MARIGHELLA – O INIMIGO NÚMERO UM DA DITADURA

Dezembro 2, 2009

A história do Brasil é feita de personagens controversas, muitas vezes tidas como heróis por alguns e como marginais por outros. Carlos Marighella é uma dessas personagens. Dedicou a sua vida à causa revolucionária comunista, passou a maior parte dela preso ou na clandestinidade.
Ainda na juventude, Marighella descobriu a ideologia comunista, tornou-se um destacado membro do Partido Comunista, abraçando a sua luta. Passou pelo Estado Novo preso nas masmorras, educando os companheiros de cela para que se rebelassem contra a ditadura vigente. A partir de 1945, experimentou por um curto espaço de tempo a democracia no Brasil, vendo inclusive a legalização do PCB, por onde se elegeu deputado, mostrando-se um grande articulador político.
Com a extinção da legalidade do PCB, Marighella teve os seus direitos parlamentares cassados. Passou a exercer a sua influência nos bastidores da política. Escreveu discursos para vários políticos, desde João Goulart ao traiçoeiro cabo Anselmo.
Com o golpe de estado militar, em 1964, Carlos Marighella viu uma nova ditadura florir no Brasil. Mais uma vez conheceu o ostracismo da clandestinidade. Passou a exercer uma grande resistência ao regime da caserna. Defendia que para derrotar a ditadura militar, só mesmo pegando em armas e provocando um estado revolucionário, incitado por guerrilhas. Sua posição ia contra o PCB, que adotara uma linha mais moderada, ditada por Moscou. Marighella ousou a ir contra o partido pelo qual dedicara toda a sua juventude. Desligou-se da sua direção central e terminou por ser expulso. Após a saída do PCB, fundou a Ação Libertadora Nacional (ALN), movimento de esquerda que radicalizou a luta contra o governo militar. De armas em punho, Carlos Marighella promoveu, através da ALN, assaltos a bancos, guerrilhas urbanas e o famoso seqüestro ao embaixador norte-americano Charles Elbrick, realizado em associação com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
Em 1969, Carlos Marighella foi declarado pelo regime militar o inimigo número um do Brasil. Sua cabeça foi posta a prêmio, tendo cartazes com sua imagem espalhados por todo o país. A derrota da ditadura diante da bem-sucedida ação de seqüestro, fez com que ela endurecesse ainda mais. Iniciou-se uma caça implacável a Carlos Marighella, que só encerrou com a sua execução em 4 de novembro de 1969. Naquele dia, o líder da guerrilha foi atraído para um ponto da alameda Casa Branca, em São Paulo; ao chegar, foi recebido a tiros, sem possibilidades de defesa. Os militares eliminavam o seu maior inimigo. Morria um dos homens mais inteligentes da resistência e militância comunista no Brasil. Marighella é hoje um nome que atrai a curiosidade e o respeito dos brasileiros. Por muitos é visto como um herói revolucionário, por outros como um terrorista de esquerda. Sua importância na história recente do país vem sendo cada vez mais analisada, ganhando mais admiradores do que críticos. Marighella tornou-se uma figura mítica, retrato de uma época que se tentou apagar ou amenizar, de um Brasil que pegou em armas e em nome das ideologias, fez o sangue jorrar.

A Primeira Prisão

A história de Carlos Marighella confunde-se com o período das grandes ditaduras do governo republicano, a do Estado Novo (1937 – 1945) e a militar (1964 – 1985). Nascido na segunda década do século XX, em 5 de dezembro de 1911, em Salvador, Bahia; Carlos Marighella era filho de um imigrante italiano, Augusto Marighella, um operário dono de uma oficina mecânica, e da baiana Maria Rita do Nascimento, negra filha de escravos haussás. Era um dos sete filhos do casal. A mistura de raças refletia na sua pele mulata, nos olhos verdes, cabelos aloirados, e na singularidade da raça brasileira.
A origem humilde definiu o caráter de Marighella. Era visto como um homem alegre, inteligente e de sensível percepção social, que gostava de fazer versos, revelando-se um poeta surpreendente. Na época da sua adolescência, o Brasil passava por um progresso lento, quase letárgico, vivendo a decadência das oligarquias da República Velha, os movimentos tenentistas, a fundação do Partido Comunista em 1922, a Coluna Prestes. Um Brasil sufocado que insistia em sair das garras de uma elite secular.
Aluno brilhante, estudou no Ginásio da Bahia. No quinto ano, em 1929, respondeu a uma dissertação de Física, sobre espelhos, em versos. Aos dezoito anos, Carlos Marighella, passou a freqüentar o curso de engenharia na Escola Politécnica da Bahia. A queda da Bolsa de Nova York atingia ao Brasil, levando à falência vários senhores da oligarquia sustentada pelo café. A crise mundial contribuiu para o fim da República Velha, culminando na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas à presidência. O jovem Marighella entrava em contacto com o PCB, ingressando na Juventude Comunista, em 1932. Revela-se um arrebatado militante, deixando-se seduzir pelas manifestações contra o regime do governador da Bahia, Juracy Magalhães, então nomeado para o cargo por Getúlio Vargas, em 1931, intitulando-se como interventor. Marighella compõe versos que ridicularizam o interventor, enfurecendo-o a ponto de ordenar que prenda e espanque o jovem. Seria a primeira prisão da vida de Marighella. Após ter sido libertado, continuou com firmeza na militância política. Deixaria, em 1932, o curso de engenharia e seguiria para São Paulo.

Os Comunistas e a Ditadura do Estado Novo

Na primeira metade da década de 1930, Luiz Carlos Prestes tornou-se um grande líder dos comunistas brasileiros. Passou alguns anos na União Soviética sendo treinado, voltando ao país com a intenção de promover um movimento revolucionário. Em 1935, um grande levante programado para atingir todo o país, foi violentamente reprimido pela polícia secreta do governo Vargas. O levante ficou conhecido como a Intentona Comunista, levando as maiores lideranças do PCB à prisão, entre eles o próprio Prestes e a mulher, Olga Benário. Com a prisão dos seus líderes, o PCB sofreu um duro golpe em suas fileiras. Carlos Marighella foi designado pela direção a vir para São Paulo, com a finalidade de reorganizar as células do partido e combater a cisão trotskista interna. Mas cai nas malhas da repressão da polícia política liderada por Filinto Muller na perseguição aos comunistas. No dia 1 de maio de 1936, Carlos Marighella é preso, sendo torturado durante vinte e três dias, tendo as solas dos pés queimadas por maçarico, as unhas separadas da pele por finos estiletes nelas enfiadas. A sua resistência às torturas, sem dizer uma palavra, atraiu até a admiração dos seus algozes, o delegado Romano, diretor do DOPS carioca em 1936, afirmava: “Só existe um macho no Partido Comunista, é esse baiano Marighella”. Só seria libertado em 1937, através da anistia assinada pelo ministro Macedo Soares. Naquele ano, Getúlio Vargas, no poder desde 1930, consolidava a sua ditadura, criando o Estado Novo, inaugurando um dos momentos de maior repressão da história da República no Brasil.
Após a libertação, Marighella foi designado pelo PCB a ir para São Paulo, tendo como missão principal combater a eterna dissidência interna que sofria o partido. A liberdade durou pouco. Em 1939, sob a truculência cada vez maior do Estado Novo, foi preso e confinado em Fernando de Noronha. Na prisão, os presos revolucionários criaram uma espécie de universidade popular, cabendo a Marighella dar aulas de filosofia e matemática. Provocada pela Segunda Guerra Mundial, a prisão em Fernando de Noronha foi extinta em 1942, quando a ilha passou a ser usada como base de apoio às operações militares dos aliados no Atlântico Sul. Os presos foram transferidos para a Ilha Grande, no litoral fluminense.
Mesmo sob a mão pesada da repressão do governo ditatorial de Getúlio Vargas, o PCB passou a apoiá-lo em razão da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Marighella era contra a posição do partido, mas a acatou em nome da militância. Em 1943, mesmo nas masmorras da Ilha Grande, ele foi eleito para o Comitê Central do partido, na Conferência da Mantiqueira. Marighella e outros líderes comunistas, como Luiz Carlos Prestes, só seriam libertados com a anistia decretada em abril de 1945. Terminava naquele ano a Segunda Guerra Mundial, e também a ditadura do Estado Novo, com o fim do governo de quinze anos de Getúlio Vargas.

O Brasil Adere à Guerra Fria

Com o fim da ditadura, em 1945, o Brasil entraria em um período de curta primavera democrática. Pela primeira e única vez desde a sua fundação, em 1922, o PCB é legalizado, tornando-se uma força nacional, visível e elegível. Uma nova Constituinte é elaborada e o partido participa da sua elaboração. Carlos Marighella foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia, com uma ampla votação. Ele participaria ativamente como um dos redatores da nova Constituinte, promulgada em 1946.
Em 1946 Marighella conheceria Clara Charf, aquela que futuramente seria a sua esposa e companheira pelo resto da vida. Viveria, entretanto, uma relação amorosa com Elza Sento Sé, durante 1947, romance que resultaria no nascimento do seu filho Carlos Augusto, em maio de 1948.
O tempo que Marighella hauriu a liberdade física e política, duraria pouco. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma nova guerra começava a desenhar-se no cenário mundial, a Guerra Fria, promovida pelas potências aliadas vencedoras, de um lado os capitalistas liderados pelos Estados Unidos, do outro os comunistas, liderados pela União Soviética. Entre 15 de agosto e 2 de setembro de 1947, realizou-se em Petrópolis, Rio de Janeiro, a Conferência Interamericana de Manutenção da Paz e Segurança, na qual participou Eva Perón, mulher do presidente da Argentina Juan Domingo Perón. Na conferência foi assinado o Tratado da Assistência Recíproca, que permitia aos Estados Unidos intervir onde quer que a paz e a segurança estivessem ameaçadas. Na conferência, a expansão da ideologia soviética pela Europa foi apontada como a grande ameaça ao mundo. Assinando o tratado, o Brasil participava da gestação da Guerra Fria, escolhendo o seu lado.
As conseqüências logo vieram. A União da Juventude Comunista foi a primeira a ser fechada. Em outubro de 1947, o Brasil rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética. No início de 1948, o PCB foi posto novamente na clandestinidade, sendo cassados os mandatos dos deputados, senadores e vereadores eleitos pela legenda. Como deputado, Carlos Marighella proferiu, em menos de dois anos de mandato, cerca de duzentos discursos, ficando conhecido como um combatente parlamentar, denunciando sempre as precárias condições de vida do brasileiro e a sua miséria contemporânea, promovendo intensamente as lutas sindicais e agrárias no país. Tornou-se um político respeitado até mesmo por seus inimigos.
Cassado o deputado, extinto o PCB, restava o militante clandestino, o homem, que naquele ano iniciaria um romance com Clara Charf, companheira de vida e de luta, que permaneceria ao seu lado até a sua morte.

A Ditadura Militar e as Organizações de Guerrilhas

O período que decorreu entre a cassação parlamentar e a instauração da ditadura militar, fez Marighella redigir vários textos de reflexão sobre a questão agrária no Brasil. Viajou pela China e pela União Soviética. Através das viagens, observava de perto as experiências dos países que aderiram aos regimes revolucionários.
Com a morte de Stálin, a União Soviética adotou uma política revisionista, expandindo-a aos partidos comunistas de todo o mundo. Em 1956, foi divulgado o Relatório Kruschev, denunciando os crimes de Stálin. Marighella, um stalinista histórico, passou um mês sem dormir, chorando na cama como uma criança. A nova linha seguida por Moscou, era considerada demasiadamente branda e conciliadora para que se instaurasse um clima revolucionário. A questão gerou uma crise dentro do PCB, que culminaria com a mudança de nome na legenda, passando de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro. Uma cisão no partido, em 1962, gerou o PC do B, que assumiu o antigo nome do partido.
A linha reformista do PCB contribuiu para que fizesse uma avaliação errônea do golpe militar de 1964. Os militares já marchavam nas estradas e ruas do país, e o Comitê Central do partido insistia que não ofereciam perigo, que não havia clima para um golpe no Brasil. Um erro de avaliação política fatal.
Após o golpe, Luiz Carlos Prestes foi um dos primeiros a perder qualquer direito político. Carlos Marighella foi acossado pela polícia política do novo regime, em um cinema do bairro carioca da Tijuca, em 9 de maio de 1964. Resistiu à prisão, levou três tiros no peito, foi carregado no meio do público até a rua. Já dentro do carro da polícia, ferido, ainda acertou com socos os inimigos, sendo finalmente vencido pelos golpes físicos desferidos por seus algozes. Sua prisão causou repercussão nacional, sua resistência foi transformada em um ato de coragem contra as novas forças políticas instauradas. Após oitenta dias de prisão, foi solto através de hábeas corpus pedido pelo mítico advogado Sobral Pinto.
A falta de visão do PCB diante do golpe militar, a linha reformista que insistia em seguir, divergências entre lideranças, a perseguição do regime, fizeram com que o partido enfraquecesse e fragmentasse, surgindo várias organizações de esquerda. Carlos Marighella passou a criticar abertamente a linha seguida pelo PCB, defendendo a luta armada contra a ditadura. As divergências tornaram-se claras, quando na Conferência Estadual de São Paulo, em 1967, as idéias de Marighella, em oposição às de Luiz Carlos Prestes, saíram vitoriosas. Prestes passou a intervir nos estados brasileiros, para evitar que delegados ligados a Marighella saíssem vitoriosos no VI Congresso.
A crise entre Marighella e o PCB tornou-se aguda quando ele viajou para Cuba, para participar da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS). O PCB enviou um telegrama ao militante, desautorizando-o a participar do evento, ameaçando-o de expulsão. Marighella respondeu que um comunista não precisa de autorização para participar de atos revolucionários, rompendo oficialmente com o Comitê Central. Em represália, o PCB concretizou a sua expulsão.
Longe do PCB, partido no qual militara toda a sua vida, Marighella fundou, em julho de 1968, a Ação Nacional Libertadora (ALN). Através da ALN, promove e dá início à luta armada no Brasil. As ações surpreendem e irritam ao governo. Assaltos a bancos e supermercados possibilitam a arrecadação de fundos para a sobrevivência da organização. Armas são saqueadas dos quartéis. Em setembro de 1969, a ALN e o MR-8 realizavam em conjunto, o mais audacioso dos seus planos, o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. O ato expõe internacionalmente a prática de tortura, até então veementemente negada pelo regime, cria uma situação diplomática desconfortável com o governo da Casa Branca, culminando com a troca de presos políticos pela vida do embaixador. A ação foi a maior vitória dos guerrilheiros revolucionários contra a ditadura dos militares.
A humilhação acirrou o endurecimento da ditadura, deflagrando uma grande operação para prender Carlos Marighella e os seus companheiros, considerados como terroristas. O líder da ALN passou a ser considerado como inimigo público número um, com cartazes de “Procura” espalhados por todo o país. Um ato institucional introduziu a prisão perpétua e a pena de morte para quem praticasse atos terroristas. Estava aberta a caça a Marighella, vivo ou morto.

Prelúdio da Emboscada Final

No último ano de vida de Carlos Marighella, o seu nome apareceu constantemente na imprensa nacional. Chegou a ser capa da revista Veja, na edição número 11, de 20 de novembro de 1968, voltando várias vezes às suas páginas durante 1969. Marighella causava nas pessoas medo pelos seus atos de violência e de guerrilha, e ao mesmo tempo, uma certa admiração aos que se opunham às truculências da ditadura. A imprensa descrevia-o de forma imparcial, fazendo dele uma figura cruel, e ao mesmo tempo romântica, numa época sangrenta e de radicalização da esquerda agonizante e da direita especializada na arte da tortura e do assassínio.
Por outro lado, Marighella apostava intensamente na deflagração da guerrilha rural. Planejava deixar São Paulo e o perímetro urbano, mudando-se para o meio rural. Tinha a viagem programada para 9 de novembro de 1969. Os seus planos vazaram, e os militares tinham pressa em capturá-lo e eliminá-lo de vez.
Em 1969, a “Veja” número 59, de 22 de outubro, três edições antes de trazer na capa um Marighella fuzilado e morto, apontava para um possível fim dos atos terroristas no Brasil, sugerindo explicitamente que o líder da ALN estaria em São Paulo, e que todas as saídas para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, litoral e oeste paulistas estavam vigiados, e que não havia como o líder guerrilheiro fugir sem ser morto. O cerco e a morte estavam anunciados.
Sob tortura, o militante da ALN Paulo de Tarso Venceslau, revelou uma importante pista à polícia do regime, a de que Marighella tinha uma ligação com membros da ordem religiosa dos dominicanos.
Ao investigar a pista, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, considerado o maior carniceiro dos porões da ditadura, descobriu que era verdadeira. Os dominicanos Fernando, Betto, Ivo, Ratton, Oswaldo, Tito e Magno colaboravam com algumas organizações ligadas às guerrilhas urbanas, escondiam perseguidos, ajudavam a que atravessassem as fronteiras no sul do país ou que se deslocassem para outras cidades. Os dominicanos passaram a ser alvo de intensas investigações.
No primeiro fim de semana de novembro de 1969, Frei Fernando seguiu para o Rio de Janeiro, para encontrar Sinval de Itacaramby Leão, da Editora Vozes, para acertar uma publicação. Fernando trabalhava na Livraria Duas Cidades, em São Paulo. Na viagem, foi acompanhado por Frei Ivo, que aproveitaria para visitar a família. No domingo, 2 de novembro, foram presos no Catete, pela equipe de Fleury, levados para o Cenimar (Centro de Informações da Marinha), e submetidos a torturas durante horas consecutivas. Frei Fernando sucumbiu às torturas, revelando a senha que possibilitaria um encontro com Marighella.
Transferido para a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, Fernando teve a permissão para um banho e para fazer a barba. No dia 4 de novembro foi levado para a Livraria Duas Cidades, para que trabalhasse sob vigilância. Por volta das 16h00 recebeu um telefonema cifrado: “Ernesto pediu que vocês o encontrem na gráfica hoje, às 20h00.” Fernando respondeu: “Sim”.
A voz era de Antonio Flávio Médici de Camargo, contato de Marighella. “Ernesto” era a senha. O telefonema estava sob escuta. Imediatamente foi montado um esquema de emboscada para que se efetuasse a prisão de Marighella. Horas depois, Fernando e Ivo foram obrigados a participarem da emboscada, sendo postos no fusca azul que costumavam usar para os encontros com o líder da ALN. Escoltados, seguiram para o bairro dos Jardins, no centro de São Paulo.

Emboscada e Morte

Por volta das 18h30, começava a ser armada a emboscada na Alameda Casa Branca, no bairro dos Jardins. Coordenada por Rubens Cardoso de Mello Tucunduva e executada pelo delegado Sérgio Fleury. Cinco veículos trouxeram os policiais que participariam da operação. Em um dos carros estava Fleury e duas investigadoras, dois outros automóveis foram distribuídos no cruzamento das alamedas Casa Branca e Lorena, servindo de cobertura; um carro foi posto na esquina da rua Tatuí, outro em um estacionamento da Alameda Casa Branca. O número de policiais envolvidos na emboscada diverge nos relatos, uns apontam para 29 homens, outros para exatos 45 e mais o cão Átila.
A noite parecia tranqüila, era uma terça-feira, 4 de novembro de 1969. Poucos minutos antes das 20h00, o militante Jeová de Assis Gomes deixou Carlos Marighella e Luís José Cunha, o Gaúcho, na esquina da rua Oscar Freire com a Alameda Casa Branca. Marighella ficou à espera que Gaúcho fizesse o reconhecimento do local e atestasse a sua segurança. Gaúcho caminhou lentamente pela Casa Branca, observando todos os detalhes e possíveis perigos. Viu um dos carros ocupados por Fleury, um investigador e duas investigadoras, que simulavam um encontro de inocentes namorados. Chegou a um ponto onde estavam policiais disfarçados de operários, a simularem a entrega de material numa construção. Avistou o fusca com Frei Fernando e Frei Ivo dentro. Tranqüilizou-se, indo ao encontro de Marighella, apontou o polegar para cima, em sinal de que estava tudo sobre controle. O líder guerrilheiro começou a atravessar a alameda, rumo ao carro dos frades. Naquele momento, ignorava que 23 dominicanos tinham sido presos, entre eles Frei Fernando e Frei Ivo. Imprudentemente, ele caminhou sozinho e confiante até o carro dos frades, trajando um terno claro, camisa branca de riscas azuis, tendo apenas uma peruca de cabelos castanhos como disfarce. De repente, tiros começaram a soar de todas as direções. Cinco minutos depois, o temido guerrilheiro estava morto.
A versão oficial dos detalhes da emboscada, dizia que Sérgio Fleury deu ordem para que Marighella se rendesse, mas ele não obedeceu. A polícia afirmava que entrou em confronto com cerca de treze homens da segurança de Marighella, o que gerou o tiroteio que mataria além do guerrilheiro, a investigadora Estela Borges, que se fazia de namorada de Fleury, e, o alemão Friedrich Adolf Rohmann, um protético de 54 anos, que passava pelo local, dirigindo um Buick preto. Feriria ainda Tucunduva na perna, fazendo-o passar por doze cirurgias.
Na versão oficial, divulgada pela revista “Veja”, dois tiros teriam atingido o rosto de Carlos Marighella, um outro no ventre, e o que lhe causara a morte, na perna, perfurando a artéria femoral, provocando intensa hemorragia seguida de morte. Ele teria sido morto dentro do fusca dos frades dominicanos. A imagem de Marighella morto dentro do fusca, estampada na capa da revista, ficaria famosa. Marighella não teve tempo de usar a arma que trazia, ela estava intacta, dentro da capanga, que continha ao lado uma escova de dente, um aparelho de barbear e duas cápsulas de cianureto, que deveria engolir caso fosse capturado.
O laudo cadavérico foi feito pelo legista Harry Shibata, famoso por assinar falsos atestados de óbitos de militantes mortos por tortura. Este laudo foi cuidadosamente analisado pelo médico legista Nelson Massini, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Massini analisou também dezessete fotografias dos arquivos, tiradas da emboscada. Concluiu que Marighella não foi morto dentro do fusca, nas fotos a camisa dele está levantada e a calça um pouco abaixada, o que sugere que foi arrastado pelos braços. Também as balas encontradas no corpo não coincidem com as marcas encontradas no fusca. O ângulo da perfuração, segundo Massini, torna impossível que o tiro final tenha sido dado dentro do veículo. Na sua análise, Marighella recebeu quatro tiros, um nas nádegas, outro na região pélvica, um de raspão no queixo e o quarto, à queima-roupa, que lhe perfurou a aorta e o pulmão, provocando a hemorragia interna que o matou. O tiro de misericórdia foi desferido ainda com Marighella vivo, que tentou, intuitivamente defender-se segurando a arma do seu algoz, fazendo com que a bala que o matou, dilacerasse um dos seus dedos da mão esquerda. O tiro fatal foi feito de uma curta distância. Depois de morto, o seu corpo foi carregado para dentro do fusca, deixado em estranha posição.
O tiroteio que a polícia alegou ocorreu entre ela mesma, e não contra os seguidores de Marighella, visto que em um confronto entre supostos treze militantes e quarenta policiais, não tombou um guerrilheiro. Carlos Marighella morreria executado sem nenhuma possibilidade de defesa. Sua morte já tinha sido determinada nos bastidores da ditadura. Após a autópsia realizada em sigilo, foi enterrado em uma cova rasa, no cemitério de Vila Formosa, São Paulo. Seu corpo foi escoltado por duas viaturas do DOPS, além de quinze agentes armados de metralhadoras, impedindo que alguém se aproximasse.
Dez anos depois, em dezembro de 1979, o corpo foi trasladado para o cemitério das Quintas dos Lázaros, em Salvador. Foi proferido um discurso em sua homenagem, escrito por Jorge Amado. Seu túmulo foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. No local da execução de Marighella, no número 822 da Alameda Casa Branca, foi posta uma placa em sua homenagem, com nome e data. Em 1996, o Estado reconheceu a sua responsabilidade na execução de Marighella, e a sua mulher, Clara Charf, teve direito a indenização, em 2008.
Quatro décadas após a morte de Carlos Marighella, ele continua a ser uma personagem enigmática da história brasileira. Poeta, revolucionário, político, guerrilheiro, inteligente, violento, sua mítica fascina muitos e traz repugnância a outros. Aclamado assassino e terrorista pelas autoridades, e, herói da resistência à ditadura pela população, Marighella continuará a ser um enigma, que se decifrado, revelará uma face ainda obscura do Brasil recente.


A COLUNA PRESTES

Novembro 27, 2009

Inicialmente chamada de Coluna Miguel Costa – Prestes, o grande movimento de jovens oficiais militares que percorreram em marcha, numa espécie de guerra em movimento, cerca de vinte e cinco mil quilômetros pelo interior do Brasil, entrou definitivamente para a história com o nome de Coluna Prestes.
De 1925 a 1927, comandada pelos militares Miguel Costa e Luiz Carlos Prestes, a Coluna Prestes promoveu em suas marchas pelo país, o combate ao governo oligárquico da Velha República. Defendiam o voto secreto, encerrando com o tradicional cabresto eleitoral; o ensino primário obrigatório para toda a população e o ensino público ampliado. Por onde passavam, faziam comícios, incitando o povo contra a tirania do governo federal.
Originário dentro dos movimentos tenentistas da década de 1920, a Coluna Prestes em sua marcha épica revolucionária pelo país, durou exatos dois anos e três meses, percorrendo treze estados federais. Sem grande logística armamentista, desbravaram o país a pé, seguindo os seus líderes que iam montados em cavalos ou mulas. Enfrentaram cinqüenta e três combates contra as maiores forças do Exército federal. Os rebeldes conseguiram criar um exército popular. Acossados, retiraram-se para a Bolívia, em 1927, onde dos 1500 homens originais, restavam apenas 620. Muitos haviam deserdado. Era o fim do movimento. Os que ficaram eram homens cansados, caçados e atirados na miséria absoluta.
Na guerra de movimento deflagrada pela Coluna Prestes não houve vencedores e vencidos. Apesar de não ter arregimentado um exército revolucionário pelo Brasil, os rebeldes ganharam fama de heróis na imprensa e no imaginário popular, que contribuiria para a queda da República Velha. Gerou um grande herói e mito nacional, Luiz Carlos Prestes, que desde então, passou a ser chamado de “Cavaleiro da Esperança”. Com o fim da República Velha, em 1930, grandes líderes da Coluna Miguel Costa – Prestes aderiram ao governo de Getúlio Vargas. Luiz Carlos Prestes recusou-se, preferindo aderir aos comunistas, continuando uma luta para que amenizasse o Brasil de miséria que vira durante a longa marcha. A Coluna Prestes tornou-se mais épica do que revolucionária, historicamente mais importante do que imprescindível. Até hoje causa polêmicas, mas sem dúvidas, foi o maior movimento militar no Brasil que defendeu os direitos do povo, e não a sua elite secular.

A República Velha e o Tenentismo

A proclamação da República, em 1889, pôs fim à Monarquia, mas não às suas elites e oligarquias. O primeiro período da República, que foi desde a sua implantação até 1930, ficou conhecido como República Velha. Sustentada pelos fazendeiros ricos, ela era basicamente agrícola.
O café trouxe não só a riqueza agrícola, como a necessidade de desenvolvimento do comércio e da indústria ao seu redor. A indústria nascente nos centros urbanos, determinou a modificação social de um país essencialmente rural. Com as indústrias veio a necessidade de mão-de-obra especializada, o que abriu as portas do país para um grande fluxo de imigração européia.
Nos centros urbanos, uma nova classe social, a dos trabalhadores das indústrias, surgia com força. Com ela emergiam os movimentos trabalhistas, fincados principalmente nos ideais que eclodiam na Europa, como o anarquismo. A política oligárquica do governo brasileiro controlava movimentos sindicalistas com grande repressão, prendendo os seus líderes, deportando aqueles que não eram brasileiros. Sem fôlego, os movimentos trabalhistas avançaram nas duas primeiras décadas do século XX, sem direção ou grande influência sobre a população.
Se uma incipiente classe trabalhadora não tinha representatividade política na direção do Brasil, uma elite vinda das casernas, sentindo-se excluída, passou a contestar o sistema. Esta elite, formada por jovens oficiais do exército e da marinha, surgiu na década de 1920. Por causa das baixas patentes dos seus líderes, o movimento ao qual se engajaram, passou a ser conhecido como “Tenentismo”.
O tenentismo, embora visto à luz da história como um movimento popular, na verdade era conduzido por uma elite que tencionava terminar com o poderio das lideranças rurais e estendê-lo à classe média urbana emergente na época, como os militares, pequenos proprietários, funcionários públicos e trabalhadores.
O tenentismo, embora elitista, era dentro da escuridão das oligarquias, o movimento que tinha as propostas mais avançadas de mudanças sociais para o Brasil daquela década. Dentre as propostas progressivas, o movimento pedia o fim do voto de cabresto e a instituição do voto secreto, o que eliminaria as habituais fraudes dos governos formados pela República. Entre outras idéias progressistas, reivindicavam a garantia pelo governo do ensino escolar primário para todos.

As Revoltas Tenentistas

O tenentismo gerou revoltas significativas, que desafiaram o poder vigente, induzindo o colapso da República Velha. Entre os principais movimentos tenentistas estão: a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922; a Revolta Paulista, também chamada de Revolução de 1924; a Comuna de Manaus, também em 1924; e, a mítica Coluna Prestes, movimento que se estendeu de 1925 a 1927.
A primeira revolta, em 1922, apesar de ter sido esperada em todo o país, só conseguiu ser deflagrada no Rio de Janeiro e em Mato Grosso. Os rebeldes opunham-se a que o presidente eleito, Arthur Bernardes, tomasse posse, já que consideravam as eleições fraudulentas.
O episódio mais significante da revolta de 1922, foi o levante no forte de Copacabana, que passou a ser chamado de “Revolta dos 18 do Forte de Copacabana”. Na época, o forte era comandado pelo capitão Euclides Hermes da Fonseca, filho do marechal Hermes da Fonseca. O capitão exortaria, no dia 4 de julho daquele ano, que os seus homens escavassem trincheiras, do forte ao farol. No dia 5, de madrugada, iniciava-se a rebelião, o tenente Antonio de Siqueira Campos disparou um dos canhões como sinal de que a revolta estava deflagrada, para que outros militares da cidade aderissem ao levante. Informado do movimento, o governo trocou antecipadamente, os principais comandos militares do Rio de Janeiro. Sem outros apoios, Siqueira Campos disparou contra o Quartel General do Exército e da Marinha, ocasionando a morte de quatro pessoas.
Durante todo o dia 5 de julho, o forte sofreu intenso bombardeio. Acossados, Euclides Hermes da Fonseca e Siqueira Campos permitiram a saída do forte, na madrugada de 6 de julho, dos que não quisessem combater. De 301 homens, 272 saíram. Diante do fato, Euclides Hermes dirigiu-se ao Palácio do Catete, para negociar uma possível rendição. Foi recebido com uma ordem de prisão.
Insensatamente, um pequeno grupo de militares, liderado pelo tenente Antonio de Siqueira Campos, não aceitou a rendição, marchando pela praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, enfrentando as tropas governistas. Restavam apenas 17 homens remanescentes, a eles juntou-se o engenheiro Otavio Correia, amigo de Siqueira Campos. Os jovens militares revoltosos e o civil sucumbiram ao cerco de três mil homens das forças legalistas. O tiroteio durou trinta minutos. Dos revoltosos só sobreviveram os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos.

São Paulo Sob Metralhadoras e Canhões

O levante do forte de Copacabana repercutiu por todo o Brasil, obrigando o presidente Arthur Bernardes a governar sob constante estado de sítio, o que levou a que outros movimentos militares eclodissem. 1924 foi um ano de grandes revoltas tenentistas pelo Brasil.
Em 23 de julho, incitados pelos movimentos rebeldes de São Paulo, os militares iniciaram um levante na capital amazonense, que se tornaria conhecido como “Comuna de Manaus”. Numa operação militar relâmpago, os rebeldes dominaram o governador em exercício, Turiano Meira. Por mais de um mês isolaram Manaus do resto do país, controlando os meios de comunicação. Em 26 de julho, expandiram o movimento pelo rio Amazonas, tentando avançar até a cidade de Óbidos, no Pará, dando origem à Comuna de Manaus. As forças legalistas só chegaram à região em 11 de agosto, terminando o levante em 26 de agosto.
Mas o maior movimento tenentista de 1924 aconteceu em São Paulo. Comandado pelo Exército e Pela Força Pública, o movimento armado eclodiu no dia 5 de julho, sendo comandado pelo general Isidoro Dias Lopes; tendo como participantes diversos tenentes, entre eles Eduardo Gomes, Joaquim Távora, João Cabanas, Índio do Brasil , Juarez Távora e pelo major Miguel Costa.
A revolta de 1924 foi a maior conflito bélico deflagrado em São Paulo, gerando acirrados combates que isolou a cidade por vinte e três dias, envolvendo-a em um campo de guerra. Durante o levante, a capital paulista foi bombardeada, obrigando a evacuação de milhares de civis.
Os militares paulistanos estavam cada vez mais insatisfeitos com o presidente Arthur Bernardes. Apoiados por setores da população civil, os rebeldes ocuparam os quartéis da Avenida Tiradentes, a Estação da Luz e Sorocabana, cortando ligações ferroviárias e telegráficas, isolando a cidade. Pelas ruas, homens armados de metralhadoras formavam barricadas. A eles aderiram grande parte da população civil, formando um batalha que tinha ex-combatentes da Primeira Guerra Mundial e contingentes de imigrantes europeus, considerados como estrangeiros inimigos do governo.
As forças legalistas do governo reagiram aos ataques dos rebeldes, distribuindo suas tropas por trincheiras equipadas com canhões e metralhadoras, nas proximidades do Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo paulista da época; pelo Pátio do Colégio; Várzea do Carmo, Praça Antonio Prado e Largo do Paissandu. Sangrentos combates foram travados na tentativa da retomada da Estação Sorocabana, causando várias mortes.
No dia 8 de julho, tiroteios e ataques a granada no centro de São Paulo, obrigaram os governistas a abandonar a cidade, deixando para trás armas e munições, entre eles potentes canhões, que passaram a ser usados pelos rebeldes para bombardear o Palácio dos Campos Elíseos, obrigando o presidente do Estado a fugir para o interior.
No dia 9 de julho, os civis que permaneceram entrincheirados em suas casas, saíram às ruas pela primeira vez. Estavam famintos e sendo obrigados à submissão aos preços exorbitantes dos alimentos vendidos no mercado negro. Revoltados e incitados pelos rebeldes, os civis saquearam o Mercado Grande da Rua 25 de Março, destruindo-o por completo.
No interior paulista, outras cidades aderiram à revolta, tomando as prefeituras. O objetivo do levante era que atingisse outros estados brasileiros. Mas o movimento não prospera. Em meio aos conflitos, a cidade de São Paulo foi bombardeada por aviões do governo federal, atingindo os bairros operários do Brás e da Mooca. A cidade foi tomada pelo horror, com combates que assolavam e incendiavam o centro, causando baixas na população civil.
Sob os escombros, a população fugiu, na noite de 16 de julho, buscando as estações ferroviárias como meio de fuga. Por quatro dias consecutivos, trezentas mil pessoas realizaram um êxodo para fugir dos combates. Já pelo dia 26 de julho, os rebeldes, cercados por catorze mil soldados legalistas, começaram a ter a resistência abalada. No dia 27 de julho, os rebeldes iniciaram a retirada da capital, através das estações da Luz e Sorocabana. No dia 29 de julho, tropas vindas da Bahia, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, Espírito Santo e outros estados, ocuparam São Paulo. Os vinte e quatro dias de combates deixaram na Paulicéia cerca de seiscentos mortos e cinco mil feridos, casas destruídas e paredes cravejadas de balas. Em agosto, já com a vitória sobre os revoltosos, o presidente da Província, voltou à cidade.
Vencidos, os rebeldes marcharam para o interior de São Paulo, rumando para o sul do país, onde, em Foz do Iguaçu, no Paraná, juntar-se-iam aos oficiais gaúchos comandos por Luiz Carlos Prestes, formando o maior movimento guerrilheiro do Brasil, a Coluna Miguel Costa – Prestes, ou simplesmente Coluna Prestes.

A Coluna Prestes

O levante paulista incitou os jovens oficiais do exército do Rio Grande do Sul a tramarem uma conspiração tenentista contra o governo. O mentor e coordenador da conspiração gaúcha foi o tenente Aníbal Benévolo, jovem oficial da Brigada da Cavalaria de São Borja, com a colaboração do tenente Mário Portela Fagundes e do capitão Luiz Carlos Prestes.
O movimento foi deflagrado no dia 28 de outubro de 1924, pelo levante do Primeiro Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, comandado por Prestes e Mário Portela. Outras unidades militares gaúchas aderiram ao levante. A burguesia local, representada por caudilhos ligados a Assis Brasil, e insatisfeitos pelos privilégios dados pelo governo aos estados de São Paulo e Minas Gerais, uniram-se aos rebeldes.
Sem coordenação e uma unidade de proposta revolucionária, os revoltosos foram logo dominados e reprimidos por tropas legalistas do governo gaúcho, só restando a resistência na região de São Luís Gonzaga, onde Luiz Carlos Prestes reuniu todas as tropas rebeldes remanescentes dos diversos contingentes sublevados. Cercados em dezembro de 1924, pelas tropas legalistas, os rebeldes gaúchos romperam o cerco e rumaram para o norte, para ajudar as tropas rebeldes paulistas, cercadas pelo exército federal comandado pelo general Rondon.
No dia 12 de abril de 1925, as tropas rebeldes gaúchas encontraram-se com as tropas paulistas, em um momento histórico acontecido na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná. Juntas, as tropas rebeldes propuseram manter acesa a luta dos tenentistas, atraindo, em uma tática de guerra em movimento, atraindo as tropas legalistas para o interior do Brasil.
Após a junção, as tropas foram reorganizadas, criando-se a Primeira Divisão Revolucionária, constituída por duas brigadas: “São Paulo” com cerca de 700 homens, e “Rio Grande”, com cerca de 800 homens; sendo comandadas pelo major Miguel Costa, oficial de maior patente, promovido pelo general Isidoro Dias Lopes a general de brigada. Juntas, as duas brigadas contavam com menos de 1500 homens. Algumas mulheres gaúchas e paulistas faziam parte das colunas, acompanhando os seus maridos.
Assim, a Primeira Divisão Revolucionária, que seria chamada de Coluna Miguel Costa – Prestes, atravessou o rio Paraná, rumando para o Mato Grosso, dando seqüência à revolução tenentista, começada em São Paulo. A grande Coluna não seguia qualquer linha ideológica. O inimigo era o governo da República Velha e suas oligarquias. Apesar da luta por benefícios populares, como o voto secreto e o ensino primário estendido a todos, a proposta mais definida era quebrar com o monopólio rural nas grandes decisões do país, permitindo maior participação da sociedade ascendente urbana. A marcha reunia homens que não tinham grandes armamentos ou munições, que prosseguiam sem nenhum pagamento. Para sobreviverem, apossavam-se de animais e mantimentos alheios, deixando um termo de compromisso assinado por Luiz Carlos Prestes, de a que o ato era um empréstimo e não um saque, e que seriam indenizados quando a revolução fosse concretizada.
Apesar de comandada pelo general Miguel Costa, a competência de Luiz Carlos Prestes gerou-lhe prestígio e o respeito do líder paulista, que na prática, entregou-lhe o comando da Coluna.
Um dos principais objetivos da Coluna era aliciar o maior número de pessoas à causa. Por este motivo, procuravam manterem-se próximos da população dos vilarejos por onde passavam. Não lhes era permitido saques, agressões ou estupros. Mesmo com uma política conciliadora, incidentes foram registrados durante a longa marcha da guerra em movimento. Curiosamente, o nordeste brasileiro, secularmente mais explorado pelas oligarquias rurais, foi quem mais reagiu contra a Coluna Prestes. Padres reacionários e amigos dos coronéis locais eram quem mais incitavam a população contra os revolucionários. Relatos orais dizem que padre Cícero Romão Batista, convocou o cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião, para eliminar Luiz Carlos Prestes e, junto com os seus homens e jagunços, combatessem a Coluna. Não há nenhum documento que comprove o fato, apenas a tradição oral popular.
Outro incidente envolvendo um padre, ocorreu quando a Coluna passou pelo vale árido de Piancó, na Paraíba. Ali o padre Aristides Ferreira da Cruz teria incitado a população a lutar contra os rebeldes. Uma imensa batalha teria sido travada, alguns moradores do local mortos, e o padre trucidado em um barreiro. Apesar de comprovado o assassínio do padre, ele se tornou um herói popular difundido na literatura de Cordel da região, o que lhe aumentou as atrocidades sofridas, tirando grande parte dos fatos históricos em seus detalhes mais conclusivos.
Perseguidos e confrontados por tropas armadas e logisticamente bem preparadas, vindas de todo o Brasil, a Coluna Prestes jamais foi derrotada, sendo chamada de Coluna Invicta. Durante os dois anos e três meses que percorreu o país, em uma marcha de quase vinte e cinco mil quilômetros, enfrentaram bravamente 53 combates, derrotando 18 generais. Os combatentes da Coluna Prestes mais aguerridos foram os homens das tropas reunidas pelo coronel Horácio de Matos, com o seu Batalhão Patriótico de Diamantina. O coronel iniciou uma intensa perseguição aos rebeldes, acossando-os e forçando-os a seguir para a Bolívia, fora do território brasileiro.
Visto que a Coluna não cresceu, mas estava drasticamente reduzida em número, Luiz Carlos Prestes chegou à conclusão que já era hora de parar com a marcha. Decidiu seguir com os seus homens para o exílio na Bolívia, chegando àquele país em 3 de fevereiro de 1927. Dos 1500 homens iniciais, só 620 restavam quando do exílio na Bolívia. Terminavam a longa epopéia revolucionária pobres e debilitados, mas altivos e com a certeza de dever cumprido.
Com o fim da Coluna Prestes, os seus componentes foram conclamados pela imprensa como heróis. Luiz Carlos Prestes, feito o “Cavaleiro da Esperança”, ganhou grande prestígio. Sua consciência de Brasil e da miséria do seu povo foi despertada, fazendo com que descobrisse a ideologia comunista. O objetivo tenentista foi alcançado quando a República Velha chegou ao fim, em 1930, e Getúlio Vargas subiu à presidência da República. Muitos líderes dos levantes tenentistas passaram a fazer parte do governo de Vargas. Luiz Carlos Prestes recusou-se a fazer parte dele. Preferiu tornar-se um grande líder dos comunistas no Brasil. Se para os dirigentes tenentistas a verdadeira revolução significava pôr fim às oligarquias rurais, trocando-a pelas elites urbanas, a revolução para Luiz Carlos Prestes passou a ser ideológica, nos moldes de um mundo socialista.


A QUEDA DO MURO DE BERLIM

Novembro 20, 2009

No dia 9 de novembro de 1989, após grandes manifestações civis de protesto, o governo da República Democrática Alemã (RDA), permitiu, pela primeira vez em mais de vinte e oito anos, que os moradores da parte oriental de Berlim, pudessem atravessar o muro que os separava do lado ocidental. Em resposta, milhares de berlinenses rumaram à imensa barreira de concreto, atravessando-a e unindo-se aos berlinenses ocidentais.
O movimento de pessoas atravessando o muro, como se fosse uma grande procissão revolucionária, atraiu todos os holofotes da imprensa internacional. O mundo pôs seus olhos àquele momento histórico. Uma grande euforia tomou conta dos berlinenses, que aos poucos, foram derrubando partes do muro e, dias mais tarde, máquinas industriais completaram a demolição. Caía o maior símbolo da Guerra Fria.
A queda do muro de Berlim, ou “Muro da Vergonha”, como era chamado por seus opositores no mundo, desencadeou o fim da Cortina de Ferro, constituída pela União Soviética e pelos países socialistas do leste europeu. Diante do silêncio do governo de Moscou, que decidiu não intervir com os seus tanques modeladores da ideologia socialista; outros países do bloco comunista quebraram as amarras e, um a um, derrubaram e extinguiram os seus regimes.
A queda do muro representou para Berlim o fim à humilhação e dor que a ambição nazista mergulhara a cidade e, à própria Alemanha. Famílias foram separadas por décadas. Rebeldes mortos na tentativa de fuga. Berlim era a capital logística da Guerra Fria, de um lado do muro os soviéticos, do outro as nações capitalistas ocidentais, no meio, a dor de um povo que levara o mundo à Segunda Guerra Mundial, e que se tornara refém da nova guerra entre duas ideologias.
A partir da queda do muro, a República Federal da Alemanha (RFA) e a RDA puderam ser reunificadas, em 1990. Berlim voltou a ser a capital da Alemanha. Sem o glamour de antes da guerra, a cidade foi totalmente reconstruída, com investimentos que possibilitaram que voltasse a ser uma grande e desenvolvida metrópole. Restava lapidar as cicatrizes de uma Alemanha dividida agora pelo aspecto social, de um lado rica (parte ocidental), de outro pobre e parada no tempo (parte oriental). Restava unir preceitos morais e sociais entre pessoas que apesar da mesma origem, diferenciavam-se por completo.
Na história recente da humanidade, a queda do muro de Berlim pôs fim à Guerra Fria, e iniciou a queda do grande império soviético, ocasionando o fim de várias nações construídas sob as dialéticas de uma ideologia que envelheceu, sendo corroída por seus erros, até que ruiu, tornando-se escombros, entulhos de um mundo que o povo começou a demolir na madrugada de 9 de novembro de 1989.

A Divisão da Alemanha e de Berlim

Em 1945 Berlim era uma cidade completamente destruída. Bombardeada incessantemente pelas tropas soviéticas, a capital da Alemanha foi transformada em um grande escombro. Hitler havia cometido suicídio no bunker da chancelaria, em 30 de abril. No dia 8 de maio, foi declarada oficialmente a rendição da Alemanha e, o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.
Berlim tornara-se no século XX, uma das capitais culturais mais efervescentes do mundo. Atingiu o apogeu no período do governo nazista, alcançando um esplendor que fascinou o mundo. Dentro do delírio nazista, foi programada para ser a capital de um império imaginário com duração de mil anos. No fim da guerra, foi reduzida a escombros, tornando-se símbolo da punição à ambição nazista, e palco do ódio do exército soviético.
Com o fim da guerra, a Alemanha foi dividida, através do Acordo de Postdam, em quatro zonas de ocupação controladas pelas potências aliadas: União Soviética, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Berlim, a capital do Reich, estava situada no interior da parte ocupada pelos soviéticos, mas foi igualmente dividida em quatro setores, tornando-se a sede do Conselho de Controle Aliado.
No decorrer dos primeiros anos pós-guerra, as relações diplomáticas da União Soviética com os outros três países aliados começaram a deteriorar. O mapa da Europa passou a ser redesenhado. O líder soviético Joseph Stalin, construiu um cinturão de nações independentes, mas controladas por Moscou. Estava nascendo o bloco socialista do leste europeu, englobando a Tchecoslováquia, Polônia e Hungria, entre outras. A Alemanha estava nos planos de Stalin para que se tornasse um país pertencente ao bloco comunista. A idéia era enfraquecer os países aliados, forçando-os a deixar os territórios germânicos ocupados.
Em poucos anos, a Alemanha estava administrativamente dividida. A parte leste, controlada pela União Soviética, teve as suas indústrias e propriedades nacionalizadas. Os soviéticos eram contrários aos planos de reconstrução da Alemanha, por temer que ela voltasse a ser uma grande potência de influência nos países do leste europeu, e que recuperasse a sua força bélica, pondo em risco o controle do governo do Kremlin. Em paralelo aos planos soviéticos, Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Holanda, Luxemburgo e Bélgica decidiram em reuniões, tornar a parte alemã não controlada por Moscou, livre de ocupação, recebendo investimentos de reconstrução, abrangidos pelo Plano Marshall.
Opondo-se aos planos dos aliados para a reconstrução alemã, e a isenção das dívidas de guerra; Stálin instituiu, em 1948, o Bloqueio de Berlim, impedindo que alimentos, materiais e suprimentos chegassem ao enclave de Berlim Ocidental. Para evitar uma tragédia, a França, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e vários outros países promoveram uma ponte aérea sobre Berlim, a Berlin Airlift, fornecendo alimentos e outros suprimentos à parte ocidental da cidade. Ironicamente, os países aliados que outrora destruíram a cidade com as suas bombas, agora socorriam a população com toneladas de suprimentos de sobrevivência. O embargo a Berlim só seria suspenso por Stalin no ano seguinte, em 12 de maio de 1949.
A situação da Alemanha ocupada só foi definida quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 23 de maio de 1949 os três blocos ocupados pela França, Reino Unido e Estados Unidos foram transformados na República Federal da Alemanha (RFA), conhecida como Alemanha Ocidental, país independente e capitalista, com a capital estabelecida em Bonn. Em 7 de outubro de 1949, os soviéticos concederam autoridade administrativa à parte que ocupava, criando a República Democrática Alemã (RDA), conhecida como Alemanha Oriental, de regime comunista subordinado a Moscou.
Com a divisão da Alemanha em dois países de regimes distintos, nascia oficialmente a Guerra Fria; travada ideologicamente entre capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, e comunistas, liderados pela União Soviética. Berlim, situada dentro da RDA, continuou a ser uma cidade dividida. O lado oriental era controlado pelos soviéticos, sendo oficialmente a capital da Alemanha Oriental. A parte oeste da cidade, tornou-se um enclave controlado pelos capitalistas, no coração dos países da Cortina Ferro.

As Primeiras Medidas Restritivas

Dividida, Berlim transformou-se no centro de espionagem da Guerra Fria. A parte ocidental da cidade representava o incômodo enclave capitalista dentro do bloco de países europeus adjacentes ao controle soviético.
Com a divisão, a Alemanha Ocidental reergueu-se de forma extraordinária, tornando-se uma potência econômica mundial, enquanto que a Alemanha Oriental estagnou o seu crescimento econômico. O não desenvolvimento da parte leste deve-se não somente ao regime socialista nela implantada, mas a um controle rígido soviético, que temia a ascensão econômica alemã, a volta do seu poderio bélico, e, principalmente, a sua influência secular sobre os países do leste europeu, exercida no pós-guerra pela União Soviética. De uma maneira sutil, mas definitiva, a população do leste alemão foi reduzida à pastoril, com escassas indústrias.
Diante da prosperidade da Alemanha Ocidental, houve uma carência de mão-de-obra, impulsionando a migração de outros povos, como os turcos, que vieram para preencher essa carência. Do lado oriental, a população empobrecida, era proibida de atravessar a fronteira em busca de trabalho.
Com o crescimento econômico da Alemanha Ocidental, proporcionando um nível de vida dos mais altos do mundo, os alemães orientais deslocaram-se em massa para o ocidente. Nos primeiros meses de 1953, cerca de 226 mil pessoas fugiram da RDA para a RFA.
Para frear as fugas, o governo da RDA fechou definitivamente, em 1952, a Zonengrenze – fronteira entre as duas Alemanhas. Desde então, o trânsito de um lado para o outro em Berlim passou a ser restrito a alguns lugares selecionados da cidade. Em 17 de junho de 1953, trabalhadores de Berlim oriental promoveram um levante contra a ocupação russa, mas foram esmagados pela polícia soviética. Em resposta às manifestações, foi exigido dos ocidentais um passe especial para que pudessem transitar no lado oriental.
Mas as restrições e proibições não inibiram o fluxo de fuga dos habitantes do lado oriental de Berlim para a parte capitalista. Em 1957, medidas mais severas foram adotadas, com a condenação de até três anos de cárcere para os que tentassem deixar o leste da cidade sem permissão.
A fuga dos alemães do oriente para o ocidente, jamais o contrário, desacreditava o regime comunista implantado nas repúblicas do leste europeu. Mesmo com medidas repressivas, a migração continuou, proporcionando fugas épicas , bem exploradas pela propaganda dos países capitalistas contra o regime comunista, transformando a Guerra Fria em um grande palco a ser assistido pelo mundo inteiro, sem nunca dar importância aos verdadeiros sacrificados, os alemães do leste, enclausurados e empobrecidos, muitas vezes separados das suas famílias.
Para evitar a fuga e a espionagem dentro de Berlim e da própria Alemanha socialista, um plano de isolamento passou a ser arquitetado: o de uma imensa muralha que separasse os dois lados da cidade e, conseqüentemente, a fronteira entre os dois países. No horizonte berlinense, a sombra obscura de um muro separatista passou a ser vislumbrado.

A Construção do Muro

A intenção da construção de um muro que separasse Berlim em duas zonas distintas foi mantida em segredo pelo governo da Alemanha Oriental. Em 1961, Walter Ulbricht, chefe de estado da RDA na época, considerado o idealizador do muro de Berlim, negou os rumores da sua construção dois meses antes do fato concretizado.
No ocidente, os serviços secretos traziam informações de que um muro seria erguido em Berlim, e que o próprio Walter Ulbricht havia pedido ao líder soviético Nikita Khrushchov, em uma conferência dos Estados do Pacto de Varsóvia, a autorização para construí-lo. Ulbricht alegava que o contato direto dos alemães do leste com a RFA atrapalhava o crescimento do estado proletário alemão, e, através da sabotagem ideológica do ocidente, incentivava a fuga em massa da população e o seu desvio dialético.
No dia 11 de agosto de 1960, o governo da RDA autorizou o conselho dos ministros a tomar medidas necessárias para a inibição do fluxo de pessoas, tanto da população, como dos espiões das potências ocidentais, nas fronteiras entre as duas Alemanhas. No dia 12 de agosto, ficou decidido que as forças armadas seriam usadas na ocupação da fronteira, instalando gradeamentos.
Os berlinenses acordaram, na madrugada de 13 de agosto de 1961, com o movimento brusco das forças armadas da RDA, apoiadas pelos soviéticos. Todas as conexões de trânsito foram interrompidas entre Berlim Ocidental e o lado Oriental. Em apenas uma noite, ergueu-se uma enorme muralha, era o muro de Berlim.
O muro de Berlim era um gigantesco paredão com cerca de 3,6 metros de altura, com 66,5 quilômetros de gradeamento metálico. Quando ficou pronto, tornou-se um cinturão sem estética arquitetônica, envolvendo completamente a cidade, medindo 155 quilômetros, com extensão interna de 43 quilômetros, sendo 37 deles na área industrial. Foram instaladas 302 torres de observação; 20 bunkers, onde os soldados atiravam em quem se arriscasse a atravessá-lo; 127 redes metálicas eletrificadas com alarme e 255 pistas de ferozes cães de guarda.
A reação da comunidade internacional foi de repulsa, mas, nos bastidores da Guerra Fria, a construção do muro não sofreu grandes pressões, pelo contrário, foi tido como dos males o menor diante da possibilidade de uma nova guerra. Os movimentos cara a cara de tanques de guerra dos Estados Unidos e da Alemanha Oriental criaram momentos dramáticos, numa encenação bélica para o mundo, que servia para medir força entre os regimes capitalista e comunista. O muro de Berlim passou a ser o marco da divisão do mundo em duas ideologias. Diante do jogo de poder entre as nações, passaria a ser chamado pelo ocidente de Muro da Vergonha.
Em um único dia, famílias foram separadas por décadas. Nas janelas, a população civil berlinense assistia inerte à divisão da cidade. Entre lágrimas e protestos, viu o imenso paredão romper a panorâmica dos dois lados de Berlim. O símbolo arquitetônico da cidade, o Portão de Brandemburgo, ficou inteiramente isolado, tendo acesso apenas pelo lado oriental, sendo reservado às autoridades policiais e militares. Berlim, cidade idealizada para ser a capital do III Reich por mil anos, que assistira ao esplendor, horror e à queda nazista, estava definitivamente dividida. A imensa e sombria muralha viera para ficar. Só cairia quando o próprio sistema ruísse.

Fugas e Mortes

Mesmo diante da indignação do mundo e do próprio berlinense, o muro persistiu erguido por vinte e oito anos. No período, várias pessoas tentaram trespassá-lo, ocasionando mortes e prisões. O número de vítimas fatais jamais foi revelado com exatidão. Alguns relatos apontam para 192 mortos, outros para 125 ou 80. O número de feridos também diverge conforme a versão, teria sido entre 112 e 200 pessoas. Cerca de 3200 pessoas foram presas acusadas de tentativa de fuga.
Momentos dramáticos vividos pelos habitantes de Berlim diante da construção do muro, ficaram registrados para sempre pelas lentes dos jornalistas. Entre eles está a fuga do soldado Conrad Schumann. Designado para controlar a linha divisória na Rua Bernauer, no dia 15 de agosto de 1961, ainda separada somente por arames farpados, o soldado atirou fora o seu fuzil, pulando sobre o arame, passando definitivamente para o lado ocidental. A fotografia da cena correu o mundo, evidenciando a realidade da cidade.
Várias pessoas atiraram-se da janela dos prédios que faziam fronteira com o muro, fugindo para a parte ocidental. Mais tarde, os edifícios foram demolidos, dando passagem para o cinturão de concreto que dividia a cidade.
A primeira vítima fatal do muro de Berlim foi o jovem pedreiro Peter Fechter. Aos dezoito anos, ele foi alvejado mortalmente pelas costas, ao tentar atravessá-lo, na altura da rua Zimmerstrasse. O jovem pereceu diante das câmeras de vários jornalistas ocidentais, sem que nada pudesse ser feito para socorrê-lo. Recolhido pela polícia da RDA, morreria logo a seguir. No local, ergue-se nos tempos atuais, um monumento em sua homenagem.
No fim de 1963, o ator Wolfgang Fuchs reuniu um grupo de jovens, que iniciaram a construção de um túnel debaixo do muro. Foram escavados, durante dez meses, um subterrâneo de 145 metros de extensão, 80 centímetros de altura, numa profundidade de 12 metros. Nos dias 3 e 4 de outubro de 1964, 57 pessoas conseguiram fugir para o lado ocidental. No dia 5 de outubro, a polícia descobriu e fechou o túnel.
Em 1979, na noite de 16 para 17 de setembro, os casais Strelzik e Wetzel, com os seus quatro filhos entre dois e quinze anos, fugiram a bordo de um balão, alcançado a Alemanha Federal.
Outras mortes chamaram a atenção do mundo, como a de Günter Litfin. Duas crianças de 10 e 13 anos foram mortas em 1966. A última vitima fatal que tentou atravessar o muro foi Winfried Freudenberg, de 32 anos. Morreu em março de 1989, poucos meses antes da queda do muro, ao tentar a fuga através de um balão de fabricação caseira.

A Queda do Muro

Na década de 1980, as reformas políticas propostas pelo líder soviético Mikhail Gorbachev modificariam para sempre o destino das nações comunistas. Ao propor as reformas de um sistema corroído, resultou no seu desmoronamento. A Alemanha Oriental foi a primeira a ser atingida pelos ventos das reformas do sistema.
No dia 7 de outubro de 1989, quando o regime comunista comemorou o quadragésimo aniversário da RDA, enfrentou forte oposição popular. Protestos e fugas em massa alertaram os comunistas mais novos de que era preciso mudanças. Poucas semanas depois das comemorações, o chefe de Estado e de partido, Erich Honecker, foi destituído de todas as suas funções, pondo fim à liderança conservadora comunista.
A destituição de Erich Honecker não pôs fim aos protestos. O processo de mudança tinha sido desencadeado de forma irreversível, sem que as lideranças do velho sistema dessem conta dos acontecimentos.
No dia 9 de novembro de 1989, o jornalista Günter Schabowski, membro da direção do SED (Partido Socialista Unificado), interpretou erroneamente, durante uma entrevista coletiva, o comunicado do governo que anunciada a abertura das fronteiras entre a RDA e a RFA. Poucas horas depois do anúncio, milhares de pessoas dirigiram-se para o muro, obrigando a guarda fronteiriça a abrir as portas. Era a queda do muro e do sistema que gerara, por quatro décadas, a Guerra Fria. O movimento histórico foi registrado pela imprensa do mundo inteiro.
Diante das manifestações do povo alemão, Mikhail Gorbachev não quis interferir, algo inédito nas rebeliões que por décadas explodiram esporadicamente nas repúblicas do Pacto de Varsóvia. No dia 10 de novembro de 1989, os berlinenses orientais e ocidentais confraternizaram-se, numa dança eufórica em cima do muro. As fronteiras foram abertas, e o Portão de Brandemburgo, símbolo de Berlim, voltou a ser ocupado por seus moradores. Desde o dia 9 de novembro, que os orientais podiam fazer compras livremente do outro lado da cidade e, reencontrar parentes que foram separados pelas atrocidades ideológicas da história.
Aos poucos, o imenso cinturão foi sendo demolido. Pessoas munidas de martelo e cunha, ajudavam na demolição. Máquinas industriais vieram, derrubando de vez o maior símbolo da Guerra Fria. Era o fim de uma época sofrida, marcada pelo jogo do poder entre os impérios capitalistas e comunistas. Era o fim da era das ideologias e dialéticas da ditadura do proletariado. Após a queda do muro de Berlim, o sistema comunista foi, um a um, caindo, varrendo países do mapa, deixando que outros emergissem.
Em 1990, a Alemanha foi reunificada. Berlim voltou a ser a capital de uma grande potência mundial. Foi totalmente reconstruída e modernizada, voltando a ter um lugar de destaque entre as grandes capitais européias. Do vergonhoso muro, restou a linha onde ele existiu, atravessando as ruas da cidade, mostrando a enorme cicatriz que, duas décadas depois do seu fim, jamais deixará o povo daquela cidade.


OS FOTÓGRAFOS DO IMPÉRIO DO BRASIL

Novembro 10, 2009

 No século XIX a arte da fotografia floria, arrastando novos artistas de um universo antes dominado pela pintura. A realidade crua da imagem fotografada tirava o glamour da imagem pintada. As pessoas retratadas saíram dos quadros da parede para os álbuns portáteis. A inspiração do artista já não era mesclada pelo ludismo imaginário, mas por um incontestável retrato jornalístico.
No Brasil Império, Dom Pedro II apaixonou-se pela fotografia. Ele próprio construiu um acervo belíssimo de imagens das suas viagens e do país que governava. Durante o segundo império, grandes fotógrafos pioneiros construíram as primeiras imagens do Brasil, registrando mais realistamente o retrato de uma jovem nação. Geniais, esses artistas, em sua maioria europeus, venciam os obstáculos e as limitações técnicas da época, deixando uma obra grandiosa. Entre eles destacam-se os franceses Auguste Stahl e Jean Victor Frond; o alemão Revert Henry Klumb; o suíço George Leuzinger; e, o franco-brasileiro Marc Ferrez.
Rever os retratos desses fotógrafos grandiosos, é redescobrir um Brasil que já não existe, uma paisagem física e humana que o tempo varreu, deixando-nos órfãos de uma identidade civil de uma força aterradora.
Auguste Stahl deixou-nos imagens do Rio de Janeiro na época que era capital do império, e a sua obra-prima no Brasil, a Cachoeira de Paulo Afonso, varrida do mapa pela imposição do progresso. Marc Ferrez, herdeiro de todos os outros, destacou-se na fotografia por cerca de cinqüenta anos. Sua obra é imprescindível, retratando não só paisagens que deram origem a grandes cartões postais, como também documentou construções de ferrovias; a reconstrução do centro da cidade do Rio de Janeiro, a partir dos primeiros anos do século XX; fotografias da família imperial, ou de celebridades como Machado de Assis; além de várias paisagens humanas, mostrando a população ambulante da jovem nação, constituída por brancos, negros, índios e mestiços.
Este artigo faz uma viagem breve ao Brasil de Marc Ferrez e Auguste Stahl, através de imagens únicas, definitivas, de um país que mudou a sua paisagem, mas nunca perdeu a identidade aqui registrada através das objetivas e da sensibilidade dos grandes artistas.

Auguste Stahl e a Principal Imagem dos Primórdios da Fotografia

Theophile Auguste Stahl nasceu em 23 de maio de 1824. O local de nascimento do fotógrafo criou algumas controversas históricas, tendo sido atribuído a Bergamo, na Itália, ou ainda na Alemanha. Estudos mais recentes dão-lhe como nacionalidade a francesa. Filho dos franceses Jean Frederic Stahl e Marie Elise Stamm, teria nascido na Alsácia e passado a infância em Bergamo.
A atuação como fotógrafo no Brasil começou em 1854, quando abriu o seu primeiro estabelecimento no Recife, Pernambuco. Stahl chegara àquela cidade em 31 de dezembro de 1853. No Brasil, estabeleceria um trabalho fotográfico pioneiro que duraria quinze anos, de 1854 a 1869.
Em 22 de novembro de 1854, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina, visitaram pela primeira vez o Recife. Stahl fez o registro da chegada da família imperial na cidade pernambucana, num registro visualmente jornalístico, algo inédito para a época. Autorizado a fotografar o casal imperial, o seu trabalho empolgou o imperador, sendo agraciado com o título de “Fotógrafo de Sua Majestade o Imperador do Brasil”. Desde então, passou a deter o monopólio da imagem dos monarcas na província de Pernambuco.
Durante o tempo que ficou em Pernambuco, Dom Pedro II confidenciou ao fotógrafo o desejo de ter uma vista da imensa queda d’água chamada de Cachoeira de Paulo Afonso. O imperador visitara o local recentemente e ficara encantado com a sua beleza.
Foi assim que, em 1860, Auguste Stahl rumou para a Cachoeira de Paulo Afonso, para registrar a sua vista. O resultado seria a sua obra-prima. O registro é considerado a principal imagem dos primórdios da fotografia sobre papel no Brasil. Paulo Afonso era à época a mais famosa cachoeira do país. A beleza do trabalho mostra uma imagem grandiosa e ambiciosa, tendo sido feita com a junção de dois negativos em vidro, obtendo assim, uma dimensão esplendorosa de 27 cm x 54 cm, feito inédito para a época. No registro, vê-se a figura de um escravo a arriscar a vida no meio de uma pedra, proposta de Stahl, que nos dá a dimensão de grandiosidade da queda d’água. O contraste entre luz e sombra, remete a um cenário dramático, de beleza singular, que na sua monumentalidade deixa um certo alerta ao perigo. Os tons sépias contrastam a paisagem natural com a paisagem humana. Registro espetacular de um patrimônio natural do Brasil, que foi extinto pelo progresso. A cachoeira foi coberta pela represa que leva o mesmo nome, localizada entre as divisas dos estados de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas. A fotografia foi redescoberta em meados da década de 1990, fazendo parte do acervo da Biblioteca Nacional. A imagem seria copiada, em 1869, pelo fotógrafo Auguste Riedel, com sutis alterações, sendo por ele apropriada.
Auguste Stahl mudou-se, em 1862, para a capital do império. Durante o tempo que esteve no Brasil, interessou-se profundamente pelo paisagismo tropical. Retratou as cidades brasileiras por onde passou, influenciando com o seu trabalho, todos os grandes fotógrafos que viriam a partir dele. Casado com Marie-Julie Bing, teve dois filhos nascidos no Brasil, Olga-Marie Stahl e Valdemar Stahl.
Em 1870, Auguste Stahl viu-se acometido por uma terrível doença, a sífilis, o que o fez regressar à França. Acredita-se que sendo obrigado a deixar bruscamente o Brasil, o fotógrafo teria legado seu estoque de tiragens originais e negativos de vidro para o jovem Marc Ferrez, que teria editado posteriormente algumas imagens de Stahl com o seu nome.
Nos dias atuais, menos de 150 fotografias suas de paisagens do Rio de Janeiro e do Recife são conhecidas. Auguste Stahl viria a morrer em um hospital da Alsácia, em 30 de outubro de 1877. Suas imagens constituem um acervo precioso do Brasil imperial e oitocentista, numa obra pioneira e sem precedentes.

Marc Ferrez e os Primeiros Anos

Marc Ferrez é considerado o maior fotógrafo brasileiro de todos os tempos. Nascido no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, era filho dos franceses Zéphyrin Ferrez, escultor e gravurista, que veio para o Brasil em 1816 com a Missão Artística Francesa; e de Alexandrine Caroline Chevalier. Marc Ferrez herdou o nome do tio paterno, também integrante da missão. Sexto e último filho do casal, o fotógrafo viu-se órfão aos oito anos de idade, em 1851. Naquele ano, após a morte dos pais, partiu em julho para a França, vivendo em Paris com o escultor e gravador Alphée Dubois.
Marc Ferrez só retornaria ao Brasil em 1859. Na capital do império, passou a trabalhar na Casa Leuzinger, de George Lauzinger, famosa casa editorial, papelaria e estabelecimento fotográfico, localizada na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro. Em 1860, Marc Ferrez aprendeu técnicas fotográficas com o alemão Franz Keller-Leuzinger, fotógrafo responsável pela seção de fotografia da Casa Leuzinger.
Em 1865, aos 21 anos, abriu a própria firma, a Marc Ferrez & Cia, um estúdio fotográfico bem-sucedido, com sede na Rua São José, e que o iria pôr entre os principais profissionais da sua cidade e do próprio Império. Em 1868, já um fotógrafo famoso, recebeu menção honrosa do Almanaque Laemment.
Em 1873, uma tragédia abater-se-ia sobre o trabalho do fotógrafo, um incêndio de grandes proporções consumuria e destruiria o seu atelier, que lhe servia também de residência. Na catástrofe foram perdidos o seu acervo, chapas e equipamentos fotográficos. No ano seguinte, em 1874, ele viajaria para a França com o objetivo de readquirir novo material fotográfico e restabelecer a profissão no Rio de Janeiro.

Marc Ferrez Durante o Segundo Império

De volta ao Brasil, em 1875, Marc Ferrez foi convidado para integrar como fotógrafo à Comissão Geográfica e Geológica do Império do Brasil, comandada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. A expedição percorreria os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, e partes da Amazônia. Marc Ferrez fotografaria, quinze anos após Auguste Stahl o ter feito, a Cachoeira de Paulo Afonso. No sul da Bahia, registraria com maestria os índios Botocudos. A imagem reflete a dureza no olhar da maioria dos índios, longe de perceber que posavam para a posteridade da sua própria etnia. Olhares que se oferecem à manipulação da objetiva, sem perder a essência primitiva do homem, mais do que universal, substancialmente brasileiro.
Durante o Império, Marc Ferrez participou de várias exposições tanto no Brasil, como no exterior, obtendo alguns prêmios. Fotografou várias paisagens do Brasil imperial, do Rio de Janeiro como capital da corte. Documentou em imagens, várias obras essenciais para o desenvolvimento daquela cidade. Sob as lentes de Marc Ferrez, a capital carioca deslumbrava na sua beleza natural, bem distante dos prédios que um dia tomariam a sua paisagem. Desta época, é o registro do fotógrafo que revelam um Rio de Janeiro pulsante pelo progresso que lhe batia às portas. As paisagens da cidade feitas pelo fotógrafo, transmitem uma tranqüilidade efêmera, associada à natureza privilegiada da sua construção física. São imagens que até os dias atuais, inspiram fotógrafos de um Rio de Janeiro futurista.
Considerado herdeiro legítimo de Auguste Stahl, Marc Ferrez tornou-se impar em sua obra. Conquistou o Império e sobreviveu com prestígio, ao seu fim. Em 1880 recebeu o título de “Photografo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império.
Nos últimos anos da Monarquia, registrou as obras de construção da Estrada de Ferro do Corcovado. Viajou para Minas Gerais e São Paulo, registrando as obras de ampliação da ferrovia The Minas and Rio Railway Company. Registrou as obras da ferrovia Paranaguá-Curitiba. As principais obras do Império passaram pelas lentes de Marc Ferrez. Sua competência e dedicação ao que fazia seduziram o imperador, que o agraciou, em 1885, com o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa.

O Desfile Humano nas Imagens de Marc Ferrez

Já na época da República, em 1890, o fotógrafo associou-se a Henri Gustave Lombaets, importante encadernador da Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, fundaram a Lombaets, Marc Ferrez & Cia. Da sociedade resultou a publicação de postais e o jornal “A Estação”. Mas a associação durou pouco, sendo desfeita em 1892.
Em 1899, a Casa Ferrez continuou a apostar na publicação de postais. Já o século XIX findava e Marc Ferrez trouxe, nessa época, um Brasil das ruas, uma paisagem humana que retratava a formação de um povo. Os ofícios urbanos estampavam na sensibilidade das suas objetivas. Por ela desfilaram o verdureiro, o cesteiro, o quitandeiro, o garrafeiro, o vassoureiro, o jornaleiro, o amolador de facas, o funileiro… Profissões, muitas das quais, já extintas, e que não se teria noção do que significaram, caso não tivesse tais registros.
O Brasil mudara, a escravidão tinha sido abolida, a República proclamada. Se na época do Império vender nas ruas significava uma tarefa não dignificante, exercida pelos escravos de ganho, que vendiam doces, miudezas, e depois dividiam os lucros com o seu dono; no Brasil que despontava com o alvorecer do século XX transbordava as ruas de imigrantes, vendendo ou oferecendo serviços. Na fotografia que Marc Ferrez registrou a “Vendedora de Miudezas”, podemos constatar as mudanças. Uma mulher branca, de olhar altivo, posa para Ferrez. Há nela nuances de quem sabe que está tendo a imagem registrada. Seu olhar desafia a objetiva, numa dignidade etérea, sem perder a sua função secular. Se a paisagem trazia um Ferrez sofisticado, o registro humano não lhe fica a dever. A vendedora de miudezas traz as surpresas da sua cesta – o que ela venderia?, singelamente amparada por uma providencial sombrinha.
Procurando exercitar uma imagem viril, os dois rapazes de “Jornaleiros” transitam entre a austeridade de vender nas ruas da cidade, e uma maturidade precoce, com a perda da infância sem o direito de uma adolescência. Os dois trazem os jornais de então nas mãos, “O Paiz” e “A Notícia“. Numa época em que os jornais eram vendidos no grito, a presença desses profissionais ambulantes garantia a notícia a ecoar das páginas imprensas pelas ruas da cidade. Curiosamente, esses jornaleiros não sabiam, em sua maioria, ler ou escrever. De chapéus e casacos, eles portam a elegância da época, estendida para os mais humildes, naturalmente cavalheiros de um tempo.
O Mascate” mostra o homem claramente imigrante, uma nova realidade que mudaria o Brasil não só física, mas culturalmente. Marc Ferrez registrou as escravas de serviço, que deixavam as senzalas para praticarem o que a elite chamava de vergonhosa profissão de ambulantes, sustentando com aquele trabalho os seus amos. Elas vendiam doces que faziam, legumes que cultivavam, peixe que pescavam. O mascate trabalhava para si mesmo. Vendia tecidos, tapeçarias, eram andarilhos não só pelas capitais, mas por todo o interior de uma imensa nação. Se as escravas retornavam para os seus amos no fim da jornada, os mascates desbravavam estradas, redescobriam um país.
Assim, o desfile humano das imagens de Marc Ferrez, tornou-se o desfile do próprio Brasil, velho na sua história, mas novo como nação independente. Negros, brancos, escravos e ex-escravos, imigrantes, índios, todos eles passaram por Marc Ferrez, fazendo dele um contador de história através das imagens que se nos são apresentadas, e que tanto nos fascinam.
Marc Ferrez ainda registraria a renovação da arquitetura urbana da cidade do Rio de Janeiro, como as obras da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Foi um dos pioneiros do cinema no Brasil, obtendo, em 1905, a autorização da firma francesa Pathé Frères, para ser fornecedor exclusivo dos cinematógrafos ambulantes. Em novembro de 1907 inaugurou o Cine Pathé.
Marc Ferrez traz uma das obras fotográficas mais abrangentes do século XIX e início do século XX. Fotografou o Brasil por quase cinco décadas consecutivas, mantendo sempre um trabalho magnífico, quer com a Monarquia ou com a República. No fim da vida viveu algum tempo na França, de lá retornando já muito doente, em 1920. Marc Ferrez morreria em 12 de janeiro de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, cenário que ele tão bem retratou, imortalizando o glamour que ela tinha quando foi capital do Império e da República do Brasil.


A MARCHA SOBRE ROMA

Outubro 31, 2009

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália vivia um momento difícil sócio econômico, levando a população ao desalento com os governos tradicionais. Movimentos de esquerda, inspirados na Revolução Bolchevique, atraíam cada vez mais adeptos. Em direção oposta à esquerda, surgiam os movimentos de extrema direita, entre eles o movimento fascista, liderado por Benito Mussolini, jornalista e um antigo socialista. Transformado no Partido Fascista Italiano, em 1921, o movimento atraiu par si um grande número de italianos desencantados com a política.
Os fascistas pregavam a implantação de uma ditadura na Itália, que combatesse o perigo bolchevique e elevasse o país à glória de outrora. Em dois anos, as milícias fascistas moviam-se contra os seus adversários usando da violência, tomando de assalto às sedes dos partidos de esquerda, às dos sindicatos, iniciando governos paralelos através da intimidação e até mesmo do assassínio de adversários.
Com mensagens nacionalistas extremadas, os fascistas iniciaram, em outubro de 1922, uma ação decisiva que os levaria ao poder. No congresso do partido, em 24 de outubro, em Nápoles, Mussolini ameaçou abertamente os poderes constituídos, acusando-os de incapacitados de controlar a anarquia que se instaurara na Itália. Incitados por Mussolini, os fascistas iniciaram uma ação cautelosamente encenada, rompendo numa marcha que chamaram de grande cruzada dos camisas negras, deflagrada oficialmente no dia 28 de outubro. Três grandes colunas de camisas negras, formadas por paramilitares do partido, responderam à convocação de Mussolini, dirigindo-se para Roma. Postas estrategicamente em Tivoli, Monterotondo e Civitavecchia, as colunas fecharam o cerco sobre Roma. Cerca de 50 mil homens marcharam para a capital italiana.
Diante do impasse, movido pelo medo de um possível derramamento de sangue, o governo declarava estado de sítio. Mas o rei da Itália, Vittorio Emanuel III, recusou a medida de exceção do Parlamento, levando-o à demissão. O rei, em 30 de outubro, nomeou Benito Mussolini chefe do gabinete. Quando os camisas negras chegaram a Roma, em vez de desencadearem uma guerra civil, transformaram a cidade em um grande palco de festa para comemorar a ascensão do partido ao governo. Pacificamente, os fascistas desfilaram triunfantes sobre Roma. Iniciava-se um dos momentos mais controversos da história da Itália, instaurando uma das maiores ditaduras de direita do século XX, que iria durar duas décadas. Durante aquele tempo, o país envolver-se-ia na Segunda Guerra Mundial ao lado de Adolf Hitler, de quem o governo de Mussolini tornar-se-ia dependente e totalmente submisso.
A marcha sobre Roma representou, nos palcos da política, uma grande encenação e aparato, que levaram, de forma apoteótica, os fascistas ao poder.

Consolidação do Movimento Fascista Como Partido

Em março de 1919, Benito Mussolini fundou, em Milão, o movimento fascista. Vindo dos movimentos de esquerda, Mussolini fora militante do Partido Socialista Italiano, chegando a dirigir o jornal “Avanti”. Após fundar o jornal “Il Popolo d’Italia”, foi expulso do partido, em 1914.
Em 1921, o movimento fascista foi transformado em partido, regido por uma exacerbada ideologia de direita, que pregava entre outras coisas, o nacionalismo, a abolição do direito de greve dos funcionários públicos e a implantação da ditadura na Itália, como solução para os seus problemas econômicos e sociais.
Os camisas negras, nome derivado do uniforme oficial dos militantes fascistas, transformaram-se rapidamente, em uma poderosa organização paramilitar, usava da intimidação e da violência para acossar os seus opositores. Italo Balbo, o mais poderoso comandante dos camisas negras no norte da Itália, realizou, em 1922, entre maio e agosto, uma seqüência de façanhas que desmoralizou o governo vigente, ocupando com a sua esquadra importantes cidades, como Ferrara, Ravena e Parma, substituindo as autoridades locais pelos seus homens, instalando um governo ilegítimo e paralelo.
A ascensão dos fascistas, em apenas três anos da criação do movimento e pouco menos de um ano da sua consolidação como partido, foi vertiginosa. Estrategicamente Mussolini acenou para o exército, evitando que os seus homens entrassem em combate direto com ele, conseguindo assim, a simpatia de vários comandantes dentro das forças armadas italianas. Também fez parte da estratégia a igreja, que em janeiro de 1922, com a morte de Bento XV, elegia Pio XI como novo papa, e que Mussolini saudou com veemência e respeito. Exército e igreja deixaram de temer os fascistas, restava conquistar o apoio da monarquia.
Em simultâneo com a ascensão do fascismo, veio a decadência dos socialistas, que minavam aos poucos, muitas vezes eliminados fisicamente em emboscadas preparadas por seus inimigos.

Os Fascistas Tranqüilizam a Monarquia

Nos primeiros meses de 1922, após fracassar na tentativa para a formação de um gabinete de esquerda, que contivesse a ascensão dos fascistas, o governo de Bonomi pediu demissão. Para substituí-lo, foi designado o liberal e inexpressivo Luigi Facta.
Em julho, os fascistas promoveram uma invasão à cidade de Cremona, saqueando a sede do Partido Socialista, ocupando prédios municipais e incendiando a casa do deputado do Partido Popolare, Guido Miglioli. Em resposta às atrocidades sofridas, membros dos dois partidos moveram uma moção de desconfiança contra o governo de Facta, enfraquecendo-o e levando-o à queda ainda naquele mês. Após doze dias de negociações, Facta foi novamente empossado no governo.
Paralelamente, os fascistas demonstravam a sua força diante dos opositores. Na Emilia-Romanha, foi promovida uma greve geral pelos socialistas, em protesto contra as ações dos fascistas. Como o governo não conseguiu conter a greve, os fascistas tomaram conta dos serviços públicos essenciais, garantido que fossem mantidos durante a greve. A ação resultou numa humilhante derrota aos socialistas.
Com ações cada vez mais contundentes, os fascistas continuaram a ter êxito em ataques às cidades e sedes dos partidos inimigos, formando governos paralelos. Maturava a idéia de uma revolução fascista que tomasse o poder. Mussolini mostrava-se indeciso entre deflagrar uma revolução ou tentar a conquista pacífica do poder.
Diplomaticamente, Mussolini havia tranqüilizado o exército e a igreja, de que não seriam atingidos com a ascensão fascista ao poder. Faltava tranqüilizar a monarquia. Em 20 de setembro, o líder dos fascistas discursou em uma manifestação do partido em Udine. Afirmava que mudanças radicais poderiam ser promovidas sem que afetassem à monarquia. Assim, o exército, a igreja e a monarquia, deixaram de inquietarem-se diante de uma possível revolução fascista. Habilmente, Mussolini conquistava a simpatia de vários membros daqueles poderosos setores da política e da sociedade italiana.

Delineados os Planos para a Marcha

No decorrer do segundo semestre de 1922, o espectro de uma marcha sobre Roma que resultasse na tomada de poder pelos fascistas, fazia eco no cenário político. Um avanço sobre a capital do país parecia iminente. Em 11 de outubro, a intenção da marcha ficou clara publicamente, quando em Cremona, a multidão aclamou o líder Mussolini aos gritos de “Para Roma, para Roma…
Em outubro de 1922, finalmente Mussolini decidira por desencadear o processo revolucionário. Reuniu-se em sigilo na Vila São Marcos, em Milão, em 16 de outubro, com os companheiros Italo Balbo, Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi e o marechal Emilio De Bono, entre outros. Decidiu-se que as milícias seriam unificadas sob um comando, a cargo de Balbo, De Bono e De Vecchi. A marcha sobre Roma seria realizada; a data da sua deflagração viria a ser marcada no Congresso Fascista, que se iria realizar a partir de 24 de outubro, em Nápoles.
A princípio, De Vecchi, um ex-monarquista que não tinha simpatia pelo método revolucionário; e, De Bono, não achavam que o momento da grande marcha sobre Roma seria aquele, mas retrocederam diante do grande entusiasmo revolucionário de Italo Balbo e do próprio Mussolini.
Inicialmente, o plano estratégico sugerido por Mussolini era de que três grandes colunas das milícias fascistas ficassem concentradas nas províncias da Emilia-Romanha, Toscana e nos Lagos, de onde convergiriam para Roma. Os generais da ativa Fara e Cecherini, que não pertenciam oficialmente ao partido, mas que estavam na reunião em Milão como convidados de Mussolini; alertaram para a imprudência de percorrer um caminho tão longo, praticamente a metade do território italiano. Diante das ressalvas, Italo Balbo deu a sugestão que seria a executada, a concentração dar-se-ia em três pontos próximos de Roma: no Tivoli, Civitavecchia e Monterotondo, instalando-se o quartel general na Perugia. Os planos para a grande marcha sobre Roma estavam, finalmente, estabelecidos.

Durante o Congresso em Nápoles

Passaram-se cerca de oito dias entre a reunião secreta de Milão e o congresso do partido fascista em Nápoles. Tempo suficiente para que se eliminassem todos os obstáculos e aperfeiçoassem o grande plano revolucionário.
No dia 23 de outubro Mussolini, vindo de Milão, a caminho de Nápoles, passou por Roma, onde teve um encontro com Salandra, que tencionava, junto com os fascistas, formar um governo de direita. No dia seguinte, em Nápoles, quarenta mil fascistas desfilaram à tarde, pela praça do Plebiscito. Diante deles, Mussolini fez um inflamado discurso, que abalaria a nação. Eloqüentemente declarava:
Garanto-vos solenemente, porém, que a nossa hora soou. Ou nos concedem o governo ou nós iremos a Roma conquistá-lo. É uma questão de dias ou horas.
Os preparativos finais para a marcha foram estabelecidos naquela noite, no Hotel Vesúvio, em Nápoles, antes de Mussolini deixar a cidade, secretamente, rumo a Milão. Os poderes da operação militar, quando fosse desencadeada, seriam dados plenamente ao quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, e a eles deveriam ser transmitidos à meia-noite do dia 26 de outubro. Uma mobilização secreta começaria a ser feita em 27 de outubro, e, finalmente, no dia 28 de outubro começariam os ataques revolucionários às prefeituras, jornais, sedes de entidades opositoras aos fascistas, postos policiais, sindicatos, estações de correios e diversos outros pontos estratégicos. A seguir aos ataques, ainda no dia 28 de outubro, uma concentração dos camisas negras em três pontos distintos, iniciaria a marcha sobre Roma.
Em frente ao Hotel Vesúvio, as milícias fascistas desfilavam, a cantar e a gritar eloqüentemente: “Para Roma! Para Roma!

A Marcha da Vitória Fascista

No dia 26 de outubro, os comandantes fascistas assumiram os seus postos nas concentrações das milícias. Em Civitavecchia, o comando foi entregue a Perrone Compagni, auxiliado pelo general Cecherini; a coluna de Monterotondo seria comandada por Ulisses Igliorie; e, a de Tivoli, por Giuseppe Botai. O quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, assinou o manifesto redigido por Mussolini, que seria divulgado no auge da deflagração da marcha.
Em Roma espalhou-se o pânico diante de uma marcha revolucionária fascista com conseqüências imprevisíveis. Facta é aconselhado a demitir-se. Após relutar, diante das notícias da marcha das três colunas de camisas negras, que chegavam alarmantes à capital, Facta, decidiu finalmente, demitir-se.
Ante à notícia da demissão de Facta, uma das exigências para que os fascistas não atacassem Roma, De Bono, Balbo e Bianchi decidiram suspender a ação por 24 horas, à espera de novas orientações. Mas o movimento já estava em curso, sendo impossível de retroceder ou controlar. Debaixo de chuva e frio, a marcha sobre Roma prosseguiu.
Na madruga de 28 de outubro, Luigi Facta, já demissionário e a aguardar a designação do seu substituto, recebeu um telefonema de Michele Bianchi, acusando-o de vir a ser o responsável por um possível derramamento de sangue. Às cinco horas da manhã, Facta convocou uma reunião de emergência do gabinete do governo. Simultaneamente, o jornal “O Popolo d’Italia”, foi posto em circulação, trazendo o manifesto redigido por Mussolini e assinado pelo quadrunvirato revolucionário. Publicado na íntegra, o manifesto conclamava:
Fascistas italianos. Soou a hora da batalha decisiva. (…)
(…) Fascistas de toda a Itália, apelai para o vosso espírito e para a vossa força. Temos de vencer. Venceremos.
Viva a Itália, viva o fascismo.

Enquanto a proclamação do manifesto fascista circulava pelas ruas, Luigi Facta e o seu gabinete decidiram decretar estado de sítio. Dirigiu-se a Vittorio Emanuel III para que assinasse o decreto, mas o rei afirma que se deve evitar o conflito, e recusa-se a assinar o documento. Sem saída, Facta comunicava aos políticos e às autoridades militares de que o estado de sítio não tinha mais valor.
No dia 29 de outubro, Mussolini publicava no jornal “O Popolo d’Italia”, aquele que viria a ser o seu último artigo como jornalista. Enfaticamente, o líder fascista concluía: “O fascismo quer o poder e há de obtê-lo”.
As palavras são cumpridas. Em Roma, De Vecchio é chamado ao palácio, recebendo a missão de convocar Mussolini a Roma para ser nomeado primeiro ministro da Itália.
Em Milão, Mussolini recebe o telegrama com a notícia da sua designação para primeiro ministro. Aceita-o imediatamente. Passa a direção do jornal “O Popolo d’Italia” para o irmão Arnaldo, deixando instruções para que se destrua completamente os jornais socialistas “Avanti” e “Giustizia”. Segue à noite, de trem, para Roma.
No dia 30 de outubro, o trem que trazia Mussolini chega, às 9h30, a Civitavecchia. Ali, usando a camisa negra, passa em revista as milícias fascistas que estavam preparadas para marchar sobre Roma. Uma hora depois, ele chega triunfante à capital italiana. Ainda a trajar a camisa negra, é recebido cordialmente pelo rei, no Palácio Quirinal. Minutos depois, Vittorio Emanuel e Benito Mussolini aparecem na sacada do Quirinal, sendo aclamados e aplaudidos pela multidão.
Na noite de 30 de outubro, às 19h00, Benito Mussolini, já despido da camisa negra, a trajar uma casaca, levou ao rei da Itália uma lista com os nomes dos ministros que iriam formar o seu gabinete. Aos 39 anos, era o mais jovem italiano a exercer o cargo nos últimos sessenta anos. Os fascistas chegavam ao poder. A ditadura era instaurada na Itália.
Nas ruas de Roma, as milícias dos camisas negras, que se haviam preparado para uma intensa luta armada, realizavam, na presença do rei, uma alegre e triunfante passeata, a conclamar a vitória. Após o ato público, Mussolini, já primeiro ministro da Itália, ordenou que se dispersassem as colunas, e que todos retornassem para casa. Na noite de 31 de outubro, os trens levavam de Roma os últimos camisas negras, agora no poder, que se iria estender por duas décadas. As mais conturbadas da história recente da Itália e do mundo.


GUERNICA – A INDIGNAÇÃO DE PABLO PICASSO

Outubro 31, 2009

A tragédia que se abateu sobre a aldeia basca de Guernica, em 1937, no auge da Guerra Civil Espanhola, indignou o mundo. Atingidos por bombas e rajadas de metralhadoras, os moradores do pequeno lugarejo viram dizimados quase que metade da população. A destruição da aldeia fazia parte de um treinamento de guerra executado pela Luftwaffe alemã, e servia para intimidar os inimigos do general Franco, cujas tropas estavam em guerra com a esquerda do país.
Pelas ruas de Guernica, em meio aos escombros, milhares de mortos jaziam insepultos, e centenas de feridos contemplavam o horror. A repercussão do ataque a Guernica correu o planeta. Foi tão negativa, que Franco em vez de usar o fato para intimidar os guerrilheiros rebeldes, culpou-os, tentando imputar-lhes a autoria do bombardeio. Ante tão imensa tragédia, ninguém quis assumir as responsabilidades.
Jornais e revistas da época registraram o banho de sangue. Mas nenhum registro foi tão contundente e definitivo quanto o de Pablo Picasso, em sua obra “Guernica”, um painel de 350 cm por 782 cm. Pintado a óleo, com cores em preto e branco e cinza, foi feita por ocasião da Exposição Internacional de Paris, em 1937. Na pintura, Pablo Picasso revela toda a indignação e repulsa pelo sucedido a Guernica e aos seus habitantes.
Retrato pungente, com figuras ao estilo dos frisos e das tumbas dos templos gregos, dimensionado pelo enquadramento triangular das alegorias. O resultado gera nos observadores, uma sensação de mal-estar, diante do horror cubista. É um grito do sangue derramado. Ao ser exposta, a obra suscitou o menosprezo das pessoas, que a tinham como repulsiva e pouco compreensível.
Com o tempo, “Guernica” tornou-se símbolo de protesto contra a violência e a barbárie das guerras. É uma manifestação da cultura contra a violência, difundida em todo o mundo. O painel foi levado para Nova York, onde lá permaneceu, proibido de retornar à Espanha, por ordem do próprio Picasso, até que o franquismo fosse extinto e a democracia restaurada. Com o fim da ditadura espanhola, em 1975, a obra retornaria ao país em 1981, sendo tida como o último exilado. Em 1992, foi definitivamente para o Museu Reina Sofia, em Madrid.
Pungente, sua beleza estética diluí-se diante do horror que retrata, “Guernica” é a própria repulsa da arte às atrocidades dos homens e dos seus regimes opressivos. É o retrato de uma civilização que se fez armada e poderosa, mas que ruiu diante das suas ideologias totalitaristas. “Guernica” é a arte contra a guerra.

O Bombardeio de Guernica

A Guerra Civil Espanhola tornou-se símbolo de uma luta ideológica da esquerda e da direita ibéricas, que suscitou o apoio de pessoas de todo o mundo. Legiões de estrangeiros engrossaram as fileiras dos guerrilheiros que combatiam contra a ditadura de Francisco Franco.
Em julho de 1936, o governo nazista de Adolf Hitler decidiu apoiar o caudilho espanhol. O acordo com os nacionalistas espanhóis concedia grande autonomia às forças nazistas. Quando a Luftwaffe alemã chegou à área do conflito, estava ansiosa para aplicar manobras militares envolvendo bombardeios de tática de terra arrasada, com levas de esquadrilhas que conduziriam bombas diferentes, de fragmentação, incendiárias; e assim, poder descobrir os efeitos.
No início de 1937, foi escolhido o local a ser bombardeado pelos nazistas. A operação tinha como finalidades, testar a capacidade bélica da Alemanha nazista em caso de uma guerra futura e, intimidar os inimigos de Francisco Franco. Seria Guernica, pequeno vilarejo situado entre Bilbao e San Sebastián, ao norte da Espanha, nos Países Bascos. O lugar possuía cerca de sete mil habitantes, refugiando muitos republicanos que para ali fugiram durante a guerra.
No dia 26 de abril de 1937, sob o comando do tenente coronel Wolfran von Richthofen, a unidade aérea alemã “Legião Condor” iniciou um bombardeio sobre Guernica. Era uma segunda-feira, dia de feira livre na aldeia. Ainda havia bastante movimento na praça, no fim da tarde, quando os sinos começaram a badalar. Às 16h45 foi despejada a primeira leva de Heinkels-11 sobre o lugarejo. Por quase três horas consecutivas, uma população horrorizada viu o inferno vindo do céu, com bombas, rajadas de metralhadoras contra os que fugiam para os arredores dos escombros formados, deixando um grande rastro de sangue e cerca de 1.654 mortos e 889 feridos. A aldeia levou um dia para apagar o incêndio.
A tragédia de Guernica entrou para a história como o primeiro cenário para ensaio de guerra, antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Os alemães viram-se satisfeitos com o resultado do treinamento militar. Franco usou os acontecimentos para culpar os exércitos de esquerda. O mundo mostrou-se estarrecido diante daquela atrocidade. A população do vilarejo perdeu cerca de 40% da sua população. A morte, a destruição, o solo banhado por sangue, foi o resultado concreto diante daquele dia infernal.

Guernica, de Pablo Picasso

Pablo Picasso, um dos maiores pintores do século XX, passara pela Primeira Guerra Mundial sem que se deixasse inquietar por ela. Quando a guerra civil foi deflagrada em seu país, deixou a neutralidade costumeira e solidarizou-se com os republicanos.
A tragédia de Guernica chegou ao pintor, em maio de 1937, quando os jornais publicaram fotografias do bombardeio à aldeia. Picasso sentiu-se profundamente tocado pelo derramamento de sangue do povo basco. Da tragédia, surgiu a inspiração para pintar a mais terrível e genial das suas obras.
Fechado em seu atelier em Paris, o artista criou 45 estudos preliminares, resultando em um painel de 3,50 m x 7,82 m, pintado a óleo, nas cores preta, cinza e branca; ao qual chamou de “Guernica”, feito para ser posto em frente ao pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris de 1937.
Exposta pela primeira em 4 de junho de 1937, menos de dois meses após o bombardeio, a obra era um tenaz registro daquele momento tétrico da história espanhola. O painel trazia uma carga emotiva que inquietava as pessoas, com imagens sombrias, rompendo com qualquer efusão lírica. Na exposição de Paris, o público não percebeu o sentido de retrato tão cáustico, virando as costas ao painel.
“Guernica” despeja as emoções, tornando-as avassaladoras, como se as imagens fossem explosões de colagens cubistas, em um artifício ilusionista. No alto, o painel é dominado pela presença da luz de um olho em forma de lâmpada. As figuras provocam imagens fragmentadas, elucidadas pela violência proposta, numa agonia latente. Rigorosamente, Picasso parece dividir a tela em quatro retângulos, com um triângulo cujo vértice em seu eixo vertical, divide-a em duas partes iguais.
No primeiro retângulo, a angústia e desespero de uma mãe a chorar a morte do filho, como uma trágica Pietá moderna, ladeada por um touro ameaçador com cabeça humana. O touro é uma presença marcante no universo de Pablo Picasso.
No segundo retângulo, o imenso olho luminoso, com uma lâmpada no centro, rasga a dramaticidade exposta, sobre a figura de um cavalo ferido e em disparada. A figura do cavalo centraliza o triângulo já mencionado.
No terceiro retângulo, mais luz vem da lâmpada que uma mulher traz na mão, como se fosse uma alegoria da Estátua da Liberdade. No quarto retângulo, o desespero latente de um homem diante do horror, a levantar os braços ao céu.
Touro e cavalo, animais símbolos da mitologia espanhola, simbolizam a brutalidade e as forças do mal (touro), numa cruel repressão ao povo (cavalo). No chão, um cadáver empunha a espada partida, símbolo da resistência do povo espanhol.
No início rejeitada pelo público, “Guernica” tornou-se com o tempo, a obra que simboliza a repulsa às guerras. Pablo Picasso, em solidariedade com os mortos na tragédia e com o povo espanhol, que lutou contra a ditadura de Franco, ao tornar a sua obra famosa, proibiu que ela fosse exposta em solo ibérico, até que a democracia voltasse ao país. A obra ficou exposta em Nova York, até que, em 1981, voltou à Espanha, já redemocratizada. Desde 1992 encontra-se na exposição permanente do Museu Reina Sofia, em Madrid.
Reza a lenda que, em 1940, quando a França estava sob a ocupação nazista, um oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, em uma exposição, em Paris, perguntou a Picasso se tinha sido ele quem fizera tão horrível obra, ele respondeu: “Não, foram vocês!

Pablo Picasso

Um dos mais geniais mestres da arte do século XX e de todos os tempos, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, nasceu em Málaga, na Espanha, em 25 de outubro de 1881.
O pai, um pintor medíocre, teria sido uma influência para que o talento de Picasso fosse despertado. Aos treze anos, já atingia a perícia do pai.
Após passar por Barcelona, chegou a Madrid, em 1897, onde se instalou em um atelier e inscreveu-se na conceituada Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Sua estadia em Madrid seria interrompida quando o artista adoeceu, em julho, com escarlatina. Para convalescer, retornou à Barcelona, onde vivia a família.
Em 1900, levado pelo sonho de conhecer Paris, ele partiu para a capital francesa. Seria ali que Picasso iria ascender para a fama, tornando-se um dos maiores artistas do século que despontava.
As obras de Picasso não se resumem somente à pintura, constam esculturas e cerâmicas. Ao lado de Georges Braque, é considerado o fundador do Cubismo. Pablo Picasso viveria grandes amores e intensamente. Morreu aos 91 anos, em Mougins, riviera francesa, em 8 de abril de 1973. Produziu suas obras até o último instante, não se deixando perder a inspiração pela velhice.

Algumas Obras de Pablo Picasso

1899 – Auto-Retrato
1901 – Absinto (Rapariga no Café)
1901 – A Morte de Casagemas
1901 – Evocação – O funeral de Casagemas
1901 – A Maternidade
1903 – Velho Guitarrista Cego
1903 – Miseráveis Diante do Mar
1903 – A Vida
1904 – Mulher Passando a Ferro
1904 – Retrato de Suzanne Bloch
1905 – Auto-Retrato com Capa
1905 – Rapaz com Cachimbo
1905/1906 – Fernanda com um Lenço Preço
1906 – Vasilhas
1907 – Mulher com Leque
1907 – Jovem Nu (Jovem Rapaz com Braços Levantados)
1907 – Lês Demoiselles d’Avingnon
1908 – Banho
1908 – Três Mulheres
1908 – Composição com Crânio
1909 – Garrafa, Jarra e Frutas
1914 – Vaso sobre a Mesa
1931 – Mulher Loira
1932 – La Lecture (Woman Reading)
1933 – Minotauro, Bebedor e Mulheres
1937 – Guernica
1941 – Dora Maar au Chat
1944 – O Tomateiro
1960 – Mulher Sentada num Cadeirão
1965 – Lagosta e Gato
1969 – Arlequim com Batom
1971 – Busto de Mulher


A QUEBRA DA BOLSA DE VALORES DE NOVA YORK EM 1929

Outubro 27, 2009

A Primeira Guerra Mundial deixou a Europa economicamente arruinada e endividada. No período que ela durou (1914-1918), caíram impérios poderosos, como o czarista da Rússia, sucumbiram economias coloniais poderosas e surgiu uma nova potência econômica mundial, os Estados Unidos da América.
No período da guerra, a indústria de armas norte-americana alcançou grande prosperidade, vendendo seus produtos bélicos para os países europeus. No pós-guerra, os campos europeus estavam devastados, as indústrias em ruínas, os norte-americanos passaram a exportar alimentos e produtos industriais para aquele continente. A economia dos Estados Unidos cresceu vigorosamente, atingido uma grande produção entre 1918 e 1928. Era o período de prosperidade que entraria para a história com o sugestivo nome de “American Way of Life”, literalmente, modo de vida americano. O consumismo da classe média norte-americana era incentivado pela facilidade e expansão do crédito, levando a população, mergulhada no fascínio da ilusão consumista, ao endividamento. Grande parte dessa classe média investiu as suas posses na economia volátil da bolsa de valores.
Com o a recuperação da economia européia, a economia americana foi seriamente afetada. Nos campos a agricultura produzia demasiadamente, nas cidades as indústrias não tinham para quem vender. A oferta passou a ser maior do que a demanda, forçando a queda dos preços e a diminuição da produção; o desemprego atingiu todos os setores, o período de prosperidade findara, a retração da economia levou à queda das ações da bolsa de valores, levando-a ao colapso.
Mergulhada numa valorização excessiva e especulativa quanto ao valor real das suas ações, em 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York assistiu ao preço das ações cair vertiginosamente, levando à miséria aos milhares de investidores. O dia passou a ser chamado de “Quinta-Feira Negra” da economia. Desesperados, os investidores tentaram vender suas ações, que àquela altura já não tinham valor algum. Excesso de ações à venda e a falta de compradores levou, em 29 de outubro, conhecido por “Terça-Feira Negra” da economia, ao colapso e quebra da bolsa. Era o crash da Bolsa de Nova York, que levaria à ruína grandes fortunas, afetando toda a economia mundial. Durante três anos o valor das ações na bolsa flutuou, conduzindo os Estados Unidos à depressão econômica, que só terminaria na década seguinte, quando a Europa voltou a mergulhar na guerra. O outubro negro de 1929, que conduziu ao crash, pôs fim aos sonhos e ao consumo da mítica geração da era do jazz.

A Expansão da Economia Norte-Americana no Período Primeira Guerra Mundial

No fim do século XIX os Estados Unidos teve um significativo crescimento econômico, beneficiando-se dos resquícios da Revolução Industrial. Do outro lado do Atlântico, os conflitos coloniais começavam a aparecer, ameaçando a hegemonia econômica da Inglaterra e do restante da Europa. Ventos de prosperidade sopravam para o ocidente, mostrando que um novo império econômico começava a florir no mundo.
A partir de 1913, com a subida do democrata Thomas Woodrow Wilson à presidência dos Estados Unidos, o país entrou em uma nova era econômica, alcançando grande expansão industrial. Paralelamente, em 1914, conflitos e disputas territoriais levaram a Europa àquela que seria até então, a mais sangrenta das guerras, a Primeira Guerra Mundial. Enquanto a prosperidade econômica despontava no norte do continente americano, o continente europeu amargava com as conseqüências de uma longa guerra, que devastava os campos, mutilava e matava a população, levando-a à miséria e à fome.
Mantendo-se neutro no conflito, os Estados Unidos passou a investir na indústria bélica, fornecendo armas aos países aliados. Somente em 1917, quando a guerra já chegava ao fim, os norte-americanos entraram no conflito ao lado da Inglaterra. Em 1918 a Alemanha assinava a derrota, pondo fim à guerra.
Apesar de ter participado da última etapa da guerra, os americanos não sofreram diretamente as suas conseqüências, já que as batalhas foram travadas longe do seu território. No pós-guerra, os Estados Unidos firmou-se como a nova potência mundial. Expandiu o comércio com a América Latina e Ásia, antes dominado pela Inglaterra. Abriu a concessão de créditos e empréstimos à França e à Inglaterra, permitindo expansão da exportação de produtos agrícolas e industriais àqueles países. De 1918 a 1928, o país atingiria o auge econômico da chamada era de ouro da geração do jazz.

O Prólogo da Crise

Com o fim da grande guerra, o apogeu da prosperidade econômica sofreu uma estabilização. A indústria bélica foi a mais afetada, pois a produção de armas diminuiu em tempos de paz. Os soldados que retornaram do conflito não conseguiam ser inseridos no mercado de trabalho. Aos poucos, a Europa começou a recuperar-se das conseqüências da guerra. França e Inglaterra, principais devedores dos norte-americanos, passaram a saldar as suas dívidas, a partir de 1922. As exportações diminuíram para o continente europeu.
De 1924, até a crise de 1929, a economia norte-americana viveu a euforia do período que ficou conhecido como “Big Business”. Para garantir o recebimento da dívida da França e da Inglaterra, que em contrato viria do pagamento da Alemanha, nação condenada internacionalmente a pagar as reparações da guerra, os Estados Unidos investiu nas empresas germânicas, garantindo o recebimento dos seus débitos na Europa.
No período do “Big Business”, também a paisagem dos centros urbanos foi alterada substancialmente, com velhos edifícios sendo demolidos e dando passagem a grandes arranha-céus, símbolos absolutos da opulência que se vivia; as ruas encheram-se de automóveis, a evidenciar o crescimento das fábricas automobilísticas; e , nas casas, as famílias de classe média usufruíam-se de aparelhos eletrodomésticos, outra característica do desenvolvimento tecnológico que o país alcançara. Sem perceber as armadilhas de uma economia volátil, o governo estimulava o desenvolvimento econômico em vários setores, inibia as importações e incentivava o consumo, além da concentração de capitais.
A prosperidade conseguida durante a Primeira Guerra Mundial, foi substancialmente perdendo espaço à medida que a Europa recuperava-se economicamente. Grande parte dos produtos industriais norte-americanos exportados foi deixando de ter mercado. Produzia-se mais do que se vendia, tanto na agricultura quanto na indústria. O desemprego nos campos originou um êxodo da população para os centros urbanos, saturando o mercado.
Nos grandes centros urbanos, a economia estava cada vez mais voltada para o mercado especulativo. Com o crescimento e mecanização das indústrias e o lucro exorbitante que geravam, as suas ações passaram a ser cotadas além do que valiam, atingindo grandes preços, fazendo com que o número de investidores na bolsa aumentasse significativamente. No meio da euforia, surgiram as sociedades anônimas e as empresas responsáveis somente em gerir e investir dinheiro. Sem controle, a especulação do mercado camuflou o real valor das ações.
Com a diminuição das exportações agrícolas, os proprietários rurais deixaram de poder saldar a suas dívidas, tendo que pagar milhões para armazenar os grãos não vendidos. Do campo, a crise expandiu-se para as cidades e, conseqüentemente, atingiu as indústrias, que diante de uma produção maior do que a consumida, foi obrigada a demitir trabalhadores. O desemprego retraiu o consumo, e atingiu as instituições bancárias. Estava armado o cenário para o grande colapso econômico.

A Quinta-Feira Negra

Pouco antes da crise que seria deflagrada em outubro de 1929, a situação do mercado econômico já se mostrava alarmante. Desde junho daquele ano, que a produção industrial fabril e do aço estavam em queda, apesar de alguns empresários negarem o declínio. No dia 3 de setembro, o jornal “The New York Times” publicava que a Bolsa de Nova York atingira o ápice histórico de 452 pontos. O marco atraiu ainda mais novos investidores, que seduzidos pela valorização das ações, arriscaram todo o capital que tinham naquele aparente negócio seguro, sem que se apercebessem do engodo.
Mas a realidade dos Estados Unidos, em 1929, estava aquém da euforia do mercado. Num desencadear avassalador, o desemprego, o aumento dos estoques do que se produzia, impossibilitaram que os industriais tivessem capital para saldar as dívidas e continuassem a manter os seus negócios. Acossados, muitos empresários foram obrigados a vender as suas ações no mercado, elevando o seu valor para que pudessem obter maiores lucros. Ao deslumbrar aquela forma de lucro, milhares de investidores fizeram o mesmo, aumentando e pondo à venda as suas ações. O efeito surtiu na direção contrária, com a elevação no valor das ações, elas não encontraram compradores, passando a flutuar no mercado especulativo, atingindo um valor nulo. Sem compradores, as ações despencaram vertiginosamente as suas cotações, levando à falência de bancos e industrias.
No dia 24 de outubro de 1929, uma quinta-feira, o pregão da Bolsa de Nova York passaria para a história como o dia mais negro da história da economia moderna. Desde o início daquela semana que as vendas de ações no mercado tiveram um aumento significativo. Na quinta-feira, ao perceberem que poderiam estar arruinados, os investidores puseram à venda, logo pela manhã, 6.091.870 títulos, gerando um dos maiores volumes de negócios da história da bolsa. O excesso de volume de vendas fez com que os preços caíssem rapidamente. Diante da gravidade do momento, o desespero tomou conta dos investidores, que puseram as suas ações à venda a qualquer preço. Às 11h30, o pânico era geral. Uma multidão de pessoas aglomerava-se nos arredores de Wall Street e Broad Street, formando um imenso cordão de desesperados. Amanhã ainda não terminara, e já onze conhecidos especuladores de Wall Street, então arruinados, já se tinham suicidado. Ao meio dia as portas da Bolsa de Nova York foram cerradas, evitando que a multidão a invadisse.
Diante da catástrofe iminente, os maiores banqueiros americanos fizeram uma reunião de emergência. Entre eles estavam Albert H. Wiggin, do Chase National Bank; Thomas W. Lamont, do Morgan Bank; e, Charles E. Mitchell, do National Bank. Juntos, decidiram injetar milhões de dólares na Bolsa de Valor, dando um pequeno alívio à catástrofe. No fim do dia, 12.894.650 títulos foram negociados, um volume de vendas que atingira todos os recordes de Wall Street. Estava consumada a “Quinta-Feira Negra” da história da economia e, um dos maiores colapsos econômicos do mundo.

A Quebra da Bolsa de Nova York

Após as turbulências do dia 24, os dias que se sucederam, sexta-feira e sábado, 25 e 26 de outubro respectivamente, uma aparente tranqüilidade parecia ter voltado aos negócios da Bolsa de Valores. Empresas de mercado chegaram a anunciar na sexta-feira, que o mercado estava sólido e mais atrativo do que antes.
Na segunda-feira, 28 de outubro, obteve-se um valor menor de vendas, mas com quedas acentuadas de pontos, obrigando que os banqueiros fizessem uma outra reunião emergencial. Ao fim de duas horas, ficou decidido que não haveria nenhuma ação de resgate e injeção de mais dólares no mercado. Já não havia como controlar a situação. Era a “Segunda-Feira Negra”.
No dia seguinte, 29 de outubro de 1929, o colapso da Bolsa de Valores de Nova York foi concretizado. Logo pela manhã, um grande volume de papéis foi posto à venda sem que encontrasse compradores. Ações outrora bem cotadas, chegaram a ser vendidas a 1 dólar. Rumores de que os grandes magnatas da economia norte-americana estavam a vender as suas ações, causaram ainda mais pânico aos investidores. Naquele dia, o volume de vendas atingiu 16.410.030 de títulos, quantidade ainda maior do que o da “Quinta-Feira Negra”.
O dia 29 de outubro de 1929, entrou para a história como a “Terça-Feira Negra”. Quando chegou ao fim, deixara milhões de pessoas na miséria em todo o mundo. Muitos dos arruinados eram ricos empresários, ou herdeiros de famílias abastadas. A desolação criava uma cena trágica, especuladores caminhavam sem rumo pelas ruas de Nova York, totalmente falidos. Ocorreram suicídios dos falidos por todo o mundo, como o de um corretor que se atirou ao rio Hudson. Após o crash da bolsa, os preços das ações valiam 80% a menos. Continuariam a flutuar por mais três anos, perdendo gradativamente o seu valor.
Após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, os Estados Unidos entrou num período de recessão econômica conhecido como “Grande Depressão”, levando a população à fome e à miséria. A depressão econômica só seria encerrada uma década depois. Os Estados Unidos eram os maiores credores do mundo, com a quebra das suas indústrias, passou a exercer pressão para receber os seus pagamentos, levando a Europa e a América Latina a sentir a crise econômica. No Brasil, ela afetou diretamente a já capenga exportação do café, na época a principal economia do país.
Especulação, economia volátil e predadora, ambição, vários foram os fatores que levaram à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. O mercado financeiro parece que não aprendeu com a catástrofe financeira. Outra ameaça aconteceria em 1987, quando um novo crash pairou sobre Wall Street.


ANISTIA – A VOLTA DOS EXILADOS

Outubro 23, 2009

Com o fim do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que deixou de vigorar em janeiro de 1979, estava aberto o caminho para que se aprovasse uma lei que trouxesse a anistia aos presos, exilados e processados pelos chamados crimes por motivação política.
A luta pela anistia no Brasil tornara-se intensa, ultrapassando os partidos de esquerda clandestina, atingindo, desde 1975, setores concretos e importantes da sociedade brasileira. Se em 1964 as mulheres, a igreja e os empresários uniram-se em passeatas para receber o golpe militar, o panorama político mudara diante da truculência da ditadura instaurada no país e, já não se acreditava no engodo que foi contado sobre uma possível revolução comunista. Mães, esposas, filhos e amigos de presos políticos, ao lado de estudantes, políticos, jornalistas e fortes adesões populares, uniram-se e formaram comitês de luta pela anistia geral, ampla e irrestrita a todos os brasileiros exilados naquele triste e obscuro período da ditadura militar.
Pressionado pelos movimentos pela anistia, o governo encaminhou, em julho de 1979, um projeto de lei ao Congresso Nacional, que previa o perdão aos crimes políticos. A proposta do governo, que excluía os condenados por terrorismo e favorecia aos militares e às autoridades responsáveis pelos atos de tortura, já tinha sido rejeitada antes, pela oposição do partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que exigia uma anistia ampla, geral e irrestrita.
Mesmo sob protestos e limitada diante do que ansiava a sociedade brasileira, por 206 votos contra 201, foi aprovada a Lei 6.683, sancionada no dia 28 de agosto de 1979, pelo último presidente da ditadura militar, João Figueiredo. A Lei da Anistia beneficiou 4.650 pessoas, fazendo com que retornassem ao país os políticos que, em 1964, foram tidos como os maiores inimigos do regime militar: os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes. Algum tempo depois, os aeroportos brasileiros foram tomados pelo regresso, um a um, dos chamados apátridas, que um dia, por lutar contra a ditadura militar, saíram pelas portas do fundo da história do Brasil. A volta era apoteótica, em clima de festa, com ampla cobertura da imprensa. Era a maior vitória contra o governo repressivo instalado desde 1964.
Três décadas após a promulgação da lei, em 2009, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, ex-marinho e militante de organizações de esquerda, foi o último exilado político a retornar ao Brasil, fechando para sempre o ciclo.
A Lei da Anistia desde que promulgada, teve alguns dos seus artigos revogados, e ainda é polêmica, uma vez que deixou isenta da punição os carniceiros dos porões da ditadura, que torturam e mataram centenas de pessoas. Mesmo diante das contestações, foi sem dúvida o maior passo para a volta das lideranças opositoras e históricas e para que se enterrasse de vez, a ditadura militar, finda em 1985.

As Mulheres Dão Início à Luta Pela Anistia

Após a imensa passeata pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu as tropas insurgentes comandadas pelo general golpista Olympio Mourão Filho, e a deposição do presidente João Goulart consolidada; começaram de imediato, a perseguição, a cassação, a tortura e os expurgos, que atingiram civis e militares contrários ao golpe.
Na primeira fase da ditadura, pré-AI-5, a tortura, embora mais discreta, só perdeu para as cassações. Após dezembro de 1968, promulgado o AI-5, retirou-se o hábeas corpus aos presos políticos, tendo como conseqüência à banalização e a institucionalização da tortura. Leis repressivas, como a Lei de Segurança Nacional, ou a da pena de morte para os chamados terroristas, foram implementadas. Os militantes de esquerda perderam os seus direitos civis, passando a viver na clandestinidade.
Numa resposta imediata às medidas repressivas do governo militar, a esquerda instituiu as guerrilhas urbanas e os seqüestros a diplomatas estrangeiros no Brasil. Vários presos políticos foram trocados pelos reféns. Na troca, eles eram postos em aviões e enviados para qualquer país que se dignasse a recebê-los. Uma vez fora do Brasil, esses presos políticos perdiam o direito à cidadania, tornando-se apátridas. Desde então, iniciava-se, timidamente, uma luta para que se anistiasse os presos e perseguidos do regime.
A luta pela anistia não significava somente a busca da redemocratização e a reconquista dos direitos políticos, como também da devolução da cidadania aos clandestinos e aos apátridas, além de pôr fim às torturas nos calabouços.
Oficialmente, a luta ela anistia partiu das mulheres brasileiras. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU), declarou aquele como o Ano Internacional da Mulher. Nas comemorações ao evento, Therezinha de Godoy Zerbini, respeitada advogada, mulher do general Euryale Zerbini, cassado em 1964 por dar o seu apoio ao governo de João Goulart; fundou em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), que se tornaria uma voz da sociedade civil na luta contra as medidas repressivas do regime, a favor do fim dos atos de exceção contra os presos políticos e os exilados.
Curiosamente, o movimento partia de uma tradicional família de militares, confirmando que nem todos daquele setor da sociedade brasileira eram favoráveis à ditadura instaurada em 1964. Therezinha de Godoy Zerbini foi sempre vigiada pela polícia repressiva do regime. Chegara a ser presa sob a acusação de ter intermediado o empréstimo do sítio em Ibiúna, onde se deu o famoso e fatídico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Ao lado de mais oito mulheres, a advogada redigiu um manifesto em prol da anistia, lendo-o na Cidade do México, durante uma conferência da ONU, em comemoração ao Ano Internacional da Mulher.

Eclodem os Movimentos Pela Anistia

Conclamando toda a nação a lutar pela anistia, o movimento feminino espalhou-se por vários setores da sociedade, trazendo para si as adesões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da igreja católica e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, entre outras. Em 1976, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, teve o aplauso de três mil pessoas quando, em reunião, aprovou uma moção pela anistia. Em 1978, foi fundado na cidade do Rio de Janeiro, o Comitê Brasileiro pela Anistia, com sede na ABI. O Brasil aderia, de norte a sul, àquele movimento.
A luta alcançou, também, setores liderados por políticos que faziam parte da sustentação do governo, como o senador Teotônio Vilela. Ao visitar os 84 presos políticos que faziam greve de fome por todo o Brasil, o senador entrou em contacto com a triste realidade da tortura no país, comprovando o terror que se abatia sobre aqueles prisioneiros. Emocionado, Teotônio Vilela ajoelhou-se diante das vítimas da tortura e pediu perdão por não ter visto antes tamanha barbárie. O senador tornar-se-ia um veemente defensor da redemocratização do Brasil. Na luta pela anistia, saiu em comícios pelo país, soltando uma pomba como símbolo da esperança. O seu gesto seria repetido nos comícios do movimento pelas Diretas Já, em 1984. Teotônio Vilela entraria para a história com a alcunha de “Menestrel das Alagoas”.
Ao ver aflorar tantos movimentos, o governo decidiu ele próprio enviar um projeto de anistia para o Congresso, evitando que se estendesse para os seus maiores inimigos, chamados de terroristas, e que salvaguardasse os militares e civis envolvidos diretamente com a tortura no Brasil, evitando que sofressem punições ou retaliações futuras.
Assim, o então ministro da justiça, Petrônio Portella, redigiu o projeto de lei, em julho de 1979, enviando-o para ser votado no Congresso em agosto. O texto final seria divulgado em uma cerimônia transmitida pela televisão.
Nos bastidores, a oposição ao regime militar condenava o projeto e às limitações que trazia. De 22 de julho a 22 de agosto de 1979, foi realizada uma greve de fome em todo o Brasil pelos presos políticos, contrários ao projeto da lei da anistia redigido por Petrônio Portella. Nos movimentos que eclodiam pelo país, as palavras de ordem eram: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”.

Promulgada a Lei

Concretamente, o projeto beneficiava aos presos que se enquadravam nas punições previstas pela Lei de Segurança Nacional. De abril de 1964 a julho de 1979, 2.429 pessoas tinham sido condenadas por aquela lei. Eles estavam divididos em dois grupos para efeito de anistia:
O primeiro grupo, composto por 1.729 pessoas, era o dos punidos por crimes políticos propriamente ditos, sendo eles os militantes clandestinos que não se haviam envolvido com o terrorismo. Assim, a lei beneficiava de imediato, o líder comunista histórico Luís Carlos Prestes; antigos líderes estudantis, como Vladimir Palmeira; o líder político e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola; o sociólogo Herbert de Souza, o irmão do Henfil, que seria imortalizado pela música “O Bêbedo e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc; e vários outros.
O segundo grupo, composto por 700 condenados, reunia os condenados por assalto a bancos e atos de terrorismo. Diante das críticas, Petrônio Portella declararia que futuramente, alguns deles, poderiam receber indultos.
Finalmente, no dia 22 de agosto de 1979, o projeto seguiu para votação no Congresso. Naquele dia, em Brasília, três mil pessoas foram às ruas em um ato público para exigir a anistia geral e irrestrita. No plenário do Congresso Nacional, não sobrou espaço vazio mediante a multidão que o encheu. Nas galerias, ouvia-se os populares, que vaiavam retumbantemente a cada discurso proferido pelos representantes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o repressivo partido do governo. Ao fim de uma votação acirrada, foi aprovada, por 206 votos contra 201, a anistia aos crimes praticados por motivações políticas no Brasil.
Em 28 de agosto de 1979, o presidente militar, general João Batista Figueiredo, sancionava a Lei nº 6.683, redigida pelo governo da ditadura, que seria conhecida como a Lei da Anistia. Era o chamado perdão que o governo repressivo, vencedor em 1964, dava aos seus inimigos vencidos e futuros vencedores da redemocratização, em 1985. Eram anistiados todos os cidadãos punidos desde 9 de abril de 1964, data da edição do Ato Institucional nº 1 (AI-1). Estudantes, intelectuais, professores, cientistas, ex-militares, principalmente de baixas patentes, muitos afastados das suas funções, receberam o benefício da nova lei.
Mas a Lei da anistia trazia as suas restrições. O reaproveitamento de servidores públicos e de militares anistiados, ficou sujeito à decisão de comissões especiais criadas pelos respectivos ministérios para estudar cada caso. Ficaram de fora as pessoas condenadas pelos classificados “crimes de sangue” ou atos terroristas, praticados por aqueles que recorreram a grupos de luta armada. Os que cometeram crimes de sangue contra a esquerda, os militares torturadores e assassinos, foram todos beneficiados.
A Lei da Anistia atingiu e beneficiou 4.650 pessoas. Libertou presos políticos que se encontravam nos calabouços brasileiros; beneficiou os destituídos dos seus empregos e funções; possibilitou a volta dos exilados. No dia 1 de novembro de 1979, começavam a chegar nos aeroportos, os primeiros exilados políticos. Miguel Arraes, Herbert de Souza, Leonel Brizola, Fernando Gabeira… Cada um que chegava, era recebido entre aplausos e sorrisos, sob o registro da imprensa nacional.
Em 1985, Theodomiro Romeiro dos Santos, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o único preso político que havia sido condenado à morte por ter assassinado um sargento da Aeronáutica, em 1970; foi o último exilado político a ser anistiado, perdão concedido pela redemocratização do país. Mas, curiosamente, o último exilado político a voltar para o Brasil, em 2009, trinta anos depois da promulgação da Lei da Anistia, foi o ex-marinheiro e militante das guerrilhas urbanas, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, aos 75 anos. Ele vivera até então, exilado na Suécia, com uma identidade falsa. Não retornou antes, porque não acreditava que a anistia concedida era verdadeira.
Ao trazer os brasileiros “apátridas” de volta, libertar os opositores ao regime das prisões, foi encerrado um período de dor e de vergonha da história do Brasil. Os anistiados torturados, agradeceram à Lei da Anistia, apesar de contestá-la em vários pontos; os anistiados torturadores, jamais fizeram um pedido de desculpa à nação, arrogantemente, continuam a conclamar que cumpriram com o dever patriótico, protegendo a nação. Que nação eles protegeram? A da minoria da elite que representaram?


A NOITE DAS FACAS LONGAS

Setembro 29, 2009

A subida de Hitler e do Partido Alemão dos Trabalhadores (NSDAP), o partido nazista, ao poder do governo germânico, em 1933, deu-se com a ajuda fundamental da Sturmabteilung ou SA, uma milícia paramilitar nazista com grande influência e poder dentro da Alemanha.
Liderada por um herói da Primeira Guerra Mundial, o capitão Ernst Röhm, e formada pelos setores menos favorecidos da nação alemã, como desempregados, homens pobres e sem os privilégios da elite secular, a SA exercia o seu poder através da violência e coação dos que se opunham a ela e aos conceitos nazistas. Seus membros eram conhecidos como “camisas pardas”, devido à cor dos uniformes que usavam. Na década de 1920, como milícia de Adolf Hitler, eram usados para intimidar os adversários políticos, em destaque os sociais democratas e os comunistas. Grandes batalhas foram travadas entre membros da SA e os comunistas nas ruas das cidades alemãs, levando o país ao caos e desestabilização que possibilitou a ascensão de Hitler ao poder.
Ernst Röhm era conhecido pela sua grande capacidade de organizador de massas. Era um homem cruel e de ambições políticas que incomodava à elite alemã. Quando o nazismo chegou ao poder, Röhm garantiu a autonomia da SA dentro do próprio partido. Continuou, através da violência nas ruas, a intimidar qualquer inimigo. No poder, desfilavam pelas ruas de limusines, a espancar bêbados; promoviam banquetes extravagantes, e principalmente, conclamavam orgias homossexuais entre as suas lideranças. A condição homossexual explícita de Ernst Röhm foi o que mais incomodou os poderosos e conservadores alemães. Röhm sonhava em transformar a SA no poderoso exército alemão. As suas pretensões atraíram para si a pressão dos políticos, exército e industriais alemães, que exigiram de Adolf Hitler a sua cabeça. As elites ameaçaram retirar o seu apoio aos nazistas. Acossado, Hitler não pensou duas vezes, teria que eliminar qualquer obstáculo à consolidação do nazismo na Alemanha, optando por eliminar antigos companheiros do próprio partido. Assim, engendrou-se um plano de expurgos que resultou no assassínio de personalidades apontadas em uma lista como entraves ao poder de Hitler. Ernst Röhm e vários membros da SA, foram os mais atingidos. Na noite de 30 de junho para 1 de julho, de 1934, dezenas de pessoas foram presas e executadas, numa operação sanguinária que entrou para a história como a “Noite das Facas Longas” ou “Noite dos Longos Punhais”. Após o banho de sangue, o caminho estava aberto para Adolf Hitler consolidar o seu poder absoluto sobre a Alemanha.

Ernst Röhm e a Sturmabteilung

A história da Sturmabteilung ou SA, está estreitamente vinculada à biografia de Ernst Röhm, um representante genuíno da geração perdida alemã da Primeira Guerra Mundial. Ferido três vezes durante a guerra, trazia no rosto profundas cicatrizes que lhe outorgavam o título de herói. Röhm aderiu ao partido nazista já em 1918, ano da sua fundação. Em 1919 passou a fazer parte do fechado grupo de amigos de Adolf Hitler.
Versões da história apontam Ernst Röhm como o responsável pela entrada de Hitler na política. Após um exaltado discurso do futuro führer em um bar de Munique, induziu-o e incentivou-o a participar da vida política alemã.
Em 29 de julho de1921, Hitler tornou-se o líder do partido nazista, iniciando um processo radical e revolucionário em busca do poder. Foi também em 1921, que a Sturmabteilung, a SA, uma força de assalto, foi fundada dentro do partido nazista. Foi desenvolvida a partir dos Freikorps, organização nacionalista surgida logo após a Primeira Guerra Mundial; seus membros eram pessoas financeiramente desfavorecidas e empobrecidas pela guerra. Os Freikorps condenavam o governo alemão, responsabilizando-o pela humilhação do país ao assinar o Tratado de Versalhes. Ernst Röhm era o comandante principal.
A SA, ao substituir os Freikorps, usava como meio de expansão da ideologia nazista a intimidação, o medo e ataques violentos a outros partidos. Além de ter como integrantes os desempregados e desfavorecidos sociais, recrutava para as suas fileiras ladrões e assassinos, formando uma tropa de assalto nazista violenta e em ebulição constante. Confrontos sangrentos foram travados entre os nazistas da SA e os comunistas.
Ernst Röhm mostrou-se sempre um talentoso organizador, atraindo para o partido nazista e à sua milícia paramilitar um grande número de adeptos. Dizia que a organização de um exército plebeu traria de volta a honra alemã, perdida com a guerra. Esteve sempre ao lado de Hitler, mesmo quando este foi preso em 1923, acusado de traição, após o fracassado golpe que ficou conhecido como Putsch da Cervejaria, movimento com a intenção de tomar o poder na Bavária pelos nazistas, que depois seguiriam em marcha por toda a Alemanha. O golpe era uma imitação clara à marcha sobre Roma, que levara Mussolini ao poder na Itália.
Homossexual assumido, Ernst Röhm era um homem que dava grande valor ao companheirismo e lealdade entre os homens da caserna, característica que herdara dos seus tempos de guerra. Era cruel e sanguinário, com uma veia criminosa travestida por um eloqüente nacionalismo revolucionário. Na luta para que o partido nazista chegasse ao poder, acreditava que só aconteceria através da violência revolucionária. Chegara a anunciar que mataria doze homens para cada membro da SA que fosse assassinado. Os confrontos constantes com os comunistas geraram grande número de mortos e feridos, trazendo a instabilidade para o governo alemão, favorecendo a ascensão de Hitler ao poder.

Surgimento da SS

Os membros da SA passaram a ser conhecidos como os “camisas pardas”, devido à cor dos seus uniformes. Tornaram-se temidos pela população por causa do uso da intimidação nas ruas. Hitler prometeu pôr fim à violência urbana se chegasse ao poder, como se as milícias do próprio partido nazista não fossem as principais propagadoras dessa violência. A promessa valeu-lhe a ascensão política em 1933.
Ernst Röhm transformara a SA, que de força paramilitar privada de Hitler, passou a ser uma grande milícia popular, formada na sua essência, por combatentes de ruas e baderneiros. Em pouco mais de um ano, as suas fileiras foram engrossadas de 70 para 170 mil membros.
Paralelamente, foi criada dentro da SA, em 1925, uma organização altamente disciplinada, a Schutztaffel (SS), encarregada da proteção pessoal de Adolf Hitler. Logo a SS foi designada como força de proteção do partido nazista e dos seus líderes. De 1925 a 1929, a SS era tida como um batalhão da SA, possuindo 280 membros. Em 1929, Heinrich Himmler foi nomeado o seu líder, expandido-a até 1932 para 52 mil membros.
Se nas fileiras da Sturmabteilung estavam homens rudes, movidos pela violência latente, na Schutztaffel eram encontrados homens com uma logística tática mais voltada para a inteligência militar, sem jamais perder a vertente sanguinária de uma força paramilitar de defesa. Futuramente, seria a SS uma das principais responsáveis pela queda da SA.

A SA Passa a Ser Um Obstáculo Para Hitler

Mesmo depois da chegada do partido nazista ao poder, a violência da SA não cessou. Os seus membros continuaram a promover distúrbios nas ruas, a espancar e torturar bêbados e minorias raciais, matando muitas vezes, inocentes. Eram conhecidos pelo grande aparato que promoviam, desfilando em luxuosas limusines pelas ruas. Faustosos banquetes regados a muita bebida, davam passagem para luxuriantes aventuras, muitas envolvendo homens do mesmo sexo. A prática aberta do homossexualismo nas fileiras da SA, serviu como ponto de repúdio da sociedade alemã mais conservadora e supostamente mais religiosa.
Uma vez no poder, a ambição de Röhm era ser comandante supremo das forças armadas alemãs. Queria que Hitler incorporasse o exército a SA, formando uma poderosa organização militar. Afinal, logo a seguir a chegada do partido nazista ao poder, a Sturmabteilung tinha um contingente de cerca de três milhões de homens, enquanto que o exército sucumbia à humilhante resolução do Tratado de Versalhes, que não lhe permitia ter mais de cem mil homens. Röhm contava que Hitler, velho companheiro de partido, firmasse a expansão e poder militar da SA.
Mesmo no poder, Hitler não tinha o controle absoluto. Precisava do apoio da classe média alemã, da tradicional e poderosa aristocracia, dos donos das indústrias e do exército. O populismo exacerbado de Röhm era contra àqueles setores. Para as milícias da SA, as classes privilegiadas eram as culpadas pela degradação da Alemanha e pela humilhação que se lhe fora imposta após a derrota na Primeira Guerra Mundial. A violência da SA, suas orgias, a postura sexual aberta dos seus líderes, contribuíam para que fosse combatida pela classe média germânica.
A violência da Sturmabteilung contra a população, suas manifestações arruaceiras, tudo ia contra o que Hitler prometera ao povo alemão para que chegasse ao poder. Poderosos aristocratas, industriais, o exército alemão, ameaçavam retirar seus apoios a Hitler se não demitisse Röhm e acabasse com o poder e violência da SA. Por outra vertente, o líder da milícia nazista pressionava o chanceler a dar mais poderes militares àquela que fora uma organização fundamental na ascensão do partido ao poder. Röhm condenava qualquer vínculo com os conservadores do governo alemão, considerando-os inimigos e traidores da Alemanha, irritando-se com a repentina burocratização do partido nazista.
Mas Hitler precisava mais do apoio de todos os setores da sociedade alemã do que da velha ideologia dos antigos companheiros de partido. Tinha a intenção de expandir o exército alemão, controlando-o por completo, incorporando os melhores homens da SA a ele, transformando-o em uma força que lhe serviria para a ambição bélica que tinha em mente. Röhm, velho companheiro e amigo, passou a ser uma preocupação, um grande obstáculo aos planos políticos de Hitler. Era preciso que fosse neutralizado.

A Operação Colibri

No início de 1934, o ministro da defesa da Alemanha, o general Werner von Blomberg, escreveu um memorando a Hitler para que incorporasse a SA ao Reichswehr (exército). Em resposta, Hitler promoveu um encontro entre ele, Blomberg e Röhm. Hitler pressionou Röhm, que relutante, viu-se obrigado a assinar um acordo, reconhecendo a superioridade do Reichswehr sobre a SA. Quando Hitler se retirou, Röhm declarou publicamente que não iria seguir as ordens do “ridículo”. Desde então, passou a fazer discursos públicos contra o que chamava de burocratização do nazismo, aumentando os seus desafetos dentro do partido e irritando Hitler.
A pressão contra Röhm veio de todos os setores conservadores da Alemanha. O vice-chanceler Franz von Papen, um católico conservador, em um discurso inflamado, criticou os nazistas, condenou a conduta sexual dos membros da SA, avisou sobre uma possível revolução organizada pela organização e, ameaçou pedir demissão se Hitler não agisse contra os seus líderes. Diante do impasse, o presidente Paul von Hindenburg, que nomeara Hitler chanceler, ameaçou pôr o país em lei marcial. Àquela altura, Röhm já havia caído em desgraça diante de Hitler, a sua contribuição história para a ascensão do nazismo já nada valia, a sua vida muito menos.
Mais do que demitir Röhm, Hitler optou por um expurgo que atingiria não só a SA e os seus líderes, mas a todos os seus inimigos. Na preparação do expurgo, Heinrich Himmler e o deputado Reinhard Heydrinch, membros da SS, forjaram um dossiê que sugeria o recebimento de doze milhões de marcos alemães por Röhm, vindos do governo francês, para que depusesse Hitler. Os dois espalharam que a SA estava a promover um violento golpe para tomar o poder. Estava criada a “Operação Colibri”, com a missão de viabilizar o expurgo.
Hermann Göring e Himmler, prepararam, em 26 de junho de 1934, uma lista com os nomes de todas as pessoas que poderiam, de uma forma ou de outra, ameaçar Adolf Hitler e o partido nazista. Quem constasse na lista, deveria ser morto no dia da operação.
Dando seguimento aos planos, no dia 27 de junho, Hitler nomeou um grupo tático especial para levar a operação a cabo, planejando todos os detalhes. Tudo teria que ser feito com discrição e em uma única noite; exigências do próprio Hitler.
No dia seguinte, 28 de junho, mostrando-se tranqüilo, o chanceler prestigiou o casamento de Gauleiter Josef Terboven, indo à cerimônia realizada em Essen. No casamento, um telefonema, provavelmente a fazer parte da farsa, alertava Hitler que tinha acontecido uma suposta tentativa de golpe vinda por parte de Röhm e da SA.
No dia 29 de junho, Hitler encontrava-se em um hotel em Bonn, quando Himmler o informou de que a SA já sabia da Operação Colibri, e que as suas tropas tinham ido para a rua, em Munique. Hitler decidiu ir para Munique e derrubar a SA. Em outra versão da história, Hitler ordenou ao assistente pessoal de Röhm que reunisse toda a tropa da SA e que se encontrasse com ele na noite seguinte, 30 de junho. Atraídos para uma armadilha, Röhm e os seus companheiros não se deram conta do ardil que se lhes ia abater.

Deflagrada a Noite das Facas Longas

Hitler chegou a Munique no sábado, 30 de junho. Tão logo desembarcou, ordenou que fossem presos os membros da SA que se encontravam na sede do partido nazista da cidade. Em seguida, rumou para o Ministério do Interior, indo de encontro aos dirigentes da SA que haviam promovido uma briga urbana na noite anterior. Em um ataque de histeria, Hitler retirou as medalhas e a parte de cima do uniforme de um chefe de polícia, acusando-o de não obedecer às suas ordens de manter a ordem na cidade.
Já era madrugada, quando Hitler dirigiu-se para Bad Wiesse, local próximo de Munique, onde Röhm e os seus homens estavam hospedados no Hotel Hanselbauer, junto ao lago Tegernsee.
Sem suspeitar da armadilha que se vislumbrava, Ernst Röhm e os seus homens beberam e festejaram naquela noite, fazendo do hotel o palco de uma festa faustosa já tradicional entre os membros da SA. Embriagados, aos poucos, os homens retiraram-se para os seus quartos, sozinhos ou acompanhados.
Hitler chegou ao hotel escoltado por uma grande coluna de tropas e carros. Registros divergem de como ele adentrou nas instalações do hotel. Há os que dizem que trazia uma pistola na mão, outros apontam para um rebenque. Seguiu para o quarto onde se encontrava Röhm, acompanhado por dois agentes da polícia, que traziam armas em punho. Encontrou o líder da SA deitado. Bradou furiosamente:
Röhm, você está preso!
Ainda sonolento, pesado pelos resquícios da bebida que ingerira, Röhm, sem aperceber o que se passava, levantou a cabeça do travesseiro, olhou Hitler surpreso e disse: “Heil mein Führer”. Hitler repetiu a ordem de prisão, saindo logo a seguir do quarto.
A mesma ordem correu por todos os quartos do hotel, atingido aos chefes da SA, que em segundos, viram-se transformados de companheiros nazistas a traidores da causa. Em um dos quartos, o deputado e oficial Edmund Heines, foi encontrado na cama com um outro jovem companheiro da SA. Ao saber do fato, Hitler ordenou que Heines fosse morto. Ele foi executado ali mesmo, no quarto que ocupava no hotel.
Vários líderes da SA que chegaram ao hotel, para um encontro com Röhm, foram imediatamente presos pela SS. Röhm e os companheiros foram enviados para a prisão de Stadelheim, em Munique.
Hitler telefonou de Munique para Göring, em Berlim, utilizando o código “colibri”, que deflagrou uma operação sangrenta, com várias prisões e execuções que se propagou pelas principais cidades da Alemanha. Era a caça aos líderes da SA e aos inimigos políticos de Hitler, cujos nomes constavam na lista. Era a concretização da barbárie nazista contra os próprios companheiros, que entraria para a história como a “Noite das Facas Longas” ou “Noite dos Longos Punhais”.

Execuções e Mortes

Longe do Hotel de Bad Wiesse, a caça às bruxas teve início em Berlim e por mais 20 cidades da Alemanha. Em Bremen, Karl Ernst, membro berlinense da SA, líder nazista que esteve envolvido no incêndio do edifício do Reichstag, em 1933, foi preso logo após o seu casamento, quando se preparava para embarcar em lua de mel para a ilha da Madeira. Ao ser preso, Karl Ernst pensou que se tratava de uma brincadeira de despedida de solteiro. Levado para Berlim, ele sorria e mostrava os braços algemados, sempre a crer que era uma brincadeira. Foi encostado no muro de Lichterfeld, sendo fuzilado. Não acreditando na tragédia que se lhe esperava, ainda exclamou um “Heil, Hitler”, segundos antes de ter o corpo trespassado pelas balas.
Na lista macabra dos nazistas, constava não só os velhos companheiros da SA. Entre os desafortunados estavam:
Gustav Ritter von Kahr, ex-comissário que se tinha oposto a Hitler durante o Putsch da Cervejaria, em 1923. Kahr teve o corpo cortado por golpes de picareta e atirado em um pântano aos arredores de Dachau; padre Bernhard Stemple, profundo conhecedor e crítico do livro “Mein Kampf”, escrito por Hitler, o padre foi executado por uma bala; Kurt von Schleicher, ex-chanceler da Alemanha, especialista em engendrar intrigas políticas, foi executado com a esposa em sua casa; Gregor Strasser, um dos membros primitivos do partido nazista, que se desligara dele em 1932; Erich Klausener, líder da ação católica alemã; Franz von Papen, vice-chanceler da Alemanha, preso por ter discursado contra Hitler e o nazismo, foi anistiado por Hitler, sendo proibido de comentar o ocorrido; Herbert von Bose, secretário de Papen, não teve a mesma sorte, sendo executado pelos nazistas; Edgard Jung, sócio de Papen e autor do seu discurso contra os nazistas, também foi executado.
Willi Schmidt, crítico de música de um jornal de Munique, foi preso em sua casa quando tocava violoncelo. Levado por quatro homens da SS, foi executado por engano, sendo confundindo com outro Willi Schmidt da lista. O seu corpo foi devolvido à família em caixão fechado, proibido de ser aberto, por ordem da Gestapo.
Ernst Röhm foi mantido na prisão de Stadelheim, em Munique, até do dia 2 de julho. Hitler decidiu que o ex-amigo e companheiro fosse sentenciado com a pena de morte. Dois oficiais da SS, entre eles Theodor Eicke, que se tornaria mais tarde, chefe do campo de concentração de Dachau, foram enviados por Hitler à cela de Röhm. Levaram ao líder da SA uma pistola e dez minutos para que ele se matasse. Röhm recusou-se a cometer suicídio, proferindo: “Se vou ser morto, deixe que o Sr. Hitler faça isso”. Após uma espera de dez minutos, vendo que nada acontecia na cela do prisioneiro, os membros da SS voltaram. Ao abrir a porta, depararam-se com Röhm de pé, completamente nu. Um dos oficiais, desconfiado daquela atitude provocativa, desferiu um tiro fulminante em Röhm. Consta que as últimas palavras do ex-líder nazista teriam sido: “Mein Führer!

A Alemanha Aplaude a Noite das Facas Longas

Após o expurgo, vários membros da SA abandonaram qualquer idéia de oposição a Hitler e às lideranças do partido nazista. Hitler justificou as mortes como um ato de defesa do Estado, ameaçado por uma tentativa sanguinária de golpe promovida pelos líderes da SA. Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, plantou a idéia da conspiração em todos os órgãos de notícia alemães. Göring ordenou que todos os documentos dos dois últimos dias que precederam à “Noite das Facas Longas”, fossem queimados.
Ao discursar à Nação, em 14 de julho, Hitler mostrou-se como um salvador da ameaça à soberania da Alemanha e aos costumes do seu povo. Foi aplaudido pelo exército alemão e por grande parte da população. Hitler proibiu na SA a prática de homossexualismo, conduta comum naquela organização, até então sabida e tolerada por ele. Proibiu os banquetes, a embriaguez e a irreverência dentro da milícia. Nomeou Victor Lutze para assumir o lugar de Ernst Röhm. Com a morte de Röhm e sob a direção de Lutze, a milícia foi perdendo gradualmente a sua importância e os seus membros.
A “Noite das Facas Longas” serviu para que Hitler e o regime nazista, no início da sua implantação, fossem consolidados e que se acabasse a autonomia de várias entidades em relação ao poder centralizado do führer. A operação elucidou aos alemães que qualquer oposição ao regime seria punida com a morte. Devido à queima total dos arquivos, jamais ficou claro o número de mortos na chacina da “Noite das Facas Longas”, há quem aponte 85 mortos, há os que defendem entre 200 e 250 vítimas. Mais tarde, teorias foram defendas de que a suposta homossexualidade de Hitler fosse a verdadeira causa do massacre aos membros da SA. Desde então, o homossexualismo foi perseguido na Alemanha nazista, levando à prisão e aos campos de concentração milhares de pessoas. Seja qual for a causa, a “Noite das Facas Longas” representou a execução de homens sanguinários, por seus velhos companheiros de luta, ainda mais sanguinários e atrozes.


FRANÇA DE VICHY – O GOVERNO DA DESONRA DE UMA NAÇÃO

Setembro 17, 2009

Em 1939 os exércitos de Hitler invadiram a Polônia, tendo como conseqüência a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Inglaterra e França foram as primeiras nações a declarar guerra à Alemanha. Menos de um ano depois, o exercito francês foi capitulado, obrigando à redenção total da França ante ao regime nazista.
Humilhada, a França, através do marechal Philippe Pétain, assinou o acordo de rendição à Alemanha, sendo dividida em duas zonas principais: ocupada e não ocupada. A chamada França ocupada, que consistia na parte norte e ocidental, toda a costa do Atlântico Norte e a capital Paris, passou a ser controlada diretamente pelo regime nazista; o restante do território seria administrado por um suposto regime livre, liderado por Pétain, com capital na cidade de Vichy. Surgia o Estado Francês, vulgarmente chamado de França de Vichy, ou República de Vichy.
O período em que a França livre foi governada da cidade de Vichy durou de 1940 a 1944, sendo um dos mais obscuros da história do país. Pétain construiu um regime colaboracionista com os nazistas, movido pela direita conservadora e moralista. Durante quatro anos, as Milícias de Vichy prenderam cidadãos que se opunham ao regime, fuzilou suas lideranças, entregou os judeus franceses aos alemães, além de adotar a política nazista da segregação racial, enviando ciganos, prostitutas, indigentes, homossexuais e outras minorias para os campos de concentração. Também a eugenia fez parte desse regime de exceção do Estado Francês.
Na contramão da França de Vichy surgiu a Resistência Francesa, movimento liderado por oponentes idealista, que com operações logísticas de inteligência de guerra, sabotavam, combatiam e lutavam por um país livre da ocupação nazista e do regime infame governado por Pétain.
O regime da França de Vichy só se extinguiu com a chegada das forças Aliadas ao país, a libertação da opressão nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial. Passou para a história como o momento mais vergonhoso do povo francês. Ainda hoje historiadores dividem-se sobre o período, alguns acham um mal necessário, com a população a pagar os custos da invasão às tropas alemãs, evitando que os franceses deixassem o país. Outros acham que melhor teria sido não aceitar tão humilhante regime imposto pelos nazistas, e sim deixar o continente, formando um exército de resistência no Norte da África, nas então colônias francesas daquele continente. Por trás da França de Vichy estavam os franceses que sustentavam a idéia de uma França de raça pura e de ideais nacionalistas próximos às ditaduras de Franco, da Espanha, e do próprio Hitler, da Alemanha nazista. Colaboracionismo, racismo, perseguições e fuzilamentos marcaram com uma grande nódoa a história da França, fazendo da República de Vichy um momento de humilhação e vergonha do povo francês.

A França é Capitulada pelos Alemães

O governo nazista de Adolf Hitler propunha a elevação e expansão da Alemanha, transformando-a na maior potência da Europa e do mundo. A ideologia nacionalista do governo do Terceiro Reich procurava devolver ao povo alemão a alto-estima perdida após a derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1938, com o consentimento do povo austríaco, Hitler anexou a Áustria à Alemanha. No mesmo ano, reivindicou a integração dos Sudetos, região montanhosa da antiga Tchecoslováquia, habitada por minorias germânicas. Diante da ameaça expansionista nazista, foi realizada uma conferência internacional em Munique, onde a França e a Inglaterra cederam às intenções dos alemães, permitindo a anexação dos Sudetos.
Mas os objetivos expansionistas da Alemanha não pararam. Em 1 de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, derrotando as tropas polacas em um mês. A parte oriental da Polônia foi ocupada pela União Soviética, no cumprimento do acordo Ribbentrop-Molotov, assinado entre as duas nações. Desta vez, França e Grã-Bretanha opuseram-se a esta invasão, declarando guerra à Alemanha. Iniciava-se o maior conflito da humanidade, a Segunda Guerra Mundial.
A guerra entre a Alemanha e França foi considerada como uma falsa demonstração de poder, visto que o exército francês estava aquém das forças do Reich. Numa guerra relâmpago, os franceses seriam capitulados em poucos meses. Em 10 de maio de 1940 começou a ofensiva alemã contra os exércitos franceses, dando início à Batalha de França. Em poucos dias, a Holanda e a Bélgica sucumbiriam às forças nazistas. Em 20 de maio, o primeiro ministro francês, Paul Reynaud, demitiu o general Gamelin, nomeando o general Weygand para que traçasse a estratégia e medidas contra o cerco alemão. A partir de 23 de maio, as cidades portuárias da região de Calais foram sucumbindo uma a uma, ao exército de Hitler. A ofensiva prosseguiu rumo a Paris. Em 5 de junho, o exército francês comandado por Weygand foi derrotado. Em 10 de junho, a Itália, aliada da Alemanha, declarou guerra à França. Em 14 de junho, os alemães tomaram Paris. Em fuga, o governo francês transferiu-se para Bordéus, à espera da ajuda dos aliados britânicos.
Após a queda de Paris, o marechal Philippe Pétain anunciou publicamente, através do rádio, em 17 de junho, que a França proporia um armistício, com a intenção de render-se aos alemães. O primeiro-ministro Reynaud, recusou-se a assinar a rendição, demitindo-se do cargo. Em 22 de junho de 1940, o marechal Pétain, que assumiu o lugar de Reynaud, assinou o armistício com a Alemanha, após a rendição do Segundo Grupo do Exército Francês, entrando em vigor em 25 de junho. Ironicamente, a rendição oficial, foi dada em Compiègne, no mesmo trem que a Alemanha, em 1918, ao fim da Primeira Guerra Mundial, fora obrigada a render-se. Imagens do marechal Pétain a apertar a mão de Adolf Hitler tornam-se símbolos da propoganda nazista, sendo divulgadas pelo mundo inteiro. Estava concretizada a maior vitória dos exércitos do Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial.

Criada a França de Vichy

Com a ocupação da França pelos nazistas, não só a situação política-administrativa do país foi alterada, como também a sua geografia. No mapa da Europa, a França foi dividida em três partes: a França de Vichy, formada pelo centro-sul do país, com o governo entregue ao marechal Pétain, com centro administrativo a partir da cidade de Vichy, na França central, sendo ali exercido um governo colaboracionista com os nazistas, com forte orientação fascista. A França Ocupada, formada pelo norte e pela costa atlântica francesa, incluindo a capital, Paris; sendo uma zona comandada diretamente pelas autoridades militares germânicas. Finalmente, a terceira parte, os territórios da Alsácia-Lorena, foi anexada à Alemanha, tornando-se parte do território daquele país.
A divisão da França pôs fim à Terceira República Francesa (1870-1940). Na França de Vichy, Paris continuou a ser a capital oficial, embora não o fosse administrativamente. Philippe Pétain era, em 1940, um velho herói da Primeira Guerra Mundial. Durante o tempo que governou de Vichy, prometeu sempre devolver a administração a Paris, assim que o fosse possível fazer.
O governo de Vichy apresentava-se como um regime de neutralidade à guerra, mas na prática colaborava ativamente com o governo de Hitler. O termo “República Francesa” foi substituído por “Estado Francês”. Para garantir o regime, em 10 de julho de 1940, Pétain conclamou a França de Vichy, através de uma Assembléia Nacional, deixando de ser o último primeiro-ministro da Terceira República, transformando-se no chefe do Estado Francês, obtendo amplos poderes no novo cargo.
O regime de Vichy na verdade governava à sombra das diretrizes de Berlim. Não administrava apenas a considerada zona livre do sul da França, a sua jurisdição estendia-se ao longo de toda a França metropolitana, com exceção da Alsácia-Lorena, território que se tornou parte da Alemanha.
Quando as forças Aliadas desembarcaram no Norte da África, os alemães desencadearam a Operação Processo Anton, em 11 de novembro de 1942, ocupando o sul da França, zona considerada neutra e livre. O regime de Vichy continuou a exercer jurisdição sobre quase toda a França, apesar de ter os poderes diminuídos. A partir de então, a colaboração com os nazistas tornou-se mais intensificada, sendo adotados claramente as suas políticas raciais. O marechal Pétain tornou-se chefe de um Estado com um programa político reacionário, ao qual chamou de “Revolução Nacional”, que se proclamava como regenerador da nação.

A Política Racial do Regime de Vichy

O regime de Vichy tornou-se autoritário, que não só aceitou a ocupação alemã, como assimilou várias facetas da sua ideologia. Sustentava-se no poder pelo regime de Hitler, pelo medo e opressão à população, garantidos pela terrível polícia do Estado, a Milícia (Milice).
Temida pelos franceses, a Milícia garantia a face repressiva e racial do regime. Capturava os indesejáveis pelos alemães, tanto na parte norte, como no sul do país, prendendo-os, fuzilando-os ou simplesmente entregando-os aos alemães, para que fossem enviados para campos de concentração nazistas. Membros da Resistência e judeus eram os seus alvos favoritos.
Sob o comando do marechal Pétain, o regime de Vichy tomou medidas drásticas e de caráter repressivo contra diversas etnias e setores da sociedade francesa. Imitando a política vergonhosa de perseguição racial, começou uma caça aos imigrantes, chamados de métèques, aos judeus, maçons, ciganos, homossexuais, comunistas e outras minorias.
Já em julho de 1940, tão logo o regime foi implantado, foi criada uma comissão para rever a lei da nacionalidade de 1927, que concedera a cidadania francesa a vários estrangeiros, em especial aos judeus vindos do leste europeu na década de 1930, fugindo da perseguição do regime nazista. Iniciou-se o processo de desnaturalização que, de 1940 a 1944, tempo que durou a França de Vichy, atingiu mais de quinze mil pessoas, sendo os judeus os mais atingidos.
Em outubro de 1940, foi editado um decreto que autorizava a internação dos judeus em campos de concentração franceses, abertos durante a Terceira República, e que serviriam de trânsito para a execução do Holocausto. Após passar pelos campos franceses, todos os deportados eram enviados para os campos nazistas do leste europeu. Além dos judeus, os ciganos foram os principais remetidos para os campos de extermínios. Camp Gurs era o principal local de internamento de presos, construído antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1940 recebeu o primeiro contingente de prisioneiros daquela guerra, que incluía anarquistas, comunistas, sindicalistas e antimilitaristas. Com a implantação do regime de Vichy, vários outros campos de concentração foram abertos em solo francês, sendo o primeiro deles o de Aincourt, em Seine-et-Oise. O Camp des Milles, próximo a Aix-en-Provence, foi o maior campo de concentração do sudeste francês, sendo de lá deportados cerca de 2.500 judeus. Na Alsácia, os alemães abriram o campo de Natzweiller, que incluía uma câmera de gás, utilizada para executar aproximadamente 86 prisioneiros, sendo a maioria judeus.
Com a perda da nacionalidade, os judeus passaram a ser classificados como “Grupos de Trabalhadores Estrangeiros”. Passaram a ter que usar um distintivo amarelo, sendo excluídos da administração civil. O regime de Vichy permitiu o uso da eugenia como programa destinado para preservar o francês de raça pura. Felizmente, o programa não foi tão longe quanto o seu similar desenvolvido pelos nazistas.

A Resistência Francesa

Após a assinatura do armistício em Compiègne, que aceitava a invasão da França pelos nazistas e a sua divisão administrativa; vários setores da sociedade francesa opuseram-se à submissão do seu país. Iniciava-se uma resistência ao regime colaboracionista de Vichy e à ocupação germânica. Grupos vindos de todas as camadas sociais francesas, desde os comunistas, judeus, anarquistas, sacerdotes, católicos conservadores, liberais, jornalistas; uniram-se para dar corpo ao que ficou conhecido com Resistência Francesa.
Após a ocupação alemã, grande parte da população francesa manteve-se neutra, procurando continuar a vida sem manifestação contrária ou favorável àquela situação. O regime de Vichy mostrou-se autoritário, espelhado nos governos fascistas, iniciando uma repressão violenta aos que se opunham a ele e aos alemães. A opressão passou a gerar um número pequeno de patriotas descontentes. O envolvimento sentimental das mulheres francesas com os ocupantes alemães causou a repulsa dos homens, ofendendo-lhes a honra. A desvalorização da moeda francesa diante da alemã permitiu que os nazistas usufruíssem os privilégios econômicos, enquanto que os franceses mergulhavam em grande miséria, causada por uma galopante inflação e escassez de alimentos. Crianças e idosos sofriam com a desnutrição, combalindo diante da fome. Milhares de trabalhadores franceses foram transferidos para trabalhar na indústria alemã, em plena ascensão, enquanto que as fábricas francesas entravam em colapso, trazendo um grande desemprego. Todos estes fatores, aliados ao patriotismo e à falta de liberdade civil, com toques de recolher à noite e a repressão política durante o dia, levaram à revolta, passiva ou ativa, da população francesa.
O Estado Francês, dirigido pelo marechal Pétain, extinguiu os partidos, os sindicatos, a liberdade da imprensa, com perseguições e prisões de líderes políticos. O descontentamento não era somente com os invasores germânicos,
mas com o governo reacionário de Pétain e dos seus aliados, que se mostrava opressivo e sem honra diante da colaboração com os nazistas, a quem se havia declarado guerra em 3 de setembro de 1939. A situação forçou a união de vários grupos de movimentos de resistência. Seus membros passaram a ser chamados de partisons (partidários), desenvolvendo um esquema de inteligência logística contra os inimigos, alemães ou franceses colaboracionistas.
Os núcleos de resistência passaram a existir desde a capitulação da França pelos alemães, em junho de 1940, e da instauração do regime de Vichy, visto por líderes políticos como vergonhoso. Estudantes universitários que se proclamavam revolucionários, criaram o jornal “Resistência”. Ainda naquele ano fatídico de 1940, a Resistência teve as suas lideranças iniciais levadas prisioneiras ao campo de concentração de Camp Gurs, entre eles, os comunistas, estudantes, sindicalistas e líderes de esquerda em geral.
Com o passar do tempo, um maior número de pessoas uniram-se aos grupos de resistência. No norte, ocupado e governado diretamente por autoridades militares do Terceiro Reich, surgiram, entre 1941 e 1942, a Organization Civile et Militaire e o Liberation-Nord. Desenvolviam táticas de guerrilhas, logísticas de inteligência e sabotagem aos governantes e às polícias de Estado, e aos alemães invasores. No sul, até 1942, a Resistência concentrava as suas ações na propaganda, visto que era zona não ocupada pelos alemães. Quando os territórios do sul foram ocupados, mudaram de tática. No sul a intensidade da Resistência era menor, uma vez que a sua população conservadora apoiava, na maioria, o governo do marechal Pétain. Apenas os adeptos da esquerda aderiam à Resistência.
Até 1941, a Resistência centrava as ações em atividades clandestinas e lutas de guerrilha. A partir daquele ano, em outubro, passaram a receber apoio das forças Aliadas, quando o governo britânico decidiu ajudar, criando em Londres o Bureau Central de Renseignements et d’Action (BCRA), comandado pelo coronel Dewaurin.
A Resistência passou a usar a Cruz de Lorena como símbolo da França livre. Pequenos grupos de homens e mulheres armados desenvolviam as ações contra os inimigos através das zonas rurais, passando a ser chamados de maquis.
Diante do crescimento logístico dos grupos de resistência, o governo do marechal Pétain passou a combatê-los com uma intensa repressão. Inúmeros comunistas passaram a ser cassados pela Milícia. Em agosto de 1941, em represália à Resistência, foram estabelecidos os métodos de punição coletiva, que tomava reféns entre a população, que passavam a ser fuzilados a cada investida dos rebeldes. No decurso do regime de Vichy e da ocupação alemã, cerca de trinta mil franceses foram fuzilados como reféns em represália aos atos da resistência. Algumas aldeias, como Oradour-sur-Glane, foram destruídas pelos alemães, tendo a população massacrada, como uma resposta às atividades da Resistência ao redor. Em Lyon, o movimento de resistência Franc-Tireur, nascido em torno de alguns jornalistas, teve o seu maior líder, Marc Bloch, assassinado pelos nazistas.
A Milícia, formada por um grupo de paramilitares, foi criada no início de 1943, para combater a Resistência, e dar apoio às tropas alemãs, que desde 1942, estavam espalhadas por todo o território francês. A Milícia tornou-se uma espécie de Gestapo francesa, colaborando estreitamente com os nazistas. Tornou-se temida pela população, por usar métodos brutais de tortura e executar sumariamente a todos que suspeitassem pertencer à Resistência. Os temidos miliciens só encerrariam as suas atividades após a libertação da França pelos Aliados, em 1944. Na ocasião, grande parte da polícia terrorista do regime de Vichy foi condenada por colaboracionismo e executada. Muitos fugiram para a Alemanha, sendo incorporados na divisão do Charlemagne da Waffen-SS.
A atuação da Resistência Francesa foi de grande importância aos Aliados durante a invasão da Normandia, em 6 de junho de 1944. Foram eles que conduziram as forças Aliadas através da França, passando informações militares sobre os inimigos, além de proporcionar sabotagens nas telecomunicações, transportes e energia que abasteciam os alemães invasores. Ao lado dos Aliados, formaram unidades chamadas de Forças Francesas do Interior (FFI). As FFI reuniam em junho de 1944, cerca de cem mil membros, crescendo rapidamente, atingido o número de quatrocentos mil combatentes até outubro daquele ano.
A Resistência Francesa foi fundamental para que a França não morresse moral e politicamente durante a ocupação nazista e a duração do regime de Vichy. Gerou vários heróis, como o mítico Jean Moulin, morto pela Gestapo em 1943. Com o fim da França de Vichy, a Resistência Francesa floriu como o único motivo de orgulho e honra do povo francês durante o mais obscuro dos períodos da sua história, em que a colaboração com os nazistas trouxe desconforto e humilhação diante do mundo.

Jean Moulin, o Herói da Resistência

Se o general Charles De Gaulle é o herói vencedor da opressão nazista sobre a França, o seu libertador invencível; Jean Moulin é o herói mártir, símbolo daqueles que resistindo dentro de uma França colaboracionista, pagaram com a vida o direito de lutar pela liberdade.
Jean Moulin é a própria imagem do galã frágil e sensível, mas decidido a cumprir o seu destino trágico, mas heróico, em nome do seu país, do fim da opressão e pela liberdade de ir de vir. Tornou-se o maior símbolo da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Nasceu em Béziers, sudeste da França, próximo do mar Mediterrâneo, no fim do século XIX, em 20 de junho de 1899.
Na juventude, alistou-se no exército francês, em 1918, para lutar pelo seu país na Primeira Guerra Mundial. Com o fim da guerra, voltou aos estudos, licenciando-se em Direito, em 1924.
Muito cedo Jean Moulin deixou-se enveredar pela carreira administrativa. Em 1922 iniciava uma brilhante carreira política, exercendo o cargo de chefe de gabinete de deputado em Sabóia. De 1925 a 1930, tornou-se subprefeito de Albertville, sendo o mais jovem francês a exercer o cargo.
A vida de Jean Moulin sempre foi marcada pela ideologia política. Sua vida amorosa é menor diante da sua luta ideológica. Casou-se uma vez, em setembro de 1926, com Marguerite Cerruti, de quem se iria divorciar dois anos mais tarde, em 1928.
Durante a Guerra Civil Espanhola, Jean Moulin ajudou as forças de esquerda que lutavam contra o general Francisco Franco. As versões da participação de Jean Moulin neste período divergem, trazendo dados obscuros. Alguns historiadores acreditam que ele forneceu armas soviéticas para os espanhóis, mas a versão mais aceita é de que, de dentro do Ministério da Aviação, ofereceu aviões franceses aos que lutavam contra o fascismo na Espanha.
Além da vertente política, Jean Moulin era um exímio ilustrador e caricaturista. No início da década de 1930 chamou a atenção pelas caricaturas políticas que publicou no jornal “Le Rire”, usando o pseudônimo de Romanin. Ilustrou o livro do poeta Tristan Corbière.
Em janeiro de 1937, nomeado para o departamento de Aveyron, tornou-se o mais jovem prefeito da França. Em 1939 foi nomeado prefeito do departamento de Eure-et-Loire. Quando exercia o cargo, foi apanhado pela invasão dos alemães ao seu país. Logo no início, em 1940, foi preso pelos nazistas por recusar a colaborar com os invasores, não assinando falsos documentos por eles propostos. A sensibilidade de Jean Moulin foi rompida pela perda da liberdade. Desesperado, ele tentou o suicídio na prisão, cortando a garganta com um pedaço de vidro. A tentativa deixou-lhe uma cicatriz indelével, que sempre escondia com um cachecol. A imagem sensível, de galã romântico, com o pescoço coberto por um cachecol, tornou-se a mais conhecida através das décadas, chegando intacta aos tempos atuais.
Após a implantação do regime de Vichy, o governo colaboracionista ordenou que todos os prefeitos de esquerda, eleitos nas cidades e aldeias francesas fossem demitidos. Recusando a cumprir a ordem, Jean Moulin foi removido do próprio escritório. Foi então que entrou para a Resistência Francesa.
Em setembro de 1941, usando o nome de Jean Joseph Mercier, partiu para a Inglaterra, encontrando-se com o general Charles De Gaulle. Em Londres, De Gaulle encarregou-o de unificar os movimentos de resistência contra a invasão nazista na França, sendo nomeado delegado da zona não ocupada francesa, tendo o apoio do comitê de Londres. No início de 1942, Jean Moulin reuniu-se com membros da Resistência, dando início à missão delegada por De Gaulle.
De volta a Londres, em fevereiro de 1943, foi encarregado de uma nova missão, formar o Conselho Nacional da Resistência (CNR). A primeira reunião do CNR aconteceria em Paris, em 27 de maio de 1943, tendo Jean Moulin como presidente.
Em 21 de junho de 1943, no primeiro dia do verão, e um dia após ter completado 44 anos de idade, Jean Moulin e vários líderes da Resistência foram presos em Caluire-et-Cuire, um subúrbio de Lyon. Uma versão sobre a prisão de Jean Moulin aponta para uma possível traição de René Hardy, que foi capturado e libertado pela Gestapo. Outros historiadores acreditam que René Hardy, ao ser seguido pelos alemães, foi simplesmente imprudente.
Em Lyon, Jean Moulin foi interrogado pelo chefe da Gestapo, Klaus Barbie, sendo levado mais tarde para Paris. Mesmo sob tortura, o líder da Resistência não revelou nenhum segredo aos alemães. Durante a transferência para a Alemanha, Jean Moulin morreu perto de Metz, no dia 8 de julho de 1943. Provavelmente devido aos ferimentos sofridos pela tortura. Mais tarde, Klaus Barbie alegaria que o herói da Resistência Francesa teria morrido pelas próprias mãos, em uma tentativa de suicídio. Alguns biógrafos do mártir apóiam esta versão, acrescentando que Barbie teria ajudado pessoalmente à tentativa.
Jean Moulin tornou-se símbolo de retidão cívica e de patriotismo numa época de muitos anti-heróis e de desonra de uma nação. Tornou-se uma lenda do século XX na França, sendo homenageado e referendado por todas as gerações que viram ou procederam ao seu martírio. Inicialmente foi enterrado no Cemitério Père Lachaise. Em 19 de dezembro de 1964, suas cinzas foram transferidas para um memorial no Panteão de Paris.

O Fim da França de Vichy

Com a chegada das forças Aliadas em junho de 1944, a França seria libertada da ocupação nazista alguns meses depois. A legitimidade da França de Vichy e do seu chefe de Estado, marechal Philippe Pétain, foi contestada pelo general Charles De Gaulle e pelas suas forças francesas livres, primeiro com base em Londres, e mais tarde, através de Argel, no Norte da África, onde foi declarado que o regime de Vichy não passou de um governo ilegal e de traidores colaboracionistas com as forças do Terceiro Reich, com fortes inclinações inspiradas na ideologia nazista.
Em junho de 1944, logo a seguir à invasão da Normandia, que levou a uma seqüência de ações que culminaria na libertação da França, o general De Gaulle proclamou o Governo Provisório da República Francesa (GPRF). Em agosto as forças dos Aliados chegaram a Paris, libertando finalmente, a capital francesa de quatro anos de ocupação e humilhação impostas pelas forças dos exércitos alemães. O GPRF instalou-se em Paris, em 31 de agosto, vindo a ser reconhecido pelos Aliados como governo legítimo da França, em 23 de outubro de 1944.
A libertação da França pelos Aliados, ocasionou a fuga dos funcionários e simpatizantes da França de Vichy, entre agosto e setembro de 1944, sendo o regime movido para Sigmaringen, na Alemanha, onde foi estabelecido um governo no exílio, liderado pelo marechal Pétain. O regime de Vichy no exílio durou até abril de 1945, quando os Aliados chegaram a Berlim, pondo fim ao governo nazista de Adolf Hitler.
Na reconstrução de uma República francesa livre, importantes lideranças, políticos e militares do regime de Vichy foram julgados e executados como traidores e colaboracionistas. As mulheres que se envolveram com os nazistas, sendo deles amantes, tiveram os cabelos rapsados em praça pública, para que fosse exposta a sua desonra. O marechal Philippe Pétain foi condenado à morte por alta traição, mas teve a pena comutada para prisão perpétua. A imagem do governante a apertar a mão de Adolf Hitler ficaria para sempre marcada na lembrança dos franceses, como um símbolo de vergonha daquele povo.
Durante o período da França de Vichy, de 1940 a 1944, o exercito francês seria reduzido a cem mil homens; os prisioneiros de guerra seriam mantidos em cativeiro. A população francesa mergulharia na miséria, com a fome a tomar grande forma, assolando a nação. Estima-se que a França forneceu 42% da ajuda externa à economia alemã durante a Segunda Guerra Mundial.