DINA SFAT – MAGNETISMO E SEDUÇÃO

Outubro 3, 2009

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela “Os Gigantes“, de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga


FERNANDO PESSOA – OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA

Agosto 28, 2009

Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Infância e Adolescência na África do Sul

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu no Chiado, em Lisboa, num prédio em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de junho de 1888. Nascido no dia de Santo Antonio, o santo mais popular de Lisboa, o menino recebeu o nome, Fernando Antonio, em sua homenagem. Fernando devido ao nome de batismo do santo, Fernando de Bulhões, e Antonio o nome canônico. Era filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.
Filho de uma família de pequenos aristocratas, o menino Fernando teve a vida alterada aos cinco anos, em 1893, quando o pai morreu de tuberculose. Seguindo a tragédia, perderia o irmão mais novo, Jorge, em 1894, que não chegou a completar um ano. Diante das adversidades, Maria Magdalena viu-se obrigada a leiloar a mobília e a mudar para uma casa mais modesta da Rua de São Marçal.
No ano de 1895, a mãe casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.
Foi na África do Sul, então colônia da Grã-Bretanha, que Fernando Pessoa adquiriu uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida. Foi em Durban que viu despertar o seu talento para a literatura. Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês. Aos quinze anos, ele recebe pelo ensaio, o Queen Victoria Memorial Prize (Prêmio Rainha Vitória). Desde esta época, o poeta demonstrou o seu talento para escrever também em inglês, iniciando a produção de vários poemas nesta língua.

Participação na Vida Cultural Portuguesa

Fernando Pessoa só regressaria definitivamente a Portugal em 1905. Ele viria sozinho, para viver com a avó Dionísia e duas tias na Rua da Bela Vista, em Lisboa. No ano seguinte, em 1906, matricular-se-ia no Curso Superior de Letras. Nesta época entra em contacto com importantes escritores do modernismo português.
Morre-lhe a avó Dionísia, em 1907, deixando-lhe uma pequena herança. Com o dinheiro, o poeta funda uma pequena tipografia, a Empresa Íbis-Tipografia Editora – Oficina a Vapor. Para geri-la, ele abandona o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais. Trabalharia nessa profissão o resto da sua vida.
Fernando Pessoa passou a interessar-se pela obra de Cesário Verde e do Padre Antonio Vieira. Em 1912, toma para si a atividade de ensaísta e crítico literário, estreando-se com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado pela revista “Águia”, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Para esta revista, faria ainda os artigos “Reincidindo…” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”.
Pouco depois, desliga-se do grupo da Renascença, aliando-se à geração mais nova, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, que marcaria o modernismo português. Com os amigos, fundaria a revista “Orpheu”, em 1917. Em 1921 colabora com o único número de “Portugal Futurista”. Em 1921 seria lançada a “Contemporânea”. Em 1924, dirige com Ruy Vaz a “Athena”. Em 1927 escreve para a “Presença”, onde passa a dar conhecimento dos seus versos. Nesta época colabora com textos para os jornais. Passa a colaborar com uma agência publicitária, atividade que exerceria de 1925 a 1935, ano da sua morte.

Vida Sem Grandes Paixões e Voltada Para o Ocultismo

Fugindo ao estereótipo da vida dos grandes poetas, que na sua maioria, viveram grandes e atribulados romances, Fernando Pessoa teve uma vida amorosa em branco, o que levou alguns comentários sobre uma suposta homossexualidade, algumas vezes despejada em alguns poemas; ou mesmo, a ausência de uma vida sexual. Ele jamais se casou.
Uma única mulher fez parte da sua biografia, Ofélia Queiroz, colega de trabalho, com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor. Ofélia dirigia-se a ele nas cartas como Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Mais tarde, Agostinho da Silva, que conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, relataria que o poeta confidenciara-lhe arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ofélia , pois o fizera movido pela fantasia heteronímica, sem jamais ter tido paixão por ela. Quando viu que Ofélia, uma mulher carente, estava irremediavelmente apaixonada por ele, apercebeu-se do ardil do amor fictício que vivia e pôs fim a ele, para não fazer uma mulher real e apaixonada sofrer.
Se a vida amorosa foi feita de mistério, também o misticismo e ocultismo que teria praticado deixaram grandes lacunas de dados. Sua suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz jamais foi provada, não se conhecendo nenhuma filiação do poeta a essas escolas em suas lojas ou fraternidades. O que se tem registrado é a defesa pública dessas organizações, feita por ele no “Diário de Lisboa” , contra as perseguições do Estado Novo, em 1935.
Fernando Pessoa estabeleceu mapas astrológicos para a maioria dos seus heterônimos e para Portugal. Fazia consultas astrológicas para si mesmo. Durante os seus estudos de astrologia, teria realizado mais de mil horóscopos.
Das chamadas ciências ocultas, Fernando Pessoa mostrou-se um estudioso profundo, tendo deixado uma razoável biblioteca de temas esotéricos anotada, além de escritos da sua própria autoria. Proclamava-se um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal. Era um grande admirador de Jacques de Molay, último grão-mestre dos Templários queimado vivo na fogueira. Dizia em defesa do mártir dos cavaleiros do Templo, que todos deveriam combater “os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Os Heterônimos de Fernando Pessoa

A beleza estética da obra de Fernando Pessoa deve-se à criação dos diferentes e marcantes heterônimos. Neles, o eu do poeta diluiu-se na escrita, fragmentando-se em personalidades poéticas complexas e de personalidades definidas. Uma vez tendo escrito em privado, com uma única publicação em vida, a escrita repleta de inovações prosódicas não é alcançada por seus contemporâneos. Quando revelada, trar-lhe-ia fama internacional, construindo um grande elemento da literatura universal.
Fernando Pessoa faz a divisão do eu, levando ao extremo dos limites a multiplicação da personalidade, transformando a identidade falsa de cada um deles em verdadeira, tornando-as imiscíveis.
Os heterônimos mais conhecidos na obra de Fernando Pessoa foram três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Sobre eles o próprio poeta escreveu, em uma carta a Adolfo Casais Monteiro:
Criei, então uma coterie inexistente. Ricardo Reis nasceu em 1887, não me lembro do dia e mês (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como se sabe é engenheiro naval (por Glasgow) (…). Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, (…). Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Com personalidades definidas e histórias de vidas próprias, cada heterônimo vai assumir para si um tipo e tema de poesia. Alberto Caeiro, o mestre, guardador de rebanhos, tem uma poesia filosófica. Foi morto por seu demiurgo no mesmo ano que foi criado, na revista “Orpheu”. Álvaro de Campos é um engenheiro futurista, cultor da máquina e do progresso, sua poesia é mais crítica. Ricardo Reis, o monárquico, cultiva em seus poemas Horácio e a tradição clássica. Há ainda um quarto heterônimo de grande importância na obra do poeta, Bernardo Soares, que é tido como o mais parecido com Fernando Pessoa, daí, muitas vezes tido como pseudo-heterônimo. Bernardo Soares, o inadaptado social, rabisca os seus fragmentos e impressões de Lisboa em “O Livro do Desassossego”.
Fernando Pessoa morreria no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luis dos Franceses, em Lisboa, sua terra natal. As causas da morte seriam uma “cólica hepática”, associada a uma cirrose hepática, fruto das longas tertúlias no “Martinho da Arcada” e na “Brasileira do Chiado”, regadas à aguardente.Tinha 47 anos de idade. Conta-se que nos últimos instantes de vida, escreveu em inglês, a última frase: “I Know not what tomorrow will bring” – “Não sei o que amanhã trará”.

[275] – Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que fôr, quando fôr, é que será o que é.

Passagem das Horas (Enxertos) – Álvaro de Campos

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas – absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados…
Mary, eu sou infeliz…
Freddie, eu sou infeliz…
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh’alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

Vivem em Nós Inúmeros – Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Vaga, no Azul Amplo Solta – Fernando Pessoa

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Cronologia

1888 – Nasce, em 13 de junho, em Lisboa, Portugal, Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
1893 – Nasce, em janeiro, o irmão Jorge. Em 13 de julho morre-lhe o pai, vitimado pela tuberculose.
1894 – Morre o irmão Jorge, em janeiro, pouco antes de completar um ano.
1895 – Em julho, o pequeno poeta escreve o seu primeiro poema. João Miguel Rosas, pretendente da sua mãe, é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, partindo para aquela região. Em dezembro, o cônsul casa-se com a mãe de Fernando Pessoa, por procuração.
1896 – Parte com a família para Durban. Em novembro nasce a irmã, Henriqueta Madalena.
1897 – O poeta entra para o curso primário.
1898 – Nasce a segunda irmã, em outubro.
1899 – Ingressa na Durban High Scholl. Cria o pseudônimo Alexander Search.
1900 – Nasce Luís Miguel, terceiro irmão do poeta.
1901 – Aprovado no exame da Cape Scholl High Examination. Morre a irmã do meio. Começa a escrever poesias em inglês. Ao lado da família, parte em agosto para uma visita a Portugal.
1902 – Nasce em Lisboa, o irmão João Maria. Em setembro, volta para Durban.
1903 – Presta exame de admissão à Universidade do Cabo, obtendo a melhor nota no ensaio de inglês, ganhando o Prêmio Rainha Vitória.
1904 – Nasce, em agosto, a irmã Maria Clara. Conclui os estudos na África do Sul.
1905 – Sozinho, retorna definitivamente para Lisboa, passando a viver com a avó Dionísia.
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa. Morre a irmã Maria Clara.
1907 – Desiste do Curso Superior de Letras. Morre a avó Dionísia. Abre, por um curto período, uma tipografia.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1912 – Publica artigo literário na revista “Águia”.
1914 – Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” e o “Livro do Desassossego”.
1915 – No primeiro número da revista “Orpheu”, o poeta mata Alberto Caeiro.
1916 – Suicida-se o amigo Mário de Sá Carneiro.
1920 – Conhece Ofélia Queiroz. Os irmãos e a mãe voltam para Portugal. Deprimido, pensa em internar-se em uma casa de saúde. Rompe com Ofélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924 – Dirige com Ruy Vaz a revista “Athena”.
1925 – Morre, em 17 de março, em Lisboa, a mãe do poeta.
1927 – Passa a colaborar com a revista “Presença”.
1929 – Volta a relacionar-se com Ofélia Queiroz.
1931 – Rompe novamente com a namorada.
1934 – É publicado o seu livro “Mensagem”.
1935 – Internado em um hospital, no dia 29 de novembro, com diagnóstico de cólica hepática. Morre no dia 30


EDITH PIAF – O PEQUENO PARDAL DE PARIS

Agosto 23, 2009

Nascida em Paris, Edith Piaf tornou-se um dos maiores nomes da canção francesa e universal. Amada por um público que nunca deixou de ser renovado através das gerações, ela é o símbolo do amor cantado e vivido em sua essência visceral. Trazia no rosto a expressividade dos sentimentos, na voz a força de um canto dilacerante, que fazia da tragédia humana a beleza da sua arte.
Após a Segunda Guerra Mundial, Edith Piaf tornou-se a voz da França em todo o mundo. Sua vida foi construída em estradas sinuosas, muitas vezes cobertas pelas neblinas dos mistérios e da sobrevivência. No fim da guerra, o canto de Edith Piaf traduzia aquele momento de um país em escombros. Aquela mulher de expressões densas, muitas vezes vertidas em gestos dramáticos, era como a França renascida das dores, da humilhação e da vergonha que lhe impregnara a República de Vichy. Piaf era trágica, mas fascinante, de uma beleza artística infindável. Sua voz era a calmaria, seu corpo o terremoto, o seu canto a sedução da arte e do amor.
Conhecida como “La Môme Piaf” (Pequeno Pardal), a cantora saiu dos salões de música para os grandes palcos franceses. Não chegou aos cinqüenta anos, mas viveu com uma intensidade dilacerante, rasgando a juventude através da sua arte e dos seus amores . Seu rosto foi sendo esculpido e dilapidado pelo tempo, pelas paixões, pelas tragédias, pelo álcool e pelos barbitúricos. Próxima da morte, trazia um semblante envelhecido e sugestivamente demarcado pela dor, pela tristeza que refletia nos olhos.
Edith Piaf cantou o amor, a paixão, a França. Deixou sucessos imortalizados, como “La Vie En Rose”, canção que se tornou a imagem do seu país no pós-guerra; “Hymne à L’Amour”, que em 1949 refletiu o abandono e a solidão que a morte do amante, o boxeador Marcel Cerdan, atirou-a; a clássica “Non, Je Ne Regrette Rien”, de 1960, ou “Milord”, de 1959. No estilo francês da chanson, ninguém brilhou tanto como ela.
Na sua casa Edith Piaf recebeu e promoveu encontros entre jovens talentos que se tornariam grandes nomes da música francesa e universal, tais como Gilbert Bécaud, Jacques Pills, Louis Amade, Yves Montand, Jacques Plante, Jean Broussolle, Charles Aznavour, Francis Lemarque e Jacques Prévert. Seu nome está indelevelmente ligado a estes gigantes da fonografia da França.
La Môme Piaf calou-se para sempre, em 10 de outubro de 1963. Não tinha completado 48 anos. Deixou um vazio imenso na arte francesa. Tornou-se um mito, que atravessou as fronteiras do seu país, arrebatando uma legião de fãs pelo mundo. Quase cinco décadas depois da sua morte, Edith Piaf, o mito, é um ícone do mundo contemporâneo, conhecida e reverenciada internacionalmente. Ainda hoje, o seu canto fascina e emociona o ser humano, transformando em arte e beleza a dor da existência e das paixões.

A Infância Vivida em Um Bordel

Edith Giovanna Gassion, reza a lenda, teria nascido na calçada da Rue de Belleville, em Paris, em 19 de dezembro de 1915. Sua certidão diz que nasceu no Hospital Tenon, que atendia aos moradores de Belleville, bairro de grande concentração de imigrantes em Paris.
Apesar de várias biografias escritas, há fases da vida de Edith Piaf que permanecem guardadas no desconhecido, envoltas por mistérios. Era filha de Louis-Alphonse Gassion, um contorcionista de circo de ascendência franco-italiana, que teve uma breve passagem pelo teatro; e, de Annetta Giovanna Maillard, uma cantora de ruas e de cafés, que tinha uma ascendência ítalo-cabila. A mãe de Edith Piaf usava o pseudônimo de Line Marsa quando cantava nos cafés de Paris.
A infância da pequena Edith foi marcada pela mais absoluta miséria e por graves doenças. Louis-Alphonse seguiria para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, servindo o seu país. Impossibilitada de criar o bebê, Annetta deixaria a filha com a mãe, Emma Said, com quem viveria um curto período de tempo. A mãe de Annetta era uma mulher alcoólica, escrava da bebida, não tinha cuidados de higiene com a neta. Encontrando a filha doente e coberta de eczema, na casa da avó materna, na Kabila, Louis-Alphonse levou o bebê, entregando-o à sua mãe, em 1916, voltando a seguir, para as trincheiras.
A avó paterna da pequena Edith dirigia um bordel na Normandia. Já bem cedo, a cantora teve contacto com as prostitutas e, reza algumas biografias, teria ela própria tornado-se uma. O ambiente de prostíbulo, com a sua moral duvidosa, influenciaria para sempre o universo de Edith Piaf, a sua forma de ver o mundo. Ali, a criança começou a compreender a malícia ambígua da vida . Em um ambiente hostil, a pequena conquistou as atenções da prostituta Titine, que lhe adquiriu amor, passando a tratá-la com muita ternura.
Quando aos sete anos, a menina perdeu momentaneamente a visão em conseqüência de uma ceratite, foi Titine quem cuidou dela. A dedicação da prostituta foi tanta, que ela foi ameaçada de ser expulsa do bordel por não cuidar da clientela. Com a ajuda das outras prostitutas, Titine promoveu uma peregrinação a Lisieux, onde fez uma promessa a Santa Thérèse de Lisieux para que a pequena voltasse a enxergar. Dez dias depois, a menina recuperava a visão, como se fosse acometida de um milagre. Ela tornar-se-ia devota da santa pelo resto da vida.

Os Primeiros Amores da Juventude

Somente em 1929, o pai voltou a procurá-la. Edith é uma jovem mulher de 14 anos. Louis-Alphonse Gassion retoma as atividades de artista, voltando a ser contorcionista. O normando apresentava-se nas ruas, sendo acompanhado pela filha. Mais tarde ingressaria em pequenos circos itinerantes, sempre tendo a companhia da jovem. É nesta ocasião que Edith descobre a sua vocação artística. Subitamente, começa a cantar sozinha pelas ruas.
Três anos depois, no auge dos seus 17 anos, a jovem Edith, sem a presença do pai, cantava sozinha pelas ruas de Paris, tirando dali os ganhos para sobreviver. Cantava com freqüência na Rue Pigalle e nos subúrbios da capital francesa.
Na ocasião, ela apaixonou-se profundamente por Louis Dupont, um entregador de lojas. Com Dupont teria a sua única filha, Marcelle. Assim como a mãe, a jovem tinha dificuldades em cuidar da criança, deixando-a com Dupont quando estava a cantar nas ruas da cidade. A pequena Marcelle viveria apenas dois anos de idade, morrendo vítima de uma meningite.
A jovem artista de rua apaixonou-se, em seguida, por Albert, um gigolô, com quem passou a ter um relacionamento. Albert levava uma comissão do dinheiro que Edith conseguia cantando nas ruas. Com isto, ela impedia que o namorado a forçasse a prostituir-se. Quando ela terminou o relacionamento, Albert quase a matou com um tiro.

Surge o Nome Edith Piaf

Aos vinte anos, em 1935, Edith é descoberta nas mediações da Rue Pigalle, por Louis Leplée, proprietário da casa noturna Le Gerny, situada nos Champs Élysées, em Paris. Era uma casa de grande movimento, freqüentada por pessoas de todas as classes sociais da cidade.
Diante de uma mulher de baixa estatura, Leplée passou a chamá-la de “La Môme Piaf”, expressão francesa que significa Pequeno Pardal. A alcunha seguiria a cantora para o resto da vida, tornando-se parte do seu nome artístico. Foi pelas mãos do empresário que ela tirou os vícios adquiridos nas ruas, perdeu o grande nervosismo e aprendeu a cantar nos palcos. A pedido de Leplée, Edith passou a usar vestido preto quando no palco, que se iria tornar uma marca registrada da cantora. Vinda das ruas de Paris, nascia a cantora Edith Piaf.
Louis Leplée investiu na nova cantora, fazendo uma enorme campanha publicitária antes da estréia. Os esforços de Leplée resultaram na presença de várias celebridades na noite de estréia de Edith Piaf no Lê Gerny, entre elas o ator e cantor Maurice Chevalier.
Longe das ruas, as apresentações da cantora nos palcos das casas noturnas, resultaram na possibilidade da gravação dos seus primeiros dois discos, fato acontecido no ano de 1936; sendo o primeiro, lançado pela Polydor, “Le Mômes de la Cloche”, que se tornaria um sucesso imediato . Um dos discos teve as canções escritas pela compositora Marguerite Monnot, que se tornaria presença imprescindível na carreira da cantora. As duas desenvolveriam uma amizade que duraria toda a vida, fazendo várias canções em parceria, como a mítica “Hymne à L’Amour”.
Mas resquícios de um passado marginal vivido pela cantora nas ruas de Paris, vieram à tona, ainda em 1936, quando, em 6 de abril, Louis Leplée foi morto em seu domicílio. O empresário foi assassinado por marginais ligados às drogas, que no passado tiveram ligações com a cantora. Edith foi interrogada e acusada de cumplicidade, mas conseguiu provar a sua inocência, sendo absolvida.
A morte de Louis Leplée atingiu dramaticamente a imagem e a carreira incipiente da cantora. Para reabilitar a imagem, ela chamou Raymond Asso, com quem viveria um romance. Asso começou por mudar o nome artístico da cantora, de La Môme Piaf para Edith Piaf. Em seguida, encomendou a Marguerite Monnot canções que retratassem o passado da cantora pelas ruas de Paris.

A Ascensão da Estrela

Já como Edith Piaf, ela marcou a sua estréia como cantora de música de salão, em 1937, tornando-se uma estrela da Chanson Française, sendo tocada incessantemente pelas rádios, arrebatando um público que passou a idolatrá-la. No fim daquela década, ela triunfa absoluta na famosa casa parisiense Bobino.
Em 1940, Jean Cocteau escreve uma peça para Edith Piaf, “Le-Bel Indifferent”, onde contracenava com o seu então companheiro, o ator Paul Meurisse. O mundo de Edith Piaf expandiu-se, fazendo com que se relacionasse com os maiores talentos da França. Ela também descobriu jovens talentos, como Yves Montand, que se tornaria uma celebridade, além de ser seu amante e parceiro por alguns anos.
No decorrer dos anos, Edith Piaf começa a escrever as suas canções, sendo auxiliada por compositores famosos.
Em 1944 a França era libertada da invasão nazista, que por quatro anos fizera do país uma nação submetida ao regime de Berlim. Em 1945, a Segunda Guerra Mundial chegava ao fim, trazendo a liberdade que se iria construir em cima dos escombros que assolavam a Europa. Neste ano, Edith Piaf escreveu aquela que se tornaria a mais famosa das suas canções, “La Vie en Rose”, que seria lançada em 1946, percorrendo os quatro cantos do mundo, tornando-se um clássico.
Após a Segunda Guerra Mundial, Edith Piaf saiu da imensa fama que tinha na França, alcançando-a pelo mundo. Tornar-se-ia a voz internacional do seu país, sendo idolatrada por milhares de fãs que conquistou pelo mundo. Apresentar-se-ia com grande sucesso em grandes casas noturnas da Europa, Estados Unidos e América do Sul. A apresentação da cantora nos Estados Unidos foi vista por muitas celebridades, entre elas a atriz Marlene Dietrich, de quem se iria fazer amiga para o resto da vida.
Como estrela máxima da música francesa naquele conturbado século XX, a cantora apresentou-se nos maiores palcos do mundo, do mítico Paris Olympia Concert Hall ao Carnegie Hall. Piaf tornar-se-ia um ícone do seu país e da canção universal. A menina que quase ficara cega quando morava em prostíbulo, que vivera nas ruas de Paris todo o clima da marginalidade, sobrevivendo como cantora, era um mito, o mito Edith Piaf.

Edith Piaf e Marcel Cerdan – Um Hino ao Amor

A vida de Edith Piaf foi marcada por grandes paixões. Amores fugazes compuseram a alma da cantora, demarcando momentos felizes e de grandes tragédias. Dos romances vividos, os mais conhecidos foram os que envolveram celebridades como Charles Aznavour, Yves Montand, Marlon Brando, Théo Sarapo, Georges Moustaki e Marcel Cerdan.
De todos os homens que passou pela vida atribulada da cantora, o pugilista Marcel Cerdan foi considerado o seu grande amor. Um amor vivido pelas limitações da sociedade, visto que Cerdan era casado, e pelo desfecho da tragédia, quando este morreu em um acidente de avião, em 1949.
Marcelino Cerdan, que entrou para a história como o maior pugilista da França e um dos maiores do mundo, nasceu em Sidi Bel Abbes, então Argélia Francesa, em 22 de julho de 1916. Era quase um ano mais novo do que Edith Piaf.
Marcel Cerdan teve uma vida intensa, marcada por grandes conquistas esportivas, por um estilo de vida que despertava as atenções dos holofotes e, finalmente, pela tragédia que lhe ceifou a vida, no auge da sua essência de homem e de ídolo.
Marcel Cerdan trazia um corpo másculo, um semblante de galã, uma força de touro, uma sensualidade viril à flor da pele, que fazia dele um homem desejado pelas mulheres e admirado pelos homens. Ainda aos dezoito anos, em 1934, Cerdan estreou-se profissionalmente no boxe, em Meknes, no Marrocos. A partir de então ele iniciou uma carreira brilhante, acumulando, no princípio, 47 vitórias consecutivas, só perdendo pela primeira vez, em 1939. Na sua carreira gloriosa, que até hoje causa orgulho à França e aos franceses, Cerdan participou de 117 lutas, tendo vencido 113 vezes, sendo 66 vitórias por nocaute, acumulando apenas 4 derrotas.
As vidas de Marcel Cerdan e Edith Piaf seriam cruzadas em Nova York, quando a cantora fazia uma turnê pelos Estados Unidos, no verão de 1948. Ambos eram celebridades idolatradas na França e no resto do mundo. A paixão foi fulminante. Irresistível. Edith Piaf viu-se perdidamente atrelada ao pugilista.
Apesar de Marcel Cerdan ser um homem casado e com filhos, residindo com a família em Casablanca, no Marrocos; ele iniciou com Edith Piaf um tórrido romance, que abalaria a vida emocional da cantora para sempre. Desafiando a todos os obstáculos, os dois apareceram juntos em fotografias espalhadas pela imprensa do mundo inteiro. Apareciam felizes, apaixonados. Há fotografias ao lado de Piaf, que o pugilista mostra as marcas deixadas pelas lutas pesadas que travava nos ringues, estando algumas vezes com o rosto inchado ou com algum dente partido.
A fragilidade de artista de Edith Piaf fundiu-se com a força bruta indomável do pugilista, desenhando um retrato de amor divulgado nas páginas dos jornais. Os escândalos sempre fizeram parte da vida de Piaf, um novo não afetava o seu modo de ver o mundo, que lhe fora delineado no bordel da avó na Normandia, e, nas ruas de Paris.
Em outubro de 1949, Edith Piaf sentia-se sozinha em Nova York. Para aliviar a sensação de vazio, ela telefonou para o amante pugilista, pedindo que a viesse ver. Marcel Cerdan, que vinha de uma derrota em uma luta travada com o norte-americano Jake LaMotta, em Detroit, tinha assinado um contrato para outra luta de revanche. Para que pudesse ser devidamente preparado para um novo confronto, teria que ficar confinado em um acampamento. Antes de ir para o acampamento, Cerdan acede ao pedido da amada e parte ao seu encontro em Nova York, embarcando no Lockheed L-749 Constellation, da Air France. No meio do oceano Atlântico, o avião colidiu contra o Monte Redondo, na Ilha de São Miguel, nos Açores, matando todos os 11 tripulantes e 37 passageiros que estavam a bordo, entre eles Marcel Cerdan.
Naquele trágico 27 de outubro de 1949, Edith Piaf recebeu, algumas horas antes de subir ao palco, a notícia de que o avião em que Marcel Cerdan viajava caíra em uma ilha dos Açores. Mesmo abalada pela notícia, Edith Piaf não cancelou o espetáculo. Quando subiu ao palco, dedicou aquela noite ao grande amor da sua vida. Movida pela dor da emoção, a cantora soltou a voz. Ao final da quinta canção, ela desmaiou no palco.
Para suportar a imensa dor da morte de Marcel Cerdan, e as dores físicas que se apoderavam do corpo frágil da cantora, provocada por crises reumáticas, ela recorreu à morfina, receitada pelos médicos, que na época consistia no mais poderoso analgésico disponível. Iniciava-se um processo de dependência química que debilitaria a saúde da cantora para sempre.
Em homenagem a Marcel Cerdan, considerado por Piaf o seu maior amor, a cantora dedicou-lhe um dos seus mais belos clássicos, “Hymne à L’Amour”, que ela tinha composto com Marguerite Monnot, e cantado pela primeira em 1949. A música, literalmente um hino ao amor, foi lançada em 1950, registrando o momento sublime da paixão vivida por uma cantora e um pugilista.

O Pequeno Pardal Cala-se Para Sempre

Desde a morte de Marcel Cerdan, arrasada pelo sofrimento, Edith Piaf passou a aplicar no corpo fortes doses de morfinas. O álcool, os barbitúricos, tudo serviu para a debilitação da saúde da cantora, fazendo com que envelhecesse rapidamente aos olhos dos milhares de fãs que a idolatravam pelo mundo.
Em 1952, ela ainda tenta recomeçar a vida amorosa, casando-se com o famoso cantor francês Jacques Pills. Mas o casamento não vai além dos quatro anos, terminando em divórcio, em 1956.
Após o divórcio, um novo amor bateu à porta da cantora, Georges Moustaki, o Jo, que ela lançaria no cenário da música francesa, e de quem gravaria a canção “Milord”. Ao lado de Moustaki, ela sofreu um grave acidente de automóvel, em 1958. Maiores doses de morfina foram aplicadas na cantora, fazendo com que a sua saúde, já bastante debilitada, deteriorasse-se rapidamente, e o seu corpo definhasse.
Mesmo debilitada, doente e drogada, Edith Piaf casou-se com Théo Sarapo, cantor de ascendência grega, vinte anos mais jovem do que ela. Nesta época fez a sua última grande apresentação no Olympia de Paris. Em abril de 1963, ela gravaria a sua última canção, “L’Homme de Berlin”. Logo a seguir, refugiou-se para descansar na Riviera Francesa.
No dia 10 de outubro de 1963, aos 47 anos, morria Edith Piaf, em Plascassier, Riviera Francesa. Coincidentemente, ela faleceu no mesmo dia do seu amigo Jean Cocteau. Encerrou-se naquele dia de outono, uma vida impar, escrita nas profundezas do sofrimento humano e na beleza da arte que movia uma grande mulher.Théo Sarapo transportou o corpo da cantora clandestinamente, da Riviera a Paris, para que os seus fãs pensassem que ela tinha falecido na sua cidade natal. A notícia da sua morte só foi divulgada oficialmente em 11 de outubro, quando o corpo já estava naquela cidade. Embora o arcebispo de Paris lhe negasse o réquiem do funeral, por condenar o estilo de vida da cantora, a marcha fúnebre da sua despedida atraiu milhares de pessoas às ruas de Paris, que marcharam até o cemitério do Père-Lachaise. Desde então, o seu túmulo é um dos mais visitados do mundo. O sepultamento da cantora reuniu cerca de cem mil pessoas. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que não se assistia a tamanha concentração de pessoas nas ruas de Paris. A cidade despedia-se da sua maior voz, da mais parisiense dos seus mitos, La Môme Piaf. Edith Piaf.


LEILA DINIZ, A MULHER E O MITO

Maio 19, 2009
Quando se fala nas décadas de 1960 e 1970, Leila Diniz aparece como um ícone incontestável na galeria dos personagens que compuseram e modificaram o país. A construção do mito muito que se deve à contestação da mulher inquieta e libertária que ela foi. Como atriz não desempenhou papéis marcantes, que lhe valesse o estatuto de estrela, mas brilhou como poucas, sendo um objeto de mídia, quando esta ainda era incipiente, com pouco mais de meia dúzia de revistas e jornais de projeção nacional, e uma televisão ainda por encontrar a direção. Esta mídia rendia-se aos encantos de Leila Diniz, à sua espontaneidade, e, principalmente, a sua transgressão comportamental, dilacerante e revolucionária para a época, fazendo dela uma notícia vendável. Leila Diniz foi capa constante das principais revistas do país, não apenas das que cuidavam da vida dos famosos, como das emblemáticas “O Cruzeiro”, “Fatos e Fotos”, “Realidade” e “Manchete”.
Ser Leila Diniz na época em que viveu era caminhar nua diante de uma sociedade conservadora, manipulada e governada por uma burguesia repressiva, composta nas casernas. Leila Diniz falava do amor livre, da mulher que não tinha medo de sentir prazer sexual, muito menos de ter uma vida íntima com quem lhe inspirasse desejo. Falava palavrões como um homem, mostrando-se caçadora como eles, mas sem nunca perder a sensualidade ou a doçura que lhe era peculiar. Era vista pela direita como promíscua, muitas vezes chamada de prostituta pelos mais conservadores; e, estigmatizada como alienada e alienante pela esquerda. Leila Diniz representou o grito da mulher diante de um mundo machista e de voz histórica masculina. Contestou os costumes, atirou-se sem pudores ao amor e à liberdade de amar; foi a primeira mulher a aparecer grávida a trajar biquíni pelas praias cariocas, escandalizando e lançando moda. Não precisou de um grande papel para brilhar como estrela; foi essencialmente os seus impulsos, o seu jeito espontaneamente visceral de ser, foi mulher sem medo de sê-lo. Sua personalidade superou o seu meio e a sua profissão. Não teve tempo ou não quis buscar o seu grande papel no cinema, na televisão ou no teatro, vivendo-o brilhantemente na vida, ser mulher foi a sua maior representação.
Leila Diniz morreu precocemente aos 27 anos, em 1972, em um trágico acidente aéreo que comoveu o Brasil. Uma vez morta, eternizou-se no cenário nacional, deixou de ser a mulher para transformar-se no mito, deixou de ser vista como promíscua para ser exaltada como pioneira da liberação feminina no Brasil. Leila Diniz, o mito, é tão fascinante quanto foi a mulher, e quase quatro décadas depois da sua morte, continua presente no imaginário deste país, nas raízes da existência feminina e na sua luta para ser apenas mulher, sem as amarras de preconceitos e costumes seculares. Leila Diniz vive! Partiu a mulher, mas o mito está presente em cada rosto feminino, e como profetizou Rita Lee, hoje qualquer mulher é mesmo Leila Diniz!

Os Primeiros Anos e a Estréia Como Atriz

Leila Roque Diniz nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 25 de março de 1945. Filha de um dirigente do Partido Comunista, o seu nascimento coincidiu com o fim do casamento dos pais, que culminou na separação. Com o fim do casamento, a mãe de Leila Diniz entrou em depressão, não tendo condições psicológicas de cuidar da recém-nascida. Com apenas sete meses, a criança foi entregue à avó paterna, para que por ela fosse criada.
A partir dos três anos de idade, Leila Diniz foi separada da avó, indo viver com o pai e com a sua nova esposa. Ela cresceu sem que lhe fosse dito que a madrasta não era a sua mãe, vivendo esta mentira velada até os 15 anos, quando uma tia revelou-lhe a verdade. A revelação afetou-lhe profundamente, fazendo-a deixar a casa do pai e procurar a mãe verdadeira. Confusa, Leila Diniz passa a viver com algumas amigas, recorre à análise para chegar à conclusão que costumava vociferar: “tenho duas mães, a que pariu e a que criou”.
Foi aos 15 anos que começou a trabalhar como professora, ensinando crianças do maternal e do jardim da infância. Sua forma peculiar de ensinar incomodou aos professores e aos pais de alunos. Leila Diniz eliminou a mesa de professora, sentando-se no meio dos alunos, trocava lanches com eles, falava palavrões comuns às crianças, procurando tratá-las com a mesma linguagem. Jamais se adaptou às exigências convencionais dos diretores da escola ou do pai dos alunos, o que a levou a deixar de dar aulas.
Aos 17 anos, ainda professora primária e estudante do segundo grau, Leila Diniz conheceu o diretor de teatro e cinema, Domingos de Oliveira, com quem passaria a viver por três anos. Aos poucos, ela deixou o magistério, indo trabalhar em uma agência de modelos, fazendo anúncios e figuração em filmes. Como atriz, faria a sua estréia fazendo pequenos papéis no Teatrinho Trol e no Grande Teatro Tupi. A quem aponte para a peça infantil “Em Busca do Tesouro”, dirigida por Domingos de Oliveira, como a sua estréia oficial como atriz. Chegou a ser corista em um show do rei da noite, o mítico Carlos Machado.
Leila Diniz considerava a sua estréia como atriz dramática a partir do momento que fez a peça “O Preço de um Homem”, ao lado de Cacilda Becker, em 1964. A atriz nunca teve paixão pelo teatro, dedicando grande parte da sua carreira ao cinema nacional e à televisão.

Leila Diniz Conquista a Televisão

A relação com Domingos de Oliveira desgastou-se com o tempo. Em 1965 ela decidiu pela separação. Foi neste tumultuado ano de dor sentimental, que ela fez a sua estréia na televisão. Ao lado de Reginaldo Faria, protagonizou a primeira telenovela da recém nascida Rede Globo, “Ilusões Perdidas”, produzida em São Paulo, na antiga TV Paulista, comprada naquele ano por Roberto Marinho. Leila Diniz entrava definitivamente para a história da televisão brasileira em exatos 56 capítulos.
Aos poucos, Leila Diniz foi construindo uma carreira na televisão. Ainda em 1965, faria mais duas novelas na emissora de Roberto Marinho, “Paixão de Outono” e “Um Rosto de Mulher”. Simultaneamente, a atriz aparecia em anúncios televisivos de sabonetes e creme dental, e da Coca-Cola.
Em 1966, Leila Diniz viveria a vilã Úrsula, de “Eu Compro Esta Mulher”, novela de Gloria Magadan, baseada no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela seria o primeiro grande sucesso da TV Globo, transformando a autora em uma poderosa e temida novelista. Úrsula projetou Leila Diniz na televisão, o que a levou a ser escalada para “O Sheik de Agadir”, da mesma autora. Sua personagem Madelon, alcançou sucesso nacional. No ano seguinte, em 1967, ela faria outra novela de Gloria Magadan, “A Rainha Louca”. Ainda naquele ano, seria a protagonista de “Anastácia, a Mulher sem Destino”, novela que entrou para a história da teledramaturgia brasileira não pelo seu sucesso, mas pelos conturbados bastidores. Emiliano Queiroz, o autor da trama, perdeu-se depois de criar vários personagens, sendo substituído por Janete Clair, em sua mítica estréia como novelista da Globo. Com a missão de salvar a novela de um imenso fracasso, Janete Clair decidiu começar do zero, enxugando o elenco e recontado a história, para isto ela criou um grande terremoto que mataria quase todo o elenco, só restando quatro sobreviventes. A história dava um salto de vinte anos, Leila Diniz passou a interpretar duas personagens, Anastácia, e a sua filha.
A presença de Leila Diniz nos primórdios da Rede Globo foi uma constante. Em 1968, foi para a TV Excelsior protagonizar a telenovela “O Direito dos Filhos”, grande sucesso da emissora. Além da TV Excelsior e da TV Globo, Leila Diniz atuaria em novelas da TV Rio, “Os Acorrentados”, de Janete Clair, em 1969, e da TV Tupi, onde faria “E Nós, Aonde Vamos?”, em 1970, novela que seria a última da sua carreira e da de Gloria Magadan, a autora.

Leila Diniz no Cinema Brasileiro

Mas foi no cinema nacional que Leila Diniz alcançou o apogeu da carreira. Uma incursão da atriz que duraria seis anos. A estréia foi em 1966, em “O Mundo Alegre de Helô”, dirigido por Carlos de Souza Barros, filme que ela chamava de alucinante. Logo em seguida, atuou em “Jogo Perigoso” (Juego Peligroso), uma co-produção entre o Brasil e o México, dirigido por Luiz Alcoriza, famoso por seu trabalho de roteirista ao lado de Luis Buñuel.
O sucesso definitivo veio com “Todas as Mulheres do Mundo”, feito em 1966, com estréia no ano seguinte. A direção foi de Domingos de Oliveira, que se inspirou na sua vida com a atriz para criar as personagens. Quando o filme foi feito, Leila Diniz e Domingos de Oliveira já estavam separados, sendo o momento das filmagens a última tentativa do diretor para reconquistar a amada, mas ela preferiu seguir sozinha. Com este filme, Leila Diniz tornou-se a atriz mais famosa do cinema nacional. Foi a partir dele que a sua inquietante personalidade ganhou notoriedade, e passou a ser reconhecida como atriz. Mas a carreira de atriz não ascenderia tão brilhante como a personalidade da mulher. Com este filme, Leila Diniz torna-se um ícone do seu tempo e das mulheres de um Brasil que se desenhava os costumes. “Todas as Mulheres do Mundo” tornou-se um clássico do cinema brasileiro. A atriz voltaria a ser dirigida pelo ex-companheiro em “Edu, Coração de Ouro”.
Apesar de dizer que não se importava em fazer um texto de Shakespeare ou de Gloria Magadan, Leila Diniz encontrou-se nas telas do cinema. O seu amor pela sétima arte fez com que ela atuasse pelo simples prazer de trabalhar com grandes diretores, abrindo mão muitas vezes, de receber salário, como aconteceu quando trabalhou com Nelson Pereira dos Santos em “Fome de Amor”, e ele não lhe podia pagar. Com este filme, considerado pela atriz como um dos seus melhores papéis, foi representar o diretor na Alemanha, no Festival de Berlim, em 1968. Ela voltaria a trabalhar com Nelson Pereira dos Santos em “Azyllo Muito Louco”.
A sua atuação no cinema foi constante até a tragédia que a vitimou, em 1972. Alternou papéis de protagonista, coadjuvante ou simples participações especiais. Fez clássicos como “Madona de Cedro”, baseado no romance de Antonio Callado, ao lado de Sérgio Cardoso, ator que, assim como ela, comoveria o Brasil com a sua morte precoce, em 1972. “Madona de Cedro” teve a direção de Carlos Coimbra, com quem ela voltaria a trabalhar em “Corisco, o Diabo Loiro”.
Por duas vezes, a atriz surgiu nas telas a interpretar ela mesma, em “Os Paqueras”, em 1969, filme considerado o precursor das pornochanchadas dos anos setenta, e em “O Donzelo”, estreado nos cinemas em 1971. Nestas participações, percebe-se nitidamente a dimensão do mito Leila Diniz, mais famosa como ela mesma do que como qualquer personagem que veio a interpretar.
Mãos Vazias”, de 1971, de Luiz Carlos Lacerda, seu amigo íntimo desde a adolescência, foi o responsável pela viagem de Leila Diniz para um festival de cinema na Austrália, onde foi representá-lo. A atriz não voltaria ao Brasil, morrendo em um acidente de avião. No carnaval de 1972, ela filmou a sua última participação no cinema, “Amor, Carnaval e Sonhos”, de Paulo César Saraceni.
Os registros da trajetória da carreira de Leila Diniz foram feitos pela televisão, onde foi protagonista de várias telenovelas, e pelo cinema nacional. Infelizmente um incêndio na TV Globo, ocorrido em 1976, destruiu todas as novelas que ela participou. As outras emissoras, TV Excelsior, TV Tupi e TV Rio, também não deixaram os arquivos dessas produções. Resta o cinema, que além das reportagens históricas da atriz, é o registro vivo do mito Leila Diniz.

Leila Diniz nas Páginas do Pasquim

O registro mais importante do mito Leila Diniz aconteceu em 1969, quando deu uma entrevista histórica para o jornal “O Pasquim”. A entrevista causaria furor nos fãs e naqueles que ansiavam pela mudança dos costumes, pelo amor livre, tão disseminado pelos movimentos hippies e vanguardas de então; causaria mal-estar nos conservadores e moralistas, tanto da classe média hipócrita, quanto do próprio governo militar, sustentado essencialmente por setores de uma sociedade de costumes rígidos e moralismos esgotados. Após o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro de 1968, era feita veladamente uma censura prévia ao que se saía na imprensa. O Pasquim era conhecido pela irreverência intelectual dos seus editores, publicando reportagens com entrevistas na íntegra, preservando a linguagem coloquial do entrevistado.
Em novembro de 1969, o jornal publicou sem retoques, a mítica entrevista de Leila Diniz. A atriz era conhecida no meio que freqüentava pela linguagem escancarada e espontânea que utilizava, os seus palavrões eram famosos pelas mesas dos bares de Ipanema. O Pasquim transcreveu esta linguagem na reportagem, até então desconhecida do público da atriz. Apesar da linguagem chula que às vezes utilizava, Leila Diniz não era uma mulher agressiva, muito menos vulgar, os palavrões ditos por ela soavam aos ouvidos dos amigos e parentes como um charme, uma rebeldia, numa época que se tornara moda ser contestador, derrubar tabus e procurar novos caminhos para os costumes sociais que explodiam.
A partir da reportagem do Pasquim, Leila Diniz tornou-se porta-voz da nova mulher que se construía numa sociedade machista e em ebulição, movida por um regime governamental repressivo e de parcos costumes. Para cobrir a grande quantidade de palavrões, o editor Tarso de Castro substituiu-os por asteriscos, não mudando a essência vulcânica das palavras da atriz. Dois meses após a publicação da polêmica entrevista, ainda indignada, a ditadura militar outorgou um decreto-lei instituído a censura prévia, dizendo que não mais toleraria na imprensa nacional, “exteriorizações contrárias à moral e aos costumes”. O decreto entrou para a história como “Decreto Leila Diniz”.
A repercussão da entrevista deixou marcas indeléveis na carreira e vida profissional de Leila Diniz. Vítima de perseguição moral, ela jamais conseguiria um bom emprego, sendo vetada nas novelas da Globo, casa que ajudou a construir nos primórdios, emprestando o seu talento de atriz. Sem conseguir bons papéis na televisão, ela começou a ter dificuldades em pagar as suas contas.
Lidas com a visão dos tempos atuais, as frases de Leila Diniz soam como as de qualquer adolescente que se expressa através da internet. Mas na época que foram ditas, eram consideradas libertárias, não dignas de uma mulher de moral. A repercussão negativa da entrevista fez da atriz um alvo perfeito de preconceitos e dos preconceituosos. Leila Diniz afirmava que fazia sexo com ou sem amor, que ter prazer não dependia da paixão ou de ser mulher, mas da essência de cada um. Declarar o amor livre em 1969 era um ato de rebeldia, principalmente se a declaração viesse de uma mulher e de uma influente figura pública. Separar sexo do amor era para as prostitutas, não para as esposas e para as mães de família.
A edição do Pasquim que trazia a entrevista de Leila Diniz foi a mais vendida da história do jornal. Também a mais marcante e comentada até os dias de hoje. Para Leila Diniz foi o crepúsculo profissional. Depois que a entrevista saiu, emissoras como a Rede Globo deixaram de contratá-la, alegando razões morais. O diretor Daniel Filho declararia que a novelista Janete Clair vetou Leila Diniz para fazer uma de suas novelas, alegando que a imagem da atriz não condizia com a da heroína do folhetim, o que poderia vir a afetar o desenvolvimento da personagem. O que não deixava de ser uma grande ingratidão, já que Daniel Filho tinha saído temporariamente da TV Globo, indo para a TV Rio, em 1969, convocando Janete Clair para escrever para aquela emissora uma novela, “Os Acorrentados”, na qual Leila Diniz fora a protagonista, emprestando o seu nome para a empreitada do diretor e, representando com maestria a heroína de Janete Clair.
Contrariando a versão de Daniel Filho, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o poderoso Boni, então diretor geral da TV Globo, alegou que Leila Diniz foi vetada na emissora por ter quebrado o contrato para fazer uma novela na TV Excelsior. Boni declararia: “Ficamos decepcionados. Quando quis voltar, estávamos naturalmente tristes com aquela quebra de contrato. Era política da empresa.” Seja qual for a versão verdadeira, o fato é que a TV Globo era extremamente conservadora e de orientação machista, não permitindo inclusive, que as suas atrizes posassem nuas para revistas masculinas, aquela que infringisse as normas da emissora sofria retaliações, esta política só caiu no fim da década de setenta.
Ser verdadeira e espontânea pôs Leila Diniz na contramão do seu tempo, fazendo dela o protótipo da mulher do futuro. A atriz pagou caro por sua irreverência, sendo perseguida pelo conservadorismo dilacerante daquele Brasil reprimido. Nunca quis ser líder de nada, queria apenas ser livre. Conseguia defender o amor livre e o casamento em uma mesma entrevista. Numa época em que as ideologias estavam divididas em dois grupos, o de esquerda e o de direita, e que não pertencer a nenhum dos lados era considerado alienante, numa época que não se podia fugir das idéias pré-concebidas, das dialéticas impostas, Leila Diniz defendia apenas o direito de ser livre, mesmo sendo mulher, não trazia receitas ideológicas, pensamentos intelectuais, mostrando-se como uma incógnita, como a interrogação desconcertante dos tabus que se quebravam dia após dia. A entrevista de Leila Diniz no Pasquim foi a primeira quebra da mulher com as amarras machistas no Brasil, foi o primeiro flash disparado sobre o rosto e o corpo da mulher brasileira do futuro.

Perseguida e Acossada Pelos Preconceitos Morais

A partir da entrevista que deu para O Pasquim, Leila Diniz amargou a pior fase da sua vida. Vetada pela TV Globo, que passava a ser a maior emissora do país, perseguida pelos conservadores e moralistas, ela passou a aceitar papéis menores em sua carreira.
Ignorada pela esquerda, perseguida pela direita, a atriz viu os caminhos profissionais sendo fechados à volta. A verdade é que Leila Diniz era senhora de uma personalidade marcante, maior do que a sua profissão, uma fomentadora de opiniões, que muitos jovens idolatravam e seguiam. Leila Diniz passou a incomodar os poderosos do regime militar, não por ser uma revolucionária de esquerda, ou militante política perigosa, mas por desafiar os costumes sociais estabelecidos. Ela desafiava ao poder do macho, refletido no casaco dos generais, nos olhos sombrios dos militares do poder, que escondiam atrás de óculos escuros o olhar frio dos torturadores. Leila Diniz passou a ser perseguida pelos militares, que a acusaram de ajudar militantes de esquerda, os quais eles chamavam de terroristas, mas a verdade é que a polícia política queria prendê-la por atentado ao pudor. Acossada, ela foi obrigada a viver escondida na casa de campo do apresentador Flávio Cavalcanti, considerado pelos intelectuais e militantes de esquerda como reacionário, sendo visto como a escória da televisão. Naquele momento crucial da vida da atriz, no fatídico ano de 1970, Flávio Cavalcanti não só a abrigou em sua casa de Petrópolis, como deu emprego para ela como jurada no seu programa de televisão. Com a ajuda de Flávio Cavalcanti e da sua família, Leila Diniz pôde respirar um pouco mais naquele momento que ninguém lhe queria dar emprego.
Passado o período mais negro da perseguição após a entrevista no Pasquim, a atriz trouxe de volta aos palcos brasileiros o teatro de revista, considerado extinto na época. Exuberante, ela brilhou nos palcos como vedete, protagonizando “Tem Banana na Banda”, revista feita a partir de textos escritos por Millôr Fernandes, Oduvaldo Viana Filho, Luiz Carlos Maciel e José Wilker, sobre os quais a atriz improvisava com maestria. O sucesso da revista deu a Leila Diniz a vitória no concurso de rainha das vedetes, recebendo o título das mãos da maior vedete do país, Virginia Lane. Para encerrar o período nebuloso pelo qual passara, ela foi eleita a Madrinha da Banda de Ipanema.
Leila Diniz voltava a ser notícia, a trazer novamente, o seu sorriso e comportamento espontâneo. A avalanche causada pelas declarações no Pasquim passara, mas deixara cicatrizes profundas. A carreira da atriz era definida antes e depois da entrevista. Era como se recomeçasse, mas a fatalidade da vida dizia o contrário, era um epílogo de vida que a atriz vivia.

Leila Diniz, a Mulher

Em 1971, Leila Diniz apaixonou-se pelo cineasta Ruy Guerra, com quem passou a viver um tórrido romance. O romance resultou na gravidez da atriz. Leila Diniz parecia atingir a sua plenitude de mulher. Recebeu a gravidez como a mutação perfeita da mulher, a concretização do seu corpo e das paixões.
Leila Diniz voltou para o mar, a sua grande paixão de vida. O único momento que gostava de ser ela, de não ser incomodada pelo assédio dos fãs, era aquele que jogava o seu corpo na areia e banhava-se no mar. Momento que gostava de estar só consigo mesma, a falar com o mar, como se dele obtivesse uma inspiração perene e a força para prosseguir livre. A atriz voltava às praias cariocas, voltava a reinar absoluta nas areias de Ipanema. Mas desta vez não estava sozinha, ela voltava grávida, trazendo uma barriga de oito meses, vestida apenas com um biquíni. Ao ser fotografada a exibir a sua gravidez, a trajar um biquíni, mais uma vez Leila Diniz escandalizava a sociedade. Até então a mulher tinha vergonha de exibir a sua gravidez, disfarçando-a em roupas recatadas até o nono mês. Uma grávida dentro de um biquíni era inconcebível. Mas Leila Diniz ousou, e a partir dela, virou moda a mulher grávida usar biquíni e ir à praia.
Grávida, Leila Diniz mais uma vez foi pioneira, deixando-se fotografar nua, com o ventre crescido, pelo fotógrafo David Drew Zingg. Décadas depois, celebridades como Luma de Oliveira e Demi Moore fizeram o mesmo, mas sem escandalizar como aconteceu com Leila Diniz. A plenitude daquele momento deu à atriz o título de grávida do ano.
Foi do mar que Leila Diniz encontrou inspiração para o nome da sua filha, Janaína, nascida em novembro de 1971. Se hoje é comum em campanhas do governo federal a mulher amamentando o filho, Leila Diniz incomodou a moral do governo militar, quando apareceu em fotografias a amamentar a pequena Janaína.
A descoberta da maternidade apaziguou um pouco os anseios da mulher. Leila Diniz viveu com intensidade os curtos oito meses que a vida lhe deu para ser mãe. Após dedicação total à Janaína, ele retomou a carreira, voltando aos palcos do teatro de revista e ao cinema. Em junho de 1972, ela deixou o Brasil para participar de um festival de cinema na Austrália, com o filme “Mãos Vazias”. Era a primeira separação que tinha da filha desde que ela nascera. A atriz não resistiu à saudade e à distância de Janaína, o que a levou a deixar o grupo de atores com o qual viajara e antecipasse a volta ao Brasil. Infelizmente Leila Diniz não voltou. O avião da Japan Airlines, em que viajava, explodiu no ar, quando sobrevoava Nova Déli, na Índia, no dia 14 de junho de 1972. Apenas sete pessoas sobreviveram. Leila Diniz estava entre os mortos, com o corpo incinerado, sendo reconhecido apenas pela arcada dentária.
Quando morreu, Leila Diniz tinha apenas 27 anos, causou uma grande comoção nacional, mesmo diante daqueles que a perseguiram e que tentaram silenciá-la. A atriz passou de pessoa maldita e promíscua a símbolo da liberação feminina. Mesmo morta, o seu rosto desenhou a face da nova mulher brasileira. Desaparecia a mulher, nascia o mito, do qual Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Soltou as mulheres de vinte anos presas no tronco de uma especial escravidão”. Leila Diniz, a mulher, revive em todas as grávidas que passeiam de biquíni pelas praias, em todas aquelas que não têm medo de sentir prazer. O mito é intocável, eterno, símbolo de uma época.
Se Leila Diniz não teve tempo de viver o seu grande papel nos palcos, cinema ou televisão, ela o viveu na vida, sendo o mito Leila Diniz o seu maior papel nos palcos sociais do Brasil. Irreverente e apaixonada pela vida, ela jamais deixou de se divertir com o seu trabalho, sobre o qual declararia:
Eu sou uma pessoa sem sentido porque o meu sentido é esse: eu gosto de me divertir. Eu escolho os meus trabalhos pela patota.”
Leila Diniz era o símbolo da contradição moral vigente, seu sorriso era contagiante, sua beleza estonteante, cheia de curvas sinuosas numa época em que o padrão de beleza feminino era o que ela trazia no corpo, sua visão naturalista do amor e do sexo era o que ansiava intimamente a mais reprimida das virgens, a mais mal amada das balzaquianas e das suas mães. Leila Diniz jamais pretendeu fazer qualquer revolução, mas terminou por ser o símbolo de uma, a dos costumes, a da independência feminina no trabalho, no amor e no sexo.

Frases Emblemáticas de Leila Diniz

“Não sei se foi loucura ou coragem minha, mas sempre me expus muito. De certa forma, acho que é isso que ainda sustenta essa coisa engraçada chamada mito.”

“Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores eu morreria, porque eu gosto mesmo e de viver de amores.”

“Quebro a cara toda hora, mas só me arrependo do que deixei de fazer por preconceito, problema e neurose.”

“Tem-se que brigar com o passado, ou melhor, estudá-lo. Arrancar de dentro da gente as raízes burguesas e mesquinhas, as tradições, o comodismo e a proteção…”

“Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo.”

“Não sou contra o casamento, Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom.”

“Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco.”

“Todos os cafajestes que conheci na vida são uns anjos de pessoas.”

“Eu posso dar para todo mundo, mas não dou para qualquer um.”

“Eu trepo de manhã, de tarde e de noite.”

“Sempre andei sozinha. Me dou bem comigo mesma.”

“Só quero que o amor seja simples, honesto, sem tabus e fantasias que as pessoas lhe dão.”

“Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz. Encontrar em cada gesto da vida o sentido exato para que acredite nele e o sinta intensamente.”

“Quando eu estou representando em teatro, tenho vontade de parar e fazer careta para a platéia e dizer: o que é que vocês estão aí me olhando, o que é isso?”

“Eu durmo com todo mundo! Todo mundo que quer dormir comigo e todo mundo que eu quero dormir.”

“No fundo, eu sou uma mulher meiga, adoro amar, não quero brigar nunca, e queria mesmo é fazer amor sem parar.”

OBRA:

Televisão

1965 – Ilusões Perdidas – TV Paulista
1965 – Paixão de Outono – Rede Globo
1965/1966 – Um Rosto de Mulher – Rede Globo
1966 – Eu Compro Esta Mulher – Rede Globo
1966/1967 – O Sheik de Agadir – Rede Globo
1967 – A Rainha Louca – Rede Globo
1967 – Anastácia, a Mulher Sem Destino – Rede Globo
1968 – O Direito dos Filhos – TV Excelsior
1969 – Os Acorrentados – TV Rio
1969 – Vidas em Conflito – TV Excelsior
1969/1970 – A Menina do Veleiro Azul – TV Excelsior
1969/1970 – Dez Vidas – TV Excelsior
1970 – E Nós, Aonde Vamos? – TV Tupi

Cinema

1966 – O Mundo Alegre de Helô
1966 – Todas as Mulheres do Mundo
1967 – Juego Peligroso (Jogo Perigoso)
1967 – Mineirinho, Vivo ou Morto
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – O Homem Nu
1968 – A Madona de Cedro
1968 – Fome de Amor
1969 – Corisco, o Diabo Loiro
1969 – Os Paqueras
1970 – Azyllo Muito Louco
1971 – O Donzelo
1971 – Mãos Vazias
1972 – Amor, Carnaval e Sonhos


AS DUAS MORTES DE ELIS REGINA

Abril 4, 2009

Na manhã de 19 de janeiro de 1982 o brasileiro tinha o seu almoço interrompido por uma trágica notícia, a cantora Elis Regina estava morta! Emissoras de rádios e televisão interromperam a programação normal para cobrir a tragédia. Elis Regina, 36 anos, no auge da sua vitalidade, com uma carreira de sucesso longe de se esgotar, morria de parada cardíaca no seu apartamento nos Jardins, em São Paulo. A notícia comoveu o Brasil, tendo uma repercussão que surpreendeu muita gente, já que a cantora tinha um público restrito, um repertório denso, apesar de vários sucessos de grande alcance popular. Pobres, ricos, intelectuais, gente humilde, todos choraram Elis Regina. O Brasil vestiu-se de luto.
À tarde, o corpo da cantora foi levado para o Teatro Bandeirantes, onde uma multidão de pessoas fazia uma gigantesca fila na porta, esperando o momento de prestar uma última homenagem. A fila estender-se-ia noite dentro, sendo ainda visível às cinco horas da manhã do dia 20. Diante do grande fluxo de pessoas, a família chegou a pedir à polícia que retirasse a multidão espalhada pelos palcos do teatro, mas a mãe, dona Ercy, abriu mão de velar a filha mais intimamente, cedendo o lugar da família para os fãs. Admiradores e amigos, aglomerados nos palcos do teatro, entoaram músicas da cantora, despedindo-se com “Está Chegando a Hora” (Rubens Campos – Henricão), momento de maior emoção.
No dia seguinte, mais de mil pessoas juntaram-se ao cortejo fúnebre, percorrendo lentamente as ruas da capital paulista, conduzindo o corpo de Elis Regina até o cemitério do Morumbi, onde foi enterrado ao som de “Canção da América”, cantada pela multidão: “… Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”. Era a última homenagem ao ídolo morto.
Ainda a recuperar-se da comoção da tragédia, o Brasil foi surpreendido, 48 horas depois, pela notícia de que a causa da morte tinha sido ingestão de cocaína. Os resultados do laudo ecoaram pelo país. A família, na esperança de preservar a imagem da cantora, negou veementemente o laudo. Eram criadas teorias da conspiração envolvendo o namorado da cantora Samuel Mac Dowell Figueiredo e o médico que emitira o laudo, o obscuro Harry Shibata. Iniciava-se a caça às bruxas, tendo como resultado a difamação da cantora. A imprensa não se limitou a informar as causas de tão súbita morte, mas a fazer uma condenação moral velada da vida de Elis Regina. O Brasil tornou-se moralista. Assim, após a comoção, as lágrimas e o enterro dramático, iniciava-se a depredação da imagem. Elis Regina teve em 1982, duas mortes, a morte física, que lhe tirou a vida, levando milhares de brasileiros às lágrimas; e a morte moral, promovida por uma imprensa preconceituosa e um país de costumes hipócritas. Com o passar do tempo, o mito superou às duas mortes, e Elis Regina continuou mais viva do que quando respirava, cantava e emocionava o Brasil, transpirando sangue nos palcos.

Os Últimos Momentos de Vida

Os últimos momentos de vida de Elis Regina foram tensos, com discussões ao telefone e regados de álcool e droga. Após a separação do músico César Camargo Mariano, a cantora passou por um período de romances fugazes, até que estabeleceu uma relação sólida com o advogado Samuel Mac Dowell, com quem construiu planos de casamento.
Elis Regina tinha planos de entrar em estúdio nos próximos dias, para gravar o seu novo disco, já com repertório definido. Jantou com amigos músicos e com o namorado. Nada fazia crer que ela vivia os seus últimos momentos. No fim da noite, já os amigos tinham ido embora, discutiu com Samuel Mac Dowell. Despediram-se em clima de rancor, embora o advogado negasse futuramente qualquer rusga. Com a briga, a cantora entrou em depressão, bebendo toda a noite. Sem dormir, pela manhã atendeu a um telefonema do namorado, pôs-se então, a discutir com ele. Enquanto falava, consumia Campari e cocaína, até que o seu coração não agüentou. Elis Regina silenciou a voz, não só ao telefone, como para a vida. Diante do silêncio repentino, Samuel Mac Dowell, do outro lado da linha, percebeu que alguma coisa de muito grave acontecera. Deixou o seu escritório e rumou para o apartamento da cantora. Foi encontrá-la trancada no quarto, sem responder aos chamados. Desesperado, derrubou a porta do quarto, encontrando-a caída, com o telefone fora do gancho.
Elis Regina foi levada de táxi para o Hospital das Clínicas, mas já estava sem vida. Aos 36 anos de idade, Elis Regina de Carvalho Costa, uma das maiores cantoras do Brasil, encerrava a sua carreira. Deixava três filhos e vários álbuns. Morria a mulher, nascia o mito.

O Adeus de Milhares de Pessoas a Elis Regina

Passado o primeiro impacto da morte da cantora, era hora de preparar a cerimônia final e prestar-lhe a última homenagem. Naquele instante uma enorme dúvida pairava no ar, o que levara uma mulher jovem e de uma vitalidade estonteante a ter uma parada cardíaca? Por que a médica que a recebera no Hospital das Clínicas não pôde ou não quis, fornecer o atestado de óbito, dizendo-se impossibilitada de afirmar ter sido morte natural? E ainda, diante desta dúvida, porque o cadáver foi remetido para o Instituto Médico Legal (IML) para ser autopsiado? Para os preparativos do adeus, as perguntas foram proteladas, mas não esquecidas.
Como local da última homenagem à cantora, foi decidido que o velório seria no Teatro Bandeirantes, no centro de São Paulo, palco do seu mais famoso show, “Falso Brilhante”, de 1976. Seria aberto para familiares e amigos, mas o corpo ainda lá não chegara, e uma grande multidão fazia fila na porta do teatro, à espera de poder dar o último adeus ao ídolo. A fila não parou de crescer, mantendo-se até o dia seguinte, quando seria o enterro.
Numa última homenagem, ficou estabelecido que a cantora vestiria em seu repouso final, uma camiseta branca com a bandeira do Brasil, que no centro trazia escrito “Elis Regina” no lugar da frase “Ordem e Progresso”. A camiseta de malha fora confeccionada para o show “Saudades do Brasil”, de 1980, mas a cantora tinha sido proibida pela censura militar de usá-la durante o espetáculo, que considerara um acinte à bandeira nacional.
Feitos os devidos preparativos, o corpo de Elis Regina chegou ao Teatro Bandeirantes à tarde. Entre a tarde do dia 19 e a manhã do dia 20 de janeiro, mais de vinte e cinco mil pessoas acederam ao velório da cantora, entoando músicas do seu vasto repertório. O corpo seguiu do centro de São Paulo para o cemitério do Morumbi. Mil pessoas acompanharam a cerimônia. Entre aplausos e os versos de “Canção da América” (Milton Nascimento – Fernando Brant), Elis Regina foi enterrada.

Amigos Defendem a Imagem da Cantora Morta

Dois dias depois, os rumores de que a morte da cantora tinha sido provocada por drogas espalharam-se pelo país. Samuel Mac Dowell e a família de Elis Regina, tentaram evitar que lhe fosse feita autópsia, tentando preservar a sua imagem. Esta recusa em esclarecer os fatos, contribuiu para que se aumentassem as suspeitas de uma morte obscura. Também as últimas palavras de Elis Regina ao telefone com Samuel Mac Dowell, suscitaram a imaginação de todos. A briga entre o casal só seria revelada muito tempo depois. Persistindo as dúvidas de que a cantora não morrera de causa natural, não se podia emitir um atestado de óbito, e por lei, a autópsia tornava-se obrigatória.
Entrava em cena a figura do médico Harry Shibata, que declarava ter sido ingestão de barbitúricos ou cocaína com álcool a causa da morte de Elis Regina, descartando a hipótese de morte natural. Uma dúvida punha em questão o laudo de Shibata, se cocaína era ingerida diluída em álcool, já que tradicionalmente era aspirada pelo nariz.
Mas o que pesou realmente foi a credibilidade do legista. Harry Shibata entrou para a história brasileira como colaborador do regime militar e da tortura que se praticou na época. Para justificar as mortes nos calabouços da ditadura, médicos legistas forneciam falsos laudos que apontavam morte natural, jamais tortura. Harry Shibata foi um desses legistas, tendo assinado o histórico laudo da morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975, que atestava suicídio e não morte por tortura. Na época, Samuel Mac Dowell foi um dos advogados que condenaram a União pela morte de Herzog, escancarando a farsa assinada por Shibata.
Na tentativa de defender Elis Regina, vários amigos, entre eles Edu Lobo, diziam que o laudo de Shibata era uma vingança a Samuel Mac Dowell, o que levantou grande polêmica na época.
Apesar da contestação do laudo, os estragos na imagem da cantora morta tinham sido feitos. Um pernicioso processo moralista assolou o Brasil, trazendo uma tempestade sem fim de preconceito contra a memória de Elis Regina, atingindo inclusive aos seus filhos, então crianças, que tinham que ouvir o escárnio dos colegas da escola. Diante desta difamação e depredação de memória, os amigos mais próximos da cantora partiram em sua defesa. Jair Rodrigues pediu pela preservação dos filhos da amiga, foi à televisão defendê-la com arroubos de emoção, apontando o dedo para “muitos” no meio artístico que se drogavam e ninguém dizia nada. As declarações do cantor criaram polêmicas, e vários famosos sentiram-se ameaçados, iniciando contra ele o tradicional patrulhamento ideológico, responsável pelo fim de tantas carreiras no país. Mas Jair Rodrigues não se intimidou, defendendo a inocência da amiga em relação às drogas até o fim.
Henfil, outro grande amigo de Elis Regina, defendeu-a no programa “TV Mulher”, da Rede Globo, onde tinha o quadro “TV Homem”, no qual apresentava os seus desenhos de animação. Na defesa, ele apresentou um quadro em que se propagava a difamação de Elis Regina pela imprensa, sempre com o tema da cocaína como pano de fundo, no meio da difamação, uma mulher do povo abraçava a fotografia da cantora, enquanto que se ouvia a voz da mesma a cantar “Maria, Maria”(Milton Nascimento – Fernando Brant). A mensagem era clara, enquanto a imprensa difamava Elis Regina, o povo brasileiro abraçava o seu mito e mostrava o seu amor e dor diante da perda.

O Mito Elis Regina

Mas as contestações e afirmações de que Elis Regina não costuma usar drogas não se sustentou por muito tempo, tão pouco a teoria da conspiração que envolvia Harry Shibata e Samuel Mac Dowell foi adiante. O laudo final, divulgado pelo delegado Geraldo Branco de Carvalho, assinado pelos legistas Chibly Hadad e José Luiz Lourenço, deixou claro, no cadáver autopsiado tinha sido encontrado álcool etílico e cocaína, o que lhe revelava embriaguez e estado tóxico, que em combinação tinham sido letais. Além dos três legistas citados, a autópsia foi feita também, pelo médico da família, Álvaro Machado Jr.
Confirmada a verdadeira causa da morte, vários depoimentos começaram a surgir, apontando que nos últimos tempos Elis Regina consumia excesso de álcool e drogas. Que experimentara cocaína e maconha em uma viagem aos Estados Unidos, um ano antes da sua morte. Contraditoriamente, Elis Regina foi a “careta” que morreu de overdose.
O “Fantástico”, TV Globo, levou ao ar o clipe da música “Me Deixas Louca” (A. Manzonero – Paulo Coelho), que a cantora gravara especialmente para tema de Luiza (Vera Fischer), personagem central da novela “Brilhante”, de Gilberto Braga, estreada nos últimos meses de 1981 em horário nobre, somente após a sua morte. O programa justificou que o clipe, última gravação da cantora, feita em 3 de dezembro de 1981, não tinha ido antes ao ar por não ter agradado à direção da emissora, que considerou a cantora visivelmente entorpecida. Visto depois da morte, o clipe emocionou, e percebeu-se que o estado etéreo de Elis Regina corria do sublime ao desespero, não só anunciava o fim da mulher, mas ao grito de um ser humano denso, que se explicava somente através da sua arte.
Elis Regina, carinhosamente chamada de Pimentinha pelos amigos, gaúcha nascida em 17 de março de 1945, atirou-se cedo ao mundo da música. Aos 11 anos já se apresentava no programa de rádio Clube do Guri, em Porto Alegre. Aos 16 anos, em 1961, já tinha o seu primeiro álbum gravado, “Viva a Brotolândia”. Já longe de Porto Alegre, Elis Regina ganhou o I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, numa interpretação monumental de “Arrastão” (Edu Lobo), onde movimentava os braços como um moinho de ventos selvagens. Era a cantora na sua essência. Continuou emocionando o Brasil com grandes sucessos. Em vida não vendeu muitos discos, enquanto Maria Bethânia e Gal Costa chegavam ou ultrapassavam as 500 mil cópias, o último álbum em vida, “Elis”, vendeu pouco mais de 52 mil cópias. Mesmo com pouca vendagem, era uma das cantoras mais bem pagas no palco, além de assediada por músicos e emissoras de televisão, estando sempre presente na mídia de então ou em trilhas de novelas. Elis vendeu mais discos depois de morta, e até hoje, é a única cantora brasileira que nunca deixou de ter os seus álbuns comercializados em período algum.
O impacto da morte de Elis Regina pôde ser sentido pela comoção que trouxe milhares de pessoas ao seu velório e enterro. A perda da cantora em 1982 deixou um grande vazio na MPB, justamente quando esta voltava a ter grande força no cenário político e social da nação. A abertura política possibilitou a volta da canção de protesto, tirando das gavetas muitas das que foram censuradas. No álbum “Elis, Essa Mulher” (1979), a cantora gravava a música “O Bêbado e a Equilibrista” (João Bosco – Aldir Blanc), que se iria tornar o hino da Anistia. No grande show de MPB, o primeiro programado depois do atentado à bomba do Rio Centro, em 1981, que se daria poucos dias após a sua morte, o momento programado para ela cantar foi preenchido pela apresentação de João Bosco, com a sua fotografia ao fundo.
O vazio deixado por Elis Regina na história da MPB criou o mito, que por sua vez apagou para sempre o período que se seguiu à revelação das causas da sua morte. Período negro da história da intolerância no Brasil. Hoje parece confuso um momento como este, mas à altura, ser drogado no regime militar representava o que havia de mais vil na sociedade repressiva e hipócrita de então. A repressão aos entorpecentes levou Gilberto Gil e Rita Lee à prisão em 1976. O Brasil de 1982 ainda trazia os resquícios do preconceito que levou distintas senhoras de família às ruas, de rosários nas mãos, em 1964, a abraçar o golpe militar. Quase três décadas depois da morte de Elis Regina, ficou na lembrança apenas o carinho e a tristeza do povo brasileiro diante da trágica perda da cantora. A sua segunda morte, movida pelo preconceito ao pó que a matou, foi totalmente apagada, ficando apenas na memória daqueles que viveram o drama na época. Elis Regina, a mulher, deu passagem para o mito, perfeito e intocável na extensão da sua voz e do seu talento.


FEDERICO GARCIA LORCA – UM HOMEM ANDALUZ

Janeiro 3, 2009

Federico García Lorca é, ao lado de Miguel de Cervantes, o escritor espanhol mais conhecido e lido tanto na própria Espanha, como no resto do mundo. Poeta e dramaturgo, de uma obra intensa, marcada por codificações simbólicas: a lua, a morte, a terra, a água, o cavalo, a criança…
Lorca criou um dos mais belos teatros do século XX, introduzindo em suas peças uma linguagem poética singular. Sua insatisfação diante da vida transformava os costumes abordados em sua tragédia. Centro de um grupo de intelectuais que passou para a história como a “Geração de 27”, congregou com os maiores nomes do universo da arte e cultura da Espanha do século passado, entre o solar dos seus amigos estavam: Luís Buñuel, Salvador Dali, Antonio Machado, Manuel Falla e Rafael Alberti.
Federico García Lorca foi um dos primeiros a ser vitimado pela Guerra Civil Espanhola, sendo abatido pelos nacionalistas, grupo liderado pelo general Franco, que uma vez no poder, levaria a Espanha a uma ditadura de quatro décadas. Durante a ditadura franquista, o nome do poeta andaluz foi banido e proibido em todo o país. Numa época de conservadorismo dos costumes católicos na Ibéria, as idéias de Lorca, juntamente com a sua homossexualidade latente, foram decisivas para o seu fuzilamento. Se a conduta de idéias e as assimilações de vida de Lorca bateram no preconceito de uma nação, assassinando o homem, o poeta e o dramaturgo eternizaram o mito. Mesmo calada a sua obra por décadas, ela voltou com os ventos da democracia, formando um grande vendaval que fizeram das palavras dilaceradas à luz da lua, um grito que ecoou por toda a península Ibérica, tornando-se um dos maiores nomes da literatura espanhola.

Tendências Musicais no Universo do Jovem Lorca

Federico García Lorca nasceu em 5 de junho de 1898, em Fuente Vaqueros, povoação próxima a Granada, na Andaluzia. Filho mais velho de quatro irmãos, viveu uma infância que marcaria para sempre a sua vida e, principalmente, a sua obra. Todas as vezes que questionado sobre o que escrevia, Lorca aludia à infância como fonte de inspiração. Sua família enriquecera com o negócio do açúcar, formando um núcleo de pequenos proprietários e funcionários administrativos. É na figura da mãe que o pequeno Federico mais se espelha, apesar da sua tendência para a depressão. É com ela que inicia os seus estudos e aprende as primeiras letras. A infância corre-lhe feliz dentro do seio desta família andaluz, que trazia homens que gostavam da vida boêmia e da música, e mulheres que liam Vitor Hugo como modismo.
O mundo da arte abraçou desde cedo “el niño“ andaluz, que se dedicava horas a tocar piano, numa demonstração clara de vocação para a música. Por algum tempo acreditou que o pai o enviasse para Paris, onde pretendia continuar os estudos musicais, mas com a morte de seu professor de piano, António Segura Mesa, não teve como convencer a família, que queria para o filho uma profissão mais “útil”.
Terminado o sonho de ser músico na adolescência, o jovem Lorca seguiu para Granada, matriculando-se em Direito e Filosofia. Sem aptidão para os cursos, logo deles se desinteressa. Concluiria com dificuldade o curso de Direito. É desta época o seu primeiro sucesso literário “Impressões e Paisagens”. É em Granada que começa a desenvolver o seu círculo intelectual, travando conhecimento com António Machado e Manuel Falla, estreitando com eles uma longa amizade.
Em 1919 Lorca seguiu para Madrid, para concluir o curso de Direito. As conturbações culturais assolavam a Europa, que acabara de viver os duros anos da Primeira Guerra Mundial. Era hora de refazer os escombros que a guerra deixara, inclusive o cultural. Sob os ecos do horror da guerra, tudo parecia finito, os ventos reluziam mudanças, os símbolos tomavam dimensões no jogo social e artístico, refletidos em Freud e Nietzsche, incitando códigos que respingariam na obra que o jovem García Lorca começava a traçar. Nesta época publica o seu primeiro poema na “Antologia de Poesia Espanhola”, e começa o projeto de um livro de poemas. O escritor matava de vez o músico. Os versos usurpavam as notas musicais, e o maior poeta da Espanha do século XX estava pronto.

Encontro com Salvador Dali

Em Madrid, por recomendação do amigo e antigo mestre, Fernando de los Rios, Lorca foi aceito na Residência dos Estudantes. O local era freqüentado por intelectuais, costumando receber palestrantes famosos, como H. G. Wells, Einstein, Paul Claudel, Bérgson, Paul Éluard, Louise Curie, Stravinsky e Paul Valéry.
Na Residência dos Estudantes, Lorca transforma o seu quarto em ponto de encontro de intelectuais e centro de longas tertúlias. É na capital madrilena que conhece Salvador Dali, Rafael Alberti e Luís Buñuel, que futuramente tornar-se-iam a mais fina flor de intelectuais espanhóis.
Do encontro de García Lorca com Salvador Dali surgiria uma grande amizade, movida por uma forte empatia. Se Lorca era um jovem sensível, de uma alma inquieta, Dali, não lhe ficava atrás, era um homem tímido, que se vestia de uma excentricidade perene. Se para Dali nascia uma grande e profunda amizade, para Lorca nascia algo mais, uma profunda paixão, cerceada pelos meandros sociais e pelos códigos morais que só eles ousavam decifrar além.
Se Madrid borbulha intelectualmente, também Lorca explode a sua obra. Estréia a sua primeira peça, “El Malefício de la Mariposa”, um ano depois de estar na capital espanhola. Apesar de ser sucesso de crítica, a peça é um fracasso, fazendo com que o autor volte-se para a poesia. Em 1921 lança “Libro de Poemas”, grande sucesso que o leva a publicar mais poesia. Nos três anos seguintes dedica-se a escrever várias peças e a elaborar outras tantas. Nesta fase descobre uma nova paixão, o desenho, que lhe rouba bastante do seu tempo.

Ruptura com Dali

O ano de 1927 é intenso para García Lorca. É nesta época que ele e o seu grupo de amigos passam a ser conhecidos como a “Geração de 27”. É o ano que estréia com a companhia da atriz Margarita Xirgú, de quem se torna grande amigo. Será para a amiga que Lorca escreverá, futuramente, as maiores personagens da sua obra teatral, como Yerma e Bernarda Alba.
Salvador Dali organizou, em 1927, os desenhos de Lorca, expondo-os nas míticas galerias Dalmau, em Barcelona. Logo a seguir, Lorca publicou aquele que se tornaria o seu livro mais famoso, “El Romancero Gitano”. O sucesso foi absoluto, sendo aplaudido por todos, aclamado o melhor livro na Espanha. Apesar de ser unanimidade, Luis Buñuel e Salvador Dali acharam o livro profundamente ruim.
A opinião desfavorável de Dali, emitida em uma carta que trazia um tom às vezes magoado, transtornara Lorca. Se a sua obra atingia com sucesso a Espanha, por outro lado Salvador Dali afastava-se cada vez mais. Lorca apercebera-se que Dali desenvolvia um interesse latente por Gala, mulher de Paul Éluard. Amargurado com a falta de solidariedade de Dali, Lorca entrou em depressão. Quando questionado, falava que era por problemas sentimentais por conta de uma desilusão amorosa. Por detrás da depressão, a verdade era só uma, o momento de ruptura com Salvador Dali.

Surge o Grande Dramaturgo

Se o momento era de conquista profissional, as perdas sentimentais eram irreversíveis, e Lorca deixa-se deprimir. É neste período que o antigo amigo e mestre Fernando de los Rios, com viagem marcada para os Estados Unidos, convida-o para acompanhá-lo. Lorca sabe que o momento é de rupturas, de transformações e ebulições interiores. Decide aceitar o convite do amigo e deixa a Espanha, partindo para Nova York.
Acostumado às tertúlias intelectuais de Madrid, aos salões culturais europeus, Lorca vê-se perdido e esmagado em Nova York. Rejeita tenazmente o olhar americano sobre a vida. Não só ele vivia uma depressão, como a própria Nova York explodirá a sua bolsa de valores, levando a recessão econômica para o resto do mundo.
Passada à primeira imagem depreciativa da cidade, e também a depressão por sua ruptura com Salvador Dali, Lorca abraçará Nova York com paixão. Entrará em uma grande fase criativa, escrevendo um ciclo de poemas que será agrupado sob o título de “Poeta em Nova York”, além da peça “Assim que Passarem Cinco Anos”.
Quando regressa à Espanha, Lorca entrega-se a um período de intenso trabalho. Ao lado de Eduardo Ugarte funda a companhia de teatro La Barraca. Encena vários dramaturgos espanhóis, percorrendo em itinerância com a companhia, várias regiões da Espanha. A partir de então, escreverá as peças que se irão compor as suas principais obras. Lorca mescla poesia e teatro em uma linguagem única, transformando a forma de encenação das peças nos palcos espanhóis. Sua dramaturgia é marcada pela obsessiva visão de que o desejo e o sexo são os fios condutores da vida e da morte. Lorca declararia que o público de teatro da época só tinha interesse pelos temas social e sexual, e que optara pelo segundo.
É neste contexto que o autor faz rupturas com o teatro burguês, enquadrando-o no seu misterioso mundo particular, jogando no palco a dolorosa e solitária visão da vida. É no palco que se despede dos amores impossíveis, da tragédia dos sentimentos escondidos em quartos clandestinos de amantes que desafiavam o mundo. Será assim em “Bodas de Sangue”, quando a mulher abandona o marido para seguir o amante, causando-lhes a morte; em “Yerma”, a esterilidade enlouquece a mulher, que termina por matar o marido; ou ainda, “A Casa de Bernarda Alba”, em que a defesa da honra caprichosa impede o avanço dos amores. Nas três tragédias, evidencia-se o autor diante do mundo, preso às impossibilidades sociais diante da sua forma de amar, à esterilidade que a sua homossexualidade o atira, e aos preconceitos que lhe irão, assim como na primeira peça citada, causar-lhe a própria morte.

Abatido Pela Guerra Civil

O último ano de vida de García Lorca é marcado por um fértil momento criativo e atividade profunda, quer como poeta, quer como dramaturgo. Neste ano estréia “Doña Rosita”, além de elaborar aquela que seria a sua última obra teatral acabada, “A Casa de Bernarda Alba”. A estréia da peça estava marcada para julho de 1936, mas alguns imprevistos causaram atrasos que empurraram a estréia para setembro. Por este motivo, Lorca seguiria para Granada para visitar a família.
Os tempos na Espanha traziam uma grande tempestade sobre a liberdade, atirando-a em uma trágica guerra civil.
Ingenuamente Lorca não acreditou que um conflito pudesse acontecer em seu país. Quando chegou a Granada, encontrou um clima tenso, pois a cidade tinha sido palco de alguns confrontos. Dois dias depois de ter chegado à terra natal, a guerra civil eclodiu.
A situação do poeta era delicada, suas posições políticas eram vistas com repúdio pelos conservadores direitistas, o suficiente para pôr a sua vida em perigo. Dias antes de regressar para Granada, subscrevera, a pedido do Comitê dos Amigos de Portugal, um abaixo-assinado em protesto à ditadura de Salazar. Sua homossexualidade era incômoda para os mais ortodoxos moralistas da época.
Sabendo que corria risco de ser morto, Lorca decide sair da Espanha, seguindo para o México, onde já estava a amiga Margarita Xirgú. Mas ele demora muito em executar o plano de fuga, em parte por ainda acreditar que o conflito talvez não se vá estender por muito tempo, ou por temer que a família sofresse retaliações. Por várias vezes teve a hipótese da fuga. Sejam quais forem os motivos, os questionamentos de Lorca naqueles momentos decisivos, a hesitação e demora em deixar a Espanha custar-lhe-ia a própria vida. Quando se sentiu acossado, Lorca refugiou-se na casa da família do poeta e amigo falangista, Luís Rosales. Estava decidida a sua sorte!
Um vulto negro surgiria na vida de Lorca, o sinistro Ramon Ruiz Alonso. Homem conhecido por ser um fervoroso católico, conservador e fascista, Alonso tinha um ódio natural por Lorca. Destacado para fazer a limpeza dos vermelhos de Granada, ele escreve um auto de denúncia contra Lorca, iniciando a sua caçada. Para Alonso, Lorca era “mais perigoso com a caneta do que outros com revólver”. O algoz inicia uma operação militar de captura a Lorca. As ruas foram fechadas, as casas cercadas e franco-atiradores foram postos nos telhados. Lorca foi preso.
Assustado, Lorca foi informado que Alonso decidira que seria executado. Ao saber do seu destino, Lorca chorou, fazendo um último pedido, que lhe fosse chamado um confessor, pedido que lhe foi negado. Solitário com os símbolos e as palavras que fizera da sua vida o sentido dos homens talhados para os mitos, Lorca passou a última noite de vida na prisão, a rezar, a esperar pela tragédia, vivida no seu próprio palco. Tão logo a lua, companheira eterna da sua obra, em quarto minguante, retirasse-se do céu, restar-lhe-ia a morte como sorte.
Logo pela manhã do dia 19 de agosto de 1936, Federico García Lorca, uma dos ícones da Espanha, foi levado da prisão pelos Nacionalistas do general Franco. Foi posto debaixo de uma oliveira e ali abatido com um tiro na nuca. Já no chão, ainda disse: “Todavia estoy vivo”. Foi quando um dos seus executores deu-lhe um tiro de misericórdia no ânus, porque assim deveria morrer os “maricones”.
Morto aos 38 anos de idade, García Lorca teve o corpo deixado em um ponto de Serra Nevada, em uma vala comum no barranco de Viznar, em Granada. Após o fim do franquismo, durante décadas a família de Lorca impediu que a vala onde o corpo foi deixado fosse aberta e o corpo exumado. Uma resolução do juiz Baltasar Garzón, de 2008, obrigou que a família voltasse atrás na sua decisão. Segundo o juiz, ali estão outros corpos de homens que também foram mortos pela guerra civil, e as famílias desses homens querem prestar-lhes uma homenagem justa e enterrá-los com dignidade cristã, o que era impedido pela recusa da família de Lorca.
O governo ditatorial de Franco tentaria explicar em vão a morte de Lorca diante da Espanha e do mundo. O assunto sempre foi tratado pelos franquistas com ressalvas e apontado como um lamentável acidente de guerra, já que Lorca era apartidário. Segundo os franquistas, o escritor caíra apanhado no turbilhão confuso dos primeiros dias de guerra. Se a morte de Lorca tinha sido um lamentável engano, como afirmavam, a proibição da encenação das suas peças durante o franquismo era uma realidade tenaz. Possuir livros do autor era considerado subversivo, trazendo perigo para quem teimava em ler o poeta andaluz. Mas a voz de Lorca ultrapassou a vala que seu corpo tinha sido atirado, cumprindo a profecia das suas palavras, que dissera anos antes de ser abatido: “Um morto na Espanha está mais vivo como morto que em nenhum outro lugar do mundo”.
Federico García Lorca, assim como as tragédias que escreveu, encerrou a vida dramaticamente, como mártir de uma sangrenta guerra que devastou a liberdade da Espanha. Em Granada ele encontrou a inspiração para a sua obra, a lua da Andaluzia iluminaria o palco das suas palavras. A mesma Andaluzia que lhe serviu de berço e de vala funerária, a mesma Granada que deu à luz e tragou um dos mais valorosos poeta e dramaturgo da literatura universal.

OBRAS

Poesia:

1921 – Livro de Poemas
1926 – Ode a Salvador Dali
1927 – Canciones (1921-24)
1928 – El Romancero Gitano (1924-27)
1931 – Poema del Cante Jondo
1933 – Ode a Walt Whitman
1935 – Canto a Ignacio Sánchez Mejias
1935 – Seis Poemas Galegos
1936 – Primeiras Canções (1922)
1936 – Sonetos Del Amor Oscuro
1940 – Poeta em Nova York (1929-30) – póstumo
1940 – Divã do Tamarit – póstumo

Prosa:

1918 – Impressões e Passagens
1949 – Desenhos (publicados postumamente em Madrid)
1950 – Carta aos Amigos – póstumo

Teatro:

1920 – El Malefício de la Mariposa
1925 – Mariana Pineda
1928 – Oda al Santíssimo Sacramento Del Altar
1930 – La Zapatera Prodigiosa
1931 – Assim que Passarem Cinco Anos – Lenda do Tempo
1931 – Retábulo de Don Cristóvão
1931 – Amores de Dom Perlimplim e Belisa em seu Jardim
1933 – El Público
1933 – Bodas de Sangue
1934 – Yerma
1935 – Dona Rosita, a Solteira
1936 – A Casa de Bernarda Alba

CRONOLOGIA

1898 – Nasce a 5 de junho, em Fuente Vaqueros, Granada, Federico García Lorca, filho de Federico García Rodriguez e Vicenta Lorca Romero.
1906 – Vai para Almeria, para residir na casa do seu mestre Dom Antonio Espinosa Rodriguez.
1908 – Faz exames para ingressar no General y Técnico de Almeria.
1909 – Uma grave infecção bucal faz a família trazê-lo de volta para Granada. Passa a freqüentar o Colégio do Sagrado Coração de Granada. Passa a ter aulas de guitarra e piano.
1915 – Inicia estudos de Direito e Filosofia na Universidade de Granada.
1916 – No inverno, na passagem para 1917, escreve as primeiras poesias.
1917 – Publica no Boletín Del Centro Artístico de Granada, o seu primeiro trabalho literário, um artigo por ocasião do centenário de Zorrilla. Faz uma viagem de estudos com alguns colegas e o professor Martin Berrueta Dominguez, por Castela, Leão, Galícia e Andaluzia.
1918 – Publica o primeiro livro, “Impressões e Paisagens”, prosa sobre a sua experiência na viagem que fizera no ano anterior por diversas regiões da Espanha.
1919 – Muda-se para Madrid, instalando-se na Residência dos Estudantes. Em Madrid conhece Luis Buñuel, Eduardo Marquina, Juan Ramón Jiménez, Salvador Dali e outros.
1920 – Em 22 de março estréia a sua peça “El Malefício de la Mariposa”, no Teatro Eslava, em Madrid.
1921 – Publica o primeiro livro de poemas, “Livro de Poesia”, dedicado ao irmão Francisco. 10 de setembro, publica o poema “Balada de la Placeta”, na “Antologia de Poesia Espanhola”.
1923 – Adapta para o teatro várias obras de Cervantes. Termina o bacharelado de Direito, em Granada.
1924 – Conhece o pintor Gregório Prieto, com quem estabelece grande amizade. Conclui o livro “Canciones”. Começa a escrever “El Romancero Gitano”. Começa a trabalhar na idéia da obra “Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores”.
1925 – Termina a peça “Mariana Pineda”. Visita a família de Salvador Dali, para quem lê a peça que terminara recentemente.
1926 – Publica “Ode a Salvador Dali”.
1927 – Projeta com Manuel Falla, uma nova linguagem do teatro infantil de marionetes. Publica em Málaga, o livro “Canciones”. Em 24 de junho estréia no Teatro Goya, em Barcelona, na companhia da atriz Margarita Xirgú, a peça “Mariana Pineda”; o palco foi decorado por Salvador Dali. De 25 de junho a 2 de julho faz uma exposição de seus desenhos em Barcelona, organizada por Salvador Dali. Publica de julho a setembro, vários poemas na revista “Verso e Prosa” de Múrcia. Em 12 de outubro estréia em Madrid, a peça “Mariana Pineda”, com Margarita Xirgú. Volta para Granada, onde pretende criar a revista “Gallo”.
1928 – Surge a primeira edição da revista “Gallo”, esgotando-se em dois dias. O sucesso da “Gallo” provoca os estudantes universitários de Granada, que se dividem em “gallistas” e não “gallistas”. Em abril surge o segundo número da “Gallo”, tornando-se um grande fracasso. O número 3 da “Gallo”, embora com os artigos elaborados, não consegue sair. Publicado “El Romancero Gitano”.
1929 – Viaja para Nova York. No verão faz curso na Columbia University.
1930 – Em Nova York conhece Andrés Segovia. Viaja para Cuba, onde faz quatro palestras. No verão regressa à Espanha. Em 24 de dezembro estréia pela companhia de Margarita Xirgú, em Madrid, “La Zapatera Prodigiosa”.
1932 – Funda e dirige o grupo de Teatro Español Universitario La Barraca.
1933 – Estréia em março, no Teatro Beatriz, em Madrid, a peça “Bodas de Sangue”. Viaja para a América do Sul, passando pela Argentina, Uruguai e Brasil. Estréia com grande sucesso, em Buenos Aires, as peças “Bodas de Sangue”, “Mariana Pinedo” e “La Zapatera Prodigiosa”. Discursa ao lado de Pablo Neruda no Pen Club, em memória de Rubén Dario. Publica no México “Ode a Walt Whitman”.
1934 – Morre o amigo Ignacio Sanchez Mejias. Lorca escreve “Llanto”. Em 29 de dezembro Margarita Xirgú estréia no Teatro Espanhol de Madrid, a peça “Yerma”.
1935 – Termina “Doña Rosita la Soltera”. Bate à máquina “Poeta em Nova York”, para ser impresso. Em dezembro a companhia de Margarita Xirgú estréia em Barcelona “Doña Rosita la soltera o el lenguaje de las flores”.
1936 – Publica “Bodas de Sangue”. Projeta uma viagem para Nova York e México, para discursar em uma conferência sobre Quevedo. Faz leitura de “A Casa de Bernarda Alba”. Começa os ensaios de “Assim que Passarem Cinco Anos”.
Lorca prepara a sua mais nova tragédia, “La Destrucción de Sodoma”. 16 de julho, viaja para Granada, para visitar a família. 18 de julho, eclode o levantamento militar. Aconselhado por amigos, refugia-se na casa da família Rosales, em Granada. É preso e posto à disposição do controle militar estabelecido em Granada. A 18 ou 19 de agosto, é executado sem nenhum julgamento, em Viznar, Granada.

Poemas de Garcia Lorca

Volta de Passeio

Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão para serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer os meus cabelos.

Com a árvore de tocos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos que a cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e mariposa afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!

Se Minhas Mãos Pudessem Desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber a lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.

E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as
estrelas
e mais dolente que a mansa
chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez?
que culpa
tem o coração?

Se na névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!

Romance Sonâmbulo
(trecho)

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.


MONTGOMERY CLIFT, ERRÁTICO E TALENTOSO

Dezembro 23, 2008

Desde que o cinema foi inventado, luz, imagem e vindo mais tarde, o som, tornaram-se elementos de sedução e paixão que fez sonhar multidões de platéias. O ator deixava os palcos para despontar o seu rosto e interpretação em uma grande tela. Carreiras cinematográficas tornaram-se ícones de um estrelato de atores que se fizeram deuses. Muitas dessas carreiras sublimemente confundiram-se com a vida dos seus ídolos, às vezes essa vida tornava-se maior do que a própria carreira. Uma das maiores lendas do cinema norte-americano, Montgomery Clift, foi um dos atores que a vida pessoal e a carreira travaram lutas muitas vezes diluídas nas angústias da existência. Se a vida privada e trágica de Marilyn Monroe foi maior do que os papéis que ela viveu na grande tela, a de Montgomery Clift desenhou-se na dimensão etérea, e muitas vezes, perdeu para o talento insuperável de um homem errático.
De uma angústia latente, um carisma enigmático, uma tristeza realçada por uma beleza rara, Montgomery Clift passou a vida a tentar equilibrar-se diante dos caminhos por estradas sinuosas que percorreu. O ator pertenceu à geração que revelou Marlon Brando, James Dean e Rock Hudson. Além de uma carreira de sucesso, ele tinha em comum com os três atores citados a homossexualidade que, ao contrário dos outros, ele jamais negou ou tentou lutar contra. Na época exigia-se que um astro de cinema escondesse a sua condição sexual através de um casamento, Clift preferiu ignorar a regra, vivendo a sua essência sem trair a si próprio. Esta condição, uma saúde debilitada, o vício pelo álcool e pelos barbitúricos, fizeram de Montgomery Clift um homem frágil, que despertava nas pessoas um sedutor sentimento de querer protegê-lo, por vê-lo tão vulnerável diante da vida. Esta vulnerabilidade transbordava por todas as personagens que o ator viveu tão bem, transformando-o em um dos maiores atores que o cinema norte-americano, ainda em sua fase criativa, já revelou. Rever os filmes de Montgomery Clift é sempre uma agradável descoberta, um convite ao sublime, ao belo e ao trágico, como foi a vida deste ator desaparecido ao 45 anos.

Primeiros Sucessos na Brodway

Edward Montgomery Clift, nasceu em Omaha, Nebraska, no dia 17 de outubro de 1920. Gêmeo de uma irmã, Roberta, nasceu no seio de uma rica e tradicional família estadunidense. O pai, William Brooks Clift, era um banqueiro e investidor da bolsa, que retrata bem a chamada “Geração Perdida” ou “Geração do Jazz”, período tão bem descrito nas obras de F. Scott Fitzgerald, que se encerra com o colapso das bolsas e instituições financeiras em 1929, originando uma grande depressão econômica. Até então, o pequeno Monty, a mãe e os irmãos, viveram uma vida de faustas viagens à Europa, muitas vezes ao lado de preceptores. Mas a fartura chegaria ao fim em 1929, quando falidos, a família é obrigada a mudar de cidade e reduzir drasticamente o nível de vida.
Montgomery Clift moldou uma personalidade rebelde, muitas vezes vividas nas esquinas que transitava. Aos treze anos descobriu a sua aptidão para ator, estreando-se na Brodway com a peça “Fly Away Home”. Mostrou-se tão bem sucedido, que a mãe, Ethel Fogg Clift, incentivou-o a abraçar os palcos e a tornar-se ator. Iniciava-se uma das mais magníficas carreiras do século XX. Aos 17 anos, ele ganha o estatuto de grande estrela da Brodway ao protagonizar “Dame Nature”. O sucesso nos palcos continuaria por longos anos, com peças como “There Shall be No Night”, “The Mother” e “Trincheira na Sala”.
Mas a saúde do ator mostrou-se frágil muito cedo. Em 1939, de férias no México, ao lado dos amigos, o compositor Lehman Engel e o ator John Garfield, foi obrigado a interromper a viagem quando acometido de disenteria amébico, doença que seria a responsável por sua dispensa do exército, considerado incapacitado, e que voltaria a incomodá-lo por toda a sua vida, evoluindo para uma colite ulcerosa.

Indicado ao Oscar na Estréia no Cinema

Dono de uma beleza etérea e de um grande talento, logo o ator atraiu os diretores e produtores de cinema, ávidos por revelar novos astros. Montgomery Clift foi convidado para fazer vários filmes, mas declinou a todos os convites por não ver nenhum papel interessante. Continuaria a dizer não ao cinema durante anos. Quando o ator decidiu negociar com os grandes de Hollywood, começou pela MGM, mas fez exigências que não foram atendidas e ele abandonou os estúdios. Foi imediatamente contratado pela United Artists, em 1948, para contracenar com John Wayne em um dos maiores westerns de todos os tempos “Rio Vermelho” (Red River), de Howard Hawks. Ainda naquele ano, o ator faria “Perdidos na Tormenta” (The Search), dirigido por Fred Zinnemann, que lhe valeria a primeira indicação para o Oscar de melhor ator e uma grande popularidade diante de platéias do mundo inteiro. O sucesso imediato valeu-lhe a capa da famosa revista “Life”, que em suas páginas mostrava-o como integrante de uma nova safra de grandes atores. Estava iniciada uma brilhante carreira cinematográfica.
Montgomery Clift passou a ser um dos homens mais assediado e desejado pelas mulheres, fato que lhe constrangia. A fama não o transformou no estereótipo do astro de Hollywood de então. Não adquiriu grandes mansões em Beverly Hills, preferindo os bairros de Nova York, não era um homem receptivo à idolatria e aos cortejos da fama, assim como não se rendeu às extravagâncias da moda ou dos hábitos de quem começava a aparecer constantemente nas revistas e nos jornais, ilustrando as páginas da fama.
Rígido em suas escolhas de personagens, o ator sofreria reveses por isto, como a que aconteceu em 1950, quando assinou contrato para fazer o filme “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de Billy Wilder, e faltando duas semanas para o início das filmagens, rescindiu o contrato, sendo substituído por William Holden no papel de Joe Gillis. O filme foi um dos maiores sucessos do cinema, constituindo uma perda para a carreira do ator.

Composição de Personagens Inesquecíveis

Após recusar fazer o filme de Billy Wilder, Montgomery Clift faria em 1951, “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun), de George Stevens. O filme constitui uma das mais soberbas interpretações do ator, valendo-lhe nova indicação ao Oscar como melhor ator. Contracenando com Elizabeth Taylor, iniciar-se-ia uma longa amizade entre os atores, com vínculos que só seriam interrompidos com a morte prematura de Clift. A intensidade angustiante que empresta à personagem, faz com que o público esqueça da sua condição de assassino e queira apenas protegê-lo dos males do mundo. Será assim para sempre, os olhos intensos e atormentados de Clift darão esta sensação de desproteção diante da vida, como se não fosse resistir às suas armadilhas. A química entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift cria cenas antológicas de amor que mudariam a linguagem dos casais da grande tela. Os dois ainda voltariam a fazer mais dois filmes juntos.
Após “Um Lugar ao Sol”, Montgomery Clift ficaria afastado do cinema por algum tempo. Voltaria em 1953 com três filmes, sob a direção de três grandes diretores: “A Tortura do Silêncio” (I Confess), dirigido por Alfred Hitchcock; “Quando a Mulher Erra” (Indiscretion of an American Wife), de Vittorio de Sica, que seria o primeiro filme de baixa bilheteria do ator; e o clássico e inesquecível “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity).
O filme “A Um Passo da Eternidade” tornou-se uma das mais belas incursões do cinema à temática da Segunda Guerra Mundial. Repleto de fatos pitorescos e obscuros, os bastidores da película tiveram, entre tantas curiosidades, a oposição de Harry Cohn, poderoso executivo da Columbia à época das filmagens, ao nome de Montgomery Clift para o papel de Robert E. Lee Prewitt. O ator só ganhou o papel graças à intervenção do diretor Fred Zinnemann, que ameaçou abandonar o projeto caso não tivesse Clift no papel. O filme, composto por grandes estrelas como Burt Lancaster, Deborah Kerr e Frank Sinatra, traz o ápice da interpretação do ator para o cinema, que lhe valeu outra indicação para o Oscar de melhor ator. O consenso de que Clift levaria o prêmio era tão grande, que foi com surpresa e decepção que todos assistiram William Holden conquistar a estatueta pelo desempenho em “Inferno 17”. Culpa-se a aversão de Montgomery Clift a render-se ao glamour de Hollywood a não conquista de nenhum Oscar, apesar das várias indicações durante o percurso da sua carreira no cinema.
A solidão inacessível de um soldado, que vê a sensibilidade fugir diante das imposições de um universo cruelmente feroz, que se recusa a voltar a ser boxeador para preservar-se diante da crueza do mundo, às vésperas das bombas japonesas que se iriam chover sobre Pearl Harbor, abatendo-o de vez. É esta personagem fascinante que toma o rosto e a voz de Montgomery Clift. Assim como a personagem, também o ator seria arrebatado pela crueza de um mundo no qual ele sempre lutou para sobreviver, jamais para percebê-lo ou integrá-lo como um todo.
Depois das filmagens, Montgomery Clift construiu uma amizade com Frank Sinatra, que arrebataria o Oscar de melhor ator coadjuvante, e com James Jones, autor do livro do qual inspirara o filme. Segundo relatos, muitas foram as noites que os três saíram para beber juntos.

O Acidente

Depois de “A Um Passo da Eternidade”, o ator desapareceria das telas de cinema por um longo período. Neste período, apega-se cada vez mais ao consumo de álcool e ansiolíticos, tentando aliviar uma personalidade frágil e cada vez mais depressiva, que se refletiria no trabalho, isolando-o em um comportamento pouco social, obsessivo e cada vez mais solitário. Esta tendência iria piorar quando sofreria um terrível acidente que quase lhe custaria a vida.
Em 1956 Clift aceitou fazer o filme “A Árvore da Vida” (Raintree County), de Edward Dmytryk, sem sequer ler o roteiro, só pelo fato de saber que iria contracenar com a amiga Elizabeth Taylor. Seria uma volta às telas após três anos de ausência.
As filmagens corriam tranqüilas, já iam adiantadas quando Elizabeth Taylor decidiu dar uma festa em sua casa. Clift entrega-se à bebida e, após cansar-se da festa, saiu completamente embriagado, tentando em vão, dirigir o seu automóvel. Sem condições, o ator bateu violentamente o carro em um poste telefônico a poucos metros de distância da casa da amiga. Ao ser informada do acidente, a atriz correu até o local, chegando a tempo de salvar Clift de morrer sufocado pelo próprio sangue e ao tirar dois dentes presos na sua garganta. O resultado do acidente deixou uma profunda mutilação no rosto do ator, que além da falta dos dois dentes, quebrou a mandíbula, o nariz foi esmagado e lacerações faciais o obrigaram a submeter-se a uma cirurgia plástica.
O acidente deixou-o longe das filmagens de “A Árvore da Vida” por oito semanas. Quando se assiste ao filme, percebe-se nitidamente os dois rostos do ator, dantes e depois do acidente. As marcas indeléveis não ficaram gravadas apenas na face de Montgomery Clift, mas também nos seus hábitos, para fugir às dores, ingeria álcool e pílulas, que o deixou dependente de drogas, estimulantes e barbitúricos. A partir de então, a colite, a dependência química e as seqüelas do acidente, contribuíram para que a sua saúde começasse a deteriorar-se gradativamente.
Mesmo diante dos problemas e atrasos nas filmagens que a tragédia do acidente provocara, o diretor Edward Dmytryk, declararia que Clift tinha sido o ator mais criativo com o qual ele já trabalhara, e voltaria a dirigi-lo em 1958, em “Os Deuses Vencidos” (The Young Lion).

A Agonia Existencial do Ator

Após o acidente, a dependência química afetaria a cada dia o comportamento do ator, que o faria ser considerado uma pessoa difícil, avesso às badalações, mas vítima da sua própria inconstância emotiva. Este período foi maldosamente visto em Hollywood como o mais longo suicídio de um homem. Cada dia mais errático, em pouco tempo nenhum produtor queria contratá-lo. Montgomery Clift fugiu dos holofotes da fama, mas bateu de frente com os escândalos de si próprio, quando era visto bêbado e perdido, a correr nu pelas ruas e pelos corredores de alguns hotéis.
Cada vez mais isolado dos estúdios de cinema, por influência da eterna amiga Elizabeth Taylor, Clift foi convidado para fazer ao seu lado, em 1959, “De Repente, No Último Verão” (Suddenly, Last Summer), de Joseph L. Mankiewicz, uma versão cinematográfica da peça de Tennesse Williams. Os atrasos constantes às filmagens irritaram o diretor, que por várias vezes quis demitir o ator, só não o fazendo por imposição de Elizabeth Taylor. O sucesso do filme valeu todos os dissabores das filmagens.
Em 1960, Elia Kazan convidou Clift para protagonizar, ao lado da bela Lee Remick, o filme “Rio Violento” (Wild River). A atriz declararia mais tarde sobre Montgomery Clift: “Sua falta de auto-estima era muito comovente, muito comovente, muito triste… Havia um elemento de tristeza nele o tempo todo”.
Em 1960 John Huston reuniu Montgomery Clift, Marilyn Monroe e Clark Gable, naquele que seria o último filme dos dois últimos atores, “Os Desajustados” (The Misfits). A instabilidade emocional de Clift e Marilyn Monroe fez com que as suas cenas fossem refeitas várias vezes, causando atrasos nas filmagens. A atriz comentaria que na vida só Clift estava pior do que ela. Clark Gable morreria dias depois de encerrar as filmagens.
John Huston voltaria a dirigir Clift a interpretar o famoso pai da psicanálise, Sigmund Freud, no filme “Freud – Além da Alma” (Freud). O filme levou John Huston, Montgomery Clift e a Universal aos tribunais, por causa dos constantes atrasos nas filmagens que causaram grande prejuízo aos estúdios. Diante dos tribunais, tentaram culpar somente o ator, tentando que ele alegasse os problemas com a sua saúde ser a causa dos atrasos, recebendo assim, a indenização da cobertura do seguro. Clift recusou-se, alegando que os atrasos tinham sido responsabilidade de todos. Teve o salário cortado e gerou uma crise com os produtores. O ator ganharia a causa em 1963, mas os danos foram irreversíveis para a sua carreira, que ficou prejudicada diante dos produtores que se recusavam a chamá-lo para novos trabalhos. Durante o processo, ficou exposto a sua vida particular, o seu comportamento e a sua dependência diante do álcool, o que causou uma grande publicidade negativa à sua carreira.
Mesmo isolado, o ator faria uma participação brilhante no filme “O Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg), de Stanley Kramer. Sua participação era inferior a dez minutos, mas tão marcante, que lhe valeu a quarta indicação para o Oscar, desta vez como melhor ator coadjuvante.

Uma Morte Anunciada

Cada vez mais tido como praticante de um suicídio lento, o envolvimento do ator com o álcool e com os barbitúricos levou-o a uma depressão que o afastou das telas por outros longos anos. Em 1966 Elizabeth Taylor convenceu John Huston a chamar Clift para protagonizar ao seu lado, o filme “O Pecado de Todos Nós” (Reflections in a Golden Eye). Como a atriz estava presa às filmagens de um outro filme na Europa, há um atraso no início das filmagens, e a fatalidade impediria que Clift viesse a atuar ao lado da sua maior companheira em cena e na vida.
Enquanto esperava por Elizabeth Taylor, Montgomery Clift fez “Talvez Seja Melhor Assim” (The Defector), de Raoul Lévy. Este seria o seu último filme, pois morreria dias após a conclusão das filmagens.
No dia 22 de julho de 1966, Montgomery Clift recolheu-se à sua casa, em Nova York. Silencioso e solitário, assim o ator viveu o seu último dia de vida. À noite, o amigo e secretário pessoal, Lorenzo James foi ao seu quarto para desejar boa noite e dizer que a televisão passaria “Os Desajustados”, perguntando se ele queria ver, ao que o ator respondeu: “Absolutamente não!”. Foram as últimas palavras em vida dirigidas pelo ator a alguém. Na manhã seguinte, dia 23, Lorenzo James encontraria Clift nu e de costas sobre a cama, trazia os óculos e os punhos cerrados, sem vida. Uma autópsia ao corpo do ator revelou que a sua morte prematura, a poucos meses de completar 46 anos, não se devia a qualquer ato de suicídio, mas a uma doença arterial coronária, que o levou a um ataque cardíaco, provocando-lhe uma morte súbita.
Montgomery Clift faz parte daqueles homens que tentam sobreviver à sensibilidade fatal de si mesmo. De uma beleza bíblica, olhar de uma solidão latente e de uma tristeza intransponível, ele sobrevive da enorme empatia que tem com a arte, fazendo dela o refúgio e o talento magnificente. Sua vida confunde-se com as tragédias que viveu no cinema, onde a morte quase sempre vem precedida de um sonho e determinação. Clift teve as mais belas mulheres aos seus pés, e numa época que o ídolo de cinema tem que ser perfeito no seu glamour efêmero, ele prefere não se render ao óbvio, trilhando os caminhos mais difíceis e vivendo os meandros da essência da sua verdadeira sexualidade. Mesmo assim, Clift declara que o seu maior sonho é trazer para casa uma mulher como esposa e ter muitos filhos. A realidade entre o sonho e as suas verdades faz com que a sua sensibilidade seja constantemente agredida. A embriaguez da alma, regada a álcool e a barbitúricos, impulsiona-o a saltar em um precipício de calma momentânea, sem que se importe com os efeitos da queda.
Gêmeo de uma irmã, Montgomery Clift não nasceu sozinho, mas assim viveu a vida inteira, mesmo ladeado por uma legião de fãs, de gente que o amava e desejava. Errático na forma de caminhar, punia-se por se sentir culpado e envergonhado diante de seu comportamento com o álcool e da forma que conduzia a verdadeira face da sua sexualidade. Se a sua morte foi lenta, anunciada, a sua obra é eterna, cristalizada em um sublime momento do tempo. Dilacerado por uma sensibilidade comovente, Montgomery Clift morreu assim como viveu, sozinho e nu diante da vida e dos sentimentos.

FILMOGRAFIA E PEÇAS DE TEATRO

Filmes:

1948 – Red River (Rio Vermelho)
1948 – The Search (Perdidos na Tormenta)
1949 – The Heiress (Tarde Demais)
1950 – The Big Lift (Ilusão Perdida)
1951 – A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol)
1953 – I Confess (A Tortura do Silêncio)
1953 – Indiscretion of an American Wife (Quando a Mulher Erra)
1953 – From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade)
1957 – Raintree County (A Árvore da Vida)
1958 – Lonleyhearts
1958 – The Young Lions (Os Deuses Vencidos)
1959 – Suddenly, Last Summer (De Repente, no Último Verão)
1960 – Wild River (Rio Violento)
1961 – Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberg)
1961 – The Misfits (Os Desajustados)
1962 – Freud (Freud – Além da Arma)
1966 – The Defector (Talvez Seja Melhor Assim)

Teatro:

1934 – Fly Away Home
1935 – Jubilee
1938 – Your Ibedient Husband
1938 – Eye on the Sparrow
1938 – The Wind and the Rain
1938 – Dame Nature
1939 – The Mother
1940 – There Shall be No Night
1942 – Mexican Mural
1942 – The Skin of Our Teeth
1944 – The Searching Wind
1945 – Foxhole in the Parlor
1945 – You Touched Me!
1954 – The Seagull

CRONOLOGIA

1920 – Nasce, no dia 17 de outubro, em Omaha, Nebraska, Edward Montgomery Clift, gêmeo de Roberta Clift.
1929 – Colapso na bolsa leva William Brooks Clift, pai de Montgomery, à falência.
1934 – A família muda-se para Sharon, Massachusetts. Estréia aos 13 anos, na Brodway em “Fly Away Home”.
1938 – Ao fazer “Dame Nature”, torna-se, aos 17 anos, grande astro da Brodway.
1939 – É vitimado por uma doença, disenteria amébico, que o perseguiria para o resto da vida, evoluindo para colite crônica. Por este motivo, é dado como incapaz para servir o exército.
1948 – Estréia no cinema, ao lado de John Wayne, no filme “Rio Vermelho”, de Howard Hawks. Faz o filme “Perdidos na Tormenta”, de Fred Zinnemann, que lhe valeria uma indicação para o Oscar de melhor ator.
1950 – Rescinde contrato e desiste de fazer “Crepúsculo dos Deuses”, sendo substituído por William Holden.
1951 – Protagoniza “Um Lugar ao Sol”, de George Stevens, ao lado de Elizabeth Taylor, com quem inicia uma longa e comovente amizade, que o acompanharia até a sua morte. É indicado para o Oscar de melhor ator.
1953 – Trabalha com o mestre Alfred Hitchcock no filme “A Tortura do Silêncio”. É dirigido por Vittorio de Sica no filme “Quando a Mulher Erra”. Volta a trabalhar com Fred Zinnemann no mítico “A Um Passo da Eternidade”. É indicado para o Oscar de melhor ator por esta atuação.
1954 – Volta aos palcos com “The Seagull”.
1956 – Após alguns anos de afastamento, volta a filmar “A Árvore da Vida”, ao lado de Elizabeth Taylor. Durante as gravações sofre um grave acidente, ao dirigir bêbedo um automóvel. Tem parte do rosto desfigurado, sendo obrigado a uma cirurgia corretiva para reconstrução do mesmo.
1959 – Volta a contracenar com Elizabeth Taylor, no filme “De Repente, no Último Verão”, filme de Joseph L. Mankiewicz, inspirado na peça de Tennesse Williams. No elenco a presença luxuosa da atriz Katharine Hepburn.
1960 – Protagoniza “Rio Violento”, de Elia Kazan, ao lado de Lee Remick. Faz “Os Desajustados”, filme que iria estrear em 1961, ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe, que se tornaria o último filme destes atores.
1961 – Faz uma participação especial no filme “O Julgamento de Nuremberg”, de Stanley Kramer, que lhe valeria a quarta indicação para o Oscar.
1962 – Protagoniza o tumultuado “Freud – Além da Alma”, de John Huston, que terminaria com grandes atrasos nas filmagens e em tribunal.
1966 – Convidado para fazer o filme “O Pecado de Todos Nós”, de John Huston, ao lado de Elizabeth Taylor. Enquanto aguardava a volta da atriz, que estava filmando na Europa, para iniciar as filmagens, fez o último filme da sua vida, “Talvez Seja Melhor Assim”. Morre a 23 de julho, pouco depois de encerrar as filmagens, vítima de uma doença arterial da coronária, que lhe causou parada cardíaca e morte súbita. Da sua vida, a frase pronunciada por ele, definiu a sua visão de ser ator: “Olha, eu não sou esquisito. Só estou a tentar ser um ator, não um ator de cinema, mas um ator.”


SÉRGIO CARDOSO

Agosto 29, 2008

No dia 18 de agosto de 1972 o Brasil parou, emocionado com a morte súbita do ator Sérgio Cardoso. O país perdia um dos maiores atores do teatro e da televisão do século XX. Se nos dias atuais Paulo Autran (falecido em 2007) e Fernanda Montenegro, são conhecidos como os reis do teatro brasileiro, há quatro décadas, este título pertencia a Sérgio Cardoso e Cacilda Becker, cuja memória perdeu-se no tempo e no pouco registro que se ficou em vídeo dos dois.
Sérgio Cardoso era, ao lado de Tarcísio Meira e Francisco Cuoco, o maior galã da tevê Globo do início dos anos setenta. Aos 47 anos de idade uma parada cardíaca tirou-o definitivamente de cena, quando protagoniza a novela O Primeiro Amor, de Walter Negrão. Sua presença no teatro confunde-se com a história deste em várias décadas do século passado. Porte de galã, talento de gigante, dono de uma imensa popularidade no teatro, era enérgico na interpretação dos seus personagens. Sérgio Cardoso soube direcionar esta popularidade diante das câmaras da televisão, sendo aplaudido como um dos maiores ídolos das telenovelas. Se a sua vida foi marcada pelos holofotes da fama, a sua morte criou uma das lendas urbanas mais difundidas no país, a de que teria sido enterrado vivo. Viva é a obra genial deste ator, para sempre escrita com as luzes da ribalta.

Gigante nos Palcos dos Teatros

Sérgio da Fonseca Mattos Cardoso, nasceu em 23 de março de 1925, em Belém do Pará. Deixou Belém ainda criança, vindo para o sudeste. Tinha planos de ser diplomata, freqüentando o curso de Direito da PUC do Rio de Janeiro. Em 1945, participa da montagem de Romeu e Julieta, do Teatro Universitário (TU), no papel de Teobaldo. Quando concluía o curso, em 1948, inscreveu-se para uma seleção de candidatos ao papel de Hamlet e, entre muitos candidatos, foi escolhido para o papel. No dia 6 de janeiro de 1948, aos 22 anos, estreava nos palcos, iniciando uma das maiores carreiras do teatro brasileiro do século XX. Recém formado em Direito, Sérgio Cardoso optou pelo teatro, deixando na estrada as três semanas que trabalhou como advogado.
Ingressado definitivamente na profissão de ator pelas mãos de Paschoal Carlos Magno, Sérgio Cardoso fundou, ao lado de colegas do seu tempo de teatro amador, o Teatro dos Doze, responsável pela encenação de grandes sucessos nos palcos em 1949, entre eles “Arlequim Servidor de Dois Amos,” de Carlo Goldoni. É ainda neste ano, que estréia no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), nas encenações desta companhia a carreira de Sérgio Cardoso registra grandes marcos, como “Entre Quatro Paredes”, de Jean-Paul Sartre e “O Mentiroso”, também de Carlo Goldoni.
Em 1950 Sérgio Cardoso casou-se com a atriz Nydia Lícia, com quem teria uma filha, Silvia. Mais tarde, ao lado da mulher, deixaria a companhia paulista do TBC, ambos encabeçando o elenco carioca da recém-criada Companhia Dramática Nacional (CDN). Com Nydia Lícia, em 1954, criou a Companhia Nydia Licia-Sérgio Cardoso, com um repertório nacional: “Lampião”, de Rachel de Queiroz e “Sinhá Moça Chorou”, de Ernani Fornari. Sérgio Cardoso e Nydia Lícia compram o antigo Cinema Espéria, em São Paulo, que seria a sede da companhia. Para reformá-lo, Sérgio Cardoso aceitou fazer a incipiente televisão, participando também, de montagens avulsas, como “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, sob o comando de Bibi Ferreira, em 1955. Reformado o Espéria, em 1956, é inaugurado como Teatro Bela Vista, atual Teatro Sérgio Cardoso. Para a inauguração, interpreta e encena “Hamlet”, de Shakespeare. Esta interpretação muito elogiada pela crítica, é premiada com o Governador do Estado de São Paulo de 1956. Desde então, sucede-se uma carreira teatral aplaudida e premida, com grandes sucessos como “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, e “Henrique IV”, de Pirandello, que lhe renderia outra premiação de melhor ator, o Saci, em 1957.

O Grande Galã das Telenovelas

Sérgio Cardoso costumava dizer que aceitou fazer telenovelas “a título de experiência”, estreando-se como galã do gênero em 1964, na novela “O Sorriso de Helena”, de Walter George Durst, na extinta tevê Tupi de São Paulo. A novela foi um grande sucesso, a televisão brasileira gerava um dos mais bem-sucedidos de seus galãs. Após o sucesso da estréia, Geraldo Vietri dirigiria-o em outra telenovela, “O Cara Suja”. Logo a seguir, Sérgio Cardoso interpretou uma versão de “O Médico e Monstro”, na novela “O Preço de Uma Vida” (1965), adaptação do texto do cubano Félix Caigner, por Talma de Oliveira e Teixeira Filho. Na novela o ator fazia dois papéis, o doutor Valcourt, um médico totalmente deformado, apaixonado pela paciente Tula (Nívea Maria), e o seu sobrinho Sérgio, belo homem, que surgiu na trama para casar com a heroína da história, com a aprovação do tio.
Em 1966, ele faria, ao lado de Fernanda Montenegro, “Calúnia”, de Talma de Oliveira, considerada pelo ator a pior novela da sua carreira. A novela foi um fracasso. Numa cena mais violenta da novela, Sérgio Cardoso deu um tapa no rosto de Fernanda Montenegro, que de tão verídica, quase que destroncou o pescoço da atriz. Foi ainda naquele ano, que o ator viveria o judeu Samuel Levy, da novela “Somos Todos Irmãos”. A novela chamar-se-ia “A Vingança do Judeu”, e seria escrita por Walter George Durst, mas a sua sinopse não foi aprovada pela Colgate, devido à pressão da comunidade israelita de São Paulo, que a considerou anti-semita. Benedito Ruy Barbosa escreveu a história com outro nome e, através de uma outra perspectiva. O casal protagonista vivido por Sérgio Cardoso e Rosamaria Murtinho teve uma grande aceitação de público, transformando a novela em sucesso de público. Samuel Levy exigiu que o ator usasse umas lentes de contacto azul. Foi considerado por Sérgio Cardoso, o seu melhor personagem em uma telenovela. No final de 1966, a Tupi tentaria repetir o sucesso de “Somos Todos Irmãos”, reuniria Sergio Cardoso e Rosamaria Murtinho outra vez, em outra novela de Benedito Ruy Barbosa: “O Anjo e o Vagabundo”, telenovela que emocionou o público da época.
Em 1968, a tevê Globo convidou Sérgio Cardoso para protagonista de uma das suas novelas: “O Santo Mestiço”, de Glória Magadan. A emissora trouxe Rosamaria Murtinho para contracenar com o ator. Sérgio Cardoso vivia dois irmãos, um padre e um revolucionário, que eram inimigos mortais. Esta participação foi considerada a experiência mais desastrosa da carreira do ator dentro das telenovelas. O dramalhão marcou o início da decadência de Glória Magadan. Decepcionado com a novela, Sérgio Cardoso retornaria à tevê Tupi, para viver um personagem ícone da teledramaturgia: o português da novela “Antônio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão. Esta novela trazia uma linguagem coloquial, que marcava o afastamento do gênero dos dramalhões de época.

Um Ator Branco a Interpretar um Negro

Em 1969, Sérgio Cardoso voltaria a tevê Globo, de onde não mais sairia até a sua morte. Na sua volta à emissora carioca, o ator seria protagonista da novela que gerou a maior polêmica da história da televisão brasileira: “A Cabana do Pai Tomás”, de Hedy Maia, baseada no romance homônimo de Harriet Beecher Stowe. O protagonista da novela era o velho negro Tomás. A emissora, em um momento de preconceito racial que marcaria a nossa televisão, entregou o papel a um ator branco. Sérgio Cardoso, para interpretar o negro Tomás, tinha que pintar o corpo com uma tinta negra, usar peruca e rolhas no nariz. O ator Milton Gonçalves teria sido preterido ao papel, por exigência de uma subsidiária norte-americana da agência publicitária Colgate-Palmolive, patrocinadora das telenovelas à época. Na classe artística, houve muitos movimentos de protesto contra a escolha de um branco para o papel de um negro. Incomodado, Sérgio Cardoso, conhecido por sua famosa falta de habilidade com as palavras, tentaria justificar-se em uma desastrosa declaração, que o faria ser visto como racista: “Tenho vários amigos de cor que são como meus irmãos; tenho afilhados pretinhos que amo como se fossem meus filhos.” Sérgio Cardoso vivia três papéis nesta novela, além do negro Tomás, era Dimitrus, um galã a Clark Gable, e o presidente Lincoln. Dos galãs da época, Sérgio Cardoso era o único que arriscava fazer personagens deformados, para ele pintar o corpo de negro, era mais uma caracterização de uma personagem, não enxergando no fato uma discriminação racial da televisão. A novela resultou em um grande fracasso.
Para apagar a imagem de mal estar, por ter vivido um negro em uma novela, Sérgio Cardoso viveu o carismático feirante Nando, em “Pigmalião 70” (1970), novela de Vicente Sesso, adaptação do musical “My Fair Lady”. O sucesso da dupla Sérgio Cardoso e Tônia Carrero marcou a fase do ator na rede Globo. Fariam juntos mais duas novelas: “A Próxima Atração” (1970) e “O Primeiro Amor” (1972), ambas de Walter Negrão, as últimas telenovelas do ator.

A Morte, no Auge de Uma Carreira

Em 1971 Sérgio Cardoso manifestou o desejo de protagonizar uma novela de Dias Gomes. O autor convidou-o para ser o bicheiro Tucão de “Bandeira Dois”, ao lado de Marília Pêra. Sérgio Cardoso não gostou da personagem, exigindo que Dias Gomes fizesse mudanças, para que a sua imagem de galã não fosse comprometida. Irritado, Dias Gomes disse que só aceitaria o ator se ele fizesse a novela sem imposições. Sérgio Cardoso seria substituído por Paulo Gracindo, que ganhava o seu primeiro protagonista em novelas.
Em 1972, as cores chegaram à televisão brasileira. Para inaugurá-la, a tevê Globo produziu o caso especial “Meu Primeiro Baile”, de Janete Clair. Protagonizado por Glória Menezes, o especial reunia todos os grandes nomes da emissora, entre ele Sérgio Cardoso, que conduzia a personagem da atriz por toda a história. “Meu Primeiro Baile” foi a primeira produção totalmente colorida da televisão brasileira. Foi a única participação de Sérgio Cardoso em uma produção a cores, na televisão.
Dispensado do elenco de “Bandeira Dois”, Sérgio Cardoso protagonizaria, ao lado de Tônia Carrero e Rosamaria Murtinho, aquela que seria a sua última telenovela, “O Primeiro Amor”. No dia 18 de agosto de 1972, já gravados 200 capítulos da novela, faltando apenas 28 capítulos para o final, Sérgio Cardoso morreria de um ataque cardíaco. No final daquele capítulo, que seria o último da sua vida, Luciano (Sérgio Cardoso), após uma discussão, abre a porta da sua casa e diz “Vou-me embora daqui. Não agüento mais!”. Em seqüência a esta cena, a câmera focava sob uma luz, os óculos da personagem sobre a mesa do seu escritório, já sem o seu dono. Aparece todo o elenco da novela. Paulo José (o Shazam da novela) explica o que havia acontecido, faz reverências à trajetória de Sérgio Cardoso, e apresenta o ator Leonardo Villar, amigo do ator falecido, que iria viver o professor Luciano nos últimos capítulos da novela. Todo o elenco aplaude. Esta cena foi um marco na história da teledramaturgia, emocionando todo o Brasil, que se despedia deste grande ator.

Enterrado Vivo?

Mal o país recuperava-se da imensa comoção causada pela morte de Sérgio Cardoso, e uma notícia mórbida, tétrica, não se sabe de onde surgiu, começou a ser veiculada: o ator sofria de catalepsia e, na ausência do seu médico, Max Nunes, teria sido enterrado vivo.
Dizia-se que, quando a família percebeu o logro da morte, desenterrou Sérgio Cardoso, que estava virado de bruços, apresentando arranhões no rosto. Durante anos esta história foi contada, aterrorizando o imaginário popular. Passou a ser uma lenda urbana, causando medo às pessoas, fazendo com que os velórios no Brasil se tornassem mais longos, adiando por mais tempo o enterro de quem morria de ataque cardíaco. Diante desta possível tragédia, em 1980, a tevê Globo fez uma reportagem no “Fantástico”, que desmentia os boatos, com depoimentos da família do ator, que afirmavam categóricos, Sérgio Cardoso jamais tinha sido desenterrado, portanto jamais se constatou que estava de bruços no caixão, ou em qualquer outra posição. Muito menos com arranhões no rosto.
Mais de 35 anos após a morte de Sérgio Cardoso, este ator deve ser lembrado não por ser protagonista de uma lenda urbana, mas de uma das mais brilhantes carreiras do teatro, televisão e cinema do Brasil. Não importava o veículo para o qual Sérgio Cardoso atuava, havia sempre um bom papel para ele, e uma interpretação comovente para o seu público. No Brasil, Sérgio Cardoso esteve lado a lado com Paulo Autran, no olimpo dos deuses do teatro.

TELEVISÃO:

Telenovelas:

1964/1965 – O Sorriso de Helena – Tupi
1965 – O Cara Suja – Tupi
1965/1966 – O Preço de Uma Vida – Tupi
1966 – Calúnia – Tupi
1966 – Somos Todos Irmãos – Tupi
1966/1967 – O Anjo e o Vagabundo – Tupi
1967 – Paixão Proibida – Tupi
1968 – O Santo Mestiço – Globo
1968/1969 – Antônio Maria – Tupi
1969/1970 – A Cabana do Pai Tomás – Globo
1970 – Pigmalião 70 – Globo
1970/1971 – A Próxima Atração – Globo
1972 – O Primeiro Amor – Globo

Especiais:

1961 – Olhai os Lírios do Campo – Tupi
1971 – O Crime do Silêncio – Globo
1972 – Meu Primeiro Baile – Globo
1972 – O Médico e o Monstro

CINEMA

1951 – Ângela
1955 – Três Destinos (inacabado)
1968 – A Madona de Cedro
1970 – Os Herdeiros

TEATRO

Cenografia:

1950 – São Paulo SP – O Inventor de Cavalo
1958 – São Paulo SP – Vestido de Noiva

Direção:

1953 – Rio de Janeiro RJ – Canção Dentro do Pão
1954 – São Paulo SP – Sinhá Moça Chorou
1954 – São Paulo SP – Lampião
1956 – São Paulo SP – Hamlet
1956 – São Paulo SP – A Raposa e as Uvas
1957 – São Paulo SP – O Comício
1957 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1957 – São Paulo SP – Três Anjos Sem Asas
1958 – São Paulo SP – Vestido de Noiva
1958 – São Paulo SP – Uma Cama Para Três
1958 – São Paulo SP – Amor Sem Despedida
1958 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1959 – São Paulo SP – Trio: Antes do Café
1959 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca
1959 – São Paulo SP – Lembranças de Bertha
1959 – São Paulo SP – Sexy
1959 – São Paulo SP – Nu, Com o Violino
1959 – São Paulo SP – O Soldado Tanaka
1959 – São Paulo SP – Huguie
1960 – Rio de Janeiro RJ – Uma Cama Para Três
1960 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1960 – Rio de Janeiro RJ – O Homem de Flor na Boca
1960 – Rio de Janeiro RJ – Sexy
1962 – São Paulo SP – Sonho de Uma Noite de Verão
1962 – São Paulo SP – Calígula
1964 – São Paulo SP – O Resto é Silêncio
1965 – Rio de Janeiro RJ – Vestido de Noiva

Direção (assistente):

1950 – São Paulo SP – O Anjo de Pedra
1950 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca

Interpretação:

1945 – Rio de Janeiro RJ – Romeu e Julieta
1948 – Rio de Janeiro RJ – Hamlet
1948 – Rio de Janeiro RJ – A Família e a Festa na Roça
1948 – São Paulo SP – Hamlet
1949 – Rio de Janeiro RJ – Arlequim Servidor de Dois Amos
1949 – São Paulo SP – O Mentiroso
1949 – Rio de Janeiro RJ – A Tragédia de Hamlet
1949 – Rio de Janeiro RJ – Tragédia em New York
1949 – Rio de Janeiro RJ – Simbita e o Dragão
1949 – Rio de Janeiro RJ – Calígula
1950 – São Paulo SP – A Ronda dos Malandros
1950 – São Paulo SP – Os Filhos de Eduardo
1950 – São Paulo SP – Do Mundo Nada Se Leva
1950 – São Paulo SP – A Importância de Ser Prudente
1950 – São Paulo SP – O Anjo de Pedra
1950 – São Paulo SP – O Inventor de Cavalo
1950 – São Paulo SP – Entre Quatro Paredes
1950 – São Paulo SP – O Homem da Flor na Boca
1950 – São Paulo SP – Um Pedido de Casamento
1951 – São Paulo SP – Ralé
1951 – São Paulo SP – Convite ao Baile
1951 – São Paulo SP – Arsênico e Alfazema
1951 – São Paulo SP – Seis Personagens à Procura de um Autor
1952 – São Paulo SP – Antígone
1952 – São Paulo SP – Inimigos Íntimos
1952 – São Paulo SP – Diálogo de Surdos
1952 – São Paulo SP – O Mentiroso
1952 – São Paulo SP – Vá com Deus
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Falecida
1953 – Rio de Janeiro RJ – Canção Dentro do Pão
1953 – Rio de Janeiro RJ – A Ceia dos Cardeais
1953 – São Paulo SP – Improviso
1954 – São Paulo SP – Leonor de Mendonça
1954 – Rio de Janeiro RJ – Lampião
1954 – São Paulo SP – Sinhá Moça Chorou
1954 – São Paulo SP – A Filha de Iório
1954 – São Paulo SP- Lampião
1954 – São Paulo SP – Hécuba
1955 – Rio de Janeiro RJ – A Ceia dos Cardeais
1956 – São Paulo SP – Hamlet
1956 – São Paulo SP – Quando as Paredes Falam
1956 – São Paulo SP – A Raposa e as Uvas
1957 – São Paulo SP – O Comício
1957 – São Paulo SP – Chá e Simpatia
1957 – São Paulo SP – Henrique IV
1957 – São Paulo SP – Três Anjos Sem Asas
1958 – São Paulo SP – Uma Cama Para Três
1958 – São Paulo SP – Amor Sem Despedida
1958 – São Paulo SP – O Casamento Suspeitoso
1959 – São Paulo SP – Trio: Antes do Café
1959 – São Paulo SP – O Homem de Flor na Boca
1959 – São Paulo SP – Lembranças de Bertha
1959 – São Paulo SP – Sexy
1959 – São Paulo SP – Nu, Com o Violino
1959 – São Paulo SP – O Soldado Tanaka
1959 – São Paulo SP – Huguie
1960 – Rio de Janeiro RJ – Uma Cama Para Três
1960 – Rio de Janeiro RJ – A Raposa e as Uvas
1960 – Rio de Janeiro RJ – O Homem de Flor na Boca
1961 – Salvador BA – Calígula
1962 – São Paulo SP – Terceira Pessoa do Singular
1962 – São Paulo SP – A Visita da Velha Senhora
1962 – São Paulo SP – Sonho de Uma Noite de Verão
1962 – São Paulo SP – Calígula
1964 – São Paulo SP – Gog e Magog
1964 – São Paulo SP – O Resto é Silêncio

Roteiro:

1980 – São Paulo SP – Sérgio Cardoso em Prosa e Verso


AMÁLIA RODRIGUES – A VOZ DE PORTUGAL

Junho 6, 2008

No século XX, quando Portugal atravessava o período cinzento da ditadura de Salazar, o empobrecimento e as guerras coloniais, surgia refulgente uma das mais belas vozes femininas do mundo: Amália Rodrigues. Dona de um carisma que conquistou não só o seu país, como o mundo, Amália Rodrigues traduziu a voz de Portugal nos quatro cantos do planeta. Do Estado Novo à Revolução dos Cravos, da perda do império colonial ao ingresso na União Européia, a figura de diva da Amália Rodrigues esteve presente. A voz que cantou Camões, que na sua beleza de tágide, representava tão bem a alma lusitana, a essência do povo que inventou a saudade e perpetuou este sentimento nas suas digitais.
Em Lisboa falava-se no mito da Amália nos bares, na câmara, no metropolitano, nas ruas, nas casas de fado de Alfama e do Bairro Alto, ela era unanimidade, o símbolo vivo daquela cidade que a viu nascer. Envelhecida, Amália Rodrigues era homenageada o todo momento, reverenciada, amada por todos. E aquela paixão do povo português era bem recebida por ela. Jamais recusou dar um autógrafo ou um sorriso a um fã, gostava de ser amada, precisava do carinho do seu público como precisava do ar para respirar.
Na década de noventa, Lisboa perdera um pouco da verve lusitana, tornando-se mais européia. Amália Rodrigues era o patrimônio vivo dessa verve, era o século XX português retratado em todas as décadas. Trazia uma boca excessivamente vermelha, como uma das cores da bandeira portuguesa, dona de uma voz que dilacerava os sentimentos por ela cantados, tudo nela era de um magnetismo que despertava a paixão incondicional do seu povo.
Quando Amália Rodrigues morreu em outubro de 1999, Portugal perdia o seu maior patrimônio artístico. Amália deixava de vez a vida que consagrara à arte e ao seu povo, para assumir a condição de mito, que jamais ofuscará a mulher que foi.
Amália Rodrigues está sepultada no Panteão Nacional, local onde estão sepultados muitos dos reis portugueses. Pela primeira vez na história daquele país, uma cantora de fado, vinda de Alcântara, um bairro popular de Lisboa, repousa os seus restos mortais ao lado da mais alta nobreza. Não é só uma cantora de fado que lá está, é a Amália Rodrigues.

De Alcântara Para o Mundo

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, nasceu em Alcântara, Lisboa, segundo o seu registro, em 23 de julho, mas ela afirmava que tinha nascido em 1 de julho, o ano era de 1920. Filha de uma família do Fundão, na Beira, foi criada em Lisboa pela avó materna, quando os pais retornaram para a Beira.
Amália cresceu pobre, em um bairro popular, repleto de costumes e tradições folclóricas. Participa das Marchas de Alcântara, onde canta pela primeira vez na vida. É em Alcântara que ela conhece o torneiro mecânico Francisco Cruz, por quem se apaixona, entregando-se a ele. Além da perda da virgindade, vem a perda da ilusão do primeiro amor, Chico, como era conhecido, nega-se à partida, a reparar a honra caprichosa e Amália, aos 18 anos, tenta o suicídio, ingerindo uma bola de veneno de rato que preparara. Foi salva por uma vizinha, que a fez ingerir azeite quente, fazendo-a vomitar durante três dias. Mais tarde, Chico casa-se com ela, é um casamento que serve apenas para salvar a honra ultrajada, já não há amor, o casamento duraria apenas três anos, a própria Amália tomou a iniciativa do divórcio.
Mas o destino de Amália Rodrigues já está traçado na mais alta das constelações das estrelas do mundo. Acompanhada pelo irmão pugilista Filipe Rebordão, ela começa a cantar nos retiros do fado. É no famoso Retiro da Severa que faz a sua estréia em 1939. Trazia no palco um porte novo de entrar em cena, com a cabeça deitada para trás, os olhos fechados, as mãos dramaticamente cruzadas. Quando soltava a voz, trazia um timbre que desafiava prantos sem cair no choradinho. A ascensão pelas casas de fado de Lisboa é imediata. A sua fama corre o Bairro Alto, a Mouraria. Torna-se estrela nos palcos do Luso, no Politeama e no Cassino do Estoril. E de Portugal, segue para o mundo.

O Fado de Amália Rodrigues e a Elite

Mas é através das mãos do banqueiro e aristocrata Ricardo Espírito Santo, que Amália Rodrigues faz uma lapidação da sua pessoa. Apaixonado, o banqueiro apresenta a fadista já afamada, para os nobres, os ricos e poderosos de Lisboa, que não tinham o costume de freqüentar as casas de fado. Todos se renderam ao fascínio da Amália, e passou a ser sofisticado vê-la cantar. O fado da cantora deixa de ser voltado apenas para o público popular, para atingir a elite da sociedade portuguesa.
Amália Rodrigues torna-se um ícone do fado. Estréia-se no cinema, fazendo vários filmes que fazem parte da história do cinema português. Em 1954, faz o filme “Os Amantes do Tejo”, uma produção francesa, onde canta os clássicos “Barco Negro” e “Solidão”, uma versão de David Mourão-Ferreira da “Canção do Mar”. Com este filme abre as portas da França. Fará apresentações históricas no Olympia de Paris.
Em 1961, Amália Rodrigues casa-se no Brasil com o engenheiro César Seabra, um matrimônio que iria durar até a morte do marido, em 1997.

Reverenciada Pela Ditadura e Pela Democracia Portuguesas

Em plena ditadura salazarista, Amália Rodrigues era uma referência de Portugal, o que refletia o Estado português e o seu regime vigente. Já no fim do regime ditatorial, em 1969, ela é condecorada pelo novo presidente do conselho de ministros, Marcelo Caetano, na Exposição Mundial de Bruxelas.
Apesar de nunca ter tido uma militância política, seja de direita ou de esquerda, a perseguição ideológica fez os seus respingos na carreira da cantora, logo após a Revolução de 25 de Abril, em 1974. A revanche da esquerda logo nos primeiros anos que se seguiram à revolução condenava o fado, tido como um dos símbolos do Estado Novo, considerado portanto, fascista. A opinião pública, cansada de quase meio século de ditadura, deixa-se levar por este conceito. Mas Amália Rodrigues era um mito incontestável, além de qualquer ideologia, era o símbolo vivo de Portugal dentro e fora do país. Aos poucos se concilia com o povo e a sua nova visão diante de um estado democrático. Ao passar os ventos da instabilidade de um novo Portugal, a intolerância ao fado é esquecida, o gênero musical é incorporado à essência da alma portuguesa. Alguns anos após a Revolução dos Cravos, Amália Rodrigues é elevada à condição única de musa perpétua da música portuguesa.
Reconciliada com a história e com a sua gente, Amália Rodrigues é condecorada pelo então presidente Mário Soares, com o grau de oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, em pleno estado democrático português.
Na velhice, Amália Rodrigues era reverenciada por todas as gerações como uma deusa. Era homenageada em todos os lugares onde estava. Agradecida pelo amor dos portugueses, ela sorria, cruzava as mãos ao peito e apenas dizia: “Obrigada!”.
No dia 6 de outubro de 1999, calava-se para sempre aquela mulher que arrepiava as multidões quando subia ao palco, a trajar longas vestes negras, a boca muito vermelha, a cabeça atirada para trás, os olhos fechados e as mãos entrelaçadas. Calava-se a maior voz da saudade lusitana. Lisboa jamais seria a mesma, a cidade perdia um dos seus maiores monumentos históricos, monumento não feito de pedra ou de concreto, mas de carne, sangue e voz. Com a morte de Amália Rodrigues, Portugal fechou o século XX , entrando um ano antes no século XXI.

BIBLIOGRAFIA

1920 - Nasce em Lisboa no Bairro de Alcântara a 1 de Julho (data escolhida por Amália porque nos registros consta o dia 23).
1929 - Entra na Escola Oficial da Tapada da Ajuda, onde terminará a instrução primária.
1934 - Trabalha como bordadeira, engomadeira e tarefeira.
1935 - Desfila na Marcha de Alcântara e canta pela primeira vez, acompanhada à guitarra, numa festa de beneficência.
1938 - Representando o Bairro de Alcântara participa no Concurso da Primavera.
1939 - Estréia-se como fadista no Retiro da Severa.
1940 - É atração no Teatro Maria Vitória, na revista Ora Vai Tu!. Casa-se com Francisco Cruz.
1943 - Canta em Madrid, a convite do embaixador português. Divorcia-se de Francisco Cruz.
1944 - A estada no Brasil, prevista para seis semanas, estende-se por três meses. Atua no Cassino da Urca.
1945 - No Brasil grava os primeiros dos 170 discos (em 78 rotações) da sua carreira.
1947 - É protagonista no filme “Capas Negras”, batendo todos os recordes de exibição (22 semanas em cartaz no Cinema Condes).
1948 – Recebe o prêmio do SNI (Secretariado Nacional de Informação) para a melhor atriz, pelo seu papel em “Fado”, filme de Perdigão Queiroga.
1949 - Atua pela primeira vez em Paris e Londres.
1950 - Canta em Roma, Trieste e Berlim.
1951 - Digressão a África: Moçambique, Angola e Congo.
1952 - Atua pela primeira vez em Nova York no La Vie en Rose, ficando 4 meses em cartaz. Assina contrato com a Valentim de Carvalho, que passa a gravar todos os seus discos.
1953 - É a primeira artista portuguesa a cantar na televisão americana no programa Eddie Fisher Show.
1954 - Edita o primeiro LP nos Estados Unidos. Atua no Mocambo, em Hollywood.
1955 - Interpreta “Canção do Mar” e “Barco Negro” no filme de Henri Verneuil “Os Amantes do Tejo”. Filma no México “Música de Sempre” com Edith Piaf.
1957 - Estréia-se no Olympia em Paris e começa a cantar em francês. Charles Aznavour escreve para ela “Ai, Mourrir pour Toi”.
1961 - Casa no Rio de Janeiro com o engenheiro César Seabra.
1962 - Lança o disco “Asas Fechadas” e “Povo que Lavas no Rio” do poeta Pedro Homem de Mello.
1965 - Protagoniza o filme As Ilhas Encantadas.
1966 - Atua no Lincoln Center (Nova York) com uma orquestra sinfônica dirigida pelo maestro André Kostelanetz.
1967 - Recebe em Cannes, pelas mãos do ator Anthony Quinn, o prêmio MIDEM (Disco de Ouro) para o artista que mais discos vende no seu país, fato que se repete nos dois anos seguintes, proeza só igualada pelos Beatles.
1969 - É condecorada por Marcelo Caetano.
1970 - Atua em Tóquio, Nova Iorque e Roma e recebe uma alta condecoração francesa.
1975 - Regressa ao Olympia em Paris.
1976 - É editado pela UNESCO o disco “Le Cadeau de la Vie” em que figura ao lado de Maria Callas e de John Lennon.
1977 - Canta no Carnegie Hall de Nova York.
1985 - Volta a cantar no Olympia de Paris. Dá o primeiro concerto a solo no Coliseu dos Recreios de Lisboa.
1989 - Comemora os 50 anos de carreira com uma exposição no Museu do Teatro em Lisboa.
1990 - Dois grandes espetáculos: Coliseu dos Recreios e no São Carlos onde, pela primeira vez em 200 anos, se ouve cantar o fado.
1994 - Atua pela última vez em público no âmbito de Lisboa, Capital da Cultura.
1995 - É operada a um tumor no pulmão. Edita o seu último disco “Pela Primeira Vez”.
1997 - Morre César Seabra, seu marido.
1998 - É lançado o disco O Melhor de Amália, muito aclamado pela crítica internacional. É homenageada na Expo 98.
1999 - A 6 de Outubro morre em Lisboa, na sua casa na Rua de São Bento.

DISCOGRAFIA

1945 – Perseguição
1945 – Tendinha
1945 – Fado do Ciúme
1945 – Ai Mouraria
1945 – Maria da Cruz
1951/52 – Ai Mouraria
1951/52 – Sabe-se Lá
1953 – Novo Fado da Severa
1953 – Uma Casa Portuguesa
1954 – Primavera
1955 – Tudo Isto É Fado
1956 – Foi Deus
1957 – Amália no Olympia
1963 – Povo Que Lavas no Rio
1964 – Estranha Forma de Vida
1965 – Amália Canta Luís de Camões
1969 – Formiga Bossa Nova
1970 – Amália e Vinícius
1970 – Com Que Voz
1970 – Fado Português
1971 – Oiça Lá ó Senhor Vinho
1971 – Amália no Japão
1972 – Cheira a Lisboa
1973 – A Una Terra Che Amo
1976 – Amália no Canecão
1976 – Cantigas da Boa Gente
1983 – Lágrima
1984 – Amália na Broadway
1985 – O Melhor de Amália Rodrigues – Estranha Forma de Vida
1985 – O Melhor de Amália – Volume 2 – Tudo Isto É Fado
1990 – Obsessão
1992 – Abbey Road 1952
1997 – Segredo

 

 


AL BERTO

Abril 25, 2008


Há pouco mais de dez anos Portugal perdia um dos seus maiores poetas da nova geração, Al Berto. Alberto Raposo Pidwell Raposo, ou Al Berto, como ele assinava a sua obra, partiu no maior feriado religioso de Lisboa, no dia de Santo Antonio, 13 de junho, em 1997.
Dono de uma personalidade singular, amante da noite e do Bairro Alto, foi nas ruas estreitas desse bairro que nos conhecemos. Era um homem amável, de um cavalheirismo que lhe identificava o lado britânico da sua ascendência, de agradável convivência. Por dentro era um poeta em ebulição, muitas vezes acusado de morbidez e de profunda melancolia na forma de escrever os seus versos. Mas como poderia ser diferente em um homem amante da noite lisboeta e das suas armadilhas amorosas? Um poeta de alma portuguesa, tão saudosista quanto a força dos ventos que sopraram as caravelas de Cabral no Restelo, rumo à aventura lusitana pelo mundo. Sua poesia traz a ambigüidade do cotidiano, um olhar sobre a luz e os objetos, a mente e os desejos, fragmentos entre a poesia e a prosa, o mundo e o espanto poético de dele fazer parte.

Antes do Solstício de Verão

Conheci Al Berto através de um amigo em comum, o fotógrafo Stanislas Kalimerov. Ali travamos um conhecimento gentil, regado muitas vezes de um bom vinho nos jantares que tivemos pelos restaurantes do Bairro Alto ou nas longas e inesquecíveis noites de diversão no mítico Frágil, ainda quando pertencia ao Manuel Reis. Era um homem apaixonante e apaixonado. Gostava de ter a juventude ao seu redor. Magro, cabelos lisos e compridos, penteados para trás.
Ainda me lembro da noite que o seu amigo Alexandre Matos terminou o curso de estilista, fomos comemorar n’A Brasileira do Chiado. Al Berto sentia um grande orgulho de ter participado daquela conquista do amigo. Agradeceu-me por ter acolhido Alexandre Matos no meu apartamento na Luz Soriano, na noite anterior, quando depois de um jantar, ele tinha bebido demais e não conseguira voltar para casa.
No início de 1996, enviei os originais do romance “Fatal – A Hora Azul” para que ele lesse. Estava em Sines, a escrever aquele que seria o seu último livro em vida “Horto de Incêndio”, que marcaria a sua estréia na Assírio & Alvim. Para minha surpresa e alegria, Al Berto gostou do romance e fez várias anotações sobre o que achara. Combinamos um encontro em outubro de 1996 na A Brasileira, para que me entregasse os originais e comentasse as anotações. Al Berto não apareceu ao encontro. Horas depois, quando cheguei em casa, recebi um telefonema onde ele se desculpava, dizia que estava com um enorme caroço na bochecha, que lhe deformava o rosto e ele não sairia de casa enquanto não sumisse o caroço. Ainda brincou que estava muito feio para ser visto em público. Infelizmente não era um caroço comum. A partir daí Al Berto descobriu um linfoma que o iria matar em pouco mais de sete meses. Ainda no início da primavera de 1997 trocamos correspondência, ele estava em Lisboa na casa da irmã, em tratamento. Combinamos um encontro, mas também eu me envolveria em problemas de ordem amorosa que me consumiriam aquela primavera e o verão. Não teria mais tempo de rever Al Berto com vida, pois ele não sobreviveria àquela primavera. Morreu poucos dias antes do solstício de 1997.
Em agosto daquele ano, encontrei Alexandre Matos (na fotografia colorida ao lado de Al Berto), que na época vivia na Itália. Estava abalado com a morte do amigo. Entregou-me um texto que Al Berto lhe fizera, mais um ensaio fotográfico que fizera de Al Berto pelas ruas de Lisboa. O texto intitulava-se “Lisboa, Alexandre e Eu”. Alexandre queria que eu viabilizasse a publicação do pequeno texto. Mas estava numa roda viva decisiva e inesperada, que me fizeram deixar Lisboa, partindo para a Póvoa de Varzim. Por fim, deixei Portugal, e o texto inédito do Al Berto acompanhou o meu regresso ao Brasil. Curiosamente os meus originais ficaram nos seus pertences, com as suas anotações, e este texto continuou inédito em meu poder, a espera do meu regresso a Lisboa.
Publico aqui, no VIRTUÁLIA, algumas fotografias que Alexandre Matos fez de Al Berto. Nunca elas o definiram tão bem. É como se o visse a brincar e a contar as suas aventuras pelas quentes e infinitas noites do Bairro Alto.
Se estivesse vivo, Al Berto completaria este ano, no dia 11 de janeiro, 60 anos. Aqui a minha homenagem ao Al Berto, ao Alexandre Matos, a Lisboa e ao Bairro Alto, só quem traz a sensibilidade lisboeta na alma, compreende esses ícones que se prendem a nossa alma como uma tatuagem de desenhos existencialistas.

Um Poema de Al Berto


As Mãos Pressentem

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
vôos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

CRONOLOGIA

1948 – Nasce em 11 de janeiro, em Coimbra, Alberto Raposo Pidwell Tavares.
1949 – Vai viver em Sines, onde passa parte da infância e da adolescência.
1967 – Cursa em Bruxelas a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre), onde faz pintura.
1971 – Abandona a pintura para se dedicar à literatura.
1974 – Regressa para Portugal e escreve o seu primeiro livro totalmente em língua Portuguesa.
1977 – Lança o seu primeiro livro “À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto”.
1987 – É editado “O Medo”, uma antologia do seu trabalho de 1974 a 1986, que se tornaria o trabalho mais importante da sua obra.
1988 – Prêmio Pen Club de Poesia pela obra “O Medo”.
1995 – Escreve o texto para a exposição de Stanislas Kalimerov “A Última Cena – Um Olhar Português”.
1996 – Passa grande parte do tempo em Sines, a escrever o seu último livro “Horto de Incêndio”.
1997 – Morre em Lisboa, de linfoma, em 13 de junho.

OBRAS

Poesia:

1977 – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto
1980 – Meu Fruto de Morder, Todas as Horas
1982 – Trabalhos do Olhar
1983 – O Último Habitante
1984 – Salsugem
1984 – A Seguir o Deserto
1985 – Três Cartas da Memória das Índias
1985 – Uma Existência de Papel
1987 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1986)
1989 – O Livro dos Regressos
1991 – A Secreta Vida das Imagens
1991 – Canto do Amigo Morto
1991 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)
1995 – Luminoso Afogado
1997 – Horto de Incêndio
1998 – O Medo
2007 – Degredo no Sul

Prosa:

1988 – Lunário
1993 – O Anjo Mudo
2006 – Apresentação da Noite

Texto: Jeocaz Lee-Meddi
Fotos: Alexandre Matos