HOMERO – A GRANDE EPOPÉIA UNIVERSAL

Novembro 29, 2009

Homero é o mais antigo poeta grego, sendo as suas obras, “Ilíada” e “Odisséia”, a maior descrição da mitologia e dos seus deuses. Considerado o poeta mais antigo do mundo ocidental, Homero tem a sua biografia repleta de dúvidas, fatos obscuros, inclusive o de que poderia nunca ter existido. Não se sabe data e local do seu nascimento, sendo o século VII a.C. a mais provável.
As epopéias “Ilíada” e “Odisséia”, que relatam com beleza singular e grandiosidade heróica a Guerra de Tróia, teriam surgido no século VII a.C., e são atribuídas a Homero, um rapsodo cego e nômade, que através das tradições orais passadas de geração em geração, teria construído tão importante obra literária.
A vida historicamente obscura de Homero, suscitou várias versões ao longo dos tempos. Várias cidades gregas, como Esmirna, Atenas, Rodes, Ítaca e Argos, reclamam para si o local de nascimento do poeta. Sem documentos que comprovem a sua existência, estudiosos da sua obra, na tentativa de esclarecerem as suas origens, compuseram a famosa “Questão Homérica”.
Na tradição mais constante, Homero era filho de Creteidas, jovem que fora seduzida e em seguida, teria engravidado. De vida voltada às artes, participava das festas dionisíacas, onde recitava poemas aos deuses. Na juventude, era chamado de Melesígenes. Após uma enfermidade que lhe tirou a visão, passou a ser chamado de Homero, que significava “aquele que não vê”. Cego, ele andava de cidade em cidade, recitando em pé, no meio da multidão, os seus poemas.
Se existiu ou não, os épicos “Ilíada” e “Odisséia” , são obras de rara beleza, que se tornaram conhecidas em todo o ocidente, influenciando a cerca de vinte e cinco séculos, os maiores escritores ocidentais, entre eles Virgílio, Luís de Camões e James Joyce. As obras contribuíram até mesmo para que se comprovasse fatores históricos, como a existência de Tróia. Baseados nos relatos de Homero, arqueólogos do século XIX encontraram várias Tróias em suas escavações. A universalidade das obras faz delas ilimitadas diante do tempo e do espaço. Sem registros de uma Grécia perdida nas suas crenças e tradições pré-arcaicas, a “Ilíada” e a “Odisséia” compilam a origem dos deuses olímpicos e de como eram cultuados pelos helenos. Pela riqueza dos detalhes descritos, tornam-se as maiores fontes existentes da mitologia grega, e, faz de Homero, o maior escritor da antiguidade, e um dos maiores do mundo.

A Grécia de Homero

Para que se perceba a vida existente ou não de Homero, é preciso que se tenha um pouco de noção da história da própria Grécia. Entre os séculos XV a.C. e X a.C., deu-se o que se chamou de período pré-homérico ou micênico. Foi quando os primeiros povos indo-europeus, chamados de aqueus, chegaram à Grécia, onde fundaram diversas cidades que atingiriam grande prosperidade. Entre elas Micenas, Tirinto e Pilo.
No encontro dos habitantes de Micenas com os da ilha de Creta, originou-se uma importante civilização cultural antiga, a creto-micênica. No decorrer dos séculos, outros povos chegaram às terras gregas, como os jônios e os cólios, sendo fundada a cidade de Atenas.
Quando da invasão dos dórios, que fundaram a cidade de Esparta, a civilização creto-micênica foi totalmente destruída, pondo fim ao período micênico. Nesse momento histórico, eclodiu a famosa Guerra de Tróia, que teria durado dez anos e culminado com a destruição da cidade pelos gregos. A Guerra de Tróia, tornou-se lendária, sendo oralmente contada pelas gerações gregas. Seria o tema principal das epopéias “Ilíada” e “Odisséia”.
Com o fim do período micênico, surgiria o chamado período homérico ou arcaico, entre os séculos IX-VI a.C. Seria marcado pelo início da colonização grega aos dois lados do Mar Egeu, Mediterrâneo e Mar Negro; dada a expansão do comércio marítimo; o desenvolvimento das cidades Estados; e, a adoção do alfabeto fenício, introduzindo a escrita na Grécia.
O ano de 850 a.C., é tido como a data mais provável do nascimento de Homero. Muitas são as versões sobre a vida do poeta, sendo questionada inclusive a sua existência, por falta de comprovação de documentos históricos. O historiador grego Heródoto (século V. a.C.), fixou a data do nascimento do poeta quatrocentos anos antes da sua, entre os séculos IX e VIII a.C. O local teria sido algum lugar da Jônia, antigas terras gregas na costa ocidental da Anatólia. Mas outras cidades gregas reivindicam para si o local do nascimento de Homero, entre elas Atenas, Quios, Esmirna, Ítaca, Rodes, Argos e Pilos.
Uma das versões da vida de Homero afirma que ele é natural de Quios ou Esmirna. Era um homem de origem humilde e plebéia, que viajou por todos os cantos da Grécia antiga, anotando nomes e costumes dos lugares, adquirindo grande sapiência sobre a cultura da sua gente. Por onde passava, recebia hospedagem, pela qual pagava recitando poemas. Em uma das suas viagens, quando retornava da Ítaca para Esmirna, foi acometido por uma doença nos olhos, que o teria levado à cegueira. Desde então, o nome Homero, “aquele que não vê”, teria sido dado a ele.
Várias são as versões da sua morte, a mais difundida é a de que teria ocorrido em uma das ilhas Cíclades. Segundo Heródoto, teria morrido em Íos, durante uma viagem para Atenas.

Hino Homérico a Ártemis – Homero

Eu canto Ártemis das flechas de
ouro, de marcha retumbante,
casta donzela, audaz caçadora,
irmã de Apolo do gládio de ouro,
que caminha pelas sombras
dos bosques e pelas rochas
imponentes, lançando no ardor
da caça setas que fazem gemer
os ares. Os cumes das altas
montanhas tremem e os bosques
ressoam com a voz das feras que
ela persegue. A terra e o mar
piscoso tremem quando, presente
em vinte lugares, a deusa se
lança, intrépida, nessa marcha
exterminadora. Quando está
saciada e o coração acalmado
consente em descansar, deixa o
arco tenso e visita seu irmão
Apolo na rica morada de seu
santuário em Delfos. Ali preside
o coro das Musas e das Graças,
deixando de lado flechas e arco.
Cobrindo com vestes de grande
beleza sua carne imortal,
coloca-se à frente do coro e
conduz a dança, enquanto essas
deusas de belas vozes cantam,
louvando suavemente Leto e sua
história , como ela deu à luz
dois filhos, os primeiros deuses
tanto no conselho como na
ação!

A Questão Homérica

A inexistência de comprovação histórica de Homero, as várias versões sobre a sua vida, as lendas ao seu redor, suscitaram grandes dúvidas, chamadas de “Questões Homéricas”, que apesar de exaustivamente estudadas e debatidas, até hoje não foram respondidas.
Muitos defendem a versão de que Homero não seria o autor da “Ilíada” e da “Odisséia”, mas um compilador, que reuniu vários poemas anônimos, pequenas canções populares, transmitidas oralmente, e que ele transformou em uma unidade literária.
Outra corrente da “Questão Homérica”, sustenta a versão de que Homero seja um nome coletivo, e que as suas epopéias teriam sido escritas por dois ou mais poetas. Um deles teria criado o núcleo primordial dos poemas, tendo sido desenvolvidos por outro (s), o que explicaria as variações de estilos entre a “Ilíada” e a “Odisséia”, acusada por muitos estudiosos.
Há a corrente que admite uma homogeneidade nas obras, pela sua temática, estilo épico, descrição dos deuses e dos costumes helênicos, e que teriam sido escritas em períodos diferentes, a “Ilíada” na juventude plena de Homero, e a “Odisséia”, já no crepúsculo da sua velhice, o que explicaria uma evolução na escrita de uma obra para a outra.
A corrente que nega a existência de Homero questiona como uma só pessoa poderia ter escrito as obras, visto que na época atribuída ao nascimento e vida do poeta, não haveria escrita na Grécia. Estudos arqueológicos apontam para o ano de 750 a.C. o fim das trevas e a adoção da escrita pelos helenos, cem anos depois do nascimento de Homero. Os documentos literários mais antigos encontrados na Grécia datam do século IV a.C., significando que antes, os poemas de Homero só eram conhecidos oralmente, sendo recitados nas grandes festas e manifestações do povo grego. Sem a escrita, dificilmente as epopéias homéricas poderiam ter sido elaborados no período que se atribuí à existência do poeta.

Prece a Ares – Homero

Ares audacioso, Ares sob o qual se dobra teu
carro, Ares do capacete de ouro, Ares do coração
indomável, Ares do escudo, Ares salvador das
cidades, Ares encouraçado de bronze, Ares da
mão poderosa, Ares infatigável, Ares da forte lança,
Ares muralha do Olimpo, Ares pai da vitória,
Ares auxiliar de Têmis, Ares que subjugas os
rebeldes e comandas os justos na paz, ó príncipe
do valor guerreiro, cujo globo refulgente gira
entre os sete astros que cumprem sua trajetória
sobre nossas cabeças, cuja órbita, percorrida por
teus cavalos de fogo, ocupa o terceiro lugar no céu,
escuta, ó socorro dos mortais de quem a juventude
obtém a bravura como dom, lá do alto ilumina com
pacífico fulgor o curso de minha existência. Que um
favor digno de Ares, preservando-me da covardia,
não deixe também de reprimir em minha alma
a impetuosidade que a faz perder-se e de conter
a paixão que me leva às contendas cruéis
das batalhas. Dá-me, bem-aventurado olímpico,
ao mesmo tempo que a coragem, a graça de viver
em paz na segurança das leis, e de escapar
aos assaltos dos maus e aos estímulos da violência.

As Obras de Homero

Mesmo diante de tantas questões, contradições e dúvidas históricas sobre Homero, as obras atribuídas a ele tornaram-se referência na literatura ocidental, sendo lidas, apreciadas e estudadas em todo o mundo; influenciando por mais de dois mil e quinhentos anos, vários autores e poetas.
A “Ilíada” relata o cerco de Tróia pelos gregos, a extensão da guerra, culminando com a destruição completa da cidade e a vitória helênica. A epopéia é centrada em Aquiles, o maior guerreiro da saga, sua cólera contra Agamenão, comandante do exército grego e a recusa em continuar a lutar; a dor do herói diante da morte do amigo Pátroclo, que sucumbiu sob a espada de Heitor, o mais valente dos heróis troianos; sua fúria e vingança contra o príncipe de Tróia, resultando em um sangrento combate mortal entre os dois. O ápice dá-se quando Aquiles exibe, como um troféu, o corpo de Heitor para os troianos. Príamo, pai do herói malogrado e rei de Tróia, vai até Aquiles e implora que lhe devolva o corpo do filho, para que possa prestar-lhe as honras funerárias, libertando a sua alma. No meio da guerra, o ódio dos homens confunde-se com os dos deuses. A guerra não é gerada somente pelos gregos, mas por seus deuses, criando uma divisão em todo o Olimpo.
A “Odisséia” exalta o herói grego Odisseu (Ulisses). Na Guerra de Tróia, ele representou não a força, mas o lado logístico e intelectual que sustentava a fúria dos guerreiros em combate. Foi de Odisseu a idéia e execução do plano do cavalo de pau, que presenteado aos troianos, abrigava no ventre oco de madeira, guerreiros gregos, que no fim da noite, quando todos dormiam, invadiram a cidade inimiga, abrindo as portas das suas muralhas, proporcionando o ataque final, destruindo Tróia e dando a vitória aos gregos. Na “Odisséia”, a astúcia do herói atrai para si a ira dos deuses que se puseram do lado dos troianos. Odisseu sonha em voltar para a sua terra, a Ítaca, encontrar a mulher amada, a bela Penélope, e o filho Telêmaco. No retorno, o seu navio será jogado por ventos furiosos enviados pelos deuses, no meio de mares desconhecidos, fazendo com que erre perdido por vinte anos. Mais complexa do que a “Ilíada”, a “Odisséia” reflete a inteligência grega diante da sua expansão. A dimensão das personagens ultrapassa a dos deuses, fazendo-a humana, distante do heroísmo latente da primeira obra.
Além da “Ilíada” e da “Odisséia”, outras obras são atribuídas ao poeta grego: os “Hinos Homéricos”, uma coleção de 34 hinos; o poema “Margites”; e, a paródia épica “Batracomaquia”. Novamente as contradições sobre Homero, fazem com que algumas correntes duvidem de que as obras foram escritas por ele.
As obras de Homero trazem a tona o período mais remoto da civilização helênica. A Guerra de Tróia demarca o fim do período micênico. Os poemas homéricos tornaram-se parte da história antiga grega, sendo popularizados durante toda a antiguidade. Platão (428?427? – 348?347? a.C.) classificou Homero como “o educador da Grécia”. Sua poesia, na falta de um livro sagrado, serviu para os gregos antigos cultivarem a sua religião e conhecessem os seus deuses. Universalmente, a sua obra exibe o mais antigo dos poetas ocidentais, e a essência das raízes literárias. Homero é o pai da poesia. As contradições sobre a sua existência contribuem para a mítica que se delineou em torno da obra que lhe foi atribuída. Suas epopéias são as mais belas de toda a antiguidade. E as mais definitivas.

Hino às Musas e a Apolo – Homero


Apolo, Zeus, pois é das
Musas que procedem, aqui,
na terra, os cantos e os
concertos da lira, assim
como de Zeus procedem
os reis. Bem-aventurado
aquele que ama as Musas:
de sua boca esparge-se,
pela voz, a doçura.
Salve, filhos de Zeus,
honrai o meu canto. Entre
os outros hinos,
dedicarei um a vós.


PAUL GÉRALDY – POESIA ÍNTIMA E EMOTIVA

Outubro 5, 2009

Paul Géraldy, pseudônimo de Paul Lefèvre, nasceu em 12 de maio de 1885, em Paris. Foi um dos grandes poetas da França do século XX. Sua obra passou a ser cultuada por gerações de jovens apaixonados, apesar de ser pouco exaltada e reconhecida pelos grandes críticos. Suas palavras seduzem pelo amor psicológico, a paixão erótica e latente, diluída em um suave humor íntimo e emotivo.
Poeta e dramaturgo modernista, Paul Géraldy revela um universo expansivo sobre as sutilezas psicológicas das relações amorosas, familiares e existencialistas, refletidas em um momento sublime da sociedade francesa, enlaçado nos períodos de paz entre as duas grandes guerras mundiais.
No teatro, Paul Géraldy lançou a sua visão pessoal sobre a família e o matrimônio, descrevendo a burguesia intelectual francesa da primeira metade do século XX. Fazem parte da sua dramaturgia as peças “Aimer” (1921), “Robert et Marianne” (1925) e “Duo, d’Après Colette” (1938). Sua obra é repleta dos sentimentos vividos no cotidiano, sobressaindo sempre o amor passional, os sentimentos aflorados que assustam os homens e fascinam as mulheres. O seu estilo atraiu um grande público feminino, que lhe possibilitou o sucesso.
Mas a maior consagração de Paul Géraldy veio com a poesia; através do livro “Eu e Você” (Toi et Moi), publicado em 1912, que se tornou um clássico e uma ode à paixão. De linguagem delicada e sentimentos sempre presentes no homem moderno, a obra traz uma conversa íntima entre um casal apaixonado, revelando todos os segredos do coração, todas as inquietudes dos relacionamentos diante do cotidiano. Versos livres que descrevem de forma fascinante, erótica, sensual e corajosa o amor entre duas pessoas.
Todos os poemas deste artigo foram extraídos de “Eu e Você”, que no Brasil teve a tradução de Guilherme de Almeida. Paul Géraldy morreu com quase 98 anos, em 10 de março de 1983. A sua poesia do amor elegante, sensual, inquietante e delicado, é sempre uma adorável descoberta, que arrebata os corações apaixonados através das décadas.

Expansões

Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse? …
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
Para que você sinta? …
O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito…
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer cousa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
Essas palavras e que eu diga,
E você saiba… Mas, o que?
Se eu soubesse falar
Como um poeta que sente,
Diria eu mais do que
Quando tomo entre as mãos
Essa cabeça linda
E cem mil vezes, loucamente,
Digo e repito
E torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!

Expansions (original)

Ah! Je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou…
Je dis des moi, toujours lês mêmes…
Mais je vous aime! Je vous aime! …
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
Pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen…
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise…
Il faut que tu saches… Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus – résponds-moi –
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!…

Sorte

Podíamos jamais nos conhecer talvez!
Meu amor, imagine, pois,
Tudo isso que a sorte nos fez
Para estarmos aqui, para sermos nós dois!

Nós fomos feitos um para o outro – diz você.
Mas pense no que foi preciso se interpor
de coincidências, para que
pudesse haver apenas isto: o nosso amor!

Que antes de unir nosso destino vagabundo,
vivemos longe um do outro, e sós, separados,
e que é tão longo o tempo, e que é tão grande o mundo,
e a gente era capaz de não se ter encontrado.

Você nunca pensou, meu romance bonito,
e que este amor correu de risco e indecisões
quando, ao encontro um do outro, em torno do infinito,
gravitaram à toa os nossos corações?

Você não sabe então que era incerta essa estrada
que conduziu nossos ideais,
e que um capricho, um quase nada
podia não ter nos juntado nunca mais?

Nunca lhe confessei esta coisa esquisita:
quando visitei você pela primeira vez,
a princípio nem vi que você era bonita…
não reparei quase em você.

Sua amiga me atraiu muito mais, com seu sorriso.
Foi só muito depois que cruzamos o olhar…
Nós podíamos não ter lido nada disso:
e você, não compreender, e eu, nem sequer ousar.

Que seria de nós se, aquela noite, alguém
viesse buscar você antes?
Ou se, entre luzes, você não corasse também
quando eu quis ajudar a pôr o seu manteau?…

Pois foram essas razões, lembra-se ainda?
Um atraso, um impedimento,
e nada existiria deste encantamento,
desta metamorfose linda!

Nunca aconteceria o amor que aconteceu!
Você não estaria agora em minha vida!…

Meu coração, meu coração, minha querida,
penso naquela doença
que você quase morreu…

Chance (original)

Et pourtant, nous pouvions ne jamais nous connaitre!
Mon amour, imaginez-vous
tout ce que le Sort dut permettre
pour qu’on soit là, qu’on s’aime, et pour que ce soit nous?

Tu dis: “Nous étions nés l’un pour l’autre.” Mais pense
à ce qu’il dut falloir de chances, de concours,
de causes, de coïncidences,
pour réaliser ça, simplement, notre amour!

Songe qu’avant d’unir nos têtes vagabondes,
nous avons vécu seuls, separes, égarés,
et que c’est long, le temps, et que c’est grand, le monde,
et que nous aurions pu ne pas nous rencontrer.

As-tu jamais pense, ma jolie aventure,
aux dangers que courut notre pauvre bonheur
quand l’um vers l’autre, au fond de l’infinie nature,
mystérieusement gravitaient nos deux coeurs?

Sais-tu que cette course était bien incertaine
qui vers un soir nous conduisait,
et qu’un caprice, une migraine,
pouvaient nous écarter l’un de l’autre à jamais?

Je ne t’ai jamais dit cette chose inouïe:
lorsque je t’aperçus pour la première fois,
je ne vis pás d’abord que tu étais jolie.
Je pris à peine garde à toi.

Ton amie m’occupait bien plus, avec son rire.
C’est tard, très tard, que nos regards se sont croisés.
Songe, nous aurions pu ne pas savoir y lire,
Et toi ne pas comprendre, et moi ne pas oser.

Où serions-nous oe soir si, ce soir-là, ta mère
t’avait reprise um peu plus tôt?
Et si tu n’avais pas rougi, sous les lumières,
quand voulus t’aider à mettre ton manteau?

Car souviens-toi, ce furent là toutes les causes.
Un retard, um empêchement,
et rien n’aurait été du cher enivrement,
de l’exquise métamorphose!

Notre amour aurait pu ne jamais advenir!
Tu pourrais aujourd hui n’être pas dans ma vie!…

Mon petit coeur, mon coeur, ma petite chérie,
je pense à cette maladie
dont vous avez failli mourir…

Dúvida

Você diz: “Eu penso apenas em você
todo o dia.”
Mas pensa em mim muito menos
que no amor.

E diz: “Meus olhos magoados
que vivem só de desejo
passam horas acordados
quando me deito.”
Mas sua alma é mais satisfeita
do que louca.
Você pensa mais no beijo
que na boca.

Você não se inquieta
Tem certeza de que este bem
é somente seu e meu.
Mas o amor é uma necessidade.
Você gostaria mesmo menos de mim, muito menos
se eu não fosse eu?

Doute (original)

Tu m’as dit: “Je pense à toi
tout lê jour.”
Mais tu penses moins à moi
que a l’amour.

Tu m’as dit: “Mes yeux mouillés
qui ne peuvent t’oublier
restent longtemps éveillés
lorsque je me couche.”
Mais ton coeur est moins grisé
qu’amusé.
Tu penses plus au baiser
qu’à la bouche.

Tu ne te tourmentes point.
Tu sais, sans chercher plus loin,
que nos joies sont bien les nôtres…
Mais l’amour est un besoin.
M’aimerais-tu beaucoup moins
si j’étais un autre?

Confissão

Eu bem sei que, ciumento, exigente, impulsivo, irritado,
infeliz por cousas tão banais,
eu vivo a provocar discussões sem motivo…
Mas eu amo tão mal porque eu amo demais.

E atormento você, e persigo…
Você havia de ser melhor amada e mais feliz também,
se não fosse você a minha única alegria,
e se este amor não fosse o meu único bem.

Aveu (original)

Je sais bien qu’irritable, exigeant et morose,
insatisfait, jaloux, malheureux pour un mot,
je te cherche souvent des querelles sans cause
Si je t’aime si mal, c’est que je t’aime trop.

Je te poursuis. Je te tourmente. Je te gronde…
Tu serais plus heureuse, et mieux aimée aussi,
si tu n’étais pour moi tout ce qui compte au monde,
et si ce pauvre amour n’était mon seul souci.

Meditação

A gente começa a amar,
por simples curiosidade,
por ter lido num olhar
certa possibilidade.

E como, no fundo, a gente
se quer muito bem,
ama quem ama somente
pelo gosto igual que tem.

Pelo amor de amar começa
a repartir dor por dor.
E se habitua depressa,
a trocar frases de amor.

E, sem pensar, vai falando,
de novo as que já falou.
E então continua amando
Só porque já começou.

Méditation (original)

On aime d’abord par hasard,
par jeu, par curiosité,
pour avoir dans um regard
lu des possibilites.

Et puis comme au fond soi-même
on s’aime beaucoup,
se quelqu’un vous aime, on l’aime
par conformité de goût.

On se rend grâce, on s’invite
à partager ses moindres maux.
On prend l’habitude, vite,
d’échanger de petits mots.

Quand on a longtemps dit les mêmes,
on les redit sans y penser.
Et alors, mon Dieu, l’on aime
Parce qu’on a commencé.

Derrota

Mas isso não é justo! Eu sou muito sensível…
Qualquer maldade que você me faça e que eu tente
retribuir, não consigo, é impossível!
Eu sofro mais do que você.

Você suporta bem os acintes sem fim,
os silêncios ruins e os olhares brutais…
Mas não seja cruel, tenha pena de mim!
Quando eu sofro, eu sofro demais…

… Mas, não! Não ouça! Eu confessei
ingênuo e fraco, uma cousa que eu não devia confessar…
Você sabe agora o meu fraco:
e vai talvez se aproveitar…

Défaite (original)

Ce n’est pas juste enfin! Moi je suis trop sensible.
Quand tu m’as fait du mal, je tente bien parfois
de te le rendre. Mais ça n’est jamais possible!
Je souffre toujours plus que toi.

Toi, tu sais supporter les longues bouderies,
les regards durs et lês silences obstines…
Ah! ne sois pas méchante avec moi, ma chérie!
J’ai trop de chagrin quand j’em ai…

… Mais je suis fou! N’écoute pas! Je te confesse
naïvement de dangereuses vérités…
Tu sais à présent ma faiblesse:
tu vas peut-être em profiter…

Sabedoria

Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.

Sagesse (original)

Ne soyons pas trop exigeants:
le Bonheur n’est pas accessible
à toutes les sortes de gens.
Il faudrait être moins sensible,
ou bien avoir beaucoup d’argent…
Ne demandons pas l’impossible.
Nous devons nous trouver contents
d’être les êtres que nous sommes:
des amoureux intermittents
qui sont fous l’un de l’autre en somme
de temps en temps.
C’est déja beaucoup d’être deux,
deux côte à cote sur la Terre,
qui peuvent souffrir entre eux
et vivre sans trop se taire.
Et si l’on est plus exigeant,
si l’on se sent en y songeant
l’âme encor trop célibataire,
c’est qu’on a mauvais caractère…
ou qu’on est trop intelligent.

Mea Culpa

Afinal, meu gesto doido,
meu erro, querida,
foi ter posto em você
todo o peso da minha vida.

Ao começar este amor
num coração tão diverso do meu
pensei poder pôr
todo o meu universo.

E é desse erro tão profundo
que vamos sofrendo então.
Não se pode pôr um mundo
sobre um coração.

O seu coração é sincero,
ardente comigo
Mas, só, será suficiente
para afastar-me dos parentes
e dos meus amigos?

Mea Culpa (original)

Au fond, vois-tu, mon erreur,
ma grande folie,
c’est d’avoir charge ton coeur
de tout le poids de ma vie.

Le jours où l’on s’est aimé,
j’ai cru qu’en ce coeur offert
j’allais pouvoir enfermer
tout mon univers.

C’est de cette erreur profonde
que maintenant nous souffrons.
On ne fait pas tenir le monde
derrière un front.

Ton coeur est tendre et sincère,
ardent et soumis.
Mais, tout seul, pouvait-il faire
que je me passe de ma mère
et de me amis?

Final

Pois bem, adeus. Nada esqueceu?… Tem tudo já?
Não temos nada mais a dizer face a face.
Pode ir… Mas, não! Espere um pouco!
Como está chovendo!… Espere que isso passe.

Agasalhe-se bem! Está frio lá fora.
Você devia pôr um “manteau” mais pesado.
Já tem tudo o que é seu? Nada me resta agora?
As suas cartas? O retrato?…

Já que a gente se vai separar, olhe-me ainda um instante…
Mas sem chorar: seria idiota.
Como é horrível agora a lembrança remota
Do que nós fomos numa vida antiga e linda!

Nossas vidas se confundiram totalmente…
E agora cada qual retoma o seu caminho!
Nós vamos partir, cada qual mais sozinho,
Recomeçar, vagar por aí… Certamente,

Sofreremos também… Mas há de vir, depois
O esquecimento, a única cousa que perdoa.
E há de haver eu haver você; sermos dois;
Sermos isto: uma pessoa e outra pessoa.

Veja! Você já vai entrar no meu passado!
Havemos de nos ver na rua, casualmente…
Eu hei de olhar e de ir, sem ter atravessado…
Você irá com vestidos novos, diferentes…

E viveremos nossas vidas paralelas…
E amigos contarão a você minha história…
E eu direi de você, que foi a minha glória,
A minha força e a minha fé: “Como vai ela?”

O nosso amor… era esta cousa sem valor!…
No entanto, que loucura a dos primeiros dias!
Lembra-se bem? Que apoteose, que magia!…
Se nos amávamos!… E era isto o nosso amor!

Mesmo nós, até nós então, quando dizemos “eu te amo!”,
O que é que vale o que estamos dizendo?…
É humilhante, meu Deus!… Somos todos os mesmos?
Iguais aos outros, nós?… Mas, como está chovendo!

Você não sai com um tempo assim… Fique comigo!
Fique! Vamos viver – não sei… – mais conformados…
Os nossos corações, embora bem mudados,
Se reforçam talvez às luzes do sonho antigo…

Vamos tentar. Ser bons, de novo. Que remédio!
Podem falar: a gente tem seus hábitos…
Então? Não vá! Fique! E retome ao meu lado o seu tédio,
Eu retomo ao seu lado a minha solidão.

Finale (original)

Alors, adieu. Tu n’oublies rien?… C’est bien. Va-t’em.
Nous n’avons plus rien à nous dire. Je te laisse.
Tu peux partir… Pourtant, attends encore, attends.
Il pleut… Attends que cela, cesse.

Couvre-toi bien surtout! Tu sais qu’il fait très froid
dehors. C’est um manteau d’hiver qu’il fallait mettre…
Je t’ai bien tout rendu? Je n’ai plus rien à toi?
Tu as pris ton portrait, tes lettres?…

Allons! Regarde-moi, puisqu’on va se quitter…
Mais prends garde! Ne pleurons pas! Ce serait bete.
Quel effort il faut faire, hein? dans nos pauvres têtes,
pour revoir les amants que nous avons été!

Nos deux viés s’étaient l’une à l’autre données toutes,
pour toujours… Et voici que nous les reprenons!
Et nous allons partir, chacun avec son nom,
recommencer, errer, vivre ailleurs… Oh! sans doute,

nous souffrirons… pendant quelque temps. Et puis, quoi!
l’oubli viendra, la seule chose qui pardonne.
Et il y aura toi, et il y aura moi,
at nous serons parmi les autres deux persones.

Ainsi, déjà, tu vas entrer dans mon passe!
Nous nous rencontrerons par hasard, dans lês rues.
Je te regarderai de loin, sans traverser.
Tu passeras avec des robes inconnues.

Et puis nous resterons sans nous voir de longs móis.
Et des amis te donneront de mes nouvelles.
Et je dirai de toi qui fus ma vie, de toi
qui fus ma force et ma douceur: “Comment va-t-elle?”

Notre grand coeur, c’était cette petite chose!
Étions-nous assez fous, pourtant, les premiers jours!
Tu te souviens, l’enchantement, l’apothéose?
S’aimait-on!… Et voilà: c’était ça, notre amour!

Ainsi nous, même nous, quand nous disons “je t’aime”,
voilá donc la valeur que cela a! Mon Dieu!
Vrai, c’est humiliant. On est donc tous les mêmes?
Nous sommes donc pareils aux autres?… Comme il pleut!

Tu ne peux pas partir par ce temps… Allons, reste!
Oui, reste, va! On tâchera de s’arranger.
On ne sait pas. Nos coeurs, quoiqu’ils aient bien changé,
se reprendront peut-être au charme des vieux gestes.

On fera son possible. On sera bon. Et puis,
on a beau dire, au fond, on a des habitudes…
Assieds-toi, va! Reprends près de moi ton ennui
Moi près de toi je reprendrai ma solitude.

OBRAS

Antologias Poéticas:

1908 – Les Petites Ames
1912 – Toi et Moi (Eu e Você)
1960 – Vous et Moi

Narrativas:

1916 – La Guerre, Madame!
1938 – Le Prélude
1951 – L’Homme et L’Amour

Teatro:

1917 – Les Noces d’Argent
1921 –Aimer
1922 – Les Grands Garçon
1925 – Robert et Marianne
1932 – Christine
1938 – Duo, d’Aprés Colette


D. H. LAWRENCE – QUANDO A LITERATURA GANHOU SEXUALIDADE

Setembro 21, 2009
D. H. Lawrence foi um dos escritores britânicos que mais gerou polêmicas e opiniões controversas. Sua obra, apesar de redimida e considerada como renovadora na estética da literatura inglesa do século XX, ainda hoje é incompreendida pelas pessoas, que já o chamaram, entre muitos adjetivos, de poeta indecente, imoral e pornográfico.
O que mais causou repulsa na obra de D. H. Lawrence aos seus contemporâneos, foi a coragem de dar sexualidade às personagens. Longe de ser obscena, a escrita de Lawrence faz do sexo algo natural, parte da essência humana e da sua conduta na sociedade. A entrega dos corpos é o momento que homem adquire contacto com a natureza e a sua verdadeira vertente. O autor não se esquiva de dar importância ao encontro de peles, desnudando a sociedade da sua época, sem fazê-la obscena, mas erótica e humana, sem os preconceitos dos costumes que se fariam decadentes ao longo do século XX, encerrando de vês os resquícios da moral vitoriana na Grã-Bretanha.
A obra de Lawrence reflete um caráter social evidente, onde a industrialização desenfreada da Inglaterra contrastava com o homem do campo, com as tradições. Dar sexualidade às personagens era retratar o mais recôndito dos segredos da intimidade de uma sociedade. De maneira obsessiva, as mulheres, o sexo e o amor afloram como temas latentes no universo de Lawrence. A ousadia custou caro ao autor, que viu a sua obra ser censurada dentro do próprio país. Clássicos como “O Amante de Lady Chatterley”, ou “O Arco-Íris”, foram proibidos por décadas na Grã-Bretanha. Uma obra magnífica foi reduzida à obscenidade do puritanismo da época. Somente o tempo provaria a beleza literária e eterna das palavras de Lawrence, mas ele não viveria para ver este reconhecimento. Morreu sendo injustiçado por seus contemporâneos, aos 44 anos.
D. H. Lawrence deixou uma obra que se estende por quase todos os gêneros literários, dela faz parte romances, contos, peças teatrais, livros de viagem, crítica literária, cartas pessoais e livros de arte, além de muitas traduções. Mergulhar na obra deste autor modernista é beber da essência humana, sentir o pulsar sexual daqueles que enfrentam o seu tempo sem as roupas que se lhe foram impostas, de cara lavada, sem as maquiagens dos costumes de uma sociedade. O homem e a mulher são seres que lutam, sonham, amam e fazem sexo!

Os Primeiros Anos de D. H. Lawrence em Nottingham

David Herbert Lawrence nasceu em 11 de setembro de 1885, na pequena Eastwood, perto de Nottingham, lugar de onde se extraia carvão há séculos. Nasceu de uma família modesta, tendo mais quatro irmãos; a mãe, Lydia Lawrence, era uma ex-professora, que se esforçava para transmitir uma educação mais refinada aos filhos; o pai era um rude homem do interior. A diferença intelectual entre os pais do pequeno David originava atritos e tensões constantes.
Aos doze anos, Lawrence ganhou uma bolsa de estudos para freqüentar a escola secundária de Nottingham. Mostrou-se um aluno brilhante, auferindo prêmios em matemática, francês e alemão e, futuramente, passaria a dominar o espanhol e o italiano.
Cinco anos depois, deixaria a escola para empregar-se como escriturário. Três meses depois, uma pneumonia faria com que abandonasse o trabalho. A gravidade da enfermidade afetar-lhe-ia para sempre a saúde. Durante a convalescença, começou a escrever poemas. Foi nesta época que travou amizade com Jessie Chambers, uma jovem que morava em uma fazenda próxima à casa dos seus pais. A ligação entre ambos atingiria um sentido platônico, que aguçaria a sensibilidade do escritor, fazendo-o debruçar-se sobre os grandes poetas como Shakespeare e Baudelaire. A amizade entre os dois estender-se-ia por toda a vida. Lawrence ensinava álgebra e francês à amiga, enquanto que aprendia com ela a pintar e a tocar piano.

Piano (tradução)

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo
Uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das cordas
E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri enquanto ela canta.

Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para pertencer
Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora
E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança pelo passado.

Tradução: Cecília Rego Pinheiro

Piano (original)

Softly, in the dusk, a woman is singing to me;
Taking me back down the vista of years, till I see
A child sitting under the piano, in the boom of the tingling strings
And pressing the small, poised feet of a mother who smiles as she sings.

In spite of myself, the insidious mastery of song
Betrays me back, till the heart of me weeps to belong
To the old Sunday evenings at home, with winter outside
And hymns in the cosy parlour, the tinkling piano our guide.

So now it is vain for the singer to burst into clamour
With the great black piano appassionato. The glamour
Of childish days is upon me, my manhood is cast
Down in the flood of remembrance, I weep like a child for the past.

Lawrence e Frieda

Em 1905, Lawrence passou nos exames para ingressar na Universidade de Nottingham, mas só iria freqüenta-la no ano seguinte. Enquanto esperava, começou a escrever “O Pavão Branco”, seu primeiro romance. Na época lecionava para os filhos dos mineiros da sua terra.
Em 1908, deixou a universidade, aceitando um posto na escola primária de Croydon, mesmo sobre os protestos da mãe e de Jessie Chambers, que não o queria tão distante delas. Em Croydon, encontraria a tranqüilidade necessária para voltar a trabalhar na composição de “O Pavão Branco”.
Na ausência do amigo, Jessie Chambers enviou alguns dos seus poemas ao diretor da “English Review”; em novembro de 1909 a revista publicou os poemas, introduzindo o poeta nos círculos literários londrinos. Em 1910, a mesma revista voltaria a publicar um novo conjunto de poemas do jovem escritor. Naquele ano, um câncer matéria à mãe do autor, que se encontrava distante de casa.
Lawrence teria o seu primeiro romance, “O Pavão Branco”, publicado em 1911. Já na sua estréia oficial literária, o autor foi ameaçado com um processo de difamação por causa de algumas situações reveladas no romance.
Em 1912, o autor conheceria aquela que se tornaria a companheira de toda a vida, Frieda von Richthofen. Em abril foi convidado a jantar na casa de um antigo professor de francês, Ernest Weekley. No jantar conheceu Frieda, esposa do mestre e mãe de três crianças. Os dois foram acometidos de uma paixão fulminante. Menos de um mês depois, partiriam juntos para a Alsácia-Lorena, onde viviam os pais de Frieda. Dali seguiriam juntos para a Itália, onde o autor terminou de escrever “Filhos e Amantes” e iniciou “Crepúsculo na Itália”.
Apesar de sempre juntos, Lawrence e Frieda só se viriam a casar em Londres, em julho de 1914, quando Ernest Weekley finalmente concedeu o divórcio à esposa. Na época da Primeira Guerra Mundial, a condição de alemã de Frieda pesou sobre o casal, que chegou a ser expulso da Cornualha, acusado de espionagem, em 1917. Os dois seguiram para Londres, onde formaram uma comunidade de amigos. Juntos, os dois viajaram pela Itália, Alemanha, Áustria, França, Suíça, Ceilão, Austrália, México e Estados Unidos, vivendo por algum tempo em muitos desses lugares.

A Literatura Rejeitada de H. D. Lawrence

Mas o preconceito, a incompreensão e a intolerância dos leitores e críticos britânicos marcariam toda a existência literária de Lawrence. Por diversas vezes seria acusado de imoral, pornográfico e de fazer alusão ao culto do sexo. Já em 1913, ao publicar “Filhos e Amantes”, recebeu dos leitores uma violenta censura, apesar da obra ter sido bem aceita pela crítica.
Em 1915, a publicação de “O Arco-Íris” provocou grande polêmica, culminando com a proibição e apreensão do livro na Inglaterra. A crítica chamou-o de nauseabundo, os leitores consideraram-no obsceno, e os editores retrataram-se publicamente, desculpando-se por ter publicado o livro. Analisando-o com profundidade, não se encontra palavras chulas ou linguagem obscena em momento algum da narração.
Mulheres Apaixonadas”, publicado em 1920, tornar-se-ia uma obra-prima da literatura inglesa ao longo do século XX. Quando publicado, gerou violentas críticas. Concluído durante a estada do autor na Cornualha, o romance foi recusado por vários editores, sendo finalmente publicado nos Estados Unidos. A obra provocou um escândalo na Inglaterra, recendo os mais desairosos adjetivos. Na história, dois casais são confrontados com as armadilhas existenciais da paixão, sendo um deles levado ao fracasso por não ver o sexo como o objetivo da paixão. Um dos momentos de maior polêmica do livro é quando dois homens nus lutam entre si, com uma forte pulsação sexual. A partir de “Mulheres Apaixonadas”, para evitar a perseguição que transformara a sua literatura em obscena, classificando-a de pornográfica, o autor passou a assinar os seus escritos com pseudônimos, como Lawrence H. Davidson, no ensaio “Movements in European History” (Movimento na História Européia). A incompreensão do leitor britânico levou Lawrence a desgostar de viver na Inglaterra, levando-o a peregrinar por diversos países.
Em 1925, iniciou na Itália, o romance que causaria a maior polêmica da sua carreira, “O Amante de Lady Chatterley”. Inicialmente chamado de “Tenderness” (Ternura), o livro não ocupou o tempo do autor, que se dedicava com afinco à pintura, executando uma série de quadros que seriam expostos em Londres. Em outubro de 1927, após ter tido graves problemas de saúde que o levara a tratamentos na Suíça e na Alemanha, voltou à Toscana, na Itália, dedicando-se a concluir “Tenderness”, que à época decidiu mudar o título para “John Thomas and Lady Jane, numa proposital provocação, visto que na tradição popular inglesa os nomes eram uma alusão aos órgãos genitais masculinos e femininos, respectivamente. Mas o romance obteve o título definitivo de “O Amante de Lady Chatterley”, e foi publicado em Florença, na Itália, em 1928. As relações amorosas entre uma aristocrata inglesa, casada com um homem mutilado; e um homem rude, empregado do seu marido; eram descritas de forma intrínseca, sem meias verdades, onde o sexo é visto como a própria salvação da alma, um caminho para suportar as fatalidades da vida. A imprensa britânica classificou o livro como um “esgoto da pornografia francesa”, oi ainda, “o livro mais sujo da literatura inglesa”. Sentindo que a obra ofendia à moral britânica, o governo proibiu-a na Grã-Bretanha, mantendo a proibição durante 32 anos.
A proibição fez com que o livro circulasse clandestinamente pela Inglaterra, sendo cultuado como obra de forte essência sexual, tornando-se uma obsessão entre os jovens, que só lhe enxergavam essa vertente, diminuindo-o como literatura, fazendo de D. H. Lawrence um autor pornográfico, sem o devido reconhecimento literário. O livro circulou com mutilações do texto, tendo três versões, sendo finalmente publicado por completo décadas mais tarde, em Nova York.

A Indecência Pode Ser Saudável (tradução)

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade mo cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

Tradução: José Paulo Paes

Bawdy Can Be Sane (original)

Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

Even sodomy can be sane and wholesome
grandet there is an exchange of genuine feeling.

But get any of them on the brain, and they become pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, missions, etc., insanely unhealthy.

In the same way, chastity in its hour is sweet and wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a pervesion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn’t obscenely profligate,
is idiot. So you’ve got to choose.

Últimos Momentos

Em 1928, D. H. Lawrence estava debilitado pela tuberculose. Ao mesmo tempo em que assistia com profundo desgosto o romance “O Amante de Lady Chatterley” circular com edições espúrias e texto adulterado, via o corpo combalido, a definhar-se ao sabor de tão grave doença.
O escritor Richard Aldington, amigo pessoal de Lawrence, temendo pela fatalidade da doença, levou-o para a ilha de Port-Gross, para que se pudesse recuperar. Ali, ele encontrou fôlego para escrever artigos, notas e comentários para jornais.
Sentindo-se melhor, em 1929, Lawrence viajou para Paris, hospedando-se na casa do amigo e escritor Aldous Huxley. Na ocasião, decorria em Londres uma exposição dos seus quadros, que alcançaria grande sucesso, apesar de a imprensa considerá-la “o maior insulto jamais feito ao público londrino”. Lawrence continuava a ser visto com desdém e desprezo pela crítica e imprensa do seu país.
Mas o estado de saúde de D. H. Lawrence agravou-se consideravelmente. Foi aconselhado por um médico a refugiar-se no sanatório de Vence, na França, submetendo-se a um grande tratamento. Aldous Huxley acomodou o amigo e a esposa Frieda, em uma casa de uma vila de Vence. Mesmo diante da fatalidade iminente, Lawrence acreditava que venceria a doença, escrevendo várias cartas aos amigos, anunciando o restabelecimento.
No dia 2 de março de 1930, D. H. Lawrence foi acometido por uma meningite tuberculosa, que lhe foi fatal. No leito de morte, lançou um último olhar à mulher Frieda, como se lhe quisesse dizer algo. Mas se calou para sempre. Aldous Huxley, em um último gesto, fechou os olhos do amigo. David Herbert Lawrence, o autor que dera sexualidade à literatura inglesa, morria aos 44 anos de idade.

Cronologia

1885 – Nasce, em 11 de setembro, David Herbert Lawrence, em Eastwood, Nottigham, Inglaterra.
1897 – O pequeno David é admitido na escola secundária de Nottingham.
1902 – Deixa a escola, arrumando um emprego de escriturário. Torna-se amigo da jovem Jessie Chambers. Sucumbe a uma pneumonia. Durante a convalescença escreve os seus primeiros poemas.
1905 – É admitido na Universidade de Nottingham. Dá início ao seu primeiro romance, O Pavão Branco.
1909 – Enviados por Jessie Chambers, são publicados alguns poemas de D. H. Lawrence na revista English Review.
1910 – Morre, em 9 de dezembro, Lydia Lawrence, mãe do escritor.
1911 – Publicado, em janeiro, O Pavão Branco.
1912 – Conhece Frieda von Richthofen, esposa do seu antigo professor de francês. Apaixonada, Frieda abandona o marido e os filhos para seguir o escritor. Parte com Frieda para a Alsácia-Lorena; a seguir, vão para a Itália.
1913 – Publica O Intruso. Termina de escrever Filhos e Amantes e inicia outro romance, Crepúsculo na Itália.
1914 – D. H. Lawrence e Frieda voltam para a Grã-Bretanha, onde se casam em Londres, após o marido de Frieda conceder-lhe o divórcio. Inicia o projeto que resultaria no romance Mulheres Apaixonadas.
1916 – Publica Crepúsculo na Itália.
1917 – Sob suspeita de espionagem, D. H.Lawrence e Frieda são expulsos da Cornualha. Vão morar em Londres até o fim da Primeira Guerra Mundial.
1919 – O casal parte para a Itália.
1920 – Escreve duas coleções de poemas e vários contos.
1921 – Escreve o romance O Mar da Sardenha.
1922 – Viaja com a mulher para o Ceilão e para a Austrália.
1923 – Escreve o romance Canguru. Viaja para o continente americano, passando pelos Estados Unidos e fixando residência no México.
1925 – Começa a escrever Ternura, título que mais tarde seria mudado para O Amante de Lady Chatterley. Dedica-se à pintura.
1926 – Escreve A Serpente Emplumada.
1927 – Visita a Toscana, na Itália. Com gravíssimos problemas de saúde, parte para a Suíça. Para dar seguimento aos tratamentos de saúde, segue com Frieda para a Alemanha.
1928 – Publica, em Florença, o romance O Amante de Lady Chatterley. Realizada em Londres, apesar das maledicências da imprensa, uma bem sucedida exposição com as pinturas de D. H. Lawrence.
1929 – Viaja com a mulher para Paris, hospedando-se na casa de Aldous Huxley. Agravado o estado de saúde do escritor. Inicia um tratamento intensivo no sanatório de Vence, na França.
1930 – Morre, em 2 de março, em Vence, França, vítima de uma meningite tuberculosa.

OBRAS:

Romance

1911 – The White Peacock (O Pavão Branco)
1912 – The Trespasser (O Intruso)
1913 – Sons and Lovers (Filhos e Amantes)
1915 – The Rainbow (O Arco-Íris)
1920 – Women in Love (Mulheres Apaixonadas)
1920 – The Lost Girl
1922 – Aaron’s Rod (A Vara de Aarão)
1923 – Kangaroo (Canguru)
1924 – The Boy in the Bush
1926 – The Plumed Serpent (A Serpente Emplumada)
1928 – Lady Chatterley’s Lover (O Amante de Lady Chatterley)
1929 – The Escaped Cock (posteriormente publicado como The Man Who Died)
1930 – The Virgin and the Gypsy (A Virgem e o Cigano)

Conto

1914 – The Odour of Chrysanthemums
1914 – The Prussian and Other Stories
1922 – England, My England and Other Stories
1922 – The Horse Dealer’s Daughter
1923 – The Fox, The Captain’s Doll, The Ladybird
1925 – St Mawr and Other Stories
1926 – The Rocking-Horse Winner
1928 – The Woman Who Rode Away and Other Stories
1930 – The Virgin and the Gipsy and Other Stories
1930 – Love Among the Haystacks and Other Stories
1994 – Collected Stories

Poesia

1913 – Love Poems and Others
1916 – Amores
1917 – Look! We Have Come Through!
1918 – New Poems
1919 – Bay: A Book of Poems
1921 – Tortoises
1923 – Birds, Beasts and Flowers
1928 – The Collected Poems of D. H. Lawrence
1929 – Pansies
1930 – Nettles
1932 – Last Poems (póstumo)
1940 – Fire and Other Poems
1964 – The Complete Poems of D. H. Lawrence
1972 – D. H. Lawrence: Selected Poems

Teatro

1912 – The Daugher-in-Law
1914 – The Widowing of Mrs Holroyd
1920 – Touch and Go
1926 – David
1933 – The Fight for Barbara
1934 – A Collier’s Friday Night
1940 – The Married Man
1941 – The Merry-go-Round
1965 – The Complete Plays of D. H. Lawrence

Não Ficção

1914 – Study of Thomas Hardy and Other Essays
1921 – Movements in Eupean History
1921 – Psychoanalysis and the Unconscious
1922 – Fantasia of the Unconscious
1923 – Studies in Classic American Literature
1925 – Reflections on the Death of a Porcupine and Other Essays
1929 – A Propost of Lady Chatterley’s Lover
1931 – Apocalypse and the Writings on Revelation
1936 – Phoenix: The Posthumous Papers of D. H. Lawrence
1968 – Phoenix II: Uncollected, Unpublished and Other Prose Works by D. H. Lawrence
2004 – Introductions and Reviews
2004 – Late Essays and Articles
2008 – Selected Letters

Livros de Viagem

1916 – Twilight in Italy and Other Essays
1921 – Sea and Sardinia (O Mar da Sardenha)
1927 – Mornings in México
1932 – Sketches of Etruscan Places and Other Italian Essays

A Procura da Verdade

Não procure por mais nada, nada
senão a verdade.
Fique bem calmo, e tente e chegue à verdade.

E a primeira questão a se perguntar é:
Quão mentiroso eu sou?


PALAVRAS DE AMOR – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Setembro 14, 2009

Palavras de amor quando ditas pelo mais primordial dos mortais tornam-se um momento de beleza; quando ditas pelos mais sensíveis tornam-se um poema de amor. Palavras de amor, quem não as proferiu? Quem não as escreveu? Quem não as roubou aos poetas para sentir a sua intensidade ou presentear o grande amor?
No baú das minhas memórias, hei que me deparo com as minhas palavras de amor juvenil, que na época as chamei de poemas. Mas como a poesia está no dilacerar da sensibilidade, mesmo quando rompida pela estética da métrica, chamo aos meus versos livres de palavras de amor.
Às vezes olho para aquele que os escreveu e que hoje se encontra perdido dentro do tempo da minha mente, e pergunto-me: quem eras tu que os escreveu? Que heterônimo foi desprendido dos espelhos do meu sentimento? Ainda seria capaz de escrevê-los assim, tão livres, comprometidos apenas com os sentimentos, sem a técnica estética das palavras? Mas o poeta não tem compromisso apenas com o sentimento do eu mais profundo? Não tem como obrigação tornar bonito a rima da dor com o amor?
Um dia cansei de escrever o amor e fui vivê-lo na sua essência bruta. Meus versos perderam-se em lençóis estranhos e manchados pelo prazer, distanciaram-se entre as pernas desconhecidas que aconcheguei aflito a minha insaciável vontade de ejacular o amor. Sofistiquei o amor nas teias do prazer, muitas vezes desencontrando-o do calor do coração.
Então onde encontrar o jovem que escreveu os poemas de amor? Que desconhecido no tornamos! Fecho os meus olhos e posso vê-lo romântico, a sonhar com a rosa azul de um jardim eternamente secreto. Relembro corpos nus e suados, a desenhar relevos de paixão com os seus pêlos artísticos à meia-luz do quarto. Ressuscito imagens imprecisas de ventres ao léu, que no ápice do meu prazer, colheram a pequena morte de mim. Então, eu, homem maduro, recolho as palavras de amor escritas pelo meu eu de juventude. Roubo-as para mim, afinal palavras de amor, canções de amor, poemas de amor, são de quem delas necessitam.

Pássaro no Asfalto Quente

Percorro um mundo aberto em palco,
Como um viajante em fuga,
Um pássaro do asfalto,
Procurando a semente do teu segredo,
Deixa eu dormir meu corpo no teu olhar,
Deixa eu fechar meus olhos e te sonhar,
Deixa eu queimar meu mundo a te perseguir,
E desfolhar meus gritos na tua voz,
Deixa eu correr teus medos na minha sorte,
Deixa eu tentar o risco de te amar,
Soltar o meu destino pelas estradas,
Pousar o meu vôo no teu calor,
Deixa eu sentir teu corpo nas minhas mãos,
Deixa eu gemer teu nome na noite plena,
Deixa eu morrer meus passos na tua liberdade,
E no dia apenas poder sorrir o teu amor.

Outros

Outras palavras me chegam,
Outros segredos embalam-me,
Outro silêncio me cala,
Já outro sol me aquece,
Outros sorrisos me pulsam,
Roubam a minha alma ao vento,
Outra vontade,
Outro sonho,
Outros desejos agitam-me,
Outras metades me escondem,
Novos medos me gritam,
Outros pássaros voam,
Perseguem a luz da manhã,
Outra magia a soprar-me,
Acaricia a força do presságio,
Outro destino me arrasta,
Socorre a minha agonia,
Outros amigos me chegam,
Como se fosse meio-dia,
Outras promessas de vida,
Outras tantas juras de amor,
Outro pecado da noite,
Outro pedaço que se me desprende,
Outra ternura que se expande,
Outro amor,
Outra mentira…

Estado de Afeição

 

 

Tanto tempo de espera,
De luzes presas no escuro,
Caminhando ilimitado,
Sem futuro filosófico,
Sem passado amordaçado,
De repente hoje estou resumido,
Nesse fascínio que me atingiu,
Numa busca incomparável,
Vou brincando de menino,
Dos teus olhos fazendo brilho,
Como pássaro que não pousa,
No teu peito fazendo chama,
Vou negando o meu destino,
De ti tento fugir,
Mas não consigo ir com a lua,
Com a mesma bebedeira,
Tua nuvem que me flutua,
Vai devassando os meus segredos,
E o meu medo a te ferir,
A torturar a nossa poesia,
Como tristes navegantes,
Não fugimos do naufrágio,
Não queimei as tuas lembranças,
Não esqueci a tua voz,
Não rasguei teu endereço,
Não discuto o começo,
Ou a culpa que mereço,
No meu medo vou derrubando o teu poema,
Por favor não vá fugir,
Dos meus olhos desaparecer,
Eu acredito e confesso,
Quero hoje os teus versos.

O Menino

Ele é quase um menino,
Empolgou o meu destino,
Ele anda apressado,
Traz o peito carregado,
É um poema divino,
Quase repete um hino,
Ele é mais que criança,
Traz em si a lembrança,
Divaga nas madrugadas,
Persegue noites apagadas,
Ele vive drogado,
De amor não terminado,
Ele anda perdido,
Com um olhar perseguido,
Em alguns momentos conversa,
N’outros apenas versa,
Leva embora a sua alma,
Sem querer pede calma,
Ele é mais que um passado,
Que um canto sufocado,
Ele é tudo o que diz,
Quando nada quis,
Mas ele é desatino,
Pois é quase um menino.

Pensamentos de Amor e de Existência – Jeocaz Lee-Meddi

“O amor quando impossível mutila mais do que a pior das guerras.”

“Não nos podemos perder de nós mesmos quando amamos alguém. É como perdermos a direção da vida e haurirmos um ar letífero.”

“Não prometas nada que vá além da próxima primavera. Nenhuma fidelidade resiste à insatisfação humana, se assim o fosse, Adão estaria até hoje no Éden, fiel às promessas de Deus.”

“Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza.”

“Após a tempestade há um momento sublime de encontro entre o ódio e o amor.”

“Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda.”

“Os calendários foram criados para inserirmos a nossa existência em um breve momento de Deus.”

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações.”

“Ser egoísta faz parte dos filhos do Adão degenerado. Ser magnânimo também.”

“Todas às vezes que me descobri feliz, tornei-me indolente para procurar a felicidade.”

“Muitas vezes aquele que faz feliz a todos à sua volta, não consegue propiciar esta felicidade a si mesmo.”

“Os meus extremos nunca me permitiu ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor.”

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade.”

Texto, poemas e pensamentos de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Paulo César (1 Amor É…, 4 Entre Nós o Amor), Guilherme Santos (2 O Céu de Opacas Sombras Abafadas), Luís Antonio (3 Jeocaz Lee-Meddi, Ode a Luz, 5 Jeocaz Plural, 6 Retrato Jeocaz Lee-Meddi)


FERNANDO PESSOA – OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA

Agosto 28, 2009

Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Infância e Adolescência na África do Sul

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu no Chiado, em Lisboa, num prédio em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de junho de 1888. Nascido no dia de Santo Antonio, o santo mais popular de Lisboa, o menino recebeu o nome, Fernando Antonio, em sua homenagem. Fernando devido ao nome de batismo do santo, Fernando de Bulhões, e Antonio o nome canônico. Era filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.
Filho de uma família de pequenos aristocratas, o menino Fernando teve a vida alterada aos cinco anos, em 1893, quando o pai morreu de tuberculose. Seguindo a tragédia, perderia o irmão mais novo, Jorge, em 1894, que não chegou a completar um ano. Diante das adversidades, Maria Magdalena viu-se obrigada a leiloar a mobília e a mudar para uma casa mais modesta da Rua de São Marçal.
No ano de 1895, a mãe casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.
Foi na África do Sul, então colônia da Grã-Bretanha, que Fernando Pessoa adquiriu uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida. Foi em Durban que viu despertar o seu talento para a literatura. Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês. Aos quinze anos, ele recebe pelo ensaio, o Queen Victoria Memorial Prize (Prêmio Rainha Vitória). Desde esta época, o poeta demonstrou o seu talento para escrever também em inglês, iniciando a produção de vários poemas nesta língua.

Participação na Vida Cultural Portuguesa

Fernando Pessoa só regressaria definitivamente a Portugal em 1905. Ele viria sozinho, para viver com a avó Dionísia e duas tias na Rua da Bela Vista, em Lisboa. No ano seguinte, em 1906, matricular-se-ia no Curso Superior de Letras. Nesta época entra em contacto com importantes escritores do modernismo português.
Morre-lhe a avó Dionísia, em 1907, deixando-lhe uma pequena herança. Com o dinheiro, o poeta funda uma pequena tipografia, a Empresa Íbis-Tipografia Editora – Oficina a Vapor. Para geri-la, ele abandona o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais. Trabalharia nessa profissão o resto da sua vida.
Fernando Pessoa passou a interessar-se pela obra de Cesário Verde e do Padre Antonio Vieira. Em 1912, toma para si a atividade de ensaísta e crítico literário, estreando-se com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado pela revista “Águia”, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Para esta revista, faria ainda os artigos “Reincidindo…” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”.
Pouco depois, desliga-se do grupo da Renascença, aliando-se à geração mais nova, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, que marcaria o modernismo português. Com os amigos, fundaria a revista “Orpheu”, em 1917. Em 1921 colabora com o único número de “Portugal Futurista”. Em 1921 seria lançada a “Contemporânea”. Em 1924, dirige com Ruy Vaz a “Athena”. Em 1927 escreve para a “Presença”, onde passa a dar conhecimento dos seus versos. Nesta época colabora com textos para os jornais. Passa a colaborar com uma agência publicitária, atividade que exerceria de 1925 a 1935, ano da sua morte.

Vida Sem Grandes Paixões e Voltada Para o Ocultismo

Fugindo ao estereótipo da vida dos grandes poetas, que na sua maioria, viveram grandes e atribulados romances, Fernando Pessoa teve uma vida amorosa em branco, o que levou alguns comentários sobre uma suposta homossexualidade, algumas vezes despejada em alguns poemas; ou mesmo, a ausência de uma vida sexual. Ele jamais se casou.
Uma única mulher fez parte da sua biografia, Ofélia Queiroz, colega de trabalho, com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor. Ofélia dirigia-se a ele nas cartas como Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Mais tarde, Agostinho da Silva, que conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, relataria que o poeta confidenciara-lhe arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ofélia , pois o fizera movido pela fantasia heteronímica, sem jamais ter tido paixão por ela. Quando viu que Ofélia, uma mulher carente, estava irremediavelmente apaixonada por ele, apercebeu-se do ardil do amor fictício que vivia e pôs fim a ele, para não fazer uma mulher real e apaixonada sofrer.
Se a vida amorosa foi feita de mistério, também o misticismo e ocultismo que teria praticado deixaram grandes lacunas de dados. Sua suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz jamais foi provada, não se conhecendo nenhuma filiação do poeta a essas escolas em suas lojas ou fraternidades. O que se tem registrado é a defesa pública dessas organizações, feita por ele no “Diário de Lisboa” , contra as perseguições do Estado Novo, em 1935.
Fernando Pessoa estabeleceu mapas astrológicos para a maioria dos seus heterônimos e para Portugal. Fazia consultas astrológicas para si mesmo. Durante os seus estudos de astrologia, teria realizado mais de mil horóscopos.
Das chamadas ciências ocultas, Fernando Pessoa mostrou-se um estudioso profundo, tendo deixado uma razoável biblioteca de temas esotéricos anotada, além de escritos da sua própria autoria. Proclamava-se um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal. Era um grande admirador de Jacques de Molay, último grão-mestre dos Templários queimado vivo na fogueira. Dizia em defesa do mártir dos cavaleiros do Templo, que todos deveriam combater “os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Os Heterônimos de Fernando Pessoa

A beleza estética da obra de Fernando Pessoa deve-se à criação dos diferentes e marcantes heterônimos. Neles, o eu do poeta diluiu-se na escrita, fragmentando-se em personalidades poéticas complexas e de personalidades definidas. Uma vez tendo escrito em privado, com uma única publicação em vida, a escrita repleta de inovações prosódicas não é alcançada por seus contemporâneos. Quando revelada, trar-lhe-ia fama internacional, construindo um grande elemento da literatura universal.
Fernando Pessoa faz a divisão do eu, levando ao extremo dos limites a multiplicação da personalidade, transformando a identidade falsa de cada um deles em verdadeira, tornando-as imiscíveis.
Os heterônimos mais conhecidos na obra de Fernando Pessoa foram três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Sobre eles o próprio poeta escreveu, em uma carta a Adolfo Casais Monteiro:
Criei, então uma coterie inexistente. Ricardo Reis nasceu em 1887, não me lembro do dia e mês (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como se sabe é engenheiro naval (por Glasgow) (…). Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, (…). Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Com personalidades definidas e histórias de vidas próprias, cada heterônimo vai assumir para si um tipo e tema de poesia. Alberto Caeiro, o mestre, guardador de rebanhos, tem uma poesia filosófica. Foi morto por seu demiurgo no mesmo ano que foi criado, na revista “Orpheu”. Álvaro de Campos é um engenheiro futurista, cultor da máquina e do progresso, sua poesia é mais crítica. Ricardo Reis, o monárquico, cultiva em seus poemas Horácio e a tradição clássica. Há ainda um quarto heterônimo de grande importância na obra do poeta, Bernardo Soares, que é tido como o mais parecido com Fernando Pessoa, daí, muitas vezes tido como pseudo-heterônimo. Bernardo Soares, o inadaptado social, rabisca os seus fragmentos e impressões de Lisboa em “O Livro do Desassossego”.
Fernando Pessoa morreria no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luis dos Franceses, em Lisboa, sua terra natal. As causas da morte seriam uma “cólica hepática”, associada a uma cirrose hepática, fruto das longas tertúlias no “Martinho da Arcada” e na “Brasileira do Chiado”, regadas à aguardente.Tinha 47 anos de idade. Conta-se que nos últimos instantes de vida, escreveu em inglês, a última frase: “I Know not what tomorrow will bring” – “Não sei o que amanhã trará”.

[275] – Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que fôr, quando fôr, é que será o que é.

Passagem das Horas (Enxertos) – Álvaro de Campos

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas – absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados…
Mary, eu sou infeliz…
Freddie, eu sou infeliz…
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh’alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

Vivem em Nós Inúmeros – Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Vaga, no Azul Amplo Solta – Fernando Pessoa

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Cronologia

1888 – Nasce, em 13 de junho, em Lisboa, Portugal, Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
1893 – Nasce, em janeiro, o irmão Jorge. Em 13 de julho morre-lhe o pai, vitimado pela tuberculose.
1894 – Morre o irmão Jorge, em janeiro, pouco antes de completar um ano.
1895 – Em julho, o pequeno poeta escreve o seu primeiro poema. João Miguel Rosas, pretendente da sua mãe, é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, partindo para aquela região. Em dezembro, o cônsul casa-se com a mãe de Fernando Pessoa, por procuração.
1896 – Parte com a família para Durban. Em novembro nasce a irmã, Henriqueta Madalena.
1897 – O poeta entra para o curso primário.
1898 – Nasce a segunda irmã, em outubro.
1899 – Ingressa na Durban High Scholl. Cria o pseudônimo Alexander Search.
1900 – Nasce Luís Miguel, terceiro irmão do poeta.
1901 – Aprovado no exame da Cape Scholl High Examination. Morre a irmã do meio. Começa a escrever poesias em inglês. Ao lado da família, parte em agosto para uma visita a Portugal.
1902 – Nasce em Lisboa, o irmão João Maria. Em setembro, volta para Durban.
1903 – Presta exame de admissão à Universidade do Cabo, obtendo a melhor nota no ensaio de inglês, ganhando o Prêmio Rainha Vitória.
1904 – Nasce, em agosto, a irmã Maria Clara. Conclui os estudos na África do Sul.
1905 – Sozinho, retorna definitivamente para Lisboa, passando a viver com a avó Dionísia.
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa. Morre a irmã Maria Clara.
1907 – Desiste do Curso Superior de Letras. Morre a avó Dionísia. Abre, por um curto período, uma tipografia.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1912 – Publica artigo literário na revista “Águia”.
1914 – Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” e o “Livro do Desassossego”.
1915 – No primeiro número da revista “Orpheu”, o poeta mata Alberto Caeiro.
1916 – Suicida-se o amigo Mário de Sá Carneiro.
1920 – Conhece Ofélia Queiroz. Os irmãos e a mãe voltam para Portugal. Deprimido, pensa em internar-se em uma casa de saúde. Rompe com Ofélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924 – Dirige com Ruy Vaz a revista “Athena”.
1925 – Morre, em 17 de março, em Lisboa, a mãe do poeta.
1927 – Passa a colaborar com a revista “Presença”.
1929 – Volta a relacionar-se com Ofélia Queiroz.
1931 – Rompe novamente com a namorada.
1934 – É publicado o seu livro “Mensagem”.
1935 – Internado em um hospital, no dia 29 de novembro, com diagnóstico de cólica hepática. Morre no dia 30