A BRASILEIRA DO CHIADO – ONDE LISBOA PULSA

Setembro 28, 2009

Situada no coração de Lisboa, A Brasileira do Chiado representa um dos lugares mais míticos da capital portuguesa. Emblemática, a cafetaria atravessou o seu primeiro século de existência, foi aberta em 1905, volvida por uma tradição histórica que se tornou legendária.
Inicialmente, a casa servia uma bebida amarga e pouco difundida em Lisboa, o café. Aos poucos, Adriano Telles, seu inaugurador, conseguiu fazer da bebida uma tradição, e em 1908, abria a primeira sala de café na cidade. O termo “bica”, usado pelo lisboeta para designar uma xícara de café, teria sido criado por Adriano Telles, jamais saindo do vocabulário da população.
Na década de 1920, A Brasileira tornou-se um importante centro cultural de Lisboa e de Portugal. Longas tertúlias eram regadas por fumo e café, promovidas por pintores, artistas, escritores, políticos e a maioria dos representantes da intelectualidade lusitana. Por lá passaram Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Jorge Barradas e muitos dos modernistas portugueses. As marcas da presença dos grandes expoentes dessa época de ouro ficaram nas paredes do café, com quadros feitos exclusivamente para a exposição permanente da casa.
A tradição histórica de A Brasileira atravessou o século XX, pela ditadura salazarista passou sem perder o glamour, assistiu ao alvorecer dos cravos de abril, viu a capital lusitana exilar as suas características bairristas e transformar-se em uma cidade fortemente européia e totalmente englobada na União Européia; saiu intacta do imenso incêndio que destruiu grande parte do Chiado, em 1988, adaptou-se aos novos tempos, criando uma nova clientela, sem perder o ludismo emblemático que atrai milhares de turistas durante todo o ano, e recebe a tradicional clientela lisboeta, formada pelas mais variadas vertentes e movimentos que assolam a cidade.
O serviço de atendimento da cafetaria é péssimo. Serve uns pastéis medíocres, o restaurante é da pior qualidade, e o café, que tem no lema secular a frase “o melhor café é o da Brasileira”, há décadas que só o é nas palavras. Apesar de todos os problemas, tomar um café na esplanada d’A Brasileira durante o verão ou dentro dela durante o inverno, é um dos momentos mais mágicos e lúdicos da cidade de Lisboa. Ponto de encontro de todas as tribos, não há nada mais elegante, provocativo e contraventor do que mesclar os turistas e os clientes habituais no fim da tarde. Só então, é que se percebe o mistério sedutor que o ambiente d’A Brasileira exerce sobre todos nós. Paradoxalmente, servindo o pior café de Lisboa, A Brasileira é o melhor local de Portugal para bebê-lo.

O Café Chega aos Lisboetas

Em 19 de novembro de 1905, o português Adriano Telles, que anos antes emigrara para o Brasil, onde acumulara um bom capital, inaugurava uma casa na Rua Garret, nos números 120 e 122, próxima ao Largo do Chiado, que chamou de “A Brazileira”. Mantendo grandes contactos no Brasil, Telles viu na importação de diversos produtos daquele país um excelente e lucrativo negócio. Vendia entre os exóticos produtos tropicais: a tapioca, a goiabada, piripiri e pimentas, chá e farinha, além dos tradicionais produtos portugueses, azeite e vinho.
Localizada em um dos pontos mais requintados e bem freqüentados da Lisboa do princípio do século XX – o bairro do Chiado; a casa fundada por Telles tinha como vizinhos a tradicional “Casa Havaneza”, a maior importadora de cigarros e charutos do seu tempo, e que ainda resiste ao terceiro milênio como uma das mais emblemáticas de Lisboa; e, a “Retrozaria David & David”. Ante a vizinhos tão sofisticados, era preciso que se inovasse nas ofertas dos produtos oferecidos. A Brasileira trazia uma novidade, a venda do “genuíno café do Brasil”, conforme anunciava Telles. O café não fazia parte da cultura lisboeta, sendo uma bebida pouco apreciada e até evitada pela população.
Inicialmente o café estava distante de ser servido em chávenas,de ser extraído de máquinas e adquirir aspecto cremoso. Telles servia a bebida a cada cliente, para que provasse, sem que lhe fosse cobrado. Era uma bebida amarga, aromática e servida quente. Junto ao café que era oferecido no balcão, Adriano Telles ensinava ao cliente como fazê-lo, juntamente ofertava um jornal publicitário da casa e de outras vizinhas no Chiado.
Reza a lenda que Adriano Telles teria inventado o termo “bica”, para designar uma chávena de café. Servida de uma cafeteira, Telles teria ordenado ao empregado que trouxesse a bebida para ser servida em chávena cheia a partir da bica do saco. Usara a palavra bica, que passou a fazer parte do vocabulário lisboeta, sendo usado até os tempos atuais.
Aos poucos, Adriano Telles, através d’A Brasileira, foi introduzindo o hábito do café aos habitantes de Lisboa. O sucesso levou o inaugurador da casa a transformá-la, em 1908, em uma sala de café, novidade que caiu no gosto da elite lisboeta. Rapidamente, beber um café n’A Brasileira do Chiado virou moda, sendo transformada em lugar de culto pelos setores mais sofisticados da sociedade da época.

A Exposição Permanente de Arte da Casa do Chiado

Seria na década de 1920 que A Brasileira tornar-se-ia uma casa fundamental nos movimentos culturais que revolucionaram Lisboa e Portugal. Cada vez mais famosa, a casa passou a ser ponto de encontro da elite intelectual alfacinha. O café foi convertido em sala de estar da capital. Era freqüentado por Almada Negreiros, seu mais fervoroso cliente; Fernando Pessoa, que tinha predileção pelo Martinho da Arcada; Bernardo Marques; Jorge Barradas e Santa Rita Pintor, entre muitos outros.
Ainda na primeira metade da década de vinte, A Brasileira passou por uma grande remodelação do espaço, vindo a abrigar obras dos artistas emergentes que eram freqüentadores assíduos do café.
Em 1925, onze telas que se tornariam valiosas dentro do modernismo português são mostradas n’A Brasileira. Eram tão além do conservadorismo da época, que sofreram pesadas críticas da imprensa, sendo chamadas de “As Telas Tolas”. Um novo lema espalhou-se por Lisboa para definir as obras de arte: “O melhor café é o d’A Brasileira, e os piores painéis também são os de lá”. Os autores das onze telas eram sete: Eduardo Viana (com duas obras), Almada Negreiros (duas obras), José Pacheko, Antonio Soares (duas obras), Jorge Barradas (também com duas obras), Bernardo Marques e Stuart de Carvalhais. A conservadora elite intelectual portuguesa tinha como espelho a arte de Malhoa e Columbano, não enxergando o movimento modernista e as novas tendências nas artes que assolaria aquela década.
Apesar da rejeição da época, as obras de arte da exposição permanente da década de vinte n’A Brasileira do Chiado, fazem parte dos maiores acervos do modernismo português. As telas fizeram do café o centro dos movimentos artísticos. A Brasileira passou a fazer parte da História da Arte em Portugal.
Em 1971, a exposição permanente do café do Chiado seria atualizada com onze novos quadros, englobando várias vertentes de correntes e estéticas que retratavam a época. Os autores das obras eram: Eduardo Nery, Noronha da Costa, João Vieira, Antonio Palolo, Hogan, Nikias Skapinakis, Vespeira, Carlos Calvet, Fernando Azevedi, Joaquim Rodrigo e Manuel Baptista.
O acervo artístico d’A Brasileira tem ainda, a famosa estátua de bronze de Fernando Pessoa, de autoria de Lagoa Henriques, erguida em frente ao café, na sua esplanada. Pessoa aparece sentado, com a mesa do lado, à espera do café. A estátua atrai um grande número de turistas, que se sentam à sua volta, registrando o momento em milhares de fotografias.
As obras permanentes estão até os dias atuais nas paredes d’A Brasileira, fazendo do local um sofisticado e valioso patrimônio histórico. Estas características fazem do café um sítio impar dentro da cultura portuguesa do século XX, em um legado sem precedentes que atravessou o terceiro milênio.

O Fascínio d’A Brasileira

A Brasileira tornou-se um local de grande pulsação intelectual, que passou pelos vários períodos da história de Portugal no século XX. Na época do Estado Novo, era freqüentada por intelectuais que se opunham à ditadura de Salazar, e por homens influentes do próprio regime. Militantes de esquerda dividiam espaço com a perigosa e repressiva polícia política salazarista, a PIDE.
Reza a lenda que Salazar tinha profundo respeito pela tradição histórica da casa do Chiado, proibindo que se efetuassem prisões dentro do café. Há relatos de que vários perseguidos políticos da ditadura, exilavam-se por algumas horas no café para não serem presos, do lado de fora ficava a polícia, à espera.
Na década de 1960, as guerras coloniais, a crise econômica, levaram Portugal a um visível empobrecimento, fazendo com que a elite intelectual perdesse grande parte do seu glamour. A Brasileira sentiu a crise. Nesta e na década seguinte, já no crepúsculo da ditadura, viu a importância do café popularizar-se, saindo dos grandes salões para cafés comuns, sem sofisticação, e, espalhados por vários pontos da cidade.
No fim dos anos 1980, assistiu-se a um desleixo na qualidade dos serviços, uma negligência com o espaço, que dava um aspecto de degradação e decadência. Esta crise ficou acentuada a partir de agosto de 1988, quando um imenso incêndio destruiu grande parte do Chiado. Apesar de não ter sido atingida pelo fogo, A Brasileira foi prejudicada pela degradação do bairro e das ruínas que restaram do incêndio. O Chiado levou mais de dez anos para ser reconstruído, trazendo grande prejuízo para o comércio do bairro.
No início da década de 1990, A Brasileira passou a ser administrada a partir do seu nome, da fama e da tradição, sem a preocupação com a qualidade. Nesta época, o então dono, Jaime Silva, não vendo lucros na casa, ameaçou transformá-la em uma lucrativa hamburgueria, seguindo a tendência das grandes redes de hambúrgueres norte-americanas, que compraram cafés e prédios históricos por toda a Europa. A resposta do governo português foi imediata, a casa foi tombada como patrimônio cultural, não sendo permitido que fosse modificada. Frustrados os planos da hamburgueria, o café fechou as suas portas em 1993, para que se efetuasse uma profunda reforma. Quando reaberta, a casa trouxe a sua beleza e sofisticação, por anos escondidas atrás das paredes desbotadas pelo tempo, agora restauradas. Os sanitários, que ficavam ao fundo, foram transferidos para a cave, tendo o seu acesso através de uma escada, que roubou o lugar de várias mesas. Na cave, foi aberto um restaurante sem qualquer atrativo. No lugar dos antigos sanitários, foram instaladas as novas cozinhas. A casa voltou a mostrar a sua beleza opulenta, apesar de não ter melhora alguma no atendimento o no que se é servido.
Mesmo diante das deficiências, a casa jamais deixou de receber turistas curiosos, clientes lisboetas tradicionais e portugueses de todas as partes do país. Sua esplanada é aberta na primavera, quando as chuvas terminam. Atingem o auge no verão, passando a ser um local disputado por todas as vertentes dos movimentos sociais da cidade e por turistas do mundo inteiro. No fim da tarde, é ponto de encontro obrigatório de intelectuais e amantes da noite, que dali partem para a boemia do Bairro Alto.
Foi na esplanada d’A Brasileira que intelectuais e representantes dos movimentos de Lisboa, encontraram-se para encerrar o “Lisboa 94”, movimento que dera à cidade o título de capital européia da cultura daquele ano. Dali, ouviu-se os sinos de todas as igrejas do Bairro Alto, então aclamado de “Sétima Colina”, a encerrarem o movimento. Logo a seguir, a estátua de Fernando Pessoa foi retirada e a esplanada do café desapareceu provisoriamente, para dar passagem às obras de expansão do metropolitano. Em 1998, a estação Baixa-Chiado foi inaugurada, com uma entrada na frente do legendário café.
Localizada em um local privilegiado, com o Teatro Nacional de São Carlos à frente, ao lado do prédio onde nasceu Fernando Pessoa; o Largo do Chiado e a famosa estátua do poeta, também em frente; a poucos metros da Praça Camões, ponto de entrada para o mítico Bairro Alto; e ainda, a Livraria Bertrand, tradicional em Lisboa. Logo abaixo, do mesmo lado, está a Bernard, grande pastelaria de qualidade inegável, que não fica a dever às grandes da Europa. Mas o café sem sabor d’A Brasileira sabe a um prazer intelectual que nenhuma qualidade ofusca.
No século XXI, A Brasileira continua a ser o lugar mais emblemático para uma tertúlia, para que se possa encontrar pessoas em ebulição constante, que carregam e promovem os movimentos culturais da cidade, ou simplesmente para travar grandes amizades entre nativos e turistas do mundo inteiro. A Brasileira tem esta magia, faz com que todas as tribos convirjam, visões e comportamentos sejam quebrados, e que todos estejam abertos para grandes conhecimentos.


QUANDO OS BONDES E OS AUTOMÓVEIS INVADIRAM AS RUAS DE SÃO PAULO

Agosto 30, 2009
São Paulo é uma metrópole com cerca de 13 milhões de automóveis, uma das maiores frotas do mundo. O imenso número obrigou a promulgação de uma lei municipal que criou um sistema de rodízio, proibindo que todos os automóveis circulem ao mesmo, evitando assim, congestionamentos caóticos e uma poluição a nível insuportável na atmosfera da cidade.
Uma vasta rede de transportes ajuda o deslocamento diário de milhões de habitantes. Metropolitano, trens suburbanos, ônibus, tudo faz parte de um complexo, e nem sempre eficaz, serviço de locomoção que não deixa a maior cidade do Brasil parar.
Mas nem sempre foi assim. Durante séculos a capital paulista não passou de uma vila atrasada, que mesmo quando elevada à categoria de cidade, manteve-se fechada ao país, longe de vislumbrar o progresso. Nas ruas de chão batido, carros de bois, mulas e outros animais serviam de transporte. Com a chegada das estradas de ferro, que transpunham a Serra do Mar e ligavam a capital paulistana com as terras produtoras cafeeiras do interior, rompeu-se finalmente, o isolamento ao qual São Paulo estava confinada.
Primeiro chegaram as estações ferroviárias, trazendo o progresso. Depois, em 1872, vieram os bondes, a princípio movidos à tração animal, depois à eletricidade. Finalmente, o primeiro automóvel chegou às ruas em 1893. Desde então, jamais parou de circular. O progresso veio como um meteoro atingindo a pacata cidade, transformando-a em grande metrópole. Este artigo é um passeio pelos primórdios dos transportes em São Paulo, ilustrado por fotografias de cartões postais da época, que registraram com primor o pulsar do progresso daquela que se tornaria uma das maiores cidades do planeta.

As Estações Ferroviárias

O difícil acesso a São Paulo, fez dela uma vila pobre e isolada. Entre o litoral e os vales genéticos havia a grande muralha da Serra do Mar, quase que instransponível. Os bandeirantes desbravaram as matas, partindo da vila paulistana, que se tornou um entroncamento entre o mar e o interior sertanejo. Com o passar dos anos, o progresso chegou, aos poucos, à vila, elevando-a a uma cidade isolada, suja e sem brilho. Assim foi até que se entrou na época em que a produção cafeeira tornou-se a principal economia do Brasil. Novamente São Paulo servia de entroncamento entre o porto para onde o café era escoado, e as terras férteis do interior do Estado, onde era cultivado.
Com a necessidade de se escoar o café, exportando-o para o resto do mundo, era preciso modernizar os meios de transporte. Surgiram as estradas de ferro que ligavam o interior produtor de café com a capital paulistana, transpondo a Serra do Mar. Primeiro veio a Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867, na década seguinte surgiram a Sorocabana e a Central do Brasil, fazendo de São Paulo um importante entroncamento viário, trazendo-lhe um súbito surto de progresso. Através das estradas de ferro circulavam as riquezas que convergiam do interior e do litoral, e as industrias, nascidas ao longo dos desvios ferroviários.
A The São Paulo Railway, ou Estrada de Ferro dos Ingleses, interligava Santos a Jundiaí. Foi idealizada pelo Barão de Mauá, que associado a capitalistas ingleses, conseguiu a aprovação do imperador ao projeto, em 1859. Sua abertura ao tráfego foi feita oficialmente em 16 de fevereiro de 1867.
A principal estação da São Paulo Railway era a mítica Estação da Luz. Trazendo na sua versão original uma arquitetura modesta, a primeira Estação da Luz foi inaugurada no mesmo dia que se abriu o tráfego da Estrada de Ferro dos Ingleses, em 1867. Ao seu redor, foram desenvolvendo pequenas indústrias e bairros operários como o Bom Retiro e o Brás. A estação atual, um prédio neoclássico, foi construída entre 1895 e 1901, provavelmente inspirada na Flinders Street Station, de Melbourne ou Sidney, na Austrália. O material usado na construção foi todo importado da Inglaterra. Tendo a torre mais alta de São Paulo na época, a Estação da Luz tornou-se um chamativo atrativo da cidade, transformando-se em um grande cartão-postal, tornando-se por muitos anos o símbolo da Paulicéia. Um grande incêndio, em 1946, destruiu o prédio parcialmente. Reformada, ela teve o acréscimo de um pavilhão, sendo reinaugurada em 1950. A estação passou, ao longo das décadas, a receber ônibus vindos de todo o Brasil. A função de estação rodoviária foi extinta em 1982, com a inauguração do Terminal Rodoviário do Tietê.
A Estrada de Ferro Sorocabana, que ligava o interior paulistano e os estados do sul à Paulicéia, foi inaugurada em 10 de julho de 1875. Inicialmente, a estação que servia à estrada era a de um prédio antigo da Praça General Osório, construído em 1914, sobre um projeto do escritório de Ramos de Azevedo. Este prédio viria a ser as instalações do tétrico Dops (Departamento de Ordem Política e Social), tornando-se um dos locais de tortura de presos políticos durante a ditadura militar. Atualmente abriga a Pinacoteca de São Paulo.
Em 1938 foi inaugurada uma nova estação da Estrada de Ferro Sorocabana, chamada de Estação Júlio Prestes. O prédio da estação, projeto do arquiteto Christiano Stockler das Neves, começou a ser construído em 1926. Trazia uma belíssima torre de 75 metros de altura e um magnífico salão. Nos dias atuais, depois de reformado, o prédio foi destinado a ser utilizado como espaço cultural.
Finalmente, a Estrada de Ferro Central do Brasil (aqui em uma fotografia de um cartão postal de 1905), que ligava a capital do Brasil, Rio de Janeiro, à capital paulista, tinha a sua estação na Avenida Rangel Pestana, nas proximidades do Largo da Concórdia, no Brás. Popularmente conhecida por Estação do Norte, foi inaugurada em 1875. A partir de 1887, dois trens noturnos, um deles de luxo, mantinham a ligação com a capital federal. A estação foi demolida no começo do século XX, sendo substituída pela Estação Roosevelt.
Para completar o ciclo ferroviário primitivo de São Paulo, existia a Estação da Cantareira, situada na Rua 25 de Março, em frente ao mercado. Dali saía uma pequena linha de tramways, depois uma ferrovia, inaugurada em 1894. Um pequeno trem, chamado de “trenzinho da Cantareira”, atravessava a cidade rumo a Serra da Cantareira, onde estava o Horto Florestal e os açudes que abasteciam de água a cidade. Era uma viagem que servia como turismo ecológico, com paisagens pitorescas. O trenzinho parava em Santana, Mandaqui, Tremembé e na Cantareira. A última viagem do trenzinho da Cantareira foi feita em 31 de maio de 1965, pela locomotiva 3131. Na plataforma, uma faixa feita pelos servidores dizia-lhe adeus:
Os funcionários do Trenzinho da Cantareira desejam ao comércio e ao povo muitas felicidades, no adeus saudoso de despedida ao velho e inesquecível trenzinho.”

A Implantação dos Bondes

O progresso lento da capital paulista foi aos poucos, acelerando. Transformada em uma cidade de entroncamento ferroviário, era preciso que transportes eficazes vencessem as distâncias e chegassem aos novos bairros operários. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha das chamadas diligências sobre trilhos da cidade, efetuada pela Carris de Ferro de São Paulo. Os primeiros transportes eram efetuados por tração animal. O sistema era tido como um passo importante rumo à modernidade de uma cidade que começava a ter importância no cenário econômico do Brasil.
Mas o sistema de bondes só ganhou grande impulso quando a energia elétrica chegou à Paulicéia, iluminando as suas ruas. Em 1900 começaram a circular os bondes elétricos da Light. A primeira linha inaugurada foi a da Barra Funda. As linhas de bondes elétricos foram, aos poucos, conectadas a todos os bairros da cidade. Os serviços oferecidos pelo transporte eram distintos, tendo bondes de primeira e segunda classe; alguns especiais para transportar operários; ou ainda, aqueles que circulavam à saída dos teatros e dos campos de futebol, que se tornaram a nova febre da Paulicéia.
A vida dos bondes elétricos pelas ruas de São Paulo foi longa, durou mais da metade do século XX. Em 27 de março de 1968, foi realizada a última viagem de bonde elétrico na Paulicéia. O último bonde foi o carro “Camarão 1543”, da linha de Santo Amaro. Saiu todo enfeitado com bandeiras. A população paulistana veio às ruas despedir-se do tradicional transporte. Senhoras já saudosas punham os filhos nas janelas para fotografar o bonde. Pelos bairros, mesas preparadas com banquetes interrompiam o trajeto, obrigando-o a parar. A população cantava velhas marchinhas de carnaval, acenando com lenços brancos, causando comoção e lágrimas na despedida do último bonde elétrico de São Paulo.

O Automóvel Chega às Ruas da Paulicéia

O primeiro automóvel circulou pelas ruas de São Paulo em 1893. Pertencia a Henrique Santos Dumont, irmão do célebre aviador Alberto Santos Dumont. Há relatos que apontam para o próprio Santos Dumont como dono do primeiro carro que teria circulado não só em São Paulo, como no Brasil. O Pai da Aviação teria trazido da França, em 1891, um Peugeot que havia comprado por 1200 francos.
O segundo automóvel a circular pela capital paulista viria em 1898, sendo de propriedade do doutor Tobias de Aguiar. Tinha dois lugares, rodas dianteiras menores que as traseiras, portando uma alavanca horizontal como volante.
Nos primeiros anos do século XX, diante da novidade nas ruas paulistanas, o prefeito Antonio Prado obrigou os veículos a utilizarem placas, mediante pagamento de taxa. Henrique Santos Dumont teria solicitado a isenção do pagamento da taxa, alegando que as ruas da cidade estavam em más condições para a circulação de tráfego. A crítica não agradou ao prefeito. Henrique Santos Dumont teve a sua licença para dirigir automóvel caçada e perdeu a placa P-1, que foi posta, em 1903, no carro do industrial Francisco Matarazzo.
Antonio Prado baixou uma portaria, que garantia a velocidade máxima “a de um homem a passo” nos locais com aglomeração de pessoas, podendo exceder aos 12 quilômetros por hora nas ruas da cidade, aos 20 quilômetros nos locais habitados, e a 30 quilômetros em campo raso. A licença de habilitação dada pela prefeitura exigia que o motorista conhecesse todos os componentes do automóvel e saber manobrá-lo, além de ser necessário ter “prudência, sangue frio e visualidade”, segundo a portaria baixada.
Em 1904 foi criada a Inspetoria de Veículos, que registrou a existência de 84 automóveis em São Paulo.
Em 1908 foi fundado o Automóvel Club de São Paulo, que logo à partida, organizou uma corrida, chamada de “Bandeirantes Sobre Rodas de Borracha”. Quinze carros participaram, tendo o conde Silvio Penteado chegado em primeiro lugar, após percorrer setenta quilômetros em uma hora e trinta minutos.
Em 1912, foi inaugurado o transporte motorizado de passageiros, que viriam a ser os futuros táxis, pela empresa Auto Viária Paulista.
A direção dos carros era uma exclusividade dos homens. Quando a Senhora Batista Franco, em 1918, chegou a São Paulo dirigindo o seu automóvel, provocou grande escândalo, incitando a indignação e o repúdio das famílias tradicionais paulistanas.
Diante do crescimento de veículos circulando pelas ruas de São Pulo, em 1915, no governo de Washington Luís, foi instituído o policiamento do trânsito, com guardas que, usando luvas e polainas brancas, montados em cavalos, dirigiam o tráfego de veículos e pedestres. Para que se pudesse ser um policial do trânsito, o candidato ao cargo tinha que ter no mínimo 1,80 metro de altura.
Em 1920, a Ford chegou ao Brasil; numa oficina da Rua Florêncio de Abreu, começou a fabricar carros no país.
Os primeiros ônibus que invadiram a capital paulistana surgiram em 1924, numa conseqüência da crise que o bonde elétrico atravessava como transporte público. Os primeiros ônibus que circularam foram chamados pelos populares de “Mamãe-me-leva”. Posteriormente passaram a ser chamados de “Jardineiras”.
Os automóveis, particulares ou públicos, pequenos ou grandes como os ônibus, aos poucos tomaram as ruas de São Paulo, banindo os velhos bondes elétricos e os animais que ainda serviam como transportes. Tornaram-se imprescindíveis quando a cidade transformou-se numa grande metrópole. Nos tempos atuais, cerca de treze milhões de veículos circulam pela Paulicéia.


FONTANA DI TREVI – A MAIS GRANDIOSA DAS FONTES

Julho 30, 2009

Considerada a mais bela fonte do mundo, a Fontana di Trevi, literalmente traduzida como Fonte dos Trevos, é um dos mais sedutores monumentos de Roma. Sua beleza dimensional feita de água e pedra foi construída sobre o esplendor do barroco italiano. A beleza estética faz desta obra de arte um símbolo das esculturas que adquiriram uma mítica lendária, com linhas tênues entre o fulgor e o monumento, causando uma empatia romântica com todos os cidadãos do mundo, fazendo dele um triunfo do barroco.
A fonte, localizada na freguesia de Trevi, no Bairro do Quirinal, no centro histórico de Roma, desenha a fantasia das suas águas e estátuas aninhadas no centro de um palácio, possuindo vinte metros de largura e cerca de vinte e seis metros de altura. Verdadeira maravilha do mundo, seu esplendor começa quando nos aproximamos ao redor, ouvimos o som crescente das águas, e de repente, estamos diante de uma visão edênica da criação humana, contemplando uma das mais deslumbrantes vistas do planeta. O espaço da fonte abre-se aos olhos do visitante, com a força da água a emanar das pedras, como se adquirisse vida e arrebatasse-nos para um cenário preso na beleza da arte do homem.
Diante da fonte, a primavera é eterna, Netuno rompe a paisagem e a pedra na qual foi esculpido, tornando viva a arquitetura. Vento, luz, sombras, pedra, água, juntam-se como se fosse formado um imenso mar, num cenário intenso e de uma dramaticidade singular.
A Fontana di Trevi, com a sua paisagem espetacular e grandiosidade barroca, dá um toque romântico a Roma, às vezes perdido na concepção dos monumentos históricos intensos, como o Coliseu. É o ponto preferido dos casais apaixonados ou que se apaixonam na Cidade Eterna. É o ponto final da cidade, que se transforma no retorno. Reza a lenda que estrangeiros, forasteiros, turistas, quando visitam Roma, devem jogar uma moeda na fonte para que possam retornar. O ritual é repetido por todos, que assim, garantem a esperança de um dia poder rever Roma, e, principalmente, poder rever a fonte mais bela e romântica do mundo.

Origens da Fonte

A história da Fontana di Trevi remonta à época da Roma antiga. Era uma fonte que estava situada no cruzamento de três ruas, onde se formava um trivium (trevo), o que levou o sítio a ser chamado de Trebium.
O local da fonte marcava o ponto terminal do aqueduto Acqua Vergine, um dos mais antigos abastecedores de água de Roma, que tinha sido encomendado pelo imperador Otávio Augusto a Marcus Agrippa, sendo as suas águas usadas para fornecer água para os banhos termais. As águas que circulam na fonte têm dois nomes, Águas Virgens e Trevi.
Reza a lenda que, no século 19 a.C., alguns soldados sedentos procuravam por água, encontraram pelo caminho uma jovem romana virgem, que se apiedando deles, conduziu-os a uma fonte límpida, de água pura, localizada a cerca de vinte e dois quilômetros da Roma antiga. Através da lenda, surgiu o nome de Águas Virgens. Trevi teria derivado do nome que originalmente era chamado o local, Trebium. No monumento atual da fonte, a cena da lenda da jovem virgem e dos soldados está representada em escultura.
Nos primórdios da história da fonte, as suas águas foram levadas através de um pequeno aqueduto romano, diretamente ao local de banho de Marcus Vipsanius Agrippa, um dos maiores estadistas e generais do Império Romano, a quem se deve a construção do Panteão de Roma e dos seus principais aquedutos. Na Roma antiga, graças aos aquedutos, belas fontes foram erguidas por toda a cidade, contribuindo para a arquitetura clássica e imponente da capital do maior império do mundo.

De Leon Battista Alberti a Bernini, a Composição das Bases da Fonte

A água de Trevi serviu Roma por mais de 400 anos, sendo interrompido o seu abastecimento na época da invasão dos godos, que destruíram os aquedutos da cidade. Após as Guerras Góticas, os habitantes de Roma abasteciam-se da água suja do Tibre, rio que recebia os esgotos humanos, e da água de poços poluídos espalhados pela cidade. Esta condição decorreu durante toda a Idade Média, causando muitos males de saúde a quem usava a água insalubre.
Quando a Renascença assolou os reinos italianos, o esplendor das fontes antigas voltou a fazer parte da arquitetura romana. Em 1453, quando a Idade Média era definitivamente encerrada, o papa Nicolau V determinou que se consertasse o antigo aqueduto de Acqua Vergine. O arquiteto Leon Battista Alberti foi o autor do projeto de reconstrução do aqueduto, dando ao seu final, um receptáculo simples para receber a água, que seria totalmente destruído quando da construção barroca da Fontana di Trevi.
O papa Urbano VIII, em 1629, chegou à conclusão que a simplicidade da velha fonte não condizia com arquitetura romana da sua época, pois não trazia qualquer grandiosidade. Urbano VIII encomendou um projeto a Bernini para a construção de uma nova fonte de Trevi. O célebre artista fez vários desenhos. Neles projetou a reposição da fonte para o outro lado da praça, para que ficasse defronte ao Palácio do Quirinal, o que faria com que o papa pudesse observá-la da sua janela. Com a morte de Urbano VIII, o projeto de Bernini foi abandonado, o que não impediu que a fonte a ser construída futuramente, viesse a trazer muitos detalhes da idéia original do artista.

A Concepção Final da Fontana di Trevi

Após ser reconstruído, o aqueduto Acqua Vergine continuou a funcionar, mas as obras de restauração da freguesia de Trevi, que dariam origem à fonte atual, levariam três séculos para que se concluísse.
Com a morte de Urbano VIII, somente no século XVIII, Clemente XII, então papa, decidiu restaurar Trevi. Para que se realizasse a construção de uma nova fonte, em 1730, Clemente XII organizou uma competição entre artistas e arquitetos. Nicola Salvi, arquiteto romano, foi derrotado na competição, mas foi quem, efetivamente, realizou o projeto da nova Fontana di Trevi, trabalhando nele por quase vinte anos.
Nicola Salvi começou a execução do projeto em 1732. Morreria em 1751, quando ainda trazia o trabalho pela metade, ocultando-o atrás de um gigantesco biombo. Para concluir a obra, foi chamado um jovem artista, Giuseppe Pannini, que fez mudanças significativas no projeto de Nicola Salvi. Do original ele conservou os nichos de cima, que à esquerda traz Marcus Agrippa a dar ordens para que se construa o aqueduto, e à direita, a virgem, chamada de Trívia, a mostrar aos soldados a água de uma fonte subterrânea; abaixo destes relevos, substituiu as estátuas de Agrippa à esquerda, por uma figura feminina, a Abundância, que traz uma cornucópia; e à direita, substituiu a estátua de Trívia pela figura feminina da Saúde ou Salubridade. Finalmente, no nicho central da fonte, foi introduzida a estátua de Netuno com o seu séquito. A obra foi concluída em 1762, logo após a morte do papa Clemente XII.
A atual Fontana di Trevi tem o seu projeto atribuído a Nicola Salvi, sob forte influência dos desenhos de Bernini, e da realização final de Giuseppe Pannini.
A resultado final traz uma obra monumental, com vinte e seis metros de altura, vinte metros de largura, que tem como fundo o palácio Poli, que se harmoniza perfeitamente com a composição da fonte. As estátuas contrastam com a dramaticidade do uso da luz e da sombra. No nicho central está a estátua de um imponente Netuno, escultura de Pietro Bracci, sobre uma carruagem em forma de concha, puxado por dois cavalos marinhos, sendo o da esquerda o cavalo agitado, o da direita o cavalo manso; os animais são conduzidos por dois tritões. Ladeando Netuno, estão mais acima, as alegorias femininas da Abundância, à esquerda, e da Salubridade, à direita, estátuas de Filippo Della Valle. Acima das estátuas alegóricas, os relevos de Agrippa a ordenar a construção dos aquedutos de Roma, à esquerda; e da virgem Trívia a mostrar a fonte de águas aos soldados sedentos, à direita; estes relevos faziam parte da concepção original dos desenhos de Bernini. O todo da obra joga com o espaço e a pedra, dando um aspecto de movimento às estátuas centrais, que ao som constantes das águas que caem, dão a sensação de um imenso mar a encher a piscina.

Lendas de Trevi

A beleza barroca e exuberante da fonte, originou várias lendas ao seu redor, dando assim, um conceito romântico à atmosfera que se desenha à obra. Lendas que envolvem desde a concepção, aos efeitos que o monumento deixa nas pessoas que o visitam.
Uma das lendas mais tradicionais é a escultura de um grande vaso esculpido sobre o muro que circunda a fonte, na esquina com a rua Stamperia. Reza à tradição, que Nicola Salvi, o arquiteto que projetou a fonte, teria posto a escultura propositalmente, devido às rixas com um barbeiro que tinha a sua loja nos arredores da obra, na atual rua Stamperia. Durante os anos que decorreram as obras, Nicola Salvi era sempre confrontado com o tal barbeiro, que tecia comentários negativos à fonte que se desenhava aos poucos, desestabilizando o arquiteto. Para que tão indesejável vizinho não mais o aborrecesse, Salvi pôs à frente da barbearia este vaso, de forma que não pudesse ver os trabalhos.
Lenda ou não, o imenso vaso continua lá. Devido à sua forma, que lembra o ás de copas das cartas de baralho, os romanos batizaram a escultura com o sugestivo nome de Asso di Coppe (Ás de Copas).
Outra lenda diz respeito aos eternos e apaixonados namorados. Do lado direito da fonte, perto da escultura do às de copas, está a conhecida Fontanina Degli Innamoratti (Pequena Fonte dos Apaixonados), que com os seus jorros mágicos, asseguram aos casais apaixonados que juntos beberem da sua água, a fidelidade eterna um com o outro.
Outra lenda romântica afirma que, quando o amado tiver que partir, para a guerra, para servir ao exército, ou por simples viagem de negócios, terá garantido o seu amor eterno, mesmo ausente e distante, se juntos beberem um copo de água da fonte, sendo que este deve ser quebrado logo a seguir. A água mágica da Fontana di Trevi fará com que o homem que partiu jamais se esqueça da amada.
Mas a lenda mais pertinente e tradicional, é aquela que diz, se um estrangeiro ou um forasteiro for a Roma, e apaixonar-se pela cidade ou pela a sua gente, deve antes de partir, ir à Fontana di Trevi, virar-se de costas para ela e jogar uma moeda em suas águas. A volta à Cidade Eterna estará garantida. A lenda é eterna.

Nas Águas da Fonte, a Promesa da Volta a Roma

Roma é tradicionalmente conhecida pela beleza das suas fontes. Três belas fontes barrocas ornamentam a Piazza Navona: a Fontana Dei Quattro Fiume (Fonte dos Quatro Rios), a Fontana Del Moro (Fonte do Mouro), e a Fontana Del Nettuno (Fonte de Netuno), só para citarmos algumas. Mas nenhuma delas tem a tradição mítica da Fontana di Trevi. Nenhuma possui o seu glamour esplendoroso, o seu romantismo oculto e latente.
Em 1960, a fonte foi imortalizada para o mundo pelo cineasta Federico Fellini, no filme “La Dolce Vita” (A Doce Vida). Numa das cenas mais míticas do cinema mundial, a bela Anita Ekberg salta para dentro da fonte, banhando-se de roupa nas suas águas mágicas, aos olhos de um atento e deslumbrado Marcello Mastroianni. Depois do banho sedutor e sensual da atriz, a Fontana di Trevi jamais passou despercebida aos olhares do mundo.
Em 1998 a fonte foi preparada para o ano do jubileu de Roma, que aconteceria em 2000. Foi restaurada, tendo as esculturas lavadas e polidas, recebendo bombas que provinham a circulação da água e a sua oxigenação. A fonte estava pronta para entrar no novo século, no novo milênio, com o mesmo fascínio de sempre.
Quando às segundas-feiras, uma equipe de funcionários da câmara de Roma abre os ralos da fonte, esvaziando as suas águas, limpado a sujeira acumulada, recolhendo em sacos toneladas de moedas de todo o mundo, que serão destinadas aos cofres municipais, normalmente usado na ajuda da conservação do monumento; estes funcionários não estão apenas limpando a fonte, mas o sonho de vários turistas que, quando jogaram as suas moedas na água, levaram consigo a esperança tenaz de um dia voltar a Roma.


TIETÊ, NAVEGANDO PELA PAULICÉIA ANTIGA

Junho 24, 2009
O Tietê atravessa o estado e a cidade de São Paulo, sendo um dos rios mais famosos do país, com uma importância econômica essencial não só para a região que o seu curso percorre, como para todo o Brasil. Símbolo do desleixo e da incapacidade que governos e populações tiveram, ao longo da história, de conciliar desenvolvimento industrial com o meio ambiente, o rio Tietê trafega pulsante pelo estado mais rico do país, transformando-se em um grande esgoto a céu aberto ao entrar na cidade de São Paulo.
Já dentro da Paulicéia, o rio é margeado pela Marginal Tietê, o principal sistema viário da cidade, por onde se calcula passar mais de dois milhões de veículos por dia. Sua imponência secular é camuflada pela degradação das águas, poluição e estado se salubridade, tornando-o um rio morto, sem peixes ou vegetação, um exemplo de uma grande tragédia ambiental. A partir da década de 1990 foi criada uma organização não governamental, a Núcleo União Pró Tietê, apoiada pela pressão popular que reivindicava um rio mais limpo. Mais de um milhão de assinaturas foram recolhidas em um abaixo assinado gigantesco, para que se recuperasse o rio, como aconteceu com o Tamisa, em Londres. Desde então, certas melhoras e vitórias a favor da recuperação do Tietê vêm sendo feitas, sem passos longos, processadas lentamente, quase arrancadas, mas com efeitos tenazes.
Quem observa o rio Tietê ao longo da cidade de São Paulo, jamais imagina que em um passado, não muito remoto, pescava-se e banhava-se nas suas águas, clubes recreativos eram construídos às margens, efetuavam-se campeonatos de natação, regatas, esportes náuticos; enfim, tudo isto fazia do Tietê uma fonte saudável de lazer e vitalidade dentro da maior cidade do Brasil.
É sobre este tempo que, buscando imagens do passado, extraídas de fotografias e postais antigos, navegaremos neste artigo, pelo leito límpido do Tietê, que um dia esperamos, sair das páginas do passado e constituir um futuro de águas recuperadas e vivas.

Tietê, o Rio dos Banhistas Paulistanos

O rio Tietê tem o seu nome de origem tupi, traduzido como rio volumoso, rio verdadeiro ou ainda, águas verdadeiras. Sua nascente está em Salesópolis, na Serra de Paranapiacaba, a poucos quilômetros da capital paulista, a 1.120 metros de altitude. Desviando das escarpas da Serra do Mar, segue em sentido inverso ao Atlântico, desbravando o interior, atravessando o território paulista, até desaguar no lago da barragem de Jupiá, no rio Paraná, depois de percorrer 1.136quilômetros.
Economicamente, o rio Tietê é um dos mais importantes do estado de São Paulo e do Brasil. Sua história confunde-se com a de São Paulo, foi de grande importância na conquista do interior pelos bandeirantes, sendo utilizado como meio de navegação para que se desbravasse o sertão. Sua nascente teve a flora original destruída, o que obrigou o Estado a tombá-lo, recuperando a área, constituída atualmente, por uma floresta secundária.
Ao cruzar a cidade de São Paulo, o Tietê passou a fazer parte da saga da metrópole, sendo a principal vítima do seu progresso. Até meados do século XX, via-se canoas e jangadas a transportar mercadorias pela capital paulista, e uma grande movimentação pulsante em suas águas.
Por muitas décadas, o Tietê serviu de sustento para os peixeiros, pessoas humildes do interior do estado, que na capital pescavam tabaranas, piabas, bagres e outros peixes pequenos. O peixeiro era uma figura típica, caminhava descalço pelas ruas da cidade a vender o que pescara no rio; trazia os peixes enfiados pelas guelras em um cipó.
A partir do final do século XIX, o Tietê passou a fazer intensamente parte da vida de lazer do paulistano. Com árvores espalhadas por suas margens, frondosas sombras convidavam para passeios de pedestres e a realização de piqueniques. Dentre os costumes burgueses paulistanos, a natação era uma prática bastante apreciada. Os mais abastados aprendiam a nadar nos açudes das fazendas, nas estações balneárias, praticavam o banho no mar de Santos, litoral mais próximo da capital, ou nos clubes às margens do Tietê.
Na época que se tinha como costume nadar no Tietê, as suas águas já apresentavam uma certa poluição. O costume desenfreado da população jovem atirar-se ao rio trazia perigo constante de afogamentos, além de despertar a indignação da moral vigente, visto que muitos nadavam em trajes menores ou sem roupas, refletindo uma nudez desafiadora, o que levou à proibição da natação, que passou a sofrer pressão da vigilância de policiais. Banhar-se no Tietê ou no rio Tamanduateí, tornou-se um hábito de rebeldia provocativa da juventude, ante ao peso da proibição que se fez entre 1880 e 1889. Nesta época era diversão dos jovens despirem-se, atirarem-se ao rio, e quando percebiam a aproximação da polícia, apoderarem-se das suas roupas, depois nadando rio abaixo, ou para o meio dele, fugindo para as matas ao redor, gritando e vaiando os seus perseguidores.
Este costume foi, aos poucos, esvaindo-se, visto que a intensificação da repressão aos infratores inviabilizara a rebeldia, o que encerrou de vez o nado livre nas águas do Tietê.

Os Clubes de Regatas do Tietê

A partir da proibição que encerrou com os banhos simples no rio, surgiram, no fim do século XIX, os esportes náuticos, desenvolvidos a partir dos clubes que foram criados às margens do Tietê, na Ponte Grande. Em 1899 surgiam os clubes de remo, um presente para o lazer dos habitantes da Paulicéia.
A Ponte Grande, construída por volta de 1860, era o principal ponto de referência do rio Tietê. Ao seu redor foi desenvolvido um atraente local de lazer dos paulistanos. Às margens do Tietê eclodiram locais de recreios para piqueniques, passeios de barcos e restaurantes. Um dos principais restaurantes foi o Bella Venezia, freqüentado pela comunidade italiana, que aos domingos promovia passeios de barcos pelo rio. O sucesso dos passeios foi tanto, que motivou um grupo de rapazes a fomentar a idéia da criação de um clube desportivo para a prática de atividades de remo e de canoagem. A partir da idéia, sete jovens italianos praticantes de remo fundaram o Club Canottieri Esperia, que se tornaria um dos mais famosos de São Paulo. O Clube Espéria persiste até os dias atuais, sendo referência na zona norte de São Paulo, em Santana, onde está situado.
A partir do Clube Espéria, foram fundados outros clubes de regatas ao longo do rio. Entre eles o Clube de Regatas Tietê e o São Paulo. Tinham como atrativos principais às práticas da natação e do remo. O Clube de Regatas Tietê atravessou as décadas, ainda existindo atualmente.
Sobre esta época de esplendor do rio Tietê, o francês L. A. Gaffre, que visitou São Paulo, em 1910, escreveria em seu livro Visions du Brésil:
De passagem, um olhar ao rio Tietê, sinuoso e suave, que estende langorosamente suas águas sob belas sombras, permitindo à juventude paulistana entregar-se, em suas margens e em seu leito, aos esportes prediletos.
Os clubes de regatos às margens do rio Tietê tornaram-se famosos pela disputa de provas desportivas aquáticas. Em 1924, o Espéria promoveu, com sucesso, a primeira competição de travessia a nado pelas águas do rio. Não havia o medo de qualquer contaminação por se nadar no maior rio da cidade de São Paulo.

A Degradação do Rio

A decadência do rio começaria com a degradação das suas águas, dantes límpidas. O processo de poluição do Tietê começou sutilmente, na década de 1920. Nesta época as práticas e disputas de provas aquáticas ainda serviam de lazer para os paulistanos. Também os pescadores ainda tiravam peixes das águas do rio. Foi nesta década que a empresa canadense Light, construiu a represa de Guarapiranga, com objetivo de gerar energia elétrica nas usinas hidrelétricas Edgar de Souza e Rasgão, situadas em Santana do Parnaíba. A intervenção afetaria o regime de águas do Tietê, deixando-o com o leito menos sinuoso na área da capital paulista.
O processo de degradação do rio avançava conforme o progresso chegava à Paulicéia. Com a proliferação das grandes indústrias e a explosão demográfica da população, o rio deixou de ser fonte de lazer dos paulistanos, tornando-se o principal receptor dos seus resíduos e esgotos.
O Tietê agonizava, e com ele os clubes de regatas, que aos poucos, tornaram-se inviáveis diante da degradação iminente, sendo condenados a deixar de existirem. A Ponte Grande seria demolida, dando lugar à construção da Ponte das Bandeiras, inaugurada em 25 de janeiro de 1942.
Já em 1933, a publicação oficial “A Capital de São Paulo”, alertava para as transformações ambientais dos rios paulistanos. Na publicação, culpavam ao desaparecimento dos peixes à barragem em Santana do Parnaíba e ao Salto de Itu. Mencionavam ainda, que os resíduos das indústrias corroboraram para um ambiente não favorável aos peixes. Estava decretada a morte do Tietê e os seus clubes de regatas. Os clubes sobreviveriam até a década de 1950, quando a poluição tomou conta das águas do rio, tornando-o um autêntico esgoto a céu aberto, transmissor de doenças e sendo foco de contaminações pestilentas.
Entre as décadas de 1940 e de 1960, São Paulo cresceu vertiginosamente. Sua população saltou, em vinte anos, de dois milhões para seis milhões de habitantes. A política de incentivo à expansão do parque industrial da cidade, permitindo-lhe eclodir sem um planejamento ambiental, fez com que o rio Tietê fosse inviabilizado como abastecedor da população e se lhe retirasse a promoção do lazer e da qualidade de vida. No início da década de 1970, o Tietê estava praticamente morto para os paulistanos. Na década de 1980, o rio atingiu níveis intoleráveis de poluição, mesmo assim, não se gastou verba alguma para a sua recuperação.
Nos tempos atuais, parcas iniciativas vêm sendo feitas para que se recupere o rio. Não recuperar o Tietê é uma situação catastrófica, que no futuro afetará de forma indelével a todos os paulistanos. Não poder utilizá-lo como via fluvial para o transporte de cargas e passageiros acarreta prejuízos à economia da cidade de São Paulo. Não utilizar tão potente gerador de lazer, de áreas verdes, que tanto necessita a metrópole, é subtrair a população de uma qualidade de vida superior, tragada pela falta de educação na preservação ambiental. Recuperar o Tietê é apagar a imagem de decadência da cidade, que ao percorrer a marginal que o ladeia, traz um dos mais deprimentes cartões postais para quem a visita. Quem sabe, um dia, ainda se volte a ver as canoas a deslizar nas águas límpidas do Tietê. Sonho? Utopia? Não, necessidade de que São Paulo sobreviva ambientalmente, e o Tietê renasça das cinzas da sua degradação.


SÃO PAULO, SÃO PAULO

Março 27, 2009

A cidade de São Paulo nasceu modesta, mantendo-se como uma vila pobre e sem atrativos por séculos. Sua fundação, oriunda da construção de um barracão de pau-a-pique coberto de sapê, que servia ao mesmo tempo, de capela e de abrigo aos jesuítas. No dia 25 de janeiro de 1554, data que se festeja na igreja católica a conversão do apóstolo Paulo de Tarso ao cristianismo, o sacerdote Manuel de Paiva celebrada uma missa neste barracão construído entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí; na sua presença estavam os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, João Ramalho e a sua esposa Bartira e os índios Caiubi e Tibiriçá. Nascia a povoação de São Paulo de Piratininga, aquela que estava destinada para ser a maior metrópole do Brasil.
A vida pulsante da cidade de São Paulo traz o poder, o dinheiro, os sonhos e as esperanças para os seus quase vinte milhões de habitantes, formados por imigrantes de todas as partes do Brasil e de grande parte do planeta. A metrópole assusta no seu gigantismo de concreto, fascina nas milhares de pessoas que transitam por suas ruas e por sua ebulição constante, fazendo dela o principal centro financeiro, cultural, corporativo, político e mercantil não só do Brasil, mas de toda a América Latina. São Paulo em sua veia urbana e universalidade vincada, é a décima quarta cidade mais globalizada do planeta, sendo a décima mais rica.
Caminhando para quase cinco séculos da sua fundação, a São Paulo do século XXI nada lembra a aglomeração de padres, índios e bandeirantes humildes que se constituiu em torno do Pátio do Colégio Jesuíta, muito menos aquela cidade pobre e esquecida pelo progresso por tantos séculos. A Paulicéia atual fascina, atrai e seduz não só os seus habitantes, mas todo o Brasil. Na data de aniversário da cidade, ela recebe os beijos apaixonados dos cidadãos brasileiros, que prestam homenagens a mais amada, idolatrada ou odiada das suas cidades. E o nome da cidade ecoa pela poluição perene que cobre seu o céu. São Paulo, São Paulo! Este artigo é um convite para uma visita pitoresca às várias fases da cidade, em imagens de ontem, numa São Paulo para sempre gravada no coração da memória.

Vila Pobre e Adormecida

Quando os padres jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta ergueram um barracão de taipa entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, tinha por finalidade catequizar os índios que habitavam naqueles vales longe do litoral. A primeira missa no humilde barracão, que se transformaria no colégio jesuíta, foi realizada no dia 25 de janeiro de 1554, um dia quente dos verões dos trópicos, em que se comemorava a conversão de Paulo de Tarso ao cristianismo. Em homenagem ao apóstolo, a vila que ali nascia, foi chamada de São Paulo de Piratininga.
Em 1560 o governador geral da colônia, Mem de Sá, ordenou que a população da vila de Santo André da Borda do Campo fosse para os arredores do Colégio de São Paulo de Piratininga. Com a transferência da população, a vila de Santo André da Borda do Campo foi extinta, e São Paulo de Piratininga foi elevada à condição de vila, expandindo finalmente, o seu povoamento.
Por encontrar-se longe do litoral, a vila permaneceu pobre e isolada do resto da colônia por dois séculos consecutivos. Com a expansão para o interior do país, a cidade passou a servir de entroncamento para os que vinham do litoral e que se adentravam na mata. Homens pobres, em busca de fortunas, transformaram-se nos bandeirantes, que a partir da vila de São Paulo de Piratininga, conquistaram o interior do Brasil colônia, caçando e escravizando índios, descobrindo diamantes e ouro. São Paulo transformou-se na capital dos bandeirantes.
A intensidade das bandeiras, a descoberta de ouro na região das Minas Gerais, aumentou a importância da vila no cenário da colônia, já que ela era o ponto principal de partida para o interior, fazendo com que fosse elevada à categoria de cidade em 1711.

O Despertar do Progresso Paulistano

Com o fim do ciclo do ouro, São Paulo continuou a ser uma cidade pobre e pouco desenvolvida, tendo como principal objetivo ecoar a produção de açúcar para o porto de Santos, que seguia para a capital da colônia, em Lisboa.
No século XIX São Paulo é uma cidade pacata e provinciana, cercada por várzeas alagadiças, ribeirões e brejos. Vista ao longe, mantinha a sua estrutura de fundação sobre uma colina, o que lhe dava um aspecto de acrópole. Trazia inúmeras igrejas, parcos sobrados e inúmeras casas baixas, apoiadas umas às outras, com grandes beirais.
Em 1823, já o Brasil era uma nação independente, e o imperador Dom Pedro I conferiu à cidade o título de “Imperial Cidade”. Pouco depois, em 1827, seriam criados cursos jurídicos no convento de São Francisco, que iria originar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. São Paulo, aos poucos, tornar-se-ia um burgo de estudantes, que juntamente com os professores, dariam um grande impulso de crescimento cultural à cidade.
Mas o grande despertar da cidade, dantes pobre e sossegada, deu-se com o cultivo do café, que encontrou no interior paulista solo ideal e clima propício. No interior paulistano passam a proliferar grandes plantações cafeeiras, que produziam grãos de qualidade apreciados pelo mundo inteiro. O ciclo do café era inaugurado, transformando-se no século XIX, na principal riqueza do país, condição que iria prevalecer até os anos vinte do século seguinte.
A grande produção do café gerou grande necessidade de mão-de-obra, obrigando o governo a abrir as suas fronteiras para os imigrantes. São Paulo passou a receber milhares de imigrantes, principalmente italianos, que dali eram encaminhados para as lavouras cafeeiras do interior paulista.
Com o dinamismo do comércio do café, era preciso ecoar o produto, transpondo a difícil barreira que se impunha através da Serra do Mar. Para esta finalidade deu-se início à construção de ferrovias, que interligariam São Paulo ao interior paulista e ao litoral santista. Em 1860 o Barão de Mauá associa-se a capitalistas ingleses, organizando a Estrada de Ferro Inglesa, The São Paulo Railway, unindo Santos a Jundiaí, que inauguraria em 16 de fevereiro de 1867, a primeira Estação da Luz, um prédio arquitetonicamente modesto. Nas proximidades da estação foram desenvolvendo-se, aos poucos, pequenas indústrias e bairros operários como o Brás e o Bom Retiro. Em 1901, foi inaugurada a imponente Estação da Luz, em um prédio estilo neoclássico, inspirado na estação de Sidney, Austrália. Este prédio é o mesmo dos dias atuais, tendo, ao longo dos anos, apenas o acréscimo de um pavilhão, quando da sua reinauguração em 1950, após uma reforma que apagou as marcas de um incêndio acontecido em 1946.
Na década seguinte à inauguração da Estrada de Ferro dos Ingleses, viriam a Estrada de Ferro Sorocabana, que servia de ligação entre São Paulo e as províncias do sul, e, a Central do Brasil (ou Estação do Norte), que a partir de 1887, comunicava São Paulo ao Rio de Janeiro. Com as ferrovias, São Paulo tornou-se um grande nó viário, trazendo para a cidade indústrias e um progresso cada vez mais latente.

Novos Bairros e Ruas

Adormecida durante dois séculos, com a explosão do comércio cafeeiro, São Paulo viu-se subitamente invadida por um compulsivo progresso e grande riqueza. A face da antiga e pobre vila bandeirante mudou, adquirindo um desenho arquitetônico de feição européia, e um estilo de vida nos mesmos moldes. Proprietários rurais, enriquecidos com o café, passam a ser chamados de “barões do café”. São eles que vão gerar a riqueza da cidade e transformar de vez a sua paisagem urbana. Os barões do café passam a viver na capital, construindo grandes casarões e imponentes palacetes, inaugurando novas artérias na cidade, como a elegante Avenida Paulista.
Com a ida dos barões para a capital, foram instaladas fábricas, necessárias ao atendimento da crescente demanda de insumos manufaturados. Com as novas indústrias, foi gerada uma necessidade de mão-de-obra especializada, logo ocupada pelos imigrantes, excepcionalmente pelos italianos. Antigas regiões de chácaras foram transformadas em bairros industriais e operários, como o Brás, a Mooca, Belém e Ipiranga. Imigrantes italianos e espanhóis estabeleceram nestes bairros.
Com o progresso, uma nova cidade forma-se aos poucos, expandindo-se para locais ainda rurais, como o Morro do Chá, sítio de cultivo de chá, onde as crianças iam caçar pequenos pássaros e os adultos pescar lambaris. Em 1888, após a expropriação do sobrado do Barão de Tatuí, foram iniciadas as obras do Viaduto de Chá, que seria inaugurado em 1892, dando um imponente ar de modernidade à cidade.
O que foi chamado de Bairro do Chá, tinha como proprietário da área o Barão de Itapetininga, que cedeu parte do terreno na encosta, para a construção da Rua Formosa. Posteriormente, a viúva do barão permitiu em suas terras a abertura de novas ruas, como as atuais Xavier Toledo, Barão de Itapetininga e 7 de Abril, formando o que foi chamado de Cidade Nova.
Com a Cidade Nova (ou Centro Novo), o tradicional centro econômico de São Paulo deixa de ser exclusivamente nas ruas do Triângulo (Rua Direita, Rua São Bento e Rua 15 de Novembro), mudando-se para áreas a oeste. Surge a imponente Avenida Paulista, que com o decorrer do século XX, deixa de ser local de palacetes de barões e banqueiros, para dar passagem aos prédios e a tornar-se um importante centro econômico.

São Paulo, Uma Cidade Que Não Pode Parar

Com o fim do ciclo do café, São Paulo transformou-se em uma cidade de grandes indústrias, atraindo para si um imenso número de migrantes de todo o país, especialmente nordestinos, que participaram da vertiginosa verticalização da cidade, gerando grandes arranha-céus que mudaram de vez a paisagem da Paulicéia. Aos poucos, os casarões são demolidos, substituídos por prédios cada vez mais altos, e uma população urbana cada vez maior.
Transformada em metrópole no século XX, São Paulo passa a ser conhecida como a cidade que não pode parar. Em 1916 foi criado o brasão oficial da cidade, que seria oficializado em 8 de março de 1917. O brasão traz o lema em latim “Non ducor, duco” (Não sou conduzido, conduzo), que traduz a imagem exata da Paulicéia como capital de Estado e maior metrópole do Brasil.
Desde que fundada, em 1554, a cidade assumiu vários aspectos. Nascida de um colégio de jesuítas, com a finalidade de catequizar os índios da Serra do Mar, passou a ser uma vila pobre e tacanha, gerando ferozes e ambiciosos caçadores de índios e de pedras preciosas, os bandeirantes, que se adentraram pelo interior das matas brasileiras, derrubando o Tratado de Tordesilhas e alargando as fronteiras da colônia portuguesa. Construída por modestas casas de barro, por dois séculos esteve adormecida, até que sucessivamente, passou a ser a cidade do burgo dos estudantes, a capital dos barões do café, a cidade dos imigrantes (italianos, portugueses, espanhóis, alemães, judeus, japoneses…), a cidade modernista do Brasil, a capital da indústria, o coração econômico do Brasil. Para assumir as várias faces da sua história, São Paulo foi inteiramente construída e demolida várias vezes.
São Paulo da garoa, do trânsito caótico, da poluição institucionalizada, da cultura latente, que transformou o Brasil do século XX, do poder objetivo do concreto das suas construções, dos sonhos realizados e desfeitos dos que ousaram tentar domar a metrópole. São Paulo é a concretização mais perfeita do sonho brasileiro de ser um país do futuro, exercendo este sonho perenemente no presente.


AS ELEGANTES RUAS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

Janeiro 27, 2009

São Paulo de Piratininga foi fundada pelos jesuítas sobre uma colina, tornando-se um marco de partida para a conquista do interior do país. O aspecto urbano da cidade foi adquirido através dos séculos, mais das necessidades que se lhe impunham do que de um planejamento que construísse harmonicamente a maior cidade da Brasil.
Da vila que nasceu de uma missão jesuítica, saíram em busca de riquezas e sonhos, as entradas e bandeiras que conquistaram o sertão e o interior do Brasil, alargando conseqüentemente, as fronteiras coloniais e derrubando o Tratado de Tordesilhas, fazendo do território nacional algo muito próximo dos dias atuais. Passada a fase da conquista dos bandeirantes, a cidade esteve politicamente estagnada, o progresso adormecido do século XVIII à primeira metade do século XIX, quando foi despertada pelo ciclo do café. Constituindo a principal riqueza econômica do Brasil até 1930, o café transformou a cidade em uma metrópole, que mesmo depois do fim do ciclo, jamais deixou de crescer, erguendo-se numa das maiores cidades do planeta.
Com a riqueza do café vieram os barões, fazendeiros que enriqueceram cultivando a planta, sendo grande parte deles agraciados com títulos nobiliárquicos dado pelo Império. Se os títulos de nobreza e o dinheiro corriam soltos, a cidade que abrigava esta riqueza precisava deixar de vez o aspecto de lugar ilhado, cercado por várzeas alagadiças, brejos e ribeirões. Aos poucos, o dinheiro do café trouxe à velha Piratininga o glamour importado diretamente de Paris. Se a Praça da Sé era o pulsar da cidade, ponto de encontro de toda a população, nascia no fim do século XIX, no Vale Intransponível (hoje Vale do Anhangabaú), a parte sofisticada e elitizada de São Paulo, chamada de Ruas do Triângulo, perímetro delimitado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento. Nas Ruas do Triângulo, os barões de São Paulo fizeram a sua própria Paris, e a beleza sem harmonia da cidade deu passagem para uma desordenada, mas pulsante vida de ferveção populacional digna das ruas européias. Era a elitização dos trópicos, que começara na capital do país, o Rio de Janeiro e alcançaria São Paulo de forma indelével.

As Ruas do Triângulo

O centro histórico da paulicéia, também chamado de centro velho, surgiu na colina central da cidade, ladeado pelo Vale do Anhangabaú e pela Várzea do Carmo, encerrando ali o que se chamava de Triângulo. O Triângulo originou-se nos tempos coloniais através das sendas que serviam de comunicação entre os largos São Bento, da Sé e São Francisco.
Na segunda metade do século XIX as ruas de São Paulo eram estreitas, de terra batida e não iam além dos vales do rio Anhangabaú e do rio Tamanduateí. A cidade estava longe de ser comparada com a capital do Império, Rio de Janeiro, ou com Recife, ou com Salvador. O comércio do café, a importância que ele começaria a ter na economia do país foi o grande passo para tirar São Paulo da condição de capital periférica. Em 1867 a inauguração da ferrovia Santos-Jundiaí começou a mudar o destino da cidade. Em 1872, foi inaugurada a primeira linha de bondes, que eram puxados por animais. Era o começo da expansão das ruas do centro, a chegada da riqueza do café que começava a ser canalizada para o Estado e para a sua capital.
Se o Pátio do Colégio foi onde São Paulo nasceu, o Triângulo foi onde a cidade consolidou-se. Delimitado pelas Ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, o Triângulo tornou-se o ponto de concentração da grande vida social e comercial da cidade na época faustosa do ciclo do café, confinando lojas luxuosas, cafés sofisticados, que faziam para ali convergir a elite da sociedade paulistana, além dos cidadãos comuns, dos visitantes da cidade, dos estrangeiros e dos imigrantes que começavam a chegar para trabalhar nas lavouras do café ou nas fábricas que despontavam pela velha Piratininga.
O comércio latente e o luxo explícito das lojas das Ruas do Triângulo davam uma nova paisagem ao centro, até então evidenciado apenas pela beleza discreta das suas igrejas ou conventos seculares, como o de São Francisco, o de São Bento e o do Carmo. As três ruas que formavam o Triângulo foram, durante o governo de João Teodoro (1872-1875), devidamente calçadas, novidade que se estendeu para o Largo do Rosário e à Praça da Sé. Ao longo do tempo, por serem demasiadamente estreitas, as Ruas do Triângulo transformaram-se em ruas estritamente para pedestres.
O esplendor trouxe às ruas do Triângulo a luxuosa concentração de pessoas abastadas. Também a juventude com os seus arroubos de paixão, passeavam por lá, passando a utilizar a expressão “Fazer o Triângulo”, ou seja, transitar pelas ruas numa elegante caminhada de rapazes pelas ruas Direita, 15 de Novembro e São Bento, enquanto belíssimas moças faziam o sentido inverso, trocando olhares furtivos e apaixonados.
A vida era intensa no triângulo, que além de concentrar as casas de comércio mais importantes, traziam os principais bancos nacionais e estrangeiros, as agências marítimas, as casas de câmbio, as redações dos jornais, importantes escritórios de diversas companhias e casas de moda.
Neste sofisticado centro paulistano, o Largo do Rosário seria transformado na Praça Antônio Prado, que se tornaria o coração do Triângulo. Também um outro ponto do Triângulo há de ser mencionado, os “Quatro Cantos”, formado no cruzamento entre a Rua São Bento e a Rua Direita, local que se ergueria a Praça do Patriarca, que abrigaria o mais famoso e elegante magazine paulistano, o Mappin Stores, mais tarde transferido para a Praça Ramos de Azevedo.

Rua Direita, Grandes Vitrinas e Quiosques

Uma das mais importantes ruas históricas da capital paulistana, a Rua Direita já era citada em documentos do século XVII, como uma rua que seguia para a igreja de Santo Antônio. Esta igreja, erguida em homenagem a Santo Antônio de Lisboa, após grandes reformas, chegou aos dias atuais, situada na Praça do Patriarca. É justamente a igreja de Santo Antônio que será responsável pela toponímica da rua, chamada assim por ser o caminho que dava “direito” do terreiro da Sé à igreja de Santo Antônio. Por este motivo a rua chamou-se Rua Direita de Santo Antônio. Teria sido chamada ainda de Direita de Santo e Direita da Misericórdia. Com o passar do tempo o nome foi encurtado para Rua Direita.
Na época da explosão da economia cafeeira, a Rua Direita desembocava na esquina da Rua da Imperatriz (atual Rua 15 de Novembro). Pequenos prédios com lojas de armarinho tomaram conta da rua. Casas foram adquirindo nome, como a famosa e conceituada Casa Baruel. Suas vitrines atraíam os mais abastados, sendo local de passeio dos estudantes. A exemplo do Rio de Janeiro, vários quiosques foram erguidos, além de anúncios coloridos por toda a rua, dando a São Paulo, finalmente, o aspecto de uma grande cidade.
Tornando-se ao final do século XIX o maior componente das ruas do Triângulo, a Rua Direita foi tomada por grandes casas, entre elas a famosa Casa Lebre, que se tornou a de maior movimento na cidade; a Casa Alemã, a Casa Kosmos; as confeitarias Fasoli e Nagel; o Grande Hotel da França, situado no conhecido “Quatro Cantos”; a charutaria Nunes; o atelier do retratista Henschel, sucedido por Vollsack, que passou o negócio para o alemão Baumgarten; a sapataria A Bota Gigante e o joalheiro Birle. Além de todas as lojas de comércio, a Rua Direita abrigava o Bar Viaduto, que com a apresentação de uma orquestra todas as noites, era o local preferido para os encontros dos apaixonados.

Rua 15 de Novembro, a Mais Sofisticada da Cidade

Já no século XVII há documentos referentes à Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, que seria a atual Rua 15 de Novembro. Esta rua não passava de pouco menos de meia dúzia de casas de taipa. No final dela, entre 1711 e 1715 foi erigida a igreja do Rosário (na atual Praça Antônio Prado), mais tarde dedicada à Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, importante confraria que lutaria no fim do século XIX pela abolição da escravatura. Assim a Rua do Paço Manoel Paes de Linhares, na verdade uma trilha que servia de comunicação entre o Largo da Sé e a igreja do Rosário, passou a ser chamada de Rua do Rosário dos Pretos. O nome permaneceu até fevereiro de 1846, quando a família imperial brasileira visitou São Paulo, como homenagem à visita de dom Pedro II e de sua esposa, o local passou a chamar Rua da Imperatriz. Assim permaneceu até a proclamação da República, em 1889, passando a ter o nome definitivo de Rua 15 de Novembro.
De origem rural e humilde, que abrigou casas de taipa no início da sua história, tornou-se a mais nobre e cosmopolita das três ruas do Triângulo. A paisagem arquitetônica passou a imitar à parisiense. Aos poucos, a rua foi ladeando-se de uma vizinhança sofisticada, lojas com conteúdo aristocrático, além de abrigar os mais caros estabelecimentos comerciais e as então florescentes casas bancárias.
O paulistano abastado encontrava na Rua 15 de Novembro, todos os acessórios e procedimentos para trazer glamour à sua nova condição de habitante de uma metrópole que começava a borbulhar como tal; desde as mais caras jóias, às roupas sob os moldes europeus, os perfumes mais delicados e suaves, até o corte de cabelos e barba. Desde alfaiates, tecidos, cabeleireiros, sapatarias, joalherias e costureiras, tudo que se comercializava na Rua 15 de Novembro, era anunciado como procedente de Paris. Também aqui estavam estabelecidos: o London Bank, o Banco do Comércio e Indústria, o Banco Alemão e Credit Foncier.
Já no início do século XX, a Rua 15 de Novembro tornou-se a mais sofisticada da Paulicéia, sendo visto nela desfilar bondes, carruagens faustosas, conduzidas por cavalos de raça. Era para esta rua que convergiam os jornalistas, os políticos, os barões do café, os banqueiros e os intelectuais, tornando-se os seus cafés pontos de tertúlia e de transações comerciais. Na paisagem da rua, diferentes pessoas eram vistas, desde a fina sociedade paulistana, aos visitantes estrangeiros e os imigrantes que chegavam para conquistar um lugar ao sol. Mulheres elegantes, trajando toaletes e jóias que em nada deixavam a desejar a mais fina sociedade européia.
Era na Rua 15 de Novembro que se encontrava o escritório fotográfico de Guilherme Gaensly, de onde foram feitos os principais registros fotográficos da emergente sociedade paulistana que enriquecia com o café. Outro pioneirismo da arte visual foi visto pela primeira vez nesta rua, a chegada da “lanterna mágica”, também conhecida como “fotografia animada”, que mais tarde seria chamado de cinema. A primeira animação cinematográfica foi apresentada em um salão da 15 de Novembro. A bela iluminação noturna da rua ajudava a manifestação do que seria o futuro cinema.
Prédios suntuosos passaram a construir a paisagem da Rua 15 de Novembro. Neles charmosos cafés foram abertos, faustosas casas de modas e joalherias traziam os mais belos mostruários, os mais ricos e luxuosos objetos de consumo. Com prédios de estilo arquitetônico florentino, esta rua era a transposição definitiva da lapidação da velha São Paulo de Piratininga.

Rua São Bento, Estreita e Longa

O nome desta rua está diretamente ligado com a ermida erigida no seu extremo, que se abria em largo. A ermida daria origem ao mosteiro da ordem de São Bento, assim sendo, era chamada de “rua que vai para São Bento”, nome que iria persistir por quase três séculos. Finalmente passou a chamar Rua São Bento. Há uma declaração de Frei Gaspar Madre de Deus que dizia que a rua era inicialmente chamada de Rua Martim Afonso Tibiriçá, uma homenagem ao sogro de João Ramalho, que teria residido no Largo de São Bento. Mas documento algum foi encontrado que comprovasse a veracidade desta declaração.
A Rua São Bento era (e ainda é) uma estreita artéria de comunicação entre o Largo de São Bento e o Largo de São Francisco. É a terceira vertente das ruas do Triângulo, tida como a sua base. Sua característica sempre foi eminentemente comercial, mas com artigos menos sofisticados do que os encontrados na Rua 15 de Novembro e na Rua Direita. Uma das mais famosas casas de comércio ali aberta era a Casa Fuchs, especialista em artigos de couro, que na época produziam os arreios, malas e objetos artísticos. Outra loja famosa era Ao Grande Amazonas, especializada em exóticos produtos caipiras como ponchos de boiadeiros, chapelões de campeiros e perneiras, além de comercializar roupas para meninos. As agências de viagens constituíam outra parte do comércio que ali era oferecido ao paulistano.
A Rua São Bento, em sua grande extensão, trazia as mais diversificadas lojas de comércio, atraindo para si um grande número de pessoas de todas as classes sociais. Nesta rua foi aberto o maior café da cidade, que servia a bebida expressa para os seus freqüentadores em pé, deixando assim, o paulistano degustar a preciosa bebida responsável pelo enriquecimento e prosperidade da Paulicéia. Em 1998 o Café Girondino foi inaugurado na Rua de São Bento nos moldes dos antigos cafés ali existentes no início do século XX.
Se a primeira apresentação de uma animação de cinema aconteceu na Rua 15 de Novembro, na Rua São Bento foi construído o primeiro cinema da cidade, que recebeu o nome de Íris. Historicamente, a rua é considerada o berço do cinema. Mais diversificada no seu comércio, esta longa e estreita rua selava a base do elegante Triângulo paulistano.

Praça Antônio Prado, o Coração do Triângulo

Não se pode falar nas três ruas do Triângulo, Rua Direita, Rua 15 de Novembro e Rua São Bento, sem falar na Praça Antônio Prado, considerada o coração desta sofisticada região da São Paulo dos barões do café.
No século XVII foi erigida a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, para que os negros da cidade, libertos ou escravos, pudessem freqüentar, visto que este procedimento era proibido às igrejas dos brancos. O local da igreja ficou conhecido como Largo do Rosário. Era no largo que Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, dirigida por juiz e juíza, rei e rainha e outros membros menores, promoviam grandiosas procissões, às quais se seguiam em frente à igreja grandes congadas, maçambiques e batuques, animados ao som da música dos atabaques. No interior da igreja à noite, eram feitos os enterros dos cadáveres. À medida que socavam a terra sobre o morto, os negros entoavam estranhas melopéias. No início do século foi decidida a remoção da igreja para o Largo do Paissandu. Assim, em junho de 1904 a velha igreja do largo foi demolida, abriu-se ali uma passagem para a Avenida São João, até então um barranco com ladeira para o Paissandu. No lugar da velha igreja do Rosário (aqui em uma fotografia do princípio do século XX) surgiu a sofisticada Praça Antônio Prado, uma homenagem a prefeito que dirigiu São Paulo de 1899 a 1911. A nova praça ficou conhecida como o “Coração do Triângulo”.
No local exato onde ficava a igreja, foi erguido o primeiro prédio de escritórios da cidade, o Palacete Martinico, sede central da Ligth entre 1907 e 1929; também sede em diversas épocas, do jornal “O Estado de S. Paulo”, do City Bank e da Bolsa de Mercados & Futuros. Os atabaques da Irmandade do Rosário deram passagem para os pregões frenéticos da Bolsa, tornando-se um dos mais movimentados locais de negócio de São Paulo, onde foram erguidos altíssimos edifícios como o Martinelli, o Banco do Brasil e a torre do Banespa.
Tido como ponto borbulhante e de encontro de todas as personalidades de São Paulo, a Praça Antônio Prado assistiu nos encontros ali promovidos, a ascensão e queda do ciclo do café, que culminaria com a queda da Bolsa de Nova York, em 1929, levando ao suicídio ou à miséria vários dos chamados barões. Enquanto durou o glamour desta época da história paulistana, a Praça gerou a sua volta, um intenso mundo cosmopolita que traduzia a essência da riqueza paulistana e o seu modo de vida. À noite era descrita a presença de mulheres elegantes, vestidas de sedas e chapéus vistosos, percorrendo com tranqüilidade às ruas à volta da Praça.
No comércio local destacava-se a Casa Seleta, que vendia charutos, cigarros, cachimbos e piteiras; o famoso Café Brandão, que ocupava o primeiro andar de um prédio demolido para a construção do edifício Martinelli; a bem freqüentada Brasserie Paulista, que também cedeu lugar para a construção do prédio do Banco do Brasil; e ainda, a Confeitaria Castellões, famosa por suas irresistíveis empadinhas e croquetes de camarão, servidos quentes, feitos à hora.
Ainda hoje, mesmo com os rumores tétricos de que por baixo dos seus jardins, os cadáveres dos antigos negros sepultados na igreja do Rosário ainda lá estão; mesmo que já longe vão os tempos dos barões do café, a Praça Antônio Prado continua a ser um seleto e agradável local da Paulicéia, sem perder a sofisticação de outrora.

Veja também:

 

OS TEATROS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

http://jeocaz.wordpress.com/2008/08/25/os-teatros-da-sao-paulo-dos-baroes-do-cafe/


PIAZZA NAVONA – TEATRO DE BERNINI E BORROMINI

Outubro 19, 2008

Roma é uma das cidades mais míticas do mundo. Dona de uma história glamorosa, que reflete na herança religiosa e cultural dos países cristãos ocidentais, a cidade é um convite para que descubramos as suas ruas, os seus monumentos, a sua história. Conhecida como a Cidade Eterna, na sua paisagem mesclam-se monumentos da Idade Antiga, da época do poderoso Império Romano, com monumentos medievais, renascentistas e barrocos, da época que a cidade estava sob o domínio dos papas e da igreja, antes da reunificação da Itália, e que formavam os Estados Pontifícios.
Na faustosa Roma barroca, encontramos a mítica Piazza Navona (Praça Navona), um dos locais mais visitados do mundo. Sua estrutura barroca é ornamentada por três fontes: a Fontana Dei Quattro Fiumi (Fonte dos Quatro Rios), de Bernini ao centro, a Fontana Del Moro (Fonte do Mouro) e a Fontana Del Nettuno (Fonte de Netuno), nas extremidades. No lado ocidental da praça, ao centro, encontra-se a igreja barroca Santa Agnese in Agone, de Borromini e a seu lado, o belo palácio Pamphili, sede da embaixada brasileira em Roma.
Na Piazza Navona, vislumbra-se um dos pontos mais pulsantes de Roma, percebendo-se o poder que a cidade exerceu sobre o resto do mundo. Vê-se a marca inconfundível de Bernini sobre a cidade; as igrejas e os palácios que a circundam, além dos cafés, nos quais se pode sentar calmamente e sentir-se no centro do charme da história. Descobrir a Piazza Navona é deixar-se seduzir por uma Roma que se mantém eterna no imaginário dos povos há mais de 2000 anos.

Origens da Piazza Navona

A Piazza Navona teve as suas origens quando Tito Flávio Domiciano, imperador de Roma de 81 a 96, mandou que se construísse um estádio para corrida e jogos de competições. O local foi palco de lutas contra animais e entre gladiadores. Os combates de animais puderam ser assistidos até por volta de 1500, quando o local começou a ser visto de fato como uma praça e não um estádio.
Por causa das suas origens, a Piazza Navona preservou as formas de um estádio, com extensão longa e retangular de 240m x 65m, de extremidades estreitas ao norte da praça. As cavea antigas podiam receber 30 mil espectadores, que ali se sentavam para assistir aos combates. Atualmente, os edifícios ao redor da praça foram erguidos nos terraços ou nos alicerces dessas cavea.
O Estádio de Domiciano, com o tempo passou a ser chamado por outro nome. O nome atual teria derivado do fato de ali os romanos assistirem os jogos (agone), ou seja, “in agone” (local de combate), juntamente com “navis” (navio), por causa da forma de sua extremidade arredondada, o que formaria a corruptela posterior de nagone e navone, que em italiano significa “grande navio”.
No século XV, durante o pontificado de Sisto IV (1471-1484), em 1477, o mercado do Capitólio foi transferido para a Piazza Navona, fazendo com que se tornasse um bairro povoado. Diversos palácios foram construídos na área, como o Pallazo Madama, de Sinulfo, tesoureiro de Sisto IV, que seria arrendado ao então cardeal Giovanni de Médici, futuro papa Leão X, e, futuramente, residência da família Médici em Roma.

As Intervenções Arquitetônicas

No século XVI o local já era a área residencial favorita dos nobres que habitavam Roma. Neste século surgem os esboços das duas fontes que hoje fazem parte das extremidades da praça: a Fontana Del Nettuno e a Fontana Del Moro. As fontes foram instaladas no pontificado do papa Gregório XIII (1572-1585).
É no século XVII, durante o pontificado de Inocêncio X (1644-1655), que a Piazza Navona atinge o ápice do seu desenvolvimento arquitetônico e urbano. Em 1645 o papa começa a remodelar a praça. O desenvolvimento arquitetural culminou durante o pontificado de Inocêncio X (1644-1655) que começou a remodelá-la em 1645. Para isto convocou Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), autor das colunas da praça São Pedro, no Vaticano, e Francesco Borromini (1599-1667), de origem suíça e responsável por alguns dos maiores exemplos do barroco romano. A Bernini coube restaurar as fontes instaladas por ordem de Gregório XIII, e, construir no centro da praça, a enorme Fontana Dei Quattro Fiumi. A Borromini coube a igreja de Santa Agnese in Agone. Inocêncio X renovaria ainda, o palácio de sua família. É desta época a imponente estrutura barroca que eternizou a arquitetura da Piazza Navona.

As Três Fontes

Três fontes traduzem a beleza barroca da Piazza Navona: a Fontana Dei Quattro Fiumi, a Fontana Del Nettuno e a Fontana Del Moro. Entre elas há uma harmonia arquitetônica que foi formada por um planejamento urbano bem sucedido através dos séculos.
A Fontana Dei Quattro Fiumi, é maior das três fontes, localizada no centro da praça. Na fonte dos rios, Bernini projetou quatro estátuas representando os rios dos quatro continentes: o Nilo, o Danúbio, o rio da Prata e o Ganges. As estátuas estão montadas sobre um obelisco egípcio, sendo circundadas por leões e outros animais fantásticos, tendo no cume uma pomba em bronze, símbolo da paz no mundo e da família Pamphili. Para realçar a rivalidade entre Bernini e Borromini, que fez a igreja de Santa Agnese, os romanos criaram uma lenda em torno da fonte dos rios, que fica em frente a esta igreja. Segundo os romanos, as estátuas duvidam da solidez do projeto de Borromini. A que retrata o rio da Prata, tem a mão erguida, a proteger o corpo do desabamento da igreja; a que retrata o Nilo, traz a cabeça coberta por um véu, a recusar a ver a obra de Borromini.
A Fontana del Nettuno, também conhecida como Chafariz de Calderai, foi construída em 1574, com projetos e desenhos de Giacomo Della Porta. Está situada na parte norte da praça. Em 1878 foi lançado um concurso para que se criasse estátuas que harmonizassem esta fonte com a de Bernini. Venceram o concurso Gregory Zappala e Antonio Della Bitta. Zapalla criou a escultura “A Nereida com Querubins e Cavalos Marinhos”, e, Bitta criou a escultura “Netuno Luta Contra um Polvo”, que traz como tema um confronto físico, já existente na estátua da Fontana Del Moro. Criou-se assim, uma consonância estilística entre as estátuas desta fonte e às das outras duas. Depois das intervenções de Zapalla e Bitta, a fonte passou a chamar-se Fonte de Netuno.
A Fontana del Moro está localizada ao sul da Piazza Navona. Tem este nome devido à representação de um etíope (mouro) a lutar com um golfinho. A obra foi projetada por Bernini, para dar conclusão à fonte de Giacomo Della Porta, construída em 1576, e esculpida por Giovanni Antonio Mari, em 1654. A estátua do etíope é acompanhada por tritões e máscaras, que são cópias das originais hoje postas em algumas fontes dos jardins da Villa Borghese.

A Igreja de Santa Agnese

Além das fontes, a igreja de Santa Agnese faz da Piazza Navona um dos pontos emblemáticos de Roma. Nas linhas barrocas da sua arquitetura, a tradução de um desafio arquitetônico ímpar entre Bernini e Francesco Borromini, artistas imprescindíveis na história da capital italiana, que na primeira metade do século XVII redesenharam lugares míticos de Roma.
Borromini trabalhou sobre um projeto inicial de Carlo Rainaldi, fazendo uma intervenção decisiva e singular no que é igreja de Santa Agnese in Agone, entre 1653 e 1657. Ao construir a fachada da igreja de forma côncava para criar um efeito óptico que ampliasse o desenho da cúpula, gerou-se uma controversa na ocasião, que por ser uma novidade arquitetônica, desencadeou críticas mordazes, e a suspeita popular de que a fachada da igreja não se sustentasse diante do peso. O tempo provou o contrário, quase quatro séculos depois de construída, Santa Agnese in Agone continua imponentemente de pé. Emblemática, a Piazza Navona, é visitada por turistas de todo o mundo. Além das fontes e monumentos, vendedores ambulantes, pintores, artistas de entretenimento, compõem a paisagem do local. A Piazza Navona continua a ser um grande teatro fulgente da Cidade Eterna.


LISBOA EM CHAMAS – CHIADO 1988

Outubro 17, 2008

Lisboa foi, no decorrer dos séculos, uma cidade marcada por grandes incêndios. Muitos foram os que procederam aos terremotos, consumindo ou levando à ruína diversos prédios históricos, como o Hospital Real de Todos os Santos, no Rossio. Era comum a cidade ser acordada com os sinos a badalar, anunciando que o fogo ardia pelas ruas da capital lusitana. Século após século, a cidade cresceu, mudou a sua face urbana, modernizando-se pouco a pouco, sem perder sua arquitetura histórica. Se a cidade modernizou-se, abrindo novas artérias de bairros, os problemas com fogos no centro histórico continuam os mesmos há trezentos anos. Em pleno século XXI, na noite de 6 para 7 de julho de 2008, um incêndio consumiu inteiramente o prédio número 23 da Avenida da Liberdade, comprometendo os outros ao seu redor. O que parecia solucionado desde 7 de novembro de 1996, quando um incêndio atingiu os Paços do Concelho, prédio que abriga a Câmara Municipal de Lisboa, fechando as catástrofes do século XX que se abateram sobre a cidade, as chamas de fogos voltam à tona em plena Avenida da Liberdade, uma das mais importantes da capital portuguesa.
Mas nenhuma tragédia recente na Olisipo moderna foi pior do que o imenso incêndio que se abateu sobre o Chiado, em 25 de agosto de 1988, transformando uma das áreas mais elegantes e históricas da cidade em ruínas, que assim se estenderiam por mais de uma década. A reconstrução do Chiado após o incêndio, foi lenta, deixando o local à deriva de um futuro incerto, que jamais recuperaria a força que tinha na vida social de Lisboa. Vinte anos após o incêndio que mudou a face histórica de Lisboa, consumindo 18 prédios seculares, ainda podemos ver as marcas da tragédia no edifício situado na Rua do Crucifixo, que acolhe o restaurante Palmeira em seu rés-do-chão, único local do prédio poupado pelo fogo, e que pertence a Câmara de Lisboa. O prédio ainda está por recuperar.

Chiado Histórico e Intelectual

A importância cultural do Chiado para a história de Lisboa e de Portugal, está nas casas emblemáticas como A Brasileira, a Livraria Bertrand, nos teatros seculares que ele abriga, como o Teatro Nacional de São Carlos, o Teatro Municipal de São Luiz, o Teatro da Trindade, nas ruínas do Convento do Carmo, ou no elevador de Santa-Justa, só para citar alguns exemplos.
Historicamente o Chiado, localizado numa das sete colinas de Lisboa, teria surgido no século XII. Tradicional bairro de vida intelectual, foi o sítio que recebeu o primeiro Estudo Geral (universidade) em Portugal, em 1288. O local foi integrado a área urbana da cidade pela Muralha Fernandina, povoando-se de conventos e solares de nobres.
Somente no século XVI a história situa a origem toponímica do bairro. Chiado era a alcunha de Gaspar Dias, um taberneiro do local, e do poeta Antonio Ribeiro, que a recebeu por freqüentar a taberna do primeiro. Antonio Ribeiro passou para a história como o Chiado que apadrinhou o bairro, é em sua homenagem o nome que se deu ao largo, e a estátua ali existente.
O grande terremoto de 1755, que destruiria grande parte de Lisboa, mudaria para sempre a história do Chiado. Após a reconstrução, os nobres dos solares tradicionais deixaram o local. Chegaram os burgueses, os maçons, todos à sombra da influência do Marques de Pombal. Uma zona totalmente reconstruída e de fulgor exuberante surgia no bairro.
Em 1784, o Café Talão, de Nicolau Massa, foi transferido para o número 37 da Rua Larga de São Roque, atual Rua da Misericórdia. A partir de 1800, o Talão mudou várias vezes de proprietários, sendo adquirido, em 1823, pelos irmãos Manoel e António Tavares. Surgia o Café Tavares, que em 1861, transformar-se-ia no restaurante Tavares, mais tarde Tavares Rico. Sendo nos dias atuais, o restaurante mais antigo de Portugal.
Em 1846 foi fundado por Almeida Garret e Alexandre Herculano, entre outros, o Grêmio Literário. Instalou-se então, uma pulsante vida intelectual no bairro, o Chiado passou a ser freqüentado por poetas, escritores, jornalistas, políticos e artistas, ficando repleto de cafés, clubes, teatros e can-cans. O Chiado tornar-se-ia um moderno local do romantismo português. Eça de Queiroz, Guerra Junqueira, Ramalho Ortigão e tantos outros freqüentavam o Tavares, sendo conhecidos como os “Vencidos da Vida”.
Em 1906 foi inaugurada A Brasileira, que a partir da década de 20 do século passado, tornar-se-ia o grande centro de reunião e tertúlia de jornalistas e intelectuais. Pelos salões de A Brasileira desfilariam Fernando Pessoa, Almada Negreiros, José Pacheco e muitos outros representantes do modernismo português.
O Chiado tornou-se o ponto sofisticado e intelectual de Lisboa, local obrigatório para quem queria ser visto na cidade. O comércio será por décadas, o mais requintado e dispendioso da capital. Casas míticas e luxuosas compunham esse comércio, como a Paris em Lisboa, Ramiro Leão, Casa Batalha, Luvaria Ulisses, o Grandela, os Armazéns do Chiado, a Casa Havaneza, a Ferrari, o Martins & Filho.
A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, sairia do Largo do Carmo, onde Salgueiro Maia fixou a sua companhia, o povo concentrou-se no Chiado, fazendo das suas ruas o símbolo da liberdade da revolução.
Em 1988, um Chiado decadente foi assolado por um grande incêndio, tão profundo quanto o terremoto que o destruíra em 1755. Encerrava-se tragicamente, o glamour do bairro, que de forma indelével, ficaria marcado. Um novo Chiado teria que ser reconstruído. As ruínas do incêndio faziam a passagem do Chiado histórico para o Chiado contemporâneo.

O Chiado em Chamas

O Chiado e toda a Baixa Pombalina, chegaram ao ano de 1988 decadentes. Longe já se ia o requinte do comércio que marcara a história e tradição do bairro. Lisboa modernizara-se, sua população adquirira novas necessidades. Em 1985 um grande centro comercial, o das Amoreiras, fora inaugurado, marcando uma nova fase de comércio e hábitos na cidade. O comércio do Chiado sobrevivia da tradição de muitas das suas casas e das baixas rendas que se pagava pelas lojas. Os belos prédios pombalinos acumulavam, em seu interior, uma degradação camuflada, sem a atualização urbana necessária para a Lisboa que se preparava para entrar no século XXI.
Quem caminhava pelo Chiado à época que se precedeu ao incêndio, podia ver a elegância do bairro. Sentar nos banquinhos postos no meio da Rua do Carmo, uma rua fechada aos carros, com canteiros de cimento no meio, pequenos degraus e esplanadas. Foram justamente estes detalhes existentes naquela rua, feitos recentemente para torná-la um local de trânsito para peões, que se tornaram uma grande armadilha para os bombeiros, quando deflagrado o grande incêndio, dificultando a transposição dos bombeiros às ruas que ardiam.
O grande incêndio aconteceu no auge do verão de 1988. Começou entre às 3 horas e 4h30 da madrugada da quinta-feira de 25 de agosto, no interior dos Armazéns Grandela, na Rua do Carmo. O alarme só seria dado às 5h19, por um vigilante do Grandela. Naquela manhã de verão, as rádios acordavam a população a anunciar: “Lisboa está a arder”. O que se anunciava era pouco diante dos acontecimentos catastróficos. O fogo alastrava-se por toda a rua e adjacências. Enfrentando os obstáculos descritos acima em relação ao acesso à Rua do Carmo, 1680 bombeiros foram envolvidos para controlar o incêndio. Entre às 11 horas e o meio-dia e meio, o fogo foi dado por circunscrito, só declarado definitivamente dominado às 15 horas. O cenário era desolador. Vários feridos, entre eles estavam 60 bombeiros, 10 moradores e 3 policiais. 18 prédios tinham sido destruídos, como o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Valentim de Carvalho e o do Grandela. Quando a noite chegou, quatro quarteirões do Chiado tinham sido transformados em ruínas.

As Ruínas do Chiado

Ainda na tarde de 25 de agosto, o então presidente da Câmara de Lisboa, Krus Abecassis, criava o embrião do futuro Gabinete de Recuperação do Chiado, que prometia uma reconstrução do bairro em três anos. Um grande engano, a reconstrução das ruínas do Chiado seria lenta, sofrível, atravessaria os anos.
Após o grande incêndio, o trabalho de rescaldo dos bombeiros duraria onze dias, e neste período, a tragédia ficaria maior com a morte de um bombeiro. O local ficaria totalmente isolado por cerca de trinta dias.
Após um mês, a Rua do Carmo foi liberada. Para que se pudesse passar por suas ruínas, uma grande passarela de madeira foi posta, ligando-a a Rua Garret. Esta passarela grotesca, sem estética, ficaria por anos fazendo parte das ruínas. O arquiteto Siza Vieira foi chamado para desenhar a reconstrução do Chiado.
Aos poucos um novo Chiado foi surgindo. Prédios da Rua do Carmo foram reconstruídos, a passarela de madeira desapareceria após um novo asfaltamento da rua, que aboliu para sempre os banquinhos, as esplanadas, tornando-se mais ampla e preparada para receber tanques de bombeiros e carros, caso sucedesse uma nova catástrofe.
Quando completou a primeira década do incêndio do Chiado, o comércio local tinha sido esvaziado, devido à lentidão das obras de reconstrução que atravessaram toda a década de 90. Muitos dos novos prédios estavam vazios por causa das rendas exorbitantes que o novo Chiado exigia. Nos prédios reconstruídos, foram feitas galerias, e não estabelecimentos abertos para as ruas, com vitrines rasgadas. Esta nova forma deve-se não a Siza Vieira, mas à ganância dos proprietários, que queriam mais lojas em um mesmo espaço. Em 1998, apesar de uma nova estação do metropolitano ter sido aberta no bairro, dos 18 prédios destruídos, ainda faltava reconstruir três deles, o dos Grandes Armazéns do Chiado, o da Confepele, na esquina da Rua do Ouro, e o do Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo. Em 1999 o prédio dos Grandes Armazéns do Chiado seria entregue, transformando-se em um grande centro comercial que leva o mesmo nome, trazendo grandes lojas, como a Fnac. Em 2008, vinte anos depois da tragédia, o prédio do Restaurante Palmeira ainda traz marcas do fogo, estando em ruínas, à espera de ser recuperado.Vinte anos depois, o Chiado é a zona mais cara de Portugal para a habitação. Sua vida noturna é inexistente. Estando totalmente adaptado à realidade contemporânea do século XXI, pouco lembra o local decadente antes do incêndio, muito menos o local tradicionalmente pulsante do seu apogeu. Durante o dia o Chiado pulsa com o seu novo fulgor, à noite adormece, desertificam-se as suas ruas, é no silêncio da penumbra noturna que se percebe o quão ainda lateja a cicatriz do grande incêndio que devorou séculos de tradição. O Chiado de Siza Vieira contrasta com o Chiado do Marquês de Pombal. O Chiado do século XXI é a sombra das labaredas da noite de 25 de agosto de 1988. Mesmo reconstruído!


HOSPITAL REAL DE TODOS OS SANTOS

Setembro 17, 2008


Quando em 1755, um grande terremoto assolou a cidade de Lisboa, a catástrofe levou a maior parte medieval da cidade. Entre os monumentos perdidos, estava o Hospital Geral de Todos os Santos, que por mais de 250 anos foi o maior hospital de Portugal. Além de ter sido um grande monumento arquitetônico, o hospital foi responsável pelo desenvolvimento da medicina no país lusitano.
Nascido de uma antiga concepção de Dom João II, em 1479, o Hospital Real de Todos os Santos teve algumas lendas criadas em torno da sua construção, como a de que fora amaldiçoado pelos mouros e judeus, porque as pedras da sua construção teriam vindo em parte, de campas e cabeceiras de jazigos de mouros e do cemitério dos judeus, o que não é verdade, visto que a sua construção iniciou-se em 1492. Quando da expulsão dos mouros e judeus de Portugal, em dezembro de 1496, as obras já iam adiantadas, o que inviabiliza esta hipótese.
Amaldiçoado ou não, a verdade é que, coincidentemente, o hospital foi destruído em 1 de novembro de 1755, após o grande terremoto, seguido por um incêndio, ou seja, no seu dia, o dia de todos os santos. Pouco mais de cinco séculos após a sua construção, o Hospital Real de Todos os Santos merece ser lembrando pelo seu esplendor arquitetônico e pela sua imensa importância histórica.

Um Longo Caminho Até o Lançamento da Primeira Pedra

Com o fim da Idade Média, as pequenas instituições de beneficência, sustentadas por conventos ou de legados pios deixados por nobres beneméritos, entram em decadência, dando lugar a grandes hospitais centrais. Essas instituições rudimentares medievais eram, ao mesmo tempo, hospitais, albergarias e hospícios. Os hospitais centrais tinham rendimentos próprios, acrescidos dos rendimentos dos pequenos hospitais neles incorporados. Os primeiros hospitais centralizados surgiram nos reinos italianos, como o Hospital de Santa Maria Nuova, de Florença, que surgiu no século XIII, sendo modernizado no século XV. Havia ainda, o Hospital do Espírito Santo, em Roma, o Hospital Maggiore de Milão, e o Hospital de Santa Maria, em Siena. Estes hospitais serviram de modelo para o (ainda) príncipe Dom João, que idealizou fundar um grande hospital em Lisboa, reunindo os bens de 43 instituições de assistência existentes em Lisboa e nos arredores. Como os rendimentos dessas instituições eram próprios e geridos pela igreja, era preciso da autorização papal para concentrá-las em uma só. Em 1479, o Príncipe Perfeito consegue autorização concedida pelo papa Sisto IV, através da bula Ex debito sollicitudinis officio pastoralis, para a construção de um grande hospital real.
O Príncipe Perfeito sobe ao trono em 1481, como Dom João II, já com a idéia da construção do “Hospital Grande”. A demora na concretização do projeto, faz com que a bula assinada por Sisto IV não tenha mais valor depois da sua morte, em 1484. Somente em 1486 a autorização é confirmada, através da bula Iniunctum nobis desuper, chancelada pelo papa Inocêncio VIII. Concentrar todas as instituições em uma só levaria o seu tempo. Em 15 de Maio de 1492, numa cerimônia no Rossio, Dom João II lança a primeira pedra para a construção do Hospital Real de Todos os Santos.

Pleno Funcionamento em 1504

O local escolhido para a edificação do hospital foi nos terrenos da horta do mosteiro de São Domingos, lado oriental do Rossio. O autor de tão imponente monumento, não se sabe ao certo, mas há um consenso de historiadores que seria de Diogo Boytoc, o arquiteto do mosteiro dos Jerónimos.
Desde a sua fundação, no início da sua construção, em 1492, por nomeação régia, foram escolhidos o provedor, o vedor e o escrivão, sendo o primeiro provedor Estevão Martins, mestre da Escola da Sé de Lisboa.
As obras já iam adiantadas, quando Dom João II morreu, em 1495, cabendo a seu sucessor, Dom Manuel, terminar o hospital. Fazia parte das disposições testamentárias de Dom João II que o seu sucessor concluísse o “Hospital Grande” de Lisboa, e que o seu regimento fosse inspirado nos hospitais de Florença e Siena.
Dom Manuel continuou as obras do hospital, concluindo as instalações hospitalares e construindo a fachada voltada para o Rossio. Já em 1497 o provedor despachava do hospital, apesar de ele levar alguns anos para ser inaugurado. Há documentos que registram que em 1498, houve ali uma reunião da Câmara. Neste ano as obras seriam novamente interrompidas devido à ausência de Dom Manuel, que acompanhou a sua mulher grávida, a rainha Dona Isabel, filha dos reis católicos, Fernando e Isabel, à Espanha. Ali a Dona Isabel seria jurada herdeira do trono dos reinos da Espanha unificada.
Não se sabe ao certo em que ano o hospital começou a receber os primeiros doentes. Há registros que apontam para o ano de 1501, quando teria recebido os desalojados dos hospitais extintos. É de 1502 a data da nomeação da maioria do pessoal que trabalharia no hospital: um físico (mestre Delymilam, que por não ser suficientemente competente, seria substituído por mestre Jorge Físico Solorgião, em 1509), dois cirurgiões, um boticário, quatro enfermeiros e uma enfermeira, além dos seus ajudantes. Mas a data de seu pleno funcionamento seria 1504.

Consumido Pelos Incêndios e Pelo Terremoto

Quando em pleno funcionamento em 1504, o edifício do Hospital Real de Todos os Santos ocupava um quadrilátero aproximadamente coincidente com os limites da antiga Praça da Figueira e a atual Praça Dom João I, ficava enquadrado, a poente, pela Praça do Rossio (sobre o qual avançava a sua escadaria); a norte, pelo convento de São Domingos com o qual se ligava através do alpendre de arcarias, interpondo-se, entretanto, entre os dois monumentos, um conjunto de edificações, dos quais sobressaía a ermida de Nossa Senhora do Amparo; ao sul, pela Rua da Betesga; pelo nascente, entestava com as casas dos condes de Monsanto.
O Hospital Real de Todos os Santos era um dos mais antigos da Europa, com uma planta cruciforme, adotou as inovações introduzidas em estabelecimentos congêneres dos reinos italianos no decurso do século XV, e era, para a sua época, uma grandiosa e moderna instituição, de um belo edifício arquitetônico.
O imponente hospital serviu à medicina e aos doentes de Lisboa por mais de 250 anos. No decorrer desses anos a sua riqueza e beleza foram sendo consumidas, aos poucos, pelos sucessivos incêndios de 1601, 1750 e 1755. Depois do terremoto de 1755 e do incêndio que se lhe seguiu, o hospital ficou profundamente danificado, ficando os seus enfermos sob as barracas do Rossio, e, depois, nas cocheiras do Palácio do Conde de Castelo-Melhor. Foram feitas algumas obras de remedeio, que lhe permitiu funcionar até 1963. Após um período de hesitação entre a restauração do hospital ou a sua transferência para outro local, optou-se em 1775, pela transferência para o antigo Colégio de Santo Antão-o-Novo, que ficou devoluto desde a expulsão dos jesuítas. Em homenagem ao rei da época, Dom José I, que executou a transferência e as obras de adaptação, o Hospital Real passou a denominar-se Hospital de São José.
O antigo Hospital Real de Todos os Santos, fundado em 15 de Maio de 1492, por Dom João II, no Rossio, foi definitivamente extinto, melancolicamente, no dia 1 de Novembro de 1755, dia do grande terremoto que assolou Lisboa, dia de todos os santos.


OS TEATROS DA SÃO PAULO DOS BARÕES DO CAFÉ

Agosto 25, 2008

Em meados do século XIX, São Paulo era uma cidade bucólica, a sua população dormia cedo, e tinha como atração principal da sua vida noturna, os saraus de poesia na casa das moçoilas. Com o poder econômico gerado pelo ciclo do café, e mais tarde, com chegada da luz elétrica, os paulistanos passaram a conhecer novos hábitos noturnos, com uma boemia centrada nos bares e nos cabarés. A época dos barões do café muda drasticamente a arquitetura da cidade, feita de ruas estreitas, iluminadas a gás, transitadas por pequenos bondes carregados por burros. A partir da segunda metade do século XIX, São Paulo atinge o porte de uma cidade média. A cidade cresce culturalmente, procurando assimilar e adaptar para si os modismos internacionais. É a descoberta do teatro e da ópera, que se tornam imprescindíveis na construção cultural de uma nova sociedade ascendente.
É nesta época que São Paulo ganha casas de teatros famosas, que darão forma ao conteúdo da sua nova forma de delinear e de viver a boemia, a noite cultural. Em 1864, no local onde é hoje a Praça João Mendes, nos fundos da catedral da Sé, é aberto o Teatro São José, o mais famoso teatro que a cidade já tinha visto até a inauguração do Teatro Municipal, em 1911. Em 1873, viria o Teatro Provisório, na rua Boa Vista, que deu lugar ao Teatro Santana. O Politeama, na Ladeira do Acu, depois rua São João, e finalmente, avenida São João, surgiu em 1892. O Moulin Rouge, nas imediações do Largo do Paissandu. Em 1908, foi a vez do Teatro Colombo, no largo da Concórdia, no Brás. Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, um novo prédio é feito no Morro do Chá, onde o teatro é inaugurado em 1909. Em 1911, o paulistano tem a sua apoteose teatral com a inauguração do Teatro Municipal. Na década dos 1920 surgiria o belíssimo Teatro Santa Helena. Com a vinda do cinema, muitos teatros tornaram-se salas de exibição da sétima arte. Dos velhos teatros paulistanos descritos aqui, apenas o Teatro Municipal sobreviveu até os dias atuais, os outros tiveram os seus prédios demolidos ou incendiados, ou simplesmente desapareceram, engolidos pelo tempo e pela história.

Casa da Ópera, o Primeiro Teatro de São Paulo

A história do teatro em São Paulo está ligada à sua fundação, que remete ao padre Anchieta. O jesuíta fundador utilizava recursos teatrais na catequização dos índios, encenando para eles autos de cunho religioso. As encenações dos autos ocorriam ao ar livre, no local genético da cidade de São Paulo, o Pátio do Colégio. Muitos anos separariam a data da fundação da cidade, as encenações teatrais de Anchieta e a primeira casa de teatro. Relatos apontam para o século XVII, o aparecimento do primeiro prédio de teatro da capital paulista, chamado de Casa da Ópera, localizado no que é hoje a rua de São Bento. Segundo relatos, o prédio ficava entre São Bento e o antigo Largo do Rosário, hoje praça Antônio Prado. Por questões morais e preconceitos da época, em meio aos manifestos contrários ao seu funcionamento, este pequeno teatro foi obrigado a fechar.
No século XVIII, quando dom Luís Antonio de Sousa Botelho e Mourão, o Morgado de Mateus, era governador general da capitania de São Paulo (1965 a 1775), famoso por conceder em 1767, o título de coronel a Santo Antonio, surgiria aquele que é considerado o primeiro teatro oficial de São Paulo. Seria instalada na Casa da Fundição, nos baixos do Palácio do Governo, no Pátio do Colégio, uma sala de espetáculos para 350 pessoas, chamada de Casa da Ópera.
A Casa da Ópera do Pátio do colégio (local aproximado de onde está instalada a Caixa Econômica Estadual), tinha uma construção rudimentar para uma casa de espetáculos, com três portas no rés do chão e três janelas no primeiro andar. Trazia no interior, à altura do saguão, duas escadas, que davam, uma para o camarim governamental e outra aos 28 camarotes, divididos em três ordens. Na platéia havia bancos simples. A iluminação era feita por velas de cera e candeeiros de azeite doce.
Foi na Casa da Ópera, do Largo do Colégio (na fotografia acima, do Pátio do Colégio, a igreja e o colégio, tendo à esquerda, o prédio da Casa da Ópera, em 1861), que dom Pedro I, ao proclamar a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, foi aclamado pelo povo, rei do Brasil. Com a inauguração do Teatro São José, em 1864, e outras casas de diversão em São Paulo, a Casa da Ópera entrou em decadência, sendo decretado por volta de 1870, que seria demolido o seu prédio. No seu lugar, em 1881, foi lançada a pedra fundamental do prédio da Tesouraria da Fazenda.

Teatro São José

Criado para ser um teatro nos molde dos europeus, o Teatro São José, construído no Largo Municipal (atual Praça João Mendes), foi inaugurado na noite de 4 de setembro de 1864, com a apresentação da peça “A Túnica de Nessus”, do estudante de direito Sizenando Nabuco, irmão de Joaquim Nabuco.
O Teatro São José do Largo Municipal, ainda estava inacabado no dia da sua inauguração, só finalizando as obras dez anos depois.
Nos palcos do Teatro São José, grandes espetáculos de óperas e dramas foram encenados, por lá passaram as melhores companhias da época. No seu apogeu, o São José recebeu a famosa atriz de origem portuguesa, Eugênia Câmara e o seu grande amor, o poeta Castro Alves. Por lá também passaram: Sarah Bernhardt, as pregações abolicionistas de Antonio Bento e Arthuro Toscani.
Na noite de 15 de fevereiro de 1898, um grande incêndio destruiu o Teatro São José. São Paulo despertou com os sinos das igrejas a anunciar o grande incêndio, quando o sol nasceu, o Teatro São José já não existia, deixando a cidade desprovida de um grande teatro. A partir do incêndio, o Largo do Comércio passou a ser chamado de Largo do Teatro, mais tarde de Praça João Mendes.
Diante da catástrofe, um novo Teatro São José (foto ao lado) passou a ser construído. Feito do projeto do arquiteto Carlos Eckman, foi inaugurado no dia 28 de dezembro de 1909, em um novo local, no morro do Chá. O novo Teatro São José, ao lado do Viaduto do Chá, trazia um prédio imponente, com um grande salão, dois anos depois, em frente a ele, surgiria o Teatro Municipal. O São José do Viaduto do Chá existiu até 1924, quando foi demolido para a construção do Edifício Alexandre Mackenzie, nova sede da Light & Power, depois Eletropaulo, na esquina da Rua Coronel Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá.

Teatro Politeama

Segundo cronistas, a antiga Ladeira do Acu, depois Rua de São João (atual Avenida São João), era uma rua estreita de velhas quitandas e botequins que ladeavam o Teatro Politeama, que trazia a paisagem bucólica de fogareiros de lata de querosene na porta, assando castanhas, costume herdado da colonização portuguesa.
Registra-se sobre o edifício do Teatro Politeama (na foto a segunda porta à direita, entrada do Politeama ao lado do Cassino Paulista), como um grande barracão acaçapado, coberto de zinco, com uma pequena porta de acesso na Rua São João, à altura da Avenida Anhangabaú, outra porta de serviço, na Rua Formosa. O barracão de zinco tinha sido construído para abrigar o circo de Frank Brown. Apesar de seu prédio sem glamour, era o teatro de melhor acústica de São Paulo. O Politeama foi palco dos melhores espetáculos que marcaram culturalmente a cidade, em especial o Vale do Anhangabaú, que a partir dele tornou-se sede da vida noturna da Paulicéia. Nele efetuaram-se os mais diversos gêneros de espetáculos: cafés-concerto, circenses, atuações de grandes companhias estrangeiras de todos os gêneros, dramático, lírico e de opereta. Foi nos palcos do Politeama que a grande Sarah Bernhardt, em outubro de 1905, faria a sua última apresentação em palcos paulistanos. Nessa tournée ao Brasil, a atriz sofreu um acidente nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, responsável pela amputação futura da sua perna.
O Politeama foi a casa de espetáculos que mais caracterizou a cultura tipicamente paulistana da época.

Moulin Rouge

O antigo Rinque de Patinação, foi mais tarde transformado no Moulin Rouge, um cabaré que marcou a vida noturna de São Paulo na virada do século XIX e início do século XX. Localizava-se na Avenida São João, nas proximidades do Largo do Paissandu. Funcionava em um casarão onde hoje está o prédio da Secretaria de Cultura, na esquina com a rua Dom José de Barros.
O Moulin Rouge (fotografia ao lado, do casarão do Largo do Paissandu, de um cartão postal do início do séculoXX), devido à sua localização privilegiada, foi de grande importância para a vida noturna do centro de São Paulo, sendo frequentado por grande parte dos paulistanos. Tinha um estilo de café-concerto, inspirado nos cafés parisienses. Gerou personagens míticos da vida noturna paulistana, como Garibaldi, um italiano de longas barbas, taxista amigo de todos, transportava os freqüentadores da boemia da cidade, entre eles, os bêbados e os casais formados na noite.
O casarão do Moulin Rouge tornar-se-ia, em 1905, o Teatro Carlos Gomes, que por sua vez, cederia lugar ao Teatro Variedades. Quando a Rua de São João foi alargada, tornando-se uma avenida, novamente mudou o nome para Teatro Avenida, que finalmente, tornar-se-ia o Cine Avenida, famoso por suas sessões duplas.

Teatro Santana

O poder do café transformava a cidade de São Paulo. O apogeu do ciclo cafeeiro deu-se de 1880 a 1930. Com o dinheiro do café, a burguesia ascendente necessitava de uma lapidação cultural, para firmar-se e ser aceita pelas famílias tradicionais. O paulistano necessitava cada vez mais de abrir novos espaços culturais, que os fizesse similar às grandes culturas européias. O teatro, pouco antes da chegada dos animatógrafos, era uma busca constante da São Paulo dos barões do café.
No dia 23 de agosto de 1873, inaugurou-se mais um teatro, o Teatro Provisório Paulistano, situado em um casarão, na Rua Boa Vista. O teatro traz uma mudança sócio-cultural à rua durante décadas, que nos dias atuais esvaiu-se por completo. O antigo Teatro Provisório Paulistano foi comprado pelo industrial Antonio Álvares Penteado, que o demoliu, para a construção de um outro teatro em seu lugar.
Mal o século XX mostrava o seu alvorecer e, no lugar do Teatro Provisório Paulistano, surge o Teatro Santana, inaugurado na noite de 26 de maio de 1900. Ali permaneceria até 1911. O Teatro Santana, por iniciativa de Antonio Álvares Penteado, foi transferido do casarão da Rua Boa Vista (demolido em 1912), para um edifício com projeto de Max Hehl, situado na Rua 24 de Maio, sendo inaugurado em 25 de abril de 1921. Era um prédio pequeno e elegante, com três bares. Sem fins lucrativos, era alugado por seus donos, o Conde Silvio Álvares Penteado e Armando Álvares Penteado, diretamente para as companhias teatrais, sem empresários. O Teatro Santana da Rua 24 de Maio foi demolido em 1960.

Teatro Colombo

O Teatro Colombo foi uma resposta das classes menos favorecidas à elitização dos teatros paulistanos, e dos preços exorbitantes cobrados pelas bilheterias. Localizado no Largo da Concórdia, no Brás, o Teatro Colombo, foi inaugurado em 19 de fevereiro de 1908. Pertencia à Companhia Dramática Italiana, e resultou da adaptação de um antigo mercado que havia no local. Tinha uma capacidade de 1968 lugares, contando com 39 camarotes e 24 frisas. Tinha ainda, as cadeiras de platéia e três arquibancadas, comportando 260 lugares em pé.
O Teatro Colombo foi palco de grandes manifestações de trabalhadores e grupos de tendência anarquista. Era conhecido como o local de reunião das famílias dos bairros industriais e populosos, por praticar preços ao alcance das classes operárias. Por seus palcos passaram companhias dramáticas, líricas e de operetas. O famoso Caruso apresentou-se para a sua platéia.
Com chegada do cinema, o Teatro Colombo foi transformado em uma grande sala de exibição de filmes. Uma sala que fez parte da história do Brás e da cidade de São Paulo. Em 1966, um incêndio destruiu-o completamente.

Teatro Santa Helena

O Teatro Santa Helena estava localizado no térreo do Palacete Santa Helena, na Praça da Sé. O edifício foi iniciado em 1922, e concluído em 1925. Através do Palacete, podia definir-se a paisagem da arquitetura paulistana da década vinte. Foi projetado pelo arquiteto italiano Corberi, executado pelo escritório técnico de engenharia Luis Asson.
No prédio reuniam-se célebres artistas plásticos, formando o que ficou conhecido como Grupo do Santa Helena, composto por Francisco Rebolo, Di Cavalcanti, Mario Zanini, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Manuel Martins, Aldo Bonadei, Penacchi e outros, cujo lema era romper com as regras do academismo e retratar temas do cotidiano popular.
Além do Teatro, o prédio abrigou em várias épocas distintas, ateliês, sedes de sindicatos (dos Metalúrgicos, dos Artistas Plásticos, dos Empregados do Comércio), além de uma célula do Partido Comunista Brasileiro.
O Teatro Santa Helena foi transformado em sala de cinema. Nos anos trinta, passear pela Praça da Sé fazia parte do lazer do paulistano. Assistir filmes no cine-teatro Santa Helena, era um salutar e agradável costume da elite. A sala possuía decoração art nouveau, com escadarias de mármore de Carrara, vidros e espelhos franceses. O cine-teatro foi fechado em 1971, pouco antes do Palacete Santa Helena ser demolido para dar lugar à Estação Sé do Metropolitano.

Teatro Municipal

Com o incêndio do Teatro São José, em 1898, a idéia da construção de um grande teatro em São Paulo cresceu, fazendo o paulistano ansiar por uma casa de espetáculos grandiosa, com inspiração no Teatro da Ópera de Paris.
Em 1903, a Câmara Municipal de São Paulo desapropriou o terreno do Morro do Chá, iniciando naquele ano, as obras de um grande teatro, sobre um projeto de Cláudio Rossi, com desenhos de Domiziano Rossi, sendo Ramos de Azevedo o responsável pela construção. As obras finalizariam em 30 de agosto de 1911. Surgia, assim, no coração de São Paulo, um edifício imponente e luxuoso, com armadura de ferro de Düsseldorf; ferro artístico de Frankfurt; bronze artístico de Berlim, Paris e Milão; mosaicos de Veneza; mosaicos de pavimento de Nova York e Berlim; mármores de Siena, Verona e Carrara.
No dia 12 de setembro de 1911, o Teatro Municipal foi inaugurado, com o drama lírico Hamlet, cantado pelo barítono italiano Titta Ruffo. Desde então, grandes artistas passaram pelos palcos do teatro: Enrico Caruso, Isadora Duncan, Anna Pavlowa, Nijinski, Mikhail Baryshnikov, Clara Della Guardia, Itália Fausta, Vivien Leigh, Arthur Rubinstein, Maria Callas, Duke Ellington e Ravi Shankar, entre tantos.
Quase 100 anos depois da sua inauguração, o Teatro Municipal, criado para atender principalmente, às óperas, continua a ser o maior teatro de São Paulo, e um dos melhores do mundo. Assim como no dia da sua inauguração, continua a ser um teatro voltado para a elite, devido ao valor cobrado ao público por seus espetáculos. Grande parte do paulistano nunca entrou no Teatro Municipal.