DRÁCULA E OS VAMPIROS

Novembro 14, 2009

Desde a antiguidade que o mito do vampiro suscita a curiosidade das pessoas. Suas lendas estão envoltas de mistério e perigo. O vampiro representa o homem e a sua eterna vontade de ser jovem, indo contra as leis da natureza e das religiões para obter essa juventude. O vampiro não morre, não envelhece, alimenta-se do sangue, o que lhe garante atravessar os séculos. É esta perenidade cruel que tanto seduz as pessoas, fazendo dos vampiros seres mitológicos cultuados, divulgados na literatura, no cinema, na televisão, nas revistas em quadrinhos e em diversos jogos digitais.
De todos os vampiros, Drácula é o mais famoso. Saído das páginas literárias, foi apresentado ao mundo em 1897, quando o escritor irlandês Bram Stoker publicou aquela que seria a sua obra-prima, “Drácula”. Apesar de nunca confirmado, o autor teria encontrado inspiração na figura de um nobre medieval, o voivoda (príncipe) da Valáquia Vlad Tepes. Drácula representa a obsessão pelo poder e pela eternidade. É desprovido de qualquer remorso ou compaixão. Para sobreviver, não hesita em matar e sorver o sangue das suas vítimas. É sedutor e misterioso, atraindo para si a paixão frívola das mulheres. Mas Drácula perde o seu lado demoníaco, quando persegue pelos séculos o amor da sua amada, que morta no passado, volta em reencarnações recentes. Um amor obsessivo, que faz do conde um ser humano, apesar da sua condição de vampiro. Esta vertente humana, obsessivamente apaixonada, a sua beleza fria e a cheirar a cadáver, os seus poderes ilimitados, sua capacidade de hipnotizar os que o ladeiam, fazem do conde Drácula um demônio sedutor, que atrai multidões aos cinemas, ou mesmo às páginas literárias.
Amados e temidos, Drácula e os vampiros construíram nas lendas modernas um espaço cada vez mais explorado e idolatrado. O fascínio dos vampiros fez com que deixassem de ser vistos como demônios das religiões pagãs, para serem cultuados como membros das lendas contemporâneas, exercendo curiosidade sem que se confundam com o misticismo. Algumas seitas modernas veneram os vampiros, mas não chegam a seduzir muitos seguidores, ao contrário das personagens fictícias exploradas na ficção. Drácula e os vampiros fazem parte da história do cinema e de uma literatura de culto. Continuam a hipnotizar milhares de pessoas com os seus poderes e a sua suposta juventude eterna.

O Sangue e os Vampiros

A lenda do vampiro surge da visão que o homem tem do sangue, como fator mantenedor da própria vida. Tanto as antigas religiões politeístas, chamadas de pagãs, quanto às monoteístas, consideram o sangue como sagrado, sendo o responsável pelo envelhecimento e pela morte do homem.
A importância do sangue nas religiões, fez com que várias delas derramasse-o nos altares, em sacrifício aos deuses. Na tradição hebraica, o sangue humano não poderia ser oferecido, posto que a vida é sagrada, inviolável e intocável. Nos sacrifícios ao Deus único de Abraão, era oferecido apenas o sangue de animais considerados puros. Os egípcios, as civilizações da Mesopotâmia e mesmo os gregos e os romanos, ofereciam o sangue humano em holocausto aos seus deuses.
Se o sangue era considerado o símbolo da vida, houve sempre um entendimento que se um velho fosse alimentado pelo sangue de um jovem, recuperaria as forças e venceria a morte. Foi a partir dessa teoria que se desenvolveu a própria ciência da transfusão sanguínea. Homens poderosos recorreram ao sangue de jovens quando já próximos da morte. O papa Inocêncio VIII, em seu leito de morte, em 1492, teve um tratamento especial, feito por um médico judeu, que lhe aplicou uma transfusão com o sangue extraído de três meninos de dez anos. As três crianças morreram e, conseqüentemente, o próprio papa. A transfusão sanguinea é amplamente descrita e divulgada no romance de Bram Stoker.
Os vampiros surgem como demônios que venceram os obstáculos da morte, alimentando-se com o sangue sagrado, de onde tiram a juventude e a eternidade, tornando-se portadores de poderes especiais e de uma força hercúlea. O sangue, de preferência humano, é o que lhes confere a imortalidade do corpo e a desintegração da alma, visto que são mortos vivos, e não possuem uma. Quando contaminado e transformado em vampiro, ele sente a morte da alma, ressuscitando em um ser com hábitos bestiais e atitudes de demônio, desprovidos da compaixão e de atos de generosidade. Ao conseguir a imortalidade, o vampiro perde as promessas divinas, pois está condenado a ser eternamente um assassino, a matar para comer. Qualquer templo religioso ser-lhe-á negado, e os símbolos, como a cruz, transformar-se-á em armas que o pode vir a castigar, repelir ou até mesmo a matá-lo.

As Características dos Vampiros

Seres mitológicos antigos, os vampiros estiveram presentes nas tradições dos povos e das civilizações do Médio Oriente, da Europa e do Egito. Foi nas civilizações antigas do Nilo que surgiram os primeiros relatos sobre esses seres misteriosos, sendo os mais conhecidos e sanguinários Khonsu e Sekhmet. Na Suméria, o vampiro chegou a ser visto como filho de Lilith, um ser mitológico da tradição judaica, considerada a primeira mulher do mundo e de Adão. Muitas vezes foi confundido com Incubus. Na antiguidade, os sacerdotes identificavam os vampiros através das unhas, que eram fortes e mais grossas do que o normal, assimilando-se às garras.
Ao se tornar um vampiro, o contaminado deixa de poder ter contacto com o sol, dormindo, assim como os morcegos, durante o dia e caçando alimento à noite. Seus olhos ficam mais sensíveis à luz, e passam a ter uma visão potente. Para que possa obter o sangue como alimento, desenvolve os dentes caninos, transformando-os em longas presas.
Poderes estranhos e demoníacos possibilitam que os vampiros transformem-se em morcegos e lobos. Tornam-se senhores dos animais noturnos, controlando-os e dirigindo-os. Originalmente, os vampiros tinham a pele escura e grossa, nas versões cinematográficas atuais, passaram a tê-la branca e fantasmagórica. A audição passa a ser extremamente sensível e alta, fazendo com que sejam capazes de ouvir a aproximação de pessoas ou de outros vampiros a quilômetros de distância. Quando em perigo, podem desaparecer em uma névoa.
O vampiro perde a maioria dos seus órgãos vitais, como fígado, rins e pâncreas, que deixam de ter utilidade. O coração é o órgão que continua a funcionar em seu peito. Mas não possui ritmos característicos como nos seres humanos, batendo quase que imperceptivelmente. É como uma bomba que quando detonada, pode matar e destruir o vampiro.
Aos vampiros não é permitido que se reproduzam entre si. O desejo sexual de um vampiro é tão latente quanto a sua sede de sangue. O desejo é refletido no seu poder irresistível de sedução, levando os humanos à paixão. Quando há um encontro de um vampiro com uma humana, ele pode engravidá-la. O filho dessa união terá poderes especiais, como saber distinguir quem é ou não vampiro, será dono de uma força extraordinária e de aguçado desenvolvimento dos cinco sentidos. As características são transmitidas geneticamente aos descendentes do humano e do vampiro.
Apesar de poderes quase que ilimitados, o vampiro passa a ter certas limitações que lhe podem ser fatais. O sol pode queimar-lhes a pele e afetar-lhes a visão, reduzindo-os a cinzas. Como foram desprovidos da alma, e matam para conseguir o alimento; a hóstia, a água benta, os metais consagrados, a cruz e os templos, tornam-se insuportáveis a eles, assim como o cheiro do alho. Podem ser mortos com uma estaca fincada no coração, transformando-os em pó.
Ao longo do tempo, várias características foram acrescentadas ao mito, sendo a imaginação o principal condutor das verdades vampirescas. Dos castelos medievais às tumbas de concreto, os vampiros modernizam-se, fazendo das suas aventuras uma sedutora paixão na legião dos seus fãs e mesmo daqueles que não os cultua, mas não lhes resiste.

O Mítico Príncipe Vlad Tepes

O lendário conde Drácula foi criado por Bram Stoker, que o lançou em um livro que levava o seu nome, em 1897. A idéia surgiu quando o autor trabalhava como administrador do Royal Lyceum Theatre de Londres, cargo oferecido pelo amigo Henry Irving, de quem era, ao mesmo tempo, secretário e empresário. Na época Bram Stoker entrou em contato com uma sociedade londrina que tinha fascínio pelo sobrenatural. Em 1890, ele começou a escrever um romance sobre vampiros, sem título definido. No verão daquele ano, estava em férias em Whitby, quando cogitou pela primeira o nome de “Drácula” para aquele romance.
Na última década da centúria oitocentista, a Inglaterra era tomada pela efervescência dos movimentos espiritualistas, o que influenciou profundamente Bram Stoker. Esoterismo e ciência mesclavam-se entre os intelectuais da época. Stoker passa a estudar certos detentos nas cadeias inglesas, obcecados por verterem sangue e ingeri-lo. Sete anos após ter sido iniciado, Bram Stoker publica “Drácula”. Lançando a personagem para o mundo, tornando-a mais importante do que a própria obra literária.
Baseado nas histórias de vampiros da Transilvânia, região da Romênia, “Drácula” pode ter sido inspirado no príncipe da Valáquia, Vlad Tepes Draculea, que viveu no século XV. Vlad III nasceu em 1431, em Sighisoara, atual Romênia. Tornar-se-ia voivoda (príncipe) da Valáquia por três vezes: em 1448, de 1456 a 1462 e em 1476. Vlad III viveu na época em que o Império Otomano tomou Constantinopla aos gregos, em 1453, e iniciou a sua expansão pelos Bálcãs, originando uma guerra sangrenta entre cristãos e muçulmanos.
Vlad III era filho de Vlad II, membro de uma sociedade cristã de Roma, chamada Ordem do Dragão, em que nobres da região se uniam para defender os territórios da invasão Otomana. Como membro da ordem, Vlad II era chamado de Vlad Dracul (dragão). Seu filho, Vlad III, herdou por conseqüência, a alcunha do pai, sendo chamado de Vlad Draculea – filho do dragão, já que a terminação “ea” significa filho.
Vlad Draculea ficou conhecido pela crueldade e perversidade com as quais tratava os seus inimigos. As suas atrocidades alimentavam o imaginário popular de alguns camponeses, que passaram a associá-lo com os mitológicos vampiros. Diante daquela crueldade, a palavra Dracul, que também significava “diabo”, passou a ter este sentido quando os inimigos de Vlad Draculea referiam-se a ele.
O voivoda tinha como costume empalar os seus inimigos, atravessando-os com uma estaca de madeira. Para assistir ao suplício, costumava montar uma mesa no local e saborear um banquete, enquanto os inimigos agonizavam empalados. Por esta razão, passou a ser chamado de Vlad Tepes (Tsepesh), que significava “O Empalador”.
Vlad Tepes Draculea foi morto em batalha pelos otomanos em Bucareste, em 1476. Seu corpo foi decapitado e sua cabeça enviada à Constantinopla, onde o sultão a manteve em exposição em uma estaca, como prova que o famoso empalador estava morto. Seu corpo foi enterrado numa ilha próxima de Bucareste, Snagov. O túmulo foi escavado por arqueólogos em 1931, mas no lugar do corpo só encontraram ossos de animais, o que reforçou a lenda de que Vlad Draculea era um vampiro.
Na Romênia e na Moldávia, Vlad Tepes Draculea é tido como herói nacional, por ter erguido vários mosteiros e combatido a expansão Otomana. Na vizinhança de Brasov, em Bran, ergue-se o castelo de Bran, conhecido como o castelo de Drácula. A fortaleza está situada na estrada 73, na fronteira da Transilvânia com a Valáquia e pode ser visitada por turistas. Vlad Draculea na verdade não residiu no castelo, a não ser quando teve que passar dois dias fechado na sua masmorra, quando os otomanos controlavam a Transilvânia. Por possuir torres pontiagudas e localização remota, o voivoda teria utilizado a fortaleza para fins militares.

O Conde Drácula

A descrição física da personagem de Drácula, segundo estudiosos, corresponde ao amigo de Bram Stoker, Henry Irving, que tinha uma voz sibilante. Drácula era um poderoso conde que vivia na Transilvânia na Idade Média, que confrontou inimigos, teve um grande amor na sua vida e ao perdê-lo, também se perde, envolvendo-se com o sobrenatural, tornando-se um frio vampiro.
Sendo uma personagem que se encontra em domínio público, Drácula sofreu grandes alterações nas diversas adaptações que se lhe foram criadas. Há aqueles que o descreve mais romântico, que ao receber a visita do inglês Jonathan Harker em seu castelo, descobre através de uma fotografia, que Mina, noiva de Harker, é a reencarnação do grande amor da sua vida. Assim, parte para a Inglaterra, em busca do amor renascido. Durante a viagem e ao chegar ao Reino Unido, transmite o terror e a morte por onde passa.
Não importa a versão, Drácula é sempre descrito como um vampiro sedutor, sanguinário e frio. Traz poderes sobrenaturais, uma força física extraordinária. Pode adquirir formas animais, hora como morcego, hora como lobo. Durante o dia dorme dentro de um caixão. Seus poderes estão concentrados na terra da Transilvânia, quando em viagem para a Inglaterra, leva sacos dela no navio em que embarca. Não tem a imagem refletida em um espelho. Utiliza-se da hipnose para controlar os seus inimigos. Tem controle absoluto sobre os seres noturnos, como morcegos ou corujas. Com um toque pode incendiar objetos, como a cruz, transformando-a em cinzas. Mata, sem remorsos, às suas presas, fazendo-as vampiras como ele, se lhes oferecer o próprio sangue.
Drácula é imortal, não envelhece, representa a virilidade juvenil eterna. Comanda o clima noturno, trazendo a névoa quando lhe for útil. Sua força sedutora encanta e faz perder as mulheres. Sua pele regenera-se quando arranhada, e os ferimentos são cicatrizados. Não fosse um vampiro, Drácula seria o exemplo perfeito do homem que apaixona o sexo oposto.
Mas Drácula pode perder a imortalidade diante de certas circunstâncias, que guarda como segredo. Se voa como um morcego ou caminha ágil como um lobo, o vampiro pode ser ferido com símbolos religiosos como a cruz e a água benta, que se lhe tocado à pele, pode queimá-la. O alho e a prata afastam-no momentaneamente de quem se lhe ergue. Não pode entrar na água, a não ser em uma embarcação. Um simples ramo de flores silvestres posto em seu caixão pode mantê-lo preso. O sangue é o alimento essencial que lhe dá o poder, a juventude e a suposta imortalidade. O sol é um grande inimigo, se exposto a ele, é reduzido instantaneamente a cinzas. Mas a sua maior e mais fatal fraqueza é o coração que, se trespassado por uma estaca de madeira, o levará à morte. Em algumas versões, após a estaca ser cravada no coração, e que ele for acometido pelo torpor da morte, deverá ser decapitado para que se conclua a sua morte.
Assim como o demônio é enganador, também Drácula é enganado, ao pensar ser eterno e, ser sempre apanhado e morto pelas suas fraquezas, deflagradas pelos eternos defensores do bem. Drácula é o sonho do homem em ter a juventude e a vida eterna, mas também o castigo para quem as obtém indo contra os princípios estabelecidos por Deus e pela natureza.

Drácula no Cinema

O fascínio que Drácula exerce sobre grandes platéias, fez com que o seu mito fosse explorado em dezenas de produções cinematográficas e televisivas. A primeira vez que a história do conde vampiro chegou às grandes telas foi em 1922, no genial filme de F. W. Murnau, “Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens”. Embora baseado na história de Bram Stoker, o filme teve que mudar o nome de Drácula para Nosferatu, devido a exigências dos herdeiros do escritor, que não permitiam que a obra fosse adaptada. “Nosferatu” foi um grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema universal. Com ele, inaugurava-se uma saga cinematográfica sobre o conde Drácula, que teria várias versões. Um filme de ficção sobre os bastidores do clássico de Murnau, “A Sombra do Vampiro” (2000), sugere que Max Schreck , ator que viveu Nosferatu, era um vampiro de verdade contratado pelo diretor.
Em 1931, surgiu o filme “Drácula”, de Tod Browning. Já a personagem tinha caído em domínio público, e pôde ser adaptada sem retoques para o cinema. O filme teve o ator austro-húngaro Bela Lugosi como Drácula. Embora tenha feito apenas dois filmes interpretando o conde, o já referido filme de 1931, e a comédia “Bud Abbott Lou Costello Mette Frankenstein” (“Às Voltas com Fantasmas”), em 1948, Bela Lugosi teve a sua imagem e carreira ligadas à personagem para sempre. Ainda hoje, tem-se a idéia de que o ator protagonizou várias vezes o famoso vampiro.
Em 1958, “Drácula”, de Terence Fisher, lançava o ator Christopher Lee como Drácula. Apesar de odiar a personagem, ele faria o conde em vários filmes, tornando-se o seu intérprete mais famoso. Nesta produção, iniciava-se uma grande parceria com Peter Cushing, outro grande ator que se especializaria em filmes de horror.
Drácula de Bram Stoker”, de Francis Ford Coppola, de 1992, foi uma das versões mais fiéis ao romance original. O filme pôde usufruir da tecnologia dos efeitos especiais, dando um clima de suspense luxuoso à velha história. Produção bem cuidada, a adaptação de Coppola só perde na interpretação quase que afetada de Gary Oldman. O ator imprime pouca virilidade ao conde, dando-lhe um aspecto que às vezes, beira à frivolidade, distante da frieza apaixonante e cruel de Bela Lugosi e Christopher Lee.
Mais de uma centena de filmes invocaram o mito de Drácula, fazendo do cinema o principal veículo de apresentação do mais famoso, sedutor e cruel dos condes da história. Drácula continuará por muito tempo, a encantar e aterrorizar as platéias do mundo inteiro.

Drácula nas Artes

Literatura

Drácula – Bram Stoker

Cinema

1922 – Nosferatu, Eine Symphonie de Grauens (Nosferatu) – Com Max Schreck
1931 – Drácula – Com Bela Lugosi
1936 – Dracula’s Daughter – Com Otto Kruger e Gloria Holden
1943 – Son of Dracula (O Filho de Drácula) – Com Lon Chaney Jr.
1945 – House of Drácula – Com Lon Chaney Jr e John Carradine
1958 – Dracula (O Horror de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1960 – The Brides of Dracula (As Noivas do Vampiro) – Com Peter Cushing
1964 – Batman Dracula – Com Gregory Battcock e Jack Smith
1966 – Dracula: Prince of Darkness (Drácula – O Príncipe das Trevas) – Com Christopher Lee
1968 – Dracula Has Risen from the Grave – Com Christopher Lee
1970 – Count Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Taste the Blood of Dracula – Com Christopher Lee
1970 – Scars of Dracula – Com Christopher Lee
1972 – Dracula A.D. 1972 – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1973 – Dracula – Com Jack Palance
1973 – The Satanic Rites of Dracula (Os Ritos Satânicos de Drácula) – Com Christopher Lee e Peter Cushing
1974 – The Legend of the Seven Golden Vampiros – Com John Forbes-Robertson e Peter Cushing
1974 – Blood for Dracula – Com Udo Kier e Joe Dalessandro
1976 – Drácula Père et Fils (Drácula, Pai e Filho) – Com Christopher Lee
1979 – Dracula – Com Frank Langella e Laurence Olivier
1979 – Nosferatu: Phantom der Nacht (Nosferatu – O Vampiro da Noite) – Com Klaus Kinski
1992 – Bram Stoker’s Dracula (Drácula de Bram Stoker) – Com Gary Oldman e Anthony Hopkins
2004 – Van Helsing – Com Hugh Jackman e Richard Roxburgh

Séries de TV

1990 – Dracula: The Series
2006 – Young Dracula


A LEI DO DESEJO

Outubro 30, 2009

Um dos filmes mais instigantes e transgressores da obra de Pedro Almodóvar, “A Lei do Desejo” (La Ley Del Deseo), é uma ode à paixão e ao sexo, levados ao extremo. Provocante, marginal, underground, o filme encerra a fase mais criativa e cáustica do diretor espanhol. A partir de então, Almodóvar conquistaria fama mundial, lapidaria a sua obra, perdendo a linguagem crua que permeava com humor corrosivo as suas personagens.
O filme traz uma galeria de personagens complexos, labirínticos nas suas identidades e segredos. Todos eles são movidos pela verve do sexo, atirando-se ao precipício latente do desejo. Tina (Carmen Maura), mulher doce e passional na sua essência, é no reflexo do seu espelho um homem sofrido, que quando criança foi sexualmente molestado pelo pai. Para viver esta paixão incestuosa, submeteu-se a uma cirurgia para mudar de sexo, tornando-se um transexual. Pablo (Eusebio Poncela), irmão de Tina, é um bem-sucedido diretor de teatro e cinema. No seu vazio, usa da cocaína para fugir às verdades dos sentimentos, nutre uma paixão pelo belo Juan (Miguel Molina), mas não é correspondido em seu esplendor. Finalmente Antonio (Antonio Banderas), um jovem impulsivo à procura da sua identidade, luta contra a sua homossexualidade, mas se deixa levar pela paixão, logo transformada em obsessão, por Pablo. E num contexto passional, repleto de ciladas e armadilhas sentimentais, que se forma o triângulo fatal entre as três personagens, envolvidas nos impulsos irresistíveis do sexo e da paixão.
Nunca a temática homossexual, comum na obra de Almodóvar, foi tão explicitamente exposta por ele. Nunca o amor foi tão arrancado a unha em sua verve dilacerante como aqui. Os sentimentos labirínticos são extraídos à flor da pele, conduzindo a platéia a um retumbante final, deixando-a sem fôlego. Nunca Antonio Banderas foi tão maliciosamente inocente, passional, eloqüente e sincero como ator como aqui, mantendo-se anos luz da imagem do machão latino que desenvolveria no cinema norte-americano. Nunca a tragédia do amor derrubou tanto os preconceitos como em “A Lei do Desejo”.
O filme não é considerado o melhor de Pedro Almodóvar, mas é um dos mais cultuado por seus admiradores e pelos críticos. Corajosamente ele encerrava a fase underground da sua carreira, deixando o universo da Madri marginal, para conquistar o mundo como um grande cineasta. Última grande parceria com Carmen Maura, que se diluiria em “Mulheres á Beira de Um Ataque de Nervos” (1988), só voltando em “Volver” (2006). “A Lei do Desejo” é, ao longo dos anos, um retrato histórico do cinema de Pedro Almodóvar, e, das carreiras de Antonio Banderas e Carmen Maura. É o diretor na sua mais pura essência criativa.

O Desfile de Estranhos Personagens

O início do filme é já um afronto que prepara a platéia para o que viria. Na primeira cena, um belo rapaz aparece de costas, nu, tocando o seu corpo conforme ordena uma voz. Constrangido, mas pronto para cumprir o seu papel, o rapaz toca-se em gestos obscenos, quase pornográficos. Encerra-se a filmagem e o modelo nu, conta o seu dinheiro. Do outro lado das câmeras, inicia-se, finalmente “A Lei do Desejo”.
As personagens são apresentadas de forma crua, em ambientes dúbios e marginais de Madri. O cineasta Pablo Quintero (Eusebio Poncela) transita pelos bares noturnos, trocando olhares com belos rapazes, movendo-se à cocaína. À sombra de Pablo, surge Antonio Benitez (Antonio Banderas), jovem bonito e impetuoso, que mesmo negando a sua vertente homossexual, masturba-se por banheiros sujos a pensar em ser possuído por um homem.
Do outro lado da cidade, caminha Tina (Carmen Maura) e uma criança, Ada (Manuela Velasco). Um estranho relacionamento de mãe e filha une as duas. Em uma igreja, Tina, ao entoar uma área, revela inesperadamente ao padre, que era o menino que cantava nos corais anos atrás. Conta-lhe a sua mais dilacerante verdade, quando transitava para a adolescência, foi possuída pelo pai. A relação incestuosa de ambos fez com que o casamento dos pais chegasse ao fim. Para viver aquele estranho amor, Tina foi levada pelo pai para o Marrocos, onde foi submetida a uma cirurgia para a troca de sexo. Sim, Tina é um transexual. Ada, a menina, fora adotada por ela.
As personagens contaminam os espectadores com as suas verdades, ditas com um humor cáustico, lancinante, em um cenário barroco. Pablo, Tina e Ada trocam momentos de ternura e amor, formando a família possível dentro do universo de cada um. Exótica, diferente, é o retrato da nova família que os tempos gerou, onde pai e mãe, nem sempre correspondem ao que decretara a natureza, mas os sentimentos.
Tina é solitária, entrega-se à arte, interpretando como atriz o monólogo “A Voz Humana”, de Jean Cocteau. Apega-se a Ada, cuidando da menina desde que a mãe viajara. Curiosamente Carmen Maura interpreta um transexual, e a mãe de Ada é interpretada por Bibi Andersen, um transexual com presença constante nos filmes de Pedro Almodóvar. A pequena Ada nutre uma paixão platônica por Pablo. Bons momentos do filme são vividos por Tina e Ada, como o da performance no palco, em um momento sublime, sendo feita sob a música “Ne me Quitte Pas”, de Jacques Brel, cantada pela voz aveludada da cantora Maysa. Nos créditos do filme, a brasileira aparece ainda com o nome de Maysa Matarazzo.
Pablo, Tina e Antonio, três personagens que se irão entrelaçar em breve, em um encontro explosivo, sensual, inquietante e fatal, como jamais assistiria outra vez o cinema espanhol.

O Amor Obsessivo de Antonio

Pablo é um homem que passeia pelos sentimentos de forma leve, sem neles se perder. Caminha quase que alienado ao que se passa ao seu redor. Jamais soube ou suspeitou do envolvimento de Tina com o pai. Sua máquina de escrever é a sua verdade, dela extrai os textos que tece a sua obra.
Famoso como cineasta, Pablo freqüenta bares noturnos undergrounds, como qualquer homem homossexual de Madri o faz. Ciente do assédio que sofre, é promíscuo e caçador. Intimamente, Pablo é apaixonado pelo jovem e belo Juan (Miguel Molina). Mas Juan está no auge da sua juventude e descobertas, não amando o cineasta com o mesmo ardor. Desvinculando-se de Pablo, o jovem parte para o interior, deixando-o sob as garras da solidão de Madri.
Pablo pensa em Juan, erra pela solidão dos bares da cidade. Será na boca da noite que encontrará Antonio, um jovem envolvente e rebelde. Nutrindo uma atração por Pablo, o rapaz cerca-o decidido. Logo são envolvidos pela atração e sedução mútuas. Mesmo apaixonado por Juan, Pablo aceita o assédio de Antonio. Será ele quem iniciará o jovem na vida sexual entre dois homens. Pedro Almodóvar descreve o encontro em uma cena crua, onde Antonio deixa-se possuir por Pablo sob a dor da penetração. A cena é transgressora, surpreendeu e escandalizou a platéia da década de 1980. Mais tarde, foi motivo de desentendimento entre Antonio Banderas e Almodóvar; por causa dela, o ator tentou impedir que o filme fosse exibido nos Estados Unidos, onde construíra uma imagem de macho latino nas películas de Hollywood. O diretor sentiu-se ultrajado com a tentativa de veto.
Iniciado na vida sexual, apaixonado, extasiado, Antonio era ainda inocente nos amores delicados movidos pela noite. Se para Pablo fora uma agradável noite de sexo, para Antonio fora a entrega, a paixão, o amor incondicional. Mesmo diante da recusa de Pablo, Antonio faz-se presente na sua vida. Faz do amante a sua existência. Torna-se um homem terno, disposto a fazer todas as vontades do amado, cobrindo-o de mimos. Antonio passa a nutrir uma paixão violenta e obsessiva por Pablo, mostrando-se ciumento e impulsivo.
Mas a verdade de Pablo é somente uma, Antonio é uma aventura, nada mais. Juan era o escolhido por ele para caminhar a sua vida. Quando Antonio descobre que o coração do amado está ocupado, preenchido pela inconstância de Juan, ele é acometido pela sombra negra do ciúme.
Antonio parte de Madri, rumando ao encontro de Juan. No interior, ele seduz aquele que lhe parecia o maior rival. Antonio quer saber tudo sobre os sentimentos de Pablo, inclusive como ele se sentia ao possuir Juan. Antonio é o próprio Pablo, vestindo inclusive uma camisa igual a do amado. Movido pelo ciúme, Antonio atrai Juan para uma cilada fatal. Num ato de fúria, empurra o rival no precipício, lançando-o em um vôo mortal. Antes de cair, Juan agarra-se a Antonio, arrancando-lhe o bolso da camisa. Aquela seria a pista que levaria a polícia a chegar a Pablo, que se tornaria o principal suspeito.

A Paixão Vivida ao Extremo

Pablo tinha ido ao encontro de Juan, quando soube da sua morte. Até então, ele não levara Antonio a sério. Começa a suspeitar que o jovem amante era capaz de tudo por seu amor, inclusive matar. Transtornado, ele sofre um acidente quando dirigia o automóvel.
Pablo permanece algum tempo no hospital. Enquanto convalesce, é visitado por Tina. A irmã revela que está apaixonada, que encontrara o homem da sua vida. Pablo não suspeita que o homem misterioso é Antonio. Excluído da vida do amante, o jovem decide fechar o círculo, seduzindo Tina. Em um momento exuberante, Carmen Maura conduz uma apaixonada Tina. Sua interpretação foge da caricatura e do estereótipo que se desenvolve em torno de personagens transexuais. A atriz é perfeita, vivendo um dos maiores desafios da sua carreira. Uma cena antológica do filme é quando Tina caminha com Ada pelas ruas de Madrid, numa noite quente de verão. Ao passar por um jardineiro que molha a rua, vira-se para ele e pede: “Rega-me! Rega-me!
Quando Pablo deixa o hospital, a verdade vem à tona. Era Antonio o amor de Tina. Desesperado, ele entra em pânico, pois só consegue ver no rapaz o assassino, longe do amante que fora. Antonio vê-se cada vez mais sem saída. Em breve seria perseguido e preso pela morte de Juan. Num gesto desesperado, ele usa Tina como refém, forçando um encontro com Pablo.
O filme atinge o seu clímax quando Antonio, armado e decidido, consegue ficar sozinho com Pablo. Do lado de fora do prédio, a polícia e a imprensa fecha o cerco. Acossado, Antonio põe a arma atrás da calça jeans, abraça-se a Pablo e começa a dançar com ele. Revela-se mortalmente apaixonado. Tudo fizera para ter aquele momento de amor com Pablo, e mais o faria, se preciso fosse. Não importava o mundo lá fora. Naquele momento Antonio entregava-se ao seu verdadeiro universo. Quebrara todas as regras, infringira todas as leis, para viver apenas a lei maior do desejo.
Pablo comove-se com a paixão de Antonio. Tardiamente descobre a força do amor daquele jovem impetuoso. Juntos descortinam as ciladas dos sentimentos. Entregam-se como dois amantes ternos e apaixonados. Nos braços de Pablo, Antonio conseguira o seu momento de felicidade e plenitude. Já não precisava de mais nada. Deixa o amante na cama e volta para a sala. Pablo desperta do torpor pelo barulho do disparo de um tiro. Corre até a sala e encontra Antonio no chão, coberto de sangue, morto. Ele desespera-se. Perdera Juan, perdera Antonio, ambos tragados pela lei do desejo. Pablo chora a morte do mais estranho e intenso amante que já tivera. Num gesto de fúria, pega a máquina de escrever e a atira pela janela. Diante daquele ato, a polícia decide invadir o apartamento. Apoteoticamente, Pedro Almodóvar encerrava o filme e a primeira fase do seu cinema.

Ficha Técnica:

A Lei do Desejo

Direção: Pedro Almodóvar
Ano: 1986
País: Espanha
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Duração: 102 minutos / cor
Título Original: La Ley Del Deseo
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Miguel Ángel Perez Campos e Agustín Almodóvar
Música: Bernardo Bonezzi, Pedro Almodóvar, Fred Bongusto, Fany McNamara e Maysa Matarazzo (Ne me Quitte Pas)
Direção de Fotografia: Angel Luís Fernández
Direção de Arte: Javier Fernández
Decoração de Set: Ramón Moya
Figurino: José Maria de Cossio
Maquiagem: Jorge Hernández, Juan Pedro Hernández e Teresa Matías
Edição: José Salcedo
Efeitos Especiais: Reyes Abades
Som: Jim Willis
Estúdio: El Deseo S.A.
Distribuição: Paramount Home Entertainement
Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Fernando Guillén, Manuela Velasco, Nacho Martinez, Bibi Andersen, Helga Liné, Germán Cobos, Fernando Guillén Cuervo, Marta Fernández Muro, Lupe Barrado, Alfonso Vallejo, Muruchi Leon, José Manuel Bello, Augustin Almodóvar, Rossy de Palma, José Ramón Pardo, Juan A. Granja, Angie Gray, Hector Saurint, José Ramón Fernández, Pepe Patatín, Victoria Abril, Pedro Almodóvar
Sinopse: Pablo (Eusebio Poncela), diretor de cinema homossexual, é apaixonado por Juan (Miguel Molina), que não o ama. Na noite madrilena conhece Antonio (Antonio Banderas), que fará de tudo para ter o seu amor, inclusive matar os que se lhe fizerem frente. Tina (Carmen Maura), é irmã de Pablo; nascera homem, mas seduzida pelo pai, fez uma operação para mudar de sexo. Os dois irmãos envolvem-se em um triângulo trágico, onde a lei do desejo conduz os sentimentos em uma história original, intensa e instigante.

Pedro Almodóvar

Considerado um dos maiores cineastas contemporâneos, Pedro Almodóvar Caballero nasceu em 24 de setembro de 1951, em Calzada de Calatrava, na Espanha. Filho de família humilde, rumou para Madri logo cedo, exercendo várias profissões, entre elas a de funcionário da companhia telefônica da Espanha.
Em Madri, Pedro Almodóvar circulava pelos ambientes undergrounds da cidade, onde colheria material suficiente para desenvolver e explorar futuramente em seus filmes. Homossexual assumido, enveredou pelos meandros da vida artística, atuando como ator e como cantor de uma banda de rock, na qual se apresentava travestido.
Mas foi como diretor de cinema que Almodóvar se iria tornar um nome consagrado em todo o mundo. Seus filmes, inicialmente, traziam uma linguagem crua, um humor cáustico e corrosivo, repletos de personagens transgressoras. Na primeira fase da sua carreira, iniciada com “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón”, revela um universo que desconstroi o caráter das personagens, em situações exóticas e surpreendentes. A atriz Carmen Maura é a grande musa desta fase, que revelaria também, o ator Antonio Banderas.
Em 1987, os filmes de Pedro Almodóvar ultrapassaram as fronteiras da Espanha, chegando a Portugal, onde ganhou com “Matador” o prêmio maior do festival Fantasporto. A partir de então sua obra passou a ser vista internacionalmente. O grande sucesso internacional viria em 1988, com “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”, indicado para o Oscar, inaugurando uma nova fase da sua filmografia.
Pedro Almodóvar é um diretor polêmico, amado e cultuado em todo o mundo. O seu filme “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999), finalmente arrebataria o Oscar. Grandes atores e atrizes sonham em ser dirigidos por ele. Mas o diretor costuma eleger os seus favoritos, tendo três musas distintas em fases diferentes: a já citada Carmen Maura, Victoria Abril e Penélope Cruz. Sua obra é sempre uma agradável surpresa. Suas personagens trazem uma bomba pronta a ser detonada no centro dos costumes.

Filmografia de Pedro Almodóvar:

Longa Metragem

1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1988 – Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios (Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos)
1990 – Átame! (Ata-me!)
1991 – Tacones Lejanos (Saltos Altos)
1993 – Kika (Kika)
1995 – La Flor de Mi Secreto (A Flor do Meu Segredo)
1997 – Carne Trémula (Carne Trêmula)
1999 – Todo Sobre Mi Madre (Tudo Sobre a Minha Mãe)
2002 – Hable Con Ella (Fale com Ela)
2004 – La Mala Educación (Má Educação)
2006 – Volver (Volver)
2009 – Los Abrazos Rotos

Curta Metragem

1974 – Film Político
1974 – Dos Putas, O Historia de Amor Que Termina en Boda
1975 – La Caída de Sódoma
1975 – Homenaje
1975 – El Sueño, o la Estrella
1975 – Blancor
1976 – Tráiler de “Who’s Afraid of Virginia Woolf?”
1976 – Sea Caritativo
1976 – Muerte en la Carretera
1977 – Sexo Va, Sexo Viene
1978 – Folle… Folle… Fólleme Tim!

Média Metragem

1978 – Salomé
1985 – Trailer Para Amantes de Lo Prohibido (TV)

Participações Como Ator

1978 – Tiempos de Constitución
1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1991 – Truth or Dare / In Bed With Madonna (Na Cama Com Madonna)


PSICOSE

Agosto 25, 2009
O cinema contemporâneo gerou vários clássicos ao longo dos anos, sendo que a maioria deles girava em torno de uma bela história de amor ou da vida de heróis da história, reais ou imaginários. “Psicose” (Psycho), de Alfred Hitchcock, foge aos padrões do cinema épico, das grandes histórias de amor, sendo um filme de suspense, denso, intrigante, que gera um mal estar apreensivo em quem o assiste. Mesmo com os ingredientes que subvertem os padrões dos grandes filmes, “Psicose” conquistou as platéias, arrebatou fãs no mundo inteiro, sendo unanimidade de crítica e de público, tornando-se um dos mais cultuados filmes de todos os tempos.
Os elementos de suspense tecem uma trama psicológica eletrizante, que prende e surpreende a platéia. Nunca a parte negra da alma humana foi tão claramente explorada, onde a imagem traz todos os elementos que constroem as mentes das personagens, repletas de nuances da moral corrompida e sem volta.
O filme foi baseado numa novela de Robert Bloch, um autor de livros populares e sem valor literário. Alfred Hitchcock comprou anonimamente os direitos autorais do livro, pagando entre nove e onze mil dólares, conforme a versão. Quando o mestre do suspense apresentou o projeto de adaptação da história de Robert Bloch, encontrou a resistência dos produtores da Paramount, que se recusaram a investir em uma literatura considerada vulgar. Diante da recusa, Hitchcock decidiu ele próprio produzir o filme. Depois de adquirir os direitos, ele comprou todas as cópias disponíveis no mercado, evitando que fosse lido pelas pessoas, o que contribuiu para que o suspense e o desfecho do filme não fossem revelados.
Psicose” foi contestado por grandes produtores não só por provir de um folhetim, mas inclusive pelo título, que era considerado bizarro e com poucos atrativos para atrair grandes públicos. Hitchcock seguiu a sua intuição e genialidade, produzindo uma obra-prima do cinema mundial. Cenas antológicas, como o assassínio da personagem de Janet Leigh debaixo do chuveiro, ainda hoje mexem com a sensibilidade de quem o assiste.
Psicose” é composto essencialmente por sua fabulosa galeria de imagens, que imprimem as verdades e os perigos em volta das personagens. A sensação é de que o perigo iminente vai saltar às costas das personagens a qualquer momento, trazendo um juízo final para os seus pecados. Ninguém fica imune à história que se apresenta entre as sombras da mente.
Estreado nos cinemas norte-americanos em 1960, “Psicose” continua a ser um dos filmes mais assistidos no mundo. Várias seqüências foram feitas a partir dos anos oitenta. No fim da década de noventa, uma nova versão chegou às telas. Mas nenhuma conseguiu arranhar ou superar o original. “Psicose” é daquelas obras-primas intocáveis, definitivas, uma jóia que dá brilho ao verdadeiro cinema.

O Desfalque de Marion Crane

A novela de Robert Bloch revelava-se fraca, trazia uma boa história, mas mal contada. Coube a Alfred Hitchcock, através da imagem, dar a dimensão exata de uma história surpreendente. A verdadeira alma de cada personagem foi revelada diante da câmera do mestre do suspense.
Ao assumir a produção do filme, Hitchcock contou com um orçamento de oitocentos mil dólares. Diante das limitações orçamentárias, o diretor britânico não contratou grandes estrelas. Utilizou uma equipe de atores com a qual já trabalhava em sua série de televisão, apresentada pelos canais norte-americanos.
Várias atrizes foram cotadas para fazer o papel de Marion Crane, entre elas Lana Turner, Piper Laurie, Eva Marie Saint, Hope Lange e Martha Hyer. Todas elas louras e magras, uma imagem constante nas heroínas do velho mestre. Mas a escolha final recaiu sobre a bela Janet Leigh, que encontraria em Marion Crane, a sua personagem definitiva no cinema.
Marion Crane (Janet Leigh) vive uma vida normal, é secretária de uma imobiliária em Phoenix, no Arizona. Mulher bonita, profissional exemplar, ela vive um romance com o jovem Sam Loomis (John Gavin). Com o amante ela vive momentos ternos e apaixonados. Uma das cenas mais bonitas do filme é o momento de amor entre o jovem e belo casal. Apesar de não revelar a nudez dos atores, o momento é de um erotismo implícito, considerado ousado para 1960. Hitchcock tinha dito a Janet Leigh que tocasse no rosto de John Gavin como se saísse de um ato sexual. Tranqüilizou a atriz, dizendo que já tinha preparado o ator para a cena. Quando a bela tocou o seu companheiro de cena, uma ereção involuntária do ator constrangeu e divertiu a equipe. Mais tarde, Janet Leigh soube que John Gavin não tinha sido avisado do gesto mais íntimo da cena.
Mas nem tudo era claro na mente da bela Marion Crane. Momentos sombrios de ingenuidade ambiciosa contrastavam com uma inteligência privilegiada. Muito em breve, o lado obscuro da jovem irá urdir um grande golpe. A oportunidade de liberar a sua consciência da moral estabelecida, acontece quando, certo dia, testemunha um grande negócio do patrão, que recebe quarenta mil dólares em dinheiro. Naquela tarde, uma sexta-feira escaldante, Marion não resiste, decide desfalcar o dinheiro do patrão, sonhando poder desfrutá-lo com o amante, Sam Loomis.
A mente de Marion Crane age rapidamente depois de roubar o dinheiro. Pede licença ao patrão para sair mais cedo. Ela deixa a imobiliária levando o pacote com os quarenta mil dólares. Sabia que o desfalque só iria ser descoberto na segunda-feira. Teria o fim de semana para fugir. Decide partir para a cidade de Fairvale, na Califórnia, onde se encontra Sam. A bela mulher segue no seu carro, ao encontro do amado.

Morte no Chuveiro

A estrada que Marion Crane segue parece infindável, perdida nos desatinos do destino. Após dirigir o dia inteiro, a jovem sente-se exausta. É movida pelo objetivo de não ser apanhada, pela vantagem de dois dias do seu crime e da descoberta dele. Seguiria ainda alguns quilômetros, quando ao cansaço junta-se uma chuva torrencial. Sem visibilidade na estrada, ela procura um lugar para parar. É subitamente atraída por um letreiro que dizia “Motel Bates”. Parecia o local ideal para que pudesse descansar e esperar a chuva passar. A bela foragida dirige-se para o motel.
As imagens do Motel Bates trazem um ambiente sombrio. O estabelecimento ficara isolado após um desvio feito na Auto Estrada, quase desaparecendo. Tudo parece decadente, revelando uma atmosfera de mistério e perigo velado. Marion é recebida por Norman Bates (Anthony Perkins), um jovem simpático, mas de um olhar sombrio e estranho. Ela registra-se com o nome falso de Marie Samuels. De repente o encontro com Bates parece um ato de redenção diante da moral do mundo. Gentilmente, o rapaz conversa com a hóspede. Fala sucintamente da vida, das suas armadilhas. Mostra-se um jovem tímido, dominado pela mãe, uma mulher velha e doente, de quem cuida.
Naquele momento já o remorso acomete a alma da fugitiva. De repente já não fazia sentido os quarenta mil dólares, a fuga, o desfalque. A conversa com Norman Bates é ambígua na determinação do destino de Marion Crane, através dela, decide voltar no dia seguinte e devolver o dinheiro. O que ela não sabe é que mergulhara numa estrada sem volta, e a vida já não lhe dará tempo para consertar os erros. Da janela do seu quarto, ela houve a voz de uma mulher velha, que parecia discutir severamente com o filho.
Marion hospeda-se no apartamento número 1. As imagens dão uma sensação claustrofóbica de que se está a ser observado. Esta sensação é confirmada quando Norman Bates remove um quadro da parede, através dele observa a bela mulher a despir-se, dirigindo-se para o banheiro.
O banho de chuveiro de Marion Crane entraria para a história do cinema, produzindo uma das mais antológicas cenas da sétima arte. De costas para a porta, ela deixa a água escorrer sobre o corpo, não percebendo quando alguém entra. De repente volta-se para a cortina de plástico do banheiro, que se abre bruscamente por uma sombra gigante, trazendo uma faca na mão, erguida no ar. Marion Crane lança um grito de pânico. Ao som de uma trilha sonora que se tornaria clássica, feita por Bernard Herrmann, assistimos a jovem a ser brutalmente esfaqueada. Aos poucos a vida abandona a mulher, que se deixa ir caindo na banheira, até que tomba completamente, sem vida.
A cena do chuveiro é a mais complexa de “Psicose”, tão importante que foi o motivo do filme ter sido rodado em preto e branco, pois Hitchcock temia que a cena ficasse muito chocante se feita colorida, perdendo-se na quantidade exacerbada do sangue que se jorrou.
Janet Leigh não estava nua na cena, trazia uma roupa colante à pele. Para dar maior veracidade, foi contratada uma dublê, que fez as cenas de nudez necessárias para que ficassem mais realistas.
Para que os jatos de água fossem captados pela câmera com maior intensidade, foi utilizado um chuveiro de dois metros de diâmetro, filmado de baixo para cima. Como era a preto e branco, foi utilizada calda de chocolate para simular o sangue, e, o barulho das facadas vinha de um melão sendo esfaqueado.
Mas o clima que transformaria esta cena em uma das mais famosas do cinema, só foi adquirido graças à música de Bernard Herrmann, elemento essencial de tensão e suspense durante o assassínio de Marion Crane. A cena da sua morte no chuveiro utilizou setenta diferentes posições de câmeras, levando sete dias para ser filmada. Desde então, um simples banho de chuveiro jamais foi o mesmo no imaginário das pessoas.
O corpo de Marion Crane é enrolado pelo assassino na cortina de plástico do banheiro, sendo carregado para o porta-malas do carro. Assim, a vítima é jogada com o seu carro dentro de um pântano. Resta a quem assiste ao filme uma pergunta, quem matou a infeliz mulher? Norman Bates? Ou a sua possessiva mãe?

Outra Morte no Motel Bates

Após a morte de Marion Crane, entra em cena uma outra protagonista, Lila Crane (Vera Miles), irmã da jovem assassinada. Será ela quem procurará pela morta. Lila suspeita que Sam Loomis é o responsável pelo desaparecimento misterioso da irmã. Uma semana depois, ela procura o rapaz em Fairvale. Juntos, eles irão desvendar a morte de Marion.
Outra personagem chave é introduzida na trama, Milton Arbogast (Martin Balsam), contratado pelo patrão de Marion, que ao dar pelo golpe, tenta, através dos seus serviços de detetive, recuperar o dinheiro roubado. Ao perceber que as pessoas mais próximas à fugitiva estão preocupadas com o seu desaparecimento, Arbogast passa a investigar os motéis que tinham no caminho que ela teria usado. Após uma investigação minuciosa, ele chega ao Motel Bates.
Norman Bates nega que tenha recebido hóspedes na ocasião do desaparecimento de Marion . Arbogast descobre que ele mentiu, ao verificar o registro de hóspedes. Deduz que ela se registrou com o nome falso de Marie Samuels. Até aquele momento, Sam Loomis era o principal suspeito do desaparecimento de Marion. De uma cabine telefônica, o detetive avisa Lila que Sam é inocente.
Obstinado a descobrir a verdade, Arbogast volta ao Motel Bates. Cenas eletrizantes mostram os seus passos a subir as escadas que dão para o segundo andar da misteriosa e sombria casa onde Norman Bates vive com a mãe. Mas o detetive é descoberto, sendo atacado e morto pela mesma pessoa misteriosa que assassinara alguns dias antes Marion Crane.

A Mãe de Norman Bates

O silêncio repentino de Milton Arbogast incomoda Lila Crane e Sam Loomis. Decidido a desvendar o desaparecimento da amada, Sam vai até o Motel Bates, à procura de uma pista, inclusive de Arbogast. Volta frustrado, pois não encontrou ninguém, a não ser uma senhora idosa e doente, à janela do segundo andar da casa.
Cansados de percorrerem pistas sem saídas, Sam e Lila decidem procurar o xerife do lugar, Al Chambers (John Mclntire). O xerife, ao ouvir os forasteiros, telefona para Norman Bates, querendo informações sobre o detetive Arbogast. Norman afirma que o detetive esteve no motel, a fazer algumas perguntas, mas se retirou em seguida, não voltando mais.
O mistério vai seguindo um novelo psicologicamente labiríntico. Norman Bates diz à mãe que ela terá que mudar para o porão. Nunca é mostrado o rosto da senhora Bates. Algumas vezes se lhe ouve a voz. Nesta encruzilhada do filme, o rapaz tímido e submisso à mãe é praticamente inocentado pelo espectador, e a mãe declarada a culpada. Quase que se deduz que o pobre rapaz protege uma mãe assassina.
Chambers diz a Lila e a Sam que não encontrou ninguém no motel, além de Norman Bates. Insatisfeitos com as investigações, os jovens decidem voltar ao motel, pois têm a certeza de que lá irão encontrar as pistas que Arbogast havia descoberto e, misteriosamente desaparecido logo a seguir.
Sam e Lilá alugam um quarto no Motel Bates, registram-se como marido e mulher. Enquanto Norman Bates é distraído por Sam, Lila investiga o motel. No quarto número 1 descobre vestígios da presença da irmã. Lila segue para os compartimentos da casa, já com a certeza de que Marion ali esteve.
Ao perceber o ardil do casal, Norman Bates reage com violência, agredindo Sam, deixando-o no chão. Desesperado, ele corre na direção da casa misteriosa, procurando por Lila Crane nas dependências onde estava. Ao pressentir a aproximação do rapaz, a jovem esconde-se, sem saber que está preste a desvendar o maior segredo do filme. Lila parece ouvir a voz de uma senhora. Certa de que encontrará a senhora Bates, ela vai até o porão. Ao entrar, percebe uma senhora sentada em uma poltrona, virada de costas. Quando se aproxima, a cadeira gira e revela não uma velha senhora, mas um corpo mumificado. Era a mãe de Norman Bates.
Lila solta um grito de terror ao ver tão repugnante cadáver. A luz pendurada no teto do porão balança. Surge um vulto, com o braço levantado, trazendo uma faca, pronta para ser cravada no corpo da jovem intrusa. Está vestido de mulher, mas não era uma mulher. Era Norman Bates, encarnando a personalidade da mãe. Já pronto para assassinar Lila, Bates é impedido por Sam, que lhe segura por trás. Enlouquecido, Norman Bates entra em convulsão, caindo no chão. O seu segredo está desvendado, e com ele, todo o mistério do filme.

A Imagem e a Mente

A tragédia e loucura de Norman Bates é explicada por um psiquiatra na corte do condado. A psicanálise fascinava Alfred Hitchcock, aqui o recurso psicológico dá credibilidade à história, tornando-a complexa, distante da linearidade do livro de Robert Bloch.
Na voz do psiquiatra é feita a revelação da vida de Norman Bates. O jovem estranho, angustiado e solitário, tinha tido um amor incestuoso e possessivo pela mãe. Quando ela arrumou um amante, Norman não suportou, cego pelo ciúme e pela cólera ao ver os dois juntos na cama, ele os envenenou. Sua mente doentia fechou-se em um mundo estranho, onde ele fantasiava ser a própria mãe, vivendo e vestindo-se como ela. No inconsciente da sua mente, ele matava todas as mulheres por quem tinha interesse, como se fosse a mãe a matá-las por ciúmes. Ao voltar do momento do crime, era tomado pelo remorso e pela culpa diante do horror cometido pela “mãe”. Após cada assassínio, ele conversava com a mãe, travando fervorosas discussões. Assim, Norman Bates não matou Marion Crane e Milton Arbogast. Foi a mãe que ele criara na mente quem o fizera.
A última cena do filme mostra o carro de Marion Crane sendo retirado de dentro do pântano. Na mala está o corpo da jovem e quase quarenta milhões de dólares.
Encerra-se um dos mais complexos e brilhantes filmes de todos os tempos. Norman Bates perseguiu para sempre a carreira de Anthony Perkins, tendo ele voltado nos anos oitenta, a interpretar a personagem em filmes de seqüência, pouco expressivos e sem valor estético e artístico como o original. Anthony Perkins jamais despiu o espectro de Norman Bates, sendo a ele associado durante toda a sua carreira.
Janet Leigh não aparece em todo o filme, mas a cena da morte de Marion Crane foi a maior da sua carreira. Foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e ao Globo de Ouro, na mesma categoria.
Alfred Hitchcock, que aparece no filme usando um chapéu de cowboy, faturou prestígio e cinqüenta milhões de dólares nas bilheterias. “Psicose” foi eleito pelo American Film Institute (AFI), como o 18º melhor filme de todos os tempos. É tido como o maior e mais estético do gênero de suspense. É cultuado em todo o mundo por milhares de pessoas. Uma obra prima do cinema!

Ficha Técnica:

Psicose

Direção: Alfred Hitchcock
Ano: 1960
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense
Duração: 107 minutos / preto e branco
Título Original: Psycho
Roteiro: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch
Produção: Alfred Hitchcock
Música: Bernard Herrmann
Direção de Fotografia: John L. Russell
Direção de Arte: Robert Clatworthy e Joseph Hurley
Figurino: Rita Riggs e Helen Colvig
Edição: George Tomasini
Efeitos Especiais: Clarence Champagne
Estúdio: Shamley Productions
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Martin Balsam, John Mclntire, Simon Oakland, Vaughn Taylor, Frank Albertson, Lurene Tuttle, Patrícia Hitchcock, John Anderson, Alfred Hitchcock
Sinopse: Secretária (Janet Leigh) rouba 40 mil dólares para se casar. Durante a fuga, pára em um velho motel, onde é amavelmente atendida pelo dono (Anthony Perkins), mas escuta a voz da mãe do rapaz, dizendo, que não deseja a presença de uma estranha. Mas o que ouve é na verdade algo tão bizarro, que ela não poderia imaginar que não viveria para ver o dia seguinte.

Alfred Hitchcock

Considerado um dos maiores e dos mais geniais diretores de cinema de todos os tempos, Alfred Joseph Hitchcock nasceu em Londres, na Inglaterra, em 13 de agosto de 1899.
Nascido em uma família humilde, o pai, William Hitchcock, vendia frutas e verduras. Ele e os dois irmãos receberam uma rígida educação católica. Os dogmas do catolicismo foram várias vezes questionados psicologicamente em alguns dos seus filmes. Devido à morte do pai, quando tinha 14 anos, foi obrigado a deixar o colégio jesuíta que freqüentava, indo trabalhar como fabricante de cabos na companhia Henley, onde desenvolveu trabalhos de publicidade e design gráfico.
A carreira de Alfred Hitchcock no cinema começou em 1920, quando começou a trabalhar na Famous Players-Lasky, da Paramount Pictures, onde fazia os quadros que apareciam os diálogos do cinema mudo. Ali aprendeu a criar roteiros e a editar filmes. Já em 1922, realizava o seu primeiro filme, “Number 13”, que não chegou a ser concluído. No ano seguinte, foi para Berlim, onde trabalhou na UFA (Universum Film AG), até 1925. Foi neste estúdio que ele realizou o primeiro filme completo, “The Pleasure Garden”, em 1925.
O primeiro grande sucesso viria com “The Lodger: A Story of the London Fog” (O Pensionista), filme de 1927, que se baseava nos crimes de Jack, o Estripador. Era o começo da sua imersão no mundo do suspense. Foi neste filme que fez a primeira aparição em cena, fato que se tornaria uma característica da sua obra.
Viria das mãos de Hitchcock o primeiro filme sonoro britânico, “Blackmail”, em 1929. No ano anterior, tinha nascido a sua primeira filha, Patrícia, fruto do seu casamento com Alma Reville, sua assistente de direção.
Alfred Hitchcock foi ganhando prestígio no cinema britânico, realizando vários filmes de sucesso. Sua obra chamou a atenção de David O. Selznick, que o chamou para trabalhar em Hollywood. Começava a fase norte-americana da carreira de um cineasta grandioso, que seria amado e cultuado no mundo inteiro. O seu filme de estréia nos Estados Unidos foi “Rebecca”, em 1940, já conseguindo nomeação para o Oscar de melhor filme. Assim, vieram sucessivos grandes filmes, que imortalizariam o cineasta. Em 1955, naturalizou-se norte-americano.
Mestre do suspense, o universo cinematográfico de Alfred Hitchcock suscita análises infindáveis e entretenimento de qualidade, fazendo parte do cinema verdadeiro, que mesmo popular, jamais perdeu a veia da arte. O mestre receberia, em 1980, das mãos da rainha Elizabeth II, a KBE da Ordem do Império Britânico, tornando-se Sir Alfred Hitchcock. Quatro meses após ter recebido a condecoração, em 29 de abril, morreria de insuficiência renal, em Los Angeles.

Filmografia de Alfred Hitchcock:

Longa Metragem

1922 – Number 13
1923 – Always Tell Your Wife
1925 – The Pleasure Garden (O Jardim dos Prazeres)
1926 – The Mountain Eagle
1927 – The Lodger: A Story of the London Fog (O Pensionista)
1927 – Downhill
1927 – The Ring (O Ringue)
1928 – Easy Virtue
1928 – The Farmer’s Wife (A Mulher do Fazendeiro)
1928 – Champagne (Champagne)
1929 – The Manxman (O Ilhéu)
1929 – Blackmail (Chantagem e Confissão)
1930 – Elstree Calling
1930 – An Elastic Affair
1930 – Juno and the Paycock
1930 – Murder! (Assassinato)
1931 – The Skin Game
1931 – Mary
1932 – Rich an Strange (Ricos e Estranhos)
1932 – Number Seventeen (O Mistério no Nº 17)
1933 – Waltzes From Vienna (Valsas de Viena)
1934 – The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais)
1935 – The 39 Steps (Os 39 Degraus)
1936 – Secret Agent (Agente Secreto)
1936 – Sabotage (O Marido Era o Culpado)
1937 – Young and Innocent (Jovem e Inocente)
1938 – The Lady Vanishes (A Dama Oculta)
1939 – Jamaica Inn (A Estalagem Maldita)
1940 – Rebecca (Rebecca, a Mulher Inesquecível)
1940 – Foreign Correspondent (Correspondente Estrangeiro)
1941 – Mr, & Mrs. Smith (Sr. e Sra. Smith)
1941 – Suspcion (Suspeita)
1942 – Saboteur (Sabotagem)
1943 – Shadow of a Doubt (A Sombra de uma Dúvida)
1944 – Lifeboat (Um Barco e Nove Destinos)
1945 – Spellbound (Spellbound – Quando Fala o Coração)
1946 – Notorius (Codinome Notorius)
1947 – The Paradine Case (Agonia do Amor)
1948 – Rope (Festim Diabólico)
1949 – Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio)
1950 – Stage Fright (Pavor nos Bastidores)
1951 – Strangers on a Train (Pacto Sinistro)
1953 – I Confess (A Tortura do Silêncio)
1954 – Dial M for Muder (Disque M Para Matar)
1954 – Rear Window (Janela Indiscreta)
1955 – To Catch a Thief (Ladrão de Casaca)
1955 – The Trouble With Harry (O Terceiro Tiro)
1956 – The Nab Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais)
1956 – The Wrong Man (O Homem Errado)
1958 – Vertigo (Um Corpo Que Cai)
1959 – North by Northwest (Intriga Internacional)
1960 – Psycho (Psicose)
1963 – The Birds (Os Pássaros)
1964 – Marnie (Marnie, Confissões de Uma Ladra)
1966 – Tom Curtain (Cortina Rasgada)
1969 – Topaz (Topázio)
1972 – Frenzy (Frenesi)
1976 – Family Plot (Trama Macabra)

Curta Metragem

1929 – Sound Test for Blackmail
1944 – Aventure Malgache
1944 – Bon Voyage
1944 – The Fighting Generation (não creditado)1945 – Watchtower Over Tomorrow (não creditados)


CASABLANCA

Julho 14, 2009

Casablanca”(Casablanca, Estados Unidos, 1942) é um daqueles filmes que foi gerado em cima de grandes coincidências felizes, tornando-se um dos melhores de todos os tempos. Desenhado em cima de um caos absoluto, o roteiro foi escrito em plena locação, na noite anterior em que as cenas seriam gravadas, confundindo os atores, que não sabiam o resultado final daquela confusão da história que se contava; ainda assim “Casablanca” teria um resultado surpreendente, que conquistaria as platéias do mundo inteiro, tornando-se obrigatório aos apaixonados ou não pelo cinema.
Ladeado de histórias e lendas, “Casablanca” foi gravado em plena Segunda Guerra Mundial, em um momento que os Estados Unidos acabara de entrar na guerra e os nazistas pareciam que iria vencê-la. A sua propaganda de guerra é discreta, mas sugere uma esperança tenaz diante daqueles tempos obscuros, onde o homem é sobrevivente graças às alianças que faz, mas em um mundo que tem o domínio repressivo sobre a liberdade e a vida como prêmios, há sempre um patriotismo velado, que emerge quando o caráter é confrontado.
O amor é o principal veículo para que se descubra o caráter. Ele vem com a sombra da guerra como pano de fundo. É resultado dela. Nunca um casal mostrou-se tão belo, apaixonante e carismático na grande tela, como em “Casablanca”. Ingrid Bergman, no esplendor da sua juventude e beleza, revelou-se com um olhar quente, que suga o espectador na emoção daquele amor movido pela guerra. Humphrey Bogart assume um cinismo inteligente, de uma falsa frieza, que vai dilatando-se diante da beleza e da paixão que sente pela personagem da atriz sueca. A química entre ambos é total, levando a platéia às lágrimas quando um Bogart apaixonado abre mão do seu amor para que ela siga ao lado do marido, dizendo “Nós sempre teremos Paris”. O homem frio torna-se o próprio vulcão da grandeza da alma, abrindo mão do seu único contacto com os sentimentos e com o amor, para que a amada alcance um bem maior, muito além da felicidade imaginada a dois.
Casablanca” tem um roteiro que prende o espectador, tem mistério, amor e guerra como ingredientes básicos. Mas tem, principalmente, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. São os dois que conduzem as emoções e as lágrimas da platéia. A beleza daquele casal, emotiva e física, jamais seria repetida no cinema. A cidade marroquina, o Rick’s Cafe, o pianista Sam, a música “As Time Goes By”, os nazistas, a resistência, a guerra, tudo flui para alçar o esplendor de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, que conquistarão para sempre aqueles que os viram juntos. “Casablanca” é o lugar onde Ingrid Bergman e Humphrey Bogart um dia se encontraram e se perderam. É o espetáculo vivo da verdadeira acepção do que é o cinema. “Casablanca” é cinema puro!

O Caos dos Bastidores

Em 2000 “Casablanca” foi eleito o segundo melhor filme da história do cinema pelo conceituado American Film Institut, perdendo apenas para “Cidadão Kane”. Ao contrário do primeiro lugar, feito por um dos mais geniais cineastas, Orson Welles, “Casablanca” foi concebido como mais um filme dentre os inúmeros que a Warner Bros lançava à época. Feito em estúdio, sem maiores ambições artísticas; e, dirigido por Michael Curtiz, um diretor de origem húngara, especialista em sucessos de aventuras, dono de uma filmografia mediana, sem grandes genialidades. Contrariando todas as expectativas, “Casablanca” tornou-se um clássico do cinema, transformando-se em um dos maiores triunfos de Hollywood.
As filmagens de “Casablanca” são cercadas de estranhas histórias de bastidores, muitas se confundem com a verdade e a mitificação do clássico, gerando uma sucessão de grandes coincidências favoráveis que o transformaram em um dos maiores (se não o maior) romances já levados às telas em toda a história do cinema. Lendas ou verdades, fazem dos bastidores das gravações do filme, uma grandiosidade à parte, que não consegue explicar como, em meio ao caos, surgiu uma história tão sublime.
O primeiro cineasta convidado para dirigir o drama, William Wyler, na época no auge do seu prestígio, declinou ao convite. A bela Hedy Lamarr foi escalada para o papel Ilsa Lund, mas recusou diante das condições oferecidas pelo estúdio, que não tinha um roteiro escrito. Também George Raft declinou ao convite de fazer Richard Blaine. Reza a lenda que o êxito do filme “King’s Row” (1941), de Sam Wood, protagonizado por Ronald Reagan e Ann Sheridan, levou aos empresários da Warner Bros a pensar no casal de atores como protagonistas, tendo Dennis Morgan no papel do herói da resistência tcheca, Victor Laszlo.
Elenco e direção só foram definidos quando a Warner Bros pensou em Michael Curtiz como diretor. Curtiz, um exilado do leste europeu, vinha de grandes sucessos realizados para aquele estúdio, como “Capitão Blood” (1935), “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1938), “As Aventuras de Robin Hood” (1938) e “O Lobo do Mar” (1941). Era um realizador mediano, especialista em grandes aventuras que deram o estrelato ao ator Errol Flynn.
Definida a direção, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman foram escalados para protagonistas do filme, transformando-se no mais apaixonado e apaixonante casal do cinema. Paul Henreid relutou em aceitar o papel de Victor Laszlo, temendo comprometer a imagem por considerá-lo um papel pequeno, mas venceu os medos e assumiu um dos melhores papéis da sua carreira.
Os irmãos Julius e Philip Epstein foram chamados para adaptarem livremente, a peça “Everybody Goes to Rick”, de Murray Burnett e Joan Alison. Curiosamente, escreviam os diálogos nos bastidores das filmagens, entregando, durante a noite, as falas que seriam ditas pelos atores no dia seguinte. Segundo boatos de bastidores, a situação aflorava a irritação de Humphrey Bogart, que não sabia o caminho que a sua personagem seguiria no outro dia, o que lhe conferiu o azedume perene na interpretação de Rick Blaine. Mas o estilo mordaz usado pela dupla de roteiristas não agradava aos produtores, que chamaram Howard Koch para escrever o longo flash back que rasga o meio do filme, revivendo os dias felizes de Rick Blaine e Ilsa em Paris. O roteirista redigiu esta parte da trama sem nunca ter lido o que os irmãos Epstein estavam escrevendo, o mesmo acontecendo com os dois irmãos em relação a Koch. Esta intervenção aumentou ainda mais a confusão entre os atores, que se perderam da história, sem saber que rumo tomava o que estavam a filmar.
Mesmo diante do caos das gravações, o filme adquiriu um enredo intocável, de inexplicável coerência criativa. Somando os dois roteiros – dos irmãos Epstein e de Howard Koch – surgiu uma narrativa impressionantemente fluída, quase beirando à perfeição, dando origem ao maior de todos os romances do cinema.

O Reencontro de Rick e Ilsa

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Casablanca, no norte da África, torna-se, diante de uma França ocupada pelos nazistas, um lugar de espionagem e de esperança para os refugiados da guerra, fugitivos do Terceiro Reich, que dali, sonhavam em conseguir documentos para que pudessem assim, chegar a Lisboa, último lugar da Europa longe dos tentáculos de Hitler. De Lisboa, um navio era a última esperança de fuga para a América, longe da guerra.
É nesta atmosfera que se inicia o filme. O americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), um homem amargo e cínico, é proprietário do maior bar de Casablanca, o Rick’s Cafe. Rick é um sobrevivente do mundo. Não se envolve ou se deixa comover pelos conflitos gerados pela guerra. Tem uma relação difícil e polida com o chefe de polícia local, o capitão Louis Renault (Claude Rains). Rick deixa que o seu café seja usado para ajudar fugitivos a obterem salva-condutos para Lisboa, fazendo-o não por questões humanitárias, mas mediante lucros com os frequentadores do seu bar.
Rick é um homem que não acredita em amizade verdadeira, não fala no amor e na paixão, parecendo inatingível aos sentimentos, seu cinismo demarca a troça que faz de todos que lhe ladeiam. Homem frio, jamais bebe no trabalho. Mesmo diante do cinismo latente, a personagem traz os mais inteligentes diálogos já escritos para o cinema. Um exemplo é o diálogo travado entre Rick e Ugarte (Peter Lorre), um grande trapaceiro da região:
-Você me despreza, não? – Pergunta-lhe Ugarte.
-Desprezaria, se pensasse em você. – Responde Rick.
A frase define o caráter cínico, amargo e com um travo de melancolia de Rick Blaine. O motivo de toda a amargura do americano só surge cerca de trinta minutos após o início do filme. Nesses primeiros minutos, várias histórias são cruzadas, esmiuçando o clima que se ergue em Casablanca. Trinta minutos depois, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), entra no bar, e o pianista negro Sam (Dooley Wilson) pára de tocar. Ela reconhece o pianista. Nunca o olhar de Ingrid Bergman foi tão penetrante, de uma cumplicidade quente e singela, desarmado ao mundo, tão úmido e brilhante, quando ela pede, pela primeira vez, para ele tocar “As Time Goes By”. Ao ouvir a música, Rick irrita-se, é uma canção por ele proibida. O seu asco sucumbe diante do sinal secreto de Sam, que lhe mostra Ilsa. A platéia vê tudo no olhar de Rick e de Ilsa, que iniciam um reencontro que emocionaria e levaria milhões de pessoas em todo mundo às lágrimas. Tudo se nos é revelado nos olhares de Rick e Ilsa, sem sabermos nada, sem cruzarmos uma única palavra. A cena e os atores revelam um amor penetrante e infinito.

A Canção Imortalizada, Que Foi Utilizada no Filme por Erro

O reencontro de Rick e Ilsa aparentemente casual, vem tecido de uma longa intriga política e de bastidores de guerra. Antes de rever Ilsa, Rick foi avisado pelo capitão Renault de que o major Heinrich Strasser (Conrad Veidt), membro da Gestapo, viria ao bar como um importante convidado, na tentativa de prender Ugarte, considerado responsável pela morte de dois alemães e por vender salva-condutos para fugitivos de guerra, além de fiscalizar a iminente chegada de um certo Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência tcheca que fugira de um campo de concentração. O oficial nazista apostava que Victor Laszlo viria ao café, acompanhado da esposa, na tentativa de comprar de Ugarte um visto de saída de Casablanca. Durante à tarde, Ugarte é preso pelos nazistas e executado logo a seguir. Antes da prisão, Ugarte deixa os salva-condutos aos cuidados de Rick.
É desta intriga política que Ilsa ressurge do passado de Rick. Ela tinha sido no passado, o grande amor da vida do dono do bar. Viveram um romance em Paris, tórrido e inesquecível, que marcara para sempre as suas vidas. Mas veio a guerra, os alemães marcharam sobre Paris, levando embora os encantos, a beleza e a liberdade da cidade. Diante da invasão nazista, Rick fora obrigado a deixar Paris, pensando em levar Ilsa consigo. Mas ela não o acompanhou, deixando-o seguir sozinho. Abandonado, sentindo-se rejeitado, Rick Blaine seguiu para Casablanca, tornando-se um homem frio e amargurado, vivendo das lembranças do amor de Ilsa, transbordado em um cinismo latente, defensivo e aparentemente definitivo.
Quando Ilsa foi ao bar de Rick, não imaginava que ele era o mesmo Richard de Paris. Ela era a esposa de Victor Laszlo. Vinha em busca da preciosa carta de permissão para que deixasse, ao lado do marido, Casablanca, rumo a Lisboa. Ao deparar-se com Sam, ela reconhece-o, não resiste e pede para que toque a velha canção de amor de outros tempos. Ao ouvir a música, antes de ver Ilsa, Humphrey Bogart empresta à personagem o olhar mais frio, cerrado e seco que se tem notícia, numa existência que transborda a mais tenaz das amarguras. É ao som de uma das mais banais e famosas canções de um certo Herman Hupfeld, “As Time Goes By”, que toda a glória do filme é revelada à platéia, estabelecendo-se todo o conflito que se sucedeu entre os dois anos do imenso amor de Paris e o reencontro em Casablanca. Um flash back fluente revive todo o amor e os fantasmas de Rick e Ilsa, perdidos para sempre nas ruas de Paris.
Curiosamente, “As Time Goes By”, que se tornou uma canção lendária com “Casablanca”, não foi composta para o filme. Diante do caos das gravações, quando Ingrid Bergman fez a cena, a trilha sonora de Max Steiner para o filme ainda não estava pronta. A atriz, que gostava da música, teve que improvisar. Steiner achava “As Time Goes By”, que tinha sido lançada sem sucesso anos antes, banal e sem impacto, de um valor musical menor. Só na montagem do filme é que Michael Curtiz e Max Steiner perceberam que a atriz tinha dito o nome da canção. Sob exigência de Steiner, Curtiz pediu que Ingrid Bergman voltasse às gravações para refazer os diálogos com Dooley Wilson. A atriz retornou aos estúdios, mas havia cortado os cabelos para fazer a personagem de um outro filme, e a cena não pôde ser refeita. Mais uma coincidência de um erro que deu certo e fez de “As Time Goes By” uma canção imortalizada, sem que se consiga imaginar “Casablanca” sem os seus versos e melodia, aqui a dar uma magia única ao romance temporariamente recuperado de Ilsa e Rick.

O Amor Reascende em Casablanca

Antes do reencontro com Ilsa, Rick tinha recebido no seu bar o poderoso major Strasser. O chefe da gestapo confidenciara ao dono do estabelecimento que o seu principal objetivo em Casablanca era prender líderes e membros da resistência, principalmente o fugitivo Victor Laszlo. Rick mantém-se impassível, neutro, para ele pouco importava os nazistas ou os heróis da resistência. Era apenas um sobrevivente, um homem de negócios.
Ao saber que Ilsa Lund é a mulher de Victor Laszlo, Rick Blaine tem consciência dos perigos que o rival corre em Casablanca, sendo a sua prisão e possível fuzilamento uma questão de tempo. O Reencontro dos antigos amantes é marcado pelo ressentimento, pelo ódio da traição e cicatrizes da separação. Mas Ilsa sabe que com a prisão de Ugarte, só Rick Blaine pode ajudá-la. Pede a ajuda do antigo amante, não para si, mas para o marido, que não viverá muito tempo se continuar em território marroquino.
No meio da explosão entre jogos de culpas e cicatrizes, uma Ingrid Bergman sensível, com lágrimas nos olhos a evidenciar-lhe a culpa e o abandono do grande amor, deixa sem fôlego não só um frio e seco Humphrey Bogart, como toda a platéia. Aos prantos, ela reafirma o seu amor por Rick, que nunca o esquecera. Confessa porque o tinha abandonado em Paris. Quando vivera um romance com Rick, ela era casada com Laszlo, que estava preso em um campo de concentração nazista, one ela o julgara morto. Soube que o marido estava vivo no dia que iria deixar Paris ao lado de Rick, por isto não podia sair da Europa e seguir o amado pelo mundo. Se o fizesse, jamais teria paz com a sua consciência.
Tudo que Ilsa quer é salvar o marido. Fazendo-o, ela libertar-se-ia do peso da culpa, podendo seguir Rick para qualquer parte do mundo. Ambos reacendem a paixão. Beijam-se, mostrando-se apaixonados e decididos, vão ficar juntos, após a fuga de Victor Laszlo.

A Marselhesa Vence o Hino Nazista

Mas o mundo vai além da paixão entre Rick e Ilsa. Uma guerra sangrenta é travada nos campos de batalha e nos bastidores políticos. O destino de ambos está seriamente entrelaçado com a guerra e com os seus envolvidos. Victor Laszlo e a mulher são levados ao escritório do capitão Renault, onde são ameaçados pelo major Strasser, que os intimida, na tentativa de que entreguem os nomes de todos os líderes da resistência, só assim sairão com vida de Casablanca. Mas Victor Laszlo responde às ameaças com a sua natural devoção aos ideais de liberdade:
-Se não delatei meus companheiros quando me encontrava preso em um campo de concentração, onde vocês usavam métodos mais persuasivos, não será aqui que vou fazê-lo.
O caráter ideológico e político do filme são desenhados pela luta tenaz de Victor Laszlo. Um dos momentos míticos e criativos de “Casablanca” acontece quando Laszlo interrompe um diálogo intrínseco com Rick, ao ouvir que o oficial nazista encarregado de prendê-lo cantava o introspectivo e sombrio “Die Wacht am Rheim”; e incita os freqüentadores do bar a cantar o hino da França. A beleza romântica e explosiva da “Marselhesa” interrompe o ritmo marcial do hino nazista, trazendo uma emocionante seqüência que culmina com o triunfo do patriotismo sobre a traição, do desafio sobre o silêncio, e da coragem exaltada sobre o medo disseminado. A partir de então não se pode mais ter personagens neutros, há uma guerra sendo travada, não se pode ignorá-la, e as imagens da cena devoram os diálogos, não há palavras, mas a redenção para todas as opressões políticas e sentimentais. O silêncio dos diálogos evidencia a força do hino, que naquele ano de 1942, era um grito quase que arrancado das entranhas. Se nos campos de guerra o terror nazista parecia vencer a resistência, neste momento apoteótico do filme, há uma breve vitória dos oprimidos, refletida no esplendor do hino da França.

Despedida em Casablanca

Nas seqüências finais do filme, Rick Blane decide fugir com Ilsa para Lisboa. Irá usar os salva-condutos de Ugarte, que os possibilitarão deixar Casablanca. Negocia a venda do Rick’s Cafe, e envolve o capitão Renault em uma tramóia de fuga que, aparentemente, prepara uma armadilha para Victor Laszlo.
Ilsa, Rick e Laszlo estão prontos para seguirem para o aeroporto de Casablanca. Ela pensa que só o marido seguirá viagem, e que ao vê-lo a caminho da liberdade, poderá finalmente viver o seu amor com Rick. O que ela não sabe é que Rick só possui duas cartas de trânsito. Um suspense final leva o filme a um novo ápice. O que acontecerá a Laszlo? Quem partirá de Casablanca?
Quando Rick dá as cartas de trânsito para Laszlo preencher, o capitão Renault surge com a ordem de prisão. Ilsa põe-se ao lado do marido, disposta a morrer por ele. Rick percebe que o destino da amada estava ligado para sempre ao de Laszlo, e que os dois devem partir juntos. Inesperadamente, Rick aponta uma arma disfarçada para Renault, impedindo que o líder da resistência fosse preso, forçando o capitão a telefonar para o aeroporto e avisar que dois passageiros irão embarcar para Lisboa. Mas o esperto capitão Renault telefona para o chefe da Gestapo, major Strasser, avisando-o da fuga.
A tensão aumenta. No hangar do aeroporto, um avião está preparado para partir em dez minutos. Rick, Ilsa, Laszlo e Renault chegam ao local de embarque em um carro do governo. Rick ordena que Renault preencha as duas cartas de trânsito em nome do Senhor e da Senhora Victor Laszlo. Só então Ilsa apercebe-se da armadilha do destino. Atônita, ela insiste para que os dois continuem juntos, que não se separem outra vez. Mas um Rick magnânimo sabe que a luta de Victor Laszlo é maior do que a sua paixão por Ilsa. Que o mundo em guerra, precisava muito mais da ideologia dos heróis salvadores do que do amor incondicional dos amantes. A razão dentro daquele mundo de guerra exigia e explicava o sublime sacrifício do amor dos amantes de Paris.
Para Rick, haveria as lembranças de uma felicidade efêmera. “Sempre teremos Paris”, justifica-o à amada. Abre-se a imensidão do adeus que fará chorar o mais frio do espectador. Ambos sabem que terão Paris apenas na memória, jamais uma outra vez. Terão Casablanca apenas na persistência das lembranças do amor perdido. O adeus seria definitivo. Jamais se voltariam a tocar, nunca mais se iriam beijar. Paris e Casablanca permaneceriam por todo o tempo, quando tinham a certeza de que “as time goes by”. Ao lado do marido, Ilsa aceita o sacrifício do amado, partindo, lançando-lhe um último olhar de adeus. Quanto mais se distanciava do amado, aproximando-se do avião, uma lágrima inundava-lhe a beleza instransponível e solitária do rosto. Casablanca fica deserta. Jamais iríamos ver Ilsa-Bergman e Rick-Bogart juntos outra vez.
Rick fica sozinho, com a ameaça do capitão Renault, que lhe garante, irá prendê-lo tão logo o avião parta. Rick Blaine não se importa. Fizera o maior sacrifício da sua vida. Era um novo homem. Ou talvez o antigo, o revolucionário da juventude. A frieza cortante dava passagem para um homem idealista e de ambições humanas mais perenes.
Em um último fôlego, surge o major Strasser, ameaçando telefonar ao hangar para que o avião seja interceptado. Mas Rick saca da arma, ordena-lhe que desista. O chefe nazista consegue sacar de uma arma, ao tentar atirar em Rick, é atingido mortalmente por ele. Há um breve momento de silêncio e tensão. No horizonte, o avião que leva Ilsa e Laszlo distancia-se, rumo a Lisboa.
Imprevisivelmente, o capitão Renault desiste de prender Rick, diz que não há testemunhas, sugere que Rick desaparecera de Casablanca por alguns tempos. O capitão deixa o patriotismo vencer à traição, tão comum na sua França ocupada. Rick e Renault caminham debaixo de um intenso nevoeiro, enquanto o avião desaparece no horizonte.
Encerra-se um dos filmes que, omitindo o caos dos bastidores, tornou-se quase que perfeito. Nos desacertos, foram gerados momentos antológicos do cinema. Nos acertos, reuniu um elenco esplendoroso, com as indicações de Humphrey Bogart e Claude Rains para o Oscar de melhores atores, principal e coadjuvante respectivamente. Triunfante, receberia três Oscars, o de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro. Foi um dos filmes que mais atingiu o coração da platéia que o veio assistir, tornando-se um gigante definitivo cinema mundial.

Ficha Técnica:

Casablanca

Direção: Michael Curtiz
Ano: 1942
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / preto e branco
Título Original: Casablanca
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch, baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison
Direção de Diálogos: Hugh MacHullan
Produção: Hal B. Wallis
Produção Executiva: Jack L. Warner
Música: Max Steiner, M. K. Jerome, Jack Scholl e Herman Hupfeld (As Time Goes By)
Arranjos de Orquestra: Hugo Friedhofer
Direção Musical: Leo F. Forbstein
Direção de Fotografia: Arthur Edeson
Direção de Arte: Carl Jules Weyl
Decoração de Set: George James Hopkins
Figurino: Orry-Kelly
Maquiagem: Perc Westmore
Edição: Owen Marks
Efeitos Especiais: Lawrence Butller e Willard Van Enger
Montagem: Don Siegel e James Leicester
Som: Francis J. Scheid
Consultor Técnico: Robert Aisner
Estúdio: Warner Bros.
Distribuição: Warner Bros. / Metro-Goldwyn-Mayer
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, S. Z. Sakall, Madeleine LeBeau, Dooley Wilson, Joy Page, John Qualen, Leonid Kinskey, Curt Bois
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca, cidade do Marrocos, então protetorado francês, torna-se rota obrigatória de quem estava a fugir das atrocidades dos nazistas. Será em Casablanca que Rick Blane (Humphrey Bogart), dono do maior bar local, irá reencontrar Ilsa Lund (Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado e se perdido em Paris. Nos meandros da guerra, uma história comovente de paixão e sacrifício desenha uma trama empolgante e definitiva. Inesquecível.

Michael Curtiz

Mihály Kertész ficou conhecido no mundo pelo seu nome americanizado, Michael Curtiz. Nasceu em Budapeste, no Império Austro-Húngaro (hoje Hungria), em 24 de dezembro de 1886. Oriundo de uma família judaica, tinha o nome de Manó Kertész Kaminer, substituído pelo pseudônimo de Mihály Kertész quando iniciou a carreira de ator e diretor no Teatro Nacional Húngaro, em 1912.
Segundo o próprio Michael Curtiz, teria fugido da casa dos pais para que se pudesse juntar ao circo. Também costumava gabar-se de ter feito parte da seleção de esgrima nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. De concreto, sabe-se que estudou na Universidade de Markoszy e na Academia Real de Teatro e Arte.
Em 1913, Michael Curtiz seguiu para a Dinamarca, onde passou seis meses no estúdio Nordisk, a aperfeiçoar-se como diretor de cinema. A carreira foi interrompida por algum tempo quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, obrigando-o a fazer parte da artilharia do exército Austro-Húngaro. Retornaria à direção dos filmes em 1915. Por esta época casou-se com a atriz Lucy Doraine, com quem viveu até 1923.
Por conta da nacionalização da indústria cinematográfica do seu país, Curtiz deixou a Hungria em 1919, fixando-se em Viena, onde fez cerca de 21 filmes para o estúdio Sascha-Film. Em 1924 teve o filme “Die Sklavenkönigin”, lançado nos Estados Unidos com o título de “Moon of Israel” (Lua de Israel), atraindo a atenção de Jack Warner, que o contratou para o seu estúdio, a Warner Bros. Assim, em 1928, Curtiz realizou para aquele estúdio “Noah’s Ark” (Arca de Noé).
Nos Estados Unidos, adotou o nome de Michael Curtiz, iniciando uma carreira de grandes sucessos em Hollywood. Por cerca de trinta anos, teve o nome nos créditos de mais de cem filmes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Curtiz teve parte da família enviada para o campo de concentração de Auschwitz. Nesta época realizou grandes sucessos como “O Lobo do Mar” (1941), o mítico “Casablanca” (1942) e “Alma em Suplício” (1945).
Michael Curtiz recebeu quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para Oscar de melhor diretor: “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1939), “A Canção da Vitória” (1943) e “Casablanca”, que lhe deu a estatueta em 1944.
A relação de Curtiz com os estúdios de Hollywood deteriorou-se com o passar dos anos, terminando em uma grande batalha nos tribunais. A partir de 1953, continuou a dirigir como independente. Seu último filme foi “Os Comancheros” (1961), com John Wayne, lançado menos de um ano antes da sua morte. Michael Curtiz morreu vítima de um câncer em 10 de abril de 1962, em Hollywood.

Filmografia de Michael Curtiz:

1912 – Ma És Holnap
1912 – Az Utolsó Bohém
1913 – Rablélek
1913 – Házasodik Az Uram
1914 – Bánk Bán
1914 – Az Éjszaka Rabjai
1914 – Az Aranyásó
1914 – A Tolonc
1914 – A Kölcsönkért Csecsemök
1914 – A Hercegnö Pongyolaban
1915 – Akit Ketten Szeretnek
1916 – Makkhetes
1916 – Farkas
1916 – Doktor Úr
1916 – Az Ezüst Kecske
1916 – A Magyar Föld Ereje
1916 – A Karthausi
1916 – A Fekete Szivárvány
1917 – Zoárd Mester
1917 – Tavasz a Télben
1917 – Tatárjárás
1917 – Halálcsengö
1917 – Egy Krajcár Története
1917 – Az Utolsó Hajnal
1917 – Az Ezredes
1917 – A Vörös Sámson
1917 – A Szentjóbi Erdö Titka
1917 – A Senki Fia
1917 – Árendás Zsidó
1917 – A Kuruzsló
1917 – A Föld Embere
1917 – A Béke Útja
1918 – Varázskeringö
1918 – Lulu
1918 – Lu, A Kokott
1918 – Júdas
1918 – Az Ördög
1918 – A Vig Özvegy
1918 – A Skorpió I
1918 – Alraune
1918 – A Csúnya Fiú
1918 – 99
1918 – A Napraforgós Hölgy
1919 – Liliom
1919 – Jön Az Öcsém
1919 – Die Dame Mit Dem Schwarzen Handschuh
1920 – Boccaccio
1920 – Der Stern von Damaskus
1920 – Die Gottesgeisel
1921 – Miss Tutti Frutti
1921 – Herzogin Satanella
1921 – Frau Dorothys Bekenntnis
1921 – Labyrinth des Grauens
1922 – Sodom und Gomorrha
1923 – Der Junge Medardus
1923 – Die Lawine
1923 – Namenlos
1924 – General Babka
1924 – Ein Spiel Ums Leben
1924 – Harun al Raschid
1924 – Die Sklavenkönigin
1925 – Das Spielzeug von Paris
1926 – Fiaker Nr. 13
1926 – Der Goldene Schmetterling
1926 – The Third Degree
1927 – A Million Bid
1927 – The Desired Woman
1927 – Good Time Charley
1928 – Tenderloin
1928 – Noah’s Ark (A Arca de Noé)
1929 – Glad Rag Doll
1929 – Madonna of Avenue A
1929 – The Gamblers
1929 – Hearts in Exile
1930 – Mammy (Minha Mãe)
1930 – Under a Texas Moon
1930 – The Matrimonial Bed
1930 – Bright Lights
1930 – River’s End
1930 – A Soldier’s Plaything
1931 – Dämon des Meeres
1931 – God’s Gift to Women
1931 – The Mad Genius (O Gênio do Mal)
1932 – The Woman From Monte Carlo
1932 – Alias The Doctor
1932 – The Strange Love of Molly Louvain
1932 – Doctor X (Doctor X)
1932 – The Cabin in the Cotton
1932 – 20.000 Years in Sing Sing (20.000 Anos em Sing Sing)
1933 – Mystery of the Wax Museum (Os Crimes do Museu)
1933 – The Keyhole
1933 – Private Detective 62
1933 – The Mayor of Hell (não creditado)
1933 – Goodbye Again (Mais Uma Vez Adeus)
1933 – The Kennel Murder Case (O Caso de Hilda Lake)
1933 – Female
1933 – From Headquarters (não creditado)
1934 – Mandalay (Capricho Branco)
1934 – Jimmy the Gent (Bancando o Cavalheiro)
1934 – The Key
1934 – British Agent
1935 – Black Fury (Inferno Negro)
1935 – The Case of the Curious Bride
1935 – Go Into You Dance (não creditado)
1935 – Front Page Woman (Miss Repórter)
1935 – Little Big Shot
1935 – Captain Blood (Capitão Blood)
1936 – The Walking Dead (O Morto Ambulante)
1936 – Anthony Adverse (não creditado)
1936 – The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira)
1937 – Black Legion (não creditado)
1937 – Stolen Holiday
1937 – Marked Woman (Mulher Marcada) (não creditado)
1937 – Moutain Justice (Justiça Humana)
1937 – Kid Galahad (Talhado Para Campeão)
1937 – The Perfect Specimen
1938 – Gold is Where You Find It
1938 – The Adventures of Robin Hood (As Aventuras de Robin Hood)
1938 – Four’s a Crowd (Amando Sem Saber)
1938 – Four Daughters (Quatro Filhas)
1938 – Angels With Dirty Face (Anjos de Cara Suja)
1939 – Blackwell’s Island (não creditado)
1939 – Dodge City (Uma Cidade Que Surge)
1939 – Sons of Liberty
1939 – Daughters Courageous
1939 – The Private Lives of Elizabeth and Essex (Meu Reino Por um Amor)
1939 – Four Wives
1940 – Virginia City (Caravana de Ouro)
1940 – The Sea Hawk (O Gavião do Mar)
1940 – Santa Fe Trail (A Estrada de Santa Fé)
1941 – The Sea Wolf (O Lobo do Mar)
1941 – Dive Bomber (Demônios do Céu)
1942 – Captains of the Clouds (Corsários das Nuvens)
1942 – Yankee Doodle Dandy (A Canção da Vitória)
1942 – Casablanca (Casablanca)
1943 – Mission to Moscow (Missão em Moscou)
1943 – This is the Army (Forja de Heróis)
1944 – Passage to Marseille (Passagem para Marselha)
1944 – Janie
1945 – Roughly Speaking
1945 – Mildred Pierce (Alma em Suplício)
1946 – Night and Day (A Canção Inesquecível)
1947 – Life With Father (Nossa Vida com Papai)
1947 – The Unsuspected (Sem Sombra de Suspeita)
1948 – Romance on the High Seas (Romance em Alto Mar)
1949 – My Dream is Yours (Meus Sonhos Te Pertencem)
1949 – Flamingo Road (Caminha da Redenção)
1949 – The Lady Takes a Sailor (Até Parece Mentira)
1950 – Young Man With a Horn (Êxito Fugaz)
1950 – Bright Leaf (Cinzas ao Vento)
1950 – The Breaking Point (Redenção Sangrenta)
1951 – Force of Arms (Quando Passar a Tormenta)
1951 – Jim Thorpe – All-American (O Homem de Bronze)
1951 – I’ll See You in My Dreams (Sonharei Com Você)
1952 – The Story of Will Rogers (A História de Will Rogers)
1952 – The Jazz Singer (O Cantor de Jazz)
1953 – Trouble Along the Way (Atalhos do Destino)
1954 – The Boy From Oklahoma (Aço de Boa Têmpera)
1954 – The Egyptian (O Egípcio)
1954 – White Christmas (Natal Branco)
1955 – We’re No Angels (Veneno de Cobra)
1956 – The Scarlet Hour
1956 – The Vagabond King (O Rei Vagabundo)
1956 – The Best Things in Life are Free (O Encanto de Viver)
1957 – The Helen Morgan Story (Com Lágrimas na Voz)
1958 – The Proud Rebel (O Rebelde Orgulhoso)
1958 – King Creole (Balada Sangrenta)
1959 – The Hangman
1959 – The Man in the Net (A Mulher que Comprou a Morte)
1960 – A Breath of Scandal (O Escândalo da Princesa)
1960 – The Adventures of Huckleberry Finn (As Aventuras de Huckleberry Finn)
1961 – Francis of Assisi (São Francisco de Assis
1961 – The Comancheros (Os Comancheros)


JAMES BOND – DAS PÁGINAS LITERÁRIAS PARA O CINEMA

Junho 25, 2009
Há quase seis décadas que a personagem fictícia James Bond, agente secreto britânico, conhecido pelo código 007, vem conquistando legiões de fãs pelo mundo inteiro. Criado pelo escritor britânico Ian Fleming, James Bond surgiu pela primeira vez, na novela “Cassino Royale” (Casino Royale), publicada em 1953. Em 1962, James Bond chegou ao cinema, através do filme “O Satânico Dr. No” (Dr. No), transformando-se em um ícone das galerias dos heróis do mundo contemporâneo. Desde então, as suas aventuras jamais deixaram as telas de cinema, sendo interpretado por diferentes atores.
O sucesso literário e cinematográfico transformou a personagem em uma grande franquia. Mesmo após a morte de Ian Fleming, as suas aventuras continuaram a ser escritas por vários escritores. No cinema , a franquia continua a produzir grandes sucessos, sem arranhar a imagem do agente secreto, ou mesmo levá-la ao desgaste, façanha só possível pela genialidade criativa dos roteiros e a renovação constante dos intérpretes.
James Bond fascina pela inteligência e astúcia, charme carismático, aventuras perigosas e exóticas, pelas conquistas às mais belas mulheres. De humor sagaz e cavalheirismo incondicional, James Bond é fruto da Guerra Fria. Suas aventuras eram construídas na eterna luta ideológica entre o ocidente e a extinta União Soviética. Cabia a ele, sempre a serviço da rainha da Grã-Bretanha, de quem era súdito devotado, salvar o seu país e o mundo dos tentáculos dos espiões vindo do leste, do perigo comunista sobre o mundo capitalista e, principalmente, da paranóia iminente que assolava a mente de todos, trazendo o medo de uma guerra nuclear entre as potências antagônicas que desenharam os campos de batalhas da Guerra Fria. Por várias vezes James Bond, sozinho, salvou o mundo de uma catástrofe nuclear ou de tramas de espiões sem escrúpulos. Herói absoluto, deveu-se a ele a sobrevivência dos sonhos burgueses do mundo ocidental, e mesmo, da sobrevivência de regimes seculares, como o do Império Britânico.
Com a queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim da Guerra Fria, James Bond parecia destinado a pedir a aposentadoria, e ser esquecido diante da globalização. O cinema levou quase meia década para criar fôlego e fazer dele um sobrevivente da extinção da Guerra Fria. Após a queda do regime dos países do leste europeu, 007 só voltaria às telas em 1995; revigorado e pronto para salvar o mundo dos novos inimigos, os terroristas, os detentores das tecnologias daninhas, enfim, os sucessores dos comunistas. Ainda há muitos perigos que ameaçam a segurança da existência humana no planeta, o mundo está longe de ser perfeito, e 007, com a sua sedução e charme, continua a aparar as arestas dessas imperfeições, salvando sozinho, o planeta, os seus governos e habitantes.

James Bond Torna-se o Agente 007

A saga de James Bond começou através de livros de bolsos, da autoria de Ian Fleming, publicados na Grã-Bretanha na década de 1950. Desde a publicação de “Cassino Royale”, em 1953, as aventuras do agente secreto caíram no gosto dos britânicos, fazendo muitos adeptos desta leitura.
Em seus livros, Ian Fleming descrevia James Bond como um homem viril, moreno, alto e de porte atlético, olhar penetrante e de carisma sedutor. Personagem contemporâneo, tinha entre 33 a 40 anos (quando do lançamento do livro, em 1953), o que se deduz ter nascido em 1920. As datas dão o perfil da personagem de Fleming, nascido após a Primeira Guerra Mundial, passará a infância no prelúdio de paz entre as guerras. Desaguou a juventude na Segunda Guerra Mundial, conflito que deixou profundas feridas na Grã-Bretanha. O pai trabalhava para um fabricante de armas, o que revela os meandros sombrios antes da guerra. Além de vender armas, o pai de Bond gostava de aventuras, sendo morto em um acidente, quando escalava montanhas com a Sra. Bond, uma mulher nascida na Suíça. A origem escocesa do pai de Bond, reza a tradição, teria sido uma homenagem de Fleming a Sean Connery, o primeiro ator a interpretar James Bond no cinema, nascido na Escócia.
Órfão aos onze anos, James Bond passaria por várias escolas tradicionais da Inglaterra, tendo alistado-se na Marinha Real durante a Segunda Guerra Mundial. Este fato reforça a data do seu nascimento citada acima. Será na marinha que Bond ascenderá ao posto de comandante. A passagem de Bond pela Marinha Real não deixa de ser uma lembrança romanceada da vida do próprio Ian Fleming, que teve as carreiras de jornalista e diretor interrompidas pela guerra, fazendo-o parte da reserva de voluntários da Marinha Real, em 1939. Mais tarde, exerceu um cargo administrativo na Inteligência Naval, onde realizava, algumas vezes, missões de campo, como invadir locais para fotografar documentos importantes. Tais experiências foram fundamentais para inspirar Fleming na criação da personagem de James Bond.
Uma outra peculiaridade que diz respeito a James Bond, seria a sua iniciação sexual, aos dezesseis anos de idade, quando perdeu a sua virgindade em Paris.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo foi divido entre duas potências, as ocidentais capitalistas lideradas pelos Estados Unidos e Europa Ocidental, e as comunistas, lideradas pela União Soviética. É neste período que James Bond passará a trabalhar para o Serviço Secreto de Inteligência Britânico (SIS, em inglês), fazendo parte dos serviços de espionagem da Sexta Divisão do Diretório da Inteligência Militar, o MI-6. Feito agente secreto, teve como primeiras tarefas o assassínio de inimigos da Inglaterra, o que lhe deu a designação permanente de agente 00, com licença para matar. Como era o sétimo agente, passou a ser conhecido pelo código 007.

Paralelo Entre James Bond e Ian Fleming

O nome James Bond não foi uma criação original da mente genial de Ian Fleming. Na biografia do autor, reza a tradição que James Bond era como se chamava o autor de “Birds of the West Indies”, livro predileto da esposa de Ian Fleming, e, que falava sobre a ornitologia dos anos 1950. No filme “Um Novo Dia Para Morrer” (Die Another Day), de 2002, há uma alusão ao fato, James Bond (Pierce Brosnan), em uma cena, segura o livro nas mãos.
Após o lançamento de “Cassino Royale”, em 1953, Ian Fleming escreveu anualmente, até a sua morte, quatorze livros tendo James Bond como protagonista, sendo doze novelas completas e dois livros de contos.
Muitas evidências fazem da personagem uma versão romanceada da vida do autor, acrescida de outras pessoas conhecidas. Nomes que se tornaram ícones do universo de James Bond são comuns na biografia de Fleming. Um exemplo era a sua casa na Jamaica, onde se refugiava para escrever os livros com as aventuras de 007, chamada de “GoldenEye”, nome utilizado pelo cinema no filme de 1995, que marcou a estréia de Pierce Brosnan como o quinto James Bond.
Ter um destino aventureiro sempre acompanhou a vida de Ian Fleming. Não se furtou às aventuras quando saiu da marinha, escalando montanhas, nadando com Jacques Cousteau, esquiando, sendo repórter e organizando expedições com amigos para lugares exóticos. Aventuras refletidas nas páginas que desvendavam 007, e as suas missões ao redor do mundo, em lugares exóticos, perigosos e paradisíacos. De Paris à Índia, de Tóquio ao Azerbaijão, passando por ilhas vulcânicas, James Bond percorreu o mundo para viver as suas aventuras, assim como o seu criador, Ian Fleming.
O James Bond dos livros de Ian Fleming traz uma atmosfera mais obscura, com uma visão mais realista da vida, distanciando-se da petulância e charme espontâneo da personagem vista no cinema. Traz um corpo atlético, complementado com as suas perícias em artes marciais. O Bond das páginas dos livros gosta de beber vodka e martini batidos, jamais mexido; não dispõe das grandes armas e dos complementos tecnológicos e científicos dos filmes, utilizando principalmente, a inteligência; é um exímio atirador e, apesar de não gostar de matar, não se sente intimidado ou arrependido quando o tem que fazer, cumprindo sem traumas ou complexos, às missões em que tem a licença para matar.

Os Livros de James Bond Escritos por Outros Autores

Foi na sua casa na Jamaica, que Fleming escreveu “Cassino Royale” e todos os livros com as aventura de Bond. Ali, retirava-se uma vez por ano para criar uma nova aventura do agente secreto mais famoso do mundo. Assim seria até 1964, quando Fleming morreu, vitimado por um ataque cardíaco. Tinha deixado doze livros. Após a sua morte, seus herdeiros publicaram dois livros sobre James Bond, “O Homem com Revólver de Ouro” (1965) e o livro de contos “Octupussy and The Living Daylights” (1966).
Com a morte de Ian Fleming, 007 tornou-se uma personagem de franquia. Seus herdeiros deram licença para que outros escritores criassem novos livros com as aventuras de James Bond. Assim, Kingsley Amis, amigo de Fleming, escreveu, sob o pseudônimo de Robert Markham, “Colonel Sun”, em 1968. Em 1973, John Pearson fez um livro como se fosse uma biografia do agente secreto, “James Bond: The Authorised Biography of 007”. John Edmund Gardner tomaria para si a missão de manter as aventuras de Bond, escrevendo quatorze livros de 1981 a 1996, aposentando-se por problemas de saúde. Raymond Benson deu seqüência à saga, escrevendo seis novelas e três contos, publicados em nove livros, de 1997 a 2002. Em 2008, devido às comemorações do centenário do nascimento de Ian Fleming, foi autorizado um novo livro sobre James Bond, escrito por Sebastian Faulks, “A Essência do Mal”, lançado em maio de 2008.

Os Vilões e os Aliados

O mundo que James Bond transita é complexo, movido pelos meandros dos jogos políticos e da espionagem estratégica. A vida do agente secreto é entrelaçada às missões e a diversas personagens, entre elas os aliados de trabalho, os mais temíveis vilões e as mais belas mulheres.
Se James Bond é um espião especial, além do comum, os seus inimigos ou aliados, não lhe ficam atrás. Entre os vilões mais expressivos, inesquecíveis do imaginário de 007, podemos destacar:
Ernst Stavro Blofeld – Líder da organização SPECTRE (Executiva Especial para Contra-Inteligência, Terrorismo, Vingança e Extorsão), sonha em dominar o mundo. É um homem calvo, com uma grande cicatriz na face. Apesar de uma fisionomia invulgar, Blofeld é mestre em disfarçar o rosto com maquilagens, máscaras, e até cirurgias plásticas. É reconhecido pelo seu apego a um gato persa. Foi este vilão o responsável pela morte de Tereza di Vicenzo, única mulher de James Bond.
Dr. Julius No – Cientista especializado em bombas atômicas, não possui as mãos, perdidas em um acidente.
Auric Goldfinger – Um dos mais cruéis vilões da saga de 007. É um reles contrabandista internacional e, simultaneamente um membro da SMERSH, uma agência de espionagem russa. Ao contrário dos agentes ocidentais, fiéis ao governo do seu país, os vilões comunistas das aventuras de Bond vendem a fidelidade à pátria pelo poder e glória do dinheiro. Goldfinger é obcecado por ouro e tem como comparsa o terrível Oddjob.
Max Zorin – É um perverso psicopata criado com a engenharia genética.
Dente de Aço – Um dos inimigos mais exótico e perigoso, dono de uma força incomum e ferocidade exacerbada. Traz dentes de aço na boca.
006 – Antigo agente do MI-6, que se vendeu para os inimigos da Rainha, traindo o seu país e os companheiros. Tornou-se um grande inimigo de 007.
Deixando os inimigos, vamos encontrar diversos aliados, cada um mais especial do que o outro, dotados de inteligência e segurança complementar, que ajudaram Bond a concretizar positivamente as suas missões. Entre os principais aliados estão:
M – Chefe do MI-6. Durante as aventuras de Bond, ele já trabalhou com vários Ms, que já foi um homem, outras vezes uma mulher. Trazem sempre o mesmo perfil, admiram James Bond, apesar de achá-lo frívolo e irresponsável em sua vida e hábitos pessoais.
Q – Chefe do Escritório Q, a divisão de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento do MI-6. Q era o responsável pelos artefatos geniais que James Bond utilizava em suas missões. Ele sempre reclamava ao agente, para que não estragasse os seus sofisticados, caros e originais experimentos, no que nunca foi atendido. Durante anos Q foi único, só sendo substituído após a sua morte, por seu assistente R.
Money Penny – Assistente direta de M, é uma mulher recatada, embora fascinada por James Bond e por suas aventuras com as mulheres. Está sempre a duelar e flertar verbalmente com 007, mas nunca ultrapassa os limites de colega de trabalho do agente, exercendo com eficácia as suas obrigações profissionais.
Felix Leiter – Principal ajudante de Bond em suas missões de campo, tendo prestado os seus auxílios ao agente em cerca de oito missões.

James Bond no Cinema

Quando saltou das páginas dos livros para o cinema, James Bond tornou-se a personagem mais duradoura e de sucesso da sétima arte, constituindo uma mítica com várias tradições, exigidas sempre pelos milhões de expectadores que formam o seu público por todo o mundo.
A primeira aparição do agente secreto 007 diante de uma câmera foi numa fracassada série de televisão, que não passou do piloto. “Cassino Royale”, baseado no livro de Ian Fleming, foi produzido em 1954, pela CBS, tendo Barry Nelson como James Bond.
Em 1962, Ian Fleming teve o seu agente secreto adaptado para o cinema. Produzido por Harry Saltzman e Albert Broccoli, “O Satânico Dr. No” (Dr. No), estreou com grande sucesso. Trazia Sean Connery como James Bond, a personagem colar-se-ia a pele do ator, estigmatizando-o por quase uma década. Os produtores eram donos da produtora EON (Everything or Nothing), mediante o sucesso do primeiro filme, tornaram-se detentores dos direitos cinematográficos de quase toda a obra escrita por Ian Fleming. Os filmes de James Bond produzidos pela EON são os únicos considerados oficiais. Apenas três filmes não foram produzidos por esta produtora, sendo classificados como não oficiais: “Cassino Royale”, piloto para a televisão, feito pela CBS. Em 1954; “Cassino Royale”, uma paródia de 1967, e, “Nunca Mais Outra Vez”, de 1983, refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica”.
Albert Broccoli e Harry Saltzman já são falecidos. Em 1975, Saltzman abandonou a franquia dos filmes. A filha de Albert Broccoli (falecido em 1996), Barbara Broccoli, e o seu meio irmão, Michael G. Wilson, passaram a produzir os filmes de James Bond a partir de 1995.
Desde a estréia no cinema, James Bond foi interpretado, nos filmes oficiais, por seis atores diferentes: Sean Connery (1962-1971, com intervalo em 1969), atuou em seis filmes (o sétimo, em 1983, não pertence aos filmes oficiais).; George Lazenby (1969), atuou em apenas um filme; Roger Moore (1973-1985), atuou em sete filmes, sendo o que ficou mais tempo a viver a personagem; Timothy Dalton (1987 – 1989), fez apenas dois filmes; Pierce Brosnan (1995-2002), atuou em quatro filmes; e, Daniel Craig, interpretando o papel desde 2006, já com dois filmes feitos. De Sean Connery a David Craig, cada ator adaptou a imagem e o corpo de James Bond ao tempo em que o interpretaram, sem jamais perder a essência do seu charme sedutor.
Houve ainda, a atuação de David Niven, em “Cassino Royale”, como James Bond, em 1967, produção que não faz parte dos filmes oficiais. Ironicamente, David Niven era o ator que Ian Fleming queria para interpretar a personagem por ele criada, devido ao seu porte de eterno cavalheiro.

Características Imprescindíveis dos Filmes de James Bond

Quando lançado, em 1962, “O Satânico Dr. No”, o primeiro filme de James Bond, teve uma aceitação instantânea. Aconteceu no ano em que a Guerra Fria quase chegou a uma catástrofe nuclear, com a crise deflagrada entre os Estados Unidos e a União Soviética por causa dos mísseis de Cuba. Nada mais oportuno do que um filme no qual o herói salvava o mundo do perigo atômico. Sean Connery, até então, um ator pouco conhecido, foi transformado em um ícone do cinema dos anos 1960.
A euforia causada pelo primeiro filme, moldou as características que os todos os outros viriam ter, tornando-se imprescindível sofisticá-las, sem nunca abandoná-las.
A primeira marca da filmografia de 007 vinha logo na abertura do filme, com uma vinheta inovadora, que apresentava dentro de um círculo James Bond de perfil, caminhando tranqüilamente, a vestir elegantemente um terno e a trazer um chapéu. De repente ele saca de uma arma, olha de frente e atira, sendo a imagem coberta por um efeito gráfico de uma cor vermelha. Esta vinheta persiste até os dias atuais. George Lazenby é o único que ao virar-se de frente, ajoelha-se e atira. James Bond perde o chapéu em 1973, com Roger Moore. Pierce Brosnan caminha mais apressado, fica totalmente ereto, sem arquear as pernas quando atira. O desenho gráfico da vinheta alterou-se significativamente com Daniel Craig.
Um filme de James Bond traz sempre uma ação acelerada, que após a vinheta, inicia-se veloz, com perseguições e saltos ousados, mostrando 007 a safar-se de um grande perigo, antes de desaguar na bela canção de apresentação dos créditos. O agente secreto salta do alto de montanhas, dos prédios, combate corpo a corpo, escapa aos tiros, tem pontaria certeira quando acossado pelo inimigo, com saídas espetaculares de último instante, ajudado por um artefato tecnológico de Q (ou R), dado logo no início. Combates mortais, perseguições de automóveis, barcos ou aviões, tudo serve para manter a tradição da ação. Bond é capaz de destruir toda uma cidade dentro de um tanque, e sair penteado, elegante, sem um arranhão ou poeira que lhe venha a ofuscar o charme.
A beleza visual reflete-se nos ternos elegantes que o agente usa, nos carros de luxo que ele dirige, que podem ser uma Ferrari ou uma Lótus Esprit. Dirige por estradas sinuosas e de belas paisagens, como as da riviera francesa e italiana, ou por exóticos locais tropicais. Freqüenta luxuosos hotéis e cassinos, assim como praias de raras belezas. Esteticamente, tudo é belo nos filmes de James Bond, das roupas ao agente, dos locais às mulheres. Só os vilões são feios, mas exóticos.
James Bond não se preocupa com a política ou com as ideologias do mundo, tem apenas que cumprir a missão para a qual foi destinado, fazendo-o com um humor sofisticado e irônico, fundamental para a composição do seu caráter. É sedutor e lânguido, causando impacto nas mulheres que conquista, com insinuações sexuais verbais, sem nunca ter cenas mais quentes de sexo e nudez, tudo é sugerido, jamais explorado explicitamente.
Além dos vilões exóticos e aliados eternos, um verdadeiro filme de James Bond traz a sua opositora, aquela que lhe fará tremer, causando-lhe grandes problemas quando estiver irremediavelmente atraído por ela. É a bond-girl, com quem o herói dividirá a aventura e o romance do filme. Ser uma bond-girl traz sempre prestígio para a atriz que a interpreta, o que suscita grande expectativa diante da escolha de uma intérprete, sendo tão importante quanto à escolha do próprio ator que viverá um novo James Bond. A bond-girl será o elo do agente secreto com a sensibilidade, tornando-o terno e apaixonado. As mais famosas bond-girls foram vividas pelas atrizes: Ursula Andress, Diana Rigg, Jane Seymour, Honor Blackman, Kim Basinger, Barbara Carrera, Mary Stavin, Maryam D’Abo, Halle Berry e Teri Hatcher.
As trilhas sonoras dos filmes de James Bond constituem grandes momentos, principalmente com a canção tema, que gerou clipes míticos, muitos inesquecíveis.

Os Intérpretes de James Bond

Sean Connery foi o primeiro a interpretar James Bond. Ian Fleming era contra que o ator fizesse o papel, vendo no britânico David Niven, o ator perfeito para dar rosto à personagem que criara nos livros. Sean Connery, um ator escocês, trazia uma sensualidade máscula que sabia impregnar muito bem na composição de James Bond. Foi a personagem de Fleming que fez de Sean Connery um astro. A vinculação da imagem do ator com a da personagem limitou, por muitos anos, que ele representasse papéis diferentes. Sean Connery, que tinha maiores ambições para a sua carreira, sentiu-se incomodado em fazer sempre a mesma personagem. Após fazer cinco filmes, ele deixou a série, sendo substituído por George Lazenby, em 1969. O público rejeitou o novo intérprete, e Sean Connery voltou a interpretar 007 em 1971, no mítico “Os Diamantes São Eternos”. Após o filme, deixou de vez a pele de James Bond, prometendo não mais interpretá-lo. Sean Connery tornou-se o intérprete de James Bond mais cultuado pelos fãs, que não se conformavam por ele ter abandonado a série. Em 1983, voltaria a viver, pela sétima vez, James Bond, no filme “007 – Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again), o título era um trocadilho irônico com as palavras de Sean Connery, que no passado tinha dito, “nunca mais” a James Bond. Nada mais era do que uma nova versão de “007 Contra a Chantagem Atômica” (Thunderball), que o próprio Connery protagonizara, em 1965. Esta volta atendeu a uma grande expectativa dos fãs. O filme não foi produzido pela EON, sendo considerado apócrifo à série, tendo, na época, gerado grande polêmica por causa dos direitos autorais. A imagem envelhecida de Sean Connery, o ator já estava calvo, tendo que usar peruca, quase arranhou a mítica que se gerara ao seu redor como o intérprete favorito de James Bond. Desde então, jamais se pediu para que o ator voltasse a viver James Bond. O tempo e a idade, convenceram os fãs de James Bond-Sean Connery, de que era hora de aposentá-lo. O agente secreto de Sean Connery era bem próximo à personagem descrita nos livros de Ian Fleming, com a exceção do humor que o ator emprestou ao agente, tornando-o menos obscuro.
George Lazenby, um ator australiano, foi escolhido para substituir Sean Connery, em 1969, no filme “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty’s Secret Service). O ator tinha na bagagem apenas um filme italiano desconhecido e algumas aparições em comerciais de televisão. Foi escolhido pela semelhança com Sean Connery, que vista à luz do tempo, é praticamente inexistente. Acostumados com o James Bond de Connery, os fãs de 007 rejeitaram George Lazenby, ridicularizando-o. O ator, segundo algumas versões, não quis fazer o filme seguinte, alegando que James Bond era anacrônico diante do mundo que se desenhava, como o do festival de Woodstock, ou ainda, estaria preso a um contrato de quatorze filmes, e não queria viver a mesma personagem tantas vezes . Outra versão, a mais aceita e comentada, aponta para os produtores, que não ficaram satisfeitos com o resultado de bilheteria alcançado pelo filme, dispensando o ator logo a seguir. George Lazenby desapareceu do mundo do cinema desde então, destacando-se em papéis pouco marcantes na televisão. Apesar de ser o James Bond menos apreciado pelos fãs, a interpretação de George Lazenby é perfeita, em um filme demasidamente longo, mas com uma das melhores histórias de James Bond no cinema.
Roger Moore, em 1973, assumiria o papel de James Bond, sendo o interprete que demorou mais tempo a viver a personagem. Há versões de que Moore era o ator cotado para interpretar James Bond antes da escolha recair sobre Sean Connery, em 1962, mas ele, por compromissos com outros trabalhos, não pôde aceitar na época. O ator tirou a ironia impregnada por Sean Connery ao agente de sua majestade, transformando-o em um homem mais bondoso, com uma atmosfera de maior felicidade. Perdeu um certo cinismo insinuante do primeiro intérprete de 007. O longo tempo que Roger Moore interpretou James Bond, até 1985, deixou marcas indeléveis na personagem, provocando-lhe um desgaste na imagem, que perdia o prumo diante do envelhecimento a olhos vistos do ator. Roger Moore deixou a série aos 58 anos de idade, o que roubou todo o frescor juvenil da personagem. Nesta época os efeitos especiais sofisticavam-se, e com eles, a ousadia dos roteiros, como utilizar mais elementos da ficção científica. 007 entrou, na época, no mundo das aventuras espaciais, seguindo a tendência do mercado de filmes da segunda metade da década de 1970.
Timothy Dalton tornou-se, em 1987, o quarto James Bond. O ator tirou as rugas da personagem, impregnadas por Roger Moore e Sean Connery, na sua volta em 1983. Era a volta às origens literárias de James Bond, visto que Roger Moore descaracterizara-o ao viver aventuras cada vez mais distantes das propostas por Ian Fleming. Timothy Dalton, um ator britânico de formação shakespeareana, era um profundo conhecedor da obra de Fleming, o que lhe ajudou na composição da personagem. Num primeiro plano, o ator deu uma lufada na imagem de Bond, emprestando-lhe um certo aspecto sombrio e cínico. Estreado em 1987, “007 Marcado para a Morte ” (The Living Daylights), deparava-se com a época em que o mundo era assolado pela calamidade da Aids, doença que ainda não tinha tratamento e ceifava milhares de vida. Para seguir uma linha politicamente correta, o filme trazia um 007 menos envolvido em aventuras amorosas promíscuas. Poucas insinuações ao sexo foram feitas, pois o lema do momento era ser mais fiel, pois a Aids existia. Timothy Dalton atuou em dois filmes, sendo o segundo, de 1989. Foi nesta época que a Perestroika começava a fazer ruir o império soviético, cair muro de Berlim e extinguir a Guerra Fria. Os novos ventos da história traziam 007 de volta ao ocidente, sem função, praticamente aposentado, não havia mais comunistas para combater. Os filmes do agente ficariam parados por seis anos.
Pierce Brosnan foi, em 1995, o escolhido para viver James Bond, retomando a saga dos seus filmes, parada desde 1989. Uma das causas desse intervalo prolongado seria por causa da franquia, que se emperrara nos direitos autorais. Mas a verdade é que James Bond era fruto da Guerra Fria, com o seu fim, era preciso revigorá-lo, traçar-lhe um novo rumo e objetivos que lhe dessem sentido às aventuras. Pierce Brosnan era o ator favorito de Albert Broccoli para substituir Roger Moore, mas um contrato prendia o ator a uma série de sucesso na televisão, “Remington Steele”, da NBC, obrigando-o a declinar do convite, em 1987. Pierce Brosnan conquistou os fãs mais jovens de 007, que não viveram a idolatria a Sean Connery, tornando-se o ator preferido como intérprete de James Bond. O ator aflorou o sorriso cínico e inteligência mordaz de 007, desenvolvendo a personagem aos moldes da sua imagem, sem perder o caminho original dos livros de Fleming. Pierce Brosnan interpretaria James Bond quatro vezes, permanecendo até 2002. Foi poupado de uma possível decadência física na pele do agente secreto britânico. É o preferido dos fãs mais jovens de 007.
Daniel Craig tornou-se, em 2006, o sexto ator a interpretar James Bond. A escolha de Craig causou grandes protestos e a indignação dos fãs do agente, visto que o ator é loiro, e de baixa estatura. Apesar dos protestos, “Cassino Royale” foi um grande sucesso. O primeiro James Bond louro não arranhou a imagem do herói, o que deu passaporte para Craig viver, em 2008, a sua segunda aventura na pele de James Bond, no filme “Quantum of Solace”. Daniel Craig teria assinado contrato para fazer três filmes. Deu à imagem de 007 um ar frio, sem que lhe fosse tirado o prumo e cavalheirismo perene.
James Bond venceu não só diversos vilões, como a limitação do tempo em que foi criado, ultrapassando as tramas que envolviam a Guerra Fria, atualizando-se, sendo modernizado pelos roteiristas, tornando-se uma personagem do século XXI, apesar de moldar-se nas características do passado. Foram-lhe criados novos inimigos, arrancados das novas conjeturas ideológicas que se debruçam sobre o mundo, sem que se lhe elimine os elementos fundamentais e intocáveis. Se os seus intérpretes envelhecem, 007 tem o fascínio sedutor da juventude eterna, afinal ele é “Bond, James Bond”.

James Bond na Literatura

Livros Originais de Ian Fleming

1953 – Cassino Royale
1954 – Viva e Deixe Morrer
1955 – Moonraker
1956 – Os Diamantes São Eternos
1957 – Moscou Contra 007
1958 – 00 Contra o Satânico Dr. No
1959 – Goldfinger
1960 – Apenas Para Seus Olhos (contos)
1961 – Thunderball
1962 – O Espião que me Amava
1963 – A Serviço Secreto de Sua Majestade
1964 – Your Only Live Twice
1965 – O Homem com o Revólver de Ouro
1966 – Octopussy and The Living Daylights (contos)

Livro de Kingsley Amis (Robert Markham)

1968 – Colonel Sun

Livro de John Pearson

1973 – James Bond: The Authorised Biography of 007

Livros de John Edmund Gardner

1981 – Licença Renovada
1982 – Serviços Especiais
1983 – Missão no Gelo
1984 – Questão de Honra
1986 – Ninguém Vive para Sempre
1987 – Sem Acordos, Mr. Bond
1988 – Scorpius
1989 – Vença, Perca ou Morra
1990 – Brokenclaw
1991 – O Homem de Barbarossa
1992 – A Morte é Eterna
1993 – Nunca Envie Flores
1994 – Mar de Fogo
1996 – Cold

Livros de Raymond Benson

1997 – Blast From the Past (conto)
1997 – Zero Menos Dez
1998 – Os Fatos da Morte
1999 – Midsummer Night’s Doom (conto)
1999 – Live at Five (conto)
1999 – High Time to Kill
2000 – Doubleshot
2001 – Never Dream of Dying
2002 – O Homem com a Tatuagem Vermelha

Livro de Sebastian Faulks

2008 – A Essência do Mal

Filmografia de James Bond

Filmes Oficiais

1962 – O Satânico Dr. No (Dr. No) – Com Sean Connery
1963 – Moscou Contra 007 (From Rússia With Love) – Com Sean Connery
1964 – 007 Contra Goldfinger (Goldfinger) – Com Sean Connery
1965 – 007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball) – Com Sean Connery
1967 – Com 007 Só se Vive Duas Vezes (You Only Live Twice) – Com Sean Connery
1969 – 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service) – Com George Lazenby
1971 – Os Diamantes são Eternos (Diamonds are Forever) – Com Sean Connery
1973 – Com 007 Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die) – Com Roger Moore
1974 – 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro (The Man With the Golden Gun) – Com Roger Moore
1977 – O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me) – Com Roger Moore
1979 – 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker) – Com Roger Moore
1981 – 007 Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only) – Com Roger Moore
1983 – 007 Contra Octopussy (Octopussy) – Com Roger Moore
1985 – 007 na Mira dos Assassinos (A View to a Kill) – Com Roger Moore
1987 – 007 Marcado para a Morte (The Living Daylights) – Com Timothy Dalton
1989 – 007 – Licença para Matar ( Licence to Kill) – Timothy Dalton
1995 – 007 Contra GoldenEye (GoldenEye) – Com Pierce Brosnan
1997 – 007 – O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies) – Com Pierce Brosnan
1999 – 007 – O Mundo não é o Bastante (The World is Not Enough) – Com Pierce Brosnan
2002 – 007 – Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day) – Com Pierce Brosnan
2006 – 007 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Daniel Craig
2008 – 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) – Com Daniel Craig

Filmes Não Oficiais

1954 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Barry Nelson
1967 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com David Niven
1983 – 007 – Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again) – Com Sean Connery


A FESTA DE BABETTE

Junho 19, 2009
No fim dos anos oitenta o cinema dinamarquês passou a estar em evidência, deixando o registro de duas obras-primas: “Pelle, o Conquistador” e “A Festa de Babette”. Distanciando-se de uma Dinamarca contemporânea, os dois filmes, situados no século XIX, mostram um país fechado em suas limitações econômicas, na pobreza vigente de um povo e na riqueza humana, deflagrando personagens sublimes e inesquecíveis.
Filme dirigido por Gabriel Axel, “A Festa de Babette” (Babettes Gaestebud), 1987, foi inspirado no livro homônimo de Karen Blixen – pseudônimo da escritora dinamarquesa Isak Dinesen, alcançando grande sucesso internacional, recebendo vários prêmios, entre eles o Oscar de melhor filme de língua estrangeira.
A Festa de Babette” é um desses filmes que se nos impregna na memória, rasga a nossa pele indiferente, tornando-se reféns da sensibilidade e da emoção. A chave do seu segredo e dos das personagens está à mesa, em um jantar, na comida que se serve. Somos confrontados com um dos momentos de maior prazer do ser humano, o da comida, tantas vezes esquecido ou sublimado. É no banquete de Babette que se revela a vida esquecida das personagens, quer no passado ou em um sonho atrás da porta. É no prazer do gosto, do cheiro de tão atraentes pratos servidos, que quase sentimos o aroma espalhado pela platéia, que se descobre que a vida não é linear, que o cotidiano milenar pode ser interrompido a qualquer momento, revelando não só as obrigações sociais e religiosas de uma existência, como as surpresas do eu adormecido, dos sonhos do que se pretendeu ser e do que nos tornamos.
Babette, uma mulher marcada pela tragédia política do seu tempo, perde tudo, o marido, o filho, a pátria, a profissão de cozinheira de um sofisticado restaurante francês. Exilada na Jutlândia (Dinamarca), ela serve a duas irmãs solteironas, humildes, que não podem pagar pelos seus serviços. Mas Babette resigna-se, precisa apenas sobreviver, sem nunca perder a sua essência. Será ela quem trará para as vidas que a cerca, o momento da redenção ao prazer de viver. Será ela quem gastará uma pequena fortuna, a última da sua vida, em um faustoso jantar, no qual volta, por um dia, a ser ela mesma, despida da mulher exilada e sem raízes.
A Festa de Babette” é uma alegoria de cores pinceladas da rendição humana ante ao sonho e às surpresas da vida, decifradas nos pratos, nos cheiros, nos temperos de um jantar magnificente. É um momento que aguça todos os sentidos da platéia, maravilhada e pronta para degustar cada cena, cada imagem, cada personagem, num dos filmes mais sensíveis de todos os tempos.

Babette Refugia-se em Uma Aldeia da Dinamarca

Numa aldeia de pescadores na península da Jutlândia, no norte da Dinamarca, vivem as irmãs Philippa (Bodil Kjer) e Martina (Brigitte Federspiel), mulheres que chegaram à meia idade desprovidas das vaidades e das paixões. Filhas de um pastor tido na região como um profeta, fundador de uma seita, elas dedicaram a vida e a juventude em concretizar o sonho de pregação do pai, abdicando do amor, das paixões, do casamento e de uma família.
No universo das duas senhoras, inicia-se o filme, com uma voz feminina, em off, acompanhando a câmera, que mostra o andar compassado, de braços dados, das mulheres. Elas trazem nos rostos a expressão suave da bondade e da serenidade de vidas desprovidas dos arroubos passionais e das vaidades materiais. Saem de casa levando cestas nos braços, sendo acompanhadas pela câmera e pela voz em off, transitando pelas casas simples de uma aldeia.
Philippa e Martina, nomes dados em homenagem aos líderes históricos religiosos Felipe Melanchton e Martinho Lutero, gastam o pouco que têm com trabalhos beneficentes, apoiando idosos que não se podem sustentar. Por trás dos seus corpos envelhecidos e mentes bondosas, existiram no passado, duas mulheres de beleza singular, que fechados em um recato imposto pelo pai, não iam às festas ou às reuniões da aldeia. A beleza singela das duas atraía aos rapazes da aldeia, que freqüentavam o culto só para vê-las. Pretendentes não lhes faltaram, mas a todos o pai afastara, pois tinha destinado as filhas para o seu sacerdócio, para ajudantes do seu ministério, achando o casamento e o amor como fúteis frivolidades diante da santidade herdada da divindade de Deus. Assim, um a um, o pastor afastou os pretendentes das filhas, que aceitaram resignadas o destino escolhido pelo pai. Perderam a juventude, sozinhas e solteironas, abrindo as suas vidas para a caridade e a casa para o encontro das pessoas, onde podiam interpretar a palavra de Deus, honrando o espírito do pai, que mesmo depois de morto, continuava presente na vida religiosa de todos.
O cotidiano das duas irmãs será rompido, quando lhes bate à porta Babette (Stéphane Audran). Numa noite chuvosa, chega-lhes a elegante mulher francesa, fugitiva da guerra civil que se abatera sobre a França, em 1871. No furor da guerra, Babette perdera o marido e o filho, executados por suas posições políticas. A ela restara apenas a fuga. Recomendada por um amigo das irmãs Martina e Philippa, refugia-se como empregada na casa delas, passando a viver humildemente, oferecendo os seus trabalhos em troca de abrigo e de uns poucos vinténs. Babette é uma sobrevivente, resignada em um mundo distante do que sempre vivera. Mas a sua verve humana transformará o cotidiano das irmãs e dos que se lhe ladearam durante décadas, movidos pela força linear de um destino considerado imutável. Babette quebrará o que parece ser incondicionalmente linear na vida.

Personagens Reluzidos Pelos Silêncios

Aos poucos, a voz em off faz o contacto entre o espectador e o espaço temporal do filme, deixando que as imagens na tela encontrem o seu momento no tempo, descortinando em flash-back, memórias fragmentadas de vidas esquecidas em algum lugar da sala, do quarto, do passado.
A câmera desperta a cumplicidade de quem a segue, induzindo-nos ao universo cotidiano dos habitantes daquela aldeia de pescadores, volvida na suavidade bucólica dos costumes seculares.
Movidas pelo silêncio das personagens, as imagens compõem, em flash-back constante, o preenchimento desses vazios silenciosos. Passado e presente estimulam a imaginação do espectador, que faz com liberdade permitida, uma leitura própria de cada personagem.
Além das duas irmãs, outras personagens menores, mas igualmente fundamentais na história, são reveladas, como a do velho General Lorenz Lowenhielm (Jarl Kulle), que quando jovem vivia uma vida desregrada, sem perspectivas morais ou futuras, obrigando o pai a enviá-lo para a fazenda de uma tia, próxima à aldeia das irmãs. Ao exilar-se naquela fazenda, o jovem oficial refletia a sua vida, quando foi surpreendido, durante um passeio a cavalo, pela presença mágica da jovem Philippa. Movido por uma doce paixão, ele consegue que a tia o introduza na casa do severo pastor, participando das reuniões e das orações. A partir de então, Lorenz interfere no coração de Philippa, mas a determinação do pai em fazer dela uma mulher devota, sem os vícios da carne ou das tradições do matrimônio, afasta-a de um possível futuro ao lado do jovem. Lorenz passa a ver a amada como uma visão de uma vida futura, mais pura, fundamental para as mudanças no seu ser. O amor juvenil interrompido entre ambos não gerou a dor, a frustração, mas nunca abandonou a sensação de uma perda qualquer.
Os silêncios das personagens rompem-se em cada flash-back, como se procurasse o enredo, a verdadeira história perdida de cada um. Cortes freqüentes e seqüências rápidas, descortinam mais vidas, como a do cantor lírico Achille Papin (Jean-Philippe Lafont), que após encontrar a fama e o sucesso, percorrer vários lugares em turnês, encontra na costa da Jutlândia um momento de paz e descanso. Ali conhece a bela Martina, que lhe fascina pela voz e pela delicadeza. Fascinado, Achille consegue convencer o pastor a deixar que dê aulas de canto à filha, para que ela desenvolva o dom a serviço da pregação. Assim como Philippa, Martina será separada de uma vida futura com Achille em nome dos ideais religiosos do pai. Lorenz e Achille deixaram, em determinado momento do passado, de fazer parte do universo das irmãs, seguindo a vida, que não é reta e nunca pára. Ao deixar de conviver com eles, únicos homens que tocaram além da fé, abalando o coração de cada uma delas, uma nostalgia melancólica sempre soprou nas poucas vezes que elas ousaram rever o passado.

O Bilhete Premiado

Babette chegou à Jutlândia trazida pela chuva. Ao bater à porta de Philippa e Martina, trazia consigo uma carta de Achille Papin. Também o passado das irmãs voltava naquele momento. A carta revelava a triste história daquela mulher, que durante a guerra civil francesa, teve o marido e o filho mortos. Perseguida e sem ter para onde ir, partiu, por sugestão de Achille, para a Dinamarca.
Quando se vêem diante de tão requintada senhora a pedir emprego, as irmãs não se sentem capazes de pagar por seus serviços, pois vivem com muito pouco, e tudo que têm dedicam-no à caridade. Mas Babette não se importa, sobrevivera à morte, perdera tudo, era uma outra mulher, já não precisa das glórias de outrora, precisava apenas sentir-se viva, em segurança, abraçando uma vida humilde, despida de qualquer vestígio de um passado glorioso, reduzido à tragédia através dos conflitos ideológicos do seu país.
Aceita pelas irmãs, Babette inicia uma nova vida, distante daquela França tumultuada de 1871. Torna-se empregada da casa, servindo de cozinheira. Não se lamenta da sorte. Seu estoicismo é determinante para sobreviver. Sua vida está fragmentada na violência que presenciou aos que amava e no presente sem brilho, a servir duas irmãs no crepúsculo iminente de suas vidas.
Em nenhum momento o espectador vê em Babette uma mulher estagnada, pelo contrário, adivinha-se uma ruptura por vir, um lamento, uma explosão silenciosa que jamais eclode. Cada silêncio da personagem traduz-lhe um gesto, uma intenção que se deduz, sem nunca ser revelada. Da ligação com o passado, Babette mantém apenas um bilhete de loteria, que uma fiel amiga renova-lhe todo ano. Será este gesto, aparentemente sem significado, que mudará o percurso de toda a história, quando, catorze anos depois, finalmente chega a notícia de que o bilhete foi agraciado com um prêmio de dez mil francos.

O Centenário do Pastor

Ao saber do bilhete premiado de Babette, Philippa e Martina pressentem que ela irá embora, afinal já tem como voltar à terra natal, já não há uma guerra civil e ela já não tem limitações financeiras. Mas surpreendentemente, Babette não prepara as malas, sabe muito bem que não são as condições financeiras que a separa da sua terra, mas sim as perdas, as dores do tempo, o rompimento de um cotidiano de vida que já não existia. Já não há o que encontrar em França.
O prêmio de Babette veio por ocasião do aniversário do pastor, que se estivesse vivo, completaria cem anos. Para que não se passe em branco a data, Philippa e Martina decidem prestar uma homenagem ao pai, oferecendo um jantar para algumas pessoas da aldeia. É neste momento que se ascende o passado de Babette, que se encontra com a mulher que fora. É um raro momento de poder assumir uma identidade perdida no tempo. Afinal era uma data especial, o centenário do homem que, explicita ou implicitamente, mudara a vida de quase todos os moradores daquela aldeia, que seguiam os princípios rígidos de um cristianismo protestante por ele disseminado.
Inesperadamente, Babette pede às irmãs para fazer um banquete em homenagem à memória do pastor. Babette pede que se lhe conceda a honra de preparar e oferecer um verdadeiro jantar francês, utilizando-se do dinheiro que ganhara com o prêmio. Surpreendidas, as irmãs relutam, mas por fim, aceitam tão inusitado oferecimento.
A partir de então, o filme toma proporções lúdicas, acendendo a alegoria da existência humana através do prazer supremo de um suntuoso banquete. Os momentos que precedem ao banquete mudam o cotidiano de toda a cidade. Babette encomenda vinhos da França, codornas e carnes especiais. O jantar movimenta toda a aldeia, desde a seleção dos alimentos, à entrega de caixas vindas do exterior. As movimentações são visíveis a todos, devido às proporções gigantescas que assumem.
Diante de tanto movimento, Philippa e Martina temem o que pode sair de todo aquele aparato. Estão assustadas, parecem diante de atos desencadeados de um grande drama montado em um palco sem fim. Ante ao desconhecido que se irá desembocar, as irmãs trocam olhares temerosos, quase que arrependidos de terem cedido aos caprichos de Babette. Presumindo uma catástrofe iminente perante os convidados, elas decidem que nada falarão. Calar-se-ão sejam quais forem os resultados daquele banquete.

O Banquete

Entre o jantar e os momentos que o precede, as cenas assumem tomadas rápidas e ligeiras. As imagens retratam um aspecto minucioso, de um realismo e naturalismo mesclados, desencadeados pelo galope e o tilintar dos guizos dos cavalos que conduzem as carruagens que trazem os convidados; pelos sons da cozinha de Babette, desde o barulho das frituras ou da água a derramar-se sobre as tigelas. Cada detalhe da preparação do jantar é mostrado como uma apoteose dilacerante de Babette.
Doze convidados sentam-se à mesa. É a partir da sensação que têm entre o medo da surpresa e o hedonismo de degustarem tão opífaro banquete, que o filme atinge o seu clímax e desvenda a chave do seu mistério. Cada prato servido é mostrado, fazendo que o expectador sinta-se à mesa, capaz de sentir o aroma inebriante de cada um deles. O prazer oferecido pelo banquete de Babette rompe com o marasmo da vida de cada um dos convidados, provando-lhes que, somente a morte destituí qualquer surpresa da vida.
De repente aquela aldeia simples, perdida nas costas frias da Dinamarca, mostrada através do som das ondas do mar, do vento e da chuva, vê-se confrontada com um banquete inusitado, tornando-se um centro faustoso digno do mais requintado salão de Paris. Babette transforma a vida através do prazer primário que vem da comida, e do requinte perfulgente da arte de cozinhar. Abre-se a seqüência de imagens que trazem os pratos, a gradação do cozimento, a apresentação dos sabores, dos aromas que se nos induzem as imagens. O prazer humano é degustado sem medos, sem as amarras do pecado, a vida é resultado dos temperos que advêm das mãos dos homens, neste caso, das mãos delicadas e intuitivas de Babette.
É no meio do jantar que há o encontro entre o passado de Babette e a sua vida atual. O verdadeiro sentido do filme e das intenções de Babette são revelados no momento em que o general Lorenz, ao saborear cada um dos pratos e a deliciar-se com as bebidas, descreve que só sentira aquele prazer há muito tempo, em Paris, em um luxuoso jantar preparado pela maior chef de cuisine da França. A partir desta revelação, não compreendida pelos ingênuos e extasiados convidados, o telespectador encontra a outra Babette, perdida no tempo, mas decifrada naquele momento, em que a imagem descobre-a na cozinha, sendo outra vez, ela própria, sabendo sê-lo pela última vez. Gastara a pequena fortuna que ganhara para ver o prazer que despertava nas pessoas que saboreavam da sua arte, gastara tudo para voltar a ser, por uma noite, a Babette da qual se perdera no tempo e nas adversidades humanas.

O Encontro de Babette com o seu Passado

Quando o banquete é encerrado, tem-se a sensação de que se saboreou cada prato servido. Na sala, extasiados convidados sentem que a vida foi diferente naquele momento, que passado e presente encontraram-se por algumas horas, limando cada melancolia impregnada pelos anos. Agradecidos a Deus e a Babette, cantam um hino religioso, regado pelo sabor de um licor e do café.
Na cozinha, Babette olha para o vazio, como se buscasse a elegia final da sua existência. Sente que cumprira o seu destino, oferecera um momento de alegria e prazer às pessoas simples daquela aldeia com a mesma pompa que o fizera aos nobres freqüentadores do sofisticado “Café Anglais”, em Paris, onde fora uma famosa chef de cuisine.
Desvendado o seu passado pelo reconhecimento do paladar do general Lorenz, Babette tem um momento de puro encontro consigo própria. Toma um copo de vinho da última garrafa que restara. Momento único da procura pelo prazer que oferecera a todos. Olha para o vazio, sabia que ao terminar o vinho, encerraria de vez com o seu passado, jamais voltando a ele. Celebra a si mesma, antes de voltar ao cotidiano do dia seguinte, com a certeza de que a vida embora pareça linear, cavalga por surpresas e prazeres que reluzem a rendição humana, traduzida aqui nas suas alegorias em cada prato servido.

Ficha Técnica:

A Festa de Babette

Direção: Gabriel Axel
Ano: 1987
País: Dinamarca
Gênero: Drama
Duração: 102 minutos / cor
Título Original: Babettes Gaestebud
Roteiro: Gabriel Axel, baseado na obra de Isak Dinesen (Karen Blixen)
Produção: Just Betzer, Bo Christensen, Benni Korzen
Música: Per Norgaard (original), Johannes Brahms e Wolfgang Amadeus Mozart
Direção de Fotografia: Henning Kristiansen
Desenho de Produção: Jan Petersen, Sven Wichmann
Figurino: Annelise Hauberg, Karl Lagerfeld, Pia Myrdal
Edição: Finn Henriksen
Efeitos Especiais: Henning Bahs
Som: Hans-Eric Ahrn
Estúdio: Panorama Film International
Distribuição: Orion Classics
Elenco: Stéphane Audran, Brigitte Federspiel, Bodil Kjer, Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont, Bibi Andersson, Ghita Norby, Therese Hojgaard Christensen, Pouel Kern, Hanne Stensgaard, Vibeke Hastrup, Asta Esper Hagen Andersen, Thomas Antoni, Lars Lohmann, Tine Miehe-Renard, Lisbeth Movin, Holger Perfort, Preben Lerdorff Rye, Ebbe Rode, Erik Petersen, Else Petersen
Sinopse: A fim de escapar da uma repressão em Paris, em 1871, Babette desembarca numa noite de tempestade, em uma aldeia da Jutlândia. Procura as irmãs Martina e Philippa, puritanas senhoras filhas do pastor da região, apresentando-lhes uma carta de recomendação de Achille Papin, um cantor de ópera que, no passado, fora professor de canto de uma delas. Na carta, Papin pede-lhes que acolham Babette em sua casa. Babette pede a elas para trabalhar como criada, tendo em troca apenas um quarto para morar. Relutantes a principio, elas aceitam Babette. Anos mais tarde, Babette ganha um prêmio na loteria. Inesperadamente, resolve gastar todo o dinheiro em um jantar francês, para comemorar o centenário de nascimento do falecido pastor. Os convidados para o jantar, pessoas simples, não conheciam a culinária francesa, os pratos sofisticados que eram servidos no Café Anglais, lugar onde Babette trabalhara como cozinheira. Assim, com a habilidade de fazer as pessoas sentirem prazer através do paladar, Babette transforma o jantar em um banquete que as duas irmãs e os habitantes da pequena aldeia jamais esquecerão.

Gabriel Axel

Gabriel Axel nasceu em Aarhus, Dinamarca, em 18 de abril de 1918. Grande nome do cinema europeu, tornou-se mundialmente conhecido através do filme “A Festa de Babette” (Babettes Gaestebud), de 1987.
Axel passou a maior parte da infância na França, longe da sua terra natal. Em Paris trabalhou no teatro, com Louis Jouvet, o que lhe fez desenvolver o amor pela dramaturgia. Quando retornou para a Dinamarca, trabalhou como ator no Royal Danish Theatre.
Na Dinamarca, Gabriel Axel atuou como diretor de produções de teatro, televisão e cinema. Após dirigir cerca de 16 filmes, retornou à França, onde dirigiu vários projetos para a televisão, construindo um trabalho respeitado e reconhecido pela crítica, obtendo, ao longo da carreira, várias menções honrosas.
A consagração definitiva veio com o filme “A Festa de Babette”, adaptação do livro de Isak Dinesen. O filme conquistou platéias do mundo inteiro, arrebatando o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1988. Na filmografia de Axel, constam sucessos como “Familien Gyldekál” (1975), “Den Rode Kappe” (1967) e “Det Kaere Legetoj” (1968).
Em 2003, Gabriel Axel recebeu prêmio especial pelo conjunto da sua obra no Festival Internacional de Cinema de Copenhague.

Filmografia de Gabriel Axel:

Filmes para a Televisão

1951 – Doden
1952 – Pantalones Bryllup
1952 – Forlovelse Indgaet
1952 – Skyggedans
1952 – Aften
1953 – Et Spil
1953 – En Bjorn
1953 – Hallo, Derude
1953 – Falske Nogler
1953 – Familien Hansen
1953 – Kong Renés Datter
1954 – En Svanesang
1954 – Hvem Ved?
1954 – En Mindefest
1954 – Livet er Skont
1954 – Lapointe og Ropiteau
1954 – Li Som Lidt Ensom
1954 – Tran
1954 – Acharnerne
1955 – En Skefuld Katharsis
1955 – Marguerite
1955 – Motivet
1955 – En Caprice
1955 – En Kvinde er Overflodig
1955 – Altid Ballade
1955 – Scarpins Gavtyvestreger
1955 – Simon og Laura
1956 – Det er Sa Yndigt
1956 – Dronninger af Grankrig
1956 – Doden
1956 – Falske Nogler
1956 – Kong Renées Datter
1956 – Froken Julie
1958 – Mode Ved Midnat
1966 – Om Tobakkens Skadelige Virkninger
1968 – Boubouroche
1977 – Un Crime de Notre Temps
1978 – La Ronde de Nuit
1980 – Le Coq de Bruyère
1980 – Le Curé de Tours
1981 – La Ramandeuse
1981 – Antoine et Julie

Filmes para o Cinema

1957 – En Kvinde er Overflodig
1958 – Guld og Gronne Skove
1959 – Heller for Helene
1960 – Flemming og Kvid
1962 – Det Tossede Paradis
1962 – Oskar
1963 – Vi Har det jo Dejligt
1963 – Tre Piger i Paris
1964 – Paradis Retur
1967 – Den Rode Kappe
1968 – Det Caeré Legetoj
1970 – The Ways of Women
1970 – Amour
1971 – Med Kaerlig Hilsen
1972 – Die Auto-Nummer – Sex Auf Radern
1975 – Familien Gyldenkal
1976 – Familien Gyldenkal Spraenger Banken
1977 – Alt pa er Braet
1987 – Babettes Gaestebud (A Festa de Babette)
1989 – Christian
1994 – The Prince of Jutland (Jutland – Reinado de Ódio)
1995 – Lumière et Compagnie (Lumière e Companhia)
2001 – Leila

Séries para a Televisão

1965 – Regnvejr og Ingen Penge
1981 – Mon Meilleur Noel (episódio: L’Oiseau Bleu)
1985 – Les Colonnes du Ciel (episódios: La Saison des Loups, La Lumière du Lac, La Femme de Guerre, Marie Bon Pain)
1986 – Les Colonnes du Ciel (episódio: Compagnons du Nouveau Monde)


BATMAN – SETE DÉCADAS DO HOMEM MORCEGO

Maio 15, 2009
Em maio de 1939, o número 27 da revista norte-americana Detective Comics publicava a história do Batman, o Homem Morcego, codinome do milionário Bruce Wayne, defensor da justiça e dos oprimidos. Sete décadas depois, Batman é um dos mais bem-sucedidos heróis das histórias em quadrinhos, da televisão e do cinema. Sua fama atravessou as fronteiras do país em que foi criado, conquistando o mundo inteiro.
Batman foi uma criação do desenhista Bob Kane e do escritor Bill Finger, embora só seja creditada ao primeiro. Há rumores de que personagem semelhante teria aparecido em desenhos de Frank Foster, em 1932, daí uma corrente dar a ele os créditos de um terceiro criador.
Nascido um ano depois do Superman, cuja primeira história publicada foi em 1938, Batman é um herói oposto ao homem de aço. Ele não possuí poderes sobrenaturais, não é de outro planeta, para derrotar os vilões conta com a sua inteligência e astuciosos planos regados de lutas marciais e técnicas de combate, além de criações tecnológicas desenvolvidas para este fim, como o bat-cinto e o bat-móvel.
Se Clark Kent é o herói que luta incessantemente contra os criminosos, Bruce Wayne não lhe fica atrás. A diferença é que o primeiro executa cabalmente a linha politicamente correta de combater o mal, enquanto que o Batman combate o mal com o próprio mal, não se importando com o caminho, mas com os resultados. O Super-Homem já nasceu com os super poderes, sua trajetória já foi definida no planeta de onde veio, enquanto que o Batman foi feito em cima dos traumas de Bruce Wayne. Ele é o ego da criança que testemunhou o assassínio dos pais, que cresceu com a necessidade de vingar as mortes, combatendo os criminosos que possam produzi-las na sociedade. O Batman não é só o paladino da justiça, mas o vingador do seu criador. A sua conduta reflete a psicologia dos seus atos, tudo nele está voltado para a mente, sua personalidade dupla é fruto do ambiente, da cidade – Gotham City – que o viu nascer.
Batman é obscuro, como é o morcego, animal vampiresco, que tem as trevas como guia. Batman transita através de todos os medos de Bruce Wayne, fazendo-o sobrevivente dos traumas e da fúria vingativa que lhe queima a mente. A inteligência é o seu maior trunfo. Não utiliza armas, mas é capaz de usar toda a força física do seu corpo. Sem a máscara é um homem fútil e de vida cerceada pelo glamour social, visto como um playboy e conquistador de belas mulheres; mascarado é um homem destemido, justiceiro e amigo dos desvalidos, visto como um misterioso sedutor, arrebatador de corações sonhadores. Se Clark Kent ao transforma-se no Super-Homem é quase que imperceptível à dualidade da sua personalidade, com Bruce Wayne isto não acontece, porque o Batman afasta-se do milionário, o herói é o oposto do homem, só se igualando a ele numa coisa, ambos são mortais, sobrevivem da força da mente.
Sete décadas depois, o homem morcego assumiu várias faces, mudou o comportamento conforme quem desenhava as suas histórias ou as contava quer no cinema, quer na televisão. Mesmo assumindo tantas faces, a sua principal característica, que é a mente, o perfil psicológico, jamais foi perdido, e ele continua a seduzir e a conquistar o mundo inteiro.

A Criação do Homem Morcego

Nos Estados Unidos, as histórias em quadrinhos tornaram-se um grande sucesso na década de 1930, com tiras publicadas regularmente nos jornais e em revistas autônomas, sendo amplamente lidas por crianças e adultos. No fim desta década, a DC Comics pediu a um jovem desenhista, Bob Kane, que criasse um herói para ser lançado nas páginas da sua revista em quadrinhos.
Em 1938 tinha sido lançado o Super-Homem, herói com super poderes, como visão de raios-X, capacidade de voar, além de ter vindo de outro planeta. Para opor-se ao Super-Homem, Kane pensou em um herói nascido na Terra, vivendo em uma grande cidade corrompida pelo crime e por perigosos bandidos. Várias são as influências atribuídas a Kane na criação do Batman. Alguns dizem que ele era um aficionado das histórias vampirescas e no mito do Drácula. Outros afirmam que se baseou no Zorro, homem fanfarrão e fútil durante o dia, mas um exímio defensor dos fracos e oprimidos durante a noite. Outra influência teria sido a dos filmes negros de detetives, gênero de grande sucesso da época, que traziam cenas a preto e branco, recheadas de crueldade e sombras assustadoras. Há ainda, a versão de que teria sido uma inspiração vinda de um desenho renascentista do gênio Leonardo Da Vinci. Sejam quais forem as influências, Batman nasceu com um pouco de cada uma das aqui citadas.
Mas a evidência mais clara na criação de Bob Kane foi a de um herói próximo do Drácula, e o símbolo criativo, o morcego, resumia o caráter dúbio da personagem que nascia. O morcego é visto desde a antiguidade como um animal maldito, meio rato, meio ave. Os hábitos noturnos, a alimentação do sangue de animais de algumas espécies, fizeram dos morcegos animais associados às trevas. Batman traria a personalidade dúbia e sombria do morcego, suas histórias seriam escuras e próximas do gênero de terror.
Assim como Drácula, o herói imaginado por Kane traria roupas negras, capa vermelha e mente sombria, sendo representante de um sonho ruim. Foi esta a idéia que Bob Kane levou a um amigo, o roteirista Bill Finger, na época com 22 anos. Finger acrescentou à personagem uma capa esvoaçante, mudou a cor das roupas para cinza e negra e aumentou o tamanho da máscara, dando à personagem o formato que o iria consagrar.
Bob Kane é oficialmente creditado como o criador do Batman, apesar de ter confirmado sempre a participação de Bill Finger. Além dos dois, os desenhos de Frank Foster, artista ligado à industria de publicações de Nova York, criados no inicio da década de 1930, foram considerados como autênticos pela DC Comics, embora não creditados.
Concluído o aspecto do Batman, ele foi inserido na cidade de Gotham City, pronto para enfrentar todos os bandidos que ameaçavam a metrópole. Respaldada a criação, no dia 18 de maio de 1939, a história do Homem Morcego foi publicada pela primeira vez no número 27 da “Detective Comic Magazine”, inaugurando a saga de um dos heróis mais emblemático da chamada “Época de Ouro dos Quadrinhos”.

Batman Apresenta-se a Gotham City

Gotham City era um retrato das grandes cidades norte-americanas pós-depressão. Após a queda da Bolsa de Valores, em 1929, o país mergulhara numa recessão econômica que levara grande parte dos seus habitantes à miséria. A depressão, aliada ao período da Lei Seca, que proibia a venda de bebidas alcoólicas no país, suscitou a violência, a consolidação da Máfia nos Estados Unidos, além de criar o mito de grandes criminosos como Al Capone, Frank Nitti, Paul Ricca ou Tony Accardo. Esta atmosfera de gangster é recriada em Gotham City, e os vilões que o Batman combate refletem a sombra dos grandes mafiosos.
Se em 1939 a América ainda vivia dos escombros do colapso da Bolsa de Valores, a Europa vivia a ascensão do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália, além dos prelúdios daquela que seria a sua maior catástrofe no século XX, a Segunda Guerra Mundial. É neste contexto histórico que nasce o Batman.
Batman surge dos escombros da mente de Bruce Wayne, herdeiro único de uma grande fortuna que lhe deixara os pais. O empresário milionário revela para a sociedade ser um homem superficial, playboy inveterado, amigo da caridade e da filantropia, mas de idéias rasas quando chamado para opinar sobre os problemas de Gotham City.
Mas a mente de Bruce Wayne é mais complexa do que a imagem que deixa transparecer. O milionário é um homem solitário, atormentado pelas lembranças da infância, encerrada mentalmente aos oito anos, no dia em que ele assistiu ao assassínio dos pais, o médico Thomas Wayne e a esposa Martha Wayne, vítimas de um assalto, executado pelo criminoso Joel Chill. Este testemunho perturba para sempre o herdeiro dos Wayne, fazendo-o caminhar errante por todo o mundo, em viagens de fuga e aprendizados constantes. Já adulto, Bruce Wayne volta a Gotham City, encontrando uma cidade violenta e corrompida em todas as suas vertentes, seja políticas ou empresariais. Na sua mente atormentada, Bruce Wayne jura vingar a morte dos pais, decidindo combater o mal, nem que para isto ele próprio lance mão do mesmo mal.
Em suas viagens pelo mundo, Bruce Wayne tenta obsessivamente compreender a mente assassina, além de querer vencer os traumas que não lhe abandona os pesadelos. Em seu aprendizado, ele treinou técnicas de combate e todos os tipos de artes marciais, numa construção da perfeição física associada à inteligência intelectual. Para combater o crime, Bruce Wayne inspira-se nos morcegos, animais que o traumatizara quando criança, dos quais tem medo. Num paradoxo psicológico, ele cria vestes baseadas nos morcegos, para que assim possa amedrontar os seus inimigos com o bicho que mais o amedrontava. Aterrorizar os outros com os seus próprios medos, faz com que ele os exorcize de dentro da alma. O que o acovardava torna-se instrumento da sua coragem e sede de justiça. Cada inimigo derrotado faz dele um vingador do assassínio dos pais, redimindo-o dos traumas infantis. A máscara desaparece com todos os medos, tornando-o um homem insuperável.
Sem os poderes sobrenaturais do Super Homem, Batman conta com as suas habilidades de exímio lutador, com a tecnologia vinda das suas fábricas, com o seu físico forte e atlético, com uma inteligência imaginativa e incomum, e, principalmente, com a grande fortuna que tem à disposição. Por debaixo da máscara, o herói é, acima de tudo, humano e mortal.

Surge a Figura de Robin

Quando o Batman surge no cenário da caótica Gotham City, combatendo o mal com o mal, ele suscita o medo e a desconfiança da população e da lei. Ao ver surgir um homem vestido de morcego, portando gestos bruscos e determinados em combater os seus inimigos, a fragilizada população, refém da violência, do medo e da corrupção que se instaurara sobre Gotham City, sente-se confusa, sem saber em quem confiar.
Mas Batman é um herói seguro da finalidade para a qual se atirara, e logo conquista a simpatia dos cidadãos de Gotham City, e de parte da polícia, que passa a não classificá-lo como um dos criminosos que andam pelas ruas, mas como um aliado no combate aos mesmos. Inicia-se um pacto entre a população, a polícia e o Homem Morcego, traduzida em um sinal de morcego no céu (o bat-sinal), que representa um pedido de socorro ao mascarado paladino da justiça.
No decorrer das histórias, a identidade de Bruce Wayne vai ficando cada vez mais definida. Tem como marco o seu nascimento, em 1910, a vida feliz na mansão da família, até os oito anos, quando teve os pais assassinados, a criação solitária e infeliz na mansão, sob a tutela do tio Philip Wayne, ou do mordomo Alfred, conforme as versões e seguimentos da história.
Em 1940, Batman deixa de ser um herói solitário, quando lhe foi criado um companheiro, o menino prodígio, Robin. A idéia foi de um assistente de Bob Kane, Jerry Robinson. A história da dupla começou quando Bruce Wayne adotou o jovem Dick Grayson, órfão dos Graysons Voadores, trapezistas assassinados durante uma apresentação no circo. Bruce Wayne sente no drama de Dick Grayson uma identificação com a sua própria história. Ao levá-lo para viver na mansão, ele quebra com a solidão, vivida na companhia do fiel mordomo Alfred. O órfão adquire o codinome de Robin, tornando-se o fiel parceiro do Batman.
A leveza da personagem do menino prodígio, um rapaz valente e atrapalhado, quebrou a atmosfera soturna das histórias do Batman, acrescentando-lhes mais humor e mais diálogos. É desta época o surgimento dos maiores inimigos do Homem Morcego, o Coringa e o Pingüim, vilões perigosos e bem humorados que tornaram as histórias mais engraçadas, conquistando imediatamente os leitores, que os faziam revezar nas tramas.
O menino prodígio cumpriu a sua função de companheiro do Batman até as histórias de 1969, quando foi para a faculdade. Durante a década de 1970, as histórias do Batman mostravam-no solitário, algumas vezes juntando-se com Robin, outras vezes com a Batgirl. Na faculdade, Robin uniu-se à turma dos Titãs, mudou o seu uniforme e assumiu a identidade do Asa Noturno. Para suprir a falta do menino prodígio, foi criado Jason Todd, também ele um órfão adotado por Bruce Wayne. O novo Robin acabaria por morrer nas mãos do Coringa.

As Várias Faces do Batman ao Longo das Décadas

Desde que foi criado, em 1939, o Batman passou por profundas transformações, tanto no aspecto visual das suas roupas, até as mais complexas evoluções psicológicas, ou mesmo na troca dos parceiros.
Se Jerry Robinson deu um aspecto mais leve às histórias do Homem Morcego, esta atmosfera desapareceu com o desenhista Neal Adams. Quando assumiu as aventuras do Batman, Neal Adams voltou às origens, trazendo de volta um Batman sombrio, com histórias violentas, mostrando um herói pouco convencional, que se utilizava da sua lógica para vencer os inimigos, e não das normas éticas vigentes. Este Batman sombrio e solitário percorreu a década de 1960, chegando com sucesso aos anos oitenta.
Várias faces da vida do Batman foram exploradas pelas décadas, revelando diversos aspectos criativos da sua saga. Numa dessas fases, Bruce Wayne casou-se com Selina Kyle, a mítica Mulher Gato, já aposentada do seu codinome para contrair matrimônio e parceria com o paladino da justiça. Nesta fase nasceu Helena Wayne, filha do casal, e Batman estava quase que aposentado, resolvendo apenas casos esporádicos. Bruce Wayne assume o posto de comissário com a aposentadoria do Comissário Gordon. Quando ficou viúvo de Selina, o milionário aposentou definitivamente o Batman, só voltando quando surgiu um terrível vilão, Bill Jensen, chamado de Frederic Vaux. Nesta aventura contra Jensen, Batman é morto, e Bruce Wayne é enterrado ao lado de Selina. O feiticeiro Senhor do Destino derrota Jensen, e faz com que a população esqueça que Bruce Wayne era o Batman, cuidando para que todos acreditem que eles morreram simultaneamente.
Na década de 1980 Batman e Robin entram para o grupo dos “Superamigos”, ao lado do Super-Homem e da Mulher Maravilha, entre outros heróis, numa série de desenhos animados feita para a televisão. Batman, por não ter poderes sobrenaturais, desaparece no meio dos outros heróis, tornando-se superficial e sem atrativos, gerando a indignação dos fãs.
Em 1985, Batman volta reformulado pelas mãos do desenhista Frank Miller, através de uma série de histórias intitulada “O Cavaleiro das Trevas”, feitas para a D.C. Comics. Assume um aspecto de anti-herói, sendo a sua personalidade de morcego superior a do homem. É mais vampiro do que humano, usa todos os métodos sombrios do mal para vencê-lo. Batman explora os mais diluídos aspectos da sua alma, o que o leva a não distinguir o que é o bem e o que é o mal. Miller usa cores excessivas, com sombras dilacerantes. Sua genialidade traz de volta um Batman visceral, além dos limites de um herói, quase a beirar as raízes profundas do mal. O mundo interior da personagem é o de um homem vingativo e infinitamente distante da moral, quebrada por ele e pelos que violam a lei e assassinam inocentes.
Seja qual for a linha que se seguiu na longa saga do Homem Morcego, a verdade é que ele jamais perdeu o fascínio dos fãs, tornando-se um dos maiores mitos da ficção moderna, um ícone dos heróis nascidos das bandas desenhadas.

Batman no Cinema e na Televisão

Batman, ao lado de Robin, chegou pela primeira vez às telas de cinema, em 1943, através de “O Morcego” (Batman), filme em forma de seriado, realizado pela Columbia Pictures, com quinze episódios, protagonizados pelos atores Lewis Wilson e Douglas Croft, respectivamente Batman e Robin. Feito no auge da Segunda Guerra Mundial, o principal vilão era um espião japonês, Dr. Daka (J. Carrol Naish), naquele momento histórico o Japão era o principal inimigo dos EUA. Em 1949, veio “A Volta do Homem Morcego” (Batman and Robin), também produzido pela Columbia Pictures, tendo no elenco Robert Lowery (Batman) e John Duncan (Robin). Tal como o de 1943, foi feito em forma de seriado, tendo quinze episódios. Aqui os dois heróis enfrentam um raio elétrico que torna invisível as pessoas e os objetos, lançado pelo vilão, O Mago.
Os dois filmes foram decepcionantes, trazendo péssimos atores no papel de Batman, além de um guarda-roupa que transformava os uniformes de Batman e Robin em caricatas fantasias.
Em 1966 Batman chegou à televisão, na série “Batman”, trazendo Adam West como Batman, e Burt Ward como Robin. A série transformou a sombria história do Homem Morcego em uma hilariante comédia, com vilões fascinantes. Se os protagonistas eram dois atores praticamente desconhecidos, a galeria dos vilões era interpretada por um luxuoso elenco, trazendo nomes estelares como Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), George Sanders (Sr. Frio 1), Otto Preminger (Sr. Frio 2), Eli Wallach (Sr. Frio 3), Vincent Price (Cabeça de Ovo), Anne Baxter (Olga, esposa do Cabeça de Ovo), Zsa Zsa Gabor (Minerva), Tallulah Bankhead (Viúva Negra), Van Johnson (Menestrel) e Shelley Winters (Mãe Parker). Na última temporada da série foi criada a personagem de Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon, que tinha o codinome de Batgirl, misteriosa mulher que ajudava Batman e Robin no combate ao crime. Yvonne Craig foi a atriz convidada para viver a sensual e sedutora heroína mascarada. Sua presença causou alvoroço nos telespectadores, pois trazia um uniforme colado ao corpo, transformando-a em uma bela e atraente justiceira. Burt Ward teve o seu uniforme censurado, pois o calção pequeno e apertado do Robin evidenciava por demais a genitália avantajada do ator, obrigando-o a pôr gelo no pênis durante horas, para ver se ele encolhia; não obtendo resultados, foi administrada uma droga ao ator, que segundo os produtores, diminuía temporariamente o tamanho do seu órgão. Temendo que o procedimento o afetasse para sempre, o ator passou a recusar a ingerir a droga, e os censores deixaram-no em paz.
O tom humorístico da série criou a atmosfera dos desenhos animados, quando utilizava nas lutas travadas por Batman e pelos seus inimigos, onomatopéias escritas na tela, como “POW!”, “BAM!”, “ZOKK!”, conseguindo ótimos e divertidos momentos. A série foi ao ar de 1966 a 1968. O grande sucesso que fez deu origem ao filme “Batman: O Homem Morcego”, de 1966, tendo no elenco os atores da televisão.
Mesmo criticada pelos fãs do Batman, por descaracterizar a personagem, a série tornou-se cult, tendo vários seguidores e adeptos no mundo inteiro.
Quando Batman completou cinqüenta anos, em 1989, Tim Burton levou-o ao cinema, num primoroso filme, “Batman”, com Michael Keaton (Batman) e Jack Nicholson (Coringa) como protagonistas. Era a volta triunfante do Homem Morcego às telas, iniciando uma saga brilhante nas salas de cinema do mundo inteiro, sucesso que persiste até os dias de hoje. Além de Michael Keaton, que viveu o Batman em dois filmes, o cinema trouxe no papel do Homem Morcego os atores Val Kilmer, George Clooney e Christian Bale.

Filmografia do Batman

1943 – O Morcego (The Batman) – Lewis Wilson (Batman), Douglas Croft (Robin)
1949 – A Volta do Homem Morcego (Batman and Robin) – Robert Lowery (Batman), John Duncan (Robin), Jane Adams (Vick Vale)
1966 – Batman: O Homem Morcego (Batman – The Movie) – Adam West (Batman), Burt Ward (Robin), Cesar Romero (Coringa), Burgess Meredith (Pingüim), Lee Meriwether (Mulher Gato), Frank Gorshin (Charada)
1989 – Batman (Batman) – Michael Keaton (Batman), Jack Nicholson (Coringa), Kim Basinger (Vick Vale), Michael Gough (Alfred)
1992 – Batman: O Retorno (Batman Returns) – Michael Keaton (Batman), Michelle Pfeiffer (Mulher Gato), Danny DeVito (Pingüim)
1995 – Batman Eternamente (Batman Forever) – Val Kilmer (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Tommy Lee Jones (Duas Caras), Jim Carrey (Charada), Nicole Kidman (Chase Meriddian)
1997 – Batman & Robin (Batman & Robin) – George Clooney (Batman), Chris O’Donnell (Robin), Alicia Silverstone (Batgirl), Arnold Schwarzenegger (Sr. Frio), Uma Thurman (Hera Venenosa)
2005 – Batman Begins (Batman Begins) – Christian Bale (Batman), Michael Caine (Alfred), Liam Neeson (Henry Ducard), Ken Watanabe (Ra’s Al Ghul), Gary Oldman (Jim Gordon), Katie Holmes (Rachel Dawes), Morgan Freeman (Lucius Fox)
2008 – Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight) Christian Bale (Batman), Heath Ledger (Coringa), Michael Caine (Alfred), Morgan Freeman (Lucius Fox)


UM LUGAR AO SOL

Abril 21, 2009

Um Lugar ao Sol” (“A Place in the Sun”) é daqueles filmes que se assiste e jamais se esquece. Sua dimensão humana atravessa as telas, atingindo e perturbando todos nós. Baseado no livro de Theodore Dreiser, “Uma Tragédia Americana” (An American Tragedy), esta versão de 1951, é a segunda feita pelo cinema, conseguindo dar uma visão cinematográfica própria e definitiva à obra de Dreiser. A tragédia de George Eastman, Clyde Griffith no romance de Dreiser,desperta no público a comoção, a indignação e até o desejo do assassínio, quem não se deixou conduzir por ele com a mesma idéia obscura de assassinar a namorada, um acidente em sua vida, que atrapalha o amor verdadeiro e os sonhos da ambição concretizada?
O filme, considerado por Charles Chaplin “… o melhor que assisti na vida. Registra a supremacia do cinema sobre todas as outras forma de arte”; é o desenho mágico dos belos rostos dos atores Montgomery Clift e Elizabeth Taylor, o casal perfeito, mas impedido pelos erros e opções de vida de alcançar a plenitude do amor e da felicidade; a química sublime entre os dois mudaria para sempre o conceito dos casais românticos do cinema.
Personagens inesquecíveis criados por Montgomery Clift, um dos maiores talentos do cinema americano, cuja insatisfação latente ultrapassa os sentidos, dando vida à personagem; por Elizabeth Taylor, que aqui traz a sua beleza na mais intocável plenitude, como a promessa do verdadeiro éden a quem ganhar o seu amor; por Shelley Winters, na sua beleza discreta, na representação da mulher comum, de vida difícil e sofrida, cujo único sonho é o amor do belo rapaz, afastado dos seus braços pelo desamor pelos ardis da vida.
Montgomery Clift empresta uma angústia comovente à personagem, fazendo dele não um assassino, mas um jovem desprotegido diante dos sonhos e da promessa cruel que a vida faz quando os oferece a alguém que nada possui. Quando dentro do carro, adormece nos ombros da bela Angela, a platéia sente vontade de protegê-lo, de aninhá-lo nos braços como uma criança travessa, não como um homem cuja ambição levou-o a conduzir a namorada indiscreta ao lago, deixando-a para sempre nas profundezas das águas. George era culpado ou inocente? Assassino ou vítima? Sonhador ou cruel? Era tudo isto, era um retrato de todos nós, marionetes perfeitas de uma sociedade que nos cobra o amor, a beleza, a ascensão social, a perfeição, mas que dá apenas a sensação etérea de cada desejo de um lugar ao sol.

O Envolvimento de George com Alice

Trazendo imagens a preto e branco, “Um Lugar ao Sol” abre as suas cortinas de épico, ao focalizar o jovem George Eastman (Montgomery Clift), vindo do interior em uma carona de carro, de onde vê passar um Cadillac branco, dirigido por uma bela jovem. George é deixado à porta de uma fábrica. O jovem traz um olhar sonhador e ambicioso, vendo naquele momento a ruptura com o passado humilde, rumo à ascensão e conquista do sonho americano de prosperidade e enriquecimento. O dono da fábrica é o empresário Charles Eastman (Herbert Heyes), seu tio. Se George vinha de um lar humilde e de forte religiosidade, o tio representava o homem bem sucedido, rico e influente.
Mal chega à cidade e aos lugares que lhe serão comuns, George depara-se com a bela Angela Vickers (Elizabeth Taylor), a mesma do Cadillac branco. Um olhar rápido cruza o destino de ambos, mas a jovem, sempre de passagem, corre antes que se conheçam.
George conquista a simpatia do tio, que o emprega em sua fábrica em uma função modesta, empilhador de trajes de banho. O empresário aconselha ao sobrinho a agir como um Eastman, não se envolvendo com nenhuma das mulheres da fábrica. O conselho surge como um presságio. Naquele instante já os olhos sonhadores da funcionária Alice Tripp (Shelley Winters) não resistem ao fascínio do novo funcionário.
George é inteligente, determinado e ambicioso, aos poucos, vai sugerindo ao tio melhorias na produtividade da fábrica, mostrando grande competência. Enquanto sonha com a ascensão, a solidão do jovem atira-o para o convívio com Alice. Será em uma sessão de cinema que ele encontrará a jovem sentada quase que ao seu lado. Ele aproxima-se da jovem, envolvendo-a com o seu carisma. Após o filme, passeiam juntos. Alice conta detalhes da fábrica que serão fundamentais para George poder ter idéias de melhorias. O momento é de solidão de ambas as partes. George está longe de casa, sem amigos, sem o calor da família, a sua referência na cidade é o tio, mas a influência dele mina a afeição mais cristalina. Alice sobrevive do seu emprego humilde, hospedada em um pequeno quarto, sonha com o amor e dias mais suaves. George vê na jovem um sopro leve na sua solidão, Alice vê no rapaz a paixão ardente e o amor eterno. Em um momento de solidão, beijam-se ternamente. O destino de cada um estará, para o bem e para o mal, entrelaçado para sempre.

Início da Saga Rumo ao Sol

Apesar da recomendação do tio, para que não se envolva com as funcionárias da fábrica, a solidão de George é determinante na sua aproximação com Alice. Após o trabalho, tomam juntos uma bebida. Alice fala dos seus medos, do abismo que há entre ambos, ele é um Eastman, ela uma simples operária da fábrica. Mas George, que se vê sozinho e distante do mundo social de Charles Eastman, diz à jovem que só esteve na mansão do tio uma vez. Começa a chover, George leva Alice para casa, molham-se no seu carro conversível.
Silenciosamente, os dois entram no quarto de Alice, alugado de uma ríspida e exigente senhoria, que não lhe permite receber visitas ou ascender a luz a partir de determinadas horas. A magia que naquele momento une os dois jovens, faz com que rompam as mesquinharias humanas, as suas limitações sociais e econômicas. George a toma nos braços, iludidos pelas armadilhas dos sentimentos, dançam na escuridão do quarto, aliviando a solidão diferente de ambos. George só deixa Alice já de manhã, quando o sol rompe todo o romantismo de uma noite de tempestade.
Se a solidão de George é amenizada, também a vida profissional tece a sua teia da sorte. Charles Eastman promove o sobrinho, em conseqüência, convida-o para uma festa em sua casa. George inicia o seu caminho para o infinito, a trajetória rumo ao sucesso, à ascensão, que desde o início, tende a tragá-lo em suas armadilhas.

Entre o Amor de Duas Mulheres

Nos labirintos por um lugar ao sol, George depara-se novamente com Angela, que vem a descobrir, é namorada do primo Earl Eastman (Keefe Brasselle). A identificação dos dois é imediata. Angela é o símbolo da beleza, da mulher que representa a vitória verdadeira do homem diante do amor e da sociedade. Aos poucos, ambos aproximam-se um do outro, dançam juntos, conversam, decifram as linhas tênues dos sentimentos.
A presença de Alice na vida do rapaz torna-se distante, cada dia menor, em paralelo, os sentimentos por Angela explodem, tornando-se o que ele tem de mais sublime. Angela confessa o seu amor, tudo parece perfeito, um idílio na vida de George.
Alice, por sua vez, sente o amor de George esvair-se. Sofre com a distância, com o abandono. Se para o amado o mundo mostra as estrelas, para ela resta apenas as trevas, a avareza de Deus para com o seu destino. A sua solidão é comovente na interpretação irrepreensível de Shelley Winters.
George, por sua vez, nutre pela namorada um carinho, mas a sua vida mudara. Tornara-se um homem promissor, amava uma bela e fascinante mulher e era por ela amado. O menino pobre, filho de uma mãe missionária e extremamente religiosa, desfruta das delícias da alta sociedade americana. Não há nada que lhe impeça de penetrar neste mundo de glamour que se lhe abre. A ilusão de felicidade de George é ameaçada pela atmosfera do filme, que deixa transparecer que uma terrível verdade cairia sobre o protagonista a qualquer instante.
Seria fácil encerrar a sua relação com Alice. Namoros vão e vêm pela vida. Tudo era contornável, exceto a fatalidade de Alice descobrir-se grávida. George ouve a revelação de Alice, feita aos prantos, seu olhar perturbado oscila entre uma frieza superficial e uma angústia profunda. Os sonhos de uma vida melhor e do amor verdadeiro distanciam-se do rapaz, era preciso segurá-los, não se importando com o preço a ser pago. George leva a jovem a um médico, que se recusa a ajudá-lo, o que se percebe implicitamente que a solução esperada por ele era a de um aborto.
George sente-se acossado. Montgomery Clift conduz com maestria as mudanças que ocorrem na personalidade da personagem durante a evolução do filme. Seus olhos falam durante os silêncios de George. Ele ouve no rádio sobre uma série de afogamentos que se tem dado pelo país. O público advinha na intensidade do olhar de Clift os anseios de George, ele não fala, mas todos na platéia percebem, o jovem ambicioso deseja matar Alice.

Filhos da Depressão Econômica Americana

O peso do mundo cai sobre os sonhos de George. Ele tem a certeza do seu amor por Angela, o que lhe faz ter desprezo por Alice. O rapaz isola-se na aflição de ter que renunciar a este amor para assumir as responsabilidades com Alice. É preciso que se tenha em mente a sociedade que se vivia na época e a sua moral vigente. A solução para uma mulher solteira e grávida, era um aborto clandestino ou o casamento, não se admitia uma mãe solteira. Theodore Dreiser situara a narrativa do seu livro na década de 1920, George Stevens, o diretor do filme, ao adaptar o romance para o cinema, transportara a história para o início da década de 1950, mesmo assim, o preconceito era igual ao de trinta anos atrás.
A transposição da história para a década de cinqüenta ajudou na construção do caráter e na compreensão da ambição de George Eastman. Afinal a sociedade americana era sobrevivente das conseqüências do grande colapso da bolsa de valores, em 1929, o país viu a miséria a assolar os seus cidadãos. Ascender socialmente era mais do que manter vivo o sonho americano, era consolidar uma nação de vencedores, varrendo para debaixo do tapete a imensa depressão que soprou por duas décadas, trazendo a fome e a miséria. George Eastman emergira dos escombros, assim como a maior parte da juventude da época, inclusive o ator, Montgomery Clift.
Acossado, George aceita o convite de Angela para que passem juntos a noite de sexta-feira. A amada sente o pesar nos olhos do rapaz, a sua angustia e melancolia latentes. Aos seus olhos, ele parece distante, imerso em um mundo misterioso e sedutor. George declara o seu amor eterno, dizendo que a amara desde o momento que lhe pusera os olhos. Angela revela sentir o mesmo. Por uns instantes, o jovem estranho adormece no seu ombro. A belíssima química dos atores proporciona um dos momentos mais sublimes do filme, em que se acredita que qualquer atitude de George é válida para que não se interrompa tão belo amor. Inclusive o assassínio.

Morte no Lago

Angela convida George para passar um feriado na sua casa do lago. Seria um pretexto para que o rapaz fosse apresentado oficialmente a sua família e o namoro tornar-se consentido. Não havia porque adiar a felicidade de ambos.
Já não havia mais tempo para George solucionar o seu impasse com Alice. Cada vez mais a idéia de levá-la a um passeio no lago torna-se uma obsessão, uma fria solução. Alice torna-se um fardo em sua vida, aquela que lhe impedia de alcançar a felicidade e o amor, tão próximos; era o entrave para ele prosperar e ser um homem influente. Eclode dentro dele a vontade de tirar Alice da sua vida, engendrando dentro de si um plano macabro.
Mas a vida não espera pelos planos, segue o seu curso sem olhar para trás ou para as mentiras. Alice vê no jornal, uma fotografia do amado ao lado de Angela. Encontra-se em segredo com George, exigindo-lhe que se case com ela imediatamente. O rapaz vê-se preso entre dois caminhos, de um lado estava Angela, o sonho, a esperança de uma vida próspera e de glamour, o amor e a paixão, à sua espera para concretizar o romance diante da família; do outro lado estava Alice, a crueza da vida, a obrigação de assumir um filho que viera de um acidente, de uma armadilha. George teria o feriado para decidir qual dos dois caminhos seguir, já não poderia mais sufocar naquela angústia.
Já na casa do lago, com Ângela e todos os seus convidados, George diz à amada que a mãe está doente, que lhe irá fazer uma visita, voltando mais tarde. Mas o seu corpo segue os pensamentos obscuros da sua mente. Encontra-se com Alice, aluga um barco, leva-a para um passeio no lago. Está silencioso, a falar apenas com os olhos.
Durante o passeio no barco, George distancia-se das margens do lago. Alice fala dos seus sentimentos, enquanto os olhos de George estão envoltos em pensamentos cada vez mais voltados para a solução dos seus problemas. Uma das cenas mais marcantes do filme, não há palavras nos lábios da personagem, mas os olhos de Montgomery Clift revelam as intenções de homicídio, cortando o seu silêncio implícito. Uma estrela cadente cai. George faz um pedido, que não nos é revelado, mas Alice deduz qual teria sido o pedido. Exaltada, acusa o rapaz de desejar à estrela a sua morte. George parece arrependido de ter pedido a morte da namorada, como se mudasse de idéia no último instante. Mas Alice discute com ele, acusa-o de todos os pensamentos ruins que teve em relação a ela, balança o barco, que capota, ela cai no lago e morre.
George não atirou Alice do barco. Mas ela não sobreviveu. Deixara que se afogasse? Tentara salvá-la, o breve momento de hesitação foram suficientes para a sua morte? Teria sido calculada esta hesitação? O filme não nos revela esses detalhes, apenas uma certeza, o desejo de George atirara Alice para as profundezas das águas. Se ele não a empurrara com os braços, fizera-o sem piedade com os pensamentos. O momento de tensão em que o barco capota é assinalado por um longo plano, George Stevens usa de trevas na imagem para desfocar o momento. Não vemos o que aconteceu, sabemos apenas que Alice tinha medo de George, que o seu medo foi responsável pelo barco capotar, na ambivalência dos valores, o público tem medo da fúria final de Alice, não dos planos macabros de George. Sem saber dos fatos do momento final, resta ao público fazer o seu próprio julgamento da culpa ou da inocência de George.

A Breve Conquista do Lugar ao Sol

George nada até as margens do lago. Passa por alguns camponeses, que mais tarde o irão identificar. Se não matara Alice com as mãos, não se sentia um assassino. Voltou para os braços da bela Angela. Ironicamente ele ouve de Anthony Vickers (Shepperd Strudwick), pai de Angela, elogios ao seu caráter, à sua honestidade, por tudo isto, concordava que ele namorasse a sua filha. O jovem recebe elogios de todos à sua volta. George vai passear com Angela no lago, o mesmo lago que escondia o seu mais perverso segredo. Ele relaxa e usufrui daqueles instantes de glamour e de ascensão social. Momentos que, assim como vieram, terminariam tão logo o corpo de Alice emergisse com a fúria da vingança, das profundezas do logo que lhe tragara a vida.
Quando o corpo de Alice é encontrado, começam a ser reveladas as verdades da sua morte e as mentiras da sua vida. A senhoria da morta revela à polícia que ela tinha tido um caso amoroso com George Eastman.
As investigações chegam finalmente, ao jovem rapaz. Angela volta para casa com George, quando são surpreendidos por uma unidade policial à espera. Se para a bela jovem há uma grande inquietude e surpresa, para George a verdade era uma só, tinha sido descoberto. Desesperado, ele foge, correndo pela floresta, mas é capturado pela polícia, sendo preso.
O agente de polícia (Raymond Burr), revela o crime de George à família Vickers, como se desmascarasse as ambições do rapaz. Ao saber da verdade, Angela tem um colapso e entra em choque. Também a vida com ela estava ser cruel, fazendo com que deixasse o destino de glamour, para amar um homem misterioso, possivelmente um assassino. Amor que ela jamais negara, não se importando com o desvio concreto do seu destino diante da sociedade em que estava inserida.

O Caminho da Cadeira Elétrica

George é levado a julgamento. Várias testemunhas, dos camponeses que o viram, ao homem que lhe alugara o barco, todos confirmam a sua culpa. Um médico legista afirma que a vítima tinha sido espancada, o que não nos foi revelado em momento algum. O promotor acusa George de mentir e ser um frio assassino. Ele traz o barco para o tribunal, causando um grande mal estar no réu, visivelmente mostrado pela interpretação visceral de Montgomery Clift. Num momento de fúria dramática, o acusador bate com o remo sobre o barco, quebrando-o diante do tribunal, como se revelasse a pancada que Alice sofrera na hora da sua morte.
George é considerado culpado, declarado como assassino de Alice Tripp. É condenado à morte na cadeira elétrica. Para George, não ter protegido Alice quando ela estava a afogar-se bastava para que fosse culpado. Para o público, a sua culpa residia em levar Alice ao trágico passeio, o que poderia ter sido um acidente, tornava-se um assassínio não através dos atos de George, mas dos seus pensamentos.
O amor de Angela por George não era fútil, tanto que ela vem visitá-lo momentos antes da sua execução. Mais uma vez ela declara o seu amor. A beleza etérea do casal fica presa na lembrança do público. George Stevens iria eternizar o beijo entre Montgomery Clift e Elizabeth Taylor com uma lente de seis polegadas, em um grande plano, a lembrar um tiro nos sentimentos, intensificando a paixão sensual existente entre o casal, o que jamais ocorrera entre George e Alice. O encontro entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, um dos mais bem sucedidos da história do cinema americano, repetir-se-ia por mais duas vezes, em 1956, em “A Árvore da Vida” (Raintree County) e em 1959, em “De Repente, No Último Verão” (Suddenly, Last Summer). Uma grande amizade nascia entre os atores, só sendo interrompida pela morte precoce de Montgomery Clift, em 1966.
A última cena do filme mostra George a ser conduzido para a cadeira elétrica, após despedir-se de Angela. Para ele não importa o que tenha acontecido, não importa o seu fim, o seu amor por Angela era maior do que o seu castigo, era a única verdade que conquistar em vida. O único sentido diante da tragédia iminente. Enquanto caminha para morte, ouve-se os versos bíblicos com citações de Jesus Cristo. George Eastman leva consigo os pecados de uma sociedade hipócrita que representa, leva a ilusão de todos aqueles como ele, pobre e de uma educação moralista, que em conflito com a possibilidade de ter sucesso, leva-o à ruína. George caminha para a morte a sonhar com a bela Angela, com a certeza de que estava condenado desde o início a ser assassinado pela sociedade que o criara.

Ficha Técnica:

Um Lugar ao Sol

Direção: George Stevens
Ano: 1951
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 122 minutos / preto e branco
Título Original: A Place in the Sun
Roteiro: Harry Brown e Michael Wilson, baseado no livro de Theodore Dreiser
Produção: George Stevens
Música: Franz Waxman
Direção de Fotografia: William C. Mellor
Direção de Arte: Hans Dreier e Walter H. Tyler
Figurino: Edith Head
Edição: William Hornbeck
Efeitos Especiais: Gordon Jennings, Loyal Griggs e Farciot Edouart
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Montgomery Clift, Elizabeth Taylor, Shelley Winters, Anne Revere, Keefe Brasselle, Fred Clark, Raymond Burr, Herbert Heyes, Shepperd Strudwick, Frieda Inescort, Kathryn Givney, Walter Sande, Ted de Corsia, John Ridgely, Lois Chartrand, Paul Frees, Ken Christy, Charles Dayton, Marilyn Dialon, Al Ferguson, Bess Flowers, Ian Wolfe
Sinopse: George Eastman (Montgomery Clift), um jovem ambicioso do interior da Georgia, vai trabalhar na fábrica do tio rico. Ele acredita que alcançará na fábrica do tio um futuro promissor. Na fábrica ele envolve-se com a funcionária Alice Tripp (Shelley Winters), moça humilde que trabalha na linha de montagem. George é introduzido pelo tio na alta sociedade, onde conhece a bela e aristocrática Angela Vickers (Elizabeth Taylor), por quem se apaixona e é correspondido. Distancia-se de Alice, mas ela está grávida e não aceita a situação com passividade. George chega à conclusão de que Alice poderá frustrar os seus planos de ascensão social e o seu relacionamento com Angela. George tem a idéia de matar Alice.

George Stevens

George Stevens nasceu em Oakland, Estados Unidos, em 18 de dezembro de 1904. Era filho de um casal de atores, portanto pisou muito cedo nos palcos
teatrais. Começou a sua carreira cinematográfica aos 17 anos, quando se empregou como assistente de operador de câmera, daí evoluindo para um dos maiores diretores de Hollywood.
George Stevens teve a sua estréia como diretor em 1930, quando dirigiu em simultâneo os curtas-metragens “The Kickoff” e “Ladies Last”. Em 1933 foi contratado pelos estúdios da RKO, realizando o seu primeiro longa-metragem, “The Cohens and Kellys in Trouble”. Desde então, tornou-se um dos diretores mais bem-sucedidos do cinema, realizando vários clássicos de Hollywood.
Entre os grandes sucessos de Stevens está o clássico “Woman of the Year” (A Mulher do Ano), de 1942, que reuniria pela primeira vez um dos maiores casais de Hollywood, Spencer Tracy e Katharine Hepburn; o inesquecível “A Place in the Sun” (Um Lugar ao Sol), em 1951, grande sucesso que reuniu Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, consolidando as suas carreiras, o filme arrebataria seis Oscars e Stevens ganharia o seu primeiro Oscar.
Em 1953, criou o western “Shane” (Os Brutos Também Amam), com Alan Ladd, outro grande sucesso. Em 1956 dirigiu aquele que seria considerado a sua obra-prima, “Giant” (Assim Caminha Humanidade), último filme de James Dean, que atuava ao lado de Rock Hudson e Elizabeth Taylor. O filme rendeu-lhe o segundo Oscar.
O último filme de George Stevens foi “The Only Game in Town”, de 1970. Morreu em Lancaster, em 8 de março de 1975, vitimado por um ataque cardíaco.

Filmografia de George Stevens:

Curta-Metragem

1930 – Ladies Last
1930 – The Kickoff
1931 – Blood na Thunder
1931 – High Gear
1931 – Air-Tight
1931 – Call a Cop
1931 – Mama Loves Papa
1932 – Who, Me?
1932 – The Finishing Touch
1932 – Boys Will Be Boys
1933 – Family Troubles
1933 – Rock-a-Bye Cowboy
1933 – Should Crooners Marry
1933 – Room Mates
1933 – Quiet Please!
1933 – Flirting in the Park
1933 – What Fur
1933 – Grin an Bear It
1933 – A Divorce Courtship
1934 – The Undie-World
1934 – Cracked Shots
1934 – Ocean Swells
1935 – Hunger Pains
1945 – That Justice Be Done

Longa-Metragem

1933 – The Cohens and Kellys in Trouble
1934 – Kentucky Kemels
1934 – Hollywood Party
1934 – Bachelor Bait
1935 – Laddie
1935 – The Nitwites
1935 – Alice Adams (Sonhos Dourados)
1935 – Annie Oakley
1936 – Swing Time (Ritmo Louco)
1937 – Quality Street
1937 – A Damsel in Distress
1938 – Vivacious Lady
1939 – Gunda Din
1940 – Vigil in the Night
1941 – Penny Serenade (Serenata Prateada)
1942 – Woman of the Year (A Primeira Dama)
1942 – The Talk of the Town (E a Vida Continua)
1943 – The More the Merrier (Original Pecado)
1945 – Nazi Concentration Camps
1945 – The Nazi Plan
1948 – I Remember Mama
1951 – A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol)
1952 – Something to Live For
1953 – Shane (Os Brutos Também Amam)
1956 – Giant (Assim Caminha a Humanidade)
1959 – The Diary of Anne Frank (O Diário de Anne Frank)
1965 – The Greatest Story Ever Told (A Maior História de Todos os Tempos)
1970 – The Only Game in Town (Quando o Jogo é o Amor)


… E O VENTO LEVOU

Março 19, 2009

Há sete décadas começavam as filmagens do mais bem sucedido dos filmes feito pelo cinema, “… E o Vento Levou(Gone With The Wind), monumental obra de um dos mais célebres produtores da época de ouro de Hollywood, David O. Selznick, o fabricante de sonhos. De um esplendor mítico, trazendo uma beleza fotográfica avançada para a época, uma trilha sonora que se tornou parte dos clássicos do cinema, um elenco carismático e interpretações inesquecíveis; “… E o Vento Levou” é o filme que mais tempo demorou a ser exibido na televisão, e um dos poucos que ainda hoje obtém lucro ao ser exibido.
Baseado no romance homônimo da escritora Margaret Mitchell, escrito entre 1926 e 1929, o filme traz a história da saga da voluntariosa Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), filha de um rico fazendeiro do sul dos Estados Unidos. Mimada e atrevida, Scarlett vive na fazenda do pai, a sonhar com o amor de Ashley Wilkes (Leslie Howard), que se casa com a doce Melanie Hamilton (Olivia de Havilland). É através desse amor platônico que ela encontra forças para enfrentar uma guerra civil, que leva a família à ruína. Por dez anos Scarlett O’Hara segue a sua paixão, sobrevive à guerra, mente, trai, casa-se três vezes para fugir à miséria. Na trajetória, envolve-se com o cínico Rhett Buttler, homem audaz, único que lhe conhece a verdadeira essência. É nas nuances do casal Scarlett e Buttler que se constrói um dos mais belos romances do cinema, numa arrebatadora história que prende gerações, sem nunca perder a grandiosidade de épico, construindo o maior filme feito pelo cinema americano.
Vivien Leigh vive uma inesquecível Scarlett O’Hara, a força que traz ao falar com os olhos, dá a intensidade perfeita à personagem. Mais de 1400 atrizes foram entrevistadas para viver o papel e cerca de 400 chegaram a fazer a leitura do roteiro. A procura pela atriz que daria rosto e corpo a Scarlett O’Hara ainda não tinha chegado ao fim, e as filmagens foram iniciadas. Sem saber quem seria a protagonista, a primeira cena do filme foi feita, trazia um grande incêndio em Atlanta, com 113 minutos rodados. Para produzir a cena que se tornaria antológica, foi posto fogo em cenários de filmes antigos da MGM (como os da primeira versão de King Kong). O incêndio foi tão intenso, que vizinhos do estúdio pensaram que ele estava pegando fogo, acionando os bombeiros. Assim, no dia 26 de janeiro de 1939, sob um grande incêndio, iniciava-se a saga daquele que seria considerado o mais grandioso de todos os filmes de Hollywood. 70 anos depois, “… E o Vento Levou” nada perdeu do seu glamour épico, muito menos a sua capacidade de conquistar um público que, mesmo diante das quatro horas da duração do filme, não se deixa cansar, fascinando-se com a sua beleza narrativa.

O Rosto de Scarlett O’Hara

Na procura de um rosto para Scarlett O’Hara, mais de 1400 atrizes foram candidatas à intérprete da heroína de Margaret Mitchelll. No meio da intensa disputa pelo papel, Bette Davis deu-se ao luxo de recusá-lo, por não querer contracenar com Errol Flynn, ator que acabou não fazendo parte do elenco. Katharine Hepburn fez de tudo para ganhar o papel, mas David O. Selznick teria comentado ironicamente, que não conseguia ver um homem correndo atrás dela por dez anos. Mesmo achando que a atriz não servia para o papel, Selznick estava inclinado aceitá-la, quando surgiu pelas mãos de Laurence Olivier, a atriz britânica Vivien Leigh, sua mulher na época. Ao fazer o teste, Vivien Leigh conquistou o tão cobiçado papel, apesar de severas críticas contra uma atriz de sotaque britânico a fazer o papel de uma mulher do sul dos Estados Unidos.
No corpo de Vivien Leigh surgiu Scarlett O’Hara, que começa o filme como uma mimada adolescente de 16 anos, filha mais velha de um fazendeiro sulista, plantador de algodão no norte da Georgia. É em Tara, propriedade dos O’Hara, onde Scarlett vive os seus sonhos juvenis. Vive inquieta ao lado dos pais, de duas irmãs e dos fiéis escravos. O pai explica a ela o valor da terra, a força que Tara exerce na vida de quem a lavrou e dela colheu as plantações.
A bela jovem nutre uma paixão platônica por Ashley Wilkes, filho de um fazendeiro vizinho do seu pai. Mas a sua paixão é atravessada pela súbita notícia do casamento do amado com a doce e aristocrática Melanie Hamilton. Durante a festa na casa dos Wilkes, na qual será anunciado o casamento, Scarlett decide declarar-se a Ashley, na esperança de que ele a ame e desista da noiva, para isto espera que todos tirem a sesta, encontrando-se furtivamente com Ashley na biblioteca. Mesmo depois de ouvir a declaração de amor, o rapaz está decidido a casar, diz amá-la como irmã, que ama a noiva Melanie. Irritada, Scarlett joga um vaso sobre Ashley, que a deixa sozinha. É neste momento que um misterioso cavalheiro, Rhett Buttler, visto como um homem de péssima reputação pelas mulheres, revela estar escondido na sala, e que acompanhou a revelação do segredo de Scarlett. Rhett sente-se irremediavelmente atraído por aquela bela e voluntariosa mulher. Começa o jogo de ódio e amor que os irá unir por toda a vida.
No meio de todos os imprevistos, a guerra civil bate às portas dos fazendeiros plantadores de algodão. A festa na casa do Wilkes traz a atmosfera do perigo e da conspiração dos sulistas, que se rebelariam contra o norte.
Menosprezada por Ashley, ironizada por Buttler e falada pelas moças que estão na festa, intempestivamente Scarlett decide, na esperança de atingir o amado e provocar-lhe ciúmes, seduzir Charles Hamilton, irmão de Melanie. Assim, ela rouba o pretende de India Wilkes, irmã de Ashley, aceitando casar-se com ele. Um cavaleiro surge no meio da festa, anunciando que a guerra chegara àquelas bandas. Os homens montam os seus cavalos, com a intenção de alistarem-se e seguirem para o conflito. Melanie e Ashley casam-se no meio do tumultuado momento. O casamento de Scarlett e Charles Hamilton realiza-se minutos antes do jovem partir para a guerra, onde morrerá, deixando uma viúva sem o mínimo apego e que jamais verterá uma lágrima por ele.
As seqüências da jovem e sonhadora Scarlett O’Hara, as cenas da festa na casa dos Wilkes, assim como o grande incêndio da primeira cena gravada, são dirigidas por George Cukor, que se desentenderia com o produtor, afastando-se das filmagens. 4% do filme foi dirigido por Cukor, mas o seu nome não consta nos créditos. Ele ainda dirigiria secretamente as atrizes Vivien Leigh e Olivia de Havilland, que perdidas a certa altura, procurou-o para orientações sobre as suas personagens.

Cenas Épicas de uma Guerra Sangrenta

Com a saída de George Cukor, a realização do filme passou a ser feita por Victor Fleming. Sua direção não agradaria a Vivien Leigh, com quem teve um desgaste, e nem a Olivia de Havilland.
Na precipitação que se casara, Scarlett O’Hara jamais se sentiu como esposa. Um casamento feito alguns minutos antes do marido partir para a guerra ao lado do seu amor, Ashley. Ao voltar da festa, Scarlett percebe que tudo mudara, pois como mulher casada, já não lhe era permitido qualquer diversão. Entediada em Tara, ela consegue convencer a mãe a deixá-la partir para Atlanta, para ajudar a cunhada Melanie. As intenções de Scarlett não são tão nobres, ela aproxima-se da mulher de Ashley com o objetivo de reencontrá-lo, podendo dele ficar mais próxima. Melanie está grávida. Num breve intervalo da guerra, Ashley visita a família em Atlanta, conseguindo a promessa de Scarlett que ela cuidará da mulher até que lhe nasça o filho.
A guerra chega a Atlanta, destruindo a cidade, balas de canhões explodem por todos os lados, inicia-se uma fuga em massa. Quando Scarlett está pronta para a fuga, Melanie entra em trabalho de parto. Presa à promessa que fizera a Ashley, ela fica, mesmo a odiar a cunhada.
A nesta parte do filme, a destruição de Atlanta, que surgem as míticas cenas que dão a dimensão de um grande épico. Desesperada, Scarlett caminha entre milhares de corpos dos sobreviventes da batalha de Gettysburg. Mais de mil figurantes misturam-se com bonecos de cera, dando a dimensão de milhares de mortos e feridos, numa tomada da câmera que acompanha a personagem numa grande viagem aérea, conseguida pela utilização de um guindaste de 43 metros de altura, que rolava por uma rampa de cimento armado. A seqüência pioneira foi desenvolvida por William Cameron Menzies, com efeitos especiais de Jack Cosgrove e Lee Zavits, entre outros.

Amargo Regresso a Tara

Nos tumultuados labirintos da guerra, encontros esporádicos entre Rhett e Scarlett prendem o público, num verdadeiro desafio de amor e ódio que os une. Será o capitão Buttler que retirará Scarlett, Melanie e o filho recém-nascido do meio do furacão das balas de canhões.
Depois de testemunhar os horrores da guerra, Scarlett só quer voltar para Tara, para o recanto da família. Rhett conduz Scarlett para fora de Atlanta, mas no meio do caminho, decide finalmente ir lutar na guerra, ao lado dos confederados. Toma Scarlett nos braços, roubando-lhe um beijo, para que tenha coragem de partir para o conflito, deixando-a sozinha com Melanie no meio da estrada. Scarlett tem medo, grita, chora, amaldiçoa Rhett por deixá-la ali, perdida no meio do caminho.
Enfrentando chuva, frio e os saqueadores das estradas, Scarlett só tem um objetivo, chegar a Tara. Quando finalmente consegue, encontra a fazenda do pai em ruínas, totalmente destruída pela guerra. Não há frutos no pomar, não há suprimentos na dispensa, não há alimentos plantados nos campos, animais nos pastos. Não há mais escravos a servir. Há apenas a miséria da guerra, a fome e a dor da perda. No meio da tragédia, Scarlett descobre que a mãe está morta, o pai ficara perturbado, perdendo a sanidade mental.
Os sonhos de Scarlett O’Hara sucumbem diante da tragédia que se abateu sobre Tara. Faminta, ela sai durante a noite, procurando por algum alimento que tenha restado nas plantações da fazenda. Encontra um único pé de cenoura. Arranca-a da terra e a come. Chora sobre a terra, depois se levanta. É neste momento que uma nova Scarlett nasce, Com o braço erguido, ela jura que jamais voltará a passar fome, que reerguerá Tara, que sobreviverá a todas as diversidades, que tirará daquela terra não só o sustento, como a força que a manterá viva. Uma nova fase da sua saga será contada. Uma nova Scarlett O’Hara surgiu.

Outra Vez Casada, Novamente Viúva

A guerra chega ao fim. Voltam os seus sobreviventes, entre eles Ashley. Scarlett, como filha mais velha dos O’Hara, luta para conseguir reerguer Tara. Para defender a sua terra, fora capaz de tudo, inclusive de matar um saqueador de guerra. É este clima que Ashley encontra ao retornar. Encontra a mulher, Melanie, agradecida a Scarlett por tudo que ela fez. Também Ashley perdera as suas terras. A mulher convence-o a ficar ao lado de Scarlett e ajudá-la a reerguer a fazenda. Com a volta de Ashley, Scarlett declara novamente o seu amor a ele, propondo que fugissem. Mas ele diz que não pode abandonar a mulher e o filho. Scarlett vê na recusa de Ashley apenas uma gratidão a Melanie, não o amor. Pensa que ele pode amá-la, apesar de não o fazer em respeito à mulher. É nesta esperança que mais uma vez, Scarlett conduz a sua vida e a expectativa do amor.
Scarlett descobre que Tara tem uma grande dívida de impostos com a união, que se não saldá-la, perderá as terras. Tenta seduzir Rhett para que lhe empreste o dinheiro, mas ao saber das intenções, o capitão mais uma vez é irônico, mandando-a embora. Scarlett descobre que o noivo da sua irmã Suellen, Frank Kennedy, agora um próspero comerciante, tem o dinheiro que ela precisa. Ela não pensa duas vezes, rouba o noivo à irmã, casando-se com ele e salvando Tara dos impostos.
Scarlett consegue convencer o marido a abrir uma serraria, onde passa a explorar os miseráveis da guerra. Torna-se uma mulher importante e odiada por todos. Para ela trabalham Ashley e o marido. Numa noite, ao voltar para casa, Scarlett é assaltada por dois homens, sendo salva por um antigo escravo do seu pai. Ao reportar os acontecimentos, Ashley e Frank decidem vingar a honra de Scarlett, atacando aqueles que planearam o assalto a ela. Mas Ashley é ferido e Frank morto. Scarlett está viúva novamente.
Sentindo-se culpada pela morte do marido, Scarlett entra em depressão, passando a beber. É assim que Rhett reencontra a mulher pela qual se apaixonara há muitos anos. Encontrando-a frágil, o capitão a beija mais uma vez, propondo-lhe casamento. Scarlett aceita, apesar de confirmar que não o ama. Scarlett casa-se pela terceira vez.

Amor e Ódio Unem Rhett Buttler e Scarlett O’Hara

Uma nova fase de riqueza surge na vida de Scarlett. O marido refaz Tara, deixando-a com o fausto de antes da guerra. Rhett compra uma mansão em Atlanta, para onde se muda com a mulher. O casal tem uma filha, Bonnie Blue Buttler.
Scarlett torna-se uma mulher fútil, fria e distante. Ao nascer a filha, para não perder a beleza do corpo, decide que não mais irá engravidar. Friamente comunica a Rhett que decidiu pela abstinência sexual, pois não deseja ter outro filho dele. Distanciam-se cada vez mais.
Mesmo casada, Scarlett jamais abandonou a ilusão do seu amor por Ashley. Em visita a serraria, ela encontra o amado melancólico. Juntos, eles relembram as suas vidas, antes e depois da guerra. Ashley abraça Scarlett em um tom fraternal, que é visto por sua irmã. Interpretando mal aquele ato, India Wilkes conta a Rhett o que presenciara, despertando-lhe o ciúme, a descrença em um dia conquistar o coração da mulher.
A irmã de Ashley espalha o que viu para todos. O amor de Scarlett por Ashley torna-se público. Todos comentam. Ao saber dos comentários, Scarlett recusa-se a ir ao aniversário de Ashley, temendo que Melanie soubesse dos boatos e a sua reação. Mas Rhett obriga Scarlett a ir à festa e enfrentar a todos. Melanie recebe Scarlett como uma irmã, de braços abertos, escandalizando a todos com a sua atitude.
Ao voltar da festa, Rhett e Scarlett discutem, brigam, num ato de fúria, ele a beija, leva-a a força para o quarto. Na manhã seguinte Scarlett acorda feliz, depois daquela noite de amor, ela começa a ver o marido com outros olhos. Mas Rhett diz à mulher que está pensando no divórcio, que viajará para Londres com a filha Bonnie, quando voltar, será para consolidar o divórcio.
Mas a noite de amor entre os dois deixou as suas conseqüências, quando Rhett volta, sabe que a mulher está grávida. Têm uma nova discussão, que termina com Scarlett a rolar pelas escadas, abortando o filho durante a queda. Melanie ajuda Scarlett a recuperar as forças. Entre ela e Rhett a distância é cada vez maior. Uma outra tragédia abate-se sobre o casal, a filha Bonnie cai de um cavalo, quebra o pescoço e perde a vida. O sentimento de culpa do casal leva-os a uma agressão mútua. Mais uma vez Melanie é chamada para intervir, para confortá-los e ajudá-los a superar a tragédia.
Tempos depois Melanie adoece. No leito de morte, as pessoas tentam impedir que Scarlett a visite, por considerá-la indigna da moribunda. Mas Melanie recebe Scarlett, num ultimo suspiro, pede a ela que cuide de Ashley. Ao ouvir o pedido final de Melanie, Rhett, que estava próximo, vai embora, sem que Scarlett perceba. Melanie morre.
Ashley desespera-se, chora a morte da esposa, afirmando o seu amor por ela. Scarlett percebe que ele jamais teve olhos que não fossem para a mulher. Percebe que o seu amor por Ashley fora uma ilusão juvenil, consumida pelo tempo, que não o ama. Ashley está livre, e ela também, livre daquela ilusão. Percebe que o amor que sente é pelo marido, Rhett. Procura por ele, mas não o encontra. Rhett retirara-se silenciosamente do quarto de morte de Melanie. Scarlett precisa dizer ao marido que o ama. Sai correndo desesperada pelas ruas, cobertas por um denso nevoeiro.
Ao chegar em casa, chama por Rhett, tem pressa em declarar o seu amor por ele. Encontra Rhett a arrumar as malas, pronto para partir. Por dez anos correra atrás daquela mulher, estava cansado de mendigar-lhe o amor. Por mais que ela, aos prantos, declare o seu amor, ele está decidido a deixá-la. Já à porta, Scarlett chora, pergunta a Rhett o que vai ser dela, que ficará sozinha. Ouve-se a frase que se perpetuaria pela história do cinema:
Francamente querida, eu não me importo.”
Rhett parte, desaparece no meio de um denso nevoeiro. Scarlett chora. De repente pára, pensa em como trazer o marido de volta, como resposta repete a frase que sempre dissera durante todo o filme, durante toda a sua vida: “Não quero pensar agora, penso amanhã.”
Mas não consegue deixar de pensar. Já não consegue adiar as decisões e o encontro com a sua consciência, com os seus sentimentos, já não pode deixá-los para o outro dia. Deixa-se cair de joelhos nas escadas, a chorar. De repente ouve as vozes dos homens que passaram por sua vida, de Rhett e do pai. Ambos dizem que é em Tara que retira as suas forças. As vozes tornam-se cada vez mais altas, repetem –se várias vezes, um eco ecoa um nome: Tara… Tara… Tara…
Scarlett ergue-se do desespero que o abandono de Rhett lhe deixara. Percebe que Tara é o ponto de partida da sua vida. É lá que ela encontra a sua força. Será para lá que voltará, e será lá que, se reconquistar Rhett, conseguirá fazê-lo. Ela repete em voz alta:
Tara! … Lar! Irei para o meu lar e pensarei numa forma de tê-lo de volta! Afinal, amanhã é um novo dia!”
Numa última cena, Scarlett aparece debaixo da imensa árvore plantada em Tara, de onde a sua história foi vista, o vento bate sobre as folhas, formando uma grande silhueta daquela que passara por toda a saga da sua história sem jamais se deixar vencer. Num plano com um imenso céu laranja, com as silhuetas negras da árvore e de Scarlett O’Hara, encerra-se o maior de todos os filmes da época de ouro de Hollywood, ou talvez, o maior da sua história.

Os Bastidores das Filmagens

No dia 1 de julho de 1939 foram encerradas as filmagens de “… E o Vento Levou”. No final, o produtor David O. Selznick tinha 28 horas de projeção, com cerca de 60.000 metros de filme.
Diante de tanto material, Selznick trancou-se por vários dias com o montador Hal C. Kern e o seu assistente James Newcom. A montagem foi feita sem que nenhum dos cinco diretores (Victor Fleming, George Cukor, Sam Wood, William Cameron Menzies e Sidney Franklin), fosse consultado. Feita a montagem final, Selznick chamou Vivien Leigh de volta aos sets e filmaram a cena que Scarlett, abandonada por Rhett durante a fuga de Atlanta, esconde-se com a carroça debaixo de uma ponte, durante uma tempestade, enquanto uma tropa de nortistas passava sobre a mesma.
Estava concluído o filme que se tornou símbolo do glamour do cinema na sua época de ouro. Vários foram os que o dirigiram. Primeiro foi George Cukor, responsável por 4% do filme, principalmente pelo início. Victor Fleming substituiu Cukor, dirigindo 45% de “… E o vento Levou”. A sua direção foi contestada pelas atrizes Vivien Leigh e Olivia de Havilland, que passaram a ensaiar em sigilo na casa de Cukor. Diante dos aborrecimentos com as atrizes e da pressão das reclamações de Selznick, Fleming teve um colapso nervoso, sendo substituído por Sam Wood, que assumiu a direção em 1 de maio de 1939, dirigindo 15% do filme. Fleming recuperou-se, quando voltou, Wood continuou na direção, ambos em horários diferentes das filmagens. Também dirigiram “… E o Vento Levou”, William Cameron Menzies e Sidney Franklin. Somente o nome de Fleming foi creditado. Apesar de tantas trocas na direção, o filme, em momento algum, perdeu a coerência, tornado-se um patrimônio do cinema. Graças a uma montagem coesa, estas diferenças de estilos de direção desaparecem ao longo das quatro horas de duração, sem deixar que se torne cansativo.
Os diálogos de “… E o vento Levou” produziram frases célebres e antológicas, disseminadas por todos aqueles que o assistiram. A trilha sonora, composta por Max Steiner, é símbolo de reconhecimento aos ouvidos das mais diferentes gerações que se deixaram seduzir pela saga de Scarlett O’Hara. Finalmente, a fotografia, pioneira na época, traz uma concepção pictórica, traduzida em um fenomenal uso do Technicolor, fazendo do filme um primor técnico que não se desgastou ao longo das décadas.
Nunca uma escolha, diante de centenas de opções, de uma atriz foi tão perfeita quanto à de Vivien Leigh para interpretar Scarlett O’Hara. O olhar de fogo da atriz deu ênfase ao temperamento da personagem, uma mulher mimada, voluntariosa, manipuladora e de uma sedução irresistível. Reza a lenda que a atriz não suportava as cenas de beijos com Clark Gable, culpando um suposto mau hálito do ator. Intrigas a parte, a química dos atores fez do filme uma história apaixonante, mesmo diante de um amor que se distancia cada vez mais das personagens, que quando aumenta de uma das partes, repele a outra, criando um jogo de impossibilidades diante dos sentimentos. A atriz recebeu vinte e cinco mil dólares pela atuação no filme, em contrapartida com os cento e vinte mil dólares recebidos por Clark Gable. Mesmo diante da diferença salarial, Vivien Leigh viveu a mais fascinante das mulheres do cinema, ganhando o Oscar de melhor atriz por esta excepcional atuação.
Além do Oscar de melhor atriz, o filme arrebatou mais nove estatuetas: melhor filme, melhor diretor (Victor Fleming), melhor atriz coadjuvante (Hattie McDaniel), melhor direção de arte, melhor edição, melhor fotografia, melhor roteiro, Oscar honorário para William Cameron Menzies e Oscar técnico para Don Musgrave. Além dos prêmios, recebeu outras cinco indicações, entre elas a de melhor ator (Clark Gable) e melhor atriz coadjuvante (Olívia de Havilland). Hattie McDaniel foi a primeira atriz negra a receber um Oscar, ironicamente ela não pôde comparecer à estréia do filme em Atlanta, justamente por ser negra. “… E o Vento Levou” foi o primeiro filme colorido a receber um Oscar.
À época, a produção de “… E o Vento Levou” custou mais de cinco milhões de dólares, tendo alcançado quatro anos depois do seu lançamento, uma bilheteria de mais de trinta e dois milhões de dólares. Continua a ser o filme que ainda gera lucros em suas exibições pelo mundo.
Outros filmes foram lançados como continuação de “…E o Vento Levou”, mas passaram despercebidos diante da sua mediocridade e ante a grandiosidade do original. Acadêmico, repleto de mensagens de racismo, duração quilométrica, nada disso ofuscou o carisma do filme, a sua beleza épica, tão pouco diminuiu a força telúrica das suas personagens. O filme é o mais pleno retrato de uma Hollywood repleta de glamour, e é principalmente, a face iluminada de um fabricante de sonhos, o genial produtor David O. Selznick.

Ficha Técnica:

… E o Vento Levou

Direção: Victor Fleming
Ano: 1939
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 241 minutos / cor
Título Original: Gone With The Wind
Roteiro: Sidney Howard, baseado no livro de Margaret Mitchell
Produção: David O. Selznick
Música: Max Steiner
Direção de Fotografia: Ernest Haller e Ray Rennahan
Desenho de Produção: William Cameron Menzies
Direção de Arte: Lyle R. Wheeler
Figurino: Walter Plunkett
Edição: Hal C. Kern
Estúdio: Selznick International Pictures
Distribuição: MGM
Elenco: Clark Gable, Vivien Leigh, Leslie Howard, Olivia de Havilland, Hattie McDaniel, Thomas Mitchell, Barbara O’Neil, Evelyn Keys, Ann Rutherford, George Reeves, Fred Crane, Butterfly McQueen, Victor Jory, Everett Brown, Howard C. Hickman, Alicia Rhett, Rand Brooks, Carrol Nye
Sinopse: Uma reunião social acontece numa grande plantação na Georgia, Tara, cujo dono é Gerald O’Hara (Thomas Mitchell), um imigrante irlandês. Na mansão está Scarlett (Vivien Leigh), sua bela e teimosa filha adolescente. Scarlett ama obsessivamente Ashley (Leslie Howard), o primogênito do patriarca de Twelve Oaks. Ashley está comprometido com Melanie Hamilton (Olívia de Havilland). Scarlett acha a vida em Tara monótona, mas seu pai diz que Tara é uma herança inestimável, pois só a terra é um bem que dura para sempre. Ela revela um inapropriado comportamento nas festas, apesar das objeções de Mammy (Hattie McDowell), sua protetora escrava. Em Twelve Oaks Scarlett é o centro das atenções, em razão dos vários pretendentes que lhe ladeiam. Mais tarde Scarlett ouve os cavalheiros discutindo acaloradamente sobre a guerra eminente que acontecerá entre o norte e o sul, crendo que derrotarão em meses os ianques. Só Rhett Buttler (Clark Gable), um aventureiro que tem o hábito de ser franco, não concorda com estas declarações movidas mais pelo orgulho do que pela lógica. Um jovem, Charles Hamilton (Rand Brooks), sentindo-se insultado, tenta desafiar Rhett para um duelo, mas ele se esquiva. Scarlett procura Ashley, declarando-se a ele. Ashley diz que ama Melanie, entretanto admite que ama Scarlett fraternalmente. Ela fica irritada, esbofeteando-o. Ashley deixa a biblioteca. Ela lança um vaso contra a lareira e descobre que atrás de um sofá estava Rhett. Quando Scarlett lhe diz que não é um cavalheiro, Rhett retruca dizendo que ela não é uma dama. Rhett fica atraído pela beleza de Scarlett. Em Twelve Oaks chega um cavaleiro, para dizer que a guerra começou. Charles vai dizer a Scarlett que a guerra foi declarada, com todos os homens indo se alistar. Enquanto via Ashley se despedir de Melanie, Scarlett ouve Charles lhe pedir em casamento. Movida pela mágoa, ela aceita e diz que quer casar antes que ele parta. Melanie e Ashley casam-se num dia e Scarlett e Charles no outro. O que Scarlett desconhecia é que o futuro lhe reservava dias muito mais amargos, pois durante a Guerra Civil Americana, várias fortunas e famílias seriam destruídas.


ADEUS, MENINOS

Fevereiro 28, 2009

 


Há momentos da história que a força bruta, a crueldade opressiva, o preconceito e a insensatez dos homens vingam sobre a humanidade, gerando guerras sangrentas e de efeitos irreversíveis. Adeus, Meninos (Au Revoir les Enfants), escrito, produzido e dirigido por Louis Malle, é um filme que com sensibilidade expressiva, mostra um desses momentos negros da história, a Segunda Guerra Mundial.
Filme de 1987, Adeus, Meninos é o retrato de uma França ocupada pelos nazistas, dividida entre os que resistiam à ocupação e os que a aceitavam passivamente, até colaborando com os invasores, delatando e denunciando vizinhos, amigos e patriotas.
No meio do preconceito gerado pela insanidade nazista, esteve a perseguição e o extermínio ao povo judeu. O filme de Louis Malle traz uma história delineada em fatos reais, vividos pelo diretor aos 12 anos, quando ele estudava em um colégio carmelita perto de Fontainebleau. Traz a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, mas o cenário é um colégio católico, internato de crianças ricas francesas. A amizade de Julien Quentin (Gaspard Manesse) e Jean Bonnet (Raphael Fejto), o primeiro, um menino cristão de família rica, o segundo um menino judeu refugiado no colégio para fugir à perseguição nazista, comove pela sua ingenuidade juvenil, sincera diante de tempos de preconceito e obscuridade. O perigo é iminente, mas a amizade de ambos suaviza o fantasma devastador da guerra. Mesmo diante da tragédia que se instalará a qualquer momento, há tempo para a descoberta da amizade, da adolescência que assim como os nazistas, está à porta, da intelectualidade da vida, das diferenças culturais e, principalmente, do grande amor fraterno que une as pessoas em momentos de penúria e perigo. Mesmo diante de uma temática com um fim pungente, Louis Malle constrói uma história forte e lírica, com uma sensibilidade ímpar e delicada, sem em momento algum se prostrar diante do melodrama, sem recorrer ao sentimentalismo óbvio, fazendo do filme um dos melhores da década de 1980, e um dos melhores do cinema francês de todos os tempos.

Amizade Nascida à Sombra da Guerra

No inverno francês de 1943-44, a França está completamente ocupada pelas tropas de Hitler, sendo os seus habitantes submetidos ao poder nazista, sofrendo grandes dificuldades por conta dessa ocupação. A Segunda Guerra Mundial está em sua plenitude. É neste cenário histórico movido pela guerra que nos surge Julien Quentin, menino de 12 anos, filho de uma rica família do norte da França. Após as festas natalinas em casa, ele retorna ao colégio interno católico de St. Jean-de-la-Croix, lugar que considera tedioso, de uma rotina asfixiante, onde a maioria dos colegas lhe tem animosidade, pois Julien leva os seus estudos a sério, recebendo elogios dos professores. Oitenta meninos estudam no colégio, numa época de inverno, enfrentam não só o frio rigoroso, mas os bombardeios, a opressão dos nazistas, a falta de abundância de comida, até mesmo o mercado negro que controla os produtos essenciais.
Julien sente a falta de casa. Suas aulas parecem sem novidades até o padre Jean (Philippe Morier-Genoud), o diretor, aceitar três novos alunos. Entre os novos está Jean Bonnet, da mesma idade e turma que Julien.
O entediado Julien fica intrigado com Bonnet, por sua introspecção e assim como ele, também marginalizado pelo resto da classe. Se a princípio os dois não se dão bem, com o tempo eles se aproximam, criando um ínfimo vínculo próximo da amizade.
Estreitados laços entre dos dois meninos, uma noite Julien descobre que Bonnet usa um solidéu e faz uma oração em hebraico. A revelação é simples, Bonnet é judeu, ele e vários outros meninos do colégio são acolhidos pelos padres para protegê-los da perseguição dos nazistas, evitando que sejam enviados como prisioneiros para os campos de concentração. A descoberta de Julien não o afasta de Bonnet, não influencia a amizade de ambos, pelo contrário, a sensação do perigo envolvendo o segredo, une-os ainda mais.

O Católico e o Judeu em Tempos da Ocupação Nazista

Feita a revelação do segredo de Bonnet, são delineados o motivo e as personagens do filme. Julien é católico, filho de uma tradicional família francesa, dono de uma excepcional força de personalidade e carisma, que emprestará ao solitário companheiro. Bonnet é judeu, a condição diante da guerra acentua-lhe a inteligência e a disciplina como vertentes de sobrevivência, é apaixonado por livros, por onde tenta decifrar o mundo dos adultos. Bonnet está no colégio com nome falso e foragido, vivendo no limiar de uma situação de pânico
Se Julien vive a saudade da família, que viu recentemente no natal, quando esteve em casa, com Bonnet não acontece o mesmo. O pequeno judeu está sozinho, perdera a direção da família, levada pelos nazistas, não sabe do paradeiro dos entes queridos, mas a platéia que assiste ao filme desconfia, pois sabe da existência dos campos de concentração da história.
Na força que traz a amizade de Julien, Bonnet vence a solidão, voltando a ser ele mesmo, resgatando sonhos juvenis, de uma infância que se esvai diante de uma adolescência que se desponta. A inocência infantil dilacerada pela crueza da guerra, é devolvida diante da amizade dos dois. Por alguns instantes, em meio a um tempo asfixiante, tornam-se dois meninos normais, sonhadores, donos de uma beleza de personalidades ímpares, longe do cenário da guerra.
A história cresce diante da visão de dois jovens, nas sensações que vivenciam, na metamorfose da criança para o adolescente. Juntos, Julien e Bonnet visitam, às escondidas, a sala de música; lêem secretamente o livro “Arabian Nights”, procuram com afinco um tesouro nas matas aos arredores do colégio.
Louis Malle relata com rara beleza a amizade profunda de Julien e Bonnet, sem esquecer em momento algum a época de medo que se vive, repleta de angústias e incertezas. Não nos deixa distrair que se vive em um mundo transformado pela guerra, dos efeitos devastadores que ela trouxe para as pessoas que faziam parte daquele tempo. Esta sensação é captada pelo expectador, que sente as tensões humanas vividas pelas personagens, traduzidas pelas sombras da adolescência e da guerra, aqui indivisíveis. Malle não relata um filme de guerra, mostra-nos uma história de amizade passada durante a guerra e o preço que se paga diante dela.

O Adeus aos Companheiros

A amizade entre Julien e Bonnet é breve, mas intensa, definitiva, como todos os grandes acontecimentos que envolvem a infância. É esta infância perdida em todos nós, que acentua tão bem o filme, que faz dele uma comovente e nostálgica ode à amizade, que será interrompida bruscamente, mediante a denúncia de um rancoroso empregado do colégio à Gestapo, revelando-lhes que ali havia a presença de crianças judias.
A partir daí o desfecho é inevitável, quase uma tragédia anunciada. Se a crueldade da guerra e os efeitos de uma nação ocupada são apenas sugeridos, a partir da denúncia, elas tornam-se paradoxalmente mais onipresentes do que se Malle trouxesse imagens explícitas.
Julian e Bonnet serão cruelmente afastados, quando soldados nazistas invadem o colégio, prendendo Bonnet, dois alunos judeus e o padre Jean, diretor responsável pelo internato. Neste momento dramático final, quase que se respira a tragédia, que é captada com extrema delicadeza por Malle através dos olhares e silêncios repletos de significados. Trejeitos arrancados dos atores revelam a indignação sugerida, a opressão sem limites, e, finalmente, a perda da inocência. Julien, ao ver o seu amigo ser levado pelos nazistas, já não é a criança inocente de outrora, entra definitivamente na adolescência. Bonnet, ao lançar um olhar de despedida para Julien, é definitivamente arrastado pela guerra, a caminho de uma morte que não se vê, mas que bem é sabido, aconteceu a milhares de judeus. É o momento silencioso de Bonnet dizer adeus.
No pátio, as crianças estão alinhadas, ao ver o padre Jean e os três meninos conduzidos pelos nazistas, começam a gritar: “Au revoir, seg. Pére (adeus, senhor padre)”, ao que ele responde: “Au revoir les enfants. A bientôt!”. Revela-se o eufemismo do título. Numa narrativa final, um Julien mais velho, conta que jamais se esqueceu daquele dia, que das três crianças enviadas para os campos de concentração, nenhuma sobreviveu, assim como padre Jean. Encerra-se uma obra-prima do cinema, e como diriam alguns críticos, de um grande humanista.

Um Filme Humanista

Adeus, Meninos é um dos mais belos filmes de todos os tempos. Louis Malle viveu esta história aos 12 anos, levou 43 anos para conseguir contá-la diante dos ecrãs do cinema. Com grande sensibilidade, a sua memória não se esqueceu em momento algum de reproduzir os encantos da infância e as amizades nela feita, mesmo diante de situações de hostilidade política e opressão ideológica.
O filme é um encontro da própria França com a sua história, um acerto de contas de uma nação que ocupada pelos nazistas de 1940 a 1944, teve grande parte da sua população a colaborar com os invasores, perseguindo e delatando muitos que fizeram parte da resistência. O próprio cinema francês, vê no filme de Malle uma análise de consciência do seu povo, numa época dúbia do comportamento de muitos patriotas que, em nome da sobrevivência, perderam a identidade de uma nação e renderam-se aos invasores, muitos por medo, outros tantos por simpatia ao regime de Hitler.
A beleza do filme de Louis Malle está em um roteiro bem estruturado, numa esmerada e natural direção de fotografia de Renato Berta, numa direção afiada e competente, além de um excelente elenco, que trouxeram interpretações simples e contidas, mas encantadoras. É o filme de estréia no cinema da bela Irène Jacob, então com 21 anos, que se tornaria a musa de Krzysztof Kieslowski.
Adeus, Meninos concorreu e ganhou vários prêmios por todo o mundo, entre eles: o Leão de Ouro no Festival de Veneza de 1987; concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, perdendo para o não menos belo “A Festa de Babette”; ao Globo de Ouro, também como melhor filme de língua estrangeira; arrebatou sete Prêmios César, na França, entre eles o de melhor filme e o de melhor diretor.
Merecidamente galardoado com vários prêmios, é um dos mais belos filmes de todos os tempos, conseguindo ser poético ante a um ambiente inóspito de guerra. Sua atmosfera nostálgica vai além do lirismo que se emana, fazendo-o grandioso, sem ser uma grande produção. Um filme humanista.

Ficha Técnica:

Adeus, Meninos

Direção: Louis Malle
Ano: 1987
País: França, Alemanha Ocidental
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / cor
Título Original: Au Revoir les Enfants
Roteiro: Louis Malle
Produção: Louis Malle
Música: Franz Schubert e Camille Saint-Saens
Direção de Fotografia: Renato Berta
Desenho de Produção: Willy Holt
Direção de Arte: Willy Holt
Figurino: Corinne Jorry
Edição: Emmanuelle Castro
Estúdio: Stella Films / MK2 Productions / NEF Filmproduktion / Nouvelles Éditions de Films
Distribuição: Orion Classics
Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg, Philippe Morier-Genoud, François Berléand, François Négret, Peter Fitz, Pascal Rivet, Benoît Henriet, Richard Lebouef, Xavier Legrand, Irène Jacob
Sinopse: França, inverno de 1944. Julien Quentin (Gaspard Manesse) é um garoto de 12 anos que freqüenta o colégio St. Jean-de-la-Croix, que enfrenta grandes dificuldades devido a Segunda Guerra Mundial. Lá ele se torna o melhor amigo de Jean Bonnet (Raphael Fejto), um introvertido colega de classe que Julien posteriormente descobre ser judeu. A tragédia chega à escola quando a Gestapo invade o local, prendendo Jean, outros dois alunos e ainda o padre responsável pelo colégio.

Louis Malle

Louis Malle, francês, grande diretor de cinema, nasceu em Thumeries, a 30 de outubro de 1932. Formou-se em Ciências Políticas, na Sorbonne, mas foi no cinema que se revelaria para a França e para o mundo. No início da carreira foi assistente de Robert Bresson e de Jacques Cousteau, com quem dirigiu o documentário O Mundo do Silêncio, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1956.
Por possuir um estilo diferente da geração de cineastas de seu país que formavam a nouvelle vague, Malle conviveu à margem, sendo rejeitado por Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Françoise Truffaut.
Louis Malle dirigiu trinta longas-metragens, construindo uma carreira cinematográfica sólida, retratando filmes com temas polêmicos, críticos aos valores burgueses do século XX. Conseguiu emoldurar as angústias sociais humanas geradas por um século dividido entre guerras e revoluções de costumes. Nos seus filmes encontramos temas como o suicídio (Trinta Anos Esta Noite, 1963), a liberação feminina (Os Amantes, 1958), o incesto (O Sopro no Coração, 1971) e a pedofilia (Menina Bonita, 1978). Suas obras sofreram cortes da censura, algumas causaram constrangimentos os seus compatriotas, como Lacombe Lucien.
Louis Malle foi um dos poucos diretores franceses bem sucedidos em Hollywood. Foi casado com a atriz Candice Bergen. Morreu em Beverly Hills, EUA, em 23 de novembro de 1995, vítima de um câncer.

Filmografia de Louis Malle:

1953 – Crazeologie
1954 – Station 307
1956 – Le Monde du Silence (O Mundo do Silêncio) – Co-Direção com Jacques Cousteau
1958 – Ascenseur pour l’Échafaud (Ascensor para o Cadafalso)
1958 – Les Amants (Os Amantes)
1960 – Zazie dans le Mètro (Zazie no Metro)
1962 – Vie Privée (Vida Privada)
1962 – Vive le Tour
1963 – Le Feu Follet (Trinta Anos Esta Noite)
1964 – Bons Baisers de Bangkok (TV)
1965 – Viva Maria!
1967 – Le Voleur (O Ladrão Aventureiro)
1968 – Histoires Extraordinaires
1969 – L’Inde Fantôme
1969 – Calcutta
1971 – Le Souffle au Coeur (O Sopro do Coração)
1974 – Place de la République
1974 – Humain, Trop Humain
1974 – Lacombe Lucien
1975 – Black Moon (Lua Negra)
1976 – Close Up
1977 – Dominique Sanda ou Le Revê Éveillé (TV)
1978 – Pretty Baby (Menina Bonita)
1980 – Atlantic City
1981 – My Dinner with André (Meu Jantar com André)
1984 – Crackers
1985 – Alamo Bay (A Baía do Ódio)
1986 – God’s Country (TV)
1986 – And the Pursuit of Happiness (TV)
1987 – Au Revoir, les Enfants (Adeus, Meninos)
1990 – Milou en Mai (Loucuras de Primavera)
1992 – Damage (Perdas e Danos)
1994 – Vanya on 42nd Street (Tio Vânia em Nova York)