ÉDIPO – O MAIS HUMANO E TRÁGICO DOS MITOS

Outubro 30, 2009

A mitologia grega é constituída por uma vasta e rica galeria de personagens, dividida em deuses, semideuses e heróis. O mito de Édipo é o mais humano de todos, uma síntese da visão grega antiga diante da miséria e tragédia humana. Édipo nasce rei, portador de uma maldição que herdara do pai. Afastado da mãe, ele cresce criado por outra família de reis. Bonito, viril e inteligente, seu mito foge dos heróis tradicionais, como Aquiles, que têm a força guerreira como essência da virilidade e das aventuras épicas. Édipo tem a inteligência como aliada, que o faz justo, decifrador dos enigmas humanos e dos deuses, tornando-o, através da sabedoria, líder e vencedor do seu povo.
Mas justamente o maior enigma, o que rege a sua própria vida, será o ponto de busca de Édipo. Preso ao emaranhado das suas verdades, Édipo mata o próprio pai Laio, e casa-se com a mãe, a bela Jocasta. Torna-se um rei poderoso, reinando com justiça e sabedoria sobre Tebas. Mas Édipo, inocente nos atos que praticou, é culpado pelo assassínio do pai e pelo incesto com a mãe. O Destino decidira a sua tragédia, os deuses induziram-no aos crimes, para que se concretizasse a maldição que a ele estava legado.
Uma das características das religiões politeístas é de que o homem nasce e vive já com a determinação do Destino, entidade maior e soberana aos deuses. Os monoteístas afirmam que o homem é quem, através do livre arbítrio, determina o seu destino. O mito de Édipo alinhava as contradições, pois mesmo inocente, ele é culpado por herdar a maldição lançada sobre as gerações da sua família; assim como o Adão do cristianismo católico lança a maldição da morte sobre a sua geração humana.
Édipo é o mais humano e trágico dos mitos. A vitória sobre a esfinge, a vontade de triunfar sobre a maldição dos deuses, o assassínio do pai, o casamento com a própria mãe, e a necessidade inquietante de descobrir as verdades da alma humana, fazem de Édipo o mais vulnerável dos homens diante do espelho, assim como é a humanidade diante das suas próprias verdades. Édipo é a chave para o eterno amor involuntário entre mãe e filho, entre a verdade e a mentira. Ao descobrir quem é, não suporta a imagem do mundo e de si mesmo, furando os próprios olhos. Édipo, dentro da sua tragédia, é a mais perfeita concepção humana da criação mitológica, a visão que foge do herói e dos deuses, esboçando o retrato universal da psicologia da mente do homem e da sua eterna luta contra os deuses criados para justificar a solidão da alma.

Édipo, o Símbolo da Tragédia do Teatro Grego

Inicialmente, o mito de Édipo foi apenas mencionado nas obras “Odisséia” e “Ilíada”, de Homero (século IX a.C.). Aos poucos, sua saga mitológica foi desenvolvida, segundo alguns historiadores, num composto de poemas dos séculos VIII e VII a.C., que se intitulava “Edipodia”, e que ao longo do tempo, perder-se-ia definitivamente.
Foi o teatro grego que se apropriou do mito de Édipo, transformando o tema na sua maior tragédia. Foi através do teatro que a personagem atravessou os séculos, transformando-se no símbolo da tragédia humana, revelada em toda concepção, quer na sua psicologia, sexualidade, ambição e inteligência.
O perfil do mito de Édipo mais conhecido é o que Sófocles (496?-406? a.C.) descreveu nas suas tragédias “Édipo Rei”, “Édipo em Colona” e “Antígona”. “Édipo Rei” descreve-o como um jovem e impetuoso, que no auge da sua apoteose, vence a esfinge, mata o pai, casa-se com a mãe e torna-se o mais poderoso dos reis de Tebas. No auge do poder e da sua felicidade, Édipo é confrontado com as verdades dos seus atos. A peça de Sófocles traz um clímax de suspense, que se desenvolve como um teorema matemático rígido e preciso, onde fato a fato, desvenda-se a mais cruel das verdades. A peça culmina com a morte de Jocasta e a cegueira de Édipo. Na peça “Édipo em Colona”, o soberano aparece já velho e cego, exilado e conduzido pela filha Antígona. Finalmente, “Antígona”, última parte da Trilogia Tebana, mostra a tragédia na prole de Édipo, que atinge Antígona, Ismena, Etéocles e Polinice, filhos que teve com a própria mãe.
Ésquilo (525-456 a.C.) também dedicou parte da sua obra na criação de peças sobre o mito de Édipo, fazendo-as parte do ciclo tebano: “Laio”, “Édipo”, “Sete Contra Tebas” e “A Esfinge”, sendo a última um drama satírico. Finalmente, Eurípides (480?-406 a.C.), último dos três maiores tragediógrafos gregos, escreveu “As Fenícias”, onde mostra um Édipo já velho, vivendo em Tebas, enclausurado pelos próprios filhos.
Assim, Édipo é sinônimo da maior tragédia do teatro grego. Ponto fundamental da sua essência. É a maior personagem humana criada pela genialidade imaginativa da cultura da Grécia antiga.

As Raízes da Tragédia Sobre os Filhos de Lábdaco

A maldição que se abateu sobre Édipo teve início com Laio, filho de Lábdaco, sábio rei tebano. Quando o soberano morreu, Laio ainda era muito jovem para governar Tebas, o que levou Lico, fiel seguidor do rei, a assumir a regência do trono. Mas Lico teve o trono usurpado pelos sobrinhos Anfião e Zeto. Temendo ser morto, Laio fugiu para a Élida, sendo acolhido por Pélope, rei do lugar.
No reino de Pélope, Laio e Crisipo, filho mais jovem e preferido do rei, apaixonam-se violentamente. Escondidos, os jovens vivem aquele amor com a fúria dos amantes. Cego pelos sentimentos, Laio decide raptar o belo Crisipo. Na fuga, atrai para si a fúria de Pélope, que persegue implacável os amantes. Temendo os castigos do pai, Crisipo suicida-se. Tomado pela dor e pelo ódio, Pélope lança uma maldição que se irá abater sobre todas as gerações descendentes de Lábdaco, presentes, passadas e futuras. Ao ouvir a maldição de Pélope, os deuses olímpicos cuidam para que ela se cumpra, e o Destino assume a missão de concretizá-la por três gerações.
Após a morte de Crisipo, Laio retornou a Tebas, travou uma batalha árdua contra os usurpadores do trono, retomando-o definitivamente para si. Para reinar soberano e absoluto, o rei decidiu tomar como esposa à bela e sensível Jocasta. Tão logo a viu, tomou-se de paixão por ela, sendo perfeitamente correspondido pela mulher. Juntos, reinaram sobre Tebas, trazendo prosperidade para a cidade, e despertando o respeito do povo.
Feliz ao lado de Jocasta, Laio já não se lembrava da tragédia que se abateu sobre Crisipo. Reconstruíra a vida, fazendo-se justo e bondoso, amante e ardente. Para completar a felicidade, só lhes faltava um filho, que seria herdeiro de toda a opulência de um dos mais prósperos reinos da Grécia.

Édipo Nasce Sob os Presságios do Oráculo

Toda a Tebas regozijou-se quando a bela rainha Jocasta anunciou que esperava a vinda do herdeiro. Inicialmente feliz com a gravidez, Laio debruçou-se sobre o ventre crescido da mulher, sentindo repentinamente, uma forte dor. Involuntariamente, o rei deixava-se abater por uma tristeza desconhecida, por um estranho desespero quanto mais se aproximava a hora do parto.
Tomado pelo presságio, Laio decidiu seguir para Delfos, onde consultaria o templo de Apolo. No oráculo, perguntou sobre o herdeiro que nasceria do ventre de Jocasta. Implacavelmente, o oráculo revelou uma terrível profecia: “O filho que a rainha trazia no ventre mataria o próprio pai, e iria esposar a mãe, e, finalmente, levaria a ruína ao palácio de Tebas.”
Laio ficou transtornado diante de tão trágica revelação. Ao voltar para o palácio, ele revelou as palavras do oráculo a Jocasta. A rainha entristeceu, desolada, já não sentia alegria ao olhar para o ventre. Mesmo triste, não deixou de amar aquele que dela iria nascer, mesmo sabendo que trazia a maldição sobre todos.
Quando a criança nasceu, Jocasta uniu todas as forças do seu ser para entregá-lo ao marido. Com sofrimento, viu o filho ser-lhe arrancado dos braços pela força das profecias. Laio, em silêncio, tomou a criança para si e partiu. Jocasta deixou-se tombar sobre o leito, chorando todas as lágrimas de mãe, mas com a certeza que preservava a justiça de soberana.
Longe do palácio, Laio seguiu ao lado de um escravo, para o monte Citerão, com a determinação de eliminar o filho. No meio do bosque, ele olhou para o pequeno. Não teve coragem de matá-lo diretamente. Determinado, perfurou com violência os pés do recém-nascido, amarrando-os com uma correia, pendurando-o em uma árvore. Ali, deixou o pequeno para que morresse.
Mas o Destino já decidira que a criança não morreria, que cumpriria as palavras dos deuses, proferidas através do oráculo. Ao caminhar aos pés do monte Citerão, um pastor ouviu os choros do pequeno. Compadecido, tomou-o para si. Levou-o para Corinto, entregando-o ao rei Pólibo. O soberano limpou o sangue dos pezinhos da criança, lavando-os com água quente. Viu-o parar de chorar e sorrir na sua inocência infantil. Pólibo levou o pequeno à presença da mulher, Mérope. A rainha foi tomada de felicidade, pois o seu ventre jamais pôde conceber um filho. Juntos, os soberanos decidem adotar a criança. Deposita-o em um berço de seda branca. Chamam-no de Édipo, seria criado com todo o amor que lhe recusara os pais verdadeiros.

Pai e Filho em Um Embate Fatal

Édipo cresceu feliz em Corinto. Era admirado por todos. Crescera belo, trazendo um porte esguio que todos os rapazes imitavam. Nunca lhe fora revelada a verdadeira origem. Pólibo e Mérope criaram-no como filho e legítimo herdeiro do trono.
Mas já adulto, ele ouviu rumores de que era adotado. Apesar da negativa dos pais, tornou-se desconfiado, inseguro sobre quem era. Édipo jamais se fechava para as suas verdades, desde jovem que a perseguia, fosse ela terrível ou alegre. Assim, sob a desconfiança dos rumores que lhe chegavam, procurou o oráculo de Apolo, em Delfos, para que os deuses proferissem as suas verdades escondidas. Mais uma vez o oráculo foi cruel em suas palavras, dizendo ao jovem: “Hás de matar o teu pai e desposar a tua própria mãe.
Diante da cruel profecia, Édipo tentou anular as palavras dos deuses. Desesperado, abandonou Corinto, fugindo pelas estradas gregas. Decidira jamais retornar, para que não cumprisse a profecia de matar Pólibo e desposar Mérope. Seria eternamente errante, exilando-se de Corinto.
Mas os deuses já tinham decidido que se cumpriria a profecia. Errante pelas estradas, Édipo chegou à encruzilhada de Megas, onde os caminhos de Dáulis e Tebas convergiam. Pára indeciso. Onde caminhar? Para Tebas? Por que a sensação quase que vital de seguir o caminho daquela cidade? Na estrada, surge inesperado, o arrogante Polifontes, exigindo do forasteiro que se retire do caminho, para que o seu amo, Laio, possa passar. Diante das palavras rudes do servo, Édipo não se move, mantendo-se impassível. Irritado, Polifontes investe contra o jovem. Ao defender-se, Édipo desfere um golpe violento no agressor. Irado, Laio vinga o servo, atingindo com golpes o forasteiro. Édipo volta-se para Laio, fitando-o profundamente. Pai e filho, frente a frente, não se reconhecem. Atracam-se em uma violenta luta, batendo-se como ferozes inimigos. Laio tomba sob a espada de Édipo. Ao cair, banhado em sangue, olha para o agressor acometido de uma estranha ternura. A morte toma-o nos braços. Édipo continua a lutar com os arautos do rei, fazendo dois deles tombarem. Só um foge, escapando da fúria do forasteiro.
Apesar de ter cometido os crimes numa luta em defesa pessoal, Édipo sente-se estranho diante daqueles mortos. Prossegue o seu caminho errante, rumo a Tebas, onde os deuses reservavam para ele o total cumprimento da maldição. Na estrada, Laio jazia após o sangue derramado pela espada do filho.

Édipo Decifra a Esfinge e Desposa a Mãe

Após ainda errar pelas estradas, Édipo chega a Tebas. Encontra a cidade tomada pelo pânico. A Esfinge, um monstro metade mulher, metade leão, com cauda de dragão e asas de ave de rapina, lançava um terrível enigma a todos que passavam pela estrada: “Qual o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio dia e três no entardecer?
Ninguém sabia a resposta. Como punição, ela escolhia um cidadão tebano e devorava-o, fazendo a população refém do medo e do terror. Ao encontrar a Esfinge, Édipo aceitou-lhe o desafio. Ao ouvir o enigma, ele respondeu prontamente: “O homem. Na infância arrasta-se sobre os pés e as mãos; na idade adulta, mantém-se sobre os dois pés; e na velhice precisa usar um bastão para andar.
Diante da inteligência de Édipo, a Esfinge afligiu-se. Propôs lançar-lhe um novo enigma: “São duas irmãs. Uma gera a outra. E a segunda, por seu turno, é gerada pela primeira. Quem são elas?
Édipo respondeu sem hesitar: “A luz e a escuridão. A luz do dia clareia aberta no céu, gera a escuridão da noite, que, por sua vez, precede a luz do dia”.
O jovem respondera a todos os enigmas da Esfinge. Com sabedoria, desvenda-lhe as artimanhas e sortilégios. Envergonhada, ela subiu ao alto do rochedo, atirando-se sobre as pedras. O suicídio do monstro foi aplaudido pela população tebana. Édipo foi aclamado pelo povo como o seu rei, uma vez que o Laio estava morto e não deixara herdeiros.
Já rei, Édipo procurou conhecer a triste viúva de Laio. Triste, a bela Jocasta encontrava-se encerrada nos seus aposentos. Impetuoso, o novo rei invadiu-lhe a privacidade. Frente a frente, Édipo e Jocasta contemplam-se, movidos por uma estranha atração, um reconhecimento que urgia das entranhas. Sem que pudessem identificar quais eram aqueles sentimentos confusos, julgaram-nos frutos da paixão. Magneticamente atraídos um para o outro, entregaram-se numa dança de abraços e beijos ardentes. Extasiados, uniram os corpos nus em uma só alma. Mãe e filho amaram-se a exaustão dos sentidos. Na mente de Édipo estava decidido, a viúva de Laio seria a sua mulher e rainha.

Na Verdade a Cegueira

Por muitos anos, Édipo viveu feliz ao lado de Jocasta. Com ela gerou quatro filhos, duas mulheres, Ismena e Antígona, e dois homens, Etéocles e Polinice. Tornou-se um soberano sábio e amado pela população tebana. Mas um dia, Tebas foi assolada por uma terrível pestilência. Nos campos, as plantas secavam, os vegetais morriam, levando à fome a todos.
Preocupado com a tragédia que se abatera sobre o seu reino, Édipo decidiu consultar o oráculo. Enviou Creonte, irmão de Jocasta, para Delfos. Mais uma vez, os deuses foram implacáveis: “A peste só findará quando o assassínio de Laio for vingado”.
Ao saber da determinação do oráculo de Apolo, Édipo inicia uma contundente investigação para descobrir o assassino de Laio. Implacável na busca da verdade e da justiça, Édipo consultou Tirésias, um velho adivinho cego, capaz de na escuridão dos seus olhos, ver o futuro e o passado. Pressionado por Édipo, não resta ao adivinho senão revelar a pungente verdade, o rei de Tebas era o assassino de Laio.
Pensando ser vítima de uma conspiração para tirá-lo do poder, Édipo expulsa Tirésias do seu reino. Mas não desiste de buscar a verdade. Ao ver a aflição do marido, Jocasta tenta tranqüilizá-lo, pois não poderia ele ter morto Laio. Conta-lhe que uma profecia dissera que o marido seria morto pelo próprio filho, mas que anularam a profecia ao abandonar a criança à morte, no monte Citerão. Laio, afirmava Jocasta, morrera em combate em uma encruzilhada, por um estranho.
Quanto mais ouvia Jocasta, mais Édipo perdia-se nas verdades que se lhe empestava o ar. Inquieto, angustiado, Édipo começa a questionar os detalhes da morte de Laio. Sabe que houve um sobrevivente. Pede para que ele seja encontrado e venha à sua presença.
Simultaneamente, um mensageiro chega de Corinto, anunciando a morte de Pólibo. Mesmo diante da tristeza pela notícia, Édipo respira aliviado, a profecia dos deuses falhara, o pai não morrera pelas suas mãos. Mas o alívio dura pouco, o mensageiro revela-lhe que ele não era filho de Pólibo, que havia sido recolhido por um pastor, que vira Laio abandoná-lo no monte Citerão. Ainda um recém-nascido, foi levado para Corinto e criado pelos soberanos da cidade.
Ao ouvir aquela revelação do mensageiro de Corinto, Jocasta entende a verdade. O homem a quem amara e com quem concebera quatro filhos, era o herdeiro maldito gerado por seu ventre. Desesperada, a rainha fugiu para os seus aposentos. A dor da revelação queimava-lhe o peito. Por toda a vida, sonhara em ter o filho nos braços, tivera-o de forma indigna, como marido e amante. Édipo era o seu filho. Perdida no desespero da revelação, a bela Jocasta enforca-se. Morre sem soltar um único gemido. No rosto pálido pela chegada da morte, duas últimas lágrimas percorrem a sua extensão.
No imenso salão do palácio, Édipo, ao chegar o servo de Laio, ouve dele a última revelação, o homem reconhecia no rei o mesmo forasteiro que matara o amo na encruzilhada de Megas. Édipo finalmente, decifra o seu próprio enigma, era filho de Laio, a quem matara; e de Jocasta, a quem desposara. Desesperado diante da revelação, Édipo corre para os aposentos da rainha, na esperança de abraçá-la como mãe e pedir perdão pelo seu erro ignóbil. Quando chega ao quarto, encontra a bela rainha sem vida, morta pelas próprias mãos e pela culpa. Diante do espelho das suas verdades, Édipo decide não mais ver o mundo. A imagem da mãe e esposa morta seria a última que iria enxergar. Em um ato de desespero, justiça e de punição, ele arrancou os broches que enfeitavam o vestido de Jocasta. Com eles perfurou os próprios olhos, mergulhando para sempre no mundo da cegueira.

Uma Fenda Traga o Corpo de Édipo

Para livrar Tebas da peste, Édipo prometera banir o assassino de Laio do meio da sua população. Ao se lhe revelar a verdade, o infeliz soberano, viu-se vítima do próprio decreto. Banido, cego, mendigo e esquálido, Édipo partiu pelas estradas da Grécia, a expiar a sua culpa e maldição. Na sua caminhada, foi sempre conduzido pela filha Antígona, que jamais abandonaria o pai.
Depois de permanecer andarilho por várias terras, Édipo chegou a Colona, na Ática. Ali, refugiou-se no templo das Eumênides, onde finalmente sentiu um alívio para a sua culpa, descansando na felicidade dos justos. Velho e mendigo, Édipo perdera tudo que pode perder um homem, a juventude, a mãe e esposa, o trono, a riqueza, a visão. Restara-lhe o amor incondicional de Antígona.
Após ver Édipo errar e a viver o castigo que impusera para si mesmo, Apolo, o deus que sempre profetizara a sua miséria, e através das armadilhas do Destino, cobrara-lhe o cumprimento dela, finalmente compadecera-se do seu sofrimento. O deus da luz confortou-o nos últimos anos de vida, atraindo a benção do Olimpo para o lugar que lhe serviria de sepultara.
Já velho e cansado, Édipo caminhou até a beira de um precipício, ali se sentou em uma pedra, vestindo-se com uma mortalha. Ouviu-se um grande estrondo no céu. A terra abriu-se suavemente, recebendo o corpo sofrido e expurgado de Édipo. O local da tumba do mais famoso rei de Tebas jamais foi revelado. Sabe-se apenas que está na Ática, e por isto, aquele solo é abençoado pelos deuses do Olimpo.

A Concretização da Maldição

Mas a maldição sobre a descendência de Lábdaco não se encerrou na tragédia de Édipo. Após a morte do pai, Antígona retornou a Tebas, para juntar-se aos irmãos, Ismena, Etéocles e Polinice, únicos parentes que lhe restaram no mundo.
Ao retornar a Tebas, Antígona encontrara os irmãos, Etéocles e Polinice em uma acirrada disputa pelo trono. Num confronto final, os dois irmãos envolveram-se em uma luta sangrenta e fatal. O resultado foi a morte de ambos.
Creonte, tio dos irmãos fratricidas, irmão de Jocasta, herdou o trono de Tebas. Etéocles era o sobrinho preferido de Creonte, por isto ele o enterrou com todas as honras, deixando o corpo de Polinice abandonado onde tombara morto, proibindo sob pena de morte, qualquer pessoa de enterrá-lo.
Antígona não se conformou com a sorte de Polinice, tentou sob todos os argumentos, convencer o tio a deixar que o irmão fosse sepultado, pois sabia que sem os rituais fúnebres, o malogrado príncipe seria condenado a vagar por cem anos pelas margens do rio dos mortos. Diante da indiferença de Creonte, Antígona desobedeceu às suas ordens, e enterrou Polinice com as próprias mãos. Como castigo, o soberano condenou-a a ser enterrada viva. Mesmo diante das súplicas de Ismena, a mais bondosa filha de Édipo foi cruelmente enterrada viva pelos arautos de Creonte.
Ismena, a última sobrevivente dos filhos de Édipo e Jocasta, seria morta mais tarde pelo guerreiro Tideu. Ao atingir a terceira geração, estava concretizada a maldição lançada por Pélope sobre os Labdácidas.


MUSAS E GRAÇAS – BELEZA E HARMONIA DA ARTE

Setembro 25, 2009

A civilização grega evoluiu no domínio da filosofia, da arte e na percepção de encontrar a personificação da beleza suprema e da harmonia. No contexto da inspiração humana, os gregos consideravam a arte e a beleza dons divinos, provenientes dos deuses, que em determinado momento de generosidade transmitia-os aos mortais, através de entidades específicas.
A inspiração criativa dos humanos era dada através das Musas e das Graças, seres mitológicos que constituem uma das mais esplendorosas concepções que a cultura helênica inventou para simbolizar o poder de criação da mente. Musas e Graças extraiam do homem o que de mais belo havia em seu coração, fazendo dos pastores poetas, dos brutais guerreiros suaves cantores, dos navegantes escultores de uma obra quase perfeita.
Na acepção mais antiga das lendas, as Musas eram Ninfas habitantes dos bosques e das montanhas, vivendo próximas dos rios e das fontes. Belas e harmoniosas, caminhavam por vales bucólicos, de beleza poética e inspiradora, sendo, em determinado momento da cultura grega, elevadas à categoria de divindades inspiradoras da poesia e do canto.
O poeta grego expressava a sua poesia através do canto e da música, o que tornava as Musas também cantoras e músicas, e exímias criadoras das danças. Na versão mais completa do mito das Musas, eram nove divindades, filhas de Zeus (Júpiter) e Mnemósine (a Memória). Foram geradas pelo senhor do Olimpo para que através da memória universal herdada da mãe, perpetuassem a façanha dos deuses através do tempo, através de todos os cantos do mundo. Numa das versões do mito, habitavam o monte Helicão, na Beócia, um local repleto de bosques e fontes. Nas versões mais poéticas, eram habitantes do monte Parnaso, em Delfos, ao lado do deus da luz, Apolo, a quem cortejavam e ajudavam na inspiração criativa dos mortais.
As três Graças são as entidades mitológicas que alegram a natureza e o coração dos homens, fazendo com que aflorem a sensibilidade do poeta e do cantar. Representam tudo que é doce, como a flor desabrochada, as ramagens renascidas e verdes, o encanto, a doçura humana, fazendo com que a vida seja menos triste.
Musas e Graças representam na mitologia grega a inspiração que significa a própria essência da arte, a personificação da beleza suprema harmonizando o homem com a natureza, o corpo com a perfeição dos músculos e dos traços, a estética com a palavra, o canto com a poesia.

Origem e Habitação das Musas

O mito das Musas suscita várias versões relativas às origens. Mimnermo, poeta do século VII a.C., atribui-lhes a paternidade a Urano (Céu), fruto do seu amor procriador com Gaia (Terra). Outras versões consideram-nas filhas de Píero, sem indicar, ao certo, a mãe, que seria Antíopa, ou Pimpléia. Há os autores que atribuem a maternidade a Pimpléia, mas não com Píero, e sim com Zeus. A versão mais comum é a de que seriam filhas de Zeus com a titânia Mnemósine,a Memória.
Reza a lenda que quando Zeus venceu Cronos (Saturno) e os Titãs na guerra pelo poder dos deuses, sentiu a necessidade de registrar a vitória através dos cânticos do mundo. Para perpetuar o esplendor da nova era que originou o governo dos deuses do Olimpo sobre os mortais, era preciso que seres especiais e dotados de memória o fizessem através dos tempos. Zeus escolheu a titânia Mnemósine, a deusa da memória, para com ela engendrar o filho que iria perpetuar o canto da vitória dos deuses. Durante nove noites, o senhor do Olimpo amou Mnemósine. Desse amor feito em forma de um poema de horas, nasceu não um filho, mas nove filhas. Nove irmãs que traziam entre si a beleza e a harmonia, mescladas ao dom da inspiração. Eram as nove Musas.
A lenda que atribui Mnemósine como a mãe das Musas, diz que elas nasceram em Piéria, leste do Olimpo, lugar onde morava a deusa. Por isto eram chamadas de Musas Pierias. Vertentes da lenda atribuem o local como o da habitação das divindades. Muitos apontam o monte Helicão, na Beócia, como a verdadeira moradia, sendo as entidades denominadas de Musas Beocias. A versão mais propagada pelos poetas através dos tempos é de que habitavam o mítico monte Parnaso, em Delfos, no centro da Grécia, sendo conhecidas como Musas Délficas. Seja qual for a versão da moradia das Musas, era sempre um local repleto de fontes e bosques, onde as águas (em especial as do monte Helicão) tinham propriedades de conceber o dom profético e inspirar os poetas.

O Culto às Divindades Inspiradoras da Arte

Os gregos antigos consideravam as Musas não como um sinônimo da arte, mas como a própria arte. Eram cultuadas como divindades inspiradoras da verdade, pois os poetas recorriam às palavras como fonte segura de não se contar mentiras e falsidades aos homens, a palavra, soprada aos ouvidos, ao ser escrita, virava um registro, que mesmo envolvido pela fantasia da liberdade criativa, tornava-se um relato fincado na verdade. Também as profecias eram vociferadas em forma de poesia.
O templo mais antigo erigido às Musas estava na Trácia, onde se originou o culto a elas. Mais tarde, propagou-se esse culto para a Beócia, tendo grande importância ao pé do monte Helicão, considerado o local mágico onde habitavam. Inspiradoras da arte, em especial da poesia e da música, elas faziam parte do séquito do deus Apolo, sendo por isto, veneradas juntamente com o deus em Delfos, um dos maiores santuários da Grécia antiga, erigido em honra do deus da luz.
Em tempos mais remotos, as Musas eram veneradas como deusas virgens, que puniam gravemente àqueles que tentassem tocá-las e possuí-las. Com a evolução da cultura grega e das suas cidades estados, o mito das Musas também evoluiu e deixaram de ser vistas como eternas virgens, surgindo lendas de uniões amorosas por elas vividas e de filhos. Calíope ou Clio, duas das Musas, seriam mãe de Orfeu, conforme a versão da lenda.
Seguindo à evolução cultural grega, passaram a ser vistas como inspiradoras dos grandes reis, tornando-os mais sensíveis à arte e mais justos. Mais tarde, além dos poetas, foram conclamadas inspiradoras dos médicos, cientistas, legisladores e navegantes. A inspiração era vista pelos gregos como sagrada, fazendo dos poetas homens próximos da imortalidade dos deuses, a origem divina da energia interior do artista era apenas uma, a Musa.

Os Artistas e as Musas

Habitantes dos montes, quer o Helicão ou o Parnaso, dos bosques e das fontes, as Musas também passavam grande parte do tempo no monte Olimpo, a morada oficial dos deuses. Tinham como função alegrar o banquete dos imortais, entretendo-os com seus cantos melódicos e danças suaves.
Mas não eram apenas os deuses olímpicos que eram contemplados com o encanto e beleza das Musas, também os mortais usufruíam pessoalmente da arte das deusas. Conta a lenda que, à noite, as nove deusas envoltas em suaves nuvens, desciam às casas dos mortais, participando das suas festas e celebrações. Discretamente, juntavam-se ao coro de vozes humanas, tornando-os melodiosos e de uma suavidade divina. Quando um coro alcançava o ápice da beleza, dizia-se que eram as Musas que o regiam naquele instante fecundo.
Grandes poetas atribuíam às Musas a sua inspiração. Homero (século IX a.C.), invocou-as para auxiliá-lo na concepção e elaboração dos seus poemas épicos, “A Odisséia” e “A Ilíada”. Safo (século VI a.C.), escritora da ilha de Lesbos, aclama uma musa como fonte de inspiração da sua escrita e de todos os poetas. Píndaro (518-446 a.C.), evoca-as em suas famosas “Odes”. Hesíodo (século VIII a.C.), afirmava que fora as Musas quem lhe despertara o dom da poesia, quando ele era ainda um pastor, sendo as responsáveis pela criação da sua obra-prima, “Teogonia”. Em toda a Grécia antiga, os poetas épicos e líricos, invocavam as Musas, chamando os seus nomes em público. Ocuparam um lugar importante na comédia do teatro grego, não acontecendo o mesmo no drama trágico. Também os escultores buscavam a inspiração da beleza de suas estátuas não só em Apolo, como naquelas que faziam parte do seu séquito.

Nomes e Funções das Nove Musas

As características lendárias mais freqüentes no mito das Musas foram atribuídas por Hesíodo, desde a concepção que confere Zeus e Mnemósine como os pais das deusas, à fixação do seu número em nove. Se Homero não especificou nomes e o número, referindo-as como um todo, Hesíodo nomeou cada uma delas: Clio, Euterpe, Talia, Melpômene, Urânia, Calíope, Terpsícore, Érato e Polímnia.
Se Hesíodo e outros poetas antigos deram nomes às nove Musas, a função de cada uma delas foi atribuída em época mais recente. Assim, cada Musa é responsável por uma parte da arte e da ciência:
Clio – Seu nome significa “glória e reputação”, a ciência que representa é a História, tendo como função relatar o feito de todos os heróis gregos e universais. Tem como símbolos a clepsidra e o clarim. Nas artes, é representada como uma jovem coroada de louros, trazendo na mão direita uma trombeta e na esquerda um pergaminho entreaberto.
Euterpe – Seu nome significa “deleite”. Preside à música, representada pela poesia lírica cantada pelos poetas antigos. Tinha como símbolo a flauta. Nas artes é representada como uma jovem coroada por flores, trazendo a flauta, tendo ao lado papéis de músicas e instrumentos musicais.
Talia – Seu nome significa “a que sempre floresce”. Personifica a comédia do teatro grego, é representada como uma jovem vestindo uma máscara cômica, coroada por ramos de hera e calçando borzeguins.
Melpômene – Seu nome significa “a que diz e canta”. Representa a tragédia no teatro grego, o drama, apesar de não se fazer alusões às Musas nas grandes tragédias clássicas, Melpômene era a Musa protetora do gênero. Na arte é representada com uma máscara trágica, coroada por folhas de videira. Traz um semblante sério, portando ricos vestidos, calçando coturnos.
Terpsícore – Seu nome significa “prazer”. Simboliza a dança. É representada coroada por grinaldas, tocando uma lira ou a cítara, instrumento também tocado por Apolo e considerado de som perfeito pelos gregos antigos.
Érato – Seu nome significa “a amável”, a que desperta desejo. Personifica a poesia lírica e erótica. Na arte é representada como uma jovem coroada de mirto e rosas, segurando na mão direita uma lira, na esquerda um arco.
Polímnia – Seu nome significa “muitos hinos”, ou segundo algumas versões, “muita memória”. É a Musa protetora da oratória e do ditirambo, composição lírica que, por exprimir uma forte pulsação de entusiasmo, foi utilizada como hino em honra a Dioniso (Baco). Na arte é representada com semblante pensativo, vestindo roupa branco e a portar um véu.
Urânia – Seu nome significa “a celeste”, representa a Astronomia e as Ciências Exatas em geral. Tem como símbolos um globo celeste e um compasso. Na arte, é representada trajando um vestido azul, coroada de estrelas, trazendo um globo na mão.
Calíope – Seu nome significa “a voz bela”, sendo apontada como a mais sábia das nove Musas. Suas atribuições sofrem divergências dos autores, sendo vista por alguns como a Musa da eloqüência, da retórica e da poesia heróica, e, por outros, como representante da poesia épica. Na arte, Calíope é representada com um diadema de ouro que a distingue de suas irmãs, sendo apontada e identificada como a rainha das Musas. Segundo algumas versões, o amor entre Calíope e Éagro, rei da Trácia, frutificou no nascimento de Orfeu, o maior cantor de toda a mitologia grega. Outras vertentes da lenda apontam Orfeu como filho de Clio e do deus Apolo.

As Três Graças

Entidades que personificam a alegria e beleza extraída do coração dos homens, as Graças, também chamadas de Cárites, têm várias vertentes quanto à origem, sendo apontadas por alguns autores como filhas de Hélios (Sol) e Egle. Outros referem-nas como filhas de Zeus com a oceânida Eurínome.
Assim como as Musas, as Graças são inspiradoras do bom e do belo. O culto às três divindades era geralmente realizado na Grécia juntamente com o das Musas. A poetisa Safo criou em Lesbos uma confraria consagrada à Afrodite (Vênus), às Musas e às Graças. A confraria era chamada popularmente como a morada das servas das Musas, designada por “museu”, que originou a palavra usada nos dias atuais onde são guardadas obras de arte. O principal centro do culto às Graças situava-se em Orcômeno, na Beócia, ali eram veneradas juntamente com Afrodite.
As Graças eram vistas pelos poetas como entidades que refletiam a doçura da natureza, da terra e dos frutos, refletidas na beleza das flores, das ramagens das árvores. As mulheres gregas cultuavam as deusas, com quem aprendiam a arte e a educação que lhes dava boas maneiras. No culto às Graças, elas cultivavam o ideal da beleza feminina, a graciosidade e a delicadeza. A mulher grega deveria saber dançar e saber tocar algum instrumento, para acompanhar a sua voz, que deveria ser suave e harmoniosa. Para este fim, deveriam pedir inspiração às Musas e às Graças, para que pudessem ser belas e saudáveis, sendo assim, aptas a dar prazer ao homem.
Divergências sobre o número e os nomes das Graças são encontradas ao longo dos séculos e dos autores. Em épocas mais remotas, apenas duas Graças eram mencionadas. Seus nomes mudavam conforme a região. Em Atenas eram chamadas de Hegemone e Auxo; em Esparta eram denominadas Cléia e Faena. Também Homero, o maior poeta da Grécia antiga, considerava que havia apenas duas Graças, chamando-as de Cáris e Pasitéia. Crisipo (281-208 a.C.), apontava duas Graças, Caris e Cárite, cujos nomes significam “graça” e “beleza” respectivamente; o filósofo grego sugeria aos mortais que se inspirassem nos dois nomes, pois assim o eram para que fizessem belas ações e fossem gratos aos que a praticavam.
As lendas mais comuns referentes às Graças, denominam que são três: Eufrosina, Aglaia e Talia. Nas artes são sempre representadas como três jovens, em círculo, de mãos dadas, com duas irmãs nas extremidades viradas para frente, enquanto que a do meio está de costas. Muitas vezes são representadas como fazendo parte do séquito da deusa da beleza e do amor, Afrodite.
Aglaia – Seu nome significa “a brilhante”, que resplandece. Era considerada a mais bela das irmãs, simbolizando a inteligência e a criatividade intuitiva.
Eufrosina – Seu nome significa “aquela que alegra o coração”. Personifica a alegria e graciosidade, sintetizando os benefícios do Sol.
Talia – Nome também dado a uma das nove Musas, cujo significado é “a que sempre floresce” ou “a que faz florescer”, trazendo o calor solar que fazia a primavera brotar.


APOLO, O DEUS DA LUZ

Agosto 27, 2009

De todas as divindades do Olimpo, nenhuma recebeu tantas honras na Grécia antiga quanto o deus Apolo. Filho de Zeus (Júpiter) e Leto (Latona), o deus passou a ser, através dos tempos, a principal divindade cultuada pela civilização helênica. Aos poucos, várias funções foram atribuídas a ele, fazendo com que adquirisse várias faces.
Considerado a última geração dos deuses olímpicos, assume importância equiparada as do pai, Zeus, senhor dos deuses, tornando-se mais cultuado do que os tios, Poseidon (Netuno), rei dos mares, e Hades (Plutão), senhor dos infernos. Considerado o deus da luz, Apolo, aos poucos roubou as funções de Hélios (Sol), minando o culto àquele deus.
Na Grécia antiga a luz era tida como essencial para o desenvolvimento da civilização. Era através dela que se clareava a escuridão da Terra e do homem. O fogo, que transmitia luz e calor, era tido como o elemento vital na construção psicológica do homem. Tanto que foi a partir do roubo de Prometeu à chama dos deuses, que a consciência humana foi despertada. Ao dominar a luz, Apolo garantia as colheitas agrícolas, e ao iluminar a mente humana, tirava os homens das trevas da ignorância, fazendo-o triunfante diante das artes, da medicina e da filosofia. Sem a luz de Apolo, a Grécia estaria morta, perpetuada nas trevas.
Divindade de origem indo-européia, ao ser introduzida na Grécia, conservou grande parte das suas funções primitivas. O núcleo primitivo do mito de Apolo trazia na sua essência a explicação das necessidades primárias da vida, porque a luz garantia a agricultura e a navegação. Apolo era quem protegia a existência do homem dos fenômenos naturais que conduziam a formação de uma sociedade que sobrevivia do campo, da pecuária e do mar. Quando a civilização grega desenvolveu-se, gerando núcleos urbanos avançados, mergulhados na política e na filosofia, também Apolo adquiriu novas funções, deixando as primitivas para tornar-se protetor das artes, da medicina, da música e da poesia.
Através de Apolo, os deuses adquirem um rosto humano. O deus passa a representar a beleza e a obsessão grega em atingir a perfeição. Apolo passa a ser a imagem da beleza pretendida, infinitamente perseguida nas inúmeras estátuas que se lhe são atribuídas. Torna-se o símbolo da vitória do belo sobre o feio, do erudito sobre o vulgar, da filosofia sobre a ignorância, da luz sobre as trevas.
Conduzindo um carro puxado por cavalos presenteados por Hélios, o Sol, Apolo navega o céu, trazendo a luz aos homens. Ao lado das suas súditas, as Musas, inspira aos poetas e aos artistas, ensina aos homens a arte da medicina e, simboliza a harmonia da beleza perfeita, a essência do ideal grego.

As Múltiplas Funções Primitivas

Leto, após ter vivido um ardente romance com Zeus, perdeu totalmente a paz. Grávida do senhor dos deuses, ela foi perseguida por Hera (Juno), a ciumenta esposa do amante. Leto andou por todos os cantos da Grécia, a fugir da rainha do Olimpo. Chegou a ilha de Delos, onde daria à luz aos gêmeos Apolo e Ártemis (Diana). Quando os deuses nasceram, a ilha antes desértica e estéril, tornou-se fértil e florida. Apolo trazia consigo a luz, a vida e a beleza.
No início da civilização grega, o fogo e a luz eram elementos considerados essenciais, vitais para o progresso humano. Sem a luz haveria apenas as trevas. Quando o culto a Apolo foi introduzido na Grécia, foi assimilado a Hélios, o Sol. Se Hélios era o próprio astro solar que pairava no céu, Apolo era a luz, o condutor do calor sobre o solo. A luz garantia a sobrevivência, a partir dela vários fenômenos eram acionados, o que levou inúmeras funções a Apolo. Na claridade, os mares poderiam ser navegados, se Poseidon era o senhor dos mares, senhor das tempestades, terremotos e maremotos, Apolo era a orientação. Nenhum navegante grego ousava sair ao mar sem invocar a proteção do deus solar. Apolo roubava, assim, os cultos a Poseidon. Como as ilhas gregas representavam uma força econômica maior do que as terras continentais, o culto a Apolo tornou-se mais tenaz dentro delas.
Se a luz era essencial para garantir os pastos, as colheitas agrícolas, mais uma vez os gregos invocavam a proteção de Apolo, que assumia funções da deusa da agricultura, Deméter (Ceres). A primeira colheita da primavera era dedicada a Apolo por meio de grandes festividades. Os agricultores agradeciam assim, a volta de Apolo ao mundo e o fim do inverno.
Uma das lendas mitológicas atribuíam o outono e o inverno ao rapto de Core (Prosérpina) por Hades, o deus dos mortos. A mãe da jovem, Deméter, não se conformou em ter a filha a morar no reino dos Infernos. Desgostosa, a deusa da agricultura abandonou a terra, que foi assolada pela fome. Para mediar a situação, Zeus ordenou que Core vivesse seis meses do ano no Érebo e seis meses no Olimpo, ao lado da mãe. Assim, quando Core voltava dos infernos, a terra florescia novamente, trazendo a primavera.
Outra lenda atribuía o inverno a Apolo, que uma vez por ano viajava para o país dos hiperbóreos, levando Hélios consigo. Na terra de homens honrados e justos, Apolo convivia feliz, ao eco dos cânticos harmoniosos dos hiperbóreos e dos seus corais de meninos. Quando terminava as férias, Apolo retornava ao mundo, e com ele voltava o sol, começava a primavera. Graças a esta lenda, era atribuída a Apolo a mudança das estações.
Assim, pastores, navegantes e agricultores, promoviam cerimônias religiosas em honra a Apolo, onde ofereciam sacrifícios ao deus. Multiplicar as colheitas, conduzir os pastores e, orientar os navegantes, eram as funções que faziam parte do mito primitivo de Apolo.

O Deus Protetor da Música e da Poesia

Em meados do século IX a.C., a civilização grega alcançava grande desenvolvimento. A luz continuava essencial na cultura helênica. Aos poucos, ela deixava de ser mitificada apenas nos atos básicos de uma civilização primitiva, para iluminar a mente avançada de um povo que se tornava sofisticado e erudito. A luz sobre a consciência arrebatava o homem das trevas, levando-lhe ao conhecimento e à perfeição diante da vida, das artes e das doenças. Apolo passou a ser o deus que iluminava a sabedoria humana.
Às funções primitivas de Apolo juntavam-se novas, muitas delas contrastavam umas com as outras. Tornou-se o deus protetor das artes e inspirador dos artistas. Passou a ser o símbolo da erudição grega, que impôs a sua cultura aos povos ao redor.
A lenda da disputa de Apolo e Mársias refletia a vitória da cultura grega sobre a cultura asiática. Para os gregos a flauta era um instrumento rude, incapaz de acompanhar as belas canções dos grandes poetas gregos, que exaltavam a epopéia dos seus heróis. A lira era considerada perfeita como instrumento, os helênicos elegiam o seu som como o mais puro, o mais harmonioso dos que se podiam produzir. A Apolo era atribuída a sua invenção. A flauta vinda da Ásia, passou a ser um instrumento a despertar o ciúme dos músicos gregos.
Conta a lenda que um dia, Apolo foi chamado a uma nobre assembléia no alto do monte Parnaso, local onde viviam as nove Musas, para com a sua lira, competir com um afamado flautista, Mársias, que chegara da Frigia. Da flauta de Mársias surgiu um som grosseiro e vulgar. Da lira de Apolo ouviu-se um som elevado, de harmonia perfeita e beleza irresistível. Encantadas com a lira de Apolo, as Musas declararam-no vencedor, aclamando-o deus protetor da música, da poesia e dos poetas.
Para punir a ousadia de Mársias, o frígio, Apolo esfolou-o vivo, depois suspendeu o seu corpo na entrada de uma caverna, para que todos vissem o fim de um som imperfeito e admirassem a lira grega como o mais perfeito dos instrumentos. A lenda representava a superioridade da cultura grega diante da asiática.
A associação de Apolo com as Musas passou a fazer parte do mito do deus da luz. Protetor absoluto das artes, as Musas atuavam como intermediárias do deus. Eram a elas que os poetas invocavam proteção direta. Também através das musas, os médicos invocavam a proteção de Apolo.

Deus da Medicina e dos Médicos

Com a evolução da medicina na Grécia, o deus escolhido para protetor foi Apolo. Os gregos viam os médicos como artistas que exerciam o seu talento sobre a vida humana, sobre a fisiologia do corpo.
A medicina era tida como uma arte, a saúde nada mais era do que a harmonia entre o corpo externo e a alma, entre as diversas partes anatômicas do homem e a sua mente; uma arte tão bela quanto a música. O médico era um mediador que assim como um músico, cuidava das dissonâncias que perturbavam a harmonia e beleza do corpo. Cabia a Apolo proteger à medicina e aos médicos.
Quando nasceu Asclépio (Esculápio), filho de Apolo e de Corônis, o deus da luz e das artes passou ao filho a atribuição de protetor da medicina. Asclépio herdou a sabedoria do pai. Educado pelo sábio centauro Quirão, logo desenvolveu a arte da medicina, descobrindo xaropes e antídotos das plantas silvestres, bebedeiras miraculosas extraídas das raízes. Preparava bálsamos que venciam graves enfermidades, e ungüentos que aliviavam as mais terríveis feridas.
A fama de grande médico de Asclépio percorreu toda a Grécia. O lugar onde vivia, Epidauro, passou a receber visitantes de todas as partes, que vinham em busca da cura dos seus males. Aos poucos, os gregos passaram a cultuar o filho de Apolo, esquecendo de Zeus, o senhor do Olimpo. Preocupado com o poder de Asclépio sobre a vida humana, enciumado com os cultos dirigidos a ele, temente que não houvesse mais morte entre os enfermos, o que os faria livres da proteção dos deuses; Zeus decidiu fulminar o neto com os seus raios. Para isto, pediu aos Ciclopes que o fizessem.
Como vingança, Apolo exterminou os Ciclopes, voltando a assumir a função de protetor da medicina, que tinha atribuído ao filho. Cabia ao deus não só curar, como também provocar as doenças e as pestilências.

Imagens de Apolo

O deus das artes e inspirador dos artistas, passou a ser símbolo da beleza e da busca obsessiva dos gregos em encontrar a sua perfeição. Apolo passou a ter a imagem esculpida em estátuas de belezas anatômicas perfeitas. O divino grego passou a ser representado em figuras humanas. Ao contrário das religiões antigas, que tinham deuses híbridos, em parte animal, em parte humana; ou, as semitas que não permitiam a adoração de uma imagem na forma divina, os gregos faziam dos deuses o espelho da sua imagem.
Apolo era o deus da luz, das artes e da beleza. As estátuas que lhe prestavam homenagem traziam uma beleza perfeita, símbolo do ideal grego. A inspiração era encontrada nos ginásios de atletas, onde os homens exibiam os seus corpos nus quando praticavam esportes. As estátuas de Apolo traziam uma nudez perfeita, às vezes cortada por um manto. Para que fossem esculpidas, os artistas juntavam os mais belos mancebos, selecionando de cada um a parte do corpo mais perfeita, somando o que havia de mais belo na anatomia humana.
Quando a obra esculpida era a do deus da luz, tudo era estudado minuciosamente, o lineamento entre a cabeça e o tronco, a perfeição do torso em comparação aos membros, a simetria perfeita entre a testa e o queixo, a cabeça e os cabelos. Juntando os dados, criavam a imagem de um deus de uma beleza ideológica, que representava o ideal perseguido pela civilização helênica em seu apogeu cultural. As mais belas estátuas de Apolo foram produzidas nos séculos V e IV a.C. , como a famosa estátua de Apolo de Belvedere, de autor desconhecido, ou a obra de Praxíteles (370? – 330? a.C.), modelada nos traços de sete belos rapazes atenienses.

Amores Impetuosos

Apolo era um deus impetuoso, ardente e constantemente apaixonado. Dentro desta impetuosidade, viveu amores sofridos e de fins trágicos, demarcando o lado humano da tragédia e das paixões.
A sexualidade grega e os seus costumes amorosos, também refletiram nas lendas de Apolo. O costume grego de recorrer à pederastia como iniciação da vida sexual, onde era considerado de profunda elevação social um homem aristocrata mais velho tomar um mancebo como amante, passando-lhe não só os segredos do sexo, como os conhecimentos culturais, militares e religiosos. O mito de Apolo serviu para que este costume fosse legitimado na sociedade grega.
De todos os deuses do Olimpo, Apolo é aquele que tem maior número de amores homossexuais. Os mais famosos foram os que ele viveu com Jacinto e Ciparisso. Com Jacinto viveu um amor intenso, depois de vencer uma disputa com Zéfiro pelo coração do rapaz. Quando praticava arremesso de discos com o amante, Apolo foi surpreendido pela vingança de Zéfiro, que soprou o disco arremessado contra o rosto de Jacinto. Ao perder o amado para a morte, Apolo transformou o sangue derramado em uma flor púrpura, com cálice em forma de lírio, a qual chamou de jacinto.
Ciparisso arremessava dardos com Apolo, quando atingiu mortalmente um cervo de estimação que lhe dera o deus. Desesperado, o jovem amante chorou incessantemente, pedindo a Apolo que jamais se lhe secasse as lágrimas. Para atender ao pedido, Apolo transformou Ciparisso em um cipreste, árvore que da sua resina formava gotículas de lágrimas no tronco.
A lenda de amor mais conhecida do mito de Apolo é a que viveu com Dafne. Ao deparar-se com a beleza da ninfa, o deus foi fulminado pela paixão. Declarou-se a ela, fez-lhe as mais ternas juras de amor, mas não atingiu o coração da bela. Solitária, Dafne jurara jamais pertencer a homem algum, fazendo um voto de castidade aos deuses. Diante do assédio de Apolo, a ninfa recusou-se a quebrar o juramento que fizera. Rejeitou o amor do mais belo dos deuses e tentou seguir o seu caminho.
Mas Apolo estava perdido de paixão. Não enxergava mais nada a não ser o corpo da jovem, o seu cheiro embriagador. Decidido a possuir tão delicada beleza, Apolo iniciou uma perseguição decidida a Dafne. Desesperada, ela entrou pelos bosques, fugindo sempre da impetuosidade do deus. Mas Apolo tinha a velocidade da luz nos pés, alcançando a bela ninfa. Desesperada, sem ver uma saída, Dafne implorou a Gaia (Terra), que lhe protegesse de ter o corpo deflorado por aquele amor selvagem. A deusa mãe atendeu aos clamores da ninfa. Mal Apolo tocou-lhe o corpo, sentiu-lhe a pele a enrugar, a enrijecer-se, cortada por sulcos profundos. Diante do silêncio súbito, Apolo percebeu que a amada tinha sido transformada em uma árvore. Desolado, o deus abraçou a árvore, a qual chamou de dafne, nome que em sua língua significava loureiro. Em homenagem à amada, declarou o loureiro árvore sagrada. As suas folhas, outrora os cabelos de Dafne, seriam usadas para purificar os sacerdotes e coroar aqueles que obtivessem grandes vitórias nas artes, nos esportes e nas batalhas.

O Símbolo do Ideal Grego

Diante da multiplicidade de atribuições que foram dadas a Apolo, a mais importante foi a da profecia. Deus da luz, que tudo via, sob a sua claridade não poderia haver mistérios. A Apolo foram erguidos os mais importantes e famosos templos da Grécia antiga. Seus sacerdotes praticavam a arte da adivinhação, vaticinando o futuro dos fiéis.
O templo de Apolo em Delfos, constituiu o maior santuário da Grécia. O oráculo recebia pessoas de todas as camadas sociais, vindas dos quatro cantos do país. Chefes militares não se envolviam em batalhas sem que pedissem orientação aos sacerdotes. Navegantes não ousavam enfrentar o mar sem que fossem aconselhados pelo oráculo do deus da luz; assim como os reis, aristocratas e pessoas do povo, procuravam desvendar o futuro e conhecer até onde poderiam ter êxito nos negócios, nos amores, nas guerras e nas viagens.
Através da leitura das vísceras de animais sacrificados, os sacerdotes previam o futuro daqueles que a eles recorriam, em nome de Apolo, que era quem lhes punha as palavras proféticas nos lábios. O oráculo de Delfos tornou-se o maior centro profético e de peregrinação da Grécia. A cada nove anos, os habitantes de Delfos comemoravam a mítica vitória de Apolo sobre a lendária serpente Pitão. Pessoas de todas as cidades gregas iam ao local, onde uma pomposa cerimônia revivia a luta do deus e da serpente, representando a vitória da luz sobre as trevas.
Deus da luz na essência do mito, Apolo era quem, nas suas funções primitivas, trazia as boas colheitas, cuidava dos pastores e dos seus rebanhos e orientava os navegantes quando no meio do mar. Nas suas funções de deus de uma civilização desenvolvida, iluminava os artistas, inspirando os poetas, músicos e escultores; protegia os médicos; zelava pelo equilíbrio da saúde dos homens; desvendava o futuro, profetizando-o aos que lhe prestavam homenagens e sacrifícios.Por todas as funções mencionadas, Apolo era a representação absoluta da vitória da inteligência sobre a ignorância. É o deus símbolo do que se chegou mais próximo da obsessão do ideal grego em busca da perfeição da beleza.


OS JOVENS AMANTES DOS DEUSES E DOS HERÓIS MITOLÓGICOS

Julho 31, 2009

A mitologia grega traz relatos de lendas que contam o amor entre homens, um costume comum e cultural daquela civilização. Ao contrário dos ensinamentos judaico-cristãos que viam nas relações entre duas pessoas do mesmo sexo um crime contra a natureza e a religiosidade da sua sociedade, a iniciação sexual na Grécia antiga através da pederastia era uma forma de elevação social, onde homens aristocratas mais velhos passavam os seus conhecimentos culturais, militares e religiosos aos mais jovens, usando para esse fim o amor através do sexo.
Amar um jovem adolescente constituía para a sociedade grega a representação do sentimento puro, sendo ele preparado para o amor à virtude, aos ideais helênicos e para a vida, inclusive a sexual. A passagem do adolescente pelas mãos de um homem mais velho era breve, encerrando-se tão longo ele entrasse na idade adulta e viril e que se casasse, assumindo as obrigações cívicas.
O jovem adolescente que não estabelecesse laços de amizade e de amor com um homem mais velho era menosprezado pela sociedade, visto que não tinha quem o ensinasse a sabedoria da vida e da filosofia, a arte da guerra e as virtudes de ser um bom cidadão. Não ser honrado com o amor de um homem mais velho era não cumprir com os costumes e deveres cívicos.
Para que estes costumes fossem legitimados, eram transmitidos através de exemplos da religião politeísta pelos deuses e heróis. Não são todos os deuses ou todos os heróis mitológicos que trazem lendas do amor viril entre homens, sendo uma honra apenas dos mais poderosos e populares. Zeus (Júpiter), o senhor dos deuses, o mais poderoso do Olimpo, considerado o pai dos deuses e dos heróis de toda a Grécia, deixa a sua função procriadora para amar o jovem e belo Ganímedes. Poseidon (Netuno), o senhor dos mares, apaixona-se perdidamente pelo renascido Pélope, filho de Tântalo. Apolo, o mais popular e cultuado dos deuses, tem o maior número de amantes homens de toda a mitologia, sendo o amor disputado com Zéfiro, o vento das brisas suaves, por Jacinto, o mais famoso. Héracles (Hércules), o mais famoso e poderoso dos heróis gregos, também traz uma lista de lendas em que se apaixona por vários jovens do mesmo sexo. Teseu, o maior herói de Atenas, vive uma amizade viril com o amigo Pirítoo. Aquiles, o mais bravo guerreiro grego da famosa Guerra de Tróia, não esconde os seus amores por Pátroclo ou por Troilo. Finalmente Laio, pai de Édipo, o mais humano dos mitos gregos, ao raptar o príncipe Crisipo, levando-o à paixão e ao suicídio, desperta para si a maldição que teria feito sucumbir todas as gerações dos seus descendentes através da tragédia. Assim, deuses olímpicos, reis gregos, heróis militares, todos eles, principais representantes da hierarquia aristocrática grega, justificam com as suas lendas, o costume da pederastia e amor entre homens como a erudição do sentimento perfeito e puro da iniciação sexual e da vida social dos seus cidadãos.

O Rapto de Ganímedes

Um jovem quando muito belo, despertava a paixão e o desejo de homens maduros. Ser raptado por um homem mais velho era comum em sociedades como a cretense, sendo autorizado pela lei, estabelecendo um prazo de convivência entre raptor e raptado, que cessava com a volta do jovem trazendo presentes que a lei da cidade especificava, como um boi para ser sacrificado a Zeus, em uma festa que o jovem dava, declarando publicamente se havia concordado ou não com o rapto e com o relacionamento que estabelecera com o amante. Se ao ser raptado, o jovem noivo não concordasse com o amante, ele poderia, no momento do sacrifício do boi e da festa, exigir uma reparação e desligar-se da relação. Dificilmente este fato acontecia, visto que era uma desgraça social um jovem bonito e de família abastada não possuir amante em conseqüência da sua má conduta para com quem o raptasse. Os que eram raptados tornavam-se companheiros dos seus amantes, usufruindo privilégios especiais, como usar roupas da melhor qualidade; ocupar os lugares de honra nas corridas e danças, indicando que eram especiais para os seus amantes.
A lenda do rapto de Ganímedes por Zeus, o senhor do Olimpo, legitimava o ato de raptar adolescentes, dando ao costume a ritualização religiosa necessária. Zeus, pai absoluto dos deuses e dos heróis, tem as suas lendas voltadas para os amores impetuosos que sempre teve e que o levaram a raptar e amar diversas mulheres, com as quais sempre teve filhos. Para que as suas conquistas não fossem descobertas por sua colérica e ciumenta esposa Hera (Juno), Zeus usava os mais complexos disfarces para atrair as amantes: metamorfoseou-se de touro para atrair Europa ou de Cisne para amar a bela Leda. Fugindo da função dos amores fugazes e procriadores, surge a lenda de Ganímedes, um príncipe troiano que arrebatou o coração do mais poderoso dos deuses do Olimpo, fazendo-o por um momento, amante do amor que sublimava o belo, esquecendo-se da função milenar da procriação.
Ganímedes era um príncipe troiano, que, ao despertar a puberdade no corpo e na alma, trazia uma beleza rara. Seus traços de homem-menino reluziam pelos campos aos arredores da cidade de Tróia, onde cuidava dos rebanhos do pai. Foi numa tarde de primavera, que a beleza maliciosa de Ganímedes chamou a atenção de Zeus. O senhor do Olimpo, ao avistar beleza tão sublime, foi fulminado pela paixão. Impossível resistir à graciosidade do rapaz, ao rosto ainda imberbe, a transitar entre a juventude e à idade viril. Enlouquecido pelo desejo e pela paixão, Zeus transformou-se em um águia, indo pousar junto ao jovem. Encantado pela beleza onipotente da ave, Ganímedes aproxima-se, acariciando-lhe a plumagem. Imediatamente Zeus envolve o rapaz, tomando-o pelas garras, levando-o consigo para as alturas. Cego de paixão, o senhor do Olimpo possui o jovem ali mesmo, em pleno vôo. Ganímedes após ter sido ludicamente amado por Zeus, foi levado para o Olimpo.
Ao contrário das lendas das amantes de Zeus, que após o idílio do amor, eram perseguidas pelos ciúmes de Hera ou pela ira dos pais, sofrendo até o momento do parto do filho do deus, Ganímedes, apesar da fúria de Hera, chega ao Olimpo intacto, onde é recebido com honras, assumindo o posto privilegiado de servir o néctar da imortalidade aos deuses, substituindo Hebe na função. Após servir aos deuses, Ganímedes derramava os restos sobre a terra, servindo também aos homens.
A lenda legitima os privilégios que os jovens raptados tinham ao lado dos amantes. Evita-se o castigo, comum às amantes de Zeus, mostrando que o amor de um homem mais velho com um jovem era lícito, puro e honroso. Ganímedes é hoje um dos satélites do planeta Júpiter, uma homenagem ao mito.

Laio e o Amor que lhe Trouxe a Maldição

Segundo a tradição, apesar do rapto de adolescentes ter sido uma prática que encontrou o apogeu em Creta, teria sido iniciada em Tebas. A lenda do rapto de Crisipo, príncipe filho do rei Pélope, por Laio, na época príncipe tebano, teria originado o costume do seqüestro aos adolescentes, que se espalharia não só por Tebas e Creta, como também por Corinto. A lenda de Laio e Crisipo teria sido a primeira a abordar o homossexualismo na mitologia grega.
Laio era filho de Lábdaco, rei de Tebas. Quando o pai morreu, o príncipe ainda era muito jovem para reinar, tendo Lico, fiel seguidor de Lábdaco, assumido a regência. Mas uma velha pendência entre o regente e os irmãos Anfião e Zeto, cuja mãe tinha sido maltratada por ele, fez com que perdesse o reino para os rivais. Com medo de ser morto pelos dois invasores, Laio fugiu para a Élida, sendo acolhido com honras pelo rei Pélope e por seu filho, o jovem Crisipo.
Uma paixão avassaladora nasceu entre Laio e o virginal Crisipo. Às escondidas, os amantes vivem um amor intenso. Laio possui com furor o belo Crisipo, fazendo dele um homem. Quando o amor dos dois é descoberto, Laio teme a retaliação de Pélope, num ato desesperado, rapta Crisipo.
É a única lenda que encontra uma certa oposição ao homossexualismo, vinda da parte de Pélope. Talvez por Laio também ainda ser muito jovem, quase adolescente, o que não era comum na pederastia grega, já que a iniciação era privilégio dos homens mais velhos e de posição social e cívica definidas. Ou talvez por Crisipo ser, entre os três filhos de Pélope, o seu preferido.
Diante da perseguição do pai e do escarnecimento das pessoas, Crisipo, um jovem medroso e desestruturado pela descoberta da paixão, suicida-se, deixando Laio apenas com a dor da perda e perseguido por um ressentido e vingativo rei. Ao saber da morte do filho, Pélope dispara um grito de dor que ecoa por todos os reinos, lançando uma maldição sobre todas as gerações descendentes de Lábdaco, passadas, presentes e futuras.
Assim, Laio encerra a sua primeira paixão, nutrida pelo frágil Crisipo. Volta para Tebas, reassume o poder, casando-se com a bela Jocasta, que lhe dará um filho, Édipo, que o matará e casar-se-á com a própria mãe. Foi o preço que Laio pagou por seu amor infeliz ao príncipe Crisipo, a maldição sobre a sua cabeça.

Pélope, o Renascido Amante de Poseidon

Se por um lado Pélope opôs-se ao amor entre Laio e o filho, Crisipo, no passado ele próprio vivera uma paixão com o poderoso Poseidon. A lenda de Pélope começa com tragédia da sua morte. Filho do ambicioso e cruel Tântalo, rei de Sípilo, na Lídia. O soberano ofereceu um banquete aos deuses, e para testar a percepção de cada um, serviu como prato principal a carne cozida do próprio filho, Pélope, cortada em pedaços. Os deuses olímpicos perceberam o ardil. Indignados, recusaram o alimento, condenando Tântalo a viver atormentado no Érebo. Depois ferveram o alimento servido em um caldeirão, fazendo Pélope renascer.
Dos cortes ferozes, surgiu um príncipe ainda mais belo. O renascido Pélope chamou a atenção de deuses e mortais, que suspiraram pelo seu amor. De todos, Poseidon, o senhor dos mares, foi o mais audacioso, declarando-se ao renascido, tornando-o o seu amante. Com a proteção do amado, Pélope tornou-se um soberano poderoso e sábio, aprendendo com o deus todas as virtudes cívicas que um soberano deveria saber.
Já um homem adulto e viril, Pélope apaixonou-se pela bela Hipodâmia, filha de Enômano, rei de Pisa. Mas o soberano, temendo uma profecia de que um genro o iria assassinar, impunha uma perversa prova aos pretendes da filha. Propunha uma corrida de carros, em que o vencido era morto e o crânio pendurado na porta do palácio. Os cavalos do carro de Enômano eram presentes do deus Ares, por isto invencíveis. Pélope aceitou o desafio, pedindo ajuda a Poseidon, seu antigo amante, em nome dos tempos felizes que viveram juntos. Poseidon deu ao ex-amante um carro de asas douradas e invisíveis. Mesmo com o presente, Pélope temia a vitória de Enômano. Decidiu subornar Mírtilo, servo do rei, que também era apaixonado por Hipodâmia. Convenceu-o a retirar os pregos que seguravam as rodas do carro do rei, em troca dar-lhe-ia metade do reino e uma noite com a bela Hipodâmia. Assim foi feito, e durante a corrida, Enômano perdeu o equilíbrio e caiu em uma queda mortal. Morto o rei, Pélope casou-se com Hipodâmia. Ao reclamar a noite de amor com a princesa, Mírtilo recebeu o escárnio de Pélope, que o atirou ao mar.
Pélope tornou-se um monarca poderoso, reinando por diversas terras, que passaram a ser chamadas de Peloponeso. Deu origem aos Pelópidas, sempre sobre a proteção de Poseidon. A lenda define bem o caminho do homem grego, a sua iniciação com um homem mais velho, neste caso um deus, e o seguimento do curso comum e heterossexual, levando-o ao casamento e à procriação.

Amores Entre os Soldados Gregos

Na Grécia antiga, o homossexualismo estava também ligado às tradições militares. A prática era aliada aos bons e leais soldados, a amizade viril entre militares fazia-os mais leais e unidos uns aos outros. Naquela sociedade, composta por uma grande maioria de soldados, acreditava-se que o envolvimento sexual e emotivo entre os militares fazia com que estivessem mais dispostos a dar a vida uns pelos outros, fazendo deles guerreiros ferozes e leais. Portanto, a iniciação com homens experientes poderosos, era fundamental na educação sexual e militar dos soldados.
Os heróis soldados da Grécia, traziam os mitos com lendas que relacionavam a coragem ao homossexualismo. É o caso de Héracles, o maior herói da mitologia grega. Filho de um incesto de Zeus com a mortal Alcmena, o herói sofreu a vida inteira com a perseguição de Hera, levando-o à loucura, às grandes aventuras, à morte e finalmente, à ascensão ao Olimpo, já como imortal.
Várias passagens do mito de Héracles trazem a sua força viril, que conta, teria engravidado as cinqüenta filhas de Téspio, rei da Beócia, gerando cinqüenta varões. Mas o amor homossexual ronda o mito, sendo aceito em algumas variações da lenda o seu relacionamento com o sobrinho Iolau, que o ajudou em alguns dos seus trabalhos. Iolau foi presenteado por Héracles com uma esposa, a bela Mégara. Héracles e Iolau tornaram-se símbolo da fidelidade entre casais masculinos, que ao pé da suposta tumba do amante de Héracles, faziam juras e promessas. As Ioléias, jogos ginásticos e eqüestres celebrados em Tebas, reverenciavam o amor de Héracles e Iolau, presenteando os vencedores com armas e vasos de bronze.
Além de Iolau, outros amantes foram atribuídos a Héracles: Filoctetes, Jasão, Teseu e, o mais recorrente nas lendas, Hilas.
Segundo a lenda, na famosa expedição dos Argonautas, símbolo da expansão grega sobre o Mar Negro e às terras ao redor, Héracles foi acompanhado pelo belo Hilas, por quem se apaixonou ardorosamente. Os dois mantiveram-se inseparáveis durante toda a aventura. Seriam separados quando a nave Argos parou em Mísia, na Ásia Menor. Ali, as Naiades, ninfas dos lagos e das fontes, encantaram-se pela beleza reluzente de Hilas. Envolvidas pelo fascínio e pela paixão, elas atraíram o belo jovem até um lago, raptando-o e sumindo com ele. Desesperado, Héracles abandonou a expedição para encontrar o amado. Gritava com a voz embargada pela dor da perda. Foi inútil a procura, Hilas jamais foi visto uma outra vez por qualquer mortal. Restava ao grande Héracles chorar a dor da perda do amado.
Aquiles foi considerado o maior guerreiro da mítica Guerra de Tróia. O mais valente e feroz de todos os soldados gregos. Sua força viril contrastava com a vulnerabilidade do calcanhar, única parte do corpo que não era imortal, e com a sua instabilidade emocional. A sua amizade de Pátroclo era um elemento essencial da sua força, imprescindível também, para a força dos soldados gregos. Era esta amizade que se via como o verdadeiro ideal, esta amizade masculina levada ao extremo criou as condições para que o homossexualismo tomasse lugar de honra na sociedade grega. Criados juntos desde a infância, Pátroclo e Aquiles são inseparáveis. Quando Agamenão ofende Aquiles e este abandona os campos de batalha, será a morte de Pátroclo, que o fará voltar, com uma grande sede de vingança. Usando a armadura de Aquiles, Pátroclo é morto por Heitor, o maior guerreiro troiano. O corpo de Pátroclo é deixado nu no campo de batalha, e a armadura de Aquiles roubada. Enlouquecido pela morte do amigo, Aquiles toma-lhe o corpo nu, carregando-o como o troféu da dor. Furioso com a morte do amigo, Aquiles voltará aos campos, matará Heitor e muitos troianos, lutando até a morte.
Ainda em Tróia, Aquiles apaixona-se por Troilo, o mais novo dos príncipes troianos, filho de Príamo. A profecia dizia que, se Troilo chegasse à idade madura, Tróia jamais sucumbiria. Troilo é perseguido pelos gregos. Quando Aquiles depara-se com ele, fica irremediavelmente encantado com a sua beleza, apaixonando-se e oferecendo-lhe o seu amor. Mas Troilo recusa o afeto do herói grego, fugindo para o templo de Apolo. Inconformado com a rejeição, Aquiles executa o príncipe troiano no altar do templo. A execução de Troilo garante a vitória dos gregos sobre os troianos.
Finalmente Teseu, o herói militar mais valente e famoso de Atenas, matador do Minotauro, viveu amores por iguais, tendo nutrido uma paixão por Héracles, a quem ajudou a derrotar os centauros em uma batalha sangrenta. Teseu era amigo inseparável de Pirítoo, com quem teria vivido uma relação de amantes. Juntos, urdiram raptar Perséfone (Prosérpina), esposa de Hades (Plutão), o senhor do Érebo, para que Pirítoo a desposasse. Como castigo pela audácia, os deuses aprisionaram os amigos no hades por quatro anos. Teseu seria libertado pelo amigo Héracles; quando tentou libertar Pirítoo, foi impedido por Zeus. Pirítoo despediu-se do amigo, ficando encerrado para sempre no mundo dos mortos, enquanto que Teseu continuou a sua jornada pela terra, como um dos maiores heróis da Grécia antiga.

Os Amores de Apolo

Apolo tornou-se o deus mais popular de toda a Grécia antiga. Era o deus protetor da arte, da luz, da medicina, entre várias designações. Era tido como o deus da beleza perfeita e ideal perseguida pelos gregos. A prática de esportes era uma tradição na Grécia antiga, tendo Apolo como o deus protetor. Nos ginásios desportivos, os atletas praticavam exercícios totalmente nus. Era na prática da ginástica que muitos romances nasciam entre homens.
O mito de Apolo descreve intensamente a prática da ginástica com os seus amantes, mostrando uma virilidade que se buscava nos corpos nus dos ginásios. Um dos famosos amores homossexuais do deus foi Ciparisso, filho de Telefo e Jacinta. Apolo venerava a beleza do seu amado, fazendo-se terno e apaixonado. Juntos praticavam a corrida e o arremesso de dardos. Os corpos nus e perfeitos dos amantes corriam ao sol por entre os bosques. Um dia Apolo presenteou o jovem amante com um cervo. Ciparisso apegou-se àquele animal, fazendo-o sagrado. Certa vez, ao jogar os dardos com Apolo, feriu, por acidente, mortalmente o cervo. Ciparisso ficou inconsolável, sendo acometido de uma tristeza profunda. Derramava lágrimas intensas pelo animal sagrado. Na sua infinita dor, pediu ao amante que permitisse as suas lágrimas para sempre, sem jamais esgotar o fluxo. Não podendo negar um pedido ao amante, Apolo transformou-o em uma árvore cuja resina formava gotículas de lágrimas no tronco, nascia o cipreste.
O amor homossexual mais famoso de Apolo foi o belo Jacinto. O deus disputou o amor do jovem com Zéfiro, o vento oeste. O deus do vento jamais aceitou ser preterido por Apolo. O deus da arte e o amante costumavam praticar ginásticas e outros jogos. O arremesso de disco era um dos jogos preferidos dos amantes. Numa dessas práticas, Apolo arremessava o disco aos céus com perfeição, sendo observado pelo amado. Quando Jacinto arremessou o disco, Zéfiro, em sinal de vingança, soprou-o na direção do jovem, atingindo-o no rosto, fazendo com que caísse morto sobre a relva, coberto de sangue. Ao ver a fatalidade que acontecera ao amado, Apolo ainda tentou ressuscitá-lo, mas já era tarde, Jacinto fora arrebatado ao hades. O seu belo rosto tinha sido destruído pela tragédia. Desesperado com a morte do amado, Apolo fez nascer do sangue derramado de Jacinto, uma flor púrpura, com cálice em forma de lírio. Em Esparta, cidade de Jacinto, foi instituída uma festa e jogos em seu louvor, as Jacintas, que se realizavam todos os anos.
Belas, muitas vezes trágicas, outras vezes felizes, as lendas dos amores homossexuais da mitologia grega, tinham alguns pontos em comum; o objeto da paixão de um deus ou herói era de uma beleza rara, na maioria das vezes na idade adolescente. Normalmente a tradição grega permitia que, a partir dos doze anos, os jovens tivessem um homem mais velho como amante. Nas lendas, eles são, com poucas exceções, extremamente novos, mas, essencialmente adolescentes, já com a maturidade sexual do corpo latente, cravada na puberdade, longe da pedofilia. É preciso ter em mente que a fase da adolescência não existia para as culturas antigas, ao rapaz, ao transformar o corpo, ao nascer-lhe os pêlos pubianos e aflorar o órgão genital, era considerado um jovem adulto, assim como as mulheres, transformadas em adultas na primeira menstruação. Atingida esta fase, o jovem adulto era preciso ser iniciado na vida sexual e intelectual da sua cidade. E as lendas legitimavam este costume, só encerrado pela cristianização da civilização helênica.


ZEUS, PAI DOS DEUSES E DOS HERÓIS

Junho 26, 2009
Ao derrotar os Titãs e os Gigantes, destronando o pai Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), tornou-se o senhor absoluto do mundo e dos deuses. O seu reinado, comandado do alto do Olimpo, pôs fim à desordem do universo, antes governado pelas divindades primordiais, que traziam as forças desordenadas, como os vulcões e os terremotos, ou como a de Cronos, o deus do tempo, que a tudo devora e destrói. Zeus faz triunfar a ordem e a razão, que equilibra os instintos selvagens e as emoções desenfreadas dos deuses primitivos.
Zeus é o rei do Olimpo e dos deuses. Na sua relação de divindade com o homem, é quem abre a ele o caminho da razão, é quem passa para a humanidade o ensinamento e a descoberta do verdadeiro sentimento, obtido através da dor, da justiça e do merecimento. Zeus compadece-se com os sofrimentos dos mortais, mas não se deixa levar por eles, pois como senhor dos deuses e dos homens, mesmo quando magoado pelas emoções, não pode deixar de refletir a imagem da verdadeira justiça e da razão. Zeus não interfere quando os mortais ou os deuses faltam com a razão, mesmo que lhes sejam especiais.
Zeus é considerado o pai dos deuses e dos homens. Mesmo casado com Hera (Juno), sua irmã , ciumenta deusa que não lhe perdoa as traições, pois ela representa a visão de uma Grécia que se tornava monogâmica; Zeus como senhor absoluto do universo, trai e fecunda deusas, ninfas e mortais. Mais do que o sentido da fidelidade, Zeus obedece à função de fecundador, de pai de uma extensa prole de deuses e de heróis. Na Grécia antiga, as principais cidades contavam em suas crônicas históricas e nas lendas, que os seus fundadores, na maioria, eram filhos de Zeus.
Em Roma, Zeus foi relacionado a Júpiter, senhor absoluto dos deuses e protetor dos cônsules e dos imperadores. Assim como o Zeus grego, também ele é o pai da maioria dos deuses olímpicos, representante da razão e da ordem. É o deus da terra, dos raios e dos trovões, demonstrando assim, ser a mais poderosa de todas as divindades, sejam do Olimpo, dos mares ou do Érebo. Zeus é o pai do poder dos homens e das suas cidades.

Zeus Escapa de ser Devorado por Cronos

As lendas mais antigas apontam Zeus como o mais jovem dos crônidas (filhos de Cronos). Diante de uma profecia de sua mãe, a deusa Gaia (Terra), de que um dos filhos usurpar-lhe-ia o trono, Cronos vivia atormentado. Todas às vezes que Réia (Cibele), sua esposa, dava à luz a um filho, ele devorava-o logo a seguir.
Réia sofria com a perda dos filhos, cinco deles já tinham sido devorados pelo marido. Para proteger o sexto filho que o seu ventre gerava, Réia pediu auxílio a Gaia, que lhe ajudou a engendrar um plano. Momentos antes do parto, a deusa iludiu a vigilância de Cronos, indo dar à luz em uma caverna distante. Nasceu-lhe Zeus, que foi entregue às Ninfas e aos Curetes, jovens sacerdotes de Réia.
Ao voltar para junto do marido, a deusa pôs em prática o plano de Gaia. Apanhou do chão uma pedra, envolveu-a em grossas faixas, entregando-a para Cronos, como se fosse o filho. Na voracidade de devorar aquele que lhe poderia usurpar o poder sobre os deuses, Cronos engoliu a pedra a pensar ser o filho recém nascido. Zeus estava salvo, e voltaria para cumprir a profecia de destronar o pai.
O local de nascimento de Zeus segue duas vertentes da lenda, a mais corrente é a de que teria nascido na ilha de Creta, sendo citada ora no monte Ida, ora no Aégon ou ainda, no Dicteu. A segunda vertente aponta para a Arcádia como o local de nascimento de Zeus. Quanto ao local no qual cresceu e foi educado, todas as lendas convergem para Creta, onde o deus viveu aos cuidados dos sacerdotes da mãe, os Curetes, e das Ninfas.
Quando adulto, Zeus partiu para o confronto com o pai, disposto a cumprir a profecia que lhe apontava como o futuro rei dos deuses. O jovem imortal levou consigo um frasco com uma beberagem, preparada por Métis (a Prudência), que tão logo chegasse às estranhas de Cronos, provocar-lhe-ia uma convulsão tão profunda, obrigando-o a vomitar os filhos devorados.
Diante de Cronos, Zeus impôs a sua força, obrigando o pai a ingerir a bebida mágica. As entranhas de Cronos foram estremecidas, e de dentro dele surgiram os filhos devorados quando nascidos. Estavam todos vivos e adultos. Aos olhos de Zeus desfilaram os irmãos, a casta Héstia (Vesta), o taciturno Hades (Plutão), a loira Deméter (Ceres), o impetuoso Poseidon (Netuno), e a bela Hera (Juno). Segundo algumas versões, Hera, assim como Zeus, também tinha sido poupada de ser devorada pelo pai e criada aos cuidados de Tétis e das Horas.

Zeus Torna-se o Senhor dos Deuses e dos Homens

A partir da libertação dos crônidas das entranhas do pai, a luta de Zeus pelo poder começou a ser configurada. Poseidon e Hades juntaram-se ao irmão na imensa guerra gerada entre os deuses. Astuciosamente, Zeus desceu ao Érebo e libertou os Ciclopes, hábeis forjadores das armas, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços, todos aprisionados por Cronos. Do lado de Cronos ficaram os Titãs e os Gigantes.
Os Ciclopes prepararam as armas dos desafiantes de Cronos. Para Poseidon fabricaram o tridente, para Hades o capacete mágico que o fazia invisível e para Zeus, o raio. A seguir, foi travada uma guerra violenta e sangrenta pelo poder, que duraria dez anos. Ao lado dos irmãos, Zeus destronou Cronos. Ao fim da guerra, Cronos e os seus irmãos, os Titãs, juntamente com os Gigantes, foram encerrados, para sempre, no Érebo.
A vitória de Zeus trouxe a paz entre os deuses e a harmonia ao universo. As divindades que traziam consigo as forças da desordem tinham sido vencidas. Zeus deflagrara a era da razão e da justiça para os homens e para os deuses. Após a vitória sobre Cronos, o poder foi dividido entre os três irmãos, a Poseidon coube o reino dos mares; a Hades o reino dos mortos, e a Zeus, o reino do céu e da terra, sendo responsável pelos fenômenos atmosféricos.
Com a evolução do mito, Zeus passou a ser descrito como o primogênito de Cronos, condição que lhe conferia o poder absoluto, assim como acontecia aos reis das cidades gregas. O primogênito, herdeiro legítimo, tinha os poderes ilimitados. O mesmo acontecia com o senhor dos deuses. Quando Homero (século IX a.C.) chamou Zeus de “pai dos deuses e dos homens”, descreveu-o como o pai dos gregos e do poder que se estabelecia através da evolução daquela civilização, que evoluíra as suas aldeias para imponentes cidades, que originaram os estados. A autoridade das cidades era exercida pelo rei, que impunha a sua soberania aos núcleos de famílias, que por sua vez eram submissos à figura do pai. Assim, Zeus representava a autoridade de rei dos deuses e dos homens, e dos pais, em uma civilização patriarcal. Como o deus absoluto, era ele quem estabelecia a disciplina e a ordem entre os súditos, protegendo-os e distribuindo a justiça. As funções de Zeus confundiam-se com as dos próprios reis de toda a Grécia, excetuando os seus poderes como divindade.

Zeus, Cultos e Imagens

Na Grécia, Zeus era o deus por excelência, era o pai e o rei, ambos absolutos. Por ser o altíssimo, o senhor de todos os deuses, era cultuado no alto das montanhas. Os templos erigidos em sua honra estavam no monte Olimpo, na Macedônia; no monte Ida, em Creta; no Helicão, na Beócia; nos montes Parnes e Himeto, na Ática; no Pélion, na Tessália; no Pangeu, na Trácia e, no Liceu, na Arcádia. O mais antigo santuário de Zeus estava situado em Dodona, no Epiro, encontrando-se ali, o mais famoso oráculo do deus.
No culto à divindade, vários epítetos foram atribuídos ao senhor do Olimpo, entre eles, Zeus Xênios, que protegia os estrangeiros, os mendigos, os desterrados e os aflitos. É o Zeus Xênios que é louvado por Homero em “A Odisséia”. Era o deus que condenava os que não sabiam ser hospitaleiros, os impiedosos e os implacáveis. Zeus Herkeios era o protetor das casas e das cidades, tendo a sua força sobre o poder pátrio. Zeus Ktésios era quem trazia aos devotos a prosperidade e maiores riquezas.
Zeus tinha a sua imagem representada com a fronte adornada por cabelos longos e ondulados; rosto majestoso, de homem maduro, cingido por uma longa barba crespa. A sua imagem foi inspirada na famosa estátua de Fídias (500?-432? a.C), que além das características descritas, trazia 13 metros de altura; o deus aparecia sentado em um trono feito de ouro, ébano, bronze e marfim; na fronte trazia uma coroa de ramos de oliveira como adorno; na mão direita segurava a vitória; na esquerda portava um cetro encimado por uma águia. A estátua de Fídias serviu como modelo para representações futuras, que costumavam mostrar Zeus envolto em um grande manto, com o braço direito e o peito descobertos. Nas imagens mais primitivas do deus, ele era representado nu, sem o manto real.

Pai de Deuses e Heróis

Ao tornar-se o senhor do Olimpo, Zeus tomou a irmã Hera como esposa. Com ela divide o reinado. Hera representa a mulher fiel, ciumenta e pouco tolerante com as amantes do marido. Do casamento real nasceram Ares (Marte), o deus da guerra, Hebe, símbolo da juventude eterna e, Hefestos (Vulcano), o deus do ferro e do metal, que nasceu disforme e coxo, uma alusão dos gregos aos casamentos entre irmãos e aos filhos geneticamente prejudicados com esta união.
Limitado por apenas três filhos no casamento, Zeus representa a realeza consumada pelo poder pátrio. Se a força vem de tal poder, ser pai é mais importante do que ser fiel a Hera. A força criadora do deus dos deuses faz com que se una às diversas mulheres, mortais ou imortais, fecundando-as com a sua prole divina e especial. O mito fecundador de Zeus fazia com que as cidades mais importantes da Grécia tomassem como patronos ou fundadores um filho de Zeus.
Mas a função procriadora de Zeus não é aceita por Hera. Impossibilitada de castigar o marido, devido à força de deus supremo, Hera vinga das amantes e dos filhos bastardos. Zeus assume para si não só o ímpeto da paixão, como o dever de proteger as amadas, assim como a sua imensa prole, da ira vingativa de Hera. Para que não seja reconhecido pela mulher enquanto ama e fecunda as amantes, o senhor do Olimpo assume várias formas e disfarces. Com a bela Dânae, ele assumiu a forma de chuva de ouro, quando a amou e fecundou, gerando o herói Perseu. Com Europa, o deus assumiu a forma de um touro, raptando a donzela fenícia, levando-a para Creta, onde, sempre usando a forma animal, amou-a e fecundou-a, gerando com ela três filhos, entre eles o famoso rei Minos. Com Leda, Zeus assumiu a forma de um cisne, gerando os gêmeos Helena, a mulher mais bela da Grécia, responsável pela Guerra de Tróia, e Pólux, que ao lado de Castor, foi transformado na constelação de Gêmeos. Com Antíopa, o deus transformou-se em um sátiro, gerando os gêmeos Anfião e Zeto. Com a ninfa Egina, Zeus transformou-se em uma labareda, gerando Éaco, que era a imagem da piedade e da justiça.
Vale ressaltar que os filhos de Zeus fora do casamento com Hera, foram mais brilhantes do que os legitimados pela união. Entre os deuses gerados com as amantes estão os gêmeos Apolo e Ártemis (Diana), Dioniso (Baco), Hermes (Mercúrio), Perséfone (Prosérpina), Atena (Minerva); os heróis Héracles (Hércules), Dárdano, Iasião, Épafo, Radamanto, Sarpedão, Lacedêmon, Britomártis, Argo, Pelasgo e Tântalo; alem das Musas, Graças, Horas, Moiras e Astréia.

Zeus é Assimilado a Júpiter

O mito de Zeus chegou a Roma muito antes da cidade ser transformada na capital de um grande império, e da sua expansão pelo mar Mediterrâneo. Muito antes de Roma conquistar a Grécia, assimilando a cultura helênica. Os romanos cultuavam os seus deuses locais, quando em contacto com as divindades helênicas, essas entidades locais passaram a ser identificadas com as dos gregos.
Zeus representava a figura do deus pai, do deus supremo e absoluto, divindade existente em todas as mitologias indo-européias, portanto era fácil assimilá-lo em diversas civilizações antigas. Em Roma teve a sua identificação local com Júpiter, antiga entidade do Lácio.
O mito mais antigo de Júpiter no mundo latino era o de Júpiter Latial, divindade de origem obscura, que tinha o seu santuário erguido nos montes Albanos. Júpiter Latial teria dado origem ao mito de Júpiter Capitolino, velha entidade da região do Lácio. Os carvalhos do monte Capitólio eram consagrados a Júpiter Capitolino. Foi este Júpiter que se identificou com o Zeus grego.
Senhor dos deuses romanos, Júpiter estendia o seu poder pátrio aos poderosos da cidade, tido como protetor dos cônsules durante a República Romana. Era costume que um cônsul dirigisse preces ao deus quando assumia o poder. Júpiter tornou-se esplendoroso com o fulgor do Império Romano. Quanto mais Roma atingia o seu apogeu como império do mundo, mais a divindade de Júpiter assumia a imagem do imperador, refletindo o retrato de cada um deles. Ao assimilar-se à imagem do imperador, Júpiter perdeu grande parte do seu sentido como divindade, passando a ser descrito pelos poetas romanos como um deus impetuoso e apaixonado, tornando-se um perseguidor volúvel de ninfas e mortais.
Os cultos a Júpiter em Roma, eram responsabilidade dos sacerdotes feciais, que tinham a sua autoridade suprema na figura do flamine dialis. O casamento de um flamine com uma flamínica, a sacerdotisa da deusa Juno, mulher de Júpiter, jamais poderia ser dissolvido. Tal casamento entre sacerdotes, simbolizava a união de Júpiter e Juno na terra.

 


ÉOLO E OS VENTOS

Maio 30, 2009
O território grego é formado por penínsulas recortadas e ilhas do mar Egeu. Devido à posição geográfica, incidia sobre as cidades gregas inúmeros movimentos de ar, os ventos, que definiam a navegação e a agricultura, essências da vida econômica da Grécia. A fúria dos ventos trazia infortúnios às colheitas, que quando por eles arrasadas, provocavam anos de escassez e fome.
Na formação primordial da civilização grega não havia o domínio das técnicas da agricultura, plantar e colher era um esforço desesperado para sobreviver. Era preciso controlar o poder dos ventos, apaziguar a fúria com que caiam sobre as ilhas e o continente, para isto surgiu a necessidade de criar a divindade que representava a força do ar, tão importante em terras muitas vezes de condições naturalmente inóspitas.
Personagens míticas surgiram como representantes do ar, entre elas, Éolo, o deus dos Ventos, senhor absoluto de todas as forças atmosféricas. Seu reinado tinha como súditos, segunda a versão mais persistente da lenda, os quatro ventos regulares: Bóreas, o vento Norte; Zéfiro, o vento Oeste; Euro, o vento Leste; e, Austro, o vento Sul.
Éolo surgiu como divindade abstrata, distanciada da caracterização humana que tinham os deuses olímpicos, sua genealogia e a dos demais Ventos assumiram formas variantes ao longo da antiguidade grega. Há quem lhe atribua Poseidon (Netuno), como pai. Sem uniformidade genealógica, Éolo e os Ventos têm as suas ascendências e origens flutuantes, tal como o ar que representam. Assim como a natureza não controla a força do ar, também os ventos têm profundas oscilações no seu caráter enquanto divindades e nas suas lendas, enquanto mito.

Éolo, o Rei dos Ventos

A força dos ventos representava o equilíbrio entre as plantações e as colheitas, podendo ser benéficos ou destruidores. Essenciais no convívio entre a natureza e o homem, os ventos trazem o poder da vida, da fecundação, já que grande parte da vegetação só fecunda quando tem o pólen transportado por eles.
Se a presença dos ventos definia as colheitas e as plantações, longe do campo eles eram fundamentais para a navegação, já que as tormentas marítimas eram provocadas por ventos cortantes, capazes de afundar grandes frotas. Os navegantes gregos atribuíam a culpa dos naufrágios aos ventos, sempre inconstantes e furiosos. Sem poder explicá-los através da ciência, os antigos tentavam compreendê-los como divindades, dando-lhes forma e vida e cultuando-os, transformando-os em mitos.
O mito de Éolo surge da necessidade do homem de manter diálogo entre a natureza indomável e a sobrevivência que evolui sempre, aperfeiçoando a tecnologia. Enquanto não se avança com este processo evolutivo, o mito resolve a ignorância das trevas, trazendo a luz da fé na divindade. Éolo passou a refletir a ordem dentro da força incontrolável do ar, era ele quem impedia a anarquia dos Ventos, tornando-os disciplinados e benéficos às necessidades humanas. Sob o reinado de Éolo, os ventos só são destrutivos quando provocados pelo homem, sendo a sua fúria resultante de alguma vingança à falha humana ou uma retaliação às disputas das divindades.
Éolo comanda todos os ventos. O seu reino está centrado na Eólia, uma ilha flutuante situada entre a Itália continental e a Sicília. Homero (século IX a.C.) descreve o seu palácio cercado de muralhas de bronze por todos os lados. Para os romanos, o reino do rei dos Ventos encontrava-se na ilha Lípara.
Éolo é descrito em todas as vertentes do mito, como um deus justo e benévolo à humanidade. Tendo grande compaixão para com os homens, ele inventou a vela para ajudá-los a navegar, sendo o guardião perpétuo dos Ventos e das suas investidas furiosas. Mas o poder de Éolo sobre os Ventos não pode evitar catástrofes aos homens, quando a tragédia já foi definida pelo Destino, deus mais poderoso que os próprios deuses do Olimpo.
Apesar de ser o rei dos Ventos, Éolo tem menos representações nas artes e nas lendas do que Zéfiro ou Bóreas, Ventos que são seus súditos. Considerado superior a todas as forças do ar, os gregos cultuavam o à divindade de Éolo de forma indireta, como ele era a soma máxima de todos os Ventos, era preciso abrandar a fúria de cada um deles. Assim, os cultos eram dirigidos a cada um dos Ventos, para que se chegasse de forma indireta ao rei de todos eles, o poderoso Éolo.

Os Ventos e as Divindades do Ar

O elemento ar era definido pelos gregos, por quatro divindades básicas e regulares: Bóreas, o vento Norte; Austro, o vento Sul; Zéfiro, o vento Oeste e Euro, o vento Leste. São filhos de Eos (a Aurora) e de Astreu (o céu estrelado).
Outras vertentes dos mitos dos Ventos, costumam apontá-los como oito divindades básicas e regulares: Solano, Austro, Euro (ou Noto), Áfrico, Zéfiro, Cero, Setentrião e Bóreas. Nesta variante da lenda, a genealogia dos Ventos não é atribuída a Eos e Astreu, mas aos Titãs, os filhos de Urano (Céu) e Gaia (Terra), destronados pelos deuses olímpicos.
Quando regulares, os ventos eram considerados benévolos aos homens; quando irregulares, eram tidos como maléficos, de comportamento nocivo ao homem, à navegação e à agricultura. Os ventos maléficos estavam ligados aos mitos das Harpias e da Quimera.
As Harpias eram figuras monstruosas, filhas de Taumante e da ninfa oceânida Electra. Tinham o rosto de mulher e corpo de ave. Normalmente são representadas com rostos de mulheres velhas, com orelhas de urso e patas que terminavam em grandes unhas. Simbolizavam os ventos mais tempestuosos, provocadores dos furacões. Por onde passavam causavam a devastação e a destruição. O que não destruíam, contaminavam com os excrementos (ou um fluxo que lhes saía do ventre) que lançavam. Eram imortais, mas não eram deusas, não recebendo cultos especiais.
A Quimera tinha a cabeça de leão, o corpo de cabra e cauda de dragão. Da sua boca saíam grandes chamas. Associada aos Ventos, ela personificava as nuvens negras que trazem as tempestades. Assim como as Harpias, a Quimera não recebeu culto especial dos antigos gregos.
Ao contrário dos Ventos irregulares e maléficos, os regulares e benéficos receberam grandes e freqüentes cultos em toda a Grécia antiga, excepcionalmente em Atenas, onde eram venerados juntos, em um templo octogonal, tendo a figura de um deles em cada ângulo do edifício.
A mitologia romana apresenta outros Ventos além dos quatro regulares descritos pelos gregos. Euro, Bóreas, Austro e Zéfiro são, segundo os romanos, os Ventos principais, sendo Euronoto, Vulturno, Subsolano e Caecias, Ventos que derivam dos primeiros, sem lendas próprias. São tidos como divindades turbulentas, somente Bóreas e Zéfiro são descritos com um caráter simpático e benéfico pelos romanos.

Bóreas, o Impetuoso Vento Norte

Bóreas foi o vento mais cultuado como divindade na Grécia. Geralmente representado como um homem barbudo, maduro e alado, vestido com um manto curto. Era um vento tranqüilo, que não conhecia a dor. Vivia em um fulgente palácio às margens do Estrimão, na Trácia, país frio e úmido.
A serenidade do vento ficou estremecida quando ele apaixonou-se por Orítia, bela princesa de Atenas. Tomado de amor, ele procurou o rei Erecteu, pai da amada, pedindo-lhe em casamento. Mas o monarca recusou-lhe entregar a filha, alegando que a Trácia era muito fria, e a jovem não suportaria lá viver.
Bóreas rogou, implorou, prostrou-se aos pés do rei, como se fosse um simples mortal. Mas nada comoveu Erecteu. Desolado, Bóreas tornou-se um vento indomável, um vendaval sem limites, de força impetuosa. Passou a soprar violentamente do seu palácio, atingindo todos os cantos do mundo. Soprou uma gigante nuvem branca sobre Atenas, que envolveu a bela Orítia, carregando-a pelo ar, até a Trácia.
Bóreas casou-se com Orítia, com quem teve quatro filhos. Em uma outra vertente da lenda, ao apaixonar-se por Orítia, o vento Norte era casado com a ninfa Clóris. Quando raptou a princesa ateniense, passou a ter as duas como esposa, vivendo os três felizes no palácio da Trácia.
O rapto de Orítia é a lenda mais famosa do mito de Bóreas. O casamento do vento com uma princesa ateniense, era cultuado em Atenas como um privilégio à cidade. Relatos históricos contam que quando da invasão do comandante persa Xerxes (519-465 a.C.), em luta contra a Grécia, Atenas estava próxima da rendição, quando o vento Bóreas soprou forte, dispersando a frota inimiga. O fato passou a ser comemorado pelos atenienses com a realização das festas Boreasmas.
Outra lenda poética envolve o mito de Bóreas: certa vez o vento Norte transformou-se em um cavalo alado, fecundando doze éguas do rei Erisícton, figura mitológica conhecida por ter devorado a si próprio quando tomado por um incontrolável ataque de fome. Da fecundação de Bóreas nasceram doze potros, que corriam esguios pelas colheitas, sem que se lhes destruísse. É através dos potrinhos filhos de Bóreas, que acontece o movimento ondulatório que o vento suave provoca sobre a vegetação.

Zéfiro, o Vento das Brisas Suaves

Zéfiro, o vento Oeste, era irmão de Bóreas, habitando também na Trácia. A lenda descreve-o como um vento primitivamente violento, que destruía com o seu sopro indomável, às plantações, provocava naufrágios, causando grandes danos aos homens.
A súbita paixão de Zéfiro por Clóris (Flora), irá transformar o caráter mitológico do vento, dando-lhe a versão final regular e benéfica. Clóris é a rainha da primavera, era quem espargia a beleza das flores ao mundo, dando-lhes as cores e o perfume. O contraste entre Zéfiro, o vento que ao soprar destrói a beleza das flores, e Clóris, que pincela esta beleza, faz com que a rainha da primavera rejeite aquele amor inesperado. Mas o amor de Zéfiro é sincero, pleno e construtivo. Para conquistar Clóris, ele transforma a sua personalidade. Rejeita o seu lado tempestuoso e destrutivo, tornando-se um vento suave, passando a soprar levemente, para não danificar as flores.
A lenda de Zéfiro e Clóris reflete o momento de equilíbrio da natureza. O vento suave não destrói as flores, pelo contrário, leva o seu pólen, fazendo com que ela fecunde e renasça em outra vegetação. Zéfiro passa a ser o vento dos namorados. Será ele que levará Psiquê ao palácio de Eros, para que se dê o encontro entre o Amor e Alma. Será ele que verá Afrodite (Vênus), a deusa do amor e da beleza, emergir das espumas do mar, soprando-a e conduzindo-a suavemente até a ilha de Chipre.
Zéfiro é o vento do Ocidente, que ameniza o clima grego, vivificando a natureza. Na estrada entre Atenas e Elêusis, era venerado como uma entidade fecundadora. É representado com uma fisionomia serena e terna, trazendo asas, muitas vezes em forma de asas de borboletas, e, coroas coloridas nas mãos.
Em Roma Zéfiro era venerado ao lado da mulher, Flora. Foram construídos dois templos de culto à deusa, um no Circo Máximo e outro no Quirinal. As festas Florais celebravam a primavera em Roma. No início, as Florais eram solenidades religiosas com rituais que pediam aos deuses boas colheitas. Com o passar do tempo, transformaram-se em celebrações licenciosas e obscenas, dando lugar à orgia floral.

Euro, o Vento Leste e Austro, o Vento Sul

Euro, ou Noto, é o vento do Oriente. É um vento descrito diferentemente pelos poetas, com contrastes acentuados de uma versão para a outra. Enquanto muitos escritores atribuem-lhe uma fisionomia tranqüila e benévola, Horácio (65 -8 a.C.) transforma-o em um vento furioso. É representado com asas e cabelos revoltos, trazendo muitas flores nas mãos. Euro chega ao mundo trazido pelos cavalos da mãe, Eos, a Aurora. O mito não gerou grandes lendas, como Zéfiro e Bóreas.
Austro é o vento Sul. É o vento que traz as chuvas, por isto costuma ser representado com um regador nas mãos. Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.) descreveu-o como um velho de cabelos brancos, de estatura elevada, portador de um ar sombrio e de uma nuvem ao redor da cabeça, indicando a chegada das chuvas. Tido como um vento básico e regular, não foi uma divindade com grandes cultos, não gerando grandes lendas enquanto mito.
Em outra vertente mais antiga da lenda, os ventos passavam o tempo em guerra entre si, causando destruição e morte aos homens. Para aplacar a fúria de tão incontidas forças, Zeus encerrou-os em uma caverna, fechando-a com imensos rochedos e montanhas. A seguir, o senhor do Olimpo pediu a Éolo que vigiasse os prisioneiros. Assim, Éolo tornou-se o rei dos Ventos. Noite e dia Éolo ouve o rugido dos prisioneiros, vindos do alto das montanhas, clamando pela liberdade. Mas Éolo não os liberta jamais.


CICLOPES E GIGANTES

Abril 24, 2009
A primeira geração de deuses, conhecidos como divindades primordiais, representa a própria formação da terra e dos seus elementos de forças indomáveis. Gaia (Terra), a deusa mãe, gera incessantemente, do seu ventre forças primordiais assolam a terra, longe da disciplina e da ordem. Os deuses primitivos manifestam a sua essência através das convulsões dos vulcões que expelem lavas, das tempestades e maremotos, dos terremotos que abrem o solo sem piedade. Filhos de Gaia e Urano (Céu), as mais estranhas divindades da primeira geração são os Gigantes, os Hecatônquiros e os Ciclopes, seres monstruosos e de natureza indomável, trazendo na essência o pensamento selvagem a contrapor-se com a razão da mente.
Os Gigantes são seres que atingem dimensões inimagináveis, alguns são descritos com mais de dezessete metros, outros com a parte inferior do corpo terminadas em serpentes. Os Hecatônquiros são monstros de cem braços e cinqüenta cabeças. Os Ciclopes são divindades indomáveis, gigantescos, que possuem um único olho no meio da testa. Gigantes, Hecatônquiros e Ciclopes são aprisionados no Tártaro por Urano. O Titã Cronos (Saturno) destrona Urano, e as criaturas monstruosas são libertadas por Gaia, mas para conter a fúria selvagem dos irmãos, Cronos encerra-os novamente. Quando Zeus (Júpiter) destrona Cronos e os Titãs, surge a geração dos deuses que irá disciplinar o mundo, encerrar de vez a brutalidade e instaurar a harmonia entre a natureza, os deuses e os homens. A luta pelo poder leva a uma guerra de dez anos, na qual Zeus derrota os Titãs. Na luta contra os Titãs, os Ciclopes e os Hecatônquiros aliaram-se aos deuses olímpicos, contribuindo para a vitória final.
Inconformada pela derrota dos filhos, Gaia incita os Gigantes a lutarem contra os deuses do Olimpo. Iniciava-se uma violenta guerra, chamada de Gigantomaquia. Mais uma vez sobressai a vitória da inteligência sobre a brutalidade, da ordem contra a desordem. Os Gigantes, último obstáculo para que os deuses olímpicos possam reinar, são derrotados. A harmonia renasce, o poder da divindade, da qual o homem está atrelado, triunfou sobre o mal.
Os Gigantes e os Ciclopes, monstruosas criaturas primordiais, representavam o povo bárbaro que assolava a civilização grega primitiva, fustigando-a com a crueldade das guerras e adversidades sobre a sua ascensão filosófica. Juntos, Ciclopes e Gigantes simbolizam a Grécia antes da sua filosofia, antes da harmonia trazida pelos deuses do Olimpo.

Do Caos à Guerra dos Deuses

No início, o Caos gerou Gaia, a Terra, que solitária, gerou Urano, o Céu, com quem se uniu e passou a criar todas as criaturas, mortais ou imortais. Urano, o impetuoso marido de Gaia, é o primeiro senhor do universo. Durante o seu reinado, está mais preocupado em fecundar Gaia e com ela ter todos os filhos, quer deuses, quer monstros, sua função é povoar o mundo, sem a preocupação de uma ordem ou disciplina. Os filhos de Urano e Gaia são seres imortais indomáveis, que sem a disciplina harmônica, geram os terremotos, os cataclismos, os vulcões e todas as forças indomáveis da natureza.
Para evitar que os seus filhos agridam de forma indelével à mãe Terra, Urano encerro-os no Tártaro, parte subterrânea do Érebo. Entre os aprisionados estão os Titãs, os Ciclopes e os Hecatônquiros.
Mas os objetivos de Urano vão além da fúria dos seus filhos. É uma disputa pelo poder, pois sabe muito bem que dentre os Titãs, haverá aquele que poderá destroná-lo. Gaia revolta-se contra o marido, como a grande mãe criadora que é, não se conforma em ver os filhos aprisionados. Liberta-os e engendra ao lado do filho Cronos, um plano para derrubar Urano. Assim é feito, Cronos castra Urano e torna-se o senhor dos deuses. Seu reinado continua a não manter a ordem e harmonia entre os deuses e a natureza.
Uma profecia paira sobre o reinado do Titã Cronos: um dos seus filhos com a mulher Réia (Cibele), irá destroná-lo. Cronos devora um a um, os filhos quando nascem, porém, é enganado por Réia, que ao dar a luz a Zeus, entrega ao marido uma pedra embrulhada em um manto, dizendo ser o filho recém-nascido. Poupado, Zeus cresce, até que chega o momento de enfrentar o pai. Disfarçado, consegue dar uma porção para Cronos ingerir, obrigando-o a vomitar os filhos devorados. Das entranhas de Cronos surgem Poseidon (Netuno), Hades (Plutão), Deméter (Ceres), Héstia (Vesta) e Hera (Juno). Juntos, os irmãos Zeus, Poseidon e Hades iniciam uma batalha contra os Titãs, com o objetivo de terminar com o reinado do tempo destruidor e devorador de Cronos.
A guerra entre Zeus e os Titãs durou dez anos. Nesta luta, o deus contou com a ajuda preciosa dos Ciclopes e dos Hecatônquiros, aprisionados pelo irmão Cronos. Ao derrotar o pai, Zeus dividiu o poder com os seus irmãos, a ele coube o domínio do céu e da terra, a Poseidon o reino dos mares e, a Hades, o reino subterrâneo dos mortos. A paz, a disciplina e a harmonia foram estabelecidas no mundo. Zeus passa a reinar de cima do monte Olimpo. Era a nova geração de deuses a eliminar a brutalidade das forças indomáveis dos deuses primitivos.

A Gigantomaquia

A vitória de Zeus sobre os Titãs estabelecia a ordem do universo. A harmonia e a razão caminhavam juntas no reinado dos deuses do Olimpo. Esta harmonia foi ameaçada pela revolta de Gaia, a deusa mãe. Inconformada em ver os filhos preferidos, os Titãs, aprisionados para sempre no Tártaro, a deusa mãe incita os Gigantes, seus outros filhos, a rebelarem-se contra o governo dos olímpicos. A rebelião dos Gigantes, a Gigantomaquia, seria a última guerra que Zeus iria enfrentar para que o seu governo fosse estabelecido definitivamente sobre os deuses. A última contestação do reinado dos olímpicos.
O mito dos Gigantes surge timidamente entre os gregos antigos. Hesíodo citou-os, mas sem mencionar a guerra contra os olímpicos. Homero aponta os Gigantes como um povo mortal. Também os hebreus citam Gigantes dentre os povos que guerrearam contra Israel. Em algumas versões, os Gigantes teriam sido um dos povos dizimados por Deus durante o dilúvio. Na mitologia, a tradição referente aos Gigantes não é clara, muitas vezes confundidos com os Titãs, formando uma só entidade. Píndaro é quem traz, tardiamente, o mito dos Gigantes para a literatura grega, localizando os campos de Flegra, península de Palena, na Macedônia, como o palco da batalha final da Gigantomaquia, e como local do nascimento dos Gigantes.
No episódio da batalha de Flegra, os Gigantes são dotados por uma força invencível, possuidores de muitos artifícios mágicos, como uma erva mágica dada pela mãe, Gaia, que os fazia invulneráveis aos golpes desferidos pelas mãos dos inimigos. Segundo a tradição, o Destino havia decidido que os Gigantes só poderiam ser mortos quando um deus e um mortal os atacassem simultaneamente.
Zeus, Hades e Poseidon juntam todos os deuses para a batalha final, em Flegra. Para atender à imposição do Destino, que exigia um deus e um mortal para matar os Gigantes, Zeus convoca o herói Héracles (Hércules), seu filho mortal. Há uma grande contradição cronológica na lenda, pois Héracles tinha o seu nascimento posterior aos Gigantes, pertencendo a uma geração posterior. A contradição é superada pela simbologia, era a presença humana ao lado dos deuses na luta pela vitória do bem sobre o mal, da ordem sobre a desordem do mundo, da consolidação da racionalidade e crescimento do espírito imortal e humano.
Em Flegra, Alcioneu, Porfirião, Encélado e Polibotes comandam o ataque dos Gigantes. Utilizando uma força descomunal, os estranhos seres atiravam rochedos contra o céu, fazendo as montanhas tremerem, os rios saltarem dos leitos, ilhas afundarem no mar. A Gigantomaquia fere a terra, matando os humanos que lutam ao lado de Héracles. Porfirião é fulminado por Zeus quando tenta violar Hera, sua esposa. Héracles mata Alcioneu. Um a um os Gigantes sucumbem. Atena (Minerva) mata Encélado. Poseidon e Héracles eliminam Polibotes. Por fim, há um silêncio nos campos de Flegra, banhados em sangue. Os Gigantes estão mortos. Os deuses, exaustos, retornam ao Olimpo. Era o fim da Gigantomaquia.

Outros Mitos dos Gigantes

Outro mito assimilado aos Gigantes é o monstro Tifão. Uma das versões da lenda de Tifão descreve-o como filho de Hera, a ciumenta esposa de Zeus. Ao ver Atena, a bela deusa da sabedoria, nascida do crânio de Zeus, sem a sua participação, Hera implora a Gaia, a deusa mãe, que a faça conceber sem a participação do marido. Assim, engravidara sozinha, dando à luz a Tifão, que nascera um monstro, castigo por tentar conceber sem a participação masculina. Na outra versão, Tifão é filho de Gaia e Urano. Ao ver a derrota final dos Gigantes, Gaia incita Tifão a insurgir-se contra Zeus, com o objetivo de vingar os irmãos. Ao atender aos caprichos da mãe, Tifão declara guerra a Zeus, mas é vencido, aprisionado e submetido a torturas eternas.
Há uma geração de Gigantes que não pertence às divindades primordiais. Trata-se dos Aloídas, Oto e Efialtes, filhos de uma aventura amorosa do deus dos mares Poseidon e Ifimedia. São chamados de Aloídas por ter sido adotados por Aloeu, marido de Ifimedia. Conta a lenda que aos nove anos, os Aloídas já haviam alcançado a altura de dezessete metros.
Assim como os Gigantes filhos de Gaia, os Aloídas rebelam-se contra Zeus, empilhando várias montanhas, preparando uma grande escada que os conduziria ao céu, atingindo o Olimpo. Na rebelião, eles atiram montanhas ao mar, na tentativa de secá-lo. Ao tentar chegar ao céu, os Aloídas traçam como objetivos destronar Zeus e raptar Hera e Ártemis (Diana), deusas pelas quais estavam apaixonados. Os intrépidos Gigantes aprisionam Ares (Marte) num pote de bronze, que só seria libertado por Hermes (Mercúrio), após a derrota dos agressores. Diante de tanta ousadia, Zeus fulmina os dois com um raio, aprisionando-os para sempre nos infernos.
Assim, ao derrotar os Gigantes, Zeus vence as adversidades das forças primordiais, indomáveis e bloqueadoras da evolução da razão, da descoberta da inteligência sobre os impulsos da natureza, da sua essência mais primitiva. É a vitória da filosofia grega sobre a hostilidade das civilizações mais remotas, a vitória da inteligência do homem sobre os seus instintos básicos.

As Quatro Categorias dos Ciclopes

Na luta dos deuses olímpicos pela supremacia do poder, os Ciclopes, seres gigantes de um só olho na testa, e os Hecatônquiros, monstros de cem braços e cinqüenta cabeças, aliaram-se a Zeus e aos seus irmãos, contribuindo para a sua vitória final.
Os Ciclopes têm em sua essência primitiva, o caráter violento; são movidos pelos instintos básicos e pela irracionalidade compulsiva de apenas sobreviver, ou de sentir prazer. São agrupados tradicionalmente em quatro categorias distintas: os uranianos, os pastores, os ferreiros e os construtores.
Os Ciclopes Uranianos são divindades primitivas, filhos de Gaia e Urano. Tidos como entidades menores, não são deuses, mas também não são mortais, são seres de uma força mágica. Segundo Hesíodo, os filhos Ciclopes de Gaia eram três: Estérope (o raio), Brontes (o trovão) e Argés (o relâmpago). Por trazerem uma força indomável, eles foram aprisionados no Tártaro por Urano, juntamente com os Hecatônquiros. Urano temia ser destronado por criaturas tão monstruosas. Eles só seriam libertados quando Cronos assumiu o poder sobre os deuses. Mas a liberdade foi provisória, o Titã sucessor de Urano voltou a encerrá-los nas trevas do inferno. Ali permaneceriam até que Zeus os libertasse definitivamente. Como agradecimento pela liberdade, os Ciclopes aliaram-se aos olímpicos, forjando-lhes as armas de combate. Para Zeus deram o raio, para Poseidon o tridente, e para Hades, o capacete que o tornava invisível.
Os Ciclopes uranianos fabricaram o raio com o qual Zeus fulminara Asclépio (Esculápio), filho do deus Apolo. Para vingar a morte de Asclépio, Apolo eliminou os três Ciclopes.
Os Ciclopes Ferreiros são entidades inferiores aos uranianos, não sendo mencionada a sua origem, o que nos permite incluí-los na primeira geração de divindades. Os mitos mais famosos dos Ciclopes ferreiros são os de Acamas e Pirácmon. Ligados à metalurgia, são eles que confeccionam as flechas de Ártemis e Apolo, as armas e os adornos dos deuses. Fazem parte da corte de Hefestos (Vulcano), o deus artesão, do fogo e dos metais. Habitavam a oficina de Hefestos, localizada dentro do vulcão Etna, na Sicília.
Os Ciclopes Construtores eram mencionados como hábeis arquitetos e escultores, sendo a eles atribuídos todos os monumentos pré-históricos da Grécia e da Sicília. Entre as construções tidas como feitas pelos Ciclopes, estão as muralhas de Tirinto e Micenas. Eram construções primitivas feitas com gigantescos blocos de pedra, que pareciam à civilização grega impossível ter sido transportadas por humanos, daí ter sido erigidas pelos músculos dos gigantescos Ciclopes. Os mitos dos Ciclopes construtores provinham principalmente, da Lícia.
Os Ciclopes Pastores são os mais brutais de todos eles. Situam-se numa terceira geração de divindades, como é o caso de Polifemo, o mais famoso dos Ciclopes, filho de Poseidon, o deus dos mares. Se os três outros grupos dos Ciclopes destacam-se pelas habilidades de arquitetos, artesãos e construtores, demonstrando uma inteligência criativa, os Ciclopes pastores são rudes, de uma crueldade selvagem, desprovida da moral civilizadora ou limitações diante dos deuses e dos costumes. Têm como única riqueza parcos rebanhos de carneiros. Não plantam, não lavram, não fazem oferendas aos deuses, não têm leis, passeiam nômades pelas montanhas, levando os seus rebanhos, que devoram sem cozinhá-los, vivem em grutas, no alto dos montes. Outra característica dos Ciclopes pastores é o canibalismo. São os mais puros representantes da Grécia mítica e primitiva, antes de alcançar a mais elaborada e evoluída das civilizações antigas, que trazia o fantasma de seres antropófagos, selvagens e que se alimentavam da carne humana. Os gregos temiam à crueldade sanguinária atribuída aos Ciclopes, considerando-os deuses e a eles fazendo sacrifícios em altares que se lhe dedicavam, sendo em Corinto o mais conhecido.

Polifemo e Odisseu

Polifemo é o mais famoso dos Ciclopes. Está incluso na categoria dos Ciclopes pastores. Seu mito suscitou duas grandes lendas: o Polifemo cruel e sanguinário, derrotado por Odisseu (Ulisses), descrito por Homero e Eurípides; e, o Polifemo jovem e apaixonado, que não vendo o seu amor pela bela Galatéia ser correspondido, passa a cantar para esquecer as mágoas do amor rejeitado.
O Polifemo de Homero, descrito na “Odisséia”, e de Eurípides, imortalizado no drama satírico “O Ciclope”, é filho de Poseidon e da ninfa Toosa. É um ser monstruoso, cruel e selvagem, vive em uma gruta da ilha onde habita.
Polifemo vive desconfiado, sem leis ou sentimentos de afeição. Sua condição de ser primitivo incapacita-o de qualquer gesto de comoção ou piedade. Vive com os seus carneiros em uma ilha conhecida como sua. O cotidiano de Polifemo é quebrado quando Odisseu e os seus homens, que retornavam da guerra de Tróia, aportam na ilha. Os guerreiros gregos encontram a caverna de Polifemo, onde vêem espalhados pelo chão, potes de leite e queijos de cabra. Famintos, devoram os alimentos do Ciclope.
Odisseu sabia que a ilha pertencia a Polifemo, sabia também da crueldade secular do Ciclope, espalhada e contada pelos quatro ventos. Mesmo assim, não impede os seus homens de saquearem os mantimentos de tão perigosa criatura. É a devorar-lhe os alimentos, que Polifemo vai encontrar, dentro da caverna, Odisseu e os seus homens. Há um breve diálogo entre Odisseu e Polifemo, marcado pela astúcia do primeiro e pelo sarcasmo do segundo. A conversação é interrompida quando Polifemo, sem demonstrar compaixão, pega dois dos homens, devorando-os em minutos, jogando os seus ossos em um canto da caverna.
Aprisionado na caverna de Polifemo, Odisseu vê todos os dias, dois dos seus homens sendo devorados pelo monstro. O soberano da Ítaca elabora um plano. Pensa em matar Polifemo durante o sono, mas sabe que se o fizer, também ele e os seus companheiros morrerão, pois uma gigantesca pedra fecha a caverna, só podendo ser removida pela força incomum do próprio Ciclope.
Os dias vão passando, e Polifemo vai devorando os homens de Odisseu, comendo-os às vezes crus, às vezes cozidos. Polifemo passa o dia a conduzir o seu rebanho de cabras pela ilha, enquanto deixa os navegantes presos na caverna. Enquanto o Ciclope está fora, Odisseu inspeciona a caverna. Encontra vinho e uma grande madeira. Juntamente com os seus homens, afina a madeira, transformando a sua extremidade em uma ponta aguçada, endurecida ao fogo. Quando Polifemo retorna, Odisseu, gentilmente oferece-lhe uma gamela de vinho. Num só trago, o monstro sorve a bebida. Odisseu oferece-lhe outra gamela, e outra, e outra… Como agradecimento, Polifemo promete devorar-lhe por último. Já embriagado, o Ciclope pergunta a Odisseu como é o seu nome. Ele responde: “Ninguém”. Por fim, embriagado e cansado, Polifemo cai em um sono pesado. Aproveitando-se do momento, Odisseu pega a estaca que afiara a ponta, e em um gesto rápido, fura o único olho de Polifemo.
Polifemo acorda com um urro de dor, o sangue jorra por toda a sua cara. Enfurecido, procura por Odisseu e os seus homens, mas cego, não percebe que eles estão debaixo dos seus carneiros, ao tocá-los, pensa tocar nos animais do seu rebanho. Desesperado, Polifemo afasta a pedra da gruta. Sai correndo pela ilha, a gritar furiosamente e com desespero: “Ninguém me cega. Ninguém quer me matar”. Naquele instante, Odisseu e os que sobreviveram à fúria do monstro, partem da ilha, deixando Polifemo cego do seu único olho.

Polifemo e Galatéia

Na segunda lenda do mito, Polifemo é um pastor jovem e apaixonado pela bela nereida Galatéia. Mas como é feio, portador de um único olho, a jovem repudia e rejeita o seu amor. Polifemo, ser brutal, rude nos seus atos e na sua parca conduta de vida, vê na bela e frágil Galatéia, o redimir da sua essência primitiva, domesticada pelo amor e pelos sonhos da paixão.
Se a beleza da jovem suscita no monstro a delicadeza, o amor verdadeiro, nela ele apenas desperta o medo, o terror. Loucamente apaixonado, ele oferece à jovem as mais belas jóias, belas vestes e moedas de ouro, a tudo ela recusa, sem o mínimo de comoção às súplicas e ao amor do Ciclope.
Sem ter o seu amor correspondido, Polifemo passa o tempo a cantar a beleza de Galatéia, como se assim pudesse fugir da imensa dor que lhe trespassa o coração apaixonado. Este Polifemo que encontra na música o refúgio para afogar a sua mágoa de amor, é retratado por Teócrito num de seus “Idílios”.
Ovídio apresenta uma versão diferente do amor de Polifemo por Galatéia, transformando-o em um ser compulsivo e violento, longe do romantismo lírico da outra versão. Em Ovídio, diante da recusa de Galatéia ao seu amor, o Ciclope desconfia que ela nutre uma paixão por outro. Diante da possibilidade de um rival, Polifemo segue Galatéia, confirmando as suas suspeitas ao vê-la nos braços do belo Acis, entregando-se apaixonadamente.
Polifemo não suporta o que vê. O seu coração magoado enche-se de ódio, transportando-o para uma fúria cega e perigosa. Desesperado, dilacerado pelo ciúme, ao ver o casal entrelaçado na praia, Polifemo solta um grito cortante, como um trovão a rasgar o céu. Assustada, Galatéia foge para o mar, mergulhando na imensidão das águas. Acis, ao tentar acompanhar a amada na fuga, é atingido por um rochedo que lhe atirou Polifemo sobre o corpo. O jovem cai sem vida. Comovidos pelos prantos de Galatéia, ante ao amado morto, os deuses transformaram Acis num rio que corre próximo ao monte Etna. Polifemo sente-se vingado. O ódio aliviou-lhe a angústia do coração apaixonado.


DIVINDADES SIDERAIS

Março 18, 2009

Os astros sempre foram motivos de atenção, adoração e estudos das civilizações mais remotas. Antes de alcançar o apogeu intelectual e filosófico que se espalhou pelo mundo antigo, os gregos em seus primórdios, tinham dificuldade em explicar a origem do movimento dos astros. Como tinham poucas informações concretas sobre eles, desprovidos de estudos científicos, transformaram em deuses o Sol, a Lua, a Aurora e outros, criando as divindades siderais e atmosféricas.
As divindades siderais estão divididas em dois grupos, sendo o primeiro composto pelos deuses Hélios (Sol), Selene (Lua) e Eos (Aurora), considerados como prole da segunda geração de deuses, os Titãs. O segundo grupo é formado por Eósforo (o portador da manhã); Fósforo (o portador da luz), nomes primitivos do planeta Vênus, que em Roma identificava-se com Lúcifer; e, Héspero (Vésper), o astro da tarde, invocado como guia dos cortejos nupciais. Héspero é tido como o pai das Hespérides, as ninfas da tarde.
Hélios, com os seus cabelos dourados, corpo atlético e olhos serenos, era o filho mais belo do titã Hipérion e da titânia Teia. Hipérion em grego significa “o que se move no alto”, sendo ele um epíteto do próprio Sol. Em uma das versões sobre o mito, Hélios, por sua beleza e serenidade, despertou a inveja dos seus tios, os outros Titãs. Este sentimento de ódio levou a que cometessem um ataque de fúria contra o sobrinho, atirando-o às águas do rio Erídano. Apesar de lutar contra a fúria das correntezas, Hélios teria sido tragado por elas. Ao saber da morte do irmão, Selene não teria suportado a dor e arremessou-se do alto do palácio dos pais, também perecendo. Mas os irmãos não tinham morrido, ascenderam ao Olimpo, ao lado dos imortais, transformando-se nos poderosos deuses Hélios e Selene, que iluminavam o mundo, chamados agora de Sol e Lua. Ao lado da irmã Eos, a Aurora, eles traziam a claridade para a humanidade.

Hélios, o Sol

O deus Sol foi cultuado por todas as civilizações antigas. Numa época bastante remota, estendeu-se pela Grécia o culto a Hélios, divindade que tinha como função iluminar os deuses e os homens, fazendo brotar as plantas e amadurecer os frutos. O culto a Hélios ter-se-ia originado na Ásia, com paralelos similares a Samas, divindade solar da Mesopotâmia.
No mito de Hélios encontramos o deus a percorrer o céu sobre um carro de ouro, fabricado pelo artesão dos deuses e senhor do fogo, Hefestos (Vulcano). Hélios traz o seu carro atrelado a quatro velozes cavalos brancos, que soltam fogo pelas narinas. Os nomes dos cavalos do Sol sofrem alterações de acordo com as várias versões da sua lenda, sendo os mais tradicionais Eôo (oriental), Éton (cor de fogo), Pírois (eu queimo) e Flégon (eu brilho). Noutras versões, há os cavalos Etíope e Lampo (resplandecente).
Conduzindo o seu carro de ouro, Hélios percorre uma longa viagem pelo mundo, partindo de um pântano formado pelo Oceano, no longínquo país da Etiópia, no Oriente. Hélios cavalga o céu envolto em um leve manto, trazendo um reluzente capacete. Percorre o azul celeste em uma corrida veloz, trazendo luz e calor para todas as partes do universo. Ao meio-dia Hélios alcança o ponto mais alto da sua trajetória, então o carro começa a descer na direção do Ocidente. Ao chegar no país das ninfas Hespérides, submerge no Oceano, onde os cavalos se banham, indo descansar na ilha dos Bem-Aventurados. Hélios reúne-se a sua família, que o espera em um barco, no qual navega toda a noite, até atingir no dia seguinte, o ponto de partida e recomeçar o vôo pelo céu.
Hélios tem a sua residência na ilha de Ea, é dono de sete rebanhos de bois e sete rebanhos de ovelhas, que segundo Aristóteles, os animais representam os 350 dias e as 350 noites do antigo calendário solar. Hélios é o deus que tudo vê, que tudo sabe, descobrindo delitos e punindo os culpados, exercendo assim, o controle ético sobre os homens.
Das lendas que envolveram o mito de Hélios, a mais famosa é a do seu filho Faetonte. Para provar a Épafo que era filho do Sol, Faetonte consegue convencer o pai a deixá-lo dirigir os quatro cavalos pelo céu. Preso a uma promessa, Hélios permite que o filho o faça. Cavalgando os céus, Faetonte perde o controle sobre os cavalos, que começam a galopar sem direção, bem próximos da terra, queimando-a e tirando a respiração dos homens. Perdidos pelos céus, os cavalos passam pela Etiópia, aproximam-se tanto dos homens que se lhe mudam a cor, passando de brancos a negros. Faetonte continua perdido pelo céu, causando grandes estragos à humanidade. Ao ver a imprudência do filho do Sol, Zeus (Júpiter), o senhor dos deuses, fulmina Faetonte com um raio, o jovem cai morto nas águas do rio Erídano. A Hélios só resta prantear o filho.
Na Grécia, o local principal do culto a Hélios era na ilha de Rodes, onde todos os anos eram celebradas as festas Helíacas, que traziam jogos, certames musicais, culminando no sacrifício de quatro cavalos atirados ao mar. Em 291 a.C. o escultor Cares fez a imagem mais popular do deus, a estátua que ficou conhecida como o Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo.
Com o tempo (a partir do século V a.C.), o culto a Hélios começou a declinar por toda a Grécia, sendo substituído por Apolo, o deus solar e da luz, que passou a ser identificado ao Sol, assumindo as suas principais características.

Selene, a Luz de Prata das Trevas

Selene, a Lua, irmã de Hélios e Eos, traz uma coroa de ouro na cabeça, veste trajes fulgurantes, iluminando a atmosfera em trevas. O seu trabalho começa quando Hélios, ao entardecer, termina a sua viagem pelo mundo. Então Selene parte em um carro de prata, puxada por belos cavalos brancos, emanando luz por toda a escuridão da noite. Há versões da lenda que não lhe conferem um carro de prata, mas apenas um cavalo que ela monta em sua viagem pelo céu.
O culto à Lua é mais antigo entre as civilizações do que o culto ao Sol. O mito de Selene é anterior ao mito de Hélios. Apesar de não ter grandes cultos, os povos associavam a Lua com a fertilidade, com o crescimento das plantas, sendo responsável pela fecundidade dos humanos e dos animais.
O culto à Selene perdeu as características diante da deusa Ártemis (Diana), irmã gêmea de Apolo, deusa da caça e da castidade, assumindo também a função de deusa da Lua. Em Roma Luna era a deusa lunar, sendo cultuada em um templo construído no monte Aventino, sendo também assimilada a Diana. Selene foi associada também a Hécate, a deusa que ronda os túmulos.
A lenda que caracterizou o mito, foi a sua paixão por Endimião, o jovem pastor mergulhado em um sono eterno. Obcecado pelo desejo de agarrar a juventude eterna, Endimião pede a Zeus que lha conserve para sempre. O senhor dos deuses concede-lhe o desejo, desde que ele concorde em dormir um sono infinito. Assim, quando Endimião cansado da labuta com os animais de seu rebanho, deita-se sobre a relva para descansar um instante, é envolvido em um sono do qual jamais irá despertar. Selene, ao passar pelos campos, apaixona-se pela beleza serena daquele homem adormecido. Desce ao mundo e deita-se ao lado de Endimião, por quem está irremediavelmente apaixonada. Afaga-lhe os cabelos, beija-lhe as faces, a boca, mas ele não acorda. Todas as noites, após caminhar pelo mundo distribuindo luz, Selene regressa aos campos onde está o amado, deita-se ao seu lado, adormecendo encostada no seu peito, a sonhar com o dia que Endimião se irá erguer daquele sono eterno e abraçá-la e beijá-la. Endimião representa o carinho da Lua a iluminar os homens docemente, sem despertá-los do sono e do repouso que se lhes infringe o Sol.

Eos, a Aurora

Eos, a Aurora, é irmã de Hélios e Selene, completando a tríade das grandes divindades siderais. É uma deusa de róseos dedos, que abre a porta do céu ao carro de Hélios. É a primeira luz da manhã, trazendo consigo a primeira brisa, que esparge o orvalho sobre os campos, desperta os animais e os homens, trazendo-lhes o primeiro calor do dia, que estava envolto na frieza da noite.
Eos movimenta-se pelo céu conduzindo um carro púrpuro, guiado por dois cavalos, Lampo e Faetonte, que trazem arreios multicoloridos. Quando Eos passa pelo céu, o mundo, por breves minutos, enche-se de cores. O fenômeno das auroras no céu é típico apenas do hemisfério norte, daí a importância que os gregos davam a ele, como a promessa das primeiras luzes da manhã.
O mito de Eos é descrito pelos poetas como uma bela e jovem mulher de cabelos esvoaçantes, ágil e graciosa, movida de asas nos ombros e nos pés. A lenda refere-se a Aurora como uma deusa de amores intensos e fugazes, presos na inconstância dos seus caprichos. É mãe de alguns ventos e astros, frutos do seu casamento com Astreu (“o homem estrela” ou “o céu estrelado”).
O caráter inconstante de Eos teria sido provocado depois que se apaixonara por Ares (Marte), o que despertou o ciúme de Afrodite (Vênus), deusa do amor, e amante do deus da guerra. Desde então, Afrodite transformou Eos em uma criatura inquieta e atormentada por paixões efêmeras e insaciáveis. Ser amado pela Aurora significava uma maldição, pois o amado logo seria abandonado ao desespero e à solidão.
O amor de Eos por Titono, irmão do rei Príamo, de Tróia, é a lenda mais famosa do mito. Ao apaixonar-se pelo mortal troiano, Eos decidiu raptá-lo, levando-o para terras distantes da Etiópia, em um lugar próprio para os grandes amores. Para não perder o amado, pede a Zeus que o torne imortal, mas se esquece de pedir a juventude eterna. Assim, Titono envelhece como todo ser humano, mas não morre, pois se tornara imortal. A velhice consome o pobre Titono, que atravessa os séculos senil, cansado, sem forças e inútil. Titono vai definhando, até que Eos penalizada com a decrepitude do amante, transforma-o em uma cigarra.
Em épocas posteriores da cultura grega, com a chegada dos grandes filósofos e matemáticos, os grandes segredos siderais passam a ser motivos de estudos e avanços da ciência, o que eliminou o seu caráter mitológico. Com a evolução dos estudos filosóficos, o mito esvai-se, cedendo lugar à teoria e às hipóteses. As divindades siderais perdem, aos poucos os seus mistérios, enquanto que Apolo e Diana, deuses solares e lunares respectivamente, ganham espaço na literatura e no teatro grego.


CENTAUROS – SÁTIROS – SILENOS – FAUNOS: METADE HOMEM, METADE ANIMAL

Fevereiro 11, 2009

A mitologia grega está povoada de estranhas figuras, desde monstros terríveis, como a Medusa, que trazia na cabeça não fios de cabelos, mas serpentes, aos Ciclopes, homens gigantes que traziam um olho no meio da testa, ou Cérbero, cão de muitas cabeças que guardava as portas do inferno. Os monstros mitológicos normalmente são seres malignos que desafiam os heróis e os deuses, sendo por eles destruídos ou aprisionados.
Dentro da criatividade mitológica, há alguns monstros de caráter benéfico, que acompanham os deuses em seus cortejos, tendo a aparência híbrida, metade humana, metade animal. Nos mares vamos encontrar as sereias e os tritões, metade humanos, metade peixes, que seguem o cortejo do deus dos mares, Poseidon. Nos campos temos as alegres figuras das divindades campestres, que trazem duas naturezas, a humana e a caprina, representada pelos Sátiros e os Silenos. Não são deuses, mas não são meros mortais, pois tomam do néctar e assim como as ninfas, não envelhecem, têm uma longa vida. São gênios campestres que protegem os homens e os seus rebanhos das feras da floresta. Os Sátiros têm o seu mito ligado não apenas ao campo, mas à fertilidade e à música, sendo que o mais famoso deles, Pã, foi o inventor da flauta que leva o seu nome.
Também possuidores de duas naturezas, a humana e a eqüestre, estão os Centauros, originários da Tessália, lugar cheio de montanhas e terras áridas, que tinha na pecuária a sua principal atividade econômica. Este povo montava os seus cavalos para mais facilmente conduzir os seus rebanhos. Esta fusão homem-cavalo originou a figura do Centauro, homem da cabeça ao tronco e cavalo da cintura para baixo. Monstro benéfico, representava a eterna luta das civilizações, do homem que traz em si o irracional e o racional.
Sátiros, Silenos e Centauros, estranhas e fascinantes criaturas mitológicas que com a dualidade do seu corpo, traduziam a essência da evolução da civilização humana, muitas vezes racional, outras vezes meramente animal.

Nascidos da Mulher Feita de Nuvem

O cavalo é um animal veloz, quando montado pelo homem, ao longe parecem um só em uma imagem definitiva. Símbolo nas civilizações antigas da força e da ousadia, o cavalo despertava a simpatia dos gregos. A partir desta admiração, surge o mito dos Centauros, nascido na Tessália, considerada na antiga Grécia, um lugar de habitantes bárbaros, cruéis e ignorantes. Por este motivo, há duas vertentes no caráter do Centauro, quando visto pelos gregos como um reflexo dos pastores e habitantes da Tessália, assumiam aspectos rude e ignorante, levados à crueldade quando embriagados. Mas a maioria das lendas sobre os Centauros, mostra-os benéficos e inteligentes, festejando com os mortais os casamentos e banquetes.
A origem dos Centauros está ligada ao mito de Ixião, habitante da Tessália, que matara a sangue frio o próprio sogro. Perseguido pelos habitantes do lugar, Ixião fugiu, percorrendo vários lugares da Grécia. Todas às vezes que era descoberto, era obrigado a fugir do lugar onde se encontrava, sem jamais ter paz. Diante da infelicidade de Ixião, Zeus (Júpiter), o senhor dos deuses, apiedou-se dele, convidando-o para viver no Olimpo.
No Olimpo Ixião não se mostrou agradecido, pelo contrário, pérfido e traiçoeiro, apaixonou-se por Hera (Juno), a rainha dos deuses, esposa de Zeus. Não contente, tentou seduzir a fiel esposa do senhor do Olimpo, confessando-lhe o seu amor e desejo. Indignada, Hera contou ao marido a ousadia de Ixião.
Zeus não castigou o seu hóspede ingrato tão logo soube das suas intenções, pelo contrário, como muita calma, preparou-lhe um grande ardil. Num pedaço de nuvem, o senhor dos deuses confeccionou uma réplica de Hera. Deu-lhe movimentos e sopros de vida. Assim, ao ver a nuvem em forma da rainha do Olimpo sorrir-lhe insinuante, Ixião não pensou duas vezes, tomou-a nos braços e a possuiu arrebatadamente, com sôfrega paixão.
Do amor traiçoeiro e infame de Ixião com uma mulher feita de nuvem, nasceu o monstro Centauro, metade homem, metade cavalo. Após o ardil, Ixião foi atirado ao Tártaro, onde ouviu, por muitos séculos, os deuses rindo da sua infâmia amorosa. Do alto do Olimpo Néfele, a mulher de nuvem que tinha o rosto de Hera, desfez-se em pranto.
Centauro foi deixado sozinho no monte Pélion. Trazia em si o irracional e o racional, a razão e a consciência mescladas com a sua natureza bestial. Centauro trazia na sua cabeça de homem o pensamento, a inteligência humana, e no seu corpo animal o desejo, o impulso naturalmente eqüino. No monte Pélion uniu-se a uma égua, gerando uma criança, dando início aos Centauros.

Vítimas da Embriaguez do Vinho

Os gregos não apresentavam os Centauros como seres totalmente malignos e que transmitiam o terror. Ora eram vistos como seguidores do cortejo de Dioniso (Baco), deus do vinho.
Conta a lenda que os Centauros não têm o hábito do vinho, por isto embebedam-se com facilidade, o que influi na sua parte animal, tornando-os violentos e cruéis, brigando entre si e atacando as ninfas. Esta fraqueza ante ao álcool é sintetizada na lenda do casamento de Pirítoo, o rei dos lápitas, que os convidara para as bodas. Embriagados, os Centauros provocaram confusão e briga entre os convidados. Um deles, Euritião, apoiado pelos outros, tentou violar Hipodâmia, a noiva de Pirítoo.
O incidente originou uma longa guerra entre os lápitas e os Centauros. A lenda talvez sirva para relatar uma guerra que se sucedeu de verdade. Centauros parece significar “bando de cem guerreiros”, e lápitas “os que quebram pedras de fogo”, e seriam dois povos provenientes da época neolítica, isolados nas montanhas da Tessália e na região pastoril da Arcádia, travando entre ambos, lutas constantes.
Um outro Centauro famoso foi Folo, filho de Sileno e de uma ninfa, habitante da região de Fóloe, na Élida. Conta a lenda que durante os seus doze trabalhos, Héracles (Hércules) atravessou esta região. O herói encontrou boa hospitalidade na casa de Folo, que lho ofereceu comida e pouso. Durante a ceia, Héracles solicitou vinho a Folo, mas o Centauro hesitou em servi-lo, temendo que o cheiro da bebida atraísse aos demais Centauros, que diante da embriaguez tornavam-se bestiais. Mas Héracles insistiu e Folo acabou por ceder. Ao sentir o cheiro do vinho, outros Centauros foram atraídos à casa de Folo. Lá chegando, exigiram que lhes fosse servida a bebida. Embriagados, envolveram-se em uma grande luta, fazendo com que Héracles intervisse. A luta só parou quando muitos deles foram mortos pelo herói, e outros tantos fugiram.

O Sábio Quirão

O mais famoso dos Centauros é o sábio Quirão, o preceptor do grande herói Aquiles. Quirão, segundo uma vertente da lenda, seria filho de Cronos (Saturno) e da ninfa oceânida Filira. Sua origem foge totalmente à lenda de Centauro, filho de Ixião e da nuvem em forma de mulher. Conta a lenda que para fugir da desconfiança da mulher, a deusa Réia (Cibele), Cronos metamorfoseia-se de cavalo para amar a bela Filira. Da união dos amantes nasce, no monte Pélion, um menino metade homem, metade cavalo. Inconformada em ter gerado um Centauro, Filira passa a ter repulsa do filho. Para não sofrer tanto com a imagem do pequeno monstro, ela pede aos deuses que a transformem em uma árvore, que nada sente. Compadecidos, os deuses a transformam em uma tília. Ao ver a amada imóvel em forma de árvore, só resta a Cronos protegê-la dos raios e dos lenhadores, fazendo com que a tília exale um agradável e inebriante perfume quando floresce na primavera.
Cronos ama o filho, decidindo que ele não terá o mesmo destino da espécie, não será cruel, violento e nem bestial. Dota-o com todas as suas virtudes de deus do tempo, fazendo-o o mais sábio dos Centauros.
Quirão herdara do pai titã, os conhecimentos da magia, da astronomia e o dom de prever o futuro. Mesmo tendo o seu lado bestial, é um Centauro gentil e sábio, conhecedor das artes e da música. É um ilustre portador de ensinamentos filosóficos e morais. Habita uma gruta, onde para lá se dirigem deuses, heróis e reis para confiar ao Centauro a educação de seus filhos. Quirão é o símbolo da superação bestial diante da razão e da cultura. É um Centauro helenizado, longe da rudeza dos Centauros da Tessália.

As Divindades Campestres

As terras gregas, compostas por ilhas e penínsulas, são montanhosas, castigadas por rigorosos invernos e verões escaldantes, fazendo com que as atividades agrícolas fossem desenvolvidas em poucas áreas cultiváveis, e as pastoris realizadas no alto das montanhas, onde ventos fortes permitiam apenas o crescimento de ervas próprias à alimentação dos rebanhos. Para percorrer o alto das montanhas e suas pastagens, os antigos gregos tinham que atravessar florestas cerradas e bosques densos, através de trilhas estreitas e perigosas, habitadas por feras como javalis e lobos.
Para vencer a difícil luta contra um clima hostil e um relevo difícil, os gregos pediam ajuda aos deuses, venerando tenazmente as divindades agrícolas, refletidas principalmente em Deméter (Ceres), deusa da agricultura e protetora do trigo, e em Dioniso, deus protetor da vinha. Estas divindades principais, não eram as únicas veneradas pelos camponeses e pelos pastores. Outras divindades secundárias como os Sátiros, os Egipãs e os Silenos, eram cultuadas como protetoras dos rebanhos, facilitando a fertilidade do solo e à procriação dos animais.
O Sátiros, os Egipãs e os Silenos são divindades agrestes secundárias, híbridos em sua forma, meio animal, meio humano.Vivem nas florestas, em lugares impenetráveis, longe do alcance dos olhares humanos. Participam sempre do cortejo de Dioniso. São alegres e ruidosos, amam as festas, o vinho, as Ninfas e, principalmente, amam os bosques, dos quais são protetores.

Os Sátiros

Os Sátiros têm a sua origem em duas versões mitológicas: a primeira é que seriam filhos de Hermes (Mercúrio) e de Iftiméia, outros autores atribuem a paternidade ao deus do vinho, Dioniso, com a ninfa Nicéia. São seres que trazem traços de homem e de bode. São caracterizados com uma bestialidade arrebatadora, como gênios preguiçosos, covardes e movidos por uma sensualidade que lhe dão uma sexualidade sempre em ebulição, à flor da pele. Gostam de aterrorizar os pastores e os viajantes, mas, ao mesmo tempo, protege-os das feras dos bosques, assim como protegem os seus rebanhos.
A permanente sensualidade dos Sátiros revela-lhes uma vigorosa forma física. Seu apetite sexual é insaciável, assim como a voracidade que sentem em relação ao vinho e à embriaguez.
Com o tempo há uma mudança na descrição destas entidades, que passam a ser descritos como dóceis, maliciosos e travessos, amantes da dança e da música. Esta nova imagem conserva-lhes as orelhas pontiagudas, os pequenos chifres e os pés caprinos. São eternos perseguidores das Dríades (Ninfas das árvores, em geral) e das Hamadríades (Ninfas dos carvalhos).

Os Egipãs e os Silenos

Os Egipãs são descendentes diretos do deus Pã. São pequenos homens peludos, com chifres e pés de cabras, trazendo o corpo terminado em cauda de peixe. Egipã seria filho de Pã e da ninfa Ega. Foi concebido numa noite de embriaguez dos pais. Atribui-lhe o som que se ouve nas conchas, tornando-a um instrumento de sopro. Egipã, assim como os seus descendentes, repetem o próprio Pã.
Os Silenos são muito parecidos com os Sátiros, embora descritos como portadores de uma aparência menos jovial. Os Silenos não surgiram na Grécia, são oriundos da Frigia. São divindades que trazem como evidências físicas uma cauda, patas e orelhas de cavalo (diferentes dos Centauros, os Silenos alongam as pernas em forma de patas eqüinas). Por estas características, são considerados gênios das águas, pois o cavalo é um animal que simboliza a água.
Através dos Silenos surgiu o mito de Sileno, nascido na Grécia, e que é diferente de todos os outros. Sua forma física em nada lembra os Silenos tradicionais, é gordo e calvo, sendo a personagem mais pitoresca do cortejo de Dioniso. Está sempre embriagado, sendo carregado pelos Sátiros. Sileno seria filho de Hermes e Gaia (Terra), ou ainda, em uma segunda versão, nascera do sangue de Urano (Céu), quando este tivera os testículos amputados pelo filho Cronos. Sileno é sábio, e tem o dom de prever o futuro, mas só revela a verdade quando está embriagado, sob os efeitos do vinho.
Sátiros, Egipãs e Silenos eram ardentemente cultuados pelos pastores e agricultores gregos, mas nenhum deles possuía festas próprias ou templos erguidos para devoção. Eram venerados pelos antigos gregos com ofertas de animais e produtos da terra.

Pã, o Deus dos Rebanhos

O mais famoso dos Sátiros é Pã, o deus pastor. Há várias lendas em torno do seu nascimento, a versão mais aceita diz que é filho de Hermes e da ninfa Dríope. É em torno dele que vivem os gênios campestres, os espíritos dos bosques. Pã é um deus secundário, representado na maioria das vezes com barba, coberto por pêlos negros no corpo, com chifres na cabeça e patas de bode. A origem do mito vem da Arcádia, lugar montanhoso, que tinha como riqueza apenas a criação de cabritos e carneiros.
Segundo a lenda, Dríope rejeitou o filho tão logo nasceu, por não aceitar a sua forma híbrida. Hermes levou-o para o Olimpo, onde foi criado. Por seu jeito alegre, logo conquistou a simpatia e a afeição de todos os deuses, sendo chamado por eles de Pã, que em grego significa “tudo”.
Pã é o deus dos rebanhos. Vive errante pelas montanhas e pelos vales, aterrorizando as Ninfas dos bosques com a sua impetuosidade viril. Além de pastor e caçador, é músico. Segundo a lenda, foi o inventor da flauta agreste que leva o seu nome.
O mito de Pã traz várias lendas com as suas aventuras amorosas. A sua maior amante teria sido a ninfa Eco, que o deixou por se apaixonar pelo belo Narciso. Como vingança à amante infiel, Pã tirou-lhe a capacidade da fala, limitando-a a repetir o que os outros diziam.
A partir de uma certa altura, Pã deixou de ser visto pelos autores mitológicos como um deus, tornando-o mortal. O romano Plutarco (50? – 125? D.C.) relata a sua morte. Com o passar dos tempos, o seu culto e o culto às divindades campestres, foram desaparecendo, muito antes da cristianização da Grécia e da Roma antiga.

Faunos, Divindades Campestres Romanas

Em Roma a figura mitológica dos Sátiros era associada aos Faunos, divindades agrícolas, que tiveram a sua origem em Fauno, deus agrícola e da fecundidade. Assim como o Sileno grego, Fauno tem o dom da profecia, mas só as revela quando capturado e amarrado. Diversas versões identificam como sendo filho de Marte, outras fazem-no filho de Pico.
Fauno era venerado pelos romanos em um templo construído no monte Palatino. Nas venerações recebia o nome de Luperco. Suas festas, as Lupercálias, eram celebradas em fevereiro, tendo um caráter de purificação. No ritual eram feitos sacrifícios de cabras e bodes. Imolados os animais, o sacerdote passava a faca suja de sangue na fronte de dois jovens, em seguida lavava-lhes com leite as manchas de sangue, completando a purificação.
Os sacerdotes de Fauno vestiam-se apenas com uma pele de cabra, ou outras vezes, apresentavam-se completamente nus durante os cultos. Fauno não admitia pessoas vestidas na sua presença desde o dia que confundira Hércules e Ônfale. A lenda conta que, apaixonado por Ônfale, amante de Hércules, Fauno esperou que o casal adormecesse e adentrou o quarto escuro onde estavam. Sabia que Hércules trazia vestido sobre o corpo uma pele de leão, e Ônfale uma fina túnica. No escuro procurou o corpo que trazia a túnica e tentou possuí-lo, mas os amantes em uma brincadeira sutil, tinham trocado as roupas. Na confusão, Fauno enganara-se, deitando-se ao lado de Hércules, que despertou bruscamente, atirando-o da cama ao chão. Ao perceber o logro, Fauno sentiu grande vergonha, sendo motivo de escárnio diante dos amantes e dos deuses, que se riram do ardil. Desde então, segundo a tradição da lenda, Fauno, para evitar que se enganasse, não admitia aos sacerdotes que se lhe pusessem à frente vestidos.
Os Faunos herdaram do pai o dom da profecia. São divindades campestres semelhantes aos Sátiros gregos, sendo menos brutais e repulsivos em suas conquistas amorosas. Dividem com os Silvanos, divindades campestres como eles, que diferem apenas por preferirem morar nos bosques, sem nunca visitarem os trigais. Os Silvanos são descendentes de Silvano, a mais popular divindade agrícola romana. Assim como as divindades gregas, com o tempo foram esquecidas pelo povo que as criou.


PROMETEU E PANDORA, DA CRIAÇÃO AOS MALES DO HOMEM

Dezembro 26, 2008
Milênios antes de o homem estudar a ciência da vida, as religiões explicaram de forma mística a criação da terra, da vida e da humanidade, numa resposta direta à imensa interrogação que se faz sobre o espaço humano dentro do universo, e a sua existência perecível, na eterna luta da vida e da morte. Se nos conceitos judaico-cristãos, Deus é único e supremo criador do universo e do homem, a religião da Grécia antiga via em Prometeu, um Titã da segunda geração, o criador da humanidade.
Feito para viver no jardim do Éden, Adão é a imagem do criador, ser inteligente e livre para escolher o seu caminho. Se no Gênesis o primeiro homem é feito do barro, na mitologia grega também. Prometeu esculpiu o homem do barro misturado com as suas lágrimas. Adão é feito à imagem de Deus, também o homem de Prometeu é feito à imagem de uma divindade. Se Adão é único, e da sua costela surge a mulher, com quem vai procriar, Prometeu maravilha-se com a sua obra e esculpi outros tantos homens, cada um à imagem das divindades. A sua obra, ao contrário da do Deus dos judeus, não é perfeita, pois esses homens são desprovidos de uma inteligência que lhes construísse uma identidade da alma. São seres silvícolas e sem vontade ou pensamento. É preciso que Atena (Minerva), deusa da sabedoria, jogue sobre a criação de Prometeu gotas do néctar divino, para que eles possuam uma alma, e quando a adquirem, não sabem o que fazer com ela.
Se Deus dá a sabedoria divina para Adão por amor à criação, Prometeu rouba o fogo dos deuses, o símbolo da sabedoria humana, não por amor, mas por vingança aos deuses. Instigado por Eva, Adão come o fruto da sabedoria e perde o Éden, também uma mulher, Pandora, será quem trará na sua caixa todos os males do mundo, abrindo-a para a humanidade, que perde a superioridade intelectual alcançada quando a consciência humana, através do conhecimento do fogo, é libertada da submissão aos deuses. Portadores de todos os males da caixa de Pandora, os homens voltam aos deuses, rogando-lhes boa colheita, boa saúde e boa morte.
Os mitos de Prometeu e Pandora, antagônicos, mas unidos através da concepção da criação humana, representam o homem, ser pensante e inteligente (por parte de Prometeu) e às limitações do seu corpo, exposto aos males físicos e intelectuais (herança de Pandora), que os fazem finitos diante da imortalidade dos deuses.

Paz Entre os Deuses no Reinado de Zeus

Para a cultura judaico-cristã, Deus criou a terra, os animais e por fim o homem. Para os gregos antigos, a criação do mundo deu-se com uma explosão de vida dentro do Caos, que originou Gaia, a Terra, e Eros, o amor. Gaia concebeu Urano (Céu), com quem se uniu e jamais deixou de conceber, sendo os seus filhos os responsáveis pelas forças indomáveis da terra, como os vulcões, os terremotos e os maremotos. É da união entre Gaia e Urano que nascem os Titãs (doze irmãos que ajudam o pai a governar o mundo). Cronos (Saturno), o deus do tempo, o mais poderoso dos titãs, revolta-se contra o pai, Urano, amputando-lhe os testículos, destronando-o da sua força genetriz, tornando-se o novo senhor dos deuses. Sendo o deus que tudo devora, sem encontrar um equilíbrio, também Cronos será destronado por um de seus filhos, Zeus (Júpiter). Ao destronar o pai, Zeus torna-se o senhor absoluto dos deuses, através dele o mundo organiza-se, é a vitória da ordem sobre a desordem. Zeus estabelece o princípio divino da espiritualidade e reinará os deuses e o mundo do alto do Olimpo. Organizado os deuses, falta a humanidade para servi-los e adorá-los.
Na luta pelo poder, Zeus travou uma guerra de dez anos contra os Titãs e os Gigantes. Vencidos, eles foram aprisionados no interior da terra. Um dos Titãs, Iápeto uniu-se à filha de Oceano, Ásia, com quem teve Atlas, Menécio, Prometeu e Epimeteu, formando a segunda geração de Titãs. Na luta dos Titãs contra Zeus, quando por ele derrotados, Atlas teve por castigado ter que carregar o mundo nas costas, enquanto que Menécio foi aprisionado para sempre no Érebo. Somente Prometeu e Epimeteu não foram castigados, por fingirem aceitar o reinado de Zeus. Mesmo a participar das assembléias olímpicas, Prometeu jamais aplacou o ódio aos deuses que humilharam os Titãs.

O Homem Surge das Lágrimas e do Ódio de Prometeu

Se a guerra sangrenta que derrotara os Titãs trouxera a paz entre os deuses e o fim das disputas entre eles, já não havia quem pudesse desafiar a nova ordem olímpica. Para que se quebrasse esta harmonia, Prometeu decidiu criar novos seres que se opusessem a ela. Molhou o barro com as suas lágrimas de ódio aos olímpicos e criou um ser à semelhança de uma divindade. Prometeu soprou a vida à escultura, chamando-a de homem. Gostou tanto da sua criação, que se pôs a esculpir um exército deles, todos inspirados em uma divindade. Das lágrimas e do ódio de Prometeu surgiram os homens.
Á criação, o Titã proveu da astúcia da raposa, da fidelidade do cavalo, da avidez do lobo, da coragem do leão e da força do touro. Mas a criação de Prometeu, apesar de bela, era feita da essência animal, apesar da aparência divina, era totalmente desprovida da essência dela, o que limitava as suas ações. Quando Atena (Minerva), viu tão sublime obra à semelhança dos deuses, mas com a essência e inteligência dos animais, encantou-se por ela. Amiga de Prometeu, a deusa da sabedoria despejou em um cálice o néctar divino, desceu para a terra e do cálice, pingou gotas sobre a criação de Prometeu. Imediatamente as criaturas perderam a essência animal, dotando-se da inteligência divina, adquirindo uma alma. Assim a humanidade, ao contrário dos animais, adquirira a alma divina, mas não a sua perenidade imortal.

Através do Fogo, Prometeu Torna o Homem Pensante

O homem criado por Prometeu adquirira uma alma, mas não sabia o que fazer com ela. O Titã queria uma raça que confrontasse e destruísse os olímpicos. Era preciso que se igualasse os homens aos deuses, era preciso que se lhes revelasse os segredos divinos e de si próprios. Cabia a Prometeu ensinar os conhecimentos universais à humanidade.
Zeus guardava o segredo do fogo distante da humanidade. O senhor dos deuses não via naquela criação que andava pelo mundo entre as trevas, qualquer habilidade que a fizesse mais especial que os outros seres viventes. Eram obedientes e servis aos deuses, o que agradava plenamente ao senhor do Olimpo.
Sabedor desta condição, Prometeu sentia cada vez mais a necessidade de organizar a alma humana. Um dia, ao andar pela terra, Prometeu pegou um pedaço de galho seco de um carvalho, voou até Hélios, o Sol, e encostou o galho no carro do deus, que se acendeu imediatamente. Prometeu tinha o fogo dos deuses nas mãos. Era o momento da sua vingança. Desceu à terra e entregou o fogo aos homens. Era o princípio da revelação da sabedoria à humanidade que se iria fazer mais inteligente e poderosa do que os deuses.
Na posse do fogo, os homens organizaram-se ao seu redor. Cozinharam os alimentos, forjaram inúmeros metais, aqueceram-se do frio no inverno, cozeram o barro para criar vasilhas onde pudessem guardar a água. A partir da descoberta da utilização do fogo dos deuses, a humanidade, orientada por Prometeu, floresceu no jardim dos seus conhecimentos. Já pouca diferença havia entre ela e os deuses.
Cada vez mais avançada nos conhecimentos, a humanidade aprendeu a fundir o ouro e a prata, a construir abrigos, arar a terra, proteger-se do frio. Já não precisa mais invocar proteção aos deuses, a sua sabedoria afrontava a cada dia o poder da divindade. A humanidade começava a ser feliz sem precisar dos deuses. Prometeu finalmente, criara aqueles que se oporiam aos olímpicos. Começara não uma guerra entre os imortais, mas entre deuses e homens. Os Titãs estavam vingados.

Pandora, a Mulher Feita do Bronze

Os deuses passam a temer os homens, que se expressam através da arte a raiva, o amor e o ódio, sem que precisem recorrer aos deuses. Tornam-se poderosos e cada vez mais independentes da presença divina. Esquecidos pelos homens, os deuses tramam uma vingança terrível, que lhes devolvam o poder usurpado e a submissão humana.
Zeus pede ao filho Hefestos (Vulcano), talentoso deus dos metais e da forja, que confeccione um homem de bronze, mas que seja diferente dos outros, para que possa encantá-los. Hefestos atende ao pedido, criando do bronze, a primeira mulher, bela e encantadora.
À mulher feita do bronze são dados vários presentes divinos. Afrodite (Vênus), deusa do amor, oferece-lhe uma infinita e sedutora beleza, além de encantos para enlouquecer os homens. Atena entrega à mulher uma túnica bordada que lhe cobre e realça a beleza harmoniosa do corpo. Hermes (Mercúrio), presenteia-lhe com a esperteza da língua, e Apolo confere-lhe uma voz melódica e suave. Está pronta a primeira mulher, que é chamada de Pandora, que significa “dotada por todos”. Ela estava pronta para ser enviada aos homens.
Zeus, antes de enviar Pandora aos homens, oferece-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Dentro dela estão todos os germes da miséria humana. Assim, é enviada do Olimpo para os homens da Terra, a mulher, que trazia consigo a tentação, o símbolo dos desejos terrestres e todos os males do mundo.

Aberta a Caixa de Pandora

Quando chega a Terra, Pandora depara-se com Epimeteu, irmão de Prometeu. Ao ver tão bela criatura, o Titã encanta-se por sua beleza. Seduzido e apaixonado, ele recebe das mãos da bela mulher a caixa enviada por Zeus. Deslumbrado por tanta beleza, Epimeteu esquece-se da recomendação de Prometeu, que não recebesse nenhuma dádiva vindo do senhor do Olimpo, embevecido de paixão, nem desconfia do conteúdo caixa, abrindo-a prontamente. Subitamente, dela espalha-se um ar pestilento, os homens são afetados pelas doenças, pelas dores, pelo envelhecimento do corpo. Toma-lhes a alma a inveja, o rancor, a vingança. A essência humana, dantes pura e infinita, perde a inocência, tornando-se solitária e egoísta. Dentro da caixa de Pandora há um último elemento, a esperança, que ela deixa lá no fundo, ao fechá-la novamente. O homem perde o paraíso.
Pandora une-se a Epimeteu, criando uma nova geração de homens, desta vez vinda não do barro e das lágrimas de Prometeu, mas da união de um homem e de uma mulher. Os filhos desta união herdam a fragilidade da alma, as doenças, a miséria e todos os males que faz da humanidade a existência provisória diante da perenidade dos deuses.
Os deuses estão vingados. Através de Pandora destruíram a solidariedade entre eles, limitando o caminho vitorioso que percorreram até então. A conquista do fogo, que se fizera instrumento de transformação e progresso, passa a verter o seu lado destrutivo, que incendeia a alma humana.

Prometeu Acorrentado

Punida a humanidade, resta castigar Prometeu, que representava a consciência da humanidade e a libertação da sua mente intelectual. Zeus, mais uma vez, recorre à ajuda do artesão dos deuses, Hefestos. Pede ao divino obreiro que crie correntes que não se partam, a seguir, ordena-lhe que agrilhoe Prometeu ao cimo do monte Cáucaso. Hefestos obedece ao pai, acorrentando o Titã rebelde.
Aprisionado no monte Cáucaso, Prometeu sofre ainda, com uma águia enviada por Zeus, que lhe devora o fígado durante o dia. À noite, o órgão regenera-se, mas tão logo o sol nasce, começa a ser devorado novamente pela águia.
Prometeu vive acorrentado e a ter o fígado devorado pela águia por trinta anos. Mesmo diante de tanto sofrimento e dor, jamais pede perdão aos deuses. Sua maior dor é ver a humanidade que criara, degradar-se na sua efemeridade.
Um dia o oráculo diz a Zeus que uma terrível sorte está por se lhe abater em cima, e que só Prometeu poderia revelar-lhe que maldição seria aquela. O senhor dos deuses procura o Titã acorrentado, indaga-lhe sobre o segredo. Prometeu diz só revelá-lo quando for libertado. Sem alternativa, Zeus envia Héracles (Hércules) ao monte Cáucaso para libertar o Titã. Héracles mata a águia com uma flecha e liberta dos grilhões, o mais forte dos homens. Diante de Zeus, Prometeu revela-lhe que se esposasse a bela Tétis, o filho com ela gerado iria destroná-lo, assim como fizera com Cronos. Temeroso, Zeus entrega a bela nereida a Peleu.
Perdoado, Prometeu deseja voltar para o Olimpo, mas o castigo tirara-lhe a imortalidade, ele só poderia tê-la de volta se encontrasse um imortal que consentisse em trocar de destino com ele. O centauro Quirão, ferido pela flecha de Héracles, pede a Hades, deus dos mortos, que o deixe entrar no Érebo, consentindo em trocar a sua imortalidade com Prometeu.
Novamente imortal, Prometeu reconcilia-se com os deuses, voltando para o Olimpo, de onde observa a humanidade por ele criada, agora imperfeita, mas em paz com os deuses e com as suas limitações.

Os Mitos de Prometeu e Pandora

O mito criador de Prometeu reflete a preocupação do homem com as suas origens e diante da sua inteligência impar, que o difere do restante dos seres vivos da Terra. Prometeu era cultuado em Atenas nos altares erguidos na Academia, a famosa escola filosófica ateniense. Seus altares ficavam perto dos consagrados às Musas, às Graças, a Eros e a Héracles. Nas festas das lâmpadas, as Lampadodrimias, era venerado como divindade civilizadora ao lado de Atena e Hefestos.
Prometeu significa, em grego, “pensamento previdente”, por isto o mito é visto como o representante do despertar da consciência e princípio do pensamento intelectual do homem. É o reflexo da humanidade que se quer encaminhar para a perfeição, mas que se depara com os males e limitações da sua existência, reduzida ao nada da morte.
Pandora é a imagem da primeira mulher, vista de forma depreciativa por uma sociedade patriarcal. A mulher traria na sua essência todos os males do mundo, os homens, diante da sua sedução, perdem, assim como Adão, o paraíso e a inocência solidária. Pandora é um misto de Eva de Lilith, as primeiras mulheres da humanidade judaica. Assim como Lilith, traz os males do mundo, e como Eva, gera filhos imperfeitos, resultado da punição divina diante da ambição humana. Tanto Adão, como Epimeteu, ao acolherem a sedução da mulher, exercem totalmente o poder que têm da escolha diante da fatalidade e da rebelião.