquim) e, em Pé na Jaca (2006), com os irmãos Lance (Marcos Pasquim) e Tadeu (Rodrigo Lombardi). Carlos Lombardi consegue transpor explicitamente este amor gay camuflado entre irmãos na série O Quinto dos Infernos (2002), em que dom Miguel (Caco Ciocler) tem um amor e atração sexual assumida pelo irmão dom Pedro (Marcos Pasquim). Infelizmente Carlos Lombardi decidiu viver a sua fantasia homossexual incestuosa com personagens da história do Brasil e de Portugal, que nunca tiveram paixão alguma um pelo outro.

A Temática Escrita de Forma Visceral

Outro autor que merece referências por sempre tratar da temática da diversidade sexual é Agnaldo Silva. Se em Tieta (1989) brincou levemente com a personagem bem-humorada de Ninete (Rogéria), foi muito mais profundo em Pedra Sobre Pedra (1992), onde Adamastor (Pedro Paulo Rangel) viveu uma vida inteira dedicada ao amor que sentia por Carlão (Paulo Betti). Carlão nunca assumiu os sentimentos que Adamastor tinha por ele, mas soube como ninguém tirar proveito do amor velado do amigo. No final da novela Adamastor põe Carlão contra a parede, não tendo resposta para os seus sentimentos, decide esquecer o amigo e apaixonar-se por outro.
Em Suave Veneno (1999), o autor criou o divertido e inteligente Uálber (Diogo Vilela), uma espécie de guru que serve de alicerce para várias personagens da trama. Uálber tem como amigo o afetado e engraçado Ediberto (Luiz Carlos Tourinho). Durante toda a trama Uálber nutre uma paixão secreta pelo rude Claudionor (Heitor Martinez), que tem um grande preconceito com os gays. Quando Uálber parece vencer os preconceitos de Claudionor e o final feliz parece eminente, o autor surpreende o público, fazendo com que o guru entregue o rapaz nos braços da fogosa Eliete (Nívea Stelman).
Em Senhora do Destino (2004), Agnaldo Silva trata o tema de amor entre duas mulheres com uma delicadeza digna de um Manoel Carlos, fazendo de Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges), duas personagens queridas pelo grande público. Agnaldo Silva mostra passo a passo o sofrimento de Jenifer ao descobrir a sua homossexualidade, a rejeição, e finalmente, a aceitação. Mostra a luta das personagens para que sejam aceitas pela família e finalmente, a coragem das duas de ir viver juntas e adotarem uma criança.
Se em Senhora do Destino Agnaldo Silva abordou com delicadeza o amor de Eleonora e Jenifer, em Duas Caras (2007) ele volta ao tema de uma forma crua e visceral jamais abordada em uma telenovela. O amor marginal entre Bernardinho (Thiago Mendonça) e Carlão (Lugui Palhares) é contado sem subterfúgios. Carlão deixa claro que é o ativo da relação, bate, explora, humilha e rouba o companheiro, até que se apaixona por ele, rendendo-se a esta paixão e à sua verdadeira essência sexual. Nunca o amor gay foi tão explícito na televisão como o de Bernardinho e Carlão, culminando no primeiro casamento entre iguais da televisão.
Na última década, a presença do homossexual nas telenovelas tornou-se uma constante, quase que obrigatório. Eles estiveram em Roda da Vida (2001), Malhação (2001), Um Anjo Caiu do Céu (2001), Desejos de Mulher (2002), Kubanakan (2003), A Lua me Disse (2005), Caminhos do Coração (2007), Beleza Pura (2008), A Favorita (2008), só para citar exemplos. Se antes a rejeição do público era latente, hoje há uma aceitação consentida. O público acostumou-se em ver as diferenças no pequeno ecrã da televisão, e até a vibrar e torcer pelas personagens. Mesmo assim, ainda há regras que foram fincadas, décadas e décadas do tema sendo mostrado, e até hoje não houve uma cena de beijo entre dois iguais, ou cenas que atestem uma maior intimidade entre os casais homossexuais das tramas. O que mostra que o preconceito está menor, mas que não desapareceu. A teledramaturgia pode focar o amor entre iguais, desde que não ultrapasse as regras da intolerância, delineadas por um jogo de códigos morais e imposições jogado entre o público e as emissoras de televisão.


MANOEL CARLOS, O PAI DAS HELENAS

Outubro 3, 2008

Há pouco mais de trinta anos estreava como autor de telenovelas, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, Manoel Carlos. Ator, adaptador de diversos teleteatros, diretor e escritor de programas humorísticos, variedades e musicais, Manoel Carlos tornou-se novelista aos 45 anos de idade. Começou com a novela “Maria Maria”, na TV Globo, em 1978. Aos poucos, construiu uma carreira sólida e respeitada tanto pela crítica, como pelos atores, diretores e, principalmente, pelo público.
Trazendo uma linguagem centrada no perfil psicológico das personagens, Manoel Carlos é tido como o dramaturgo da alma feminina. Suas mulheres são mais ricas e interessantes do que as suas personagens masculinas. É através das mulheres que o autor imprime a sua mensagem, o universo feminino surpreende diante das emoções. À mulher é permitida a expressão de todos os sentimentos. As telenovelas de Manoel Carlos giram em torno de uma Helena (nome que o autor batiza às suas personagens centrais) e das mulheres à sua volta. Os homens no universo das Helenas são meros coadjuvantes dos caprichos delas, dos seus sonhos, da sua evolução como mulher. Inconfundivelmente um mestre que desvenda a alma feminina, Manoel Carlos é o autor preferido das atrizes, fazer uma Helena é a ambição máxima de qualquer estrela de telenovelas. Conhecer um pouco do universo de Manoel Carlos é mergulhar em uma riqueza de conteúdo cada vez mais raro de ser encontrado nas novelas brasileiras.

A Estréia nas Novelas das 18 Horas

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, nascido em São Paulo, em 1933, passou a maior parte da vida dedicando-se à televisão. Dirigiu, escreveu e produziu programas que fazem parte da história da televisão brasileira, como “Fantástico”, “O Fino da Bossa” e “A Família Trapo”, só para citar alguns exemplos.
Sua carreira como autor de telenovelas começou quando adaptou, em 1978, o romance “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha, escritor que desde o princípio do século estava em completo ostracismo. A partir da obra de Lindolfo Rocha surgiu “Maria Maria”, novela das 18 horas, protagonizada por Nívea Maria e Cláudio Cavalcanti. Ao contrário da teledramaturgia urbana que se tornaria uma característica das novelas de Manoel Carlos, “Maria Maria” era uma novela rural, centrada no sertão e no garimpo brasileiros. Nívea Maria, numa das melhores composições da sua carreira, fazia as gêmeas Maria Alves e Maria Dusá, separadas quando crianças, vendidas pelo pai por um saco de grãos durante a seca que matou de fome muitos nordestinos, em 1860. A novela tornou-se um sucesso, assumindo dimensões e diálogos que faziam lembrar o filme “… E o Vento Levou”. As palavras finais de Maria Dusá eram uma adaptação da personagem de Scarlet O’Hara. Na trilha sonora da novela foi incluída “Romaria”, na voz do seu autor, Renato Teixeira, que serviu para criar belas cenas e consolidar a canção no imaginário da MPB.
Com o sucesso de “Maria Maria”, no ar até junho de 1978, Manoel Carlos teve uma folga de pouco mais de três meses, e a sua segunda novela, “A Sucessora”, estreou em outubro daquele ano. Na época, o horário das novelas das 18 horas na TV Globo era dedicado às adaptações de obras da literatura brasileira. “A Sucessora” não fugia à regra, baseava-se no romance homônimo de Carolina Nabuco. A curiosidade a respeito deste romance, é que ele teria sido plagiado pela escritora britânica Daphné Du Maurier, dando origem ao romance “Rebecca”, que por sua vez foi adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock, em 1940: “Rebecca, a Mulher Inesquecível”. Apesar de conservar os nomes das personagens do livro de Carolina Nabuco, a adaptação da novela é toda feita em cima do romance “Rebecca” e do filme de Hitchcock. O resultado foi uma das melhores novelas do horário das 18 horas da TV Globo. A história de Marina Steen (Suzana Vieira) e a sua luta psicológica para conquistar o marido Roberto Steen (Rubens de Falco), apagando a memória da mulher morta, empolgou o Brasil. “A Sucessora” consolidava o estilo de Manoel Carlos. Marina Steen lutava com uma morta, Alice Steen, personagem que só aparecia na novela através de um imenso quadro na parede. Quanto mais a sucessora da mulher do quadro parecia absurda, mais ela era verdadeira e a única a desafiar o absurdo. Suzana Vieira cita a personagem desta novela como uma das melhores que ela já fez. “A Sucessora” transformou Paulo Figueiredo, que conquistou o Brasil vivendo o carrancudo Miguel, em galã da Globo. Ao viver a governanta Juliana, Nathália Timberg despertou ódio e comoção. Era uma vilã com características humanas, típica da obra de Manoel Carlos. Suspense romântico e psicológico, digno dos filmes de Hitchcock, “A Sucessora” foi uma das mais bem-sucedidas novelas da história da teledramaturgia brasileira.

O Salto Para o Horário Nobre

Depois do sucesso de “A Sucessora”, Manoel Carlos só voltaria a escrever novelas em 1980, quando foi convidado por Gilberto Braga para ajudá-lo a terminar a novela “Água Viva”. Antes Manoel Carlos fez parte da equipe de criação do seriado “Malu Mulher”, para o qual escreveu alguns episódios, acontecendo o primeiro encontro do autor com a atriz que mais interpretaria as suas Helenas, Regina Duarte.
Em 1981 a Rede Globo, que teve Janete Clair no ar no horário nobre por dez anos consecutivos, começava a dar maior fôlego à autora, buscando novos autores para o horário mais importante da emissora. Manoel Carlos estreava uma história totalmente sua em horário nobre: “Baila Comigo”. O nome da novela foi um jogo de marketing da emissora e da sua gravadora Som Livre, para promover o disco de Rita Lee. Recorrendo ao folhetim tradicional, novamente a história dos gêmeos separados ao nascer, desta vez João Victor e Quinzinho (Tony Ramos), filhos gêmeos de Helena (Lílian Lemmertz) e de uma aventura com o seu patrão Quim (Raul Cortez), casado com Marta (Tereza Raquel), que não podia ter filhos. Quim fica com João Victor, criando-o com a mulher, e Quinzinho com Helena, que se casa com Plínio (Fernando Torres). Ao contrário do que se propunha, a história fugia do melodrama, trazendo personagens ricos e de forte presença psicológica. “Baila Comigo” trazia a primeira Helena de Manoel Carlos, trabalho primoroso da saudosa Lílian Lemmertz, que concorreu com esta personagem, a todos os prêmios daquele ano, alcançando na sua estréia na Globo, o apogeu de popularidade da sua carreira. A personagem Helena era para ser vivida pela atriz Fernanda Montenegro, há muitos anos afastada da televisão, mas a produção decidiu escalar Lílian Lemmertz para viver o papel. Diante do imprevisto, Manoel Carlos criou outra personagem para Fernanda Montenegro viver, o da atriz Silvia. Três cenas antológicas de “Baila Comigo” entraram para a história das telenovelas: a de Helena e Plínio, já velhos, indo ao motel, descobrindo as faces do sexo na maturidade; a cena do corno magnífico Mauro (Otávio Augusto), que cansado das traições da mulher Paula (Suzana Vieira), num gesto de vingança suicida, atira um monomotor sobre amante da mulher Caio (Carlos Zara). A cena foi feita ao som da voz de Cauby Peixoto cantando “Loucura”, que se tornaria um grande sucesso nas rádios. E por fim, a cena do encontro dos gêmeos, que valeu a Tony Ramos todos os elogios e reconhecimentos da crítica e do público. “Baila Comigo” foi o maior sucesso da televisão em 1981. Historicamente marcou pelo surgimento da primeira Helena de Manoel Carlos. Pelo encontro do autor com Tony Ramos, que se tornaria por muitos anos, o ator predileto dele. Primeira aparição em novelas do autor da atriz Beatriz Lyra, que se tornaria uma presença obrigatória em quase todas as suas obras; além da atriz Natália do Valle, que passaria a ser uma presença constante na obra de Manoel Carlos.
Após o grande sucesso de “Baila Comigo”, Manoel Carlos escreveria outra história para o horário nobre, “Sol de Verão”, que estreou no final de 1982, obtendo de imediato, um grande sucesso. Desta vez o protagonista de Manoel Carlos não é o galã perfeito das telenovelas, mas um surdo-mudo, Abel (Tony Ramos). A personagem central é Rachel, que marcaria a estréia de Irene Ravache na TV Globo. Rachel quebra os tabus e preconceitos criados em torno do mito da mulher e, de maneira livre e consciente, arrisca a ser feliz. Mulher de classe média alta, ela deixa o marido Virgílio (Cecil Thiré) e o suposto casamento perfeito. Na procura de um sentido para si mesma, ela se envolve com o rude mecânico Heitor (Jardel Filho). O romance de Heitor e Rachel agrada o grande público. Também o de Abel e Clara, aqui uma adolescente Débora Bloch vivendo a sua primeira protagonista. O sucesso imenso da novela foi interrompido por uma tragédia: a morte do ator Jardel Filho, em 19 de fevereiro de 1983. O ator sofreu um ataque cardíaco fulminante, nas gravações dos capítulos que precederam à sua morte, ele se queixava de imensa fadiga, transpirava muito, o que dificultava a maquiagem para esconder esta transpiração. Revoltado e abalado, Manoel Carlos abandonou a novela, dizendo-se impossibilitado de terminá-la. Esta atitude provocou duras críticas, inclusive de Janete Clair, que o acusou de falta de profissionalismo. Com o afastamento de Manoel Carlos e a morte de um dos protagonistas da história, a Globo optou por sumir com a personagem, encurtando a novela. Mais 17 capítulos seriam escritos por Lauro César Muniz, com a colaboração de Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Figueiredo, atores que participavam da trama. O que começara com um grande sucesso, terminara em um fracasso trágico, o público desistiu de “Sol de Verão”. A Globo desistiu de Manoel Carlos, que deixou a emissora, só a ela retornando nos anos 90.

Seriados e Séries na Década de 80

Longe do horário nobre, Manoel Carlos escreveu episódios do seriado “Joana”, uma produção independente do diretor Guga de Oliveira, protagonizada por Regina Duarte. O seriado era quase que um remake de “Malu Mulher”. A primeira temporada foi vendida em 1984, para a TV Manchete, e a segunda para o SBT, em 1985. No seriado o ator que interpretava o ex-marido de Joana era Umberto Magnani. Este ator é ícone na obra de Manoel Carlos, que declararia anos depois, que não escreve uma história sem ter uma personagem para o ator viver.
Ainda em 1984, Manoel Carlos escreveria para a Manchete a minissérie “Viver a Vida”, com inspiração no livro de Theodore Dreiser, “Uma Tragédia Americana”. A história obteve uma boa audiência na emissora. Trazia como protagonistas Paulo Castelli, Louise Cardoso e Claudia Magno.
Manoel Carlos voltaria a escrever novela em 1986, “Novo Amor”, desta vez para a TV Manchete. A novela teve apenas 59 capítulos, tendo como protagonista a atriz Renée de Vielmond, ladeada por Carlos Alberto, Nuno Leal Maia, Nathália Timberg, Esther Góes, Beatriz Lyra, entre outros.
Após um afastamento de três anos, Manoel Carlos escreveria uma minissérie para a TV Bandeirantes, “O Cometa”, em 1989, uma adaptação do romance “Ídolo de Cedro”, de Dirceu Borges. Aqui Manoel Carlos contou com a colaboração do filho Ricardo de Almeida, que viria a falecer anos mais tarde.

A Volta das Helenas

Quase uma década se passou, quando Manoel Carlos voltou a escrever uma telenovela para a TV Globo. Em 1991, baseado em tramas e histórias de Aníbal Machado, escreveu “Felicidade”. Voltava à emissora carioca no horário que começara em 1978, às 18 horas. Nascia a sua segunda Helena, desde então o nome foi dado a todas as suas protagonistas. Vivida por Maitê Proença, Helena é uma mulher bela, que atrai o interesse e o amor dos homens que a ladeiam, mas o seu amor por Álvaro (Tony Ramos), com quem teve uma filha no passado, continua velado, platônico, fazendo com que ela menospreze todos os pretendentes e centralize a sua vida no amor à filha Bia (Tatyane Goulart). A novela trouxe de volta o universo psicológico de Manoel Carlos, mais maduro, mais seguro. Revelou para o país a atriz Vivianne Pasmanter, que estreava na pele da neurótica Débora. Umberto Magnani e Ariclê Perez comoveram o país como os pais de Helena, desde então, Magnani nunca mais saiu de uma trama do autor.
Em 1995 Manoel Carlos criaria um delicioso folhetim, “História de Amor”. Produção delicada, marcava a estréia de Regina Duarte como protagonista de uma novela das 18 horas, e como uma Helena de Manoel Carlos. Na sinopse original Helena disputaria o amor de Carlos (José Mayer) com a filha Joice (Carla Marins), mas devido à leveza do horário de exibição da história, o autor modificou a história. A novela abordava com profundidade e extrema delicadeza a gravidez na adolescência; o câncer de mama, momento antológico vivido por Marta (Bia Nunes); a deficiência física do malgrado atleta Assunção (Nuno Leal Maia). “História de Amor” marcou a última participação em novelas da atriz Yara Cortes, que viveu a carismática Dona Olga, uma senhora de 90 anos, uma personagem sob medida para esta atriz inesquecível. Destaque ainda para os trabalhos de Eva Wilma e Cláudio Corrêa e Castro, que viveram um casal falido que emocionou o Brasil. “História de Amor” trouxe para o universo de Manoel Carlos o ator José Mayer, que se tornaria uma constante em sua obra.
Em 1997 Manoel Carlos voltaria ao horário nobre com a novela “Por Amor”. Desta vez Helena (Regina Duarte) representa o sacrifício máximo que uma mãe faz em prol da filha Eduarda (Gabriela Duarte). Mãe e filha engravidam ao mesmo tempo, dando à luz no mesmo dia. Eduarda tem uma saúde frágil e não poderá mais ser mãe, para piorar as coisas, o filho dela morre horas depois de ter nascido. Para poupar a filha de tão duro sofrimento, Helena troca, às escondidas, as crianças, tomando para si o filho morto, entregando o seu para a filha criar. A novela tocou em várias feridas de temas considerados tabus, como o alcoolismo de Orestes, criação magistral de Paulo José, seu relacionamento com a filha Sandrinha (Cecília Dassi) lembravam um Chaplin vagabundo e carismático. Homossexualismo, preconceito racial, aborto, vários foram os temas polêmicos traçados. A novela teve cenas de sensualidade e torpor com o casal Nando (Eduardo Moscovis) e Milena (Carolina Ferraz) de grande beleza e impacto, que valeu aos atores passaporte para protagonizarem o remake de “Pecado Capital”. O grande destaque foi para a personagem vilã Branca, uma das melhores criações da atriz Suzana Vieira.
Em 2000 “Laços de Família” trazia a quinta Helena de Manoel Carlos, desta vez vivida pela belíssima Vera Fischer. A personagem serviu para reabilitar de forma decisiva, a imagem da atriz, bastante atingida nos anos 90 pela droga e pelo fiasco do fim do seu casamento com o ator Felipe Camargo. O tema da disputa entre mãe e filha pelo amor do mesmo homem é finalmente explorado pelo autor. Camila (Carolina Dieckmann) apaixona-se pelo namorado da mãe, Edu (Reynaldo Gianecchini). Diante do amor da filha, Helena abre mão do namorado. “Laços de Família” registrou mais uma cena que se tornou antológica, Camila, lutando contra uma leucemia, tem o cabelo raspado, a cena comoveu o Brasil, subindo aos picos a audiência da novela. Tony Ramos criou um sofrido e sensível Miguel, ganhando alguns prêmios por esta interpretação. Destaque para a prostituta Capitu, vivida por Giovanna Antonelli. Primeiro trabalho como ator do então modelo Reynaldo Gianecchini. “Laços de Família” abordou com seriedade e delicadeza o tema da impotência masculina, através da personagem Viriato (Zé Victor Castiel). “Laços de Família” marcou a estréia da atriz Juliana Paes, trouxe de volta o ator Flávio Silvino, que sofreu um acidente no início da década de 90, que lhe afetou para sempre a fala e os movimentos, vivendo uma personagem que passou pelo mesmo drama.
Mulheres Apaixonadas”, de 2003, trouxe Christiane Torloni no papel de Helena. A atriz estava escalada para fazer a novela de Antonio Calmon, “O Beijo do Vampiro”, diante do convite de Manoel Carlos, foi liberada, sendo substituída por Claudia Raia. Christiane Torloni tinha interpretado a filha da primeira Helena (Lílian Lemmertz), em 1981. De todas as Helenas criadas até então, esta foi a menos marcante. Uma das características das Helenas de Manoel Carlos sempre foi a maternidade e os sacrifícios que elas faziam em prol dos filhos. Faltou isto à Helena de “Mulheres Apaixonadas”, o que a tornou uma personagem sem objetivos e sem o carisma das anteriores. Pela primeira vez as tramas paralelas foram tão ou mais importantes do que a trama da Helena. Grande destaque para a personagem Heloísa (Giulia Gamm), que mostrou a psicologia de mulheres que não sabem amar, dilaceradas pelo ciúme doentio. Também o drama de Rachel (Helena Ranaldi) e do seu marido Marcos (Dan Stulbach), um homem violento, deixou o telespectador sem fôlego. Nunca a violência contra a mulher foi tão visceralmente retratada como aqui. A cena que Marcos bate em Rachel com uma raquete de tênis foi de grande impacto dramático e visual. Outro drama que causou polêmica foi a dos avós que eram maltratados pela neta. Carmen Silva, então com 84 anos, e Oswaldo Louzada, com 90 anos (ambos falecidos em 2008), emocionaram o país, e a atriz Regiane Alves, intérprete da neta, tornou-se a vilã mais odiada da novela. A novela mesclou ficção e realidade, a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) morria nas ruas do Rio de Janeiro vítima de bala perdida. Aproveitando o drama da personagem, a novela registrou a passeata “Brasil Sem Armas”, feita nas ruas da cidade maravilhosa em um domingo de setembro.
Em 2006 Regina Duarte viveria a sua terceira Helena, em “Páginas da Vida”. Foi a novela em que Manoel Carlos mais tratou de temas específicos, como homossexualismo, Aids, síndrome de Down, traição, sexo, enfim, foram tanto os temas, que a trama passou superficialmente por todos eles. O excesso de personagens prejudicou a evolução psicológica delas, dando a sensação de que a novela ainda não tinha começado, quando já estava no seu final. A própria Helena, que começou a novela em uma cena clássica de Manoel Carlos, traída pelo marido Greg (José Mayer), separava-se após uma grande discussão dramática, que prometia um grande papel, tornou-se decorativa, assim como a maioria das personagens que muito prometiam, como Carmem (Natália do Valle), Olívia (Ana Paula Arósio) ou Tereza (Renata Sorrah). Frustrante foi a tão aguardada volta de Sonia Braga às novelas. Sua personagem Tônia não aconteceu. Estava destinado um caso de amor entre Tônia e o patriarca Tide, personagem de Tarcísio Meira, mas uma virose deixou o ator sem voz, longe da novela por dois meses. O romance de Tônia e Tide só aconteceu na última semana de exibição da novela. Diante de tantas tramas mornas, o grande destaque da novela ficou para o folhetim tradicional, a menina pobre Telma (Grazielli Massafera) que conquista o coração do rapaz rico Jorge (Thiago Lacerda). Destaque também para Marina (Marjorie Estiano) e seu drama com o pai alcoólico (Eduardo Lago). Mas a novela foi de Nanda (Fernanda Vasconcelos) que morre na primeira fase e permanece como fantasma no resto da trama, e da sua mãe Marta (Lília Cabral), a grande e excepcional vilã da novela. “Páginas da Vida” perdeu-se nas propostas das personagens, pecou pelo excesso de tramas, tornando-se uma das novelas menos marcante de Manoel Carlos.
A dramaturgia de Manoel Carlos é voltada para a família, retratada nos bairros da zona sul do Rio de Janeiro, evidencia os seus problemas, a renovação constante dos seus valores, os tabus permanentes criados pela evolução social do ser humano, sempre centrados na figura da mulher. As tramas acontecem no cotidiano, à mesa, no café da manhã, na cozinha da casa, nos quartos, na conversa dos criados. A ação não está concentrada nos atos, mas nas palavras. Fazer uma Helena de Manoel Carlos é a realização máxima de uma atriz, que proporciona sempre grandes momentos vividos nas pequenas telas da televisão brasileira.

OBRAS

Telenovelas:

1978 – Maria Maria –TV Globo
1978/1979 – A Sucessora – TV Globo
1980 – Água Viva (colaborador de Gilberto Braga) – TV Globo
1981 – Baila Comigo – TV Globo
1982/1983 – Sol de Verão – TV Globo
1986 – Novo Amor – TV Manchete
1991/1992 – Felicidade – TV Globo
1995/1996 – História de Amor – TV Globo
1997/1998 – Por Amor – TV Globo
2000/2001 – Laços de Família – TV Globo
2003 – Mulheres Apaixonadas – TV Globo
2006/2007 – Páginas da Vida – TV Globo

Seriados:

1979/1980 – Malu Mulher (co-autor) – TV Globo
1984/1985 – Joana (co-autor) – TV Manchete, SBT

Mini-Séries:

1984 – Viver a Vida – TV Manchete
1989 – O Cometa – TV Bandeirantes
2001 – Presença de Anita – TV Globo

2009 – Maysa – TV Globo

SÉRGIO CARDOSO

Agosto 29, 2008

No dia 18 de agosto de 1972 o Brasil parou, emocionado com a morte súbita do ator Sérgio Cardoso. O país perdia um dos maiores atores do teatro e da televisão do século XX. Se nos dias atuais Paulo Autran (falecido em 2007) e Fernanda Montenegro, são conhecidos como os reis do teatro brasileiro, há quatro décadas, este título pertencia a Sérgio Cardoso e Cacilda Becker, cuja memória perdeu-se no tempo e no pouco registro que se ficou em vídeo dos dois.
Sérgio Cardoso era, ao lado de Tarcísio Meira e Francisco Cuoco, o maior galã da tevê Globo do início dos anos setenta. Aos 47 anos de idade uma parada cardíaca tirou-o definitivamente de cena, quando protagoniza a novela O Primeiro Amor, de Walter Negrão. Sua presença no teatro confunde-se com a história deste em várias décadas do século passado. Porte de galã, talento de gigante, dono de uma imensa popularidade no teatro, era enérgico na interpretação dos seus personagens. Sérgio Cardoso soube direcionar esta popularidade diante das câmaras da televisão, sendo aplaudido como um dos maiores ídolos das telenovelas. Se a sua vida foi marcada pelos holofotes da fama, a sua morte criou uma das lendas urbanas mais difundidas no país, a de que teria sido enterrado vivo. Viva é a obra genial deste ator, para sempre escrita com as luzes da ribalta.

Gigante nos Palcos dos Teatros

Sérgio da Fonseca Mattos Cardoso, nasceu em 23 de março de 1925, em Belém do Pará. Deixou Belém ainda criança, vindo para o sudeste. Tinha planos de ser diplomata, freqüentando o curso de Direito da PUC do Rio de Janeiro. Em 1945, participa da montagem de Romeu e Julieta, do Teatro Universitário (TU), no papel de Teobaldo. Quando concluía o curso, em 1948, inscreveu-se para uma seleção de candidatos ao papel de Hamlet e, entre muitos candidatos, foi escolhido para o papel. No dia 6 de janeiro de 1948, aos 22 anos, estreava nos palcos, iniciando uma das maiores carreiras do teatro brasileiro do século XX. Recém formado em Direito, Sérgio Cardoso optou pelo teatro, deixando na estrada as três semanas que trabalhou como advogado.
Ingressado definitivamente na profissão de ator pelas mãos de Paschoal Carlos Magno, Sérgio Cardoso fundou, ao lado de colegas do seu tempo de teatro amador, o Teatro dos Doze, responsável pela encenação de grandes sucessos nos palcos em 1949, entre eles “Arlequim Servidor de Dois Amos,” de Carlo Goldoni. É ainda neste ano, que estréia no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), nas encenações desta companhia a carreira de Sérgio Cardoso registra grandes marcos, como “Entre Quatro Paredes”, de Jean-Paul Sartre e “O Mentiroso”, também de Carlo Goldoni.
Em 1950 Sérgio Cardoso casou-se com a atriz Nydia Lícia, com quem teria uma filha, Silvia. Mais tarde, ao lado da mulher, deixaria a companhia paulista do TBC, ambos encabeçando o elenco carioca da recém-criada Companhia Dramática Nacional (CDN). Com Nydia Lícia, em 1954, criou a Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso, com um repertório nacional: “Lampião”, de Rachel de Queiroz e “Sinhá Moça Chorou”, de Ernani Fornari. Sérgio Cardoso e Nydia Lícia compram o antigo Cinema Espéria, em São Paulo, que seria a sede da companhia. Para reformá-lo, Sérgio Cardoso aceitou fazer a incipiente televisão, participando também, de montagens avulsas, como “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, sob o comando de Bibi Ferreira, em 1955. Reformado o Espéria, em 1956, é inaugurado como Teatro Bela Vista, atual Teatro Sérgio Cardoso. Para a inauguração, interpreta e encena “Hamlet”, de Shakespeare. Esta interpretação muito elogiada pela crítica, é premiada com o Governador do Estado de São Paulo de 1956. Desde então, sucede-se uma carreira teatral aplaudida e premida, com grandes sucessos como “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, e “Henrique IV”, de Pirandello, que lhe renderia outra premiação de melhor ator, o Saci, em 1957.

O Grande Galã das Telenovelas

Sérgio Cardoso costumava dizer que aceitou fazer telenovelas “a título de experiência”, estreando-se como galã do gênero em 1964, na novela “O Sorriso de Helena”, de Walter George Durst, na extinta tevê Tupi de São Paulo. A novela foi um grande sucesso, a televisão brasileira gerava um dos mais bem-sucedidos de seus galãs. Após o sucesso da estréia, Geraldo Vietri dirigiria-o em outra telenovela, “O Cara Suja”. Logo a seguir, Sérgio Cardoso interpretou uma versão de “O Médico e Monstro”, na novela “O Preço de Uma Vida” (1965), adaptação do texto do cubano Félix Caigner, por Talma de Oliveira e Teixeira Filho. Na novela o ator fazia dois papéis, o doutor Valcourt, um médico totalmente deformado, apaixonado pela paciente Tula (Nívea Maria), e o seu sobrinho Sérgio, belo homem, que surgiu na trama para casar com a heroína da história, com a aprovação do tio.
Em 1966, ele faria, ao lado de Fernanda Montenegro, “Calúnia”, de Talma de Oliveira, considerada pelo ator a pior novela da sua carreira. A novela foi um fracasso. Numa cena mais violenta da novela, Sérgio Cardoso deu um tapa no rosto de Fernanda Montenegro, que de tão verídica, quase que destroncou o pescoço da atriz. Foi ainda naquele ano, que o ator viveria o judeu Samuel Levy, da novela “Somos Todos Irmãos”. A novela chamar-se-ia “A Vingança do Judeu”, e seria escrita por Walter George Durst, mas a sua sinopse não foi aprovada pela Colgate, devido à pressão da comunidade israelita de São Paulo, que a considerou anti-semita. Benedito Ruy Barbosa escreveu a história com outro nome e, através de uma outra perspectiva. O casal protagonista vivido por Sérgio Cardoso e Rosamaria Murtinho teve uma grande aceitação de público, transformando a novela em sucesso de público. Samuel Levy exigiu que o ator usasse umas lentes de contacto azul. Foi considerado por Sérgio Cardoso, o seu melhor personagem em uma telenovela. No final de 1966, a Tupi tentaria repetir o sucesso de “Somos Todos Irmãos”, reuniria Sergio Cardoso e Rosamaria Murtinho outra vez, em outra novela de Benedito Ruy Barbosa: “O Anjo e o Vagabundo”, telenovela que emocionou o público da época.
Em 1968, a tevê Globo convidou Sérgio Cardoso para protagonista de uma das suas novelas: “O Santo Mestiço”, de Glória Magadan. A emissora trouxe Rosamaria Murtinho para contracenar com o ator. Sérgio Cardoso vivia dois irmãos, um padre e um revolucionário, que eram inimigos mortais. Esta participação foi considerada a experiência mais desastrosa da carreira do ator dentro das telenovelas. O dramalhão marcou o início da decadência de Glória Magadan. Decepcionado com a novela, Sérgio Cardoso retornaria à tevê Tupi, para viver um personagem ícone da teledramaturgia: o português da novela “Antônio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão. Esta novela trazia uma linguagem coloquial, que marcava o afastamento do gênero dos dramalhões de época.

Um Ator Branco a Interpretar um Negro

Em 1969, Sérgio Cardoso voltaria a tevê Globo, de onde não mais sairia até a sua morte. Na sua volta à emissora carioca, o ator seria protagonista da novela que gerou a maior polêmica da história da televisão brasileira: “A Cabana do Pai Tomás”, de Hedy Maia, baseada no romance homônimo de Harriet Beecher Stowe. O protagonista da novela era o velho negro Tomás. A emissora, em um momento de preconceito racial que marcaria a nossa televisão, entregou o papel a um ator branco. Sérgio Cardoso, para interpretar o negro Tomás, tinha que pintar o corpo com uma tinta negra, usar peruca e rolhas no nariz. O ator Milton Gonçalves teria sido preterido ao papel, por exigência de uma subsidiária norte-americana da agência publicitária Colgate-Palmolive, patrocinadora das telenovelas à época. Na classe artística, houve muitos movimentos de protesto contra a escolha de um branco para o papel de um negro. Incomodado, Sérgio Cardoso, conhecido por sua famosa falta de habilidade com as palavras, tentaria justificar-se em uma desastrosa declaração, que o faria ser visto como racista: “Tenho vários amigos de cor que são como meus irmãos; tenho afilhados pretinhos que amo como se fossem meus filhos.” Sérgio Cardoso vivia três papéis nesta novela, além do negro Tomás, era Dimitrus, um galã a Clark Gable, e o presidente Lincoln. Dos galãs da época, Sérgio Cardoso era o único que arriscava fazer personagens deformados, para ele pintar o corpo de negro, era mais uma caracterização de uma personagem, não enxergando no fato uma discriminação racial da televisão. A novela resultou em um grande fracasso.
Para apagar a imagem de mal estar, por ter vivido um negro em uma novela, Sérgio Cardoso viveu o carismático feirante Nando, em “Pigmalião 70” (1970), novela de Vicente Sesso, adaptação do musical “My Fair Lady”. O sucesso da dupla Sérgio Cardoso e Tônia Carrero marcou a fase do ator na rede Globo. Fariam juntos mais duas novelas: “A Próxima Atração” (1970) e “O Primeiro Amor” (1972), ambas de Walter Negrão, as últimas telenovelas do ator.

A Morte, no Auge de Uma Carreira

Em 1971 Sérgio Cardoso manifestou o desejo de protagonizar uma novela de Dias Gomes. O autor convidou-o para ser o bicheiro Tucão de “Bandeira Dois”, ao lado de Marília Pêra. Sérgio Cardoso não gostou da personagem, exigindo que Dias Gomes fizesse mudanças, para que a sua imagem de galã não fosse comprometida. Irritado, Dias Gomes disse que só aceitaria o ator se ele fizesse a novela sem imposições. Sérgio Cardoso seria substituído por Paulo Gracindo, que ganhava o seu primeiro protagonista em novelas.
Em 1972, as cores chegaram à televisão brasileira. Para inaugurá-la, a tevê Globo produziu o caso especial “Meu Primeiro Baile”, de Janete Clair. Protagonizado por Glória Menezes, o especial reunia todos os grandes nomes da emissora, entre ele Sérgio Cardoso, que conduzia a personagem da atriz por toda a história. “Meu Primeiro Baile” foi a primeira produção totalmente colorida da televisão brasileira. Foi a única participação de Sérgio Cardoso em uma produção a cores, na televisão.
Dispensado do elenco de “Bandeira Dois”, Sérgio Cardoso protagonizaria, ao lado de Tônia Carrero e Rosamaria Murtinho, aquela que seria a sua última telenovela, “O Primeiro Amor”. No dia 18 de agosto de 1972, já gravados 200 capítulos da novela, faltando apenas 28 capítulos para o final, Sérgio Cardoso morreria de um ataque cardíaco. No final daquele capítulo, que seria o último da sua vida, Luciano (Sérgio Cardoso), após uma discussão, abre a porta da sua casa e diz “Vou-me embora daqui. Não agüento mais!”. Em seqüência a esta cena, a câmera focava sob uma luz, os óculos da personagem sobre a mesa do seu escritório, já sem o seu dono. Aparece todo o elenco da novela. Paulo José (o Shazam da novela) explica o que havia acontecido, faz reverências à trajetória de Sérgio Cardoso, e apresenta o ator Leonardo Villar, amigo do ator falecido, que iria viver o professor Luciano nos últimos capítulos da novela. Todo o elenco aplaude. Esta cena foi um marco na história da teledramaturgia, emocionando todo o Brasil, que se despedia deste grande ator.

Enterrado Vivo?

Mal o país recuperava-se da imensa comoção causada pela morte de Sérgio Cardoso, e uma notícia mórbida, tétrica, não se sabe de onde surgiu, começou a ser veiculada: o ator sofria de catalepsia e, na ausência do seu médico, Max Nunes, teria sido enterrado vivo.
Dizia-se que, quando a família percebeu o logro da morte, desenterrou Sérgio Cardoso, que estava virado de bruços, apresentando arranhões no rosto. Durante anos esta história foi contada, aterrorizando o imaginário popular. Passou a ser uma lenda urbana, causando medo às pessoas, fazendo com que os velórios no Brasil se tornassem mais longos, adiando por mais tempo o enterro de quem morria de ataque cardíaco. Diante desta possível tragédia, em 1980, a tevê Globo fez uma reportagem no “Fantástico”, que desmentia os boatos, com depoimentos da família do ator, que afirmavam categóricos, Sérgio Cardoso jamais tinha sido desenterrado, portanto jamais se constatou que estava de bruços no caixão, ou em qualquer outra posição. Muito menos com arranhões no rosto.
Mais de 35 anos após a morte de Sérgio Cardoso, este ator deve ser lembrado não por ser protagonista de uma lenda urbana, mas de uma das mais brilhantes carreiras do teatro, televisão e cinema do Brasil. Não importava o veículo para o qual Sérgio Cardoso atuava, havia sempre um bom papel para ele, e uma interpretação comovente para o seu público. No Brasil, Sérgio Cardoso esteve lado a lado com Paulo Autran, no olimpo dos deuses do teatro.

TELEVISÃO:

Telenovelas:

1964/1965 – O Sorriso de Helena – Tupi
1965 – O Cara Suja – Tupi
1965/1966 – O Preço de Uma Vida – Tupi
1966 – Calúnia – Tupi
1966 – Somos Todos Irmãos – Tupi
1966/1967 – O Anjo e o Vagabundo – Tupi
1967 – Paixão Proibida – Tupi
1968 – O Santo Mestiço – Globo
1968/1969 – Antônio Maria – Tupi
1969/1970 – A Cabana do Pai Tomás – Globo
1970 – Pigmalião 70 – Globo
1970/1971 – A Próxima Atração – Globo
1972 – O Primeiro Amor – Globo

Especiais:

1961 – Olhai os Lírios do Campo – Tupi
1971 – O Crime do Silêncio – Globo
1972 – Meu Primeiro Baile – Globo
1972 – O Médico e o Monstro

CINEMA

1951 – Ângela
1955 – Três Destinos (inacabado)
1968 – A Madona de Cedro
1970 – Os Herdeiros

TEATRO

Cenografia:

1950 – São Paulo SP – O Inventor de Cavalo
1958 – São Paulo SP – Vestido de Noiva

Direção:

1953 – Rio de Janeiro RJ – Canção Dentro do Pão
1954 – São Paulo SP – Sinhá Moça Chorou
1954 – São Paulo SP – Lampião
1956 – São Paulo SP – Hamlet
1956 – São Paulo SP – A Raposa e as Uvas
1957 – São Paulo SP – O Comício
1957 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1957 – São Paulo SP – Três Anjos Sem Asas
1958 – São Paulo SP – Vestido de Noiva
1958 – São Paulo SP – Uma Cama Para Três
1958 – São Paulo SP – Amor Sem Despedida
1958 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1959 – São Paulo SP – Trio: Antes do Café
1959 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca
1959 – São Paulo SP – Lembranças de Bertha
1959 – São Paulo SP – Sexy
1959 – São Paulo SP – Nu, Com o Violino
1959 – São Paulo SP – O Soldado Tanaka
1959 – São Paulo SP – Huguie
1960 – Rio de Janeiro RJ – Uma Cama Para Três
1960 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1960 – Rio de Janeiro RJ – O Homem de Flor na Boca
1960 – Rio de Janeiro RJ – Sexy
1962 – São Paulo SP – Sonho de Uma Noite de Verão
1962 – São Paulo SP – Calígula
1964 – São Paulo SP – O Resto é Silêncio
1965 – Rio de Janeiro RJ – Vestido de Noiva

Direção (assistente):

1950 – São Paulo SP – O Anjo de Pedra
1950 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca

Interpretação:

1945 – Rio de Janeiro RJ – Romeu e Julieta
1948 – Rio de Janeiro RJ – Hamlet
1948 – Rio de Janeiro RJ – A Família e a Festa na Roça
1948 – São Paulo SP – Hamlet
1949 – Rio de Janeiro RJ – Arlequim Servidor de Dois Amos
1949 – São Paulo SP – O Mentiroso
1949 – Rio de Janeiro RJ – A Tragédia de Hamlet
1949 – Rio de Janeiro RJ – Tragédia em New York
1949 – Rio de Janeiro RJ – Simbita e o Dragão
1949 – Rio de Janeiro RJ – Calígula
1950 – São Paulo SP – A Ronda dos Malandros
1950 – São Paulo SP – Os Filhos de Eduardo
1950 – São Paulo SP – Do Mundo Nada Se Leva
1950 – São Paulo SP – A Importância de Ser Prudente
1950 – São Paulo SP – O Anjo de Pedra
1950 – São Paulo SP – O Inventor de Cavalo
1950 – São Paulo SP – Entre Quatro Paredes
1950 – São Paulo SP – O Homem da Flor na Boca
1950 – São Paulo SP – Um Pedido de Casamento
1951 – São Paulo SP – Ralé
1951 – São Paulo SP – Convite ao Baile
1951 – São Paulo SP – Arsênico e Alfazema
1951 – São Paulo SP – Seis Personagens à Procura de um Autor
1952 – São Paulo SP – Antígone
1952 – São Paulo SP – Inimigos Íntimos
1952 – São Paulo SP – Diálogo de Surdos
1952 – São Paulo SP – O Mentiroso
1952 – São Paulo SP – Vá com Deus
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Falecida
1953 – Rio de Janeiro RJ – Canção Dentro do Pão
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Ceia dos Cardeais
1953 – São Paulo SP – Improviso
1954 – São Paulo SP – Leonor de Mendonça
1954 – Rio de Janeiro RJ – Lampião
1954 – São Paulo SP – Sinhá Moça Chorou
1954 – São Paulo SP – A Filha de Iório
1954 – São Paulo SP- Lampião
1954 – São Paulo SP – Hécuba
1955 – Rio de Janeiro RJ – A Ceia dos Cardeais
1956 – São Paulo SP – Hamlet
1956 – São Paulo SP – Quando as Paredes Falam
1956 – São Paulo SP – A Raposa e as Uvas
1957 – São Paulo SP – O Comício
1957 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1957 – São Paulo SP – Henrique IV
1957 – São Paulo SP – Três Anjos Sem Asas
1958 – São Paulo SP – Uma Cama Para Três
1958 – São Paulo SP – Amor Sem Despedida
1958 – São Paulo SP – O Casamento Suspeitoso
1959 – São Paulo SP – Trio: Antes do Café
1959 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca
1959 – São Paulo SP – Lembranças de Bertha
1959 – São Paulo SP – Sexy
1959 – São Paulo SP – Nu, Com o Violino
1959 – São Paulo SP – O Soldado Tanaka
1959 – São Paulo SP – Huguie
1960 – Rio de Janeiro RJ – Uma Cama Para Três
1960 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1960 – Rio de Janeiro RJ – O Homem de Flor na Boca
1961 – Salvador BA – Calígula
1962 – São Paulo SP – Terceira Pessoa do Singular
1962 – São Paulo SP – A Visita da Velha Senhora
1962 – São Paulo SP – Sonho de Uma Noite de Verão
1962 – São Paulo SP – Calígula
1964 – São Paulo SP – Gog e Magog
1964 – São Paulo SP – O Resto é Silêncio

Roteiro:

1980 – São Paulo SP – Sérgio Cardoso em Prosa e Verso


A CENSURA DO GOVERNO MILITAR E AS NOVELAS DA GLOBO

Julho 10, 2008


A prática de censura às artes, à literatura e às comunicações, é uma conseqüência dos governos repressivos, que usam dos veículos de comunicação para a divulgação de uma poderosa propaganda de estado, vetando aqueles que se lhe opõem. A Alemanha nazista foi quem mais soube usar dos veículos de comunicação, passando para o povo germânico e para o mundo a utopia de um estado totalitário. Não foi diferente no Brasil na época da ditadura militar, que durou de1964 a 1985. Durante duas décadas, a censura impôs o seu conceito de estado, moral e civismo em prol do regime dos presidentes vindos da caserna. Este período foi dividido em dois, o primeiro, de 1964 a 1968, considerado mais brando, que ocasionou um erro histórico das lideranças políticas da época, que viam 1968 como o ano em que a ditadura estava enfraquecida e pronta para ser derrubada, erro que terminou na promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), de 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso, cassou mandatos, negando hábeas corpus aos presos políticos. O regime militar entrou na sua segunda fase, com um endurecimento maior. Após o AI-5, a liberdade de expressão passou a ser vigiada, todos os veículos de comunicação (imprensa, música, televisão, teatro, cinema) deveriam ter as suas pautas previamente aprovadas, sujeitas à inspeção local por agentes autorizados.
A imagem que o autoritarismo do regime militar no Brasil queria passar era a de um governo estável politicamente, de uma nação regida por uma rígida moral cristã e de bons costumes, de um país próspero e em pleno ápice do desenvolvimento. Qualquer menção à tortura, à perseguição política ou à falta de liberdade de pensamentos, era proibida, omitida diante de uma nação que, na maioria das vezes, sua população não sabia o que estava a acontecer nos calabouços da ditadura, ou, no jogo de poder que assolava a nação.

Jornais, Revistas, Músicas… Censura Geral

A censura à imprensa gerou diferentes reações. Jornais e revistas quando tinham suas matérias censuradas, deixavam longos espaços em branco, publicavam receitas culinárias indecifráveis, ou recorriam à poesia de Camões no lugar das matérias vetadas.
A MPB teve várias canções censuradas, com “Cálice” (Chico Buarque – Gilberto Gil), “Apesar de Você” (Chico Buarque) ou “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” (Geraldo Vandré). Capas de discos foram censuradas, como a do álbum “Índia”, de Gal Costa, de 1973, em que a cantora trazia um close frontal em uma vestida de uma tanga minúscula. A censura ao corpo do cantor Ney Matogrosso, que na época fazia parte da banda “Secos & Molhados” (1973), apresentando-se sem camisa. Como conseqüência, a televisão só podia focalizar o seu rosto, ou o corpo ao longe, sem closes.
O cinema foi um dos veículos de comunicação mais prejudicado pela censura da ditadura militar. Filmes como “Emmanuelle” (1974), com Sylvia Kristel, “O Último Tango Em Paris” (1972), com Marlon Brando, só foram exibidos em 1980, quando a ditadura militar proporcionou uma abertura e liberou certas obras censuradas. Mas o filme “Pra Frente Brasil”, de 1982, que falava da tortura no regime militar, não escapou à tesoura da censura.
A censura não poupou a telenovela, que se tornou o principal produto de consumo do telespectador brasileiro. Autores como Dias Gomes, Janete Clair, Lauro César Muniz e Mário Prata, tiveram seus textos destruídos pelos censores, que se encarregavam de verificar se o que se ia ao ar estava de acordo com as regras do regime militar e com os seus valores morais.

Capítulos e Novelas Censuradas

A telenovela diária, como forma de entretenimento da televisão brasileira no formato que se tem hoje, surgiu em 1963, com 2-5499 Ocupado, tendo como protagonistas Tarcísio Meira e Glória Menezes. Na primeira fase da ditadura militar (1964-1968), as telenovelas não tinham grande poder de formação de opinião junto ao público, o que fez com que os censores só olhassem para elas a partir de 1970. Naquele ano, o sucesso de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, pôs o hábito no brasileiro de ver telenovela no horário nobre, tradição que perdura até os dias atuais. A paixão tão bem correspondida entre o brasileiro e as telenovelas, fez com que as mais estranhas formas de censura caíssem sobre os textos dos autores até o fim da ditadura militar.
A primeira telenovela de Dias Gomes foi “A Ponte dos Suspiros” (1969), feita pela Rede Globo. Era um dramalhão que se passava em Veneza. O dramaturgo, temendo represálias devido à sua militância política declaradamente de esquerda, assinou esta novela com o pseudônimo de Stela Calderón. Dias Gomes tinha a supervisão do seu texto feita pela poderosa Glória Magadan. Com a demissão de Glória Magadan pela Globo, o autor mudou radicalmente o texto, passando a debater temas políticos. Com a mudança no conteúdo, a censura paulista obrigou a novela a ser transmitida às 22 horas, inaugurando assim, um novo horário na emissora que perduraria até 1979. Na novela “Bandeira 2” (1971/72), o protagonista era o bicheiro Tucão (Paulo Gracindo), que teve grande aceitação popular. A censura exigiu que ele fosse morto no fim da trama, para moralizar a história. A censura atingiria a próxima novela de Dias Gomes, a mítica “O Bem-Amado” (1973). A música tema da abertura da novela, “Paiol de Pólvora” (Vinícius de Moraes – Toquinho), foi censurada por causa do verso “Estamos sentados em um paiol de pólvora”, sendo substituída por “O Bem-Amado” (Vinícius de Moraes – Toquinho), tocada pelo Coral Som Livre. Ainda nesta novela, foi proibido que Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) fosse chamado de “coronel” e Zeca Diabo de “capitão”, o que obrigou a emissora carioca a apagar o áudio em mais de 15 capítulos já gravados em que apareciam as palavras. “Ódio” e “vingança” foram outras palavras proibidas pela censura de serem pronunciadas na novela. O maior golpe que sofreu Dias Gomes foi a censura completa da novela “Roque Santeiro”, em 1975. Já com 36 capítulos gravados e editados, prontos a estrear, a Delegacia de Ordem Pública e Social (DOPS), descobriu que o dramaturgo estava a adaptar o texto teatral “O Berço do Herói”, de sua autoria, que fora escrito e proibido em 1963. A história de Sinhozinho Malta (Lima Duarte), viúva Porcina (Betty Faria) e Roque (Francisco Cuoco) nunca foi ao ar, sendo substituída por uma reprise compacta de “Selva de Pedra”. A novela só seria liberada dez anos depois, em 1985, trazendo o mesmo Lima Duarte no papel de Sinhozinho Malta, mas com Regina Duarte (Porcina) e José Wilker (Roque) como protagonistas. A novela tornar-se-ia um dos maiores sucessos da televisão brasileira.
Durante a ditadura militar e a sua rígida censura, Janete Clair foi a autora de telenovelas que mais produziu grandes sucessos, sendo a que teve mais textos vetados pela censura. “O Homem Que Deve Morrer” (1971), sugeria de forma alegórica, uma adaptação da vida de Cristo. Ciro Valdez (Tarcísio Meira), nascia de uma mulher virgem do interior do Brasil. Dois dias antes da estréia, o tema foi considerado impróprio, os dez primeiros capítulos foram totalmente vetados pela censura. Diante do impasse, Janete Clair baseou a sua novela em “Eram os Deuses Astronautas”, de Erich von Daniken, e o protagonista passou a ser filho não do espírito santo, mas de um ET. Janete Clair voltaria a sofrer com a censura na sua novela seguinte, “Selva de Pedra” (1972). Na novela, o casamento entre Cristiano (Francisco Cuoco) e Fernanda (Dina Sfat) não se realizou porque a censura considerava a união um estímulo à bigamia. Cristiano acreditava que a sua mulher Simone (Regina Duarte), tinha morrido em um acidente, mas a censura não permitiu a cerimônia, alegando que o público sabia que o casamento era bigamia. Janete Clair fez com que Fernanda fosse abandonada no altar e, inutilizou 22 capítulos já escritos, que seriam exibidos logo após o casamento das personagens. Em 1973, a autora teve a novela “Cidade Vazia” vetada pela censura, sendo obrigada a improvisar com “O Semideus”. Após o término de “O Semideus”, “Cidade Vazia” foi liberada com o nome de “Fogo Sobre Terra” (1974). A novela narrava a história da cidade fictícia de Divinéia, que seria inundada por uma hidrelétrica. A novela sofreu grandes problemas com a censura por causa do protagonista Pedro Azulão (Juca de Oliveira), que liderava o povo contra a construção da hidrelétrica. Pedro Azulão foi obrigado a mudar a sua convicção ideológica. Na trama, a autora pensava em matar a personagem no final, mas a censura não deixou, para que não se transformasse em mártir, e, de quebra fez com que a personagem se retratasse. Esta novela teve vários capítulos mutilados pela censura, fazendo a coerência do texto desaparecer por completo. De uma só vez, a autora rasgou 12 capítulos censurados. Mais tarde, Janete Clair declararia que “Fogo Sobre Terra”, tinha sido a sua novela mais prejudicada pela censura. A autora voltaria a sofrer retaliações com “Duas Vidas” (1977), cuja temática mostrava a desapropriação de residências pelas obras da construção do metrô do Rio de Janeiro. Como o metrô era uma obra do governo federal, não podia ser criticado pela televisão. Nenhuma personagem podia reclamar sequer da poeira feita pelas obras. Uma cena entre as personagens Valdo (Luís Gustavo) e Naná (Arlete Salles), que sugeria uma discussão violenta, foi inteiramente cortada, o telespectador ficava sem perceber se Valdo tinha matado ou espancado Naná.
A ditadura dos generais era moralista, pois era sustentada por uma burguesia conservadora e rígida, composta por senhoras de família que saíram às ruas em 1964, com rosários nas mãos, a apoiar o golpe militar. Nas novelas da época, um homem casado não se poderia apaixonar por outra mulher, ter amantes, muito menos trocar um beijo e carinhos com ela. Na novela “Sem Lenço, Sem Documento” (1977), de Mário Prata, Marco (Ney Latorraca) era casado com Iara (Cidinha Milan), nutria uma paixão velada por Carla (Bruna Lombardi), por este motivo, a censura obrigou o autor a matar Iara, fazendo de Marco um viúvo disponível para viver o seu amor por Carla.
Escalada” (1975), o maior sucesso de Lauro César Muniz, contava a história da construção de Brasília, mas o protagonista Antônio Dias (Tarcísio Meira), e as outras personagens da trama, eram proibidas de falar no nome de Juscelino Kubtschek, o presidente que havia construído a capital federal, e, que fora exilado pelo regime militar. Lauro César Muniz voltaria a sofrer com a censura em 1977, na novela “Espelho Mágico”, as personagens Nora (Yoná Magalhães) e Jordão (Juca de Oliveira) viviam um casamento desgastado, marcado por cenas de fortes discussões, que foram cortadas e excluídas, não indo ao ar pela censura achar que serviam de incentivo à separação dos casais. O mais curioso é que esta novela foi ao ar no momento histórico da aprovação da lei do Divórcio no Brasil, promulgada naquele ano, lei que criou um mal-estar entre a burguesia e a igreja conservadoras, os maiores aliados dos militares.
Às vezes a censura comportava-se de forma que não se percebia, como no caso da novela “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, que tinha como tema a escravidão, mas que não se podia usar a palavra “escravo”. Esta palavra tinha que ser substituída por “peça”. Na novela “O Bofe” (1972), de Bráulio Pedroso, Inocêncio (Paulo Gonçalves) era um vigarista que se passava por padre para dar um golpe, quando os censores perceberam o ardil, obrigaram o autor a manter a personagem como padre e ser punido no fim da trama.
Um ano após a proibição de “Roque Santeiro”, a Rede Globo sofreria mais um golpe, “Despedida de Casado”, de Walter George Durst, programada para substituir “Saramandaia”, foi proibida pela censura. O projeto de lei que instituiria o divórcio no Brasil estava no auge do seu debate, e a lei seria promulgada seis meses depois da estréia dessa novela, mesmo assim, a censura continuava conservadora, não permitindo que o tema, as crises conjugais do casal Stela (Regina Duarte) e Rafael (Antônio Fagundes) após dez anos de casados, fosse abordado pela televisão. Os 30 primeiros capítulos tinham sido aprovados pela censura, depois de gravados e editados, não agradaram aos censores e a novela foi definitivamente vetada. A solução foi Walter George Durst escrever outra história e aproveitar o elenco de “Despedida de Casado”. “Nina” foi a novela escrita para substituir a malograda história. Ao contrário de “Roque Santeiro”, que foi retomada dez anos depois, “Despedida de Casado” foi definitivamente esquecida, pois teve a sua temática datada após a lei do divórcio.
Já feita a anistia política e retomada a abertura, no finzinho do regime militar, a mini-série “Bandidos da Falange” (1982), de Aguinaldo Silva, foi censurada, só liberada cinco meses depois, após sofrer grandes cortes, vindo a ser exibida em 1983.
Não só de cunho político, como também de vertente moralista e defensora dos costumes da época, a censura que perdurou enquanto do regime militar, provocou o decepamento de centenas de capítulos das novelas, culminando com o veto total de duas delas, “Roque Santeiro” (1975) e “Despedida de Casado” (1976), ambas da Rede Globo.