CARAS & BOCAS – GAL COSTA COM A BOCA NO MUNDO

Outubro 25, 2009

Em 1977, Gal Costa vinha, nos últimos anos, de três momentos distintos da sua carreira: o primeiro, em 1974, culminara em dois discos, “Temporada de Verão – Ao Vivo na Bahia”, que dividia com Caetano Veloso e Gilberto Gil, e “Cantar”, onde a cantora registrou a beleza da sua voz, optando por um canto límpido que valorizava o esplendor da sua voz única, quase que a nos trazer um recital de luxo. Apesar do esplendor do momento, o público do desbunde e a crítica rejeitaram a perfeição daquela obra, conclamando de volta a Gal Costa rebelde que acostumaram a ver desde o psicodélico “Gal”, de 1969. O segundo momento originou o “Gal Canta Caymmi”, lançado em março de 1976, que nasceu na carona da novela “Gabriela” (1975), quando Dorival Caymmi compôs o tema da abertura, “Modinha Para Gabriela”, com exclusividade para a cantora interpretar. E finalmente, o terceiro momento, o espetáculo “Doces Bárbaros”, em 1976, que registrou no palco o encontro histórico de Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Com certeza, a inspiração do show “Com a Boca no Mundo” e, conseqüentemente, a do disco “Caras & Bocas”, vieram dos cenários circenses, das roupas coloridas, e de um momento “flower power” tardio dos “Doces Bárbaros”.
Caras & Bocas”, lançado em 1977, conseguiu ser um registro do desequilibrado show “Com a Boca no Mundo”, desvencilhando-se e superando, em qualidade, o espetáculo. O canto rascante e os agudos rebeldes que se registrou no palco, desapareciam em todas as faixas, mostrando uma cantora madura dentro de um repertório jovial. A temática “flower power” é quase imperceptível no álbum, com uma criação existencialista atemporal em faixas como “Negro Amor” e “Caras e Bocas”. O disco derruba todo experimentalismo do show, mostrando as rupturas de Gal Costa, definitivas, prontas para fazer que ela se torne uma grande dama da MPB. “Caras & Bocas” é definitivo, depois dele, não se poderia mais voltar à fase da rebeldia de outrora, mas sim inaugurar uma nova, pois a cantora superara a si mesma, rasgando a cena nacional, pronta para desabrochar. O álbum é isto, uma contrastante beleza juvenil e madura da Gal Costa que se iria transformar, no ano seguinte, na maior intérprete da Música Popular Brasileira em todas as suas vertentes. O disco é isto, uma sedutora e definitiva ruptura da verdadeira baiana.

Com a Boca no Mundo – Ecos do Desbunde

Gal Costa tornara-se, no fim da década de 1960, na musa da Tropicália, cantou solitária o movimento quando os amigos Caetano Veloso e Gilberto Gil partiram para o exílio em Londres. Da Tropicália à psicodelia e à filosofia existencialista underground do desbunde, Gal Costa tornou-se um ícone da juventude dos barbudos e intelectuais ideologicamente “sem lenço, sem documento”. Aos poucos a cantora cresceu em prestígio e maturidade vocal e de palco. Sua sensualidade exuberante contrastava com o intimismo natural, fazendo dela algo único e definitivo. O desbunde foi ficando pela estrada, e Gal Costa era mais do que uma cantora de um determinado setor da sociedade brasileira.
Quando chegou aos trinta anos, navegando triunfante pelo universo musical do conceituado Dorival Caymmi, esperava-se e exigia-se dela vôos mais ousados dentro da essência da MPB. Mas, teimosamente, ela retrocedeu, queria voltar a abraçar aquela juventude que se rasgava por ela, esquecendo que as barbas já tinham sido raspadas, e caras mais limpas contornavam as tendências. O espetáculo “Os Doces Bárbaros”, de 1976, ia contra o momento, e insistia em dizer que o sonho “flower power” não havia acabado. Foi recebido por fortes críticas. Após o show, Maria Bethânia seguiu a carreira sem que se deixasse afetar pelo clima, e Gilberto Gil, depois da humilhação sofrida pela prisão por posse de droga, uniu-se a Rita Lee, em um espetáculo único. Gal Costa e Caetano Veloso deixaram-se tomar pela nostalgia hippie que se encerrara em Woodstock. O mestre baiano deixava claro aquele momento, com o lançamento de “Odara”, palavra que virou sinônimo de alienação em um Brasil sufocado por uma ditadura militar.
Contrária ao que se exigia dela, Gal Costa optou por um show jovial, com o clima rebelde que transitava entre o tropicalismo e o desbunde. Guilherme Araújo, então empresário da cantora, foi contra, mas ela insistiu e nasceu “Com a Boca no Mundo”, espetáculo que causou polêmica e desprezo da crítica carioca, na sua estréia no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro. Gal Costa deslumbrava em cena com um vestido longo, com um corte na frente. Vinha rebelde, provocativa, apagando de vez o efeito dos recitais do “Cantar”. Voltava com um canto rascante, quase sujo, acompanhada por metais estridentes, e, a explorar a exaustão os agudos desafiadores, lembrando a época do “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”. Mas a semelhança apagava-se diante do aparato cênico, algo inédito nos shows da cantora. A iluminação sofreu crítica negativa de todos, sem exceções. No repertório, ela trazia de volta as canções ícones do desbunde, “Pérola Negra” (Luiz Melodia) e “Vapor Barato” (Jards Macalé – Waly Salomão), e do tropicalismo psicodélico, “Cinema Olímpia” (Caetano Veloso). Numa época que Maria Bethânia declarava publicamente ser a única cantora no Brasil que sabia interpretar Chico Buarque, Gal Costa ousava em palco, o que nunca fizera em disco, cantar o compositor, fazendo-o em dois momentos brilhantes e únicos com “Flor da Idade” e “O Que Será (À Flora da Terra)”, só pelas interpretações históricas, culminando com a cantora sozinha, ao violão, interpretando “Um Favor”, valia todos os equívocos do espetáculo.
Com a Boca no Mundo”, que tinha como objetivo o lançamento do disco “Caras & Bocas”, sofreu forte rejeição, que não afetaria em nada o disco. Assim, aos 32 anos, a cantora promoveu a maior ruptura da sua carreira, encerrando com o espetáculo, todos os ecos do desbunde. O resultado viria no ano seguinte, com o disco “Água Viva”.

Da Voz, a Nota de Cristal Transparente

Caras & Bocas”, álbum de 1977, é quase a totalidade das canções que Gal Costa interpretou no show “Com a Boca no Mundo”. Teve a produção e excelentes arranjos de Perinho Albuquerque. Diferente do show, as interpretações do disco iam longe dos cantos rascantes e agudos rebeldes, trazendo momentos de suavidade e intensidade de um canto amadurecido, pronto para ser explorado em toda a sua técnica. A capa mesclava a descontração da era “flower power” com a sofisticação de uma mulher balzaquiana. Trazia a cantora de perfil, cabelos propositalmente revoltos, sobre um fundo preto. As fotografias, inventando caras e bocas, que justificavam o título, foram feitas por Marisa Alvarez Lima. Traz dez faixas, das quais três são versões de compositores norte-americanos.
A cantora iniciava o disco com a delicadeza intensa de “Caras e Bocas” (Caetano Veloso – Maria Bethânia), canção que por si só, define e alinha toda a proposta. Versos soltos, de um existencialismo mais sofisticado do que eloqüente, adquirem cor na interpretação intimista, mas intensa de Gal Costa. A música desenha a tradução perfeita de uma grande mulher que se pôs a seguir a vida como cantora do Brasil:

“Mas se dessa garganta
Das cordas escondidas
Desse peito sufocado
Desse coração atrapalhado
Surge uma nota brilhante
De cristal transparente”

E o cristal da voz, explicitamente revelado na letra e na interpretação, seguia rasgando e invadindo as faixas. “Me Recuso” (Rita Lee – Luís Sérgio – Lee Marcucci), dá passagem da leveza efêmera de Rita Lee para a jovialidade perene de Gal Costa. Vibrante, alegre, quase adolescente, a canção é uma rebeldia agradável contra a solidão, escancarando as portas da paixão para que se entre alguém sem medo. A cantora brinca com a canção, sem em momento algum, deixar de levar a sério o seu canto. Afinal, tudo era “relativo aos bons costumes do lugar” E a baiana sabia como ninguém romper qualquer tradição de costume.
O momento de paixão juvenil dá passagem para uma canção intimista, quase épica, “Louca Me Chamam” (Crazy He Call’s Me) (Carl Sigman – Bob Russel – versão Augusto de Campos). Grande sucesso da música norte-americana, a versão de Augusto de Campos, poeta concretista, é poética, combinando-se à beleza do lirismo do timbre e canto de Gal Costa. E ela canta no fogo dos sentimentos, sem andar sobre ele. Move montanhas com a doçura de uma voz de sereia, e nas palavras poéticas da melodia, recebemos a chave do seu céu musical, sem ousarmos a chamá-la sequer um momento, de louca.
Em “Clariô” (Péricles Cavalcanti), percebe-se a maturidade que atingira o canto de Gal Costa, conduzindo um momento que em outros tempos, não fugiria ao passionalismo do desbunde. Interpretação que rasga de forma elaborada um intimismo supostamente latente. “Clariô” teve duas versões públicas, a do álbum e a do compacto simples 6069.177, lançado pela Philips. E na esperança de um novo momento que não se escondia, clareava a carreira da cantora rumo à identidade definitiva.
No mesmo ritmo, o lado A do LP era encerrado com “Minha Estrela é do Oriente (Tindoró Dindinha)” (Jorge Ben). O mundo alegre de Benjor sempre alcançou porto seguro na voz e no estilo de Gal Costa. O compositor teve as suas canções gravadas por ela desde a época da Tropicália. A leveza existencialista, quase bicho grilo, da canção, acentua a proposta neotropical do disco, aburguesando com elegância a hippie balzaquiana que se apresentava deslumbrante. Música típica do universo ousado da musa do tropicalismo e do desbunde.

Momentos de Densidade Poética e Interpretativa

O lado B do disco era iniciado pela mítica “Tigresa” (Caetano Veloso), numa das interpretações mais sublimes e contundentes da carreira da cantora. Naquele ano, a canção foi gravada em simultâneo, por Caetano Veloso, no álbum “Bicho”; e, por Maria Bethânia, em “Pássaro da Manhã”. Mas foi na interpretação intimista contrastada com uma intensidade latente, de Gal Costa que a canção adquiriu o tom exato da sua vitalidade transgressora, tornando-se um grande sucesso de 1977. A música foi tema da personagem de Sonia Braga na novela “Espelho Mágico”, de Lauro César Muniz, produzida pela TV Globo. Reza a lenda que “Tigresa” foi feita para a atriz. Vários aspectos da trajetória de Sonia Braga mostram-se reveladores nos versos, que trabalhara como atriz na montagem brasileira do mítico musical “Hair”, no início de 1970. “Tigresa” cita outros momentos datados, mas que no conjunto, desaparecem sob uma canção marcante e atemporal. Letra extensa e de momentos poéticos intensos, que Gal Costa sabe conduzir com perfeição, tornando-se, com sua vasta cabeleira negra, a própria tigresa dos versos.

“Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel”

E a intensidade do disco prossegue, atingido um apogeu em “Negro Amor (It’s All Over Now, Baby Blue)” (Bob Dylan – Versão Caetano Veloso – Péricles Cavalcanti). Inquietante, densa, profunda, temática símbolo da geração “flower power”, “Negro Amor” traz de volta a Gal Costa da época do desbunde, numa interpretação que transita entre a técnica perfeita do canto e o passionalismo que sempre rompera em emoção o intimismo da voz. Pungente, quase sem saída, o mundo de Bob Dylan chegava à poesia singular da MPB. A precipitação no abismo existencialista da canção não destrói o equilíbrio emotivo que Gal Costa passa com esta interpretação sublime e única. Ela encerrava aqui, oficialmente, o empréstimo do seu canto àquele movimento que se iniciara lá no princípio de tudo. E para os que insistiam que o sonho não acabara, ela dizia:

“Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor”

Final ao Vivo

A densidade alcançada é diluída na proposta de “Meu Doce Amor” (Marina – Duda Machado), onde os agudos retumbantes da cantora são usados com um domínio incomum, fazendo a canção crescer vertiginosamente. Marina Lima era introduzida na MPB como compositora com extraordinário brilho. Gal Costa é aqui jovial, intensa, apaixonante. E se o sangue era doce, todos os ouvintes sangravam naquela voz que já não vacilava em busca do apogeu.
E o intimismo épico voltava em “Solitude” (Duke Ellington – Eddie de Lange – Irving Mills – Versão Augusto de Campos), terceira e última versão do disco. Nunca o mundo se fez tão solitário como nesta interpretação de sereia embriagante. Gal Costa enlouquece a dor com a sua voz doce e cortante, quando o tema é a solidão. “Solitude”, apesar de intimista, alcançou relativo sucesso, tornando-se parte da trilha sonora da novela “Dancin’ Days”, de Gilberto Braga, em 1978. O sucesso foi imediato, e a cantora foi convidada a participar de um capítulo da novela, encontrando-se com as personagens de Sonia Braga e Joana Fomm. Na faixa, outro momento de delicadeza e interpretação de emotividade intuitiva.
No decorrer do show “Com a Boca no Mundo”, um dos momentos mais aplaudidos foi quando Gal Costa sentou-se em um pequeno banco e, a solo no violão, interpretou “Um Favor” (Lupicínio Rodrigues). A platéia ia ao delírio. A cantora trouxe para o álbum aquele momento de beleza, encerrando com esta canção as dez faixas de “Caras & Bocas”. A versão aqui apresentada não foi gravada em estúdio, veio diretamente dos palcos, ao vivo. Inteligentemente, o álbum era encerrado em um tom que dava a sensação de ter sido feito todo ao vivo, no calor da platéia que lhe ouvira todas as faixas. Gal Costa tira o tom pungente do universo solitário de Lupicínio Rodrigues, dando-lhe, com a cumplicidade do público, uma dimensão de esperança diante dos reveses da paixão. Depois desta interpretação, a música tornou-se um clássico da MPB.
Caras & Bocas” arremata, com sofisticação e beleza, o que apenas ficou sugerido em “Com a Boca no Mundo”. Consolida o prestígio de Gal Costa, deixando claro que já era hora de tirar os pés descalços da cantora do palco, para que pisasse com sandálias de prata no âmago da Música Popular Brasileira.

“Minha cara invade a cena
Rasga a vida
Mostra o brilho
Agudo musical”

Ficha Técnica:

Caras & Bocas
Philips
1977

Direção de Produção: Perinho Albuquerque
Direção de Estúdio: Perinho Albuquerque
Técnicos de Gravação: Chocolate, Ary Carvalhaes, Jairo Gualberto e Luiz Cláudio Coutinho
Técnico de Mixagem: Luigi Hoffer
Auxiliares de Estúdio: Julinho, Aníbal e Varella
Montagem: Luiz Cláudio Coutinho
Capa: Aldo Luiz
Fotos: Marisa Alvarez Lima
Arte Final: Jorge Vianna
Estúdio: Phonogram
Arranjos e Regências: Perinho Albuquerque e Thomas Improta

Músicos Participantes:

Piano: Thomas Improta
Guitarra: Perinho Albuquerque, Vinícius Cantuária e Beto Gomes
Baixo: Rubão Sabino e Moacyr Albuquerque
Violão: Rubão Sabino e Gal Costa (Um Favor)
Bateria: Robertinho Silva, Paulinho Braga, Enéas Costa e Vinícius Cantuária
Violão Folk: Rick Ferreira
Flauta: Jorginho
Gaita: Maurício Einhorn
Percussão: Mônica Millet, Bira da Silva e Djalma Corrêa
Pistom: Wanderley
Sax-Alto: Tuzé Abreu
Sax-Tenor: Raul Mascarenhas
Sax Solo: Juarez Araújo

Faixas:

1 Caras e Bocas (Caetano Veloso – Maria Bethânia), 2 Me Recuso (Rita Lee – Luís Sérgio – Lee Marcucci), 3 Louca Me Chamam (Crazy He Call’s Me) (Carl Sigman – Bob Russel – versão Augusto de Campos), 4 Clariô (Péricles Cavalcanti), 5 Minha Estrela É do Oriente (Tindoró Dindinha) (Jorge Ben), 6 Tigresa (Caetano Veloso), 7 Negro Amor (It’s All Over Now, Baby Blue) (Bob Dylan – versão Caetano Veloso – Péricles Cavalcanti), 8 Meu Doce Amor (Marina – Duda Machado), 9 Solitude (Duke Ellington – Eddie de Lange – Irving Mills – versão Augusto de Campos), 10 Um Favor (Lupicínio Rodrigues)


VICENTE SESSO – O INVENTOR DO ESTILO DAS NOVELAS DAS SETE

Outubro 16, 2009

Vicente Sesso é um dos mais importantes nomes da teledramaturgia brasileira, sendo muitas vezes negligenciado por aqueles que contam a história da televisão. Assim como Janete Clair e Ivani Ribeiro, Vicente Sesso foi um dos responsáveis pela modernização das telenovelas, levando-as ao formato atual.
O autor foi o responsável pelo último grande sucesso da extinta TV Excelsior, “Sangue do Meu Sangue”, em 1969. Sua ida para a TV Globo, em 1970, deu-se com a novela “Pigmalião 70”, primeira produção da emissora carioca para o horário das 19h00 com linguagem coloquial, sem os resquícios dos dramalhões de época. Com esta novela, Vicente Sesso inaugurava o estilo comédia água-com-açúcar que prevalece no horário até os dias atuais.
As poucas novelas que o autor escreveu tornaram-se grande sucessos, marcando uma época. Seu texto é inteligente, delicado e sempre ladeado por um humor sofisticado. Um elenco estelar é outra característica imprescindível em sua obra, tendo sempre os maiores nomes do teatro e da televisão da época em suas tramas. Foi numa novela de Vicente Sesso, “Minha Doce Namorada” (1971), que Regina Duarte foi aclamada a “Namoradinha do Brasil”. Suas personagens primam pelo carisma, pela identificação com o grande público, visto que o que o autor escreve é uma transcrição do cotidiano, com cenas que ele criou a partir do que viu ao seu redor.
Infelizmente Vicente Sesso trocou a televisão brasileira pelas emissoras latinas, escrevendo grandes sucessos para o público da Argentina, Peru, Chile, Espanha e Colômbia, entre muitos. Cultuado por grandes damas da dramaturgia brasileira, como Fernanda Montenegro e Tônia Carrero, é um dos autores mais respeitado por esta geração. Em 2009 o SBT comprou os direitos autorais de três novelas de Vicente Sesso para uma readaptação, entre elas “Uma Rosa Com Amor” e “Minha Doce Namorada”. Redescobrir Vicente Sesso é penetrar nas raízes mais profundas do gênero da telenovela brasileira. Mesmo nos tempos atuais, a leveza singela dos seus textos não permitiu que envelhecessem, porque descreve de forma cômica a própria sociedade universal, motivo que o faz ser aceito com sucesso nas emissoras de outros países. Ator, diretor, dramaturgo, novelista, pai adotivo do ator e diretor Marcos Paulo, Vicente Sesso é um marco da televisão brasileira.

Vicente Sesso, Autêntico Paulistano

Vicente Sesso nasceu na cidade de São Paulo, em 17 de maio de 1933. Sua verve paulistana jamais deixou de aflorar na formação da personalidade. Seu pai, Francisco Sesso era militar, e a mãe, Filomena Rotela Sesso, uma sofisticada proprietária de casa de modas e de chapéus. A junção dos pais ajudou na construção do universo teledramático do autor. Vicente Sesso chegou a fazer os figurinos para alguns dos personagens das suas novelas. Suas heroínas traziam a coragem e a dinâmica que se emanavam da mãe. O trabalho intenso dos pais, obrigava que fosse criado e educado por uma governanta alemã. A educação rígida da governanta fez com que aos cinco anos, lesse o alemão.
A paixão pelo teatro foi herdada do pai, um militar voltado para as artes cênicas. Francisco Sesso costuma levar os filhos a quase todos os espetáculos que passavam pela paulicéia. O fascínio do patriarca Sesso pelo teatro, fez com que ele travasse amizade com vários atores. Uma das amizades por ele cultivada era com a italiana Franca Bonni. A atriz montava uma peça para atuar com uma companhia na Argentina. Na peça havia um papel de criança, e o ator-mirim que o viveria, esperado da Itália, não veio. O então adolescente Vicente Sesso foi escalado para viver a personagem. Foi a estréia como ator daquele que se iria tornar um grande dramaturgo da televisão, em palcos argentinos, numa peça italiana. Quando retornou da excursão, a paixão pelo teatro já lhe corria nas veias.
Ainda na adolescência, ganhou uma bolsa para estudar na Europa. Em Londres, na Inglaterra, observou os mecanismos do mais novo veículo de comunicação que aportara no Brasil, a televisão. Viu de perto como eram feitos os trabalhos televisivos na BBC de Londres. Quando retornou ao Brasil, trazia o aprendizado dos bastidores da televisão incipiente.

A Estréia Como Teledramaturgo

No Brasil, Vicente Sesso, um jovem de 18 anos, passou a trabalhar com um grupo de teatro amador. Embora muito jovem, candidatou-se a um concurso para o cargo de diretor teatral, tendo como função inaugurar vários teatros de bairro na cidade de São Paulo, sendo um dos vencedores. No cargo, passou a escolher e a dirigir peças, destacando-se precocemente na profissão.
A vida artística de Vicente Sesso confunde-se com a própria história da televisão brasileira. Logo que retornou de Londres, foi trabalhar na TV Tupi, a convite de Cassiano Gabus Mendes. Permaneceu naquela emissora até a saída de Graça Melo, que o levou para a TV Paulista, em 1952.
Na TV Paulista, passou a participar de “Grandes Teatros”, com grupos que faziam peças transmitidas às segundas-feiras. Sua genialidade logo despontou nos trabalhos. Passou a opinar nos textos, que considerava ruins. Diante das críticas, Graça Melo desafiou-o a escrever um texto melhor. Aceitando o desafio, escreveu uma peça de natal, “Meninos dos Ramos”. Ao entregar o texto, viu o rosto incrédulo de Graça Melo, que duvidava ser ele o autor. O resultado foi imediato, Vicente Sesso ganhou com o texto, o prêmio de melhor autor do ano. Nascia um novo teledramaturgo que escreveria o seu nome na história da televisão brasileira.

Passagens Pelas Maiores Emissoras Primordiais

Ainda na TV Paulista, Vicente Sesso passou a escrever os monólogos de um programa dirigido por Graça Mello. Passou a ser responsável pelos teatros exibidos no canal. Foi criando e adaptando com primor várias peças. O perfeccionismo do seu teatro envolvia muito trabalho. Cuidava de tudo minuciosamente, da maquiagem à iluminação. Passou a desenhar as roupas para as personagens que criava ou dirigia, uma característica que se seguiria em suas futuras novelas de época. O jovem Vicente Sesso era visto como genial, e dono de um gênio forte e exigente. Em um ano, adaptou e encenou dez textos de William Shakespeare. Na época, ele começou a questionar-se se queria seguir a carreira de ator ou a de escritor.
Vicente Sesso passaria pelas principais emissoras da televisão brasileira da década de 1960, sempre responsável pelo gênero do teleteatro, onde ganhou prêmio também como melhor diretor. Voltou para TV Tupi, onde passou a escrever seriados infanto-juvenis, como o “Teatro da Fantasia”, “As Aventuras de Marco Pólo”, que ficou no ar por quatro anos, e, “Jardim Encantado”.
Sempre a acompanhar Graça Melo, o autor foi parar na TV Record, onde aprendeu as mais avançadas técnicas de televisão, importadas dos Estados Unidos por engenheiros norte-americanos. Mais tarde, ele declararia que foi na TV Record que aprendeu, de fato, a trabalhar em televisão.
Vicente Sesso tornar-se-ia por certo tempo, um produtor independente, pois era conhecido por ser genioso e querer fazer tudo ao seu jeito. Passou ainda pelo departamento de televisão da McCann Erickson, contratado como diretor.
A sua estréia como autor de telenovelas iria acontecer quando foi contratado pela mítica e então poderosa, TV Excelsior de São Paulo.

O Último Sucesso da TV Excelsior

A TV Excelsior era conhecida pelo esmero que utilizava nas grandes produções. Suas novelas de época diferenciavam das da TV Globo pela qualidade dos textos, muitas vezes com inspiração em clássicos da literatura brasileiro. Seguindo a lógica, quando contratado pela emissora paulista, Vicente Sesso optou pela adaptação de obras de autores brasileiros, desenvolvendo trabalhos de fôlego, já no estilo da telenovela, como “O Guarani”, “As Minas de Prata” e “Senhora”, todas inspiradas em obras de José de Alencar.
Em 1966, escreveu e dirigiu o seriado semanal “As Aventuras de Eduardinho”, voltado para o público infanto-juvenil. Os episódios, apresentados aos sábados, mesclavam folclore nacional e internacional, com personagens históricas e atuais. Contava com um elenco fixo, recebendo vários atores convidados. O seriado tem como curiosidade ter lançado as carreiras dos atores Denis Carvalho e Marcos Paulo, este último filho adotivo de Vicente Sesso. Os atuais atores e diretores eram na época crianças. O seriado ficaria no ar até 1968. Inicialmente foi exibido e produzido pela TV Excelsior, depois pela TV Paulista/Globo, mas já sem o grande sucesso do começo.
Trabalhos intensos fizeram que o autor tivesse um princípio de enfarte, aos 35 anos. Com a saúde abalada, Vicente Sesso foi obrigado a parar com as atividades, afastando-se da televisão por um bom tempo.
Já recuperado, voltaria em 1969, para escrever a trama de “Sangue do Meu Sangue”, novela que se tornaria um clássico da história da televisão e o último grande sucesso da TV Excelsior, que viria a falir pouco tempo depois do seu término.
Sangue do Meu Sangue”, foi nos moldes das telenovelas atuais, a primeira a ser escrita por Vicente Sesso. Dramalhão de época, diferenciava-se das novelas contemporâneas de Glória Magadan na TV Globo por trazer um texto envolvente e fascinante, inspirado não em sheiks ou imperadores europeus, mas na história brasileira, com a temática abolicionista que incomodou a censura da ditadura militar, obrigando a emissora a mudar o horário de transmissão, das 19h00 para as 20h00. Além de escrever a trama, Vicente Sesso criou as roupas usadas pelos atores.
Uma das características das novelas do autor é o uso de um elenco luxuoso. “Sangue do Meu Sangue” trazia grandes estrelas do teatro e da televisão, que na época estavam no auge das suas carreiras. Francisco Cuoco, no papel de Lúcio Rezende, protagonista da trama, firmava-se definitivamente como grande galã das telenovelas, sendo logo a seguir, arrebatado pela TV Globo. Fernanda Montenegro fazia a sofrida Júlia, emocionando o Brasil. Tonia Carrero, outra grande dama do teatro, fazia a sua estréia nas novelas, no papel de Pola Renon, a atriz tornar-se-ia uma das preferidas do autor. Ainda faziam parte da constelação de estrelas Henrique Martins, Nicette Bruno, Rosamaria Murtinho, Armando Bógus, Mauro Mendonça, Sadi Cabral, Rodolfo Mayer, Nívea Maria, Edmundo Lopes, Rita Cléos, Sérgio Britto, Aldo de Maio, Nathália Timberg, Cláudio Corrêa e Castro, Enio Carvalho, Carminha Brandão, Nestor de Montemar, Edmundo Lopes, Antonio Pitanga, Rachel Martins, Gilmara Sanches, Eduardo Abbas, Gladys Maria, Eudóxia Acuña, Geny Prado, Silvio de Abreu, entre outros.
Em 1995, o SBT fez uma segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, trazendo Tarcísio Filho, Lucélia Santos e Bia Seidl nos papéis de Lúcio Rezende, Júlia e Pola Renon, respectivamente. Apesar de uma produção minuciosa da emissora, a versão não teve o grande sucesso da primeira, e Vicente Sesso mostrou-se insatisfeito com ela, chegando a declarar que o seu texto tinha sido descaracterizado. Completava o elenco da segunda versão, entre muitos, Rubens de Falco, Osmar Prado, Lucinha Lins, Othon Bastos, Denise Fraga, Suzy Rego, Guilherme Leme, Ewerton de Castro, Bete Coelho, Paulo Figueiredo, Marcos Caruso, Jussara Freire, Jandira Martini, Yara Lins, Edgard Franco, Jayme Periard, Delano Avelar, Vera Zimmermann, Flávia Monteiro, Jandir Ferrari, Luís Guilherme, Elisa Lucinda, Rogério Márcico, Marcos Plonka, Cacá Rosset, Walter Forster e Irene Ravache. Tônia Carrero, que brilhou na versão original, voltou em participação especial.

Inaugurado o Estilo das Novelas das 19h00 na TV Globo

O sucesso de “Sangue do Meu Sangue” levou a TV Globo a contratar, em 1970, Vicente Sesso como novelista. O autor tinha grandes desafios, como o de escrever uma novela para o mítico Sérgio Cardoso e, criar uma história atual, que encerrasse a era dos dramalhões de época no horário das 19h00. Surgia “Pigmalião 70”, inspirada na peça de Bernard Shaw, com inversão das personagens. Nando (Sérgio Cardoso), é um humilde feirante que trabalha ao lado da mãe, a Baronesa (Wanda Kosmo) e é noivo de Candinha (Suzana Vieira). Um dia um pequeno acidente automobilístico faz com que o seu destino cruze o da milionária Cristina (Tonia Carrero). Instigada pela situação, Cristina faz uma aposta com o pai (Álvaro Aguiar), de que transformaria aquele homem rude em um sofisticado cavalheiro para apresentar à alta sociedade. Cristina vence a aposta, mas se apaixona profundamente por Nando.
Pigmalião 70” foi um grande sucesso de audiência, marcando o estilo da linguagem de comédia do horário das 19h00 na TV Globo, que persiste até os tempos atuais. A partir de então, todas as novelas do horário foram escritas sobre os moldes da estrutura delineada por Vicente Sesso. A química entre Sérgio Cardoso e Tônia Carrero atingiu o grande público, que se deliciava com dois gigantes dos palcos brasileiros, mostrando-se então, fascinantes na televisão.
A beleza magnética de Tonia Carrero fez com que todas as mulheres brasileiras imitassem o seu corte de cabelo, chamando-o de pigmalião. Suzana Vieira marcava a sua estréia na TV Globo, onde construiria uma brilhante carreira.
Os grandes vilões sempre fizeram parte das tramas de Vicente Sesso, sem que se mostrassem caricatos; na novela, Carlito, magnificamente interpretado pelo ator Edney Giovenazzi, era o antagonista e vilão. No elenco, escolhido com rigor e primor, estavam ainda, Felipe Carone, Célia Biar, Eloísa Mafalda, Marcos Paulo, que seria uma presença constante nas tramas do pai, Maria Luiza Castelli, Betty Faria, Rachel Martins, Norah Fontes, Renato Máster, Jacyra Silva, Jardel Mello, Carmem Silva, Ruth de Souza, Ida Gomes, Elizabeth Gasper, Adriano Reys, Herval Rossano, Íris Bruzzi, Eleonor Bruno. Entre o elenco, havia a insólita presença da jornalista Marisa Raja Gabaglia, que era muito popular no telejornalismo da década de 1970.
A novela firmou o estilo do horário; alcançou o grande público; ao lado de “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, transmitida em época simultânea, no horário das 20h00, transformou a TV Globo, pela primeira vez, em líder de audiência sobre todas as outras emissoras; lançou moda e, fez grande sucesso com a sua trilha sonora. Vicente Sesso tornar-se-ia um ícone daquele horário.

Nasce a Namoradinha do Brasil

Após a bem sucedida “Pigmalião 70”, Vicente Sesso tomou fôlego por alguns meses, voltando em 1971, com “Minha Doce Namorada”, novela que se iria tornar um dos maiores sucessos do horário na TV Globo, considerada um ícone do gênero.
A trama foi inspirada em vários textos que o autor já havia apresentado anteriormente em outros canais de televisão, tendo como núcleo central, uma história que tinha sido apresentada no “Teatro de Fantasia”, na década de 1950.
A novela trazia como protagonistas Regina Duarte e Cláudio Marzo, nos papéis de Patrícia e Renato, respectivamente. Era a terceira produção da TV Globo que utilizava os atores como um casal romântico, parceria bem aceita pelo público, iniciada em “Véu de Noiva” (1969). Os atores vinham do elenco da novela “Irmãos Coragem”, onde os seus personagens Duda Coragem e Ritinha, foram retirados da trama para as gravações da novela de Vicente Sesso. Regina Duarte, que engravidara durante o decorrer de “Irmãos Coragem”, vinha recuperada do seu primeiro parto, irradiando uma luz e doçura no papel da órfã criada por artistas mambembes, que lhe valeu, de imediato, ser conclamada a “Namoradinha do Brasil”, título carinhoso que perseguiu a atriz por quase uma década, influenciando na designação dos papéis que lhe seriam dados na TV Globo nos anos de 1970.
Minha Doce Namorada” trazia os mais singelos e fascinantes ingredientes do chamado estilo comédia “água-com-açúcar”. Iniciou-se na cidade histórica de Ouro Preto, mostrada através das repúblicas tradicionais de estudantes, onde vivia Renato, e de um parque de diversões, que abrigava a doce e decidida Patrícia. O encontro do casal dar-se-ia sobre a magia da cidade. Os altos custos da produção em Ouro Preto, fizeram com que as personagens mudassem para a cidade do Rio de Janeiro.
Além de Patrícia, personagens carismáticos conquistaram o Brasil, como a misteriosa e bondosa Tia Miquita, uma vendedora de maçãs do amor, magistralmente vivida por Célia Biar. Para interpretar a personagem, a atriz utilizou-se de uma maquiagem que a deixava bem mais velha. Também o veterano Sadi Cabral explodiu no gosto do público, vivendo a personagem do poderoso Hipólito Peçanha, que confundido por Patrícia como um faxineiro da fábrica que era dono, faz-se passar por Seu Pepê, iniciando com ela uma amizade carismática e cumplicidade que conquistou a simpatia dos telespectadores. Seu Pepê e Patrícia viraram tema de uma marchinha de carnaval no ano de 1972. A antagonista da vez era a grande vilã Madame Sarita, interpretada por Vanda Lacerda. A personagem despertou a ira do público, e a atriz sofreu com a perseguição dos mais exaltados.
Minha Doce Namorada” contava com um elenco coeso, que lhe permitiu uma ampla galeria de personagens carismáticos. Entre eles estavam a bela Maria Cláudia, Mário Lago, Suzana Vieira, Marcos Paulo, Heloisa Helena, Renata Fronzi, Roberto Pirillo, Paulo Padilha, Juan Daniel, Yara Cortes, Daniel Filho, Reynaldo Gonzaga, Dorinha Duval, Íris Bruzzi, Elza Gomes, Jardel Mello, Carmen Silva, Rachel Martins, Urbano Lóes, Carminha Brandão e Enio Carvalho, ator ícone do universo de Vicente Sesso, presença constante em suas novelas. Outra curiosidade foi a presença de Suzana Gonçalves, irmã de Suzana Vieira; a atriz transformar-se-ia em um grande sucesso da TV Globo, fazendo personagens marcantes. Ela abandonaria a carreira no auge, em 1976, partindo com o marido para desbravar o futuro estado de Rondônia.

O Apogeu Com Uma Rosa Com Amor

Com “Minha Doce Namorada”, Vicente Sesso escreveu de vez o seu nome como grande escritor de novelas de sucesso. Alcançaria o apogeu com a próxima trama, “Uma Rosa Com Amor”, que iria ao ar entre 1972 e 1973. Àquela altura, o autor sabia todas as técnicas do gênero de novelas que se tornara um mestre, para atrair grandes públicos.
A trama fugia dos casais românticos tradicionais, mostrando a história da solteirona Serafina Rosa Petrone (Marília Pêra), secretária romântica e atrapalhada, que vivia em um cortiço com os pais, Giovanni (Felipe Carone) e Amália (Lélia Abramo), e a irmã Terezinha (Nívea Maria), numa típica família de imigrantes italianos. O sonho de Serafina era um dia vir a casar; no escritório onde trabalhava como secretária, enviava todos os dias uma rosa para si mesma, para que os colegas pensassem que tinha um admirador secreto.
O patrão de Serafina, Claude Geraldi (Paulo Goulart), por quem ela suspirava, era noivo da sedutora Nara (Yoná Magalhães), e estava envolvido em negócios escusos, além de estar ilegal no país. Para regularizar a sua situação, teria que se casar, mas como Nara era desquitada e as leis da época não lhe permitia um segundo matrimônio, Claude não viu outra saída a não ser propor um casamento a Serafina, com data e hora para acabar. Após muitos desencontros e situações cômicas, Claude finalmente se deixará apaixonar pela secretária.
Marília Pêra consolidava-se como uma grande humorista através de Serafina, conquistando de vez o grande público brasileiro. Foi um dos papéis mais carismáticos que já viveu na televisão. O amor de Serafina e Claude era embalado pela música “Ben”, cantada pelo menino Michael Jackson, que desde então, passou a ser conhecido em todo o Brasil. O casal protagonista era uma novidade no horário. Paulo Goulart estava no seu auge de galã de telenovelas. Depois desta novela, o ator deixaria a TV Globo, sendo contratado pela TV Tupi. Só voltaria à emissora em 1980.
Yoná Magalhães, que na década de 1960 foi a grande estrela global, voltava à emissora carioca após dois anos na TV Tupi, para viver sua primeira vilã, abandonando o estereótipo das heroínas das novelas de Glória Magadan. A atriz usava durante toda a novela, uma peruca loira, uma moda na época. A atriz Lélia Abramo, ao viver Amália, uma autêntica e popular mãe italiana, ganhou rótulo na televisão como intérprete de grandes matriarcas imigrantes.
Tônia Carrero, presença quase que obrigatória nas telenovelas de Vicente Sesso, mostrou todo o seu glamour na pele da sofisticada atriz Roberta Vermont, que se envolvia com Sérgio (Marcos Paulo). Pela primeira vez, em uma novela das 19h00, foi desenvolvido o tema de uma mulher mais velha apaixonar-se por um homem mais jovem. Tônia Carrero e Marcos Paulo viveram com delicadeza este romance, sob os protestos de Joana (Vanda Lacerda), mãe do rapaz. Seria a última personagem de Tônia Carrero em uma novela, na década de 1970. Cansada da televisão, a atriz deixaria o veículo, só retornando em 1980.
Grande destaque para a participação de Grande Otelo, presença rara nas telenovelas. O ator viveu o velho Pimpinoni, artista criador de marionetes, que com os seus bonecos, contavam histórias da vida. Pimpinoni é uma das personagens típicas do universo de Vicente Sesso, carismático, desprovido de vaidades e no crepúsculo da idade, com palavras sábias para aconselhar e proteger com amor quem circula a sua volta.
O elenco de primeira grandeza, contava ainda com as presenças de Leonardo Villar, José Augusto Branco, Ênio Santos, Ary Fontoura, Rosita Thomaz Lopes, Aurimar Rocha, Roberto Pirillo, Henriqueta Brieba, Heloísa Helena, Monah Delacy, Jacyra Silva, Eleonor Bruno, Mirian Muller, Cléa Simões, Dinorah Marzullo, Gilberto Martinho e Nelson Caruso.
Apesar do grande sucesso de público, “Uma Rosa Com Amor” marcava a despedida de Vicente Sesso como novelista da TV Globo. O autor não aceitava muito bem o esquema de ter que esticar uma trama mediante os índices de audiência alcançados. Ainda naquele ano de 1973, assinaria contrato com a TV Tupi de São Paulo. Longe da emissora carioca, jamais voltou a obter o sucesso alcançado por suas novelas.

Breve Passagem Pela TV Tupi

Após o sucesso de “Uma Rosa Com Amor”, Vicente Sesso voltaria a TV em novembro de 1973, quando estreava outra novela de sua autoria, “As Divinas… e Maravilhosas”, escrita para a TV Tupi. O autor deixava os cenários cariocas para escrever sobre a tradicional família paulistana, retrato que ele, nascido em um casarão na Rua Conselheiro Crispiniano, centro de São Paulo, conhecia muito bem.
A história girava em torno de três mulheres de idade distintas: a velha Haydée (Nathália Timberg), a jovem e bela Catarina (Beth Mendes) e a madura Helena (Nicette Bruno). Um testamento milionário, que deixava um típico palacete paulistano da época de ouro dos barões do café e, uma grande fortuna, modificaria para sempre a vida daquelas três mulheres.
Para interpretar Haydée, uma velhinha, Nathália Timberg teve que se submeter a uma pesada maquiagem, envelhecendo o seu rosto e gestos. Ao lado de Nicette Bruno, Maria Aparecida Baxter e Yolanda Cardoso, a atriz foi responsável pelo sucesso da trama, todas volvidas pelo tom carismático das personagens de Vicente Sesso.
Mas a novela não alcançou o mesmo sucesso que as antecessoras escritas pelo autor para a TV Globo. Teve vários fatores que contribuíram para um desenlace morno, sem o fascínio de “Uma Rosa Com Amor” ou “Minha Doce Namorada”. Na luta pela audiência, a TV Globo contratou o diretor da novela, Oswaldo Loureiro, que iria atuar como ator em “Corrida do Ouro”. Deixando a direção, Oswaldo Loureiro foi substituído por Egberto Luiz.
Outra mudança que afetou o curso da trama foi em relação à personagem Catarina, uma das protagonistas. Bete Mendes, a atriz que a interpretava, sofreu um grande acidente automobilístico, sendo submetida a um longo período de convalescença, obrigando Vicente Sesso a desaparecer com a personagem. Durante o período que se restabelecia, Bete Mendes foi contratada pela TV Globo para viver a protagonista de “O Rebu”, de Bráulio Pedroso. A atriz já tinha protagonizado “Beto Rockfeller”, grande sucesso do mesmo autor. Diante do impasse, a personagem só voltaria à trama no último capítulo da novela, em que a direção aproveitou a edição de imagens de capítulos já gravados, em que ela aparecia em cenas românticas com o ator Ênio Carvalho.
Apesar de todos os problemas, a novela manteve uma envolvente e carismática trama, com destaques para as interpretações sublimes de Nathália Timberg, Nicette Bruno e John Herbert, e as engraçadas tiragens de Ana Maria Baxter e Yolanda Cardoso.
No elenco constava como sempre, a presença de grandes nomes como o grande ator do teatro brasileiro Procópio Ferreira, Geórgia Gomide, Arlete Montenegro, Geraldo Del Rey, José Lewgoy, Sadi Cabral, Elaine Cristina, Célia Coutinho, Flávio Galvão, Pepita Rodrigues, Íris Bruzzi, Glauce Graieb, Elizabeth Hartman, Elizabeth Gasper, Nelson Caruso, Leonor Navarro, Eleonor Bruno, Graça Melo, Leonor Lambertini, Cazarré, Benjamin Cattan, Jacyra Sampaio, Marcelo Picchi, Walter Prado e Geny Prado.
Após concluir “As Divinas… e Maravilhosas”, em 1974, Vicente Sesso aceitou um convite da televisão Argentina para escrever uma novela inspirada em “Deus Lhe Pague”, de Juracyr Camargo. No país vizinho, ele ficaria por quatro anos, escrevendo e traduzindo os seus trabalhos para o mercado internacional latino.

O Retorno em 1979

Vicente Sesso só voltaria a escrever uma novela para o público brasileiro em 1979. Desta vez com a missão de inaugurar o núcleo de novelas da TV Bandeirantes, extinto desde o ano de 1970. Na ocasião, a TV Tupi entrava em franca decadência, rumando para a falência que decretaria a sua extinção em 1980. Sem concorrência, a TV Globo tornara-se a única a explorar as telenovelas. A TV Bandeirantes decidiu investir fortemente no gênero, convidando Vicente Sesso, um autor que atraía sempre grandes atores que gostavam dos seus textos.
Para este importante momento da história da televisão brasileira, Vicente Sesso escreveu “Cara a Cara”. A trama girava em torno de Ingrid von Herbert (Fernanda Montenegro), uma mulher sofrida, que teve um filho quando se encontrava prisioneira em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Tendo o filho arrancado dos braços, Ingrid, agora uma milionária, vem ao Brasil para encontrar o seu herdeiro. No Brasil, envolve-se com as outras personagens da trama, como a rica e decadente Regina (Débora Duarte), que lutava para salvar a família da miséria, casando-se com o rústico fazendeiro Tonho (David Cardoso).
Vicente Sesso conseguiu uma grande vitória com “Cara a Cara”, trazer Fernanda Montenegro de volta às telenovelas. Há mais de uma década que a grande dama do teatro não atuava em uma produção do gênero. Tê-la no elenco significava grande prestígio. A TV Globo tentara contratá-la, sem sucesso, por muitos anos.
Além de Fernanda Montenegro, a novela contava com uma produção esmerada, indo buscar grandes estrelas da TV Globo e da TV Tupi. Entre elas estava Débora Duarte, que se indispusera com a TV Tupi, deixando o elenco da segunda versão da mítica “O Direito de Nascer”, onde iria fazer a personagem Isabel Cristina. Na época a atriz era casada com o cantor e compositor Antonio Marcos, que atuou como ator na trama, vivendo a personagem Nando. Antonio Marcos era quem cantava o tema de abertura da novela.
Outra novidade era o protagonista da história, David Cardoso, galã do cinema nacional, considerado o rei das pornochanchadas. O ator era tido como um símbolo sexual do país. Contava com grande prestígio, mesmo jamais fazendo uma interpretação que se pudesse considerar satisfatória.
Apesar do grande esforço da produção da TV Bandeirantes, de fazer renascer o apogeu da época de ouro de Vicente Sesso na TV Globo, a novela alcançou um sucesso relativo, sem grandes índices de audiência. Serviu como semente para o núcleo de teledramaturgia da TV Bandeirantes. A maior característica de “Cara a Cara” foi sem dúvida, o seu elenco: Luís Gustavo, Nathália Timberg, Irene Ravache, Fúlvio Stefanini, Rolando Boldrin, Edson França, Maria Isabel de Lizandra, Wanda Kosmo, Célia Coutinho, Márcia de Windsor, David José, Carmem Silva, Roberto Pirillo, Fausto Rocha, Arlindo Barreto, Ruthnéia de Moraes e Raymundo de Souza.
Cara a Cara” foi a última novela de Vicente Sesso feita para o Brasil. Voltaria, em 1992, a TV Globo, escrevendo a minissérie “Tereza Batista”, adaptação da obra de Jorge Amado. Mas a sua prioridade continua a ser o mercado internacional, onde escreve com sucesso, tramas exibidas na Argentina, Peru, Estados Unidos, Chile, Espanha, Colômbia, Turquia, Eslovênia, Japão e Itália.
Em 1995, a segunda versão de “Sangue do Meu Sangue”, feita pelo SBT, desagradou-o profundamente, que se negou a ver o seu texto a perder as características originais. Em 2009, concordou em vender à mesma emissora, os direitos autorais de “Minha Doce Namorada” e “Uma Rosa Com Amor”, para novas versões e para a redescoberta do seu trabalho. Vicente Sesso, assim como Janete Clair, é um daqueles autores que trabalha com o impacto de cada capítulo, jamais com o todo da obra. Seu estilo é inconfundível desde a montagem do capítulo, onde deixa a cena de impacto para o final, prendendo o telespectador. Sua obra é imprescindível para a história da televisão brasileira, essencial para que se perceba o desenvolvimento das telenovelas, o maior veículo de comunicação do país.

OBRAS

Novelas

1969/1970 – Sangue do Meu Sangue (TV Excelsior)
1970 – Pigmalião 70 (TV Globo)
1971/1972 – Minha Doce Namorada (TV Globo)
1972/1973 – Uma Rosa Com Amor (TV Globo)
1973/1974 – As Divinas… e Maravilhosas (TV Tupi)
1979 – Cara a Cara (TV Bandeirantes)
1982 – Verônica: El Rostro Del Amor (Mercado Internacional)
1995 – Sangue do Meu Sangue (SBT)

Minisséries

1959 – Jardim Encantando (TV Tupi)
1959 – O Guarani (TV Excelsior)
1959 – Senhora (TV Excelsior)
1992 – Tereza Batista (TV Globo)

Seriados

1958/1962 – As Aventuras de Marco Pólo (TV Tupi)
1966/1968 – As Aventuras de Eduardinho (TV Excelsior e TV Globo)


DINA SFAT – MAGNETISMO E SEDUÇÃO

Outubro 3, 2009

Dina Sfat foi uma das maiores atrizes brasileiras que teve o teatro, cinema e televisão. Dona de uma interpretação singular, com fortes emoções à flor da pele, dosadas por uma construção de texto numa voz inteligente, um olhar magnético e forte sedução na presença física tanto no palco, como através das lentes do cinema ou da televisão.
Falar de Dina Sfat traz sempre uma dor movida pela saudade. Seu magnetismo pessoal torna-a inesquecível, seu talento profissional fez dela uma das atrizes mais amadas e cultuadas pelo grande público e pela crítica. Viveu a maior parte da sua juventude e início da maturidade sob a mão pesada da ditadura militar, a qual combateu energicamente, sempre apoiando a esquerda perseguida na época, sem jamais se filiar a qualquer partido ou tendência.
Figura inquieta e polêmica, Dina Sfat sempre teve a coragem de dizer o que pensava e sustentar a sua visão de mundo e de Brasil, mesmo quando não agradava às correntes sociais ou ideológicas. Na sua vida particular era discreta, não se deixando levar pelos escândalos amorosos e pelo sensacionalismo dos holofotes da mídia. Foi casada 17 anos com o ator Paulo José, com quem teve três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara.
Dina Sfat pertence à geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado do início dos anos sessenta, que depois conquistou a televisão quando esta se firmou como veículo cultural no Brasil. Tornou-se a atriz preferida da mítica autora Janete Clair, e uma das mais requisitadas por Dias Gomes. Jamais se furtou a fazer papéis diferentes, rompendo com a tradição maniqueísta das heroínas das telenovelas, interpretando vilãs, prostitutas, mulheres sofredoras, todas centradas no seu jeito agudo e inteligente de ser e transmitir a sua arte.
Dina Sfat trazia uma beleza misteriosa, moldada a partir da personalidade. Olhos grandes, que portavam um olhar que penetrava na alma dos que se lhe pusesse na frente e do público, que por ela se deixava fascinar.
Infelizmente Dina Sfat partiu muito cedo, no auge da sua essência de mulher que se abria para a maturidade da vida. Em um país de pouca memória, deixou um legado rico e pronto para ser sempre redescoberto. Aos 50 anos de idade, Dina Sfat atravessou os palcos além das cortinas da vida, entrando para a galeria dos mitos do Brasil, sendo uma das mais carismática e talentosa atriz que já tivemos. Levou consigo a sua voz penetrante, a sua inquietude diante da vida, deixando-nos presos a uma saudade latente de uma grande mulher. Dina Sfat, com os seus olhos grandes e infinitos, seduz hoje os palcos do céu, os anjos da arte!

A Estréia no Teatro na Década de 1960

Dina Kutner de Souza nasceu em São Paulo, em 28 de outubro de 1938. Filha de imigrantes judeus poloneses, ninguém poderia imaginar que aquela menina aos 16 anos, quando começou a trabalhar em um laboratório de análises, tornar-se-ia uma das mais importantes atrizes brasileiras do século XX.
Sua estréia oficial seria na peça “A Rainha e os Rebeldes”, em São Paulo, em 1957, sob a direção de Maurice Francini. Profissionalizou-se a partir da peça “Antígone América”, em 1960, sob a direção de Antônio Abujamra. Depois do espetáculo, voltou ao amadorismo teatral, fazendo parte de um grupo estudantil do centro acadêmico da faculdade de engenharia da Universidade Mackenzie. No grupo fez, em 1962, duas peças de Bertolt Brecht: “Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz Não”, sob a direção de Antônio Ghigonetto e “Os Fuzis da Senhora Carrar”, sob a direção de Emílio Di Biasi.
Desde sempre, Dina Sfat descobrira o talento para as artes, sonhando sempre em ser uma atriz. Em 1962 entrou em contacto com o histórico Teatro de Arena. Foi chamada, em 1963, para integrar o elenco da peça “O Melhor Juiz, o Rei”, de Lope de Vega, sob a direção de Augusto Boal. Muito jovem, e para evitar a exposição da família, a atriz mudou o nome Kutner para Sfat, uma homenagem à cidade natal da sua mãe. Nascia oficialmente, a atriz Dina Sfat.

Do Teatro Engajado à Luta Contra a Ditadura Militar

No Teatro de Arena, integraria o elenco de peças famosas dos anos 1960, como “Tartufo” (1964), de Molière; “Arena Conta Zumbi” (1965), musical de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que lhe renderia o Prêmio Governador do Estado de São Paulo como melhor atriz. Ainda sob a direção de Augusto Boal, faria “O Inspetor Geral” (1966), de Nikolai Gogol; e, “Arena Conta Tiradentes” (1967), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal.
Em 1967, Dina Sfat aceitaria um grande desafio, substituir a atriz Ítala Nandi no elenco da peça “O Rei da Vela”, de Oswald de Andrade, encenada para o mítico Teatro Oficina, por José Celso Martinez Corrêa. Com esta peça, a atriz conquistaria não só o público paulistano, como a crítica do Rio de Janeiro.
No cenário político, o Brasil entrava para a fase mais obscura da sua história, quando os militares tomaram o poder através de um golpe de estado, em 1964.
As intervenções do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, foram fundamentais para que não se calasse o artista, atuando sob o julgo da ditadura. É o chamado teatro engajado e politizado daquela década conturbada. Dina Sfat foi uma das atrizes do grupo que foi veemente em expressar as reivindicações pela liberdade e contra a opressão do regime. Sua inquietação diante da vida fez com que não abandonasse jamais a luta pela redemocratização do país enquanto a ditadura militar estivesse no poder; sua coerência inteligente, fez com que não se associasse a partido de esquerda algum, apesar de assumir as suas bandeiras publicamente.
Já nos anos 1980, quando a ditadura dava os seus últimos suspiros, Dina Sfat, então grande ícone da dramaturgia brasileira, ousava a dizer em público, a um poderoso militar, que tinha medo deles. Era uma afronta corajosa à truculência de um governo ilegítimo. Em 1984, chegou a anunciar que sairia candidata ao cargo de vice-presidente do Brasil pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma verdadeira declaração provocativa, visto que a sigla estava na clandestinidade, fazendo parte da chamada frente democrática do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).
Mesmo sendo vista pelos militares como líder feminista ligada à extrema esquerda, Dina Sfat jamais se filiou a qualquer sigla ou facção partidária. Foi uma mulher que soube observar o seu tempo e lutar contra a opressão, visando sempre a liberdade de um mundo melhor. Viveria poucos anos para ver os frutos da sua luta quando a democracia floresceu novamente no país, com o fim do regime militar em 1985.

A Atriz no Cinema

Já no inicio da carreira, Dina Sfat revelou o seu grande talento para atuar diante das câmeras. Marcou a sua estréia no cinema, em 1966, no filme “O Corpo Ardente”, de Walter Hugo Khouri.
Em 1969, Dina Sfat viveu com grande destaque e talento, a guerrilheira Cy, de “Macunaíma”, filme inspirado na obra homônima de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Na película, contracenava com o ator Paulo José, velho conhecido dos tempos do Teatro de Arena, e a partir de então, oficializam uma relação estável de marido e mulher.
No cinema, a atriz atuaria em clássicos como “Álbum de Família” (1981), filme de Braz Chediak, baseado na obra homônima de Nelson Rodrigues; “Eros, o Deus do Amor” (1981), de Walter Hugo Khouri; “Das Tripas Coração” (1982), de Ana Carolina. Seu último filme, “O Judeu”, de Jom Tob Azulay, baseado na vida de Antônio José da Silva, escritor luso-brasileiro do século XVIII que morreu na fogueira da inquisição, foi feito em Portugal, na segunda metade da década de 1980, já com a atriz doente. Inacabado por falta de verba, o filme só iria estrear em 1996, sete anos após a morte da atriz.
A dimensão dramática de Dina Sfat alcançava a luz das telas com um magnetismo que poucas atrizes brasileiras conseguiu. Seu olhar domina o grande ecrã como se hipnotizasse a platéia em um fascínio singular.

Grande Estrela da Televisão Brasileira

Mas foi através da televisão, que Dina Sfat conquistou o amor de todos os brasileiros. Viveu personagens que marcaram época na história das telenovelas. Mesmo diante do grande sucesso televisivo, jamais se deixou seduzir por personagens lineares e caricatos. Arriscou grandes papéis, sem as amarras das heroínas habituais dos teledramas.
Sua estréia na televisão brasileira foi na novela “O Amor Tem Cara de Mulher”, em 1966, de Cassiano Gabus Mendes, baseada no original de Nenê Castellar, produzida pela extinta TV Tupi. Para a emissora paulista, fez ainda “Ciúme” (1966), de Thalma de Oliveira, e “A Intrusa” (1967), escrita por Geraldo Vietri. Passou pela extinta TV Excelsior, em “Os Fantoches” (1967), de Ivani Ribeiro. Em 1969, foi dirigida por Daniel Filho, na novela “Os Acorrentados”, de Janete Clair, feita sob encomenda do diretor no período que se desentendeu com a TV Globo, e, exibida pela TV Record e pela TV Rio.
A atuação de Dina Sfat no filme “Macunaíma” chamou a atenção de Dias Gomes, que a convidou, em 1970, para protagonizar a sua novela “Verão Vermelho”. Foi a estréia da atriz na TV Globo, coberta de grande sucesso, fazendo com que ela permanecesse na emissora carioca até a sua morte, em 1989. Durante as gravações da novela, a atriz ficou grávida da sua primeira filha, Bel Kutner. Magistralmente, fez outra grande personagem de Dias Gomes, na novela “Assim na Terra Como no Céu” (1970), tornando-se uma das atrizes preferidas do dramaturgo.
Em 1971, voltaria a interpretar uma personagem de Janete Clair, em “O Homem Que Deve Morrer”, ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes. A partir de então, a autora requisitaria a sua presença em vários papéis marcantes, feitos sob medida para ela, como a densa e louca Fernanda, de “Selva de Pedra” (1972), personagem que ganhou grande popularidade na época, abalando o público brasileiro com a sua insanidade passional. Dina Sfat teve nesta personagem, a possibilidade de desenvolver todo o seu potencial delineado pela paixão que emanava do seu eu.
Em 1975, fez uma pequena participação especial na novela “Gabriela”, de Walter George Durst, baseada na obra de Jorge Amado. Apesar de aparecer apenas nos primeiros capítulos, vivendo a prostituta Zarolha, a atriz dominou a cena, obtendo um grande sucesso entre o público. Walter Avancini, o diretor da novela, era o preferido de Dina Sfat, que dizia, jamais recusar qualquer papel sendo proposto por ele.
Em 1977, Janete Clair escreveu um papel sob medida para a atriz, a fascinante Amanda, protagonista da novela “O Astro”. O folhetim tornou-se um clássico da teledramaturgia brasileira. Dina Sfat terminou a década de 1970 como contratada exclusiva da TV Globo, uma honra só para os grandes astros da época, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte.
Dina Sfat participou da última novela escrita por Janete Clair, “Eu Prometo”, em 1983. Na trama, tinha como uma das suas filhas, a então estreante Malu Mader.
Em 1979 aceitou o desafio de fazer Paloma Gurgel, personagem central da novela “Os Gigantes“, de Lauro César Muniz. Texto difícil, pouco carismático, teve a rejeição do público e da própria atriz. Mesmo assim, no papel de uma mulher que cometia eutanásia no irmão gêmeo e suicidava-se para fugir às leis e à prisão, Dina Sfat teve um dos momentos mais densos e sublime do seu esplendor dramático dentro da televisão brasileira.
Seu último trabalho na televisão foi a Laura de “Bebê a Bordo”, em 1988, novela de Carlos Lombardi. Bastante debilitada pelo câncer, a atriz lutou bravamente para concluir este que ela sabia, seria o seu último trabalho. Acometida por fortes dores, a sua participação foi bastante reduzida na trama, que ela concluiu bravamente poucos meses antes de vir a falecer. Sua passagem pela televisão, foi um dos maiores marcos da história das telenovelas. Daniel Filho costuma dizer que, Dina Sfat muitas vezes reclamava e odiava fazer determinados personagens, mas jamais os interpretara mal.

A Personalidade

Preferida dos grandes autores, diretores, críticos e público, Dina Sfat seduziu o Brasil e os países para onde a teledramaturgia brasileira foi exportada. Era uma mulher que jamais deixou que se lhe invadisse a privacidade, sendo uma mãe atenciosa e dedicada às três filhas, Bel, Ana e Clara, frutos do seu casamento com Paulo José, que durou 17 anos. Na intimidade, a estrela dava passagem para a mãe amorosa e atenciosa.
Na vida pública, suas frases desencadearam grandes polêmicas, como a criada com os homossexuais, quando declarou que os teatros estavam a ser tomados por eles, não restando mais espaço para ninguém. A declaração foi feita com humor, não com homofobia, numa época que estreavam várias peças com temática homossexual pelos palcos do Brasil. O público gay, que lhe tinha grande adoração, reagiu e ela, inteligentemente, explicou o que tinha dito.
Em 1985, tentando uma pausa nas novelas e no teatro, ela decidiu dedicar o ano às filhas, partindo com elas para Portugal, onde fixaria residência por algum tempo. Sua viagem pela Europa foi interrompida pela descoberta de um câncer, em 1986. Lutadora, Dina Sfat decidiu por adotar tratamentos não convencionais no combate à doença, o que teve a desaprovação dos amigos, tementes por sua saúde e pela expansão da doença.
Mesmo doente, a atriz jamais deixou de trabalhar. Em viagem de tratamento à União Soviética, ao lado de Daniel Filho, realizou o documentário “Dina Sfat na União Soviética” (1988), que falava entre outras coisas, da então incipiente Perestroika.
De volta ao Brasil, lançou-se de cabeça na novela “Bebê a Bordo”, onde atuou já bastante debilitada. A atriz sabia que tinha chegado ao crepúsculo de uma vida excepcional, voltada para os palcos e à arte, e trazia como sonho encerrar aquele, que seria o seu último trabalho. Aos poucos, a sua participação na novela foi reduzida, mas ela encerrou o trabalho bravamente, com a dignidade que lhe era peculiar. O último capítulo de “Bebê a Bordo” foi ao ar em 11 de fevereiro de 1989, Dina Sfat veio a falecer em 20 de março daquele ano, aos 50 anos de idade. Pouco tempo antes de morrer, lançou a sua autobiografia “Dina Sfat – Palmas Pra Que Te Quero”, escrita em parceria com a jornalista Mara Caballero, mais uma vez lançando polêmicas, a última de uma grande carreira, feita por uma grande mulher, movida pela arte e pela paixão. Ninguém lhe herdou a técnica cênica, Dina Sfat foi única no cenário brasileiro. Sedutoramente inesquecível!

Televisão

Telenovelas:

1966 – O Amor Tem Cara de Mulher (TV Tupi)
1966 – Ciúme (TV Tupi)
1967 – A Intrusa (TV Tupi)
1967/1968 – Os Fantoches (TV Excelsior)
1969 – Os Acorrentados (TV Record)
1970 – Verão Vermelho (TV Globo)
1970/1971 – Assim na Terra Como no Céu (TV Globo)
1971/1972 – O Homem Que Deve Morrer (TV Globo)
1972/1973 – Selva de Pedra (TV Globo)
1973/1974 – Os Ossos do Barão (TV Globo)
1974/1975 – Fogo Sobre Terra (TV Globo)
1975 – Gabriela (TV Globo)
1976 – Saramandaia (TV Globo)
1977/1978 – O Astro (TV Globo)
1979/1980 – Os Gigantes (TV Globo)
1983/1984 – Eu Prometo (TV Globo)
1988/1989 – Bebê a Bordo (TV Globo)

Minisséries:

1982 – Avenida Paulista (TV Globo)
1984 – Rabo de Saia (TV Globo)

Séries:

1971 – A Pérola (Caso Especial – TV Globo)
1972 – Sombra de Suspeita (Caso Especial – TV Globo)
1973 – As Praias Desertas (Caso Especial – TV Globo)
1973 – O Preço de Cada Um (Caso Especial – TV Globo)
1976 – Quem Era Shirley Temple? (Caso Especial – TV Globo)
1978 – O Caminho das Pedras Verdes (Caso Especial – TV Globo)
1978 – A Morte E a Morte de Quincas Berro D’Água (Caso Especial – TV Globo)
1979 – Aplauso – Episódio Véu de Noiva (TV Globo)
1980 – Malu Mulher – Episódio A Trambiqueira (TV Globo)
1983 – Mandrake (Caso Especial – TV Globo)

Cinema

1966 – O Corpo Ardente
1966 – Três Histórias de Amor
1968 – Edu, Coração de Ouro
1968 – A Vida Provisória
1969 – Macunaíma
1970 – Perdidos e Malditos
1970 – Jardim de Guerra
1970 – Os Deuses e Os Mortos
1971 – O Barão Otelo no Barato dos Bilhões
1971 – Gaudêncio, o Centauro dos Pampas
1971 – O Capitão Bandeira Contra o Dr. Moura Brasil
1971 – A Culpa
1973 – Tati, A Garota
1981 – Eros, O Deus do Amor
1981 – Álbum de Família
1982 – O Homem do Pau-Brasil
1982 – Tensão no Rio
1982 – Das Tripas Coração
1988 – Fábula de la Bella Palomera
1996 – O Judeu (feito em 1988)

Teatro

Interpretação:

1957 – A Rainha e os Rebeldes
1960 – Antígone América
1962 – Aquele Que Diz Sim, Aquele Que Diz não
1962 – Os Fuzis da Senhora Carrar
1963 – O Melhor Juiz, o Rei
1964 – O Filho do Cão
1964 – Depois da Queda
1964 – Tartufo
1965 – Arena Conta Zumbi
1966 – O Inspetor Geral
1967 – Arena Conta Tiradentes
1967 – O Rei da Vela
1967 – Os Inconfidentes
1970 – Black Comedy
1973 – Dorotéia Vai à Guerra
1974 – O Colecionador
1975 – A Mandrágora
1977 – Seis Personagens à Procura de Um Autor
1979 – Murro em Ponta de Faca
1980 – Transaminases
1981 – As Criadas
1982 – Hedda Gabler
1984 – A Irresistível Aventura
1986 – Florbela Espanca (Encenada em Portugal)

Produção:

1982 – Hedda Gabler
1986 – Ninguém Paga, Ninguém Paga


A BRASILEIRA DO CHIADO – ONDE LISBOA PULSA

Setembro 28, 2009

Situada no coração de Lisboa, A Brasileira do Chiado representa um dos lugares mais míticos da capital portuguesa. Emblemática, a cafetaria atravessou o seu primeiro século de existência, foi aberta em 1905, volvida por uma tradição histórica que se tornou legendária.
Inicialmente, a casa servia uma bebida amarga e pouco difundida em Lisboa, o café. Aos poucos, Adriano Telles, seu inaugurador, conseguiu fazer da bebida uma tradição, e em 1908, abria a primeira sala de café na cidade. O termo “bica”, usado pelo lisboeta para designar uma xícara de café, teria sido criado por Adriano Telles, jamais saindo do vocabulário da população.
Na década de 1920, A Brasileira tornou-se um importante centro cultural de Lisboa e de Portugal. Longas tertúlias eram regadas por fumo e café, promovidas por pintores, artistas, escritores, políticos e a maioria dos representantes da intelectualidade lusitana. Por lá passaram Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Jorge Barradas e muitos dos modernistas portugueses. As marcas da presença dos grandes expoentes dessa época de ouro ficaram nas paredes do café, com quadros feitos exclusivamente para a exposição permanente da casa.
A tradição histórica de A Brasileira atravessou o século XX, pela ditadura salazarista passou sem perder o glamour, assistiu ao alvorecer dos cravos de abril, viu a capital lusitana exilar as suas características bairristas e transformar-se em uma cidade fortemente européia e totalmente englobada na União Européia; saiu intacta do imenso incêndio que destruiu grande parte do Chiado, em 1988, adaptou-se aos novos tempos, criando uma nova clientela, sem perder o ludismo emblemático que atrai milhares de turistas durante todo o ano, e recebe a tradicional clientela lisboeta, formada pelas mais variadas vertentes e movimentos que assolam a cidade.
O serviço de atendimento da cafetaria é péssimo. Serve uns pastéis medíocres, o restaurante é da pior qualidade, e o café, que tem no lema secular a frase “o melhor café é o da Brasileira”, há décadas que só o é nas palavras. Apesar de todos os problemas, tomar um café na esplanada d’A Brasileira durante o verão ou dentro dela durante o inverno, é um dos momentos mais mágicos e lúdicos da cidade de Lisboa. Ponto de encontro de todas as tribos, não há nada mais elegante, provocativo e contraventor do que mesclar os turistas e os clientes habituais no fim da tarde. Só então, é que se percebe o mistério sedutor que o ambiente d’A Brasileira exerce sobre todos nós. Paradoxalmente, servindo o pior café de Lisboa, A Brasileira é o melhor local de Portugal para bebê-lo.

O Café Chega aos Lisboetas

Em 19 de novembro de 1905, o português Adriano Telles, que anos antes emigrara para o Brasil, onde acumulara um bom capital, inaugurava uma casa na Rua Garret, nos números 120 e 122, próxima ao Largo do Chiado, que chamou de “A Brazileira”. Mantendo grandes contactos no Brasil, Telles viu na importação de diversos produtos daquele país um excelente e lucrativo negócio. Vendia entre os exóticos produtos tropicais: a tapioca, a goiabada, piripiri e pimentas, chá e farinha, além dos tradicionais produtos portugueses, azeite e vinho.
Localizada em um dos pontos mais requintados e bem freqüentados da Lisboa do princípio do século XX – o bairro do Chiado; a casa fundada por Telles tinha como vizinhos a tradicional “Casa Havaneza”, a maior importadora de cigarros e charutos do seu tempo, e que ainda resiste ao terceiro milênio como uma das mais emblemáticas de Lisboa; e, a “Retrozaria David & David”. Ante a vizinhos tão sofisticados, era preciso que se inovasse nas ofertas dos produtos oferecidos. A Brasileira trazia uma novidade, a venda do “genuíno café do Brasil”, conforme anunciava Telles. O café não fazia parte da cultura lisboeta, sendo uma bebida pouco apreciada e até evitada pela população.
Inicialmente o café estava distante de ser servido em chávenas,de ser extraído de máquinas e adquirir aspecto cremoso. Telles servia a bebida a cada cliente, para que provasse, sem que lhe fosse cobrado. Era uma bebida amarga, aromática e servida quente. Junto ao café que era oferecido no balcão, Adriano Telles ensinava ao cliente como fazê-lo, juntamente ofertava um jornal publicitário da casa e de outras vizinhas no Chiado.
Reza a lenda que Adriano Telles teria inventado o termo “bica”, para designar uma chávena de café. Servida de uma cafeteira, Telles teria ordenado ao empregado que trouxesse a bebida para ser servida em chávena cheia a partir da bica do saco. Usara a palavra bica, que passou a fazer parte do vocabulário lisboeta, sendo usado até os tempos atuais.
Aos poucos, Adriano Telles, através d’A Brasileira, foi introduzindo o hábito do café aos habitantes de Lisboa. O sucesso levou o inaugurador da casa a transformá-la, em 1908, em uma sala de café, novidade que caiu no gosto da elite lisboeta. Rapidamente, beber um café n’A Brasileira do Chiado virou moda, sendo transformada em lugar de culto pelos setores mais sofisticados da sociedade da época.

A Exposição Permanente de Arte da Casa do Chiado

Seria na década de 1920 que A Brasileira tornar-se-ia uma casa fundamental nos movimentos culturais que revolucionaram Lisboa e Portugal. Cada vez mais famosa, a casa passou a ser ponto de encontro da elite intelectual alfacinha. O café foi convertido em sala de estar da capital. Era freqüentado por Almada Negreiros, seu mais fervoroso cliente; Fernando Pessoa, que tinha predileção pelo Martinho da Arcada; Bernardo Marques; Jorge Barradas e Santa Rita Pintor, entre muitos outros.
Ainda na primeira metade da década de vinte, A Brasileira passou por uma grande remodelação do espaço, vindo a abrigar obras dos artistas emergentes que eram freqüentadores assíduos do café.
Em 1925, onze telas que se tornariam valiosas dentro do modernismo português são mostradas n’A Brasileira. Eram tão além do conservadorismo da época, que sofreram pesadas críticas da imprensa, sendo chamadas de “As Telas Tolas”. Um novo lema espalhou-se por Lisboa para definir as obras de arte: “O melhor café é o d’A Brasileira, e os piores painéis também são os de lá”. Os autores das onze telas eram sete: Eduardo Viana (com duas obras), Almada Negreiros (duas obras), José Pacheko, Antonio Soares (duas obras), Jorge Barradas (também com duas obras), Bernardo Marques e Stuart de Carvalhais. A conservadora elite intelectual portuguesa tinha como espelho a arte de Malhoa e Columbano, não enxergando o movimento modernista e as novas tendências nas artes que assolaria aquela década.
Apesar da rejeição da época, as obras de arte da exposição permanente da década de vinte n’A Brasileira do Chiado, fazem parte dos maiores acervos do modernismo português. As telas fizeram do café o centro dos movimentos artísticos. A Brasileira passou a fazer parte da História da Arte em Portugal.
Em 1971, a exposição permanente do café do Chiado seria atualizada com onze novos quadros, englobando várias vertentes de correntes e estéticas que retratavam a época. Os autores das obras eram: Eduardo Nery, Noronha da Costa, João Vieira, Antonio Palolo, Hogan, Nikias Skapinakis, Vespeira, Carlos Calvet, Fernando Azevedi, Joaquim Rodrigo e Manuel Baptista.
O acervo artístico d’A Brasileira tem ainda, a famosa estátua de bronze de Fernando Pessoa, de autoria de Lagoa Henriques, erguida em frente ao café, na sua esplanada. Pessoa aparece sentado, com a mesa do lado, à espera do café. A estátua atrai um grande número de turistas, que se sentam à sua volta, registrando o momento em milhares de fotografias.
As obras permanentes estão até os dias atuais nas paredes d’A Brasileira, fazendo do local um sofisticado e valioso patrimônio histórico. Estas características fazem do café um sítio impar dentro da cultura portuguesa do século XX, em um legado sem precedentes que atravessou o terceiro milênio.

O Fascínio d’A Brasileira

A Brasileira tornou-se um local de grande pulsação intelectual, que passou pelos vários períodos da história de Portugal no século XX. Na época do Estado Novo, era freqüentada por intelectuais que se opunham à ditadura de Salazar, e por homens influentes do próprio regime. Militantes de esquerda dividiam espaço com a perigosa e repressiva polícia política salazarista, a PIDE.
Reza a lenda que Salazar tinha profundo respeito pela tradição histórica da casa do Chiado, proibindo que se efetuassem prisões dentro do café. Há relatos de que vários perseguidos políticos da ditadura, exilavam-se por algumas horas no café para não serem presos, do lado de fora ficava a polícia, à espera.
Na década de 1960, as guerras coloniais, a crise econômica, levaram Portugal a um visível empobrecimento, fazendo com que a elite intelectual perdesse grande parte do seu glamour. A Brasileira sentiu a crise. Nesta e na década seguinte, já no crepúsculo da ditadura, viu a importância do café popularizar-se, saindo dos grandes salões para cafés comuns, sem sofisticação, e, espalhados por vários pontos da cidade.
No fim dos anos 1980, assistiu-se a um desleixo na qualidade dos serviços, uma negligência com o espaço, que dava um aspecto de degradação e decadência. Esta crise ficou acentuada a partir de agosto de 1988, quando um imenso incêndio destruiu grande parte do Chiado. Apesar de não ter sido atingida pelo fogo, A Brasileira foi prejudicada pela degradação do bairro e das ruínas que restaram do incêndio. O Chiado levou mais de dez anos para ser reconstruído, trazendo grande prejuízo para o comércio do bairro.
No início da década de 1990, A Brasileira passou a ser administrada a partir do seu nome, da fama e da tradição, sem a preocupação com a qualidade. Nesta época, o então dono, Jaime Silva, não vendo lucros na casa, ameaçou transformá-la em uma lucrativa hamburgueria, seguindo a tendência das grandes redes de hambúrgueres norte-americanas, que compraram cafés e prédios históricos por toda a Europa. A resposta do governo português foi imediata, a casa foi tombada como patrimônio cultural, não sendo permitido que fosse modificada. Frustrados os planos da hamburgueria, o café fechou as suas portas em 1993, para que se efetuasse uma profunda reforma. Quando reaberta, a casa trouxe a sua beleza e sofisticação, por anos escondidas atrás das paredes desbotadas pelo tempo, agora restauradas. Os sanitários, que ficavam ao fundo, foram transferidos para a cave, tendo o seu acesso através de uma escada, que roubou o lugar de várias mesas. Na cave, foi aberto um restaurante sem qualquer atrativo. No lugar dos antigos sanitários, foram instaladas as novas cozinhas. A casa voltou a mostrar a sua beleza opulenta, apesar de não ter melhora alguma no atendimento o no que se é servido.
Mesmo diante das deficiências, a casa jamais deixou de receber turistas curiosos, clientes lisboetas tradicionais e portugueses de todas as partes do país. Sua esplanada é aberta na primavera, quando as chuvas terminam. Atingem o auge no verão, passando a ser um local disputado por todas as vertentes dos movimentos sociais da cidade e por turistas do mundo inteiro. No fim da tarde, é ponto de encontro obrigatório de intelectuais e amantes da noite, que dali partem para a boemia do Bairro Alto.
Foi na esplanada d’A Brasileira que intelectuais e representantes dos movimentos de Lisboa, encontraram-se para encerrar o “Lisboa 94”, movimento que dera à cidade o título de capital européia da cultura daquele ano. Dali, ouviu-se os sinos de todas as igrejas do Bairro Alto, então aclamado de “Sétima Colina”, a encerrarem o movimento. Logo a seguir, a estátua de Fernando Pessoa foi retirada e a esplanada do café desapareceu provisoriamente, para dar passagem às obras de expansão do metropolitano. Em 1998, a estação Baixa-Chiado foi inaugurada, com uma entrada na frente do legendário café.
Localizada em um local privilegiado, com o Teatro Nacional de São Carlos à frente, ao lado do prédio onde nasceu Fernando Pessoa; o Largo do Chiado e a famosa estátua do poeta, também em frente; a poucos metros da Praça Camões, ponto de entrada para o mítico Bairro Alto; e ainda, a Livraria Bertrand, tradicional em Lisboa. Logo abaixo, do mesmo lado, está a Bernard, grande pastelaria de qualidade inegável, que não fica a dever às grandes da Europa. Mas o café sem sabor d’A Brasileira sabe a um prazer intelectual que nenhuma qualidade ofusca.
No século XXI, A Brasileira continua a ser o lugar mais emblemático para uma tertúlia, para que se possa encontrar pessoas em ebulição constante, que carregam e promovem os movimentos culturais da cidade, ou simplesmente para travar grandes amizades entre nativos e turistas do mundo inteiro. A Brasileira tem esta magia, faz com que todas as tribos convirjam, visões e comportamentos sejam quebrados, e que todos estejam abertos para grandes conhecimentos.


LENDAS INDÍGENAS 3

Setembro 26, 2009

A mitologia dos índios brasileiros é repleta de seres fantásticos, muitos deles trazendo as forças da natureza, benéficas ou malignas. Tupã é o deus supremo, senhor absoluto do olimpo tupiniquim. As lendas indígenas procuram, através de uma simplicidade lúdica, explicar a origem das tribos, das árvores da floresta, das plantas comestíveis, tudo sintetizado de forma que se possa, objetivamente, transmitir a beleza das tradições e dos ritos que elas geram.
Três lendas indígenas foram adaptadas para este artigo, “Aruanã e a Criação dos Carajás”, “O Guaraná” e “Mani”, sendo elas fundamentais na cultura dos índios da Amazônia e do Centro-Oeste brasileiro.
Aruanã e a Criação dos Carajás, é mais uma lenda da rica tradição folclórica dessa tribo que vive às margens do rio Araguaia, no Centro-Oeste do Brasil. Conta a origem dos índios Carajás, através da figura mítica de Aruanã, primeiro peixe, depois homem. A lenda deu origem à festa de Aruanã, uma das mais empolgantes tradições dos índios Carajás, realizada na Lua cheia, onde os índios dançam e cantam, renovando os ritos e os feitos heróicos daquele povo.
O Guaraná, conta a lenda do surgimento de uma das frutas mais exóticas do planeta e símbolo da Amazônia. Nascida da sabedoria e carisma de um menino índio e da inveja da serpente do mal, a fruta chama a atenção pelo formato de um olho humano. Uma das mais belas lendas dos índios do norte do Brasil, repleta de lições filosóficas subentendidas. É a reparação de Tupã a uma injustiça e dor através da felicidade que o fruto do guaraná causa quando ingerido.
Mani, mais uma lenda vinda das tribos da região amazônica, relata a origem misteriosa da mandioca, tubérculo essencial na alimentação das tribos primitivas e fonte básica do cauim, bebida dela extraída, utilizada na iniciação dos ritos. A lenda lembra a história cristã de Maria e da sua gravidez sem o ato sexual e a participação do homem. A mandioca, sagrada para algumas tribos, teria origem através de um ser vindo das profundezas do misticismo espiritual.

Aruanã e a Criação dos Carajás

Aruanã era um peixe que vivia nas profundezas do rio Araguaia. De vez em quando subia às margens do grande rio, e contemplava a vida humana. Seu ser aquático enchia-se de tristeza, pois pensava que a verdadeira felicidade estava no cheiro do ar, na beleza da terra. Sentia-se perdido e infeliz em viver nas águas e ser um peixe. Sonhava um dia tornar-se homem e correr pela terra seca.
Na festa do Boto, o senhor das águas, realizada nas profundezas do Araguaia, todos os seres aquáticos participavam felizes. Lá estavam a bela Iara e a sua irmã Jururá-Açú, deusa das chuvas, e todos os peixes e habitantes do grande rio, numa alegria radiante. Só Aruanã mostrava-se infeliz, a sentir-se estranho àquele mundo, a lamentar ter nascido no rio e jamais poder respirar o ar.
Ao sair da festa do Boto, Aruanã nadou, nadou, subindo sempre na direção da superfície das águas. Num ímpeto de coragem e determinação em sentir o aquecimento esplendido da força do Sol sobre a Terra, ele pôs a cabeça de fora das águas. Quase a sufocar com o ar, falou com todas as suas forças de peixe sonhador em busca da felicidade:
-Grande Tupã, senhor da vida e da natureza, na água nasci, mas nela não quero morrer. Se peixe é o meu corpo, meu coração é humano. Tira-me das águas que me faz infeliz e sem sentido, dá-me o ar como forma de pulsar e a condição de homem como realizador da vida.
As palavras de Aruanã saíram tão veementes, que Tupã percebeu o verdadeiro destino do valente peixe e a essência da sua alma. Compadecido, o senhor das matas desceu às profundezas do rio Araguaia, arrebatando de lá o infeliz peixe. Voou com Aruanã, que não podendo respirar, debatia-se no ar. Por fim, Tupã deixou-o no campo, sob os raios intensos do Sol e das brisas suaves dos ventos.
Aruanã debatia-se sobre a relva, pensando que iria sufocar. Não amaldiçoou Tupã, pelo contrário, mesmo sem conseguir respirar o ar da Terra, agradeceu por aquele momento final, iria morrer longe das águas, como sempre sonhara. Fez um louvor ao deus e cerrou os olhos, à espera da morte e da felicidade alcançada.
Comovido, Tupã iniciou a metamorfose do peixe. Em vez da morte, Aruanã viu as escamas transformadas em pele, revestida de pêlos suaves que a brisa contornava em desenhos; braços e pernas musculadas davam-lhe o aspecto viril. O ar finalmente chegou-lhe aos pulmões. Sentiu o cheiro da Terra. Olhou emocionado para o seu corpo e sorriu feliz, já não era um peixe, e sim um homem, forte e belo.
-Provaste que tens um coração grandioso e valente. – Disse-lhe Tupã. – Serás um grande guerreiro entre os homens; pai da mais sábia das tribos. Aruanã peixe foste, Aruanãs hás de te chamar como homem. Vá, cumpra o teu destino de homem guerreiro!
Para saldar o belo e jovem Aruanãs, as Parajás, entidades da justiça das matas, vieram e prestaram honras ao guerreiro. Deram a ele uma tribo e as mais belas mulheres. Unindo-se às mulheres, o jovem guerreiro gerou filhos e filhas, dando origem aos valentes Carajás, que formaram uma tribo de índios valentes a viver às margens do rio Araguaia. Todos os anos, por ocasião da Lua cheia, os Carajás realizam o Ritual do Aruanã, prestando, através da dança e do canto, a homenagem justa ao pai da nação Carajá.

O Guaraná

Os Maués eram índios que habitavam em uma aldeia entre os rios Tapajós e Madeira. Na tribo, em tempos remotos, vivia um jovem casal de índios que era amado por todos. Os dois eram felizes, sempre à espera de um filho para que se pudesse completar aquele êxtase matrimonial.
Mas o tempo passou, e o filho não vinha. O casal dirigiu-se ao pajé, em busca de uma erva que fizesse o ventre da mulher crescer e gerar um curumim. O pajé disse que deveriam invocar a Tupã a dádiva. Foi o que fizeram. Humildemente, prostraram-se no chão e pediram ao grande deus das tribos e das matas, que lhes concebesse um filho. Nove meses depois, Tupã presenteou-os com um menino forte e saudável.
O tempo passou, e a criança cresceu forte e bonita. Tornara-se o mais belo de todos os curumins. Onde passava, atraía para si a benevolência de todos, visto que irradiava uma luz que transmitia paz e sabedoria. Sua curiosidade diante dos segredos da vida, fazia-o cada vez mais sábio. As andanças com o pai pela mata a caçar animais, ou a pescar peixes, fazia com que descobrisse todos os segredos da natureza, que amasse os bichos e deles se tornasse amigo. Com a sua alegria sábia, visitava os velhos doentes, levava alegria aos outros índios vizinhos, sempre com um sorriso no seu rosto de criança iluminada, com um coração repleto das garras da bondade.
Os pais do curumim sentiam-se honrados, não havia em tribo alguma criança tão sábia, bela e amada como o filho. A fama da bondade do menino correu pelas matas, desceu pelas águas dos rios, atingindo todas as tribos da Amazônia. Índios vinham das mais remotas aldeias para ouvir as palavras doces e sábias do curumim.
A sabedoria, bondade e beleza do menino maué atingiram Jurupari, a serpente do mal e das trevas do mundo. Jurupari interessou-se por aquele ser iluminado. Invisível, passou a seguir o curumim por todos os lados. Quanto mais assistia aos seus feitos e como era amado por todos, uma inveja implacável tomava conta de Jurupari. Não suportava tanta bondade e inteligência em um único ser humano. Era quase a perfeição ambicionada pelos pajés e índios da floresta.
Um dia, o curumim encontrava-se no meio da mata, entre os passarinhos e os papagaios, falando com todos eles. De repente a sombra de Jurupari foi sentida pelas aves, que debandaram aos céus, em um vôo súbito. Sozinho, o curumim nada suspeitou. Passou a cultivar frutas silvestres para comer. Ao ver o ato do menino, Jurupari engendrou um plano para acabar de vez com tão perfeita criatura. A maldosa entidade transformou-se em uma cobra que trazia um grande veneno, gerado por todos os males do mundo e pela inveja ardente.
Metamorfoseado em cobra, Jurupari aproximou-se do menino. Ingênuo, ele viu no olhar doce e dissimulado do animal, mais um amigo. Mas não se aproximou, continuou a colher frutos, sem se aperceber que em uma das árvores, a cobra estava enrolada ao seu tronco. Ao tocar no fruto, sentiu a picada fatal de Jurupari. Uma sombra desceu sobre o menino, durante a sua curta existência, ele aprendera os conhecimentos doces da sabedoria da vida, agora, sentia pela primeira vez o amargo das maldades do mundo. Tarde demais para conciliá-los no seu ser iluminado.
Mais tarde, o curumim foi encontrado pelo pai e pelos índios da aldeia, caído no chão, sem vida. Todos lamentaram e choraram a morte do menino. O pai lançou um grito de dor que ecoou pelas matas e rios. A mãe perdia-se em um tortuoso lamento.
As lamúrias e prantos de todos estremeceram as nuvens e comoveram Tupã. Um grande trovão desceu do céu, calando e assustando a todos. Era a voz estrondosa de Tupã, anunciando que iria compensar a dor de todos, reparando o mal e a tristeza que Jurupari infringira quando envenenara e decepara uma vida inocente. Tupã ordenou que fossem plantados os olhos da criança. Deles haveria de brotar uma planta milagrosa, cujos frutos trariam alegria e felicidade a quem os consumisse.
Assim foi feito, os índios maués plantaram os olhos do curumim na mata. Deles nasceram o guaraná, uma fruta em forma de olho. Eram os olhos do menino sábio. Quando ingeridos, os frutos traziam felicidade e bem-estar aos índios, fazendo com que a tristeza pela morte do curumim fosse apaziguada, transformada em um grande prazer.

Mani

Numa aldeia no meio da Amazônia, vivia uma tribo de índios que se dedicavam à caça e à pesca. A vida era tranqüila e pacífica, longe das disputas e das guerras entre tribos vizinhas.
Um dia a paz da aldeia foi abalada por uma novidade, a bela filha do cacique apareceu grávida. O chefe da aldeia soltou um grande grito diante da sua desonra. Era preciso saber quem era o autor do ultraje e puni-lo com a rigidez que exigia a honra. Furioso, ele interrogou a filha, tentando saber a identidade do infame. Passivamente, ela respondeu que não tinha tido relação alguma com os índios da aldeia e da vizinhança. Quanto mais a jovem negava revelar com quem se deitara, mais enfurecido ficava o chefe da aldeia. Enlouquecido, espancou a filha, confinou-a em uma caverna escura, deixou-a sem comer por dias… Nenhum castigo ou ameaça surtia efeito, a jovem continuava a afiançar a sua inocência de que jamais conhecera um homem na intimidade do amor.
Amargurado, o cacique chegou ao fim do dia com uma certeza, era preciso punir a sua desonra. Se a filha continuava a recusar a delatar o índio que lhe engravidara, então era preciso matá-la. Ao recolher-se na oca, deitou-se sobre a rede, com a decisão de no dia seguinte lavar a honra com o sangue da filha. Ao adormecer, o chefe teve o sono invadido por Tupã, que tomando a forma de um homem branco, revelou-lhe a verdade, a filha era inocente, jamais se deitara com índio algum. Quando despertou, o cacique tinha o coração aliviado, toda a amargura e ódio tinham sido dissipados pelo sonho.
Assim, o ventre da jovem cresceu, como se dele fosse sair mais de uma vida. Ao fim do nono mês, após todos os sofrimentos sofridos, a bela índia deu à luz a uma menina de uma beleza rara, trazia uma tez branca que jamais fora vista naquela aldeia ou em qualquer lugar da Amazônia.
Ao saber do nascimento de tão diferente criança, todos os índios da aldeia vieram vê-la e admirá-la. A notícia espalhou-se por todas as nações indígenas da floresta amazônica, motivando uma peregrinação sem fim à aldeia. Todos queriam ver a bela criança de raça desconhecida e nova à humanidade.
A menina foi chamada de Mani. Mostrou-se uma criança com estranhos poderes, pois falou e andou precocemente. Quando completou um ano, parecia ter cinco. Um ano depois, quando a Lua completou todos os ciclos, Mani deitou-se sobre a rede, cerrou os olhos e calou-se para sempre. Faleceu sem apresentar qualquer doença ou sentir dor. Simplesmente adormeceu no manto da morte.
Com grande tristeza, os índios enterraram Mani dentro da oca onde vivia com a mãe. Seguindo os costumes da aldeia, todos os dias a sepultura de Mani era descoberta e regada pelos índios. Passados alguns dias, começou a brotar da cova uma estranha planta, desconhecida de todas as nações indígenas das ribeiras amazônicas. Diante de planta tão rara, os índios decidiram não arrancá-la da sepultura de Mani.
O tempo passou, a planta cresceu, floresceu e deu frutos. Os pássaros foram os primeiros a comer os frutos da planta desconhecida. As aves mostraram-se tontas e embriagadas, o que despertou a atenção dos índios, aumentando o suspense e mistério que ladeavam a planta. Um dia a terra em redor da planta fendeu-se. Os índios cavaram o local e debateram-se com uma raiz branca, como era a bela Mani. A misteriosa criança índia tinha se transformado na raiz. Ao comê-la, o povo descobriu aquela que se tornaria a sua principal alimentação. Aprenderam a extrair da planta o cauim, bebida que servia para as iniciações místicas e religiosas. Do tubérculo, um saboroso alimento nutria todos os índios. Passaram a chamar a planta de mandioca, que significava Mani-Óca, oca de Mani.

Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de: Jeocaz Lee-Meddi


OS SETE PECADOS CAPITAIS

Setembro 23, 2009

O conceito do pecado é usado na tradição judaico-cristã para descrever a transgressão do homem diante da Lei de Deus, à desobediência deliberada diante de um mandamento divino.
O conceito do pecado nas grandes religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, embora sempre visto como a inclinação humana em errar contra a perfeição divina, tem interpretações diferentes. O judaísmo descreve o pecado como uma violação da Lei, não sendo visto propriamente como uma falta moral; para os hebreus o pecado é um ato, não um estado da alma do homem, não passando de geração em geração, já que o homem é dotado de vontade livre. Para os cristãos católicos, o pecado é a herança que o primeiro homem, Adão, deixou para todas as gerações. É o pecado original, que diante da rebelião de Eva e Adão contra Deus, causou todos os males do mundo. O pecado original, visto que Adão era perfeito, só poderia ser expiado por outro homem perfeito, no caso Jesus Cristo, que não concebido da estirpe imperfeita de Adão e Eva, redime a humanidade diante do seu sangue derramado.
Na doutrina católica, três pecados são assinalados: o pecado original, vindo da rebelião de Adão e Eva no Éden, e transmitida para todas as gerações da humanidade; o pecado mortal, desobediência do homem após adquirir o perdão do pecado original através do batismo, que o leva à morte da alma; e, o pecado venial, cometido pelo homem quando em estado de ignorância das leis, digno do perdão divino. Através desses conceitos, a igreja católica classificou o que hoje é conhecido como os sete pecados capitais.
Os sete pecados capitais precedem ao próprio cristianismo, sendo vícios que se conhecia na antiga cultura grega, adaptados quando se deu a helenização dos preceitos cristãos. Os sete pecados capitais não são encontrados enumerados nas escrituras sagradas judaico-cristãs. A Bíblia refere-se a todos eles e muitos outros de forma dispersa. Eles só vieram a ser classificados e agrupados pela igreja medieval, a partir do século VI, pelo papa Gregório Magno (540-604), que tomou como referências as cartas apostólicas de Paulo de Tarso. Gregório Magno considerou os sete pecados como mortais, que ao contrastar com os veniais, significavam a morte da alma. Capital, do latim caput (cabeça), significa que os sete pecados são os mais altos de todos os outros, sendo eles: a soberba, a ira, a inveja, a avareza, a gula, a preguiça e a luxúria. Para combater cada pecado capital, foram classificadas sete virtudes: a humildade (soberba), a paciência (ira), a caridade (inveja), a generosidade (avareza), a temperança (gula), a disciplina (preguiça) e a castidade (luxúria). Mais do que um conceito geral da oposição do homem à Lei divina, os sete pecados capitais é uma visão moral dos princípios do cristianismo católico e da igreja que ele representa.

As Listas dos Sete Pecados Capitais

A classificação dos sete pecados capitais tem como raiz velhas tradições dos vícios apontados pela filosofia grega, mescladas às cartas apostólicas cristãs. Com a conversão de Roma ao cristianismo, esta religião perde grande parte da sua essência judaica, sofrendo uma helenização que lhe acrescentaria princípios filosóficos vistos como pagãos. Se para os gregos havia a ausência do pecado, as virtudes eram perseguidas como um ideal. Aristóteles mencionava as virtudes como princípio fundamental da busca da felicidade humana. No ascetismo do cristão medieval, o politeísmo grego é substituído pela Lei de Deus, transgredi-la era pecar contra o amor com o qual o Criador nos concebera. Assim, os pecados capitais são extremos opostos às virtudes, que, ao contrário do que pensavam os gregos, não servem para a felicidade do homem medieval, mas para salvar-lhe a alma.
Na origem mais remota da lista dos sete pecados capitais, está a classificação do grego Evágrio Pôntico (346-399), um monge cristão e asceta, que fez parte da comunidade monástica do Baixo Egito, vivendo as suas experiências ao lado dos homens do deserto. O monge traçou as principais doenças espirituais que afligiam ao homem, chamando-as de os oito males do corpo. Os oito crimes ou paixões humanas constavam na lista de Evrágio Pôntico em ordem crescente, conforme o que ele pensava ter mais gravidade, sendo eles:
A gula, a avareza, a luxúria, a ira, a melancolia, a acídia (preguiça espiritual), a vaidade e o orgulho.
Na lista, a melancolia, vista pelos gregos como uma enfermidade da saúde, é transformada em pecado. Evágrio Pôntico parte do conceito de que, à medida que o homem fechava-se no egoísmo de si mesmo, os pecados tornavam-se mais intensos e degradantes da alma, atingindo um apogeu com o orgulho ou soberba.
A doutrina de Evágrio Pôntico foi conhecida pelo monge Joannes Cassianus, que a divulgou no oriente, espalhando-a pelos reinos cristãos.
No século VI, o papa Gregório Magno ouviu falar na lista do monge grego, adaptando-a para o ocidente. Gregório Magno reduziu a lista de oito para sete itens. Juntou a vaidade ao orgulho, preteriu a acídia à melancolia, e, adicionou a inveja. À lista o papa chamou de os sete pecados capitais, sendo eles:
O orgulho, a inveja, a ira, a melancolia, a avareza, a gula e a luxúria.
Gregório Magno usou a sua própria hierarquia na concepção da lista, classificando-a por ordem decrescente, demarcando os pecados que mais ofendiam ao amor.
Os sete pecados capitais foram difundidos pelo mundo cristão medieval, tornaram-se símbolos da agressão do homem contra Deus, e responsáveis pela perda da alma. Várias listas foram elaboradas por teólogos sobre eles. O dominicano Tomás de Aquino fez um grande estudo sobre os sete pecados, dando-lhes princípios filosóficos inspirados na ética grega. Na sua lista, ele enumera como os sete pecados capitais:
A vaidade (soberba), a avareza, a inveja, a ira, a luxúria, a gula e a acídia (preguiça).
No contexto final, a igreja católica classificou os pecados humanos em dois tipos, os pecados que podem ser perdoados através de penitencias, sacramentos e confissões; e, os pecados capitais, dignos da perdição e condenação da alma. Popularizados pelo ascetismo do homem medieval, os sete pecados capitais foram exaustivamente difundidos nas artes e nas lendas da época. No século XVII, a igreja subtraiu oficialmente da lista do papa Gregório Magno a melancolia, por considerá-la vaga como pecado, trocando-a pela preguiça. Por fim, chegou aos nossos dias a seguinte lista de classificação dos sete pecados capitais:
A soberba (ou vaidade), a inveja, a ira, a preguiça, a avareza, a gula e a luxúria.

Evolução dos Sete Pecados Capitais no Mundo Contemporâneo

Para cada pecado foi criada uma ligação com o oposto, originando as sete virtudes, que servem de salvação à alma dos pecadores. São elas:
A humildade, que combate à soberba; a caridade, que quando usada neutraliza a inveja; a paciência, virtude que apazigua a ira; a disciplina, que combate qualquer ociosidade da preguiça da alma e do corpo; a generosidade, poderosa virtude oponente à avareza; a temperança, que evita os excessos da gula; e, a castidade, que protege o corpo, invólucro da alma, da luxúria.
Outras associações foram feitas ao sete pecados capitais. Já na Renascença, Peter Binsfeld comparou-os, em 1589, com um respectivo demônio. Na Binsfeld’s Classification of Demons, seguindo os significados míticos mais usados, a ligação dos sete pecados e os respectivos demônios estão assim enumerados:
Lilith é responsável pela tentação do pecado da soberba (vaidade ou orgulho); Leviatã conduz o homem à inveja; Azazel acende a ira na mente humana; Belphegor está ligado à preguiça; Mammon personifica a avareza; Belzebu está relacionado com a gula; e, Asmodeus, o demônio do sexo e da luxúria.
Mesmo sendo classificados e enumerados pela visão moral e religiosa do homem medieval, os sete pecados capitais continuam presentes na cultura ocidental. Embora o homem contemporâneo tenha amenizado o conceito moral de cada pecado como forma de punição e culpa, a igreja católica continua a usá-los como parâmetros de expiação e prevenção. Em pleno século XXI, o Vaticano não só os ratificou, como atualizou a lista, adaptando-a à realidade de um mundo unido pela globalização. Novos pecados capitais foram acrescentados pelo papa Bento XVI, sendo eles:
A manipulação genética; o uso de drogas; a desigualdade social e, a poluição ambiental, entre outros.
A nova lista de pecados capitais apresentada pelo Vaticano deixa clara que o cristão necessitará de pedir perdão, através da confissão, se cometer tais atos. O homem que acometer contra a natureza, o planeta e à vida, continua a ofender a Deus, cometendo os pecados capitais contemporâneos.

Primeiro Pecado – A Soberba

A soberba, ou vaidade, ou orgulho, é considerada a mãe de todos os pecados. Foi através dela que Eva levou Adão à desobediência, na expectativa de que, ao experimentar do fruto da árvore dos conhecimentos, tornar-se-iam superiores e independentes do próprio Criador. A soberba cega o homem, que através dela, enxerga a grandeza através da distorção da ambição.
Ao procurar a perfeição na extremidade da obsessão, o homem perde-se das suas limitações. De forma passional somos levados a procurar a glória, perdendo a essência de Deus no ápice do poder terreno.
Através da soberba, o homem transforma a sua autonomia de escolha e livre arbítrio em vício, enganando-se sobre si próprio, abraçando o orgulho, a insensatez e a vaidade pessoal, desprezando aos que estão à sua volta e à sua cabeça, como o próprio amor a Deus e à Lei.
A soberba leva o homem a augurar a glória através da falsidade; passando a cultivar a cobiça e a hipocrisia do poder; submetendo-se à imprudência do próprio espelho onde mirou a vaidade e a visão distorcida da sua verdade.
A soberba distancia o homem da humildade, a virtude que se opõe a ela. Distanciando-se da virtude, o homem comete o pecado. Oposta à humildade, a soberba impede o homem de conhecer a ele próprio.

Segundo Pecado – A Inveja

Se a soberba faz o homem voltar à vã glória de si mesmo, a inveja leva-o a atingir outrem, tornando-o mesquinho e repleto de atos que o levam à vilania. Um dos sentimentos mais comuns às pessoas, a inveja reduz a grandeza do ser humano, tornando-o infeliz diante da felicidade alheia.
O homem é atingido pela inveja quando se apega à tristeza ante a glória de outrem, sendo movido por uma força súbita e destrutiva que o faz odiar, ou mesmo atentar contra essa glória ou felicidade alheia.
A inveja leva à maledicência, à intriga e ao falso testemunho. É um pecado que pode passar despercebido pelos que estão à volta de quem o comete, pois é acionado muitas vezes de forma sutil. Ter inveja é uma das maiores características da essência humana. Alimentá-la é muitas vezes, acometer gravemente contra os princípios morais e aos desígnios da fraternidade universal.
A inveja não vem somente em forma de ambicionar o que o outro tem, mas de comparar o Eu e o Outro, numa tentativa muitas vezes inconsciente de subtrair as diferenças, nivelando a sensação de não se suportar alguém que se nos ponha à frente. A inveja distancia-se da caridade, a virtude responsável pela magnificência do homem diante do outro.

Terceiro Pecado – A Ira

A ira leva o homem à insanidade dos atos, fazendo-o travar o sentimento de vingança contra aquele que o ofendeu. Fere não só os princípios do amor divino, como um conceito fundamental do cristianismo, o de oferecer a outra face. A ira leva à vingança, à cólera exacerbada e sem limites, que faz com que se ofenda verbalmente o outro, ou mesmo que se agrida e lese corporalmente aquele que a atiçou.
A ira é completa perda da razão, afetando indelevelmente à construção moral humana. É um estado fugaz na desconstrução da dignidade, não fazendo parte constantemente da personalidade humana. Ela pode vir rápida como um relâmpago, transformando-se mortalmente em um raio. Evitá-la requer um conhecimento do homem por ele mesmo. Não se pode confundi-la com o ódio, que se manifesta muitas vezes de forma racional. A ira é um estado ilógico, em que se perde a razão por completo. É uma explosão irracional da alma, movendo-a para o pecado da existência. É o domínio total da emoção sobre a razão.
A ira opõe-se à virtude da paciência, fazendo com que se perca todos os seus elementos. Pode vir em forma de palavras ultrajantes contra o outro, ou de agressão física, muitas vezes de forma perigosa. É uma explosão destrutiva dos sentimentos ruins, muitas vezes arraigados no inconsciente humano. A paciência é uma virtude que combate a ira, para tê-la, é necessário um grande conhecimento do mundo à volta e de si próprio.

Quarto Pecado – A Preguiça

Dotado da inteligência e da autonomia de criar, caminhar, realizar tarefas e prover o próprio sustento, visto que se perdeu a prosperidade do jardim do Éden; o homem tem por obrigação empenhar toda a sua capacidade, fazendo-o com louvor por herdar do Criador a capacidade das suas ações.
Ao quedar-se diante do empenho da própria sobrevivência e labuta, volvendo-se na procura sem limites do repouso e do prazer em nada fazer, o homem omite-se e passa a negligenciar o seu bem espiritual. Então ele comete o pecado secular da preguiça, fazendo da vida um tédio e uma tristeza não somente ao exterior em que se sobrevive, mas ao interior do espírito.
A preguiça leva à indolência do homem, que não se vê capaz de realizar os atos para os quais Deus o criou, deixando-se levar pela inércia e pelo pecado de desprezar a própria vida, fazendo-a morna e sem o seu devido valor divino e sagrado. A preguiça impede o homem de buscar novos conhecimentos, tantos universais como espirituais, limitando as idéias e o iluminismo à sua volta.
O pecado da preguiça faz com que o homem não perceba o momento, mergulhando em um eterno depois às coisas, sem a preocupação de vivenciar a vida que se lhe foi presenteada pela grandiosidade de Deus. A preguiça opõe-se à virtude da disciplina, responsável pela organização e aprendizado humano, tornando-o objetivo diante do que se lhe põe à frente.

Quinto Pecado – A Avareza

O apego e amor exacerbado pelo dinheiro e pelos bens materiais constituem a principal característica da avareza. A vontade insaciável do possuir liga-se profundamente com a cobiça.
O homem avarento inclina-se em juntar para si todos os tipos de bens materiais, guardando-os e preservando-os como se tivessem vida. O coração avaro endurece, fechando-se às necessidades dos outros que giram ao seu redor. O desejo de possuir bens materiais faz parte da essência humana, tomá-lo como objetivo principal aflora o pecado capital da avareza.
O avarento tenta através da busca e preservação dos bens, suprir uma carência afetiva e dificuldade em receber e dar o afeto, fazendo do possuir uma sensação efêmera de vitória e realização. À medida que a avareza toma conta da alma, a insatisfação pessoal ultrapassa ao bem estar material, deixando o avarento inquieto e solitário, preso em uma busca constante de querer para si todos os bens palpáveis e materiais, sobressaindo-se aos afetivos e espirituais. A avareza tira do homem a satisfação em dividir, presentear e conviver em grupos sociais. Só o seu mundo inconstante em busca de bens passa a fazer sentido, o medo de perdê-lo faz com que se isole cada vez mais.
O pecado da avareza opõe-se à virtude da generosidade. O homem deixa de ser generoso com o próximo, apegando-se ao dinheiro e à necessidade de gastá-lo em algo que possa reter. É através da generosidade que o homem atinge a sua essência universal, a avareza corrói esta virtude, aflorando a parte mesquinha do gênero humano, fazendo dele uma ilha isolada.

Sexto Pecado – A Gula

Os princípios básicos da sobrevivência de qualquer ser vivo na natureza, seja o homem ou os animais, estão na capacidade de comer e de fazer sexo. A comida garante que se mantenha vivo, o sexo que se perpetue como prole. Comida e sexo garantem a perpetuação da vida, através de um prazer que causa o bem estar de todo ser vivo.
Comer e beber faz parte da alegria humana, da garantia da sua sobrevivência. São prazeres que normalmente o homem transgride, fazendo da necessidade o desejo, resumindo-o à satisfação do desejo de um pecado venial, não ao prazer de sobreviver.
Ordenar o prazer natural que rege as nossas vidas nem sempre é possível, gerando o pecado da gula, que constitui numa procura intensa do prazer no beber e no comer. A razão esvai-se, sucumbindo ante da vontade. O apetite em excesso transforma-se na fome de viver, não no prazer dele se retirar a sobrevivência. A gula trava luta constante entre o prazer da carne e o crescimento espiritual, afastando o homem de Deus, que se torna no furor do seu apetite, negligente com a alimentação espiritual.
A gula é o pecado capital que contrasta com a virtude da temperança. Seus excessos levam à degradação do próprio corpo humano, que uma vez sendo alimentado com mais do que necessita, perde o seu equilíbrio natural e saudável. A saúde esvai-se se não mantida com a temperança.

Sétimo Pecado – A Luxúria

Se o sexo é o prazer que o homem tem no seu instinto básico para que se perpetue a sua prole, ele em excesso traz o vício, a desonra e o desequilíbrio da harmonia. A luxúria é a procura obsessiva e desordenada dos prazeres da carne, levando-nos ao vazio absoluto dos sentimentos.
A visão do sexo como luxúria torna este pecado capital o mais controverso no século XXI. A evolução moral da civilização judaico-cristã trouxe a chamada liberação sexual, em que o sexo passou a ser visto como fonte de prazer físico e psicológico e não apenas como função reprodutiva. Muito do que era visto como luxúria pela igreja medieval, foi diluída na liberação dos costumes sexuais da sociedade ocidental.
Mesmo diante da revolução sexual que aflorou na segunda metade do século XX, a visão do pecado da luxúria, o sexo em excesso, continua a ser a mesma que se apresentava quando o papa Gregório Magno criou a lista dos sete pecados capitais. O dominicano Tomás de Aquino, classificava a luxúria em duas vertentes: a primeira, quando praticada contraria o bom senso e a razão, originando a fornicação excessiva, a agressão contra os princípios da castidade, o adultério entre os casais, e o incesto entre os membros da família; a segunda vertente de Tomás de Aquino é a luxúria que contraria a ordem natural do ato venéreo, como a sexualidade praticada entre pessoas do mesmo sexo. Se Tomás de Aquino utilizou a ética aristotélica em sua teologia dos sete pecados, com a luxúria ele deixa a filosofia grega, apegando-se aos preceitos judaico-cristãos, que condenam o homossexualismo, transformando o ato no mais grave dentro da luxúria, sendo visto como mais abominável do que o adultério e o incesto.
O pecado da luxúria opõe-se à virtude da castidade, muito apreciada pelo homem através dos séculos, mas que perdeu a importância da sua essência quando das mudanças culturais que a cristandade católica sofreu nas últimas décadas. A castidade embora minimizada, continua a ser uma virtude admirada, mas deixou de fazer parte essencial da sexualidade do homem contemporâneo.


FANTASIA – LUDISMO E ASCENSÃO DE GAL COSTA

Setembro 19, 2009

Em novembro de 1981 Gal Costa lançou o disco “Fantasia”, que viria a ser um dos mais bem-sucedidos da sua carreira, transformando-a de vez na maior cantora do Brasil. A menina tímida e intimista do início da Tropicália, a cantora agressiva e visceral da época em que foi musa do desbunde, dava passagem definitiva para a mulher de sorriso sedutor, dona de uma voz que procurava cada vez mais atingir a beleza da emoção e da técnica de um canto límpido, pairando sob uma aurifulgente perfeição.
Fantasia” trazia a marca do que seria a MPB na primeira metade da década de 1980. Arranjos, fórmula, beleza e, principalmente, alcance de grande público com um trabalho de qualidade. Precedido por um show homônimo recebido com frieza pela crítica, quando da estréia em julho de 1981, no Canecão, Rio de Janeiro, o álbum veio paradoxalmente, a ser considerado o melhor disco daquele ano, e na época, o maior da carreira da cantora.
O álbum trazia uma Gal Costa renovada, a cantar com um à vontade até então desconhecido, sem nenhuma sombra de intimismo, mesmo diante de canções que o exigiam. Trouxe um domínio vocal que acentuou indelevelmente o seu timbre único, arriscando notas altíssimas, modulações perfeitas.
No momento exato em que a MPB voltava a ser uma das vozes mais contundentes da luta contra a ditadura militar, o Brasil via Gal Costa ascender à estrela maior da canção e, numa fatalidade do destino, Elis Regina a sair de vez dos palcos da vida para transformar-se em mito. O encontro das duas ficou registrado no programa “Grandes Nomes – Maria da Costa Penna Burgos”, da TV Globo, exibido em março de 1981.
Fantasia” marca este momento. Gal Costa assume a frente da MPB, com canções de ritmos e gêneros diferentes, mas talentosamente alinhavados numa unidade que vista através do tempo, parece mais uma coletânea de grandes sucessos. Das grandes massas aos intelectuais; do carnaval aos momentos de intimidade do amor; do samba-exaltação de “Canta Brasil” à mensagem ideológica de “O Amor”; Gal Costa com “Fantasia” tornou-se a cantora mais ouvida no país, naqueles distantes anos de fim de ditadura. O álbum é um ícone da MPB, e um dos mais belos já produzidos por ela.

O Início dos Anos Oitenta

1981 foi um ano de grandes manifestações contrárias à ditadura militar, instaurada no Brasil desde 1964. Com a extinção do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e a promulgação da Lei da Anistia, em 1979, a Nação já não se calava diante da força bruta e da truculência do regime da caserna. A MPB tomou um novo fôlego, tendo várias canções de protesto até então proibidas, finalmente liberadas. Grandes concertos, reunindo as estrelas da época, foram produzidos contra o governo dos generais. A ala radical da ditadura não se deixou intimidar, promovendo atos de terrorismo, como a explosão de bancas de revistas que vendiam jornais de esquerda, atentados à bomba às sedes das instituições que lutavam pela redemocratização do país, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ou ainda, atentados aos shows políticos de grandes artistas da MPB.
O maior atentado terrorista no Brasil da época da ditadura foi justamente contra um grande espetáculo da MPB, o famoso show do Riocentro. No dia 30 de abril de 1981, os palcos do Riocentro recebiam um grande número de estrelas da MPB, reunidos em um show comemorativo ao Dia do Trabalho. Uma bomba estava pronta para ser detonada no pavilhão onde os cantores se apresentavam. Por sorte do destino e fatalidade da ditadura, a bomba explodiu antes, no estacionamento do Riocentro, matando membros dos próprios algozes. Assim, a MPB não perdeu grandes estrelas como Chico Buarque, Gonzaguinha e Gal Costa, entre muitos.
Foi no clima de euforia pela intensificação da luta pela liberdade, e do medo às investidas de um regime agonizante, que Gal Costa lançou o show “Fantasia”, no mítico palco do Canecão, no Rio de Janeiro, em julho de 1981. Após dois anos de sucesso absoluto com o show “Gal Tropical”, a cantora mergulhou de cabeça em um projeto totalmente diferente. Idealizado por Guilherme Araújo, o show era uma homenagem ao ludismo dos teatros de revistas e aos grandes musicais. Sua concepção cênica envolvia a passagem de um dia, do nascimento do Sol à noite iluminada pela Lua. O espetáculo desprendeu um orçamento exorbitante para a época, mas foi transformado pela crítica em um grande fracasso, sendo recebido por ela com palavras ácidas e frieza absoluta.
Mesmo diante do fracasso do showFantasia”, Gal Costa lançou um álbum homônimo, em novembro de 1981. Com canções vindas do malogrado espetáculo, o disco seria transformado no maior sucesso da indústria fonográfica daquele ano e do ano seguinte.
Fantasia”, o álbum, trazia dez canções de ritmos e gêneros diferentes, mostrando o potencial de Gal Costa para transitar em solos diversos, fazendo da proposta musical algo coeso, de uma unidade perfeita. A capa revelava uma mulher sensual, mais solta, transitando entre a menina intimista e a cantora sem limites. Antonio Guerreiro foi o autor das fotografias da capa. Mariozinho Rocha foi o produtor. A peculiaridade está nos arranjos de Lincoln Olivetti, que no início daquela década, tornar-se-ia, para o bem ou para o mal, o grande mago da MPB e das suas estrelas. Dez faixas feitas ao estilo dos vinis, seduziram e encantaram o Brasil, fazendo que algumas canções entrassem definitivamente como obras-primas para o grande acervo da Música Popular Brasileira.

Músicas Antigas ou Inéditas em Interpretações Definitivas

Seguindo o estilo iniciado com “Olhos Verdes” (Vicente Paiva), em “Água Viva“ (1978), Gal Costa abria “Fantasia” com uma canção antiga, estilo samba-exaltação. Desta vez Canta Brasil” (David Nasser – Alcir Pires Vermelho), foi a escolhida. A música foi lançada em 1941, numa resposta a “Aquarela do Brasil”, e assim como a canção de Ary Barroso, exaltava o Brasil, num claro estilo de propaganda ao Estado Novo, ao qual Getúlio Vargas e o seu governo ditatorial costumava incentivar. Francisco Alves foi quem, acompanhado pela orquestra da Rádio Nacional, gravou a música pela primeira vez, lançada na época pelo selo da Odeon. Curiosamente, a interpretação da canção na voz de Gal Costa perde o seu patriotismo exacerbado e transforma-se numa grande música dançante, deixando os espectros ufanistas do Estado repressivo, dando-lhe uma brasilidade brejeira e desvinculada da propaganda. Gal Costa transforma a canção em uma adorável ode aos brasileiros. O sucesso foi imediato, e “Canta Brasil” passou a fazer parte da grande galeria de sucessos da cantora, como se tivesse sido escrita para ela. Na década seguinte, seria abertura da novela “Deus Nos Acuda”, de Sílvio de Abreu.
Meu Bem, Meu Mal” (Caetano Veloso), trazia Gal Costa de volta ao universo do mestre baiano do tropicalismo; interrompida no ano anterior pelo álbum “Aquarela do Brasil”, totalmente dedicado a Ary Barroso. Antes mesmo de o disco ser lançado, “Meu Bem, Meu Mal” já fazia parte da trilha sonora da telenovela “Brilhante”, de Gilberto Braga, transmitida em horário nobre pela TV Globo. Como um vinho amadurecido, a voz de Gal Costa traz a beleza de um grande momento da música de Caetano Veloso. Se a técnica vocal da cantora atingia aqui uma vertiginosa ascensão, também a poesia musical de Caetano Veloso dava este salto. Fusão perfeita, digna da dupla, em um momento para sempre, onde o que um é afoga-se na arte do outro:

“Meu bálsamo benigno
Meu signo, meu guru
Porto seguro, onde eu vou ter
Meu mar e minha mãe
Meu medo e meu champagne”

Roda Baiana” (Ivan Lins – Vitor Martins), é uma incursão rara de Gal Costa no universo de Ivan Lins. Aqui o compositor deixa por um momento, a sua canção tradicionalmente cravada na vertente passional dos amores e do existencialismo, mergulhando no universo sensual da Bahia, do seu mar mítico e da baiana típica com os seus anéis e turbantes. Gal Costa está em casa, mas Ivan Lins não, apesar de ser uma bela canção, não atinge a sinceridade do autor, que se curvou ao universo da cantora, abandonando por completo o seu. O disco não perde o ritmo com esta canção, que não consegue ir além do academicismo intelectual de um grande compositor da MPB.

A Magia e Encantos de Uma Voz de Sereia

A grande surpresa do disco surge na quarta faixa, “Faltando Um Pedaço” (Djavan), traduzindo a grande magia do timbre da voz de Gal Costa. Aqui ela revela o seu canto embriagante de sereia solitária, vertendo a embriaguez hipnótica que arrebata sem perdão aos marinheiros que viajam pelo sentido dos mares dos seus agudos. A canção na voz da sereia é doce, de uma solidão sem fim, de um lirismo incondicional. A música de Djavan nunca mais foi a mesma depois dessa interpretação de Gal Costa. A partir de então, o compositor assumiu o seu lugar cativo dentro da MPB, encontrando aquela que seria a sua maior intérprete, dando à sua melodia o tom exato de uma beleza finalmente decifrada.

“O amor é como um raio
Galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales
Revolta as águas do rio
Quem quiser seguir seu rastro
Se perderá no caminho
Na pureza de um limão
Ou na solidão do espinho”

O disco encerra o lado A em estilo eloqüente, com a épica “O Amor” (Caetano Veloso – Ney Costa Santos – Vladimir Maiakóvski), arrebatada dos palcos teatrais para um registro cheio de surpresas. Em junho de 1981 os palcos cariocas viram a estréia da peça “O Percevejo”, de Vladimir Maiakóvski, grande poeta que nasceu na Geórgia, ex-república da extinta União Soviética. No elenco estava Dedé Veloso, então mulher de Caetano Veloso, que participava como atriz. Luís Antonio Martinez Corrêa foi quem dirigiu o espetáculo, que trazia alguns poemas musicados por Caetano Veloso. Entre eles estava “O Amor”. Gal Costa gravou a música, revelando-a para o Brasil. Maiakóvski representava uma voz de esperança cultuada pela esquerda brasileira. Sua mensagem encontrou uma atmosfera jamais pensada na voz da cantora. Achamos na interpretação de Gal Costa a perfeição da técnica mesclada a um passionalismo ideológico que a emoção da cantora atinge no final. Com um início intimista, a voz de Gal Costa cresce, atingindo um ápice que empolga e emociona o mais duro dos revolucionários. “O Amor” é o encontro da palavra com a voz, da poesia com a melodia, da mensagem com o público, de uma trilogia única, jamais repetida: Vladimir Maiakóvski, Caetano Veloso e Gal Costa. A peça foi um fracasso, esquecida pelo tempo, mas a música foi eternizada pela cantora baiana.

Alegria e Ludismo, em Um Só Tom

O frevo “Festa do Interior” (Moraes Moreira – Abel Silva) iniciava o lado B de “Fantasia”. Nunca Gal Costa tinha ido tão longe com modulações e notas altíssimas como aqui, dando brilho e alegria naquela que se tornaria a canção mais tocada nas rádios da época. Foi com “Festa do Interior” que a cantora lançou oficialmente o álbum, em um clipe para o programa “Fantástico”, da TV Globo, no final de 1981. O sucesso foi imediato, levando Gal Costa a chamar o show estreado no princípio de 1982, de “Festa do Interior”. Sua mensagem trazia para os centros urbanos as velhas tradições juninas das festas do interior brasileiro. No carnaval daquele histórico 1982, foram os agudos que explodiram nas trincheiras da alegria dos foliões. Durante muito tempo, Gal Costa encerrou os seus shows com a euforia contagiante de “Festa do Interior”. A canção tornou-se uma marca registrada na carreira da cantora, dela jamais se desvinculando.

“Fagulhas, pontas de agulha
Brilham estrelas de São João
Babados, xotes e xaxados
Segura as pontas, meu coração”

Açaí” (Djavan), foi outra estréia no universo de Djavan. Na época a árvore e o fruto do açaí eram conhecidos apenas na região da Amazônia, longe da popularidade que os valores nutritivos a sua polpa têm hoje não só no Brasil, como no resto do mundo. “Açaí” chegava aos ouvidos dos brasileiros como uma canção mística, de uma árvore da floresta. A voz de Gal Costa dava à melodia a atmosfera misteriosa que tanto atraía aos jovens da época. Sem uma mensagem específica, a canção é um jogo inteligente de palavras, que adquire uma poesia sonora espetacular na voz doce de Gal Costa, aqui com a participação especial da banda Roupa Nova, a entoar o coro.
Tapete Mágico” (Caetano Veloso), é mais um momento de delicadeza mágica e beleza poética no encontro eterno entre a voz de Gal Costa e a música de Caetano Veloso. É nesta canção que o disco atinge o seu clímax, provando porque “Fantasia” tornar-se-ia para sempre um dos maiores registros da fonografia brasileira. Na delicadeza da canção, a voz de Gal Costa transporta o ouvinte sobre um céu de fantasia e magia, fazendo com que fronteiras e tradições sejam quebradas, num passeio lúdico que nos leva da Baía de Guanabara aos mares de Salvador, das mangueiras seculares de Belém do Pará à pulsação da Avenida Paulista. “Tapete Mágico” foi um dos momentos mais aplaudidos do show “Festa do Interior”. É uma canção que relaxa o ouvinte, que a esta altura do disco, deixa-se afogar no naufrágio da voz embriagante da grande sereia da MPB.
Do ludismo somos conduzidos para a explosão total do carnaval, com “Massa Real” (Caetano Veloso). Se em “Balancê” vimos uma Gal Costa alegremente explosiva, nesta marcha carnavalesca ela traz domínio total sobre o ritmo, convidando-nos para uma entrega total à grande folia do Brasil. A canção foi lançada por Caetano Veloso em dezembro de 1979, no compacto “Carnaval 80”, mas só viria a agitar, ao lado de “Festa do Interior”, o carnaval de 1982, já na voz de Gal Costa. Porque aquele seria o ano da ascensão da grande estrela:

“Hoje eu só quero alegria
É meu dia, é meu dia
Hoje eu só quero amor”

Fantasia” encerra-se com “Estrela, Estrela” (Vitor Ramil), a faixa mais intimista do álbum. A canção fechava as cortinas da fantasia da cantora, alinhavando-se com “Faltando Um Pedaço” e “Tapete Mágico”, concebendo a unidade final do disco. Conta com a participação especial de Zeluiz, que tem a voz gravada em 15 canais, ao lado da voz da cantora. Estilo que foi moda naquele ano.
Fantasia”, que numa primeira leitura traz a marca registrada da música que se fazia no inicio da década de 1980, mostra-se atemporal, sem renegar o seu tempo. A partir do álbum, Gal Costa passou a ser unanimidade nacional, e alcançando o público internacional. Israel render-se-ia ao espetáculo “Festa do Interior”, assim como o Japão. Impossível desenharmos a história mais recente da MPB sem pensarmos nos clássicos “Festa do Interior”, “Faltando Um Pedaço” e “Meu Bem, Meu Mal”, ou na atemporal “Canta Brasil” sem a interpretação de Gal Costa. É por isto que “Fantasia” tornou-se imprescindível no panorama musical e na coleção do mais fervoroso amante da MPB.

Ficha Técnica:

Fantasia
Philips
1981

Produzido por: Mariozinho Rocha
Direção de Produção: Mariozinho Rocha, Gal Costa e Guilherme Araújo
Técnicos de Gravação: Luigi Hoffer e Jairo Gualberto
Técnico de Mixagem: Luigi Hoffer
Auxiliares de Estúdio: Julinho, Charles e Carlinhos
Lay-Out: Lielzo Azambuja
Fotos: Antonio Guerreiro
Arte Final: Lielzo Azambuja
Produção Gráfica: Edson Araújo
Maquiagem: Guilherme Pereira
Roupas: Markito
Arranjos: Lincoln Olivetti, Gilson Peranzzetta e Guto Graça Mello

Faixas:

1 Canta Brasil (David Nasser – Alcir Pires Vermelho), 2 Meu Bem, Meu Mal (Caetano Veloso), 3 Roda Baiana (Ivan Lins – Vitor Martins), 4 Faltando Um Pedaço (Djavan), 5 O Amor (Caetano Veloso – Ney Costa Santos – Vladimir Maiakóvski), 6 Festa do Interior (Moraes Moreira – Abel Silva), 7 Açaí (Djavan) Participação: Roupa Nova, 8 Tapete Mágico (Caetano Veloso), 9 Massa Real (Caetano Veloso), 10 Estrela, Estrela (Vitor Ramil) Participação: Zéluiz


AQUARELA DO BRASIL – APOTEOSE DE GAL COSTA E ARY BARROSO

Agosto 7, 2009
Lançado à sombra do show “Gal Tropical”, garantindo-lhe uma sobrevida maior, o álbum “Aquarela do Brasil”, de 1980, encerrou com chave de ouro a trilogia que se iniciara com “Água Viva” (1978), passando pelo mítico “Gal Tropical” (1979), fazendo no todo, um dos momentos mais belos de visitação ao âmago da canção brasileira, transformando Gal Costa numa das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira.
Deixando de vez a contracultura, as experimentações tropicalistas, a cantora mergulhou nos clássicos da MPB, fazendo renascer velhos sucessos da época de ouro do rádio, e ritmos até então esquecidos, como o samba exaltação ou as antigas marchas carnavalescas. Este trabalho sintetizado em três álbuns, encerrar-se-ia com um disco totalmente dedicado a Ary Barroso, um compositor cuja música “Aquarela do Brasil” atravessara as fronteiras, sendo descoberta por Hollywood nos anos de 1940, tornando-se símbolo de um Brasil cartão postal, com direito às imagens do Pão de Açúcar, bananas, aves exóticas, roupas folclóricas e balangandãs, numa paisagem feita sob encomenda para a visão limitada dos Estados Unidos sobre a América Latina. Se por um lado a música tornou-se parte da propaganda getulista e do Estado Novo, Ary Barroso é sem qualquer contestação, um dos maiores compositores da MPB, deixando-nos um legado grandioso de grandes e imortalizadas canções.
Gal Costa poderia ter encerrado esta fase da sua carreira com um álbum autoral só com canções de Noel Rosa, pois a essa altura, já estava pronta para enfrentar qualquer desafio dentro da MPB, tamanha maturidade vocal, técnica e veia emotiva alcançadas. Mas Guilherme Araújo, então empresário da cantora, gênio não só da visão apurada aos talentos à sua volta, e também senhor absoluto em transformar o espetáculo em show busines, não quis arriscar. Acertou com a Polygram um álbum que não interferisse no roteiro do bem sucedido espetáculo “Gal Tropical”, e as músicas pudessem ser facilmente adaptadas a ele.
Assim, nasceu um álbum acadêmico, lançado na contramão das tendências da MPB daquele momento, sendo recebido como um arremate final do show mítico, sem trazer novidades. Distanciadas três décadas do seu lançamento, “Aquarela do Brasil” é hoje um clássico maravilhoso, com registros da obra de Ary Barroso que pouco se repetiu. Se em 1980 foi mais acadêmico, limitando-se a não correr riscos dentro do universo do autor homenageado, hoje é imprescindível na MPB, sem qualquer poeira do tempo a sujar as faixas. Gal Costa eterniza Ary Barroso, emprestando à obra a beleza de uma voz doce e transparente como um cristal legítimo, fazendo do álbum, um luxuoso momento da história da música. “Aquarela do Brasil” é daqueles discos que lançado contra as tendências, foi feito para o ontem, o hoje e o amanhã, para resistir intacto à corrosão do tempo, função legada apenas aos grandes clássicos.

As Raízes do Projeto

Na época do lançamento de “Aquarela do Brasil”, era costume primeiro a estréia de um show, depois a gravação em estúdio, de um disco com bases no espetáculo. O show “Gal Tropical” ainda não esgotara o sucesso de público e a emoção da cantora, e já tinha produzido dois álbuns, “Água Viva”, em 1978, e “Gal Tropical”, em 1979. Os contratos dos cantores com as gravadoras exigiam um disco a ser lançado por ano. Guilherme Araújo, empresário de Gal Costa, não quis encerrar um show de grande sucesso e preparar outro para que a cantora lançasse um álbum em 1980. A solução encontrada foi produzir um disco que não interferisse com o espetáculo e pudesse ser encaixado no seu roteiro, sem que lhe afetasse o conteúdo. O repertório de Ary Barroso inseria-se perfeitamente no contexto do “Gal Tropical”, era preciso apenas que se escolhesse as canções que não fugissem ao roteiro.
Feito os acertos com a Polygram, Gal Costa e Guilherme Araújo encomendaram a Paulo Tapajós e a Roberto Menescal a pesquisa do repertório. A cantora e o empresário ouviram mais de cem canções. Músicas óbvias como as clássicas “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro” não poderiam faltar. Era preciso trabalhar sobre as restantes. As regravações deram prioridade ao Ary Barroso dos repertórios de Carmen Miranda e Dalva de Oliveira, que estavam a dar muito certo na voz de Gal Costa desde o álbum “Água Viva”. Escolhido o repertório, estava garantido que as canções fizessem parte do show “Gal Tropical”, alongando-lhe a temporada, sem alterar a sua essência, e, principalmente, sem a necessidade da criação de um novo espetáculo.
Escolhido aos moldes de um espetáculo de grande sucesso, “Aquarela do Brasil” trouxe um repertório que na época, pareceu igual aos dois álbuns anteriores em grande parte das faixas. As limitações de critérios de escolha das músicas, fizeram-nos órfãos de clássicos como “No Rancho Fundo” (Lamartine Babo – Ary Barroso), que certamente teria sido um marco na voz de Gal Costa naquela época.

Um Disco Além do Tempo Que Foi Lançado

Quando foi lançado, no final de 1980, o álbum batia de frente com a MPB que se fazia na época. Depois da abertura política e a liberação de antigas músicas proibidas, a MPB tomou um novo fôlego, formando um público amplo, que passou a consumir com mais voracidade o que de bom era produzido no cenário musical. Atenta às tendências de público, a TV Globo deu destaque à MPB naquele ano, lançando programas antológicos como “Grandes Nomes”, que trazia sempre uma estrela da canção como convidado; e reativou, com grande sucesso, os festivais das canções, encerrados desde o início dos anos 70. O “Festival MPB 80” gerou grandes sucessos, revelando Amelinha, Oswaldo Montenegro, Sandra de Sá, entre muitos. Na MPB, grandes sucessos pontuais explodiam, como “Lança Perfume” (Rita Lee – Roberto de Carvalho), com Rita Lee; “Meu Amigo, Meu Herói” (Gilberto Gil), com Zizi Possi; “Sangrando” (Gonzaguinha), com Gonzaguinha; “Atrevida” (Ivan Lins – Vitor Martins), com Simone; “Novo Tempo” (Ivan Lins – Vitor Martins), com Ivan Lins; “Nosso Estranho Amor” (Caetano Veloso), com Caetano Veloso e Marina; “Eternas Ondas” (Zé Ramalho), com Fagner; ou “Aprendendo a Jogar” (Guilherme Arantes), com Elis Regina.
Foi contra esta tendência explosiva de estilos dentro da MPB que Gal Costa lançou o song book do mestre Ary Barroso, ficando deslocada na sua ousadia. Apesar de ser um disco que fugia do sucesso imediato, a aceitação da crítica foi morna, mas positiva, e o público recebeu-o com carinho, tornando-se disco de ouro, fato que se sucedeu pela terceira vez na carreira de Gal Costa, desde “Água Viva”. Era um disco tocado essencialmente nas FMS, ouvidas pela classe média, fugindo das AMs, mais populares.
A liderança do cenário musical começava a ser mudado novamente. Por dois anos consecutivos Maria Bethânia reinou absoluta ao lado de Roberto Carlos, com o sucesso estrondoso dos álbuns “Álibi” (1978) e “Mel” (1979), mas com “Talismã”, contemporâneo de “Aquarela do Brasil”, a cantora começou a perder público, decaindo gradativamente. Gal Costa faz o contrário, adquire mais prestígio e mais público, mantendo boas vendas, mesmo diante de um disco de amplitude mais arrojada para resistir ao tempo do que explodir nas paradas de sucesso da época. Ainda que fosse contra o momento, o álbum gerou sucessos que viraram tema de novelas e deu passagem para momentos antológicos da MPB, como o encontro de Gal Costa e Grande Otelo cantando “No Tabuleiro da Baiana”. As portas para que a cantora viesse, no ano seguinte, com “Fantasia”, a tornar-se a maior estrela da MPB, foram abertas com “Aquarela do Brasil”, fazendo com que reinasse absoluta na venda de discos pela próxima década.

Toque de Classe na Malandragem Carioca

Os cuidados de produção do disco foram minuciosos, fazendo-o luxuoso. Já se percebe na capa uma maior sofisticação em relação aos dois outros álbuns da trilogia. As cores verde e dourada dão a simbologia alegórica necessária ao título, evidenciadas pela penca dourada nos cabelos da cantora, substituindo as flores do “Gal Tropical”; e pelo vestido, também dourado, feito sob encomenda, por Guilherme Guimarães. As fotografias, belíssimas, foram feitas por Antonio Guerreiro, grande mestre em fazer retratos femininos.
A garantia da continuidade do show é assinalada na produção do álbum, assinada por Guilherme Araújo e Roberto Menescal, os mesmos do álbum anterior, “Gal Tropical”. Doze faixas fazem uma composição antológica que se harmonizam em uma unidade perfeita.
Iniciando o song book, “É Luxo Só” (Ary Barroso – Luiz Peixoto), abre as cortinas do universo de Ary Barroso. O ritmo alegre e singular do canto de Gal Costa dá uma lufada de modernidade à canção, fazendo dela um samba mexido, semelhante às músicas que abriram os álbuns anteriores “Olhos Verdes” (“Água Viva”, 1978) e “Samba Rasgado” (“Gal Tropical”, 1979). A canção foi feita em 1957, integrando a trilha sonora do espetáculo musical “Mr. Samba”, do famoso Carlos Machado, montado no Night and Day, Rio de Janeiro. Até a gravação de Gal Costa, o maior sucesso da canção tinha acontecido na voz de Elizeth Cardoso, em 1958 e numa gravação mais intimista de João Gilberto. E Gal Costa é luxo só já no início do álbum.
Já Era Tempo” (Ary Barroso – Vinícius de Moraes), uma rara parceria do mestre Ary Barroso com o poeta Vinícius de Moraes, reúne a beleza da melodia do primeiro com a poesia inspiradora do segundo, enlaçadas em um épico do amor. A canção é de um lirismo embriagador na voz de Gal Costa, numa das mais belas concepções inspiradoras da emoção da cantora. Cantada de forma apaixonante, chamando para a si a atenção dos ouvintes, tendo sido na época do lançamento, uma das mais tocadas do LP. Com Ary Barroso, Vinícius de Moraes, o poetinha, fugiu algumas vezes dos seus parceiros habituais. A música foi lançada originalmente por Ângela Maria, em 1962. Um clímax já pode ser vislumbrado, e até alcançado, já nesta canção do álbum.

“Triste de quem tem e vive à toa
Triste de quem ama e não perdoa
Ai de quem não cede
E de quem sempre tem razão
Ninguém sabe mais que o coração”

Camisa Amarela” (Ary Barroso), a mais carioca das canções de Ary Barroso, é totalmente transformada na voz de Gal Costa. Sucesso de Aracy de Almeida, em 1939, seria uma resposta ao sucesso de “Camisa Listrada”, de Assis Valente, gravada no ano anterior por Carmen Miranda. Além das características de Assis Valente, há um leve toque do universo boêmio de Noel Rosa.É um divertido samba da época áurea da malandragem carioca da Lapa. Gal Costa foge a este estilo malandro e dá uma interpretação romântica, de uma mulher apaixonada, doce, resignada, submissa, que nenhuma outra cantora conseguiu dar à música. Gal Costa voltaria a regravar a música na revisão dos 30 anos de carreira, no álbum “Acústico MTV” (1997); no álbum lançado nos EUA, “Live At The Blue Note” (2006) e no álbum de Wagner Tiso, “Wagner Tiso 60 Anos – Um Som Imaginário” (2006). É uma das canções que mais acompanhou os shows da cantora nos últimos anos.

Das Ruas da Bahia ao Dueto com Caetano Veloso

Na Baixa do Sapateiro” (Ary Barroso), chamado de samba-jongo, foi gravada pela primeira vez pela Pequena Notável, Carmen Miranda, em 1938. Adquiriu uma consistência ímpar na voz de Dalva de Oliveira. A canção aproxima o compositor e a cantora, estreitados pela magia sedutora da Bahia. A malandragem carioca dá passagem para o fulgor do amor perdido no tempo e na fugacidade mítica baiana. A voz doce e solitária de Gal Costa acentua a melancolia épica nos desamores das ruas de Salvador.

“Ó, Bahia, Iaiá
Bahia que não me sai do pensamento
Faço o meu lamento, oi
Na desesperança, oi
De encontrar nesse mundo
O amor que eu perdi na Bahia”

Folha Morta” (Ary Barroso), um samba-canção gravado por Dalva de Oliveira em 1953, deixa os agudos metálicos da mulata dos olhos verdes, para adquirir a doçura dos agudos líricos de Gal Costa. A canção é de uma melancolia tenaz, que arremessa a mulher ao vento, ao âmago dos seus sentimentos à flor da pele, que sem medo do palco à sua volta, afirma-se infeliz, deixando-se levar. E a voz de sereia de Gal Costa flutua as imagens da dor como se seguisse uma estrada de brisa gelada e cortante, como as dores do amor.
No Tabuleiro da Baiana” (Ary Barroso), gravada por Carmen Miranda e Luís Barbosa, em 1936, ficou por décadas vinculada à imagem da Pequena Notável, sendo um clássico da sua carreira. Na década de 1970, Carmen Miranda era constantemente relembrada pelas reprises dos seus filmes na sessão da tarde e homenagens constantes na televisão. Quando Gal Costa gravou a canção, o Brasil ainda tinha na mente a interpretação mítica de Carmen Miranda, apesar dela ter morrido na década de 1950. Gal Costa impõe-se sobre o mito, fazendo uma gravação alegre e mexida, repleta de insinuação juvenil. “No Tabuleiro da Baiana” é o pretexto para que Caetano Veloso, em um dueto memorável com a cantora, não falte no álbum, já que não entra como autor. Atenta ao momento de júbilo que Gal Costa proporcionava a Ary Barroso, a TV Globo patrocina um encontro antológico entre a cantora e o insuperável Grande Otelo, figura carismática do cinema brasileiro da época de Carmen Miranda; juntos, eles fazem um divertido dueto cantando “No Tabuleiro da Baiana”, no especial “Grandes Nomes – Maria da Graça Costa Pena Burgos”, no início de 1981, que faz com que a canção descole da imagem de Carmen Mirando, transferindo-se para Gal Costa.

Momentos de Solidão Épica e Delicadeza

Jogada Pelo Mundo” (Ary Barroso), outro momento de solidão, com um ápice de melancolia lírica que só Gal Costa consegue diluir na voz. Imagens de paisagens épicas atrelam-se à melodia, mostrando uma caminhada solitária entre as montanhas e as alvoradas; o quase desespero em busca da felicidade e do amor que a vida promete a todos. A canção foi gravada originalmente por Elizeth Cardoso, em 1959. Com Gal Costa chegou não só às rádios, como foi incluída na trilha sonora da novela “O Amor é Nosso!”, da TV Globo, em 1981. Outro momento que se percebe a técnica do canto de Gal Costa aliada a uma emoção sublime, definitiva.
Labiríntica como a voz de Gal Costa, “Inquietação” (Ary Barroso) é quase um precipício em que nos atiramos escravizados na interpretação da cantora neste álbum com desenhos acadêmicos, mas sedutor. Grande sucesso de Silvio Caldas, em 1935. Ilusão e imaginação são os condutores dos vôos dos sonhos e dos precipícios da realidade. Sinônimos e antônimos confundem-se na mensagem e no canto de Gal Costa.
Tu” (Ary Barroso), samba-canção que surgiu em 1934, na voz de Silvio Caldas, mas que teve o seu apogeu na interpretação da grandiosa Dalva de Oliveira. Mais uma vez, Gal Costa toma para si a responsabilidade de mexer no repertório de uma das mais míticas cantoras da MPB. Ela o faz brilhantemente. “Tu” entra para o universo da cantora como se dele sempre tivesse feito parte. Quem não acredita nas promessas loucas da cantora, que se legitima como primeira dama da MPB a cada faixa do álbum, fazendo-o com um imenso sorriso no canto:

“Teu sorriso, uma promessa louca
Teus lábios, duas jóias de coral
No engaste sensual de tua boca”

Faceira” (Ary Barroso), samba que também foi gravado, pela primeira vez, por Silvio Caldas, em 1931, é a composição mais antiga do álbum. É uma canção singela, como o canto de Gal Costa, uma bela surpresa sem pretensões, que adquire uma dimensão brejeira, despojando-a por completo da atmosfera dos morros cariocas. Momento de suave delicadeza dentro do álbum.
Novo Amor” (Ary Barroso), samba lançado por Carmen Miranda em 1937, explodindo no carnaval da época. Aqui a melancolia dos amores perdidos das outras faixas é totalmente diluída pela apoteose do amor renovado, da paixão exaltada nos seus vínculos cíclicos. Um dos momentos de alegria e êxtase do disco, em que transforma a canção em uma bem sucedida marcha do carnaval de Gal Costa.

Aquarela do Brasil, a Música

O álbum é encerrado com a mítica “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), samba exaltação considerado como hino internacional do Brasil, sendo ao lado de “Garota de Ipanema” (Tom Jobim – Vinícius de Moraes), a canção brasileira mais conhecida no mundo. Foi lançada em julho de 1939 no espetáculo “Joujoux & Balangandãs”, de Henrique Pongetti, nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo gravada por Francisco Alves, que devido ao tamanho da letra, ocupou o lado A e B de um disco de 78 rotações. A música desde o início estava fadada para o sucesso, alcançando grande popularidade, que se estenderia por todo o planeta. Depois do ataque japonês a Pearl Habor, em dezembro de 1941, os norte-americanos viram-se obrigados a entrar na Segunda Guerra Mundial. Diante de um novo cenário internacional, o presidente Roosevelt decidiu melhorar as relações do Estados Unidos com a América Latina. Como parte da propaganda da política de boa vizinhança, pediu a Walt Disney que produzisse um filme para estreitar os laços, em especial com o Brasil, país do qual precisa da borracha e da base militar no extremo oriente da América do Sul, para vencer a guerra. O filme “Alô Amigo” estreou em 1942; era um desenho animado que se iniciava com o Pato Donald no lago Titicaca (Peru), atravessando os Andes argentinos e chegando ao Rio de Janeiro para encontrar o papagaio Joe Carioca (Zé Carioca), personagem criado por Walt Disney para agradar aos amigos brasileiros. No filme, Pato Donald e Zé Carioca dançam ao som do choro “Tico-Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu) e de “Aquarela do Brasil”. Desde então, a música foi internacionalmente assimilada ao Brasil, tornando-o colorido, tropical, país das bananas, aos olhos do mundo.
Aquarela do Brasil” além de hino turístico, fez parte de várias trilhas sonoras de filmes estrangeiros. Tornou-se um clássico, onde nove em cada dez cantores da MPB já a gravou ou a cantou.
Na época do lançamento do álbum de Gal Costa, a faixa não chegou a ser a mais tocada, pois era uma canção sem vínculos definitivos, estando no repertório de várias estrelas da música, como Elis Regina. O samba exaltação que se tornaria hino nacional na voz da cantora seria “Canta Brasil” (David Nasser – Alcir Pires Vermelho), lançada no ano seguinte, no álbum “Fantasia”.
A canção foi revigorada na interpretação de Gal Costa, atingindo um brilho luxuoso encaixada nos agudos atemporais da cantora, aqui suavemente domesticados, mas aflorados no final épico dos instrumentos musicais e dos arranjos. Com o passar do tempo, a versão tornou-se mais definitiva, atrelada a Gal Costa. Inserida definitivamente no repertório, a canção fechou, por décadas, os shows nacionais e internacionais de Gal Costa, sendo regravada em discos posteriores. De forma apoteótica com um travo de samba, encerrava-se uma das mais eloqüentes homenagens ao mestre Ary Barroso, e de acadêmico, o álbum tornou-se um clássico da MPB. Feito também a pensar no público de outros países, o álbum consolidou a carreira de Gal Costa no exterior, em especial no Japão e em Israel.

“Ah, ouve essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, pra mim, pra mim, Brasil”

Lançado numa época em que se fazer um álbum autoral ia à contramão da MPB, “Aquarela do Brasil” apresentou Ary Barroso às novas gerações. Em 1980 o compositor, morto em 1964, estava praticamente esquecido, silenciado na memória ingrata do público brasileiro. Ary Barroso ressurgiu na voz mais bela do Brasil, saindo com a sua mãe preta do congado, imortalizado no hino cristalino do canto de Gal Costa.

Release do Álbum – Por Guilherme Araújo

Ary Barroso dominou a música popular brasileira durante as décadas de 30, 40 e 50 e no início da de 60. Sua personalidade avassaladora está presente na “chamada” fase de ouro (1928-1945) de nossa música popular. Em 1929 editou as suas primeiras composições e até 1964, ano de sua morte, é uma presença marcante na vida brasileira. O sucesso no exterior de Aquarela do Brasil, em 1944, levaria Ary a fazer diversas viagens aos Estados Unidos, sendo uma delas para receber o diploma da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood. Seu prestígio no Brasil não decorria apenas do grande compositor e poeta que era. Foi pianista, radialista dos mais populares, regente, locutor esportivo.
Mas é Ary Barroso compositor, um dos maiores do Brasil, que recebe a homenagem de Gal Costa numa seleção representativa do que deixou e fez da nossa música popular uma das coisas mais bonitas desse país. Sozinho e com outros parceiros o LP Aquarela do Brasil, de Gal Costa, é um registro da força e da atualidade de Ary Barroso. E foi com grande felicidade que acompanhei o carinho e a dedicação de Gal Costa desde os primeiros contactos com as velhas gravações que ouvíamos até a seleção final do repertório. Ela aqui está inteira, dando a sua alma e o seu talento para que as gerações mais recentes recebam como lançamento essas 12 composições de Ary Barroso.

Guilherme Araújo

Ficha Técnica:

Aquarela do Brasil
Philips
1980

Direção de Produção e Criação: Guilherme Araújo e Roberto Menescal
Técnicos de Gravação: Jairo Gualberto e Ary Carvalhaes
Técnicos de Mixagem: Jairo Gualberto e Luigi Hoffer
Auxiliar de Gravação: Julinho
Lay-Out: Arts-Azambuja & Agostinho
Fotos: Antonio Guerreiro
Produção Gráfica: Edson Araújo
Pesquisa de Repertório: Paulo Tapajós
Arranjos e Regências: Perna Fróes e Roberto Menescal

Músicos Participantes:

Baixo Elétrico: Moacyr Albuquerque
Bateria: Mamão
Guitarra: Victor Biglione
Ritmo: Geraldo Gomes, Jorginho do Pandeiro, Armando, Luna, Luiz Roberto e Ney Martins
Saxofone Tenor: Juarez Araújo
Teclados: Perna Fróes
Trombone: Edmundo Maciel e Serginho Trombone
Trompete: Darcy Cruz e Nilton Rodrigues
Flauta: Copinha e Jorginho da Flauta
Oberheim: José Roberto Bertrami e Perna Fróes
Percussão: Sérgio BoréViolão: Roberto Menescal
Piano: Antônio Perna Fróes
Clarinete: Netinho
Cordas: Orquestra Polygram

Faixas:

1 É Luxo Só (Ary Barroso – Luiz Peixoto), 2 Já Era Tempo (Ary Barroso – Vinícius de Moraes), 3 Camisa Amarela (Ary Barroso), 4 Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), 5 Folha Morta (Ary Barroso), 6 No Tabuleiro da Baiana (Ary Barroso) Participação: Caetano Veloso, 7 Jogada Pelo Vento (Ary Barroso), 8 Inquietação (Ary Barroso), 9 Tu (Ary Barroso), 10 Faceira (Ary Barroso), 11 Novo Amor (Ary Barroso), 12 Aquarela do Brasil (Ary Barroso)


GLÓRIA MAGADAN – A RAINHA DAS TELENOVELAS

Julho 29, 2009

Para que a história da telenovela no Brasil seja contada e compreendida, é essencial que se escreva nela o nome de Glória Magadan. A escritora, nascida em Cuba, foi a mais importante novelista da década de sessenta, essencial no início do gênero, tornando-se a mulher mais poderosa da televisão da época.
Se Janete Clair foi a consolidação do gênero, Glória Magadan foi o seu alicerce. Suas histórias folhetinescas eram desprovidas de qualquer bom senso ou apego à realidade. Era a ilusão, a fantasia e o sonho na forma bruta, às vezes grotesca. Distanciados da realidade brasileira, os folhetins da autora traziam histórias mirabolantes e exóticas, que podiam ter como cenário o deserto do Saara, o Japão medieval, a corte francesa do século XVIII. Amarradas de forma consistente, mas longe de uma lógica narrativa, as suas aventuras fascinaram o então incipiente público das telenovelas, fazendo da TV Globo uma máquina de produção do gênero, assegurando a audiência que necessitava na época que se lançou como a mais nova emissora de televisão do Brasil.
De 1965 a 1969, Gloria Magadan tornou-se a principal novelista da TV Globo, acumulando o cargo de diretora do núcleo de teledramaturgia da emissora, o que lhe conferiu um poder quase que sem limites. Poderosa, ela era temida por atores, autores e diretores. Uma palavra de desabono da cubana, e determinadas carreiras de ator ou atriz, poderiam cair em desgraça, sendo riscada dos bastidores da televisão. Caíram no seu desagrado nomes de poderosos como o diretor Daniel Filho, o ator Tarcísio Meira, e até a novelista Janete Clair, que em princípio de carreira, atraiu para si a inveja de Glória Magadan, insatisfeita que ela fizesse novelas com maior sucesso do que as suas.
O estilo dramalhão e inconsistente de Glória Magadan foi, aos poucos, tornando-se obsoleto, até que se extinguiu de vez, quando as novelas passaram a ser o principal gênero da televisão brasileira e o público passou a ser mais seletivo, exigindo lógica e uma aproximação efetiva das personagens dos folhetins com a realidade brasileira. Assim, Glória Magadan foi engolida por suas tramas exóticas, sendo demitida da TV Globo, em 1969. Terminava o reinado daquela que se tornara a mulher mais temida e muitas vezes, a mais odiada pelos atores. Terminava a era de Glória Magadan na TV Globo, aonde chegou a ser chamada de “Rainha das Telenovelas”. Esquecida nos tempos atuais, o seu nome é imprescindível na história da novela brasileira, da poderosa TV Globo e da própria teledramaturgia do país.

Glória Magadan Chega à Televisão Brasileira

Maria Magdalena Iturrioz y Placencia nasceu em Cuba, numa data que foge aos arquivos biográficos disponíveis. Adotando o pseudônimo de Glória Magadan, escreveria para sempre o seu nome na história da teledramaturgia latina americana, tornando-se uma das mais famosas novelistas do Brasil.
A autora deixou Cuba após a vitória de Fidel Castro e à instalação dos ideais revolucionários naquele país, refugiando-se em Porto Rico. Seria neste pequeno país da América Central que Glória Magadan passaria a trabalhar na Telemundo, estação de televisão local. Ali, seria contratada pela agência publicitária da Colgate-Palmolive, principal patrocinadora das telenovelas na América Latina. Ainda em Porto Rico, escreveu a novela “Yo Compro Esa Mujer”, em 1960. A agência enviou-a para desenvolver telenovelas que patrocinaria na Venezuela, país em que faria uma nova adaptação de “Yo Compro Esa Mujer”, para a RCTV. Em 1964 seria transferida para o Brasil, chegando a São Paulo como supervisora da seção internacional de novelas da Colgate-Palmolive.
No Brasil, passou a supervisionar a adaptação de textos de telenovelas de autores latino-americanos para a extinta TV Tupi. Supervisionou várias adaptações feitas por Walter George Durst, como “O Sorriso de Helena”, “Gutierritos, o Drama dos Humildes”, “Teresa”, “O Cara Suja”, “A Outra” e “A Cor da Pele”; e a adaptação de Daniel Más que resultou na telenovela “Um Rosto de Mulher”.
Glória Magadan chegaria a TV Globo no final de 1965. Contratada pela recém inaugurada emissora do jornalista Roberto Marinho, marcaria a sua estréia como autora de telenovelas brasileiras com o folhetim “Paixão de Outono”, protagonizado por Yara Lins, Walter Forster, Leila Diniz e Reginaldo Faria. A novela iria inaugurar o horário das 21h30 da TV Globo, dando início a uma bem sucedida carreira de novelista, que faria de Glória Magadan a mulher mais poderosa da televisão brasileira dos anos sessenta.

Surge o Primeiro Serial Killer Misterioso das Telenovelas

O primeiro sucesso veio em 1966, com “Eu Compro Essa Mulher”, história que Glória Magadan dizia, tinha inspiração no romance “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. A novela marcou o início da gestão de Walter Clark na TV Globo, um dos responsáveis pela ascensão da emissora, que se iria transformar na maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Dramalhão totalmente desprovido da realidade brasileira, trazia como protagonistas Yoná Magalhães e Carlos Alberto, que ao lado de Tarcísio Meira e Glória Menezes, seriam transformados nos maiores atores da televisão brasileira daquela década. No meio da história, Carlos Alberto e Yoná Magalhães casaram-se na realidade. Destacou-se na trama, a irreverente Leila Diniz, no papel da antagonista Úrsula. “Eu Compro Essa Mulher” definia bem o estilo da autora, trazendo na trama heróis perfeitos e lineares, heroínas sofridas e bondosas, sem quaisquer traços humanos, e vilões sem quaisquer vestígios de alma. O maniqueísmo da trama era explorado minuciosamente, sem qualquer compromisso com a realidade. A novela foi sucesso absoluto no Rio de Janeiro, alcançando relativa audiência em São Paulo.
Em 1966, Glória Magadan criou um dos seus maiores sucessos, “O Sheik de Agadir”, baseada no romance “Taras Bulba”, de Nicolai Gogol. Desta vez os delírios da autora centraram a história em Agadir, no Marrocos, transformando as dunas de Cabo Frio, litoral fluminense, no deserto do Saara. Nazistas, árabes e franceses são os protagonistas de uma história exótica, que mostra de forma fantasiosa a invasão da França pelos exércitos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Henrique Martins protagoniza a trama, no papel do Sheik de olhos azuis, Omar Ben Nazir, que se iria apaixonar pela princesa francesa Jeanette Legrand, personagem vivida por Yoná Magalhães. Grandes aplausos viriam para a Madelon de Leila Diniz, popularizando a atriz para o grande público brasileiro, e Amilton Fernandes, como o grande vilão Maurice Dumont.
Mas o grande destaque da trama foi a estréia nas novelas do “serial killer”, gênero que se tornaria parte de grandes folhetins televisivos futuros. Durante toda a trama aparecia o misterioso “Rato”, que eliminava cruelmente várias personagens, enforcando-os na maioria das vezes. Nas misteriosas aparições do “Rato”, era mostrado em cena apenas um par de luvas negras. O enigma despertou a curiosidade do público, o que levou a TV Globo a promover um concurso para que se tentasse descobrir a identidade do assassino. A pergunta ecoava na emissora, “Quem matou?”, mas nenhum telespectador conseguiu descobrir quem era o assassino. Impossível, tamanha a incoerência da autora, que revelou a identidade do “Rato” como sendo uma mulher, Éden de Bassora, personagem da atriz Marieta Severo. Até hoje não se explica como a atriz, então com 19 anos, de corpo franzino e frágil, conseguiu estrangular robustos nazistas. Isto era o universo de Glória Magadan, completamente sem coerência ou compromisso com o bom senso, mas que levava o público ao delírio, numa época em que a televisão brasileira ainda não descobrira uma linguagem a seguir.
Um dos personagens morto pelo “Rato” foi Jean, vivido por Sebastião Vasconcelos. O ator trazia barba e bigode que fizeram a autora se lembrar do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, despertando-lhe a animosidade, por isto ela eliminou-o da trama. Sobre as mortes que passariam a fazer parte das tramas, Gloria Magadan, já poderosa novelista e diretora de dramaturgia da TV Globo, declararia:
Primeiro crio os personagens. Depois é que nasce a história. Quando começo a escrever, fico obcecada, penso na trama o tempo todo. Pesquiso pessoalmente como os consumidores sentem os personagens e as situações. Quando constato que o público não aceita bem um personagem, reduzo seu papel, ou mato-o, sem o menor remorso. Nunca me arrependi de matar. Quem cai em desgraça junto ao público está liquidado.

O Grande Apogeu da Autora

As novelas de Gloria Magadan alcançariam o auge em 1967. Naquele ano, ela chegou a escrever duas novelas simultaneamente, “A Rainha Louca”, para o horário das 21h30, e “A Sombra de Rebeca”, inaugurando um novo horário de telenovelas na TV Globo, o das 20 horas.
A Sombra de Rebeca” reuniu em um único folhetim, as versões de “Madame Butterfly” de Puccini, e “Rebecca”, romance de Daphné de Murior. Yoná Magalhães era a protagonista, vivendo a japonesa Suzuki, com olhos orientais conseguidos através de uma densa maquiagem. Seu par romântico era, mais uma vez, o marido e ator Carlos Alberto. No final da trama, uma desilusão amorosa levava Suzuki a cometer um haraquiri. Glória Magadan só não explicou como a sua protagonista cometia um ato restrito apenas aos homens japoneses, afinal sua obra não carecia de tais explicações.
A Rainha Louca” levou os requintes de grande produção, característica que se tornaria uma marca nas novelas da TV Globo. As cenas que se passavam no México, tiveram as gravações feitas naquele país, um luxo para a época. Inicialmente foi pensada como uma adaptação da vida do rei Luís XVI da França e da sua mulher, Maria Antonieta, no século XVIII. Mas a direção da Globo sugeriu que fosse ambientada no século XIX, no México. Assim, Luís XVI foi transformado no imperador Maximiliano e Maria Antonieta em Charlotte, tendo como protagonistas Rubens de Falco e Nathália Timberg, vivendo as personagens, respectivamente. A trama marcou a estréia de Daniel Filho na direção das novelas da emissora carioca. Durante o decurso da trama, o ator Paulo Gracindo foi um dos perseguidos pela autora. Vivendo o conde Demétrios, que tinha poderes sobrenaturais, uma espécie de Drácula, o ator alcançou sucesso diante do público. Glória Magadan exigiu que ele fizesse caretas e contorções faciais, o que o ator recusou, assim, a personagem, que tinha uma grande participação no início da trama, foi desaparecendo ao longo do seu decorrer.
Foi ainda em 1967, que Janete Clair foi chamada por Glória Magadan para dar solução ao desastre que estava a ser a novela “Anastácia, a Mulher Sem Destino”, escrita por Emiliano Queiroz. O autor criara tantos personagens, que se perdera no meio da história. Janete Clair chegou na TV Globo, provocando um grande terremoto na trama, matando quase todo o elenco, deixando apenas vivos quatro personagens, dando um salto de vinte anos. Começando do zero, Janete Clair deu coerência à trama, e jamais deixou a TV Globo, transformando-se na sua maior novelista, inovando a linguagem e levando a obra de Glória Magadan à decadência.

A Decadência da Era Magadan na TV Globo

A partir da novela “O Homem Proibido”, que em São Paulo teve o título de “Demian, o Justiceiro”, as tramas exóticas de Glória Magadan entraram em decadência. Carlos Alberto vivia um justiceiro moldado no perfil do famoso Zorro, que vivia na Índia. Yoná Magalhães era a heroína da trama, que contava ainda, com um elenco luxuoso: Paulo Gracindo, Rubens de Falco, Mário Lago, Celso Marques, Marieta Severo, Cláudio Cavalcanti, Karin Rodrigues, Diana Morell, Emiliano Queiroz, José Augusto Branco e muitos outros.
O Santo Mestiço”, de 1968, trouxe Sérgio Cardoso, grande astro da época, à emissora de Roberto Marinho. O ator fazia três papéis, e teve na novela, a primeira experiência desastrosa da sua carreira. Irritado, Sérgio Cardoso foi o primeiro a adotar uma postura concreta contra os textos de má qualidade escritos por Glória Magadan, que culminou em um movimento que iria tirar a autora da poderosa posição de diretora do núcleo de dramaturgia da TV Globo.
Com o passar dos anos, a televisão brasileira foi assumindo uma identidade própria, que tomou a telenovela como principal veículo que expressava esta linguagem. Era preciso que o folhetim adquirisse mais consistência e maior aproximação com o público, com a realidade do país. A primeira a perceber isto foi a TV Tupi, que lançou, em 1968, duas novelas com a linguagem coloquial das ruas brasileiras, “Antonio Maria”, de Geraldo Vietri e Walter Negrão, e “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso. A linha da TV Excelsior passou a investir nos épicos da literatura brasileira, trazendo para a televisão clássicos nacionais, como “A Muralha”, de Dináh Silveira Queiroz, e “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, distanciando-se das histórias dos castelos medievais ou dos desertos da Arábia das novelas da TV Globo.
Glória Magadan não se apercebeu de tais mudanças, insistindo nas histórias extravagantes, distantes da realidade de um Brasil em ebulição, cuja televisão era tomada por festivais da canção que renovavam a linguagem da música e das artes. Em 1968, deflagrada a Tropicália e os festivais históricos da MPB, a autora cubana insistia nas suas alucinações folhetinescas, escrevendo “A Gata de Vison”, novela ambientada no Estados Unidos da época da Lei Seca, com direito a gangster e às suas metralhadoras. A emissora ainda tentou uma inovação, trocou os dois tradicionais casais protagonistas da televisão, desta vez Yoná Magalhães fez dupla romântica com Tarcísio Meira, enquanto que Carlos Alberto fazia dupla com Glória Menezes na novela “Passo dos Ventos”, de Janete Clair. Não houve grande química entre os protagonistas, nem entre o público e a trama. No decurso da novela, a autora apaixonou-se pelo ator Geraldo Del Rey, trinta anos mais jovem do que ela, com quem teria iniciado um romance. Glória Magadan transformou a personagem de Del Rey em protagonista da trama, o que levou Tarcísio Meira a reclamar do destino que estava sendo dado ao seu personagem. Glória Magadan eliminou a personagem de Tarcísio Meira da trama, matou a protagonista vivida por Yoná Magalhães, criando-lhe uma irmã gêmea para ser a heroína e par romântico de Geraldo Del Rey. A novela foi um fracasso. Glória Magadan acusou Daniel Filho de dar maior atenção às novelas de Janete Clair, culpando-o do fracasso da sua trama, levando o diretor a demitir-se da TV Globo. Enciumada com o sucesso ascendente de Janete Clair, a cubana chegou a proibir a autora de ter contacto direto com o elenco.
Em 1969, Glória Magadan escreveu a sua última novela para a TV Globo, “A Última Valsa”, inspirada no filme “Moulin Rouge”, de John Houston. Foi a última viagem da autora ao mundo dos duques e imperadores europeus. Cláudio Marzo e Theresa Amayo foram os protagonistas da trama. O público diria, definitivamente, não ao estilo de Glória Magadan, transformando a novela em um fracasso. Glória Magadan, a mulher mais poderosa da televisão, a Rainha das Telenovelas, foi demitida da TV Globo, em 1969, obrigando a emissora a reestruturar a sua teledramaturgia, mudando a sua linguagem. A mudança veio com “Véu de Noiva” (1969), de Janete Clair, que trocou os cenários europeus e os desertos árabes pelas praias cariocas, pelo cotidiano brasileiro, encerrando de vez o universo de fantasia de Glória Magadan na TV Globo.
Após a demissão da emissora carioca, Glória Magadan foi contratada pela TV Tupi. Em 1970 escreveu para a emissora paulista “E Nós Aonde Vamos?”, trazendo no elenco Leila Diniz (última aparição da atriz em novela, pois morreria em um acidente aéreo em 1972), Geraldo Del Rey, Márcia de Windsor, Theresa Amayo, Jorge Dória, Ítalo Rossi, Eva Todor, Adriano Reys, Marieta Severo, Yara Amaral, Roberto Pirillo e Gracindo Júnior, entre muitos. Ela ainda tentou adaptar o universo da sua teledramaturgia à exigência dos novos tempos, escrevendo uma história longe dos conflitos dos nobres europeus, dos ciganos e dos sheiks árabes, modernizando a ação, tentando contar os problemas da juventude. Mas o estilo da autora era, definitivamente, o da fantasia sem coerência. A novela foi um fracasso. Glória Magadan, outrora poderosa e temida, viu a sua carreira de novelista encerrada no Brasil.
Diante do fracasso final de “E Nós Aonde Vamos?”, a autora deixou o país, indo morar em Miami, local de refúgio dos cubanos resistentes ao governo implantado por Fidel Castro. Nos Estados Unidos, escreveu folhetins românticos para livros e revistas. Em 1996, Glória Magadan submeteu uma sinopse à extinta TV Manchete, que trazia o título de “Homens Sem Mulher”. Sobre o projeto, a autora declararia:
Há alguns anos submeti à Manchete uma idéia que ainda estou bastante segura de que alcançaria os recordes de Ibope. O título é “Homens Sem Mulher”. É sobre a inversão sexual.
Não se sabe se as crises constantes que levaram a TV Manchete à falência foram as causas do projeto não ter vingado. Glória Magadan faleceu em Miami, em 27 de junho de 2001, completamente esquecida, longe do título que a fez a “Rainha das Telenovelas”.

OBRAS

1960 – Yo Compro Esa Mujer – Telemundo (Porto Rico)
1960 – Yo Compro Esa Mujer – RCTV (Venezuela)
1965 – Paixão de Outono – TV Globo
1966 – Eu Compro Essa Mulher – TV Globo
1966 – O Sheik de Agadir – TV Globo
1967 – A Sombra de Rebeca – TV Globo
1967 – A Rainha Louca – TV Globo
1968 – Yo Compro Esa Mujer – TV Argentina
1968 – O Homem Proibido (Demian, o Justiceiro) – TV Globo
1968 – O Santo Mestiço – TV Globo
1968 – A Gata de Vison – TV Globo
1969 – A Última Valsa – TV Globo
1970 – E Nós Aonde Vamos? – TV Tupi

Supervisão:

1964 – O Sorriso de Helena – TV Tupi
1964 – Gutierritos, o Drama dos Humildes – TV Tupi
1964 – Pecado de Mulher – TV Tupi
1965 – Teresa – TV Tupi
1965 – O Cara Suja – TV Tupi
1965 – A Outra – TV Tupi
1965 – A Cor da Sua Pele – TV Tupi
1965 – Um Rosto de Mulher – TV Globo


PROFANA – O LEITE BOM DE GAL COSTA

Junho 29, 2009
O ano de 1984 foi um dos mais convulsivos da história do Brasil. O povo brasileiro deixou, em casa, o medo da repressão do regime, vestiu camisas amarelas e saiu às ruas batendo em panelas, pedindo o fim da ditadura e o direito de escolher o seu presidente através do voto direto. Era a efervescência do movimento político que entrou para a história como “Diretas Já”, que pedia que uma emenda constitucional fosse votada no Congresso, trazendo de volta as eleições livres naquele ano. A emenda foi derrotada em abril, mas o Brasil não mais se calou até a queda da ditadura.
Aquele ano foi marcado na MPB pela explosão das jovens bandas de rock, lançando para a fama o Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Metrô, Barão Vermelho e tantas outras. Estava declarada a moda new wave, trazendo cores berrantes de todos os tons, jogadas com intensidade nas roupas, dando uma atmosfera de eterno verão.
Foi neste clima que Gal Costa, que assumira o posto de super estrela e primeira dama da MPB, lançou o mítico “Profana”, álbum que mais traduz os caminhos que a Música Popular Brasileira iria seguir a partir de então. A cantora iniciara o ano com um dos mais aplaudidos shows da sua carreira, “Baby Gal”, que fez a sua estréia em janeiro. O show teve direito a um cultuado programa de fim de ano na TV Globo. Tudo que Gal Costa tocava nesta época, reluzia com o brilho do sucesso. Com “Profana” não foi diferente. Álbum jovial, com um traço tropicalista que lembrava o primeiro a solo, “Gal Costa”, de 1969. Construído sobre as bases da carreira da cantora, que voltava às origens de roqueira, passava por baladas suavemente românticas, indo do forró às marchinhas carnavalescas, tudo alinhavado pela consistência e beleza da voz, cada vez mais técnica, sem perder a emoção interpretativa.
Apesar de ser o álbum que mais evidencia a década de oitenta e o mito Gal Costa como grande estrela, “Profana” não traz traço algum que o torne datado. Sucessos definitivos e marcantes, como “Vaca Profana” e “Nada Mais (Lately)” dão a dimensão perene da beleza inquietante do canto de Gal Costa, atingido, um quarto de século depois, pessoas de todas as idades.
Profana” foi o álbum da MPB que agregou os caminhos joviais que começavam a pulsar, enquadrando o momento histórico que germinava através de novas revelações, como Roberto Frejat, sem perder a essência, as raízes da verdadeira música, renovando-a, dando uma lufada no etéreo.

Gotas de Leite de Talento Sobre Nossos Ouvidos

Lançado no fim do ano de 1984, “Profana” abriria o verão de 1985, com Gal Costa cortando os cabelos, vestindo uma imagem sensual e provocativa, magnificamente registrada pelo programa “Gal Costa Especial”, produção da extinta TV Manchete, com direção de Maurício Capovilla. A cantora exalava sensualidade por todos os poros, ousando como nunca, posando nua para as lentes de Marisa Alvarez Lima, em um ensaio histórico publicado pela revista “Status”, grande ícone na imprensa da época.
O álbum começava a sua provocação histórica pela capa, que trazia a cantora maquiada em um rosto histriônico, diante do espelho, a pintar de batom a imensa boca vermelha, maliciosamente profana. Produzido por Mariozinho Rocha, com quem a cantora dividiu a direção artística, trazia uma concepção gráfica arrojada, com belos encartes e doze canções de ritmos ecléticos, distribuídas por dez faixas.
Vaca Profana” (Caetano Veloso), de onde foi retirado o título, abria o álbum. Canção feita exclusivamente para a cantora, é uma verdadeira ode à Espanha, em especial à Catalunha, com retratos discursivos diretos, formando imagens através da poesia, mescladas nas cores vivas de então. É um roque intenso, com uma poesia visceral, difícil nos refrões que não são iguais na letra e que se repetem a todo instante. A canção registra com primor os movimentos de então, a ascensão da moda new wave (nova onda), as revistas musicais da capital espanhola, “Madrid te Mata”, aqui adaptada para o jogo de palavras “Também te mata Barcelona”. Várias expressões em catalão são usadas, como “Si us plau” – por favor, ou “Orchata de chufa”, uma bebida feita com nozes e bastante apreciada na Catalunha. A canção passa pelas ramblas de Barcelona, desfila pelos movimentos punks de Londres, como num retrato contemporâneo de Picasso, atravessa a bolha de Tel Aviv, desaguando nos caretas de Nova York. Caetano Veloso provoca o tempo todo, a começar pelo título da canção, “Vaca Profana”, que se antagoniza com a “vaca sagrada” de tantos seguidores, caretas ou não. Joga com expressões como caretas e “puretas”, termo que na Espanha da juventude new wave, era usado para definir os que não fumavam haxixe. “Vaca Profana” foi a única canção grandiosa dos anos oitenta feita por Caetano Veloso para Gal Costa interpretar, e também uma das últimas, depois dela, somente em 1993, com “Errática”, a voz de Gal Costa voltou a interpretar uma canção genial do autor. Canção de letra imensa e de palavras difíceis, quase que exóticas aos ouvidos, teve uma interpretação sublime de Gal Costa, com a explosão dos agudos nos florões dos refrões. Momentos únicos na voz desta mulher sagrada, a diluir com requinte a poesia de Caetano Veloso, a jorrar o leite sobre a sensibilidade de todos os ouvintes.

Mas eu também sei ser careta
De perto ninguém é normal
Às vezes segue em linha reta
A vida que é meu bem/meu mal
No mais, as “ramblas” do planeta
Orchata de chufa, si us plau

Após iniciar explosiva e roqueira, a cantora volta às aves do Brasil, com “Ave Nossa” (Moraes Moreira – Beu Machado), que não lhe deixa esquecer o canto das terras brasileiras. Ela já visitara os gritos da acauã, a tristeza trágica e melancólica do assum preto, agora percorria com alegria o universo do sabiá, símbolo da saudade dos brasileiros espalhados pelo mundo, exilados das belezas nativas. A canção brinca com o famoso poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, mostrando que todos os desencantos da nação são reduzidos quando canta o sabiá. Moraes Moreira foi uma presença constante na obra de Gal Costa nos anos oitenta, que fez dos seus frevos grandes sucessos populares, como “Festa do Interior“.

Emoções Dilacerantes na Voz da Cantora

Na terceira faixa, “Nada Mais (Lately)” (Stevie Wonder – versão Ronaldo Bastos), Gal Costa mergulha num dos mais belos momentos do seu canto. Começa intimista, suave, submissa, triste e indefesa, terminando dilacerante, no agudo final e apoteótico quando canta a palavra “jamais”, emocionando o ouvinte, deixando-nos sem fôlego. Ronaldo Bastos havia preparado duas belíssimas versões de canções de Stevie Wonder, “Lately” e “Black Orchid” (Orquídea Negra), sendo esta última preterida à primeira. “Nada Mais” tornou-se um dos grandes sucessos da carreira da cantora. Gal Costa tira qualquer resquício de versão da canção, transformando-a em algo inédito e sublime. A interpretação é romântica sem ser melodramática, é suave sem perder a intensidade, é um dos momentos mais belos do disco e da sensibilidade da cantora.

Vão dizer que são tolices
Que podemos ser felizes
Mas tudo que eu sei não dá pra disfarçar
Dessa vez doeu demais
Amanhã será jamais

Gal Costa, adoravelmente tropicalista, deixa o romantismo da terceira faixa, rasgando o frevo “Atrás da Luminosidade” (Teca Calazans – Luiz Carlos Sá). Leve e solta, debruça-se na alegria contagiante que tem em cantar, convidando os ouvintes para que saiam literalmente do chão, e percorram os sentidos do frevo da cidade, porque a vida traduz-se na força da dança e da juventude com os seus cordões foliões de felicidade instantânea.
O disco, concebido no molde do long-play (LP), encerrava o lado A com a existencialista “De Volta ao Começo” (Gonzaga Jr.). O intimismo delicado de Gal Costa suaviza a esperança melancólica da canção. A poesia de Gonzaguinha muitas vezes atingia ao âmago da existência do sofrimento, saindo dele como quem emerge para a vitória dos medos. Gal Costa traduz com uma serenidade lírica esta travessia. Ela própria voltava, neste álbum, ao começo de si própria, mais tropicalista, como há anos não ousava sê-lo.

Dueto com o Rei do Baião

Profana” iniciava-se no lado B com uma velha marchinha de carnaval, “Onde Está o Dinheiro” (José Maria de Abreu – Francisco Mattoso – Paulo Barbosa), já preparando um sucesso inevitável para o carnaval de 1985. Desde 1979, quando gravara “Balancê” (Alberto Ribeiro – João de Barro), Gal Costa trouxera brilhantemente de volta à MPB as velhas e tradicionais marchinhas carnavalescas, ritmo que a Bossa Nova, a Jovem Guarda e a Tropicália encerrara, tornando-o algo velho e fora de moda. Gal Costa provou que velhas tradições musicais podem ser renovadas sempre, atingido novas gerações. Maliciosa, “Onde Está o Dinheiro” toca em um velho problema nacional, a corrupção política e civil, infelizmente continua atualíssima.
Chuva de Prata” (Ed Wilson – Ronaldo Bastos) é uma balada romântica, que na voz doce de Gal Costa transforma-se em uma delícia adolescente, sem compromissos com o intelecto, mas definitiva na sua mensagem proposta. É sem dúvida, a canção mais fácil do disco, pronta para ser um sucesso instantâneo, o que se faz necessário em um repertório com canções tão complexas como “Vaca Profana”. A faixa conta com a participação do grupo Roupa Nova, que a cantora convidara para a versão de “Baby” (Caetano Veloso) do seu disco anterior, “Baby Gal” (1983). Com o tempo, “Chuva de Prata” sofreu a rejeição dos puritanos e “caretas” mais jovens, mas quando lançada, foi cantada pelos populares e pelos intelectuais, na perfeita sintonia que desenhava a atmosfera da época.
A terceira faixa do lado B renova o disco, mais uma vez, trazendo nada menos do que três canções, “Cabeça Feita” (Jackson do Pandeiro – Sebastião Batista da Silva), “Tililingo” (Almira Castilho) e Tem Pouca Diferença” (Durval Vieira). “Profana” mergulha neste momento, no seu ponto mais alto, trazendo o forró da baiana para alegria dos mais ecléticos. A trilogia veio do show “Baby Gal”, onde ela conseguia uma grande reação do público ao cantá-la. Ritmo tradicional, alegre e carismático, o forró começou os anos oitenta sendo atingido pelo preconceito dos mais novos, mas cantoras como Elba Ramalho, Amelinha e Diana Pequeno impuseram a tradição. Gal Costa não se esquece dele no momento em que o rock leve das bandas emergentes queria apagá-lo. Interpreta com brilho as canções, encerrando a trilogia com a presença histórica de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, num dueto inesquecível. Gonzagão rendeu-se à beleza da voz e à sedução latente da baiana, convidando-a logo a seguir, para um novo dueto, na faixa “Forró nº 1” do seu disco de 1985, “Gonzagão, Sanfoneiro Macho”.

Uma Volta ao Começo

Topázio” (Djavan), é uma daquelas canções enigmáticas do universo de Djavan, que só Gal Costa sabe dar vida, traduzindo a sua beleza numa voz de sereia solitária, perdida entre sombras reluzidas pelo exotismo dos topázios e dos lugares de fuga pelo mundo, não importando se aqui ou em Berlim. A canção dilui a sua essência sem sentido na voz contagiante de uma Gal Costa misteriosa, que encanta ao dilatar na garganta cada melodia.
E “Profana” encerra-se como começou, com um grande rock, “O Revólver dos Meus Sonhos” (Roberto Frejat – Waly Salomão – Gilberto Gil). Outra canção difícil, mas que une toda a proposta do disco, sendo uma das faixas mais significativa e emblemática. A própria parceria dos autores é de um simbolismo ímpar, reunindo Frejat, na época com apenas 22 anos e a despontar na carreira com a banda Barão Vermelho; Waly Salomão, velho companheiro da época do apogeu do desbunde; e, Gilberto Gil, um dos mentores da Tropicália. Gal Costa une aqui a estrela da MPB, a musa do desbunde e da Tropicália, fazendo uma retrospectiva contundente da sua carreira em uma só canção. Roqueira, underground e artista Pop, ela encerra com a força da voz, já transformada em mito. A canção tem uma letra que contrasta o passado – “Arembepe, Woodstock, Píer, verão da Bahia”, com o presente vivido “Interfone – Blitz, Joaninha, computador”. Era a Gal Costa tropicalista que reacendia no álbum, sem esquecer o desbunde, a “buzina do vapor barato”. Há muito tempo que ela não voltava a ter uma canção assinada por Waly Salomão em seus discos. Gilberto Gil era a própria raiz do início do mito Gal Costa. A canção era uma das preferidas da cantora neste álbum. Não foi feita para ser tocada nas rádios, mas para encerrar a volta ao começo de Gal Costa, aqui novamente roqueira, tropicalista e infinita na sua pluralidade cada vez mais dilacerante, a desenhar a voz sagrada de uma mulher profana.

O revólver do meu sonho
Atirava, atirava no que via
Mas não matava o desejo
Do que ainda não existia
Interfone, Blitz, Joaninha, computador
O futuro comum de hoje em dia
Que eu cigana já pressentia

Profana” é um álbum que desenha uma atmosfera jovial perene. Um adulto eternamente adolescente no lapso do tempo, atravessando as gerações, mantendo-se intacto, mesmo quando confrontado com o mundo musical do século XXI. Poucas vezes um álbum trouxe letras tão longas e diretas, acentuando e explicando alguns porquês do mito Gal Costa, posta sempre para fora e acima da manada das grandes cantoras.

Ficha Técnica:

Profana
BMG
1984

Produção: Mariozinho Rocha
Direção Artística: Gal Costa e Mariozinho Rocha
Coordenação Artística: Gal Costa e Miguel Plopschi
Direção de Produção: Guti
Técnicos de Gravação: Luís Paulo e Edu
Técnico de Mixagem: Luís Paulo
Auxiliares de Gravação: Julinho e Jackson
Corte: José Oswaldo Martins
Montagem: Dalton Rieffel
Arregimentação: Gilberto D’Ávila
Capa: Noguchi
Fotos: Milton Montenegro
Maquiagem: Guilherme Pereira
Cabelo: Jean
Estúdios de Gravação: SIGLA RJ e Guerenguê RJ (gravação de metais – RJ)

Músicos Participantes:

Arranjos: Paulo Rafael, Marcio Miranda, Paulo Ramiro, Lincoln Olivetti, Cleberson Horst, Luizinho Avelar, Djavan, Severo e Ricardo Feghali
Regências: Cleberson Horst e Nilton Rodrigues
Guitarra: Paulo Rafael, Paulo Ramiro, Urubu, Pisca, Kiko, Zepa e Djavan
Teclados: Marcio Miranda, Lincoln Olivetti, Serginho Trombone, Luizinho Avelar, Cleberson Horst, Ricardo Feghali e Rick Pantoja
Baixo: Jorge Degas, Nando, Pedrão, Sisão e Fernando
Bateria: Jurim, Serginho Herval, Paulinho Braga, Sergio Della Mônica e Teo Lima
Stell Guitar: Rick Ferreira
Bongô: Paulinho
Clave: Paulinho
Acordeom: Severo
Viola: Manasses, Frederick Stephany, Arlindo Penteado, Nelson de Macedo, Antonio Fidelis e Hindenburgo Pereira
Percussão: Feijão
Marimba: Pinduca
Ritmos: João Firmino, Peninha, Ariovaldo, Paulinho, João Gomes, Geraldo Gomes e Melquiades Lacerda Cavalcanti
Spala: Pareschi
Violinos: Aizick, Jorge Faini, Alfredo Vidal, Walter Hack, Carlos Hack, Paschoal Perrota, Michel Bessler, Virgílio Arraes, José Alves, Luiz Carlos Marques, João Daltro, José Lana e Bernardo Bessler
Cellos: Marcio Mallard, Alceu Reis, Luiz Zamith e Jorge Ranesvky
Trombone: Serginho Trombone
Trompete: Bidinho, Paulinho, Don Harris e Nilton Rodrigues
Sax Tenor: José Carlos Ramos
Sax Alto: Mauro Senise
Sax Barítono: Leo Gandelmann
Piston: Paulinho, Nilton Rodrigues e Don Harris
Coro: Cleberson Horst, Ricardo Feghali, Serginho Herval, Nando, Kiko, Regininha, Viviane, Marcio Lott, Luna, Flavinho, Regina e Paulinho

Faixas:

1 Vaca Profana (Caetano Veloso), 2 Ave Nossa (Moraes Moreira – Beu Machado), 3 Nada Mais (Lately) (Stevie Wonder – versão Ronaldo Bastos), 4 Atrás da Luminosidade (Teca Calazans – Luiz Carlos Sá), 5 De Volta ao Começo (Gonzaga Jr.), 6 Onde Está o Dinheiro (José Maria de Abreu – Francisco Mattoso – Paulo Barbosa), 7 Chuva de Prata (Ed Wilson – Ronaldo Bastos) Participação: Roupa Nova, 8 Cabeça Feita (Jackson do Pandeiro – Sebastião Batista da Silva) / Tililingo (Almira Castilho) / Tem Pouca Diferença (Durval Vieira) Participação: Luiz Gonzaga, 9 Topázio (Djavan), 10 O Revólver do Meu Sonho (Roberto Frejat – Waly Salomão – Gilberto Gil)