LUÍS DE CAMÕES – POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

No final do século XV Portugal tornou-se uma nação voltada para as grandes navegações que expandiriam o mapa do mundo, descobrindo novas terras e continentes. Dividiu o mundo novo com a Espanha, através do Tratado de Tordesilhas, em 1494, tornando-se uma das mais poderosas nações. O apogeu viria com o rei Dom Manuel I, que viu em seu reinado a saga de Vasco da Gama, que chegou a Calicute, na Índia, em 1498; e, Pedro Álvares Cabral, que descobriu o Brasil em 1500. A saga portuguesa pela conquista dos mares findaria em 1578, quando o rei Dom Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, norte da África, sem deixar descendentes. Em 1580 Portugal passaria a ser governado pelos reis da Espanha, também eles descendentes de reis portugueses. A saga chegara ao fim.
Luís de Camões, maior poeta da língua portuguesa, viveu neste período glorioso da história do seu país e morreu com ele. Sua vida é obscura, com poucos registros históricos, sendo o pouco que se conta ou que se sabe, muitas vezes de veracidade duvidosa, às vezes beirando à lenda. Entretanto a sua obra é conhecida no mundo inteiro. O épico “Os Lusíadas” faz parte da galeria de obras universais, tendo a sua tradução para diversas línguas, sendo admirada pelos maiores escritores do mundo e pelos amantes da literatura.
Camões, dono de uma erudição grandiosa, descreveu a saga do seu povo, mesclando figuras mitológicas com personagens seculares, transformando mitos gregos em personagens lusitanos, como o Adamastor, versão do Poseidon (Netuno), senhor dos mares; ou as Tágides, ninfas do Tejo, rio símbolo de Portugal, que deságua em Lisboa, foi porto de partida para as grandes navegações.
Luís de Camões é o símbolo do orgulho lusitano, da sua força e da coragem desbravadora. Viveu intensamente, em diversos lugares, como Macau, Goa e Moçambique, na sua intensidade poética, teve uma vida de grandes dificuldades econômicas, que lhe fez chegar à beira da miséria. Após percorrer as terras da expansão lusitana, voltou a Portugal, para lançar, em 1572, a maior obra da literatura portuguesa, “Os Lusíadas”. Morreu poucos anos depois, em 1580, esquecido e sem que se lhe desse a devida importância, vítima da peste que assolava Lisboa. Com a sua morte, também o apogeu português morreu, só sendo revivido e contado nas páginas do seu poema épico. O dia 10 de junho, data da sua morte, tornou-se o dia de Portugal.

Um Poema

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais
E, se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conforme as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Erudição em Coimbra

O ano de nascimento de Luís Vaz de Camões é incerto, sendo considerado entre 1524 e 1525, provavelmente em Lisboa. Também a sua filiação é tida como duvidosa, tendo como versão mais aceita a de que era descendente de uma família de pequena nobreza de Chaves, norte de Portugal, tendo como pai o fidalgo Simão Vaz de Camões e Ana de Sá Macedo, como mãe.
Provavelmente Camões passou a infância em Coimbra, o maior centro cultural de Portugal da época, com as suas Escolas Gerais (universidade), tendo ali, a orientação do seu tio, dom Bento de Camões, prior do convento de Santa Cruz e docente da universidade. É aceito por historiadores, que o poeta teria freqüentado o Estudo Geral da Universidade de Coimbra, o que explicaria a sua imensa erudição e conhecimentos de humanísticas, das obras de Petrarca, de Dante, dos filósofos gregos e dos poetas latinos. Mas nenhum registro dessa passagem consta nos arquivos da universidade.
Ainda em Coimbra, reza a tradição que muito jovem, era um ardoroso conquistador, tomando para si os corações de diversas mulheres, das plebéias às damas mais belas da nobreza, tornando-se alvo da inveja dos ricos fidalgos. Sua juventude foi presenteada aos livros, aos prazeres do espírito e do corpo.
A necessidade visceral que Camões tinha de desbravar os lugares mais eruditos, provavelmente levou-o a abandonar Coimbra antes de concluir os estudos, assim, o jovem poeta partiu para Lisboa, sendo aceito na corte de dom João III, devido à influência da sua ascendência fidalga. Camões exalaria a sua fama de poeta por toda Lisboa, perpetuando-se como a principal personagem da história da cidade.

Perda do Olho Direito

Na corte lisboeta, o jovem poeta faz versos ardentes e apaixonados para uma dama loura e de olhos claros, cujo nome jamais será revelado. Alguns historiadores apontam o jovem Camões como preceptor do filho do conde de Linhares, linhagem da nobreza portuguesa que seriam protetores do poeta por toda a sua vida aventureira.
Seu vigor juvenil, sua fama de conquistador de damas e os seus conhecimentos infindáveis das letras, geraram inveja e intrigas, que ele próprio participou, corroborando para que crescessem. Aos 24 anos, as teias das intrigas levaram-no à vida aventureira e errante que o lançaria para a história do seu povo. Assim, vitimado pelas efervescências de Lisboa, resultante de um amor mal sucedido, Camões foi desterrado para Belver, interior de Portugal, no Alto Alentejo.
Algum tempo depois de deixar a vida no Paço, Camões recebeu um despacho real, que o enviou transferido de Belver para Ceuta, no norte da África, lugar que servia como base para deter o avanço dos mouros nas investidas contra a península Ibérica. Teria sido em Ceuta que ocorrera um fato que marcou para sempre a vida do poeta, num combate que tomou parte, perdeu o olho direito. Desde então, a imagem de Camões seria para sempre representada com esta deformidade, sendo os seus retratos marcados pela evidência do logro físico.

A Caminho da Índia

Ao retornar a Lisboa, o poeta já não encontrou a deferência das pessoas, ou mesmo a presença dos velhos amigos. Seu rosto, marcado pela perda do olho direito, já não atraía às belas damas da corte. Estava irremediavelmente sozinho.
Em 16 de junho de 1552, Luís de Camões envolveu-se em um incidente que lhe iria mudar a vida. Ao participar da procissão de Corpus Christi, o poeta desentendeu-se com um certo Gonçalo Borges, funcionário da Casa Real. Este é um dos poucos fatos da vida de Camões que está devidamente relatado por um documento histórico, a Carta do Perdão, de 1553. Não se sabe o motivo da desavença, a conseqüência foi o poeta a desferir um grave golpe de espada no pescoço do desafeto. Camões foi levado à prisão, onde ficou preso durante nove meses, enquanto Gonçalo Borges restabelecia-se do ferimento.
Em 1553, Camões foi indultado, mediante o pagamento de quatro mil réis exigidos pelo rei. Poucos dias após ter deixado a prisão, o poeta embarcou como simples soldado, na armada de Fernão Álvares Cabral, filho de Pedro Álvares Cabral, rumo a Goa, na Índia.
Ao embarcar para a Índia, Camões iniciava o processo de conhecimentos que seriam fundamentais para a criação do seu poema épico, “Os Lusíadas”. Os seis meses que passaria no mar, a caminho de Goa, levar-lhe-iam por terras ignotas, jamais imaginadas ou concebidas na imaginação de um poeta. Da calmaria das costas africanas, às tempestades marítimas do oceano Índico, Camões conheceu terras selvagens, civilizações exóticas ao seu mundo cristão, tudo a se mesclar com os clássicos gregos, formando na sua mente um imenso mosaico que quando foi transportado para o papel, tornar-se-ia a maior obra do povo português.

Lendas e Verdades na Composição de “Os Lusíadas

Ao contrário dos seus compatriotas contemporâneos, que construíram grandes fortunas nas possessões asiáticas portuguesas, Luís de Camões passou três anos em Goa a viver na mais completa miséria.
Em 1556, foi nomeado para o cargo de provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes da China, partindo para Macau. É deste tempo a sua participação em refregas militares, com ataques aos nativos que combatiam os portugueses; batalhas contra os beduínos na Arábia e expedições a Malaca e ao Vietnã.
Seria durante o tempo que viveu em Macau que, conta a lenda, teria escrito o épico “Os Lusíadas”. A idéia do poema teria surgido em Lisboa, mas a composição dos seus dez cantos, é fruto incontestável das suas andanças pelo continente asiático.
A composição de “Os Lusíadas” perde-se da veracidade histórica e assimila a narrativa romântica da lenda. Teria sido escrita em Macau, numa gruta à beira mar, para onde o poeta dirigia-se todos os dias. Enquanto compunha verso a verso, era acompanhado da sua amada chinesa, Dinamente. A gruta atribuída à composição de “Os Lusíadas” é pequena, quase uma fenda na rocha, freqüentemente inundada pelas águas da maré alta, sendo impossível que se permaneça tanto tempo dentro dela.
A lenda e a história confundem-se em uma só. Ao retornar para Goa, em 1560, Camões naufragou no caminho, na foz do rio Meckong, salvando-se a nadar apenas com um braço, tendo o outro estendido acima das ondas, erguendo heroicamente “Os Lusíadas”, salvando o seu poema épico.

Publicação de “Os Lusíadas

À volta a Goa foi feita com o poeta mantido sob custódia, para ser julgado, acusado de não ter exercido plenamente a função de provedor-mor sobre os bens dos defuntos e ausentes em Macau, sendo destituído do cargo. Livra-se do julgamento pela intervenção de um amigo influente, conseguindo uma nomeação como feitor em Chaul.
Camões não chega a exercer a nova nomeação, pois é preso por dívidas, através de um requerimento de um certo Manuel Roriz. O poeta escreve um poema humorístico ao vice-rei, Francisco de Sousa Coutinho, o conde do Redondo, a pedir o seu auxílio, sendo por ele libertado.
Camões só deixaria a Índia em 1567, embarcando numa nau rumo a Moçambique, com a passagem sendo oferecida pelo capitão. Na África, o poeta pensava em recorrer à ajuda de um amigo, mas teve as esperanças frustradas, passando a viver ainda com maiores dificuldades.
Foi encontrado pelo historiador Diogo do Couto, em Moçambique, a viver na mais completa miséria, a comer do que lhe dava alguns amigos. O poeta retornaria para Lisboa com Diogo do Couto, que juntamente com outros companheiros embarcados, vestiu-lhe roupas para que pudesse viajar e chegar à corte com mais dignidade ante a miséria que se lhe abatera.
Ao regressar a Lisboa, em 1570, fica a saber da grande peste que assolou a cidade de 1568 a 1569. Já não possui qualquer acesso a corte. Empenha-se em publicar “Os Lusíadas”. Aperfeiçoa a obra, faz uma cópia especial para dedicar ao rei dom Sebastião. Sob a influência do amigo de juventude, dom Manuel de Portugal, o frade dominicano Bartolomeu Ferreira, responsável pela censura do Santo Ofício, não criou obstáculos para a publicação do épico, mesmo ela contendo a presença de divindades pagãs, o que era proibido pela Inquisição. Sobre as figuras pagãs, Bartolomeu Ferreira justificou no seu despacho inquisitorial: “Como isto é poesia e fingimento, e o autor, como poeta, não pretende mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ir esta fábula na obra. E por isto me parece o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas”.
Assim, um alvará régio de setembro de 1571, concedeu a licença de publicação da obra, e garantiu os direitos de autor de Camões por dez anos. Em 1572 foi publicado, pela primeira vez, “Os Lusíadas”.

Morte do Poeta e Fim da Autonomia de Portugal

Após a publicação de “Os Lusíadas”, dom Sebastião concedeu uma tença de quinze mil réis por ano a Luís de Camões, quantia pequena quando comparada a outras pensões concedidas na época. A pensão era paga com atraso, causando grandes transtornos ao poeta, que passou os últimos anos de vida preso às limitações financeiras.
Em 1578, o rei dom Sebastião desapareceu nas areias do deserto de Alcácer-Quibir, em meio a uma sangrenta batalha contra os mouros no norte da África, sem deixar descendentes, deflagrando uma grande crise sucessória no trono português.
De 1579 a 1581, Lisboa foi assolada por uma nova epidemia de peste, ceifando várias vidas. Camões contraiu a peste em 1580, sucumbindo em cinco dias, morrendo em 10 de junho.
No meio da epidemia, gerou-se um caos diante de tantos cadáveres acumulados para que fossem inumados. O corpo de Luís de Camões foi envolvido em uma mortalha e atirado, ao lado de outros mortos pela peste, na cripta da igreja de Santa Ana, em Lisboa. Permaneceu ali, até que o grande terremoto de 1755, que destruiu a cidade de Lisboa quase que por completo, derrubou o templo, misturando as ossadas que se encontravam ali. Em 1880, todas as ossadas que jaziam na igreja, foram levadas para o Panteão Nacional e para o Mosteiro dos Jerónimos, onde foram estabelecidos, nos dois locais, os túmulos oficias de Luís de Camões, embora não se saiba se aquelas ossadas pertençam realmente ao poeta.
Em 1580 Portugal perdia a sua autonomia, passando a ser governado pelo rei espanhol Filipe II (I de Portugal), descendente de dom Manuel I. Portugal perdia o esplendor alcançado, desaparecido com o seu maior poeta. Mas o reconhecimento do valor de Luís de Camões só viria muito tempo depois. “Os Lusíadas” passou a fazer parte da literatura universal, sendo admirado por pessoas do mundo inteiro. A data da morte do poeta, 10 de junho, passou a figurar como feriado e tido como dia da nação lusitana. A glória desta nação está para sempre registrada no poema épico de um escritor genial, com estilo cravado no classicismo e maneirismo, mas com pinceladas do barroco que despontava, nos paradoxos do famoso poema conhecido por “Amor é fogo que arde sem se ver”.

Outro Poema

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

OBRAS:

Épico

1572 – Os Lusíadas

Lírica 1595 – Amor é Fogo que Arde Sem se Ver
1595 – Eu Cantarei o Amor Tão Docemente
1595 – Verdes São os Campos
1595 – Alma Minha Gentil, Que te Partiste
1595 – Que me Quereis, Perpétuas Saudades?
1595 – Sete Anos de Pastor Jacob Servia
1595 – Sobolos Rios que Vão
1595 – Quem Diz que Amor é Falso ou Enganoso
1595 – Transforma-se o Amador na Cousa Amada
1595 – Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades

Teatro

1587 – Auto de Filodemo
1587 – El-Rei Seleuco
1587 – Anfitriões

Cronologia

1524 ou 1525 – Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, possivelmente em Lisboa.
1549 – É desterrado para Belver, no Alentejo.
Embarca para Ceuta, no norte da África, para combater os mouros. Em uma refrega, perde o olho direito.
1551 – Regressa de Ceuta, aportando em Lisboa.
1552 – Fere com a espada, um funcionário da Casa Real, sendo preso.
1553 – Consegue ser indultado, mediante pagamento de quatro mil réis, sendo posto em liberdade.
Embarca para Goa, na Índia.
1556 – É nomeado provedor-mor dos bens de defuntos e ausentes de Macau.
Participa de várias investidas militares pela Ásia.
1560 – Naufraga na foz do rio Meckong, ao retornar à Índia.
1561 – É destituído das funções de provedor.
Enviado para Goa para ser julgado por má gestão dos bens dos defuntos e ausentes em Macau, ficando livre do julgamento graças à intervenção de um amigo.
Nomeado para a função de feitor de Chaul, mas não chega a exercer o cargo.
1562 – Preso por dívidas não pagas, em Goa, sendo libertado pelo vice-rei dom Francisco de Sousa Coutinho.
1567 – Embarca para Moçambique.
1570 – Regressa a Lisboa.
1572 – Publicada a primeira edição de “Os Lusíadas”.
1580 – Morre, em 10 de junho, em Lisboa, vítima de uma epidemia de peste.

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Uma resposta para LUÍS DE CAMÕES – POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS

  1. José Luz disse:

    Quanto ao suposto degredo de Camões, temos a obra de Fernão Álvares do Oriente, «Lusitânia Transformada». António Cirurgião, investigador, defende e justifica academicamente que a personagem Urbano será Camões. Como sabemos Urbano foi desterrado para a zona entre a confluência do Nabão com o Zêzere e Punhete, actual Constância.

    O autor é contemporâneo e amigo de Camões.

    Certezas ninguém tem sobre Camões.

    Belver.

    Pois…

    Já escrevi uma dissertação jornalística sobre o assunto.

    Talvez seja preferível não fazermos afirmações taxativas.

    Cumprimentos.

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