CREPÚSCULO DOS DEUSES

Dezembro 5, 2009

Um dos maiores clássicos do cinema universal. “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de Billy Wilder, é uma mordaz história que retrata o próprio cinema e o espelho enfumaçado das suas estrelas. Revela a tragédia que se abateu sobre a carreira de grandes astros de Hollywood quando da sonorização do cinema, em 1928. O cinema mudo lançou estrelas como Mary Pickford, Charles Chaplin, Greta Garbo, Rudolph Valentino, John Gilbert, entre muitos. Com a chegada do som, muitos atores revelaram ao público uma voz desagradável, ou falta de habilidade para trabalhar diante dos microfones. Grandes carreiras foram encerradas quando estavam no auge, sendo legadas ao esquecimento.
O filme é a história de Norma Desmond, grande estrela do cinema mudo, que se viu esquecida por Hollywood, enlouquecendo no seu abandono. Ela vive refugiada em sua mansão na Sunset Boulevard, a rua dos astros de Hollywood, em um mundo surreal, sonhando com a volta às telas, desesperando-se com a expectativa de que um diretor famoso virá buscá-la.
Instável, rica, arrogante, possessiva, manipuladora, Norma Desmond tem a sua loucura alimentada pelo fiel mordomo Max, que lhe escreve e envia cartas, assinando-as como fãs. O mundo sombrio da esquecida dama é modificado com a chegada imprevista do roteirista Joe Gillis, um profissional fracassado que foge dos credores. Norma contrata-o para trabalhar em um roteiro medíocre, que ela pensa, será o responsável pela sua volta.
As personagens são interligadas em uma história cáustica, movida pela ambição de ambos, ela que quer voltar ao estrelato, ele que só deseja usufruir das boas condições financeiras. Atam-se em uma armadilha destrutiva, que oscila entre o ódio, o desprezo, a atração, a ambição, sentimentos nem sempre compartilhados por ambos. Billy Wilder vai desnudando o mundo de glamour de Hollywood, a crueldade da indústria com os seus ídolos, a degradação da alma humana.
Se Norma perde o senso da realidade, sabe do poder do seu dinheiro, como controlar e dirigir a vida de um homem oportunista; Joe não tem a consciência desprovida dos seus atos, esconde-se na sua ambição, e quando tenta acertar, crescer e lapidar a alma, não consegue sair do labirinto cáustico do mundo insano de Norma. Seus destinos estão interligados para sempre. A morte é a saída, a loucura também.
No rosto de Gloria Swanson, encontramos uma interpretação com nuances exagerados, olhos arregalados, movimentos típicos do cinema mudo, o que faz do filme uma sarcástica crítica aos que não sobreviveram à tecnologia. “Crepúsculo dos Deuses” é uma das maiores amplitudes do cinema dentro da alma humana, da sua decadência moral e do encontro cruel com as suas verdades. Norma Desmond e Joel Gillis, loucura e ambição, mesclam-se em uma encenação fatal.

Gloria Swanson e Norma Desmond, Estrelas do Cinema Mudo

O filme de Billy Wilder foge totalmente da narrativa clássica, iniciando a trama já com a tragédia confirmada. Policiais chegam em uma mansão da Sunset Boulevard para investigarem a denúncia de alguns tiros desferidos. No local encontram um cadáver a boiar na piscina. A partir de então, a trama começa a ser narrada pelo próprio morto, Joe Gillis (William Holden). Este início do filme é uma segunda versão, a original era uma cena no necrotério de Los Angeles, em que seis cadáveres relatavam, uns aos outros, as circunstâncias em que morreram. Um deles, Joe Gillis, começava a narrar a própria morte, dando seqüência ao filme. Em exibições de teste, a platéia deu risadas da cena, o que levou Billy Wilder a voltar a filmar outro início, o da antológica seqüência do corpo de Joe Gillis boiando na piscina.
Em off, o morto narra a sua história, retrocedendo ao fatídico dia que se encontrou com Norma Desmond (Gloria Swanson). Joe Gillis era um roteirista desempregado e sem sucesso. Seu fracasso profissional refletia em uma vida financeira difícil. Sem poder pagar as prestações do carro, ele foge dos credores, escondendo o veículo em uma garagem aparentemente abandonada na Sunset Boulevard. O incidente resultará no encontro do roteirista com Norma Desmond, Ela é uma mulher rica, que vive na sua mansão decadente, volvida em um mundo imaginário, ao qual se refugia para fugir da sua realidade, ela é uma grande estrela do cinema mudo, que com a sua sonorização, foi esquecida, precocemente levada ao ostracismo profissional.
Norma é uma mulher de meia idade, dominadora, possessiva, depressiva, tomada por sucessivas crises de desequilíbrio. Completamente esquecida pelo público e pelos produtores de Hollywood, ela vive a ilusão de ainda ser uma grande estrela, mentira sustentada pelo fiel mordomo Max von Mayerling(Erich von Stroheim), que lhe escreve secretamente, cartas de fãs que clamam por ela.
Na sua arrogância de grande dama do cinema, ela quer ser dirigida pelo mítico Cecil B. DeMille. No seu refúgio imaginário, trancada por décadas na mansão, Norma Desmond perdeu a noção de que o tempo passou. Com mais de cinqüenta anos, trabalha em um roteiro sobre Salomé, jovem personagem bíblica que ela quer interpretar, marcando, assim, a sua volta às telas. Para melhorar o roteiro que escreve, Norma Desmond contrata o jovem Joe Gillis. A partir de então, os dois estarão interligados para sempre, protagonizando uma história tensa e sombria.
Gloria Swanson parece viver na tela a sua própria história. Assim como a personagem, ela foi uma grande estrela do cinema mudo, sendo esquecida quando da mudança de tecnologia. A história de Billy Wilder retrata com fidelidade a perversa e cruel realidade de grandes astros que tiveram as suas carreiras encerradas quando atingiam o ápice. Para maior efeito, resgatou uma das grandes estrelas da época de ouro do cinema mudo. Curiosamente, Gloria Swanson foi a quarta opção do diretor, que oferecera o papel para Mae West, Mary Pickford e Pola Nigri, sendo recusado por todas. Gloria Swanson agarrou a personagem com a ferocidade das estrelas, transformando-a em uma atuação definitiva e única, que se confundiu com o restante da sua carreira, marcada para sempre pela força de Norma Desmond.

O Sóbrio e Sarcástico Joe Gillis de William Holden

Joe Gillis percebe, desde o início, o desequilibro de Norma. Inteligente, sagaz e oportunista, ele não acredita no roteiro da atriz, acha-o medíocre, sabe que ela já passou da idade para o papel. Mesmo assim, desempregado, aceita o convite para melhorar o roteiro. Vê no trabalho não uma realização, uma verdade profissional, mas a oportunidade de ganhar dinheiro e lucrar com os desvarios e excentricidades de Norma. O encontro entre os dois, já de início é demarcado por cínicos, inteligentes e brilhantes diálogos: “Você é Norma Desmond. Você trabalhava em filmes mudos. Você era grande!”, diz ele, ao que ela, orgulhosa e impenetrável no seu pedestal, responde: “Eu sou grande. Os filmes é que ficaram menores.
Para realizar o trabalho, Joe Gillis vai viver para as acomodações de um apartamento nos fundos da mansão de Norma. Ali permanece até que as chuvas criam um vazamento, obrigando-o a mudar-se para dentro da mansão, ocupando o quarto que pertencera aos três maridos de Norma. Sem demonstrar rejeição, o roteirista percebe o interesse latente da atriz por ele. Norma envolve-o com a sua obsessão eterna, ladeada de sentimentos confusos e passionais. Compra roupas caras para Joe, dominando por completo a sua vida. Na noite de ano novo, um elegante Joe Gillis desce as escadas da mansão, vestido com uma fina casaca que Norma mandara confeccionar a um figurinista, à espera de uma grande festa. Fica surpreso ao ver que só ele e Norma estarão presentes. Se a situação parecia confortável ao roteirista, ele começa a perceber que já não é livre como antes, sente-se cada vez mais prisioneiro daquela mulher, sem se sentir emocionalmente envolvido com ela. Constata que o desequilíbrio de Norma é maior do que imaginava.
A história magistralmente dirigida por Billy Wilder traz momentos em que a ficção mistura-se com a do próprio cinema, e vemos um desfile de atores da época dos filmes mudos, como Buster Keaton, ou ainda o diretor Cecil B. DeMille, ambos a interpretar eles mesmos.
O filme prende as platéias, mesmo com uma trama despida de qualquer vestígio da paixão, ou de uma forte história de amor. É uma elegia a duas ambições, a de Norma Desmond em voltar aos degraus da fama, e a de Joe Gillis, um homem que adormece a consciência em troca de uma vida confortável, ao lado de uma mulher pela qual não tem paixão, ou mesmo compaixão. Ele é movido por uma sobriedade sarcástica, sem arroubos. William Holden cria um Joe Gillis aos moldes de Humphrey Bogart. Sua beleza de bom moço não dá passagem, diluindo-se em um cinismo latente. O ator também não foi a primeira opção de Billy Wilder. Montgomery Clift tinha assinado contrato para fazer o papel, mas duas semanas antes de começar as filmagens, decidiu rescindi-lo. A segunda opção foi Fred MacMurray, que se negou a fazer o papel de um gigolô. William Holden sofreu, a princípio, grande rejeição por parte de Billy Wilder. Depois da sua interpretação magistral, tornar-se-ia um dos preferidos do diretor, voltando a trabalhar com ele em vários filmes.
A beleza jovial e sobriedade latente da interpretação de William Holden dão o contraste perfeito com a beleza decadente e desequilibro à flor da pele da Norma Desmond de Gloria Swanson.

Degradação, Morte e Loucura

Joe Gillis deixou-se levar pelas facilidades financeiras oferecidas por Norma Desmond. Não percebeu a sua decadência moral e o aprisionamento da alma, a fragmentação lenta do seu caráter. Mas ele é um homem inteligente, com uma consciência que por mais que se mantenha muda, insiste em soltar um grito no vácuo, na escuridão de um homem.
A idéia da prisão em que vive o jovem começa a ficar latente quando ele envolve-se com a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson). Inicia com a jovem uma relação profissional, trabalhando em conjunto em um roteiro. Joe Gillis começa a sentir-se um profissional outra vez. Betty passa a ser um alicerce de reconstrução do caráter moral e profissional do sarcástico Joe. Betty, apesar de estar namorando um amigo de Joe, Artie Green (Jack Webb), deixa-se envolver por ele.
A paixão inesperada é mais latente em Betty do que em Joe. Ele encontra na companheira o incentivo para que possa criar um grande roteiro, reerguendo-se das cinzas que lançara a sua vida. Decide renunciar ao relacionamento obsessivo e doentio que tem com Norma, recuperando a liberdade. Mas Norma tenta suicídio, cortando os pulsos. O pouco caráter que Joe ainda nutre, faz com que se sinta culpado e fique ao lado de Norma. Momentos de dilacerantes discussões, de ciúme claustrofóbico, dão a densidade dilatante do filme.
Mas Betty não desiste de salvar a alma e o talento escondidos de Joe. Confronta com Max, que intercepta as suas mensagens e telefonemas dirigidos a Joe. Uma segunda vertente é aberta na trama. Betty e Max são os verdadeiros alicerces de Joe e Norma, respectivamente. Lutam pelos dois, de forma que os fazem sobreviventes deles próprios. Betty consegue penetrar na muralha de Max, chegando a Joe. Ao confrontar o jovem escritor, consegue apenas que ele rompa com ela. Joe diz que não deixará a vida de luxo oferecida por Norma. Destruída, Betty parte, deixando a vida do rapaz para sempre.
Mas Joe Gillis surpreende. Sua consciência já não se cala, arranca de dentro dele todos os gritos das suas verdades. Ao chegar à mansão, ele faz as malas. Não ficaria com Betty, tão pouco com Norma. Ficaria com a sua liberdade, tentaria recuperar o homem que um dia fora, apagando o que se tornara. Decide voltar para Ohio e recuperar o seu antigo emprego de jornalista. Já não tem fascínio pela crueldade e brilho de Hollywood. O retrato de Norma Desmond fazia com que repelisse qualquer verdade ou ilusão dentro daquele universo de vaidades.
Já pronto para partir, Joe Gillis vê-se frente a frente com Norma Desmond. Ela ameaça matar-se caso ele parta. Entram no último e definitivo confronto. Cruelmente, ele mostra a verdade a Norma Desmond, que se mate, pois ninguém sentirá a sua falta, seus fãs já não se lembram dela. Pela primeira vez, Norma ouve a realidade que não quis enxergar durante todo o filme, tantas vezes camuflada pelo amor de Max.
Joe parte, desce as escadas, em busca da saída da mansão. Quando passa pela piscina, é atingido mortalmente por três tiros desferidos por Norma Desmond. Vive-se o ápice já anunciado nas cenas iniciais. Já sabemos que o jovem escritor pagaria a sua ambição com a vida. O corpo de Joe cai dentro da piscina. O filme volta ao início, quando os policiais chegam ao local do crime.
O corpo de Joe Gillis é retirado da piscina. Se a sua ambição lhe custara a vida, a de Norma Desmond roubara-lhe de vez a lucidez. A mansão é invadida pelos policiais, acompanhados por fotógrafos e jornalistas em busca da notícia. Max percebe o destino da protegida. Ainda uma última vez, ameniza a realidade trágica do seu ídolo. Avisa a Norma que as câmeras e os fotógrafos a esperam. Mergulhada por completo na obsessão de voltar ao mundo da fama, uma enlouquecida Norma Desmond retoca a maquiagem. Melancolicamente ela desce a escada de mármore. Acreditando que as câmeras dos fotógrafos sejam às de uma produção de Cecil B. DeMille, que está filmando Salomé. Norma Desmond dirige-se a elas com expressões faciais exageradas, olhos arregalados, com uma expressão trágica e patética, reproduzindo na essência a dramaticidade característica dos filmes mudos. Inesperadamente ela diz : “Sr. DeMille, estou pronta para o meu close-up”. Norma Desmond seguiria para uma prisão ou para um manicômio, acreditando que entrava nas filmagens de uma película. De forma surrealista, ludicamente cruel, terminava um dos maiores clássicos do cinema. Billy Wilder enterrava de vez o que restara do cinema mudo.

Ficha Técnica:

Crepúsculo dos Deuses

Direção: Billy Wilder
Ano: 1950
País: Estados Unidos
Gênero: Drama e Filme Noir
Duração: 110 minutos / preto e branco
Título Original: Sunset Boulevard
Roteiro: Billy Wilder, Charles Brackett e D. M. Marshman Jr.
Produção: Charles Brackett
Música: Franz Waxman e Jay Livingston
Música Não Original: Johann Sebastian Bach, Richard Strauss e Gerardo Matos Rodriguez
Direção de Fotografia: John F. Seitz
Direção de Arte: Hans Dreier e John Meehan
Decoração de Set: Sam Comer e Ray Moyer
Figurino: Edith Head
Maquiagem: Wally Westmore, Nellie Manley, Karl Silvera, Frank Thayer e Vera Tomei
Edição: Arthur P. Schmidt
Efeitos Especiais: Gordon Jennings
Efeitos Visuais: Farciot Edouart
Som: John Cope e Harry Lindgren
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: William Holden, Gloria Swanson, Erich von Stroheim, Nancy Olson, Fred Clark, Lloyd Gough, Jack Webb, Franklyn Farnun, Larry J. Blake, Charles Dayton, Cecil B. DeMille, Hedda Hopper, Anna Q. Nilsson, H. B. Warner, Ray Evans, Jay Livingston, Buster Keaton, Fred Aldrich, Joel Allen, Gertrude Astor, Ken Christy, Ruth Clifford, Joan Cortay, Archie R. Dalzell, Eddie Dew, Peter Drynan, Julia Faye, Al Ferguson, Gerry Ganzer, Kenneth Gibson, Joe Gray, Sanford E. Greenwald
Sinopse: Um crime é cometido. A partir dele, uma voz em off começa a narrar os acontecimentos que levaram ao trágico desfecho. Joe Gillis (William Holden), é um roteirista fracassado, que para fugir aos credores, refugia-se em uma decadente mansão da Sunset Boulevard, pertencente à Norma Desmond (Gloria Swanson), uma estrela do cinema mudo. A atriz contrata-o para melhorar o roteiro de Salomé que ela escreve, esperando que com ele volte às telas e à fama. Mesmo diante da mediocridade do roteiro, ele aceita o trabalho e a proteção financeira da atriz. Juntos travam uma relação sombria, que os levará a uma iminente tragédia.

Billy Wilder

Considerado um dos maiores gênios do cinema, Samuel Wilder, conhecido como Billy Wilder, nasceu em Sucha Beskidzka, atual Polônia, em 22 de junho de 1906. Filho de uma família de judeus, Billy Wilder tinha intenções de se tornar um advogado, mas abandonou a carreira quando se mudou para Viena, tornando-se jornalista.
Foi em Berlim, na Alemanha, quando trabalhava para um tablóide, que Billy Wilder iniciou a carreira no cinema, estreando-se como roteirista, em 1929. Com a ascensão do nazismo, em 1933, o jovem roteirista viu-se obrigado a deixar a Alemanha, emigrando para a França, e depois para os Estados Unidos. A barbárie nazista atingiu a sua família, tendo a mãe e os avós mortos em Auschwitz.
Nos Estados Unidos, Billy Wilder teve que aprender o idioma inglês em um curto tempo. No início contou com a ajuda de Peter Lorre para ingressar na seleta indústria de Hollywood. Escreveu roteiros em parceria com Charles Brackett que se tornaram clássicos do cinema americano, como “Ninotchka”, de 1939. A partir de 1942, Brackett começou a produzir filmes dirigidos por Wilder. Da união dos dois, surgiram grandes produções que se tornaram míticas, como “Farrapo Humano”, em 1945, que ganhou o Oscar de melhor filme, melhor direção e melhor roteiro, e “Crepúsculos dos Deuses”, em 1950, que teve várias indicações para o Oscar, ganhando o de melhor roteiro, melhor direção de arte e melhor trilha sonora.
A partir de 1951, Billy Wilder produziu os próprios filmes. Sua filmografia é de uma genialidade impar, transitando entre grandes comédias como “O Pecado Mora ao Lado” (1955) e “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), ao filme noir, como o imprescindível “Crepúsculo dos Deuses”. É considerado um dos maiores diretores de todos os tempos, dono de uma obra com pouca oscilação, contundente e surpreendente, marcada pela ousadia de como os temas eram propostos. Impossível apontar um único filme do diretor como sendo a sua obra-prima. Billy Wilder tem várias obras-primas.
Billy Wilder teve uma vida longa, morrendo aos 95 anos, em 27 de março de 2002, em Beverly Hills, Los Angeles, vítima de uma pneumonia, após enfrentar uma batalha contra um câncer. Deixou um legado inconfundível dentro da sétima arte, responsável pela grandiosidade de várias carreiras de ídolos de Hollywood.

Filmografia de Billy Wilder:

1934 – Mauvaise Graine
1942 – The Major and the Minor (A Incrível Susana)
1943 – Five Graves to Cairo (Cinco Covas no Egito)
1944 – Double Indemnity (Pacto de Sangue)
1945 – Death Mills
1945 – The Lost Weekend (Farrapo Humano)
1948 – The Emperor Waltz (Valsa do Imperador)
1948 – A Foreign Affair (A Mundana)
1950 – Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses)
1951 – Ace in the Hole (A Montanha dos Sete Abutres)
1953 – Stalag 17 (Inferno nº 17)
1954 – Sabrina (Sabrina)
1955 – The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado)
1957 – The Spirit of St. Louis (Águia Solitária)
1957 – Love in the Afternoon (Um Amor na Tarde)
1957 – Witness for the Prosecution (Testemunha de Acusação)
1959 – Some Like it Hot (Quanto Mais Quente Melhor)
1960 – The Apartment (Se Meu Apartamento Falasse)
1961 – One, Two, Three (Cupido Não Tem Bandeira)
1963 – Irma la Douce (Irma la Douce)
1964 – Kiss Me, Stupid (Beija-me, Idiota)
1966 – The Fortune Cookie (Uma Loura por Um Milhão)
1970 – The Private Life of Sherlock Holmes (A Vida Íntima de Sherlock Holmes)
1972 – Avanti! (Avanti… Amantes a Italiana)
1974 – The Front Page (A Primeira Página)
1978 – Fedora (As Cinzas de Ângela)
1981 – Buddy Buddy (Amigos, Amigos, Negócios a Parte)


OS FOTÓGRAFOS DO IMPÉRIO DO BRASIL

Novembro 10, 2009

 No século XIX a arte da fotografia floria, arrastando novos artistas de um universo antes dominado pela pintura. A realidade crua da imagem fotografada tirava o glamour da imagem pintada. As pessoas retratadas saíram dos quadros da parede para os álbuns portáteis. A inspiração do artista já não era mesclada pelo ludismo imaginário, mas por um incontestável retrato jornalístico.
No Brasil Império, Dom Pedro II apaixonou-se pela fotografia. Ele próprio construiu um acervo belíssimo de imagens das suas viagens e do país que governava. Durante o segundo império, grandes fotógrafos pioneiros construíram as primeiras imagens do Brasil, registrando mais realistamente o retrato de uma jovem nação. Geniais, esses artistas, em sua maioria europeus, venciam os obstáculos e as limitações técnicas da época, deixando uma obra grandiosa. Entre eles destacam-se os franceses Auguste Stahl e Jean Victor Frond; o alemão Revert Henry Klumb; o suíço George Leuzinger; e, o franco-brasileiro Marc Ferrez.
Rever os retratos desses fotógrafos grandiosos, é redescobrir um Brasil que já não existe, uma paisagem física e humana que o tempo varreu, deixando-nos órfãos de uma identidade civil de uma força aterradora.
Auguste Stahl deixou-nos imagens do Rio de Janeiro na época que era capital do império, e a sua obra-prima no Brasil, a Cachoeira de Paulo Afonso, varrida do mapa pela imposição do progresso. Marc Ferrez, herdeiro de todos os outros, destacou-se na fotografia por cerca de cinqüenta anos. Sua obra é imprescindível, retratando não só paisagens que deram origem a grandes cartões postais, como também documentou construções de ferrovias; a reconstrução do centro da cidade do Rio de Janeiro, a partir dos primeiros anos do século XX; fotografias da família imperial, ou de celebridades como Machado de Assis; além de várias paisagens humanas, mostrando a população ambulante da jovem nação, constituída por brancos, negros, índios e mestiços.
Este artigo faz uma viagem breve ao Brasil de Marc Ferrez e Auguste Stahl, através de imagens únicas, definitivas, de um país que mudou a sua paisagem, mas nunca perdeu a identidade aqui registrada através das objetivas e da sensibilidade dos grandes artistas.

Auguste Stahl e a Principal Imagem dos Primórdios da Fotografia

Theophile Auguste Stahl nasceu em 23 de maio de 1824. O local de nascimento do fotógrafo criou algumas controversas históricas, tendo sido atribuído a Bergamo, na Itália, ou ainda na Alemanha. Estudos mais recentes dão-lhe como nacionalidade a francesa. Filho dos franceses Jean Frederic Stahl e Marie Elise Stamm, teria nascido na Alsácia e passado a infância em Bergamo.
A atuação como fotógrafo no Brasil começou em 1854, quando abriu o seu primeiro estabelecimento no Recife, Pernambuco. Stahl chegara àquela cidade em 31 de dezembro de 1853. No Brasil, estabeleceria um trabalho fotográfico pioneiro que duraria quinze anos, de 1854 a 1869.
Em 22 de novembro de 1854, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina, visitaram pela primeira vez o Recife. Stahl fez o registro da chegada da família imperial na cidade pernambucana, num registro visualmente jornalístico, algo inédito para a época. Autorizado a fotografar o casal imperial, o seu trabalho empolgou o imperador, sendo agraciado com o título de “Fotógrafo de Sua Majestade o Imperador do Brasil”. Desde então, passou a deter o monopólio da imagem dos monarcas na província de Pernambuco.
Durante o tempo que ficou em Pernambuco, Dom Pedro II confidenciou ao fotógrafo o desejo de ter uma vista da imensa queda d’água chamada de Cachoeira de Paulo Afonso. O imperador visitara o local recentemente e ficara encantado com a sua beleza.
Foi assim que, em 1860, Auguste Stahl rumou para a Cachoeira de Paulo Afonso, para registrar a sua vista. O resultado seria a sua obra-prima. O registro é considerado a principal imagem dos primórdios da fotografia sobre papel no Brasil. Paulo Afonso era à época a mais famosa cachoeira do país. A beleza do trabalho mostra uma imagem grandiosa e ambiciosa, tendo sido feita com a junção de dois negativos em vidro, obtendo assim, uma dimensão esplendorosa de 27 cm x 54 cm, feito inédito para a época. No registro, vê-se a figura de um escravo a arriscar a vida no meio de uma pedra, proposta de Stahl, que nos dá a dimensão de grandiosidade da queda d’água. O contraste entre luz e sombra, remete a um cenário dramático, de beleza singular, que na sua monumentalidade deixa um certo alerta ao perigo. Os tons sépias contrastam a paisagem natural com a paisagem humana. Registro espetacular de um patrimônio natural do Brasil, que foi extinto pelo progresso. A cachoeira foi coberta pela represa que leva o mesmo nome, localizada entre as divisas dos estados de Pernambuco, Sergipe, Bahia e Alagoas. A fotografia foi redescoberta em meados da década de 1990, fazendo parte do acervo da Biblioteca Nacional. A imagem seria copiada, em 1869, pelo fotógrafo Auguste Riedel, com sutis alterações, sendo por ele apropriada.
Auguste Stahl mudou-se, em 1862, para a capital do império. Durante o tempo que esteve no Brasil, interessou-se profundamente pelo paisagismo tropical. Retratou as cidades brasileiras por onde passou, influenciando com o seu trabalho, todos os grandes fotógrafos que viriam a partir dele. Casado com Marie-Julie Bing, teve dois filhos nascidos no Brasil, Olga-Marie Stahl e Valdemar Stahl.
Em 1870, Auguste Stahl viu-se acometido por uma terrível doença, a sífilis, o que o fez regressar à França. Acredita-se que sendo obrigado a deixar bruscamente o Brasil, o fotógrafo teria legado seu estoque de tiragens originais e negativos de vidro para o jovem Marc Ferrez, que teria editado posteriormente algumas imagens de Stahl com o seu nome.
Nos dias atuais, menos de 150 fotografias suas de paisagens do Rio de Janeiro e do Recife são conhecidas. Auguste Stahl viria a morrer em um hospital da Alsácia, em 30 de outubro de 1877. Suas imagens constituem um acervo precioso do Brasil imperial e oitocentista, numa obra pioneira e sem precedentes.

Marc Ferrez e os Primeiros Anos

Marc Ferrez é considerado o maior fotógrafo brasileiro de todos os tempos. Nascido no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, era filho dos franceses Zéphyrin Ferrez, escultor e gravurista, que veio para o Brasil em 1816 com a Missão Artística Francesa; e de Alexandrine Caroline Chevalier. Marc Ferrez herdou o nome do tio paterno, também integrante da missão. Sexto e último filho do casal, o fotógrafo viu-se órfão aos oito anos de idade, em 1851. Naquele ano, após a morte dos pais, partiu em julho para a França, vivendo em Paris com o escultor e gravador Alphée Dubois.
Marc Ferrez só retornaria ao Brasil em 1859. Na capital do império, passou a trabalhar na Casa Leuzinger, de George Lauzinger, famosa casa editorial, papelaria e estabelecimento fotográfico, localizada na Rua do Ouvidor, centro do Rio de Janeiro. Em 1860, Marc Ferrez aprendeu técnicas fotográficas com o alemão Franz Keller-Leuzinger, fotógrafo responsável pela seção de fotografia da Casa Leuzinger.
Em 1865, aos 21 anos, abriu a própria firma, a Marc Ferrez & Cia, um estúdio fotográfico bem-sucedido, com sede na Rua São José, e que o iria pôr entre os principais profissionais da sua cidade e do próprio Império. Em 1868, já um fotógrafo famoso, recebeu menção honrosa do Almanaque Laemment.
Em 1873, uma tragédia abater-se-ia sobre o trabalho do fotógrafo, um incêndio de grandes proporções consumuria e destruiria o seu atelier, que lhe servia também de residência. Na catástrofe foram perdidos o seu acervo, chapas e equipamentos fotográficos. No ano seguinte, em 1874, ele viajaria para a França com o objetivo de readquirir novo material fotográfico e restabelecer a profissão no Rio de Janeiro.

Marc Ferrez Durante o Segundo Império

De volta ao Brasil, em 1875, Marc Ferrez foi convidado para integrar como fotógrafo à Comissão Geográfica e Geológica do Império do Brasil, comandada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. A expedição percorreria os estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, e partes da Amazônia. Marc Ferrez fotografaria, quinze anos após Auguste Stahl o ter feito, a Cachoeira de Paulo Afonso. No sul da Bahia, registraria com maestria os índios Botocudos. A imagem reflete a dureza no olhar da maioria dos índios, longe de perceber que posavam para a posteridade da sua própria etnia. Olhares que se oferecem à manipulação da objetiva, sem perder a essência primitiva do homem, mais do que universal, substancialmente brasileiro.
Durante o Império, Marc Ferrez participou de várias exposições tanto no Brasil, como no exterior, obtendo alguns prêmios. Fotografou várias paisagens do Brasil imperial, do Rio de Janeiro como capital da corte. Documentou em imagens, várias obras essenciais para o desenvolvimento daquela cidade. Sob as lentes de Marc Ferrez, a capital carioca deslumbrava na sua beleza natural, bem distante dos prédios que um dia tomariam a sua paisagem. Desta época, é o registro do fotógrafo que revelam um Rio de Janeiro pulsante pelo progresso que lhe batia às portas. As paisagens da cidade feitas pelo fotógrafo, transmitem uma tranqüilidade efêmera, associada à natureza privilegiada da sua construção física. São imagens que até os dias atuais, inspiram fotógrafos de um Rio de Janeiro futurista.
Considerado herdeiro legítimo de Auguste Stahl, Marc Ferrez tornou-se impar em sua obra. Conquistou o Império e sobreviveu com prestígio, ao seu fim. Em 1880 recebeu o título de “Photografo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império.
Nos últimos anos da Monarquia, registrou as obras de construção da Estrada de Ferro do Corcovado. Viajou para Minas Gerais e São Paulo, registrando as obras de ampliação da ferrovia The Minas and Rio Railway Company. Registrou as obras da ferrovia Paranaguá-Curitiba. As principais obras do Império passaram pelas lentes de Marc Ferrez. Sua competência e dedicação ao que fazia seduziram o imperador, que o agraciou, em 1885, com o título de Cavaleiro da Ordem da Rosa.

O Desfile Humano nas Imagens de Marc Ferrez

Já na época da República, em 1890, o fotógrafo associou-se a Henri Gustave Lombaets, importante encadernador da Academia Imperial de Belas Artes. Juntos, fundaram a Lombaets, Marc Ferrez & Cia. Da sociedade resultou a publicação de postais e o jornal “A Estação”. Mas a associação durou pouco, sendo desfeita em 1892.
Em 1899, a Casa Ferrez continuou a apostar na publicação de postais. Já o século XIX findava e Marc Ferrez trouxe, nessa época, um Brasil das ruas, uma paisagem humana que retratava a formação de um povo. Os ofícios urbanos estampavam na sensibilidade das suas objetivas. Por ela desfilaram o verdureiro, o cesteiro, o quitandeiro, o garrafeiro, o vassoureiro, o jornaleiro, o amolador de facas, o funileiro… Profissões, muitas das quais, já extintas, e que não se teria noção do que significaram, caso não tivesse tais registros.
O Brasil mudara, a escravidão tinha sido abolida, a República proclamada. Se na época do Império vender nas ruas significava uma tarefa não dignificante, exercida pelos escravos de ganho, que vendiam doces, miudezas, e depois dividiam os lucros com o seu dono; no Brasil que despontava com o alvorecer do século XX transbordava as ruas de imigrantes, vendendo ou oferecendo serviços. Na fotografia que Marc Ferrez registrou a “Vendedora de Miudezas”, podemos constatar as mudanças. Uma mulher branca, de olhar altivo, posa para Ferrez. Há nela nuances de quem sabe que está tendo a imagem registrada. Seu olhar desafia a objetiva, numa dignidade etérea, sem perder a sua função secular. Se a paisagem trazia um Ferrez sofisticado, o registro humano não lhe fica a dever. A vendedora de miudezas traz as surpresas da sua cesta – o que ela venderia?, singelamente amparada por uma providencial sombrinha.
Procurando exercitar uma imagem viril, os dois rapazes de “Jornaleiros” transitam entre a austeridade de vender nas ruas da cidade, e uma maturidade precoce, com a perda da infância sem o direito de uma adolescência. Os dois trazem os jornais de então nas mãos, “O Paiz” e “A Notícia“. Numa época em que os jornais eram vendidos no grito, a presença desses profissionais ambulantes garantia a notícia a ecoar das páginas imprensas pelas ruas da cidade. Curiosamente, esses jornaleiros não sabiam, em sua maioria, ler ou escrever. De chapéus e casacos, eles portam a elegância da época, estendida para os mais humildes, naturalmente cavalheiros de um tempo.
O Mascate” mostra o homem claramente imigrante, uma nova realidade que mudaria o Brasil não só física, mas culturalmente. Marc Ferrez registrou as escravas de serviço, que deixavam as senzalas para praticarem o que a elite chamava de vergonhosa profissão de ambulantes, sustentando com aquele trabalho os seus amos. Elas vendiam doces que faziam, legumes que cultivavam, peixe que pescavam. O mascate trabalhava para si mesmo. Vendia tecidos, tapeçarias, eram andarilhos não só pelas capitais, mas por todo o interior de uma imensa nação. Se as escravas retornavam para os seus amos no fim da jornada, os mascates desbravavam estradas, redescobriam um país.
Assim, o desfile humano das imagens de Marc Ferrez, tornou-se o desfile do próprio Brasil, velho na sua história, mas novo como nação independente. Negros, brancos, escravos e ex-escravos, imigrantes, índios, todos eles passaram por Marc Ferrez, fazendo dele um contador de história através das imagens que se nos são apresentadas, e que tanto nos fascinam.
Marc Ferrez ainda registraria a renovação da arquitetura urbana da cidade do Rio de Janeiro, como as obras da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Foi um dos pioneiros do cinema no Brasil, obtendo, em 1905, a autorização da firma francesa Pathé Frères, para ser fornecedor exclusivo dos cinematógrafos ambulantes. Em novembro de 1907 inaugurou o Cine Pathé.
Marc Ferrez traz uma das obras fotográficas mais abrangentes do século XIX e início do século XX. Fotografou o Brasil por quase cinco décadas consecutivas, mantendo sempre um trabalho magnífico, quer com a Monarquia ou com a República. No fim da vida viveu algum tempo na França, de lá retornando já muito doente, em 1920. Marc Ferrez morreria em 12 de janeiro de 1923, na cidade do Rio de Janeiro, cenário que ele tão bem retratou, imortalizando o glamour que ela tinha quando foi capital do Império e da República do Brasil.


GUERNICA – A INDIGNAÇÃO DE PABLO PICASSO

Outubro 31, 2009

A tragédia que se abateu sobre a aldeia basca de Guernica, em 1937, no auge da Guerra Civil Espanhola, indignou o mundo. Atingidos por bombas e rajadas de metralhadoras, os moradores do pequeno lugarejo viram dizimados quase que metade da população. A destruição da aldeia fazia parte de um treinamento de guerra executado pela Luftwaffe alemã, e servia para intimidar os inimigos do general Franco, cujas tropas estavam em guerra com a esquerda do país.
Pelas ruas de Guernica, em meio aos escombros, milhares de mortos jaziam insepultos, e centenas de feridos contemplavam o horror. A repercussão do ataque a Guernica correu o planeta. Foi tão negativa, que Franco em vez de usar o fato para intimidar os guerrilheiros rebeldes, culpou-os, tentando imputar-lhes a autoria do bombardeio. Ante tão imensa tragédia, ninguém quis assumir as responsabilidades.
Jornais e revistas da época registraram o banho de sangue. Mas nenhum registro foi tão contundente e definitivo quanto o de Pablo Picasso, em sua obra “Guernica”, um painel de 350 cm por 782 cm. Pintado a óleo, com cores em preto e branco e cinza, foi feita por ocasião da Exposição Internacional de Paris, em 1937. Na pintura, Pablo Picasso revela toda a indignação e repulsa pelo sucedido a Guernica e aos seus habitantes.
Retrato pungente, com figuras ao estilo dos frisos e das tumbas dos templos gregos, dimensionado pelo enquadramento triangular das alegorias. O resultado gera nos observadores, uma sensação de mal-estar, diante do horror cubista. É um grito do sangue derramado. Ao ser exposta, a obra suscitou o menosprezo das pessoas, que a tinham como repulsiva e pouco compreensível.
Com o tempo, “Guernica” tornou-se símbolo de protesto contra a violência e a barbárie das guerras. É uma manifestação da cultura contra a violência, difundida em todo o mundo. O painel foi levado para Nova York, onde lá permaneceu, proibido de retornar à Espanha, por ordem do próprio Picasso, até que o franquismo fosse extinto e a democracia restaurada. Com o fim da ditadura espanhola, em 1975, a obra retornaria ao país em 1981, sendo tida como o último exilado. Em 1992, foi definitivamente para o Museu Reina Sofia, em Madrid.
Pungente, sua beleza estética diluí-se diante do horror que retrata, “Guernica” é a própria repulsa da arte às atrocidades dos homens e dos seus regimes opressivos. É o retrato de uma civilização que se fez armada e poderosa, mas que ruiu diante das suas ideologias totalitaristas. “Guernica” é a arte contra a guerra.

O Bombardeio de Guernica

A Guerra Civil Espanhola tornou-se símbolo de uma luta ideológica da esquerda e da direita ibéricas, que suscitou o apoio de pessoas de todo o mundo. Legiões de estrangeiros engrossaram as fileiras dos guerrilheiros que combatiam contra a ditadura de Francisco Franco.
Em julho de 1936, o governo nazista de Adolf Hitler decidiu apoiar o caudilho espanhol. O acordo com os nacionalistas espanhóis concedia grande autonomia às forças nazistas. Quando a Luftwaffe alemã chegou à área do conflito, estava ansiosa para aplicar manobras militares envolvendo bombardeios de tática de terra arrasada, com levas de esquadrilhas que conduziriam bombas diferentes, de fragmentação, incendiárias; e assim, poder descobrir os efeitos.
No início de 1937, foi escolhido o local a ser bombardeado pelos nazistas. A operação tinha como finalidades, testar a capacidade bélica da Alemanha nazista em caso de uma guerra futura e, intimidar os inimigos de Francisco Franco. Seria Guernica, pequeno vilarejo situado entre Bilbao e San Sebastián, ao norte da Espanha, nos Países Bascos. O lugar possuía cerca de sete mil habitantes, refugiando muitos republicanos que para ali fugiram durante a guerra.
No dia 26 de abril de 1937, sob o comando do tenente coronel Wolfran von Richthofen, a unidade aérea alemã “Legião Condor” iniciou um bombardeio sobre Guernica. Era uma segunda-feira, dia de feira livre na aldeia. Ainda havia bastante movimento na praça, no fim da tarde, quando os sinos começaram a badalar. Às 16h45 foi despejada a primeira leva de Heinkels-11 sobre o lugarejo. Por quase três horas consecutivas, uma população horrorizada viu o inferno vindo do céu, com bombas, rajadas de metralhadoras contra os que fugiam para os arredores dos escombros formados, deixando um grande rastro de sangue e cerca de 1.654 mortos e 889 feridos. A aldeia levou um dia para apagar o incêndio.
A tragédia de Guernica entrou para a história como o primeiro cenário para ensaio de guerra, antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Os alemães viram-se satisfeitos com o resultado do treinamento militar. Franco usou os acontecimentos para culpar os exércitos de esquerda. O mundo mostrou-se estarrecido diante daquela atrocidade. A população do vilarejo perdeu cerca de 40% da sua população. A morte, a destruição, o solo banhado por sangue, foi o resultado concreto diante daquele dia infernal.

Guernica, de Pablo Picasso

Pablo Picasso, um dos maiores pintores do século XX, passara pela Primeira Guerra Mundial sem que se deixasse inquietar por ela. Quando a guerra civil foi deflagrada em seu país, deixou a neutralidade costumeira e solidarizou-se com os republicanos.
A tragédia de Guernica chegou ao pintor, em maio de 1937, quando os jornais publicaram fotografias do bombardeio à aldeia. Picasso sentiu-se profundamente tocado pelo derramamento de sangue do povo basco. Da tragédia, surgiu a inspiração para pintar a mais terrível e genial das suas obras.
Fechado em seu atelier em Paris, o artista criou 45 estudos preliminares, resultando em um painel de 3,50 m x 7,82 m, pintado a óleo, nas cores preta, cinza e branca; ao qual chamou de “Guernica”, feito para ser posto em frente ao pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris de 1937.
Exposta pela primeira em 4 de junho de 1937, menos de dois meses após o bombardeio, a obra era um tenaz registro daquele momento tétrico da história espanhola. O painel trazia uma carga emotiva que inquietava as pessoas, com imagens sombrias, rompendo com qualquer efusão lírica. Na exposição de Paris, o público não percebeu o sentido de retrato tão cáustico, virando as costas ao painel.
“Guernica” despeja as emoções, tornando-as avassaladoras, como se as imagens fossem explosões de colagens cubistas, em um artifício ilusionista. No alto, o painel é dominado pela presença da luz de um olho em forma de lâmpada. As figuras provocam imagens fragmentadas, elucidadas pela violência proposta, numa agonia latente. Rigorosamente, Picasso parece dividir a tela em quatro retângulos, com um triângulo cujo vértice em seu eixo vertical, divide-a em duas partes iguais.
No primeiro retângulo, a angústia e desespero de uma mãe a chorar a morte do filho, como uma trágica Pietá moderna, ladeada por um touro ameaçador com cabeça humana. O touro é uma presença marcante no universo de Pablo Picasso.
No segundo retângulo, o imenso olho luminoso, com uma lâmpada no centro, rasga a dramaticidade exposta, sobre a figura de um cavalo ferido e em disparada. A figura do cavalo centraliza o triângulo já mencionado.
No terceiro retângulo, mais luz vem da lâmpada que uma mulher traz na mão, como se fosse uma alegoria da Estátua da Liberdade. No quarto retângulo, o desespero latente de um homem diante do horror, a levantar os braços ao céu.
Touro e cavalo, animais símbolos da mitologia espanhola, simbolizam a brutalidade e as forças do mal (touro), numa cruel repressão ao povo (cavalo). No chão, um cadáver empunha a espada partida, símbolo da resistência do povo espanhol.
No início rejeitada pelo público, “Guernica” tornou-se com o tempo, a obra que simboliza a repulsa às guerras. Pablo Picasso, em solidariedade com os mortos na tragédia e com o povo espanhol, que lutou contra a ditadura de Franco, ao tornar a sua obra famosa, proibiu que ela fosse exposta em solo ibérico, até que a democracia voltasse ao país. A obra ficou exposta em Nova York, até que, em 1981, voltou à Espanha, já redemocratizada. Desde 1992 encontra-se na exposição permanente do Museu Reina Sofia, em Madrid.
Reza a lenda que, em 1940, quando a França estava sob a ocupação nazista, um oficial alemão, diante de uma fotografia reproduzindo o painel, em uma exposição, em Paris, perguntou a Picasso se tinha sido ele quem fizera tão horrível obra, ele respondeu: “Não, foram vocês!

Pablo Picasso

Um dos mais geniais mestres da arte do século XX e de todos os tempos, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, nasceu em Málaga, na Espanha, em 25 de outubro de 1881.
O pai, um pintor medíocre, teria sido uma influência para que o talento de Picasso fosse despertado. Aos treze anos, já atingia a perícia do pai.
Após passar por Barcelona, chegou a Madrid, em 1897, onde se instalou em um atelier e inscreveu-se na conceituada Real Academia de Belas-Artes de São Fernando. Sua estadia em Madrid seria interrompida quando o artista adoeceu, em julho, com escarlatina. Para convalescer, retornou à Barcelona, onde vivia a família.
Em 1900, levado pelo sonho de conhecer Paris, ele partiu para a capital francesa. Seria ali que Picasso iria ascender para a fama, tornando-se um dos maiores artistas do século que despontava.
As obras de Picasso não se resumem somente à pintura, constam esculturas e cerâmicas. Ao lado de Georges Braque, é considerado o fundador do Cubismo. Pablo Picasso viveria grandes amores e intensamente. Morreu aos 91 anos, em Mougins, riviera francesa, em 8 de abril de 1973. Produziu suas obras até o último instante, não se deixando perder a inspiração pela velhice.

Algumas Obras de Pablo Picasso

1899 – Auto-Retrato
1901 – Absinto (Rapariga no Café)
1901 – A Morte de Casagemas
1901 – Evocação – O funeral de Casagemas
1901 – A Maternidade
1903 – Velho Guitarrista Cego
1903 – Miseráveis Diante do Mar
1903 – A Vida
1904 – Mulher Passando a Ferro
1904 – Retrato de Suzanne Bloch
1905 – Auto-Retrato com Capa
1905 – Rapaz com Cachimbo
1905/1906 – Fernanda com um Lenço Preço
1906 – Vasilhas
1907 – Mulher com Leque
1907 – Jovem Nu (Jovem Rapaz com Braços Levantados)
1907 – Lês Demoiselles d’Avingnon
1908 – Banho
1908 – Três Mulheres
1908 – Composição com Crânio
1909 – Garrafa, Jarra e Frutas
1914 – Vaso sobre a Mesa
1931 – Mulher Loira
1932 – La Lecture (Woman Reading)
1933 – Minotauro, Bebedor e Mulheres
1937 – Guernica
1941 – Dora Maar au Chat
1944 – O Tomateiro
1960 – Mulher Sentada num Cadeirão
1965 – Lagosta e Gato
1969 – Arlequim com Batom
1971 – Busto de Mulher


A LEI DO DESEJO

Outubro 30, 2009

Um dos filmes mais instigantes e transgressores da obra de Pedro Almodóvar, “A Lei do Desejo” (La Ley Del Deseo), é uma ode à paixão e ao sexo, levados ao extremo. Provocante, marginal, underground, o filme encerra a fase mais criativa e cáustica do diretor espanhol. A partir de então, Almodóvar conquistaria fama mundial, lapidaria a sua obra, perdendo a linguagem crua que permeava com humor corrosivo as suas personagens.
O filme traz uma galeria de personagens complexos, labirínticos nas suas identidades e segredos. Todos eles são movidos pela verve do sexo, atirando-se ao precipício latente do desejo. Tina (Carmen Maura), mulher doce e passional na sua essência, é no reflexo do seu espelho um homem sofrido, que quando criança foi sexualmente molestado pelo pai. Para viver esta paixão incestuosa, submeteu-se a uma cirurgia para mudar de sexo, tornando-se um transexual. Pablo (Eusebio Poncela), irmão de Tina, é um bem-sucedido diretor de teatro e cinema. No seu vazio, usa da cocaína para fugir às verdades dos sentimentos, nutre uma paixão pelo belo Juan (Miguel Molina), mas não é correspondido em seu esplendor. Finalmente Antonio (Antonio Banderas), um jovem impulsivo à procura da sua identidade, luta contra a sua homossexualidade, mas se deixa levar pela paixão, logo transformada em obsessão, por Pablo. E num contexto passional, repleto de ciladas e armadilhas sentimentais, que se forma o triângulo fatal entre as três personagens, envolvidas nos impulsos irresistíveis do sexo e da paixão.
Nunca a temática homossexual, comum na obra de Almodóvar, foi tão explicitamente exposta por ele. Nunca o amor foi tão arrancado a unha em sua verve dilacerante como aqui. Os sentimentos labirínticos são extraídos à flor da pele, conduzindo a platéia a um retumbante final, deixando-a sem fôlego. Nunca Antonio Banderas foi tão maliciosamente inocente, passional, eloqüente e sincero como ator como aqui, mantendo-se anos luz da imagem do machão latino que desenvolveria no cinema norte-americano. Nunca a tragédia do amor derrubou tanto os preconceitos como em “A Lei do Desejo”.
O filme não é considerado o melhor de Pedro Almodóvar, mas é um dos mais cultuado por seus admiradores e pelos críticos. Corajosamente ele encerrava a fase underground da sua carreira, deixando o universo da Madri marginal, para conquistar o mundo como um grande cineasta. Última grande parceria com Carmen Maura, que se diluiria em “Mulheres á Beira de Um Ataque de Nervos” (1988), só voltando em “Volver” (2006). “A Lei do Desejo” é, ao longo dos anos, um retrato histórico do cinema de Pedro Almodóvar, e, das carreiras de Antonio Banderas e Carmen Maura. É o diretor na sua mais pura essência criativa.

O Desfile de Estranhos Personagens

O início do filme é já um afronto que prepara a platéia para o que viria. Na primeira cena, um belo rapaz aparece de costas, nu, tocando o seu corpo conforme ordena uma voz. Constrangido, mas pronto para cumprir o seu papel, o rapaz toca-se em gestos obscenos, quase pornográficos. Encerra-se a filmagem e o modelo nu, conta o seu dinheiro. Do outro lado das câmeras, inicia-se, finalmente “A Lei do Desejo”.
As personagens são apresentadas de forma crua, em ambientes dúbios e marginais de Madri. O cineasta Pablo Quintero (Eusebio Poncela) transita pelos bares noturnos, trocando olhares com belos rapazes, movendo-se à cocaína. À sombra de Pablo, surge Antonio Benitez (Antonio Banderas), jovem bonito e impetuoso, que mesmo negando a sua vertente homossexual, masturba-se por banheiros sujos a pensar em ser possuído por um homem.
Do outro lado da cidade, caminha Tina (Carmen Maura) e uma criança, Ada (Manuela Velasco). Um estranho relacionamento de mãe e filha une as duas. Em uma igreja, Tina, ao entoar uma área, revela inesperadamente ao padre, que era o menino que cantava nos corais anos atrás. Conta-lhe a sua mais dilacerante verdade, quando transitava para a adolescência, foi possuída pelo pai. A relação incestuosa de ambos fez com que o casamento dos pais chegasse ao fim. Para viver aquele estranho amor, Tina foi levada pelo pai para o Marrocos, onde foi submetida a uma cirurgia para a troca de sexo. Sim, Tina é um transexual. Ada, a menina, fora adotada por ela.
As personagens contaminam os espectadores com as suas verdades, ditas com um humor cáustico, lancinante, em um cenário barroco. Pablo, Tina e Ada trocam momentos de ternura e amor, formando a família possível dentro do universo de cada um. Exótica, diferente, é o retrato da nova família que os tempos gerou, onde pai e mãe, nem sempre correspondem ao que decretara a natureza, mas os sentimentos.
Tina é solitária, entrega-se à arte, interpretando como atriz o monólogo “A Voz Humana”, de Jean Cocteau. Apega-se a Ada, cuidando da menina desde que a mãe viajara. Curiosamente Carmen Maura interpreta um transexual, e a mãe de Ada é interpretada por Bibi Andersen, um transexual com presença constante nos filmes de Pedro Almodóvar. A pequena Ada nutre uma paixão platônica por Pablo. Bons momentos do filme são vividos por Tina e Ada, como o da performance no palco, em um momento sublime, sendo feita sob a música “Ne me Quitte Pas”, de Jacques Brel, cantada pela voz aveludada da cantora Maysa. Nos créditos do filme, a brasileira aparece ainda com o nome de Maysa Matarazzo.
Pablo, Tina e Antonio, três personagens que se irão entrelaçar em breve, em um encontro explosivo, sensual, inquietante e fatal, como jamais assistiria outra vez o cinema espanhol.

O Amor Obsessivo de Antonio

Pablo é um homem que passeia pelos sentimentos de forma leve, sem neles se perder. Caminha quase que alienado ao que se passa ao seu redor. Jamais soube ou suspeitou do envolvimento de Tina com o pai. Sua máquina de escrever é a sua verdade, dela extrai os textos que tece a sua obra.
Famoso como cineasta, Pablo freqüenta bares noturnos undergrounds, como qualquer homem homossexual de Madri o faz. Ciente do assédio que sofre, é promíscuo e caçador. Intimamente, Pablo é apaixonado pelo jovem e belo Juan (Miguel Molina). Mas Juan está no auge da sua juventude e descobertas, não amando o cineasta com o mesmo ardor. Desvinculando-se de Pablo, o jovem parte para o interior, deixando-o sob as garras da solidão de Madri.
Pablo pensa em Juan, erra pela solidão dos bares da cidade. Será na boca da noite que encontrará Antonio, um jovem envolvente e rebelde. Nutrindo uma atração por Pablo, o rapaz cerca-o decidido. Logo são envolvidos pela atração e sedução mútuas. Mesmo apaixonado por Juan, Pablo aceita o assédio de Antonio. Será ele quem iniciará o jovem na vida sexual entre dois homens. Pedro Almodóvar descreve o encontro em uma cena crua, onde Antonio deixa-se possuir por Pablo sob a dor da penetração. A cena é transgressora, surpreendeu e escandalizou a platéia da década de 1980. Mais tarde, foi motivo de desentendimento entre Antonio Banderas e Almodóvar; por causa dela, o ator tentou impedir que o filme fosse exibido nos Estados Unidos, onde construíra uma imagem de macho latino nas películas de Hollywood. O diretor sentiu-se ultrajado com a tentativa de veto.
Iniciado na vida sexual, apaixonado, extasiado, Antonio era ainda inocente nos amores delicados movidos pela noite. Se para Pablo fora uma agradável noite de sexo, para Antonio fora a entrega, a paixão, o amor incondicional. Mesmo diante da recusa de Pablo, Antonio faz-se presente na sua vida. Faz do amante a sua existência. Torna-se um homem terno, disposto a fazer todas as vontades do amado, cobrindo-o de mimos. Antonio passa a nutrir uma paixão violenta e obsessiva por Pablo, mostrando-se ciumento e impulsivo.
Mas a verdade de Pablo é somente uma, Antonio é uma aventura, nada mais. Juan era o escolhido por ele para caminhar a sua vida. Quando Antonio descobre que o coração do amado está ocupado, preenchido pela inconstância de Juan, ele é acometido pela sombra negra do ciúme.
Antonio parte de Madri, rumando ao encontro de Juan. No interior, ele seduz aquele que lhe parecia o maior rival. Antonio quer saber tudo sobre os sentimentos de Pablo, inclusive como ele se sentia ao possuir Juan. Antonio é o próprio Pablo, vestindo inclusive uma camisa igual a do amado. Movido pelo ciúme, Antonio atrai Juan para uma cilada fatal. Num ato de fúria, empurra o rival no precipício, lançando-o em um vôo mortal. Antes de cair, Juan agarra-se a Antonio, arrancando-lhe o bolso da camisa. Aquela seria a pista que levaria a polícia a chegar a Pablo, que se tornaria o principal suspeito.

A Paixão Vivida ao Extremo

Pablo tinha ido ao encontro de Juan, quando soube da sua morte. Até então, ele não levara Antonio a sério. Começa a suspeitar que o jovem amante era capaz de tudo por seu amor, inclusive matar. Transtornado, ele sofre um acidente quando dirigia o automóvel.
Pablo permanece algum tempo no hospital. Enquanto convalesce, é visitado por Tina. A irmã revela que está apaixonada, que encontrara o homem da sua vida. Pablo não suspeita que o homem misterioso é Antonio. Excluído da vida do amante, o jovem decide fechar o círculo, seduzindo Tina. Em um momento exuberante, Carmen Maura conduz uma apaixonada Tina. Sua interpretação foge da caricatura e do estereótipo que se desenvolve em torno de personagens transexuais. A atriz é perfeita, vivendo um dos maiores desafios da sua carreira. Uma cena antológica do filme é quando Tina caminha com Ada pelas ruas de Madrid, numa noite quente de verão. Ao passar por um jardineiro que molha a rua, vira-se para ele e pede: “Rega-me! Rega-me!
Quando Pablo deixa o hospital, a verdade vem à tona. Era Antonio o amor de Tina. Desesperado, ele entra em pânico, pois só consegue ver no rapaz o assassino, longe do amante que fora. Antonio vê-se cada vez mais sem saída. Em breve seria perseguido e preso pela morte de Juan. Num gesto desesperado, ele usa Tina como refém, forçando um encontro com Pablo.
O filme atinge o seu clímax quando Antonio, armado e decidido, consegue ficar sozinho com Pablo. Do lado de fora do prédio, a polícia e a imprensa fecha o cerco. Acossado, Antonio põe a arma atrás da calça jeans, abraça-se a Pablo e começa a dançar com ele. Revela-se mortalmente apaixonado. Tudo fizera para ter aquele momento de amor com Pablo, e mais o faria, se preciso fosse. Não importava o mundo lá fora. Naquele momento Antonio entregava-se ao seu verdadeiro universo. Quebrara todas as regras, infringira todas as leis, para viver apenas a lei maior do desejo.
Pablo comove-se com a paixão de Antonio. Tardiamente descobre a força do amor daquele jovem impetuoso. Juntos descortinam as ciladas dos sentimentos. Entregam-se como dois amantes ternos e apaixonados. Nos braços de Pablo, Antonio conseguira o seu momento de felicidade e plenitude. Já não precisava de mais nada. Deixa o amante na cama e volta para a sala. Pablo desperta do torpor pelo barulho do disparo de um tiro. Corre até a sala e encontra Antonio no chão, coberto de sangue, morto. Ele desespera-se. Perdera Juan, perdera Antonio, ambos tragados pela lei do desejo. Pablo chora a morte do mais estranho e intenso amante que já tivera. Num gesto de fúria, pega a máquina de escrever e a atira pela janela. Diante daquele ato, a polícia decide invadir o apartamento. Apoteoticamente, Pedro Almodóvar encerrava o filme e a primeira fase do seu cinema.

Ficha Técnica:

A Lei do Desejo

Direção: Pedro Almodóvar
Ano: 1986
País: Espanha
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Duração: 102 minutos / cor
Título Original: La Ley Del Deseo
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Miguel Ángel Perez Campos e Agustín Almodóvar
Música: Bernardo Bonezzi, Pedro Almodóvar, Fred Bongusto, Fany McNamara e Maysa Matarazzo (Ne me Quitte Pas)
Direção de Fotografia: Angel Luís Fernández
Direção de Arte: Javier Fernández
Decoração de Set: Ramón Moya
Figurino: José Maria de Cossio
Maquiagem: Jorge Hernández, Juan Pedro Hernández e Teresa Matías
Edição: José Salcedo
Efeitos Especiais: Reyes Abades
Som: Jim Willis
Estúdio: El Deseo S.A.
Distribuição: Paramount Home Entertainement
Elenco: Eusebio Poncela, Carmen Maura, Antonio Banderas, Miguel Molina, Fernando Guillén, Manuela Velasco, Nacho Martinez, Bibi Andersen, Helga Liné, Germán Cobos, Fernando Guillén Cuervo, Marta Fernández Muro, Lupe Barrado, Alfonso Vallejo, Muruchi Leon, José Manuel Bello, Augustin Almodóvar, Rossy de Palma, José Ramón Pardo, Juan A. Granja, Angie Gray, Hector Saurint, José Ramón Fernández, Pepe Patatín, Victoria Abril, Pedro Almodóvar
Sinopse: Pablo (Eusebio Poncela), diretor de cinema homossexual, é apaixonado por Juan (Miguel Molina), que não o ama. Na noite madrilena conhece Antonio (Antonio Banderas), que fará de tudo para ter o seu amor, inclusive matar os que se lhe fizerem frente. Tina (Carmen Maura), é irmã de Pablo; nascera homem, mas seduzida pelo pai, fez uma operação para mudar de sexo. Os dois irmãos envolvem-se em um triângulo trágico, onde a lei do desejo conduz os sentimentos em uma história original, intensa e instigante.

Pedro Almodóvar

Considerado um dos maiores cineastas contemporâneos, Pedro Almodóvar Caballero nasceu em 24 de setembro de 1951, em Calzada de Calatrava, na Espanha. Filho de família humilde, rumou para Madri logo cedo, exercendo várias profissões, entre elas a de funcionário da companhia telefônica da Espanha.
Em Madri, Pedro Almodóvar circulava pelos ambientes undergrounds da cidade, onde colheria material suficiente para desenvolver e explorar futuramente em seus filmes. Homossexual assumido, enveredou pelos meandros da vida artística, atuando como ator e como cantor de uma banda de rock, na qual se apresentava travestido.
Mas foi como diretor de cinema que Almodóvar se iria tornar um nome consagrado em todo o mundo. Seus filmes, inicialmente, traziam uma linguagem crua, um humor cáustico e corrosivo, repletos de personagens transgressoras. Na primeira fase da sua carreira, iniciada com “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón”, revela um universo que desconstroi o caráter das personagens, em situações exóticas e surpreendentes. A atriz Carmen Maura é a grande musa desta fase, que revelaria também, o ator Antonio Banderas.
Em 1987, os filmes de Pedro Almodóvar ultrapassaram as fronteiras da Espanha, chegando a Portugal, onde ganhou com “Matador” o prêmio maior do festival Fantasporto. A partir de então sua obra passou a ser vista internacionalmente. O grande sucesso internacional viria em 1988, com “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”, indicado para o Oscar, inaugurando uma nova fase da sua filmografia.
Pedro Almodóvar é um diretor polêmico, amado e cultuado em todo o mundo. O seu filme “Tudo Sobre a Minha Mãe” (1999), finalmente arrebataria o Oscar. Grandes atores e atrizes sonham em ser dirigidos por ele. Mas o diretor costuma eleger os seus favoritos, tendo três musas distintas em fases diferentes: a já citada Carmen Maura, Victoria Abril e Penélope Cruz. Sua obra é sempre uma agradável surpresa. Suas personagens trazem uma bomba pronta a ser detonada no centro dos costumes.

Filmografia de Pedro Almodóvar:

Longa Metragem

1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1988 – Mujeres al Borde de Un Ataque de Nervios (Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos)
1990 – Átame! (Ata-me!)
1991 – Tacones Lejanos (Saltos Altos)
1993 – Kika (Kika)
1995 – La Flor de Mi Secreto (A Flor do Meu Segredo)
1997 – Carne Trémula (Carne Trêmula)
1999 – Todo Sobre Mi Madre (Tudo Sobre a Minha Mãe)
2002 – Hable Con Ella (Fale com Ela)
2004 – La Mala Educación (Má Educação)
2006 – Volver (Volver)
2009 – Los Abrazos Rotos

Curta Metragem

1974 – Film Político
1974 – Dos Putas, O Historia de Amor Que Termina en Boda
1975 – La Caída de Sódoma
1975 – Homenaje
1975 – El Sueño, o la Estrella
1975 – Blancor
1976 – Tráiler de “Who’s Afraid of Virginia Woolf?”
1976 – Sea Caritativo
1976 – Muerte en la Carretera
1977 – Sexo Va, Sexo Viene
1978 – Folle… Folle… Fólleme Tim!

Média Metragem

1978 – Salomé
1985 – Trailer Para Amantes de Lo Prohibido (TV)

Participações Como Ator

1978 – Tiempos de Constitución
1980 – Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas Del Montón (Pepi, Luci, Bom e Outras Tipas do Grupo)
1982 – Laberinto de Pasiones (Labirinto de Paixão)
1983 – Entre Tinieblas (Negros Hábitos)
1984 – Qué He Hecho Yo Para Merecer Esto? (Que Fiz Eu Para Merecer Isto?)
1986 – Matador (Matador)
1987 – La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo)
1991 – Truth or Dare / In Bed With Madonna (Na Cama Com Madonna)


PSICOSE

Agosto 25, 2009
O cinema contemporâneo gerou vários clássicos ao longo dos anos, sendo que a maioria deles girava em torno de uma bela história de amor ou da vida de heróis da história, reais ou imaginários. “Psicose” (Psycho), de Alfred Hitchcock, foge aos padrões do cinema épico, das grandes histórias de amor, sendo um filme de suspense, denso, intrigante, que gera um mal estar apreensivo em quem o assiste. Mesmo com os ingredientes que subvertem os padrões dos grandes filmes, “Psicose” conquistou as platéias, arrebatou fãs no mundo inteiro, sendo unanimidade de crítica e de público, tornando-se um dos mais cultuados filmes de todos os tempos.
Os elementos de suspense tecem uma trama psicológica eletrizante, que prende e surpreende a platéia. Nunca a parte negra da alma humana foi tão claramente explorada, onde a imagem traz todos os elementos que constroem as mentes das personagens, repletas de nuances da moral corrompida e sem volta.
O filme foi baseado numa novela de Robert Bloch, um autor de livros populares e sem valor literário. Alfred Hitchcock comprou anonimamente os direitos autorais do livro, pagando entre nove e onze mil dólares, conforme a versão. Quando o mestre do suspense apresentou o projeto de adaptação da história de Robert Bloch, encontrou a resistência dos produtores da Paramount, que se recusaram a investir em uma literatura considerada vulgar. Diante da recusa, Hitchcock decidiu ele próprio produzir o filme. Depois de adquirir os direitos, ele comprou todas as cópias disponíveis no mercado, evitando que fosse lido pelas pessoas, o que contribuiu para que o suspense e o desfecho do filme não fossem revelados.
Psicose” foi contestado por grandes produtores não só por provir de um folhetim, mas inclusive pelo título, que era considerado bizarro e com poucos atrativos para atrair grandes públicos. Hitchcock seguiu a sua intuição e genialidade, produzindo uma obra-prima do cinema mundial. Cenas antológicas, como o assassínio da personagem de Janet Leigh debaixo do chuveiro, ainda hoje mexem com a sensibilidade de quem o assiste.
Psicose” é composto essencialmente por sua fabulosa galeria de imagens, que imprimem as verdades e os perigos em volta das personagens. A sensação é de que o perigo iminente vai saltar às costas das personagens a qualquer momento, trazendo um juízo final para os seus pecados. Ninguém fica imune à história que se apresenta entre as sombras da mente.
Estreado nos cinemas norte-americanos em 1960, “Psicose” continua a ser um dos filmes mais assistidos no mundo. Várias seqüências foram feitas a partir dos anos oitenta. No fim da década de noventa, uma nova versão chegou às telas. Mas nenhuma conseguiu arranhar ou superar o original. “Psicose” é daquelas obras-primas intocáveis, definitivas, uma jóia que dá brilho ao verdadeiro cinema.

O Desfalque de Marion Crane

A novela de Robert Bloch revelava-se fraca, trazia uma boa história, mas mal contada. Coube a Alfred Hitchcock, através da imagem, dar a dimensão exata de uma história surpreendente. A verdadeira alma de cada personagem foi revelada diante da câmera do mestre do suspense.
Ao assumir a produção do filme, Hitchcock contou com um orçamento de oitocentos mil dólares. Diante das limitações orçamentárias, o diretor britânico não contratou grandes estrelas. Utilizou uma equipe de atores com a qual já trabalhava em sua série de televisão, apresentada pelos canais norte-americanos.
Várias atrizes foram cotadas para fazer o papel de Marion Crane, entre elas Lana Turner, Piper Laurie, Eva Marie Saint, Hope Lange e Martha Hyer. Todas elas louras e magras, uma imagem constante nas heroínas do velho mestre. Mas a escolha final recaiu sobre a bela Janet Leigh, que encontraria em Marion Crane, a sua personagem definitiva no cinema.
Marion Crane (Janet Leigh) vive uma vida normal, é secretária de uma imobiliária em Phoenix, no Arizona. Mulher bonita, profissional exemplar, ela vive um romance com o jovem Sam Loomis (John Gavin). Com o amante ela vive momentos ternos e apaixonados. Uma das cenas mais bonitas do filme é o momento de amor entre o jovem e belo casal. Apesar de não revelar a nudez dos atores, o momento é de um erotismo implícito, considerado ousado para 1960. Hitchcock tinha dito a Janet Leigh que tocasse no rosto de John Gavin como se saísse de um ato sexual. Tranqüilizou a atriz, dizendo que já tinha preparado o ator para a cena. Quando a bela tocou o seu companheiro de cena, uma ereção involuntária do ator constrangeu e divertiu a equipe. Mais tarde, Janet Leigh soube que John Gavin não tinha sido avisado do gesto mais íntimo da cena.
Mas nem tudo era claro na mente da bela Marion Crane. Momentos sombrios de ingenuidade ambiciosa contrastavam com uma inteligência privilegiada. Muito em breve, o lado obscuro da jovem irá urdir um grande golpe. A oportunidade de liberar a sua consciência da moral estabelecida, acontece quando, certo dia, testemunha um grande negócio do patrão, que recebe quarenta mil dólares em dinheiro. Naquela tarde, uma sexta-feira escaldante, Marion não resiste, decide desfalcar o dinheiro do patrão, sonhando poder desfrutá-lo com o amante, Sam Loomis.
A mente de Marion Crane age rapidamente depois de roubar o dinheiro. Pede licença ao patrão para sair mais cedo. Ela deixa a imobiliária levando o pacote com os quarenta mil dólares. Sabia que o desfalque só iria ser descoberto na segunda-feira. Teria o fim de semana para fugir. Decide partir para a cidade de Fairvale, na Califórnia, onde se encontra Sam. A bela mulher segue no seu carro, ao encontro do amado.

Morte no Chuveiro

A estrada que Marion Crane segue parece infindável, perdida nos desatinos do destino. Após dirigir o dia inteiro, a jovem sente-se exausta. É movida pelo objetivo de não ser apanhada, pela vantagem de dois dias do seu crime e da descoberta dele. Seguiria ainda alguns quilômetros, quando ao cansaço junta-se uma chuva torrencial. Sem visibilidade na estrada, ela procura um lugar para parar. É subitamente atraída por um letreiro que dizia “Motel Bates”. Parecia o local ideal para que pudesse descansar e esperar a chuva passar. A bela foragida dirige-se para o motel.
As imagens do Motel Bates trazem um ambiente sombrio. O estabelecimento ficara isolado após um desvio feito na Auto Estrada, quase desaparecendo. Tudo parece decadente, revelando uma atmosfera de mistério e perigo velado. Marion é recebida por Norman Bates (Anthony Perkins), um jovem simpático, mas de um olhar sombrio e estranho. Ela registra-se com o nome falso de Marie Samuels. De repente o encontro com Bates parece um ato de redenção diante da moral do mundo. Gentilmente, o rapaz conversa com a hóspede. Fala sucintamente da vida, das suas armadilhas. Mostra-se um jovem tímido, dominado pela mãe, uma mulher velha e doente, de quem cuida.
Naquele momento já o remorso acomete a alma da fugitiva. De repente já não fazia sentido os quarenta mil dólares, a fuga, o desfalque. A conversa com Norman Bates é ambígua na determinação do destino de Marion Crane, através dela, decide voltar no dia seguinte e devolver o dinheiro. O que ela não sabe é que mergulhara numa estrada sem volta, e a vida já não lhe dará tempo para consertar os erros. Da janela do seu quarto, ela houve a voz de uma mulher velha, que parecia discutir severamente com o filho.
Marion hospeda-se no apartamento número 1. As imagens dão uma sensação claustrofóbica de que se está a ser observado. Esta sensação é confirmada quando Norman Bates remove um quadro da parede, através dele observa a bela mulher a despir-se, dirigindo-se para o banheiro.
O banho de chuveiro de Marion Crane entraria para a história do cinema, produzindo uma das mais antológicas cenas da sétima arte. De costas para a porta, ela deixa a água escorrer sobre o corpo, não percebendo quando alguém entra. De repente volta-se para a cortina de plástico do banheiro, que se abre bruscamente por uma sombra gigante, trazendo uma faca na mão, erguida no ar. Marion Crane lança um grito de pânico. Ao som de uma trilha sonora que se tornaria clássica, feita por Bernard Herrmann, assistimos a jovem a ser brutalmente esfaqueada. Aos poucos a vida abandona a mulher, que se deixa ir caindo na banheira, até que tomba completamente, sem vida.
A cena do chuveiro é a mais complexa de “Psicose”, tão importante que foi o motivo do filme ter sido rodado em preto e branco, pois Hitchcock temia que a cena ficasse muito chocante se feita colorida, perdendo-se na quantidade exacerbada do sangue que se jorrou.
Janet Leigh não estava nua na cena, trazia uma roupa colante à pele. Para dar maior veracidade, foi contratada uma dublê, que fez as cenas de nudez necessárias para que ficassem mais realistas.
Para que os jatos de água fossem captados pela câmera com maior intensidade, foi utilizado um chuveiro de dois metros de diâmetro, filmado de baixo para cima. Como era a preto e branco, foi utilizada calda de chocolate para simular o sangue, e, o barulho das facadas vinha de um melão sendo esfaqueado.
Mas o clima que transformaria esta cena em uma das mais famosas do cinema, só foi adquirido graças à música de Bernard Herrmann, elemento essencial de tensão e suspense durante o assassínio de Marion Crane. A cena da sua morte no chuveiro utilizou setenta diferentes posições de câmeras, levando sete dias para ser filmada. Desde então, um simples banho de chuveiro jamais foi o mesmo no imaginário das pessoas.
O corpo de Marion Crane é enrolado pelo assassino na cortina de plástico do banheiro, sendo carregado para o porta-malas do carro. Assim, a vítima é jogada com o seu carro dentro de um pântano. Resta a quem assiste ao filme uma pergunta, quem matou a infeliz mulher? Norman Bates? Ou a sua possessiva mãe?

Outra Morte no Motel Bates

Após a morte de Marion Crane, entra em cena uma outra protagonista, Lila Crane (Vera Miles), irmã da jovem assassinada. Será ela quem procurará pela morta. Lila suspeita que Sam Loomis é o responsável pelo desaparecimento misterioso da irmã. Uma semana depois, ela procura o rapaz em Fairvale. Juntos, eles irão desvendar a morte de Marion.
Outra personagem chave é introduzida na trama, Milton Arbogast (Martin Balsam), contratado pelo patrão de Marion, que ao dar pelo golpe, tenta, através dos seus serviços de detetive, recuperar o dinheiro roubado. Ao perceber que as pessoas mais próximas à fugitiva estão preocupadas com o seu desaparecimento, Arbogast passa a investigar os motéis que tinham no caminho que ela teria usado. Após uma investigação minuciosa, ele chega ao Motel Bates.
Norman Bates nega que tenha recebido hóspedes na ocasião do desaparecimento de Marion . Arbogast descobre que ele mentiu, ao verificar o registro de hóspedes. Deduz que ela se registrou com o nome falso de Marie Samuels. Até aquele momento, Sam Loomis era o principal suspeito do desaparecimento de Marion. De uma cabine telefônica, o detetive avisa Lila que Sam é inocente.
Obstinado a descobrir a verdade, Arbogast volta ao Motel Bates. Cenas eletrizantes mostram os seus passos a subir as escadas que dão para o segundo andar da misteriosa e sombria casa onde Norman Bates vive com a mãe. Mas o detetive é descoberto, sendo atacado e morto pela mesma pessoa misteriosa que assassinara alguns dias antes Marion Crane.

A Mãe de Norman Bates

O silêncio repentino de Milton Arbogast incomoda Lila Crane e Sam Loomis. Decidido a desvendar o desaparecimento da amada, Sam vai até o Motel Bates, à procura de uma pista, inclusive de Arbogast. Volta frustrado, pois não encontrou ninguém, a não ser uma senhora idosa e doente, à janela do segundo andar da casa.
Cansados de percorrerem pistas sem saídas, Sam e Lila decidem procurar o xerife do lugar, Al Chambers (John Mclntire). O xerife, ao ouvir os forasteiros, telefona para Norman Bates, querendo informações sobre o detetive Arbogast. Norman afirma que o detetive esteve no motel, a fazer algumas perguntas, mas se retirou em seguida, não voltando mais.
O mistério vai seguindo um novelo psicologicamente labiríntico. Norman Bates diz à mãe que ela terá que mudar para o porão. Nunca é mostrado o rosto da senhora Bates. Algumas vezes se lhe ouve a voz. Nesta encruzilhada do filme, o rapaz tímido e submisso à mãe é praticamente inocentado pelo espectador, e a mãe declarada a culpada. Quase que se deduz que o pobre rapaz protege uma mãe assassina.
Chambers diz a Lila e a Sam que não encontrou ninguém no motel, além de Norman Bates. Insatisfeitos com as investigações, os jovens decidem voltar ao motel, pois têm a certeza de que lá irão encontrar as pistas que Arbogast havia descoberto e, misteriosamente desaparecido logo a seguir.
Sam e Lilá alugam um quarto no Motel Bates, registram-se como marido e mulher. Enquanto Norman Bates é distraído por Sam, Lila investiga o motel. No quarto número 1 descobre vestígios da presença da irmã. Lila segue para os compartimentos da casa, já com a certeza de que Marion ali esteve.
Ao perceber o ardil do casal, Norman Bates reage com violência, agredindo Sam, deixando-o no chão. Desesperado, ele corre na direção da casa misteriosa, procurando por Lila Crane nas dependências onde estava. Ao pressentir a aproximação do rapaz, a jovem esconde-se, sem saber que está preste a desvendar o maior segredo do filme. Lila parece ouvir a voz de uma senhora. Certa de que encontrará a senhora Bates, ela vai até o porão. Ao entrar, percebe uma senhora sentada em uma poltrona, virada de costas. Quando se aproxima, a cadeira gira e revela não uma velha senhora, mas um corpo mumificado. Era a mãe de Norman Bates.
Lila solta um grito de terror ao ver tão repugnante cadáver. A luz pendurada no teto do porão balança. Surge um vulto, com o braço levantado, trazendo uma faca, pronta para ser cravada no corpo da jovem intrusa. Está vestido de mulher, mas não era uma mulher. Era Norman Bates, encarnando a personalidade da mãe. Já pronto para assassinar Lila, Bates é impedido por Sam, que lhe segura por trás. Enlouquecido, Norman Bates entra em convulsão, caindo no chão. O seu segredo está desvendado, e com ele, todo o mistério do filme.

A Imagem e a Mente

A tragédia e loucura de Norman Bates é explicada por um psiquiatra na corte do condado. A psicanálise fascinava Alfred Hitchcock, aqui o recurso psicológico dá credibilidade à história, tornando-a complexa, distante da linearidade do livro de Robert Bloch.
Na voz do psiquiatra é feita a revelação da vida de Norman Bates. O jovem estranho, angustiado e solitário, tinha tido um amor incestuoso e possessivo pela mãe. Quando ela arrumou um amante, Norman não suportou, cego pelo ciúme e pela cólera ao ver os dois juntos na cama, ele os envenenou. Sua mente doentia fechou-se em um mundo estranho, onde ele fantasiava ser a própria mãe, vivendo e vestindo-se como ela. No inconsciente da sua mente, ele matava todas as mulheres por quem tinha interesse, como se fosse a mãe a matá-las por ciúmes. Ao voltar do momento do crime, era tomado pelo remorso e pela culpa diante do horror cometido pela “mãe”. Após cada assassínio, ele conversava com a mãe, travando fervorosas discussões. Assim, Norman Bates não matou Marion Crane e Milton Arbogast. Foi a mãe que ele criara na mente quem o fizera.
A última cena do filme mostra o carro de Marion Crane sendo retirado de dentro do pântano. Na mala está o corpo da jovem e quase quarenta milhões de dólares.
Encerra-se um dos mais complexos e brilhantes filmes de todos os tempos. Norman Bates perseguiu para sempre a carreira de Anthony Perkins, tendo ele voltado nos anos oitenta, a interpretar a personagem em filmes de seqüência, pouco expressivos e sem valor estético e artístico como o original. Anthony Perkins jamais despiu o espectro de Norman Bates, sendo a ele associado durante toda a sua carreira.
Janet Leigh não aparece em todo o filme, mas a cena da morte de Marion Crane foi a maior da sua carreira. Foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e ao Globo de Ouro, na mesma categoria.
Alfred Hitchcock, que aparece no filme usando um chapéu de cowboy, faturou prestígio e cinqüenta milhões de dólares nas bilheterias. “Psicose” foi eleito pelo American Film Institute (AFI), como o 18º melhor filme de todos os tempos. É tido como o maior e mais estético do gênero de suspense. É cultuado em todo o mundo por milhares de pessoas. Uma obra prima do cinema!

Ficha Técnica:

Psicose

Direção: Alfred Hitchcock
Ano: 1960
País: Estados Unidos
Gênero: Suspense
Duração: 107 minutos / preto e branco
Título Original: Psycho
Roteiro: Joseph Stefano, baseado no livro de Robert Bloch
Produção: Alfred Hitchcock
Música: Bernard Herrmann
Direção de Fotografia: John L. Russell
Direção de Arte: Robert Clatworthy e Joseph Hurley
Figurino: Rita Riggs e Helen Colvig
Edição: George Tomasini
Efeitos Especiais: Clarence Champagne
Estúdio: Shamley Productions
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, John Gavin, Vera Miles, Martin Balsam, John Mclntire, Simon Oakland, Vaughn Taylor, Frank Albertson, Lurene Tuttle, Patrícia Hitchcock, John Anderson, Alfred Hitchcock
Sinopse: Secretária (Janet Leigh) rouba 40 mil dólares para se casar. Durante a fuga, pára em um velho motel, onde é amavelmente atendida pelo dono (Anthony Perkins), mas escuta a voz da mãe do rapaz, dizendo, que não deseja a presença de uma estranha. Mas o que ouve é na verdade algo tão bizarro, que ela não poderia imaginar que não viveria para ver o dia seguinte.

Alfred Hitchcock

Considerado um dos maiores e dos mais geniais diretores de cinema de todos os tempos, Alfred Joseph Hitchcock nasceu em Londres, na Inglaterra, em 13 de agosto de 1899.
Nascido em uma família humilde, o pai, William Hitchcock, vendia frutas e verduras. Ele e os dois irmãos receberam uma rígida educação católica. Os dogmas do catolicismo foram várias vezes questionados psicologicamente em alguns dos seus filmes. Devido à morte do pai, quando tinha 14 anos, foi obrigado a deixar o colégio jesuíta que freqüentava, indo trabalhar como fabricante de cabos na companhia Henley, onde desenvolveu trabalhos de publicidade e design gráfico.
A carreira de Alfred Hitchcock no cinema começou em 1920, quando começou a trabalhar na Famous Players-Lasky, da Paramount Pictures, onde fazia os quadros que apareciam os diálogos do cinema mudo. Ali aprendeu a criar roteiros e a editar filmes. Já em 1922, realizava o seu primeiro filme, “Number 13”, que não chegou a ser concluído. No ano seguinte, foi para Berlim, onde trabalhou na UFA (Universum Film AG), até 1925. Foi neste estúdio que ele realizou o primeiro filme completo, “The Pleasure Garden”, em 1925.
O primeiro grande sucesso viria com “The Lodger: A Story of the London Fog” (O Pensionista), filme de 1927, que se baseava nos crimes de Jack, o Estripador. Era o começo da sua imersão no mundo do suspense. Foi neste filme que fez a primeira aparição em cena, fato que se tornaria uma característica da sua obra.
Viria das mãos de Hitchcock o primeiro filme sonoro britânico, “Blackmail”, em 1929. No ano anterior, tinha nascido a sua primeira filha, Patrícia, fruto do seu casamento com Alma Reville, sua assistente de direção.
Alfred Hitchcock foi ganhando prestígio no cinema britânico, realizando vários filmes de sucesso. Sua obra chamou a atenção de David O. Selznick, que o chamou para trabalhar em Hollywood. Começava a fase norte-americana da carreira de um cineasta grandioso, que seria amado e cultuado no mundo inteiro. O seu filme de estréia nos Estados Unidos foi “Rebecca”, em 1940, já conseguindo nomeação para o Oscar de melhor filme. Assim, vieram sucessivos grandes filmes, que imortalizariam o cineasta. Em 1955, naturalizou-se norte-americano.
Mestre do suspense, o universo cinematográfico de Alfred Hitchcock suscita análises infindáveis e entretenimento de qualidade, fazendo parte do cinema verdadeiro, que mesmo popular, jamais perdeu a veia da arte. O mestre receberia, em 1980, das mãos da rainha Elizabeth II, a KBE da Ordem do Império Britânico, tornando-se Sir Alfred Hitchcock. Quatro meses após ter recebido a condecoração, em 29 de abril, morreria de insuficiência renal, em Los Angeles.

Filmografia de Alfred Hitchcock:

Longa Metragem

1922 – Number 13
1923 – Always Tell Your Wife
1925 – The Pleasure Garden (O Jardim dos Prazeres)
1926 – The Mountain Eagle
1927 – The Lodger: A Story of the London Fog (O Pensionista)
1927 – Downhill
1927 – The Ring (O Ringue)
1928 – Easy Virtue
1928 – The Farmer’s Wife (A Mulher do Fazendeiro)
1928 – Champagne (Champagne)
1929 – The Manxman (O Ilhéu)
1929 – Blackmail (Chantagem e Confissão)
1930 – Elstree Calling
1930 – An Elastic Affair
1930 – Juno and the Paycock
1930 – Murder! (Assassinato)
1931 – The Skin Game
1931 – Mary
1932 – Rich an Strange (Ricos e Estranhos)
1932 – Number Seventeen (O Mistério no Nº 17)
1933 – Waltzes From Vienna (Valsas de Viena)
1934 – The Man Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais)
1935 – The 39 Steps (Os 39 Degraus)
1936 – Secret Agent (Agente Secreto)
1936 – Sabotage (O Marido Era o Culpado)
1937 – Young and Innocent (Jovem e Inocente)
1938 – The Lady Vanishes (A Dama Oculta)
1939 – Jamaica Inn (A Estalagem Maldita)
1940 – Rebecca (Rebecca, a Mulher Inesquecível)
1940 – Foreign Correspondent (Correspondente Estrangeiro)
1941 – Mr, & Mrs. Smith (Sr. e Sra. Smith)
1941 – Suspcion (Suspeita)
1942 – Saboteur (Sabotagem)
1943 – Shadow of a Doubt (A Sombra de uma Dúvida)
1944 – Lifeboat (Um Barco e Nove Destinos)
1945 – Spellbound (Spellbound – Quando Fala o Coração)
1946 – Notorius (Codinome Notorius)
1947 – The Paradine Case (Agonia do Amor)
1948 – Rope (Festim Diabólico)
1949 – Under Capricorn (Sob o Signo de Capricórnio)
1950 – Stage Fright (Pavor nos Bastidores)
1951 – Strangers on a Train (Pacto Sinistro)
1953 – I Confess (A Tortura do Silêncio)
1954 – Dial M for Muder (Disque M Para Matar)
1954 – Rear Window (Janela Indiscreta)
1955 – To Catch a Thief (Ladrão de Casaca)
1955 – The Trouble With Harry (O Terceiro Tiro)
1956 – The Nab Who Knew Too Much (O Homem Que Sabia Demais)
1956 – The Wrong Man (O Homem Errado)
1958 – Vertigo (Um Corpo Que Cai)
1959 – North by Northwest (Intriga Internacional)
1960 – Psycho (Psicose)
1963 – The Birds (Os Pássaros)
1964 – Marnie (Marnie, Confissões de Uma Ladra)
1966 – Tom Curtain (Cortina Rasgada)
1969 – Topaz (Topázio)
1972 – Frenzy (Frenesi)
1976 – Family Plot (Trama Macabra)

Curta Metragem

1929 – Sound Test for Blackmail
1944 – Aventure Malgache
1944 – Bon Voyage
1944 – The Fighting Generation (não creditado)1945 – Watchtower Over Tomorrow (não creditados)


FONTANA DI TREVI – A MAIS GRANDIOSA DAS FONTES

Julho 30, 2009

Considerada a mais bela fonte do mundo, a Fontana di Trevi, literalmente traduzida como Fonte dos Trevos, é um dos mais sedutores monumentos de Roma. Sua beleza dimensional feita de água e pedra foi construída sobre o esplendor do barroco italiano. A beleza estética faz desta obra de arte um símbolo das esculturas que adquiriram uma mítica lendária, com linhas tênues entre o fulgor e o monumento, causando uma empatia romântica com todos os cidadãos do mundo, fazendo dele um triunfo do barroco.
A fonte, localizada na freguesia de Trevi, no Bairro do Quirinal, no centro histórico de Roma, desenha a fantasia das suas águas e estátuas aninhadas no centro de um palácio, possuindo vinte metros de largura e cerca de vinte e seis metros de altura. Verdadeira maravilha do mundo, seu esplendor começa quando nos aproximamos ao redor, ouvimos o som crescente das águas, e de repente, estamos diante de uma visão edênica da criação humana, contemplando uma das mais deslumbrantes vistas do planeta. O espaço da fonte abre-se aos olhos do visitante, com a força da água a emanar das pedras, como se adquirisse vida e arrebatasse-nos para um cenário preso na beleza da arte do homem.
Diante da fonte, a primavera é eterna, Netuno rompe a paisagem e a pedra na qual foi esculpido, tornando viva a arquitetura. Vento, luz, sombras, pedra, água, juntam-se como se fosse formado um imenso mar, num cenário intenso e de uma dramaticidade singular.
A Fontana di Trevi, com a sua paisagem espetacular e grandiosidade barroca, dá um toque romântico a Roma, às vezes perdido na concepção dos monumentos históricos intensos, como o Coliseu. É o ponto preferido dos casais apaixonados ou que se apaixonam na Cidade Eterna. É o ponto final da cidade, que se transforma no retorno. Reza a lenda que estrangeiros, forasteiros, turistas, quando visitam Roma, devem jogar uma moeda na fonte para que possam retornar. O ritual é repetido por todos, que assim, garantem a esperança de um dia poder rever Roma, e, principalmente, poder rever a fonte mais bela e romântica do mundo.

Origens da Fonte

A história da Fontana di Trevi remonta à época da Roma antiga. Era uma fonte que estava situada no cruzamento de três ruas, onde se formava um trivium (trevo), o que levou o sítio a ser chamado de Trebium.
O local da fonte marcava o ponto terminal do aqueduto Acqua Vergine, um dos mais antigos abastecedores de água de Roma, que tinha sido encomendado pelo imperador Otávio Augusto a Marcus Agrippa, sendo as suas águas usadas para fornecer água para os banhos termais. As águas que circulam na fonte têm dois nomes, Águas Virgens e Trevi.
Reza a lenda que, no século 19 a.C., alguns soldados sedentos procuravam por água, encontraram pelo caminho uma jovem romana virgem, que se apiedando deles, conduziu-os a uma fonte límpida, de água pura, localizada a cerca de vinte e dois quilômetros da Roma antiga. Através da lenda, surgiu o nome de Águas Virgens. Trevi teria derivado do nome que originalmente era chamado o local, Trebium. No monumento atual da fonte, a cena da lenda da jovem virgem e dos soldados está representada em escultura.
Nos primórdios da história da fonte, as suas águas foram levadas através de um pequeno aqueduto romano, diretamente ao local de banho de Marcus Vipsanius Agrippa, um dos maiores estadistas e generais do Império Romano, a quem se deve a construção do Panteão de Roma e dos seus principais aquedutos. Na Roma antiga, graças aos aquedutos, belas fontes foram erguidas por toda a cidade, contribuindo para a arquitetura clássica e imponente da capital do maior império do mundo.

De Leon Battista Alberti a Bernini, a Composição das Bases da Fonte

A água de Trevi serviu Roma por mais de 400 anos, sendo interrompido o seu abastecimento na época da invasão dos godos, que destruíram os aquedutos da cidade. Após as Guerras Góticas, os habitantes de Roma abasteciam-se da água suja do Tibre, rio que recebia os esgotos humanos, e da água de poços poluídos espalhados pela cidade. Esta condição decorreu durante toda a Idade Média, causando muitos males de saúde a quem usava a água insalubre.
Quando a Renascença assolou os reinos italianos, o esplendor das fontes antigas voltou a fazer parte da arquitetura romana. Em 1453, quando a Idade Média era definitivamente encerrada, o papa Nicolau V determinou que se consertasse o antigo aqueduto de Acqua Vergine. O arquiteto Leon Battista Alberti foi o autor do projeto de reconstrução do aqueduto, dando ao seu final, um receptáculo simples para receber a água, que seria totalmente destruído quando da construção barroca da Fontana di Trevi.
O papa Urbano VIII, em 1629, chegou à conclusão que a simplicidade da velha fonte não condizia com arquitetura romana da sua época, pois não trazia qualquer grandiosidade. Urbano VIII encomendou um projeto a Bernini para a construção de uma nova fonte de Trevi. O célebre artista fez vários desenhos. Neles projetou a reposição da fonte para o outro lado da praça, para que ficasse defronte ao Palácio do Quirinal, o que faria com que o papa pudesse observá-la da sua janela. Com a morte de Urbano VIII, o projeto de Bernini foi abandonado, o que não impediu que a fonte a ser construída futuramente, viesse a trazer muitos detalhes da idéia original do artista.

A Concepção Final da Fontana di Trevi

Após ser reconstruído, o aqueduto Acqua Vergine continuou a funcionar, mas as obras de restauração da freguesia de Trevi, que dariam origem à fonte atual, levariam três séculos para que se concluísse.
Com a morte de Urbano VIII, somente no século XVIII, Clemente XII, então papa, decidiu restaurar Trevi. Para que se realizasse a construção de uma nova fonte, em 1730, Clemente XII organizou uma competição entre artistas e arquitetos. Nicola Salvi, arquiteto romano, foi derrotado na competição, mas foi quem, efetivamente, realizou o projeto da nova Fontana di Trevi, trabalhando nele por quase vinte anos.
Nicola Salvi começou a execução do projeto em 1732. Morreria em 1751, quando ainda trazia o trabalho pela metade, ocultando-o atrás de um gigantesco biombo. Para concluir a obra, foi chamado um jovem artista, Giuseppe Pannini, que fez mudanças significativas no projeto de Nicola Salvi. Do original ele conservou os nichos de cima, que à esquerda traz Marcus Agrippa a dar ordens para que se construa o aqueduto, e à direita, a virgem, chamada de Trívia, a mostrar aos soldados a água de uma fonte subterrânea; abaixo destes relevos, substituiu as estátuas de Agrippa à esquerda, por uma figura feminina, a Abundância, que traz uma cornucópia; e à direita, substituiu a estátua de Trívia pela figura feminina da Saúde ou Salubridade. Finalmente, no nicho central da fonte, foi introduzida a estátua de Netuno com o seu séquito. A obra foi concluída em 1762, logo após a morte do papa Clemente XII.
A atual Fontana di Trevi tem o seu projeto atribuído a Nicola Salvi, sob forte influência dos desenhos de Bernini, e da realização final de Giuseppe Pannini.
A resultado final traz uma obra monumental, com vinte e seis metros de altura, vinte metros de largura, que tem como fundo o palácio Poli, que se harmoniza perfeitamente com a composição da fonte. As estátuas contrastam com a dramaticidade do uso da luz e da sombra. No nicho central está a estátua de um imponente Netuno, escultura de Pietro Bracci, sobre uma carruagem em forma de concha, puxado por dois cavalos marinhos, sendo o da esquerda o cavalo agitado, o da direita o cavalo manso; os animais são conduzidos por dois tritões. Ladeando Netuno, estão mais acima, as alegorias femininas da Abundância, à esquerda, e da Salubridade, à direita, estátuas de Filippo Della Valle. Acima das estátuas alegóricas, os relevos de Agrippa a ordenar a construção dos aquedutos de Roma, à esquerda; e da virgem Trívia a mostrar a fonte de águas aos soldados sedentos, à direita; estes relevos faziam parte da concepção original dos desenhos de Bernini. O todo da obra joga com o espaço e a pedra, dando um aspecto de movimento às estátuas centrais, que ao som constantes das águas que caem, dão a sensação de um imenso mar a encher a piscina.

Lendas de Trevi

A beleza barroca e exuberante da fonte, originou várias lendas ao seu redor, dando assim, um conceito romântico à atmosfera que se desenha à obra. Lendas que envolvem desde a concepção, aos efeitos que o monumento deixa nas pessoas que o visitam.
Uma das lendas mais tradicionais é a escultura de um grande vaso esculpido sobre o muro que circunda a fonte, na esquina com a rua Stamperia. Reza à tradição, que Nicola Salvi, o arquiteto que projetou a fonte, teria posto a escultura propositalmente, devido às rixas com um barbeiro que tinha a sua loja nos arredores da obra, na atual rua Stamperia. Durante os anos que decorreram as obras, Nicola Salvi era sempre confrontado com o tal barbeiro, que tecia comentários negativos à fonte que se desenhava aos poucos, desestabilizando o arquiteto. Para que tão indesejável vizinho não mais o aborrecesse, Salvi pôs à frente da barbearia este vaso, de forma que não pudesse ver os trabalhos.
Lenda ou não, o imenso vaso continua lá. Devido à sua forma, que lembra o ás de copas das cartas de baralho, os romanos batizaram a escultura com o sugestivo nome de Asso di Coppe (Ás de Copas).
Outra lenda diz respeito aos eternos e apaixonados namorados. Do lado direito da fonte, perto da escultura do às de copas, está a conhecida Fontanina Degli Innamoratti (Pequena Fonte dos Apaixonados), que com os seus jorros mágicos, asseguram aos casais apaixonados que juntos beberem da sua água, a fidelidade eterna um com o outro.
Outra lenda romântica afirma que, quando o amado tiver que partir, para a guerra, para servir ao exército, ou por simples viagem de negócios, terá garantido o seu amor eterno, mesmo ausente e distante, se juntos beberem um copo de água da fonte, sendo que este deve ser quebrado logo a seguir. A água mágica da Fontana di Trevi fará com que o homem que partiu jamais se esqueça da amada.
Mas a lenda mais pertinente e tradicional, é aquela que diz, se um estrangeiro ou um forasteiro for a Roma, e apaixonar-se pela cidade ou pela a sua gente, deve antes de partir, ir à Fontana di Trevi, virar-se de costas para ela e jogar uma moeda em suas águas. A volta à Cidade Eterna estará garantida. A lenda é eterna.

Nas Águas da Fonte, a Promesa da Volta a Roma

Roma é tradicionalmente conhecida pela beleza das suas fontes. Três belas fontes barrocas ornamentam a Piazza Navona: a Fontana Dei Quattro Fiume (Fonte dos Quatro Rios), a Fontana Del Moro (Fonte do Mouro), e a Fontana Del Nettuno (Fonte de Netuno), só para citarmos algumas. Mas nenhuma delas tem a tradição mítica da Fontana di Trevi. Nenhuma possui o seu glamour esplendoroso, o seu romantismo oculto e latente.
Em 1960, a fonte foi imortalizada para o mundo pelo cineasta Federico Fellini, no filme “La Dolce Vita” (A Doce Vida). Numa das cenas mais míticas do cinema mundial, a bela Anita Ekberg salta para dentro da fonte, banhando-se de roupa nas suas águas mágicas, aos olhos de um atento e deslumbrado Marcello Mastroianni. Depois do banho sedutor e sensual da atriz, a Fontana di Trevi jamais passou despercebida aos olhares do mundo.
Em 1998 a fonte foi preparada para o ano do jubileu de Roma, que aconteceria em 2000. Foi restaurada, tendo as esculturas lavadas e polidas, recebendo bombas que provinham a circulação da água e a sua oxigenação. A fonte estava pronta para entrar no novo século, no novo milênio, com o mesmo fascínio de sempre.
Quando às segundas-feiras, uma equipe de funcionários da câmara de Roma abre os ralos da fonte, esvaziando as suas águas, limpado a sujeira acumulada, recolhendo em sacos toneladas de moedas de todo o mundo, que serão destinadas aos cofres municipais, normalmente usado na ajuda da conservação do monumento; estes funcionários não estão apenas limpando a fonte, mas o sonho de vários turistas que, quando jogaram as suas moedas na água, levaram consigo a esperança tenaz de um dia voltar a Roma.


CASABLANCA

Julho 14, 2009

Casablanca”(Casablanca, Estados Unidos, 1942) é um daqueles filmes que foi gerado em cima de grandes coincidências felizes, tornando-se um dos melhores de todos os tempos. Desenhado em cima de um caos absoluto, o roteiro foi escrito em plena locação, na noite anterior em que as cenas seriam gravadas, confundindo os atores, que não sabiam o resultado final daquela confusão da história que se contava; ainda assim “Casablanca” teria um resultado surpreendente, que conquistaria as platéias do mundo inteiro, tornando-se obrigatório aos apaixonados ou não pelo cinema.
Ladeado de histórias e lendas, “Casablanca” foi gravado em plena Segunda Guerra Mundial, em um momento que os Estados Unidos acabara de entrar na guerra e os nazistas pareciam que iria vencê-la. A sua propaganda de guerra é discreta, mas sugere uma esperança tenaz diante daqueles tempos obscuros, onde o homem é sobrevivente graças às alianças que faz, mas em um mundo que tem o domínio repressivo sobre a liberdade e a vida como prêmios, há sempre um patriotismo velado, que emerge quando o caráter é confrontado.
O amor é o principal veículo para que se descubra o caráter. Ele vem com a sombra da guerra como pano de fundo. É resultado dela. Nunca um casal mostrou-se tão belo, apaixonante e carismático na grande tela, como em “Casablanca”. Ingrid Bergman, no esplendor da sua juventude e beleza, revelou-se com um olhar quente, que suga o espectador na emoção daquele amor movido pela guerra. Humphrey Bogart assume um cinismo inteligente, de uma falsa frieza, que vai dilatando-se diante da beleza e da paixão que sente pela personagem da atriz sueca. A química entre ambos é total, levando a platéia às lágrimas quando um Bogart apaixonado abre mão do seu amor para que ela siga ao lado do marido, dizendo “Nós sempre teremos Paris”. O homem frio torna-se o próprio vulcão da grandeza da alma, abrindo mão do seu único contacto com os sentimentos e com o amor, para que a amada alcance um bem maior, muito além da felicidade imaginada a dois.
Casablanca” tem um roteiro que prende o espectador, tem mistério, amor e guerra como ingredientes básicos. Mas tem, principalmente, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. São os dois que conduzem as emoções e as lágrimas da platéia. A beleza daquele casal, emotiva e física, jamais seria repetida no cinema. A cidade marroquina, o Rick’s Cafe, o pianista Sam, a música “As Time Goes By”, os nazistas, a resistência, a guerra, tudo flui para alçar o esplendor de Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, que conquistarão para sempre aqueles que os viram juntos. “Casablanca” é o lugar onde Ingrid Bergman e Humphrey Bogart um dia se encontraram e se perderam. É o espetáculo vivo da verdadeira acepção do que é o cinema. “Casablanca” é cinema puro!

O Caos dos Bastidores

Em 2000 “Casablanca” foi eleito o segundo melhor filme da história do cinema pelo conceituado American Film Institut, perdendo apenas para “Cidadão Kane”. Ao contrário do primeiro lugar, feito por um dos mais geniais cineastas, Orson Welles, “Casablanca” foi concebido como mais um filme dentre os inúmeros que a Warner Bros lançava à época. Feito em estúdio, sem maiores ambições artísticas; e, dirigido por Michael Curtiz, um diretor de origem húngara, especialista em sucessos de aventuras, dono de uma filmografia mediana, sem grandes genialidades. Contrariando todas as expectativas, “Casablanca” tornou-se um clássico do cinema, transformando-se em um dos maiores triunfos de Hollywood.
As filmagens de “Casablanca” são cercadas de estranhas histórias de bastidores, muitas se confundem com a verdade e a mitificação do clássico, gerando uma sucessão de grandes coincidências favoráveis que o transformaram em um dos maiores (se não o maior) romances já levados às telas em toda a história do cinema. Lendas ou verdades, fazem dos bastidores das gravações do filme, uma grandiosidade à parte, que não consegue explicar como, em meio ao caos, surgiu uma história tão sublime.
O primeiro cineasta convidado para dirigir o drama, William Wyler, na época no auge do seu prestígio, declinou ao convite. A bela Hedy Lamarr foi escalada para o papel Ilsa Lund, mas recusou diante das condições oferecidas pelo estúdio, que não tinha um roteiro escrito. Também George Raft declinou ao convite de fazer Richard Blaine. Reza a lenda que o êxito do filme “King’s Row” (1941), de Sam Wood, protagonizado por Ronald Reagan e Ann Sheridan, levou aos empresários da Warner Bros a pensar no casal de atores como protagonistas, tendo Dennis Morgan no papel do herói da resistência tcheca, Victor Laszlo.
Elenco e direção só foram definidos quando a Warner Bros pensou em Michael Curtiz como diretor. Curtiz, um exilado do leste europeu, vinha de grandes sucessos realizados para aquele estúdio, como “Capitão Blood” (1935), “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1938), “As Aventuras de Robin Hood” (1938) e “O Lobo do Mar” (1941). Era um realizador mediano, especialista em grandes aventuras que deram o estrelato ao ator Errol Flynn.
Definida a direção, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman foram escalados para protagonistas do filme, transformando-se no mais apaixonado e apaixonante casal do cinema. Paul Henreid relutou em aceitar o papel de Victor Laszlo, temendo comprometer a imagem por considerá-lo um papel pequeno, mas venceu os medos e assumiu um dos melhores papéis da sua carreira.
Os irmãos Julius e Philip Epstein foram chamados para adaptarem livremente, a peça “Everybody Goes to Rick”, de Murray Burnett e Joan Alison. Curiosamente, escreviam os diálogos nos bastidores das filmagens, entregando, durante a noite, as falas que seriam ditas pelos atores no dia seguinte. Segundo boatos de bastidores, a situação aflorava a irritação de Humphrey Bogart, que não sabia o caminho que a sua personagem seguiria no outro dia, o que lhe conferiu o azedume perene na interpretação de Rick Blaine. Mas o estilo mordaz usado pela dupla de roteiristas não agradava aos produtores, que chamaram Howard Koch para escrever o longo flash back que rasga o meio do filme, revivendo os dias felizes de Rick Blaine e Ilsa em Paris. O roteirista redigiu esta parte da trama sem nunca ter lido o que os irmãos Epstein estavam escrevendo, o mesmo acontecendo com os dois irmãos em relação a Koch. Esta intervenção aumentou ainda mais a confusão entre os atores, que se perderam da história, sem saber que rumo tomava o que estavam a filmar.
Mesmo diante do caos das gravações, o filme adquiriu um enredo intocável, de inexplicável coerência criativa. Somando os dois roteiros – dos irmãos Epstein e de Howard Koch – surgiu uma narrativa impressionantemente fluída, quase beirando à perfeição, dando origem ao maior de todos os romances do cinema.

O Reencontro de Rick e Ilsa

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Casablanca, no norte da África, torna-se, diante de uma França ocupada pelos nazistas, um lugar de espionagem e de esperança para os refugiados da guerra, fugitivos do Terceiro Reich, que dali, sonhavam em conseguir documentos para que pudessem assim, chegar a Lisboa, último lugar da Europa longe dos tentáculos de Hitler. De Lisboa, um navio era a última esperança de fuga para a América, longe da guerra.
É nesta atmosfera que se inicia o filme. O americano Rick Blaine (Humphrey Bogart), um homem amargo e cínico, é proprietário do maior bar de Casablanca, o Rick’s Cafe. Rick é um sobrevivente do mundo. Não se envolve ou se deixa comover pelos conflitos gerados pela guerra. Tem uma relação difícil e polida com o chefe de polícia local, o capitão Louis Renault (Claude Rains). Rick deixa que o seu café seja usado para ajudar fugitivos a obterem salva-condutos para Lisboa, fazendo-o não por questões humanitárias, mas mediante lucros com os frequentadores do seu bar.
Rick é um homem que não acredita em amizade verdadeira, não fala no amor e na paixão, parecendo inatingível aos sentimentos, seu cinismo demarca a troça que faz de todos que lhe ladeiam. Homem frio, jamais bebe no trabalho. Mesmo diante do cinismo latente, a personagem traz os mais inteligentes diálogos já escritos para o cinema. Um exemplo é o diálogo travado entre Rick e Ugarte (Peter Lorre), um grande trapaceiro da região:
-Você me despreza, não? – Pergunta-lhe Ugarte.
-Desprezaria, se pensasse em você. – Responde Rick.
A frase define o caráter cínico, amargo e com um travo de melancolia de Rick Blaine. O motivo de toda a amargura do americano só surge cerca de trinta minutos após o início do filme. Nesses primeiros minutos, várias histórias são cruzadas, esmiuçando o clima que se ergue em Casablanca. Trinta minutos depois, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), entra no bar, e o pianista negro Sam (Dooley Wilson) pára de tocar. Ela reconhece o pianista. Nunca o olhar de Ingrid Bergman foi tão penetrante, de uma cumplicidade quente e singela, desarmado ao mundo, tão úmido e brilhante, quando ela pede, pela primeira vez, para ele tocar “As Time Goes By”. Ao ouvir a música, Rick irrita-se, é uma canção por ele proibida. O seu asco sucumbe diante do sinal secreto de Sam, que lhe mostra Ilsa. A platéia vê tudo no olhar de Rick e de Ilsa, que iniciam um reencontro que emocionaria e levaria milhões de pessoas em todo mundo às lágrimas. Tudo se nos é revelado nos olhares de Rick e Ilsa, sem sabermos nada, sem cruzarmos uma única palavra. A cena e os atores revelam um amor penetrante e infinito.

A Canção Imortalizada, Que Foi Utilizada no Filme por Erro

O reencontro de Rick e Ilsa aparentemente casual, vem tecido de uma longa intriga política e de bastidores de guerra. Antes de rever Ilsa, Rick foi avisado pelo capitão Renault de que o major Heinrich Strasser (Conrad Veidt), membro da Gestapo, viria ao bar como um importante convidado, na tentativa de prender Ugarte, considerado responsável pela morte de dois alemães e por vender salva-condutos para fugitivos de guerra, além de fiscalizar a iminente chegada de um certo Victor Laszlo (Paul Henreid), líder da resistência tcheca que fugira de um campo de concentração. O oficial nazista apostava que Victor Laszlo viria ao café, acompanhado da esposa, na tentativa de comprar de Ugarte um visto de saída de Casablanca. Durante à tarde, Ugarte é preso pelos nazistas e executado logo a seguir. Antes da prisão, Ugarte deixa os salva-condutos aos cuidados de Rick.
É desta intriga política que Ilsa ressurge do passado de Rick. Ela tinha sido no passado, o grande amor da vida do dono do bar. Viveram um romance em Paris, tórrido e inesquecível, que marcara para sempre as suas vidas. Mas veio a guerra, os alemães marcharam sobre Paris, levando embora os encantos, a beleza e a liberdade da cidade. Diante da invasão nazista, Rick fora obrigado a deixar Paris, pensando em levar Ilsa consigo. Mas ela não o acompanhou, deixando-o seguir sozinho. Abandonado, sentindo-se rejeitado, Rick Blaine seguiu para Casablanca, tornando-se um homem frio e amargurado, vivendo das lembranças do amor de Ilsa, transbordado em um cinismo latente, defensivo e aparentemente definitivo.
Quando Ilsa foi ao bar de Rick, não imaginava que ele era o mesmo Richard de Paris. Ela era a esposa de Victor Laszlo. Vinha em busca da preciosa carta de permissão para que deixasse, ao lado do marido, Casablanca, rumo a Lisboa. Ao deparar-se com Sam, ela reconhece-o, não resiste e pede para que toque a velha canção de amor de outros tempos. Ao ouvir a música, antes de ver Ilsa, Humphrey Bogart empresta à personagem o olhar mais frio, cerrado e seco que se tem notícia, numa existência que transborda a mais tenaz das amarguras. É ao som de uma das mais banais e famosas canções de um certo Herman Hupfeld, “As Time Goes By”, que toda a glória do filme é revelada à platéia, estabelecendo-se todo o conflito que se sucedeu entre os dois anos do imenso amor de Paris e o reencontro em Casablanca. Um flash back fluente revive todo o amor e os fantasmas de Rick e Ilsa, perdidos para sempre nas ruas de Paris.
Curiosamente, “As Time Goes By”, que se tornou uma canção lendária com “Casablanca”, não foi composta para o filme. Diante do caos das gravações, quando Ingrid Bergman fez a cena, a trilha sonora de Max Steiner para o filme ainda não estava pronta. A atriz, que gostava da música, teve que improvisar. Steiner achava “As Time Goes By”, que tinha sido lançada sem sucesso anos antes, banal e sem impacto, de um valor musical menor. Só na montagem do filme é que Michael Curtiz e Max Steiner perceberam que a atriz tinha dito o nome da canção. Sob exigência de Steiner, Curtiz pediu que Ingrid Bergman voltasse às gravações para refazer os diálogos com Dooley Wilson. A atriz retornou aos estúdios, mas havia cortado os cabelos para fazer a personagem de um outro filme, e a cena não pôde ser refeita. Mais uma coincidência de um erro que deu certo e fez de “As Time Goes By” uma canção imortalizada, sem que se consiga imaginar “Casablanca” sem os seus versos e melodia, aqui a dar uma magia única ao romance temporariamente recuperado de Ilsa e Rick.

O Amor Reascende em Casablanca

Antes do reencontro com Ilsa, Rick tinha recebido no seu bar o poderoso major Strasser. O chefe da gestapo confidenciara ao dono do estabelecimento que o seu principal objetivo em Casablanca era prender líderes e membros da resistência, principalmente o fugitivo Victor Laszlo. Rick mantém-se impassível, neutro, para ele pouco importava os nazistas ou os heróis da resistência. Era apenas um sobrevivente, um homem de negócios.
Ao saber que Ilsa Lund é a mulher de Victor Laszlo, Rick Blaine tem consciência dos perigos que o rival corre em Casablanca, sendo a sua prisão e possível fuzilamento uma questão de tempo. O Reencontro dos antigos amantes é marcado pelo ressentimento, pelo ódio da traição e cicatrizes da separação. Mas Ilsa sabe que com a prisão de Ugarte, só Rick Blaine pode ajudá-la. Pede a ajuda do antigo amante, não para si, mas para o marido, que não viverá muito tempo se continuar em território marroquino.
No meio da explosão entre jogos de culpas e cicatrizes, uma Ingrid Bergman sensível, com lágrimas nos olhos a evidenciar-lhe a culpa e o abandono do grande amor, deixa sem fôlego não só um frio e seco Humphrey Bogart, como toda a platéia. Aos prantos, ela reafirma o seu amor por Rick, que nunca o esquecera. Confessa porque o tinha abandonado em Paris. Quando vivera um romance com Rick, ela era casada com Laszlo, que estava preso em um campo de concentração nazista, one ela o julgara morto. Soube que o marido estava vivo no dia que iria deixar Paris ao lado de Rick, por isto não podia sair da Europa e seguir o amado pelo mundo. Se o fizesse, jamais teria paz com a sua consciência.
Tudo que Ilsa quer é salvar o marido. Fazendo-o, ela libertar-se-ia do peso da culpa, podendo seguir Rick para qualquer parte do mundo. Ambos reacendem a paixão. Beijam-se, mostrando-se apaixonados e decididos, vão ficar juntos, após a fuga de Victor Laszlo.

A Marselhesa Vence o Hino Nazista

Mas o mundo vai além da paixão entre Rick e Ilsa. Uma guerra sangrenta é travada nos campos de batalha e nos bastidores políticos. O destino de ambos está seriamente entrelaçado com a guerra e com os seus envolvidos. Victor Laszlo e a mulher são levados ao escritório do capitão Renault, onde são ameaçados pelo major Strasser, que os intimida, na tentativa de que entreguem os nomes de todos os líderes da resistência, só assim sairão com vida de Casablanca. Mas Victor Laszlo responde às ameaças com a sua natural devoção aos ideais de liberdade:
-Se não delatei meus companheiros quando me encontrava preso em um campo de concentração, onde vocês usavam métodos mais persuasivos, não será aqui que vou fazê-lo.
O caráter ideológico e político do filme são desenhados pela luta tenaz de Victor Laszlo. Um dos momentos míticos e criativos de “Casablanca” acontece quando Laszlo interrompe um diálogo intrínseco com Rick, ao ouvir que o oficial nazista encarregado de prendê-lo cantava o introspectivo e sombrio “Die Wacht am Rheim”; e incita os freqüentadores do bar a cantar o hino da França. A beleza romântica e explosiva da “Marselhesa” interrompe o ritmo marcial do hino nazista, trazendo uma emocionante seqüência que culmina com o triunfo do patriotismo sobre a traição, do desafio sobre o silêncio, e da coragem exaltada sobre o medo disseminado. A partir de então não se pode mais ter personagens neutros, há uma guerra sendo travada, não se pode ignorá-la, e as imagens da cena devoram os diálogos, não há palavras, mas a redenção para todas as opressões políticas e sentimentais. O silêncio dos diálogos evidencia a força do hino, que naquele ano de 1942, era um grito quase que arrancado das entranhas. Se nos campos de guerra o terror nazista parecia vencer a resistência, neste momento apoteótico do filme, há uma breve vitória dos oprimidos, refletida no esplendor do hino da França.

Despedida em Casablanca

Nas seqüências finais do filme, Rick Blane decide fugir com Ilsa para Lisboa. Irá usar os salva-condutos de Ugarte, que os possibilitarão deixar Casablanca. Negocia a venda do Rick’s Cafe, e envolve o capitão Renault em uma tramóia de fuga que, aparentemente, prepara uma armadilha para Victor Laszlo.
Ilsa, Rick e Laszlo estão prontos para seguirem para o aeroporto de Casablanca. Ela pensa que só o marido seguirá viagem, e que ao vê-lo a caminho da liberdade, poderá finalmente viver o seu amor com Rick. O que ela não sabe é que Rick só possui duas cartas de trânsito. Um suspense final leva o filme a um novo ápice. O que acontecerá a Laszlo? Quem partirá de Casablanca?
Quando Rick dá as cartas de trânsito para Laszlo preencher, o capitão Renault surge com a ordem de prisão. Ilsa põe-se ao lado do marido, disposta a morrer por ele. Rick percebe que o destino da amada estava ligado para sempre ao de Laszlo, e que os dois devem partir juntos. Inesperadamente, Rick aponta uma arma disfarçada para Renault, impedindo que o líder da resistência fosse preso, forçando o capitão a telefonar para o aeroporto e avisar que dois passageiros irão embarcar para Lisboa. Mas o esperto capitão Renault telefona para o chefe da Gestapo, major Strasser, avisando-o da fuga.
A tensão aumenta. No hangar do aeroporto, um avião está preparado para partir em dez minutos. Rick, Ilsa, Laszlo e Renault chegam ao local de embarque em um carro do governo. Rick ordena que Renault preencha as duas cartas de trânsito em nome do Senhor e da Senhora Victor Laszlo. Só então Ilsa apercebe-se da armadilha do destino. Atônita, ela insiste para que os dois continuem juntos, que não se separem outra vez. Mas um Rick magnânimo sabe que a luta de Victor Laszlo é maior do que a sua paixão por Ilsa. Que o mundo em guerra, precisava muito mais da ideologia dos heróis salvadores do que do amor incondicional dos amantes. A razão dentro daquele mundo de guerra exigia e explicava o sublime sacrifício do amor dos amantes de Paris.
Para Rick, haveria as lembranças de uma felicidade efêmera. “Sempre teremos Paris”, justifica-o à amada. Abre-se a imensidão do adeus que fará chorar o mais frio do espectador. Ambos sabem que terão Paris apenas na memória, jamais uma outra vez. Terão Casablanca apenas na persistência das lembranças do amor perdido. O adeus seria definitivo. Jamais se voltariam a tocar, nunca mais se iriam beijar. Paris e Casablanca permaneceriam por todo o tempo, quando tinham a certeza de que “as time goes by”. Ao lado do marido, Ilsa aceita o sacrifício do amado, partindo, lançando-lhe um último olhar de adeus. Quanto mais se distanciava do amado, aproximando-se do avião, uma lágrima inundava-lhe a beleza instransponível e solitária do rosto. Casablanca fica deserta. Jamais iríamos ver Ilsa-Bergman e Rick-Bogart juntos outra vez.
Rick fica sozinho, com a ameaça do capitão Renault, que lhe garante, irá prendê-lo tão logo o avião parta. Rick Blaine não se importa. Fizera o maior sacrifício da sua vida. Era um novo homem. Ou talvez o antigo, o revolucionário da juventude. A frieza cortante dava passagem para um homem idealista e de ambições humanas mais perenes.
Em um último fôlego, surge o major Strasser, ameaçando telefonar ao hangar para que o avião seja interceptado. Mas Rick saca da arma, ordena-lhe que desista. O chefe nazista consegue sacar de uma arma, ao tentar atirar em Rick, é atingido mortalmente por ele. Há um breve momento de silêncio e tensão. No horizonte, o avião que leva Ilsa e Laszlo distancia-se, rumo a Lisboa.
Imprevisivelmente, o capitão Renault desiste de prender Rick, diz que não há testemunhas, sugere que Rick desaparecera de Casablanca por alguns tempos. O capitão deixa o patriotismo vencer à traição, tão comum na sua França ocupada. Rick e Renault caminham debaixo de um intenso nevoeiro, enquanto o avião desaparece no horizonte.
Encerra-se um dos filmes que, omitindo o caos dos bastidores, tornou-se quase que perfeito. Nos desacertos, foram gerados momentos antológicos do cinema. Nos acertos, reuniu um elenco esplendoroso, com as indicações de Humphrey Bogart e Claude Rains para o Oscar de melhores atores, principal e coadjuvante respectivamente. Triunfante, receberia três Oscars, o de melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro. Foi um dos filmes que mais atingiu o coração da platéia que o veio assistir, tornando-se um gigante definitivo cinema mundial.

Ficha Técnica:

Casablanca

Direção: Michael Curtiz
Ano: 1942
País: Estados Unidos
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos / preto e branco
Título Original: Casablanca
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch, baseado na peça “Everybody Comes to Rick’s” de Murray Burnett e Joan Alison
Direção de Diálogos: Hugh MacHullan
Produção: Hal B. Wallis
Produção Executiva: Jack L. Warner
Música: Max Steiner, M. K. Jerome, Jack Scholl e Herman Hupfeld (As Time Goes By)
Arranjos de Orquestra: Hugo Friedhofer
Direção Musical: Leo F. Forbstein
Direção de Fotografia: Arthur Edeson
Direção de Arte: Carl Jules Weyl
Decoração de Set: George James Hopkins
Figurino: Orry-Kelly
Maquiagem: Perc Westmore
Edição: Owen Marks
Efeitos Especiais: Lawrence Butller e Willard Van Enger
Montagem: Don Siegel e James Leicester
Som: Francis J. Scheid
Consultor Técnico: Robert Aisner
Estúdio: Warner Bros.
Distribuição: Warner Bros. / Metro-Goldwyn-Mayer
Elenco: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Sydney Greenstreet, Peter Lorre, S. Z. Sakall, Madeleine LeBeau, Dooley Wilson, Joy Page, John Qualen, Leonid Kinskey, Curt Bois
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, Casablanca, cidade do Marrocos, então protetorado francês, torna-se rota obrigatória de quem estava a fugir das atrocidades dos nazistas. Será em Casablanca que Rick Blane (Humphrey Bogart), dono do maior bar local, irá reencontrar Ilsa Lund (Ingrid Bergman), anos depois de terem se apaixonado e se perdido em Paris. Nos meandros da guerra, uma história comovente de paixão e sacrifício desenha uma trama empolgante e definitiva. Inesquecível.

Michael Curtiz

Mihály Kertész ficou conhecido no mundo pelo seu nome americanizado, Michael Curtiz. Nasceu em Budapeste, no Império Austro-Húngaro (hoje Hungria), em 24 de dezembro de 1886. Oriundo de uma família judaica, tinha o nome de Manó Kertész Kaminer, substituído pelo pseudônimo de Mihály Kertész quando iniciou a carreira de ator e diretor no Teatro Nacional Húngaro, em 1912.
Segundo o próprio Michael Curtiz, teria fugido da casa dos pais para que se pudesse juntar ao circo. Também costumava gabar-se de ter feito parte da seleção de esgrima nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. De concreto, sabe-se que estudou na Universidade de Markoszy e na Academia Real de Teatro e Arte.
Em 1913, Michael Curtiz seguiu para a Dinamarca, onde passou seis meses no estúdio Nordisk, a aperfeiçoar-se como diretor de cinema. A carreira foi interrompida por algum tempo quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, obrigando-o a fazer parte da artilharia do exército Austro-Húngaro. Retornaria à direção dos filmes em 1915. Por esta época casou-se com a atriz Lucy Doraine, com quem viveu até 1923.
Por conta da nacionalização da indústria cinematográfica do seu país, Curtiz deixou a Hungria em 1919, fixando-se em Viena, onde fez cerca de 21 filmes para o estúdio Sascha-Film. Em 1924 teve o filme “Die Sklavenkönigin”, lançado nos Estados Unidos com o título de “Moon of Israel” (Lua de Israel), atraindo a atenção de Jack Warner, que o contratou para o seu estúdio, a Warner Bros. Assim, em 1928, Curtiz realizou para aquele estúdio “Noah’s Ark” (Arca de Noé).
Nos Estados Unidos, adotou o nome de Michael Curtiz, iniciando uma carreira de grandes sucessos em Hollywood. Por cerca de trinta anos, teve o nome nos créditos de mais de cem filmes. Durante a Segunda Guerra Mundial, Curtiz teve parte da família enviada para o campo de concentração de Auschwitz. Nesta época realizou grandes sucessos como “O Lobo do Mar” (1941), o mítico “Casablanca” (1942) e “Alma em Suplício” (1945).
Michael Curtiz recebeu quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para Oscar de melhor diretor: “Anjos da Cara Suja” (1938), “Quatro Filhas” (1939), “A Canção da Vitória” (1943) e “Casablanca”, que lhe deu a estatueta em 1944.
A relação de Curtiz com os estúdios de Hollywood deteriorou-se com o passar dos anos, terminando em uma grande batalha nos tribunais. A partir de 1953, continuou a dirigir como independente. Seu último filme foi “Os Comancheros” (1961), com John Wayne, lançado menos de um ano antes da sua morte. Michael Curtiz morreu vítima de um câncer em 10 de abril de 1962, em Hollywood.

Filmografia de Michael Curtiz:

1912 – Ma És Holnap
1912 – Az Utolsó Bohém
1913 – Rablélek
1913 – Házasodik Az Uram
1914 – Bánk Bán
1914 – Az Éjszaka Rabjai
1914 – Az Aranyásó
1914 – A Tolonc
1914 – A Kölcsönkért Csecsemök
1914 – A Hercegnö Pongyolaban
1915 – Akit Ketten Szeretnek
1916 – Makkhetes
1916 – Farkas
1916 – Doktor Úr
1916 – Az Ezüst Kecske
1916 – A Magyar Föld Ereje
1916 – A Karthausi
1916 – A Fekete Szivárvány
1917 – Zoárd Mester
1917 – Tavasz a Télben
1917 – Tatárjárás
1917 – Halálcsengö
1917 – Egy Krajcár Története
1917 – Az Utolsó Hajnal
1917 – Az Ezredes
1917 – A Vörös Sámson
1917 – A Szentjóbi Erdö Titka
1917 – A Senki Fia
1917 – Árendás Zsidó
1917 – A Kuruzsló
1917 – A Föld Embere
1917 – A Béke Útja
1918 – Varázskeringö
1918 – Lulu
1918 – Lu, A Kokott
1918 – Júdas
1918 – Az Ördög
1918 – A Vig Özvegy
1918 – A Skorpió I
1918 – Alraune
1918 – A Csúnya Fiú
1918 – 99
1918 – A Napraforgós Hölgy
1919 – Liliom
1919 – Jön Az Öcsém
1919 – Die Dame Mit Dem Schwarzen Handschuh
1920 – Boccaccio
1920 – Der Stern von Damaskus
1920 – Die Gottesgeisel
1921 – Miss Tutti Frutti
1921 – Herzogin Satanella
1921 – Frau Dorothys Bekenntnis
1921 – Labyrinth des Grauens
1922 – Sodom und Gomorrha
1923 – Der Junge Medardus
1923 – Die Lawine
1923 – Namenlos
1924 – General Babka
1924 – Ein Spiel Ums Leben
1924 – Harun al Raschid
1924 – Die Sklavenkönigin
1925 – Das Spielzeug von Paris
1926 – Fiaker Nr. 13
1926 – Der Goldene Schmetterling
1926 – The Third Degree
1927 – A Million Bid
1927 – The Desired Woman
1927 – Good Time Charley
1928 – Tenderloin
1928 – Noah’s Ark (A Arca de Noé)
1929 – Glad Rag Doll
1929 – Madonna of Avenue A
1929 – The Gamblers
1929 – Hearts in Exile
1930 – Mammy (Minha Mãe)
1930 – Under a Texas Moon
1930 – The Matrimonial Bed
1930 – Bright Lights
1930 – River’s End
1930 – A Soldier’s Plaything
1931 – Dämon des Meeres
1931 – God’s Gift to Women
1931 – The Mad Genius (O Gênio do Mal)
1932 – The Woman From Monte Carlo
1932 – Alias The Doctor
1932 – The Strange Love of Molly Louvain
1932 – Doctor X (Doctor X)
1932 – The Cabin in the Cotton
1932 – 20.000 Years in Sing Sing (20.000 Anos em Sing Sing)
1933 – Mystery of the Wax Museum (Os Crimes do Museu)
1933 – The Keyhole
1933 – Private Detective 62
1933 – The Mayor of Hell (não creditado)
1933 – Goodbye Again (Mais Uma Vez Adeus)
1933 – The Kennel Murder Case (O Caso de Hilda Lake)
1933 – Female
1933 – From Headquarters (não creditado)
1934 – Mandalay (Capricho Branco)
1934 – Jimmy the Gent (Bancando o Cavalheiro)
1934 – The Key
1934 – British Agent
1935 – Black Fury (Inferno Negro)
1935 – The Case of the Curious Bride
1935 – Go Into You Dance (não creditado)
1935 – Front Page Woman (Miss Repórter)
1935 – Little Big Shot
1935 – Captain Blood (Capitão Blood)
1936 – The Walking Dead (O Morto Ambulante)
1936 – Anthony Adverse (não creditado)
1936 – The Charge of the Light Brigade (A Carga da Brigada Ligeira)
1937 – Black Legion (não creditado)
1937 – Stolen Holiday
1937 – Marked Woman (Mulher Marcada) (não creditado)
1937 – Moutain Justice (Justiça Humana)
1937 – Kid Galahad (Talhado Para Campeão)
1937 – The Perfect Specimen
1938 – Gold is Where You Find It
1938 – The Adventures of Robin Hood (As Aventuras de Robin Hood)
1938 – Four’s a Crowd (Amando Sem Saber)
1938 – Four Daughters (Quatro Filhas)
1938 – Angels With Dirty Face (Anjos de Cara Suja)
1939 – Blackwell’s Island (não creditado)
1939 – Dodge City (Uma Cidade Que Surge)
1939 – Sons of Liberty
1939 – Daughters Courageous
1939 – The Private Lives of Elizabeth and Essex (Meu Reino Por um Amor)
1939 – Four Wives
1940 – Virginia City (Caravana de Ouro)
1940 – The Sea Hawk (O Gavião do Mar)
1940 – Santa Fe Trail (A Estrada de Santa Fé)
1941 – The Sea Wolf (O Lobo do Mar)
1941 – Dive Bomber (Demônios do Céu)
1942 – Captains of the Clouds (Corsários das Nuvens)
1942 – Yankee Doodle Dandy (A Canção da Vitória)
1942 – Casablanca (Casablanca)
1943 – Mission to Moscow (Missão em Moscou)
1943 – This is the Army (Forja de Heróis)
1944 – Passage to Marseille (Passagem para Marselha)
1944 – Janie
1945 – Roughly Speaking
1945 – Mildred Pierce (Alma em Suplício)
1946 – Night and Day (A Canção Inesquecível)
1947 – Life With Father (Nossa Vida com Papai)
1947 – The Unsuspected (Sem Sombra de Suspeita)
1948 – Romance on the High Seas (Romance em Alto Mar)
1949 – My Dream is Yours (Meus Sonhos Te Pertencem)
1949 – Flamingo Road (Caminha da Redenção)
1949 – The Lady Takes a Sailor (Até Parece Mentira)
1950 – Young Man With a Horn (Êxito Fugaz)
1950 – Bright Leaf (Cinzas ao Vento)
1950 – The Breaking Point (Redenção Sangrenta)
1951 – Force of Arms (Quando Passar a Tormenta)
1951 – Jim Thorpe – All-American (O Homem de Bronze)
1951 – I’ll See You in My Dreams (Sonharei Com Você)
1952 – The Story of Will Rogers (A História de Will Rogers)
1952 – The Jazz Singer (O Cantor de Jazz)
1953 – Trouble Along the Way (Atalhos do Destino)
1954 – The Boy From Oklahoma (Aço de Boa Têmpera)
1954 – The Egyptian (O Egípcio)
1954 – White Christmas (Natal Branco)
1955 – We’re No Angels (Veneno de Cobra)
1956 – The Scarlet Hour
1956 – The Vagabond King (O Rei Vagabundo)
1956 – The Best Things in Life are Free (O Encanto de Viver)
1957 – The Helen Morgan Story (Com Lágrimas na Voz)
1958 – The Proud Rebel (O Rebelde Orgulhoso)
1958 – King Creole (Balada Sangrenta)
1959 – The Hangman
1959 – The Man in the Net (A Mulher que Comprou a Morte)
1960 – A Breath of Scandal (O Escândalo da Princesa)
1960 – The Adventures of Huckleberry Finn (As Aventuras de Huckleberry Finn)
1961 – Francis of Assisi (São Francisco de Assis
1961 – The Comancheros (Os Comancheros)


MULHERES DO BRASIL – SOB O OLHAR DE ANTONIO GUERREIRO

Junho 28, 2009
A presença da mulher na história do Brasil é constituída de grandes vultos e personalidades que, se fôssemos descrever cada uma delas, teríamos uma longa enciclopédia de biografias instigantes e apaixonantes. Da índia Paraguaçu, que conquistou o coração de Caramuru e à corte francesa, sendo lá batizada como Catarina Álvares, no século XVI, a Xica da Silva, bela negra que de escrava tornou-se a rainha do Tijuco; de Chiquinha Gonzaga a Leila Diniz, personagens que mudaram o conceito de ser mulher à época em que viveram; o Brasil é essencialmente um país feito pela delicadeza bravia das suas mulheres. Nação plural, com uma população formada por várias raças, sem um estereótipo definido, em que a beleza da mulher brasileira é um capítulo à parte na história do país.
Para descrever tão sublime beleza, nenhuma lente foi mais sincera, poética e apoteótica como as do fotógrafo Antonio Guerreiro. Dono de uma sensibilidade estética impar, Guerreiro foi o maior fotógrafo de grandes personalidades brasileiras que despontou nos últimos quarenta anos. Do fim da década de 1960 ao início da de1990, não houve celebridade que não tenha passado por sua objetiva. Surgido na época do desbunde, fazia parte da geração que pregava o amor livre ao cheiro da cocaína, falava de política ao sabor do ácido e sobrevivia à opressão de uma ditadura militar através de uma arte considerada marginal, mas intensa em seu existencialismo apartidário.
No meio da desconstrução estética do desbunde, Antonio Guerreiro andava na contramão, pois as fotografias que fazia dos seus modelos eram a própria perfeição do belo. Longe das imagens do underground do meio que freqüentava, a sua arte representava o glamour e a voluptuosidade dos corpos que retratava, a beleza obsessiva que tal qual um Michelangelo contemporâneo, jamais deixou de buscar. Enquanto os fuzis militares embaçavam o cenário nacional, paradoxalmente a fotografia de Guerreiro traduzia uma beleza infinitamente alegre, mesmo travada em uma atmosfera alienante. As musas de Antonio Guerreiro eram um ópio no sangue dos que eram torturados nos calabouços, era a atenuação de um país silenciado. O retrato de uma geração que ou já morreu ou envelheceu, que não mais existe com o esplendor por ele registrado.
Mulheres do Brasil, por Antonio Guerreiro, retratam um tempo perdido. Aos 61 anos, o fotógrafo vive mais de um passado glorioso do que de um presente artisticamente empobrecido pela arte digital. Este artigo traz algumas divas que constituem um acervo precioso da cultura deste país. Brancas, negras, louras, morenas, todas fotografadas por Antonio Guerreiro, em imagens definitivas, que resistem à morte e às rugas do tempo, todas mulheres imprescindíveis na construção cultural do Brasil.

Ângela Diniz, a Pantera de Minas

Considerada uma das mulheres mais bonitas dos anos setenta, Ângela Diniz era conhecida como “A Pantera de Minas”. Foi daquelas mulheres cridas para uma vida de rainha, com direito a baile de debutante aos 15 anos, para ser apresentada oficialmente à alta sociedade.
Mineira de Belo Horizonte, Ângela Diniz virou uma lenda nos meios sociais da sua época, atraindo para si os holofotes e as paixões desenfreadas tanto dos homens, quanto das mulheres. Era uma mulher que desprezava a sociedade em que vivia, fazendo da sua liberdade uma afronta aos costumes. Do seu casamento com o engenheiro Milton Villas Boas teve três filhos. Mas o seu destino teria o fulgor das aventuras e da tragédia, assim, ela abandonou marido e filhos e foi viver a intensidade do seu glamour no Rio de Janeiro.
Envolvida em um triângulo com o milionário Tuca Mendes e um rapaz de 18 anos, que era caseiro da sua casa, teve a tragédia bater à sua porta pela primeira vez; o caseiro foi assassinado em um crime obscuro, provavelmente movido pelo ciúme; Ângela Diniz assumiu a culpa, talvez para proteger o amante.
E assim foi a vida da “Pantera de Minas”, regada por escândalos envolvendo sexo e drogas, tendo sido presa por porte de maconha; foi constrangida quando espancada em público por um namorado, além de outros escândalos menores.
Em 1976 Ângela Diniz envolveu-se com o bon vivant Doca Street. Na véspera do reveillon daquele ano, os dois foram para a Praia dos Ossos, em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. Viveram uma paixão explosiva, com muito sexo, cocaína, champangne e ciúmes. O resultado, quatro tiros desferidos por Doca Street, desfigurando um dos rostos mais belos do Brasil e matando uma das mulheres mais controversas da alta sociedade. Doca Street foi a dois julgamentos, sendo condenado apenas no último. Com a condenação, morria no Brasil o conceito de que era válido matar a mulher em defesa da honra masculina. Infelizmente a violência contra a mulher prevalece até os dias atuais.
Sob as lentes de Antonio Guerreiro, percebe-se a beleza trágica e inconquistável de Ângela Diniz. O fotógrafo dissimula do seu rosto a malícia fugaz, esculpindo-lhe uma beleza bíblica a contrastar com a verdade profana da Pantera de Minas.

Sandra Bréa, Símbolo Sexual de uma Época

Atriz, cantora, dançarina, Sandra Bréa foi uma artista completa, poucas como ela reuniram tantos predicados, tantos dotes artísticos. Dona de uma beleza clássica, talvez tenha sido a mulher mais fotografada nua na década de setenta, o que lhe rendeu o título de símbolo sexual, fazendo-a uma das mais desejada de um Brasil reprimido pela liberdade de pensamentos e pela moral e pelos bons costumes impostos pela ditadura.
Após protagonizar algumas novelas da TV Globo, entre elas a histórica “O Bem Amado”, de Dias Gomes, a atriz encontrou o auge da sua carreira no programa musical “Sandra e Miele”, em 1976, ao lado de Luiz Carlos Miele. O programa tornou-se mítico, e um dos mais bem concebidos daquela década.
Casada durante alguns anos com Antonio Guerreiro, foi fotografada por ele em todo o seu esplendor, revelando-se como uma estátua nua para todo o Brasil. Assim como as mulheres transgressoras do seu tempo, a atriz sofreu os revezes dos preconceitos, mas jamais se deixou intimidar por eles, pagando com sangue e vida o direito de ser mulher independente e livre.
Nos anos noventa, Sandra Bréa foi contaminada pelo vírus da Aids, sendo a primeira mulher no Brasil a assumir a doença publicamente. Desde então foi isolada, encerrando a carreira e o glamour. A estrela apagou-se em 2000, vítima de um câncer no pulmão, fugindo ao estigma que tanto temia, o de morrer em conseqüência da Aids. Nos últimos anos de vida, teve o belo físico transformado pelo tratamento que fazia com os retrovirais para combater a doença. O legado que nos deixou não foi apenas a coragem de transgredir, mas o de um talento digno de uma grande brasileira.
Nesta fotografia, “Woman in Red”, deparamos com um facho de luz no expoente de um dos olhares que mais se cruzou com as lentes de Antonio Guerreiro, formando uma cumplicidade eterna, presa no tempo e na memória.

Betty Faria, Talento e Beleza

O seu nome confunde-se com o da teledramaturgia do país. Foi levada para a televisão pelas mãos da amiga Leila Diniz, que a apresentou a Daniel Filho. Nunca mais saiu, construindo para o Brasil, uma bem sucedida carreira, intercalada com o teatro e com o cinema.
Betty Faria viveu durante anos, personagens secundárias, às vezes antagonistas da heroína da trama. Foi elevada à estrela global em 1975, sob a direção do então marido, Daniel Filho. Na televisão interpretou personagens inesquecíveis como a Lucinha da primeira versão de “Pecado Capital” (1975), de Janete Clair, e a fogosa protagonista de “Tieta” (1989).
A atriz também brilhou no cinema nacional, em clássicos como “A Estrela Sobe”, “O Cortiço”, “Bye Bye Brasil”, “Romance da Empregada” e “Lili Carabina, a Estrela do Crime”.
Na sua beleza morena e sensualidade à flor da pele, Betty Faria conquistou ao longo da carreira, uma galeria diversificada de fãs, entre eles o escritor Jorge Amado, que praticamente exigiu a atriz para protagonizar a novela “Tieta”, baseada em sua obra literária. Foi a primeira viúva Porcina de “Roque Santeiro”, em 1975, que censurada pela ditadura militar, jamais foi ao ar. Em 1985, quando a telenovela foi finalmente liberada, a atriz recusou o papel.
No inicio da carreira foi casada com o ator Cláudio Marzo, de quem teve uma filha, a atriz Alexandra Marzo. Depois se casou com o diretor Daniel Filho, gerando com ele um filho, João. Esta é Betty Faria, feita de acertos e erros, de talento e beleza, altos e baixos em uma carreira tão longa e empolgante.
Antonio Guerreiro soube explorar bem a beleza morena da atriz, envolvendo-a em brilhos que contrastam com a pele branca e com a vasta cabeleira negra. Guerreiro enfeitou-lhe de adereços e glamour, como se preparasse a mulher que saltaria de dentro de um luxo concebido. Um registro que foge ao tempo e entra para a galeria das grandes personagens culturais do nosso país.

Tonia Carrero, Uma das Maiores Belezas do Brasil

Tonia Carrero é uma das mulheres mais bonitas que nasceu em solo brasileiro. Mesmo com as marcas que lhe esculpiu o tempo, ela jamais perdeu a essência do belo e dos traços de deusa grega.
Mais belo ainda, é a sua trajetória artística. Assim como as mulheres do seu tempo, foi preparada para o casamento, ato que assumiu muito bem, só iniciando a carreira artística depois de casada. Sua estréia aconteceu ao lado de outro gigante do cenário artístico brasileiro, Paulo Autran. Juntos, partiram para o infinito das artes e do talento arrancado do âmago da grandiosidade artística.
Tonia Carrero foi a grande musa do cinema brasileiro na época dos estúdios da Vera Cruz, considerada a Hollywood brasileira, vivendo clássicos como “Tico-Tico no Fubá” (1952). A beleza etérea do seu rosto iluminava as salas de cinema. A atriz sabia-se dona desta beleza rara, assumindo-a sem preconceitos, mas sem se deixar levar por ela, atirando-se a desafios tanto no cinema como no teatro.
Mulher talentosa e inteligente, trabalhou com mestres como Ziembinski e Adolfo Celli, diretor e ator de cinema italiano, com quem foi casada.
Também brilhou na televisão, protagonizando várias telenovelas da TV Globo no início da década de 1970, como “Pigmalião 70” e “A Próxima Atração”. Cansada de viver as eternas ricas sofisticadas das novelas, ela procurou evitar desgastar a imagem, declinando de fazer televisão constantemente.
Até o fim da década de setenta e início da de oitenta, Tonia Carrero era tida pelas mulheres como o símbolo de beleza feminino ideal, mesmo a atriz já estando na época com sessenta anos, posição que o tempo e as suas marcas, foram lhe tirando aos poucos.
Antonio Guerreiro revela aqui, a beleza madura da atriz, ainda com traços delineados com perfeição. Os olhos, diminuídos por uma intervenção cirúrgica corretiva, voltam a brilhar sem medo de olhar para as lentes do fotógrafo. Longe da moda das bocas carnudas de agora, Tonia Carrero deslumbra com os seus lábios finos e clássicos. A beleza do rosto entrelaça-se com a da mão, terminada em unhas perfeitas, no glamour de uma mulher elegante e inteligente. A imagem de Guerreiro registra o que o tempo roubou à atriz, fazendo-a infinitamente presa à beleza.

Regina Duarte, a Namoradinha do Brasil

Uma das mulheres mais amada pelo público brasileiro, Regina Duarte iniciou a carreira na extinta TV Excelsior. Com o fim da emissora, foi contratada pela TV Globo em 1969, de onde nunca mais saiu.
Dona de uma voz doce e intensa, de um sorriso angelical, ela logo se destacou como protagonista de sofridas heroínas. A terna e carismática Patrícia de “Minha Doce Namorada”, novela de Vicente Sesso, de 1971, conferiu-lhe o título de “Namoradinha do Brasil”. Vinculada a esta imagem, a atriz viveu personagens afins, emplacando grandes sucessos como “Selva de Pedra” (1972) e “Carinhoso” (1973).
Cansada de viver a eterna heroína sofredora, Regina Duarte quis deixar a televisão em 1974, mas a direção da Globo não deixou, dando-lhe dois anos de férias. A primeira atitude da atriz foi interpretar uma prostituta no teatro, na peça “Reveillon”, algo incompatível com a imagem imposta pela televisão.
Quando voltou às novelas, negou-se a representar os mesmos papéis. Veio o seriado “Malu Mulher” (1979) e a imagem da namoradinha esvaiu-se por completo. Quando interpretou a fogosa e inesquecível viúva Porcina de “Roque Santeiro”, em 1985, já não havia resquícios da heroína virginal de outrora.
Antonio Guerreiro descobre, neste retrato, toda a sensualidade da atriz antes da televisão o fazer. Ele capta a doçura da estrela, sem apagar a mulher. Revela-nos uma beleza angelical preste a romper, fazendo emergir a mulher sensual, como se fosse saltar dos olhos expressivos do anjo. Os cabelos da atriz revelam o seu glamour, a sensualidade contida, mas latente, pronta para pulsar. Guerreiro descobre um lado impar de Regina Duarte, revelando, com exclusividade, uma mulher quente e ardente, que de namoradinha, transformara-se em “Amante do Brasil”.

Zezé Motta, Exótica Beleza

Dona de uma beleza exótica, exalada da sua pele negra, como um ébano nobre, uma rainha secular, Zezé Motta foi a primeira atriz a dizer não aos papéis medíocres e limitados que as telenovelas reservavam para os atores negros. Recusou-se a voltar no papel da eterna empregada doméstica, denunciando abertamente o preconceito, que até então, fazia-se velado.
Longe das limitações da televisão, transformou-se em rainha no cinema, vivendo a mítica Xica da Silva no filme homônimo. A película rendeu-lhe a consagração definitiva da carreira, e grande prestígio do público e dos críticos.
Se o seu olhar desperta uma mulher silvestre, o tom da voz é doce, de uma meiguice insinuante. Zezé Motta, além de grande atriz, é uma excelente cantora, tendo gravado três discos, menos do que os que o seu talento vocal merece.
Foi a primeira atriz a viver um papel de destaque que mostrava o amor entre raças na novela “Corpo a Corpo”, de Gilberto Braga, em 1985. Na época, ao fazer cenas tórridas com o ator e diretor Marcos Paulo, por quem nutriu uma paixão de juventude, sofreu preconceitos de um público ainda incipiente e preconceituoso, não habituado a ver a beleza das cores mescladas pelo amor. Zezé Motta foi a primeira atriz negra do Brasil a adquirir o estatuto de estrela. Há quem diga que a música “Pérola Negra”, grande sucesso de Luiz Melodia na voz de Gal Costa, foi inspirada na atriz-cantora.
Antonio Guerreiro fez a fotografia da capa de um disco da cantora, além de fotografá-la nua para vários ensaios. Sob as lentes de Guerreiro, a sua beleza exótica salta dos olhos, invadindo o corpo silvestre, exalando todos os desejos de quem lhe admira a imagem. A negritude da pele é ressaltada pelas luzes usadas, dando uma atmosfera que lembram o cetim e o bronze, transformando-a em uma reluzente estátua renascentista.

Fernanda Montenegro, Grande Dama do Teatro

O nome de Fernanda Montenegro dispensa apresentações. Considerada a grande dama do teatro brasileiro, é uma das poucas unanimidades que o Brasil possui. Fernanda Montenegro transmite aquele ar inteligente que os intelectuais trazem na alma. Mesmo quando fala, revela-se uma atriz nos gestos, nas pausas da voz, no olhar, nos movimentos das mãos. É a mulher que dispensa títulos de estrela, sendo a atriz.
Nos palcos viveu quase todos os papéis possíveis, registrando sucessos memoráveis como “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” e “Os Dias Felizes”. No cinema foi indicada para o Oscar, em 1999, pelo filme “Central do Brasil“.
Ao longo da carreira, procurou evitar a exposição desgastante da televisão, mas as poucas vezes que emprestou o seu talento para a pequena tela, deixou momentos memoráveis, em comédias como “Guerra dos Sexos” (1983), e, “Cambalacho” (1986), novelas de Silvio de Abreu; e interpretações dramáticas em “Baila Comigo” (1981), de Manoel Carlos e “Brilhante” (1981), de Gilberto Braga.
Fernanda Montenegro foi casada com o ator Fernando Torres, de quem ficou viúva em 2008, tendo com ele dois filhos, a atriz Fernanda Torres e o cenógrafo e diretor Cláudio Torres. É uma das atrizes mais querida do Brasil, dona de um público cativo e de fãs que se vão acumulando ao longo das décadas de uma carreira brilhante.
Antonio Guerreiro fotografou a atriz ao lado do marido e da filha, Fernanda Torres, quando esta ainda era criança. Neste retrato aqui mostrado, o fotógrafo acentua os olhos decididos da dama do teatro, instigando-lhe o ar inteligente, sem esquecer a mulher por debaixo da atriz. Guerreiro tem destas magias, revela primeiro a mulher, para depois se curvar diante da celebridade. Fernanda Montenegro é na imagem, essencialmente uma mulher, captada no momento exato que se prepara para vestir à atriz, mas que as lentes de Guerreiro intercedem no lapso de tempo da metamorfose. O braço debruça-se sobre a sutileza da mão feminina, despojando-se dos gestos do drama. Nunca a atriz interpretou tão bem a mulher como aqui.

Marina Montini, Musa de Di Cavalcanti

A nova geração de brasileiros não se lembra dela. Uma injustiça, pois a mulata Marina Montini foi um dos maiores símbolos da beleza da mulher genuinamente brasileira. Fez imenso sucesso como modelo no Brasil e na Europa, onde viveu em diversos países, como Alemanha e Itália. Na década de setenta atingiu o auge da fama, posando para as lentes dos maiores fotógrafos do país. Foi capa de grandes revistas, como a “Manchete”, além de fazer belíssimos ensaios sensuais de nu artístico para a revista “Playboy”. Como atriz, fez pequenas participações no cinema nacional. Era uma modelo cultuada pelos intelectuais da época, tida como o retrato fiel da verdadeira beleza da mulher brasileira.
Mas foi como a musa inspiradora do pintor Di Cavalcanti que Marina Montini foi imortalizada. A sua beleza exuberante atingiu de forma indelével o pintor, que encontrou a estética exata da sua inspiração, passando a tê-la como modelo por sete anos. A modelo aparece nas principais obras do pintor feitas na década de setenta, entre elas, “Mulata Com Pássaro”. O estigma de musa de Di Cavalcanti acompanhou Marina Montini por toda a vida. Encerrado o apogeu da carreira, a modelo passou a ter dificuldades financeiras e a saúde fragilizada por uma cirrose, vendo-se obrigada a morar no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá, vindo ali falecer em 2004, aos 58 anos de idade, isolada e esquecida.
Não é fácil competir com a pintura genial de Di Cavalcanti, mas Antonio Guerreiro não decepcionou ao fotografar a sua musa inspiradora. Neste retrato primoroso, tem-se a noção exata das formas de Marina Montini, em um dos mais fiéis registros à personalidade da modelo. Marina Montini não era uma mulher comum, como pode ser vista no retrato. Sua cor é uma exclusividade da mulher brasileira, raramente encontrada em outras terras. Sua boca carnuda inundava a imaginação dos mais apaixonados e fervorosos admiradores. Sua altura, 1,80 metro bem distribuídos entre curvas insinuantes e proporções voluptuosas, era rara para uma mulher da sua geração. Se Marina Montini viveu para ser eternizada por Di Cavalcanti, no retrato de Antonio Guerreiro adquiriu o perfil exato da lembrança da sua verdadeira imagem.

Dina Sfat, Magnitude e Talento

Dina Sfat pertence a uma geração de atrizes que surgiu com o teatro engajado no início dos anos sessenta. Mulher inteligente, de um magnetismo pessoal envolvente, tornando-a uma personalidade marcante e inesquecível. Estreou-se no teatro em 1962, dirigida por Antonio Abujamra. Descoberta pelo mítico Teatro de Arena, Dina Sfat marcou com unhas de grande atriz os palcos de então.
No Teatro de Arena a atriz conheceu o ator Paulo José, com quem esteve casada por 17 anos, tendo com ele três filhas: Bel Kutner, Ana e Clara. Era uma mulher reservada, sem deixar jamais de participar da vida pública do país.
Em 1970 fez o mítico filme “Macunaíma”, vivendo a guerrilheira Cy. O papel abriu-lhe as portas para protagonizar uma novela de Dias Gomes, “Verão Vermelho” (1970), a partir de então, tornou-se uma grande estrela da TV Globo, participando de sucessos inesquecíveis da teledramaturgia brasileira: “Selva de Pedra” (1972), “O Astro” (1978) e “Eu Prometo” (1983), todas de Janete Clair, sendo uma das atrizes preferidas da autora. Dias Gomes, todas às vezes que lhe foi possível, teve-a em suas novelas, entre elas “Assim na Terra Como no Céu” (1970) e “Saramandaia” (1976). A atriz jamais se furtou de viver diferentes personagens, sem nunca se ater às limitações da imagem geralmente imposta pela televisão aos seus ídolos. Interpretou prostitutas, heroínas, assassinas, loucas, enfim, uma galeria de personagens inesquecíveis que viveu com maestria.
Mulher dinâmica, Dina Sfat corajosamente disse em público, a um militar do governo, que tinha medo dele. Filha de judeus poloneses, jamais abandonou às raízes. Um câncer matou-a precocemente aos 50 anos, em 1989, encerrando uma das maiores carreiras deste país, além de uma das suas mais contundentes personalidades.
Na fotografia de Antonio Guerreiro, Dina Sfat é vista na sua essência, olhos grandes, de um olhar que penetrava na alma de quem se lhe pusesse na frente, gestos inteligentes, sem jamais esconder a mulher ardente que emanava. Dina Sfat trazia um certo mistério a ser desvendado, um lugar recôndito na alma que não se furtava em mostrar para quem tivesse coragem e personalidade para tentar penetrá-lo. Os olhos, a boca, os dedos, as mãos, tudo nela era expressivo, a sua beleza era moldada a partir da personalidade. Dina Sfat duela com a objetiva de Guerreiro, absorvendo-lhe a manipulação da imagem, sendo exatamente ela, bela, inteligente e infinita.

Vera Fischer, Um Ícone do Brasil

Uma das personalidades mais controversas do Brasil, Vera Fischer conquistou o seu lugar ao sol mediante grande perseverança e personalidade impar que só o verdadeiro talento pode revelar. Veio de Santa Catarina para desabrochar como Miss Brasil em 1969, quando o país atravessava um dos momentos mais delicados da sua história, com presos torturados e mortos nos porões da ditadura e guerrilheiros de organizações de esquerda nas ruas. Surgia singela, bela e sem explicar para o que tinha vindo, sem que se lhe pudesse imaginar aonde iria chegar.
Na primeira metade da década de setenta, notabilizou-se por participar de inúmeras pornochanchadas de sucesso, tornando-se a rainha delas. Menosprezada por um público mais consciente e inexistente para a crítica, Vera Fischer fascinava pela beleza desnuda do seu corpo nas telas do cinema. Em 1976 estava decidida a romper com esta imagem, fazendo um filme de conteúdo tido como sério, “Intimidade”, dirigida pelo então marido, Perry Salles. O filme passou despercebido, sem maiores conseqüências para a sua carreira.
Em 1977 foi contratada pela TV Globo, para viver uma personagem inspirada nela própria, na novela “Espelho Mágico”, de Lauro César Muniz. A novela não alcançou grande sucesso de público e a estréia valeu como curiosidade na sua carreira. O sucesso começou a vir em “Sinal de Alerta” (1978), de Dias Gomes, e Vera Fischer começou a demonstrar um talento incipiente, mas em franca ascensão. Em 1980 viveu a primeira protagonista, em “Coração Alado”, novela de Janete Clair, culminando com a novela “Brilhante”, de Gilberto Braga, em 1981, onde vivia Luiza, personagem imortalizada na música homônima de Tom Jobim. Desde então Vera Fischer passou a ser uma atriz respeitada e admirada.
A atriz construiu uma carreira muitas vezes afetada pelos altos e baixos da sua vida pessoal, traduzida pelas drogas que consumia e por seus amores tempestuosos. Já foi demitida da televisão, perdeu a guarda do filho, teve internada em clínicas para desintoxicação, tendo a tudo superado, mantendo-se com grande prestígio, bons papéis e dona de uma beleza madura, que parece eterna, longe do crepúsculo dos anos.
Nesta fotografia de Antonio Guerreiro temos uma Vera Fischer extremamente jovem, vestida apenas por sua beleza, sem as marcas deixadas pelo tempo que moldam a personalidade e agregam o amadurecimento existencial. Traz um quase sorriso malicioso, diluído em uma inocência intimista. Guerreiro revela o momento exato em que o mito do cinema sensual dá passagem para a atriz personalizada. Luzes realçam os olhos e iluminam a delicadeza de uma beleza singular. Vera Fischer é aqui, o esboço do mito, é a mulher despida, maquiada pelas lentes da objetiva e pelas luzes do cenário. Sua beleza é o tema essencial da fotografia.

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MICHELANGELO BUONARROTI – A OBRA DA PERFEIÇÃO DA BELEZA

Junho 27, 2009
Ao longo da história da humanidade a arte andou sempre ao lado do homem, dando emoção e beleza ao cotidiano, não importando o século ou a tendência. A arte gerou muitos artistas através do tempo, mas poucos atingiram a grandiosidade de Michelangelo Buonarroti. Sua obra, de uma beleza estética perfeita, de genialidade e sensibilidade raras, constitui um precioso patrimônio da arte, sublimemente presenteada à humanidade.
De uma força humana avassaladora, as obras de Michelangelo atravessaram o tempo, cinco séculos passados, e continuam a fascinar o mundo inteiro. Suas estátuas atingiram a perfeição da beleza humana, que imóveis contemplam o mundo, como se a qualquer instante fossem falar. Sua pintura pulsa, como se tomada por uma força arrebatadora, encerrando em si, o drama do homem ante à vida, que se lhe mostra inquietante, bela, fiel à proposta do seu autor.
Michelangelo procurou, incansavelmente, atingir à beleza perfeita, à promessa do ideal grego de estética. Tinha uma obsessão latente pela beleza masculina, dilatando-a e explorando-a na mais completa tradução. Por fora o artista trazia cicatrizes no rosto e na alma. Adorador do belo, o mestre viu o seu rosto deformado após ser agredido por um dos seus desafetos. Viu o corpo envelhecer e definhar-se na longevidade de vida que alcançou, quase noventa anos de uma existência angustiada. Viveu dramas políticos e ideais insólitos, amou à terra natal, Florença. Entregou-se às paixões proibidas da sua homossexualidade latente, muitas vezes dilacerando os sentimentos para proteger-se do seu tempo. Michelangelo buscava as respostas das tormentas da sua alma, era um homem instável e de arroubos tempestivos. Quando penetrava dentro de si mesmo, transbordava obras definitivas, de um poder criador magnânimo. De uma inspiração sublime, deixou-nos a melancolia irremediável que emana da “Pietá”; da perfeição humana diante de um “David” fulgente; ou do Cristo vingador e triunfante do afresco da Capela Sistina do “O Juízo Final”. Da construção da catedral de São Pedro, encomendada pelo papa Paulo III, à tumba inacabada da família Médici, a obra de Michelangelo traz a grandeza apaixonante da saga humana, conflitante com a beleza dos corpos e as imposições da alma, dos costumes e de uma sociedade caminhante para a generosidade trágica do viver. Michelangelo deixou, através da sua obra, o retrato das suas angústias, revelado na beleza fascinante de um mundo convulsivamente humano.

Formação na Escola de Lourenço de Médici

Michelangelo Buonarroti nasceu em 6 de março de 1475, em Caprise, na província de Florença. Nasceu em uma família de linhagem aristocrática antiga em Florença. Seu pai, Ludovico di Lionardo Buonarroti Simoni, era um homem violento, fervorosamente religioso. Aos seis anos, Michelangelo perdeu a mãe, sendo cuidado por uma ama de leite.
Já na escola, Michelangelo demonstrava a sua aptidão para as artes, enchendo os cadernos de desenhos, desligando-se das matérias ensinadas. A postura rendeu-lhe a perseguição do pai e dos irmãos, que não suportavam a idéia de ter um artista na família. Por causa dos desenhos, foi muitas vezes espancado, ora pelo pai, ora pelos irmãos. Mas a sua obstinação pela arte foi mais forte e, aos treze anos, venceu à resistência paterna, ingressando como aprendiz, no estúdio de Domenico Ghirlandaio, em Florença.
Ghirlandaio era considerado um mestre da pintura de Florença. A permanência de Michelangelo em seu estúdio foi curta, durando apenas um ano. Os motivos da sua saída seguem duas vertentes narrativas, uma de que teria sido pelo artista considerar as aulas de pintura lentas e limitadas, de preferir a escultura à pintura; outra versão é de que movido pelo ciúme, Ghirlandaio afastou o seu aluno, ao perceber que os trabalhos deste eram melhores que os seus. Nenhuma das versões são confirmadas por documentos históricos.
Ao deixar Ghirlandaio e à sua pintura, Michelangelo entrou para a escola de escultura que o mecenas Lourenço de Médici, o Magnífico, rico senhor e protetor das artes, matinha nos jardins de São Marcos, em Florença. Lourenço de Médici interessou-se pelo talento do novo estudante, hospedando-o em seu palácio. Michelangelo encontrou-se com a plenitude do Renascimento italiano, vivendo em um ambiente de atmosfera erudita e poética, ao lado da elite nobre e intelectual de Florença. Seria no convívio do palácio dos Médici, que Michelangelo assimilaria os alicerces renascentistas que caracterizariam as suas obras, abraçando o apego à natureza e ao ideal do homem perfeito, que deveria ser belo, bom e verdadeiro. Surge o seu primeiro trabalho na pedra, trazendo adolescentes atléticos, de beleza impassível, como deuses olímpicos envolvidos na perfeição dos corpos. Ao produzir “O Combate dos Centauros”, Michelangelo demonstrava a obsessão que o perseguiria para sempre, a de arrancar corpos carnosos e vivos do mármore, projetando dimensões espetaculares. Michelangelo traduzia, desde o inicio, a sua paixão pela escultura.

Do Profano ao Sacro

Michelangelo sempre demonstrou uma inquietude latente, sem muita paciência para o que considerava medíocre. Sua genialidade destacava-o dos demais alunos dos jardins de Lourenço de Médici, o que lhe fazia tempestivo e sem cordialidade com os menos talentosos, a quem ironizava sem diplomacia alguma. O temperamento franco valeu-lhe o confronto com Torrigiano dei Torrigiani, um vaidoso e agressivo companheiro de escola, que ao ver o seu trabalho ridicularizado, desferiu um golpe tão violento no rosto de Michelangelo, desfigurando-o para sempre o nariz. Amante da beleza e da sua perfeição, a deformação no rosto atormentaria Michelangelo para sempre, sem que jamais pudesse deixar de arranhar a sua sensibilidade.
O apogeu renascentista de Florença sofreu um grande golpe, em 1490, quando o monge Savonarola começou uma inflamada pregação mística, apregoando o ascetismo religioso, condenando a arte profana e perseguindo aos seus adeptos. Para piorar a situação, Lourenço de Médici morreu, em 1492, forçando Michelangelo a deixar o palácio. A revolução fanática de Savonarola explodiu em 1494, obrigando o artista, um mês antes, a fugir para Veneza. Ele só retornaria a Florença na primavera do ano seguinte, encontrando um ambiente tomado pelo fervor religioso, assistindo à queima de livros e quadros considerados como vaidades ofensivas à religiosidade. A inquietação rebelde de Michelangelo, fez com que ele, neste ambiente hostil, seguisse na contramão dos preconceitos, esculpindo “Cupido Adormecido”, uma obra pagã.
Diante de uma atmosfera tão conservadora e de fanatismo religioso, Michelangelo deixou Florença, seguindo para Roma, onde esculpiria duas belas obras, “Baco Bêbado” e “Adônis Morrendo”. A lembrança de Florença e do seu esplendor na época de Lourenço de Médici jamais abandonaria o artista.
Com o tempo, Savonarola e os seus seguidores passaram de perseguidores a perseguidos. Em 1498, após desafiar o papa Alexandre VI, o monge é queimado em praça pública. Nesta época Michelangelo já se tornara um homem triste e melancólico, tristeza esta expressada na melancolia sem fim da figura da sua obra “Pietá”. Por um instante, ele deixou o profano, debruçando-se com maestria sobre um tema clássico e religioso. A alegria esvaída não invalida a beleza cada vez mais perfeita de uma obra que parece jamais deixar de atingir um apogeu a cada novo trabalho. Na época da criação da Pietá, ninguém acreditava que um artista tão jovem pudesse conceber uma obra tão intensa, talhada para ser uma das mais belas já produzidas sobre o tema. Um jovem que, precocemente, entristecera a sua alma, mergulhando em um trabalho a vislumbrar obsessivamente a perfeição.

Obras Perfeitas Arrancadas do Mármore

Mesmo com a morte de Savonarola, Michelangelo continuou em Roma, envolto cada vez mais em uma tristeza crônica e numa ansiedade de moldar obras grandiosas, de belezas perfeitas, arrancadas da frieza do mármore, convertidas em figuras pulsantes, quase vivas.
Na primavera de 1501 Michelangelo retornou a Florença, para executar a obra que refletiria o amadurecimento da sua arte. Tomou para si um imenso bloco de mármore abandonado há quarenta anos, pertencente à catedral da cidade. O bloco tinha sido entregue a Duccio, para que nele fosse talhada a figura de um profeta, mas o escultor morrera repentinamente. Michelangelo trabalhou no bloco, modelando a grandiosidade da sua obra monumental. Usou a sua força física, com golpes intensos de martelo, que deixavam o mármore aos poucos, tomar forma de um homem perfeito, de plena exuberância das suas formas, surgia “David”, jovem e vigoroso a vencer o gigante Golias.
A estátua colossal deslumbrou uma comissão de artistas, que incluía Botticelli, Leonardo da Vinci, Perugino e Pilippino Lippi. Cercado pelo fascínio de todos, Michelangelo explicava a sua técnica diante do mármore bruto e da concepção da figura: “A figura já está na pedra, trata-se de arrancá-la para fora.
Ao ser questionado onde que se iria pôr a estátua de David, Michelangelo foi categórico, deveria ficar na praça central de Florença, a Piazza Della Signoria (Praça da Senhoria), em frente ao Palazzo Vecchio (Palácio Velho). Assim foi feito, a estátua ficou neste local de 1504 até 1873, quando foi transferida para a Galleria dell’Accademia, protegendo-a da depredação dos ataques constantes do povo, que consideraram a nudez do David um atentado à moral.

Encontro com o Papa, em Roma

Após o término da estátua colossal de David, concluída em 1504, Michelangelo retornou a Roma, em 1505, chamado pelo papa Júlio II. O pontífice encomendou-lhe um mausoléu monumental, digno da época áurea da Roma Antiga. Entusiasmado, o mestre partiu para Carrara, onde ficou oito meses, a conceber o projeto e a escolher o mármore que nele iria usar. Enormes blocos de pedra foram enviados para Roma, acumulando-se na Praça de São Pedro. Um desentendimento do escultor com Júlio II, fez com que este suspendesse a obra, em janeiro de 1506. No lugar do mausoléu, o papa decidiu reconstruir a Praça de São Pedro, sem consultar Michelangelo. O artista sentiu-se humilhado, além de ter ficado endividado. Sem alternativas, Michelangelo voltou para Florença.
A reconciliação com Júlio II viria algum tempo depois, quando este lhe encomendou uma estátua de bronze para a fachada da Igreja de São Petrônio, em Bolonha. Michelangelo protestou, pois não tinha técnica com o bronze, mas Júlio II insistiu no capricho, e durante quinze meses, o artista trabalhou arduamente na estátua, que seria erigida em 1508. A estátua de bronze de Júlio II teve apenas quatro anos de vida, sendo destruída, em dezembro de 1511, por políticos inimigos do papa, sendo o material usado para a construção de um canhão.
Ao voltar a Roma, Michelangelo teve, mais uma vez um pedido que não lhe agradou, vindo de Júlio II, o de decorar a abóbada da Capela Sistina. O artista menosprezava a pintura, não escondendo a sua paixão pela escultura. Tentou declinar da encomenda do papa, vociferando: “Não sou pintor, sou escultor.” Mas não conseguiu desvencilhar-se do trabalho e dos caprichos do papa. No dia 10 de maio de 1508, ele começou a produzir uma das mais grandiosas obras da sua autoria e da humanidade, os afrescos da Capela Sistina.

Michelangelo Pinta os Afrescos da Capela Sistina

Michelangelo dispensou os pintores que lhe haviam sido dados como ajudantes. Sozinho, começou a executar um trabalho fustigante, que lhe consumiria a alma e a saúde. Tornou-se herói de si mesmo, numa luta árdua entre a sua intuição criativa, a reprodução da criação e os limites do corpo e da existência. Michelangelo mergulhou nas entranhas da sua inspiração, arrancando dela um vasto cenário da existência do homem, com as suas tragédias, esperanças e promessas eternas. Mais do que decorar uma abóbada, ele retratou a própria humanidade, desde o princípio da criação às profecias da existência.
Michelangelo sofreu todas as vicissitudes de quem estava disposto a erigir uma obra grandiosa. Decidiu pintar não só a abóbada da capela, como às suas paredes. O trabalho era lento, exaustivo, quase imperceptível em seu avanço, o que fez com que Júlio II não lhe pagasse um tostão por mais de um ano. Michelangelo foi atormentado pela falta de dinheiro. Sofreu com a cobrança constante de Júlio II, que lhe perguntava, impacientemente, quando teria a capela pronta, aa que ele respondia com ironia: “Quando eu puder!”. Os momentos de tensão foram tão intensos entre dois, que o artista chegou a ser agredido pelo pontífice com golpes de bengala. Diante das animosidades, Michelangelo tentou fugir de Roma, mas foi impedido pelo papa, que lhe pediu desculpas e mandou que lhe fosse entregue a quantia de quinhentos ducados.
Após longos quatro anos de agonia, sofrimento e criatividade única, Michelangelo concluiu a sua obra. No dia 2 de novembro de 1512, o artista retirou os andaimes que encobriam a perspectiva total da obra, permitindo a presença do papa à capela, para que pudesse ver o resultado. A pintura trazia toda a trajetória humana, guiada pela plenitude do Criador. Trezentos personagens do Antigo Testamento desfilavam pela abóbada da capela, de 40 metros de largura por 13 de altura. Figuras dramáticas moviam-se em multidão, umas sentadas, outras que flutuavam. Michelangelo retratava Deus com um corpo vigoroso e retorcido, retesado no ato de criação do universo, a dar o toque vivificador, com a ponta do dedo, em Adão, primeiro ser vivente. Assim, os afrescos traziam os episódios do Gênesis, “A Criação”, “O Pecado” e o “Dilúvio”, acompanhados dos profetas. Nos quatro ângulos, reproduzia a libertação de Israel: a “Serpente de Bronze”, os “Triunfos de David”, “Judite” e “Ester”. Júlio II foi o primeiro a ter a visão de um esplendor criativo de beleza e genialidade jamais pensadas até então, imagem que conquistaria milhões de visões por mais de cinco séculos, atraindo e fascinando pessoas de todas as raças, credos e ideologias.

Esplendor nas Estátuas dos Mausoléus

Após quatro anos de sofrimentos, Michelangelo pôde, finalmente, sentir-se um vencedor diante da excepcional obra da Capela Sistina. Pôde respirar um pouco e descansar o corpo e a sua angústia existencial.
Mas o descanso durou pouco. Com a morte de Júlio II, em fevereiro de 1513, o artista assinou um contrato com a família do papa para executar, em sete anos, o antigo projeto do seu mausoléu. A obra final teria 32 grandes estátuas, constituindo o projeto que Michelangelo mais amou fazer. Logo criou a primeira estátua, “Moisés”, em cujos traços insinuou a fisionomia do papa. “Moisés” é considerada a mais perfeita obra de escultura de Michelangelo. Além desta figura, esculpiu para o mausoléu de Júlio II os dois célebres “Escravos”. Infelizmente a obra ficou inacabada. Sobre ela, Michelangelo falou, quando tinha 67 anos de idade: “Acho que perdi toda a minha juventude ligado a ela.
Michelangelo voltaria a ser chamado pelo papa Clemente VII, para um novo trabalho grandioso, construir a capela e a tumba dos Médici, em Florença. Para executar o trabalho, receberia uma pensão três vezes superior a que ele pedira. Assim, de 1523 a 1531, Michelangelo esculpiu as estátuas de Juliano e Lourenço de Médici, que alegoricamente representavam a Ação e o Pensamento, e as quatro sombrias estátuas de base, “O Dia”, “A Noite”, “A Aurora” e “O Crepúsculo”. Durante este período, Michelangelo interrompeu o trabalho em 1527, quando eclodiu uma guerra contra os Médici, em Florença e o artista ajudou os rebeldes, projetando a defesa da cidade, atitude que o fez fugir para Veneza. Restabelecida a paz, foi perdoado por Clemente VII, e voltou a trabalhar nas estátuas com furor. As obras do mausoléu dos Médici são magníficas, elas refletem a amargura, a perda da juventude e a melancolia calcada na alma do artista ao longo dos anos, das perdas e dos amores diluídos nas mentiras dos preconceitos.

O Juízo Final de Michelangelo

Com a morte de Clemente VII, em 1534, Michelangelo deixou Florença. O ódio que o Duque Alexandre de Médici lhe dedicava, impediria-o de retornar a Florença, sem que jamais pudesse rever à terra natal.
Após vinte anos de ausência, Michelangelo regressou a Roma, onde viveria até a sua morte. Era um homem de quase 60 anos, longe da juventude e sem saúde. Vivia amargurado, numa solidão cortante, sem a vitalidade e o prazer que dantes retirava da criação da sua arte.
Em Roma, travou amizade com Tommaso dei Cavalieri e com a Marquesa Vittoria Colonna, que lhe deu um certo alento diante da solidão à qual agarrara-se com fervor. Foi neste período que aceitou a oferta do papa Paulo III, que o nomeou, em 1535, arquiteto-chefe, escultor e pintor do palácio apostólico, passando a idealizar um novo planejamento para a Colina do Capitólio, em Roma, obra que jamais concluiu.
Sob o pontificado de Paulo III, Michelangelo pintou, entre 1536 e 1541, um grande afresco na parede do altar da Capela Sistina, o “Juízo Final”. Na obra, um belo e vigoroso Cristo aparece no plano superior, ladeado pelos escolhidos, trazendo consigo a vingança implacável contra os seus inimigos, Maria, assustada, não ousa a contemplar a cena; os anjos travam uma luta imarcescível contra os condenados. No plano inferior, os que não se salvaram caem nos domínios infernais. Todos os movimentos da humanidade estão retratados neste afresco, feito para ser um retrato religioso, mas que traz um sabor profano, já que o autor só pintou nus. Este fato causou tanta polêmica, que se chegou a cogitar a destruição da obra, pensada pelo papa Paulo IV. Felizmente, o pontífice decidiu-se por mandar o pintor Daniel de Volterra obscurecer os órgãos dos nus mais ousados. Só em 1993, quando o afresco foi restaurado, que a nudez original voltou a imperar, deixando algumas figuras ainda cobertas como registro histórico.
Cansado e envelhecido, Michelangelo continuou a esculpir obras, mesmo já avançado na idade. Durante toda a vida foi perseguido pela família de Júlio II, que através de inúmeros contratos assinados, exigiam o término do seu mausoléu. A obra, jamais acabada, consumiu anos do artista.
No fim da vida, Michelangelo voltou-se para o misticismo religioso, negando o mundo e o profano, perdidos no tempo, como a sua juventude. Passou os últimos anos a dedicar-se às cenas da paixão de Cristo. Aos 88 anos, elaborava uma nova “Pietá”, mas uma doença prendeu-o definitivamente à cama, onde se iria definhar. No leito de morte, ditou com absoluta lucidez, um comovente testamento, pedindo para regressar, ainda que morto, à Florença, sua terra natal, inesquecível palco da sua juventude e aprendizado. Em 18 de fevereiro de 1564, Michelangelo doou o seu corpo à terra e a alma a Deus, morrendo em Roma. Homem feio, de rosto desfigurado, Michelangelo reproduziu externamente a beleza que tinha interiormente, transformando as dores humanas em um idílio visual. Além de pintor e escultor, era um poeta, registrando em seus poemas uma sublime linguagem homoerótica. Viveu imerso nas angústias e no trabalho, próximo da morte registrou em um poema: “Na verdade, nunca houve um só dia que tenha sido totalmente meu”. Os dias de genialidade criativa de Michelangelo foram doados à humanidade, através da beleza universal das suas obras.


JAMES BOND – DAS PÁGINAS LITERÁRIAS PARA O CINEMA

Junho 25, 2009
Há quase seis décadas que a personagem fictícia James Bond, agente secreto britânico, conhecido pelo código 007, vem conquistando legiões de fãs pelo mundo inteiro. Criado pelo escritor britânico Ian Fleming, James Bond surgiu pela primeira vez, na novela “Cassino Royale” (Casino Royale), publicada em 1953. Em 1962, James Bond chegou ao cinema, através do filme “O Satânico Dr. No” (Dr. No), transformando-se em um ícone das galerias dos heróis do mundo contemporâneo. Desde então, as suas aventuras jamais deixaram as telas de cinema, sendo interpretado por diferentes atores.
O sucesso literário e cinematográfico transformou a personagem em uma grande franquia. Mesmo após a morte de Ian Fleming, as suas aventuras continuaram a ser escritas por vários escritores. No cinema , a franquia continua a produzir grandes sucessos, sem arranhar a imagem do agente secreto, ou mesmo levá-la ao desgaste, façanha só possível pela genialidade criativa dos roteiros e a renovação constante dos intérpretes.
James Bond fascina pela inteligência e astúcia, charme carismático, aventuras perigosas e exóticas, pelas conquistas às mais belas mulheres. De humor sagaz e cavalheirismo incondicional, James Bond é fruto da Guerra Fria. Suas aventuras eram construídas na eterna luta ideológica entre o ocidente e a extinta União Soviética. Cabia a ele, sempre a serviço da rainha da Grã-Bretanha, de quem era súdito devotado, salvar o seu país e o mundo dos tentáculos dos espiões vindo do leste, do perigo comunista sobre o mundo capitalista e, principalmente, da paranóia iminente que assolava a mente de todos, trazendo o medo de uma guerra nuclear entre as potências antagônicas que desenharam os campos de batalhas da Guerra Fria. Por várias vezes James Bond, sozinho, salvou o mundo de uma catástrofe nuclear ou de tramas de espiões sem escrúpulos. Herói absoluto, deveu-se a ele a sobrevivência dos sonhos burgueses do mundo ocidental, e mesmo, da sobrevivência de regimes seculares, como o do Império Britânico.
Com a queda do muro de Berlim, em 1989, e o fim da Guerra Fria, James Bond parecia destinado a pedir a aposentadoria, e ser esquecido diante da globalização. O cinema levou quase meia década para criar fôlego e fazer dele um sobrevivente da extinção da Guerra Fria. Após a queda do regime dos países do leste europeu, 007 só voltaria às telas em 1995; revigorado e pronto para salvar o mundo dos novos inimigos, os terroristas, os detentores das tecnologias daninhas, enfim, os sucessores dos comunistas. Ainda há muitos perigos que ameaçam a segurança da existência humana no planeta, o mundo está longe de ser perfeito, e 007, com a sua sedução e charme, continua a aparar as arestas dessas imperfeições, salvando sozinho, o planeta, os seus governos e habitantes.

James Bond Torna-se o Agente 007

A saga de James Bond começou através de livros de bolsos, da autoria de Ian Fleming, publicados na Grã-Bretanha na década de 1950. Desde a publicação de “Cassino Royale”, em 1953, as aventuras do agente secreto caíram no gosto dos britânicos, fazendo muitos adeptos desta leitura.
Em seus livros, Ian Fleming descrevia James Bond como um homem viril, moreno, alto e de porte atlético, olhar penetrante e de carisma sedutor. Personagem contemporâneo, tinha entre 33 a 40 anos (quando do lançamento do livro, em 1953), o que se deduz ter nascido em 1920. As datas dão o perfil da personagem de Fleming, nascido após a Primeira Guerra Mundial, passará a infância no prelúdio de paz entre as guerras. Desaguou a juventude na Segunda Guerra Mundial, conflito que deixou profundas feridas na Grã-Bretanha. O pai trabalhava para um fabricante de armas, o que revela os meandros sombrios antes da guerra. Além de vender armas, o pai de Bond gostava de aventuras, sendo morto em um acidente, quando escalava montanhas com a Sra. Bond, uma mulher nascida na Suíça. A origem escocesa do pai de Bond, reza a tradição, teria sido uma homenagem de Fleming a Sean Connery, o primeiro ator a interpretar James Bond no cinema, nascido na Escócia.
Órfão aos onze anos, James Bond passaria por várias escolas tradicionais da Inglaterra, tendo alistado-se na Marinha Real durante a Segunda Guerra Mundial. Este fato reforça a data do seu nascimento citada acima. Será na marinha que Bond ascenderá ao posto de comandante. A passagem de Bond pela Marinha Real não deixa de ser uma lembrança romanceada da vida do próprio Ian Fleming, que teve as carreiras de jornalista e diretor interrompidas pela guerra, fazendo-o parte da reserva de voluntários da Marinha Real, em 1939. Mais tarde, exerceu um cargo administrativo na Inteligência Naval, onde realizava, algumas vezes, missões de campo, como invadir locais para fotografar documentos importantes. Tais experiências foram fundamentais para inspirar Fleming na criação da personagem de James Bond.
Uma outra peculiaridade que diz respeito a James Bond, seria a sua iniciação sexual, aos dezesseis anos de idade, quando perdeu a sua virgindade em Paris.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo foi divido entre duas potências, as ocidentais capitalistas lideradas pelos Estados Unidos e Europa Ocidental, e as comunistas, lideradas pela União Soviética. É neste período que James Bond passará a trabalhar para o Serviço Secreto de Inteligência Britânico (SIS, em inglês), fazendo parte dos serviços de espionagem da Sexta Divisão do Diretório da Inteligência Militar, o MI-6. Feito agente secreto, teve como primeiras tarefas o assassínio de inimigos da Inglaterra, o que lhe deu a designação permanente de agente 00, com licença para matar. Como era o sétimo agente, passou a ser conhecido pelo código 007.

Paralelo Entre James Bond e Ian Fleming

O nome James Bond não foi uma criação original da mente genial de Ian Fleming. Na biografia do autor, reza a tradição que James Bond era como se chamava o autor de “Birds of the West Indies”, livro predileto da esposa de Ian Fleming, e, que falava sobre a ornitologia dos anos 1950. No filme “Um Novo Dia Para Morrer” (Die Another Day), de 2002, há uma alusão ao fato, James Bond (Pierce Brosnan), em uma cena, segura o livro nas mãos.
Após o lançamento de “Cassino Royale”, em 1953, Ian Fleming escreveu anualmente, até a sua morte, quatorze livros tendo James Bond como protagonista, sendo doze novelas completas e dois livros de contos.
Muitas evidências fazem da personagem uma versão romanceada da vida do autor, acrescida de outras pessoas conhecidas. Nomes que se tornaram ícones do universo de James Bond são comuns na biografia de Fleming. Um exemplo era a sua casa na Jamaica, onde se refugiava para escrever os livros com as aventuras de 007, chamada de “GoldenEye”, nome utilizado pelo cinema no filme de 1995, que marcou a estréia de Pierce Brosnan como o quinto James Bond.
Ter um destino aventureiro sempre acompanhou a vida de Ian Fleming. Não se furtou às aventuras quando saiu da marinha, escalando montanhas, nadando com Jacques Cousteau, esquiando, sendo repórter e organizando expedições com amigos para lugares exóticos. Aventuras refletidas nas páginas que desvendavam 007, e as suas missões ao redor do mundo, em lugares exóticos, perigosos e paradisíacos. De Paris à Índia, de Tóquio ao Azerbaijão, passando por ilhas vulcânicas, James Bond percorreu o mundo para viver as suas aventuras, assim como o seu criador, Ian Fleming.
O James Bond dos livros de Ian Fleming traz uma atmosfera mais obscura, com uma visão mais realista da vida, distanciando-se da petulância e charme espontâneo da personagem vista no cinema. Traz um corpo atlético, complementado com as suas perícias em artes marciais. O Bond das páginas dos livros gosta de beber vodka e martini batidos, jamais mexido; não dispõe das grandes armas e dos complementos tecnológicos e científicos dos filmes, utilizando principalmente, a inteligência; é um exímio atirador e, apesar de não gostar de matar, não se sente intimidado ou arrependido quando o tem que fazer, cumprindo sem traumas ou complexos, às missões em que tem a licença para matar.

Os Livros de James Bond Escritos por Outros Autores

Foi na sua casa na Jamaica, que Fleming escreveu “Cassino Royale” e todos os livros com as aventura de Bond. Ali, retirava-se uma vez por ano para criar uma nova aventura do agente secreto mais famoso do mundo. Assim seria até 1964, quando Fleming morreu, vitimado por um ataque cardíaco. Tinha deixado doze livros. Após a sua morte, seus herdeiros publicaram dois livros sobre James Bond, “O Homem com Revólver de Ouro” (1965) e o livro de contos “Octupussy and The Living Daylights” (1966).
Com a morte de Ian Fleming, 007 tornou-se uma personagem de franquia. Seus herdeiros deram licença para que outros escritores criassem novos livros com as aventuras de James Bond. Assim, Kingsley Amis, amigo de Fleming, escreveu, sob o pseudônimo de Robert Markham, “Colonel Sun”, em 1968. Em 1973, John Pearson fez um livro como se fosse uma biografia do agente secreto, “James Bond: The Authorised Biography of 007”. John Edmund Gardner tomaria para si a missão de manter as aventuras de Bond, escrevendo quatorze livros de 1981 a 1996, aposentando-se por problemas de saúde. Raymond Benson deu seqüência à saga, escrevendo seis novelas e três contos, publicados em nove livros, de 1997 a 2002. Em 2008, devido às comemorações do centenário do nascimento de Ian Fleming, foi autorizado um novo livro sobre James Bond, escrito por Sebastian Faulks, “A Essência do Mal”, lançado em maio de 2008.

Os Vilões e os Aliados

O mundo que James Bond transita é complexo, movido pelos meandros dos jogos políticos e da espionagem estratégica. A vida do agente secreto é entrelaçada às missões e a diversas personagens, entre elas os aliados de trabalho, os mais temíveis vilões e as mais belas mulheres.
Se James Bond é um espião especial, além do comum, os seus inimigos ou aliados, não lhe ficam atrás. Entre os vilões mais expressivos, inesquecíveis do imaginário de 007, podemos destacar:
Ernst Stavro Blofeld – Líder da organização SPECTRE (Executiva Especial para Contra-Inteligência, Terrorismo, Vingança e Extorsão), sonha em dominar o mundo. É um homem calvo, com uma grande cicatriz na face. Apesar de uma fisionomia invulgar, Blofeld é mestre em disfarçar o rosto com maquilagens, máscaras, e até cirurgias plásticas. É reconhecido pelo seu apego a um gato persa. Foi este vilão o responsável pela morte de Tereza di Vicenzo, única mulher de James Bond.
Dr. Julius No – Cientista especializado em bombas atômicas, não possui as mãos, perdidas em um acidente.
Auric Goldfinger – Um dos mais cruéis vilões da saga de 007. É um reles contrabandista internacional e, simultaneamente um membro da SMERSH, uma agência de espionagem russa. Ao contrário dos agentes ocidentais, fiéis ao governo do seu país, os vilões comunistas das aventuras de Bond vendem a fidelidade à pátria pelo poder e glória do dinheiro. Goldfinger é obcecado por ouro e tem como comparsa o terrível Oddjob.
Max Zorin – É um perverso psicopata criado com a engenharia genética.
Dente de Aço – Um dos inimigos mais exótico e perigoso, dono de uma força incomum e ferocidade exacerbada. Traz dentes de aço na boca.
006 – Antigo agente do MI-6, que se vendeu para os inimigos da Rainha, traindo o seu país e os companheiros. Tornou-se um grande inimigo de 007.
Deixando os inimigos, vamos encontrar diversos aliados, cada um mais especial do que o outro, dotados de inteligência e segurança complementar, que ajudaram Bond a concretizar positivamente as suas missões. Entre os principais aliados estão:
M – Chefe do MI-6. Durante as aventuras de Bond, ele já trabalhou com vários Ms, que já foi um homem, outras vezes uma mulher. Trazem sempre o mesmo perfil, admiram James Bond, apesar de achá-lo frívolo e irresponsável em sua vida e hábitos pessoais.
Q – Chefe do Escritório Q, a divisão de pesquisa, tecnologia e desenvolvimento do MI-6. Q era o responsável pelos artefatos geniais que James Bond utilizava em suas missões. Ele sempre reclamava ao agente, para que não estragasse os seus sofisticados, caros e originais experimentos, no que nunca foi atendido. Durante anos Q foi único, só sendo substituído após a sua morte, por seu assistente R.
Money Penny – Assistente direta de M, é uma mulher recatada, embora fascinada por James Bond e por suas aventuras com as mulheres. Está sempre a duelar e flertar verbalmente com 007, mas nunca ultrapassa os limites de colega de trabalho do agente, exercendo com eficácia as suas obrigações profissionais.
Felix Leiter – Principal ajudante de Bond em suas missões de campo, tendo prestado os seus auxílios ao agente em cerca de oito missões.

James Bond no Cinema

Quando saltou das páginas dos livros para o cinema, James Bond tornou-se a personagem mais duradoura e de sucesso da sétima arte, constituindo uma mítica com várias tradições, exigidas sempre pelos milhões de expectadores que formam o seu público por todo o mundo.
A primeira aparição do agente secreto 007 diante de uma câmera foi numa fracassada série de televisão, que não passou do piloto. “Cassino Royale”, baseado no livro de Ian Fleming, foi produzido em 1954, pela CBS, tendo Barry Nelson como James Bond.
Em 1962, Ian Fleming teve o seu agente secreto adaptado para o cinema. Produzido por Harry Saltzman e Albert Broccoli, “O Satânico Dr. No” (Dr. No), estreou com grande sucesso. Trazia Sean Connery como James Bond, a personagem colar-se-ia a pele do ator, estigmatizando-o por quase uma década. Os produtores eram donos da produtora EON (Everything or Nothing), mediante o sucesso do primeiro filme, tornaram-se detentores dos direitos cinematográficos de quase toda a obra escrita por Ian Fleming. Os filmes de James Bond produzidos pela EON são os únicos considerados oficiais. Apenas três filmes não foram produzidos por esta produtora, sendo classificados como não oficiais: “Cassino Royale”, piloto para a televisão, feito pela CBS. Em 1954; “Cassino Royale”, uma paródia de 1967, e, “Nunca Mais Outra Vez”, de 1983, refilmagem de “007 Contra a Chantagem Atômica”.
Albert Broccoli e Harry Saltzman já são falecidos. Em 1975, Saltzman abandonou a franquia dos filmes. A filha de Albert Broccoli (falecido em 1996), Barbara Broccoli, e o seu meio irmão, Michael G. Wilson, passaram a produzir os filmes de James Bond a partir de 1995.
Desde a estréia no cinema, James Bond foi interpretado, nos filmes oficiais, por seis atores diferentes: Sean Connery (1962-1971, com intervalo em 1969), atuou em seis filmes (o sétimo, em 1983, não pertence aos filmes oficiais).; George Lazenby (1969), atuou em apenas um filme; Roger Moore (1973-1985), atuou em sete filmes, sendo o que ficou mais tempo a viver a personagem; Timothy Dalton (1987 – 1989), fez apenas dois filmes; Pierce Brosnan (1995-2002), atuou em quatro filmes; e, Daniel Craig, interpretando o papel desde 2006, já com dois filmes feitos. De Sean Connery a David Craig, cada ator adaptou a imagem e o corpo de James Bond ao tempo em que o interpretaram, sem jamais perder a essência do seu charme sedutor.
Houve ainda, a atuação de David Niven, em “Cassino Royale”, como James Bond, em 1967, produção que não faz parte dos filmes oficiais. Ironicamente, David Niven era o ator que Ian Fleming queria para interpretar a personagem por ele criada, devido ao seu porte de eterno cavalheiro.

Características Imprescindíveis dos Filmes de James Bond

Quando lançado, em 1962, “O Satânico Dr. No”, o primeiro filme de James Bond, teve uma aceitação instantânea. Aconteceu no ano em que a Guerra Fria quase chegou a uma catástrofe nuclear, com a crise deflagrada entre os Estados Unidos e a União Soviética por causa dos mísseis de Cuba. Nada mais oportuno do que um filme no qual o herói salvava o mundo do perigo atômico. Sean Connery, até então, um ator pouco conhecido, foi transformado em um ícone do cinema dos anos 1960.
A euforia causada pelo primeiro filme, moldou as características que os todos os outros viriam ter, tornando-se imprescindível sofisticá-las, sem nunca abandoná-las.
A primeira marca da filmografia de 007 vinha logo na abertura do filme, com uma vinheta inovadora, que apresentava dentro de um círculo James Bond de perfil, caminhando tranqüilamente, a vestir elegantemente um terno e a trazer um chapéu. De repente ele saca de uma arma, olha de frente e atira, sendo a imagem coberta por um efeito gráfico de uma cor vermelha. Esta vinheta persiste até os dias atuais. George Lazenby é o único que ao virar-se de frente, ajoelha-se e atira. James Bond perde o chapéu em 1973, com Roger Moore. Pierce Brosnan caminha mais apressado, fica totalmente ereto, sem arquear as pernas quando atira. O desenho gráfico da vinheta alterou-se significativamente com Daniel Craig.
Um filme de James Bond traz sempre uma ação acelerada, que após a vinheta, inicia-se veloz, com perseguições e saltos ousados, mostrando 007 a safar-se de um grande perigo, antes de desaguar na bela canção de apresentação dos créditos. O agente secreto salta do alto de montanhas, dos prédios, combate corpo a corpo, escapa aos tiros, tem pontaria certeira quando acossado pelo inimigo, com saídas espetaculares de último instante, ajudado por um artefato tecnológico de Q (ou R), dado logo no início. Combates mortais, perseguições de automóveis, barcos ou aviões, tudo serve para manter a tradição da ação. Bond é capaz de destruir toda uma cidade dentro de um tanque, e sair penteado, elegante, sem um arranhão ou poeira que lhe venha a ofuscar o charme.
A beleza visual reflete-se nos ternos elegantes que o agente usa, nos carros de luxo que ele dirige, que podem ser uma Ferrari ou uma Lótus Esprit. Dirige por estradas sinuosas e de belas paisagens, como as da riviera francesa e italiana, ou por exóticos locais tropicais. Freqüenta luxuosos hotéis e cassinos, assim como praias de raras belezas. Esteticamente, tudo é belo nos filmes de James Bond, das roupas ao agente, dos locais às mulheres. Só os vilões são feios, mas exóticos.
James Bond não se preocupa com a política ou com as ideologias do mundo, tem apenas que cumprir a missão para a qual foi destinado, fazendo-o com um humor sofisticado e irônico, fundamental para a composição do seu caráter. É sedutor e lânguido, causando impacto nas mulheres que conquista, com insinuações sexuais verbais, sem nunca ter cenas mais quentes de sexo e nudez, tudo é sugerido, jamais explorado explicitamente.
Além dos vilões exóticos e aliados eternos, um verdadeiro filme de James Bond traz a sua opositora, aquela que lhe fará tremer, causando-lhe grandes problemas quando estiver irremediavelmente atraído por ela. É a bond-girl, com quem o herói dividirá a aventura e o romance do filme. Ser uma bond-girl traz sempre prestígio para a atriz que a interpreta, o que suscita grande expectativa diante da escolha de uma intérprete, sendo tão importante quanto à escolha do próprio ator que viverá um novo James Bond. A bond-girl será o elo do agente secreto com a sensibilidade, tornando-o terno e apaixonado. As mais famosas bond-girls foram vividas pelas atrizes: Ursula Andress, Diana Rigg, Jane Seymour, Honor Blackman, Kim Basinger, Barbara Carrera, Mary Stavin, Maryam D’Abo, Halle Berry e Teri Hatcher.
As trilhas sonoras dos filmes de James Bond constituem grandes momentos, principalmente com a canção tema, que gerou clipes míticos, muitos inesquecíveis.

Os Intérpretes de James Bond

Sean Connery foi o primeiro a interpretar James Bond. Ian Fleming era contra que o ator fizesse o papel, vendo no britânico David Niven, o ator perfeito para dar rosto à personagem que criara nos livros. Sean Connery, um ator escocês, trazia uma sensualidade máscula que sabia impregnar muito bem na composição de James Bond. Foi a personagem de Fleming que fez de Sean Connery um astro. A vinculação da imagem do ator com a da personagem limitou, por muitos anos, que ele representasse papéis diferentes. Sean Connery, que tinha maiores ambições para a sua carreira, sentiu-se incomodado em fazer sempre a mesma personagem. Após fazer cinco filmes, ele deixou a série, sendo substituído por George Lazenby, em 1969. O público rejeitou o novo intérprete, e Sean Connery voltou a interpretar 007 em 1971, no mítico “Os Diamantes São Eternos”. Após o filme, deixou de vez a pele de James Bond, prometendo não mais interpretá-lo. Sean Connery tornou-se o intérprete de James Bond mais cultuado pelos fãs, que não se conformavam por ele ter abandonado a série. Em 1983, voltaria a viver, pela sétima vez, James Bond, no filme “007 – Nunca Mais Outra Vez” (Never Say Never Again), o título era um trocadilho irônico com as palavras de Sean Connery, que no passado tinha dito, “nunca mais” a James Bond. Nada mais era do que uma nova versão de “007 Contra a Chantagem Atômica” (Thunderball), que o próprio Connery protagonizara, em 1965. Esta volta atendeu a uma grande expectativa dos fãs. O filme não foi produzido pela EON, sendo considerado apócrifo à série, tendo, na época, gerado grande polêmica por causa dos direitos autorais. A imagem envelhecida de Sean Connery, o ator já estava calvo, tendo que usar peruca, quase arranhou a mítica que se gerara ao seu redor como o intérprete favorito de James Bond. Desde então, jamais se pediu para que o ator voltasse a viver James Bond. O tempo e a idade, convenceram os fãs de James Bond-Sean Connery, de que era hora de aposentá-lo. O agente secreto de Sean Connery era bem próximo à personagem descrita nos livros de Ian Fleming, com a exceção do humor que o ator emprestou ao agente, tornando-o menos obscuro.
George Lazenby, um ator australiano, foi escolhido para substituir Sean Connery, em 1969, no filme “007 a Serviço Secreto de Sua Majestade” (On Her Majesty’s Secret Service). O ator tinha na bagagem apenas um filme italiano desconhecido e algumas aparições em comerciais de televisão. Foi escolhido pela semelhança com Sean Connery, que vista à luz do tempo, é praticamente inexistente. Acostumados com o James Bond de Connery, os fãs de 007 rejeitaram George Lazenby, ridicularizando-o. O ator, segundo algumas versões, não quis fazer o filme seguinte, alegando que James Bond era anacrônico diante do mundo que se desenhava, como o do festival de Woodstock, ou ainda, estaria preso a um contrato de quatorze filmes, e não queria viver a mesma personagem tantas vezes . Outra versão, a mais aceita e comentada, aponta para os produtores, que não ficaram satisfeitos com o resultado de bilheteria alcançado pelo filme, dispensando o ator logo a seguir. George Lazenby desapareceu do mundo do cinema desde então, destacando-se em papéis pouco marcantes na televisão. Apesar de ser o James Bond menos apreciado pelos fãs, a interpretação de George Lazenby é perfeita, em um filme demasidamente longo, mas com uma das melhores histórias de James Bond no cinema.
Roger Moore, em 1973, assumiria o papel de James Bond, sendo o interprete que demorou mais tempo a viver a personagem. Há versões de que Moore era o ator cotado para interpretar James Bond antes da escolha recair sobre Sean Connery, em 1962, mas ele, por compromissos com outros trabalhos, não pôde aceitar na época. O ator tirou a ironia impregnada por Sean Connery ao agente de sua majestade, transformando-o em um homem mais bondoso, com uma atmosfera de maior felicidade. Perdeu um certo cinismo insinuante do primeiro intérprete de 007. O longo tempo que Roger Moore interpretou James Bond, até 1985, deixou marcas indeléveis na personagem, provocando-lhe um desgaste na imagem, que perdia o prumo diante do envelhecimento a olhos vistos do ator. Roger Moore deixou a série aos 58 anos de idade, o que roubou todo o frescor juvenil da personagem. Nesta época os efeitos especiais sofisticavam-se, e com eles, a ousadia dos roteiros, como utilizar mais elementos da ficção científica. 007 entrou, na época, no mundo das aventuras espaciais, seguindo a tendência do mercado de filmes da segunda metade da década de 1970.
Timothy Dalton tornou-se, em 1987, o quarto James Bond. O ator tirou as rugas da personagem, impregnadas por Roger Moore e Sean Connery, na sua volta em 1983. Era a volta às origens literárias de James Bond, visto que Roger Moore descaracterizara-o ao viver aventuras cada vez mais distantes das propostas por Ian Fleming. Timothy Dalton, um ator britânico de formação shakespeareana, era um profundo conhecedor da obra de Fleming, o que lhe ajudou na composição da personagem. Num primeiro plano, o ator deu uma lufada na imagem de Bond, emprestando-lhe um certo aspecto sombrio e cínico. Estreado em 1987, “007 Marcado para a Morte ” (The Living Daylights), deparava-se com a época em que o mundo era assolado pela calamidade da Aids, doença que ainda não tinha tratamento e ceifava milhares de vida. Para seguir uma linha politicamente correta, o filme trazia um 007 menos envolvido em aventuras amorosas promíscuas. Poucas insinuações ao sexo foram feitas, pois o lema do momento era ser mais fiel, pois a Aids existia. Timothy Dalton atuou em dois filmes, sendo o segundo, de 1989. Foi nesta época que a Perestroika começava a fazer ruir o império soviético, cair muro de Berlim e extinguir a Guerra Fria. Os novos ventos da história traziam 007 de volta ao ocidente, sem função, praticamente aposentado, não havia mais comunistas para combater. Os filmes do agente ficariam parados por seis anos.
Pierce Brosnan foi, em 1995, o escolhido para viver James Bond, retomando a saga dos seus filmes, parada desde 1989. Uma das causas desse intervalo prolongado seria por causa da franquia, que se emperrara nos direitos autorais. Mas a verdade é que James Bond era fruto da Guerra Fria, com o seu fim, era preciso revigorá-lo, traçar-lhe um novo rumo e objetivos que lhe dessem sentido às aventuras. Pierce Brosnan era o ator favorito de Albert Broccoli para substituir Roger Moore, mas um contrato prendia o ator a uma série de sucesso na televisão, “Remington Steele”, da NBC, obrigando-o a declinar do convite, em 1987. Pierce Brosnan conquistou os fãs mais jovens de 007, que não viveram a idolatria a Sean Connery, tornando-se o ator preferido como intérprete de James Bond. O ator aflorou o sorriso cínico e inteligência mordaz de 007, desenvolvendo a personagem aos moldes da sua imagem, sem perder o caminho original dos livros de Fleming. Pierce Brosnan interpretaria James Bond quatro vezes, permanecendo até 2002. Foi poupado de uma possível decadência física na pele do agente secreto britânico. É o preferido dos fãs mais jovens de 007.
Daniel Craig tornou-se, em 2006, o sexto ator a interpretar James Bond. A escolha de Craig causou grandes protestos e a indignação dos fãs do agente, visto que o ator é loiro, e de baixa estatura. Apesar dos protestos, “Cassino Royale” foi um grande sucesso. O primeiro James Bond louro não arranhou a imagem do herói, o que deu passaporte para Craig viver, em 2008, a sua segunda aventura na pele de James Bond, no filme “Quantum of Solace”. Daniel Craig teria assinado contrato para fazer três filmes. Deu à imagem de 007 um ar frio, sem que lhe fosse tirado o prumo e cavalheirismo perene.
James Bond venceu não só diversos vilões, como a limitação do tempo em que foi criado, ultrapassando as tramas que envolviam a Guerra Fria, atualizando-se, sendo modernizado pelos roteiristas, tornando-se uma personagem do século XXI, apesar de moldar-se nas características do passado. Foram-lhe criados novos inimigos, arrancados das novas conjeturas ideológicas que se debruçam sobre o mundo, sem que se lhe elimine os elementos fundamentais e intocáveis. Se os seus intérpretes envelhecem, 007 tem o fascínio sedutor da juventude eterna, afinal ele é “Bond, James Bond”.

James Bond na Literatura

Livros Originais de Ian Fleming

1953 – Cassino Royale
1954 – Viva e Deixe Morrer
1955 – Moonraker
1956 – Os Diamantes São Eternos
1957 – Moscou Contra 007
1958 – 00 Contra o Satânico Dr. No
1959 – Goldfinger
1960 – Apenas Para Seus Olhos (contos)
1961 – Thunderball
1962 – O Espião que me Amava
1963 – A Serviço Secreto de Sua Majestade
1964 – Your Only Live Twice
1965 – O Homem com o Revólver de Ouro
1966 – Octopussy and The Living Daylights (contos)

Livro de Kingsley Amis (Robert Markham)

1968 – Colonel Sun

Livro de John Pearson

1973 – James Bond: The Authorised Biography of 007

Livros de John Edmund Gardner

1981 – Licença Renovada
1982 – Serviços Especiais
1983 – Missão no Gelo
1984 – Questão de Honra
1986 – Ninguém Vive para Sempre
1987 – Sem Acordos, Mr. Bond
1988 – Scorpius
1989 – Vença, Perca ou Morra
1990 – Brokenclaw
1991 – O Homem de Barbarossa
1992 – A Morte é Eterna
1993 – Nunca Envie Flores
1994 – Mar de Fogo
1996 – Cold

Livros de Raymond Benson

1997 – Blast From the Past (conto)
1997 – Zero Menos Dez
1998 – Os Fatos da Morte
1999 – Midsummer Night’s Doom (conto)
1999 – Live at Five (conto)
1999 – High Time to Kill
2000 – Doubleshot
2001 – Never Dream of Dying
2002 – O Homem com a Tatuagem Vermelha

Livro de Sebastian Faulks

2008 – A Essência do Mal

Filmografia de James Bond

Filmes Oficiais

1962 – O Satânico Dr. No (Dr. No) – Com Sean Connery
1963 – Moscou Contra 007 (From Rússia With Love) – Com Sean Connery
1964 – 007 Contra Goldfinger (Goldfinger) – Com Sean Connery
1965 – 007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball) – Com Sean Connery
1967 – Com 007 Só se Vive Duas Vezes (You Only Live Twice) – Com Sean Connery
1969 – 007 a Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service) – Com George Lazenby
1971 – Os Diamantes são Eternos (Diamonds are Forever) – Com Sean Connery
1973 – Com 007 Viva e Deixe Morrer (Live and Let Die) – Com Roger Moore
1974 – 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro (The Man With the Golden Gun) – Com Roger Moore
1977 – O Espião que me Amava (The Spy Who Loved Me) – Com Roger Moore
1979 – 007 Contra o Foguete da Morte (Moonraker) – Com Roger Moore
1981 – 007 Somente para Seus Olhos (For Your Eyes Only) – Com Roger Moore
1983 – 007 Contra Octopussy (Octopussy) – Com Roger Moore
1985 – 007 na Mira dos Assassinos (A View to a Kill) – Com Roger Moore
1987 – 007 Marcado para a Morte (The Living Daylights) – Com Timothy Dalton
1989 – 007 – Licença para Matar ( Licence to Kill) – Timothy Dalton
1995 – 007 Contra GoldenEye (GoldenEye) – Com Pierce Brosnan
1997 – 007 – O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies) – Com Pierce Brosnan
1999 – 007 – O Mundo não é o Bastante (The World is Not Enough) – Com Pierce Brosnan
2002 – 007 – Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day) – Com Pierce Brosnan
2006 – 007 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Daniel Craig
2008 – 007 – Quantum of Solace (Quantum of Solace) – Com Daniel Craig

Filmes Não Oficiais

1954 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com Barry Nelson
1967 – Cassino Royale (Casino Royale) – Com David Niven
1983 – 007 – Nunca Mais Outra Vez (Never Say Never Again) – Com Sean Connery