QUANDO AS CORES CHEGARAM À TELEVISÃO BRASILEIRA

Em plena era digital, a televisão apresenta uma qualidade de imagem cada vez mais perfeita, deixando os caixotes originais para adquirir telas gigantes, semelhando-se cada vez mais ao grande ecrã dos cinemas.
Mas nem sempre a tecnologia das imagens televisavas foi tão perfeita. Desde que foi lançada na década de 1920, que vem sendo aprimorada década a década. O aparelho que revolucionou o mundo, mudou o hábito das famílias, foi criada em um tubo iconoscópico, preso a um grande caixote em volta, com imagens precárias transmitidas em preto e branco.
Na década de 1950 surgiram os primeiros aparelhos em cores no mundo. No Brasil, que teve a televisão instaurada em 1950, o sistema de transmissão colorida só chegaria oficialmente em 1972. Uma transmissão singela da festa da uva, feita a partir de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, no dia 19 de fevereiro daquele ano, inundaria de cores os olhos dos telespectadores brasileiros.
A passagem da transmissão em preto e branco para o sistema em cores foi feita gradualmente, levando quase uma década para ser concretizada. Ainda na década de 1980, encontravam-se aparelhos de televisores em preto e branco à venda nas lojas brasileiras de eletrodomésticos.
As telenovelas, principal produto de consumo de massas da televisão brasileira, também passaram por um longo período de adaptação à tecnologia em cores, até que pudessem se adequar à novidade. A primeira novela totalmente colorida foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes, levada ao ar em 1973. Quando as imagens da novela são vistas através do tempo, percebe-se o desequilíbrio entre os cenários, as luzes, as cores dos figurinos dos atores. Inaugurada por uma imposição não só tecnológica, mas por uma lei do governo, em 1971, a televisão em cores foi aos poucos, invadindo as programações de todas as emissoras brasileiras da época. A imagem em preto e branco só deixaria o cenário televisivo em 1977. Como numa saga, mais tempo se levou para colorir de vez a televisão do que a evolução da internet e da criação da tv digital. Ao contar a história do momento em que a imagem passou a ser transmitida em cores, parece ser banal nos dias de hoje, mas não deixa de ser uma página da história do aparelho que dominou o mundo, transformou os hábitos, sincronizando um novo conceito de reunião familiar e de manutenção do clã.

Surge a Televisão

A primeira manifestação do que seria a atual televisão, foi feita em 1923, quando o russo naturalizado norte-americano, Vladimir Zworykin, registrou a patente do tubo iconoscópico, o que possibilitou a criação da televisão eletrônica. Em fevereiro de 1924, foi apresentado em Londres um sistema mecânico de televisão analógica. As imagens em movimento foram demonstradas na data histórica de 30 de outubro de 1925. Mas um sistema completo foi somente demonstrado em 1927, por John Logie Bairde e Philo Taylor Farnsworth. Em 11 de maio de 1928, foi apresentado o primeiro serviço analógico do mundo, a WGY, em Nova York. Às vésperas da grande depressão de 1929, a recém-nascida televisão tornou-se o eletrodoméstico das abastardas famílias americanas da era do jazz.
Os aparelhos originais eram rústicos, sendo aprimorados na Alemanha nazista, que em 1935 passou a transmitir um serviço de alta definição. No ano seguinte, em 1936, era realizada a primeira grande transmissão, a dos Jogos Olímpicos de Berlim. A explosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, atrasaria a evolução tecnológica da televisão em quase uma década, só voltando a expandir com esplendor, após o fim da guerra.
A televisão em cores só passou a ser transmitida regularmente em 1954, nos Estados Unidos, pela rede NBC. Mas as primeiras imagens coloridas foram realizadas em 1929, em Nova York, por Herbert Eugene, com 50 linhas de definição por fio. Peter Goldmark aperfeiçoou o invento, fazendo demonstrações em 1940, com 343 linhas. Na década de 1950, foi criado nos Estados Unidos, o National Television System Committee, ou National Television Standards Committee (NTSC), para pôr fim ao sistema de imagens em preto e branco. As iniciais NTSC, deram nome ao novo sistema. Estava inaugurada a televisão em cores no mundo.

A Caixa Mágica Chega ao Brasil

A televisão só chegaria ao Brasil em 1950, trazida pelos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Todos os equipamentos para que se inaugurasse a televisão, foram importados dos Estados Unidos, chegando ao porto de Santos em 25 de março daquele ano. Em 10 de setembro, foi realizada em caráter experimental, a transmissão de um filme, onde o ex-presidente Getúlio Vargas anunciava a sua volta à política. Em 18 de setembro, foi oficialmente inaugurada a televisão no Brasil, através da TV Tupi, canal 3 de São Paulo (PRF-3 TV). As imagens eram geradas a partir da Rua 7 de Abril, no centro da Paulicéia. Assis Chateaubriand espalhou em lugares estratégicos de São Paulo, duzentos aparelhos de televisão. Uma criança de cinco anos de idade anunciava: “Está no ar a televisão no Brasil”.
A TV Tupi, primeiro canal de televisão, trazia o logotipo de um pequeno índio. As primeiras programações, assistidas por poucos brasileiros que tinham um aparelho retransmissor, eram feitas ao vivo, de improviso, longe da descoberta do vídeo-tape. Entre acertos e erros, a tecnologia foi aprimorando-se aos poucos. O número de televisores era restrito, visto que não eram aqui fabricados, sendo todos importados por um valor exorbitante.
Quatro meses depois da implantação da televisão no Brasil, em janeiro de 1951, Assis Chateaubriand, inaugurou o segundo canal do país, a TV Tupi do Rio de Janeiro, canal 6, sendo cada canal independente um do outro, com programações específicas. Em março de1952, surgiria a TV Paulista, canal 5 de São Paulo. Em setembro de 1953, era inaugurada a TV Record, canal 7 de São Paulo. A década de 1950 foi encerrada com três canais em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Dos quatro, só a TV Record persistiria até os tempos atuais.

As Primeiras Emissoras de TV no Brasil

Somente em 1960, surgiria uma nova emissora, a TV Excelsior, canal 9 de São Paulo. Inaugurada em 9 de julho daquele ano, ela pertencia às Organizações Victor Costa, donas da Rádio Excelsior e da TV Paulista. No mesmo ano, em setembro, Assis Chateaubriand e os seus Diários Associados, inauguravam a TV Cultura, canal 2 de São Paulo. Na época, era permitido por lei um mesmo grupo ter mais de um canal. A TV Cultura seria adquirida no fim da década de 1960, pela Fundação Padre Anchieta, sendo reinaugurada em 1969.
O surgimento da TV Excelsior proporcionou um grande desenvolvimento na programação da televisão brasileira. Fugindo aos famosos teleteatros, a emissora inovou as atrações, introduzindo programas humorísticos, musicais e de auditórios. Foi a pioneira em transmitir uma programação horizontal, que transmitia o mesmo programa na mesma hora todos os dias, e a programação vertical, em que a atração sucedia à outra, criando assim, um público fiel. A emissora conseguiu, em seis meses, alcançar a maior audiência em São Paulo. Em 1963, ao comprar a concessão do canal 2 do Rio de Janeiro, começou a implantar o conceito de televisão no Brasil, que perduraria até os dias atuais. A TV Excelsior passou a usar a tecnologia do vídeo-tape, trazida para o Brasil em 1960, por Chico Anísio, transmitindo o mesmo programa, à mesma hora, para as emissoras afiliadas, que logo se expandiram além do Rio de Janeiro, para Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília. Em 1963, a TV Excelsior nacionalizou o horário nobre, dantes ocupado por seriados estrangeiros. Lançou a telenovela diária, “2-5499 – Ocupado”, de Dulce Santucci, considerada a pioneira do gênero. Graças às grandes produções da TV Excelsior, as telenovelas tornar-se-iam a maior atração da televisão brasileira. A emissora revelaria para o Brasil, grandes nomes, em sua maioria, vindos dos palcos do teatro, que se iriam tornar ídolos da pequena tela, entre eles:Tarcísio Meira, Glória Menezes, Regina Duarte, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Mauro Mendonça. A emissora, mergulhada em uma grande crise financeira, fecharia as portas, em 1970.
Ainda na década de 1960, foi inaugurada aquela que se iria tornar a maior emissora do Brasil e uma das maiores do mundo, a TV Globo, surgida em 1965, com a concessão do canal 4 do Rio de Janeiro às organizações do jornalista Roberto Marinho. Em 1966, a emissora carioca comprava às Organizações Victor Costa o canal 5 de São Paulo, a TV Paulista. Após conquistar as terras paulistas, a emissora expandiu-se com afiliadas por todo o país. No início da década de 1970, produziria novelas históricas, conseguindo com o filão, monopolizar as audiências e o gênero.
Outra inovação viria nos anos sessenta, a transmissão via satélite, que possibilitaria a transmissão simultânea da mesma atração para todo o Brasil. As novelas, gravadas em vídeo-tapes, eram levadas das emissoras para as filiadas através de avião, transportes terrestres e outros, chegando às vezes, com atrasos de mais de um mês. O mesmo capítulo de novela da TV Globo, transmitido no Rio de Janeiro, chegava a São Paulo somente no dia seguinte, e ao restante do país em 15, 20, 30, 45 dias… Somente em janeiro de 1975, a emissora carioca passou a transmitir os capítulos em simultâneo com todas as emissoras afiliadas.

A Chegada das Cores

A história da cor na televisão brasileira foi longa, com avanços e retrocessos. A TV Excelsior foi a primeira emissora no país a tentar transmitir em cores, utilizando o sistema norte-americano NTSC, produzindo, em 1962, o programa “Moacyr Franco Show”. A tecnologia seria usada pela TV Tupi em 1964, quando passou a transmitir em cores, aos sábados, o seriado norte-americano “Bonanza”. No mesmo ano, também a TV Record fez experimentações em cores, sempre a utilizar o sistema NTSC. A programação colorida era inexistente, sendo vista apenas por abonados senhores que traziam os aparelhos do estrangeiro.
Em 1970, a Embratel reuniu convidados na sua sede no Rio de Janeiro, no Edifício Itália, em São Paulo, e, em Brasília, para transmitir em cores, o Mundial de Futebol de 1970, realizado no México. Era uma transmissão experimental, o sinal recebido em NTSC era convertido em PAL-M, captados pelos aparelhos instalados nas três cidades. Poucos assistiram à transmissão colorida da copa de 1970, pois os aparelhos eram praticamente inexistentes no Brasil.
Somente em 1971, as emissoras decidiram investir na tecnologia em cores, quando o governo militar decretou uma lei que determinava a transmissão de uma porcentagem mínima de programas coloridos. A emissora que não obedecesse, teria a concessão cancelada. Sem alternativa, foi criado o sistema oficial que geraria imagens em cores, o PAL-M, sendo o padrão M vindo do sistema NTSC, mesclado com o PAL da Europa, criando assim, um sistema próprio.
O sistema PAL-M foi autorizado em 1972. Naquele ano, em 19 de fevereiro, foi realizada a partir da TV Difusora de Porto Alegre, afiliada da TV Bandeirantes, a primeira transmissão oficial de um programa colorido feito no Brasil, a “Festa da Uva de Caxias do Sul”. A realização foi da TV Record e TV Rio, em parceria com a TV Tupi, TV Globo e TV Bandeirantes. Em 31 de março, data intencionalmente escolhida pelo governo militar, que comemorava neste dia a implantação do regime, em 1964, foi inaugurada oficialmente a televisão em cores no Brasil.
No dia 31 de março de 1972, a TV Globo exibiu a primeira produção em cores feita na televisão brasileira, o “Caso Especial – Meu Primeiro Baile”. Baseada no conto de Jacques Prevert, “Carnê de Baile”, adaptada pela então poderosa Janete Clair, dirigida por Daniel Filho, a história trazia Glória Menezes no papel de Marina, em torno dela ladeavam os maiores astros da televisão da época: Sérgio Cardoso, Tarcísio Meira, Francisco Cuoco, Marcos Paulo, Paulo José, entre outros. Era uma luxuosa produção para inaugurar de vez as cores na teledramaturgia brasileira.

As Cores Chegam às Telenovelas

Com a falência da TV Excelsior, a década de 1970 foi marcada pela briga de audiência entre a TV Globo e a TV Tupi, sendo a segunda também extinta, em 1980. Querendo sair na frente e abraçar a nova tecnologia, a TV Tupi anunciou aquela que deveria ser a primeira telenovela em cores no Brasil, “A Revolta dos Anjos”, escrita pela psicóloga Carmem da Silva. A emissora reuniu um elenco luxuoso: Eva Wilma, Oswaldo Loureiro, Geórgia Gomide, Bete Mendes, Denis Carvalho, Antonio Fagundes. Elaine Cristina, Ana Rosa, Ewerton de Castro e outros. Sua estréia aconteceu em 8 de novembro de 1972, mas um atraso na chegada de dois aparelhos de vídeo-tape coloridos fez com que fosse ao ar em preto e branco, para grande frustração dos atores e diretores.
A primeira telenovela colorida da televisão brasileira foi “O Bem Amado”, de Dias Gomes, indo ao ar em 24 de janeiro de 1973, no extinto horário de novelas das 22h00, na TV Globo. A história trazia a saga do prefeito Odorico, magistralmente vivido pelo inesquecível Paulo Gracindo, que tudo fazia para conseguir um defunto e inaugurar o cemitério de Sucupira. Como pioneira das novelas em cores no Brasil, “O Bem Amado” sofreu os reveses da experimentação, passando por problemas quanto ao uso da nova tecnologia, como o reflexo das lentes dos óculos de determinados atores, que influenciavam na imagem. Além da dificuldade em usar os novos equipamentos, também o domínio no ajuste das tonalidades causava um certo desconforto aos atores, como Ida Gomes, que vivia a solteirona Dorotéia Cajazeira, as suas pernas excessivamente brancas saturava no vídeo. O primeiro figurino colorido das telenovelas trazia cores fortes e berrantes. Assim, quando a novela foi ao ar, as praias da pequena Sucupira inauguravam a cor do mar para os brasileiros do interior, que jamais o tinha visto.
A primeira novela colorida da TV Tupi, “A Volta do Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso, foi ao ar em 24 de março de 1973, no horário das 20h30. A emissora paulista tentava a continuação do seu grande sucesso, “Beto Rockfeller”, exibida em 1969. Trazia de volta a dupla Luís Gustavo e Bete Mendes como protagonistas. A sua sucessora, “O Conde Zebra”, de Sérgio Jockyman, não recebeu o sistema colorido. Aos poucos, a TV Tupi foi estendendo as cores para todos os seus horários de telenovelas: “Os Inocentes”, de Ivany Ribeiro, que teve a sua estréia no horário nobre, ás 20h00, em 5 de fevereiro de 1974, ainda em preto, passaria a ser transmitida colorida a partir do dia 1 de julho. No mesmo dia, também o horário das 19h00 era presenteado com as cores, com a novela “A Barba Azul”, de Ivany Ribeiro. “O Machão”, de Sérgio Jockyman, teve a sua estréia em preto e branco, passando a ser transmitida em cores também a 1 de julho, transformando o horário das 20h30 definitivamente colorido. Ao contrário da TV Globo, que manteve somente o horário das 22h00 em cores, a TV Tupi praticamente extinguiu o preto e branco, ficando apenas com o horário das 18h00 com o velho sistema. Em maio de 1977, a partir da telenovela “Cinderela 77”, de Walter Negrão e Chico de Assis, protagonizada pelos cantores Ronnie Von e Vanusa, as cores chegavam àquele horário.
Com o Mundial de Futebol de 1974, a venda de aparelhos de transmissão colorida disparou. A fábrica de televisores Colorado, em uma jogada de mercado, patrocinou as reprises dos jogos todas as tardes. Mais acessíveis, os aparelhos coloridos foram, aos poucos, substituindo os em preto e branco. Com esta proliferação, a TV Globo decidiu investir mais nas tramas coloridas. Em 1975, a cor chegava finalmente ao horário nobre da emissora, a partir da novela “Pecado Capital”, de Janete Clair. Também em 1975, o recém inaugurado horário das 18h00, trazia a sua primeira trama colorida, “Senhora”, adaptação de Gilberto Braga ao livro homônimo de José de Alencar. No dia 27 de fevereiro de 1977, ia ao ar o penúltimo capítulo de “Estúpido Cupido”, de Mário Prata, às 19h00. Com ele terminava a era do preto e branco na TV Globo. No último capítulo, a trama dava um salto dos anos 1960 para 1977, sendo apresentado em cores. “Loco-Motivas”, de Cassiano Gabus Mendes, marcava a estréia das cores naquele horário. As cores decretaram finalmente, extinta a televisão em preto e branco no Brasil.

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