AQUARELA DO BRASIL – APOTEOSE DE GAL COSTA E ARY BARROSO

Lançado à sombra do show “Gal Tropical”, garantindo-lhe uma sobrevida maior, o álbum “Aquarela do Brasil”, de 1980, encerrou com chave de ouro a trilogia que se iniciara com “Água Viva” (1978), passando pelo mítico “Gal Tropical” (1979), fazendo no todo, um dos momentos mais belos de visitação ao âmago da canção brasileira, transformando Gal Costa numa das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira.
Deixando de vez a contracultura, as experimentações tropicalistas, a cantora mergulhou nos clássicos da MPB, fazendo renascer velhos sucessos da época de ouro do rádio, e ritmos até então esquecidos, como o samba exaltação ou as antigas marchas carnavalescas. Este trabalho sintetizado em três álbuns, encerrar-se-ia com um disco totalmente dedicado a Ary Barroso, um compositor cuja música “Aquarela do Brasil” atravessara as fronteiras, sendo descoberta por Hollywood nos anos de 1940, tornando-se símbolo de um Brasil cartão postal, com direito às imagens do Pão de Açúcar, bananas, aves exóticas, roupas folclóricas e balangandãs, numa paisagem feita sob encomenda para a visão limitada dos Estados Unidos sobre a América Latina. Se por um lado a música tornou-se parte da propaganda getulista e do Estado Novo, Ary Barroso é sem qualquer contestação, um dos maiores compositores da MPB, deixando-nos um legado grandioso de grandes e imortalizadas canções.
Gal Costa poderia ter encerrado esta fase da sua carreira com um álbum autoral só com canções de Noel Rosa, pois a essa altura, já estava pronta para enfrentar qualquer desafio dentro da MPB, tamanha maturidade vocal, técnica e veia emotiva alcançadas. Mas Guilherme Araújo, então empresário da cantora, gênio não só da visão apurada aos talentos à sua volta, e também senhor absoluto em transformar o espetáculo em show busines, não quis arriscar. Acertou com a Polygram um álbum que não interferisse no roteiro do bem sucedido espetáculo “Gal Tropical”, e as músicas pudessem ser facilmente adaptadas a ele.
Assim, nasceu um álbum acadêmico, lançado na contramão das tendências da MPB daquele momento, sendo recebido como um arremate final do show mítico, sem trazer novidades. Distanciadas três décadas do seu lançamento, “Aquarela do Brasil” é hoje um clássico maravilhoso, com registros da obra de Ary Barroso que pouco se repetiu. Se em 1980 foi mais acadêmico, limitando-se a não correr riscos dentro do universo do autor homenageado, hoje é imprescindível na MPB, sem qualquer poeira do tempo a sujar as faixas. Gal Costa eterniza Ary Barroso, emprestando à obra a beleza de uma voz doce e transparente como um cristal legítimo, fazendo do álbum, um luxuoso momento da história da música. “Aquarela do Brasil” é daqueles discos que lançado contra as tendências, foi feito para o ontem, o hoje e o amanhã, para resistir intacto à corrosão do tempo, função legada apenas aos grandes clássicos.

As Raízes do Projeto

Na época do lançamento de “Aquarela do Brasil”, era costume primeiro a estréia de um show, depois a gravação em estúdio, de um disco com bases no espetáculo. O show “Gal Tropical” ainda não esgotara o sucesso de público e a emoção da cantora, e já tinha produzido dois álbuns, “Água Viva”, em 1978, e “Gal Tropical”, em 1979. Os contratos dos cantores com as gravadoras exigiam um disco a ser lançado por ano. Guilherme Araújo, empresário de Gal Costa, não quis encerrar um show de grande sucesso e preparar outro para que a cantora lançasse um álbum em 1980. A solução encontrada foi produzir um disco que não interferisse com o espetáculo e pudesse ser encaixado no seu roteiro, sem que lhe afetasse o conteúdo. O repertório de Ary Barroso inseria-se perfeitamente no contexto do “Gal Tropical”, era preciso apenas que se escolhesse as canções que não fugissem ao roteiro.
Feito os acertos com a Polygram, Gal Costa e Guilherme Araújo encomendaram a Paulo Tapajós e a Roberto Menescal a pesquisa do repertório. A cantora e o empresário ouviram mais de cem canções. Músicas óbvias como as clássicas “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro” não poderiam faltar. Era preciso trabalhar sobre as restantes. As regravações deram prioridade ao Ary Barroso dos repertórios de Carmen Miranda e Dalva de Oliveira, que estavam a dar muito certo na voz de Gal Costa desde o álbum “Água Viva”. Escolhido o repertório, estava garantido que as canções fizessem parte do show “Gal Tropical”, alongando-lhe a temporada, sem alterar a sua essência, e, principalmente, sem a necessidade da criação de um novo espetáculo.
Escolhido aos moldes de um espetáculo de grande sucesso, “Aquarela do Brasil” trouxe um repertório que na época, pareceu igual aos dois álbuns anteriores em grande parte das faixas. As limitações de critérios de escolha das músicas, fizeram-nos órfãos de clássicos como “No Rancho Fundo” (Lamartine Babo – Ary Barroso), que certamente teria sido um marco na voz de Gal Costa naquela época.

Um Disco Além do Tempo Que Foi Lançado

Quando foi lançado, no final de 1980, o álbum batia de frente com a MPB que se fazia na época. Depois da abertura política e a liberação de antigas músicas proibidas, a MPB tomou um novo fôlego, formando um público amplo, que passou a consumir com mais voracidade o que de bom era produzido no cenário musical. Atenta às tendências de público, a TV Globo deu destaque à MPB naquele ano, lançando programas antológicos como “Grandes Nomes”, que trazia sempre uma estrela da canção como convidado; e reativou, com grande sucesso, os festivais das canções, encerrados desde o início dos anos 70. O “Festival MPB 80” gerou grandes sucessos, revelando Amelinha, Oswaldo Montenegro, Sandra de Sá, entre muitos. Na MPB, grandes sucessos pontuais explodiam, como “Lança Perfume” (Rita Lee – Roberto de Carvalho), com Rita Lee; “Meu Amigo, Meu Herói” (Gilberto Gil), com Zizi Possi; “Sangrando” (Gonzaguinha), com Gonzaguinha; “Atrevida” (Ivan Lins – Vitor Martins), com Simone; “Novo Tempo” (Ivan Lins – Vitor Martins), com Ivan Lins; “Nosso Estranho Amor” (Caetano Veloso), com Caetano Veloso e Marina; “Eternas Ondas” (Zé Ramalho), com Fagner; ou “Aprendendo a Jogar” (Guilherme Arantes), com Elis Regina.
Foi contra esta tendência explosiva de estilos dentro da MPB que Gal Costa lançou o song book do mestre Ary Barroso, ficando deslocada na sua ousadia. Apesar de ser um disco que fugia do sucesso imediato, a aceitação da crítica foi morna, mas positiva, e o público recebeu-o com carinho, tornando-se disco de ouro, fato que se sucedeu pela terceira vez na carreira de Gal Costa, desde “Água Viva”. Era um disco tocado essencialmente nas FMS, ouvidas pela classe média, fugindo das AMs, mais populares.
A liderança do cenário musical começava a ser mudado novamente. Por dois anos consecutivos Maria Bethânia reinou absoluta ao lado de Roberto Carlos, com o sucesso estrondoso dos álbuns “Álibi” (1978) e “Mel” (1979), mas com “Talismã”, contemporâneo de “Aquarela do Brasil”, a cantora começou a perder público, decaindo gradativamente. Gal Costa faz o contrário, adquire mais prestígio e mais público, mantendo boas vendas, mesmo diante de um disco de amplitude mais arrojada para resistir ao tempo do que explodir nas paradas de sucesso da época. Ainda que fosse contra o momento, o álbum gerou sucessos que viraram tema de novelas e deu passagem para momentos antológicos da MPB, como o encontro de Gal Costa e Grande Otelo cantando “No Tabuleiro da Baiana”. As portas para que a cantora viesse, no ano seguinte, com “Fantasia”, a tornar-se a maior estrela da MPB, foram abertas com “Aquarela do Brasil”, fazendo com que reinasse absoluta na venda de discos pela próxima década.

Toque de Classe na Malandragem Carioca

Os cuidados de produção do disco foram minuciosos, fazendo-o luxuoso. Já se percebe na capa uma maior sofisticação em relação aos dois outros álbuns da trilogia. As cores verde e dourada dão a simbologia alegórica necessária ao título, evidenciadas pela penca dourada nos cabelos da cantora, substituindo as flores do “Gal Tropical”; e pelo vestido, também dourado, feito sob encomenda, por Guilherme Guimarães. As fotografias, belíssimas, foram feitas por Antonio Guerreiro, grande mestre em fazer retratos femininos.
A garantia da continuidade do show é assinalada na produção do álbum, assinada por Guilherme Araújo e Roberto Menescal, os mesmos do álbum anterior, “Gal Tropical”. Doze faixas fazem uma composição antológica que se harmonizam em uma unidade perfeita.
Iniciando o song book, “É Luxo Só” (Ary Barroso – Luiz Peixoto), abre as cortinas do universo de Ary Barroso. O ritmo alegre e singular do canto de Gal Costa dá uma lufada de modernidade à canção, fazendo dela um samba mexido, semelhante às músicas que abriram os álbuns anteriores “Olhos Verdes” (“Água Viva”, 1978) e “Samba Rasgado” (“Gal Tropical”, 1979). A canção foi feita em 1957, integrando a trilha sonora do espetáculo musical “Mr. Samba”, do famoso Carlos Machado, montado no Night and Day, Rio de Janeiro. Até a gravação de Gal Costa, o maior sucesso da canção tinha acontecido na voz de Elizeth Cardoso, em 1958 e numa gravação mais intimista de João Gilberto. E Gal Costa é luxo só já no início do álbum.
Já Era Tempo” (Ary Barroso – Vinícius de Moraes), uma rara parceria do mestre Ary Barroso com o poeta Vinícius de Moraes, reúne a beleza da melodia do primeiro com a poesia inspiradora do segundo, enlaçadas em um épico do amor. A canção é de um lirismo embriagador na voz de Gal Costa, numa das mais belas concepções inspiradoras da emoção da cantora. Cantada de forma apaixonante, chamando para a si a atenção dos ouvintes, tendo sido na época do lançamento, uma das mais tocadas do LP. Com Ary Barroso, Vinícius de Moraes, o poetinha, fugiu algumas vezes dos seus parceiros habituais. A música foi lançada originalmente por Ângela Maria, em 1962. Um clímax já pode ser vislumbrado, e até alcançado, já nesta canção do álbum.

“Triste de quem tem e vive à toa
Triste de quem ama e não perdoa
Ai de quem não cede
E de quem sempre tem razão
Ninguém sabe mais que o coração”

Camisa Amarela” (Ary Barroso), a mais carioca das canções de Ary Barroso, é totalmente transformada na voz de Gal Costa. Sucesso de Aracy de Almeida, em 1939, seria uma resposta ao sucesso de “Camisa Listrada”, de Assis Valente, gravada no ano anterior por Carmen Miranda. Além das características de Assis Valente, há um leve toque do universo boêmio de Noel Rosa.É um divertido samba da época áurea da malandragem carioca da Lapa. Gal Costa foge a este estilo malandro e dá uma interpretação romântica, de uma mulher apaixonada, doce, resignada, submissa, que nenhuma outra cantora conseguiu dar à música. Gal Costa voltaria a regravar a música na revisão dos 30 anos de carreira, no álbum “Acústico MTV” (1997); no álbum lançado nos EUA, “Live At The Blue Note” (2006) e no álbum de Wagner Tiso, “Wagner Tiso 60 Anos – Um Som Imaginário” (2006). É uma das canções que mais acompanhou os shows da cantora nos últimos anos.

Das Ruas da Bahia ao Dueto com Caetano Veloso

Na Baixa do Sapateiro” (Ary Barroso), chamado de samba-jongo, foi gravada pela primeira vez pela Pequena Notável, Carmen Miranda, em 1938. Adquiriu uma consistência ímpar na voz de Dalva de Oliveira. A canção aproxima o compositor e a cantora, estreitados pela magia sedutora da Bahia. A malandragem carioca dá passagem para o fulgor do amor perdido no tempo e na fugacidade mítica baiana. A voz doce e solitária de Gal Costa acentua a melancolia épica nos desamores das ruas de Salvador.

“Ó, Bahia, Iaiá
Bahia que não me sai do pensamento
Faço o meu lamento, oi
Na desesperança, oi
De encontrar nesse mundo
O amor que eu perdi na Bahia”

Folha Morta” (Ary Barroso), um samba-canção gravado por Dalva de Oliveira em 1953, deixa os agudos metálicos da mulata dos olhos verdes, para adquirir a doçura dos agudos líricos de Gal Costa. A canção é de uma melancolia tenaz, que arremessa a mulher ao vento, ao âmago dos seus sentimentos à flor da pele, que sem medo do palco à sua volta, afirma-se infeliz, deixando-se levar. E a voz de sereia de Gal Costa flutua as imagens da dor como se seguisse uma estrada de brisa gelada e cortante, como as dores do amor.
No Tabuleiro da Baiana” (Ary Barroso), gravada por Carmen Miranda e Luís Barbosa, em 1936, ficou por décadas vinculada à imagem da Pequena Notável, sendo um clássico da sua carreira. Na década de 1970, Carmen Miranda era constantemente relembrada pelas reprises dos seus filmes na sessão da tarde e homenagens constantes na televisão. Quando Gal Costa gravou a canção, o Brasil ainda tinha na mente a interpretação mítica de Carmen Miranda, apesar dela ter morrido na década de 1950. Gal Costa impõe-se sobre o mito, fazendo uma gravação alegre e mexida, repleta de insinuação juvenil. “No Tabuleiro da Baiana” é o pretexto para que Caetano Veloso, em um dueto memorável com a cantora, não falte no álbum, já que não entra como autor. Atenta ao momento de júbilo que Gal Costa proporcionava a Ary Barroso, a TV Globo patrocina um encontro antológico entre a cantora e o insuperável Grande Otelo, figura carismática do cinema brasileiro da época de Carmen Miranda; juntos, eles fazem um divertido dueto cantando “No Tabuleiro da Baiana”, no especial “Grandes Nomes – Maria da Graça Costa Pena Burgos”, no início de 1981, que faz com que a canção descole da imagem de Carmen Mirando, transferindo-se para Gal Costa.

Momentos de Solidão Épica e Delicadeza

Jogada Pelo Mundo” (Ary Barroso), outro momento de solidão, com um ápice de melancolia lírica que só Gal Costa consegue diluir na voz. Imagens de paisagens épicas atrelam-se à melodia, mostrando uma caminhada solitária entre as montanhas e as alvoradas; o quase desespero em busca da felicidade e do amor que a vida promete a todos. A canção foi gravada originalmente por Elizeth Cardoso, em 1959. Com Gal Costa chegou não só às rádios, como foi incluída na trilha sonora da novela “O Amor é Nosso!”, da TV Globo, em 1981. Outro momento que se percebe a técnica do canto de Gal Costa aliada a uma emoção sublime, definitiva.
Labiríntica como a voz de Gal Costa, “Inquietação” (Ary Barroso) é quase um precipício em que nos atiramos escravizados na interpretação da cantora neste álbum com desenhos acadêmicos, mas sedutor. Grande sucesso de Silvio Caldas, em 1935. Ilusão e imaginação são os condutores dos vôos dos sonhos e dos precipícios da realidade. Sinônimos e antônimos confundem-se na mensagem e no canto de Gal Costa.
Tu” (Ary Barroso), samba-canção que surgiu em 1934, na voz de Silvio Caldas, mas que teve o seu apogeu na interpretação da grandiosa Dalva de Oliveira. Mais uma vez, Gal Costa toma para si a responsabilidade de mexer no repertório de uma das mais míticas cantoras da MPB. Ela o faz brilhantemente. “Tu” entra para o universo da cantora como se dele sempre tivesse feito parte. Quem não acredita nas promessas loucas da cantora, que se legitima como primeira dama da MPB a cada faixa do álbum, fazendo-o com um imenso sorriso no canto:

“Teu sorriso, uma promessa louca
Teus lábios, duas jóias de coral
No engaste sensual de tua boca”

Faceira” (Ary Barroso), samba que também foi gravado, pela primeira vez, por Silvio Caldas, em 1931, é a composição mais antiga do álbum. É uma canção singela, como o canto de Gal Costa, uma bela surpresa sem pretensões, que adquire uma dimensão brejeira, despojando-a por completo da atmosfera dos morros cariocas. Momento de suave delicadeza dentro do álbum.
Novo Amor” (Ary Barroso), samba lançado por Carmen Miranda em 1937, explodindo no carnaval da época. Aqui a melancolia dos amores perdidos das outras faixas é totalmente diluída pela apoteose do amor renovado, da paixão exaltada nos seus vínculos cíclicos. Um dos momentos de alegria e êxtase do disco, em que transforma a canção em uma bem sucedida marcha do carnaval de Gal Costa.

Aquarela do Brasil, a Música

O álbum é encerrado com a mítica “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), samba exaltação considerado como hino internacional do Brasil, sendo ao lado de “Garota de Ipanema” (Tom Jobim – Vinícius de Moraes), a canção brasileira mais conhecida no mundo. Foi lançada em julho de 1939 no espetáculo “Joujoux & Balangandãs”, de Henrique Pongetti, nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo gravada por Francisco Alves, que devido ao tamanho da letra, ocupou o lado A e B de um disco de 78 rotações. A música desde o início estava fadada para o sucesso, alcançando grande popularidade, que se estenderia por todo o planeta. Depois do ataque japonês a Pearl Habor, em dezembro de 1941, os norte-americanos viram-se obrigados a entrar na Segunda Guerra Mundial. Diante de um novo cenário internacional, o presidente Roosevelt decidiu melhorar as relações do Estados Unidos com a América Latina. Como parte da propaganda da política de boa vizinhança, pediu a Walt Disney que produzisse um filme para estreitar os laços, em especial com o Brasil, país do qual precisa da borracha e da base militar no extremo oriente da América do Sul, para vencer a guerra. O filme “Alô Amigo” estreou em 1942; era um desenho animado que se iniciava com o Pato Donald no lago Titicaca (Peru), atravessando os Andes argentinos e chegando ao Rio de Janeiro para encontrar o papagaio Joe Carioca (Zé Carioca), personagem criado por Walt Disney para agradar aos amigos brasileiros. No filme, Pato Donald e Zé Carioca dançam ao som do choro “Tico-Tico no Fubá” (Zequinha de Abreu) e de “Aquarela do Brasil”. Desde então, a música foi internacionalmente assimilada ao Brasil, tornando-o colorido, tropical, país das bananas, aos olhos do mundo.
Aquarela do Brasil” além de hino turístico, fez parte de várias trilhas sonoras de filmes estrangeiros. Tornou-se um clássico, onde nove em cada dez cantores da MPB já a gravou ou a cantou.
Na época do lançamento do álbum de Gal Costa, a faixa não chegou a ser a mais tocada, pois era uma canção sem vínculos definitivos, estando no repertório de várias estrelas da música, como Elis Regina. O samba exaltação que se tornaria hino nacional na voz da cantora seria “Canta Brasil” (David Nasser – Alcir Pires Vermelho), lançada no ano seguinte, no álbum “Fantasia”.
A canção foi revigorada na interpretação de Gal Costa, atingindo um brilho luxuoso encaixada nos agudos atemporais da cantora, aqui suavemente domesticados, mas aflorados no final épico dos instrumentos musicais e dos arranjos. Com o passar do tempo, a versão tornou-se mais definitiva, atrelada a Gal Costa. Inserida definitivamente no repertório, a canção fechou, por décadas, os shows nacionais e internacionais de Gal Costa, sendo regravada em discos posteriores. De forma apoteótica com um travo de samba, encerrava-se uma das mais eloqüentes homenagens ao mestre Ary Barroso, e de acadêmico, o álbum tornou-se um clássico da MPB. Feito também a pensar no público de outros países, o álbum consolidou a carreira de Gal Costa no exterior, em especial no Japão e em Israel.

“Ah, ouve essas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, pra mim, pra mim, Brasil”

Lançado numa época em que se fazer um álbum autoral ia à contramão da MPB, “Aquarela do Brasil” apresentou Ary Barroso às novas gerações. Em 1980 o compositor, morto em 1964, estava praticamente esquecido, silenciado na memória ingrata do público brasileiro. Ary Barroso ressurgiu na voz mais bela do Brasil, saindo com a sua mãe preta do congado, imortalizado no hino cristalino do canto de Gal Costa.

Release do Álbum – Por Guilherme Araújo

Ary Barroso dominou a música popular brasileira durante as décadas de 30, 40 e 50 e no início da de 60. Sua personalidade avassaladora está presente na “chamada” fase de ouro (1928-1945) de nossa música popular. Em 1929 editou as suas primeiras composições e até 1964, ano de sua morte, é uma presença marcante na vida brasileira. O sucesso no exterior de Aquarela do Brasil, em 1944, levaria Ary a fazer diversas viagens aos Estados Unidos, sendo uma delas para receber o diploma da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood. Seu prestígio no Brasil não decorria apenas do grande compositor e poeta que era. Foi pianista, radialista dos mais populares, regente, locutor esportivo.
Mas é Ary Barroso compositor, um dos maiores do Brasil, que recebe a homenagem de Gal Costa numa seleção representativa do que deixou e fez da nossa música popular uma das coisas mais bonitas desse país. Sozinho e com outros parceiros o LP Aquarela do Brasil, de Gal Costa, é um registro da força e da atualidade de Ary Barroso. E foi com grande felicidade que acompanhei o carinho e a dedicação de Gal Costa desde os primeiros contactos com as velhas gravações que ouvíamos até a seleção final do repertório. Ela aqui está inteira, dando a sua alma e o seu talento para que as gerações mais recentes recebam como lançamento essas 12 composições de Ary Barroso.

Guilherme Araújo

Ficha Técnica:

Aquarela do Brasil
Philips
1980

Direção de Produção e Criação: Guilherme Araújo e Roberto Menescal
Técnicos de Gravação: Jairo Gualberto e Ary Carvalhaes
Técnicos de Mixagem: Jairo Gualberto e Luigi Hoffer
Auxiliar de Gravação: Julinho
Lay-Out: Arts-Azambuja & Agostinho
Fotos: Antonio Guerreiro
Produção Gráfica: Edson Araújo
Pesquisa de Repertório: Paulo Tapajós
Arranjos e Regências: Perna Fróes e Roberto Menescal

Músicos Participantes:

Baixo Elétrico: Moacyr Albuquerque
Bateria: Mamão
Guitarra: Victor Biglione
Ritmo: Geraldo Gomes, Jorginho do Pandeiro, Armando, Luna, Luiz Roberto e Ney Martins
Saxofone Tenor: Juarez Araújo
Teclados: Perna Fróes
Trombone: Edmundo Maciel e Serginho Trombone
Trompete: Darcy Cruz e Nilton Rodrigues
Flauta: Copinha e Jorginho da Flauta
Oberheim: José Roberto Bertrami e Perna Fróes
Percussão: Sérgio BoréViolão: Roberto Menescal
Piano: Antônio Perna Fróes
Clarinete: Netinho
Cordas: Orquestra Polygram

Faixas:

1 É Luxo Só (Ary Barroso – Luiz Peixoto), 2 Já Era Tempo (Ary Barroso – Vinícius de Moraes), 3 Camisa Amarela (Ary Barroso), 4 Na Baixa do Sapateiro (Ary Barroso), 5 Folha Morta (Ary Barroso), 6 No Tabuleiro da Baiana (Ary Barroso) Participação: Caetano Veloso, 7 Jogada Pelo Vento (Ary Barroso), 8 Inquietação (Ary Barroso), 9 Tu (Ary Barroso), 10 Faceira (Ary Barroso), 11 Novo Amor (Ary Barroso), 12 Aquarela do Brasil (Ary Barroso)

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