DRÁCULA E OS VAMPIROS

Novembro 14, 2009

Desde a antiguidade que o mito do vampiro suscita a curiosidade das pessoas. Suas lendas estão envoltas de mistério e perigo. O vampiro representa o homem e a sua eterna vontade de ser jovem, indo contra as leis da natureza e das religiões para obter essa juventude. O vampiro não morre, não envelhece, alimenta-se do sangue, o que lhe garante atravessar os séculos. É esta perenidade cruel que tanto seduz as pessoas, fazendo dos vampiros seres mitológicos cultuados, divulgados na literatura, no cinema, na televisão, nas revistas em quadrinhos e em diversos jogos digitais.
De todos os vampiros, Drácula é o mais famoso. Saído das páginas literárias, foi apresentado ao mundo em 1897, quando o escritor irlandês Bram Stoker publicou aquela que seria a sua obra-prima, “Drácula”. Apesar de nunca confirmado, o autor teria encontrado inspiração na figura de um nobre medieval, o voivoda (príncipe) da Valáquia Vlad Tepes. Drácula representa a obsessão pelo poder e pela eternidade. É desprovido de qualquer remorso ou compaixão. Para sobreviver, não hesita em matar e sorver o sangue das suas vítimas. É sedutor e misterioso, atraindo para si a paixão frívola das mulheres. Mas Drácula perde o seu lado demoníaco, quando persegue pelos séculos o amor da sua amada, que morta no passado, volta em reencarnações recentes. Um amor obsessivo, que faz do conde um ser humano, apesar da sua condição de vampiro. Esta vertente humana, obsessivamente apaixonada, a sua beleza fria e a cheirar a cadáver, os seus poderes ilimitados, sua capacidade de hipnotizar os que o ladeiam, fazem do conde Drácula um demônio sedutor, que atrai multidões aos cinemas, ou mesmo às páginas literárias.
Amados e temidos, Drácula e os vampiros construíram nas lendas modernas um espaço cada vez mais explorado e idolatrado. O fascínio dos vampiros fez com que deixassem de ser vistos como demônios das religiões pagãs, para serem cultuados como membros das lendas contemporâneas, exercendo curiosidade sem que se confundam com o misticismo. Algumas seitas modernas veneram os vampiros, mas não chegam a seduzir muitos seguidores, ao contrário das personagens fictícias exploradas na ficção. Drácula e os vampiros fazem parte da história do cinema e de uma literatura de culto. Continuam a hipnotizar milhares de pessoas com os seus poderes e a sua suposta juventude eterna.

O Sangue e os Vampiros

A lenda do vampiro surge da visão que o homem tem do sangue, como fator mantenedor da própria vida. Tanto as antigas religiões politeístas, chamadas de pagãs, quanto às monoteístas, consideram o sangue como sagrado, sendo o responsável pelo envelhecimento e pela morte do homem.
A importância do sangue nas religiões, fez com que várias delas derramasse-o nos altares, em sacrifício aos deuses. Na tradição hebraica, o sangue humano não poderia ser oferecido, posto que a vida é sagrada, inviolável e intocável. Nos sacrifícios ao Deus único de Abraão, era oferecido apenas o sangue de animais considerados puros. Os egípcios, as civilizações da Mesopotâmia e mesmo os gregos e os romanos, ofereciam o sangue humano em holocausto aos seus deuses.
Se o sangue era considerado o símbolo da vida, houve sempre um entendimento que se um velho fosse alimentado pelo sangue de um jovem, recuperaria as forças e venceria a morte. Foi a partir dessa teoria que se desenvolveu a própria ciência da transfusão sanguínea. Homens poderosos recorreram ao sangue de jovens quando já próximos da morte. O papa Inocêncio VIII, em seu leito de morte, em 1492, teve um tratamento especial, feito por um médico judeu, que lhe aplicou uma transfusão com o sangue extraído de três meninos de dez anos. As três crianças morreram e, conseqüentemente, o próprio papa. A transfusão sanguinea é amplamente descrita e divulgada no romance de Bram Stoker.
Os vampiros surgem como demônios que venceram os obstáculos da morte, alimentando-se com o sangue sagrado, de onde tiram a juventude e a eternidade, tornando-se portadores de poderes especiais e de uma força hercúlea. O sangue, de preferência humano, é o que lhes confere a imortalidade do corpo e a desintegração da alma, visto que são mortos vivos, e não possuem uma. Quando contaminado e transformado em vampiro, ele sente a morte da alma, ressuscitando em um ser com hábitos bestiais e atitudes de demônio, desprovidos da compaixão e de atos de generosidade. Ao conseguir a imortalidade, o vampiro perde as promessas divinas, pois está condenado a ser eternamente um assassino, a matar para comer. Qualquer templo religioso ser-lhe-á negado, e os símbolos, como a cruz, transformar-se-á em armas que o pode vir a castigar, repelir ou até mesmo a matá-lo.

As Características dos Vampiros

Seres mitológicos antigos, os vampiros estiveram presentes nas tradições dos povos e das civilizações do Médio Oriente, da Europa e do Egito. Foi nas civilizações antigas do Nilo que surgiram os primeiros relatos sobre esses seres misteriosos, sendo os mais conhecidos e sanguinários Khonsu e Sekhmet. Na Suméria, o vampiro chegou a ser visto como filho de Lilith, um ser mitológico da tradição judaica, considerada a primeira mulher do mundo e de Adão. Muitas vezes foi confundido com Incubus. Na antiguidade, os sacerdotes identificavam os vampiros através das unhas, que eram fortes e mais grossas do que o normal, assimilando-se às garras.
Ao se tornar um vampiro, o contaminado deixa de poder ter contacto com o sol, dormindo, assim como os morcegos, durante o dia e caçando alimento à noite. Seus olhos ficam mais sensíveis à luz, e passam a ter uma visão potente. Para que possa obter o sangue como alimento, desenvolve os dentes caninos, transformando-os em longas presas.
Poderes estranhos e demoníacos possibilitam que os vampiros transformem-se em morcegos e lobos. Tornam-se senhores dos animais noturnos, controlando-os e dirigindo-os. Originalmente, os vampiros tinham a pele escura e grossa, nas versões cinematográficas atuais, passaram a tê-la branca e fantasmagórica. A audição passa a ser extremamente sensível e alta, fazendo com que sejam capazes de ouvir a aproximação de pessoas ou de outros vampiros a quilômetros de distância. Quando em perigo, podem desaparecer em uma névoa.
O vampiro perde a maioria dos seus órgãos vitais, como fígado, rins e pâncreas, que deixam de ter utilidade. O coração é o órgão que continua a funcionar em seu peito. Mas não possui ritmos característicos como nos seres humanos, batendo quase que imperceptivelmente. É como uma bomba que quando detonada, pode matar e destruir o vampiro.
Aos vampiros não é permitido que se reproduzam entre si. O desejo sexual de um vampiro é tão latente quanto a sua sede de sangue. O desejo é refletido no seu poder irresistível de sedução, levando os humanos à paixão. Quando há um encontro de um vampiro com uma humana, ele pode engravidá-la. O filho dessa união terá poderes especiais, como saber distinguir quem é ou não vampiro, será dono de uma força extraordinária e de aguçado desenvolvimento dos cinco sentidos. As características são transmitidas geneticamente aos descendentes do humano e do vampiro.
Apesar de poderes quase que ilimitados, o vampiro passa a ter certas limitações que lhe podem ser fatais. O sol pode queimar-lhes a pele e afetar-lhes a visão, reduzindo-os a cinzas. Como foram desprovidos da alma, e matam para conseguir o alimento; a hóstia, a água benta, os metais consagrados, a cruz e os templos, tornam-se insuportáveis a eles, assim como o cheiro do alho. Podem ser mortos com uma estaca fincada no coração, transformando-os em pó.
Ao longo do tempo, várias características foram acrescentadas ao mito, sendo a imaginação o principal condutor das verdades vampirescas. Dos castelos medievais às tumbas de concreto, os vampiros modernizam-se, fazendo das suas aventuras uma sedutora paixão na legião dos seus fãs e mesmo daqueles que não os cultua, mas não lhes resiste.

O Mítico Príncipe Vlad Tepes

O lendário conde Drácula foi criado por Bram Stoker, que o lançou em um livro que levava o seu nome, em 1897. A idéia surgiu quando o autor trabalhava como administrador do Royal Lyceum Theatre de Londres, cargo oferecido pelo amigo Henry Irving, de quem era, ao mesmo tempo, secretário e empresário. Na época Bram Stoker entrou em contato com uma sociedade londrina que tinha fascínio pelo sobrenatural. Em 1890, ele começou a escrever um romance sobre vampiros, sem título definido. No verão daquele ano, estava em férias em Whitby, quando cogitou pela primeira o nome de “Drácula” para aquele romance.
Na última década da centúria oitocentista, a Inglaterra era tomada pela efervescência dos movimentos espiritualistas, o que influenciou profundamente Bram Stoker. Esoterismo e ciência mesclavam-se entre os intelectuais da época. Stoker passa a estudar certos detentos nas cadeias inglesas, obcecados por verterem sangue e ingeri-lo. Sete anos após ter sido iniciado, Bram Stoker publica “Drácula”. Lançando a personagem para o mundo, tornando-a mais importante do que a própria obra literária.
Baseado nas histórias de vampiros da Transilvânia, região da Romênia, “Drácula” pode ter sido inspirado no príncipe da Valáquia, Vlad Tepes Draculea, que viveu no século XV. Vlad III nasceu em 1431, em Sighisoara, atual Romênia. Tornar-se-ia voivoda (príncipe) da Valáquia por três vezes: em 1448, de 1456 a 1462 e em 1476. Vlad III viveu na época em que o Império Otomano tomou Constantinopla aos gregos, em 1453, e iniciou a sua expansão pelos Bálcãs, originando uma guerra sangrenta entre cristãos e muçulmanos.
Vlad III era filho de Vlad II, membro de uma sociedade cristã de Roma, chamada Ordem do Dragão, em que nobres da região se uniam para defender os territórios da invasão Otomana. Como membro da ordem, Vlad II era chamado de Vlad Dracul (dragão). Seu filho, Vlad III, herdou por conseqüência, a alcunha do pai, sendo chamado de Vlad Draculea – filho do dragão, já que a terminação “ea” significa filho.
Vlad Draculea ficou conhecido pela crueldade e perversidade com as quais tratava os seus inimigos. As suas atrocidades alimentavam o imaginário popular de alguns camponeses, que passaram a associá-lo com os mitológicos vampiros. Diante daquela crueldade, a palavra Dracul, que também significava “diabo”, passou a ter este sentido quando os inimigos de Vlad Draculea referiam-se a ele.
O voivoda tinha como costume empalar os seus inimigos, atravessando-os com uma estaca de madeira. Para assistir ao suplício, costumava montar uma mesa no local e saborear um banquete, enquanto os inimigos agonizavam empalados. Por esta razão, passou a ser chamado de Vlad Tepes (Tsepesh), que significava “O Empalador”.
Vlad Tepes Draculea foi morto em batalha pelos otomanos em Bucareste, em 1476. Seu corpo foi decapitado e sua cabeça enviada à Constantinopla, onde o sultão a manteve em exposição em uma estaca, como prova que o famoso empalador estava morto. Seu corpo foi enterrado numa ilha próxima de Bucareste, Snagov. O túmulo foi escavado por arqueólogos em 1931, mas no lugar do corpo só encontraram ossos de animais, o que reforçou a lenda de que Vlad Draculea era um vampiro.
Na Romênia e na Moldávia, Vlad Tepes Draculea é tido como herói nacional, por ter erguido vários mosteiros e combatido a expansão Otomana. Na vizinhança de Brasov, em Bran, ergue-se o castelo de Bran, conhecido como o castelo de Drácula. A fortaleza está situada na estrada 73, na fronteira da Transilvânia com a Valáquia e pode ser visitada por turistas. Vlad Draculea na verdade não residiu no castelo, a não ser quando teve que passar dois dias fechado na sua masmorra, quando os otomanos controlavam a Transilvânia. Por possuir torres pontiagudas e localização remota, o voivoda teria utilizado a fortaleza para fins militares.

O Conde Drácula

A descrição física da personagem de Drácula, segundo estudiosos, corresponde ao amigo de Bram Stoker, Henry Irving, que tinha uma voz sibilante. Drácula era um poderoso conde que vivia na Transilvânia na Idade Média, que confrontou inimigos, teve um grande amor na sua vida e ao perdê-lo, também se perde, envolvendo-se com o sobrenatural, tornando-se um frio vampiro.
Sendo uma personagem que se encontra em domínio público, Drácula sofreu grandes alterações nas diversas adaptações que se lhe foram criadas. Há aqueles que o descreve mais romântico, que ao receber a visita do inglês Jonathan Harker em seu castelo, descobre através de uma fotografia, que Mina, noiva de Harker, é a reencarnação do grande amor da sua vida. Assim, parte para a Inglaterra, em busca do amor renascido. Durante a viagem e ao chegar ao Reino Unido, transmite o terror e a morte por onde passa.
Não importa a versão, Drácula é sempre descrito como um vampiro sedutor, sanguinário e frio. Traz poderes sobrenaturais, uma força física extraordinária. Pode adquirir formas animais, hora como morcego, hora como lobo. Durante o dia dorme dentro de um caixão. Seus poderes estão concentrados na terra da Transilvânia, quando em viagem para a Inglaterra, leva sacos dela no navio em que embarca. Não tem a imagem refletida em um espelho. Utiliza-se da hipnose para controlar os seus inimigos. Tem controle absoluto sobre os seres noturnos, como morcegos ou corujas. Com um toque pode incendiar objetos, como a cruz, transformando-a em cinzas. Mata, sem remorsos, às suas presas, fazendo-as vampiras como ele, se lhes oferecer o próprio sangue.
Drácula é imortal, não envelhece, representa a virilidade juvenil eterna. Comanda o clima noturno, trazendo a névoa quando lhe for útil. Sua força sedutora encanta e faz perder as mulheres. Sua pele regenera-se quando arranhada, e os ferimentos são cicatrizados. Não fosse um vampiro, Drácula seria o exemplo perfeito do homem que apaixona o sexo oposto.
Mas Drácula pode perder a imortalidade diante de certas circunstâncias, que guarda como segredo. Se voa como um morcego ou caminha ágil como um lobo, o vampiro pode ser ferido com símbolos religiosos como a cruz e a água benta, que se lhe tocado à pele, pode queimá-la. O alho e a prata afastam-no momentaneamente de quem se lhe ergue. Não pode entrar na água, a não ser em uma embarcação. Um simples ramo de flores silvestres posto em seu caixão pode mantê-lo preso. O sangue é o alimento essencial que lhe dá o poder, a juventude e a suposta imortalidade. O sol é um grande inimigo, se exposto a ele, é reduzido instantaneamente a cinzas. Mas a sua maior e mais fatal fraqueza é o coração que, se trespassado por uma estaca de madeira, o levará à morte. Em algumas versões, após a estaca ser cravada no coração, e que ele for acometido pelo torpor da morte, deverá ser decapitado para que se conclua a sua morte.
Assim como o demônio é enganador, também Drácula é enganado, ao pensar ser eterno e, ser sempre apanhado e morto pelas suas fraquezas, deflagradas pelos eternos defensores do bem. Drácula é o sonho do homem em ter a juventude e a vida eterna, mas também o castigo para quem as obtém indo contra os princípios estabelecidos por Deus e pela natureza.

Drácula no Cinema

O fascínio que Drácula exerce sobre grandes platéias, fez com que o seu mito fosse explorado em dezenas de produções cinematográficas e televisivas. A primeira vez que a história do conde vampiro chegou às grandes telas foi em 1922, no genial filme de F. W. Murnau, “Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens”. Embora baseado na história de Bram Stoker, o filme teve que mudar o nome de Drácula para Nosferatu, devido a exigências dos herdeiros do escritor, que não permitiam que a obra fosse adaptada. “Nosferatu” foi um grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema universal. Com ele, inaugurava-se uma saga cinematográfica sobre o conde Drácula, que teria várias versões. Um filme de ficção sobre os bastidores do clássico de Murnau, “A Sombra do Vampiro” (2000), sugere que Max Schreck , ator que viveu Nosferatu, era um vampiro de verdade contratado pelo diretor.
Em 1931, surgiu o filme “Drácula”, de Tod Browning. Já a personagem tinha caído em domínio público, e pôde ser adaptada sem retoques para o cinema. O filme teve o ator austro-húngaro Bela Lugosi como Drácula. Embora tenha feito apenas dois filmes interpretando o conde, o já referido filme de 1931, e a comédia “Bud Abbott Lou Costello Mette Frankenstein” (“Às Voltas com Fantasmas”), em 1948, Bela Lugosi teve a sua imagem e carreira ligadas à personagem para sempre. Ainda hoje, tem-se a idéia de que o ator protagonizou várias vezes o famoso vampiro.
Em 1958, “Drácula”, de Terence Fisher, lançava o ator Christopher Lee como Drácula. Apesar de odiar a personagem, ele faria o conde em vários filmes, tornando-se o seu intérprete mais famoso. Nesta produção, iniciava-se uma grande parceria com Peter Cushing, outro grande ator que se especializaria em filmes de horror.
Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola, de 1992, foi uma das versões mais fiéis ao romance original. O filme pôde usufruir da tecnologia dos efeitos especiais, dando um clima de suspense luxuoso à velha história. Produção bem cuidada, a adaptação de Coppola só perde na interpretação quase que afetada de Gary Oldman. O ator imprime pouca virilidade ao conde, dando-lhe um aspecto que às vezes, beira à frivolidade, distante da frieza apaixonante e cruel de Bela Lugosi e Christopher Lee.
Mais de uma centena de filmes invocaram o mito de Drácula, fazendo do cinema o principal veículo de apresentação do mais famoso, sedutor e cruel dos condes da história. Drácula continuará por muito tempo, a encantar e aterrorizar as platéias do mundo inteiro.

Drácula nas Artes

Literatura

Drácula – Bram Stoker

Cinema

1922 – Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens (Nosferatu) – Com Max Schreck
1931 – Drácula – Com Bela Lugosi
1936 – Dracula’s Daughter – Com Otto Kruger e Gloria Holden
1943 – Son of Dracula (O Filho de Drácula) – Com Lon Chaney Jr.
1945 – House of Drácula – Com Lon Chaney Jr e John Carradine
1958 – Dracula (O Horror de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1960 – The Brides of Dracula (As Noivas do Vampiro) – Com Peter Cushing
1964 – Batman Dracula – Com Gregory Battcock e Jack Smith
1966 – Dracula: Prince of Darkness (Drácula – O Príncipe das Trevas) – Com Christopher Lee
1968 – Dracula Has Risen from the Grave – Com Christopher Lee
1970 – Count Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Taste the Blood of Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Scars of Dracula – Com Christopher Lee
1972 – Dracula A.D. 1972 – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1973 – Dracula – Com Jack Palance
1973 – The Satanic Rites of Dracula (Os Ritos Satânicos de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1974 – The Legend of the Seven Golden Vampiros – Com John Forbes-Robertson e Peter Cushing
1974 – Blood for Dracula – Com Udo Kier e Joe Dalessandro
1976 – Drácula Père et Fils (Drácula, Pai e Filho) – Com Christopher Lee
1979 – Dracula – Com Frank Langella e Laurence Olivier
1979 – Nosferatu: Phantom der Nacht (Nosferatu – O Vampiro da Noite) – Com Klaus Kinski
1992 – Bram Stoker’s Dracula (Drácula de Bram Stoker) – Com Gary Oldman e Anthony Hopkins
2004 – Van Helsing – Com Hugh Jackman e Richard Roxburgh

Séries de TV

1990 – Dracula: The Series
2006 – Young Dracula


MACBETH – WILLIAM SHAKESPEARE

Novembro 6, 2009

Uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare, “Macbeth” descreve o homem no limiar da sua essência, tornando-a traiçoeira e assassina pela ambição do poder. Macbeth é o anti-herói que insulta a dignidade, corrói as virtudes e banha as mãos de sangue. Nele o medo e a coragem diluem-se em uma compulsão desenfreada pelo poder. Ser rei é maior do que ser homem. A vida não lhe parece uma dádiva divina, mas um encanto de bruxas. Macbeth assusta quem lhe assiste no palco, pois traz à tona todo o lado obscuro que existe dentro de nós. Sua crueldade inquietante fez dele uma obra universal, lida e encenada milhares de vezes, quer nos palcos teatrais, quer no cinema ou na televisão.
Ambição e assassínio povoam o universo de Macbeth, apoiado e incitado por sua bela e fria mulher, Lady Macbeth. Ambos sujam as mãos de sangue em um regicídio que os levariam a ascender como rei e rainha da Escócia. Mas o peso da culpa, inicialmente legada a Macbeth, transtorna e enlouquece os monarcas. Lady Macbeth vaga pelas noites acometida por um cáustico sonambulismo. Macbeth devora a sua culpa através da crueldade, pois sangue chama sangue, e o cetro do rei está manchado por ele. A queda dos soberanos não vem como um castigo moralista, mas como conseqüência de um reinado construído sobre a violência e as mentiras das profecias enganadoras dos homens. “Macbeth”, é sem dúvida, uma das maiores obras da dramaturgia universal e uma das que mais amplia e mostra poética e cruamente a alma humana.
Dentro da obra de Shakespeare, “Macbeth” é a menor das suas peças, o que leva alguns estudiosos shakespereanos, dada a complexidade e profundidade do texto, a suporem que ela pode ter chegado aos tempos atuais com partes amputadas e perdidas. Há os que defendem que partes do texto tenham sido acrescentadas ao longo dos séculos, embora tais teorias estejam cada vez mais enfraquecidas. Seja como for, é um dos melhores momentos da literatura inglesa e da dramaturgia do pai do teatro britânico. Nenhuma platéia em todo o planeta, ficou imune quando as cortinas do último ato foram cerradas. “Macbeth” é próprio espelho do homem, visto pelo lado convexo dos seus princípios morais.

As Três Bruxas Tecem a Tragédia

Macbeth não é apenas uma personagem literária, ele realmente existiu. Figura de destaque nos meandros da monarquia escocesa, ele viria a subir ao trono, em 1040. Para ascender à realeza, assassinou o rei Duncan, que se via enfraquecido no poder após sofrer derrotas pelo norueguês Thorfinn. Várias conspirações foram urgidas para derrubá-lo do trono. Em 1054, Siward, conde de Nortúmbria, derrotou Macbeth, que se viu obrigado a fugir para o norte do país. Em 1057, Malcolm, filho de Duncan, abateu-o, sendo morto em Lumphanan. Enquanto rei, Macbeth trouxe prosperidade à Escócia e benefícios à Igreja. Reza a tradição, que o seu corpo está sepultado na ilha de Iona, ao lado de vários dos seus antecessores.
Foi inspirado nesta figura histórica, que Shakespeare criou a mítica tragédia “Macbeth”. Não se sabe ao certo, em que ano ela foi escrita, a maioria dos estudiosos aceitam 1606 como o mais provável. Estudos situam a data cronológica criativa entre 1605 a 1607. Entretanto, o primeiro registro de encenação da peça aparece no manuscrito de Simon Forman, “The Bocke of Plaies and Notes Therof per Formans for Common Pollicie”, em 20 de abril de 1611.
Dividida em cinco atos, “Macbeth” envolve as pessoas desde o primeiro deles. Inicia-se com trovões e relâmpagos, demarcando a entrada em cena das três bruxas. Personagens abstratas, saídas do agouro da vida e do seu misticismo sombrio, elas são essenciais para o decorrer das cenas. Suas mentiras determinarão as verdades, a ascensão e a queda do ambicioso Macbeth.
O rei Duncan e os seus exércitos enfrentam tropas norueguesas em uma batalha sangrenta. Macbeth é o intrépido guerreiro que sem medo, mais se destaca na luta contra o inimigo, conquistando o respeito e admiração do rei. No meio da batalha, o thane de Cawdor é descoberto como traidor, sendo executado. Para compensar a valentia de Macbeth, Duncan o faz o novo thane de Cawdor.
Enquanto isto, numa charneca, sob fortes trovões, Macbeth e o seu companheiro de luta Banquo, são surpreendidos pela aparição súbita da três bruxas. Numa armadilha das artimanhas dos adivinhos, elas tecem a tragédia, saudando Macbeth, então thane de Glamis, como thane de Cawdor. Ele ainda não sabe da traição do antigo thane de Cawdor, muito menos de que tinha sido agraciado com título pelo rei.
Mas as bruxas estão ali, para com as suas mentiras, fazer as falsas profecias, induzindo que os profetizados cumprissem a profecia idealizada. A Macbeth vaticinam que será rei, e a Banquo que será pai de reis. Prometem um reino estéril ao mais ambicioso, e um frutificado ao mais bondoso. Está demarcada a trama que se deverá estender sob o destino dos dois companheiros.

Assassínio de Duncan

A idéia de ser rei só toma forma na mente do ambicioso Macbeth, quando, ao lado de Banquo, encontra-se com Duncan e os seus súditos. O rei mostra-se grato, comovido e paternal para com o seu fiel servidor. Anuncia oficialmente, que Macbeth é o novo thane de Cawdor. Cumpria-se a primeira promessa das bruxas.
Cansados da batalha, o rei, seus filhos e súditos, aceitam pernoitar no palácio de Macbeth e da sua bela mulher.
Em casa, Macbeth conta para a mulher a profecia que lhe lançara as aparições. O casal deixa-se possuir pela chama da ambição. Para que pudessem ascender ao trono, era preciso que se eliminasse Duncan. O rei dormia sob o teto dos Macbeth, nunca fora tão fácil fazê-lo desaparecer. Desenha-se cada vez mais, as formas de um assassínio. Mas Macbeth reluta. Apesar de ambicioso, é um homem que admira Duncan, sendo-lhe grato. A inquietude da honra demove Macbeth de tão vil atitude. Mas Lady Macbeth é uma mulher fria e ambiciosa, está determinada a ver o marido ascender como rei da Escócia e, conseqüentemente, tornar-se ela a sua rainha. Não há tempo para remorsos da alma, a ambição do corpo é maior. Retroceder ao que lhe prometera as forças estranhas dos presságios era, na concepção de Lady Macbeth, a covardia da virilidade do marido. Juntos, decidem eliminar o rei naquela noite fatídica e abrir caminho para que se cumprisse a segunda profecia das bruxas.
Quando Duncan dorme, a própria Lady Macbeth embriaga os dois vigilantes à porta do rei. Tomados pelo vinho, os homens adormecem. Já com o punhal na mão, Macbeth dá uma última oportunidade à consciência, mostrando-se incapaz de vir a ser um assassino. Até então era um bravo e corajoso súdito do rei, capaz de por ele enfrentar com a vida as maiores batalhas. Mas a ambição é maior do que a dignidade; incitado pela mulher, ele logo percebe a sua própria verdade. Movido pelo aceno do poder, ele adentra o aposento do rei, assassinando-o.
Macbeth retorna do crime com as mãos ensangüentadas. Está visivelmente perturbado, demonstrando um cínico, mas sincero, arrependimento. Não se sente capaz de concluir o plano, sendo a própria Lady Macbeth que o executa. Friamente, ela apodera-se do punhal na mão do marido, entra no quarto onde jaz o rei, suja de sangue as adagas e os rostos dos vigilantes embriagados. Volta para o marido, com as mãos, assim como as dele, manchadas de sangue.

O Espectro de Banquo

A descoberta do assassínio de Duncan precipita os acontecimentos. Os vigilantes, cobertos de sangue, são os suspeitos. Macbeth, fingindo revolta e indignação, mata-os ao fio da sua espada. A corte escocesa está confusa diante de tão grande e misteriosa tragédia. Desconfiados da verdade, Malcolm e Donalbain, filhos do rei, decidem fugir para que não sejam assassinados. Malcolm foge para a Inglaterra, e Donalbain para a Irlanda. Diante da fuga, são acusados de parricídio. Os nobres escoceses decidem entregar o trono a Macbeth.
A segunda profecia das bruxas estava cumprida. Macbeth era o rei da Escócia. Banquo desconfia que o amigo tenha sabotado o destino e facilitado o cumprimento da profecia. Mas não se deixa intimidar. Mantém-se sereno e confiante, fiel ao amigo, afinal a terceira e última parte da profecia dizia respeito a ele e à sua prole. Seria pai de reis, não tinha que temer o que fosse.
Mas Macbeth também sabe da última parte da profecia. Traíra o seu rei, sujara as mãos de sangue para deixar o trono para a prole de Banquo? Tanto sacrifício para herdar um reino estéril, findo nele mesmo? Pensamentos obscuros permeiam a mente do novo rei. Sangue atraía sangue, fora longe demais para que a tão pouco se chegasse. Decide mudar o rumo da profecia. Prepara uma emboscada para Banquo e o seu filho, Fleance. Desta vez não se deixa inquietar pela consciência de um novo crime. Está mais frio. Três assassinos contratados por ele, degolam Banquo, mas o seu filho consegue escapar, fugindo para o meio da floresta.
Morto Banquo, o medo de Macbeth é atenuado. Mas a sua consciência não lhe deixa comemorar o triunfo. Em um banquete que promove para a alta nobreza do seu reino, é surpreendido pela aparição do espectro de Banquo, que se senta à mesa, no seu lugar. Transtornado, diante dos convidados, Macbeth grita para que o fantasma desapareça. O júbilo sucumbe. Os súditos desconfiam do rei. Lady Macbeth contorna a situação, controlando o acesso do marido. Com a sua frieza calculista, ela pede desculpa à corte, manipula o marido desnorteado, mas não consegue evitar que o júbilo naufrague. Os convidados vão embora. Também o espectro de Banquo desaparece.

Novas Profecias das Aparições

Macbeth torna-se um tirano cruel, que não hesita matar todos os seus inimigos. Muitos nobres deixam de apóia-lo, entres eles Macduff, thane de Fife, que foge para a Inglaterra, reunindo-se ao filho do falecido rei Duncan, Malcolm. Juntos, apoiados pelo rei inglês, armam uma esquadra de dez mil soldados.
Na Escócia, desencadeia-se uma guerra civil contra Macbeth. A mulher e o filho de Macduff são assassinados. Notícias que uma grande tropa de soldados vem para destituí-lo do trono, faz com que procure as bruxas, ordenando que elas digam o que se irá passar futuramente. Mas a principal verdade do demônio é a mentira. E Macbeth deixa-se enganar de forma fatal.
As três bruxas dançam ao redor do rei. Só elas lhe fazem reverências ao suposto triunfo. Com confusas visões, elas mostram a tragédia dissimulada. Palavras enganosas tecem o destino do rei. Uma das visões traz uma cabeça com um elmo, que diz para Macbeth ter cuidado com Macduff. Outra aparição mostra oito homens que são seguidos por Banquo, significando as gerações que se tornariam reis. Macbeth inquieta-se diante da revelação.
Mas as palavras enganosas dão certezas a Macbeth. Ele não deve temer as tropas inimigas até que a floresta de Birnam suba contra o monte de Dunsinane. Macbeth sorri aliviado. Afinal quem recrutaria as árvores da floresta para que subissem ao monte?
As aparições incitam Macbeth a ser enérgico e cruel, sanguinário e resoluto, pois nenhum homem nascido de mulher conseguiria fazer-lhe mal. Macbeth sente-se regozijado. Sua vida era intocável. Pertencia aos encantamentos das bruxas, não à Divindade Criadora. Todos os homens eram nascidos de mulher, o que o tornava imortal diante das espadas que se lhe viessem.

A Revelação das Palavras Enganosas

Se Macbeth tornou-se cruel e sanguinário, Lady Macbeth, até então volvida pela frieza da ambição, passa a ser atormentada pelo peso dos seus crimes. Perde a cada instante, a razão. Caminha pelo castelo à noite, empunhando uma vela, acometida por um estranho sonambulismo. Como um fantasma atormentado, tenta, diante de todos, lavar as mãos manchadas do sangue das suas vítimas. Aos poucos, deixa-se atormentar pelo peso da consciência, até então menor do que a sua ambição em ser rainha.
Lady Macbeth murmura pela noite. Sua personalidade vai definhando diante da culpa e da loucura. Distancia-se cada vez mais do marido, deixando-o sozinho com a sua tirania, com a sua sede de sangue e de poder. A crueldade latente daquela mulher veste a máscara da loucura. Por fim, não suporta a realidade do destino que escolhera, pondo fim à vida com as próprias mãos.
Macbeth recebe com frieza a notícia da morte da mulher. Já não há espaço para comoção ou sentimentos de amor em seu coração. Ao seu redor só há inimigos, a todos combate com altivez e crueldade. Está sozinho com o seu poder. Seu cetro estava manchado de sangue, também o seu reinado, a sua alma.
Envolto pela sedução solitária do poder, Macbeth descobre a primeira mentira das palavras das bruxas. Dez mil soldados vindos da Inglaterra camuflaram-se, cada um, com o galho de uma árvore da floresta de Birnam, avançando quase que imperceptíveis contra Dunsinane. Macbeth ri do malogro das bruxas. Assiste à queda dos últimos homens que lhe eram fiéis.
O rei sanguinário não teme aqueles homens. Tem a certeza de que não morrerá pela espada de nenhum deles. Todos nasceram de mulher. A todos que confronta, derruba pelo fio da sua espada. Por fim vê-se posto frente a frente com Macduff. De todos, só ao thane de Fife tentou evitar. Macbeth zomba do seu oponente, não lhe teme a espada, pois ele nascera de mulher. Mas Macduff faz a revelação que derrubaria as palavras enganosas das bruxas: ele tinha sido tirado antes do tempo do ventre maternal. Macbeth vê esvair o encantamento que parecia proteger a sua vida. Fora enganado e traído pelas profecias das bruxas. Acossado, ele luta com Macduff até o fim, sendo morto pela espada do seu maior e mais temido adversário.
Malcolm retoma o trono que fora usurpado do seu pai. É aclamado o novo rei da Escócia. Macduff traz ao novo soberano, a cabeça decepada do sanguinário Macbeth.

William Shakespeare

Considerado o maior escritor da língua inglesa, e um dos maiores dramaturgos do mundo, William Shakespeare nasceu em Stratford-on-Avon, a cinqüenta quilômetros de Londres, Inglaterra; provavelmente no dia 23 de abril de 1564. Na igreja local, há o registro do seu batismo, datado de 26 de abril. Era o terceiro filho de John Shakespeare e Mary Arden, sendo o primeiro a chegar à idade adulta, escapando à peste, que dizimara a vida das irmãs mais velhas.
Embora demonstre grande conhecimento da gramática inglesa e da língua latina, não há registros de que tenha freqüentando alguma universidade.
Aos dezoito anos, após engravidar Anne Hathaway, oito anos mais velha, casou-se com ela. Antes de completar vinte e um anos, era pai de um casal de gêmeos e de mais uma menina.
Em 1592, William Shakespeare já era um conhecido ator, poeta e dramaturgo em Londres. Dois anos mais tarde ingressou na companhia teatral de Lorde Chamberlain, que no reinado de James I receberia o nome de King’s Men. O dramaturgo permaneceria na companhia até o fim da sua carreira em Londres.
A família de Shakespeare receberia, em 1596, um brasão de armas, o que lhe faria melhorar a condição financeira, que lhe possibilitaria adquirir uma imponente residência em Stratford, em que viveria até o fim da sua vida.
Durante a vida, Shakespeare atuou como ator em várias das suas peças. Tornou-se sócio-proprietário do Globe Theatre e do Blackfriars Theatre. Viria a aposentar-se em 1613, após um incêndio no Globe Theatre durante uma apresentação, voltando para Stratford.
Há várias versões sobre a morte de Shakespeare, a mais conhecida é a de que teria contraído uma febre fatal após uma ceia com os amigos escritores Ben Johnson e Michael Drayton. O registro do seu sepultamento data de 25 de abril de 1616, quando acabara de completar cinqüenta e dois anos. Shakespeare deixou uma obra imprescindível para a literatura universal, sendo o dramaturgo que mais exerce influência em todo o mundo.

OBRAS:

Tragédias

Macbeth
Lei Lear
Hamlet
Romeu e Julieta
Otelo, o Mouro de Veneza
Tito Andrônico
Júlio César
Tróilo e Créssida
Antonio e Cleópatra
Coriolano
Timão de Atenas

Comédias

O Mercador de Veneza
A Tempestade
Sonho de Uma Noite de Verão
A Megera Domada
A Comédia dos Erros
Muito Barulho por Nada
Os Dois Cavalheiros de Verona
Conto de Inverno
Noite de Reis
Medida por Medida
Péricles, Príncipe de Tiro
As Alegres Comadres de Windsor
Cimbelino
Os Dois Nobres Parentes
Como Gostais
Tudo Bem Quando Termina Bem
Trabalhos de Amores Perdidos

Dramas Históricos

Henrique VIII
Rei João
Ricardo II
Henrique IV, Parte 1
Henrique IV, Parte 2
Ricardo III
Henrique V
Henrique VI, Parte 1
Henrique VI, Parte 2
Henrique VI, Parte 3
Eduardo III

Poemas

Sonetos
Vênus e Adônis
O Estupro de Lucrécia
O Pequeno Apaixonado
A Fênix e a Tartaruga
Uma Queixa de Um Amante

CRONOLOGIA:

1564 – Em abril, provavelmente no dia 23, nasce William Shakespeare, em Stratford-on-Avon.
1582 – Aos dezoito anos, casa-se com Anne Hathaway, em 27 de novembro.
1583 – Nasce, em maio, a filha Susanna.
1585 – Nascem, em fevereiro, os gêmeos Hamnet e Judith.
1592 – Em Londres, Shakespeare é reconhecido como ator e poeta talentoso. Torna-se membro da companhia teatral Os Homens, de Lorde Chamberlain.
1596 – Morre, aos 11 anos, o filho Hamnet. O pai, John Shakespeare, recebe um brasão de armas do College of Heralds; Shakespeare torna-se cavalheiro.
1597 – Compra, em Stratford, uma casa a qual dá o nome de “The Great House of New Place” (A Casa Grande do Novo Lugar).
1599 – Construído, em julho, sobre as ruínas do The Theater, o Globe Theater.
1603 – A companhia teatral de Lorde Chamberlain, em maio, passa a se chamar King’s Men (Homens do Rei).
1613 – Um fogo assola o Globe Theater durante uma apresentação de “Henrique VIII”. Shakespeare aposenta-se, voltando para Stratford.
1616 – Morre, em Stratford, em 23 de abril, aos 52 anos, William Shakespeare. É sepultado, em 26 de abril, na igreja de Stratford.


PAUL GÉRALDY – POESIA ÍNTIMA E EMOTIVA

Outubro 5, 2009

Paul Géraldy, pseudônimo de Paul Lefèvre, nasceu em 12 de maio de 1885, em Paris. Foi um dos grandes poetas da França do século XX. Sua obra passou a ser cultuada por gerações de jovens apaixonados, apesar de ser pouco exaltada e reconhecida pelos grandes críticos. Suas palavras seduzem pelo amor psicológico, a paixão erótica e latente, diluída em um suave humor íntimo e emotivo.
Poeta e dramaturgo modernista, Paul Géraldy revela um universo expansivo sobre as sutilezas psicológicas das relações amorosas, familiares e existencialistas, refletidas em um momento sublime da sociedade francesa, enlaçado nos períodos de paz entre as duas grandes guerras mundiais.
No teatro, Paul Géraldy lançou a sua visão pessoal sobre a família e o matrimônio, descrevendo a burguesia intelectual francesa da primeira metade do século XX. Fazem parte da sua dramaturgia as peças “Aimer” (1921), “Robert et Marianne” (1925) e “Duo, d’Après Colette” (1938). Sua obra é repleta dos sentimentos vividos no cotidiano, sobressaindo sempre o amor passional, os sentimentos aflorados que assustam os homens e fascinam as mulheres. O seu estilo atraiu um grande público feminino, que lhe possibilitou o sucesso.
Mas a maior consagração de Paul Géraldy veio com a poesia; através do livro “Eu e Você” (Toi et Moi), publicado em 1912, que se tornou um clássico e uma ode à paixão. De linguagem delicada e sentimentos sempre presentes no homem moderno, a obra traz uma conversa íntima entre um casal apaixonado, revelando todos os segredos do coração, todas as inquietudes dos relacionamentos diante do cotidiano. Versos livres que descrevem de forma fascinante, erótica, sensual e corajosa o amor entre duas pessoas.
Todos os poemas deste artigo foram extraídos de “Eu e Você”, que no Brasil teve a tradução de Guilherme de Almeida. Paul Géraldy morreu com quase 98 anos, em 10 de março de 1983. A sua poesia do amor elegante, sensual, inquietante e delicado, é sempre uma adorável descoberta, que arrebata os corações apaixonados através das décadas.

Expansões

Eu gosto, gosto de você
Compreende?
Eu tenho por você uma doidice…
Falo, falo, nem sei o que
Mas gosto, gosto de você
Você ouviu bem isso que eu disse? …
Você ri? Eu pareço um louco?
Mas, que fazer para explicar isso direito,
Para que você sinta? …
O que eu digo é tão oco!
Eu procuro, procuro um jeito…
Não é exato que o beijo só pode bastar.
Qualquer cousa que me afoga, entre soluço e ais.
É preciso exprimir, traduzir, explicar…
Ninguém sente senão o que soube falar.
Vive-se de palavras, nada mais.
Mas é preciso que eu consiga
Essas palavras e que eu diga,
E você saiba… Mas, o que?
Se eu soubesse falar
Como um poeta que sente,
Diria eu mais do que
Quando tomo entre as mãos
Essa cabeça linda
E cem mil vezes, loucamente,
Digo e repito
E torno a repetir ainda:
Você! Você! Você! Você!

Expansions (original)

Ah! Je vous aime! Je vous aime!
Vous entendez? Je suis fou de vous. Je suis fou…
Je dis des moi, toujours lês mêmes…
Mais je vous aime! Je vous aime! …
Je vous aime, comprenez-vous?
Vous riez? J’ai l’air stupide?
Mais comment faire alors pour que tu saches bien,
Pour que tu sentes bien? Ce qu’on dit, c’est si vide!
Je cherche, je cherche un moyen…
Ce n’est pas vrai que les baisers peuvent suffire.
Quelque chose m’étouffe, ici, comme un sanglot.
J’ai besoin d’exprimer, d’expliquer, de traduire.
On ne sent tout à fait que ce qu’on a su dire.
On vit plus ou moins à travers des mots.
J’ai besoin de mots, d’analyses.
Il faut, il faut que je te dise…
Il faut que tu saches… Mais quoi!
Si je savais trouver des choses de poète,
en dirais-je plus – résponds-moi –
que lorsque je te tiens ainsi, petite tête,
et que cent fois et mille fois
je te répète éperdument et te répète:
Toi! Toi! Toi! Toi!…

Sorte

Podíamos jamais nos conhecer talvez!
Meu amor, imagine, pois,
Tudo isso que a sorte nos fez
Para estarmos aqui, para sermos nós dois!

Nós fomos feitos um para o outro – diz você.
Mas pense no que foi preciso se interpor
de coincidências, para que
pudesse haver apenas isto: o nosso amor!

Que antes de unir nosso destino vagabundo,
vivemos longe um do outro, e sós, separados,
e que é tão longo o tempo, e que é tão grande o mundo,
e a gente era capaz de não se ter encontrado.

Você nunca pensou, meu romance bonito,
e que este amor correu de risco e indecisões
quando, ao encontro um do outro, em torno do infinito,
gravitaram à toa os nossos corações?

Você não sabe então que era incerta essa estrada
que conduziu nossos ideais,
e que um capricho, um quase nada
podia não ter nos juntado nunca mais?

Nunca lhe confessei esta coisa esquisita:
quando visitei você pela primeira vez,
a princípio nem vi que você era bonita…
não reparei quase em você.

Sua amiga me atraiu muito mais, com seu sorriso.
Foi só muito depois que cruzamos o olhar…
Nós podíamos não ter lido nada disso:
e você, não compreender, e eu, nem sequer ousar.

Que seria de nós se, aquela noite, alguém
viesse buscar você antes?
Ou se, entre luzes, você não corasse também
quando eu quis ajudar a pôr o seu manteau?…

Pois foram essas razões, lembra-se ainda?
Um atraso, um impedimento,
e nada existiria deste encantamento,
desta metamorfose linda!

Nunca aconteceria o amor que aconteceu!
Você não estaria agora em minha vida!…

Meu coração, meu coração, minha querida,
penso naquela doença
que você quase morreu…

Chance (original)

Et pourtant, nous pouvions ne jamais nous connaitre!
Mon amour, imaginez-vous
tout ce que le Sort dut permettre
pour qu’on soit là, qu’on s’aime, et pour que ce soit nous?

Tu dis: “Nous étions nés l’un pour l’autre.” Mais pense
à ce qu’il dut falloir de chances, de concours,
de causes, de coïncidences,
pour réaliser ça, simplement, notre amour!

Songe qu’avant d’unir nos têtes vagabondes,
nous avons vécu seuls, separes, égarés,
et que c’est long, le temps, et que c’est grand, le monde,
et que nous aurions pu ne pas nous rencontrer.

As-tu jamais pense, ma jolie aventure,
aux dangers que courut notre pauvre bonheur
quand l’um vers l’autre, au fond de l’infinie nature,
mystérieusement gravitaient nos deux coeurs?

Sais-tu que cette course était bien incertaine
qui vers un soir nous conduisait,
et qu’un caprice, une migraine,
pouvaient nous écarter l’un de l’autre à jamais?

Je ne t’ai jamais dit cette chose inouïe:
lorsque je t’aperçus pour la première fois,
je ne vis pás d’abord que tu étais jolie.
Je pris à peine garde à toi.

Ton amie m’occupait bien plus, avec son rire.
C’est tard, très tard, que nos regards se sont croisés.
Songe, nous aurions pu ne pas savoir y lire,
Et toi ne pas comprendre, et moi ne pas oser.

Où serions-nous oe soir si, ce soir-là, ta mère
t’avait reprise um peu plus tôt?
Et si tu n’avais pas rougi, sous les lumières,
quand voulus t’aider à mettre ton manteau?

Car souviens-toi, ce furent là toutes les causes.
Un retard, um empêchement,
et rien n’aurait été du cher enivrement,
de l’exquise métamorphose!

Notre amour aurait pu ne jamais advenir!
Tu pourrais aujourd hui n’être pas dans ma vie!…

Mon petit coeur, mon coeur, ma petite chérie,
je pense à cette maladie
dont vous avez failli mourir…

Dúvida

Você diz: “Eu penso apenas em você
todo o dia.”
Mas pensa em mim muito menos
que no amor.

E diz: “Meus olhos magoados
que vivem só de desejo
passam horas acordados
quando me deito.”
Mas sua alma é mais satisfeita
do que louca.
Você pensa mais no beijo
que na boca.

Você não se inquieta
Tem certeza de que este bem
é somente seu e meu.
Mas o amor é uma necessidade.
Você gostaria mesmo menos de mim, muito menos
se eu não fosse eu?

Doute (original)

Tu m’as dit: “Je pense à toi
tout lê jour.”
Mais tu penses moins à moi
que a l’amour.

Tu m’as dit: “Mes yeux mouillés
qui ne peuvent t’oublier
restent longtemps éveillés
lorsque je me couche.”
Mais ton coeur est moins grisé
qu’amusé.
Tu penses plus au baiser
qu’à la bouche.

Tu ne te tourmentes point.
Tu sais, sans chercher plus loin,
que nos joies sont bien les nôtres…
Mais l’amour est un besoin.
M’aimerais-tu beaucoup moins
si j’étais un autre?

Confissão

Eu bem sei que, ciumento, exigente, impulsivo, irritado,
infeliz por cousas tão banais,
eu vivo a provocar discussões sem motivo…
Mas eu amo tão mal porque eu amo demais.

E atormento você, e persigo…
Você havia de ser melhor amada e mais feliz também,
se não fosse você a minha única alegria,
e se este amor não fosse o meu único bem.

Aveu (original)

Je sais bien qu’irritable, exigeant et morose,
insatisfait, jaloux, malheureux pour un mot,
je te cherche souvent des querelles sans cause
Si je t’aime si mal, c’est que je t’aime trop.

Je te poursuis. Je te tourmente. Je te gronde…
Tu serais plus heureuse, et mieux aimée aussi,
si tu n’étais pour moi tout ce qui compte au monde,
et si ce pauvre amour n’était mon seul souci.

Meditação

A gente começa a amar,
por simples curiosidade,
por ter lido num olhar
certa possibilidade.

E como, no fundo, a gente
se quer muito bem,
ama quem ama somente
pelo gosto igual que tem.

Pelo amor de amar começa
a repartir dor por dor.
E se habitua depressa,
a trocar frases de amor.

E, sem pensar, vai falando,
de novo as que já falou.
E então continua amando
Só porque já começou.

Méditation (original)

On aime d’abord par hasard,
par jeu, par curiosité,
pour avoir dans um regard
lu des possibilites.

Et puis comme au fond soi-même
on s’aime beaucoup,
se quelqu’un vous aime, on l’aime
par conformité de goût.

On se rend grâce, on s’invite
à partager ses moindres maux.
On prend l’habitude, vite,
d’échanger de petits mots.

Quand on a longtemps dit les mêmes,
on les redit sans y penser.
Et alors, mon Dieu, l’on aime
Parce qu’on a commencé.

Derrota

Mas isso não é justo! Eu sou muito sensível…
Qualquer maldade que você me faça e que eu tente
retribuir, não consigo, é impossível!
Eu sofro mais do que você.

Você suporta bem os acintes sem fim,
os silêncios ruins e os olhares brutais…
Mas não seja cruel, tenha pena de mim!
Quando eu sofro, eu sofro demais…

… Mas, não! Não ouça! Eu confessei
ingênuo e fraco, uma cousa que eu não devia confessar…
Você sabe agora o meu fraco:
e vai talvez se aproveitar…

Défaite (original)

Ce n’est pas juste enfin! Moi je suis trop sensible.
Quand tu m’as fait du mal, je tente bien parfois
de te le rendre. Mais ça n’est jamais possible!
Je souffre toujours plus que toi.

Toi, tu sais supporter les longues bouderies,
les regards durs et lês silences obstines…
Ah! ne sois pas méchante avec moi, ma chérie!
J’ai trop de chagrin quand j’em ai…

… Mais je suis fou! N’écoute pas! Je te confesse
naïvement de dangereuses vérités…
Tu sais à présent ma faiblesse:
tu vas peut-être em profiter…

Sabedoria

Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.

Sagesse (original)

Ne soyons pas trop exigeants:
le Bonheur n’est pas accessible
à toutes les sortes de gens.
Il faudrait être moins sensible,
ou bien avoir beaucoup d’argent…
Ne demandons pas l’impossible.
Nous devons nous trouver contents
d’être les êtres que nous sommes:
des amoureux intermittents
qui sont fous l’un de l’autre en somme
de temps en temps.
C’est déja beaucoup d’être deux,
deux côte à cote sur la Terre,
qui peuvent souffrir entre eux
et vivre sans trop se taire.
Et si l’on est plus exigeant,
si l’on se sent en y songeant
l’âme encor trop célibataire,
c’est qu’on a mauvais caractère…
ou qu’on est trop intelligent.

Mea Culpa

Afinal, meu gesto doido,
meu erro, querida,
foi ter posto em você
todo o peso da minha vida.

Ao começar este amor
num coração tão diverso do meu
pensei poder pôr
todo o meu universo.

E é desse erro tão profundo
que vamos sofrendo então.
Não se pode pôr um mundo
sobre um coração.

O seu coração é sincero,
ardente comigo
Mas, só, será suficiente
para afastar-me dos parentes
e dos meus amigos?

Mea Culpa (original)

Au fond, vois-tu, mon erreur,
ma grande folie,
c’est d’avoir charge ton coeur
de tout le poids de ma vie.

Le jours où l’on s’est aimé,
j’ai cru qu’en ce coeur offert
j’allais pouvoir enfermer
tout mon univers.

C’est de cette erreur profonde
que maintenant nous souffrons.
On ne fait pas tenir le monde
derrière un front.

Ton coeur est tendre et sincère,
ardent et soumis.
Mais, tout seul, pouvait-il faire
que je me passe de ma mère
et de me amis?

Final

Pois bem, adeus. Nada esqueceu?… Tem tudo já?
Não temos nada mais a dizer face a face.
Pode ir… Mas, não! Espere um pouco!
Como está chovendo!… Espere que isso passe.

Agasalhe-se bem! Está frio lá fora.
Você devia pôr um “manteau” mais pesado.
Já tem tudo o que é seu? Nada me resta agora?
As suas cartas? O retrato?…

Já que a gente se vai separar, olhe-me ainda um instante…
Mas sem chorar: seria idiota.
Como é horrível agora a lembrança remota
Do que nós fomos numa vida antiga e linda!

Nossas vidas se confundiram totalmente…
E agora cada qual retoma o seu caminho!
Nós vamos partir, cada qual mais sozinho,
Recomeçar, vagar por aí… Certamente,

Sofreremos também… Mas há de vir, depois
O esquecimento, a única cousa que perdoa.
E há de haver eu haver você; sermos dois;
Sermos isto: uma pessoa e outra pessoa.

Veja! Você já vai entrar no meu passado!
Havemos de nos ver na rua, casualmente…
Eu hei de olhar e de ir, sem ter atravessado…
Você irá com vestidos novos, diferentes…

E viveremos nossas vidas paralelas…
E amigos contarão a você minha história…
E eu direi de você, que foi a minha glória,
A minha força e a minha fé: “Como vai ela?”

O nosso amor… era esta cousa sem valor!…
No entanto, que loucura a dos primeiros dias!
Lembra-se bem? Que apoteose, que magia!…
Se nos amávamos!… E era isto o nosso amor!

Mesmo nós, até nós então, quando dizemos “eu te amo!”,
O que é que vale o que estamos dizendo?…
É humilhante, meu Deus!… Somos todos os mesmos?
Iguais aos outros, nós?… Mas, como está chovendo!

Você não sai com um tempo assim… Fique comigo!
Fique! Vamos viver – não sei… – mais conformados…
Os nossos corações, embora bem mudados,
Se reforçam talvez às luzes do sonho antigo…

Vamos tentar. Ser bons, de novo. Que remédio!
Podem falar: a gente tem seus hábitos…
Então? Não vá! Fique! E retome ao meu lado o seu tédio,
Eu retomo ao seu lado a minha solidão.

Finale (original)

Alors, adieu. Tu n’oublies rien?… C’est bien. Va-t’em.
Nous n’avons plus rien à nous dire. Je te laisse.
Tu peux partir… Pourtant, attends encore, attends.
Il pleut… Attends que cela, cesse.

Couvre-toi bien surtout! Tu sais qu’il fait très froid
dehors. C’est um manteau d’hiver qu’il fallait mettre…
Je t’ai bien tout rendu? Je n’ai plus rien à toi?
Tu as pris ton portrait, tes lettres?…

Allons! Regarde-moi, puisqu’on va se quitter…
Mais prends garde! Ne pleurons pas! Ce serait bete.
Quel effort il faut faire, hein? dans nos pauvres têtes,
pour revoir les amants que nous avons été!

Nos deux viés s’étaient l’une à l’autre données toutes,
pour toujours… Et voici que nous les reprenons!
Et nous allons partir, chacun avec son nom,
recommencer, errer, vivre ailleurs… Oh! sans doute,

nous souffrirons… pendant quelque temps. Et puis, quoi!
l’oubli viendra, la seule chose qui pardonne.
Et il y aura toi, et il y aura moi,
at nous serons parmi les autres deux persones.

Ainsi, déjà, tu vas entrer dans mon passe!
Nous nous rencontrerons par hasard, dans lês rues.
Je te regarderai de loin, sans traverser.
Tu passeras avec des robes inconnues.

Et puis nous resterons sans nous voir de longs móis.
Et des amis te donneront de mes nouvelles.
Et je dirai de toi qui fus ma vie, de toi
qui fus ma force et ma douceur: “Comment va-t-elle?”

Notre grand coeur, c’était cette petite chose!
Étions-nous assez fous, pourtant, les premiers jours!
Tu te souviens, l’enchantement, l’apothéose?
S’aimait-on!… Et voilà: c’était ça, notre amour!

Ainsi nous, même nous, quand nous disons “je t’aime”,
voilá donc la valeur que cela a! Mon Dieu!
Vrai, c’est humiliant. On est donc tous les mêmes?
Nous sommes donc pareils aux autres?… Comme il pleut!

Tu ne peux pas partir par ce temps… Allons, reste!
Oui, reste, va! On tâchera de s’arranger.
On ne sait pas. Nos coeurs, quoiqu’ils aient bien changé,
se reprendront peut-être au charme des vieux gestes.

On fera son possible. On sera bon. Et puis,
on a beau dire, au fond, on a des habitudes…
Assieds-toi, va! Reprends près de moi ton ennui
Moi près de toi je reprendrai ma solitude.

OBRAS

Antologias Poéticas:

1908 – Les Petites Ames
1912 – Toi et Moi (Eu e Você)
1960 – Vous et Moi

Narrativas:

1916 – La Guerre, Madame!
1938 – Le Prélude
1951 – L’Homme et L’Amour

Teatro:

1917 – Les Noces d’Argent
1921 –Aimer
1922 – Les Grands Garçon
1925 – Robert et Marianne
1932 – Christine
1938 – Duo, d’Aprés Colette


D. H. LAWRENCE – QUANDO A LITERATURA GANHOU SEXUALIDADE

Setembro 21, 2009
D. H. Lawrence foi um dos escritores britânicos que mais gerou polêmicas e opiniões controversas. Sua obra, apesar de redimida e considerada como renovadora na estética da literatura inglesa do século XX, ainda hoje é incompreendida pelas pessoas, que já o chamaram, entre muitos adjetivos, de poeta indecente, imoral e pornográfico.
O que mais causou repulsa na obra de D. H. Lawrence aos seus contemporâneos, foi a coragem de dar sexualidade às personagens. Longe de ser obscena, a escrita de Lawrence faz do sexo algo natural, parte da essência humana e da sua conduta na sociedade. A entrega dos corpos é o momento que homem adquire contacto com a natureza e a sua verdadeira vertente. O autor não se esquiva de dar importância ao encontro de peles, desnudando a sociedade da sua época, sem fazê-la obscena, mas erótica e humana, sem os preconceitos dos costumes que se fariam decadentes ao longo do século XX, encerrando de vês os resquícios da moral vitoriana na Grã-Bretanha.
A obra de Lawrence reflete um caráter social evidente, onde a industrialização desenfreada da Inglaterra contrastava com o homem do campo, com as tradições. Dar sexualidade às personagens era retratar o mais recôndito dos segredos da intimidade de uma sociedade. De maneira obsessiva, as mulheres, o sexo e o amor afloram como temas latentes no universo de Lawrence. A ousadia custou caro ao autor, que viu a sua obra ser censurada dentro do próprio país. Clássicos como “O Amante de Lady Chatterley”, ou “O Arco-Íris”, foram proibidos por décadas na Grã-Bretanha. Uma obra magnífica foi reduzida à obscenidade do puritanismo da época. Somente o tempo provaria a beleza literária e eterna das palavras de Lawrence, mas ele não viveria para ver este reconhecimento. Morreu sendo injustiçado por seus contemporâneos, aos 44 anos.
D. H. Lawrence deixou uma obra que se estende por quase todos os gêneros literários, dela faz parte romances, contos, peças teatrais, livros de viagem, crítica literária, cartas pessoais e livros de arte, além de muitas traduções. Mergulhar na obra deste autor modernista é beber da essência humana, sentir o pulsar sexual daqueles que enfrentam o seu tempo sem as roupas que se lhe foram impostas, de cara lavada, sem as maquiagens dos costumes de uma sociedade. O homem e a mulher são seres que lutam, sonham, amam e fazem sexo!

Os Primeiros Anos de D. H. Lawrence em Nottingham

David Herbert Lawrence nasceu em 11 de setembro de 1885, na pequena Eastwood, perto de Nottingham, lugar de onde se extraia carvão há séculos. Nasceu de uma família modesta, tendo mais quatro irmãos; a mãe, Lydia Lawrence, era uma ex-professora, que se esforçava para transmitir uma educação mais refinada aos filhos; o pai era um rude homem do interior. A diferença intelectual entre os pais do pequeno David originava atritos e tensões constantes.
Aos doze anos, Lawrence ganhou uma bolsa de estudos para freqüentar a escola secundária de Nottingham. Mostrou-se um aluno brilhante, auferindo prêmios em matemática, francês e alemão e, futuramente, passaria a dominar o espanhol e o italiano.
Cinco anos depois, deixaria a escola para empregar-se como escriturário. Três meses depois, uma pneumonia faria com que abandonasse o trabalho. A gravidade da enfermidade afetar-lhe-ia para sempre a saúde. Durante a convalescença, começou a escrever poemas. Foi nesta época que travou amizade com Jessie Chambers, uma jovem que morava em uma fazenda próxima à casa dos seus pais. A ligação entre ambos atingiria um sentido platônico, que aguçaria a sensibilidade do escritor, fazendo-o debruçar-se sobre os grandes poetas como Shakespeare e Baudelaire. A amizade entre os dois estender-se-ia por toda a vida. Lawrence ensinava álgebra e francês à amiga, enquanto que aprendia com ela a pintar e a tocar piano.

Piano (tradução)

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo
Uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das cordas
E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri enquanto ela canta.

Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para pertencer
Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora
E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança pelo passado.

Tradução: Cecília Rego Pinheiro

Piano (original)

Softly, in the dusk, a woman is singing to me;
Taking me back down the vista of years, till I see
A child sitting under the piano, in the boom of the tingling strings
And pressing the small, poised feet of a mother who smiles as she sings.

In spite of myself, the insidious mastery of song
Betrays me back, till the heart of me weeps to belong
To the old Sunday evenings at home, with winter outside
And hymns in the cosy parlour, the tinkling piano our guide.

So now it is vain for the singer to burst into clamour
With the great black piano appassionato. The glamour
Of childish days is upon me, my manhood is cast
Down in the flood of remembrance, I weep like a child for the past.

Lawrence e Frieda

Em 1905, Lawrence passou nos exames para ingressar na Universidade de Nottingham, mas só iria freqüenta-la no ano seguinte. Enquanto esperava, começou a escrever “O Pavão Branco”, seu primeiro romance. Na época lecionava para os filhos dos mineiros da sua terra.
Em 1908, deixou a universidade, aceitando um posto na escola primária de Croydon, mesmo sobre os protestos da mãe e de Jessie Chambers, que não o queria tão distante delas. Em Croydon, encontraria a tranqüilidade necessária para voltar a trabalhar na composição de “O Pavão Branco”.
Na ausência do amigo, Jessie Chambers enviou alguns dos seus poemas ao diretor da “English Review”; em novembro de 1909 a revista publicou os poemas, introduzindo o poeta nos círculos literários londrinos. Em 1910, a mesma revista voltaria a publicar um novo conjunto de poemas do jovem escritor. Naquele ano, um câncer matéria à mãe do autor, que se encontrava distante de casa.
Lawrence teria o seu primeiro romance, “O Pavão Branco”, publicado em 1911. Já na sua estréia oficial literária, o autor foi ameaçado com um processo de difamação por causa de algumas situações reveladas no romance.
Em 1912, o autor conheceria aquela que se tornaria a companheira de toda a vida, Frieda von Richthofen. Em abril foi convidado a jantar na casa de um antigo professor de francês, Ernest Weekley. No jantar conheceu Frieda, esposa do mestre e mãe de três crianças. Os dois foram acometidos de uma paixão fulminante. Menos de um mês depois, partiriam juntos para a Alsácia-Lorena, onde viviam os pais de Frieda. Dali seguiriam juntos para a Itália, onde o autor terminou de escrever “Filhos e Amantes” e iniciou “Crepúsculo na Itália”.
Apesar de sempre juntos, Lawrence e Frieda só se viriam a casar em Londres, em julho de 1914, quando Ernest Weekley finalmente concedeu o divórcio à esposa. Na época da Primeira Guerra Mundial, a condição de alemã de Frieda pesou sobre o casal, que chegou a ser expulso da Cornualha, acusado de espionagem, em 1917. Os dois seguiram para Londres, onde formaram uma comunidade de amigos. Juntos, os dois viajaram pela Itália, Alemanha, Áustria, França, Suíça, Ceilão, Austrália, México e Estados Unidos, vivendo por algum tempo em muitos desses lugares.

A Literatura Rejeitada de H. D. Lawrence

Mas o preconceito, a incompreensão e a intolerância dos leitores e críticos britânicos marcariam toda a existência literária de Lawrence. Por diversas vezes seria acusado de imoral, pornográfico e de fazer alusão ao culto do sexo. Já em 1913, ao publicar “Filhos e Amantes”, recebeu dos leitores uma violenta censura, apesar da obra ter sido bem aceita pela crítica.
Em 1915, a publicação de “O Arco-Íris” provocou grande polêmica, culminando com a proibição e apreensão do livro na Inglaterra. A crítica chamou-o de nauseabundo, os leitores consideraram-no obsceno, e os editores retrataram-se publicamente, desculpando-se por ter publicado o livro. Analisando-o com profundidade, não se encontra palavras chulas ou linguagem obscena em momento algum da narração.
Mulheres Apaixonadas”, publicado em 1920, tornar-se-ia uma obra-prima da literatura inglesa ao longo do século XX. Quando publicado, gerou violentas críticas. Concluído durante a estada do autor na Cornualha, o romance foi recusado por vários editores, sendo finalmente publicado nos Estados Unidos. A obra provocou um escândalo na Inglaterra, recendo os mais desairosos adjetivos. Na história, dois casais são confrontados com as armadilhas existenciais da paixão, sendo um deles levado ao fracasso por não ver o sexo como o objetivo da paixão. Um dos momentos de maior polêmica do livro é quando dois homens nus lutam entre si, com uma forte pulsação sexual. A partir de “Mulheres Apaixonadas”, para evitar a perseguição que transformara a sua literatura em obscena, classificando-a de pornográfica, o autor passou a assinar os seus escritos com pseudônimos, como Lawrence H. Davidson, no ensaio “Movements in European History” (Movimento na História Européia). A incompreensão do leitor britânico levou Lawrence a desgostar de viver na Inglaterra, levando-o a peregrinar por diversos países.
Em 1925, iniciou na Itália, o romance que causaria a maior polêmica da sua carreira, “O Amante de Lady Chatterley”. Inicialmente chamado de “Tenderness” (Ternura), o livro não ocupou o tempo do autor, que se dedicava com afinco à pintura, executando uma série de quadros que seriam expostos em Londres. Em outubro de 1927, após ter tido graves problemas de saúde que o levara a tratamentos na Suíça e na Alemanha, voltou à Toscana, na Itália, dedicando-se a concluir “Tenderness”, que à época decidiu mudar o título para “John Thomas and Lady Jane, numa proposital provocação, visto que na tradição popular inglesa os nomes eram uma alusão aos órgãos genitais masculinos e femininos, respectivamente. Mas o romance obteve o título definitivo de “O Amante de Lady Chatterley”, e foi publicado em Florença, na Itália, em 1928. As relações amorosas entre uma aristocrata inglesa, casada com um homem mutilado; e um homem rude, empregado do seu marido; eram descritas de forma intrínseca, sem meias verdades, onde o sexo é visto como a própria salvação da alma, um caminho para suportar as fatalidades da vida. A imprensa britânica classificou o livro como um “esgoto da pornografia francesa”, oi ainda, “o livro mais sujo da literatura inglesa”. Sentindo que a obra ofendia à moral britânica, o governo proibiu-a na Grã-Bretanha, mantendo a proibição durante 32 anos.
A proibição fez com que o livro circulasse clandestinamente pela Inglaterra, sendo cultuado como obra de forte essência sexual, tornando-se uma obsessão entre os jovens, que só lhe enxergavam essa vertente, diminuindo-o como literatura, fazendo de D. H. Lawrence um autor pornográfico, sem o devido reconhecimento literário. O livro circulou com mutilações do texto, tendo três versões, sendo finalmente publicado por completo décadas mais tarde, em Nova York.

A Indecência Pode Ser Saudável (tradução)

A indecência pode ser normal, saudável;
na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

E um pouco de putaria pode ser normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.

Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável,
desde que haja troca de sentimento verdadeiro.

Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa:
a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna sifilítica
e a sodomia no cérebro se torna uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente mórbido.

Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade mo cérebro é vício, perversão.
E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de escolher.

Tradução: José Paulo Paes

Bawdy Can Be Sane (original)

Bawdy can be sane and wholesome,
in fact a little bawdy is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

And a little whoring can be sane and wholesome.
In fact a little whoring is necessary in every life
to keep it sane and wholesome.

Even sodomy can be sane and wholesome
grandet there is an exchange of genuine feeling.

But get any of them on the brain, and they become pernicious:
bawdy on the brain becomes obscenity, vicious.
Whoring on the brain becomes really syphilitic
and sodomy on the brain becomes a mission,
all the lot of them, vice, missions, etc., insanely unhealthy.

In the same way, chastity in its hour is sweet and wholesome.
But chastity on the brain is a vice, a pervesion.
And rigid suppression of all bawdy, whoring or other such commerce
is a straight way to raving insanity.
The fifth generation of puritans, when it isn’t obscenely profligate,
is idiot. So you’ve got to choose.

Últimos Momentos

Em 1928, D. H. Lawrence estava debilitado pela tuberculose. Ao mesmo tempo em que assistia com profundo desgosto o romance “O Amante de Lady Chatterley” circular com edições espúrias e texto adulterado, via o corpo combalido, a definhar-se ao sabor de tão grave doença.
O escritor Richard Aldington, amigo pessoal de Lawrence, temendo pela fatalidade da doença, levou-o para a ilha de Port-Gross, para que se pudesse recuperar. Ali, ele encontrou fôlego para escrever artigos, notas e comentários para jornais.
Sentindo-se melhor, em 1929, Lawrence viajou para Paris, hospedando-se na casa do amigo e escritor Aldous Huxley. Na ocasião, decorria em Londres uma exposição dos seus quadros, que alcançaria grande sucesso, apesar de a imprensa considerá-la “o maior insulto jamais feito ao público londrino”. Lawrence continuava a ser visto com desdém e desprezo pela crítica e imprensa do seu país.
Mas o estado de saúde de D. H. Lawrence agravou-se consideravelmente. Foi aconselhado por um médico a refugiar-se no sanatório de Vence, na França, submetendo-se a um grande tratamento. Aldous Huxley acomodou o amigo e a esposa Frieda, em uma casa de uma vila de Vence. Mesmo diante da fatalidade iminente, Lawrence acreditava que venceria a doença, escrevendo várias cartas aos amigos, anunciando o restabelecimento.
No dia 2 de março de 1930, D. H. Lawrence foi acometido por uma meningite tuberculosa, que lhe foi fatal. No leito de morte, lançou um último olhar à mulher Frieda, como se lhe quisesse dizer algo. Mas se calou para sempre. Aldous Huxley, em um último gesto, fechou os olhos do amigo. David Herbert Lawrence, o autor que dera sexualidade à literatura inglesa, morria aos 44 anos de idade.

Cronologia

1885 – Nasce, em 11 de setembro, David Herbert Lawrence, em Eastwood, Nottigham, Inglaterra.
1897 – O pequeno David é admitido na escola secundária de Nottingham.
1902 – Deixa a escola, arrumando um emprego de escriturário. Torna-se amigo da jovem Jessie Chambers. Sucumbe a uma pneumonia. Durante a convalescença escreve os seus primeiros poemas.
1905 – É admitido na Universidade de Nottingham. Dá início ao seu primeiro romance, O Pavão Branco.
1909 – Enviados por Jessie Chambers, são publicados alguns poemas de D. H. Lawrence na revista English Review.
1910 – Morre, em 9 de dezembro, Lydia Lawrence, mãe do escritor.
1911 – Publicado, em janeiro, O Pavão Branco.
1912 – Conhece Frieda von Richthofen, esposa do seu antigo professor de francês. Apaixonada, Frieda abandona o marido e os filhos para seguir o escritor. Parte com Frieda para a Alsácia-Lorena; a seguir, vão para a Itália.
1913 – Publica O Intruso. Termina de escrever Filhos e Amantes e inicia outro romance, Crepúsculo na Itália.
1914 – D. H. Lawrence e Frieda voltam para a Grã-Bretanha, onde se casam em Londres, após o marido de Frieda conceder-lhe o divórcio. Inicia o projeto que resultaria no romance Mulheres Apaixonadas.
1916 – Publica Crepúsculo na Itália.
1917 – Sob suspeita de espionagem, D. H.Lawrence e Frieda são expulsos da Cornualha. Vão morar em Londres até o fim da Primeira Guerra Mundial.
1919 – O casal parte para a Itália.
1920 – Escreve duas coleções de poemas e vários contos.
1921 – Escreve o romance O Mar da Sardenha.
1922 – Viaja com a mulher para o Ceilão e para a Austrália.
1923 – Escreve o romance Canguru. Viaja para o continente americano, passando pelos Estados Unidos e fixando residência no México.
1925 – Começa a escrever Ternura, título que mais tarde seria mudado para O Amante de Lady Chatterley. Dedica-se à pintura.
1926 – Escreve A Serpente Emplumada.
1927 – Visita a Toscana, na Itália. Com gravíssimos problemas de saúde, parte para a Suíça. Para dar seguimento aos tratamentos de saúde, segue com Frieda para a Alemanha.
1928 – Publica, em Florença, o romance O Amante de Lady Chatterley. Realizada em Londres, apesar das maledicências da imprensa, uma bem sucedida exposição com as pinturas de D. H. Lawrence.
1929 – Viaja com a mulher para Paris, hospedando-se na casa de Aldous Huxley. Agravado o estado de saúde do escritor. Inicia um tratamento intensivo no sanatório de Vence, na França.
1930 – Morre, em 2 de março, em Vence, França, vítima de uma meningite tuberculosa.

OBRAS:

Romance

1911 – The White Peacock (O Pavão Branco)
1912 – The Trespasser (O Intruso)
1913 – Sons and Lovers (Filhos e Amantes)
1915 – The Rainbow (O Arco-Íris)
1920 – Women in Love (Mulheres Apaixonadas)
1920 – The Lost Girl
1922 – Aaron’s Rod (A Vara de Aarão)
1923 – Kangaroo (Canguru)
1924 – The Boy in the Bush
1926 – The Plumed Serpent (A Serpente Emplumada)
1928 – Lady Chatterley’s Lover (O Amante de Lady Chatterley)
1929 – The Escaped Cock (posteriormente publicado como The Man Who Died)
1930 – The Virgin and the Gypsy (A Virgem e o Cigano)

Conto

1914 – The Odour of Chrysanthemums
1914 – The Prussian and Other Stories
1922 – England, My England and Other Stories
1922 – The Horse Dealer’s Daughter
1923 – The Fox, The Captain’s Doll, The Ladybird
1925 – St Mawr and Other Stories
1926 – The Rocking-Horse Winner
1928 – The Woman Who Rode Away and Other Stories
1930 – The Virgin and the Gipsy and Other Stories
1930 – Love Among the Haystacks and Other Stories
1994 – Collected Stories

Poesia

1913 – Love Poems and Others
1916 – Amores
1917 – Look! We Have Come Through!
1918 – New Poems
1919 – Bay: A Book of Poems
1921 – Tortoises
1923 – Birds, Beasts and Flowers
1928 – The Collected Poems of D. H. Lawrence
1929 – Pansies
1930 – Nettles
1932 – Last Poems (póstumo)
1940 – Fire and Other Poems
1964 – The Complete Poems of D. H. Lawrence
1972 – D. H. Lawrence: Selected Poems

Teatro

1912 – The Daugher-in-Law
1914 – The Widowing of Mrs Holroyd
1920 – Touch and Go
1926 – David
1933 – The Fight for Barbara
1934 – A Collier’s Friday Night
1940 – The Married Man
1941 – The Merry-go-Round
1965 – The Complete Plays of D. H. Lawrence

Não Ficção

1914 – Study of Thomas Hardy and Other Essays
1921 – Movements in Eupean History
1921 – Psychoanalysis and the Unconscious
1922 – Fantasia of the Unconscious
1923 – Studies in Classic American Literature
1925 – Reflections on the Death of a Porcupine and Other Essays
1929 – A Propost of Lady Chatterley’s Lover
1931 – Apocalypse and the Writings on Revelation
1936 – Phoenix: The Posthumous Papers of D. H. Lawrence
1968 – Phoenix II: Uncollected, Unpublished and Other Prose Works by D. H. Lawrence
2004 – Introductions and Reviews
2004 – Late Essays and Articles
2008 – Selected Letters

Livros de Viagem

1916 – Twilight in Italy and Other Essays
1921 – Sea and Sardinia (O Mar da Sardenha)
1927 – Mornings in México
1932 – Sketches of Etruscan Places and Other Italian Essays

A Procura da Verdade

Não procure por mais nada, nada
senão a verdade.
Fique bem calmo, e tente e chegue à verdade.

E a primeira questão a se perguntar é:
Quão mentiroso eu sou?


PALAVRAS DE AMOR – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Setembro 14, 2009

Palavras de amor quando ditas pelo mais primordial dos mortais tornam-se um momento de beleza; quando ditas pelos mais sensíveis tornam-se um poema de amor. Palavras de amor, quem não as proferiu? Quem não as escreveu? Quem não as roubou aos poetas para sentir a sua intensidade ou presentear o grande amor?
No baú das minhas memórias, hei que me deparo com as minhas palavras de amor juvenil, que na época as chamei de poemas. Mas como a poesia está no dilacerar da sensibilidade, mesmo quando rompida pela estética da métrica, chamo aos meus versos livres de palavras de amor.
Às vezes olho para aquele que os escreveu e que hoje se encontra perdido dentro do tempo da minha mente, e pergunto-me: quem eras tu que os escreveu? Que heterônimo foi desprendido dos espelhos do meu sentimento? Ainda seria capaz de escrevê-los assim, tão livres, comprometidos apenas com os sentimentos, sem a técnica estética das palavras? Mas o poeta não tem compromisso apenas com o sentimento do eu mais profundo? Não tem como obrigação tornar bonito a rima da dor com o amor?
Um dia cansei de escrever o amor e fui vivê-lo na sua essência bruta. Meus versos perderam-se em lençóis estranhos e manchados pelo prazer, distanciaram-se entre as pernas desconhecidas que aconcheguei aflito a minha insaciável vontade de ejacular o amor. Sofistiquei o amor nas teias do prazer, muitas vezes desencontrando-o do calor do coração.
Então onde encontrar o jovem que escreveu os poemas de amor? Que desconhecido no tornamos! Fecho os meus olhos e posso vê-lo romântico, a sonhar com a rosa azul de um jardim eternamente secreto. Relembro corpos nus e suados, a desenhar relevos de paixão com os seus pêlos artísticos à meia-luz do quarto. Ressuscito imagens imprecisas de ventres ao léu, que no ápice do meu prazer, colheram a pequena morte de mim. Então, eu, homem maduro, recolho as palavras de amor escritas pelo meu eu de juventude. Roubo-as para mim, afinal palavras de amor, canções de amor, poemas de amor, são de quem delas necessitam.

Pássaro no Asfalto Quente

Percorro um mundo aberto em palco,
Como um viajante em fuga,
Um pássaro do asfalto,
Procurando a semente do teu segredo,
Deixa eu dormir meu corpo no teu olhar,
Deixa eu fechar meus olhos e te sonhar,
Deixa eu queimar meu mundo a te perseguir,
E desfolhar meus gritos na tua voz,
Deixa eu correr teus medos na minha sorte,
Deixa eu tentar o risco de te amar,
Soltar o meu destino pelas estradas,
Pousar o meu vôo no teu calor,
Deixa eu sentir teu corpo nas minhas mãos,
Deixa eu gemer teu nome na noite plena,
Deixa eu morrer meus passos na tua liberdade,
E no dia apenas poder sorrir o teu amor.

Outros

Outras palavras me chegam,
Outros segredos embalam-me,
Outro silêncio me cala,
Já outro sol me aquece,
Outros sorrisos me pulsam,
Roubam a minha alma ao vento,
Outra vontade,
Outro sonho,
Outros desejos agitam-me,
Outras metades me escondem,
Novos medos me gritam,
Outros pássaros voam,
Perseguem a luz da manhã,
Outra magia a soprar-me,
Acaricia a força do presságio,
Outro destino me arrasta,
Socorre a minha agonia,
Outros amigos me chegam,
Como se fosse meio-dia,
Outras promessas de vida,
Outras tantas juras de amor,
Outro pecado da noite,
Outro pedaço que se me desprende,
Outra ternura que se expande,
Outro amor,
Outra mentira…

Estado de Afeição

 

 

Tanto tempo de espera,
De luzes presas no escuro,
Caminhando ilimitado,
Sem futuro filosófico,
Sem passado amordaçado,
De repente hoje estou resumido,
Nesse fascínio que me atingiu,
Numa busca incomparável,
Vou brincando de menino,
Dos teus olhos fazendo brilho,
Como pássaro que não pousa,
No teu peito fazendo chama,
Vou negando o meu destino,
De ti tento fugir,
Mas não consigo ir com a lua,
Com a mesma bebedeira,
Tua nuvem que me flutua,
Vai devassando os meus segredos,
E o meu medo a te ferir,
A torturar a nossa poesia,
Como tristes navegantes,
Não fugimos do naufrágio,
Não queimei as tuas lembranças,
Não esqueci a tua voz,
Não rasguei teu endereço,
Não discuto o começo,
Ou a culpa que mereço,
No meu medo vou derrubando o teu poema,
Por favor não vá fugir,
Dos meus olhos desaparecer,
Eu acredito e confesso,
Quero hoje os teus versos.

O Menino

Ele é quase um menino,
Empolgou o meu destino,
Ele anda apressado,
Traz o peito carregado,
É um poema divino,
Quase repete um hino,
Ele é mais que criança,
Traz em si a lembrança,
Divaga nas madrugadas,
Persegue noites apagadas,
Ele vive drogado,
De amor não terminado,
Ele anda perdido,
Com um olhar perseguido,
Em alguns momentos conversa,
N’outros apenas versa,
Leva embora a sua alma,
Sem querer pede calma,
Ele é mais que um passado,
Que um canto sufocado,
Ele é tudo o que diz,
Quando nada quis,
Mas ele é desatino,
Pois é quase um menino.

Pensamentos de Amor e de Existência – Jeocaz Lee-Meddi

“O amor quando impossível mutila mais do que a pior das guerras.”

“Não nos podemos perder de nós mesmos quando amamos alguém. É como perdermos a direção da vida e haurirmos um ar letífero.”

“Não prometas nada que vá além da próxima primavera. Nenhuma fidelidade resiste à insatisfação humana, se assim o fosse, Adão estaria até hoje no Éden, fiel às promessas de Deus.”

“Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza.”

“Após a tempestade há um momento sublime de encontro entre o ódio e o amor.”

“Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda.”

“Os calendários foram criados para inserirmos a nossa existência em um breve momento de Deus.”

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações.”

“Ser egoísta faz parte dos filhos do Adão degenerado. Ser magnânimo também.”

“Todas às vezes que me descobri feliz, tornei-me indolente para procurar a felicidade.”

“Muitas vezes aquele que faz feliz a todos à sua volta, não consegue propiciar esta felicidade a si mesmo.”

“Os meus extremos nunca me permitiu ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor.”

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade.”

Texto, poemas e pensamentos de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Paulo César (1 Amor É…, 4 Entre Nós o Amor), Guilherme Santos (2 O Céu de Opacas Sombras Abafadas), Luís Antonio (3 Jeocaz Lee-Meddi, Ode a Luz, 5 Jeocaz Plural, 6 Retrato Jeocaz Lee-Meddi)


FERNANDO PESSOA – OS MÚLTIPLOS EUS DE UM POETA

Agosto 28, 2009

Dono de uma personalidade ímpar, de uma alma psicológica plural, misteriosa e mística, Fernando Pessoa tornou-se o maior poeta de língua portuguesa. Senhor absoluto da beleza das palavras e das verdades da essência humana, a sua poesia atinge a todos, sem distinção de raças ou classes sociais. A sua mensagem é de identificação universal, tocando de forma indelével a sensibilidade humana.
Considerado ao lado de Pablo Neruda, o maior poeta do século XX, Fernando Pessoa foi um dos responsáveis para que a cultura portuguesa atingisse o mundo contemporâneo, dando mais fama à literatura do seu país do que o próprio Luís de Camões. O mundo inteiro rende-se à sua poesia.
Fernando Pessoa dividiu a sua obra com vários personagens que criou, dando-lhes nome e personalidades distintas. Os chamados heterônimos, o médico Ricardo Reis, o camponês Alberto Caeiro e o engenheiro Álvaro de Campos, entre os mais famosos, foram vozes poéticas saídas da genialidade do poeta, que enriqueceram a sua obra grandiosa.
Sendo o poeta mais lido da língua portuguesa, com uma obra traduzida com sucesso em diversas línguas, Fernando Pessoa viveu uma vida discreta, sem histórias de amor registradas, sem fatos escandalosos ou dramas pessoais. Conviveu com artistas do modernismo português, como Almada Negreiros e Sá Carneiro. Para sobreviver trabalhou no comércio, como tradutor e, como colaborador de agências publicitárias. Justificava as profissões paralelas à sua escrita dizendo: “Ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação”. Sua personalidade enigmática venceu a discrição de vida, explodindo na beleza da sua obra.
Ironicamente, Fernando Pessoa só publicou um livro em vida, “Mensagem”, um conjunto de poemas dedicados aos heróis portugueses, e ao sonho máximo do sebastianismo: o Quinto Império. O livro trazia umas trinta páginas, um nada diante dos vinte e cinco mil manuscritos que deixou, em parte por classificar, dentro da sua mítica arca.
Fernando Pessoa morreu aos 47 anos de idade. Sua morte não causou comoção, pois era um quase desconhecido. Sua obra, aos poucos, foi sendo tirada da arca mágica e descoberta pelo mundo. Da poeira dos manuscritos, revelou-se um mundo deslumbrante e infinito na grandeza da alma humana. Ainda hoje, poemas inéditos continuam a emergir dos baús. Sua personalidade, quanto mais lida a obra deixada, isola-se em um patamar inatingível, em um magnetismo misterioso inabalável. Pessoa não só fez parte do gênero humano, mas foi a sua própria essência da alma.

Infância e Adolescência na África do Sul

Fernando Antonio Nogueira Pessoa nasceu no Chiado, em Lisboa, num prédio em frente ao Teatro Nacional de São Carlos, em 13 de junho de 1888. Nascido no dia de Santo Antonio, o santo mais popular de Lisboa, o menino recebeu o nome, Fernando Antonio, em sua homenagem. Fernando devido ao nome de batismo do santo, Fernando de Bulhões, e Antonio o nome canônico. Era filho do funcionário publico e crítico musical, Joaquim de Seabra Pessoa, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa.
Filho de uma família de pequenos aristocratas, o menino Fernando teve a vida alterada aos cinco anos, em 1893, quando o pai morreu de tuberculose. Seguindo a tragédia, perderia o irmão mais novo, Jorge, em 1894, que não chegou a completar um ano. Diante das adversidades, Maria Magdalena viu-se obrigada a leiloar a mobília e a mudar para uma casa mais modesta da Rua de São Marçal.
No ano de 1895, a mãe casou-se novamente, por procuração, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, na África do Sul. Em razão da profissão do padrasto, o pequeno partiu com a família para Durban, em 1896, onde viveria por muitos anos.
Foi na África do Sul, então colônia da Grã-Bretanha, que Fernando Pessoa adquiriu uma educação inglesa que o iria influenciar pelo resto da vida. Foi em Durban que viu despertar o seu talento para a literatura. Em 1903, ao candidatar-se para a Universidade do Cabo da Boa Esperança, não obtém uma boa classificação, mas consegue a melhor nota no ensaio de estilo inglês. Aos quinze anos, ele recebe pelo ensaio, o Queen Victoria Memorial Prize (Prêmio Rainha Vitória). Desde esta época, o poeta demonstrou o seu talento para escrever também em inglês, iniciando a produção de vários poemas nesta língua.

Participação na Vida Cultural Portuguesa

Fernando Pessoa só regressaria definitivamente a Portugal em 1905. Ele viria sozinho, para viver com a avó Dionísia e duas tias na Rua da Bela Vista, em Lisboa. No ano seguinte, em 1906, matricular-se-ia no Curso Superior de Letras. Nesta época entra em contacto com importantes escritores do modernismo português.
Morre-lhe a avó Dionísia, em 1907, deixando-lhe uma pequena herança. Com o dinheiro, o poeta funda uma pequena tipografia, a Empresa Íbis-Tipografia Editora – Oficina a Vapor. Para geri-la, ele abandona o curso de letras, mas o negócio não prospera, e em poucos meses vem a falência. A partir de então, passa a trabalhar como tradutor e correspondente estrangeiro em casas comerciais. Trabalharia nessa profissão o resto da sua vida.
Fernando Pessoa passou a interessar-se pela obra de Cesário Verde e do Padre Antonio Vieira. Em 1912, toma para si a atividade de ensaísta e crítico literário, estreando-se com o artigo “A Nova Poesia Portuguesa Sociologicamente Considerada”, publicado pela revista “Águia”, órgão oficial da Renascença Portuguesa. Para esta revista, faria ainda os artigos “Reincidindo…” e “A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico”.
Pouco depois, desliga-se do grupo da Renascença, aliando-se à geração mais nova, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, que marcaria o modernismo português. Com os amigos, fundaria a revista “Orpheu”, em 1917. Em 1921 colabora com o único número de “Portugal Futurista”. Em 1921 seria lançada a “Contemporânea”. Em 1924, dirige com Ruy Vaz a “Athena”. Em 1927 escreve para a “Presença”, onde passa a dar conhecimento dos seus versos. Nesta época colabora com textos para os jornais. Passa a colaborar com uma agência publicitária, atividade que exerceria de 1925 a 1935, ano da sua morte.

Vida Sem Grandes Paixões e Voltada Para o Ocultismo

Fugindo ao estereótipo da vida dos grandes poetas, que na sua maioria, viveram grandes e atribulados romances, Fernando Pessoa teve uma vida amorosa em branco, o que levou alguns comentários sobre uma suposta homossexualidade, algumas vezes despejada em alguns poemas; ou mesmo, a ausência de uma vida sexual. Ele jamais se casou.
Uma única mulher fez parte da sua biografia, Ofélia Queiroz, colega de trabalho, com quem teve um breve namoro e trocou cartas de amor. Ofélia dirigia-se a ele nas cartas como Ferdinand Personne, ou “Monsieur Personne”. Mais tarde, Agostinho da Silva, que conhecera pessoalmente Fernando Pessoa, relataria que o poeta confidenciara-lhe arrependido de ter escrito as cartas de amor a Ofélia , pois o fizera movido pela fantasia heteronímica, sem jamais ter tido paixão por ela. Quando viu que Ofélia, uma mulher carente, estava irremediavelmente apaixonada por ele, apercebeu-se do ardil do amor fictício que vivia e pôs fim a ele, para não fazer uma mulher real e apaixonada sofrer.
Se a vida amorosa foi feita de mistério, também o misticismo e ocultismo que teria praticado deixaram grandes lacunas de dados. Sua suposta ligação com a Maçonaria e com a Rosa Cruz jamais foi provada, não se conhecendo nenhuma filiação do poeta a essas escolas em suas lojas ou fraternidades. O que se tem registrado é a defesa pública dessas organizações, feita por ele no “Diário de Lisboa” , contra as perseguições do Estado Novo, em 1935.
Fernando Pessoa estabeleceu mapas astrológicos para a maioria dos seus heterônimos e para Portugal. Fazia consultas astrológicas para si mesmo. Durante os seus estudos de astrologia, teria realizado mais de mil horóscopos.
Das chamadas ciências ocultas, Fernando Pessoa mostrou-se um estudioso profundo, tendo deixado uma razoável biblioteca de temas esotéricos anotada, além de escritos da sua própria autoria. Proclamava-se um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal. Era um grande admirador de Jacques de Molay, último grão-mestre dos Templários queimado vivo na fogueira. Dizia em defesa do mártir dos cavaleiros do Templo, que todos deveriam combater “os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Os Heterônimos de Fernando Pessoa

A beleza estética da obra de Fernando Pessoa deve-se à criação dos diferentes e marcantes heterônimos. Neles, o eu do poeta diluiu-se na escrita, fragmentando-se em personalidades poéticas complexas e de personalidades definidas. Uma vez tendo escrito em privado, com uma única publicação em vida, a escrita repleta de inovações prosódicas não é alcançada por seus contemporâneos. Quando revelada, trar-lhe-ia fama internacional, construindo um grande elemento da literatura universal.
Fernando Pessoa faz a divisão do eu, levando ao extremo dos limites a multiplicação da personalidade, transformando a identidade falsa de cada um deles em verdadeira, tornando-as imiscíveis.
Os heterônimos mais conhecidos na obra de Fernando Pessoa foram três: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Sobre eles o próprio poeta escreveu, em uma carta a Adolfo Casais Monteiro:
Criei, então uma coterie inexistente. Ricardo Reis nasceu em 1887, não me lembro do dia e mês (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (às 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como se sabe é engenheiro naval (por Glasgow) (…). Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil quanto era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de Campos é alto (1,75m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos – o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo e pai e a mãe, (…). Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico: vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Com personalidades definidas e histórias de vidas próprias, cada heterônimo vai assumir para si um tipo e tema de poesia. Alberto Caeiro, o mestre, guardador de rebanhos, tem uma poesia filosófica. Foi morto por seu demiurgo no mesmo ano que foi criado, na revista “Orpheu”. Álvaro de Campos é um engenheiro futurista, cultor da máquina e do progresso, sua poesia é mais crítica. Ricardo Reis, o monárquico, cultiva em seus poemas Horácio e a tradição clássica. Há ainda um quarto heterônimo de grande importância na obra do poeta, Bernardo Soares, que é tido como o mais parecido com Fernando Pessoa, daí, muitas vezes tido como pseudo-heterônimo. Bernardo Soares, o inadaptado social, rabisca os seus fragmentos e impressões de Lisboa em “O Livro do Desassossego”.
Fernando Pessoa morreria no dia 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luis dos Franceses, em Lisboa, sua terra natal. As causas da morte seriam uma “cólica hepática”, associada a uma cirrose hepática, fruto das longas tertúlias no “Martinho da Arcada” e na “Brasileira do Chiado”, regadas à aguardente.Tinha 47 anos de idade. Conta-se que nos últimos instantes de vida, escreveu em inglês, a última frase: “I Know not what tomorrow will bring” – “Não sei o que amanhã trará”.

[275] – Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se eu soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo se eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que fôr, quando fôr, é que será o que é.

Passagem das Horas (Enxertos) – Álvaro de Campos

Beijo na boca todas as prostitutas,
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.
Tudo é a razão de ser da minha vida.

Cometi todos os crimes,
Vivi dentro de todos os crimes
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-rne,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.

Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,
E todos os pederastas – absolutamente todos (não faltou nenhum).
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!

(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,
Os seus half-holidays inesperados…
Mary, eu sou infeliz…
Freddie, eu sou infeliz…
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!

Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim …
Meu coração tribunal, meu coração mercado,
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,
Estalagem, calabouço número qualquer cousa
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,
Meu coração postigo,
Meu coração encomenda,
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.

Todos os amantes beijaram-se na minh’alma,
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.

Vivem em Nós Inúmeros – Ricardo Reis

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu ‘screvo.

Vaga, no Azul Amplo Solta – Fernando Pessoa

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

Cronologia

1888 – Nasce, em 13 de junho, em Lisboa, Portugal, Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
1893 – Nasce, em janeiro, o irmão Jorge. Em 13 de julho morre-lhe o pai, vitimado pela tuberculose.
1894 – Morre o irmão Jorge, em janeiro, pouco antes de completar um ano.
1895 – Em julho, o pequeno poeta escreve o seu primeiro poema. João Miguel Rosas, pretendente da sua mãe, é nomeado cônsul interino em Durban, na África do Sul, partindo para aquela região. Em dezembro, o cônsul casa-se com a mãe de Fernando Pessoa, por procuração.
1896 – Parte com a família para Durban. Em novembro nasce a irmã, Henriqueta Madalena.
1897 – O poeta entra para o curso primário.
1898 – Nasce a segunda irmã, em outubro.
1899 – Ingressa na Durban High Scholl. Cria o pseudônimo Alexander Search.
1900 – Nasce Luís Miguel, terceiro irmão do poeta.
1901 – Aprovado no exame da Cape Scholl High Examination. Morre a irmã do meio. Começa a escrever poesias em inglês. Ao lado da família, parte em agosto para uma visita a Portugal.
1902 – Nasce em Lisboa, o irmão João Maria. Em setembro, volta para Durban.
1903 – Presta exame de admissão à Universidade do Cabo, obtendo a melhor nota no ensaio de inglês, ganhando o Prêmio Rainha Vitória.
1904 – Nasce, em agosto, a irmã Maria Clara. Conclui os estudos na África do Sul.
1905 – Sozinho, retorna definitivamente para Lisboa, passando a viver com a avó Dionísia.
1906 – Matricula-se no Curso Superior de Letras, em Lisboa. Morre a irmã Maria Clara.
1907 – Desiste do Curso Superior de Letras. Morre a avó Dionísia. Abre, por um curto período, uma tipografia.
1908 – Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.
1910 – Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.
1912 – Publica artigo literário na revista “Águia”.
1914 – Cria os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de “O Guardador de Rebanhos” e o “Livro do Desassossego”.
1915 – No primeiro número da revista “Orpheu”, o poeta mata Alberto Caeiro.
1916 – Suicida-se o amigo Mário de Sá Carneiro.
1920 – Conhece Ofélia Queiroz. Os irmãos e a mãe voltam para Portugal. Deprimido, pensa em internar-se em uma casa de saúde. Rompe com Ofélia.
1921 – Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.
1924 – Dirige com Ruy Vaz a revista “Athena”.
1925 – Morre, em 17 de março, em Lisboa, a mãe do poeta.
1927 – Passa a colaborar com a revista “Presença”.
1929 – Volta a relacionar-se com Ofélia Queiroz.
1931 – Rompe novamente com a namorada.
1934 – É publicado o seu livro “Mensagem”.
1935 – Internado em um hospital, no dia 29 de novembro, com diagnóstico de cólica hepática. Morre no dia 30


LISBOA: ALEXANDRE E EU – AL BERTO

Julho 9, 2009

Há exatos quinze anos, Lisboa era aclamada a Capital Européia da Cultura 1994, trazendo uma série de eventos culturais que eclodiram por toda a cidade. Os velhos prédios da cidade foram restaurados, ganhando cores vivas e diversas. O Bairro Alto foi chamado de “A Sétima Colina”, sendo o principal símbolo dos eventos culturais. Seus bares tornaram-se efervescentes, renovando a juventude que o freqüentava. Foi neste clima festivo que mais convivi com o poeta Al Berto e com o seu grande amigo, Alexandre Matos (ambos juntos na fotografia colorida).
O convívio foi fugaz, mas para sempre. Das noites no Frágil aos jantares no Targus, dos encontros constantes n’A Brasileira do Chiado, ao desfile de formatura em estilista do Alexandre, no Coliseu dos Recreios, serviu para que eu pudesse perceber o texto que me seria entregue mais tarde.
Em junho de 1997, um câncer fulminante decepou a vida do Al Berto. Em agosto reencontrei Alexandre Matos no bar do Miradouro de Santa Luzia. Estava de férias em Lisboa, pois há pouco mais de um ano fora morar em Turim, na Itália. Estava deprimido, abatido e inconsolável pela recente morte do Al Berto. A partir deste encontro, Alexandre trouxe-me várias cartas e textos do poeta, feitas a ele, perguntando-me se poderia ajudá-lo a publicá-las. As cartas, de teor intimamente pessoais, foram devolvidas. Um texto chamou-me a atenção, “Lisboa: Alexandre e Eu”, escrito em 1994, em laudas ainda datilografadas. O texto foi um presente do Al Berto ao Alexandre, que lhe tinha dito, fizesse o que bem entendesse com ele. A idéia era aproveitar o texto, verdadeira poesia em prosa, em um pequeno livro com fotografias feitas por Alexandre Matos. Mas quis a vida que eu seguisse um caminho diferente e retornasse ao Brasil, e os planos de publicar o texto do Al Berto, que continuou inédito, malograram.
Um texto de rara beleza, “Lisboa: Alexandre e Eu”, de Al Berto, traz a atmosfera das noites lisboetas, nas ruas do Bairro Alto. Cita lugares, os coletivos dos bairros, a noite, a bebida, a paixão e o amor. Traz uma melancolia madura, de alguém que já pressentia que a morte estava por perto e fazia, da sua poesia, o legado, o testamento para aqueles que amava. O texto é um jogo de metáforas e palavras diluídas numa beleza etérea, contínua, de paisagens urbanas, tendo o Tejo como centro e Lisboa como protagonista das vidas e das paixões. O sangue e o desejo transbordam as palavras, servidas pelos quartos dos amantes em cálices de bebidas quentes e dilacerantes.
Al Berto e Alexandre Matos, dois amigos situados na memória do meu coração. O texto que segue, provavelmente ainda inédito, é a minha homenagem aos dois, com as fotografias feitas por Alexandre Matos, do jeito que ele sonhara um dia. A autorização para que fizesse o que bem entendesse com o texto veio do próprio Alexandre. Aqui, fotografia e poesia unidas em uma beleza singular, a mostrar que o amor vence o tempo e a morte, imagens e palavras eternizam o que o vento soprou em um passado para sempre gravado nas ruas de Lisboa.

Lisboa: Alexandre e Eu, por Al Berto

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar.
Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.
E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas, estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.
E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada.
Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.
Ponho os óculos, e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.

Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.
Por isso bebo.
Beber, ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de no perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
- Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi.
- Não me abandones, fica…
E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos “A Dança” de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, os dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento a tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.
Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.
Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.
Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia-dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de-amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.
Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso. E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.
Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos nos escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensangüentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.
O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema.
Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto, Lisboa, 1994

Fotos: Alexandre Matos

Veja também:


LUÍS DE CAMÕES – POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

Julho 6, 2009
No final do século XV Portugal tornou-se uma nação voltada para as grandes navegações que expandiriam o mapa do mundo, descobrindo novas terras e continentes. Dividiu o mundo novo com a Espanha, através do Tratado de Tordesilhas, em 1494, tornando-se uma das mais poderosas nações. O apogeu viria com o rei Dom Manuel I, que viu em seu reinado a saga de Vasco da Gama, que chegou a Calicute, na Índia, em 1498; e, Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil em 1500. A saga portuguesa pela conquista dos mares findaria em 1578, quando o rei Dom Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, norte da África, sem deixar descendentes. Em 1580 Portugal passaria a ser governado pelos reis da Espanha, também eles descendentes de reis portugueses. A saga chegara ao fim.
Luís de Camões, maior poeta da língua portuguesa, viveu neste período glorioso da história do seu país e morreu com ele. Sua vida é obscura, com poucos registros históricos, sendo o pouco que se conta ou que se sabe, muitas vezes de veracidade duvidosa, às vezes beirando à lenda. Entretanto a sua obra é conhecida no mundo inteiro. O épico “Os Lusíadas” faz parte da galeria de obras universais, tendo a sua tradução para diversas línguas, sendo admirada pelos maiores escritores do mundo e pelos amantes da literatura.
Camões, dono de uma erudição grandiosa, descreveu a saga do seu povo, mesclando figuras mitológicas com personagens seculares, transformando mitos gregos em personagens lusitanos, como o Adamastor, versão do Poseidon (Netuno), senhor dos mares; ou as Tágides, ninfas do Tejo, rio símbolo de Portugal, que deságua em Lisboa, foi porto de partida para as grandes navegações.
Luís de Camões é o símbolo do orgulho lusitano, da sua força e da coragem desbravadora. Viveu intensamente, em diversos lugares, como Macau, Goa e Moçambique, na sua intensidade poética, teve uma vida de grandes dificuldades econômicas, que lhe fez chegar à beira da miséria. Após percorrer as terras da expansão lusitana, voltou a Portugal, para lançar, em 1572, a maior obra da literatura portuguesa, “Os Lusíadas”. Morreu poucos anos depois, em 1580, esquecido e sem que se lhe desse a devida importância, vítima da peste que assolava Lisboa. Com a sua morte, também o apogeu português morreu, só sendo revivido e contado nas páginas do seu poema épico. O dia 10 de junho, data da sua morte, tornou-se o dia de Portugal.

Um Poema

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conforme as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Erudição em Coimbra

O ano de nascimento de Luís Vaz de Camões é incerto, sendo considerado entre 1524 e 1525, provavelmente em Lisboa. Também a sua filiação é tida como duvidosa, tendo como versão mais aceita a de que era descendente de uma família de pequena nobreza de Chaves, norte de Portugal, tendo como pai o fidalgo Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, como mãe.
Provavelmente Camões passou a infância em Coimbra, o maior centro cultural de Portugal da época, com as suas Escolas Gerais (universidade), tendo ali, a orientação do seu tio, dom Bento de Camões, prior do convento de Santa Cruz e docente da universidade. É aceito por historiadores, que o poeta teria freqüentado o Estudo Geral da Universidade de Coimbra, o que explicaria a sua imensa erudição e conhecimentos de humanísticas, das obras de Petrarca, de Dante, dos filósofos gregos e dos poetas latinos. Mas nenhum registro dessa passagem consta nos arquivos da universidade.
Ainda em Coimbra, reza a tradição que muito jovem, era um ardoroso conquistador, tomando para si os corações de diversas mulheres, das plebéias às damas mais belas da nobreza, tornando-se alvo da inveja dos ricos fidalgos. Sua juventude foi presenteada aos livros, aos prazeres do espírito e do corpo.
A necessidade visceral que Camões tinha de desbravar os lugares mais eruditos, provavelmente levou-o a abandonar Coimbra antes de concluir os estudos, assim, o jovem poeta partiu para Lisboa, sendo aceito na corte de dom João III, devido à influência da sua ascendência fidalga. Camões exalaria a sua fama de poeta por toda Lisboa, perpetuando-se como a principal personagem da história da cidade.

Perda do Olho Direito

Na corte lisboeta, o jovem poeta faz versos ardentes e apaixonados para uma dama loura e de olhos claros, cujo nome jamais será revelado. Alguns historiadores apontam o jovem Camões como preceptor do filho do conde de Linhares, linhagem da nobreza portuguesa que seriam protetores do poeta por toda a sua vida aventureira.
Seu vigor juvenil, sua fama de conquistador de damas e os seus conhecimentos infindáveis das letras, geraram inveja e intrigas, que ele próprio participou, corroborando para que crescessem. Aos 24 anos, as teias das intrigas levaram-no à vida aventureira e errante que o lançaria para a história do seu povo. Assim, vitimado pelas efervescências de Lisboa, resultante de um amor mal sucedido, Camões foi desterrado para Belver, interior de Portugal, no Alto Alentejo.
Algum tempo depois de deixar a vida no Paço, Camões recebeu um despacho real, que o enviou transferido de Belver para Ceuta, no norte da África, lugar que servia como base para deter o avanço dos mouros nas investidas contra a península Ibérica. Teria sido em Ceuta que ocorrera um fato que marcou para sempre a vida do poeta, num combate que tomou parte, perdeu o olho direito. Desde então, a imagem de Camões seria para sempre representada com esta deformidade, sendo os seus retratos marcados pela evidência do logro físico.

A Caminho da Índia

Ao retornar a Lisboa, o poeta já não encontrou a deferência das pessoas, ou mesmo a presença dos velhos amigos. Seu rosto, marcado pela perda do olho direito, já não atraía às belas damas da corte. Estava irremediavelmente sozinho.
Em 16 de junho de 1552, Luís de Camões envolveu-se em um incidente que lhe iria mudar a vida. Ao participar da procissão de Corpus Christi, o poeta desentendeu-se com um certo Gonçalo Borges, funcionário da Casa Real. Este é um dos poucos fatos da vida de Camões que está devidamente relatado por um documento histórico, a Carta do Perdão, de 1553. Não se sabe o motivo da desavença, a conseqüência foi o poeta a desferir um grave golpe de espada no pescoço do desafeto. Camões foi levado à prisão, onde ficou preso durante nove meses, enquanto Gonçalo Borges restabelecia-se do ferimento.
Em 1553, Camões foi indultado, mediante o pagamento de quatro mil réis exigidos pelo rei. Poucos dias após ter deixado a prisão, o poeta embarcou como simples soldado, na armada de Fernão Álvares Cabral, filho de Pedro Álvares Cabral, rumo a Goa, na Índia.
Ao embarcar para a Índia, Camões iniciava o processo de conhecimentos que seriam fundamentais para a criação do seu poema épico, “Os Lusíadas”. Os seis meses que passaria no mar, a caminho de Goa, levar-lhe-iam por terras ignotas, jamais imaginadas ou concebidas na imaginação de um poeta. Da calmaria das costas africanas, às tempestades marítimas do oceano Índico, Camões conheceu terras selvagens, civilizações exóticas ao seu mundo cristão, tudo a se mesclar com os clássicos gregos, formando na sua mente um imenso mosaico que quando foi transportado para o papel, tornar-se-ia a maior obra do povo português.

Lendas e Verdades na Composição de “Os Lusíadas

Ao contrário dos seus compatriotas contemporâneos, que construíram grandes fortunas nas possessões asiáticas portuguesas, Luís de Camões passou três anos em Goa a viver na mais completa miséria.
Em 1556, foi nomeado para o cargo de provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes da China, partindo para Macau. É deste tempo a sua participação em refregas militares, com ataques aos nativos que combatiam os portugueses; batalhas contra os beduínos na Arábia e expedições a Malaca e ao Vietnã.
Seria durante o tempo que viveu em Macau que, conta a lenda, teria escrito o épico “Os Lusíadas”. A idéia do poema teria surgido em Lisboa, mas a composição dos seus dez cantos, é fruto incontestável das suas andanças pelo continente asiático.
A composição de “Os Lusíadas” perde-se da veracidade histórica e assimila a narrativa romântica da lenda. Teria sido escrita em Macau, numa gruta à beira mar, para onde o poeta dirigia-se todos os dias. Enquanto compunha verso a verso, era acompanhado da sua amada chinesa, Dinamente. A gruta atribuída à composição de “Os Lusíadas” é pequena, quase uma fenda na rocha, freqüentemente inundada pelas águas da maré alta, sendo impossível que se permaneça tanto tempo dentro dela.
A lenda e a história confundem-se em uma só. Ao retornar para Goa, em 1560, Camões naufragou no caminho, na foz do rio Meckong, salvando-se a nadar apenas com um braço, tendo o outro estendido acima das ondas, erguendo heroicamente “Os Lusíadas”, salvando o seu poema épico.

Publicação de “Os Lusíadas

À volta a Goa foi feita com o poeta mantido sob custódia, para ser julgado, acusado de não ter exercido plenamente a função de provedor-mor sobre os bens dos defuntos e ausentes em Macau, sendo destituído do cargo. Livra-se do julgamento pela intervenção de um amigo influente, conseguindo uma nomeação como feitor em Chaul.
Camões não chega a exercer a nova nomeação, pois é preso por dívidas, através de um requerimento de um certo Manuel Roriz. O poeta escreve um poema humorístico ao vice-rei, Francisco de Sousa Coutinho, o conde do Redondo, a pedir o seu auxílio, sendo por ele libertado.
Camões só deixaria a Índia em 1567, embarcando numa nau rumo a Moçambique, com a passagem sendo oferecida pelo capitão. Na África, o poeta pensava em recorrer à ajuda de um amigo, mas teve as esperanças frustradas, passando a viver ainda com maiores dificuldades.
Foi encontrado pelo historiador Diogo do Couto, em Moçambique, a viver na mais completa miséria, a comer do que lhe dava alguns amigos. O poeta retornaria para Lisboa com Diogo do Couto, que juntamente com outros companheiros embarcados, vestiu-lhe roupas para que pudesse viajar e chegar à corte com mais dignidade ante a miséria que se lhe abatera.
Ao regressar a Lisboa, em 1570, fica a saber da grande peste que assolou a cidade de 1568 a 1569. Já não possui qualquer acesso a corte. Empenha-se em publicar “Os Lusíadas”. Aperfeiçoa a obra, faz uma cópia especial para dedicar ao rei dom Sebastião. Sob a influência do amigo de juventude, dom Manuel de Portugal, o frade dominicano Bartolomeu Ferreira, responsável pela censura do Santo Ofício, não criou obstáculos para a publicação do épico, mesmo ela contendo a presença de divindades pagãs, o que era proibido pela Inquisição. Sobre as figuras pagãs, Bartolomeu Ferreira justificou no seu despacho inquisitorial: “Como isto é poesia e fingimento, e o autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na obra. E por isto me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas”.
Assim, um alvará régio de setembro de 1571, concedeu a licença de publicação da obra, e garantiu os direitos de autor de Camões por dez anos. Em 1572 foi publicado, pela primeira vez, “Os Lusíadas”.

Morte do Poeta e Fim da Autonomia de Portugal

Após a publicação de “Os Lusíadas”, dom Sebastião concedeu uma tença de quinze mil réis por ano a Luís de Camões, quantia pequena quando comparada a outras pensões concedidas na época. A pensão era paga com atraso, causando grandes transtornos ao poeta, que passou os últimos anos de vida preso às limitações financeiras.
Em 1578, o rei dom Sebastião desapareceu nas areias do deserto de Alcácer-Quibir, em meio a uma sangrenta batalha contra os mouros no norte da África, sem deixar descendentes, deflagrando uma grande crise sucessória no trono português.
De 1579 a 1581, Lisboa foi assolada por uma nova epidemia de peste, ceifando várias vidas. Camões contraiu a peste em 1580, sucumbindo em cinco dias, morrendo em 10 de junho.
No meio da epidemia, gerou-se um caos diante de tantos cadáveres acumulados para que fossem inumados. O corpo de Luís de Camões foi envolvido em uma mortalha e atirado, ao lado de outros mortos pela peste, na cripta da igreja de Santa Ana, em Lisboa. Permaneceu ali, até que o grande terremoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa quase que por completo, derrubou o templo, misturando as ossadas que se encontravam ali. Em 1880, todas as ossadas que jaziam na igreja, foram levadas para o Panteão Nacional e para o Mosteiro dos Jerónimos, onde foram estabelecidos, nos dois locais, os túmulos oficias de Luís de Camões, embora não se saiba se aquelas ossadas pertençam realmente ao poeta.
Em 1580 Portugal perdia a sua autonomia, passando a ser governado pelo rei espanhol Filipe II (I de Portugal), descendente de dom Manuel I. Portugal perdia o esplendor alcançado, desaparecido com o seu maior poeta. Mas o reconhecimento do valor de Luís de Camões só viria muito tempo depois. “Os Lusíadas” passou a fazer parte da literatura universal, sendo admirado por pessoas do mundo inteiro. A data da morte do poeta, 10 de junho, passou a figurar como feriado e tido como dia da nação lusitana. A glória desta nação está para sempre registrada no poema épico de um escritor genial, com estilo cravado no classicismo e maneirismo, mas com pinceladas do barroco que despontava, nos paradoxos do famoso poema conhecido por “Amor é fogo que arde sem se ver”.

Outro Poema

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

OBRAS:

Épico

1572 – Os Lusíadas

Lírica 1595 – Amor é Fogo que Arde Sem se Ver
1595 – Eu Cantarei o Amor Tão Docemente
1595 – Verdes São os Campos
1595 – Alma Minha Gentil, Que te Partiste
1595 – Que me Quereis, Perpétuas Saudades?
1595 – Sete Anos de Pastor Jacob Servia
1595 – Sobolos Rios que Vão
1595 – Quem Diz que Amor é Falso ou Enganoso
1595 – Transforma-se o Amador na Cousa Amada
1595 – Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Teatro

1587 – Auto de Filodemo
1587 – El-Rei Seleuco
1587 – Anfitriões

Cronologia

1524 ou 1525 – Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, possivelmente em Lisboa.
1549 – É desterrado para Belver, no Alentejo.
Embarca para Ceuta, no norte da África, para combater os mouros. Em uma refrega, perde o olho direito.
1551 – Regressa de Ceuta, aportando em Lisboa.
1552 – Fere com a espada, um funcionário da Casa Real, sendo preso.
1553 – Consegue ser indultado, mediante pagamento de quatro mil réis, sendo posto em liberdade.
Embarca para Goa, na Índia.
1556 – É nomeado provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes de Macau.
Participa de várias investidas militares pela Ásia.
1560 – Naufraga na foz do rio Meckong, ao retornar à Índia.
1561 – É destituído das funções de provedor.
Enviado para Goa para ser julgado por má gestão dos bens dos defuntos e ausentes em Macau, ficando livre do julgamento graças à intervenção de um amigo.
Nomeado para a função de feitor de Chaul, mas não chega a exercer o cargo.
1562 – Preso por dívidas não pagas, em Goa, sendo libertado pelo vice-rei dom Francisco de Sousa Coutinho.
1567 – Embarca para Moçambique.
1570 – Regressa a Lisboa.
1572 – Publicada a primeira edição de “Os Lusíadas”.
1580 – Morre, em 10 de junho, em Lisboa, vítima de uma epidemia de peste.


JAMES BOND – DAS PÁGINAS LITERÁRIAS PARA O CINEMA

Junho 25, 2009
Há quase seis décadas que a personagem fictícia James Bond, agente secreto britânico, conhecido pelo código 007, vem conquistando legiões de fãs pelo mundo inteiro. Criado pelo escritor britânico Ian Fleming, James Bond surgiu pela primeira vez, na novela “Cassino Royale” (Casino Royale), publicada em 1953. Em 1962, James Bond chegou ao cinema, através do filme “O Satânico Dr. No” (Dr. No), transformando-se em um ícone das galerias dos heróis do mundo contemporâneo. Desde então, as suas aventuras jamais deixaram as telas de cinema, sendo interpretado por diferentes atores.
O sucesso literário e cinematográfico transformou a personagem em uma grande franquia. Mesmo após a morte de Ian Fleming, as suas aventuras continuaram a ser escritas por vários escritores. No cinema , a franquia continua a produzir grandes sucessos, sem arranhar a imagem do agente secreto, ou mesmo levá-la ao desgaste, façanha só possível pela genialidade criativa dos roteiros e a renovação constante dos intérpretes.
James Bond fascina pela inteligência e astúcia, charme carismático, aventuras perigosas e exóticas, pelas conquistas às mais belas mulheres. De humor sagaz e cavalheirismo incondicional, James Bond é fruto da Guerra Fria. Suas aventuras eram construídas na eterna luta ideológica entre o ocidente e a extinta União Soviética. Cabia a ele, sempre a serviço da rainha da Grã-Bretanha, de quem era súdito devotado, salvar o seu país e o mundo dos tentáculos dos espiões vindo do leste, do perigo comunista sobre o mundo capitalista e, principalmente, da paranóia iminente que assolava a mente de todos, trazendo o medo de uma guerra nuclear entre as potências antagônicas que desenharam os campos de batalhas da Guerra Fria. Por várias vezes James Bond, sozinho, salvou o mundo de uma catástrofe nuclear ou de tramas de espiões sem escrúpulos. Herói absoluto, deveu-se a ele a sobrevivência dos sonhos burgueses do mundo ocidental, e mesmo, da sobrevivência de regimes seculares, como o do Império Britânico.
Com a queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim da Guerra Fria, James Bond parecia destinado a pedir a aposentadoria, e ser esquecido diante da globalização. O cinema levou quase meia década para criar fôlego e fazer dele um sobrevivente da extinção da Guerra Fria. Após a queda do regime dos países do leste europeu, 007 só voltaria às telas em 1995; revigorado e pronto para salvar o mundo dos novos inimigos, os terroristas, os detentores das tecnologias daninhas, enfim, os sucessores dos comunistas. Ainda há muitos perigos que ameaçam a segurança da existência humana no planeta, o mundo está longe de ser perfeito, e 007, com a sua sedução e charme, continua a aparar as arestas dessas imperfeições, salvando sozinho, o planeta, os seus governos e habitantes.

James Bond Torna-se o Agente 007

A saga de James Bond começou através de livros de bolsos, da autoria de Ian Fleming, publicados na Grã-Bretanha na década de 1950. Desde a publicação de “Cassino Royale”, em 1953, as aventuras do agente secreto caíram no gosto dos britânicos, fazendo muitos adeptos desta leitura.
Em seus livros, Ian Fleming descrevia James Bond como um homem viril, moreno, alto e de porte atlético, olhar penetrante e de carisma sedutor. Personagem contemporâneo, tinha entre 33 a 40 anos (quando do lançamento do livro, em 1953), o que se deduz ter nascido em 1920. As datas dão o perfil da personagem de Fleming, nascido após a Primeira Guerra Mundial, passará a infância no prelúdio de paz entre as guerras. Desaguou a juventude na Segunda Guerra Mundial, conflito que deixou profundas feridas na Grã-Bretanha. O pai trabalhava para um fabricante de armas, o que revela os meandros sombrios antes da guerra. Além de vender armas, o pai de Bond gostava de aventuras, sendo morto em um acidente, quando escalava montanhas com a Sra. Bond, uma mulher nascida na Suíça. A origem escocesa do pai de Bond, reza a tradição, teria sido uma homenagem de Fleming a Sean Connery, o primeiro ator a interpretar James Bond no cinema, nascido na Escócia.
Órfão aos onze anos, James Bond passaria por várias escolas tradicionais da Inglaterra, tendo alistado-se na Marinha Real durante a Segunda Guerra Mundial. Este fato reforça a data do seu nascimento citada acima. Será na marinha que Bond ascenderá ao posto de comandante. A passagem de Bond pela Marinha Real não deixa de ser uma lembrança romanceada da vida do próprio Ian Fleming, que teve as carreiras de jornalista e diretor interrompidas pela guerra, fazendo-o parte da reserva de voluntários da Marinha Real, em 1939. Mais tarde, exerceu um cargo administrativo na Inteligência Naval, onde realizava, algumas vezes, missões de campo, como invadir locais para fotografar documentos importantes. Tais experiências foram fundamentais para inspirar Fleming na criação da personagem de James Bond.
Uma outra peculiaridade que diz respeito a James Bond, seria a sua iniciação sexual, aos dezesseis anos de idade, quando perdeu a sua virgindade em Paris.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo foi divido entre duas potências, as ocidentais capitalistas lideradas pelos Estados Unidos e Europa Ocidental, e as comunistas, lideradas pela União Soviética. É neste período que James Bond passará a trabalhar para o Serviço Secreto de Inteligência Britânico (SIS, em inglês), fazendo parte dos serviços de espionagem da Sexta Divisão do Diretório da Inteligência Militar, o MI-6. Feito agente secreto, teve como primeiras tarefas o assassínio de inimigos da Inglaterra, o que lhe deu a designação permanente de agente 00, com licença para matar. Como era o sétimo agente, passou a ser conhecido pelo código 007.

Paralelo Entre James Bond e Ian Fleming

O nome James Bond não foi uma criação original da mente genial de Ian Fleming. Na biografia do autor, reza a tradição que James Bond era como se chamava o autor de “Birds of the West Indies”, livro predileto da esposa de Ian Fleming, e, que falava sobre a ornitologia dos anos 1950. No filme “Um Novo Dia Para Morrer” (Die Another Day), de 2002, há uma alusão ao fato, James Bond (Pierce Brosnan), em uma cena, segura o livro nas mãos.
Após o lançamento de “Cassino Royale”, em 1953, Ian Fleming escreveu anualmente, até a sua morte, quatorze livros tendo James Bond como protagonista, sendo doze novelas completas e dois livros de contos.
Muitas evidências fazem da personagem uma versão romanceada da vida do autor, acrescida de outras pessoas conhecidas. Nomes que se tornaram ícones do universo de James Bond são comuns na biografia de Fleming. Um exemplo era a sua casa na Jamaica, onde se refugiava para escrever os livros com as aventuras de 007, chamada de “GoldenEye”, nome utilizado pelo cinema no filme de 1995, que marcou a estréia de Pierce Brosnan como o quinto James Bond.
Ter um destino aventureiro sempre acompanhou a vida de Ian Fleming. Não se furtou às aventuras quando saiu da marinha, escalando montanhas, nadando com Jacques Cousteau, esquiando, sendo repórter e organizando expedições com amigos para lugares exóticos. Aventuras refletidas nas páginas que desvendavam 007, e as suas missões ao redor do mundo, em lugares exóticos, perigosos e paradisíacos. De Paris à Índia, de Tóquio ao Azerbaijão, passando por ilhas vulcânicas, James Bond percorreu o mundo para viver as suas aventuras, assim como o seu criador, Ian Fleming.
O James Bond dos livros de Ian Fleming traz uma atmosfera mais obscura, com uma visão mais realista da vida, distanciando-se da petulância e charme espontâneo da personagem vista no cinema. Traz um corpo atlético, complementado com as suas perícias em artes marciais. O Bond das páginas dos livros gosta de beber vodka e martini batidos, jamais mexido; não dispõe das grandes armas e dos complementos tecnológicos e científicos dos filmes, utilizando principalmente, a inteligência; é um exímio atirador e, apesar de não gostar de matar, não se sente intimidado ou arrependido quando o tem que fazer, cumprindo sem traumas ou complexos, às missões em que tem a licença para matar.

Os Livros de James Bond Escritos por Outros Autores

Foi na sua casa na Jamaica, que Fleming escreveu “Cassino Royale” e todos os livros com as aventura de Bond. Ali, retirava-se uma vez por ano para criar uma nova aventura do agente secreto mais famoso do mundo. Assim seria até 1964, quando Fleming morreu, vitimado por um ataque cardíaco. Tinha deixado doze livros. Após a sua morte, seus herdeiros publicaram dois livros sobre James Bond, “O Homem com Revólver de Ouro” (1965) e o livro de contos “Octupussy and The Living Daylights” (1966).
Com a morte de Ian Fleming, 007 tornou-se uma personagem de franquia. Seus herdeiros deram licença para que outros escritores criassem novos livros com as aventuras de James Bond. Assim, Kingsley Amis, amigo de Fleming, escreveu, sob o pseudônimo de Robert Markham, “Colonel Sun”, em 1968. Em 1973, John Pearson fez um livro como se fosse uma biografia do agente secreto, “James Bond: The Authorised Biography of 007”. John Edmund Gardner tomaria para si a missão de manter as aventuras de Bond, escrevendo quatorze livros de 1981 a 1996, aposentando-se por problemas de saúde. Raymond Benson deu seqüência à saga, escrevendo seis novelas e três contos, publicados em nove livros, de 1997 a 2002. Em 2008, devido às comemorações do centenário do nascimento de Ian Fleming, foi autorizado um novo livro sobre James Bond, escrito por Sebastian Faulks, “A Essência do Mal”, lançado em maio de 2008.

Os Vilões e os Aliados

O mundo que James Bond transita é complexo, movido pelos meandros dos jogos políticos e da espionagem estratégica. A vida do agente secreto é entrelaçada às missões e a diversas personagens, entre elas os aliados de trabalho, os mais temíveis vilões e as mais belas mulheres.
Se James Bond é um espião especial, além do comum, os seus inimigos ou aliados, não lhe ficam atrás. Entre os vilões mais expressivos, inesquecíveis do imaginário de 007, podemos destacar:
Ernst Stavro Blofeld – Líder da organização SPECTRE (Executiva Especial para Contra-Inteligência, Terrorismo, Vingança e Extorsão), sonha em dominar o mundo. É um homem calvo, com uma grande cicatriz na face. Apesar de uma fisionomia invulgar, Blofeld é mestre em disfarçar o rosto com maquilagens, máscaras, e até cirurgias plásticas. É reconhecido pelo seu apego a um gato persa. Foi este vilão o responsável pela morte de Tereza di Vicenzo, única mulher de James Bond.
Dr. Julius No – Cientista especializado em bombas atômicas, não possui as mãos, perdidas em um acidente.
Auric Goldfinger – Um dos mais cruéis vilões da saga de 007. É um reles contrabandista internacional e, simultaneamente um membro da SMERSH, uma agência de espionagem russa. Ao contrário dos agentes ocidentais, fiéis ao governo do seu país, os vilões comunistas das aventuras de Bond vendem a fidelidade à pátria pelo poder e glória do dinheiro. Goldfinger é obcecado por ouro e tem como comparsa o terrível Oddjob.
Max Zorin – É um perverso psicopata criado com a engenharia genética.
Dente de Aço – Um dos inimigos mais exótico e perigoso, dono de uma força incomum e ferocidade exacerbada. Traz dentes de aço na boca.
006 – Antigo agente do MI-6, que se vendeu para os inimigos da Rainha, traindo o seu país e os companheiros. Tornou-se um grande inimigo de 007.
Deixando os inimigos, vamos encontrar diversos aliados, cada um mais especial do que o outro, dotados de inteligência e segurança complementar, que ajudaram Bond a concretizar positivamente as suas missões. Entre os principais aliados estão:
M – Chefe do MI-6. Durante as aventuras de Bond, ele já trabalhou com vários Ms, que já foi um homem, outras vezes uma mulher. Trazem sempre o mesmo perfil, admiram James Bond, apesar de achá-lo frívolo e irresponsável em sua vida e hábitos pessoais.
Q – Chefe do Escritório Q, a divisão de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento do MI-6. Q era o responsável pelos artefatos geniais que James Bond utilizava em suas missões. Ele sempre reclamava ao agente, para que não estragasse os seus sofisticados, caros e originais experimentos, no que nunca foi atendido. Durante anos Q foi único, só sendo substituído após a sua morte, por seu assistente R.
Money Penny – Assistente direta de M, é uma mulher recatada, embora fascinada por James Bond e por suas aventuras com as mulheres. Está sempre a duelar e flertar verbalmente com 007, mas nunca ultrapassa os limites de colega de trabalho do agente, exercendo com eficácia as suas obrigações profissionais.
Felix Leiter – Principal ajudante de Bond em suas missões de campo, tendo prestado os seus auxílios ao agente em cerca de oito missões.

James Bond no Cinema

Quando saltou das páginas dos livros para o cinema, James Bond tornou-se a personagem mais duradoura e de sucesso da sétima arte, constituindo uma mítica com várias tradições, exigidas sempre pelos milhões de expectadores que formam o seu público por todo o mundo.
A primeira aparição do agente secreto 007 diante de uma câmera foi numa fracassada série de televisão, que não passou do piloto. “Cassino Royale”, baseado no livro de Ian Fleming, foi produzido em 1954, pela CBS, tendo Barry Nelson como James Bond.
Em 1962, Ian Fleming teve o seu agente secreto adaptado para o cinema. Produzido por Harry Saltzman e Albert Broccoli, “O Satânico Dr. No” (Dr. No), estreou com grande sucesso. Trazia Sean Connery como James Bond, a personagem colar-se-ia a pele do ator, estigmatizando-o por quase uma década. Os produtores eram donos da produtora EON (Everything or Nothing), mediante o sucesso do primeiro filme, tornaram-se detentores dos direitos cinematográficos de quase toda a obra escrita por Ian Fleming. Os filmes de James Bond produzidos pela EON são os únicos considerados oficiais. Apenas três filmes não foram produzidos por esta produtora, sendo classificados como não oficiais: “Cassino Royale”, piloto para a televisão, feito pela CBS. Em 1954; “Cassino Royale”, uma paródia de 1967, e, “Nunca Mais Outra Vez”, de 1983, refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica”.
Albert Broccoli e Harry Saltzman já são falecidos. Em 1975, Saltzman abandonou a franquia dos filmes. A filha de Albert Broccoli (falecido em 1996), Barbara Broccoli, e o seu meio irmão, Michael G. Wilson, passaram a produzir os filmes de James Bond a partir de 1995.
Desde a estréia no cinema, James Bond foi interpretado, nos filmes oficiais, por seis atores diferentes: Sean Connery (1962-1971, com intervalo em 1969), atuou em seis filmes (o sétimo, em 1983, não pertence aos filmes oficiais).; George Lazenby (1969), atuou em apenas um filme; Roger Moore (1973-1985), atuou em sete filmes, sendo o que ficou mais tempo a viver a personagem; Timothy Dalton (1987 – 1989), fez apenas dois filmes; Pierce Brosnan (1995-2002), atuou em quatro filmes; e, Daniel Craig, interpretando o papel desde 2006, já com dois filmes feitos. De Sean Connery a David Craig, cada ator adaptou a imagem e o corpo de James Bond ao tempo em que o interpretaram, sem jamais perder a essência do seu charme sedutor.
Houve ainda, a atuação de David Niven, em “Cassino Royale”, como James Bond, em 1967, produção que não faz parte dos filmes oficiais. Ironicamente, David Niven era o ator que Ian Fleming queria para interpretar a personagem por ele criada, devido ao seu porte de eterno cavalheiro.

Características Imprescindíveis dos Filmes de James Bond

Quando lançado, em 1962, “O Satânico Dr. No”, o primeiro filme de James Bond, teve uma aceitação instantânea. Aconteceu no ano em que a Guerra Fria quase chegou a uma catástrofe nuclear, com a crise deflagrada entre os Estados Unidos e a União Soviética por causa dos mísseis de Cuba. Nada mais oportuno do que um filme no qual o herói salvava o mundo do perigo atômico. Sean Connery, até então, um ator pouco conhecido, foi transformado em um ícone do cinema dos anos 1960.
A euforia causada pelo primeiro filme, moldou as características que os todos os outros viriam ter, tornando-se imprescindível sofisticá-las, sem nunca abandoná-las.
A primeira marca da filmografia de 007 vinha logo na abertura do filme, com uma vinheta inovadora, que apresentava dentro de um círculo James Bond de perfil, caminhando tranqüilamente, a vestir elegantemente um terno e a trazer um chapéu. De repente ele saca de uma arma, olha de frente e atira, sendo a imagem coberta por um efeito gráfico de uma cor vermelha. Esta vinheta persiste até os dias atuais. George Lazenby é o único que ao virar-se de frente, ajoelha-se e atira. James Bond perde o chapéu em 1973, com Roger Moore. Pierce Brosnan caminha mais apressado, fica totalmente ereto, sem arquear as pernas quando atira. O desenho gráfico da vinheta alterou-se significativamente com Daniel Craig.
Um filme de James Bond traz sempre uma ação acelerada, que após a vinheta, inicia-se veloz, com perseguições e saltos ousados, mostrando 007 a safar-se de um grande perigo, antes de desaguar na bela canção de apresentação dos créditos. O agente secreto salta do alto de montanhas, dos prédios, combate corpo a corpo, escapa aos tiros, tem pontaria certeira quando acossado pelo inimigo, com saídas espetaculares de último instante, ajudado por um artefato tecnológico de Q (ou R), dado logo no início. Combates mortais, perseguições de automóveis, barcos ou aviões, tudo serve para manter a tradição da ação. Bond é capaz de destruir toda uma cidade dentro de um tanque, e sair penteado, elegante, sem um arranhão ou poeira que lhe venha a ofuscar o charme.
A beleza visual reflete-se nos ternos elegantes que o agente usa, nos carros de luxo que ele dirige, que podem ser uma Ferrari ou uma Lótus Esprit. Dirige por estradas sinuosas e de belas paisagens, como as da riviera francesa e italiana, ou por exóticos locais tropicais. Freqüenta luxuosos hotéis e cassinos, assim como praias de raras belezas. Esteticamente, tudo é belo nos filmes de James Bond, das roupas ao agente, dos locais às mulheres. Só os vilões são feios, mas exóticos.
James Bond não se preocupa com a política ou com as ideologias do mundo, tem apenas que cumprir a missão para a qual foi destinado, fazendo-o com um humor sofisticado e irônico, fundamental para a composição do seu caráter. É sedutor e lânguido, causando impacto nas mulheres que conquista, com insinuações sexuais verbais, sem nunca ter cenas mais quentes de sexo e nudez, tudo é sugerido, jamais explorado explicitamente.
Além dos vilões exóticos e aliados eternos, um verdadeiro filme de James Bond traz a sua opositora, aquela que lhe fará tremer, causando-lhe grandes problemas quando estiver irremediavelmente atraído por ela. É a bond-girl, com quem o herói dividirá a aventura e o romance do filme. Ser uma bond-girl traz sempre prestígio para a atriz que a interpreta, o que suscita grande expectativa diante da escolha de uma intérprete, sendo tão importante quanto à escolha do próprio ator que viverá um novo James Bond. A bond-girl será o elo do agente secreto com a sensibilidade, tornando-o terno e apaixonado. As mais famosas bond-girls foram vividas pelas atrizes: Ursula Andress, Diana Rigg, Jane Seymour, Honor Blackman, Kim Basinger, Barbara Carrera, Mary Stavin, Maryam D’Abo, Halle Berry e Teri Hatcher.
As trilhas sonoras dos filmes de James Bond constituem grandes momentos, principalmente com a canção tema, que gerou clipes míticos, muitos inesquecíveis.

Os Intérpretes de James Bond

Sean Connery foi o primeiro a interpretar James Bond. Ian Fleming era contra que o ator fizesse o papel, vendo no britânico David Niven, o ator perfeito para dar rosto à personagem que criara nos livros. Sean Connery, um ator escocês, trazia uma sensualidade máscula que sabia impregnar muito bem na composição de James Bond. Foi a personagem de Fleming que fez de Sean Connery um astro. A vinculação da imagem do ator com a da personagem limitou, por muitos anos, que ele representasse papéis diferentes. Sean Connery, que tinha maiores ambições para a sua carreira, sentiu-se incomodado em fazer sempre a mesma personagem. Após fazer cinco filmes, ele deixou a série, sendo substituído por George Lazenby, em 1969. O público rejeitou o novo intérprete, e Sean Connery voltou a interpretar 007 em 1971, no mítico “Os Diamantes São Eternos”. Após o filme, deixou de vez a pele de James Bond, prometendo não mais interpretá-lo. Sean Connery tornou-se o intérprete de James Bond mais cultuado pelos fãs, que não se conformavam por ele ter abandonado a série. Em 1983, voltaria a viver, pela sétima vez, James Bond, no filme “007 – Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again), o título era um trocadilho irônico com as palavras de Sean Connery, que no passado tinha dito, “nunca mais” a James Bond. Nada mais era do que uma nova versão de “007 Contra a Chantagem Atômica” (Thunderball), que o próprio Connery protagonizara, em 1965. Esta volta atendeu a uma grande expectativa dos fãs. O filme não foi produzido pela EON, sendo considerado apócrifo à série, tendo, na época, gerado grande polêmica por causa dos direitos autorais. A imagem envelhecida de Sean Connery, o ator já estava calvo, tendo que usar peruca, quase arranhou a mítica que se gerara ao seu redor como o intérprete favorito de James Bond. Desde então, jamais se pediu para que o ator voltasse a viver James Bond. O tempo e a idade, convenceram os fãs de James Bond-Sean Connery, de que era hora de aposentá-lo. O agente secreto de Sean Connery era bem próximo à personagem descrita nos livros de Ian Fleming, com a exceção do humor que o ator emprestou ao agente, tornando-o menos obscuro.
George Lazenby, um ator australiano, foi escolhido para substituir Sean Connery, em 1969, no filme “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty’s Secret Service). O ator tinha na bagagem apenas um filme italiano desconhecido e algumas aparições em comerciais de televisão. Foi escolhido pela semelhança com Sean Connery, que vista à luz do tempo, é praticamente inexistente. Acostumados com o James Bond de Connery, os fãs de 007 rejeitaram George Lazenby, ridicularizando-o. O ator, segundo algumas versões, não quis fazer o filme seguinte, alegando que James Bond era anacrônico diante do mundo que se desenhava, como o do festival de Woodstock, ou ainda, estaria preso a um contrato de quatorze filmes, e não queria viver a mesma personagem tantas vezes . Outra versão, a mais aceita e comentada, aponta para os produtores, que não ficaram satisfeitos com o resultado de bilheteria alcançado pelo filme, dispensando o ator logo a seguir. George Lazenby desapareceu do mundo do cinema desde então, destacando-se em papéis pouco marcantes na televisão. Apesar de ser o James Bond menos apreciado pelos fãs, a interpretação de George Lazenby é perfeita, em um filme demasidamente longo, mas com uma das melhores histórias de James Bond no cinema.
Roger Moore, em 1973, assumiria o papel de James Bond, sendo o interprete que demorou mais tempo a viver a personagem. Há versões de que Moore era o ator cotado para interpretar James Bond antes da escolha recair sobre Sean Connery, em 1962, mas ele, por compromissos com outros trabalhos, não pôde aceitar na época. O ator tirou a ironia impregnada por Sean Connery ao agente de sua majestade, transformando-o em um homem mais bondoso, com uma atmosfera de maior felicidade. Perdeu um certo cinismo insinuante do primeiro intérprete de 007. O longo tempo que Roger Moore interpretou James Bond, até 1985, deixou marcas indeléveis na personagem, provocando-lhe um desgaste na imagem, que perdia o prumo diante do envelhecimento a olhos vistos do ator. Roger Moore deixou a série aos 58 anos de idade, o que roubou todo o frescor juvenil da personagem. Nesta época os efeitos especiais sofisticavam-se, e com eles, a ousadia dos roteiros, como utilizar mais elementos da ficção científica. 007 entrou, na época, no mundo das aventuras espaciais, seguindo a tendência do mercado de filmes da segunda metade da década de 1970.
Timothy Dalton tornou-se, em 1987, o quarto James Bond. O ator tirou as rugas da personagem, impregnadas por Roger Moore e Sean Connery, na sua volta em 1983. Era a volta às origens literárias de James Bond, visto que Roger Moore descaracterizara-o ao viver aventuras cada vez mais distantes das propostas por Ian Fleming. Timothy Dalton, um ator britânico de formação shakespeareana, era um profundo conhecedor da obra de Fleming, o que lhe ajudou na composição da personagem. Num primeiro plano, o ator deu uma lufada na imagem de Bond, emprestando-lhe um certo aspecto sombrio e cínico. Estreado em 1987, “007 Marcado para a Morte ” (The Living Daylights), deparava-se com a época em que o mundo era assolado pela calamidade da Aids, doença que ainda não tinha tratamento e ceifava milhares de vida. Para seguir uma linha politicamente correta, o filme trazia um 007 menos envolvido em aventuras amorosas promíscuas. Poucas insinuações ao sexo foram feitas, pois o lema do momento era ser mais fiel, pois a Aids existia. Timothy Dalton atuou em dois filmes, sendo o segundo, de 1989. Foi nesta época que a Perestroika começava a fazer ruir o império soviético, cair muro de Berlim e extinguir a Guerra Fria. Os novos ventos da história traziam 007 de volta ao ocidente, sem função, praticamente aposentado, não havia mais comunistas para combater. Os filmes do agente ficariam parados por seis anos.
Pierce Brosnan foi, em 1995, o escolhido para viver James Bond, retomando a saga dos seus filmes, parada desde 1989. Uma das causas desse intervalo prolongado seria por causa da franquia, que se emperrara nos direitos autorais. Mas a verdade é que James Bond era fruto da Guerra Fria, com o seu fim, era preciso revigorá-lo, traçar-lhe um novo rumo e objetivos que lhe dessem sentido às aventuras. Pierce Brosnan era o ator favorito de Albert Broccoli para substituir Roger Moore, mas um contrato prendia o ator a uma série de sucesso na televisão, “Remington Steele”, da NBC, obrigando-o a declinar do convite, em 1987. Pierce Brosnan conquistou os fãs mais jovens de 007, que não viveram a idolatria a Sean Connery, tornando-se o ator preferido como intérprete de James Bond. O ator aflorou o sorriso cínico e inteligência mordaz de 007, desenvolvendo a personagem aos moldes da sua imagem, sem perder o caminho original dos livros de Fleming. Pierce Brosnan interpretaria James Bond quatro vezes, permanecendo até 2002. Foi poupado de uma possível decadência física na pele do agente secreto britânico. É o preferido dos fãs mais jovens de 007.
Daniel Craig tornou-se, em 2006, o sexto ator a interpretar James Bond. A escolha de Craig causou grandes protestos e a indignação dos fãs do agente, visto que o ator é loiro, e de baixa estatura. Apesar dos protestos, “Cassino Royale” foi um grande sucesso. O primeiro James Bond louro não arranhou a imagem do herói, o que deu passaporte para Craig viver, em 2008, a sua segunda aventura na pele de James Bond, no filme “Quantum of Solace”. Daniel Craig teria assinado contrato para fazer três filmes. Deu à imagem de 007 um ar frio, sem que lhe fosse tirado o prumo e cavalheirismo perene.
James Bond venceu não só diversos vilões, como a limitação do tempo em que foi criado, ultrapassando as tramas que envolviam a Guerra Fria, atualizando-se, sendo modernizado pelos roteiristas, tornando-se uma personagem do século XXI, apesar de moldar-se nas características do passado. Foram-lhe criados novos inimigos, arrancados das novas conjeturas ideológicas que se debruçam sobre o mundo, sem que se lhe elimine os elementos fundamentais e intocáveis. Se os seus intérpretes envelhecem, 007 tem o fascínio sedutor da juventude eterna, afinal ele é “Bond, James Bond”.

James Bond na Literatura

Livros Originais de Ian Fleming

1953 – Cassino Royale
1954 – Viva e Deixe Morrer
1955 – Moonraker
1956 – Os Diamantes São Eternos
1957 – Moscou Contra 007
1958 – 00 Contra o Satânico Dr. No
1959 – Goldfinger
1960 – Apenas Para Seus Olhos (contos)
1961 – Thunderball
1962 – O Espião que me Amava
1963 – A Serviço Secreto de Sua Majestade
1964 – Your Only Live Twice
1965 – O Homem com o Revólver de Ouro
1966 – Octopussy and The Living Daylights (contos)

Livro de Kingsley Amis (Robert Markham)

1968 – Colonel Sun

Livro de John Pearson

1973 – James Bond: The Authorised Biography of 007

Livros de John Edmund Gardner

1981 – Licença Renovada
1982 – Serviços Especiais
1983 – Missão no Gelo
1984 – Questão de Honra
1986 – Ninguém Vive para Sempre
1987 – Sem Acordos, Mr. Bond
1988 – Scorpius
1989 – Vença, Perca ou Morra
1990 – Brokenclaw
1991 – O Homem de Barbarossa
1992 – A Morte é Eterna
1993 – Nunca Envie Flores
1994 – Mar de Fogo
1996 – Cold

Livros de Raymond Benson

1997 – Blast From the Past (conto)
1997 – Zero Menos Dez
1998 – Os Fatos da Morte
1999 – Midsummer Night’s Doom (conto)
1999 – Live at Five (conto)
1999 – High Time to Kill
2000 – Doubleshot
2001 – Never Dream of Dying
2002 – O Homem com a Tatuagem Vermelha

Livro de Sebastian Faulks

2008 – A Essência do Mal

Filmografia de James Bond

Filmes Oficiais

1962 – O Satânico Dr. No (Dr. No) – Com Sean Connery
1963 – Moscou Contra 007 (From Rússia With Love) – Com Sean Connery
1964 – 007 Contra Goldfinger (Goldfinger) – Com Sean Connery
1965 – 007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball) – Com Sean Connery
1967 – Com 007 Só se Vive Duas Vezes (You Only Live Twice) – Com Sean Connery
1969 – 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service) – Com George Lazenby
1971 – Os Diamantes são Eternos (Diamonds are Forever) – Com Sean Connery
1973 – Com 007 Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die) – Com Roger Moore
1974 – 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro (The Man With the Golden Gun) – Com Roger Moore
1977 – O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me) – Com Roger Moore
1979 – 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker) – Com Roger Moore
1981 – 007 Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only) – Com Roger Moore
1983 – 007 Contra Octopussy (Octopussy) – Com Roger Moore
1985 – 007 na Mira dos Assassinos (A View to a Kill) – Com Roger Moore
1987 – 007 Marcado para a Morte (The Living Daylights) – Com Timothy Dalton
1989 – 007 – Licença para Matar ( Licence to Kill) – Timothy Dalton
1995 – 007 Contra GoldenEye (GoldenEye) – Com Pierce Brosnan
1997 – 007 – O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies) – Com Pierce Brosnan
1999 – 007 – O Mundo não é o Bastante (The World is Not Enough) – Com Pierce Brosnan
2002 – 007 – Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day) – Com Pierce Brosnan
2006 – 007 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Daniel Craig
2008 – 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) – Com Daniel Craig

Filmes Não Oficiais

1954 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Barry Nelson
1967 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com David Niven
1983 – 007 – Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again) – Com Sean Connery


O MORRO DOS VENTOS UIVANTES – EMILY BRONTË

Maio 29, 2009
Quando “O Morro dos Ventos Uivantes” – “Wuthering Heights” no título original – foi publicado, em 1847, chocou a conservadora sociedade inglesa, diante de uma história de amor instigante, que quebrava com todos os estilos da época. O amor era retratado à flor da pele e do ódio, na sua mais selvagem concepção, descrito em páginas de atmosfera arrebatadora, onde a crueldade humana é relatada de forma explícita, debatendo-se com a sensualidade e os sentimentos, a moral vigente e a moral imposta, feita pelos traumas e pelo desejo da vingança, entre momentos ternos ou de pura violência cotidiana, arraigados na falta de contemplação diante da brutalidade humana.
Emily Brontë, mulher taciturna e introspectiva, revelou nas páginas da sua obra-prima uma criatura explosiva, além do seu tempo e das suas concepções morais. “O Morro dos Ventos Uivantes” não debate a moralidade da época, mas a desfaz diante dos sentimentos incontroláveis da mente humana, arrebatada pela falta de razão e pelos impulsos das paixões. Heathcliff, a personagem central masculina, é o próprio anti-herói, movido pelo amor que tem por Catherine e pelo desejo de vingança aos que o humilhou pela vida e contribuíram para a perda física deste amor. No seu mundo não há limites para a crueldade, ele usa da tortura física e mental para destruir todos que se lhe puseram à frente. Nada o detém, a não ser o seu amor incondicional por Catherine, amor que vence à morte e ao tempo, mas que também é responsável por sua degradação moral, loucura e morte física. Heathcliff é uma das personagens mais inquietantes da literatura universal. Desperta ódio e paixão entre os leitores, é a própria essência bruta de todos os sentimentos.
O Morro dos Ventos Uivantes” foi tido como maldito quando do seu lançamento, com severas críticas à autora, que se escondia sob um pseudônimo masculino. Para muitos críticos era impossível uma história tão densa ter saído da mente de uma mulher, vista por alguns como se tivesse um demônio dentro de si para criar tão amoral personagem. Ao contrário de “Jane Eyre” e “Agnes Grey”, romances de Charlotte Brontë e Anne Brontë respectivamente, irmãs da autora, que se tornaram sucesso de critica e leitores, “O Morro dos Ventos Uivantes” sofreu com a rejeição dos leitores ingleses, que não sabiam onde situar a obra, com sua trama complexa transitando entre um romantismo desconstruído e um realismo silvestre.
O Morro dos Ventos Uivantes” causou não só um mal-estar nos leitores, como no próprio gênero literário da época, com sua temática e estilo despidos do maniqueísmo moralista vigente, onde os bons e os maus não se distinguiam entre as personagens. O livro quebrava com o retrato literário do seu tempo, fugia ao romantismo estilizado e sucumbia ao realismo literário puro, desfazendo o momento literário em que foi escrito. Com o passar do tempo, quebraram-se os preconceitos e “O Morro dos Ventos Uivantes” tornou-se imprescindível, a obra mais importante escrita na literatura inglesa daquele tempo.
Obra única de Emily Brontë, ela não sobreviveria para ver a sua história com o passar do tempo, ser classificada como uma das mais belas da literatura inglesa e universal; morreria um ano depois da sua publicação.

Heathcliff, a Criança Órfã Vinda das Ruas

O Morro dos Ventos Uivantes” narra de forma arrebatadora e apaixonante, a saga de Heathcliff, do seu amor e, principalmente, do seu ódio secular pela humanidade. A história atinge a duas gerações de personagens, inseridas em ambientes hostis, de paisagens sombrias, destiladas pelos ventos gelados dos invernos da Inglaterra, cuja paisagem tempestuosa traz os murmúrios das lembranças, os mistérios de uma existência dilacerada pelo amor e pelo ódio.
A narrativa é feita por uma personagem neutra, o Sr. Lockwood, o novo inquilino da granja Thrush Cross (Granja da Cruz), que em um dia de tempestade de neve, decide fazer uma visita de cortesia ao seu senhorio e vizinho, Heathcliff, morador de Wuthering Heights. Recebido com frieza, quase com hostilidade, o visitante depara-se com Heathcliff e um casal de jovens, que lhe desperta a curiosidade. É a partir desta visita, que Lockwood detém-se em saber mais sobre aquelas personagens, para isto conta com a velha governanta Ellen Dean, conhecida por Nelly, personagem que servira a duas gerações daquela família.
Nelly Dean, que segundo alguns historiadores, foi uma singela homenagem de Emily Brontë à fiel empregada da sua casa, Thabitha, ou Taby. Persuadida por Lockwood, Nelly, testemunha ocular de tudo que se passou naquelas terras, passa a narrar para o inquilino a história de Heathcliff e de todos que o ladearam.
O lapso do tempo é feito através das lembranças de Nelly, que retroage, voltando ao momento em que o dono de Wuthering Heights, o Sr. Earnshaw, regressa de uma das suas viagens a Liverpool, trazendo consigo um menino órfão de sete anos, que encontrara faminto e abandonado nas ruas da cidade. Era Heathcliff, uma criança obscura, cuja origem não nos é revelada. De aspecto assustado, mas sombrio, o menino é visto por todos os habitantes da casa como um cigano bastardo. A chegada de Heathcliff ainda menino a Wuthering Heights, embora menosprezada por todos, traz o presságio definitivo das mudanças que transformariam o lugar e atingiriam todos os moradores.
O Sr. Earnshaw tem dois filhos, Hindley, já um rapazinho, e Catherine, que possui pouca diferença de idade de Heathcliff. O temperamento do patriarca é rude, feito na solidão dos ventos daquele lugar isolado, sem qualquer lapidação cultural. Sua generosidade é fugaz, mas existente. Decide adotar Heathcliff, a ele afeiçoando-se e identificando-se com o seu temperamento bruto. Esta identificação com Heathcliff afasta o Sr. Earnshaw de Hindley, que se sente preterido ao amor do pai. Hindley passa a nutrir um ódio reprimido ao órfão, sentimento que causaria estragos indeléveis, responsáveis por uma amargura ressentida que no futuro traria dor a ele e aos seus descendentes.
Ao contrário do irmão, Catherine nutre um fascínio por Heathcliff, unindo o seu destino ao do estranho numa espécie de pacto dissimulado, beirando ao amor eterno e à redenção da alma e da moral. Heathcliff idolatra Cathy, fazendo dela a sua referência aos sentimentos. Ambos desenvolvem uma cumplicidade que só eles percebem, tecendo-a com frágeis fragmentos do amor e da volúpia caprichosa.

O Amor Entre Heathcliff e Catherine

O ódio contido de Hindley vem à tona quando o Sr. Earnshaw morre. Como herdeiro de Wuthering Heights, será ele quem ditará as regras do lugar, comandará os servos e o destino de todos que ali vivem. De uma forma vingativa, Hindley submete Heathcliff a grandes humilhações, impedindo a sua educação, impregnando a sua alma com a rudeza perene, quase selvagem. Submete o órfão a todos os trabalhos servis e degradantes.
A amizade exacerbada entre Catherine e Heathcliff incomoda profundamente a Hindley, que tenta afastá-los de todas as formas. Para isto investe nos maus tratos ao rapaz, tratando-o injustamente, criando barreiras e evidenciando as diferenças de classe social e de educação.
No meio da paisagem inóspita do morro dos ventos uivantes, surge vizinho, a granja Trush Cross, habitada pelos Linton, entre eles os irmãos Edgar Linton e Isabella Linton, que tinham idades aproximadas as de Heathcliff e Catherine. Gentis e educados, os irmãos Linton aproximam-se de Catherine. Esta amizade é incentivada por Hindley, que quer ver a irmã afastada da rudeza de Heathcliff.
O tempo passa, Catherine e Heathcliff crescem, nutrindo uma paixão incontida um pelo outro. À medida que crescem, as diferenças culturais entre ambos aumentam, sendo mais evidenciadas diante da amizade de Catherine com os irmãos Linton. Se as diferenças são claras, os sentimentos entre eles tornam-se obscuros, aflorando entre desejos contidos e uma paixão avassaladora.
Hindley fizera de Heathcliff um ser selvagem, com uma delicadeza voltada apenas para Catherine. Diante da brutalidade do amado, ela vacila com os sentimentos. Catherine é voluntariosa, dona de uma índole instável e de uma moral construída sem grandes alicerces, fazendo com que a ventania a derrube. Quanto mais ama Heathcliff, mais vê a sua vida encerrada em um isolamento social, longe da convivência, sua personalidade apesar de forte, perde-se nas indecisões que se lhe apresentam a vida e as condições sociais.
Entre as indecisões de Catherine, Edgar Linton surge como jovem apaixonado e disposto a desposá-la. Dividida entre a quase selvageria de Heathcliff e a ternura educada de Edgar, entre as origens ciganas de um e a riqueza familiar de outro, Catherine opta pela segurança social. Decide-se pelo jovem Linton, aceitando o seu pedido de casamento.
Heathcliff sofre diante da ameaça de perder a mulher que ama. Silenciosamente, ouve Catherine confessar a Nelly que ela se decidira por Edgar Linton, apenas por achar que Heathcliff não era um cavalheiro, que um casamento com ele estragaria a sua reputação, minando a sua real posição social. Heathcliff sente-se ferido de morte. Decide deixar Wuthering Heights, desaparecendo no meio da noite. Catherine sofre com a partida do amado, para amenizar a dor, abraça o destino que escolhera, casando-se com Edgar Linton, indo viver na granja do marido. O vento cortante sopra sobre Wuthering Heights, já lá não habitam Heathcliff e Catherine.

Fragmentação Emocional e Morte de Catherine

O tempo passa monótono, quase feliz para Catherine, que vive submersa em sua inquietação íntima. Sua vida de casada sofre a violência dos ventos, quando estes trazem de volta Heathcliff. O retorno não é de um homem rude, mas de um cavalheiro rico e dissimulador dos sentimentos.
A autora não revela por onde andou Heathcliff, muito menos como alcançara fortuna, deixando no ar não só um mistério, como a certeza de que a personagem enriquecera através de negócios escusos e poucos esclarecedores. Debaixo da máscara de cavalheiro, Heathcliff ocultava o homem amargurado, disposto a vingar-se de todos que lhe maltrataram, principalmente de Hindley e de Edgar Linton.
Catherine deixa-se seduzir pelo novo Heathcliff, agora um cavalheiro digno da sua condição social. Mas ela já está casada com Linton, uma verdade que não pode esquecer. Inconseqüente e voluntariosa, Catherine quer os dois homens da sua vida ao seu lado. Mas os mundos de Heathcliff e Linton são inconciliáveis, ambos sentem ciúmes um do outro, e a própria Catherine é a razão do distanciamento que se interpõe em suas vidas. O frágil caráter emotivo de Catherine a desequilibra, ferindo o marido e a ela própria.
A convivência entre a paixão devastadora de Heathcliff e o amor brando de Linton torna-se insuportável. A disputa psicológica entre os dois homens gera discussões, levando Catherine a um redemoinho emocional do qual não se consegue desvencilhar, responsável por sua debilitação mental e física. Catherine não resiste às contradições da sua vida, morrendo ao dar à luz a uma filha, fruto do seu casamento com Edgar Linton.
Ao matar Catherine, a heroína da trama, no meio da história, Emily Brontë quebra com toda a estrutura do romance de gênero romântico, fazendo do seu livro a inovação de um estilo, sem classificá-lo em gênero literário algum, estabelecendo-o em uma verve atemporal, órfão do romantismo e do realismo do século XIX.

A Vingança Implacável Contra Hindley Earnshaw e Edgar Linton

A morte de Catherine quebra o único vínculo que Heathcliff tinha com a sensibilidade e com os sentimentos humanos. A partir de então, tornar-se-á um algoz dos seus inimigos. Ver a amada morta desperta-lhe a fúria de um leão ferido. Heathcliff culpa Hindley e Edgar Linton pela morte da amada e, por ela ter sido dele afastada. Diante de todos, jura vingança aos dois. Já não existe Catherine, o motivo do seu amor e da sua contemplação; restam vivos aqueles que eram o motivo do seu ódio.
Para começar a sua vingança, Heathcliff traça um plano dividido em dois atos:
Primeiro, vingar-se de Edgar. Aproxima-se de Isabella Linton, irmã de Edgar, seduzindo-a e com ela fugindo. Após a sedução, ele fará da vida da mulher um inferno, maltratando-a, desprezando-a e fazendo-a infeliz, até que definhe de tristeza. Isabella foge do marido, vivendo longe dele até a sua morte. Ela deixa um filho, o único herdeiro de Heathcliff, a quem chamou de Linton.
O segundo ato do plano, vingar-se de Hindley. Para isto, volta a morar no morro dos ventos uivantes, na casa do seu inimigo, outrora algoz. Hindley tornara-se um bêbado após a morte da mulher, tornando-se endividado, tendo Heathcliff como o seu grande credor. Humilhado por Heathcliff, que lhe tomara todos os bens, Hindley morre na mais completa miséria, deixando um filho, Hareton.
A vingança de Heathcliff está confirmada, ele torna-se o dono de Wuthering Heights, lugar que um dia o recebera como lar, onde conhecera o grande amor da sua vida e onde sofrera todas as humilhações. Daquele tempo restara a lembrança mórbida de Catherine, o seu amor fantasmagórico, que não lhe deixa à memória um só dia. O amor que o consome e destrói a sua vida e a de todos à volta, é a força que encontra para seguir em frente, sendo o ódio o movimento vital que o faz caminhar. A vingança poderia ter encerrado após as mortes de Hindley e Edgar, mas ela continuaria, estender-se-ia sem perdão para a nova geração.

Dois Fantasmas Vagam Pelo Morro dos Ventos Uivantes

A fúria vingativa de Heathcliff não conhece limites, estendendo-se à nova geração, nascida dos enlaces das personagens durante a saga: Hareton Earnshaw, filho de Hindley Earnshaw; Catherine Linton, filha de Edgar Linton e Catherine; e, Linton, filho de Isabella e do próprio Heathcliff. Os três tornar-se-iam vítimas da vingança implacável de Heathcliff.
hareton, o verdadeiro herdeiro de Wuthering Heights, cresceu sem a herança do pai, tornando-se um simples servo da casa, sofrendo de Heathcliff todas as humilhações que Hindley lhe impusera no passado. hareton cresce sem acesso à educação e a qualquer direito social, vivendo na mais completa servidão. Ironicamente, ele apegara-se a Heathcliff, não se apercebendo que era fruto de uma vingança, achando que o amo e senhor livrara-o da miséria deixada por um pai alcoólico, dando-lhe casa e proteção. Hareton torna-se fiel a Heathcliff, sendo a única pessoa que lhe tem afeto.
Linton, o herdeiro de Heathcliff, é um jovem inseguro, de índole fraca e saúde debilitada. Viveu protegido pela mãe, longe do pai, até que esta morreu. Ao contrário de hareton, foi criado com todos os mimos e recebendo uma educação sofisticada. Foi arrebatado pelo pai logo que lhe morreu a mãe, odiando viver no ambiente sombrio e rural de Wuthering Heights. Sua fragilidade excessiva irrita Heathcliff, que tem planos para ele.
Catherine Linton, a única filha de Catherine, herdara a beleza física da mãe, sendo parecida com ela. Criada pela doce Nelly, ela foi atraída da granja do pai para Wuthering Heights, diante da curiosidade de conhecer o primo Linton. A ela não se foi revelada a verdade sobre Heathcliff e à mãe morta. Linton, obrigado pelo pai, seduz a prima, com quem se casa. Esta união é o ápice da vingança de Heathcliff sobre Edgar Linton, que vê a sua única filha a ir viver na degradada casa de Earnshaw, agora pertencente ao seu maior inimigo. Quando Edgar Linton morre, a sua propriedade passa para as mãos de Linton, marido de Cathy. Mas Linton, covarde e desprovido de uma personalidade vincada, morre jovem, assim, o pai, Heathcliff, passa a ser tutor de Cathy e herdeiro da granja dos Linton. A sua vingança estava consolidada. Era senhor absoluto dos bens e das propriedades daqueles que outrora o humilhara.
Cumprida a vingança final, nada resta a Heathcliff, a não ser a lembrança obsessiva do fantasma de Catherine. Ele entrega-se cada vez mais a essas lembranças, tendo a razão tragada por elas. Heathcliff jamais deixa de ser um homem atormentado, vivera uma vida voltada para a paixão que sentira por Catherine. Amara e odiara com tanta intensidade, que perdera os limites morais, beirando à loucura. Seu amor incondicional por Catherine dera-lhe a intensidade destruidora dos que o ladeava e de si mesmo. A solidão final leva-o ao delírio de uma loucura anunciada, levando-o a morte. Como último desejo, é sepultado ao lado de Catherine, seu grande amor. Desejo que não choca os habitantes de Gimmenrton. Para os moradores do povoado, ambos eram sombrios, almas gêmeas e destrutivas, fantasmagóricos… Todos juram que eles emergem da sepultura, vagando pelas charnecas do morro, eternamente cortado pela ventania, sob ecos murmurantes…
Ironicamente, no meio a tantas mortes, dor e destruição, a autora termina o livro com a esperança triunfante no amor inesperado de hareton e Cathy, que se casam, voltando a herdar o que lhes tirara a vingança de Heathcliff.

Emily Brontë

Emily Jane Brontë nasceu em Thornton, Yorkshire, na Inglaterra, em 30 de julho de 1818. Era a quinta filha do casal Patrick Brontë e Maria Branwell, em uma prole de cinco mulheres e um homem.
Aos três anos ela perdeu a mãe, sendo criada pela Tia Branwell, que contou com a ajuda de uma empregada doméstica, Thabitha, carinhosamente chamada de Taby, de quem se afeiçoaria por toda a vida. Foi através das histórias de Taby que as irmãs Brontë puderam desenvolver as suas verves literárias, criando brincadeiras infantis repletas de personagens imaginárias.
Em 1824, Emily e as suas três irmãs mais velhas foram enviadas pelo pai para estudar em Cowan Bridge. No ano seguinte, Maria, a irmã mais velha, foi acometida de febre e definhou até a morte, o mesmo acontecendo com Elizabeth, um mês depois. Temendo pela saúde das filhas em Cowan Bridge, Patrick Brontë as trouxe de volta para casa.
Nos serões em casa, os irmãos Brontë costumavam ler em voz alta “As Mil e Uma Noites”. Quando o irmão Patrick Branwell ganhou do pai uma caixa com soldadinhos de chumbo, Charlotte, Emily e Anne desenvolveram a partir deles, histórias que registraram em forma de jornal, ao qual chamaram de Angria. Anne e Emily criaram histórias, situando-as na ilha de Gondal.
Dos quatro irmãos sobreviventes, três, Emily, Charlotte e Anne tornaram-se escritoras, enquanto que Patrick Branwell tornou-se um talentoso pintor, é dele o famoso retrato de perfil de Emily Brontë e o das três irmãs Brontë; mas o alcoolismo destruiu uma carreira promissora, e Branwell morreria prematuramente, aos 31 anos, em setembro de 1848.
Em 1846, Emily concordou em que Charlotte publicasse, sob pseudônimo, uma coletânea de poemas. Assim, em maio daquele ano, foi publicada uma coletânea de poemas de Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell, pseudônimos respectivamente, de Charlotte Brontë, Emily Brontë e Anne Brontë. Naquele mesmo ano, os manuscritos de “Agnes Grey”, de Anne Brontë, e de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, foram aceitos por um editor.
Em 1847, Charlotte Brontë teve publicado, em outubro, o romance “Jane Eyre”, que entraria para sempre para a literatura inglesa. Em dezembro eram publicados “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, e “Anne Grey”, de Anne Brontë.
A obra de Emily Brontë sofreu grande rejeição, enquanto que “Jane Eyre” tornou-se um grande sucesso na época.
Emily Brontë morreu de tuberculose, aos trinta anos, em 19 de dezembro de 1848, três meses após a morte do irmão. Jamais imaginou que o seu único romance escrito transformar-se-ia em um dos mais consagrados da literatura inglesa e universal. A escritora foi enterrada na igreja de St. Michael and Angels Cemetery, em Haworth, Yorkshire, lugar que viveu desde os dois anos de idade, dele saindo por curtos períodos. Sua personalidade aparentemente introspectiva, revelou-se infinita diante das personagens inesquecíveis de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Ícone único da literatura inglesa, a obra teve várias adaptações para o cinema e traduções em diversas línguas.

CRONOLOGIA

1812 – Casamento, em 29 de setembro, do reverendo Patrick Brontë com Maria Branwell.
1818 – Nasce em Thornton, Yorkshire, em 30 de julho, Emily Jane Brontë, filha do reverendo Patrick Brontë.
1820 – A família muda-se, em abril, para Haworth.
1821 – Morre a mãe de Emily, Maria Branwell.
1824 – Emily e as suas três irmãs vão estudar em Cowan Bridge.
1825 – Morre, em maio, a irmã Maria. Em junho morre outra irmã, Elizabeth.
1826 – As crianças ganham soldadinhos de chumbo de presente, que seriam o ponto de partida para os relatos de Angria e Gondal.
1829 – Têm início os jornais de Angria.
1831 – Charlotte, uma das irmãs Brontë, vai estudar em Roe Head.
1835 – O irmão Patrick, vai estudar em Londres. Charlotte e Emily partem para Roe Head, a primeira como professora, a segunda como aluna.
No mesmo ano, Emily volta para Haworth.
1837 – Emily vai lecionar em Law Hill, mas volta para casa alguns meses depois.
1842 – Emily viaja com Charlotte para Bruxelas, em fevereiro, retornando à Inglaterra em novembro.
1846 – Em maio é publicada a coletânea de poema de Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell, pseudônimos respectivamente, de Charlotte Brontë, Emily Brontë e Anne Brontë. Os manuscritos de “Agnes Grey”, de Anne Brontë, e de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, são aceitos.
1847 – Publicado em outubro, “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë. Publicados em dezembro, “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, e “Anne Grey”, de Anne Brontë.
1848 – Morre, em 24 de setembro, Patrick Branwell Brontë, irmão da escritora. Morre em 19 de dezembro, de tuberculose, Emily Brontë.