PALAVRAS DE AMOR – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Setembro 14, 2009

Palavras de amor quando ditas pelo mais primordial dos mortais tornam-se um momento de beleza; quando ditas pelos mais sensíveis tornam-se um poema de amor. Palavras de amor, quem não as proferiu? Quem não as escreveu? Quem não as roubou aos poetas para sentir a sua intensidade ou presentear o grande amor?
No baú das minhas memórias, hei que me deparo com as minhas palavras de amor juvenil, que na época as chamei de poemas. Mas como a poesia está no dilacerar da sensibilidade, mesmo quando rompida pela estética da métrica, chamo aos meus versos livres de palavras de amor.
Às vezes olho para aquele que os escreveu e que hoje se encontra perdido dentro do tempo da minha mente, e pergunto-me: quem eras tu que os escreveu? Que heterônimo foi desprendido dos espelhos do meu sentimento? Ainda seria capaz de escrevê-los assim, tão livres, comprometidos apenas com os sentimentos, sem a técnica estética das palavras? Mas o poeta não tem compromisso apenas com o sentimento do eu mais profundo? Não tem como obrigação tornar bonito a rima da dor com o amor?
Um dia cansei de escrever o amor e fui vivê-lo na sua essência bruta. Meus versos perderam-se em lençóis estranhos e manchados pelo prazer, distanciaram-se entre as pernas desconhecidas que aconcheguei aflito a minha insaciável vontade de ejacular o amor. Sofistiquei o amor nas teias do prazer, muitas vezes desencontrando-o do calor do coração.
Então onde encontrar o jovem que escreveu os poemas de amor? Que desconhecido no tornamos! Fecho os meus olhos e posso vê-lo romântico, a sonhar com a rosa azul de um jardim eternamente secreto. Relembro corpos nus e suados, a desenhar relevos de paixão com os seus pêlos artísticos à meia-luz do quarto. Ressuscito imagens imprecisas de ventres ao léu, que no ápice do meu prazer, colheram a pequena morte de mim. Então, eu, homem maduro, recolho as palavras de amor escritas pelo meu eu de juventude. Roubo-as para mim, afinal palavras de amor, canções de amor, poemas de amor, são de quem delas necessitam.

Pássaro no Asfalto Quente

Percorro um mundo aberto em palco,
Como um viajante em fuga,
Um pássaro do asfalto,
Procurando a semente do teu segredo,
Deixa eu dormir meu corpo no teu olhar,
Deixa eu fechar meus olhos e te sonhar,
Deixa eu queimar meu mundo a te perseguir,
E desfolhar meus gritos na tua voz,
Deixa eu correr teus medos na minha sorte,
Deixa eu tentar o risco de te amar,
Soltar o meu destino pelas estradas,
Pousar o meu vôo no teu calor,
Deixa eu sentir teu corpo nas minhas mãos,
Deixa eu gemer teu nome na noite plena,
Deixa eu morrer meus passos na tua liberdade,
E no dia apenas poder sorrir o teu amor.

Outros

Outras palavras me chegam,
Outros segredos embalam-me,
Outro silêncio me cala,
Já outro sol me aquece,
Outros sorrisos me pulsam,
Roubam a minha alma ao vento,
Outra vontade,
Outro sonho,
Outros desejos agitam-me,
Outras metades me escondem,
Novos medos me gritam,
Outros pássaros voam,
Perseguem a luz da manhã,
Outra magia a soprar-me,
Acaricia a força do presságio,
Outro destino me arrasta,
Socorre a minha agonia,
Outros amigos me chegam,
Como se fosse meio-dia,
Outras promessas de vida,
Outras tantas juras de amor,
Outro pecado da noite,
Outro pedaço que se me desprende,
Outra ternura que se expande,
Outro amor,
Outra mentira…

Estado de Afeição

 

 

Tanto tempo de espera,
De luzes presas no escuro,
Caminhando ilimitado,
Sem futuro filosófico,
Sem passado amordaçado,
De repente hoje estou resumido,
Nesse fascínio que me atingiu,
Numa busca incomparável,
Vou brincando de menino,
Dos teus olhos fazendo brilho,
Como pássaro que não pousa,
No teu peito fazendo chama,
Vou negando o meu destino,
De ti tento fugir,
Mas não consigo ir com a lua,
Com a mesma bebedeira,
Tua nuvem que me flutua,
Vai devassando os meus segredos,
E o meu medo a te ferir,
A torturar a nossa poesia,
Como tristes navegantes,
Não fugimos do naufrágio,
Não queimei as tuas lembranças,
Não esqueci a tua voz,
Não rasguei teu endereço,
Não discuto o começo,
Ou a culpa que mereço,
No meu medo vou derrubando o teu poema,
Por favor não vá fugir,
Dos meus olhos desaparecer,
Eu acredito e confesso,
Quero hoje os teus versos.

O Menino

Ele é quase um menino,
Empolgou o meu destino,
Ele anda apressado,
Traz o peito carregado,
É um poema divino,
Quase repete um hino,
Ele é mais que criança,
Traz em si a lembrança,
Divaga nas madrugadas,
Persegue noites apagadas,
Ele vive drogado,
De amor não terminado,
Ele anda perdido,
Com um olhar perseguido,
Em alguns momentos conversa,
N’outros apenas versa,
Leva embora a sua alma,
Sem querer pede calma,
Ele é mais que um passado,
Que um canto sufocado,
Ele é tudo o que diz,
Quando nada quis,
Mas ele é desatino,
Pois é quase um menino.

Pensamentos de Amor e de Existência – Jeocaz Lee-Meddi

“O amor quando impossível mutila mais do que a pior das guerras.”

“Não nos podemos perder de nós mesmos quando amamos alguém. É como perdermos a direção da vida e haurirmos um ar letífero.”

“Não prometas nada que vá além da próxima primavera. Nenhuma fidelidade resiste à insatisfação humana, se assim o fosse, Adão estaria até hoje no Éden, fiel às promessas de Deus.”

“Sinto-me confortável em saber que faço parte da natureza, da sua renovação constante. Sinto-me menor como gênero humano ao ver-me apenas como um objetivo da natureza.”

“Após a tempestade há um momento sublime de encontro entre o ódio e o amor.”

“Se não guardamos a data de aniversário de quem nos é importante na memória do coração, não vale a pena escrevê-la na agenda.”

“Os calendários foram criados para inserirmos a nossa existência em um breve momento de Deus.”

“Não tenho filosofia própria ou alheia, apenas afronto o mundo! Se não afrontarmos o que nos foi legado, seremos sempre prisioneiros do tempo e das suas limitações.”

“Ser egoísta faz parte dos filhos do Adão degenerado. Ser magnânimo também.”

“Todas às vezes que me descobri feliz, tornei-me indolente para procurar a felicidade.”

“Muitas vezes aquele que faz feliz a todos à sua volta, não consegue propiciar esta felicidade a si mesmo.”

“Os meus extremos nunca me permitiu ser uma paisagem renascentista, não, a minha alma é uma paisagem de Van Gogh, bela, trêmula e com sede de viver a dor.”

“A procura do meu eu sincero torna-se sem cor diante da procura das verdades da cidade.”

Texto, poemas e pensamentos de: Jeocaz Lee-Meddi
Fotografias: Paulo César (1 Amor É…, 4 Entre Nós o Amor), Guilherme Santos (2 O Céu de Opacas Sombras Abafadas), Luís Antonio (3 Jeocaz Lee-Meddi, Ode a Luz, 5 Jeocaz Plural, 6 Retrato Jeocaz Lee-Meddi)


LENDAS MEDIEVAIS

Julho 28, 2009

A Idade Média ficou marcada pela profunda guerra religiosa travada com os islâmicos pela Terra Santa, a Palestina, pelo obscurantismo científico e cultural, que deu passagem para um exacerbado ascetismo. Guerras santas, pestilências, cultura ascética, superstições, isolamento feudal, e vários outros fatores, fizeram da Idade Média uma época fértil para a criação de lendas. Milhares delas foram disseminadas nos reinos cristãos, tendo sempre uma moral religiosa que às vezes fugia dos costumes, criando mitos profanos e estranhos, que se confundiam com a própria veracidade histórica, como a possível estadia de uma mulher no trono de Pedro, fato até hoje obscuro, tido por alguns historiadores como lenda e por outros como um acontecimento real.
Neste artigo, três lendas medievais foram selecionadas, adaptadas e contadas, para que se perceba um pouco do universo cristão da época: “O Judeu Errante”, “A Papisa Joana” e “Lady Godiva”.
O Judeu Errante” é uma lenda que mostra o sentimento anti-semita latente na Europa medieval. Ela apaga por completo a origem judaica de Jesus Cristo, fazendo com que se acredite que já nasceu cristão e foi escarnecido e morto por judeus. Narra a lenda de Ahasverus ou Ahsuerus, um sapateiro habitante de Jerusalém, que ao ver Cristo passar no dia da sua crucificação, escarneceu-o e negou-lhe um pouco de água, ou conforme a versão, ajuda para que se levantasse do chão. Como castigo, foi amaldiçoado pelo martirizado a viver errante pelo mundo, velho e sem forças, sem nunca morrer, até o fim dos tempos. Ironicamente, a lenda castiga o algoz com a vida eterna, prêmio que todo bom cristão almeja. A figura do Judeu Errante tornou-se mítica através dos tempos. Na Alemanha nazista foi ressuscitado como parte do programa anti-semita, tendo na caricatura de David Shankbone o símbolo do mito como forma de propaganda contra os judeus.
A Papisa Joana” teria sido o papa João VIII, sendo a única a mulher a governar a igreja católica num período de dois a três anos. A lenda surgiu no fim do século IX, relatando que Joana teria ocupado o cargo entre os pontificados de Leão IV e de Bento III, que corresponde aos anos de 850 a 1100. Disfarçada de homem, Joana teria ascendido como papisa, até que uma gravidez inesperada fez com que desse à luz a uma criança nas ruas de Roma, na frente da população. Descoberta a farsa, a papisa e o filho teriam sido mortos pela revolta popular. Muitos historiadores divergem quanto à veracidade da história, tendo aqueles que aceitam Joana como uma personagem real, e outros como lenda, como uma difamação da igreja ortodoxa de Constantinopla contra a igreja de Roma, originada possivelmente de uma sátira. Nenhuma corrente teórica chegou a um acordo, e Joana, a papisa, continua um mistério, fazendo, inclusive, parte das cartas de Tarô, de romances literários e personagens do cinema.
Lady Godiva” é uma lenda inspirada em uma personagem real. Godiva foi esposa do Conde Leofric, que em 1043 fundou a ordem de São Bento, em Coventry. Godiva é a única mulher a ter o seu nome registrado em um livro da época como dona de terras. Viúva de Leofric, teria morrido em 10 de setembro de 1067. Sua lenda marca o ideal medieval, o ascetismo a vencer o luxo, o sacrifício do corpo e da moral em nome do bem dos cristãos. Ao caminhar nua em cima de um cavalo, a lenda de Lady Godiva mescla o pudor religioso da Idade Média com as lendas profanas dos gregos antigos, fazendo dela uma narrativa sublime.

O Judeu Errante

O tumulto levou as pessoas às ruas de Jerusalém. Jesus, filho de José, entrara triunfante na cidade, desafiara os comerciantes e os guardiões do templo, presidira a ceia com os seus apóstolos, transmitira a sua mensagem definitiva no Monte das Oliveiras, para cair, tragicamente nas mãos de soldados, sendo julgado, açoitado, humilhado e condenado a ser crucificado.
As festas da Páscoa em Jerusalém foram interrompidas para que se acompanhasse o martírio daquele que se dizia o Messias, que viera para elevar o seu povo, acabar com os sofrimentos dos judeus. Pelas ruas da cidade, o profeta caminhava humilhado, a levar a cruz nas costas, a mesma que serviria como suplício final. Caminhando enfraquecido, quando se deixava cair, era obrigado a levantar através dos açoites impiedosos dos soldados romanos.
Alheio ao tumulto da cerimônia que precedia à crucificação, Ahasverus trabalhava dentro da sua casa, a preparar o couro que usava para fazer os sapatos que vendia. Era um homem calado, frio e alheio aos dramas e às pessoas à volta. Sua barba espessa escondia as marcas que lhe ia esculpindo o tempo. Não havia Páscoa ou tradições que lhe arrebatasse do cheiro do couro curtido, trabalhado artesanalmente. Fechar um acerto de casamento com uma jovem estava longe de qualquer plano que fizera. A sua solidão latente era o prêmio maior que já adquirira. A sua arte com o couro a realização da alma.
À medida que o supliciado aproximava-se da rua onde Ahasverus morava, o tumulto tornava-se insuportável. Pessoas gritavam, algumas pediam a morte do suposto Messias, outras pediam misericórdia por sua vida. O sapateiro procurou ignorar o barulho. Continuou a recortar o couro curtido. De repente um estrondo bateu-lhe na porta, fazendo com que ela se abrisse. Parte de uma cruz entrou pela sala. Ahasverus viu um homem atormentado, caído na sua porta, com uma coroa de espinhos na cabeça, o rosto coberto de sangue e as costas em carne viva. Ahasverus irritou-se com aquela imagem. Sentiu-se profundamente incomodado, como se aquele homem ensangüentando, a descansar por um momento na sua porta, fizesse com que todos os males da sua alma se lhe fosse revelado. Tomou-se de cólera quando viu gotas de sangue a sujar a sua porta. Deixou os afazeres e aproximou-se do supliciado, que caído no chão, pediu-lhe ajuda para se erguer. Mas Ahasverus não se deixou comover, com o pé direito, empurrou o nazareno, vociferando com arroubo:
-Sai da minha porta! Anda, põe-te a andar! Vá logo!
Naquele momento Simão, o Cireneu, apiedando-se de Jesus, ofereceu-se para ajudá-lo a reerguer-se do chão com a cruz. Antes de continuar o caminho para o martírio, o nazareno olhou profundamente Ahasverus, falando-lhe mansamente:
-Eu vou, mas tu ficarás… Caminharás errante e sem descanso pelo mundo até a minha volta…
O olhar que Jesus, filho de José, lançou para o sapateiro, fez com que ele estremecesse a alma. Sentiu-se paralisado, a ver aquele homem caminhar para a morte, afastando-se da sua tenda, deixando-o com uma maldição eterna. Ainda no fim da tarde daquela sexta-feira, quando o céu escureceu e o nazareno morreu na cruz, Ahasverus viu a barba do seu rosto ficar branca, as mãos envelheceram, sem que tivessem mais habilidade para trabalhar o couro. Ahasverus perdera a juventude e a sua arte. A solidão passou a queimar-lhe o peito.
Lentamente Ahasverus viu o tempo passar, os seus contemporâneos sugados pela morte. Sua alma tornou-se inconstante, peregrina. Uma grande nuvem de poeira bateu-lhe na porta, arrebatando-o e levando-o para as estradas do mundo. Quanto mais envelhecia, mais se distanciava da morte. Ahasverus passou a percorrer cidades com ruas sem fim. Por onde passava, era conhecido como o Judeu Errante, o eterno estrangeiro, sem pátria, sem raízes.
Nas vilas, nas aldeias, nas terras mais distantes, o povo era surpreendido por um redemoinho de poeira, era o Judeu Errante que vinha dentro dele, numa peregrinação permanente, a carregar consigo a maldição por ter sido cruel com o nazareno. Todos, quando viam o redemoinho, fechavam as suas portas e janelas, até que passasse o amaldiçoado, evitando que o agouro entrasse pela casa. O Judeu Errante vaga no meio da poeira, atormentado e solitário, na esperança do dia em que Jesus, filho de José, retorne ao mundo e anuncie o fim da sua maldição e dos tempos.

A Papisa Joana

No princípio do século IX, os ingleses dirigiram-se às terras da Saxônia, conquistada pelos cristãos, para ali, propagarem a fé da igreja romana. No meio dos propagadores da fé estava um padre inglês, que levava consigo uma jovem de doze anos, grávida. Ele a raptara dos pais e para fugir à desonra do ato, seguira para as terras germânicas. A jovem deu à luz em Mayence, a uma menina que foi chamada de Gerberta.
A menina cresceu, tornando-se uma bela jovem. Aprendera com o pai os estudos seculares, enchendo-se de erudição, surpreendendo a todos os doutores com a sua sabedoria. Gerberta interessava-se pelas ciências, mesmo diante das limitações que se lhe impunham por ser mulher, jamais abandonou o aprendizado. Sua alma intelectual só deu uma trégua quando foi seduzida por um jovem frade da abadia de Fulde. A paixão arrebatou aos dois, fazendo com que se entregassem aos prazeres do amor. O frade, de família inglesa, convenceu a jovem que fugisse com ele. Para acompanhar o amante, Gerberta, que passou a ser chamada de Joana, despiu-se da sua identidade e das raízes, vestindo roupas de homem. Em Fulde, viveu com o amante sob o disfarce, enganando a todos.
Mais tarde, os amantes partiram para a Inglaterra. Apresentada como homem, Joana pôde aprofundar os seus estudos, tornando-se ao lado do amante, os maiores eruditos de toda a Grã-Bretanha.
Joana e o amante viajaram por diversos países, buscando a erudição suprema. Passaram pela França, pela Grécia. Por dez anos os amantes viveram a paixão de forma velada em terras gregas. Um dia, o companheiro de Joana foi vítima de uma doença súbita, que lhe consumiu a vida em poucas horas. Solitária e feita em homem, Joana deixou a Grécia, retirando-se para Roma.
Em Roma Joana foi admitida na academia da cidade para ensinar as sete artes liberais. Atraiu para si as honras de monges, padres, ricos senhores feudais e doutores, tamanha era a erudição que trazia. Quando o papa Leão IV caiu doente, Joana foi citada para que ocupasse o seu lugar. Assim, após a morte do papa, aclamada pelos cardeais, diáconos, clero e povo; disfarçada de homem, pela primeira vez uma mulher foi eleita como papa, sentando-se no trono de Pedro, usando o nome de João VIII.
Joana fez um pontificado que foi aplaudido e reverenciado por todas as terras cristãs. Mas a sua verdadeira essência não lhe permitiu viver a farsa por completo. Apaixonada por um oficial da Guarda Suíça, Joana fez dele um amante, revelando-lhe o seu segredo. Nos quartos frios do Vaticano, viveu o seu amor com intensidade, até que ficou grávida. Com as roupas largas que usava, não lhe foi difícil ocultar a gravidez dos olhos do povo e do clero.
Anualmente, os romanos celebravam a festa das Rogações. Era costume que o papa seguisse em frente a uma procissão solene, montado em um cavalo. Joana não fugiu à tradição, montou um cavalo ao sair da igreja de São Pedro. Quando deixou a basílica, a papisa estava revestida com ornamentos pontificais, mostrando a exuberância de toda a pompa da igreja. Dirigia-se à basílica de São João de Latrão acompanhada de um séquito, dos clérigos, nobres e do povo de Roma. Quando caminhava entre a basílica de São Clemente e o anfiteatro Domiciano, o Coliseu; foi arrebatada por fortes dores de parto, tão violentas que fizeram com que caísse do cavalo. Assustado, o povo não se apercebia o que estava acontecendo com o pontífice, que se contorcia no chão. No meio das dores, Joana rasgou os ornamentos e vestes sagradas, expelindo das entranhas, para espanto geral, uma criança.
Humilhada, desmascarada e vencida, Joana sangrava incessantemente, devido à queda do cavalo e ao parto difícil. Tomados pela vergonha e pela cólera, membros do clero cercavam o corpo da papisa para escondê-la da fúria do povo. Diante do choro da criança, um bispo ergueu as mãos para o céu e disse:
-Milagre! Milagre!
Mas o ardil foi em vão. Joana morreu sem que se lhe fosse prestado socorro. Deu um último suspiro e, ainda a sentir-se vitoriosa, partiu para o mundo dos mortos. A criança recém nascida foi sufocada pelos padres. Mãe e filho foram enterrados sem pompas no mesmo túmulo.
Para que não se cometesse o mesmo engano, os sucessores de Joana passaram a ser submetidos à prova da cadeira furada. Após a eleição, momentos antes de ser conduzido ao palácio de Latrão para a tomada de posse, o papa eleito assentava-se em uma cadeira furada no centro, que ficava na capela de São Silvestre, com as pernas separadas, o corpo meio estendido, com os hábitos pontífices abertos, confirmando aos assistentes a prova da sua virilidade. Após ser tocado na genitália por dois diáconos, ouvia-se o grito de um deles:
-Temos um papa!
Joana, a papisa, foi a única mulher da história a presidir a igreja de Roma por quase três anos. A maternidade pôs fim ao seu pontificado!

Lady Godiva

Em Coventry vivia-se um tempo difícil. O sol não aquecera os pomares, fazendo com que as azeitonas e as vinhas não produzissem o suficiente para que se fizesse com fartura o azeite e o vinho. A miséria do povo era tão latente quanto à modéstia de jóias que as mulheres da nobreza traziam sobre o corpo, ou as vestes modestas que faziam dos seus habitantes os menos abastados de toda a Inglaterra.
Como se não bastasse a penúria vivida, a insatisfação assolava os habitantes, cada vez mais empobrecidos pelos altos impostos cobrados pelo conde Leofric, senhor absoluto daquele feudo. Grande parte do alimento colhido naquela estação ingrata, saía da boca do povo para que se pagasse os impostos ao nobre senhor. A fome pairava afoita pelas casas, pelos campos, por Coventry.
O conde Leofric era casado com uma das mulheres mais belas de toda a Inglaterra. Lady Godiva era serena, cabelos sedosos, longos e dourados como os raios do sol. Seus olhos eram azuis como o mar, traziam uma expressão de infinito que seduzia ao marido e todos os súditos em volta. Lady Godiva era de uma bondade imensa. Servos e escravos eram tratados por ela com dignidade. Não se furtava da caridade e de ajudar aos desvalidos e desprovidos da grandiosidade da vida e da sua opulência secular.
Um dia, os servos trouxeram diante do conde um camponês que fora apanhado a roubar nabos da horta de Leofric. Levado diante do conde, o infeliz declarou que cometera aquela imprudência extrema por não ter nada para comer, que os últimos grãos que colhera foram usados para pagar os impostos devidos. Que os cinco filhos pequenos choravam de fome, atormentando-o toda a noite. Ao ouvir os relatos do infeliz, Lady Godiva comoveu-se, convenceu o marido a não punir o infeliz, fornecendo ainda, alimentos para os seus filhos. Mesmo irritado, o conde acedeu com a bondade infinita da mulher.
Depois dos acontecimentos, Lady Godiva andou por todos os cantos de Coventry. Montou em seu cavalo, atravessou as muralhas, rondando por toda a parte. Descobriu que a fome assolava o lugar. Que grande parte dos alimentos colhidos iriam para os impostos do conde. Compadecida com o sofrimento daquele povo, Lady Godiva prometeu a si mesma intervir e a ajudá-lo.
Quando retornou ao castelo, encontrou o marido no estábulo, a supervisionar a alimentação das bestas. Lady Godiva desceu do seu cavalo. A respiração arfava de cansaço. Mesmo assim, encontrou forças para contar ao marido da tristeza e miséria que se abatia sobre Coventry. Falou com tanta ênfase que as lágrimas afloraram-lhe os olhos, derramando-se sobre as faces. O conde ouviu a mulher, que lhe implorava para que abaixasse os impostos. Não se deixou comover, mas as lágrimas da esposa, a sua veemência em defender os oprimidos, fizeram com que Leofric tentasse um ardil. Usando da sua inteligência sarcástica, ele esboçou um sorriso irônico e disse à mulher:
-Muito bem, já que insistes tanto na defesa deste povo, comovendo-me com as lágrimas que destroem a cor do céu dos teus olhos, concedo-te o pedido. Mas para que se realize, imponho-te uma condição, que a próxima vez que fores cavalgar, tu o faças sem roupas, completamente nua pelas ruas de Coventry.
-Tenho a tua palavra de que se o fizer, irás cumprir a promessa?
-Minha amada, se cavalgares nua pelas ruas de Coventry, não só abaixarei os impostos, como perdoarei a dívida aos mais necessitados.
-Que assim seja feito.
Leofric sorriu para a mulher. A promessa fora-lhe fácil fazer, difícil seria Lady Godiva cumprir a condição que impusera. Estava confiante de que ela desistiria e, ao sentir-se culpada, deixar-lhe-ia em paz com aquelas lamúrias.
Mas Lady Godiva trazia no coração uma bondade maior do que qualquer moral estabelecida pela mesquinhez dos homens. Lady Godiva mandou que os seus servos avisassem ao povo do seu sacrifício para salvá-los dos impostos e da fome. Pediu que durante a sua cavalgada penitente, todos os moradores deixassem as ruas e que se fechassem em suas casas. Comovido com a grandiosidade de Godiva, o povo de Coventry aceitou atender-lhe o pedido.
Assim, Lady Godiva desafiou a ironia e mesquinhez do marido. Despiu as vestes no estábulo, montou, completamente nua, o seu belo cavalo. Cavalgou por todas as ruas de Coventry de cabeça erguida, sem que ninguém ousasse observá-la. Somente Jack, o moleiro, não resistiu de contemplar tamanha beleza edênica. Contrariando a todos os moradores, abriu uma fresta da janela da sua casa, ao olhar tamanha beleza nua a desfilar pelas ruas, viu uma grande luz sobre os seus olhos, que foram cegados para sempre.
Ao retornar da cavalgada, Lady Godiva encontrou o conde à espera. Comovido, ele vestiu as roupas à mulher, depois se ajoelhou aos seus pés, reafirmando a palavra dada. Levantou-se e beijou a mulher.Leofric retirou os impostos altos dos ombros do seu povo. Naquele ano as colheitas foram abundantes em Coventry. O azeite jorrou nos lagares, o trigo transformou-se em pães quentes sobre as mesas, e o vinho abençoou as refeições. Lady Godiva passou a ser amada pelo seu povo, até mesmo por Jack, o moleiro, que depois da luz da nudez da mulher sobre o cavalo, não viu mais nada na vida.

Adaptação Livre de: Jeocaz Lee-Meddi


LISBOA: ALEXANDRE E EU – AL BERTO

Julho 9, 2009

Há exatos quinze anos, Lisboa era aclamada a Capital Européia da Cultura 1994, trazendo uma série de eventos culturais que eclodiram por toda a cidade. Os velhos prédios da cidade foram restaurados, ganhando cores vivas e diversas. O Bairro Alto foi chamado de “A Sétima Colina”, sendo o principal símbolo dos eventos culturais. Seus bares tornaram-se efervescentes, renovando a juventude que o freqüentava. Foi neste clima festivo que mais convivi com o poeta Al Berto e com o seu grande amigo, Alexandre Matos (ambos juntos na fotografia colorida).
O convívio foi fugaz, mas para sempre. Das noites no Frágil aos jantares no Targus, dos encontros constantes n’A Brasileira do Chiado, ao desfile de formatura em estilista do Alexandre, no Coliseu dos Recreios, serviu para que eu pudesse perceber o texto que me seria entregue mais tarde.
Em junho de 1997, um câncer fulminante decepou a vida do Al Berto. Em agosto reencontrei Alexandre Matos no bar do Miradouro de Santa Luzia. Estava de férias em Lisboa, pois há pouco mais de um ano fora morar em Turim, na Itália. Estava deprimido, abatido e inconsolável pela recente morte do Al Berto. A partir deste encontro, Alexandre trouxe-me várias cartas e textos do poeta, feitas a ele, perguntando-me se poderia ajudá-lo a publicá-las. As cartas, de teor intimamente pessoais, foram devolvidas. Um texto chamou-me a atenção, “Lisboa: Alexandre e Eu”, escrito em 1994, em laudas ainda datilografadas. O texto foi um presente do Al Berto ao Alexandre, que lhe tinha dito, fizesse o que bem entendesse com ele. A idéia era aproveitar o texto, verdadeira poesia em prosa, em um pequeno livro com fotografias feitas por Alexandre Matos. Mas quis a vida que eu seguisse um caminho diferente e retornasse ao Brasil, e os planos de publicar o texto do Al Berto, que continuou inédito, malograram.
Um texto de rara beleza, “Lisboa: Alexandre e Eu”, de Al Berto, traz a atmosfera das noites lisboetas, nas ruas do Bairro Alto. Cita lugares, os coletivos dos bairros, a noite, a bebida, a paixão e o amor. Traz uma melancolia madura, de alguém que já pressentia que a morte estava por perto e fazia, da sua poesia, o legado, o testamento para aqueles que amava. O texto é um jogo de metáforas e palavras diluídas numa beleza etérea, contínua, de paisagens urbanas, tendo o Tejo como centro e Lisboa como protagonista das vidas e das paixões. O sangue e o desejo transbordam as palavras, servidas pelos quartos dos amantes em cálices de bebidas quentes e dilacerantes.
Al Berto e Alexandre Matos, dois amigos situados na memória do meu coração. O texto que segue, provavelmente ainda inédito, é a minha homenagem aos dois, com as fotografias feitas por Alexandre Matos, do jeito que ele sonhara um dia. A autorização para que fizesse o que bem entendesse com o texto veio do próprio Alexandre. Aqui, fotografia e poesia unidas em uma beleza singular, a mostrar que o amor vence o tempo e a morte, imagens e palavras eternizam o que o vento soprou em um passado para sempre gravado nas ruas de Lisboa.

Lisboa: Alexandre e Eu, por Al Berto

Enquanto dormes constrói-me um rosto de luz, no limbo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.

Há séculos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível, pelas estradas de giestas em direcção ao mar.
Dorme, e consente que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de pontes atravessadas, kms nocturnos e segundos de asfalto.

Para trás ficou a cidade.
E tu sabes que a cidade só existe no apanhar um táxi. E perdermo-nos até amanhã – sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.

Amanhã, ou enquanto dormes – agora mesmo – vou pensar em ti. Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele, e o movimento dos dias passe como aves que perdem o sentido do voo – até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules – quando estendo a mão por dentro da noite e te acordo, no fogo dos meus olhos.

No fim do sono existe um vulcão.
De repente, a manhã. A bruma. Um pássaro. As coisas que me rodeiam com seus segredos – mas as coisas, sabe-se lá, só existem porque as palavras dizem que existem. E os segredos das coisas, estão em mim – e não nas coisas.

Quando subo pela haste da manhã, encontro uma cidade de cristal. Trouxeste-ma tu, na dádiva do corpo.
E se conseguisse tocar-te com a respiração, ouvia-te dizer:
- É na desolação dos dias que o meu olhar segrega o mel com que te alimentas.

Penso no que te vou deixar: nomes de flores e de estrelas para refazeres os jardins e as constelações, e o peso etéreo da minha morte – para continuares a celebrar a vida.

Insónia. Noite fria, repleta de medos. Noite sem fim. Nada.
Levanto-me e abro a janela. Respiro fundo. Um fio de sol embate na garrafa de gin abandonada ao lado da cama.
Ponho os óculos, e o dia torna-se nítido, focado, limpo, e cheira a violetas…

Às vezes, tenho a impressão de ter perdido a exactidão dos gestos e das palavras.
Estive tempo a mais sozinho – reaprendo, com dificuldade, a ser cúmplice, amigo, amante.

Não me desagrada a ideia de viver num farol abandonado. Não me desagrada que a luz se apague. Não me desagrada pensar que posso perder a lucidez.
Por isso bebo.
Beber, ajuda a cicatrizar o olhar ferido da noite. Isola-nos do mundo, acende-nos os gestos, antes de no perdermos de bar em bar.

Amantes e embriagados. Destinados à chuva das ruas, às cidades que ardem junto ao mar, ao silêncio azul das manhãs.
- Aí vem o 28 dos Prazeres… e um táxi.
- Não me abandones, fica…
E o vinte e oito passa, e passa o táxi, enquanto olhamos “A Dança” de Matisse na capa dum livro.

Vamos pela manhã que se ergue, suja, enevoada – onde as palavras que digo se confundem com o teu sorriso. E os semáforos mudam de cor, inutilmente.
Rua da Rosa, Travessa da Espera, Calçada do Combro. Silêncio sobre silêncio. A vida suspensa no estremecer de um abraço.
- Até logo. Se te lembrares de mim, telefona.

Fecho, por fim, as pálpebras. O teu rosto sobrepõe-se à imagem do meu rosto. A tua mão esconde-se na imagem da minha mão. E no espelho já não há imagens, nem corpos, nem mar…

Logo à noite, outra vez o olhar, os corpos, a chuva, o sono, a fuga, a alma, o dia, os dias… o regresso. O telefone, e Lisboa a sussurrar no vento a tua ausência.

A vida é sacana. Sobretudo não é aquilo que nos disseram que era.
Por vezes, quando nos sentimos morrer vemos como é disparatado saber que tudo vai acabar. Precisamente quando tínhamos descoberto alguém com quem podíamos falar.
Passamos a vida numa espécie de silêncio, numa nudez terrível que se quebra, ainda que raramente, diante de certas coisas que nos contaram e nos deslumbraram.
Mas é tarde. As coisas que nos deslumbraram eram efémeras, breves. E não se pode voltar atrás.

Tenho um amigo que disse:
- Sabes, a verdade nunca acaba.
Mas o que será a verdade quando estivermos mortos?

Penso no lugar secreto do Caos e da Ordem que se erguem, subitamente, diante daquele que ama, e escreve.

Um dia disseste:
- A paixão serve para te mostrar os fogos da noite.
Acreditei no que me dizias, mas já não consigo dormir, só morrer. O teu sorriso colou-se-me à boca.
Passo os dias a espiar as paisagens diluídas na memória que tenho de ti. Atravesso continentes que se transformam em minúsculas dores, pequenos territórios que cabem no fundo duma algibeira, ou em meia-dúzia de palavras.

Lembro-me que numa viagem de comboio podemos encontrar gente cúmplice do silêncio – mas dificilmente um amigo de olhos cor-de-amêndoa que te diga:
- O teu olhar é belo.
Espantado, respondes:
- O meu olhar só é belo porque se deixou aprisionar pelo teu. Nesse lugar profundo onde nos cruzamos e o mundo faz sentido. E quando a distância nos separar, e Lisboa for apenas uma impressão vaga de mal-estar, uma parte de mim pertencer-te-á.

Mentir é necessário. É a melhor maneira de esconder o que há de doloroso na verdade.
Repara, através dos meus olhos descobrirás como é grande a tristeza do mundo. Apenas isso. E quando aqui não estiveres, espetarei todas as facas que encontrar nas paredes febris da noite.
Talvez sangre dos pulsos. Talvez te escreva. Talvez…

Olho atentamente as fissuras do tecto. Desloco-me através delas, alcanço a noite.
O teu rosto, de quando em quando, pousa na minha solidão.
Há vinte anos que a vida se apagou nas linhas da mão, e os jardins da cidade permaneceram, todo esse tempo, envoltos na bruma. O Tejo não deixou o tempo correr.
Mas um dia, talvez agora, abrirei as mãos nos escuro do quarto, e o teu rosto incendiar-se-á.
As mãos queimadas, memória da tua passagem.

Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. E espalho a cinza destas palavras pelo escuro da noite.
Perder-te, levar-me-ia ao zumbido ensangüentado duma bala. A paixão, a nossa, foi construída com a lentidão das obras-primas. E nela não há equívocos, nem erros.
O teu rosto é perfeito e intenso – brilha, assim que o nomeio ou toco: sinal de vida, estremecer do mundo na melancolia das mãos.

Assim te raptei uma noite – com ansiedade e susto. E assim te mantenho vivo, e amo, dentro e fora do poema.
Hoje, tudo me parece novo e antigo, em simultâneo, como se já soubesse que havias de chegar e mudar-me a vida, o rumo dela, e depois partir.

Lá fora chove. Chove sem parar. E Lisboa parece encolher-se dentro do teu sono.

Al Berto, Lisboa, 1994

Fotos: Alexandre Matos

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MULHERES DO BRASIL – SOB O OLHAR DE ANTONIO GUERREIRO

Junho 28, 2009
A presença da mulher na história do Brasil é constituída de grandes vultos e personalidades que, se fôssemos descrever cada uma delas, teríamos uma longa enciclopédia de biografias instigantes e apaixonantes. Da índia Paraguaçu, que conquistou o coração de Caramuru e à corte francesa, sendo lá batizada como Catarina Álvares, no século XVI, a Xica da Silva, bela negra que de escrava tornou-se a rainha do Tijuco; de Chiquinha Gonzaga a Leila Diniz, personagens que mudaram o conceito de ser mulher à época em que viveram; o Brasil é essencialmente um país feito pela delicadeza bravia das suas mulheres. Nação plural, com uma população formada por várias raças, sem um estereótipo definido, em que a beleza da mulher brasileira é um capítulo à parte na história do país.
Para descrever tão sublime beleza, nenhuma lente foi mais sincera, poética e apoteótica como as do fotógrafo Antonio Guerreiro. Dono de uma sensibilidade estética impar, Guerreiro foi o maior fotógrafo de grandes personalidades brasileiras que despontou nos últimos quarenta anos. Do fim da década de 1960 ao início da de1990, não houve celebridade que não tenha passado por sua objetiva. Surgido na época do desbunde, fazia parte da geração que pregava o amor livre ao cheiro da cocaína, falava de política ao sabor do ácido e sobrevivia à opressão de uma ditadura militar através de uma arte considerada marginal, mas intensa em seu existencialismo apartidário.
No meio da desconstrução estética do desbunde, Antonio Guerreiro andava na contramão, pois as fotografias que fazia dos seus modelos eram a própria perfeição do belo. Longe das imagens do underground do meio que freqüentava, a sua arte representava o glamour e a voluptuosidade dos corpos que retratava, a beleza obsessiva que tal qual um Michelangelo contemporâneo, jamais deixou de buscar. Enquanto os fuzis militares embaçavam o cenário nacional, paradoxalmente a fotografia de Guerreiro traduzia uma beleza infinitamente alegre, mesmo travada em uma atmosfera alienante. As musas de Antonio Guerreiro eram um ópio no sangue dos que eram torturados nos calabouços, era a atenuação de um país silenciado. O retrato de uma geração que ou já morreu ou envelheceu, que não mais existe com o esplendor por ele registrado.
Mulheres do Brasil, por Antonio Guerreiro, retratam um tempo perdido. Aos 61 anos, o fotógrafo vive mais de um passado glorioso do que de um presente artisticamente empobrecido pela arte digital. Este artigo traz algumas divas que constituem um acervo precioso da cultura deste país. Brancas, negras, louras, morenas, todas fotografadas por Antonio Guerreiro, em imagens definitivas, que resistem à morte e às rugas do tempo, todas mulheres imprescindíveis na construção cultural do Brasil.

Ângela Diniz, a Pantera de Minas

Considerada uma das mulheres mais bonitas dos anos setenta, Ângela Diniz era conhecida como “A Pantera de Minas”. Foi daquelas mulheres cridas para uma vida de rainha, com direito a baile de debutante aos 15 anos, para ser apresentada oficialmente à alta sociedade.
Mineira de Belo Horizonte, Ângela Diniz virou uma lenda nos meios sociais da sua época, atraindo para si os holofotes e as paixões desenfreadas tanto dos homens, quanto das mulheres. Era uma mulher que desprezava a sociedade em que vivia, fazendo da sua liberdade uma afronta aos costumes. Do seu casamento com o engenheiro Milton Villas Boas teve três filhos. Mas o seu destino teria o fulgor das aventuras e da tragédia, assim, ela abandonou marido e filhos e foi viver a intensidade do seu glamour no Rio de Janeiro.
Envolvida em um triângulo com o milionário Tuca Mendes e um rapaz de 18 anos, que era caseiro da sua casa, teve a tragédia bater à sua porta pela primeira vez; o caseiro foi assassinado em um crime obscuro, provavelmente movido pelo ciúme; Ângela Diniz assumiu a culpa, talvez para proteger o amante.
E assim foi a vida da “Pantera de Minas”, regada por escândalos envolvendo sexo e drogas, tendo sido presa por porte de maconha; foi constrangida quando espancada em público por um namorado, além de outros escândalos menores.
Em 1976 Ângela Diniz envolveu-se com o bon vivant Doca Street. Na véspera do reveillon daquele ano, os dois foram para a Praia dos Ossos, em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. Viveram uma paixão explosiva, com muito sexo, cocaína, champangne e ciúmes. O resultado, quatro tiros desferidos por Doca Street, desfigurando um dos rostos mais belos do Brasil e matando uma das mulheres mais controversas da alta sociedade. Doca Street foi a dois julgamentos, sendo condenado apenas no último. Com a condenação, morria no Brasil o conceito de que era válido matar a mulher em defesa da honra masculina. Infelizmente a violência contra a mulher prevalece até os dias atuais.
Sob as lentes de Antonio Guerreiro, percebe-se a beleza trágica e inconquistável de Ângela Diniz. O fotógrafo dissimula do seu rosto a malícia fugaz, esculpindo-lhe uma beleza bíblica a contrastar com a verdade profana da Pantera de Minas.

Sandra Bréa, Símbolo Sexual de uma Época

Atriz, cantora, dançarina, Sandra Bréa foi uma artista completa, poucas como ela reuniram tantos predicados, tantos dotes artísticos. Dona de uma beleza clássica, talvez tenha sido a mulher mais fotografada nua na década de setenta, o que lhe rendeu o título de símbolo sexual, fazendo-a uma das mais desejada de um Brasil reprimido pela liberdade de pensamentos e pela moral e pelos bons costumes impostos pela ditadura.
Após protagonizar algumas novelas da TV Globo, entre elas a histórica “O Bem Amado”, de Dias Gomes, a atriz encontrou o auge da sua carreira no programa musical “Sandra e Miele”, em 1976, ao lado de Luiz Carlos Miele. O programa tornou-se mítico, e um dos mais bem concebidos daquela década.
Casada durante alguns anos com Antonio Guerreiro, foi fotografada por ele em todo o seu esplendor, revelando-se como uma estátua nua para todo o Brasil. Assim como as mulheres transgressoras do seu tempo, a atriz sofreu os revezes dos preconceitos, mas jamais se deixou intimidar por eles, pagando com sangue e vida o direito de ser mulher independente e livre.
Nos anos noventa, Sandra Bréa foi contaminada pelo vírus da Aids, sendo a primeira mulher no Brasil a assumir a doença publicamente. Desde então foi isolada, encerrando a carreira e o glamour. A estrela apagou-se em 2000, vítima de um câncer no pulmão, fugindo ao estigma que tanto temia, o de morrer em conseqüência da Aids. Nos últimos anos de vida, teve o belo físico transformado pelo tratamento que fazia com os retrovirais para combater a doença. O legado que nos deixou não foi apenas a coragem de transgredir, mas o de um talento digno de uma grande brasileira.
Nesta fotografia, “Woman in Red”, deparamos com um facho de luz no expoente de um dos olhares que mais se cruzou com as lentes de Antonio Guerreiro, formando uma cumplicidade eterna, presa no tempo e na memória.

Betty Faria, Talento e Beleza

O seu nome confunde-se com o da teledramaturgia do país. Foi levada para a televisão pelas mãos da amiga Leila Diniz, que a apresentou a Daniel Filho. Nunca mais saiu, construindo para o Brasil, uma bem sucedida carreira, intercalada com o teatro e com o cinema.
Betty Faria viveu durante anos, personagens secundárias, às vezes antagonistas da heroína da trama. Foi elevada à estrela global em 1975, sob a direção do então marido, Daniel Filho. Na televisão interpretou personagens inesquecíveis como a Lucinha da primeira versão de “Pecado Capital” (1975), de Janete Clair, e a fogosa protagonista de “Tieta” (1989).
A atriz também brilhou no cinema nacional, em clássicos como “A Estrela Sobe”, “O Cortiço”, “Bye Bye Brasil”, “Romance da Empregada” e “Lili Carabina, a Estrela do Crime”.
Na sua beleza morena e sensualidade à flor da pele, Betty Faria conquistou ao longo da carreira, uma galeria diversificada de fãs, entre eles o escritor Jorge Amado, que praticamente exigiu a atriz para protagonizar a novela “Tieta”, baseada em sua obra literária. Foi a primeira viúva Porcina de “Roque Santeiro”, em 1975, que censurada pela ditadura militar, jamais foi ao ar. Em 1985, quando a telenovela foi finalmente liberada, a atriz recusou o papel.
No inicio da carreira foi casada com o ator Cláudio Marzo, de quem teve uma filha, a atriz Alexandra Marzo. Depois se casou com o diretor Daniel Filho, gerando com ele um filho, João. Esta é Betty Faria, feita de acertos e erros, de talento e beleza, altos e baixos em uma carreira tão longa e empolgante.
Antonio Guerreiro soube explorar bem a beleza morena da atriz, envolvendo-a em brilhos que contrastam com a pele branca e com a vasta cabeleira negra. Guerreiro enfeitou-lhe de adereços e glamour, como se preparasse a mulher que saltaria de dentro de um luxo concebido. Um registro que foge ao tempo e entra para a galeria das grandes personagens culturais do nosso país.

Tonia Carrero, Uma das Maiores Belezas do Brasil

Tonia Carrero é uma das mulheres mais bonitas que nasceu em solo brasileiro. Mesmo com as marcas que lhe esculpiu o tempo, ela jamais perdeu a essência do belo e dos traços de deusa grega.
Mais belo ainda, é a sua trajetória artística. Assim como as mulheres do seu tempo, foi preparada para o casamento, ato que assumiu muito bem, só iniciando a carreira artística depois de casada. Sua estréia aconteceu ao lado de outro gigante do cenário artístico brasileiro, Paulo Autran. Juntos, partiram para o infinito das artes e do talento arrancado do âmago da grandiosidade artística.
Tonia Carrero foi a grande musa do cinema brasileiro na época dos estúdios da Vera Cruz, considerada a Hollywood brasileira, vivendo clássicos como “Tico-Tico no Fubá” (1952). A beleza etérea do seu rosto iluminava as salas de cinema. A atriz sabia-se dona desta beleza rara, assumindo-a sem preconceitos, mas sem se deixar levar por ela, atirando-se a desafios tanto no cinema como no teatro.
Mulher talentosa e inteligente, trabalhou com mestres como Ziembinski e Adolfo Celli, diretor e ator de cinema italiano, com quem foi casada.
Também brilhou na televisão, protagonizando várias telenovelas da TV Globo no início da década de 1970, como “Pigmalião 70” e “A Próxima Atração”. Cansada de viver as eternas ricas sofisticadas das novelas, ela procurou evitar desgastar a imagem, declinando de fazer televisão constantemente.
Até o fim da década de setenta e início da de oitenta, Tonia Carrero era tida pelas mulheres como o símbolo de beleza feminino ideal, mesmo a atriz já estando na época com sessenta anos, posição que o tempo e as suas marcas, foram lhe tirando aos poucos.
Antonio Guerreiro revela aqui, a beleza madura da atriz, ainda com traços delineados com perfeição. Os olhos, diminuídos por uma intervenção cirúrgica corretiva, voltam a brilhar sem medo de olhar para as lentes do fotógrafo. Longe da moda das bocas carnudas de agora, Tonia Carrero deslumbra com os seus lábios finos e clássicos. A beleza do rosto entrelaça-se com a da mão, terminada em unhas perfeitas, no glamour de uma mulher elegante e inteligente. A imagem de Guerreiro registra o que o tempo roubou à atriz, fazendo-a infinitamente presa à beleza.

Regina Duarte, a Namoradinha do Brasil

Uma das mulheres mais amada pelo público brasileiro, Regina Duarte iniciou a carreira na extinta TV Excelsior. Com o fim da emissora, foi contratada pela TV Globo em 1969, de onde nunca mais saiu.
Dona de uma voz doce e intensa, de um sorriso angelical, ela logo se destacou como protagonista de sofridas heroínas. A terna e carismática Patrícia de “Minha Doce Namorada”, novela de Vicente Sesso, de 1971, conferiu-lhe o título de “Namoradinha do Brasil”. Vinculada a esta imagem, a atriz viveu personagens afins, emplacando grandes sucessos como “Selva de Pedra” (1972) e “Carinhoso” (1973).
Cansada de viver a eterna heroína sofredora, Regina Duarte quis deixar a televisão em 1974, mas a direção da Globo não deixou, dando-lhe dois anos de férias. A primeira atitude da atriz foi interpretar uma prostituta no teatro, na peça “Reveillon”, algo incompatível com a imagem imposta pela televisão.
Quando voltou às novelas, negou-se a representar os mesmos papéis. Veio o seriado “Malu Mulher” (1979) e a imagem da namoradinha esvaiu-se por completo. Quando interpretou a fogosa e inesquecível viúva Porcina de “Roque Santeiro”, em 1985, já não havia resquícios da heroína virginal de outrora.
Antonio Guerreiro descobre, neste retrato, toda a sensualidade da atriz antes da televisão o fazer. Ele capta a doçura da estrela, sem apagar a mulher. Revela-nos uma beleza angelical preste a romper, fazendo emergir a mulher sensual, como se fosse saltar dos olhos expressivos do anjo. Os cabelos da atriz revelam o seu glamour, a sensualidade contida, mas latente, pronta para pulsar. Guerreiro descobre um lado impar de Regina Duarte, revelando, com exclusividade, uma mulher quente e ardente, que de namoradinha, transformara-se em “Amante do Brasil”.

Zezé Motta, Exótica Beleza

Dona de uma beleza exótica, exalada da sua pele negra, como um ébano nobre, uma rainha secular, Zezé Motta foi a primeira atriz a dizer não aos papéis medíocres e limitados que as telenovelas reservavam para os atores negros. Recusou-se a voltar no papel da eterna empregada doméstica, denunciando abertamente o preconceito, que até então, fazia-se velado.
Longe das limitações da televisão, transformou-se em rainha no cinema, vivendo a mítica Xica da Silva no filme homônimo. A película rendeu-lhe a consagração definitiva da carreira, e grande prestígio do público e dos críticos.
Se o seu olhar desperta uma mulher silvestre, o tom da voz é doce, de uma meiguice insinuante. Zezé Motta, além de grande atriz, é uma excelente cantora, tendo gravado três discos, menos do que os que o seu talento vocal merece.
Foi a primeira atriz a viver um papel de destaque que mostrava o amor entre raças na novela “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga, em 1985. Na época, ao fazer cenas tórridas com o ator e diretor Marcos Paulo, por quem nutriu uma paixão de juventude, sofreu preconceitos de um público ainda incipiente e preconceituoso, não habituado a ver a beleza das cores mescladas pelo amor. Zezé Motta foi a primeira atriz negra do Brasil a adquirir o estatuto de estrela. Há quem diga que a música “Pérola Negra”, grande sucesso de Luiz Melodia na voz de Gal Costa, foi inspirada na atriz-cantora.
Antonio Guerreiro fez a fotografia da capa de um disco da cantora, além de fotografá-la nua para vários ensaios. Sob as lentes de Guerreiro, a sua beleza exótica salta dos olhos, invadindo o corpo silvestre, exalando todos os desejos de quem lhe admira a imagem. A negritude da pele é ressaltada pelas luzes usadas, dando uma atmosfera que lembram o cetim e o bronze, transformando-a em uma reluzente estátua renascentista.

Fernanda Montenegro, Grande Dama do Teatro

O nome de Fernanda Montenegro dispensa apresentações. Considerada a grande dama do teatro brasileiro, é uma das poucas unanimidades que o Brasil possui. Fernanda Montenegro transmite aquele ar inteligente que os intelectuais trazem na alma. Mesmo quando fala, revela-se uma atriz nos gestos, nas pausas da voz, no olhar, nos movimentos das mãos. É a mulher que dispensa títulos de estrela, sendo a atriz.
Nos palcos viveu quase todos os papéis possíveis, registrando sucessos memoráveis como “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” e “Os Dias Felizes”. No cinema foi indicada para o Oscar, em 1999, pelo filme “Central do Brasil“.
Ao longo da carreira, procurou evitar a exposição desgastante da televisão, mas as poucas vezes que emprestou o seu talento para a pequena tela, deixou momentos memoráveis, em comédias como “Guerra dos Sexos” (1983), e, “Cambalacho” (1986), novelas de Silvio de Abreu; e interpretações dramáticas em “Baila Comigo” (1981), de Manoel Carlos e “Brilhante” (1981), de Gilberto Braga.
Fernanda Montenegro foi casada com o ator Fernando Torres, de quem ficou viúva em 2008, tendo com ele dois filhos, a atriz Fernanda Torres e o cenógrafo e diretor Cláudio Torres. É uma das atrizes mais querida do Brasil, dona de um público cativo e de fãs que se vão acumulando ao longo das décadas de uma carreira brilhante.
Antonio Guerreiro fotografou a atriz ao lado do marido e da filha, Fernanda Torres, quando esta ainda era criança. Neste retrato aqui mostrado, o fotógrafo acentua os olhos decididos da dama do teatro, instigando-lhe o ar inteligente, sem esquecer a mulher por debaixo da atriz. Guerreiro tem destas magias, revela primeiro a mulher, para depois se curvar diante da celebridade. Fernanda Montenegro é na imagem, essencialmente uma mulher, captada no momento exato que se prepara para vestir à atriz, mas que as lentes de Guerreiro intercedem no lapso de tempo da metamorfose. O braço debruça-se sobre a sutileza da mão feminina, despojando-se dos gestos do drama. Nunca a atriz interpretou tão bem a mulher como aqui.

Marina Montini, Musa de Di Cavalcanti

A nova geração de brasileiros não se lembra dela. Uma injustiça, pois a mulata Marina Montini foi um dos maiores símbolos da beleza da mulher genuinamente brasileira. Fez imenso sucesso como modelo no Brasil e na Europa, onde viveu em diversos países, como Alemanha e Itália. Na década de setenta atingiu o auge da fama, posando para as lentes dos maiores fotógrafos do país. Foi capa de grandes revistas, como a “Manchete”, além de fazer belíssimos ensaios sensuais de nu artístico para a revista “Playboy”. Como atriz, fez pequenas participações no cinema nacional. Era uma modelo cultuada pelos intelectuais da época, tida como o retrato fiel da verdadeira beleza da mulher brasileira.
Mas foi como a musa inspiradora do pintor Di Cavalcanti que Marina Montini foi imortalizada. A sua beleza exuberante atingiu de forma indelével o pintor, que encontrou a estética exata da sua inspiração, passando a tê-la como modelo por sete anos. A modelo aparece nas principais obras do pintor feitas na década de setenta, entre elas, “Mulata Com Pássaro”. O estigma de musa de Di Cavalcanti acompanhou Marina Montini por toda a vida. Encerrado o apogeu da carreira, a modelo passou a ter dificuldades financeiras e a saúde fragilizada por uma cirrose, vendo-se obrigada a morar no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, vindo ali falecer em 2004, aos 58 anos de idade, isolada e esquecida.
Não é fácil competir com a pintura genial de Di Cavalcanti, mas Antonio Guerreiro não decepcionou ao fotografar a sua musa inspiradora. Neste retrato primoroso, tem-se a noção exata das formas de Marina Montini, em um dos mais fiéis registros à personalidade da modelo. Marina Montini não era uma mulher comum, como pode ser vista no retrato. Sua cor é uma exclusividade da mulher brasileira, raramente encontrada em outras terras. Sua boca carnuda inundava a imaginação dos mais apaixonados e fervorosos admiradores. Sua altura, 1,80 metro bem distribuídos entre curvas insinuantes e proporções voluptuosas, era rara para uma mulher da sua geração. Se Marina Montini viveu para ser eternizada por Di Cavalcanti, no retrato de Antonio Guerreiro adquiriu o perfil exato da lembrança da sua verdadeira imagem.

Dina Sfat, Magnitude e Talento

Dina Sfat pertence a uma geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado no início dos anos sessenta. Mulher inteligente, de um magnetismo pessoal envolvente, tornando-a uma personalidade marcante e inesquecível. Estreou-se no teatro em 1962, dirigida por Antonio Abujamra. Descoberta pelo mítico Teatro de Arena, Dina Sfat marcou com unhas de grande atriz os palcos de então.
No Teatro de Arena a atriz conheceu o ator Paulo José, com quem esteve casada por 17 anos, tendo com ele três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara. Era uma mulher reservada, sem deixar jamais de participar da vida pública do país.
Em 1970 fez o mítico filme “Macunaíma”, vivendo a guerrilheira Cy. O papel abriu-lhe as portas para protagonizar uma novela de Dias Gomes, “Verão Vermelho” (1970), a partir de então, tornou-se uma grande estrela da TV Globo, participando de sucessos inesquecíveis da teledramaturgia brasileira: “Selva de Pedra” (1972), “O Astro” (1978) e “Eu Prometo” (1983), todas de Janete Clair, sendo uma das atrizes preferidas da autora. Dias Gomes, todas às vezes que lhe foi possível, teve-a em suas novelas, entre elas “Assim na Terra Como no Céu” (1970) e “Saramandaia” (1976). A atriz jamais se furtou de viver diferentes personagens, sem nunca se ater às limitações da imagem geralmente imposta pela televisão aos seus ídolos. Interpretou prostitutas, heroínas, assassinas, loucas, enfim, uma galeria de personagens inesquecíveis que viveu com maestria.
Mulher dinâmica, Dina Sfat corajosamente disse em público, a um militar do governo, que tinha medo dele. Filha de judeus poloneses, jamais abandonou às raízes. Um câncer matou-a precocemente aos 50 anos, em 1989, encerrando uma das maiores carreiras deste país, além de uma das suas mais contundentes personalidades.
Na fotografia de Antonio Guerreiro, Dina Sfat é vista na sua essência, olhos grandes, de um olhar que penetrava na alma de quem se lhe pusesse na frente, gestos inteligentes, sem jamais esconder a mulher ardente que emanava. Dina Sfat trazia um certo mistério a ser desvendado, um lugar recôndito na alma que não se furtava em mostrar para quem tivesse coragem e personalidade para tentar penetrá-lo. Os olhos, a boca, os dedos, as mãos, tudo nela era expressivo, a sua beleza era moldada a partir da personalidade. Dina Sfat duela com a objetiva de Guerreiro, absorvendo-lhe a manipulação da imagem, sendo exatamente ela, bela, inteligente e infinita.

Vera Fischer, Um Ícone do Brasil

Uma das personalidades mais controversas do Brasil, Vera Fischer conquistou o seu lugar ao sol mediante grande perseverança e personalidade impar que só o verdadeiro talento pode revelar. Veio de Santa Catarina para desabrochar como Miss Brasil em 1969, quando o país atravessava um dos momentos mais delicados da sua história, com presos torturados e mortos nos porões da ditadura e guerrilheiros de organizações de esquerda nas ruas. Surgia singela, bela e sem explicar para o que tinha vindo, sem que se lhe pudesse imaginar aonde iria chegar.
Na primeira metade da década de setenta, notabilizou-se por participar de inúmeras pornochanchadas de sucesso, tornando-se a rainha delas. Menosprezada por um público mais consciente e inexistente para a crítica, Vera Fischer fascinava pela beleza desnuda do seu corpo nas telas do cinema. Em 1976 estava decidida a romper com esta imagem, fazendo um filme de conteúdo tido como sério, “Intimidade”, dirigida pelo então marido, Perry Salles. O filme passou despercebido, sem maiores conseqüências para a sua carreira.
Em 1977 foi contratada pela TV Globo, para viver uma personagem inspirada nela própria, na novela “Espelho Mágico”, de Lauro César Muniz. A novela não alcançou grande sucesso de público e a estréia valeu como curiosidade na sua carreira. O sucesso começou a vir em “Sinal de Alerta” (1978), de Dias Gomes, e Vera Fischer começou a demonstrar um talento incipiente, mas em franca ascensão. Em 1980 viveu a primeira protagonista, em “Coração Alado”, novela de Janete Clair, culminando com a novela “Brilhante”, de Gilberto Braga, em 1981, onde vivia Luiza, personagem imortalizada na música homônima de Tom Jobim. Desde então Vera Fischer passou a ser uma atriz respeitada e admirada.
A atriz construiu uma carreira muitas vezes afetada pelos altos e baixos da sua vida pessoal, traduzida pelas drogas que consumia e por seus amores tempestuosos. Já foi demitida da televisão, perdeu a guarda do filho, teve internada em clínicas para desintoxicação, tendo a tudo superado, mantendo-se com grande prestígio, bons papéis e dona de uma beleza madura, que parece eterna, longe do crepúsculo dos anos.
Nesta fotografia de Antonio Guerreiro temos uma Vera Fischer extremamente jovem, vestida apenas por sua beleza, sem as marcas deixadas pelo tempo que moldam a personalidade e agregam o amadurecimento existencial. Traz um quase sorriso malicioso, diluído em uma inocência intimista. Guerreiro revela o momento exato em que o mito do cinema sensual dá passagem para a atriz personalizada. Luzes realçam os olhos e iluminam a delicadeza de uma beleza singular. Vera Fischer é aqui, o esboço do mito, é a mulher despida, maquiada pelas lentes da objetiva e pelas luzes do cenário. Sua beleza é o tema essencial da fotografia.

Veja também:
SONIA BRAGA & GAL COSTA SOB AS LENTES DE ANTONIO GUERREIRO

ORCHESTRE DES CHAMPS-ÉLYSÉES NO BRASIL

Maio 8, 2009
Em 2005 foi realizado o “Ano do Brasil na França”, com eventos culturais brasileiros que eclodiram por terras francesas, marcando momentos de grande sucesso no intercâmbio, Em 2009 chegou a vez do Brasil retribuir, assim, em abril, foi aberto o “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”, com uma programação de mais de 600 eventos culturais a acontecer por todo o país tropical.
Na leva do “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”, pôde ser visto, pela primeira vez em solo tupiniquim, a apresentação de uma das mais conceituadas e famosas orquestras da Europa e do mundo, a Orchestre des Champs-Élysées de Paris, sob a regência do genial maestro Philippe Herreweghe.
A orquestra é conhecida pela pluralidade da sua formação, comportando cerca de 172 músicos, com idades distintas e nacionalidades diversas, como franceses, bósnios, alemães, romenos, norte-americanos, italianos, colombianos, belgas, holandeses, e muitas outras, o que lhe traz esta atmosfera universal e de unidade musical sempre a surpreender e fascinar a platéia. Pela quantidade de músicos e instrumentos, torna-se difícil trazer uma orquestra deste porte. Este obstáculo foi possível de ser vencido devido à generosidade do maestro Philippe Herreweghe, que abriu mão de grande parte dos músicos, criando um concerto grandioso com apenas 81 componentes da orquestra original.
Os momentos da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil foram marcados por quatro concertos, sendo três em São Paulo, dois na Sala São Paulo, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística; e, um no Sesc Itaquera; e um em Brasília, no Teatro Nacional Cláudio Santoro. Com exceção das apresentações na Sala São Paulo, as demais tiveram entrada franca, sendo patrocinadas pelo “França.Br 2009 – Ano da França no Brasil”.
Mesmo com noventa músicos a menos, Philippe Herreweghe regeu um espetáculo monumental, com três concertos distintos, “Escocesa – Sinfonia nº 3 em La Menor, Op. 56”, de Felix Mendelssohn; “Sinfonia Fantástica – Episódios da Vida de um Artista, Op. 14”, e “Lélio ou Retorno à Vida – Op. 14”, criação de Hector Berlioz. A dimensão apoteótica dada pelo maestro, parecia que mais de uma centena de músicos enchiam as salas por onde passou a orquestra, como se os contrabaixos fossem mais de uma dúzia, e os violinos infinitos. O apogeu foi alcançado com a “Sinfonia Fantástica” de Berlioz, momento sublime de uma concepção que transcendia a platéia, fazendo-a ardorosa e emocionada. Grandiosa, eloqüente, emocionante, e vários adjetivos afins, são poucos para descrever as apresentações da Orchestre des Champs-Élysées no Brasil, deixando-nos com a perspectiva do porque de ser uma das maiores orquestras do mundo, e com a certeza do seu retorno em solo brasileiro.

A Orchestre des Champs-Élysées

A Orchestre des Champs-Élysées foi fundada em 1991, numa iniciativa de Alan Durel, diretor do Théâtre des Champs-Élysées, e de Philippe Herreweghe, que se fez desde então, o seu diretor musical e regente. Ao longo de quase duas décadas, a orquestra acumulou prestígio, sendo uma das mais conceituadas e admiradas no mundo.
Após a sua fundação, a orquestra esteve residente por muitos anos no Théâtre des Champs-Élysées em Paris, e, no Palais des Beaux-Arts de Bruxelas, na Bélgica. Tornou-se uma orquestra com características distintas, que se especializou na interpretação da música que se estende desde a metade do século XVIII ao início do século XX. Os instrumentos tocados pelos músicos são originais da época, com cordas especiais feitas das tripas de ovelhas, o que lhe concebe a originalidade garantida do som que se fazia pelos séculos passados. A dimensão musical tornar-se, através da Orchestre des Champs-Élysées, uma concepção única, que passa por um vasto repertório, de Mahler a Berlioz, de Haydn a Mendelssohn.
Formada por músicos de nacionalidades plurais, o que lhe confere uma lufada de constante renovação e aprimoramento vindos de várias partes do mundo, garantindo-lhe uma erudição internacional, a Orchestre des Champs-Élysées já se apresentou nas principais salas de concertos da Europa e do mundo, entre elas, a Musikverein de Viena, Gewandhaus de Leipzig, Alter Oper de Frankfurt, Barbican Center de Londres, Philharmonic Hall de Berlim e Munique, Concertgebouw de Amsterdã e tantas outras. Além do circuito europeu, a orquestra apresentou-se com exímio sucesso, no Lincoln Center de Nova York, no Teatro Nacional de Brasília, e diversos países como Austrália, Japão, China e Coréia.
Desde a fundação, a orquestra esteve sempre sobre a direção artística de Philippe Herreweghe, com o seu perfeccionismo caracterizado pela execução de um repertório tecido por instrumentos de época. A Orchestre des Champs-Élysées esteve, ocasionalmente, sob a regência de famosos maestros convidados, entre eles Louis Langrée, Daniel Harding, Christophe Coin, Christian Zacharias, René Jacobs e Bruno Weil.
A Orchestre des Champs-Élysées produziu, ao longo da sua trajetória, uma extensa obra discográfica, que incluí interpretações de Mozart (“Grande Messe en ut Mineur”, “Requiem”), Mendelssohn (“Elias”, “Paulus”), Beethoven (“Missa Solemnis”), Brahms (“Un Requiem Allemand”), Schumann (“Symphonie nº 2 e 4”), Bruckner (“Symphonie nº 7”) e Mahler (“Des Knaben Wunderhorn”), entre tantos.

Philippe Herreweghe, o Regente

Conheci Philippe Herreweghe em Lisboa, em fevereiro de 1994, em um concerto do Ensemble Musique Oblique, da qual ele era regente, e que marcava a abertura do evento “Lisboa Capital Européia da Cultura – 1994”, realizado no Centro Cultural de Belém (CCB). Na noite que precedeu ao concerto, estivemos em uma tertúlia no Bar Mahjong, no Bairro Alto, ao lado do músico e amigo Michel Maldonado, da assessora de imprensa Sylvia Vaez, e do fotógrafo Stanislas Kalimerov. Dono de um humor agradável e de uma erudição cultural despida de pedantismos, Philippe Herreweghe conquista com o seu carisma particular, às pessoas que o ladeiam, mostrando-se afável e generoso.
Nascido na Bélgica, na cidade de Ghent, Herreweghe traz a simpatia sofisticada e arraigada dos flamingos. Foi na sua cidade natal, na Flandres, que estudou piano no conservatório. Desviou-se da música para que se pudesse dedicar aos estudos de medicina, especializando-se em psiquiatria. Já na faculdade, Philippe Herreweghe fundou o Collegium Vocale de Ghent, chamando para si as atenções de Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, fascinados pela qualidade do conjunto vocal por ele fundado, convidando-o de imediato para que se unisse a eles e participasse da gravação completa das “Cantatas de Bach”.
Desde então, Philippe Herreweghe empenhou-se em trazer para a sua regência um amplo repertório que vai do Renascimento à música erudita contemporânea, o que o levou a criar várias orquestras (ensembles), com integrações distintas e plurais, com as quais fez cerca de sessenta gravações em disco. Entre os ensembles estão: Ensemble Vocal Européen, especializado na interpretação da música polifônica renascentista; o Collegium Vocale de Ghent, que há trinta anos dedica-se à música de Bach e seus precursores; a Chapelle Royale, dedicada à Música Barroca Francesa; a Orchestre des Champs-Élysées, especializada em música clássica e romântica, e a Ensemble Musique Oblique, especialista em música erudita contemporânea.
Além de ser um dos fundadores da renomada Orchestre des Champs-Élysées, em 1991, é desde então, o seu diretor artístico e regente. Philippe Herreweghe costuma reger como convidado, outras grandes orquestras de prestígio internacional, como a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã; a Orquestra Rotterdam Philharmonic, de Roterdã; a Orquestra da Gewandhaus de Leipzig; a Mahler Chamber Orchestra; a Stavanger Symphony Orchestra; a Royal Flandres Philharmonic Orchestra, da qual é diretor desde 1997. Dirigiu também, as orquestras Filarmônicas de Berlim e de Viena.
Philippe Herreweghe participou como diretor artístico do prestigiado Festival de Saintes, no sudoeste da França, no período de 1982 a 2002. Em 1990 foi agraciado com o título de Personalidade Musical do Ano; Músico Europeu do Ano, em 1991; Embaixador Cultural da Flandres através do Collegium Vocale de Ghent, em 1993. Foi-lhe outorgado, em 1994, a Orden de Officier des Arts et Letters; nomeado Doctor Honoris Causa da Universidade da Lovaina, em 1997. Em 2003, foi nomeado Cavalheiro da Legião de Honneur, sendo-lhe concedido um título nobiliárquico pelo rei da Bélgica.
Pelo talento, por todas as qualidades mencionadas, Philippe Herreweghe é hoje um dos maiores nomes da música clássica, erudita e contemporânea do mundo, sendo um dos maiores regentes das últimas décadas.

A Orchestre des Champs-Élysées em São Paulo

Apesar de ter se apresentado nas maiores salas de espetáculos do planeta, a Orchestre des Champs-Élysées só aportou no Brasil graças às comemorações do “França.Br 2009 - Ano da França no Brasil”. Com cerca de 172 músicos, o deslocamento da orquestra exige uma grande infraestrutura, tornando-se demasiadamente dispendiosa, o que necessita sempre de mecenas e patrocinadores.
A negociação com os organizadores do “Ano da França no Brasil” e a Orchestre des Champs-Élysées foram longas, feitas em mais de um ano. Graças à generosidade de Philippe Herreweghe, que aceitou cortar substancialmente no número de músicos e, principalmente, conseguiu manter o nível de qualidade erudita com uma orquestra desfalcada de mais de noventa dos seus membros integrantes, que o Brasil pôde, finalmente conhecer este imponente ícone da música erudita mundial.
Feitos os cortes, a Orchestre des Champs-Élysées chegou ao Brasil no fim de abril de 2009, com 81 músicos, o ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, um grupo de bailarinas, o tenor Robert Getchell e o barítono Pierre-Yves Pruvot, todos sob a regência e direção de Philippe Herreweghe.
Na programação, a orquestra tinha a função de abrir oficialmente o “França.Br 2009” no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Mas os problemas de infraestrutura estavam longe de uma solução definitiva. Curiosamente, uma cidade como o Rio de Janeiro não ofereceu recursos para que se recebesse uma orquestra deste porte. O Teatro Municipal, uma das mais belas casas de espetáculos do país, foi fechado em outubro de 2008 para restauração. Como solução, chegou a ser anunciada a apresentação da orquestra no Teatro João Caetano, mas os organizadores chegaram à conclusão de que o teatro estava degradado, a necessitar de obras, não oferecendo condições para receber um concerto da grandiosidade da Orchestre des Champs-Élysées. Assim, uma cidade da importância do Rio de Janeiro, foi excluída do roteiro da orquestra, uma vergonha para os governantes e representantes da cultura carioca.
Em São Paulo, a orquestra apresentou-se ao ar livre, no Sesc Itaquera, brindando o paulistano com a belíssima apresentação de “Lélio ou Retorno à Vida – Op. 14″, de Hector Berlioz. A apresentação contava com intervenções narrativas do ator argentino Marcial Di Fonzo Bo, dois cantores e um coro, tendo entrada franca, sendo registrada pela TV Cultura, que transmitiu o concerto ao vivo, alcançando grande sucesso e receptividade do público. A apresentação musical, a cenografia e a encenação foram complementadas por projeções em vídeo criadas por Jean-Philippe Clarac e Olivier Deloeuil. Foram feitas outras duas apresentações na Sala São Paulo, para um público pagante, iniciando a temporada da Sociedade Cultura Artística. Concebido exclusivamente para São Paulo, quando a Orchestre des Champs-Élysées deixou a cidade, o ator, os cantores e bailarinos não os acompanharam até o Distrito Federal, antecipando a volta para a França.

A Orchestre des Champs-Élysées em Brasília

Após o contratempo que excluiu a cidade do Rio de Janeiro do roteiro, e o grande sucesso em São Paulo, a orquestra partiu para o Distrito Federal, com 81 músicos, tendo o honroso compromisso de abrir oficialmente o “França.Br 2009” na capital do Brasil.
Já familiarizados com o país, os músicos sentiram-se confortáveis em Brasília, o que contribuiu para que se pudessem entregar sem medos à composição de um grande concerto, que conquistaria a platéia brasiliense.
Em Brasília, o concerto foi organizado com grande pompa, com a presença de Antoine Pouillieute, embaixador da França no Brasil, a discursar na abertura. Para esta apresentação, Philippe Herreweghe preparou um concerto dedicado a Félix Mendelssohn e a Hector Berlioz.
Na primeira parte da apresentação, Mendelssohn abria o espetáculo, com “Escocesa – Sinfonia nº 3 em Lá menor, Op.56”. O perfeccionismo de Herreweghe dilatava-se logo à entrada, com a sua obsessão perene pela autenticidade do som e dos instrumentos de época. O toque precioso da emoção contagiava o público da Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional de Brasília, que aplaudia com veemência a cada movimento encerrado. A “Sinfonia nº 3”, devidamente intitulada “Escocesa”, alcançou com Herreweghe a conotação precisa da mobilidade da música de Mendelssohn, um romântico que nos dá um à vontade em suas fugas.
Ao fim da primeira parte, um breve intervalo foi regado por um autêntico Champagne oferecido ao público. Apesar de longo, o intervalo não quebrou a atmosfera que se conseguiu durante a execução da obra de Mendelssohn.
Na segunda parte do concerto, estava o momento mais esperado, a “Sinfonia Fantástica – Episódios de uma Vida, Op. 14”, de Hector Berlioz. A sinfonia conta a história de um jovem compositor que, por amor, envenena-se com ópio, mas ao ingerir uma dose não suficiente para matar, faz com que ele mergulhe em um estado letárgico repleto de visões. As visões apresentam-se na sinfonia, originalmente chamada de “Episódio da Vida de Um Artista”, que se desenvolve em cinco movimentos.
A apresentação econômica da orquestra desaparece diante das mãos decididas de Philippe Herreweghe, que faz com que a dimensão sonora seja grandiosa, e que a platéia pense que ali estão mais de 40 violinos, quando eram apenas 24. Ao fim de cada movimento, novos aplausos eclodiam de uma platéia totalmente rendida à orquestra. Os instrumentos usados são os mesmos que Berlioz idealizou e tocou, em 1830, quando escreveu a Sinfonia. Ao final suntuoso, com o último movimento, “Sonho de Uma Noite de Shabat”, a platéia foi ao delírio. Quando o concerto foi encerrado, a generosidade do público mostrou os resultados de um grande trabalho, os aplausos eclodiram incessantemente por longos dez minutos, obrigando Philippe Herreweghe a voltar ao palco por duas vezes. Encerrava-se assim, de forma apoteótica, a vinda da Orchestre des Champs-Élysées ao Brasil, deixando um gosto de quero mais e a imensa expectativa de que ela retorne muitas vezes, e brevemente, quem sabe, com todos os músicos.
Ao fim dos concertos, uma grande excursão de músicos fez-se presente pelas ruas e pelos monumentos da cidade inventada por Oscar Niemeyer. Em um ano que se programou mais de 600 eventos artísticos vindos da França, a Orchestre des Champs-Élysées foi o presente de estréia, em um momento de puro êxtase cultural e reverências a Philippe Herreweghe e aos seus 81 músicos.

Orchestre des Champs-Élysées – Composição

Original

Regente: Philippe Herreweghe

Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud, Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht, Catherine Arnoux, Marieke Blankestijn, Alessandro Braga, Karine Crocquenoy, Ilaria Cusano, Maud Giguet, Elisabeth Glab, Charlotte Grattard, Solenne Guilbert, Peter Hanson, Alexander Janiczek, Matilda Kaul, Thérèse Kipfer, Bérénice Lavigne, Catherine Montiers, Liesbeth Nijs, Aki Saulière, Henriette Scheytt, Kio Seiler, George Willms

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Bretagne, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger, Agathe Blondel, Mathilde Bernard, Laurent Bruni, Blandine Faidherbe, Jean-Charles Ferreira, Laurent Gaspar, Dorothée Leclair, Luigi Moccia, Wendy Rymen

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana, Florent Audibert, Julien Barre, Fabrice Bihan, Claire Giardelli, Jennifer Morsches

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore, Axel Bouchaux, Clothilde Guyon, Marion Mallevaes, James Munro, Francis Palma-Pelletier, Alessio Povolo, Jean-Baptiste Sagnier, Miriam Shalinsky, Maria Vahervuo

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel, Giulia Barbini, Laura Colucci, Oeds van Middelkoop, Jane Mitchell, Takashi Ogawa, Jan de Winne

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato, Pier-Luigi Fabretti, Christian Moreaux, Rafaël Palacios, Antoine Torunczyk, Stefaan Verdegem

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini, Benjamin Dieltiens, Luca Luchetta, Markus Springer, Marc Withers

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival, Margreet Bongers, Alain de Rijckere, Jani Sunnarborg, Javier Zafra

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse, Luc Bergé, Jeroen en Billiet, Mark De Merlier, Miek Laforce, Ursula Monberg, Martin Mürner, Martin Roos

Trompetes e Cornetas: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson, Leif Bengtsson, Alain de Rudder, Guy Ferber, Patrick Henrichs, Femke Lunter, Thibaud Robinne, Geerten Rooze

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet, Guy Hanssen, Saman Maroofi, Harry Ries

Oficleides, Tuba, Serpent: Marc Girardot, Stephen Wick, Erhard Schwartz

Tímpanos 1: Marie-Ange Petit, Peppie Wiersma

Tímpanos 2: Hervé Trovel, David Joignaux

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux, Hélène Brana, Bernard Heulin, Hervé Trovel

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

No Brasil

Regente: Philippe Herreweghe

Primeiros Violinos: Alessandro Moccia (violino solo), Roberto Anedda, Assim Delibegovic, Virginie Descharmes, Philippe Jegoux, Marion Larigaudrie, Corrado Lepore, Baptiste Lopez, Martin Reimann, Nicole Tamestit, Enrico Tedde, Marie Viaud

Segundos Violinos: Bénédicte Trotereau, Marieke Bouche, Adrian Chamorro, Isabelle Claudet, Federica della Janna, Jean-Marc Haddad, Pascal Hotellier, Clara Lecarme, Corrado Masoni, Giorgio Oppo, Andreas Preuss, Sebastiaan van Vucht

Violas: Jean-Philippe Vasseur, Marie-Elsa Beaudon, Maïlyss Cain, Brigitte Clément, Delphine Grimbert, Lika Laloum, Joël Oechslin, Lucia Peralta, Catherine Puig, Silvia Simionescu, Bonoit Weeger

Violoncelos: Vincent Malgrange, Ageet Zweistra, Hilary Metzger, Michel Boulanger, Arnold Bretagne, Andrea Pettinau, Gesine Queyras, Harm-Jan Schwitters, Hager Spaeter-Hanana

Contrabaixos: Michel Maldonado, Joseph Carver, Elise Christiaens, Damien Guffroy, David Sinclair, Christine Sticher, Massimo Tore

Flautas: Mathias von Brenndorff, Amélie Michel

Oboés: Marcel Ponseele, Taka Kitazato

Clarinetes: Nicola Boud, Daniele Latini

Fagotes: Julien Debordes, Jean-Louis Fiat, Philippe Miqueu, Robert Percival

Trompas: Rafaël Vosseler, Christiane Vosseler, Jean-Emmanuel Prou, Frank Clarysse

Trompetes: Steven Verhaert, Andreas Bengtsson

Cornetas: Leif Bengtsson, Alain de Rudder

Trombones: Dennis Close, Wim Becu, Charles Toet

Oficleides: Marc Girardot, Stephen Wick

Tímpanos: Marie-Ange Petit, Hervé Trovel

Percussão: François Garnier, Antoine Siguré, David Joignaux

Harpas: Pascale Schmitt, Aurélie Saraf

Discografia da Orquestra

1992 – Wolfgang Amadeus Mozart – Grande Messe en ut Mineur
1993 – Felix Mendelssohn – Elias
1994 – Felix Mendelssohn – Le Songe D’Une Nuit D’Été
1995 – Hector Berlioz – Nuits D’Été Herminie
1995 – Ludwig van Beethoven – Missa Solemnis
1996 – Felix Mendelssohn – Paulus
1996 – Johannes Brahms – Un Requiem Allemand
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem
1997 – Wolfgang Amadeus Mozart – Gran Partita K. 361 / Sérénade pour Vents K. 388
1997 – Robert Schumann – Symphonie nº 2 / Symphonie nº 4
1997 – Robert Schumann – Concerto pour Violoncelle / Concerto pour Piano
1997 – Hector Berlioz – L’Enfance du Christ
1998 – Robert Schumann – Scènes de Faust
1999 – Ludwig van Beethoven – Symphonie nº 9
2002 – Gabriel Fauré – Requiem (Version pour Grand Orchestre) / César Franck – Symphonie en Ré
2002 – Franz Schubert – Messe en La Bémol / Feliz Mendelssohn – Psaume 42
2004 – Anton Bruckner – Symphonie nº 7
2006 – Anton Bruckner – Symphonie nº 4 “Romantique”
2006 – Gustav Mahler – Des Knaben Wunderhorn
2007 – Robert Schumann – Symphonie nº 1 “Printemps” / Symphonie nº 3 “Rhénane”
2008 – Anton Bruckner – Messe nº 3 en Fa Mineur
2009 – Anton Bruckner – Symphonie nº 5


LENDAS DO INTERIOR DO BRASIL

Abril 25, 2009
O Brasil é um país continente, rico em tradições e lendas. Grande parte delas estão ligadas aos costumes herdados dos colonos europeus, dos nativos indígenas e dos negros vindos da África. Neste artigo foram reunidas três lendas de partes opostas do país, como a da Mãe de Ouro, típica do Centro-Oeste, que teve a sua história feita em cima do desbravamento dos bandeirantes e das pedras preciosos ali encontradas; do Vaqueiro Misterioso, mítico personagem do interior nordestino, que tem nas vaquejadas uma das festas mais tradicionais do sertão; e, a lenda das Amazonas, que roubada da mitologia grega, deu origem ao nome do maior rio do mundo em águas, o Amazonas, tornando-se parte do folclore do norte do Brasil.
O Vaqueiro Misterioso é o estereótipo do herói da caatinga, à primeira vista um retirante, como grande parte dos habitantes da chamada região da “Civilização do Couro”, mas que se transforma no mais valente dos homens, um autêntico sobrevivente de todas as diversidades do sertão. O herói incansável aparece e desaparece, sem deixar um nome, a sua identidade é o próprio sertão nordestino.
A Mãe de Ouro nasceu da fantasia dos solitários garimpeiros, que em busca da riqueza, construíram o Brasil central. A lenda corre no rio das Garças, que em outros tempos foi rico em pedras preciosas. O fago-fátuo desprendido das ossadas dos animais mortos causava medo aos garimpeiros, ao mesmo tempo eram vistos como os pingos de luz de uma mulher que trazia as riquezas da região, escondidas em suas grutas e no leito dos seus rios.
As Amazonas, lenda da terra das mulheres guerreiras e sem homens, vem da antiga mitologia grega. Em 1542, os espanhóis chegaram a um imenso rio que chamaram de “Mar Dulce”. Frei Gaspar de Carvajal, escrivão da frota espanhola, revela ter sido atacado por mulheres guerreiras, nuas e com arcos nas mãos. Associou-as ao mito das Amazonas, e a partir de então, o grande rio foi batizado de rio Amazonas, sendo a lenda grega transportada para o imaginário brasileiro.

O Vaqueiro Misterioso

O sol do sertão queima sem piedade o solo. Valentes mandacarus resistem imponentes, tornando-se o único verde no meio de toda a caatinga. No meio do cenário agreste, aparecia a figura misteriosa de um vaqueiro. Surgia do nada, ao longe trazia o retrato do sertão cortante e seco, trajando vestes rotas, chapéu cambaio sobre o rosto queimado. Montava a sua égua esquálida, que trazia um ar de cansaço, sôfrego e sem esperança, como o era o mais valente dos retirantes. Quando surgia no horizonte, o Vaqueiro Misterioso era a própria visão do apocalipse sertanejo.
Conforme se aproximava dos povoados e das fazendas, a imagem do vaqueiro transformava a mais incrédula retina, o seu semblante trôpego dava passagem para os gestos rápidos, para uma vitalidade contagiante. A sua égua dantesca deixava os infernos da seca, mostrando-se a mais valente das bestas, um autêntico e indomável corisco.
E o Vaqueiro Misterioso empregava-se momentaneamente pelas fazendas, tornando-se o mais hábil na lida, com a força de dez homens. Embrenhava-se na caatinga atrás do gado fugitivo, trazia no laço quantos se lhe deparassem, sem mostrar qualquer cansaço ou fatiga. Tão logo encerrava as tarefas, recebia a paga e partia, deixando frustrados os fazendeiros que tudo davam para tê-lo ao seu serviço para sempre, pois sabiam, igual a ele não existia homem algum no sertão. Quem era aquele vaqueiro? De onde vinha? Para onde ia? Ninguém sabia ao certo. Por isto era chamada de Vaqueiro Misterioso. Tão afamado ficou, que os violeiros do sertão cantavam o seu “ABC” nas praças dos vilarejos, e os cordéis das feiras ilustravam as suas façanhas.
Finalizada a apartação do gado, o nordeste iluminava-se para a sua festa mais tradicional, a vaquejada. Homens viris mostravam o canto triste de vaqueiro, que chamavam de aboio. Após o som dos aboios, a vaquejada tinha início. Quando os animais eram soltos, surgia do nada, o Vaqueiro Misterioso. Vinha intrépido montado na sua égua branca. De repente reluzia apenas a sua brava imagem, a derrubar pela cauda, os mais valentes bois. Seu corpo trespassava a gravidade, como se voasse no galope do vento, pondo ao chão o mais feroz dos marruás. Sua sombra entrelaçava-se ao corpo, enfrentando o mais bravio dos bois, domando-o e pondo-lhe o tapa-olho, fazendo-o urrar como um cordeirinho.
Aos aplausos, o Vaqueiro Misterioso encerrava a sua atuação. Era o grande herói da festa. Subia ao palanque, onde recebia a fita amarela de campeão, amarrada ao seu braço. Humildemente sorria, jogando a fita à mais bela das donzelas que por ele suspirava. Todas elas debatiam-se para levar a fita de tão viril herói. Muitas entregavam a ele o seu coração, mas a todas o misterioso andarilho ignorava.
Após ser aclamado por todos, ele comia e bebia como nenhum outro era capaz. Cantava ao lado dos violeiros. Dividia com todos a sua alegria fugaz. Depois do rega-bofe, ele guardava um pouco de carne seca na bolsa de couro que trazia, preparava a sua égua e partia, assim como viera, distanciando-se no horizonte. Ainda ouvia atrás de si, quem lhe gritava, a perguntar-lhe pelo nome. Não respondia. Ninguém sabia. Era o Vaqueiro Misterioso, que desaparecia no meio da caatinga, como a chuva que não caiu no sertão.

A Mãe de Ouro

Maria caminhava pelas beiras do rio das Garças. Todas às vezes que olhava para as águas do rio, seu coração sentia o conforto de que seria feliz, como se a felicidade emergisse das profundezas do seu leito. Caminhava desatenta, quando chegou à gruta onde o rio desaparecia. Ali, diziam os seus antepassados, morava a Mãe de Ouro. Maria sorriu para a gruta, como se sorrisse para a felicidade prometida. Seus olhos de donzela sonhadora miraram no horizonte, quando percebeu que a tarde já ia avançada, e o Sol, muito breve, cederia o seu reinado para a Lua.
Maria pensou em voltar para casa, antes que se fizesse escuro. O frescor da tarde trouxe uma nuvem de pirilampos, ansiosos pela noite. No meio da luz dos insetos surgiu, de dentro da gruta, uma linda mulher, que trazia uma vasta cabeleira reluzente. Era a Mãe de Ouro, a sair para o mundo. Sua beleza fulgurante não poderia ser revelada ao Sol, para que por ele não fosse ofuscada. Só saía da gruta ao torpor da tarde, já pronta para o encontro com a Lua, de quem era irmã gêmea.
O rosto de Maria iluminou-se diante do esplendor reluzente dos cabelos da Mãe de Ouro. Deles caiam pingos de luz, que refletiam todas as cores e, ao contacto com o chão, transformavam-se em pedras preciosas. Maria viu a Mãe de Ouro iniciar a sua trajetória pelo céu. Sua luz refletia um imenso arco-íris, os pingos dos seus cabelos assumiam as sete cores do arco. Maria sabia que, ao ver a Mãe de Ouro, se fizesse um pedido antes que um pingo de luz caísse na terra, seria atendida, tornando-se uma mulher feliz. Assim, cerrou os olhos e fez o seu pedido.
Ao fim da visão, Maria retornou para a sua casa. Desde então passara a pertencer à Mãe de Ouro. Nas noites de lua cheia, ao adormecer, ela, silenciosamente, deixava o seu corpo na cama, e era transportada ao palácio da Mãe de Ouro.
No palácio, escondido nas profundezas da gruta, havia uma luz que reluzia as cores de todas as pedras preciosas. Era lilás nos quartos de ametistas, branco reluzente nos de diamantes, vermelhos nos de rubis, verdes nos de esmeraldas, azuis nos de safira, amarelos nos de topázios…
Ao chegar ao palácio, Maria teve o seu corpo coberto por um traje de pedras preciosas, vistoso, rico e translúcido. Ela foi levada para o salão principal, onde se ouvia as mais belas músicas, cantadas por jovens sereias; danças de belas mulheres e gênios travestidos de belos rapazes; o amor e a alegria transbordavam por todos os cantos do palácio.
Maria passou a usufruir todos os encantos daquele mundo. Ao seu lado estavam outras mulheres que, assim como ela, pertenciam à Mãe de Ouro. Viu quando uma, ao falar com outra, transformou-se em carvão. Uma das regras era que, nenhuma mulher poderia falar ou tocar na outra.
No fim da noite, um gênio encantando, trazendo o corpo viril de um homem, amou e possuiu Maria, fazendo-a a mais feliz das amantes. No meio do leito do rio, as suas águas tomaram forma de uma cama nupcial. Maria transbordou de amor.
Por fim o galo deu o seu primeiro canto. As mulheres encantadas saíram da gruta, em forma de um grande nevoeiro de nuvens brancas. Transformada em uma nuvem leve e alva, Maria voltou para a sua casa, retornou ao seu corpo, vestiu a sua pele e despertou, pronta para viver a sua vida normalmente, até a próxima lua cheia, quando os encantos da Mãe de Ouro virão buscá-la novamente.

As Amazonas

No Reino das Pedras Verdes, no coração da selva amazônica, contam os índios, vivem mulheres guerreiras, que caçam e pescam os seus alimentos, trabalham na roça, onde cultivam a mandioca, tecem redes e tecidos coloridos, fazem vistosas cerâmicas, adornos de penas para os corpos esbeltos. São mulheres que dividem tudo por igual e, naquele reino, não vivem homens. Elas são as Amazonas.
O Reino das Pedras Verdes é governado por uma rainha. Cabe a ela a pajelança e os rituais de purificação aos deuses da mata. A rainha das Amazonas é quem organiza as festas e as tarefas de trabalho. Seu reinado é curto, dura apenas cinco luas cheias de abril. Por isto, de cinco em cinco anos, o reinado é passado a uma virgem de vinte anos.
Para demarcar o reino, as Amazonas fabricam um amuleto, o muiraquitã, uma raridade que nenhum índio de toda a selva amazônica sabe como é feito. A matéria-prima para fabricá-lo só é encontrada na terra das mulheres guerreiras.
Uma vez por ano, no mês de abril, as mulheres guerreiras recebem os homens, para que assim, possam acasalar, garantindo a prole e as tradições. Na noite de lua cheia de abril, uma grande claridade ilumina as águas límpidas do grande lago Jaci-Uaruá. Refletidas pelos raios do luar, as Amazonas mergulham no lago, indo até as suas profundezas, de onde trazem uma grande quantidade de barro. É deste barro limoso que modelam as figuras de rãs, peixes e tartarugas. O barro tem que ser modelado às pressas, ainda debaixo da água, antes que o luar endureça o limo verde.
Dos animais modelados, a rã, símbolo da fertilidade das mulheres guerreiras, transforma-se em um amuleto de acasalamento, que ao ser perfurado, é posto nos seus pescoços. Elas estão prontas para naquela noite, receberem os mais viris e saudáveis índios das tribos vizinhas. É a noite nupcial do luar de abril.
Após uma noite ardente de amor, as Amazonas estão fecundadas. Para os índios que lhe deram uma filha, elas retribuem com o muiraquitã. Os que lhe deram um filho no ano anterior, terão que levar o menino para ser criado em suas aldeias, posto que no Reino das Pedras Verdes só vivem mulheres, são elas as Amazonas, as mulheres sem maridos.

Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de Jeocaz Lee-Meddi para textos de Brasil, Histórias, Costumes e Lendas


ENCONTRO NO JARDIM DO ÉDEN – JEOCAZ LEE-MEDDI

Janeiro 10, 2009

“E Deus prosseguiu dizendo:
‘Façamos homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança,
e tenham eles em sujeição os peixes do mar,
e os animais domésticos, e toda a terra,
e todo animal movente que se move sobre a terra.’
E Deus passou a criar o homem à sua imagem,
a imagem de Deus o criou;
macho e fêmea os criou.”
(Gênesis 1:26-27)

Quando a canção dos ventos faz dos mil dias os mil anos, dos mil anos o princípio do passado, onde a confusão do futuro continua a arremessar o nosso ser nas incertezas de Deus. Assim a noite torna-se a máquina do tempo, e o corpo as moléculas das ideologias.
Nas incertezas da minha mente, fugir para os jardins públicos nunca arrebatou os meus desejos. Naquela noite de estrelas e de galáxias sobre as cabeças, entrei pelo Jardim do Trianon. Tudo era escuro, e um cheiro nauseante de flores confundia a primavera. Sempre tive medo de atravessar o coração do jardim. Medo das surpresas, ali assaltantes, drogados e bichas dançavam um tango perigoso com cheiro de sangue e esperma. Não resisti ao cheiro das flores, teria que vomitar. Talvez fosse do absinto, mas preferia acreditar que era das flores, intelectualizava melhor os vícios. Entrei no coração do jardim para vomitar. Poderia tê-lo feito nos urinóis dos cães por ali espalhado, mas a minha condição de cão sem dono não me deixou fazer isto.
Quanto mais penetrava no interior do jardim, mais a noite corria, as nuvens no céu passavam por mim em grande velocidade. As estrelas davam passagem ao Sol, que por sua vez brilhava de um tom pastel, dando à paisagem cores tranqüilas, cromaticamente perfeitas. O jardim foi ampliando-se, tornara-se infinito, já não conseguia ver os prédios. Na minha boca o gosto do absinto dava passagem a um bem-estar quase bucólico. Já não tinha coragem de vomitar.
Caminhei pelo imenso jardim. Por mim passaram plantas, árvores, pássaros, formas da natureza que jamais tinha visto. Quanto mais caminhava, mais me perdia dentro do jardim. Andei alguns minutos, quando vi ao longe um lago. Parecia calmo, convidativo para beber água. Caminhei até o lago, na certeza de querer ver a minha imagem nele refletida. Debrucei-me sobre as margens. Bebi um pouco da água, era saborosa, fresca, pura. Molhei com as minhas mãos o meu rosto. Olhava-me no espelho das águas, quando uma outra imagem formou-se no reflexo das mesmas. A imagem tremia com o movimento das águas. Mas podia ver o corpo de um homem, um rosto a olhar-me. Uma beleza que jamais vi em revistas ou filmes. Levantei-me, vi atrás de mim o homem da imagem nas águas. Sorria-me com um sorriso quase ingênuo, talvez puro. Olhei para o seu corpo, estava nu, completamente nu. Um corpo perfeito, de uma beleza que jamais encontrei nos ginásios de atletas. Trazia músculos exatos, sem nunca ter recorrido aos alteres. Levantei-me, se aquele homem não era uma miragem, com certeza que atenderia a todos os engates de jardins, sem jamais sair dali. Toquei-lhe no ombro. A pele era perfeita, passei-lhe a mão pelo peito. Olhei para ele. Era real.
-Quem és tu, um anjo? – Perguntou-me.
Um anjo? Eu, um anjo? Sim, anjo, querubim, serafim, arcanjo, o que ele quisesse. Para quê dar títulos às coisas? Eu era a ilusão que me quisessem dar, seria difícil de explicar isto?
-Porque me fazes esta pergunta?
-És um anjo? Trazes vestes, deves ser um anjo de Deus.
-Um anjo de Deus? E tu quem és?
-Não sou nada, sou apenas a imagem da obra de Deus. Mas deves saber quem sou. Não fazes parte do jardim, fazes parte do conhecimento que eu ainda não tive, mas que procuro. Fazes parte dos anjos.
-Como te chamas?
-Não sabes? Todos os anjos sabem. Todos me chamam Adão, e não sei porque, todos eles, filhos de Deus, como eu, mas mais poderosos, invejam-me como criação perfeita. Acho que a inveja deles trará um dia o meu fim.
Adão. O jardim não era o Trianon? Olhei à minha volta. Tudo era perfeito, a harmonia da paisagem confundia-se com os animais que passeavam mansamente pelo jardim. Não, definitivamente aquele homem era por demais perfeito para ser um de nós. O seu corpo trazia a beleza divina, sim, agora percebia a inveja dos anjos que queriam ser como Adão. A beleza da criação de Deus ainda perfeita. O corpo como símbolo de beleza, não de desejo. De repente senti-me envergonhado por trazer roupas. As roupas traziam-me o pecado, trazia-me a traição àquela perfeição da obra de Deus.
-Sim, em parte tens razão, não sou um anjo, mas sou o resultado da luta dos anjos com Deus. Um anjo caído, porque sou o teu espelho desfocado, o teu filho mais distante, sem a importância que tens, sem a grandiosidade de ti. Olha o meu corpo. Traz marcas, é imperfeito, perecível, quase um monstro perto do teu. Olha bem o meu corpo, és tu futuramente, sou o que fizeste, sou a tua escolha. A tua liberdade diante da escolha. Mais do que tu, sou pó, porque assim mo fizeste.
Ele olhou-me. Tocou-me. Parecia sentir uma certa repugnância. Repugnância nas imperfeições dos corpos. Por mais que tentasse, não conseguia ver-se assim. Era uma visão hecatômbica diante da criação. Mas comoveu-se com a minha imperfeição. Reconhecia em mim o filho bastardo, mesmo a julgar-me indigno do seu Éden. Sorriu-me, estendeu-me a mão.
-Queres visitar o meu jardim?
-Sim, acho que é o sonho de todos nós, imperfeitos, mas filhos de uma obra perfeita.
Caminhamos pelos jardins. Mostrou-me todas as plantas, todos os animais. Disse-me dos anos de solidão que ali esteve a aprender, a fazer conhecimento com a natureza, com tudo o que estava à sua volta. Falou-me dos anos que passou a dar nome às coisas. A tudo dera um nome e um significado. Contou-me da companheira que agora habitava o seu mundo, da felicidade de ser a mais bela obra de Deus, sem talvez, aperceber-se da responsabilidade. Caminhamos até uma árvore. Ali encontramos um pássaro morto. Um melro. Ele debruçou-se sobre o cadáver do pássaro, apanhou-o nas mãos. Dedos longos, elegantes, onde o cadáver da ave quase desaparecia entre as linhas das mãos. Depois enterrou o corpo da ave ali, perto da árvore.
-Viste aquela ave?
-Sim, era bela. Gosto das aves.
-Nela já não havia o sopro de vida, a sua alma estava morta. É assim que acontece com todos os animais. Vês a árvore onde a enterrei?
-Sim.
-É a árvore da vida. Sou imortal, por este motivo sou diferente de todas as almas viventes. Aos animais não foi concedida a imortalidade. Se comer do fruto da árvore da vida, também eu morrerei, serei igual aos outros animais.
-Então tens conhecimento do que é a morte?
-Sim, vejo a morte todos os dias a abraçar os animais que ladeiam o Éden.
-Gostas de viver?
-Gosto, sou feliz, viver é ser feliz. Para que morrer se os sopros de todas as promessas percorrem os meus sentidos? Aprendo a sabedoria todos os dias. Às vezes tenho pressa, mas se tenho a eternidade, para que a pressa? Dizem que se comer da árvore da vida morro, mas dizem-me também, que saberei todos os segredos do mundo. Às vezes tenho fome do saber, por isto tenho medo da minha curiosidade ante ao que me é oculto.
-Não te preocupes, ainda somos assim, cheios de pressa, talvez por não termos a eternidade como a tens tu, para nós ela é apenas uma promessa. Mas somos tão imperfeitos que não acreditamos nas promessas, temos pressa de sabermos dela, mas, quanto mais pressa nós temos, mais próximos do fim caminhamos. Se tu que és perfeito tens pressa em abraçar a imperfeição, que posso fazer se não esperar pela eternidade de Deus?
Caminhamos por várias horas. Por fim o meu corpo cansou-se. Encostei-me a uma árvore e dormi. Não sei quanto tempo, quantas horas, só sei que dormi. Dormi no Éden, como um errante cuco, a invadir ninhos que não são seus. Acordei com alguém a me sacudir os ombros. Era Adão. Trazia no rosto um ar pesado. Olhei para ele e já não vi o seu sexo. Estava escondido, fazendo dele não um símbolo de beleza, mas um símbolo de desejo. Agora que não via o seu sexo, em mim um desejo louco ardia, queria vê-lo. Então me apercebi que ele já não era perfeito, já era como eu. Trazia o pecado no sexo, ladeado pela serpente, não pela pureza.
-O que aconteceu? – Perguntei-lhe.
-Temos que partir, fomos expulsos do jardim. A minha sede de conhecimento levou-me a ter pressa. Comi do fruto da árvore da vida. Agora fui amaldiçoado. Traí toda a obra do Criador. A sua obra era perfeita, mas eu a fiz imperfeita. Tornei-me apenas uma peça no jogo de Deus e de Satanás. Tenho pena de deixar o jardim, mas não posso aqui ficar. O meu sangue já traz a morte como herança. Manchei o meu sangue, está contaminado pela mortalidade dos sonhos. Perdi a eternidade para mim e para os meus descendentes. Nada deixarei de mais marcante aos meus herdeiros do que a morte. Eu fui perfeito porque fui gerado do pó, não do ventre que traz os genes da morte. Vou-me embora, para longe do jardim.
-E agora?
-Agora? Terás que esperar outro homem perfeito. A lei é sangue por sangue. Enquanto não for derramado o sangue do homem perfeito, teremos que expiar o pecado através de oferendas do sangue dos animais. Mas o sangue de um animal não é perfeito. Não basta, acalma a ira de Deus, mas não basta na lógica exata da sua lei, do seu senso de justiça. Agora somos apenas dignos da sua piedade, portanto quem é digno de piedade contenta-se com as sobras que lhe são oferecidas. Agora teremos que nos contentar com as sobras de Deus, somos apenas pobres mortais a não adorá-lo, mas a clamar pela sua misericórdia. Deus foi feito para ser amado, porque é amor, não para ser incomodado com lamúrias de alguém digno de piedade. O que fiz da curiosidade de obter sabedoria? Já não me achas belo, pois não?
-Ainda és o mais belo de todos. Mas já não és o que eu vi há pouco. Não, mudaste, tornaste-te mais um, causas-me desejo, não admiração. És como eu, agora és como eu.Assim partimos, ele seguiu uma direção e eu outra. Não sei onde foi dar o seu caminho, mas já sabia do resultado. Caminhei um pouco e fui sentar em um banco do jardim que já era o Trianon. Pessoas passavam por mim, com perfumes suaves, um cheiro atraente, o sexo escondido entre roupas que contornavam a promessa do corpo. Sim, por mim passavam os filhos de Adão. Tão obcecados pela perfeição dos corpos, pela pressa do conhecimento das verdades, pelo desajuste do desejo. Mas os que estavam escritos na eternidade de Deus, só Ele sabia. Nós, tal qual Adão, desfilávamos nossos corpos sem a grandiosidade de Deus.

Conto: Jeocaz Lee- Meddi
Fotografias: Paulo César (1 – One of the Angels, 2 – Orion e as Saudades, 3 – Alma por Inteiro, 5 – Life Can Be Strange); Guilherme Santos (4 – Os Homens Morrem no Chão), Nuno Manuel Baptista (6 – S/T) e DDiArte (7 – Laocoonte)


HOMEM DO TERCEIRO MILÊNIO, A DESCONSTRUÇÃO DO MACHO – POR JEOCAZ LEE-MEDDI

Agosto 5, 2008
No fim do milênio passado, ouvir falar no ano 2000 era imaginá-lo de um futurismo inatingível, e de completa certeza tecnológica. Para o século XXI estava predestinado à humanidade um homem de uma racionalidade sensata, como um Spock de “Jornada nas Estrelas”, dono absoluto das suas emoções e de um corpo próximo da eternidade salutar. Era a visão da perfeição do macho como espécime e do homem como ser intelectual do universo, pai eterno de uma humanidade herdada de um Adão degenerado.
E veio o ano 2000. A primeira década do novo século desconstruiu a imagem do macho procriador de gente e de tabus, fazendo-o perdido em uma crise existencial da sua verdadeira função dentro da família, da vida da mulher, dentro do planeta Terra. A igualdade contemporânea dos sexos surgiu como a contestação absoluta do patriarcado histórico. Disperso dentro da sua secular condição de sexo forte, o homem vê-se naufragado, perdido e nu, sentado no meio de um asfalto quente de uma nebulosa estrada sem fim, a repensar os seus valores, sem saber onde está, para onde ir ou onde lançar o seu grito.
Longe da racionalidade do Spock, surge um homem moldado nos ginásios de educação física, pronto para construir corpos perfeitos e músculos exatos. O homem atlético povoa o imaginário do macho, perdido no poder retirado do seu sexo, às vezes escondido pela exuberância da inexatidão abdominal, ou nos músculos atrofiados diante da sua vida sedentária, presa nas armadilhas da arte que a tecnologia nos vomita todos os dias, através da televisão, do computador, das imagens estampadas pelos outdoors da cidade. E os músculos exatos que se lhe aparece nas revistas, na televisão, no filmes, leva-o à obsessão de ser um homem objeto, delineado pela mídia, pelos conceitos da erudição primária das telenovelas.
O homem do terceiro milênio foi feito para ser o super-herói na cama, o atleta sexual. Ao vislumbrar os astros dos filmes pornográficos, sem pêlos e tão bem-dotados, fazendo do seu sexo um arpoador de circo, o macho 3000 cresce e salta nas emoções, mas a ilusão de uma performance perfeita na cama esvai-se no olhar de decepção da companheira, que tanto sonhou com o prelúdio do amor, e este homem, eterno coração de adolescente, frustra-a com uma desajeitada e inesperada ejaculação precoce. Ou a irrita quando, depois de vê-lo louco, a jurar-lhe a eternidade das paixões no momento exato do seu prazer, tornar-se o mais frio dos homens a recusar-lhe um beijo depois do ápice, pedindo-lhe apenas o número do telefone, com a certeza de que nunca irá ligar.
Todas às vezes que o macho do terceiro milênio admira-se ao espelho, imagina-se um dia transformar o corpo na exatidão perfeita de um David de Michelangelo, mas sabe que jamais atingirá a beleza sublime do mármore da estátua. Triste? Nem tanto, ao olhar para o centro anatômico da estátua, a perfeição do David sucumbe drasticamente, e o homem do terceiro milênio sorri, descobre onde é superior àquela perfeição idealizada.
E o mundo passa à sua volta. A mulher já não precisa da sua participação na criação dos filhos, na emancipação das suas idéias e crescimento como fêmea. Na confusão dos sentimentos, o macho do terceiro milênio continua lúcido nos eu objetivo de caçador de corpos e cópulas. Faz parte da sua evolução biológica, da sua condição de perpetuador da espécie. Solteiro e caçador, masturba-se em frente ao computador, anda nu pela casa para demarcar o seu território e sentir-se livre. Balançar o sexo e os pêlos ao vento remete-o para um torpor edênico que se dilui através de uma mão insaciável e irracional, própria da solidão que lhe devora a alma, uma solidão profana a aviltar-lhe o corpo. Quantas vezes este homem quis que saltasse do seu peito um coração valente e terno, e saltava-lhe os pêlos , revelando-lhe apenas a condição de primata evoluído.
Insaciável na desconstrução da sua imagem de senhor do próprio destino, o homem do terceiro milênio vê o tempo passar corrido, como corrida é a vida que exala dos concretos das grandes cidades. Acompanhar as loucuras de uma humanidade que tem pressa em chegar a lugar algum, é tirar a máscara e mostrar um rosto sensível, multiplicar-se, ser dois e vários ao mesmo tempo, viver a era do que não faz sentido, ter ideologias de vida retiradas das páginas da internet. Ser todos e não ser ninguém. Percorrer o palco e atirar-se à platéia para ouvir os seus próprios aplausos. Nada mais difícil do que ser a estátua derrubada de um pedestal milenar, a estátua apedrejada junto com as ideologias falidas, até que se desfaça a carne que lhe cobre os ossos e a sensatez. Muito além de ser herói, ser forte ou musculado, o homem do terceiro milênio é um sobrevivente dos soutiens queimados em praça pública, da pílula que fez da mulher senhora absoluta do seu corpo e da sua concepção. Sobrevivente da sua tecnologia independente de si mesmo nas teclas da comunicação. Sobrevivente de novos costumes e novos conceitos, das imagens virtuais a rondar a sua essência, desfazendo-lhe as lendas. Sobrevivente de bombas terroristas, atiradas no âmago dos seus preconceitos, das ideologias caídas, das famílias desfeitas, das doenças contagiosas, dos preservativos que lhe tiraram de vez o verdadeiro sabor do seu sexo. Soberbo sobrevivente dos tempos. E a estrada continua coberta por uma densa névoa. Acossado, nu diante da vida? Melhor abrir o guarda-chuva e esperar o temporal passar.

FRASES: (O Homem Visto Através das Palavras)

“A obsessão do homem pelo momento supremo da ejaculação leva-o a derrubar impérios, fazer guerras, até matar ou morrer.” JEOCAZ LEE-MEDDI

“Dois homens olharam através das grades da prisão; um viu a alma, o outro as estrelas.” SANTO AGOSTINHO

“Os homens ficam terrivelmente chatos quando são bons maridos, e abominavelmente convencidos quando não o são.” OSCAR WILDE

“Os homens erram, os grandes homens confessam que erraram.” VOLTAIRE

“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.” NELSON RODRIGUES

“Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens” FRIEDRICH NIETZSCHE

“Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” GUIMARÃES ROSA

“Os homens distinguem-se entre si também neste caso: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam.” LEÓN TOLSTOI

“Os homens são fáceis de afastar. Basta não nos aproximarmos.” FERNANDO PESSOA

“Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.” DALAI LAMA

“Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer.” CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

“Os homens de poucas palavras são os melhores.” WILLIAM SHAKESPEARE

“O pessimismo torna os homens cautelosos, enquanto, o otimismo torna os homens imprudentes.” CONFÚNCIO

“O ódio é o prazer mais duradouro; os homens amam com pressa, mas odeiam com calma.” LORD BYRON

“Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo.” JOHANN WOLFGANG GOETHE

“Há duas coisas infinitas: o Universo e a tolice dos Homens.” ALBERT EINSTEIN

“É pensando nos homens que eu perdôo aos tigres as garras que dilaceram.” FLORBELA ESPANCA

“Os homens quando não forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição.” NICOLAU MAQUIAVEL

“Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm. ” FERNANDO SABINO

“A imaginação consola os homens do que não podem ser, o sentido de humor consola-os do que são.” WINSTON CHURCHILL

“A vida é um paraíso, mas os homens não o sabem e não se preocupam em sabê-lo.” FIÓDOR DOSTOIEVSKI

“Existem infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados.” SIGMUND FREUD

“Não nego que as mulheres sejam tolas: Deus criou-as para que combinassem com os homens.” GEORGE ELIOT

“Há poucos homens capazes de prestar homenagem ao sucesso de um amigo, sem qualquer inveja.” ÉSQUILO

“Os homens honrados casam-se rapidamente, os inteligentes nunca. ” MIGUEL CERVANTES

“Os homens são animais muito estranhos: uma mistura do nervosismo de um cavalo, da teimosia de uma mula e da malícia de um camelo. ” ALDOUS HUXLEY

“A maioria dos homens gasta a melhor parte da vida a tornar a outra miserável. ” MARCEL PROUST

“As mulheres, durante séculos, serviam de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural. ” VIRGINIA WOOLF

“O destino é cruel e os homens são dignos de compaixão.” ARTHUR SCHOPENHAUER

“As mulheres amam muito tempo antes de confessá-lo; os homens têm já deixado, há muito, de amar, quando continuam a confessá-lo ainda.” EMANUEL WERTHEIMER

“De qualquer palavra profunda todos os homens são discípulos.” VICTOR HUGO

“Entre os homens, na maioria dos casos, a inatividade significa torpor, e a atividade, loucura.” EPICURO

“Muitos são os homens que falam de liberdade, mas poucos são os que não passam a vida a construir amarras.” GUSTAVE LE BON

“O desejo sexual de um homem é muito mais convicto do que a sua própria essência.” JEOCAZ LEE-MEDDI

“É a imaginação que governa os homens.” NAPOLEÃO BONAPARTE

“Os grandes homens não nasceram na grandeza, engrandeceram.” MARIO PUZO

“Os homens preferem geralmente o engano, que os tranqüilizam, à incerteza, que os incomada.” MARQUÊS DE MARICÁ

“Os homens que se tornam arrogantes com o sucesso têm o mau hábito de odiarem aqueles a quem ofenderam. ” SÊNECA

“As desventuras que mais atingem os homens são aquelas que são escolhidas por eles. ” SÓFOCLES

“Há homens que devem à esposa tudo o que são, mas em geral, os homens devem à esposa tudo o que devem.” MILLÔR FERNANDES

“Nada é feito neste mundo até que os homens estejam prontos a se matarem uns aos outros para que seja feita alguma coisa.” BERNARD SHAW

“Só os homens que não se interessam por mulheres interessam-se pelas suas roupas. Os homens que realmente gostam de mulheres nem percebem o que elas estão a usar.” ANATOLE FRANCE

“A aptidão para a felicidade não é igual em todos os homens. Ela é mais forte nos medíocres, do que nos homens superiores ou imbecis. ” HENRIK IBSEN

“A verdade é muito nua, não excita os homens.” JEAN COCTEAU

“O sexo pelo sexo só é bom para o homem até ele ejacular, torna-se a seguir, um constrangimento sem fim.” JEOCAZ LEE-MEDDI

“No amor, as mulheres são profissionais; os homens, amadores.” FRANÇOIS TRUFFAULT

“O mais livre de todos os homens é aquele que consegue ser livre na própria escravidão.” FRANÇOIS FÉNELON

Texto de: Jeocaz Lee-Meddi

Fotos: Davide Poggi (1 Way-17, 8 2005-06-05 059, 9 Skinout), J. P. Sousa (2 Statue, 3 Colour versus BW, 4 Nude Outside, 7 Human Sculpture), José Ferreira (5 A Espera do Amanhã), Paulo César (6 Performing) e Claudio Poblete (10 img_5354)


FATAL – A HORA AZUL – JEOCAZ LEE-MEDDI

Maio 6, 2008
Existe um momento de transição entre o dia e a noite, que se dá um minuto de silêncio entre os seres do dia e os seres da noite. Um único minuto! Este momento é chamado de Hora Azul! A partir desta idéia corre a trama do romance Fatal – A Hora Azul, de Jeocaz Lee-Meddi. Transitando entre o psicológico das personagens, e um fundo histórico que nos contempla com um realismo profundo, algumas vezes atropelado pelo ludismo e o maravilhoso, pontos de misticismos e mistérios que assola a humanidade.
Quatro personagens contam a história: o jovem idealista e aventureiro Mateus Vera Cruz, a sensata e bela Isadora Sotto Real, a sofrida e perturbada Irena Klein, e o mistério e cruel Michel Cegalerba. Onde começa a história de um termina a do outro. Presos por um passado movido pelas ideologias de esquerda que se fizeram com a guerra fria. A queda dessas ideologias remete os quatro ao vazio e às armadilhas de sobreviver ao psicológico de cada um, às mentiras construídas sobre as ideologias mortas. Não é difícil sobreviver aos regimes autoritários, difícil é sobreviver à verdade de cada um, sobreviver à queda das máscaras, arrancada suma a uma durante o decorrer da narrativa.

Um Romance Fatal

A história começa nos cárceres do Chile em 1973, quando Salvador Allende foi deposto e uma sangrenta ditadura militar é instalada naquele país. Apanhados pela fatalidade da história, Eduardo Vera Cruz e Irena Klein, amantes e companheiros, que se refugiavam no Chile, exilados pela ditadura militar brasileira, são presos e torturados. É durante a prisão dos dois que um acontecimento afetará o futuro de todas as personagens da história.
Nove anos depois, em 1984, Mateus Vera Cruz, sobrinho de Eduardo, que vive em Santos, litoral paulista, torna-se líder estudantil no Brasil e é atropelado pela frustração de ver enterrado o sonho das Diretas Já! Sem a coerência das dialéticas ideológicas, Mateus resolve deixar o país, indo de encontro à paixão que nutria pela bela jovem portuguesa Isadora Sotto Real, que vive em um Portugal pós a Revolução dos Cravos. Quando o amor parece perfeito, a ideologias são superadas e os impérios caem com o fim do comunismo, surge das trevas a figura enigmática de Michel Cegalerba, francês de Paris, para cobrar uma velha dívida a Mateus Vera Cruz.
No início, o livro não revela para o que veio. A sensação é de que tudo já aconteceu, pistas são dadas desde a primeira página, mas um envolvente e perigoso labirinto psicológico vai se formando, a história vai ficando densa e atinge um ápice de cortar o fôlego do leitor. Fatal – A Hora Azul, é daqueles romances que a partir de determinado ponto, já não se consegue parar de ler. E quanto mais esperamos que o desemboque vá dar em uma avenida central iluminada, somos surpreendidos por becos imprevistos e ruas estreitas e inesperadas.
O desenrolar da história propriamente dita, vai de 1984 a 1994. Dez anos na vida de quatro personagens que nos surpreendem sempre. Quando tudo parece estabilizado, um furacão assola a mente de cada um, e um terremoto psicológico deixa mortos e feridos nessa imensa aventura que é a vida humana. Fatal para quem ousa a viver a sua essência.

Um Romance Premiado

Fatal – A Hora Azul, ganhou o Prêmio de Literatura Joaquim Câmara Filho, da Fundação Jaime Câmara, como o melhor romance. Sobre ele escreveu a comissão julgadora da Fundação Jaime Câmara:
“Por se tratar de narrativa original, bem estruturada, com domínio pleno de linguagem, apresentando inovação em uma temática já explorada anteriormente por outros escritores, transitando paralelamente entre a ficção e a história.
Nota-se pela leitura desta obra que o escritor dispõe de bagagem literária e cultural imprescindíveis à criação do romance. Por isso percebemos que o autor Jeocaz Lee-Meddi possui boa carpintaria estrutural para a realização de narrativa de fôlego.”
Na contra-capa do livro já nos é revelado o que nos espera dessa leitura agradável e de surpresas inesquecíveis:
“Jeocaz Lee-Meddi é um escritor brasileiro que viveu em Lisboa. Essa Lisboa que tão bem conhece e onde culmina essa aventura Fatal. Com a mesma elegância que caminham por Lisboa, Paris, Santos ou São Paulo, as personagens seguem intuitivamente num labirinto que traz uma surpresa revelada em cada esquina, cada paisagem, como se a alma enganasse as máscaras, como se o destino já tivesse sido escrito nos frios calabouços do Chile, deixando a ilusão das ideologias mortas pela história e as mentiras reveladas pela queda dos ideais. Nada mais fatal do que o doce encontro da hora azul.”

Jeocaz Lee-Meddi

Depois desta estréia bem sucedida, Jeocaz Lee-Meddi, que viveu muitos anos em Portugal e na Itália, de volta ao Brasil, trabalha hoje em um antigo projeto, escrever sobre os sefaradins, judeus originários da Sefarad, região que corresponde à península Ibérica. Novamente ficção e história se confundem para contar um novo romance de fôlego.
Durante anos Jeocaz Lee-Meddi trabalhou em bancos na Europa, mas nos últimos tempos abandonou a profissão para poder dedicar-se à literatura.
Nascido em Goiás, Brasil Central, ainda criança Jeocaz Lee-Meddi foi viver na Bahia, especificamente em Madre de Deus e Salvador, onde foi alfabetizado. Passou a infância, vivida nos loucos anos setenta, a morar por várias cidades brasileiras, como Mangaratiba (Rio de Janeiro), Itaúna (Minas Gerais), Jequié (Bahia) e Santos (São Paulo). Muitas cidades e estados diferentes, deixaram no autor uma pluralidade de culturas que fizeram dele um eterno viajante pelo mundo, um apaixonado pelo gênero humano e por suas histórias. Assim, como as suas personagens que habitam vários lugares físicos no decorrer da trama, Jeocaz Lee-Meddi continua a ser um viajante compulsivo. Das suas viagens, considera Lisboa a sua casa principal, lugar que traz como a consolidação da sua forma de pensar.

Pensamentos de Jeocaz Lee-Meddi
“A velhice não está nas rugas que o espelho nos mostra, mas na alma que precisa do espelho para ser feliz.”
“Os militares não gostavam dos imbecis, dos apáticos, gostavam dos espertos, mas menosprezavam os inteligentes.”
“Todos os homens deveriam ter como primeira amante uma mulher infeliz, elas são mais sinceras e ardentes.”
“Só as mulheres infelizes não têm medo de amar a plenitude de um homem.”
“Casamento é uma troca de várias razões, para dar certo temos que fazer concessões, seguimos fazendo tantas concessões que um dia não sabemos se ainda respiramos as mesmas idéias ou se apenas fingimos.”
“O mundo admira a arrogância nos homens, mas não a suporta.”
“No mundo da escrita não há direita ou esquerda, existe o homem, pleno e único, ditador de todas as personagens possíveis de serem criadas.”
“A obsessão do homem pelo momento supremo da ejaculação leva-o a derrubar impérios, fazer guerras, até matar ou morrer.”
“Aos vinte anos podemos tudo, inclusive pensar. Mas se não o fizer, ninguém vai culpá-lo.”
“Quanto mais penso nas memórias de uma vida, mais piegas parecem os historiadores.”

 


AL BERTO

Abril 25, 2008


Há pouco mais de dez anos Portugal perdia um dos seus maiores poetas da nova geração, Al Berto. Alberto Raposo Pidwell Raposo, ou Al Berto, como ele assinava a sua obra, partiu no maior feriado religioso de Lisboa, no dia de Santo Antonio, 13 de junho, em 1997.
Dono de uma personalidade singular, amante da noite e do Bairro Alto, foi nas ruas estreitas desse bairro que nos conhecemos. Era um homem amável, de um cavalheirismo que lhe identificava o lado britânico da sua ascendência, de agradável convivência. Por dentro era um poeta em ebulição, muitas vezes acusado de morbidez e de profunda melancolia na forma de escrever os seus versos. Mas como poderia ser diferente em um homem amante da noite lisboeta e das suas armadilhas amorosas? Um poeta de alma portuguesa, tão saudosista quanto a força dos ventos que sopraram as caravelas de Cabral no Restelo, rumo à aventura lusitana pelo mundo. Sua poesia traz a ambigüidade do cotidiano, um olhar sobre a luz e os objetos, a mente e os desejos, fragmentos entre a poesia e a prosa, o mundo e o espanto poético de dele fazer parte.

Antes do Solstício de Verão

Conheci Al Berto através de um amigo em comum, o fotógrafo Stanislas Kalimerov. Ali travamos um conhecimento gentil, regado muitas vezes de um bom vinho nos jantares que tivemos pelos restaurantes do Bairro Alto ou nas longas e inesquecíveis noites de diversão no mítico Frágil, ainda quando pertencia ao Manuel Reis. Era um homem apaixonante e apaixonado. Gostava de ter a juventude ao seu redor. Magro, cabelos lisos e compridos, penteados para trás.
Ainda me lembro da noite que o seu amigo Alexandre Matos terminou o curso de estilista, fomos comemorar n’A Brasileira do Chiado. Al Berto sentia um grande orgulho de ter participado daquela conquista do amigo. Agradeceu-me por ter acolhido Alexandre Matos no meu apartamento na Luz Soriano, na noite anterior, quando depois de um jantar, ele tinha bebido demais e não conseguira voltar para casa.
No início de 1996, enviei os originais do romance “Fatal – A Hora Azul” para que ele lesse. Estava em Sines, a escrever aquele que seria o seu último livro em vida “Horto de Incêndio”, que marcaria a sua estréia na Assírio & Alvim. Para minha surpresa e alegria, Al Berto gostou do romance e fez várias anotações sobre o que achara. Combinamos um encontro em outubro de 1996 na A Brasileira, para que me entregasse os originais e comentasse as anotações. Al Berto não apareceu ao encontro. Horas depois, quando cheguei em casa, recebi um telefonema onde ele se desculpava, dizia que estava com um enorme caroço na bochecha, que lhe deformava o rosto e ele não sairia de casa enquanto não sumisse o caroço. Ainda brincou que estava muito feio para ser visto em público. Infelizmente não era um caroço comum. A partir daí Al Berto descobriu um linfoma que o iria matar em pouco mais de sete meses. Ainda no início da primavera de 1997 trocamos correspondência, ele estava em Lisboa na casa da irmã, em tratamento. Combinamos um encontro, mas também eu me envolveria em problemas de ordem amorosa que me consumiriam aquela primavera e o verão. Não teria mais tempo de rever Al Berto com vida, pois ele não sobreviveria àquela primavera. Morreu poucos dias antes do solstício de 1997.
Em agosto daquele ano, encontrei Alexandre Matos (na fotografia colorida ao lado de Al Berto), que na época vivia na Itália. Estava abalado com a morte do amigo. Entregou-me um texto que Al Berto lhe fizera, mais um ensaio fotográfico que fizera de Al Berto pelas ruas de Lisboa. O texto intitulava-se “Lisboa, Alexandre e Eu”. Alexandre queria que eu viabilizasse a publicação do pequeno texto. Mas estava numa roda viva decisiva e inesperada, que me fizeram deixar Lisboa, partindo para a Póvoa de Varzim. Por fim, deixei Portugal, e o texto inédito do Al Berto acompanhou o meu regresso ao Brasil. Curiosamente os meus originais ficaram nos seus pertences, com as suas anotações, e este texto continuou inédito em meu poder, a espera do meu regresso a Lisboa.
Publico aqui, no VIRTUÁLIA, algumas fotografias que Alexandre Matos fez de Al Berto. Nunca elas o definiram tão bem. É como se o visse a brincar e a contar as suas aventuras pelas quentes e infinitas noites do Bairro Alto.
Se estivesse vivo, Al Berto completaria este ano, no dia 11 de janeiro, 60 anos. Aqui a minha homenagem ao Al Berto, ao Alexandre Matos, a Lisboa e ao Bairro Alto, só quem traz a sensibilidade lisboeta na alma, compreende esses ícones que se prendem a nossa alma como uma tatuagem de desenhos existencialistas.

Um Poema de Al Berto


As Mãos Pressentem

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
vôos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

CRONOLOGIA

1948 – Nasce em 11 de janeiro, em Coimbra, Alberto Raposo Pidwell Tavares.
1949 – Vai viver em Sines, onde passa parte da infância e da adolescência.
1967 – Cursa em Bruxelas a École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre), onde faz pintura.
1971 – Abandona a pintura para se dedicar à literatura.
1974 – Regressa para Portugal e escreve o seu primeiro livro totalmente em língua Portuguesa.
1977 – Lança o seu primeiro livro “À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto”.
1987 – É editado “O Medo”, uma antologia do seu trabalho de 1974 a 1986, que se tornaria o trabalho mais importante da sua obra.
1988 – Prêmio Pen Club de Poesia pela obra “O Medo”.
1995 – Escreve o texto para a exposição de Stanislas Kalimerov “A Última Cena – Um Olhar Português”.
1996 – Passa grande parte do tempo em Sines, a escrever o seu último livro “Horto de Incêndio”.
1997 – Morre em Lisboa, de linfoma, em 13 de junho.

OBRAS

Poesia:

1977 – À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto
1980 – Meu Fruto de Morder, Todas as Horas
1982 – Trabalhos do Olhar
1983 – O Último Habitante
1984 – Salsugem
1984 – A Seguir o Deserto
1985 – Três Cartas da Memória das Índias
1985 – Uma Existência de Papel
1987 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1986)
1989 – O Livro dos Regressos
1991 – A Secreta Vida das Imagens
1991 – Canto do Amigo Morto
1991 – O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)
1995 – Luminoso Afogado
1997 – Horto de Incêndio
1998 – O Medo
2007 – Degredo no Sul

Prosa:

1988 – Lunário
1993 – O Anjo Mudo
2006 – Apresentação da Noite

Texto: Jeocaz Lee-Meddi
Fotos: Alexandre Matos