ARES, O DEUS DA GUERRA

De todos os deuses da mitologia grega, Ares (Marte) era o mais detestável, muitas vezes menosprezado por uma civilização que quanto mais avançava filosoficamente, mais se distanciava dos conflitos bélicos, comuns aos povos da antiguidade. Senhor absoluto da guerra, Ares tinha a crueldade como inspiração. Filho de Hera (Juno) e de Zeus (Júpiter), herdara da mãe a impetuosidade, a cólera e a teimosia. Para Ares a guerra representava a carnificina, o sofrimento, o derramamento do sangue, não importando os lados, longe da inteligência tática, era a verdade diante da armas, jamais da estratégia militar.
Companheiro eterno do medo, personificava a morte sem glória, à devastação sem o propósito da estratégia, não havendo merecimento na vitória, mas a força bruta como palavra final. Seus filhos representam a força destrutiva humana, sendo eles Fobos, o medo incessante; Deimos, o terror; e, Éris, a discórdia. Terror e Discórdia são seus companheiros eternos. O mais contestado pelos deuses do Olimpo, Ares tem na figura de Atena (Minerva), a sua grande rival. Ambos são deuses da guerra, mas Atena é a deusa da estratégia, da sabedoria na guerra, enquanto que Ares é apenas a destruição sem lógica.
Se na Grécia a figura de Ares é desprezada, em Roma ele é identificado com Marte, o deus da guerra justa e estratégica. A prole de Marte dará origem aos gêmeos Rômulo e Remo, fundadores da cidade eterna, o que lhe confere o estatuto de grande deus, o mais importante a ser cultuado pelos romanos. Ares e Marte, unificados em um só mito, são os que mais divergem na assimilação greco-romana.
O mito de Ares traz um deus forte, de músculos perfeitos, que vestindo armadura e capacete, empunha uma lança e um escudo; percorrendo os campos de guerra em um carro puxado por exuberantes cavalos. Mistura-se aos litigiosos, sem se ater a qualquer lado, à justiça ou às leis. Desfere golpes ao acaso, lançando um brado de terror. Quando termina, contempla a destruição absoluta. É o retrato ímpio da guerra, que transforma os campos em desertos, e as cidades em ruínas. Ao contemplar o sangue derramado, Ares segue vitorioso no seu carro, desaparecendo nos céus do Olimpo.

Ares, o Senhor da Guerra

As civilizações antigas existiram a partir das conquistas. As guerras criavam ou erradicavam grandes impérios. As religiões justificavam a necessidade da guerra, para que se perpetuasse a existência de uma civilização, daí o culto aos deuses da guerra nas religiões politeístas. No monoteísmo não foi diferente, o Deus de Abraão permitiu a posse da Terra Prometida aos hebreus através da guerra. Maomé sustentou a sobrevivência do seu clã através de grandes batalhas. E em tempos não tão remotos, as cruzadas promoveram a hegemonia cristã no mundo ocidental. Na Grécia antiga não foi diferente, a guerra era comum ao seu povo, mesmo sendo uma civilização mais voltada para o comércio, para as artes e para a filosofia. Daí a necessidade de recorrer a divindades bélicas.
Dois eram os deuses cultuados como divindades guerreiras: Ares e Atena. Como a guerra foi menos relevante à civilização grega, as duas entidades tinham funções diversas. Atena era responsável pela justiça nas contendas bélicas, pela inteligência da estratégia e pela vitória justa. Ares era o deus do ato mortífero da guerra, a causa da intriga, o sangue que se vertia, o responsável pela dor e pela destruição. Para ele não havia o justo, a lei, apenas o desejo da guerra na sua mais pura concepção. A expansão grega refletiu-se pelo mundo mais por sua arte e filosofia do que pelas guerras que travou, daí Ares ser um deus menor do que Atena, sendo pouco cultuado, ou mesmo amado.
Ares é uma divindade que teve a sua origem na Trácia, sendo importado pela cultura helênica. Jamais perdeu a característica de divindade estrangeira, já que os trácios eram vistos pelos helenos como um povo belicoso, bárbaro e desprezível. Ares era a destruição da civilização, a guerra como o mal necessário, um deus que devia ser atenuado em sua ira destrutiva, através de cultos pontuais. Não se pedia a proteção a Ares, mas sim que ele não intervisse. Os sacrifícios destinados ao deus eram para que permanecesse no Olimpo, enquanto Atena protegia o povo grego nos campos de batalha.

O Mais Detestável dos Olímpicos

Nas lendas sobre o mito de Ares, Atena é sempre retratada como superior ao deus. Por várias vezes desafio-o, e, com a sua sabedoria, vence-lhe a força e a agilidade da brutalidade. Numa batalha entre os deuses, na planície de Ílion, nas proximidades de Tróia, Ares lança injúrias sobre a deusa, e com o seu ódio cego e força bruta, arrebata-lhe com a espada o escudo que a protegia. Atena retira-se estrategicamente, traça a sua estratégia, aguarda o momento certo e atira uma pedra no pescoço do deus. Ares cai e as suas armas espalham-se pelo campo de batalha. Atena saboreia a vitória, mostrando que o ataque inteligente vencia qualquer força bruta e violência sem objetivos.
Ares é por diversas vezes humilhado no Olimpo. Os deuses menosprezam-lhe o comportamento impetuoso e sem razão. O próprio pai, Zeus, o senhor dos deuses, diz, na “Ilíada” de Homero: “És, para mim, o mais detestável dos deuses que mora no Olimpo, pois amas sempre a discórdia, a guerra e as batalhas.
A humilhação maior do deus é feita através de um homem, Diomedes, filho de Tideu. Incitado por Atena, o mortal dirige os seus cavalos em combate e ataca o deus da guerra, ferindo-o. Ares brada de dor, sendo obrigado a fugir para o Olimpo. Apresenta-se ferido diante de Zeus, que o censura, mas como pai, não deixa de curar a ferida do filho. Ares sente, diante dos deuses, a humilhação suprema de ser ferido e afastado de combate por um mortal.
As derrotas de Ares representam a rejeição do povo grego às guerras, ao terror que elas causavam e à destruição insana, sem justiça ou vitória honrosa. Ares é a imagem da vitória sem glória, da guerra sem honra.

O Julgamento de Ares em Atenas

Outra lenda que mostra a fragilidade moral de Ares diante dos outros deuses do Olimpo é a do seu julgamento pela morte de Halirrótio. Pela primeira vez um deus estava a ser julgado em um crime de homicídio por todos os deuses olímpicos.
O crime acontecera próximo à fonte de Asclépio, em Atenas. Ares descansava de um longo combate, refestelando-se com o som das águas cristalinas, quando ouviu gritos desesperados. O deus da guerra depara-se com uma jovem correndo desesperada sobre a relva. Suas vestes estão em pedaços. Halirrótio, ofegante de desejo, persegue a jovem, na tentativa insana de possuí-la, não se apercebendo da presença da divindade olímpica. Furioso, Ares investe contra o jovem, em um momento de grande violência, dilacerando o seu corpo, fazendo o seu sangue jorrar nas águas límpidas da fonte.
A jovem assiste com horror àquela cena de violência e impacto. Está muda, sem fala, quando o deus oferece-lhe a mão e a leva do local do homicídio. A jovem era Alcipe, a sua filha. Não poderia deixar que lhe ultrajasse o corpo.
Ao saber do crime, Poseidon (Netuno), o senhor dos mares, fica enfurecido. Halirrótio era o seu filho. Movido pela cólera, Poseidon decide uma vingança pessoal, humilhar o deus da guerra. A princípio pensa em elimar a prole de Ares. Não lhe poderia matar, visto que era imortal. Pensando com a razão, exigiria a justiça dos outros deuses. Poseidon foi até o Olimpo e exigiu que o irmão Zeus, convocasse todas as divindades e levasse Ares a um julgamento.
Os deuses reúnem-se na colina de Atenas. Ares sofre a humilhação de um julgamento. As divindades escutam os argumentos de Poseidon e os do réu. Ares fala com eloquência sobre o que se passara. Após ouvir os dois lados, os olímpicos confabulam e chegam a um veredicto, Ares era inocente. Findo o julgamento, os imortais retiram-se, aos poucos, deixando os ecos das suas palavras diluídas sobre a colina. O local, onde Ares fora julgado e inocentado, passou a chamar-se Colina de Ares, ou em grego, Areópago. Ali serviria de cenário para vários julgamentos dos atenienses e de mortais vindos de outros lugares.

Poucas Representações na Arte Grega Clássica

Dos deuses olímpicos, Ares foi aquele que menos teve cultos em sua honra difundidos pela Grécia. O mais célebre dos poucos santuários erigidos ao senhor da guerra foi o Areópago, em Atenas. Nenhuma cidade grega fez de Ares o seu protetor. Muitas lendas descreveram-no favorável a outros povos, como na guerra de Tróia, que ficou do lado dos troianos.
Por sofrer uma rejeição velada dos helenos, o deus pouco inspirou as artes, tendo raras representações. Não gerou moedas com a sua efígie, prática comum nas cidades gregas. Nas primeiras imagens em que foi representado, aparece como um senhor de certa idade, armado dos pés à cabeça. Nas obras arcaicas surge com barba, vestido de armadura e empunhando lança e escudo.
Nas representações posteriores, do século V a.C., surge a imagem de um deus jovem, forte e belo, com cabelos densos e longos, ostentando uma lança, geralmente quase ou totalmente nu. A famosa estátua de Ares da Villa Ludovisi, supõe-se ser uma cópia do grande escultor grego Escopas (século IV a.C).
Há representações de Ares em episódios de batalhas, acompanhado pelos filhos Fobos, Deimos e Éris. Mas o motivo de Ares mais explorado nas artes é o do seu amor proibido com a bela Afrodite (Vênus), a deusa do amor.

Marte, o Deus Maior dos Romanos

Ares foi assimilado na mitologia romana com Marte, o deus da guerra. Se na Grécia Ares sofreu a rejeição dos helenos, em Roma Marte tornou-se o deus mais importante, sobressaindo-se ao culto do próprio Júpiter, o Zeus grego, o senhor dos deuses.
Roma, em seus primórdios, foi uma cidade agrícola, sendo fundada, segundo a lenda, por Rômulo, irmão gêmeo de Remo. Com a evolução da civilização romana, ela deixou de ser essencialmente agrícola, expandindo-se através das conquistas geradas pela guerra. A evolução de Roma coincide com a evolução do mito de Marte. Inicialmente o deus, assim como o cidadão romano, era uma divindade agrícola, cultuado como o senhor das tempestades que traziam as chuvas torrenciais, a neve ou o granizo. Era invocado para evitar os efeitos maléficos dos temporais sobre as plantações. Mais tarde, quando Roma tornou-se uma grande potência, com os seus exércitos de soldados invencíveis, Marte não só era invocado pela força das tempestades, como o deus que trazia a força cega nas batalhas, tornando-se uma divindade da guerra.
Roma dependia da força das batalhas para dominar o mundo antigo. A guerra era mais importante do que a filosofia ou a arte; por este motivo Marte era mais enobrecido do que Ares na Grécia.
Quando Roma tornou-se o centro do mundo, era preciso que a lenda da sua fundação fosse associada a uma divindade, jamais a um simples mortal. Marte foi considerado o pai de Rômulo e Remo, o que lhe conferiu ser o deus mais importante dos romanos. Era venerado após cada vitória dos exércitos numa batalha. Assim como Ares, era um deus cruel e violento, sendo tais características admiradas pelos romanos, tornando-se uma divindade essencialmente guerreira, que trazia a vitória àqueles que se tornaram os senhores da antiguidade. Ao contrário de Ares, Marte era cultuado como um deus da vitória honrosa.

Um Deus de Amores Impetuosos

Ares era conhecido não somente por sua crueldade e violência nas guerras, mas por sua impulsividade como amante. É um deus vigoroso, impetuoso. Nenhuma mulher ousava recusar o seu amor. As que o fazia, eram violentamente possuídas.
Suas aventuras amorosas geraram vários filhos. A rejeição do povo grego ao mito de Ares atingiu a sua prole. Dos inúmeros filhos que teve com ninfas e mortais, todos morreram de forma violenta. Da prole de Ares destacam-se:
A bela Alcipe, fruto da sua aventura amorosa com a princesa Aglauro, a qual, mais tarde, defenderia de ser violada por Halirrótio, filho de Poseidon. Com Crisa gerou Flégias, fundador de Flégia, cidade onde se reuniam os maiores guerreiros da Grécia antiga. Com Pelópia engendrou o terrível e temível bandoleiro Cicno. O fruto da sua união com Harpina foi Enômao, que viria a ser rei de Pisa, na Élida. Com a malograda Aeropa teve Aeropo, que segundo a lenda, amamentou-se nos seios da mãe morta. Da aventura com Pirene nasceram os cruéis tiranos Licaão e Diomedes, mortos por Héracles (Hércules). Com Astínome engendrou Calidão, transformado em rochedo pela deusa Ártemis (Diana). Com Astioquéia, engendrou os futuros argonautas Ascálafo e Iálmeno. Com Protogênia gerou Oxilo.
De todos os amores de Ares, o mais famoso foi o que viveu com Afrodite, a deusa do amor. A aventura teve fim quando Hefestos (Vulcano), descobriu a traição da esposa, e aprisionou os amantes numa rede tecida com finíssimos fios de ouro. Afrodite foi a única deusa amada por Ares, dando-lhe quatro filhos. Dois deles representam o elemento positivo do mito de Afrodite, Cupido, o traquino deus do amor, e Harmonia, esposa de Cadmo. Os outros dois, o aspecto negativo do mito de Ares: Deimos, o terror, a força que aterroriza; e, Fobos, o medo. Deimos e Fobos acompanham o pai nos combates, levando a destruição e a morte.
Em Roma, o mito de Ares associado a Marte, acrescenta à prole os gêmeos Rômulo e Remo. Marte apaixonara-se pela bela Réia Silvia, única filha de Numitor, rei de Alba Longa. Amúlio depôs o irmão, Numitor, e temendo que Réia Silvia concebesse um herdeiro que reclamasse o trono usurpado, consagrou-a à castidade no colégio das Vestais. Marte sente-se irremediavelmente apaixonado pela vestal, usando da violência para tê-la como amante. Da união nasceram Rômulo e Remo, que quando adultos, tomaram de volta para o avô o trono usurpado, recebendo como recompensa um território às margens do rio Tibre. Ali, Rômulo fundaria a cidade de Roma.
Impetuoso no amor e na guerra, Ares representa a força, a negação da razão. A essência bruta da humanidade, sua ferocidade primitiva, tendo em tempos de guerra, a crueldade que jamais seria aflorada em momentos de paz. Ares é a crueldade que exala o homem quando posto em campos de batalhas, movido apenas pelo ato da violência, representando naquele momento, o assassínio, a sobrevivência ou a morte, sem as raízes da razão.

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