OS FOTÓGRAFOS DO IMPÉRIO DO BRASIL

Novembro 10, 2009

 No século XIX a arte da fotografia floria, arrastando novos artistas de um universo antes dominado pela pintura. A realidade crua da imagem fotografada tirava o glamour da imagem pintada. As pessoas retratadas saíram dos quadros da parede para os álbuns portáteis. A inspiração do artista já não era mesclada pelo ludismo imaginário, mas por um incontestável retrato jornalístico.
No Brasil Império, Dom Pedro II apaixonou-se pela fotografia. Ele próprio construiu um acervo belíssimo de imagens das suas viagens e do país que governava. Durante o segundo império, grandes fotógrafos pioneiros construíram as primeiras imagens do Brasil, registrando mais realistamente o retrato de uma jovem nação. Geniais, esses artistas, em sua maioria europeus, venciam os obstáculos e as limitações técnicas da época, deixando uma obra grandiosa. Entre eles destacam-se os franceses Auguste Stahl e Jean Victor Frond; o alemão Revert Henry Klumb; o suíço George Leuzinger; e, o franco-brasileiro Marc Ferrez.
Rever os retratos desses fotógrafos grandiosos, é redescobrir um Brasil que já não existe, uma paisagem física e humana que o tempo varreu, deixando-nos órfãos de uma identidade civil de uma força aterradora.
Auguste Stahl deixou-nos imagens do Rio de Janeiro na época que era capital do império, e a sua obra-prima no Brasil, a Cachoeira de Paulo Afonso, varrida do mapa pela imposição do progresso. Marc Ferrez, herdeiro de todos os outros, destacou-se na fotografia por cerca de cinqüenta anos. Sua obra é imprescindível, retratando não só paisagens que deram origem a grandes cartões postais, como também documentou construções de ferrovias; a reconstrução do centro da cidade do Rio de Janeiro, a partir dos primeiros anos do século XX; fotografias da família imperial, ou de celebridades como Machado de Assis; além de várias paisagens humanas, mostrando a população ambulante da jovem nação, constituída por brancos, negros, índios e mestiços.
Este artigo faz uma viagem breve ao Brasil de Marc Ferrez e Auguste Stahl, através de imagens únicas, definitivas, de um país que mudou a sua paisagem, mas nunca perdeu a identidade aqui registrada através das objetivas e da sensibilidade dos grandes artistas.

Auguste Stahl e a Principal Imagem dos Primórdios da Fotografia

Theophile Auguste Stahl nasceu em 23 de maio de 1824. O local de nascimento do fotógrafo criou algumas controversas históricas, tendo sido atribuído a Bergamo, na Itália, ou ainda na Alemanha. Estudos mais recentes dão-lhe como nacionalidade a francesa. Filho dos franceses Jean Frederic Stahl e Marie Elise Stamm, teria nascido na Alsácia e passado a infância em Bergamo.
A atuação como fotógrafo no Brasil começou em 1854, quando abriu o seu primeiro estabelecimento no Recife, Pernambuco. Stahl chegara àquela cidade em 31 de dezembro de 1853. No Brasil, estabeleceria um trabalho fotográfico pioneiro que duraria quinze anos, de 1854 a 1869.
Em 22 de novembro de 1854, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina, visitaram pela primeira vez o Recife. Stahl fez o registro da chegada da família imperial na cidade pernambucana, num registro visualmente jornalístico, algo inédito para a época. Autorizado a fotografar o casal imperial, o seu trabalho empolgou o imperador, sendo agraciado com o título de “Fotógrafo de Sua Majestade o Imperador do Brasil”. Desde então, passou a deter o monopólio da imagem dos monarcas na província de Pernambuco.
Durante o tempo que ficou em Pernambuco, Dom Pedro II confidenciou ao fotógrafo o desejo de ter uma vista da imensa queda d’água chamada de Cachoeira de Paulo Afonso. O imperador visitara o local recentemente e ficara encantado com a sua beleza.
Foi assim que, em 1860, Auguste Stahl rumou para a Cachoeira de Paulo Afonso, para registrar a sua vista. O resultado seria a sua obra-prima. O registro é considerado a principal imagem dos primórdios da fotografia sobre papel no Brasil. Paulo Afonso era à época a mais famosa cachoeira do país. A beleza do trabalho mostra uma imagem grandiosa e ambiciosa, tendo sido feita com a junção de dois negativos em vidro, obtendo assim, uma dimensão esplendorosa de 27 cm x 54 cm, feito inédito para a época. No registro, vê-se a figura de um escravo a arriscar a vida no meio de uma pedra, proposta de Stahl, que nos dá a dimensão de grandiosidade da queda d’água. O contraste entre luz e sombra, remete a um cenário dramático, de beleza singular, que na sua monumentalidade deixa um certo alerta ao perigo. Os tons sépias contrastam a paisagem natural com a paisagem humana. Registro espetacular de um patrimônio natural do Brasil, que foi extinto pelo progresso. A cachoeira foi coberta pela represa que leva o mesmo nome, localizada entre as divisas dos estados de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas. A fotografia foi redescoberta em meados da década de 1990, fazendo parte do acervo da Biblioteca Nacional. A imagem seria copiada, em 1869, pelo fotógrafo Auguste Riedel, com sutis alterações, sendo por ele apropriada.
Auguste Stahl mudou-se, em 1862, para a capital do império. Durante o tempo que esteve no Brasil, interessou-se profundamente pelo paisagismo tropical. Retratou as cidades brasileiras por onde passou, influenciando com o seu trabalho, todos os grandes fotógrafos que viriam a partir dele. Casado com Marie-Julie Bing, teve dois filhos nascidos no Brasil, Olga-Marie Stahl e Valdemar Stahl.
Em 1870, Auguste Stahl viu-se acometido por uma terrível doença, a sífilis, o que o fez regressar à França. Acredita-se que sendo obrigado a deixar bruscamente o Brasil, o fotógrafo teria legado seu estoque de tiragens originais e negativos de vidro para o jovem Marc Ferrez, que teria editado posteriormente algumas imagens de Stahl com o seu nome.
Nos dias atuais, menos de 150 fotografias suas de paisagens do Rio de Janeiro e do Recife são conhecidas. Auguste Stahl viria a morrer em um hospital da Alsácia, em 30 de outubro de 1877. Suas imagens constituem um acervo precioso do Brasil imperial e oitocentista, numa obra pioneira e sem precedentes.

Marc Ferrez e os Primeiros Anos

Marc Ferrez é considerado o maior fotógrafo brasileiro de todos os tempos. Nascido no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, era filho dos franceses Zéphyrin Ferrez, escultor e gravurista, que veio para o Brasil em 1816 com a Missão Artística Francesa; e de Alexandrine Caroline Chevalier. Marc Ferrez herdou o nome do tio paterno, também integrante da missão. Sexto e último filho do casal, o fotógrafo viu-se órfão aos oito anos de idade, em 1851. Naquele ano, após a morte dos pais, partiu em julho para a França, vivendo em Paris com o escultor e gravador Alphée Dubois.
Marc Ferrez só retornaria ao Brasil em 1859. Na capital do império, passou a trabalhar na Casa Leuzinger, de George Lauzinger, famosa casa editorial, papelaria e estabelecimento fotográfico, localizada na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro. Em 1860, Marc Ferrez aprendeu técnicas fotográficas com o alemão Franz Keller-Leuzinger, fotógrafo responsável pela seção de fotografia da Casa Leuzinger.
Em 1865, aos 21 anos, abriu a própria firma, a Marc Ferrez & Cia, um estúdio fotográfico bem-sucedido, com sede na Rua São José, e que o iria pôr entre os principais profissionais da sua cidade e do próprio Império. Em 1868, já um fotógrafo famoso, recebeu menção honrosa do Almanaque Laemment.
Em 1873, uma tragédia abater-se-ia sobre o trabalho do fotógrafo, um incêndio de grandes proporções consumuria e destruiria o seu atelier, que lhe servia também de residência. Na catástrofe foram perdidos o seu acervo, chapas e equipamentos fotográficos. No ano seguinte, em 1874, ele viajaria para a França com o objetivo de readquirir novo material fotográfico e restabelecer a profissão no Rio de Janeiro.

Marc Ferrez Durante o Segundo Império

De volta ao Brasil, em 1875, Marc Ferrez foi convidado para integrar como fotógrafo à Comissão Geográfica e Geológica do Império do Brasil, comandada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. A expedição percorreria os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, e partes da Amazônia. Marc Ferrez fotografaria, quinze anos após Auguste Stahl o ter feito, a Cachoeira de Paulo Afonso. No sul da Bahia, registraria com maestria os índios Botocudos. A imagem reflete a dureza no olhar da maioria dos índios, longe de perceber que posavam para a posteridade da sua própria etnia. Olhares que se oferecem à manipulação da objetiva, sem perder a essência primitiva do homem, mais do que universal, substancialmente brasileiro.
Durante o Império, Marc Ferrez participou de várias exposições tanto no Brasil, como no exterior, obtendo alguns prêmios. Fotografou várias paisagens do Brasil imperial, do Rio de Janeiro como capital da corte. Documentou em imagens, várias obras essenciais para o desenvolvimento daquela cidade. Sob as lentes de Marc Ferrez, a capital carioca deslumbrava na sua beleza natural, bem distante dos prédios que um dia tomariam a sua paisagem. Desta época, é o registro do fotógrafo que revelam um Rio de Janeiro pulsante pelo progresso que lhe batia às portas. As paisagens da cidade feitas pelo fotógrafo, transmitem uma tranqüilidade efêmera, associada à natureza privilegiada da sua construção física. São imagens que até os dias atuais, inspiram fotógrafos de um Rio de Janeiro futurista.
Considerado herdeiro legítimo de Auguste Stahl, Marc Ferrez tornou-se impar em sua obra. Conquistou o Império e sobreviveu com prestígio, ao seu fim. Em 1880 recebeu o título de “Photografo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império.
Nos últimos anos da Monarquia, registrou as obras de construção da Estrada de Ferro do Corcovado. Viajou para Minas Gerais e São Paulo, registrando as obras de ampliação da ferrovia The Minas and Rio Railway Company. Registrou as obras da ferrovia Paranaguá-Curitiba. As principais obras do Império passaram pelas lentes de Marc Ferrez. Sua competência e dedicação ao que fazia seduziram o imperador, que o agraciou, em 1885, com o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa.

O Desfile Humano nas Imagens de Marc Ferrez

Já na época da República, em 1890, o fotógrafo associou-se a Henri Gustave Lombaets, importante encadernador da Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, fundaram a Lombaets, Marc Ferrez & Cia. Da sociedade resultou a publicação de postais e o jornal “A Estação”. Mas a associação durou pouco, sendo desfeita em 1892.
Em 1899, a Casa Ferrez continuou a apostar na publicação de postais. Já o século XIX findava e Marc Ferrez trouxe, nessa época, um Brasil das ruas, uma paisagem humana que retratava a formação de um povo. Os ofícios urbanos estampavam na sensibilidade das suas objetivas. Por ela desfilaram o verdureiro, o cesteiro, o quitandeiro, o garrafeiro, o vassoureiro, o jornaleiro, o amolador de facas, o funileiro… Profissões, muitas das quais, já extintas, e que não se teria noção do que significaram, caso não tivesse tais registros.
O Brasil mudara, a escravidão tinha sido abolida, a República proclamada. Se na época do Império vender nas ruas significava uma tarefa não dignificante, exercida pelos escravos de ganho, que vendiam doces, miudezas, e depois dividiam os lucros com o seu dono; no Brasil que despontava com o alvorecer do século XX transbordava as ruas de imigrantes, vendendo ou oferecendo serviços. Na fotografia que Marc Ferrez registrou a “Vendedora de Miudezas”, podemos constatar as mudanças. Uma mulher branca, de olhar altivo, posa para Ferrez. Há nela nuances de quem sabe que está tendo a imagem registrada. Seu olhar desafia a objetiva, numa dignidade etérea, sem perder a sua função secular. Se a paisagem trazia um Ferrez sofisticado, o registro humano não lhe fica a dever. A vendedora de miudezas traz as surpresas da sua cesta – o que ela venderia?, singelamente amparada por uma providencial sombrinha.
Procurando exercitar uma imagem viril, os dois rapazes de “Jornaleiros” transitam entre a austeridade de vender nas ruas da cidade, e uma maturidade precoce, com a perda da infância sem o direito de uma adolescência. Os dois trazem os jornais de então nas mãos, “O Paiz” e “A Notícia“. Numa época em que os jornais eram vendidos no grito, a presença desses profissionais ambulantes garantia a notícia a ecoar das páginas imprensas pelas ruas da cidade. Curiosamente, esses jornaleiros não sabiam, em sua maioria, ler ou escrever. De chapéus e casacos, eles portam a elegância da época, estendida para os mais humildes, naturalmente cavalheiros de um tempo.
O Mascate” mostra o homem claramente imigrante, uma nova realidade que mudaria o Brasil não só física, mas culturalmente. Marc Ferrez registrou as escravas de serviço, que deixavam as senzalas para praticarem o que a elite chamava de vergonhosa profissão de ambulantes, sustentando com aquele trabalho os seus amos. Elas vendiam doces que faziam, legumes que cultivavam, peixe que pescavam. O mascate trabalhava para si mesmo. Vendia tecidos, tapeçarias, eram andarilhos não só pelas capitais, mas por todo o interior de uma imensa nação. Se as escravas retornavam para os seus amos no fim da jornada, os mascates desbravavam estradas, redescobriam um país.
Assim, o desfile humano das imagens de Marc Ferrez, tornou-se o desfile do próprio Brasil, velho na sua história, mas novo como nação independente. Negros, brancos, escravos e ex-escravos, imigrantes, índios, todos eles passaram por Marc Ferrez, fazendo dele um contador de história através das imagens que se nos são apresentadas, e que tanto nos fascinam.
Marc Ferrez ainda registraria a renovação da arquitetura urbana da cidade do Rio de Janeiro, como as obras da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Foi um dos pioneiros do cinema no Brasil, obtendo, em 1905, a autorização da firma francesa Pathé Frères, para ser fornecedor exclusivo dos cinematógrafos ambulantes. Em novembro de 1907 inaugurou o Cine Pathé.
Marc Ferrez traz uma das obras fotográficas mais abrangentes do século XIX e início do século XX. Fotografou o Brasil por quase cinco décadas consecutivas, mantendo sempre um trabalho magnífico, quer com a Monarquia ou com a República. No fim da vida viveu algum tempo na França, de lá retornando já muito doente, em 1920. Marc Ferrez morreria em 12 de janeiro de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, cenário que ele tão bem retratou, imortalizando o glamour que ela tinha quando foi capital do Império e da República do Brasil.


A MARCHA SOBRE ROMA

Outubro 31, 2009

Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália vivia um momento difícil sócio econômico, levando a população ao desalento com os governos tradicionais. Movimentos de esquerda, inspirados na Revolução Bolchevique, atraíam cada vez mais adeptos. Em direção oposta à esquerda, surgiam os movimentos de extrema direita, entre eles o movimento fascista, liderado por Benito Mussolini, jornalista e um antigo socialista. Transformado no Partido Fascista Italiano, em 1921, o movimento atraiu par si um grande número de italianos desencantados com a política.
Os fascistas pregavam a implantação de uma ditadura na Itália, que combatesse o perigo bolchevique e elevasse o país à glória de outrora. Em dois anos, as milícias fascistas moviam-se contra os seus adversários usando da violência, tomando de assalto às sedes dos partidos de esquerda, às dos sindicatos, iniciando governos paralelos através da intimidação e até mesmo do assassínio de adversários.
Com mensagens nacionalistas extremadas, os fascistas iniciaram, em outubro de 1922, uma ação decisiva que os levaria ao poder. No congresso do partido, em 24 de outubro, em Nápoles, Mussolini ameaçou abertamente os poderes constituídos, acusando-os de incapacitados de controlar a anarquia que se instaurara na Itália. Incitados por Mussolini, os fascistas iniciaram uma ação cautelosamente encenada, rompendo numa marcha que chamaram de grande cruzada dos camisas negras, deflagrada oficialmente no dia 28 de outubro. Três grandes colunas de camisas negras, formadas por paramilitares do partido, responderam à convocação de Mussolini, dirigindo-se para Roma. Postas estrategicamente em Tivoli, Monterotondo e Civitavecchia, as colunas fecharam o cerco sobre Roma. Cerca de 50 mil homens marcharam para a capital italiana.
Diante do impasse, movido pelo medo de um possível derramamento de sangue, o governo declarava estado de sítio. Mas o rei da Itália, Vittorio Emanuel III, recusou a medida de exceção do Parlamento, levando-o à demissão. O rei, em 30 de outubro, nomeou Benito Mussolini chefe do gabinete. Quando os camisas negras chegaram a Roma, em vez de desencadearem uma guerra civil, transformaram a cidade em um grande palco de festa para comemorar a ascensão do partido ao governo. Pacificamente, os fascistas desfilaram triunfantes sobre Roma. Iniciava-se um dos momentos mais controversos da história da Itália, instaurando uma das maiores ditaduras de direita do século XX, que iria durar duas décadas. Durante aquele tempo, o país envolver-se-ia na Segunda Guerra Mundial ao lado de Adolf Hitler, de quem o governo de Mussolini tornar-se-ia dependente e totalmente submisso.
A marcha sobre Roma representou, nos palcos da política, uma grande encenação e aparato, que levaram, de forma apoteótica, os fascistas ao poder.

Consolidação do Movimento Fascista Como Partido

Em março de 1919, Benito Mussolini fundou, em Milão, o movimento fascista. Vindo dos movimentos de esquerda, Mussolini fora militante do Partido Socialista Italiano, chegando a dirigir o jornal “Avanti”. Após fundar o jornal “Il Popolo d’Italia”, foi expulso do partido, em 1914.
Em 1921, o movimento fascista foi transformado em partido, regido por uma exacerbada ideologia de direita, que pregava entre outras coisas, o nacionalismo, a abolição do direito de greve dos funcionários públicos e a implantação da ditadura na Itália, como solução para os seus problemas econômicos e sociais.
Os camisas negras, nome derivado do uniforme oficial dos militantes fascistas, transformaram-se rapidamente, em uma poderosa organização paramilitar, usava da intimidação e da violência para acossar os seus opositores. Italo Balbo, o mais poderoso comandante dos camisas negras no norte da Itália, realizou, em 1922, entre maio e agosto, uma seqüência de façanhas que desmoralizou o governo vigente, ocupando com a sua esquadra importantes cidades, como Ferrara, Ravena e Parma, substituindo as autoridades locais pelos seus homens, instalando um governo ilegítimo e paralelo.
A ascensão dos fascistas, em apenas três anos da criação do movimento e pouco menos de um ano da sua consolidação como partido, foi vertiginosa. Estrategicamente Mussolini acenou para o exército, evitando que os seus homens entrassem em combate direto com ele, conseguindo assim, a simpatia de vários comandantes dentro das forças armadas italianas. Também fez parte da estratégia a igreja, que em janeiro de 1922, com a morte de Bento XV, elegia Pio XI como novo papa, e que Mussolini saudou com veemência e respeito. Exército e igreja deixaram de temer os fascistas, restava conquistar o apoio da monarquia.
Em simultâneo com a ascensão do fascismo, veio a decadência dos socialistas, que minavam aos poucos, muitas vezes eliminados fisicamente em emboscadas preparadas por seus inimigos.

Os Fascistas Tranqüilizam a Monarquia

Nos primeiros meses de 1922, após fracassar na tentativa para a formação de um gabinete de esquerda, que contivesse a ascensão dos fascistas, o governo de Bonomi pediu demissão. Para substituí-lo, foi designado o liberal e inexpressivo Luigi Facta.
Em julho, os fascistas promoveram uma invasão à cidade de Cremona, saqueando a sede do Partido Socialista, ocupando prédios municipais e incendiando a casa do deputado do Partido Popolare, Guido Miglioli. Em resposta às atrocidades sofridas, membros dos dois partidos moveram uma moção de desconfiança contra o governo de Facta, enfraquecendo-o e levando-o à queda ainda naquele mês. Após doze dias de negociações, Facta foi novamente empossado no governo.
Paralelamente, os fascistas demonstravam a sua força diante dos opositores. Na Emilia-Romanha, foi promovida uma greve geral pelos socialistas, em protesto contra as ações dos fascistas. Como o governo não conseguiu conter a greve, os fascistas tomaram conta dos serviços públicos essenciais, garantido que fossem mantidos durante a greve. A ação resultou numa humilhante derrota aos socialistas.
Com ações cada vez mais contundentes, os fascistas continuaram a ter êxito em ataques às cidades e sedes dos partidos inimigos, formando governos paralelos. Maturava a idéia de uma revolução fascista que tomasse o poder. Mussolini mostrava-se indeciso entre deflagrar uma revolução ou tentar a conquista pacífica do poder.
Diplomaticamente, Mussolini havia tranqüilizado o exército e a igreja, de que não seriam atingidos com a ascensão fascista ao poder. Faltava tranqüilizar a monarquia. Em 20 de setembro, o líder dos fascistas discursou em uma manifestação do partido em Udine. Afirmava que mudanças radicais poderiam ser promovidas sem que afetassem à monarquia. Assim, o exército, a igreja e a monarquia, deixaram de inquietarem-se diante de uma possível revolução fascista. Habilmente, Mussolini conquistava a simpatia de vários membros daqueles poderosos setores da política e da sociedade italiana.

Delineados os Planos para a Marcha

No decorrer do segundo semestre de 1922, o espectro de uma marcha sobre Roma que resultasse na tomada de poder pelos fascistas, fazia eco no cenário político. Um avanço sobre a capital do país parecia iminente. Em 11 de outubro, a intenção da marcha ficou clara publicamente, quando em Cremona, a multidão aclamou o líder Mussolini aos gritos de “Para Roma, para Roma…
Em outubro de 1922, finalmente Mussolini decidira por desencadear o processo revolucionário. Reuniu-se em sigilo na Vila São Marcos, em Milão, em 16 de outubro, com os companheiros Italo Balbo, Michele Bianchi, Cesare Maria De Vecchi e o marechal Emilio De Bono, entre outros. Decidiu-se que as milícias seriam unificadas sob um comando, a cargo de Balbo, De Bono e De Vecchi. A marcha sobre Roma seria realizada; a data da sua deflagração viria a ser marcada no Congresso Fascista, que se iria realizar a partir de 24 de outubro, em Nápoles.
A princípio, De Vecchi, um ex-monarquista que não tinha simpatia pelo método revolucionário; e, De Bono, não achavam que o momento da grande marcha sobre Roma seria aquele, mas retrocederam diante do grande entusiasmo revolucionário de Italo Balbo e do próprio Mussolini.
Inicialmente, o plano estratégico sugerido por Mussolini era de que três grandes colunas das milícias fascistas ficassem concentradas nas províncias da Emilia-Romanha, Toscana e nos Lagos, de onde convergiriam para Roma. Os generais da ativa Fara e Cecherini, que não pertenciam oficialmente ao partido, mas que estavam na reunião em Milão como convidados de Mussolini; alertaram para a imprudência de percorrer um caminho tão longo, praticamente a metade do território italiano. Diante das ressalvas, Italo Balbo deu a sugestão que seria a executada, a concentração dar-se-ia em três pontos próximos de Roma: no Tivoli, Civitavecchia e Monterotondo, instalando-se o quartel general na Perugia. Os planos para a grande marcha sobre Roma estavam, finalmente, estabelecidos.

Durante o Congresso em Nápoles

Passaram-se cerca de oito dias entre a reunião secreta de Milão e o congresso do partido fascista em Nápoles. Tempo suficiente para que se eliminassem todos os obstáculos e aperfeiçoassem o grande plano revolucionário.
No dia 23 de outubro Mussolini, vindo de Milão, a caminho de Nápoles, passou por Roma, onde teve um encontro com Salandra, que tencionava, junto com os fascistas, formar um governo de direita. No dia seguinte, em Nápoles, quarenta mil fascistas desfilaram à tarde, pela praça do Plebiscito. Diante deles, Mussolini fez um inflamado discurso, que abalaria a nação. Eloqüentemente declarava:
Garanto-vos solenemente, porém, que a nossa hora soou. Ou nos concedem o governo ou nós iremos a Roma conquistá-lo. É uma questão de dias ou horas.
Os preparativos finais para a marcha foram estabelecidos naquela noite, no Hotel Vesúvio, em Nápoles, antes de Mussolini deixar a cidade, secretamente, rumo a Milão. Os poderes da operação militar, quando fosse desencadeada, seriam dados plenamente ao quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, e a eles deveriam ser transmitidos à meia-noite do dia 26 de outubro. Uma mobilização secreta começaria a ser feita em 27 de outubro, e, finalmente, no dia 28 de outubro começariam os ataques revolucionários às prefeituras, jornais, sedes de entidades opositoras aos fascistas, postos policiais, sindicatos, estações de correios e diversos outros pontos estratégicos. A seguir aos ataques, ainda no dia 28 de outubro, uma concentração dos camisas negras em três pontos distintos, iniciaria a marcha sobre Roma.
Em frente ao Hotel Vesúvio, as milícias fascistas desfilavam, a cantar e a gritar eloqüentemente: “Para Roma! Para Roma!

A Marcha da Vitória Fascista

No dia 26 de outubro, os comandantes fascistas assumiram os seus postos nas concentrações das milícias. Em Civitavecchia, o comando foi entregue a Perrone Compagni, auxiliado pelo general Cecherini; a coluna de Monterotondo seria comandada por Ulisses Igliorie; e, a de Tivoli, por Giuseppe Botai. O quadrunvirato constituído por Italo Balbo, De Bono, Da Vecchi e Bianchi, assinou o manifesto redigido por Mussolini, que seria divulgado no auge da deflagração da marcha.
Em Roma espalhou-se o pânico diante de uma marcha revolucionária fascista com conseqüências imprevisíveis. Facta é aconselhado a demitir-se. Após relutar, diante das notícias da marcha das três colunas de camisas negras, que chegavam alarmantes à capital, Facta, decidiu finalmente, demitir-se.
Ante à notícia da demissão de Facta, uma das exigências para que os fascistas não atacassem Roma, De Bono, Balbo e Bianchi decidiram suspender a ação por 24 horas, à espera de novas orientações. Mas o movimento já estava em curso, sendo impossível de retroceder ou controlar. Debaixo de chuva e frio, a marcha sobre Roma prosseguiu.
Na madruga de 28 de outubro, Luigi Facta, já demissionário e a aguardar a designação do seu substituto, recebeu um telefonema de Michele Bianchi, acusando-o de vir a ser o responsável por um possível derramamento de sangue. Às cinco horas da manhã, Facta convocou uma reunião de emergência do gabinete do governo. Simultaneamente, o jornal “O Popolo d’Italia”, foi posto em circulação, trazendo o manifesto redigido por Mussolini e assinado pelo quadrunvirato revolucionário. Publicado na íntegra, o manifesto conclamava:
Fascistas italianos. Soou a hora da batalha decisiva. (…)
(…) Fascistas de toda a Itália, apelai para o vosso espírito e para a vossa força. Temos de vencer. Venceremos.
Viva a Itália, viva o fascismo.

Enquanto a proclamação do manifesto fascista circulava pelas ruas, Luigi Facta e o seu gabinete decidiram decretar estado de sítio. Dirigiu-se a Vittorio Emanuel III para que assinasse o decreto, mas o rei afirma que se deve evitar o conflito, e recusa-se a assinar o documento. Sem saída, Facta comunicava aos políticos e às autoridades militares de que o estado de sítio não tinha mais valor.
No dia 29 de outubro, Mussolini publicava no jornal “O Popolo d’Italia”, aquele que viria a ser o seu último artigo como jornalista. Enfaticamente, o líder fascista concluía: “O fascismo quer o poder e há de obtê-lo”.
As palavras são cumpridas. Em Roma, De Vecchio é chamado ao palácio, recebendo a missão de convocar Mussolini a Roma para ser nomeado primeiro ministro da Itália.
Em Milão, Mussolini recebe o telegrama com a notícia da sua designação para primeiro ministro. Aceita-o imediatamente. Passa a direção do jornal “O Popolo d’Italia” para o irmão Arnaldo, deixando instruções para que se destrua completamente os jornais socialistas “Avanti” e “Giustizia”. Segue à noite, de trem, para Roma.
No dia 30 de outubro, o trem que trazia Mussolini chega, às 9h30, a Civitavecchia. Ali, usando a camisa negra, passa em revista as milícias fascistas que estavam preparadas para marchar sobre Roma. Uma hora depois, ele chega triunfante à capital italiana. Ainda a trajar a camisa negra, é recebido cordialmente pelo rei, no Palácio Quirinal. Minutos depois, Vittorio Emanuel e Benito Mussolini aparecem na sacada do Quirinal, sendo aclamados e aplaudidos pela multidão.
Na noite de 30 de outubro, às 19h00, Benito Mussolini, já despido da camisa negra, a trajar uma casaca, levou ao rei da Itália uma lista com os nomes dos ministros que iriam formar o seu gabinete. Aos 39 anos, era o mais jovem italiano a exercer o cargo nos últimos sessenta anos. Os fascistas chegavam ao poder. A ditadura era instaurada na Itália.
Nas ruas de Roma, as milícias dos camisas negras, que se haviam preparado para uma intensa luta armada, realizavam, na presença do rei, uma alegre e triunfante passeata, a conclamar a vitória. Após o ato público, Mussolini, já primeiro ministro da Itália, ordenou que se dispersassem as colunas, e que todos retornassem para casa. Na noite de 31 de outubro, os trens levavam de Roma os últimos camisas negras, agora no poder, que se iria estender por duas décadas. As mais conturbadas da história recente da Itália e do mundo.


GUERNICA – A INDIGNAÇÃO DE PABLO PICASSO

Outubro 31, 2009

A tragédia que se abateu sobre a aldeia basca de Guernica, em 1937, no auge da Guerra Civil Espanhola, indignou o mundo. Atingidos por bombas e rajadas de metralhadoras, os moradores do pequeno lugarejo viram dizimados quase que metade da população. A destruição da aldeia fazia parte de um treinamento de guerra executado pela Luftwaffe alemã, e servia para intimidar os inimigos do general Franco, cujas tropas estavam em guerra com a esquerda do país.
Pelas ruas de Guernica, em meio aos escombros, milhares de mortos jaziam insepultos, e centenas de feridos contemplavam o horror. A repercussão do ataque a Guernica correu o planeta. Foi tão negativa, que Franco em vez de usar o fato para intimidar os guerrilheiros rebeldes, culpou-os, tentando imputar-lhes a autoria do bombardeio. Ante tão imensa tragédia, ninguém quis assumir as responsabilidades.
Jornais e revistas da época registraram o banho de sangue. Mas nenhum registro foi tão contundente e definitivo quanto o de Pablo Picasso, em sua obra “Guernica”, um painel de 350 cm por 782 cm. Pintado a óleo, com cores em preto e branco e cinza, foi feita por ocasião da Exposição Internacional de Paris, em 1937. Na pintura, Pablo Picasso revela toda a indignação e repulsa pelo sucedido a Guernica e aos seus habitantes.
Retrato pungente, com figuras ao estilo dos frisos e das tumbas dos templos gregos, dimensionado pelo enquadramento triangular das alegorias. O resultado gera nos observadores, uma sensação de mal-estar, diante do horror cubista. É um grito do sangue derramado. Ao ser exposta, a obra suscitou o menosprezo das pessoas, que a tinham como repulsiva e pouco compreensível.
Com o tempo, “Guernica” tornou-se símbolo de protesto contra a violência e a barbárie das guerras. É uma manifestação da cultura contra a violência, difundida em todo o mundo. O painel foi levado para Nova York, onde lá permaneceu, proibido de retornar à Espanha, por ordem do próprio Picasso, até que o franquismo fosse extinto e a democracia restaurada. Com o fim da ditadura espanhola, em 1975, a obra retornaria ao país em 1981, sendo tida como o último exilado. Em 1992, foi definitivamente para o Museu Reina Sofia, em Madrid.
Pungente, sua beleza estética diluí-se diante do horror que retrata, “Guernica” é a própria repulsa da arte às atrocidades dos homens e dos seus regimes opressivos. É o retrato de uma civilização que se fez armada e poderosa, mas que ruiu diante das suas ideologias totalitaristas. “Guernica” é a arte contra a guerra.

O Bombardeio de Guernica

A Guerra Civil Espanhola tornou-se símbolo de uma luta ideológica da esquerda e da direita ibéricas, que suscitou o apoio de pessoas de todo o mundo. Legiões de estrangeiros engrossaram as fileiras dos guerrilheiros que combatiam contra a ditadura de Francisco Franco.
Em julho de 1936, o governo nazista de Adolf Hitler decidiu apoiar o caudilho espanhol. O acordo com os nacionalistas espanhóis concedia grande autonomia às forças nazistas. Quando a Luftwaffe alemã chegou à área do conflito, estava ansiosa para aplicar manobras militares envolvendo bombardeios de tática de terra arrasada, com levas de esquadrilhas que conduziriam bombas diferentes, de fragmentação, incendiárias; e assim, poder descobrir os efeitos.
No início de 1937, foi escolhido o local a ser bombardeado pelos nazistas. A operação tinha como finalidades, testar a capacidade bélica da Alemanha nazista em caso de uma guerra futura e, intimidar os inimigos de Francisco Franco. Seria Guernica, pequeno vilarejo situado entre Bilbao e San Sebastián, ao norte da Espanha, nos Países Bascos. O lugar possuía cerca de sete mil habitantes, refugiando muitos republicanos que para ali fugiram durante a guerra.
No dia 26 de abril de 1937, sob o comando do tenente coronel Wolfran von Richthofen, a unidade aérea alemã “Legião Condor” iniciou um bombardeio sobre Guernica. Era uma segunda-feira, dia de feira livre na aldeia. Ainda havia bastante movimento na praça, no fim da tarde, quando os sinos começaram a badalar. Às 16h45 foi despejada a primeira leva de Heinkels-11 sobre o lugarejo. Por quase três horas consecutivas, uma população horrorizada viu o inferno vindo do céu, com bombas, rajadas de metralhadoras contra os que fugiam para os arredores dos escombros formados, deixando um grande rastro de sangue e cerca de 1.654 mortos e 889 feridos. A aldeia levou um dia para apagar o incêndio.
A tragédia de Guernica entrou para a história como o primeiro cenário para ensaio de guerra, antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Os alemães viram-se satisfeitos com o resultado do treinamento militar. Franco usou os acontecimentos para culpar os exércitos de esquerda. O mundo mostrou-se estarrecido diante daquela atrocidade. A população do vilarejo perdeu cerca de 40% da sua população. A morte, a destruição, o solo banhado por sangue, foi o resultado concreto diante daquele dia infernal.

Guernica, de Pablo Picasso

Pablo Picasso, um dos maiores pintores do século XX, passara pela Primeira Guerra Mundial sem que se deixasse inquietar por ela. Quando a guerra civil foi deflagrada em seu país, deixou a neutralidade costumeira e solidarizou-se com os republicanos.
A tragédia de Guernica chegou ao pintor, em maio de 1937, quando os jornais publicaram fotografias do bombardeio à aldeia. Picasso sentiu-se profundamente tocado pelo derramamento de sangue do povo basco. Da tragédia, surgiu a inspiração para pintar a mais terrível e genial das suas obras.
Fechado em seu atelier em Paris, o artista criou 45 estudos preliminares, resultando em um painel de 3,50 m x 7,82 m, pintado a óleo, nas cores preta, cinza e branca; ao qual chamou de “Guernica”, feito para ser posto em frente ao pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris de 1937.
Exposta pela primeira em 4 de junho de 1937, menos de dois meses após o bombardeio, a obra era um tenaz registro daquele momento tétrico da história espanhola. O painel trazia uma carga emotiva que inquietava as pessoas, com imagens sombrias, rompendo com qualquer efusão lírica. Na exposição de Paris, o público não percebeu o sentido de retrato tão cáustico, virando as costas ao painel.
“Guernica” despeja as emoções, tornando-as avassaladoras, como se as imagens fossem explosões de colagens cubistas, em um artifício ilusionista. No alto, o painel é dominado pela presença da luz de um olho em forma de lâmpada. As figuras provocam imagens fragmentadas, elucidadas pela violência proposta, numa agonia latente. Rigorosamente, Picasso parece dividir a tela em quatro retângulos, com um triângulo cujo vértice em seu eixo vertical, divide-a em duas partes iguais.
No primeiro retângulo, a angústia e desespero de uma mãe a chorar a morte do filho, como uma trágica Pietá moderna, ladeada por um touro ameaçador com cabeça humana. O touro é uma presença marcante no universo de Pablo Picasso.
No segundo retângulo, o imenso olho luminoso, com uma lâmpada no centro, rasga a dramaticidade exposta, sobre a figura de um cavalo ferido e em disparada. A figura do cavalo centraliza o triângulo já mencionado.
No terceiro retângulo, mais luz vem da lâmpada que uma mulher traz na mão, como se fosse uma alegoria da Estátua da Liberdade. No quarto retângulo, o desespero latente de um homem diante do horror, a levantar os braços ao céu.
Touro e cavalo, animais símbolos da mitologia espanhola, simbolizam a brutalidade e as forças do mal (touro), numa cruel repressão ao povo (cavalo). No chão, um cadáver empunha a espada partida, símbolo da resistência do povo espanhol.
No início rejeitada pelo público, “Guernica” tornou-se com o tempo, a obra que simboliza a repulsa às guerras. Pablo Picasso, em solidariedade com os mortos na tragédia e com o povo espanhol, que lutou contra a ditadura de Franco, ao tornar a sua obra famosa, proibiu que ela fosse exposta em solo ibérico, até que a democracia voltasse ao país. A obra ficou exposta em Nova York, até que, em 1981, voltou à Espanha, já redemocratizada. Desde 1992 encontra-se na exposição permanente do Museu Reina Sofia, em Madrid.
Reza a lenda que, em 1940, quando a França estava sob a ocupação nazista, um oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, em uma exposição, em Paris, perguntou a Picasso se tinha sido ele quem fizera tão horrível obra, ele respondeu: “Não, foram vocês!

Pablo Picasso

Um dos mais geniais mestres da arte do século XX e de todos os tempos, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, nasceu em Málaga, na Espanha, em 25 de outubro de 1881.
O pai, um pintor medíocre, teria sido uma influência para que o talento de Picasso fosse despertado. Aos treze anos, já atingia a perícia do pai.
Após passar por Barcelona, chegou a Madrid, em 1897, onde se instalou em um atelier e inscreveu-se na conceituada Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Sua estadia em Madrid seria interrompida quando o artista adoeceu, em julho, com escarlatina. Para convalescer, retornou à Barcelona, onde vivia a família.
Em 1900, levado pelo sonho de conhecer Paris, ele partiu para a capital francesa. Seria ali que Picasso iria ascender para a fama, tornando-se um dos maiores artistas do século que despontava.
As obras de Picasso não se resumem somente à pintura, constam esculturas e cerâmicas. Ao lado de Georges Braque, é considerado o fundador do Cubismo. Pablo Picasso viveria grandes amores e intensamente. Morreu aos 91 anos, em Mougins, riviera francesa, em 8 de abril de 1973. Produziu suas obras até o último instante, não se deixando perder a inspiração pela velhice.

Algumas Obras de Pablo Picasso

1899 – Auto-Retrato
1901 – Absinto (Rapariga no Café)
1901 – A Morte de Casagemas
1901 – Evocação – O funeral de Casagemas
1901 – A Maternidade
1903 – Velho Guitarrista Cego
1903 – Miseráveis Diante do Mar
1903 – A Vida
1904 – Mulher Passando a Ferro
1904 – Retrato de Suzanne Bloch
1905 – Auto-Retrato com Capa
1905 – Rapaz com Cachimbo
1905/1906 – Fernanda com um Lenço Preço
1906 – Vasilhas
1907 – Mulher com Leque
1907 – Jovem Nu (Jovem Rapaz com Braços Levantados)
1907 – Lês Demoiselles d’Avingnon
1908 – Banho
1908 – Três Mulheres
1908 – Composição com Crânio
1909 – Garrafa, Jarra e Frutas
1914 – Vaso sobre a Mesa
1931 – Mulher Loira
1932 – La Lecture (Woman Reading)
1933 – Minotauro, Bebedor e Mulheres
1937 – Guernica
1941 – Dora Maar au Chat
1944 – O Tomateiro
1960 – Mulher Sentada num Cadeirão
1965 – Lagosta e Gato
1969 – Arlequim com Batom
1971 – Busto de Mulher


A QUEBRA DA BOLSA DE VALORES DE NOVA YORK EM 1929

Outubro 27, 2009

A Primeira Guerra Mundial deixou a Europa economicamente arruinada e endividada. No período que ela durou (1914-1918), caíram impérios poderosos, como o czarista da Rússia, sucumbiram economias coloniais poderosas e surgiu uma nova potência econômica mundial, os Estados Unidos da América.
No período da guerra, a indústria de armas norte-americana alcançou grande prosperidade, vendendo seus produtos bélicos para os países europeus. No pós-guerra, os campos europeus estavam devastados, as indústrias em ruínas, os norte-americanos passaram a exportar alimentos e produtos industriais para aquele continente. A economia dos Estados Unidos cresceu vigorosamente, atingido uma grande produção entre 1918 e 1928. Era o período de prosperidade que entraria para a história com o sugestivo nome de “American Way of Life”, literalmente, modo de vida americano. O consumismo da classe média norte-americana era incentivado pela facilidade e expansão do crédito, levando a população, mergulhada no fascínio da ilusão consumista, ao endividamento. Grande parte dessa classe média investiu as suas posses na economia volátil da bolsa de valores.
Com o a recuperação da economia européia, a economia americana foi seriamente afetada. Nos campos a agricultura produzia demasiadamente, nas cidades as indústrias não tinham para quem vender. A oferta passou a ser maior do que a demanda, forçando a queda dos preços e a diminuição da produção; o desemprego atingiu todos os setores, o período de prosperidade findara, a retração da economia levou à queda das ações da bolsa de valores, levando-a ao colapso.
Mergulhada numa valorização excessiva e especulativa quanto ao valor real das suas ações, em 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York assistiu ao preço das ações cair vertiginosamente, levando à miséria aos milhares de investidores. O dia passou a ser chamado de “Quinta-Feira Negra” da economia. Desesperados, os investidores tentaram vender suas ações, que àquela altura já não tinham valor algum. Excesso de ações à venda e a falta de compradores levou, em 29 de outubro, conhecido por “Terça-Feira Negra” da economia, ao colapso e quebra da bolsa. Era o crash da Bolsa de Nova York, que levaria à ruína grandes fortunas, afetando toda a economia mundial. Durante três anos o valor das ações na bolsa flutuou, conduzindo os Estados Unidos à depressão econômica, que só terminaria na década seguinte, quando a Europa voltou a mergulhar na guerra. O outubro negro de 1929, que conduziu ao crash, pôs fim aos sonhos e ao consumo da mítica geração da era do jazz.

A Expansão da Economia Norte-Americana no Período Primeira Guerra Mundial

No fim do século XIX os Estados Unidos teve um significativo crescimento econômico, beneficiando-se dos resquícios da Revolução Industrial. Do outro lado do Atlântico, os conflitos coloniais começavam a aparecer, ameaçando a hegemonia econômica da Inglaterra e do restante da Europa. Ventos de prosperidade sopravam para o ocidente, mostrando que um novo império econômico começava a florir no mundo.
A partir de 1913, com a subida do democrata Thomas Woodrow Wilson à presidência dos Estados Unidos, o país entrou em uma nova era econômica, alcançando grande expansão industrial. Paralelamente, em 1914, conflitos e disputas territoriais levaram a Europa àquela que seria até então, a mais sangrenta das guerras, a Primeira Guerra Mundial. Enquanto a prosperidade econômica despontava no norte do continente americano, o continente europeu amargava com as conseqüências de uma longa guerra, que devastava os campos, mutilava e matava a população, levando-a à miséria e à fome.
Mantendo-se neutro no conflito, os Estados Unidos passou a investir na indústria bélica, fornecendo armas aos países aliados. Somente em 1917, quando a guerra já chegava ao fim, os norte-americanos entraram no conflito ao lado da Inglaterra. Em 1918 a Alemanha assinava a derrota, pondo fim à guerra.
Apesar de ter participado da última etapa da guerra, os americanos não sofreram diretamente as suas conseqüências, já que as batalhas foram travadas longe do seu território. No pós-guerra, os Estados Unidos firmou-se como a nova potência mundial. Expandiu o comércio com a América Latina e Ásia, antes dominado pela Inglaterra. Abriu a concessão de créditos e empréstimos à França e à Inglaterra, permitindo expansão da exportação de produtos agrícolas e industriais àqueles países. De 1918 a 1928, o país atingiria o auge econômico da chamada era de ouro da geração do jazz.

O Prólogo da Crise

Com o fim da grande guerra, o apogeu da prosperidade econômica sofreu uma estabilização. A indústria bélica foi a mais afetada, pois a produção de armas diminuiu em tempos de paz. Os soldados que retornaram do conflito não conseguiam ser inseridos no mercado de trabalho. Aos poucos, a Europa começou a recuperar-se das conseqüências da guerra. França e Inglaterra, principais devedores dos norte-americanos, passaram a saldar as suas dívidas, a partir de 1922. As exportações diminuíram para o continente europeu.
De 1924, até a crise de 1929, a economia norte-americana viveu a euforia do período que ficou conhecido como “Big Business”. Para garantir o recebimento da dívida da França e da Inglaterra, que em contrato viria do pagamento da Alemanha, nação condenada internacionalmente a pagar as reparações da guerra, os Estados Unidos investiu nas empresas germânicas, garantindo o recebimento dos seus débitos na Europa.
No período do “Big Business”, também a paisagem dos centros urbanos foi alterada substancialmente, com velhos edifícios sendo demolidos e dando passagem a grandes arranha-céus, símbolos absolutos da opulência que se vivia; as ruas encheram-se de automóveis, a evidenciar o crescimento das fábricas automobilísticas; e , nas casas, as famílias de classe média usufruíam-se de aparelhos eletrodomésticos, outra característica do desenvolvimento tecnológico que o país alcançara. Sem perceber as armadilhas de uma economia volátil, o governo estimulava o desenvolvimento econômico em vários setores, inibia as importações e incentivava o consumo, além da concentração de capitais.
A prosperidade conseguida durante a Primeira Guerra Mundial, foi substancialmente perdendo espaço à medida que a Europa recuperava-se economicamente. Grande parte dos produtos industriais norte-americanos exportados foi deixando de ter mercado. Produzia-se mais do que se vendia, tanto na agricultura quanto na indústria. O desemprego nos campos originou um êxodo da população para os centros urbanos, saturando o mercado.
Nos grandes centros urbanos, a economia estava cada vez mais voltada para o mercado especulativo. Com o crescimento e mecanização das indústrias e o lucro exorbitante que geravam, as suas ações passaram a ser cotadas além do que valiam, atingindo grandes preços, fazendo com que o número de investidores na bolsa aumentasse significativamente. No meio da euforia, surgiram as sociedades anônimas e as empresas responsáveis somente em gerir e investir dinheiro. Sem controle, a especulação do mercado camuflou o real valor das ações.
Com a diminuição das exportações agrícolas, os proprietários rurais deixaram de poder saldar a suas dívidas, tendo que pagar milhões para armazenar os grãos não vendidos. Do campo, a crise expandiu-se para as cidades e, conseqüentemente, atingiu as indústrias, que diante de uma produção maior do que a consumida, foi obrigada a demitir trabalhadores. O desemprego retraiu o consumo, e atingiu as instituições bancárias. Estava armado o cenário para o grande colapso econômico.

A Quinta-Feira Negra

Pouco antes da crise que seria deflagrada em outubro de 1929, a situação do mercado econômico já se mostrava alarmante. Desde junho daquele ano, que a produção industrial fabril e do aço estavam em queda, apesar de alguns empresários negarem o declínio. No dia 3 de setembro, o jornal “The New York Times” publicava que a Bolsa de Nova York atingira o ápice histórico de 452 pontos. O marco atraiu ainda mais novos investidores, que seduzidos pela valorização das ações, arriscaram todo o capital que tinham naquele aparente negócio seguro, sem que se apercebessem do engodo.
Mas a realidade dos Estados Unidos, em 1929, estava aquém da euforia do mercado. Num desencadear avassalador, o desemprego, o aumento dos estoques do que se produzia, impossibilitaram que os industriais tivessem capital para saldar as dívidas e continuassem a manter os seus negócios. Acossados, muitos empresários foram obrigados a vender as suas ações no mercado, elevando o seu valor para que pudessem obter maiores lucros. Ao deslumbrar aquela forma de lucro, milhares de investidores fizeram o mesmo, aumentando e pondo à venda as suas ações. O efeito surtiu na direção contrária, com a elevação no valor das ações, elas não encontraram compradores, passando a flutuar no mercado especulativo, atingindo um valor nulo. Sem compradores, as ações despencaram vertiginosamente as suas cotações, levando à falência de bancos e industrias.
No dia 24 de outubro de 1929, uma quinta-feira, o pregão da Bolsa de Nova York passaria para a história como o dia mais negro da história da economia moderna. Desde o início daquela semana que as vendas de ações no mercado tiveram um aumento significativo. Na quinta-feira, ao perceberem que poderiam estar arruinados, os investidores puseram à venda, logo pela manhã, 6.091.870 títulos, gerando um dos maiores volumes de negócios da história da bolsa. O excesso de volume de vendas fez com que os preços caíssem rapidamente. Diante da gravidade do momento, o desespero tomou conta dos investidores, que puseram as suas ações à venda a qualquer preço. Às 11h30, o pânico era geral. Uma multidão de pessoas aglomerava-se nos arredores de Wall Street e Broad Street, formando um imenso cordão de desesperados. Amanhã ainda não terminara, e já onze conhecidos especuladores de Wall Street, então arruinados, já se tinham suicidado. Ao meio dia as portas da Bolsa de Nova York foram cerradas, evitando que a multidão a invadisse.
Diante da catástrofe iminente, os maiores banqueiros americanos fizeram uma reunião de emergência. Entre eles estavam Albert H. Wiggin, do Chase National Bank; Thomas W. Lamont, do Morgan Bank; e, Charles E. Mitchell, do National Bank. Juntos, decidiram injetar milhões de dólares na Bolsa de Valor, dando um pequeno alívio à catástrofe. No fim do dia, 12.894.650 títulos foram negociados, um volume de vendas que atingira todos os recordes de Wall Street. Estava consumada a “Quinta-Feira Negra” da história da economia e, um dos maiores colapsos econômicos do mundo.

A Quebra da Bolsa de Nova York

Após as turbulências do dia 24, os dias que se sucederam, sexta-feira e sábado, 25 e 26 de outubro respectivamente, uma aparente tranqüilidade parecia ter voltado aos negócios da Bolsa de Valores. Empresas de mercado chegaram a anunciar na sexta-feira, que o mercado estava sólido e mais atrativo do que antes.
Na segunda-feira, 28 de outubro, obteve-se um valor menor de vendas, mas com quedas acentuadas de pontos, obrigando que os banqueiros fizessem uma outra reunião emergencial. Ao fim de duas horas, ficou decidido que não haveria nenhuma ação de resgate e injeção de mais dólares no mercado. Já não havia como controlar a situação. Era a “Segunda-Feira Negra”.
No dia seguinte, 29 de outubro de 1929, o colapso da Bolsa de Valores de Nova York foi concretizado. Logo pela manhã, um grande volume de papéis foi posto à venda sem que encontrasse compradores. Ações outrora bem cotadas, chegaram a ser vendidas a 1 dólar. Rumores de que os grandes magnatas da economia norte-americana estavam a vender as suas ações, causaram ainda mais pânico aos investidores. Naquele dia, o volume de vendas atingiu 16.410.030 de títulos, quantidade ainda maior do que o da “Quinta-Feira Negra”.
O dia 29 de outubro de 1929, entrou para a história como a “Terça-Feira Negra”. Quando chegou ao fim, deixara milhões de pessoas na miséria em todo o mundo. Muitos dos arruinados eram ricos empresários, ou herdeiros de famílias abastadas. A desolação criava uma cena trágica, especuladores caminhavam sem rumo pelas ruas de Nova York, totalmente falidos. Ocorreram suicídios dos falidos por todo o mundo, como o de um corretor que se atirou ao rio Hudson. Após o crash da bolsa, os preços das ações valiam 80% a menos. Continuariam a flutuar por mais três anos, perdendo gradativamente o seu valor.
Após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, os Estados Unidos entrou num período de recessão econômica conhecido como “Grande Depressão”, levando a população à fome e à miséria. A depressão econômica só seria encerrada uma década depois. Os Estados Unidos eram os maiores credores do mundo, com a quebra das suas indústrias, passou a exercer pressão para receber os seus pagamentos, levando a Europa e a América Latina a sentir a crise econômica. No Brasil, ela afetou diretamente a já capenga exportação do café, na época a principal economia do país.
Especulação, economia volátil e predadora, ambição, vários foram os fatores que levaram à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. O mercado financeiro parece que não aprendeu com a catástrofe financeira. Outra ameaça aconteceria em 1987, quando um novo crash pairou sobre Wall Street.


ANISTIA – A VOLTA DOS EXILADOS

Outubro 23, 2009

Com o fim do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que deixou de vigorar em janeiro de 1979, estava aberto o caminho para que se aprovasse uma lei que trouxesse a anistia aos presos, exilados e processados pelos chamados crimes por motivação política.
A luta pela anistia no Brasil tornara-se intensa, ultrapassando os partidos de esquerda clandestina, atingindo, desde 1975, setores concretos e importantes da sociedade brasileira. Se em 1964 as mulheres, a igreja e os empresários uniram-se em passeatas para receber o golpe militar, o panorama político mudara diante da truculência da ditadura instaurada no país e, já não se acreditava no engodo que foi contado sobre uma possível revolução comunista. Mães, esposas, filhos e amigos de presos políticos, ao lado de estudantes, políticos, jornalistas e fortes adesões populares, uniram-se e formaram comitês de luta pela anistia geral, ampla e irrestrita a todos os brasileiros exilados naquele triste e obscuro período da ditadura militar.
Pressionado pelos movimentos pela anistia, o governo encaminhou, em julho de 1979, um projeto de lei ao Congresso Nacional, que previa o perdão aos crimes políticos. A proposta do governo, que excluía os condenados por terrorismo e favorecia aos militares e às autoridades responsáveis pelos atos de tortura, já tinha sido rejeitada antes, pela oposição do partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que exigia uma anistia ampla, geral e irrestrita.
Mesmo sob protestos e limitada diante do que ansiava a sociedade brasileira, por 206 votos contra 201, foi aprovada a Lei 6.683, sancionada no dia 28 de agosto de 1979, pelo último presidente da ditadura militar, João Figueiredo. A Lei da Anistia beneficiou 4.650 pessoas, fazendo com que retornassem ao país os políticos que, em 1964, foram tidos como os maiores inimigos do regime militar: os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes. Algum tempo depois, os aeroportos brasileiros foram tomados pelo regresso, um a um, dos chamados apátridas, que um dia, por lutar contra a ditadura militar, saíram pelas portas do fundo da história do Brasil. A volta era apoteótica, em clima de festa, com ampla cobertura da imprensa. Era a maior vitória contra o governo repressivo instalado desde 1964.
Três décadas após a promulgação da lei, em 2009, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, ex-marinho e militante de organizações de esquerda, foi o último exilado político a retornar ao Brasil, fechando para sempre o ciclo.
A Lei da Anistia desde que promulgada, teve alguns dos seus artigos revogados, e ainda é polêmica, uma vez que deixou isenta da punição os carniceiros dos porões da ditadura, que torturam e mataram centenas de pessoas. Mesmo diante das contestações, foi sem dúvida o maior passo para a volta das lideranças opositoras e históricas e para que se enterrasse de vez, a ditadura militar, finda em 1985.

As Mulheres Dão Início à Luta Pela Anistia

Após a imensa passeata pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu as tropas insurgentes comandadas pelo general golpista Olympio Mourão Filho, e a deposição do presidente João Goulart consolidada; começaram de imediato, a perseguição, a cassação, a tortura e os expurgos, que atingiram civis e militares contrários ao golpe.
Na primeira fase da ditadura, pré-AI-5, a tortura, embora mais discreta, só perdeu para as cassações. Após dezembro de 1968, promulgado o AI-5, retirou-se o hábeas corpus aos presos políticos, tendo como conseqüência à banalização e a institucionalização da tortura. Leis repressivas, como a Lei de Segurança Nacional, ou a da pena de morte para os chamados terroristas, foram implementadas. Os militantes de esquerda perderam os seus direitos civis, passando a viver na clandestinidade.
Numa resposta imediata às medidas repressivas do governo militar, a esquerda instituiu as guerrilhas urbanas e os seqüestros a diplomatas estrangeiros no Brasil. Vários presos políticos foram trocados pelos reféns. Na troca, eles eram postos em aviões e enviados para qualquer país que se dignasse a recebê-los. Uma vez fora do Brasil, esses presos políticos perdiam o direito à cidadania, tornando-se apátridas. Desde então, iniciava-se, timidamente, uma luta para que se anistiasse os presos e perseguidos do regime.
A luta pela anistia não significava somente a busca da redemocratização e a reconquista dos direitos políticos, como também da devolução da cidadania aos clandestinos e aos apátridas, além de pôr fim às torturas nos calabouços.
Oficialmente, a luta ela anistia partiu das mulheres brasileiras. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU), declarou aquele como o Ano Internacional da Mulher. Nas comemorações ao evento, Therezinha de Godoy Zerbini, respeitada advogada, mulher do general Euryale Zerbini, cassado em 1964 por dar o seu apoio ao governo de João Goulart; fundou em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), que se tornaria uma voz da sociedade civil na luta contra as medidas repressivas do regime, a favor do fim dos atos de exceção contra os presos políticos e os exilados.
Curiosamente, o movimento partia de uma tradicional família de militares, confirmando que nem todos daquele setor da sociedade brasileira eram favoráveis à ditadura instaurada em 1964. Therezinha de Godoy Zerbini foi sempre vigiada pela polícia repressiva do regime. Chegara a ser presa sob a acusação de ter intermediado o empréstimo do sítio em Ibiúna, onde se deu o famoso e fatídico congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1968. Ao lado de mais oito mulheres, a advogada redigiu um manifesto em prol da anistia, lendo-o na Cidade do México, durante uma conferência da ONU, em comemoração ao Ano Internacional da Mulher.

Eclodem os Movimentos Pela Anistia

Conclamando toda a nação a lutar pela anistia, o movimento feminino espalhou-se por vários setores da sociedade, trazendo para si as adesões da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), da igreja católica e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, entre outras. Em 1976, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, teve o aplauso de três mil pessoas quando, em reunião, aprovou uma moção pela anistia. Em 1978, foi fundado na cidade do Rio de Janeiro, o Comitê Brasileiro pela Anistia, com sede na ABI. O Brasil aderia, de norte a sul, àquele movimento.
A luta alcançou, também, setores liderados por políticos que faziam parte da sustentação do governo, como o senador Teotônio Vilela. Ao visitar os 84 presos políticos que faziam greve de fome por todo o Brasil, o senador entrou em contacto com a triste realidade da tortura no país, comprovando o terror que se abatia sobre aqueles prisioneiros. Emocionado, Teotônio Vilela ajoelhou-se diante das vítimas da tortura e pediu perdão por não ter visto antes tamanha barbárie. O senador tornar-se-ia um veemente defensor da redemocratização do Brasil. Na luta pela anistia, saiu em comícios pelo país, soltando uma pomba como símbolo da esperança. O seu gesto seria repetido nos comícios do movimento pelas Diretas Já, em 1984. Teotônio Vilela entraria para a história com a alcunha de “Menestrel das Alagoas”.
Ao ver aflorar tantos movimentos, o governo decidiu ele próprio enviar um projeto de anistia para o Congresso, evitando que se estendesse para os seus maiores inimigos, chamados de terroristas, e que salvaguardasse os militares e civis envolvidos diretamente com a tortura no Brasil, evitando que sofressem punições ou retaliações futuras.
Assim, o então ministro da justiça, Petrônio Portella, redigiu o projeto de lei, em julho de 1979, enviando-o para ser votado no Congresso em agosto. O texto final seria divulgado em uma cerimônia transmitida pela televisão.
Nos bastidores, a oposição ao regime militar condenava o projeto e às limitações que trazia. De 22 de julho a 22 de agosto de 1979, foi realizada uma greve de fome em todo o Brasil pelos presos políticos, contrários ao projeto da lei da anistia redigido por Petrônio Portella. Nos movimentos que eclodiam pelo país, as palavras de ordem eram: “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita”.

Promulgada a Lei

Concretamente, o projeto beneficiava aos presos que se enquadravam nas punições previstas pela Lei de Segurança Nacional. De abril de 1964 a julho de 1979, 2.429 pessoas tinham sido condenadas por aquela lei. Eles estavam divididos em dois grupos para efeito de anistia:
O primeiro grupo, composto por 1.729 pessoas, era o dos punidos por crimes políticos propriamente ditos, sendo eles os militantes clandestinos que não se haviam envolvido com o terrorismo. Assim, a lei beneficiava de imediato, o líder comunista histórico Luís Carlos Prestes; antigos líderes estudantis, como Vladimir Palmeira; o líder político e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola; o sociólogo Herbert de Souza, o irmão do Henfil, que seria imortalizado pela música “O Bêbedo e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc; e vários outros.
O segundo grupo, composto por 700 condenados, reunia os condenados por assalto a bancos e atos de terrorismo. Diante das críticas, Petrônio Portella declararia que futuramente, alguns deles, poderiam receber indultos.
Finalmente, no dia 22 de agosto de 1979, o projeto seguiu para votação no Congresso. Naquele dia, em Brasília, três mil pessoas foram às ruas em um ato público para exigir a anistia geral e irrestrita. No plenário do Congresso Nacional, não sobrou espaço vazio mediante a multidão que o encheu. Nas galerias, ouvia-se os populares, que vaiavam retumbantemente a cada discurso proferido pelos representantes da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o repressivo partido do governo. Ao fim de uma votação acirrada, foi aprovada, por 206 votos contra 201, a anistia aos crimes praticados por motivações políticas no Brasil.
Em 28 de agosto de 1979, o presidente militar, general João Batista Figueiredo, sancionava a Lei nº 6.683, redigida pelo governo da ditadura, que seria conhecida como a Lei da Anistia. Era o chamado perdão que o governo repressivo, vencedor em 1964, dava aos seus inimigos vencidos e futuros vencedores da redemocratização, em 1985. Eram anistiados todos os cidadãos punidos desde 9 de abril de 1964, data da edição do Ato Institucional nº 1 (AI-1). Estudantes, intelectuais, professores, cientistas, ex-militares, principalmente de baixas patentes, muitos afastados das suas funções, receberam o benefício da nova lei.
Mas a Lei da anistia trazia as suas restrições. O reaproveitamento de servidores públicos e de militares anistiados, ficou sujeito à decisão de comissões especiais criadas pelos respectivos ministérios para estudar cada caso. Ficaram de fora as pessoas condenadas pelos classificados “crimes de sangue” ou atos terroristas, praticados por aqueles que recorreram a grupos de luta armada. Os que cometeram crimes de sangue contra a esquerda, os militares torturadores e assassinos, foram todos beneficiados.
A Lei da Anistia atingiu e beneficiou 4.650 pessoas. Libertou presos políticos que se encontravam nos calabouços brasileiros; beneficiou os destituídos dos seus empregos e funções; possibilitou a volta dos exilados. No dia 1 de novembro de 1979, começavam a chegar nos aeroportos, os primeiros exilados políticos. Miguel Arraes, Herbert de Souza, Leonel Brizola, Fernando Gabeira… Cada um que chegava, era recebido entre aplausos e sorrisos, sob o registro da imprensa nacional.
Em 1985, Theodomiro Romeiro dos Santos, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o único preso político que havia sido condenado à morte por ter assassinado um sargento da Aeronáutica, em 1970; foi o último exilado político a ser anistiado, perdão concedido pela redemocratização do país. Mas, curiosamente, o último exilado político a voltar para o Brasil, em 2009, trinta anos depois da promulgação da Lei da Anistia, foi o ex-marinheiro e militante das guerrilhas urbanas, Antonio Geraldo da Costa, o Neguinho, aos 75 anos. Ele vivera até então, exilado na Suécia, com uma identidade falsa. Não retornou antes, porque não acreditava que a anistia concedida era verdadeira.
Ao trazer os brasileiros “apátridas” de volta, libertar os opositores ao regime das prisões, foi encerrado um período de dor e de vergonha da história do Brasil. Os anistiados torturados, agradeceram à Lei da Anistia, apesar de contestá-la em vários pontos; os anistiados torturadores, jamais fizeram um pedido de desculpa à nação, arrogantemente, continuam a conclamar que cumpriram com o dever patriótico, protegendo a nação. Que nação eles protegeram? A da minoria da elite que representaram?


A NOITE DAS FACAS LONGAS

Setembro 29, 2009

A subida de Hitler e do Partido Alemão dos Trabalhadores (NSDAP), o partido nazista, ao poder do governo germânico, em 1933, deu-se com a ajuda fundamental da Sturmabteilung ou SA, uma milícia paramilitar nazista com grande influência e poder dentro da Alemanha.
Liderada por um herói da Primeira Guerra Mundial, o capitão Ernst Röhm, e formada pelos setores menos favorecidos da nação alemã, como desempregados, homens pobres e sem os privilégios da elite secular, a SA exercia o seu poder através da violência e coação dos que se opunham a ela e aos conceitos nazistas. Seus membros eram conhecidos como “camisas pardas”, devido à cor dos uniformes que usavam. Na década de 1920, como milícia de Adolf Hitler, eram usados para intimidar os adversários políticos, em destaque os sociais democratas e os comunistas. Grandes batalhas foram travadas entre membros da SA e os comunistas nas ruas das cidades alemãs, levando o país ao caos e desestabilização que possibilitou a ascensão de Hitler ao poder.
Ernst Röhm era conhecido pela sua grande capacidade de organizador de massas. Era um homem cruel e de ambições políticas que incomodava à elite alemã. Quando o nazismo chegou ao poder, Röhm garantiu a autonomia da SA dentro do próprio partido. Continuou, através da violência nas ruas, a intimidar qualquer inimigo. No poder, desfilavam pelas ruas de limusines, a espancar bêbados; promoviam banquetes extravagantes, e principalmente, conclamavam orgias homossexuais entre as suas lideranças. A condição homossexual explícita de Ernst Röhm foi o que mais incomodou os poderosos e conservadores alemães. Röhm sonhava em transformar a SA no poderoso exército alemão. As suas pretensões atraíram para si a pressão dos políticos, exército e industriais alemães, que exigiram de Adolf Hitler a sua cabeça. As elites ameaçaram retirar o seu apoio aos nazistas. Acossado, Hitler não pensou duas vezes, teria que eliminar qualquer obstáculo à consolidação do nazismo na Alemanha, optando por eliminar antigos companheiros do próprio partido. Assim, engendrou-se um plano de expurgos que resultou no assassínio de personalidades apontadas em uma lista como entraves ao poder de Hitler. Ernst Röhm e vários membros da SA, foram os mais atingidos. Na noite de 30 de junho para 1 de julho, de 1934, dezenas de pessoas foram presas e executadas, numa operação sanguinária que entrou para a história como a “Noite das Facas Longas” ou “Noite dos Longos Punhais”. Após o banho de sangue, o caminho estava aberto para Adolf Hitler consolidar o seu poder absoluto sobre a Alemanha.

Ernst Röhm e a Sturmabteilung

A história da Sturmabteilung ou SA, está estreitamente vinculada à biografia de Ernst Röhm, um representante genuíno da geração perdida alemã da Primeira Guerra Mundial. Ferido três vezes durante a guerra, trazia no rosto profundas cicatrizes que lhe outorgavam o título de herói. Röhm aderiu ao partido nazista já em 1918, ano da sua fundação. Em 1919 passou a fazer parte do fechado grupo de amigos de Adolf Hitler.
Versões da história apontam Ernst Röhm como o responsável pela entrada de Hitler na política. Após um exaltado discurso do futuro führer em um bar de Munique, induziu-o e incentivou-o a participar da vida política alemã.
Em 29 de julho de1921, Hitler tornou-se o líder do partido nazista, iniciando um processo radical e revolucionário em busca do poder. Foi também em 1921, que a Sturmabteilung, a SA, uma força de assalto, foi fundada dentro do partido nazista. Foi desenvolvida a partir dos Freikorps, organização nacionalista surgida logo após a Primeira Guerra Mundial; seus membros eram pessoas financeiramente desfavorecidas e empobrecidas pela guerra. Os Freikorps condenavam o governo alemão, responsabilizando-o pela humilhação do país ao assinar o Tratado de Versalhes. Ernst Röhm era o comandante principal.
A SA, ao substituir os Freikorps, usava como meio de expansão da ideologia nazista a intimidação, o medo e ataques violentos a outros partidos. Além de ter como integrantes os desempregados e desfavorecidos sociais, recrutava para as suas fileiras ladrões e assassinos, formando uma tropa de assalto nazista violenta e em ebulição constante. Confrontos sangrentos foram travados entre os nazistas da SA e os comunistas.
Ernst Röhm mostrou-se sempre um talentoso organizador, atraindo para o partido nazista e à sua milícia paramilitar um grande número de adeptos. Dizia que a organização de um exército plebeu traria de volta a honra alemã, perdida com a guerra. Esteve sempre ao lado de Hitler, mesmo quando este foi preso em 1923, acusado de traição, após o fracassado golpe que ficou conhecido como Putsch da Cervejaria, movimento com a intenção de tomar o poder na Bavária pelos nazistas, que depois seguiriam em marcha por toda a Alemanha. O golpe era uma imitação clara à marcha sobre Roma, que levara Mussolini ao poder na Itália.
Homossexual assumido, Ernst Röhm era um homem que dava grande valor ao companheirismo e lealdade entre os homens da caserna, característica que herdara dos seus tempos de guerra. Era cruel e sanguinário, com uma veia criminosa travestida por um eloqüente nacionalismo revolucionário. Na luta para que o partido nazista chegasse ao poder, acreditava que só aconteceria através da violência revolucionária. Chegara a anunciar que mataria doze homens para cada membro da SA que fosse assassinado. Os confrontos constantes com os comunistas geraram grande número de mortos e feridos, trazendo a instabilidade para o governo alemão, favorecendo a ascensão de Hitler ao poder.

Surgimento da SS

Os membros da SA passaram a ser conhecidos como os “camisas pardas”, devido à cor dos seus uniformes. Tornaram-se temidos pela população por causa do uso da intimidação nas ruas. Hitler prometeu pôr fim à violência urbana se chegasse ao poder, como se as milícias do próprio partido nazista não fossem as principais propagadoras dessa violência. A promessa valeu-lhe a ascensão política em 1933.
Ernst Röhm transformara a SA, que de força paramilitar privada de Hitler, passou a ser uma grande milícia popular, formada na sua essência, por combatentes de ruas e baderneiros. Em pouco mais de um ano, as suas fileiras foram engrossadas de 70 para 170 mil membros.
Paralelamente, foi criada dentro da SA, em 1925, uma organização altamente disciplinada, a Schutztaffel (SS), encarregada da proteção pessoal de Adolf Hitler. Logo a SS foi designada como força de proteção do partido nazista e dos seus líderes. De 1925 a 1929, a SS era tida como um batalhão da SA, possuindo 280 membros. Em 1929, Heinrich Himmler foi nomeado o seu líder, expandido-a até 1932 para 52 mil membros.
Se nas fileiras da Sturmabteilung estavam homens rudes, movidos pela violência latente, na Schutztaffel eram encontrados homens com uma logística tática mais voltada para a inteligência militar, sem jamais perder a vertente sanguinária de uma força paramilitar de defesa. Futuramente, seria a SS uma das principais responsáveis pela queda da SA.

A SA Passa a Ser Um Obstáculo Para Hitler

Mesmo depois da chegada do partido nazista ao poder, a violência da SA não cessou. Os seus membros continuaram a promover distúrbios nas ruas, a espancar e torturar bêbados e minorias raciais, matando muitas vezes, inocentes. Eram conhecidos pelo grande aparato que promoviam, desfilando em luxuosas limusines pelas ruas. Faustosos banquetes regados a muita bebida, davam passagem para luxuriantes aventuras, muitas envolvendo homens do mesmo sexo. A prática aberta do homossexualismo nas fileiras da SA, serviu como ponto de repúdio da sociedade alemã mais conservadora e supostamente mais religiosa.
Uma vez no poder, a ambição de Röhm era ser comandante supremo das forças armadas alemãs. Queria que Hitler incorporasse o exército a SA, formando uma poderosa organização militar. Afinal, logo a seguir a chegada do partido nazista ao poder, a Sturmabteilung tinha um contingente de cerca de três milhões de homens, enquanto que o exército sucumbia à humilhante resolução do Tratado de Versalhes, que não lhe permitia ter mais de cem mil homens. Röhm contava que Hitler, velho companheiro de partido, firmasse a expansão e poder militar da SA.
Mesmo no poder, Hitler não tinha o controle absoluto. Precisava do apoio da classe média alemã, da tradicional e poderosa aristocracia, dos donos das indústrias e do exército. O populismo exacerbado de Röhm era contra àqueles setores. Para as milícias da SA, as classes privilegiadas eram as culpadas pela degradação da Alemanha e pela humilhação que se lhe fora imposta após a derrota na Primeira Guerra Mundial. A violência da SA, suas orgias, a postura sexual aberta dos seus líderes, contribuíam para que fosse combatida pela classe média germânica.
A violência da Sturmabteilung contra a população, suas manifestações arruaceiras, tudo ia contra o que Hitler prometera ao povo alemão para que chegasse ao poder. Poderosos aristocratas, industriais, o exército alemão, ameaçavam retirar seus apoios a Hitler se não demitisse Röhm e acabasse com o poder e violência da SA. Por outra vertente, o líder da milícia nazista pressionava o chanceler a dar mais poderes militares àquela que fora uma organização fundamental na ascensão do partido ao poder. Röhm condenava qualquer vínculo com os conservadores do governo alemão, considerando-os inimigos e traidores da Alemanha, irritando-se com a repentina burocratização do partido nazista.
Mas Hitler precisava mais do apoio de todos os setores da sociedade alemã do que da velha ideologia dos antigos companheiros de partido. Tinha a intenção de expandir o exército alemão, controlando-o por completo, incorporando os melhores homens da SA a ele, transformando-o em uma força que lhe serviria para a ambição bélica que tinha em mente. Röhm, velho companheiro e amigo, passou a ser uma preocupação, um grande obstáculo aos planos políticos de Hitler. Era preciso que fosse neutralizado.

A Operação Colibri

No início de 1934, o ministro da defesa da Alemanha, o general Werner von Blomberg, escreveu um memorando a Hitler para que incorporasse a SA ao Reichswehr (exército). Em resposta, Hitler promoveu um encontro entre ele, Blomberg e Röhm. Hitler pressionou Röhm, que relutante, viu-se obrigado a assinar um acordo, reconhecendo a superioridade do Reichswehr sobre a SA. Quando Hitler se retirou, Röhm declarou publicamente que não iria seguir as ordens do “ridículo”. Desde então, passou a fazer discursos públicos contra o que chamava de burocratização do nazismo, aumentando os seus desafetos dentro do partido e irritando Hitler.
A pressão contra Röhm veio de todos os setores conservadores da Alemanha. O vice-chanceler Franz von Papen, um católico conservador, em um discurso inflamado, criticou os nazistas, condenou a conduta sexual dos membros da SA, avisou sobre uma possível revolução organizada pela organização e, ameaçou pedir demissão se Hitler não agisse contra os seus líderes. Diante do impasse, o presidente Paul von Hindenburg, que nomeara Hitler chanceler, ameaçou pôr o país em lei marcial. Àquela altura, Röhm já havia caído em desgraça diante de Hitler, a sua contribuição história para a ascensão do nazismo já nada valia, a sua vida muito menos.
Mais do que demitir Röhm, Hitler optou por um expurgo que atingiria não só a SA e os seus líderes, mas a todos os seus inimigos. Na preparação do expurgo, Heinrich Himmler e o deputado Reinhard Heydrinch, membros da SS, forjaram um dossiê que sugeria o recebimento de doze milhões de marcos alemães por Röhm, vindos do governo francês, para que depusesse Hitler. Os dois espalharam que a SA estava a promover um violento golpe para tomar o poder. Estava criada a “Operação Colibri”, com a missão de viabilizar o expurgo.
Hermann Göring e Himmler, prepararam, em 26 de junho de 1934, uma lista com os nomes de todas as pessoas que poderiam, de uma forma ou de outra, ameaçar Adolf Hitler e o partido nazista. Quem constasse na lista, deveria ser morto no dia da operação.
Dando seguimento aos planos, no dia 27 de junho, Hitler nomeou um grupo tático especial para levar a operação a cabo, planejando todos os detalhes. Tudo teria que ser feito com discrição e em uma única noite; exigências do próprio Hitler.
No dia seguinte, 28 de junho, mostrando-se tranqüilo, o chanceler prestigiou o casamento de Gauleiter Josef Terboven, indo à cerimônia realizada em Essen. No casamento, um telefonema, provavelmente a fazer parte da farsa, alertava Hitler que tinha acontecido uma suposta tentativa de golpe vinda por parte de Röhm e da SA.
No dia 29 de junho, Hitler encontrava-se em um hotel em Bonn, quando Himmler o informou de que a SA já sabia da Operação Colibri, e que as suas tropas tinham ido para a rua, em Munique. Hitler decidiu ir para Munique e derrubar a SA. Em outra versão da história, Hitler ordenou ao assistente pessoal de Röhm que reunisse toda a tropa da SA e que se encontrasse com ele na noite seguinte, 30 de junho. Atraídos para uma armadilha, Röhm e os seus companheiros não se deram conta do ardil que se lhes ia abater.

Deflagrada a Noite das Facas Longas

Hitler chegou a Munique no sábado, 30 de junho. Tão logo desembarcou, ordenou que fossem presos os membros da SA que se encontravam na sede do partido nazista da cidade. Em seguida, rumou para o Ministério do Interior, indo de encontro aos dirigentes da SA que haviam promovido uma briga urbana na noite anterior. Em um ataque de histeria, Hitler retirou as medalhas e a parte de cima do uniforme de um chefe de polícia, acusando-o de não obedecer às suas ordens de manter a ordem na cidade.
Já era madrugada, quando Hitler dirigiu-se para Bad Wiesse, local próximo de Munique, onde Röhm e os seus homens estavam hospedados no Hotel Hanselbauer, junto ao lago Tegernsee.
Sem suspeitar da armadilha que se vislumbrava, Ernst Röhm e os seus homens beberam e festejaram naquela noite, fazendo do hotel o palco de uma festa faustosa já tradicional entre os membros da SA. Embriagados, aos poucos, os homens retiraram-se para os seus quartos, sozinhos ou acompanhados.
Hitler chegou ao hotel escoltado por uma grande coluna de tropas e carros. Registros divergem de como ele adentrou nas instalações do hotel. Há os que dizem que trazia uma pistola na mão, outros apontam para um rebenque. Seguiu para o quarto onde se encontrava Röhm, acompanhado por dois agentes da polícia, que traziam armas em punho. Encontrou o líder da SA deitado. Bradou furiosamente:
Röhm, você está preso!
Ainda sonolento, pesado pelos resquícios da bebida que ingerira, Röhm, sem aperceber o que se passava, levantou a cabeça do travesseiro, olhou Hitler surpreso e disse: “Heil mein Führer”. Hitler repetiu a ordem de prisão, saindo logo a seguir do quarto.
A mesma ordem correu por todos os quartos do hotel, atingido aos chefes da SA, que em segundos, viram-se transformados de companheiros nazistas a traidores da causa. Em um dos quartos, o deputado e oficial Edmund Heines, foi encontrado na cama com um outro jovem companheiro da SA. Ao saber do fato, Hitler ordenou que Heines fosse morto. Ele foi executado ali mesmo, no quarto que ocupava no hotel.
Vários líderes da SA que chegaram ao hotel, para um encontro com Röhm, foram imediatamente presos pela SS. Röhm e os companheiros foram enviados para a prisão de Stadelheim, em Munique.
Hitler telefonou de Munique para Göring, em Berlim, utilizando o código “colibri”, que deflagrou uma operação sangrenta, com várias prisões e execuções que se propagou pelas principais cidades da Alemanha. Era a caça aos líderes da SA e aos inimigos políticos de Hitler, cujos nomes constavam na lista. Era a concretização da barbárie nazista contra os próprios companheiros, que entraria para a história como a “Noite das Facas Longas” ou “Noite dos Longos Punhais”.

Execuções e Mortes

Longe do Hotel de Bad Wiesse, a caça às bruxas teve início em Berlim e por mais 20 cidades da Alemanha. Em Bremen, Karl Ernst, membro berlinense da SA, líder nazista que esteve envolvido no incêndio do edifício do Reichstag, em 1933, foi preso logo após o seu casamento, quando se preparava para embarcar em lua de mel para a ilha da Madeira. Ao ser preso, Karl Ernst pensou que se tratava de uma brincadeira de despedida de solteiro. Levado para Berlim, ele sorria e mostrava os braços algemados, sempre a crer que era uma brincadeira. Foi encostado no muro de Lichterfeld, sendo fuzilado. Não acreditando na tragédia que se lhe esperava, ainda exclamou um “Heil, Hitler”, segundos antes de ter o corpo trespassado pelas balas.
Na lista macabra dos nazistas, constava não só os velhos companheiros da SA. Entre os desafortunados estavam:
Gustav Ritter von Kahr, ex-comissário que se tinha oposto a Hitler durante o Putsch da Cervejaria, em 1923. Kahr teve o corpo cortado por golpes de picareta e atirado em um pântano aos arredores de Dachau; padre Bernhard Stemple, profundo conhecedor e crítico do livro “Mein Kampf”, escrito por Hitler, o padre foi executado por uma bala; Kurt von Schleicher, ex-chanceler da Alemanha, especialista em engendrar intrigas políticas, foi executado com a esposa em sua casa; Gregor Strasser, um dos membros primitivos do partido nazista, que se desligara dele em 1932; Erich Klausener, líder da ação católica alemã; Franz von Papen, vice-chanceler da Alemanha, preso por ter discursado contra Hitler e o nazismo, foi anistiado por Hitler, sendo proibido de comentar o ocorrido; Herbert von Bose, secretário de Papen, não teve a mesma sorte, sendo executado pelos nazistas; Edgard Jung, sócio de Papen e autor do seu discurso contra os nazistas, também foi executado.
Willi Schmidt, crítico de música de um jornal de Munique, foi preso em sua casa quando tocava violoncelo. Levado por quatro homens da SS, foi executado por engano, sendo confundindo com outro Willi Schmidt da lista. O seu corpo foi devolvido à família em caixão fechado, proibido de ser aberto, por ordem da Gestapo.
Ernst Röhm foi mantido na prisão de Stadelheim, em Munique, até do dia 2 de julho. Hitler decidiu que o ex-amigo e companheiro fosse sentenciado com a pena de morte. Dois oficiais da SS, entre eles Theodor Eicke, que se tornaria mais tarde, chefe do campo de concentração de Dachau, foram enviados por Hitler à cela de Röhm. Levaram ao líder da SA uma pistola e dez minutos para que ele se matasse. Röhm recusou-se a cometer suicídio, proferindo: “Se vou ser morto, deixe que o Sr. Hitler faça isso”. Após uma espera de dez minutos, vendo que nada acontecia na cela do prisioneiro, os membros da SS voltaram. Ao abrir a porta, depararam-se com Röhm de pé, completamente nu. Um dos oficiais, desconfiado daquela atitude provocativa, desferiu um tiro fulminante em Röhm. Consta que as últimas palavras do ex-líder nazista teriam sido: “Mein Führer!

A Alemanha Aplaude a Noite das Facas Longas

Após o expurgo, vários membros da SA abandonaram qualquer idéia de oposição a Hitler e às lideranças do partido nazista. Hitler justificou as mortes como um ato de defesa do Estado, ameaçado por uma tentativa sanguinária de golpe promovida pelos líderes da SA. Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda, plantou a idéia da conspiração em todos os órgãos de notícia alemães. Göring ordenou que todos os documentos dos dois últimos dias que precederam à “Noite das Facas Longas”, fossem queimados.
Ao discursar à Nação, em 14 de julho, Hitler mostrou-se como um salvador da ameaça à soberania da Alemanha e aos costumes do seu povo. Foi aplaudido pelo exército alemão e por grande parte da população. Hitler proibiu na SA a prática de homossexualismo, conduta comum naquela organização, até então sabida e tolerada por ele. Proibiu os banquetes, a embriaguez e a irreverência dentro da milícia. Nomeou Victor Lutze para assumir o lugar de Ernst Röhm. Com a morte de Röhm e sob a direção de Lutze, a milícia foi perdendo gradualmente a sua importância e os seus membros.
A “Noite das Facas Longas” serviu para que Hitler e o regime nazista, no início da sua implantação, fossem consolidados e que se acabasse a autonomia de várias entidades em relação ao poder centralizado do führer. A operação elucidou aos alemães que qualquer oposição ao regime seria punida com a morte. Devido à queima total dos arquivos, jamais ficou claro o número de mortos na chacina da “Noite das Facas Longas”, há quem aponte 85 mortos, há os que defendem entre 200 e 250 vítimas. Mais tarde, teorias foram defendas de que a suposta homossexualidade de Hitler fosse a verdadeira causa do massacre aos membros da SA. Desde então, o homossexualismo foi perseguido na Alemanha nazista, levando à prisão e aos campos de concentração milhares de pessoas. Seja qual for a causa, a “Noite das Facas Longas” representou a execução de homens sanguinários, por seus velhos companheiros de luta, ainda mais sanguinários e atrozes.


FRANÇA DE VICHY – O GOVERNO DA DESONRA DE UMA NAÇÃO

Setembro 17, 2009

Em 1939 os exércitos de Hitler invadiram a Polônia, tendo como conseqüência a deflagração da Segunda Guerra Mundial. Inglaterra e França foram as primeiras nações a declarar guerra à Alemanha. Menos de um ano depois, o exercito francês foi capitulado, obrigando à redenção total da França ante ao regime nazista.
Humilhada, a França, através do marechal Philippe Pétain, assinou o acordo de rendição à Alemanha, sendo dividida em duas zonas principais: ocupada e não ocupada. A chamada França ocupada, que consistia na parte norte e ocidental, toda a costa do Atlântico Norte e a capital Paris, passou a ser controlada diretamente pelo regime nazista; o restante do território seria administrado por um suposto regime livre, liderado por Pétain, com capital na cidade de Vichy. Surgia o Estado Francês, vulgarmente chamado de França de Vichy, ou República de Vichy.
O período em que a França livre foi governada da cidade de Vichy durou de 1940 a 1944, sendo um dos mais obscuros da história do país. Pétain construiu um regime colaboracionista com os nazistas, movido pela direita conservadora e moralista. Durante quatro anos, as Milícias de Vichy prenderam cidadãos que se opunham ao regime, fuzilou suas lideranças, entregou os judeus franceses aos alemães, além de adotar a política nazista da segregação racial, enviando ciganos, prostitutas, indigentes, homossexuais e outras minorias para os campos de concentração. Também a eugenia fez parte desse regime de exceção do Estado Francês.
Na contramão da França de Vichy surgiu a Resistência Francesa, movimento liderado por oponentes idealista, que com operações logísticas de inteligência de guerra, sabotavam, combatiam e lutavam por um país livre da ocupação nazista e do regime infame governado por Pétain.
O regime da França de Vichy só se extinguiu com a chegada das forças Aliadas ao país, a libertação da opressão nazista e o fim da Segunda Guerra Mundial. Passou para a história como o momento mais vergonhoso do povo francês. Ainda hoje historiadores dividem-se sobre o período, alguns acham um mal necessário, com a população a pagar os custos da invasão às tropas alemãs, evitando que os franceses deixassem o país. Outros acham que melhor teria sido não aceitar tão humilhante regime imposto pelos nazistas, e sim deixar o continente, formando um exército de resistência no Norte da África, nas então colônias francesas daquele continente. Por trás da França de Vichy estavam os franceses que sustentavam a idéia de uma França de raça pura e de ideais nacionalistas próximos às ditaduras de Franco, da Espanha, e do próprio Hitler, da Alemanha nazista. Colaboracionismo, racismo, perseguições e fuzilamentos marcaram com uma grande nódoa a história da França, fazendo da República de Vichy um momento de humilhação e vergonha do povo francês.

A França é Capitulada pelos Alemães

O governo nazista de Adolf Hitler propunha a elevação e expansão da Alemanha, transformando-a na maior potência da Europa e do mundo. A ideologia nacionalista do governo do Terceiro Reich procurava devolver ao povo alemão a alto-estima perdida após a derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1938, com o consentimento do povo austríaco, Hitler anexou a Áustria à Alemanha. No mesmo ano, reivindicou a integração dos Sudetos, região montanhosa da antiga Tchecoslováquia, habitada por minorias germânicas. Diante da ameaça expansionista nazista, foi realizada uma conferência internacional em Munique, onde a França e a Inglaterra cederam às intenções dos alemães, permitindo a anexação dos Sudetos.
Mas os objetivos expansionistas da Alemanha não pararam. Em 1 de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, derrotando as tropas polacas em um mês. A parte oriental da Polônia foi ocupada pela União Soviética, no cumprimento do acordo Ribbentrop-Molotov, assinado entre as duas nações. Desta vez, França e Grã-Bretanha opuseram-se a esta invasão, declarando guerra à Alemanha. Iniciava-se o maior conflito da humanidade, a Segunda Guerra Mundial.
A guerra entre a Alemanha e França foi considerada como uma falsa demonstração de poder, visto que o exército francês estava aquém das forças do Reich. Numa guerra relâmpago, os franceses seriam capitulados em poucos meses. Em 10 de maio de 1940 começou a ofensiva alemã contra os exércitos franceses, dando início à Batalha de França. Em poucos dias, a Holanda e a Bélgica sucumbiriam às forças nazistas. Em 20 de maio, o primeiro ministro francês, Paul Reynaud, demitiu o general Gamelin, nomeando o general Weygand para que traçasse a estratégia e medidas contra o cerco alemão. A partir de 23 de maio, as cidades portuárias da região de Calais foram sucumbindo uma a uma, ao exército de Hitler. A ofensiva prosseguiu rumo a Paris. Em 5 de junho, o exército francês comandado por Weygand foi derrotado. Em 10 de junho, a Itália, aliada da Alemanha, declarou guerra à França. Em 14 de junho, os alemães tomaram Paris. Em fuga, o governo francês transferiu-se para Bordéus, à espera da ajuda dos aliados britânicos.
Após a queda de Paris, o marechal Philippe Pétain anunciou publicamente, através do rádio, em 17 de junho, que a França proporia um armistício, com a intenção de render-se aos alemães. O primeiro-ministro Reynaud, recusou-se a assinar a rendição, demitindo-se do cargo. Em 22 de junho de 1940, o marechal Pétain, que assumiu o lugar de Reynaud, assinou o armistício com a Alemanha, após a rendição do Segundo Grupo do Exército Francês, entrando em vigor em 25 de junho. Ironicamente, a rendição oficial, foi dada em Compiègne, no mesmo trem que a Alemanha, em 1918, ao fim da Primeira Guerra Mundial, fora obrigada a render-se. Imagens do marechal Pétain a apertar a mão de Adolf Hitler tornam-se símbolos da propoganda nazista, sendo divulgadas pelo mundo inteiro. Estava concretizada a maior vitória dos exércitos do Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial.

Criada a França de Vichy

Com a ocupação da França pelos nazistas, não só a situação política-administrativa do país foi alterada, como também a sua geografia. No mapa da Europa, a França foi dividida em três partes: a França de Vichy, formada pelo centro-sul do país, com o governo entregue ao marechal Pétain, com centro administrativo a partir da cidade de Vichy, na França central, sendo ali exercido um governo colaboracionista com os nazistas, com forte orientação fascista. A França Ocupada, formada pelo norte e pela costa atlântica francesa, incluindo a capital, Paris; sendo uma zona comandada diretamente pelas autoridades militares germânicas. Finalmente, a terceira parte, os territórios da Alsácia-Lorena, foi anexada à Alemanha, tornando-se parte do território daquele país.
A divisão da França pôs fim à Terceira República Francesa (1870-1940). Na França de Vichy, Paris continuou a ser a capital oficial, embora não o fosse administrativamente. Philippe Pétain era, em 1940, um velho herói da Primeira Guerra Mundial. Durante o tempo que governou de Vichy, prometeu sempre devolver a administração a Paris, assim que o fosse possível fazer.
O governo de Vichy apresentava-se como um regime de neutralidade à guerra, mas na prática colaborava ativamente com o governo de Hitler. O termo “República Francesa” foi substituído por “Estado Francês”. Para garantir o regime, em 10 de julho de 1940, Pétain conclamou a França de Vichy, através de uma Assembléia Nacional, deixando de ser o último primeiro-ministro da Terceira República, transformando-se no chefe do Estado Francês, obtendo amplos poderes no novo cargo.
O regime de Vichy na verdade governava à sombra das diretrizes de Berlim. Não administrava apenas a considerada zona livre do sul da França, a sua jurisdição estendia-se ao longo de toda a França metropolitana, com exceção da Alsácia-Lorena, território que se tornou parte da Alemanha.
Quando as forças Aliadas desembarcaram no Norte da África, os alemães desencadearam a Operação Processo Anton, em 11 de novembro de 1942, ocupando o sul da França, zona considerada neutra e livre. O regime de Vichy continuou a exercer jurisdição sobre quase toda a França, apesar de ter os poderes diminuídos. A partir de então, a colaboração com os nazistas tornou-se mais intensificada, sendo adotados claramente as suas políticas raciais. O marechal Pétain tornou-se chefe de um Estado com um programa político reacionário, ao qual chamou de “Revolução Nacional”, que se proclamava como regenerador da nação.

A Política Racial do Regime de Vichy

O regime de Vichy tornou-se autoritário, que não só aceitou a ocupação alemã, como assimilou várias facetas da sua ideologia. Sustentava-se no poder pelo regime de Hitler, pelo medo e opressão à população, garantidos pela terrível polícia do Estado, a Milícia (Milice).
Temida pelos franceses, a Milícia garantia a face repressiva e racial do regime. Capturava os indesejáveis pelos alemães, tanto na parte norte, como no sul do país, prendendo-os, fuzilando-os ou simplesmente entregando-os aos alemães, para que fossem enviados para campos de concentração nazistas. Membros da Resistência e judeus eram os seus alvos favoritos.
Sob o comando do marechal Pétain, o regime de Vichy tomou medidas drásticas e de caráter repressivo contra diversas etnias e setores da sociedade francesa. Imitando a política vergonhosa de perseguição racial, começou uma caça aos imigrantes, chamados de métèques, aos judeus, maçons, ciganos, homossexuais, comunistas e outras minorias.
Já em julho de 1940, tão logo o regime foi implantado, foi criada uma comissão para rever a lei da nacionalidade de 1927, que concedera a cidadania francesa a vários estrangeiros, em especial aos judeus vindos do leste europeu na década de 1930, fugindo da perseguição do regime nazista. Iniciou-se o processo de desnaturalização que, de 1940 a 1944, tempo que durou a França de Vichy, atingiu mais de quinze mil pessoas, sendo os judeus os mais atingidos.
Em outubro de 1940, foi editado um decreto que autorizava a internação dos judeus em campos de concentração franceses, abertos durante a Terceira República, e que serviriam de trânsito para a execução do Holocausto. Após passar pelos campos franceses, todos os deportados eram enviados para os campos nazistas do leste europeu. Além dos judeus, os ciganos foram os principais remetidos para os campos de extermínios. Camp Gurs era o principal local de internamento de presos, construído antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1940 recebeu o primeiro contingente de prisioneiros daquela guerra, que incluía anarquistas, comunistas, sindicalistas e antimilitaristas. Com a implantação do regime de Vichy, vários outros campos de concentração foram abertos em solo francês, sendo o primeiro deles o de Aincourt, em Seine-et-Oise. O Camp des Milles, próximo a Aix-en-Provence, foi o maior campo de concentração do sudeste francês, sendo de lá deportados cerca de 2.500 judeus. Na Alsácia, os alemães abriram o campo de Natzweiller, que incluía uma câmera de gás, utilizada para executar aproximadamente 86 prisioneiros, sendo a maioria judeus.
Com a perda da nacionalidade, os judeus passaram a ser classificados como “Grupos de Trabalhadores Estrangeiros”. Passaram a ter que usar um distintivo amarelo, sendo excluídos da administração civil. O regime de Vichy permitiu o uso da eugenia como programa destinado para preservar o francês de raça pura. Felizmente, o programa não foi tão longe quanto o seu similar desenvolvido pelos nazistas.

A Resistência Francesa

Após a assinatura do armistício em Compiègne, que aceitava a invasão da França pelos nazistas e a sua divisão administrativa; vários setores da sociedade francesa opuseram-se à submissão do seu país. Iniciava-se uma resistência ao regime colaboracionista de Vichy e à ocupação germânica. Grupos vindos de todas as camadas sociais francesas, desde os comunistas, judeus, anarquistas, sacerdotes, católicos conservadores, liberais, jornalistas; uniram-se para dar corpo ao que ficou conhecido com Resistência Francesa.
Após a ocupação alemã, grande parte da população francesa manteve-se neutra, procurando continuar a vida sem manifestação contrária ou favorável àquela situação. O regime de Vichy mostrou-se autoritário, espelhado nos governos fascistas, iniciando uma repressão violenta aos que se opunham a ele e aos alemães. A opressão passou a gerar um número pequeno de patriotas descontentes. O envolvimento sentimental das mulheres francesas com os ocupantes alemães causou a repulsa dos homens, ofendendo-lhes a honra. A desvalorização da moeda francesa diante da alemã permitiu que os nazistas usufruíssem os privilégios econômicos, enquanto que os franceses mergulhavam em grande miséria, causada por uma galopante inflação e escassez de alimentos. Crianças e idosos sofriam com a desnutrição, combalindo diante da fome. Milhares de trabalhadores franceses foram transferidos para trabalhar na indústria alemã, em plena ascensão, enquanto que as fábricas francesas entravam em colapso, trazendo um grande desemprego. Todos estes fatores, aliados ao patriotismo e à falta de liberdade civil, com toques de recolher à noite e a repressão política durante o dia, levaram à revolta, passiva ou ativa, da população francesa.
O Estado Francês, dirigido pelo marechal Pétain, extinguiu os partidos, os sindicatos, a liberdade da imprensa, com perseguições e prisões de líderes políticos. O descontentamento não era somente com os invasores germânicos,
mas com o governo reacionário de Pétain e dos seus aliados, que se mostrava opressivo e sem honra diante da colaboração com os nazistas, a quem se havia declarado guerra em 3 de setembro de 1939. A situação forçou a união de vários grupos de movimentos de resistência. Seus membros passaram a ser chamados de partisons (partidários), desenvolvendo um esquema de inteligência logística contra os inimigos, alemães ou franceses colaboracionistas.
Os núcleos de resistência passaram a existir desde a capitulação da França pelos alemães, em junho de 1940, e da instauração do regime de Vichy, visto por líderes políticos como vergonhoso. Estudantes universitários que se proclamavam revolucionários, criaram o jornal “Resistência”. Ainda naquele ano fatídico de 1940, a Resistência teve as suas lideranças iniciais levadas prisioneiras ao campo de concentração de Camp Gurs, entre eles, os comunistas, estudantes, sindicalistas e líderes de esquerda em geral.
Com o passar do tempo, um maior número de pessoas uniram-se aos grupos de resistência. No norte, ocupado e governado diretamente por autoridades militares do Terceiro Reich, surgiram, entre 1941 e 1942, a Organization Civile et Militaire e o Liberation-Nord. Desenvolviam táticas de guerrilhas, logísticas de inteligência e sabotagem aos governantes e às polícias de Estado, e aos alemães invasores. No sul, até 1942, a Resistência concentrava as suas ações na propaganda, visto que era zona não ocupada pelos alemães. Quando os territórios do sul foram ocupados, mudaram de tática. No sul a intensidade da Resistência era menor, uma vez que a sua população conservadora apoiava, na maioria, o governo do marechal Pétain. Apenas os adeptos da esquerda aderiam à Resistência.
Até 1941, a Resistência centrava as ações em atividades clandestinas e lutas de guerrilha. A partir daquele ano, em outubro, passaram a receber apoio das forças Aliadas, quando o governo britânico decidiu ajudar, criando em Londres o Bureau Central de Renseignements et d’Action (BCRA), comandado pelo coronel Dewaurin.
A Resistência passou a usar a Cruz de Lorena como símbolo da França livre. Pequenos grupos de homens e mulheres armados desenvolviam as ações contra os inimigos através das zonas rurais, passando a ser chamados de maquis.
Diante do crescimento logístico dos grupos de resistência, o governo do marechal Pétain passou a combatê-los com uma intensa repressão. Inúmeros comunistas passaram a ser cassados pela Milícia. Em agosto de 1941, em represália à Resistência, foram estabelecidos os métodos de punição coletiva, que tomava reféns entre a população, que passavam a ser fuzilados a cada investida dos rebeldes. No decurso do regime de Vichy e da ocupação alemã, cerca de trinta mil franceses foram fuzilados como reféns em represália aos atos da resistência. Algumas aldeias, como Oradour-sur-Glane, foram destruídas pelos alemães, tendo a população massacrada, como uma resposta às atividades da Resistência ao redor. Em Lyon, o movimento de resistência Franc-Tireur, nascido em torno de alguns jornalistas, teve o seu maior líder, Marc Bloch, assassinado pelos nazistas.
A Milícia, formada por um grupo de paramilitares, foi criada no início de 1943, para combater a Resistência, e dar apoio às tropas alemãs, que desde 1942, estavam espalhadas por todo o território francês. A Milícia tornou-se uma espécie de Gestapo francesa, colaborando estreitamente com os nazistas. Tornou-se temida pela população, por usar métodos brutais de tortura e executar sumariamente a todos que suspeitassem pertencer à Resistência. Os temidos miliciens só encerrariam as suas atividades após a libertação da França pelos Aliados, em 1944. Na ocasião, grande parte da polícia terrorista do regime de Vichy foi condenada por colaboracionismo e executada. Muitos fugiram para a Alemanha, sendo incorporados na divisão do Charlemagne da Waffen-SS.
A atuação da Resistência Francesa foi de grande importância aos Aliados durante a invasão da Normandia, em 6 de junho de 1944. Foram eles que conduziram as forças Aliadas através da França, passando informações militares sobre os inimigos, além de proporcionar sabotagens nas telecomunicações, transportes e energia que abasteciam os alemães invasores. Ao lado dos Aliados, formaram unidades chamadas de Forças Francesas do Interior (FFI). As FFI reuniam em junho de 1944, cerca de cem mil membros, crescendo rapidamente, atingido o número de quatrocentos mil combatentes até outubro daquele ano.
A Resistência Francesa foi fundamental para que a França não morresse moral e politicamente durante a ocupação nazista e a duração do regime de Vichy. Gerou vários heróis, como o mítico Jean Moulin, morto pela Gestapo em 1943. Com o fim da França de Vichy, a Resistência Francesa floriu como o único motivo de orgulho e honra do povo francês durante o mais obscuro dos períodos da sua história, em que a colaboração com os nazistas trouxe desconforto e humilhação diante do mundo.

Jean Moulin, o Herói da Resistência

Se o general Charles De Gaulle é o herói vencedor da opressão nazista sobre a França, o seu libertador invencível; Jean Moulin é o herói mártir, símbolo daqueles que resistindo dentro de uma França colaboracionista, pagaram com a vida o direito de lutar pela liberdade.
Jean Moulin é a própria imagem do galã frágil e sensível, mas decidido a cumprir o seu destino trágico, mas heróico, em nome do seu país, do fim da opressão e pela liberdade de ir de vir. Tornou-se o maior símbolo da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Nasceu em Béziers, sudeste da França, próximo do mar Mediterrâneo, no fim do século XIX, em 20 de junho de 1899.
Na juventude, alistou-se no exército francês, em 1918, para lutar pelo seu país na Primeira Guerra Mundial. Com o fim da guerra, voltou aos estudos, licenciando-se em Direito, em 1924.
Muito cedo Jean Moulin deixou-se enveredar pela carreira administrativa. Em 1922 iniciava uma brilhante carreira política, exercendo o cargo de chefe de gabinete de deputado em Sabóia. De 1925 a 1930, tornou-se subprefeito de Albertville, sendo o mais jovem francês a exercer o cargo.
A vida de Jean Moulin sempre foi marcada pela ideologia política. Sua vida amorosa é menor diante da sua luta ideológica. Casou-se uma vez, em setembro de 1926, com Marguerite Cerruti, de quem se iria divorciar dois anos mais tarde, em 1928.
Durante a Guerra Civil Espanhola, Jean Moulin ajudou as forças de esquerda que lutavam contra o general Francisco Franco. As versões da participação de Jean Moulin neste período divergem, trazendo dados obscuros. Alguns historiadores acreditam que ele forneceu armas soviéticas para os espanhóis, mas a versão mais aceita é de que, de dentro do Ministério da Aviação, ofereceu aviões franceses aos que lutavam contra o fascismo na Espanha.
Além da vertente política, Jean Moulin era um exímio ilustrador e caricaturista. No início da década de 1930 chamou a atenção pelas caricaturas políticas que publicou no jornal “Le Rire”, usando o pseudônimo de Romanin. Ilustrou o livro do poeta Tristan Corbière.
Em janeiro de 1937, nomeado para o departamento de Aveyron, tornou-se o mais jovem prefeito da França. Em 1939 foi nomeado prefeito do departamento de Eure-et-Loire. Quando exercia o cargo, foi apanhado pela invasão dos alemães ao seu país. Logo no início, em 1940, foi preso pelos nazistas por recusar a colaborar com os invasores, não assinando falsos documentos por eles propostos. A sensibilidade de Jean Moulin foi rompida pela perda da liberdade. Desesperado, ele tentou o suicídio na prisão, cortando a garganta com um pedaço de vidro. A tentativa deixou-lhe uma cicatriz indelével, que sempre escondia com um cachecol. A imagem sensível, de galã romântico, com o pescoço coberto por um cachecol, tornou-se a mais conhecida através das décadas, chegando intacta aos tempos atuais.
Após a implantação do regime de Vichy, o governo colaboracionista ordenou que todos os prefeitos de esquerda, eleitos nas cidades e aldeias francesas fossem demitidos. Recusando a cumprir a ordem, Jean Moulin foi removido do próprio escritório. Foi então que entrou para a Resistência Francesa.
Em setembro de 1941, usando o nome de Jean Joseph Mercier, partiu para a Inglaterra, encontrando-se com o general Charles De Gaulle. Em Londres, De Gaulle encarregou-o de unificar os movimentos de resistência contra a invasão nazista na França, sendo nomeado delegado da zona não ocupada francesa, tendo o apoio do comitê de Londres. No início de 1942, Jean Moulin reuniu-se com membros da Resistência, dando início à missão delegada por De Gaulle.
De volta a Londres, em fevereiro de 1943, foi encarregado de uma nova missão, formar o Conselho Nacional da Resistência (CNR). A primeira reunião do CNR aconteceria em Paris, em 27 de maio de 1943, tendo Jean Moulin como presidente.
Em 21 de junho de 1943, no primeiro dia do verão, e um dia após ter completado 44 anos de idade, Jean Moulin e vários líderes da Resistência foram presos em Caluire-et-Cuire, um subúrbio de Lyon. Uma versão sobre a prisão de Jean Moulin aponta para uma possível traição de René Hardy, que foi capturado e libertado pela Gestapo. Outros historiadores acreditam que René Hardy, ao ser seguido pelos alemães, foi simplesmente imprudente.
Em Lyon, Jean Moulin foi interrogado pelo chefe da Gestapo, Klaus Barbie, sendo levado mais tarde para Paris. Mesmo sob tortura, o líder da Resistência não revelou nenhum segredo aos alemães. Durante a transferência para a Alemanha, Jean Moulin morreu perto de Metz, no dia 8 de julho de 1943. Provavelmente devido aos ferimentos sofridos pela tortura. Mais tarde, Klaus Barbie alegaria que o herói da Resistência Francesa teria morrido pelas próprias mãos, em uma tentativa de suicídio. Alguns biógrafos do mártir apóiam esta versão, acrescentando que Barbie teria ajudado pessoalmente à tentativa.
Jean Moulin tornou-se símbolo de retidão cívica e de patriotismo numa época de muitos anti-heróis e de desonra de uma nação. Tornou-se uma lenda do século XX na França, sendo homenageado e referendado por todas as gerações que viram ou procederam ao seu martírio. Inicialmente foi enterrado no Cemitério Père Lachaise. Em 19 de dezembro de 1964, suas cinzas foram transferidas para um memorial no Panteão de Paris.

O Fim da França de Vichy

Com a chegada das forças Aliadas em junho de 1944, a França seria libertada da ocupação nazista alguns meses depois. A legitimidade da França de Vichy e do seu chefe de Estado, marechal Philippe Pétain, foi contestada pelo general Charles De Gaulle e pelas suas forças francesas livres, primeiro com base em Londres, e mais tarde, através de Argel, no Norte da África, onde foi declarado que o regime de Vichy não passou de um governo ilegal e de traidores colaboracionistas com as forças do Terceiro Reich, com fortes inclinações inspiradas na ideologia nazista.
Em junho de 1944, logo a seguir à invasão da Normandia, que levou a uma seqüência de ações que culminaria na libertação da França, o general De Gaulle proclamou o Governo Provisório da República Francesa (GPRF). Em agosto as forças dos Aliados chegaram a Paris, libertando finalmente, a capital francesa de quatro anos de ocupação e humilhação impostas pelas forças dos exércitos alemães. O GPRF instalou-se em Paris, em 31 de agosto, vindo a ser reconhecido pelos Aliados como governo legítimo da França, em 23 de outubro de 1944.
A libertação da França pelos Aliados, ocasionou a fuga dos funcionários e simpatizantes da França de Vichy, entre agosto e setembro de 1944, sendo o regime movido para Sigmaringen, na Alemanha, onde foi estabelecido um governo no exílio, liderado pelo marechal Pétain. O regime de Vichy no exílio durou até abril de 1945, quando os Aliados chegaram a Berlim, pondo fim ao governo nazista de Adolf Hitler.
Na reconstrução de uma República francesa livre, importantes lideranças, políticos e militares do regime de Vichy foram julgados e executados como traidores e colaboracionistas. As mulheres que se envolveram com os nazistas, sendo deles amantes, tiveram os cabelos rapsados em praça pública, para que fosse exposta a sua desonra. O marechal Philippe Pétain foi condenado à morte por alta traição, mas teve a pena comutada para prisão perpétua. A imagem do governante a apertar a mão de Adolf Hitler ficaria para sempre marcada na lembrança dos franceses, como um símbolo de vergonha daquele povo.
Durante o período da França de Vichy, de 1940 a 1944, o exercito francês seria reduzido a cem mil homens; os prisioneiros de guerra seriam mantidos em cativeiro. A população francesa mergulharia na miséria, com a fome a tomar grande forma, assolando a nação. Estima-se que a França forneceu 42% da ajuda externa à economia alemã durante a Segunda Guerra Mundial.


QUANDO OS BONDES E OS AUTOMÓVEIS INVADIRAM AS RUAS DE SÃO PAULO

Agosto 30, 2009
São Paulo é uma metrópole com cerca de 13 milhões de automóveis, uma das maiores frotas do mundo. O imenso número obrigou a promulgação de uma lei municipal que criou um sistema de rodízio, proibindo que todos os automóveis circulem ao mesmo, evitando assim, congestionamentos caóticos e uma poluição a nível insuportável na atmosfera da cidade.
Uma vasta rede de transportes ajuda o deslocamento diário de milhões de habitantes. Metropolitano, trens suburbanos, ônibus, tudo faz parte de um complexo, e nem sempre eficaz, serviço de locomoção que não deixa a maior cidade do Brasil parar.
Mas nem sempre foi assim. Durante séculos a capital paulista não passou de uma vila atrasada, que mesmo quando elevada à categoria de cidade, manteve-se fechada ao país, longe de vislumbrar o progresso. Nas ruas de chão batido, carros de bois, mulas e outros animais serviam de transporte. Com a chegada das estradas de ferro, que transpunham a Serra do Mar e ligavam a capital paulistana com as terras produtoras cafeeiras do interior, rompeu-se finalmente, o isolamento ao qual São Paulo estava confinada.
Primeiro chegaram as estações ferroviárias, trazendo o progresso. Depois, em 1872, vieram os bondes, a princípio movidos à tração animal, depois à eletricidade. Finalmente, o primeiro automóvel chegou às ruas em 1893. Desde então, jamais parou de circular. O progresso veio como um meteoro atingindo a pacata cidade, transformando-a em grande metrópole. Este artigo é um passeio pelos primórdios dos transportes em São Paulo, ilustrado por fotografias de cartões postais da época, que registraram com primor o pulsar do progresso daquela que se tornaria uma das maiores cidades do planeta.

As Estações Ferroviárias

O difícil acesso a São Paulo, fez dela uma vila pobre e isolada. Entre o litoral e os vales genéticos havia a grande muralha da Serra do Mar, quase que instransponível. Os bandeirantes desbravaram as matas, partindo da vila paulistana, que se tornou um entroncamento entre o mar e o interior sertanejo. Com o passar dos anos, o progresso chegou, aos poucos, à vila, elevando-a a uma cidade isolada, suja e sem brilho. Assim foi até que se entrou na época em que a produção cafeeira tornou-se a principal economia do Brasil. Novamente São Paulo servia de entroncamento entre o porto para onde o café era escoado, e as terras férteis do interior do Estado, onde era cultivado.
Com a necessidade de se escoar o café, exportando-o para o resto do mundo, era preciso modernizar os meios de transporte. Surgiram as estradas de ferro que ligavam o interior produtor de café com a capital paulistana, transpondo a Serra do Mar. Primeiro veio a Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867, na década seguinte surgiram a Sorocabana e a Central do Brasil, fazendo de São Paulo um importante entroncamento viário, trazendo-lhe um súbito surto de progresso. Através das estradas de ferro circulavam as riquezas que convergiam do interior e do litoral, e as industrias, nascidas ao longo dos desvios ferroviários.
A The São Paulo Railway, ou Estrada de Ferro dos Ingleses, interligava Santos a Jundiaí. Foi idealizada pelo Barão de Mauá, que associado a capitalistas ingleses, conseguiu a aprovação do imperador ao projeto, em 1859. Sua abertura ao tráfego foi feita oficialmente em 16 de fevereiro de 1867.
A principal estação da São Paulo Railway era a mítica Estação da Luz. Trazendo na sua versão original uma arquitetura modesta, a primeira Estação da Luz foi inaugurada no mesmo dia que se abriu o tráfego da Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867. Ao seu redor, foram desenvolvendo pequenas indústrias e bairros operários como o Bom Retiro e o Brás. A estação atual, um prédio neoclássico, foi construída entre 1895 e 1901, provavelmente inspirada na Flinders Street Station, de Melbourne ou Sidney, na Austrália. O material usado na construção foi todo importado da Inglaterra. Tendo a torre mais alta de São Paulo na época, a Estação da Luz tornou-se um chamativo atrativo da cidade, transformando-se em um grande cartão-postal, tornando-se por muitos anos o símbolo da Paulicéia. Um grande incêndio, em 1946, destruiu o prédio parcialmente. Reformada, ela teve o acréscimo de um pavilhão, sendo reinaugurada em 1950. A estação passou, ao longo das décadas, a receber ônibus vindos de todo o Brasil. A função de estação rodoviária foi extinta em 1982, com a inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê.
A Estrada de Ferro Sorocabana, que ligava o interior paulistano e os estados do sul à Paulicéia, foi inaugurada em 10 de julho de 1875. Inicialmente, a estação que servia à estrada era a de um prédio antigo da Praça General Osório, construído em 1914, sobre um projeto do escritório de Ramos de Azevedo. Este prédio viria a ser as instalações do tétrico Dops (Departamento de Ordem Política e Social), tornando-se um dos locais de tortura de presos políticos durante a ditadura militar. Atualmente abriga a Pinacoteca de São Paulo.
Em 1938 foi inaugurada uma nova estação da Estrada de Ferro Sorocabana, chamada de Estação Júlio Prestes. O prédio da estação, projeto do arquiteto Christiano Stockler das Neves, começou a ser construído em 1926. Trazia uma belíssima torre de 75 metros de altura e um magnífico salão. Nos dias atuais, depois de reformado, o prédio foi destinado a ser utilizado como espaço cultural.
Finalmente, a Estrada de Ferro Central do Brasil (aqui em uma fotografia de um cartão postal de 1905), que ligava a capital do Brasil, Rio de Janeiro, à capital paulista, tinha a sua estação na Avenida Rangel Pestana, nas proximidades do Largo da Concórdia, no Brás. Popularmente conhecida por Estação do Norte, foi inaugurada em 1875. A partir de 1887, dois trens noturnos, um deles de luxo, mantinham a ligação com a capital federal. A estação foi demolida no começo do século XX, sendo substituída pela Estação Roosevelt.
Para completar o ciclo ferroviário primitivo de São Paulo, existia a Estação da Cantareira, situada na Rua 25 de Março, em frente ao mercado. Dali saía uma pequena linha de tramways, depois uma ferrovia, inaugurada em 1894. Um pequeno trem, chamado de “trenzinho da Cantareira”, atravessava a cidade rumo a Serra da Cantareira, onde estava o Horto Florestal e os açudes que abasteciam de água a cidade. Era uma viagem que servia como turismo ecológico, com paisagens pitorescas. O trenzinho parava em Santana, Mandaqui, Tremembé e na Cantareira. A última viagem do trenzinho da Cantareira foi feita em 31 de maio de 1965, pela locomotiva 3131. Na plataforma, uma faixa feita pelos servidores dizia-lhe adeus:
Os funcionários do Trenzinho da Cantareira desejam ao comércio e ao povo muitas felicidades, no adeus saudoso de despedida ao velho e inesquecível trenzinho.”

A Implantação dos Bondes

O progresso lento da capital paulista foi aos poucos, acelerando. Transformada em uma cidade de entroncamento ferroviário, era preciso que transportes eficazes vencessem as distâncias e chegassem aos novos bairros operários. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha das chamadas diligências sobre trilhos da cidade, efetuada pela Carris de Ferro de São Paulo. Os primeiros transportes eram efetuados por tração animal. O sistema era tido como um passo importante rumo à modernidade de uma cidade que começava a ter importância no cenário econômico do Brasil.
Mas o sistema de bondes só ganhou grande impulso quando a energia elétrica chegou à Paulicéia, iluminando as suas ruas. Em 1900 começaram a circular os bondes elétricos da Light. A primeira linha inaugurada foi a da Barra Funda. As linhas de bondes elétricos foram, aos poucos, conectadas a todos os bairros da cidade. Os serviços oferecidos pelo transporte eram distintos, tendo bondes de primeira e segunda classe; alguns especiais para transportar operários; ou ainda, aqueles que circulavam à saída dos teatros e dos campos de futebol, que se tornaram a nova febre da Paulicéia.
A vida dos bondes elétricos pelas ruas de São Paulo foi longa, durou mais da metade do século XX. Em 27 de março de 1968, foi realizada a última viagem de bonde elétrico na Paulicéia. O último bonde foi o carro “Camarão 1543”, da linha de Santo Amaro. Saiu todo enfeitado com bandeiras. A população paulistana veio às ruas despedir-se do tradicional transporte. Senhoras já saudosas punham os filhos nas janelas para fotografar o bonde. Pelos bairros, mesas preparadas com banquetes interrompiam o trajeto, obrigando-o a parar. A população cantava velhas marchinhas de carnaval, acenando com lenços brancos, causando comoção e lágrimas na despedida do último bonde elétrico de São Paulo.

O Automóvel Chega às Ruas da Paulicéia

O primeiro automóvel circulou pelas ruas de São Paulo em 1893. Pertencia a Henrique Santos Dumont, irmão do célebre aviador Alberto Santos Dumont. Há relatos que apontam para o próprio Santos Dumont como dono do primeiro carro que teria circulado não só em São Paulo, como no Brasil. O Pai da Aviação teria trazido da França, em 1891, um Peugeot que havia comprado por 1200 francos.
O segundo automóvel a circular pela capital paulista viria em 1898, sendo de propriedade do doutor Tobias de Aguiar. Tinha dois lugares, rodas dianteiras menores que as traseiras, portando uma alavanca horizontal como volante.
Nos primeiros anos do século XX, diante da novidade nas ruas paulistanas, o prefeito Antonio Prado obrigou os veículos a utilizarem placas, mediante pagamento de taxa. Henrique Santos Dumont teria solicitado a isenção do pagamento da taxa, alegando que as ruas da cidade estavam em más condições para a circulação de tráfego. A crítica não agradou ao prefeito. Henrique Santos Dumont teve a sua licença para dirigir automóvel caçada e perdeu a placa P-1, que foi posta, em 1903, no carro do industrial Francisco Matarazzo.
Antonio Prado baixou uma portaria, que garantia a velocidade máxima “a de um homem a passo” nos locais com aglomeração de pessoas, podendo exceder aos 12 quilômetros por hora nas ruas da cidade, aos 20 quilômetros nos locais habitados, e a 30 quilômetros em campo raso. A licença de habilitação dada pela prefeitura exigia que o motorista conhecesse todos os componentes do automóvel e saber manobrá-lo, além de ser necessário ter “prudência, sangue frio e visualidade”, segundo a portaria baixada.
Em 1904 foi criada a Inspetoria de Veículos, que registrou a existência de 84 automóveis em São Paulo.
Em 1908 foi fundado o Automóvel Club de São Paulo, que logo à partida, organizou uma corrida, chamada de “Bandeirantes Sobre Rodas de Borracha”. Quinze carros participaram, tendo o conde Silvio Penteado chegado em primeiro lugar, após percorrer setenta quilômetros em uma hora e trinta minutos.
Em 1912, foi inaugurado o transporte motorizado de passageiros, que viriam a ser os futuros táxis, pela empresa Auto Viária Paulista.
A direção dos carros era uma exclusividade dos homens. Quando a Senhora Batista Franco, em 1918, chegou a São Paulo dirigindo o seu automóvel, provocou grande escândalo, incitando a indignação e o repúdio das famílias tradicionais paulistanas.
Diante do crescimento de veículos circulando pelas ruas de São Pulo, em 1915, no governo de Washington Luís, foi instituído o policiamento do trânsito, com guardas que, usando luvas e polainas brancas, montados em cavalos, dirigiam o tráfego de veículos e pedestres. Para que se pudesse ser um policial do trânsito, o candidato ao cargo tinha que ter no mínimo 1,80 metro de altura.
Em 1920, a Ford chegou ao Brasil; numa oficina da Rua Florêncio de Abreu, começou a fabricar carros no país.
Os primeiros ônibus que invadiram a capital paulistana surgiram em 1924, numa conseqüência da crise que o bonde elétrico atravessava como transporte público. Os primeiros ônibus que circularam foram chamados pelos populares de “Mamãe-me-leva”. Posteriormente passaram a ser chamados de “Jardineiras”.
Os automóveis, particulares ou públicos, pequenos ou grandes como os ônibus, aos poucos tomaram as ruas de São Paulo, banindo os velhos bondes elétricos e os animais que ainda serviam como transportes. Tornaram-se imprescindíveis quando a cidade transformou-se numa grande metrópole. Nos tempos atuais, cerca de treze milhões de veículos circulam pela Paulicéia.


DIRETAS JÁ! – QUANDO O POVO VOLTOU ÀS RUAS

Agosto 28, 2009

1984 seria o último ano de governo do presidente João Figueiredo. Era preciso escolher o seu sucessor. Desde que o golpe militar fora instalado em abril de 1964, a escolha de cada presidente militar que governou a ditadura era feita por um colégio eleitoral, sem a participação do povo. Figueiredo terminava o mandato ante a um panorama político e histórico diferente do dos seus antecessores. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) tinha sido extinto, a lei da anistia, que permitia a volta dos exilados políticos tinha sido promulgada, em 1979. Avanços que vislumbravam o fim dos militares no poder e a abertura do sistema ditatorial foram alcançados, um deles tinha sido as eleições de 1982, que trouxeram de volta o voto direto para eleger os governadores dos Estados. Faltava a ambição máxima do sonho de liberdade política, o voto direto para a escolha do presidente da República.
Aproveitando a esmagadora vitória que obtivera nos estados economicamente mais importantes do país, a oposição chegou à conclusão que seria hora de iniciar um movimento para voltar a ter eleições diretas para presidente, ato que acontecera pela última vez em 1960.
Assim, os partidos de oposição da época, o PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) de Ulisses Guimarães, o PT (Partido dos Trabalhadores) de Lula, e o PDT (Partido Democrático Trabalhista) de Leonel Brizola, pela primeira esqueceram as divergências políticas e se uniram na luta pela volta das eleições presidenciais no Brasil. O movimento tomou forma em torno do projeto de Emenda Constitucional do deputado do PMDB, Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições presidenciais já para o ano de 1984, extinguido de vez o Colégio Eleitoral. O projeto foi apresentado em 2 de março de 1983.
Na casa do então governador de São Paulo, Franco Montoro, uma reunião de alguns líderes da oposição, feita em outubro de 1983, decidiu que deveriam ser feitos alguns comícios favoráveis à aprovação da Emenda Dante de Oliveira, como o projeto daquele deputado passou a ser chamado. Nasciam os grandes comícios do movimento das Diretas Já, que levou milhares de brasileiros às ruas, numa manifestação popular jamais vista pelo regime militar.
Os comícios pelas Diretas Já trouxeram grande euforia à população, crescendo como um estopim a partir do carnaval de 1984. Políticos e artistas subiam aos palanques, sendo aplaudidos por milhares de manifestantes, que passaram a trajar camisas amarelas, bater panelas e fazer do ato político uma grande festa. A festa da esperança, do fim da opressão e da ditadura instaurada há vinte anos. O povo, após um silêncio mantido pela repressão e pela tortura, voltou às ruas para exigir os seus direitos cívicos e um governo legítimo.
A Emenda Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso Nacional, em 25 de abril de 1984. Mas os quatro meses que durou o Movimento das Diretas Já mudaram para sempre a face da política no Brasil, trazendo um novo tempo e o desgaste final do regime militar, que expiraria nos próximos meses. As Diretas Já fez o brasileiro acreditar que era possível lutar pelo fim da mais negra das ditaduras do país.

O Cenário Político Pré Diretas Já

A abertura política no Brasil foi sendo dada lentamente, quase a conta gotas. A máquina construída pelo regime militar instituído em 1964 parecia perfeita, digna de ser comparada às maiores ditaduras do mundo e ao estado nazista. Na estrutura de abertura, minuciosamente programada pela genialidade opressiva dos que insistiam em associar democracia com perigo à soberania nacional, chamar de Estado de exceção a um regime sanguinário e ilegítimo; vários golpes foram dados no povo e nos oposicionistas.
O governo militar extinguira , logo no início, o pluripartidarismo, criando apenas dois partidos: a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido do governo, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), de oposição confiável. Com o passar dos anos, o MDB transformou-se em uma grande frente democrática, abrigando sob a sua legenda todos os partidos clandestinos, como o PCB (Partido Comunista Brasileiro), o PC do B (Partido Comunista do Brasil) e o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro).
Em 1979 o AI-5 foi extinto e a Anistia promulgada. Vários líderes oposicionistas, inimigos históricos da ditadura, puderam voltar ao país. A abertura política previa eleições mais amplas, que trariam de volta o voto direto para governador de Estado, programadas para 1982. Temendo uma grande derrota nas urnas, os militares e os seus aliados criaram grandes obstáculos na realização dessas eleições. Transformaram a antiga Arena no PDS (Partido Democrático Social), que se manteve coeso, e incitaram a volta do pluripartidarismo, no intuito de dividir a oposição. No novo contexto político, o MDB passou a ser o PMDB. Surgiu uma nova frente política, o PT, liderado por sindicalistas e intelectuais. Num golpe histórico, os militares não deixaram que Leonel Brizola ressuscitasse o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) de Getúlio Vargas, dando a legenda a Ivete Vargas, uma política próxima ao PDS. Ao perder a legenda, Brizola fundou um novo partido, o PDT, que já nasceu pequeno e sem grande força política, o que favoreceu ao regime.
Outro conjunto de medidas foi criado para que o partido do governo não perdesse nas urnas. Foram proibidas as coligações partidárias e instituído o voto vinculado, ou seja, o eleitor teria que escolher candidatos do mesmo partido para vereador, prefeito, deputados estadual e federal, senador e governador, sob pena de anular o voto se assim não o fizesse. Mesmo diante de medidas que confundiam um povo que há vinte anos exercera o sufrágio pouquíssimas vezes, no dia 15 de novembro de 1982, a oposição venceu nos principais estados do Brasil: São Paulo, com Franco Montoro; Minas Gerais, com Tancredo Neves; e, Rio de Janeiro, com Leonel Brizola. Estavam formadas as bases para que se lutasse pelas diretas presidenciais.

Surge o Movimento das Diretas Já

Após as eleições de 1982, a oposição sentia que poderia tentar eleger o presidente sucessor de João Batista Figueiredo através do voto direto, e não esperar até 1989 para ir às urnas, conforme o que estava programado pelos militares. Em 1983, o senador Teotônio Vilela ousou a propor na televisão, no “Programa Livre”, a criação de um movimento que tivesse como objetivo a luta pela volta das eleições diretas para presidente. No mesmo ano, Ulisses Guimarães, deputado federal, fundador e presidente do PMDB, despertou para o proposto por Teotônio Vilela, quando participou em Goiânia, de um ato público pelas eleições diretas. O evento estava programado para ser realizado no auditório de uma faculdade. Surpreendentemente, o local tornou-se pequeno, pois uma multidão parou nas ruas para ouvir o que os oradores falavam, gerando uma manifestação espontânea que reuniu cinco mil pessoas.
Ainda no início de 1983, Dante de Oliveira, deputado federal eleito pelo PMDB, em 1982, apresentou o Projeto de Emenda Constitucional nº 5, que previa a volta das eleições diretas para presidente em 1984, que passaria para a história como a Emenda Dante de Oliveira.
No fim do ano de 1983, após comícios acontecidos em alguns locais, como o da Praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu, em São Paulo, que reuniu dez a quinze mil pessoas; Ulisses Guimarães chegou à conclusão que o movimento estava a crescer, e teria que ter coesão e apoio de todas as lideranças. Para atingir o objetivo, era preciso que o presidente do maior partido de oposição negociasse com as diferentes estâncias da oposição.
Após todas as negociações, em 5 de dezembro de 1983, Ulisses Guimarães e os governadores da oposição, eleitos no ano anterior, criam um calendário oficial de comícios e passeatas em favor da antecipação das eleições diretas, programadas pelo governo para 1989.
Em 1984 tem início a Caravana das Diretas, comissão formada pelos principais partidos de oposição ao regime militar, tendo o apoio de mais de duzentas entidades. Oficialmente, Curitiba foi a cidade que viu nascer a maior mobilização popular da história do Brasil. O comício, realizado em janeiro de 1984 na capital paranaense, reuniu cerca de quarenta mil pessoas, sendo chamado de Campanha das Diretas Já.
O movimento, logo assimilado pelo povo, foi atraindo mais e mais pessoas às ruas e aos comícios. Durante quatro meses, milhares de pessoas foram às ruas, pedindo para votar para presidente e pelo fim da ditadura. A poderosa força que uniu a população em torno de um ideal comum, assustaria profundamente o regime da caserna, desgastando-o e dividindo-o.

Os Grandes Comícios

O movimento ganhou grande visibilidade quando realizado em São Paulo. Naquele ano a cidade atingia a idade histórica de 430 anos. O comício das Diretas Já foi marcado para o dia do aniversário da Paulicéia, 25 de janeiro. Subitamente, a Praça da Sé, local da manifestação, reuniu trezentas mil pessoas. Na época, a maior emissora do Brasil, a TV Globo, não percebendo a importância e as conseqüências daquele momento histórico, omitiu o fato de que se tratava de um comício pelas eleições diretas, transmitindo o evento para todo o país como uma festa de aniversário da capital paulista. A partir de então, todos os comícios que assolariam as principais cidades do Brasil, quando recebiam a cobertura da Globo, ouviam a multidão gritar: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!
Não se poderia mais ignorar o movimento, muito menos minimizar a sua importância. Os comícios alastraram-se por Pernambuco, Rio de Janeiro, Amapá, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e diversos outros estados. O comício realizado na Candelária, no centro do Rio de Janeiro, reuniria cerca de um milhão de pessoas. Foi tão marcante que, o próprio presidente Figueiredo, na época em viagem ao Marrocos e à Espanha, teria declarado que seria o um milhão e um na Candelária. Mais tarde, o presidente desmentiria o comentário.
No carnaval de 1984, duas epidemias marcaram aquele verão, um grande surto de conjuntivite, que infectou milhares de brasileiros; e, o das Diretas Já, que arrebatou e contaminou toda a nação, unida por um grito de liberdade e sonho de terminar com uma ditadura de vinte anos.

Negociações de Bastidores

Mas a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, apesar da grande pressão popular, estava longe de ser aprovada. Várias negociações passaram a ser feitas entre a oposição e muitos líderes do governo, que diante do desgaste político da ditadura, passaram a temer por seus futuros como políticos no novo cenário que se desenhava no país. Passaram a surgir os chamados arrependidos. Eram neles que a oposição apostava, já que para a emenda ser aprovada, eram necessários 320 votos, o equivalente a dois terços dos votos da Câmara, e outro tanto no Senado. Não contando com tantos parlamentares, a oposição investiu nos “arrependidos”.
Mas o governo apercebeu-se da possível debandada que ameaçava o seu partido. Para evitar a traição da base aliada, já temente de ir contra a reação daquela manifestação massiva do povo, que com o possível fim da ditadura, tornar-se-ia legítimo eleitor e eleitorado; o chefe do Gabinete da Casa Civil, João Leitão de Abreu, formulou, às pressas, uma emenda que antecipava as eleições de 1989 para 1988. Com esta emenda, negociou com os parlamentares indecisos.
A votação da Emenda Dante de Oliveira foi marcada para o dia 25 de abril de 1984. Nos bastidores, negociações entre oposição e situacionistas apontavam para uma outra solução que não seria a da aprovação da emenda, sonhada e exigida pelo povo. O PMDB jogava com duas frentes, de um lado o da mobilização popular que clamava pelas eleições diretas, com Ulisses Guimarães como candidato a presidente; e a frente que negociava com deputados e senadores, que diante de um possível fracasso na aprovação da emenda, apostariam no Colégio Eleitoral, com o nome de Tancredo Neves para presidente.

A Festa das Diretas Já

As manifestações de ruas, normalmente impulsionadas pelos comícios, passaram a adquirir características particulares. Os próprios comícios tinham uma estrutura peculiar. Reunindo políticos e artistas no palanque, eles eram iniciados pelo jornalista Osmar Santos, comentarista esportivo da TV Globo, que tinha grande prestígio de público e de mídia na época. No microfone discursavam além das lideranças políticas, artistas, líderes estudantis e sindicalistas. Alguns nomes passaram a dar rosto e voz aos comícios: Ulisses Guimarães, tido como a própria voz do movimento; Leonel Brizola, Franco Montoro, Luiz Inácio Lula da Silva, Mário Covas, José Serra, Miguel Arraes, Eduardo Suplicy, José Richa, Chico Buarque, Taiguara, Fernando Henrique Cardoso, Fafá de Belém, Tancredo Neves, Christiane Torloni, e muitos outros.
Em 27 de novembro de 1983 Teotônio Vilela, que deixara o governo militar e aliara-se à oposição para combatê-lo, morreu vítima de um câncer. A morte do senador foi lamentada pelo país, que via nele uma grande evolução da política que representara durante décadas, no caminho rumo à democracia. Nos comícios foi eleito o patrono do movimento pelas Diretas Já. Como num ritual, a cantora Fafá de Belém iniciava a sua intervenção soltando uma pomba branca, repetindo o gesto do próprio Teotônio Vilela quando discursou em comícios pela promulgação da Anistia. A seguir, Fafá de Belém cantava “Menestrel das Alagoas”, canção que Milton Nascimento e Fernando Brant fizeram em homenagem a Teotônio Vilela. Nos últimos comícios, passou a cantar o Hino Nacional Brasileiro, causando grande polêmica aos militares, que julgaram um insulto a um símbolo nacional. Outras canções eram puxadas pelo coro de milhares de pessoas, como “Caminhando”, de Geraldo Vandré. No fim do ano, já com o sonho das Diretas Já encerrado pela história, Chico Buarque compôs em sua homenagem a canção “Pelas Tabelas”.
Na última semana que antecedeu à votação, a população brasileira passou a vestir-se diariamente de camisa amarela, agitando bandeiras, batendo panelas, trajando fantasias, adereços, máscaras, bonecos gigantes; lembrando ao regime que o povo queria os seus direitos de cidadãos há duas décadas usurpados. As ruas das cidades brasileiras viraram palcos de festas pelo sonho da volta da democracia. Ao contrário do famoso comício de 13 de março de 1964, na Central do Brasil, que manifestações da esquerda assustaram com os seus cartazes de teor comunista, os comícios das Diretas Já traziam não só palavras de ordem, mas uma festa de caráter nacional. Esta postura intimidava aos políticos do regime, e ao próprio regime, que diante de uma festa tão grandiosa de teor político, viu-se acossado, sem poder tomar medidas abertas de estratégica repressiva. O regime militar calou-se diante das festas e dos comícios. Um silêncio velado, pronto para explodir a sua truculência a qualquer momento.
O último comício antes da votação da emenda Dante de Oliveira foi realizado no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril, reunindo um milhão e meio de pessoas. Era a apoteose da festa, o baile final do maior movimento popular do Brasil.

O Dia da Votação da Emenda

Mas a resposta da ditadura agonizante não tardou. Na tentativa de intimidar a população, uma pane misteriosa no sistema elétrico do país deixou, por uma hora, três estados na completa escuridão, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, os mais populosos e governados pelos líderes das Diretas Já.
No dia da votação, 25 de abril de 1984, veio a truculência da ditadura militar sobre o povo brasileiro. O então ministro da justiça, Ibrahim Abi-Ackel, assinou as medidas que pôs Brasília em estado de emergência. Numa demonstração de forças, o general Newton Cruz, comandante militar do Planalto, desfilou nas ruas os seus tanques de guerra. Uma grande marcha de estudantes e pessoas civis que se dirigia para Brasília para pressionar a aprovação da emenda, foi impedida de entrar no Distrito Federal. Tropas tomaram as fronteiras de Brasília e do sul do estado de Goiás, declarando esta parte do país zona de segurança nacional. As comunicações da capital federal com o resto do Brasil foram cortadas. Nenhum veículo, televisão ou rádio, transmitia quaisquer notícias vindas do Congresso. Newton Cruz , numa truculência decadente, desfilava pelas ruas de Brasília montado em um cavalo, de rebenque na mão, tentando silenciar o povo. Alguns líderes estudantis foram presos na capital federal.
O povo não se deixou intimidar. Um placar foi instalado na Praça da Sé, em São Paulo, com o objetivo de registrar nomes e votos dos congressistas. A todas as medidas repressivas de emergência, respondeu batendo panelas e apertando buzinas dos automóveis, os chamados “panelaços” e “buzinaços”. No dia da votação, vários palanques foram montados nas praças das principais cidades brasileiras. Mesmo sem notícias do Congresso, as pessoas mantiveram unidas em torno dos palanques da sua cidade. A votação estender-se-ia pela madrugada. Notícias vinham através de telefonemas, numa época em que não se existia telefones móveis.
Na madrugada veio o resultado: a emenda não foi aprovada. 298 deputados disseram sim; 65 disseram não; 113 não compareceram e 3 se abstiveram. A emenda foi derrotada por uma diferença de 22 votos. Estava mantida a eleição indireta para a sucessão do presidente João Figueiredo.
No dia seguinte, a nação brasileira estava de luto. As pessoas desfilavam pelas ruas de camisa amarela com uma fita preta no peito. Os deputados que votaram contra a emenda, tinham os seus nomes divulgados nas câmaras das suas cidades. Muitos foram recebidos com vaias no aeroporto dos seus estados. Os grandes jornais brasileiros trouxeram uma tarja preta na primeira página, sem manchetes, mostrando repúdio e um silêncio simbólico. O sonho de votar para presidente tinha findado, as Diretas Já foram encerradas.Poucas vezes na história do Brasil os congressistas foram confrontados com um desejo tão explícito do povo. Diante da pressão popular, o partido da ditadura rachou. Muitos migraram para os partidos de oposição. Naquele ano, no Colégio Eleitoral, foi eleito um presidente civil e de oposição, Tancredo Neves. Estava encerrada a época dos generais na presidência do Brasil.


AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO

Agosto 20, 2009

Míticas, famosas, quase todas desaparecidas na poeira do tempo, as Sete Maravilhas do Mundo constituem um fascínio do homem sobre a sua própria criatividade, arte e obra de construção.
Conhecidas como as Sete Maravilhas do Mundo Antigo, são obras artísticas arquitetônicas erguidas durante o esplendor da Antiguidade Clássica, que assim ficaram imortalizadas através de uma lista que se perpetuou através dos tempos. Fazem parte dela, as Pirâmides de Gizé e o Farol de Alexandria, ambas no Egito; os Jardins Suspensos da Babilônia, na Mesopotâmia; o Templo de Ártemis em Éfeso, na Ásia Menor; a Estátua de Zeus em Olímpia, na Grécia; o Mausoléu de Halicarnasso, na Turquia; e, o Colosso de Rodes, na ilha de Rodes.
A origem desta lista, também conhecida por “Ta Hepta Thaemata” (“As Sete Coisas Dignas de Serem Vistas”), é atribuída ao poeta e escritor grego Antípatro de Sidon. Mas esta versão jamais obteve comprovação histórica. Segundo a tradição, a lista foi escrita em um poema de Antípatro. Um outro documento da antiguidade que possui a famosa lista é “De Septem Orbis Miraculis”, livro de Philon de Bizâncio, um engenheiro grego. A única certeza que se tem sobre a origem da lista é que foram os gregos os primeiros povos a divulgá-la, por volta dos anos 150 a.C. a 120 a.C.
Das sete maravilhas do mundo, apenas as Pirâmides de Gizé chegaram aos tempos atuais, preservando-se praticamente intactas há cinco mil anos. Apesar de desaparecidas, essas maravilhas arquitetônicas continuam a exercer o seu fascínio sobre a humanidade, pela beleza estética que as compunham e, principalmente, pela vertiginosa veia artística do homem antigo, que mesmo diante das limitações tecnológicas da época, ergueu obras de uma grandeza magnificente, desafiando ao tempo e às estruturas, eternizando a beleza extraída das próprias mãos. Estátuas gigantescas, feitas de mármore, ouro e bronze; jardins suspensos, erguidos em plena aridez do deserto, quase a atingir o céu; pirâmides de blocos gigantescos, além da força humana para erguê-los geometricamente perfeitos; monumentos arquitetônicos clássicos, atingindo uma perfeição sublime; tudo isto faz das Sete Maravilhas do Mundo uma paisagem eterna na grande aventura do homem dentro do planeta Terra, fazendo-o um genial artista, escultor da própria existência da concepção da beleza.

As Pirâmides de Gizé

Monumentais, as três pirâmides do Egito, Quéops, Quéfren e Miquerinos, trazem o fulgor da grandiosidade humana através da história. Das sete maravilhas do mundo, é o mais antigo dos monumentos e, curiosamente, o único que chegou aos dias atuais, distante da destruição do tempo, do homem e das catástrofes naturais.
As pirâmides foram erguidas imponentes na planície de Gizé, a quinze quilômetros da cidade do Cairo, capital do Egito. Foram construídas entre 2551 a 2495 a.C., servindo de túmulo aos faraós da IV dinastia. Suas estruturas colossais retratam o apogeu tecnológico e cientifico do Egito antigo, trazendo estruturas arquitetônicas e soluções de engenharia que desafiam os tempos antigos e atuais.
Inicialmente, a estrutura das pirâmides egípcias tinha uma base hexagonal (seis lados). A partir da pirâmide monumental atribuída ao faraó Snefru, e que não faz parte das sete maravilhas, foram alargadas as estruturas básicas, transformadas em um bloco compacto de alvenaria com oito terraços, preenchidos com blocos de pedras que se encaixavam com perfeição, formando um aclive em degraus. Quando recoberta com uma massa lisa de pedra calcária, a construção transformava-se em uma pirâmide geométrica.
Das três pirâmides, a maior é a de Quéops, construída como tumba do rei Khufu (Keóps), também chamada de Grande Pirâmide. Possui 146 metros de altura, tendo sido o mais alto monumento da terra por quase cinco mil anos, só perdendo o título após a construção da torre Eiffel, em Paris, em 1889. Heródoto, historiador grego, relata que cem mil trabalhadores foram utilizados na construção da pirâmide durante vinte anos. Foram utilizados mais de dois milhões de blocos de pedra.
Quéfren, um pouco menor do que Quéops, possui 143 metros de altura. Serviu de túmulo para o rei homônimo, filho de Khufu. A terceira, Miquerinos, possui 66 metros de altura, sendo túmulo do rei Menkaure, filho de Quéfren.
Os monumentos mostram o apogeu do Egito durante a IV dinastia, e o esplendor dos reis ali enterrados, prontos, segundo a tradição religiosa, a ressuscitarem dentro da mesma opulência em que viveram durante os seus reinados faustosos.

O Farol de Alexandria

Considerado a segunda maravilha do mundo antigo, o Farol de Alexandria foi erguido em 280 a.C., mais de dois mil anos depois das pirâmides de Gizé, a primeira maravilha. Foi construído em Faros, o que deu origem ao termo “farol”, uma ilha próxima ao porto da cidade de Alexandria, no Egito, transformada em istmo nos tempos atuais.
Na época da construção do farol, o Egito era governado pelos gregos. Fundada por Alexandre, o Grande, em 332 a.C., Alexandria foi concebida pelo rei macedônio para que se tornasse um grande centro de erudição, comércio e aprendizado. Os sucessores de Alexandre continuaram a sua obra, e a cidade tornou-se o maior centro cultural da antiguidade, para onde convergiam os grandes intelectuais e cientistas da época.
Foi em Alexandria, sobre o reinado de Ptolomeu I (323 a.C.- 285 a.C.), que o matemático grego Euclides criou o primeiro sistema de geometria. Aristarco concluiu que o Sol era o centro do universo, e não a Terra.
Foi em meio à ebulição erudita de Alexandria, que se ergueu o mais sofisticado dos faróis, que serviria de modelo para a construção dos que o sucederam. Foi o rei grego Ptolomeu II, que governava o Egito na época, quem ordenou a construção do farol, executada pelo arquiteto, também grego, Sóstrato de Cnidos. Era uma torre de mármore, com 120 metros de altura, no alto da qual ardia uma chama, que através de espelhos, iluminava, à noite, um raio de cinqüenta quilômetros à volta, o que lhe dava uma imponente visão diante dos navegantes por ele orientados. Possuía três estágios superpostos: o primeiro, quadrado; o segundo, octogonal; e, o terceiro, cilíndrico. Seu mecanismo assinalava a passagem do Sol, a direção dos ventos e as horas. O topo era alcançado por uma rampa espiral. Reza a lenda que Sóstrato, à procura de um material resistente à água do mar, construíra a torre sobre gigantescos blocos de vidro.
Depois das pirâmides do Egito, o farol foi a maravilha do mundo antigo que mais tempo durou. As causas da sua destruição são incertas. A versão mais aceita é a de que sucessivos terremotos foram danificando o monumento, sendo definitivamente destruído por um terremoto, provavelmente ocorrido em 1375.
As ruínas do Farol de Alexandria foram descobertas por mergulhadores no final do século XX, em 1994, sendo tão importante descoberta confirmada mais tarde por imagens de satélite, garantido a veracidade da sua existência como uma das maravilhas do mundo.

Os Jardins Suspensos da Babilônia

Tidos como a terceira maravilha do mundo, os Jardins Suspensos da Babilônia são entre as sete, o que menos se conhece. Nenhum sítio arqueológico foi encontrado que provasse os seus vestígios, o que faz com que muitos historiadores duvidem da sua existência, transformando-o numa lenda de amor. Em 1913, Robert Koldewey, um arqueólogo alemão, afirmou ter desenterrado ruínas que seriam dos jardins, mas as provas que apresentou não foram contundentes, sendo descartadas.
Dúvidas à parte, os Jardins Suspensos da Babilônia continuam a suscitar a imaginação dos homens através dos séculos. Os poucos registros sobre a sua existência originaram-se somente no século II a.C., vindos de relatos dos gregos Strabo e Diodoro. Nesses registros, os jardins teriam sido erguidos por ordem do rei Nabucodonosor II, entre 605 a.C. a 560 a.C., às margens do rio Eufrates, na cidade da Babilônia, Mesopotâmia, no sul do atual Iraque. Nabucodonosor II, reza a tradição, quis amenizar o sofrimento da sua esposa preferida, a bela Amitis, que vivia a suspirar de saudades da sua terra natal, a Média, coberta por montanhas e florestas. Assim, os jardins seriam frutos da homenagem e grande prova de amor de um rei para a sua mulher.
Para que se entenda o esplendor dos jardins, é preciso que se saiba sobre o apogeu do império caldeu e da Babilônia, a sua capital. Sob o reinado de Nabucodonosor, a cidade tornou-se a mais rica e importante do mundo antigo. Babilônia tornou-se um centro de comércio, navegação e estudos astrológicos, astronômicos e científicos. A expansão do império passava pelo comércio com os vizinhos, indo da península Arábica à Índia, passando por toda Ásia Menor. Babilônia tornou-se a cidade de maior esplendor, com construções arquitetônicas grandiosas. Este apogeu seria encerrado quando foi conquistada pelos persas, em 539 a.C. Dois séculos mais tarde, o império caldeu passou a ser dominado por Alexandre, o Grande, que fez de Babilônia a capital oriental do seu imenso reino, assimilando a cultura daquele povo, mesclando-a com a cultura helenística. Com a morte de Alexandre, Babilônia deixou de ser a capital do império, declinando pouco a pouco, até que foi riscada do mapa. Com o fim da cidade, todas as construções desapareceram, inclusive os seus famosos jardins suspensos.
Segundo a tradição, os jardins ficavam próximos ao palácio de Nabucodonosor II. Há versões de que ficava no próprio palácio. Eram seis montanhas artificiais feitas de tijolos de barro cozido, visto que os babilônicos não dispunham de pedras, daí as construções feitas do barro cozido e de azulejos esmaltados. Possuía terraços superpostos, apoiados em colunas de 25 a 100 metros de altura, onde foram plantadas árvores e flores, sendo irrigados pela água bombeada do rio Eufrates. No meio das plantas estavam exóticas árvores e flores tropicais, com alamedas de palmeiras. Uma escada de mármore era utilizada para que se chegasse aos jardins. Por entre as árvores e as folhagens, belas fontes jorravam água e mesas serviam de descanso aos visitantes, que dali podiam ver as belezas do fulgor da antiga Babilônia.
Se a existência dos jardins é questionada, nada se sabe do seu fim. Também chamado de Jardins Suspensos de Semiramis, a sua destruição, suspeita-se, deve ter ocorrido na época da destruição do palácio de Nabucodonosor. Sobre as ruínas da poderosa Babilônia, ergueu-se a cidade de Al-Hillah, a 160 quilômetros de Bagdá, capital do Iraque.

O Templo de Ártemis em Éfeso

Tido como a quarta maravilha do mundo, o Templo de Ártemis em Éfeso foi construído para a adoração da deusa grega da caça, protetora dos bosques e dos animais. A deusa virgem caçadora, Ártemis, seria assimilada a Diana, em Roma. O templo foi o maior do mundo antigo, alcançando fama e atraindo milhares de pessoas que nele vinham prestar honras à deusa venerada.
O templo foi erguido em 550 a.C., em Éfeso, região montanhosa da Ásia Menor, atual Turquia. Segundo algumas versões e teorias, teria levado duzentos anos para que as suas obras fossem concluídas. Creso, rei da Lídia, foi quem ordenou a sua construção ao arquiteto cretense Quersifrão, e ao filho deste, Metagenes.
O período da construção do templo corresponde ao que se chama de Arcaico na história da Grécia antiga, que foi dos séculos VIII a.C. ao V a.C. Na época, Éfeso tornou-se um dos portos gregos mais importantes, fazendo dela uma cidade poderosa do mar Egeu e do Mediterrâneo. Nas artes, a escultura grega atingia o seu apogeu, o que fez com que o templo fosse adornado por magníficas estátuas e objetos esculpidos em ouro e marfim.
O templo de Ártemis possuía 90 metros de altura, com 127 colunas de mármore, com 20 metros de altura cada uma, sendo 36 delas decoradas. Magníficas obras de arte compunham uma decoração faustosa. A estátua principal, a da deusa homenageada, que era a protetora da cidade, foi esculpida em ébano, ouro, prata e pedra preta. A estátua trazia as pernas e quadris cobertos por uma saia comprida decorada com delineados relevos de animais, o que exaltava as funções protetoras da deusa; da cintura para cima, três fileiras de seios se superpunham; a cabeça era adornada por um ornamento em forma de pilar.
Em 356 a.C., o templo foi incendiado por Heróstrato, que acreditava, ao destruir tão magnífica obra, seria imortalizado, tendo o seu nome espalhado por todo o mundo. Em represália ao destruidor do templo, os habitantes de Éfeso decidiram não revelar o seu nome, fazendo-o secreto e condenando-o ao ostracismo. O nome só seria revelado ao mundo pelo historiador Strabo.
Após a destruição do templo, Alexandre, o Grande, ofereceu-se para reconstruí-lo, mas as obras de reconstrução começaram somente em 323 a.C., ano da morte do conquistador macedônio. Durante a sua existência, o templo foi reconstruído e aumentado algumas vezes. Somente na quarta expansão, é que alcançou o apogeu que o tornou famoso e passou a fazer parte da lista das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.
Em 262 d.C., o templo foi novamente destruído, desta vez por um ataque provocado pelos godos, povos que invadiram as províncias romanas da Ásia Menor e dos Bálcãs. Em ruínas, o templo viu a conversão dos povos da região ao cristianismo, o que lhe fez perder a importância, sendo visto como lugar de cultura e crenças pagãs. Em 401 d.C. veio abaixo. Obras de arte e estátuas que pertenciam ao templo encontram-se no Museu Britânico, em Londres. Do grandioso monumento, nos tempos atuais resta apenas o pilar de uma coluna da construção original em ruínas.

A Estátua de Zeus em Olímpia

Zeus era para os gregos antigos, o mais poderoso de todos os deuses, considerado senhor absoluto do Olimpo, local de onde reinava sobre os homens e os imortais. Considerado pai dos deuses e de todos os grandes heróis gregos, Zeus, que se iria tornar o Júpiter dos romanos, teria que ser homenageado com uma escultura magnificente, que aflorasse a sua onipotência diante dos olhares humanos. Assim, foi erigida no século V a.C., entre 450 a.C. e 430 a.C., a monumental estátua de Zeus, esculpida pelo maior de todos os escultores gregos, o ateniense Fídias (500?-432? a.C.).
A estátua teria 13 metros de altura, sendo encomendada para adornar o santuário de Zeus em Olímpia, cidade da Grécia, situada no Peloponeso. Fídias era tido como o criador de obras perfeitas, os seus trabalhos revelavam aos homens a imagem dos deuses, segundo a tradição dos seus admiradores. Ninguém melhor do que ele estava apto a esculpir o senhor do Olimpo. Na obra, Zeus aparece sentado em um trono de ébano, bronze, marfim e ouro; traz a fronte adornada por cabelos espessos e ondulados, cingida por uma coroa de ramos de oliveira. O rosto do deus trazia a serenidade majestosa da divindade, emoldurado por uma barba longa e crespa e por olhos feitos de pedras preciosas. Na mão direita o senhor dos deuses segurava uma estatueta de Nique, a deusa da vitória; na esquerda, um cetro encimado por uma esfera na qual se debruçava uma águia. O deus vestia um manto de ouro bordado de flores. A estátua teria levado oito anos para ser construída, transformando-se na obra-prima de Fídias e na quinta maravilha do mundo. O Zeus de Fídias tornar-se-ia o tipo ideal da imagem do deus: um homem maduro, robusto, majestoso e de olhar grave, de cenho franzido. A partir desta estátua, futuros artistas encontraram inspiração para retratar Zeus.
Fídias construiu esta magnífica obra na época das guerras entre as cidades gregas de Atenas e Esparta pela hegemonia da Grécia e do mar Mediterrâneo. Mesmo debaixo de atritos constantes e da rivalidade entre as cidades, a Grécia viveu no século V a.C. o seu apogeu cultural, marcado por grandes realizações e manifestações na arquitetura, escultura e outras artes.
Não se sabe ao certo que fim levou a estátua. Com a cristianização da Grécia, os templos e as estátuas dos deuses passaram a ser ameaçados pela intolerância, sendo muitos deles destruídos. A estátua de Zeus em Olímpia era amada e admirada pelos gregos, que para protegê-la da perseguição cristã, pagaram para que fosse removida para a cidade de Constantinopla, atual Istambul, sendo preservada e ficando em segurança quando, em 391 d.C., os cristãos fecharam o templo. A estátua teria ficado preservada em Constantinopla até o ano de 462 ou 475 d.C., quando teria sido queimada em um incêndio. A idéia que se tem da estátua de Zeus em Olímpia e da sua suntuosidade vem das moedas de Elis, que trazem cunhadas a figura do monumento.

O Mausoléu de Halicarnasso

A Caria era um pequeno reino da costa sudoeste da península da Anatólia, atual Turquia. O pequeno reino, banhado pelo mar Egeu, atingiu um esplendor cultural e desenvolvimento durante o reinado de Mausolo, no século IV a.C. O monarca realizou grandes obras de embelezamento e proteção a Halicarnasso, cidade para a qual transferira a capital da Caria.
Sob as ordens de Mausolo, ergueu-se uma grande muralha e torres de guarda, para maior proteção de Halicarnasso; foi aprofundado o canal marítimo que dava acesso à cidade; um imponente palácio foi construído ao lado do porto; ergueu-se um teatro ao estilo grego; um templo para Ares, o deus da guerra; diversos templos foram adornados com estátuas trazidas de diversos lugares.
Entre as grandes construções promovidas por Mausolo, estava o projeto maior da sua ambição, erguer no centro de Halicarnasso um grande monumento que serviria de túmulo para que ele e a rainha Artemísia pudessem repousar os seus corpos, quando mortos, através da eternidade. Mas o projeto não se concluiu, pois Mausolo morreu antes, em 353 a.C.
Após a morte do marido e irmão, a rainha Artemísia mostrou-se inconformada. Para homenagear o amado, ela decidiu construir o mais suntuoso túmulo, que o homem jamais tinha visto até então, fazendo com que Mausolo fosse perpetuado, através de tão grandioso monumento, na memória dos seus súditos e dos forasteiros que viessem a Halicarnasso.
Em 353 a.C., Artemísia II ordenou que o túmulo fosse erguido sobre os restos mortais do marido. Para que se tornasse um monumento esplendoroso, foram chamados os maiores arquitetos gregos da época, Sátiros e Pítis; e quatro grandes escultores, também gregos, Escopas, Briáxis, Timóteo e Leocarés. O resultado seria uma obra grandiosa, que se iria transformar na sexta maravilha do mundo, o Mausoléu de Halicarnasso.
Erguido em uma colina da qual se avistava a cidade, o monumento ocupava um pátio fechado, com uma área superior a 1200 metros quadrados, onde em seu centro, foi construída a estrutura. Sustentado por 36 colunas, o monumento tinha uma altura de 45 metros. Acima da base quadrada, erguia-se uma pirâmide de 24 degraus, que trazia no topo uma carruagem de mármore puxada por quatro cavalos. A escada, com os seus 24 degraus, era ladeada por estátuas de leões de pedra; através dela chegava-se ao topo da plataforma. A tumba propriamente dita ficava no centro da plataforma, constituindo um bloco quadrado de 15 metros de altura; coberto por figuras em relevo mostrando cenas da mitologia grega, como a luta dos gregos contra as amazonas, ou a batalha dos centauros com os Iapitas; erguiam-se em seu topo, 36 colunas delgadas, 9 em cada um dos lados, separadas por estátuas postas entre cada uma delas. Por trás das estátuas, suportes sustentavam o telhado em formato de pirâmide, no terço final da altura, encimado por quatro cavalos puxando uma biga com as estátuas de Mausolo e Artemísia. Algumas dessas esculturas, provavelmente a de Mausolo, encontra-se nos tempos atuais no Museu Britânico, em Londres.
O mausoléu foi destruído, provavelmente por um terremoto, entre o século XI e XV. As pedras das suas ruínas foram aproveitadas para a construção de outros edifícios erguidos na cidade. Em 1522, rumores sob uma iminente invasão dos turcos sobre Halicarnasso, fez a população desmanchar o que restara do túmulo de Mausolo, usando o material para reforçar as muralhas de fortificação.
Além de ser uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, o Mausoléu de Halicarnasso passou para a história por ter sido através do nome do rei Mausolo, a origem da palavra mausoléu, usada para designar os monumentos funerários. Halicarnasso passou a ser chamada de Bodrum.

O Colosso de Rodes

Considerada a sétima e última maravilha do mundo antigo, o Colosso de Rodes era uma gigantesca estátua de bronze representando Hélios, o deus Sol da mitologia grega, ou, segundo algumas versões mais raras, o deus Apolo, deus que no decorrer dos séculos, substituiu a antiga divindade de Hélios em suas funções como deus solar; erguido na ilha grega de Rodes, no mar Mediterrâneo.
Rodes, uma grande ilha grega, era um importante centro comercial e cultural da Grécia antiga, considerada de vital estratégia por conta da sua localização, o que a levou a sofrer diversas invasões das civilizações antigas que a ambicionavam conquistar. Uma das tentativas que entraram para a história da ilha foi a efetuada pelo rei macedônio Demétrio Poliorcetes, filho do general Antígono, que após a morte de Alexandre, o Grande, herdara-lhe uma parte do império grego. Demétrio promoveu um longo e desgastante cerco a ilha, numa tentativa frustrada de poder conquistá-la. Quando as tropas macedônias retiraram-se de Rodes, deixaram para trás uma enorme quantidade de armas. Fundido o material bélico abandonado, a população da ilha decidiu utilizá-lo na construção de uma estátua que demarcaria a comemoração da retirada dos macedônios invasores.
A estátua começou a ser esculpida em 292 a.C., executada pelo escultor Carés de Lindos, assim chamado por ser de Lindos, uma outra cidade da ilha de Rodes. Ao fim de doze anos, Carés concluiu a obra. O resultado final foi uma colossal estátua de 30 metros de altura, feita em setenta toneladas de bronze, sendo oca por dentro. Foi erguida em 280 a.C., na entrada marítima de Rodes, tendo um pé fincado em cada margem do canal que levava ao porto, obrigando assim, que toda a embarcação que chegasse à ilha, passasse entre as pernas da gigantesca estátua. Na mão direita, o colosso trazia um farol em forma de tocha, que servia para orientar as embarcações durante a noite. Há fontes históricas que arriscam que o rosto da estátua tomara como modelo o de Alexandre, o Grande. Conta-se, ainda, que um homem de estatura mediana não conseguia abraçar o polegar da estátua, que trazia uma imponência incomum.
O arquiteto Carés teria suicidado-se logo após o término de tão soberba obra. Ironicamente, dizem que ficou desgostoso com o fraco reconhecimento que o povo de Rodes deu ao colosso.
Apesar da sua aparência indestrutível, como se fosse um gigantesco homem de ferro, o colosso de Rodes manteve-se em pé por apenas 55 anos, quando um terremoto abalou às estruturas, atirando-o no fundo da baía. Diante da catástrofe, o rei Ptolomeu III ofereceu-se para reerguer o monumento, mas os habitantes da ilha, orientados por um oráculo local, recusaram a oferta, temerosos de que tinham ofendido ao deus Hélios, e que a estátua representara um sacrilégio.
A estátua podia ser vista no fundo da baía pelos moradores da ilha e pelos navegantes que ali passavam. Ali ficou, na profundeza do mar, até o século VII, quando os árabes chegaram à ilha. Diante da recusa do povo em reerguer o monumento, os árabes recolheram e desmontaram as suas peças, vendendo-a como sucata. Conta-se que foram necessários novecentos camelos para transportar a histórica sucata.

As Outras Listas das Maravilhas do Mundo

O fascínio que a lista das Sete Maravilhas do Mundo exerce através dos séculos, fez com que o homem criasse, ao longo dos tempos, várias outras listas, trazendo as construções mais belas que a humanidade já criou.
No século XVI, inspirados na lista original das maravilhas, que passou a ser chamada de Sete Maravilhas do Mundo Antigo, surgiram diversas listas chamadas de Sete Maravilhas do Mundo Medieval. Algumas dessas listas surgiram, provavelmente antes da Idade Média, mas como já foi dito, só se acrescentou a palavra “medieval” a partir do século XVI.
Das listas das maravilhas medievais, a mais conhecida é a que elegeu os seguintes monumentos:
Stonehenge – Monumento megalítico da Idade do Bronze, situado na planície de Salisbury, próxima a Amesbury, no condado de Wiltshire, sul da Inglaterra.
Coliseu de Roma – Monumento também chamado de Anfiteatro Flaviano, situado em Roma, na Itália.
Catacumbas de Kom el Shoqafa – Sítio arqueológico histórico situado em Alexandria, no Egito.
Torre de Porcelana de Nanquim – Também conhecida como Bao’ensi (Templo da Gratidão), sítio arqueológico histórico localizado ao sul do rio Yang-Tsé, em Nanquim, na China.
Torre de Pisa – Torre projetada para abrigar o sino da catedral da cidade de Pisa, na Itália, famosa por sua inclinação.
Muralha da China – Também chamada de Grande Muralha, é uma gigantesca estrutura de arquitetura militar construída na China, durante o Império.
Basílica de Santa Sofia – Também conhecida como Hagia Sophia, imponente edifício do Império Bizantino, feito para ser a catedral de Constantinopla, atual Istambul, na Turquia.
Uma nova lista surgiu em 2006, chamada de Novas Sete Maravilhas do Mundo ou as Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Os monumentos que a compõem foram escolhidos em um concurso informal, de cunho popular internacional, promovido pela New Open World Foundation. A fundação pré-selecionou vários monumentos e lançou uma votação através de telefones móveis e da internet de todo mundo, para que se escolhesse as novas Sete Maravilhas do Mundo. Cem milhões de pessoas votaram de todas as partes do mundo. O resultado final foi anunciado em uma cerimônia na cidade de Lisboa, Portugal, em 7 de julho de 2007. O concurso não contou com o apoio da UNESCO.
Assim, foram escolhidas as Sete Maravilhas do Mundo Moderno, duas das quais, já haviam aparecido na lista das maravilhas medievais:
Muralha da China – Veja a descrição acima.
Petra – Importante enclave arqueológico situado na bacia entre as montanhas que formam o flanco leste de Wadi Araba, na Jordânia.
Cristo Redentor – Estátua de Jesus Cristo, situada no alto do pico do Corcovado, na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, a 709 metros acima do nível do mar.
Machu Picchu – Cidade pré-colombiana erguida pelos incas no topo de uma montanha, no vale do rio Urubamba, no Peru.
Chichén Itzá – Cidade arqueológica maia, situada no estado de Iucatã, no México.
Coliseu de Roma – Veja descrição acima.
Taj Mahal – Mausoléu situado em Agra, uma cidade da Índia.
Outras tantas listas foram perdidas, muito mais serão criadas, mas nenhuma será tão definitiva, intrigante e fascinante quanto a lista das Sete Maravilhas do Mundo, em que seis delas, apesar de consumidas pelo tempo, não deixam de excitar à imaginação do homem diante das belezas das suas criações através da história.