RETRATOS DO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Dezembro 29, 2008

Se as palavras descrevem os acontecimentos, a imagem resume todas elas, e muitas vezes o silêncio da película atinge todos os universos da comunicação. Com a evolução da técnica fotográfica, uma nova arte tomou o mundo nos fins do século XIX, consolidando-se no século XX.
Em um mundo cada dia mais globalizado, a imagem adquiriu dimensões de linguagens jornalística e artística, criando verdadeiros emblemas. A história recente e de todo o século XX pode ser contada através da imagem. Muitas fotografias tornaram-se ícones do século que foram feitas, como a de Che Guevara, feita por Alberto Korda, em 1960, que nos tempos da Guerra Fria era símbolo dos militantes de esquerda e, nos tempos da globalização, tornou-se uma das imagens mais vendidas e usadas na comunicação, ironicamente, a imagem do líder guerrilheiro é hoje um dos principais símbolos do consumismo capitalista. Outra imagem ícone é a fotografia de Albert Einstein mostrando a língua para a câmera, feita por Arthur Sasse.
Outras imagens gravaram momentos históricos que chocaram o mundo, mostrando uma face muitas vezes camuflada por guerras ou por regimes ditatoriais. A Guerra do Vietnam deixou imagens dramáticas, como “A Menina Napalm”, de Nic Ut, que mostra a dor de uma menina correndo nua depois de ter a casa bombardeada por napalm, ou a “Execução em Saigon”, de Eddie Adams, focando um homem tendo uma arma apontada para a cabeça, momentos antes de ser executado.
Seja qual for a imagem, o seu efeito diante das pessoas é que irá determinar a sua perenidade. Aqui, cinco imagens desnudam um mundo, às vezes cruel, mas que diante da tragédia, deixa a emoção fluir e registrar as suas mazelas. Seja na Ásia, na Europa, na África ou na América, as imagens trazem um retrato denso, às vezes cáustico, um retrato do planeta que o homem faz.

Mãe Migrante, de Dorothea Lange

Mãe Migrante (Migrant Mother). – Dorothea Lange. – Fotografia feita em Nipomo, Califórnia, entre fevereiro e março de 1936. A imagem de Florence Owens Thompson, uma mulher retirante, e dos seus sete filhos, tornaram-se o símbolo da miséria provocada pela grande depressão de 1929.
A miséria dos catadores de ervilhas, dos trabalhadores do campo, é refletida nos olhos de Florence Owens Thompson, aqui amparando nos ombros dois dos seus sete filhos e um terceiro nos braços. A ambição humana explodira a Bolsa de Nova York em 1929, levando o mundo à miséria e à fome. A mulher fotografada traz no rosto o semblante latente da fome, ainda assim, demonstra uma dignidade pulsante, uma força que a faz sobreviver às hostilidades de um mundo cáustico em seu capitalismo desmedido.
Não é a mulher que posa para a fotografia, e sim a mãe, um ser totalmente desprovido das vaidades femininas, com as mãos maltratadas, feitas para afagar a prole no momento da fome. As rugas na testa e em volta dos olhos iluminam a madona, apagando a Eva que um dia transitou nua pelo paraíso de si mesma, a mulher que sobrevive das aves que os filhos caçam, que mora em uma barraca coberta por lona. Aos trinta e dois anos, Florence Owens Thompson traz as marcas profundas do seu tempo, se a juventude esvai-se com a fome que a assombra, a sua beleza agreste traz toda a profundidade do mundo.
Mãe Migrante” não nos revela a luz de uma imagem de um país africano, asiático ou do nordeste brasileiro, mas do país mais poderoso e rico do mundo, que na perseguição ambiciosa dos especuladores financeiros, gerou a mais profunda depressão e miséria. A imagem correu os Estados Unidos e o mundo, transformando-se no símbolo da depressão americana. Curiosamente, em 2008 os especuladores financeiros continuam a jogar sobre o mundo a sombra do colapso e da miséria, frutos da ganância de Wall Street.

Criança Sudanesa Vigiada pelo Abutre, de Kevin Carter

Criança Sudanesa Vigiada pelo Abutre. – Kevin Carter. – Fotografia feita no Sudão, em 1993. O fotógrafo registra o momento que uma menina, debilitada pela fome, luta para chegar a um centro de alimentação, quando é observada e perseguida por um abutre. A fotografia que correu o mundo, chocando a todos pela crueza da imagem e por uma certa frieza do fotógrafo em esperar vinte minutos para que o abutre abrisse as asas em sinal de ataque, em vez de ajudar a criança. Kevin Carter ganhou o Prêmio Pulitzer de melhor foto jornalismo, em 1994.
A imagem dantesca da fome paira por todos os ângulos da fotografia. O homem, aqui na figura de uma menina, é reduzido à miséria absoluta. Esquelética, famélica, a criança luta com as últimas forças que lhe restam, na tentativa de chegar a lugar algum. O abutre, em seu instinto animal, fareja a morte, vendo na criança a sua alimentação. É a volta à condição primitiva da sobrevivência, em pleno século da tecnologia. O abutre e a criança, a miséria e a fome, uma luta que se torna desigual diante da debilitação física da menina, mas o abutre não percebe a profanação humana, tão pouco a sua miséria, para a ave de rapina, a criança é apenas um animal prestes a morrer, a ter a carcaça devorada pelas feras da savana africana.
Se para o abutre não há culpa, para nós, pertencentes ao gênero humano, todas as culpas vêm à tona diante da tragédia humana que se evidencia na imagem. Impossível ficar indiferente, não odiar a servidão humana, as injustiças sociais,a guerra, o fotógrafo que se detém, primeiro para registrar o momento, depois para perceber o ser humano que naquele instante, vale menos do que um abutre. Se a culpa da imagem nos impregnou a alma, também Kevin Carter não suportou carregar consigo este momento tão cáustico, suicidando-se, aos trinta e três anos, em 1994, quatro meses depois de receber o Prêmio Pulitzer.

Mulheres Velam Elshani Nashim, de Georges Merillon

Mulheres Velam Elshani Nashim. – Georges Merillon. – Fotografia feita em Nogovac, Kosovo, na antiga Iugoslávia, em 28 de janeiro de 1990. No dia anterior, uma manifestação que protestava contra a decisão da Iugoslávia de abolir a autonomia da província do Kosovo, cuja população era em sua maioria albanesa. Os protestos transformaram-se em motim, que sofreu forte repressão do Estado. Elshani Nashim foi morto durante os protestos. Eleita como a fotografia do ano, em 1990, pelo World Press Photo.
A fotografia mostra a dor da mulher diante da perda. São elas que velam o morto, como carpideiras das injustiças, pranteiam o ente querido, transformado em cadáver diante da vida, em mártir ante à história. Se o homem gera as guerras, os ódios, as ideologias, cabe às mulheres o preço a ser pago. No centro da fotografia, uma mulher demonstra a dor em todo o seu esplendor, sendo amparada pelas outras. Do lado direito da imagem, a mais jovem das mulheres não verte lágrimas, seu olhar quase que atravessa a objetiva, na intensidade da dor, ela demonstra sofrimento e ódio. É a mulher a conviver com as injustiças humanas, a ser a maior vítima da insensatez da história.
Na imagem não há espaço para os homens, o único que aparece está morto. São as mulheres as personagens principais, afinal cabe a elas chorar os mortos, aos homens resta chorar as ideologias perdidas. Mulheres de vestes camponesas, das aldeias do interior, neste momento tornam-se universais. Mulheres européias, que longe dos centros urbanos do continente e dos seus holofotes, parecem esquecidas no tempo.
A fotografia de Georges Merillon era apenas o prólogo do que estava por vir. A Europa, em 1990 comemorava o fim da Guerra Fria, a queda do muro de Berlim, mas ali perto, na Iugoslávia, uma grande implosão causaria uma guerra que os europeus julgavam impensável depois da Segunda Guerra Mundial. Mais do que um presságio, Merillon registrou na sua fotografia a síntese da dor que viria, tirando para sempre a Iugoslávia do mapa, fragmentada em sangue e em vários países independentes.

Mulher Chora os Mortos pelo Tsunami, de Arko Datta

Mulher Chora os Mortos pelo Tsunami. – Arko Datta. – Fotografia feita na Índia, em 28 de dezembro de 2004, quando um tsunami devastou grande parte dos países do sudeste asiático, sendo responsável pela morte de milhares de pessoas. Eleita a melhor fotografia de 2004 pelo World Press Photo.
Não é só o homem o causador das suas tragédias, também a natureza tem os seus momentos de revolta contra a humanidade, mostrando-se indomável e sem culpas. O tsunami veio do mar, atravessou a terra e ceifou vidas. Após a catástrofe, é o momento de procurar pelos sobreviventes e prantear os mortos. Aqui a mulher é abatida por um momento de desespero e dor, deixando-se tombar no chão, prostrando-se para o infinito de Deus, como se tentasse um consolo, uma redenção que redimisse o vazio, ou talvez, mostrar-se pequena diante do nada do mundo. De costas, sobre a terra molhada pela onda e pela tragédia, ela apenas lamenta as perdas, para depois poder enxergar-se como sobrevivente.
O fotógrafo poderia focalizar a objetiva apenas na mulher, terminando ali o registro da imagem, mas ele percorre um pouco mais do espaço, mostrando um cenário desolador ao apresentar o pedaço do braço de uma vítima. Este detalhe amplia a imaginação, dando a dimensão exata da tragédia, pois ali está não um braço, mas um cadáver, o que nos remete para todos os outros cadáveres ocultados. Também um chinelo solitário faz com que nos lembremos que ele calçou uma vítima que a onda levou. Se a dor da mulher é latente, latejada é a morte no braço cheio de hematomas que se nos salta aos olhos.

Menina Afegã, de Steve McCurry

Menina Afegã (Afghan Girl). – Steve McCurry. – National Geographic. – Fotografia feita em 1984, de uma menina afegã, no acampamento de refugiados Nasir Bugh, no Paquistão. Fugitivos da Guerra do Afeganistão, ocasionada pela invasão soviética (1979-1989), que gerou o êxodo de várias famílias para as fronteiras do país vizinho.
No meio dos fugitivos da guerra, estava esta menina de doze anos, que trazia uma beleza bíblica, de um exotismo singular. Rosto lavado, sem maquiagens, delineado pelos enormes olhos verdes, que brilhavam como uma esmeralda rara, lapidada pelos mistérios de um povo marcado por guerras e pela fuga constante da destruição, da fome e da morte.
Sobre a cabeça um lenço vermelho como único adorno, que apesar de roto, com profundos rasgos, faz o contraste com o verde dos olhos, trazendo um magnetismo bíblico à fotografia, realçando a beleza agreste, quase extraída dos livros dos profetas, traduzida pelos ventos da guerra.
A menina mostra a mulher que se lhe desabrocha, traz o impacto de um olhar fulminante, que não se intimida com a objetiva, que no momento do registro, está pronta para eternizar o seu grito silencioso. Só os olhos gritam. E neles há uma beleza de verdades tão profundas, que se irá difundir pelo mundo e conquistar milhões de pessoas. É um momento único de uma beleza que se irá, assim como o seu país, desgastar rapidamente pela poeira do sofrimento e dos ódios seculares.
A fotografia seria capa da revista National Geographic de junho de 1985, tornando-se a mais famosa da sua história. O impacto da beleza da imagem jamais saiu da lembrança das pessoas de todo o planeta, celebrizando para sempre Steve McCurry. O fotógrafo perseguiu anos pistas que o levassem à menina da fotografia, ansioso de saber o seu nome, o que lhe sucedera, que caminhos seguira. A resposta viria quase duas décadas depois. Em 2002 McCurry e uma expedição da National Geographic, partiram para as fronteiras do Afeganistão e do Paquistão, em busca da famosa menina. Encontraram-na com trinta anos, descobrindo que se chamava Sharbat Gula. Encontrada, ela veio, pela segunda vez, a ser capa da National Geographic, em abril de 2002. Da beleza de outrora nada restara, Sharbat Gula era uma mulher envelhecida, marcada pela guerra civil que se sucedeu após o fim da invasão soviética ao seu país. O brilho latente dos seus olhos verdes já não existia.

Veja também:

 

TRÊS IMAGENS: RETRATOS DA MULHER E DO SEU TEMPO

http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/04/tres-imagens-retratos-da-mulher-e-do-seu-tempo/


O REGICÍDIO

Dezembro 27, 2008

A 5 de outubro de 1910 era proclamada a República em Portugal, pondo fim a uma das monarquias mais antigas da Europa. A jovem República herdara um país empobrecido, longe dos áureos tempos das grandes navegações. Além de uma economia precária, trazia nas costas o sangue derramado do penúltimo rei português, nódoa que jamais sairia do cenário histórico português.
No dia 1 de fevereiro de 1908, sucedeu-se na Baixa Lisboeta, entre o Terreiro do Paço e a Rua do Arsenal, uma das maiores tragédias da história da monarquia portuguesa, o assassínio do rei Dom Carlos e do príncipe Luis Filipe. Vítima da sua política déspota e ditatorial, o monarca suscitou o ódio popular, incitando sobre si, as revoltas e várias armas apontadas. Dom Carlos retornava de uma temporada no Alentejo, quando foi surpreendido por revoltosos militantes dos Dissidentes e dos Republicanos, cerca de oito (ou dezoito, conforme algumas versões) começaram a atirar sobre o landau que trazia a família real. Dom Carlos tombou sob os tiros da Winchester 351 de Manuel Buíça, e o filho, o infante Dom Luís Filipe, sob os tiros de Alfredo Costa. A rainha Dona Amélia, usando as flores que recebera de boas vindas a Lisboa, batia com elas no rosto dos atiradores, em vão, tentando defender a família. Minutos depois as flores caíam no chão, manchadas de sangue, assim como a monarquia, que dava os seus últimos suspiros. Nas ruas da cidade, o sangue real lavava todos os pecados do reinado de Dom Carlos, o regicídio abria as portas para a República, fechando de vez as da Monarquia.

O Mapa Cor-de-Rosa, Primeira Derrota do Reinado de Dom Carlos

O reinado de Dom Carlos teve início em 1889, quando sucedeu ao pai, Dom Luís. Desde que ascendera ao trono, o monarca fora contestado, sendo responsabilizado por todas as mazelas de Portugal.
O grande desgaste que atingiria para sempre a imagem do rei diante dos seus súditos, viera de uma questão com a Inglaterra, em 1890. O país possuía colônias no sul da África, entre os oceanos Atlântico e Índico, para uni-las, o governo português traçou o chamado Mapa Cor-de-Rosa, que consistia nos territórios de Angola, Moçambique, e o espaço entre eles, chamado de Chire. Portugal apresentou o mapa aos países aliados, tomando para si o direito aos territórios. A Inglaterra não gostou do mapa, que a obrigava a passar pelos territórios lusitanos para unir as suas colônias africanas de norte a sul. O império Britânico deu um ultimato a Portugal, que abandonasse imediatamente a região do Chire, caso contrário declarar-lhe-ia guerra. Sem saída, impossibilitado de enfrentar tão poderosa nação, Dom Carlos cedeu às pretensões inglesas, perdendo com isto, a popularidade, fazendo com que crescesse os simpatizantes dos republicanos, que, aproveitando-se da insatisfação popular, tentariam a implantação da República no Porto, em 31 de janeiro de 1891.

João Franco é Nomeado Presidente do Concelho

O fim do século XIX foi caracterizado pela decadência da Monarquia e pela acentuada corrupção eleitoral, promovida por dois partidos, o Progressista e o Regenerador. Estes partidos revezavam-se no poder, tendo como juiz o próprio rei, que quando via terminar o mandato de um deles, chamava o outro, por este motivo, os dois partidos eram conhecidos como “rotativos”. Esta manipulação real, consentida pelo oportunismo partidário, teve a harmonia quebrada em 1901, quando João Franco abriu uma cisão no Partido Regenerador e, em 1905, quando José Maria Alpoim abriu outra cisão no Partido Progressista, formando a Dissidência Progressista. Diante das divisões, do desgaste, da corrupção e dos escândalos políticos, o parlamento deixou de funcionar a partir de 1904.
Marcada pela letargia do parlamento, a primavera de 1905 trouxe grandes tumultos e agitações que selariam de vez o futuro do rei e a sua integridade física. De 9 a 13 de abril, as guarnições dos cruzadores “D. Carlos” e “Vasco da Gama”, sob a inspiração de José Maria Alpoim, revoltaram-se, produzindo um movimento que tinha como meta pôr o infante Dom Luís Filipe no trono, no lugar do pai.
Não bastassem as guarnições revoltosas, a 4 de maio, o republicano Bernardino Machado promoveu uma manifestação que foi severamente dispersada pela polícia, deixando dezenas de feridos. No Campo Pequeno, o republicano Afonso Costa, na presença da rainha Dona Amélia, recebeu uma grande ovação. Incomodado pelas agitações cada vez mais contundentes, o presidente do Conselho, o regenerador Hintze Ribeiro, pediu ao rei que suspendesse indefinidamente a sessão legislativa, até que se estabelecesse a normalidade. Diante de uma proposta de se instaurar uma ditadura, Dom Carlos recusou a proposta do presidente do conselho. Em 19 de maio, nomearia para o cargo de Hintze Ribeiro, o exaltado João Franco Castelo-Branco.

Decreto Arbitrário e Ditatorial

João Franco demonstrou-se um desastre para o combalido governo de Dom Carlos. Sob os arroubos da exaltação, chegou prometendo o fim da política de “rotação”, demonstrando desde sempre, contumaz inimigo dos “rotativos”. Prometeu formar um genuíno parlamento, eleito sem comprometimentos. Diante de uma política viciada, João Franco propunha, inconscientemente, uma explosiva situação revolucionária. Para liquidar os “rotativos”, ele precisava de um reino ditatorial para chegar ao reino da liberdade. Não podendo acabar de vez com a “rotação”, uniu-se a um dos partidos que dela fazia parte, os Progressistas. Mas a inabilidade e a falta de competência de Franco para liquidar os “rotativos”, fez com que estes organizassem manifestações contra Dom Carlos, incitando para isto, populares em Arganil, na Régua e em Vila Real. Por fim, o rei tornou-se alvo das difamações, maledicências e ódios por todo o reino.
Tentando fazer uma eleição menos viciada, João Franco viu, em 1906, a vitória de quatro republicanos ao parlamento: Antonio José de Almeida, João de Menezes, Afonso Costa e Alexandre Braga. O presidente do Conselho governou sofrendo o obstrucionismo nas Câmaras e, com profundas campanhas difamatórias da imprensa, gerando cada vez mais desafetos para o seu governo e para o rei.
Em 1907, bastante enfraquecido, João Franco viu-se ameaçado pelos Progressistas, que tramavam para substitui-lo. Para impedir a sua derrocada, Franco pôs somente aliados no governo.
Terminada a união com os Progressistas, sem alianças, restava a iminência de uma ditadura, que combatesse os “rotativos”. A 8 de maio de 1907, Dom Carlos assinou um decreto que dissolvia a Câmara dos Deputados, sem a prévia consulta do Conselho de Estado e sem que se marcassem eleições, conforme determinava a Constituição. Estava instaurada a ditadura absolutista de Dom Carlos e do seu aliado, João Franco.

Corrupção e Conspirações

Ainda no fatídico ano de 1907, explodiu uma greve acadêmica em Coimbra, contestando as arbitrariedades do governo, que logo se alastrou por todo o país. A situação tornou-se mais delicada quando João Franco, para evitar os constantes ataques dos jornais republicanos e dos Dissidentes Progressistas, faria aprovar uma nova lei repressiva, que viria a ser conhecida como “a lei contra a imprensa”.
Em novembro de 1907, o Dissidente Antonio Centeno, em discurso na Câmara dos Pares, mencionou que havia contas a liquidar entre a administração da Casa Real e o Estado, ao que Franco confirmava, espontaneamente, que Dom Carlos recebera adiantamentos ilícitos do Estado à Casa Real. Imediatamente foram espalhados boatos de que o rei roubava o Estado. Para deteriorar ainda mais a situação, o rei declarava arrogantemente ao jornal parisiense “Le Temps”, que era o responsável pela dissolução da Câmara, e que quando ele e Franco achassem conveniente, convocariam as eleições.
A questão dos “adiantamentos” não saiu mais da pauta da imprensa e das calorosas afrontas no Parlamento. Portugal era um país empobrecido, cada vez mais isolado nas questões políticas européias. Para uma população que se via cada dia mais carente financeiramente, defrontar-se com os boatos de uma Monarquia corrupta, fazia com que aumentasse a simpatia pelos republicanos e desprezassem o seu rei, que se tornara um absolutista, recorrendo a uma forma repressiva e ditatorial de governar. Se a verdade sobre a corrupção de Dom Carlos pode ser historicamente contestada e provada a sua inocência, a sua forma de ditador não o redimiu, pelo contrário, tornou-se historicamente inquestionável.
Se a popularidade do rei caía vertiginosamente, os movimentos conspiratórios contra o seu reinado ascendiam espetacularmente. No princípio de novembro de 1907, a conspiração dos republicanos e dos Dissidentes Progressistas estava pronta para travar a luta definitiva. Armaram-se com carabinas e revólveres, começaram a tramar uma revolução que culminasse com o fim da Monarquia e a proclamação da República. Na véspera da intentona republicana, marcada para o dia 28 de janeiro de 1908, os seus dirigentes, entre eles João Chagas, José Maria Alpoim, Afonso Costa, Antonio José de Almeida, o visconde da Ribeira Brava, João Pinto dos Santos e Egas Moniz, distribuíram carabinas winchester e revólveres aos grupos de aliados civis.
Mas a intentona foi descoberta antes que se concretizasse, levando os seus principais conspiradores à prisão. No meio da confusão, grupos de aliados civis continuaram armados, entre eles Manuel Buíça, que herdara uma Winchester 351, e Alfredo Costa, herdeiro de um revólver. Os dois dariam os tiros fatais que matariam o rei Dom Carlos e o seu filho Dom Luís Filipe.

O Regicídio

Para punir os conspiradores, Dom Carlos, a 31 de janeiro de 1908, assinou um decreto que autorizava o governo a expulsar do reino e degredar para as colônias ultramarinas, os culpados de crimes contra a segurança do Estado. Um jornal, “O Mundo”, descobriu uma cópia do decreto e publicou-o, incitando a revolta contra o rei. Falsamente, o jornal, de tendência republicana, concluía que Egas Moniz, Afonso Costa, Ribeira Brava, João Chagas e Antonio José de Almeida seriam deportados para Timor, fato que nunca estivera nos planos de Dom Carlos.
Era costume da família real passar o mês de janeiro em Vila Viçosa, Alentejo. Quinze dias antes do retorno oficial, a rainha Dona Amélia quis voltar, mas o rei recusara. João Franco incentivou o rei a lá permanecer, sua volta antecipada poderia demonstrar fraqueza diante dos acontecimentos conturbados, segundo o presidente do Conselho, era preciso mostrar que tudo corria sem preocupações.
Assim, findo o mês de janeiro, a família real regressou para Lisboa. No caminho de volta, um descarrilamento do comboio, em Casa Branca, atrasaria algumas horas a chegada à capital.
No fim da tarde de 1 de fevereiro, a família real chegava à estação fluvial do Terreiro do Paço. O visconde de Asseca, estribeiro-mor, indagou ao rei se preferia fazer o trajeto até o Palácio das Necessidades de automóvel ou de carruagem aberta, fatalmente Dom Carlos escolheu a carruagem aberta, o landau. À espera do rei estavam o infante Dom Manuel, que retornara mais cedo do Alentejo, Dom Afonso, João Franco, as damas palatinas, os cortesãos e os fiéis, além de alguns políticos. Por volta das cinco horas da tarde, Dom Carlos subiu na carruagem aberta, ao seu lado, à frente, iam os dois infantes e Dona Amélia. Quando o landau atravessava o meio da passadeira no lado ocidental do Terreiro do Paço, um homem de gabão saiu da placa central, extraiu uma carabina da capa, ajoelhou-se e atirou. Era Manuel Buíça, o seu tiro atingiu o rei, partindo-lhe a coluna, matando-o instantaneamente. O landau foi cercado por dois outros homens, que abriram fogo atingindo a carruagem e as paredes do Ministério da Fazenda. Da arcada surgiu Alfredo Costa, que empunhando um revólver Browning FN, calibre 7.65, saltou para o estribo do landau, disparando dois tiros em Dom Carlos, a esta altura, já morto, o rei foi atingido no antebraço e na omoplata direita. O infante Dom Luís Filipe levantou-se, tentando sacar de um colt, calibre 38, que trazia consigo. Alfredo Costa atingiu o príncipe com uma bala no peito. Ferido, o príncipe respondeu com um tiro, atingindo Costa, que rolou para o chão. Manuel Buíça continuava a disparar sobre Dom Carlos, finalizando com um tiro letal na cabeça de Dom Luís Filipe. Dona Amélia desceu do landau, e com um ramo de rosas que recebera como presente de boas-vindas, fustigou o rosto de Alfredo Costa, forçando-o a parar de atirar na sua família.
Após alguns minutos fatídicos, a escolta do rei reagiu. Policiais e soldados convergiram contra Alfredo Costa e Manuel Buíça, este último ainda acertou em um soldado e no tenente Figueira. O tenente desferiu um sabre nas costas de Buíça. No fim da tragédia, jaziam o rei Dom Carlos, o príncipe Dom Luís Filipe, os regicidas Manuel Buíça e Alfredo Costa. A carruagem do rei refugiou-se na Rua do Arsenal. Ali, no empedrado da rua, os corpos reais foram estendidos, molhando o chão com uma grande poça de sangue. Diante dos cadáveres do marido e do filho, Dona Amélia vociferou para João Franco: “Veja a sua obra”.
Diante dos corpos, uma multidão de pessoas apareceu, tratando Franco e os ministros com desprezo e repulsa.
Levada ao local, a rainha Dona Maria Pia, viúva do rei Dom Luís, mãe de Dom Carlos, disse a Dona Amélia: “Alors, on a tué mon fils.” A pobre mulher ainda não sabia da morte do neto. Desolada, Dona Amélia respondeu-lhe, revelando-lhe a morte do príncipe: “Et lê mien aussi.” A rainha-mãe resignou-se, sentando-se, sem dizer mais uma palavra, ou verter uma lágrima. À noite, dois landaus levaram os corpos para o Palácio das Necessidades. O crime trouxe o medo e o terror para todos os nobres do reino, receosos de serem os próximos.
Após a tragédia, que passou para a história como o regicídio, Dom Manuel, segundo na sucessão de Dom Carlos, tornou-se o último rei de Portugal. Seu reinado terminaria no dia 5 de outubro de 1910, com a proclamação da República. O último rei português não deixou descendência, sendo a linha sucessória passada para o ramo miguelista (descendentes de Dom Miguel, irmão de Dom Pedro IV de Portugal e I do Brasil). Quando Dom Carlos morreu, morria também qualquer vínculo com o futuro da sua descendência. Dom Manuel II preservou a prole do malogrado rei até a sua morte no exílio, em 1932. Dom Carlos, assim como o seu reinado, deixou a esterilidade do mundo como herança. Um século depois da sua morte, a República portuguesa, hoje parte de um regime de cunho democrático, ainda carrega nas costas um dos preços que teve que pagar para ser proclamada, o sangue derramado na Rua do Arsenal, o regicídio.


PROMETEU E PANDORA, DA CRIAÇÃO AOS MALES DO HOMEM

Dezembro 26, 2008
Milênios antes de o homem estudar a ciência da vida, as religiões explicaram de forma mística a criação da terra, da vida e da humanidade, numa resposta direta à imensa interrogação que se faz sobre o espaço humano dentro do universo, e a sua existência perecível, na eterna luta da vida e da morte. Se nos conceitos judaico-cristãos, Deus é único e supremo criador do universo e do homem, a religião da Grécia antiga via em Prometeu, um Titã da segunda geração, o criador da humanidade.
Feito para viver no jardim do Éden, Adão é a imagem do criador, ser inteligente e livre para escolher o seu caminho. Se no Gênesis o primeiro homem é feito do barro, na mitologia grega também. Prometeu esculpiu o homem do barro misturado com as suas lágrimas. Adão é feito à imagem de Deus, também o homem de Prometeu é feito à imagem de uma divindade. Se Adão é único, e da sua costela surge a mulher, com quem vai procriar, Prometeu maravilha-se com a sua obra e esculpi outros tantos homens, cada um à imagem das divindades. A sua obra, ao contrário da do Deus dos judeus, não é perfeita, pois esses homens são desprovidos de uma inteligência que lhes construísse uma identidade da alma. São seres silvícolas e sem vontade ou pensamento. É preciso que Atena (Minerva), deusa da sabedoria, jogue sobre a criação de Prometeu gotas do néctar divino, para que eles possuam uma alma, e quando a adquirem, não sabem o que fazer com ela.
Se Deus dá a sabedoria divina para Adão por amor à criação, Prometeu rouba o fogo dos deuses, o símbolo da sabedoria humana, não por amor, mas por vingança aos deuses. Instigado por Eva, Adão come o fruto da sabedoria e perde o Éden, também uma mulher, Pandora, será quem trará na sua caixa todos os males do mundo, abrindo-a para a humanidade, que perde a superioridade intelectual alcançada quando a consciência humana, através do conhecimento do fogo, é libertada da submissão aos deuses. Portadores de todos os males da caixa de Pandora, os homens voltam aos deuses, rogando-lhes boa colheita, boa saúde e boa morte.
Os mitos de Prometeu e Pandora, antagônicos, mas unidos através da concepção da criação humana, representam o homem, ser pensante e inteligente (por parte de Prometeu) e às limitações do seu corpo, exposto aos males físicos e intelectuais (herança de Pandora), que os fazem finitos diante da imortalidade dos deuses.

Paz Entre os Deuses no Reinado de Zeus

Para a cultura judaico-cristã, Deus criou a terra, os animais e por fim o homem. Para os gregos antigos, a criação do mundo deu-se com uma explosão de vida dentro do Caos, que originou Gaia, a Terra, e Eros, o amor. Gaia concebeu Urano (Céu), com quem se uniu e jamais deixou de conceber, sendo os seus filhos os responsáveis pelas forças indomáveis da terra, como os vulcões, os terremotos e os maremotos. É da união entre Gaia e Urano que nascem os Titãs (doze irmãos que ajudam o pai a governar o mundo). Cronos (Saturno), o deus do tempo, o mais poderoso dos titãs, revolta-se contra o pai, Urano, amputando-lhe os testículos, destronando-o da sua força genetriz, tornando-se o novo senhor dos deuses. Sendo o deus que tudo devora, sem encontrar um equilíbrio, também Cronos será destronado por um de seus filhos, Zeus (Júpiter). Ao destronar o pai, Zeus torna-se o senhor absoluto dos deuses, através dele o mundo organiza-se, é a vitória da ordem sobre a desordem. Zeus estabelece o princípio divino da espiritualidade e reinará os deuses e o mundo do alto do Olimpo. Organizado os deuses, falta a humanidade para servi-los e adorá-los.
Na luta pelo poder, Zeus travou uma guerra de dez anos contra os Titãs e os Gigantes. Vencidos, eles foram aprisionados no interior da terra. Um dos Titãs, Iápeto uniu-se à filha de Oceano, Ásia, com quem teve Atlas, Menécio, Prometeu e Epimeteu, formando a segunda geração de Titãs. Na luta dos Titãs contra Zeus, quando por ele derrotados, Atlas teve por castigado ter que carregar o mundo nas costas, enquanto que Menécio foi aprisionado para sempre no Érebo. Somente Prometeu e Epimeteu não foram castigados, por fingirem aceitar o reinado de Zeus. Mesmo a participar das assembléias olímpicas, Prometeu jamais aplacou o ódio aos deuses que humilharam os Titãs.

O Homem Surge das Lágrimas e do Ódio de Prometeu

Se a guerra sangrenta que derrotara os Titãs trouxera a paz entre os deuses e o fim das disputas entre eles, já não havia quem pudesse desafiar a nova ordem olímpica. Para que se quebrasse esta harmonia, Prometeu decidiu criar novos seres que se opusessem a ela. Molhou o barro com as suas lágrimas de ódio aos olímpicos e criou um ser à semelhança de uma divindade. Prometeu soprou a vida à escultura, chamando-a de homem. Gostou tanto da sua criação, que se pôs a esculpir um exército deles, todos inspirados em uma divindade. Das lágrimas e do ódio de Prometeu surgiram os homens.
Á criação, o Titã proveu da astúcia da raposa, da fidelidade do cavalo, da avidez do lobo, da coragem do leão e da força do touro. Mas a criação de Prometeu, apesar de bela, era feita da essência animal, apesar da aparência divina, era totalmente desprovida da essência dela, o que limitava as suas ações. Quando Atena (Minerva), viu tão sublime obra à semelhança dos deuses, mas com a essência e inteligência dos animais, encantou-se por ela. Amiga de Prometeu, a deusa da sabedoria despejou em um cálice o néctar divino, desceu para a terra e do cálice, pingou gotas sobre a criação de Prometeu. Imediatamente as criaturas perderam a essência animal, dotando-se da inteligência divina, adquirindo uma alma. Assim a humanidade, ao contrário dos animais, adquirira a alma divina, mas não a sua perenidade imortal.

Através do Fogo, Prometeu Torna o Homem Pensante

O homem criado por Prometeu adquirira uma alma, mas não sabia o que fazer com ela. O Titã queria uma raça que confrontasse e destruísse os olímpicos. Era preciso que se igualasse os homens aos deuses, era preciso que se lhes revelasse os segredos divinos e de si próprios. Cabia a Prometeu ensinar os conhecimentos universais à humanidade.
Zeus guardava o segredo do fogo distante da humanidade. O senhor dos deuses não via naquela criação que andava pelo mundo entre as trevas, qualquer habilidade que a fizesse mais especial que os outros seres viventes. Eram obedientes e servis aos deuses, o que agradava plenamente ao senhor do Olimpo.
Sabedor desta condição, Prometeu sentia cada vez mais a necessidade de organizar a alma humana. Um dia, ao andar pela terra, Prometeu pegou um pedaço de galho seco de um carvalho, voou até Hélios, o Sol, e encostou o galho no carro do deus, que se acendeu imediatamente. Prometeu tinha o fogo dos deuses nas mãos. Era o momento da sua vingança. Desceu à terra e entregou o fogo aos homens. Era o princípio da revelação da sabedoria à humanidade que se iria fazer mais inteligente e poderosa do que os deuses.
Na posse do fogo, os homens organizaram-se ao seu redor. Cozinharam os alimentos, forjaram inúmeros metais, aqueceram-se do frio no inverno, cozeram o barro para criar vasilhas onde pudessem guardar a água. A partir da descoberta da utilização do fogo dos deuses, a humanidade, orientada por Prometeu, floresceu no jardim dos seus conhecimentos. Já pouca diferença havia entre ela e os deuses.
Cada vez mais avançada nos conhecimentos, a humanidade aprendeu a fundir o ouro e a prata, a construir abrigos, arar a terra, proteger-se do frio. Já não precisa mais invocar proteção aos deuses, a sua sabedoria afrontava a cada dia o poder da divindade. A humanidade começava a ser feliz sem precisar dos deuses. Prometeu finalmente, criara aqueles que se oporiam aos olímpicos. Começara não uma guerra entre os imortais, mas entre deuses e homens. Os Titãs estavam vingados.

Pandora, a Mulher Feita do Bronze

Os deuses passam a temer os homens, que se expressam através da arte a raiva, o amor e o ódio, sem que precisem recorrer aos deuses. Tornam-se poderosos e cada vez mais independentes da presença divina. Esquecidos pelos homens, os deuses tramam uma vingança terrível, que lhes devolvam o poder usurpado e a submissão humana.
Zeus pede ao filho Hefestos (Vulcano), talentoso deus dos metais e da forja, que confeccione um homem de bronze, mas que seja diferente dos outros, para que possa encantá-los. Hefestos atende ao pedido, criando do bronze, a primeira mulher, bela e encantadora.
À mulher feita do bronze são dados vários presentes divinos. Afrodite (Vênus), deusa do amor, oferece-lhe uma infinita e sedutora beleza, além de encantos para enlouquecer os homens. Atena entrega à mulher uma túnica bordada que lhe cobre e realça a beleza harmoniosa do corpo. Hermes (Mercúrio), presenteia-lhe com a esperteza da língua, e Apolo confere-lhe uma voz melódica e suave. Está pronta a primeira mulher, que é chamada de Pandora, que significa “dotada por todos”. Ela estava pronta para ser enviada aos homens.
Zeus, antes de enviar Pandora aos homens, oferece-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Dentro dela estão todos os germes da miséria humana. Assim, é enviada do Olimpo para os homens da Terra, a mulher, que trazia consigo a tentação, o símbolo dos desejos terrestres e todos os males do mundo.

Aberta a Caixa de Pandora

Quando chega a Terra, Pandora depara-se com Epimeteu, irmão de Prometeu. Ao ver tão bela criatura, o Titã encanta-se por sua beleza. Seduzido e apaixonado, ele recebe das mãos da bela mulher a caixa enviada por Zeus. Deslumbrado por tanta beleza, Epimeteu esquece-se da recomendação de Prometeu, que não recebesse nenhuma dádiva vindo do senhor do Olimpo, embevecido de paixão, nem desconfia do conteúdo caixa, abrindo-a prontamente. Subitamente, dela espalha-se um ar pestilento, os homens são afetados pelas doenças, pelas dores, pelo envelhecimento do corpo. Toma-lhes a alma a inveja, o rancor, a vingança. A essência humana, dantes pura e infinita, perde a inocência, tornando-se solitária e egoísta. Dentro da caixa de Pandora há um último elemento, a esperança, que ela deixa lá no fundo, ao fechá-la novamente. O homem perde o paraíso.
Pandora une-se a Epimeteu, criando uma nova geração de homens, desta vez vinda não do barro e das lágrimas de Prometeu, mas da união de um homem e de uma mulher. Os filhos desta união herdam a fragilidade da alma, as doenças, a miséria e todos os males que faz da humanidade a existência provisória diante da perenidade dos deuses.
Os deuses estão vingados. Através de Pandora destruíram a solidariedade entre eles, limitando o caminho vitorioso que percorreram até então. A conquista do fogo, que se fizera instrumento de transformação e progresso, passa a verter o seu lado destrutivo, que incendeia a alma humana.

Prometeu Acorrentado

Punida a humanidade, resta castigar Prometeu, que representava a consciência da humanidade e a libertação da sua mente intelectual. Zeus, mais uma vez, recorre à ajuda do artesão dos deuses, Hefestos. Pede ao divino obreiro que crie correntes que não se partam, a seguir, ordena-lhe que agrilhoe Prometeu ao cimo do monte Cáucaso. Hefestos obedece ao pai, acorrentando o Titã rebelde.
Aprisionado no monte Cáucaso, Prometeu sofre ainda, com uma águia enviada por Zeus, que lhe devora o fígado durante o dia. À noite, o órgão regenera-se, mas tão logo o sol nasce, começa a ser devorado novamente pela águia.
Prometeu vive acorrentado e a ter o fígado devorado pela águia por trinta anos. Mesmo diante de tanto sofrimento e dor, jamais pede perdão aos deuses. Sua maior dor é ver a humanidade que criara, degradar-se na sua efemeridade.
Um dia o oráculo diz a Zeus que uma terrível sorte está por se lhe abater em cima, e que só Prometeu poderia revelar-lhe que maldição seria aquela. O senhor dos deuses procura o Titã acorrentado, indaga-lhe sobre o segredo. Prometeu diz só revelá-lo quando for libertado. Sem alternativa, Zeus envia Héracles (Hércules) ao monte Cáucaso para libertar o Titã. Héracles mata a águia com uma flecha e liberta dos grilhões, o mais forte dos homens. Diante de Zeus, Prometeu revela-lhe que se esposasse a bela Tétis, o filho com ela gerado iria destroná-lo, assim como fizera com Cronos. Temeroso, Zeus entrega a bela nereida a Peleu.
Perdoado, Prometeu deseja voltar para o Olimpo, mas o castigo tirara-lhe a imortalidade, ele só poderia tê-la de volta se encontrasse um imortal que consentisse em trocar de destino com ele. O centauro Quirão, ferido pela flecha de Héracles, pede a Hades, deus dos mortos, que o deixe entrar no Érebo, consentindo em trocar a sua imortalidade com Prometeu.
Novamente imortal, Prometeu reconcilia-se com os deuses, voltando para o Olimpo, de onde observa a humanidade por ele criada, agora imperfeita, mas em paz com os deuses e com as suas limitações.

Os Mitos de Prometeu e Pandora

O mito criador de Prometeu reflete a preocupação do homem com as suas origens e diante da sua inteligência impar, que o difere do restante dos seres vivos da Terra. Prometeu era cultuado em Atenas nos altares erguidos na Academia, a famosa escola filosófica ateniense. Seus altares ficavam perto dos consagrados às Musas, às Graças, a Eros e a Héracles. Nas festas das lâmpadas, as Lampadodrimias, era venerado como divindade civilizadora ao lado de Atena e Hefestos.
Prometeu significa, em grego, “pensamento previdente”, por isto o mito é visto como o representante do despertar da consciência e princípio do pensamento intelectual do homem. É o reflexo da humanidade que se quer encaminhar para a perfeição, mas que se depara com os males e limitações da sua existência, reduzida ao nada da morte.
Pandora é a imagem da primeira mulher, vista de forma depreciativa por uma sociedade patriarcal. A mulher traria na sua essência todos os males do mundo, os homens, diante da sua sedução, perdem, assim como Adão, o paraíso e a inocência solidária. Pandora é um misto de Eva de Lilith, as primeiras mulheres da humanidade judaica. Assim como Lilith, traz os males do mundo, e como Eva, gera filhos imperfeitos, resultado da punição divina diante da ambição humana. Tanto Adão, como Epimeteu, ao acolherem a sedução da mulher, exercem totalmente o poder que têm da escolha diante da fatalidade e da rebelião.


MONTGOMERY CLIFT, ERRÁTICO E TALENTOSO

Dezembro 23, 2008

Desde que o cinema foi inventado, luz, imagem e vindo mais tarde, o som, tornaram-se elementos de sedução e paixão que fez sonhar multidões de platéias. O ator deixava os palcos para despontar o seu rosto e interpretação em uma grande tela. Carreiras cinematográficas tornaram-se ícones de um estrelato de atores que se fizeram deuses. Muitas dessas carreiras sublimemente confundiram-se com a vida dos seus ídolos, às vezes essa vida tornava-se maior do que a própria carreira. Uma das maiores lendas do cinema norte-americano, Montgomery Clift, foi um dos atores que a vida pessoal e a carreira travaram lutas muitas vezes diluídas nas angústias da existência. Se a vida privada e trágica de Marilyn Monroe foi maior do que os papéis que ela viveu na grande tela, a de Montgomery Clift desenhou-se na dimensão etérea, e muitas vezes, perdeu para o talento insuperável de um homem errático.
De uma angústia latente, um carisma enigmático, uma tristeza realçada por uma beleza rara, Montgomery Clift passou a vida a tentar equilibrar-se diante dos caminhos por estradas sinuosas que percorreu. O ator pertenceu à geração que revelou Marlon Brando, James Dean e Rock Hudson. Além de uma carreira de sucesso, ele tinha em comum com os três atores citados a homossexualidade que, ao contrário dos outros, ele jamais negou ou tentou lutar contra. Na época exigia-se que um astro de cinema escondesse a sua condição sexual através de um casamento, Clift preferiu ignorar a regra, vivendo a sua essência sem trair a si próprio. Esta condição, uma saúde debilitada, o vício pelo álcool e pelos barbitúricos, fizeram de Montgomery Clift um homem frágil, que despertava nas pessoas um sedutor sentimento de querer protegê-lo, por vê-lo tão vulnerável diante da vida. Esta vulnerabilidade transbordava por todas as personagens que o ator viveu tão bem, transformando-o em um dos maiores atores que o cinema norte-americano, ainda em sua fase criativa, já revelou. Rever os filmes de Montgomery Clift é sempre uma agradável descoberta, um convite ao sublime, ao belo e ao trágico, como foi a vida deste ator desaparecido ao 45 anos.

Primeiros Sucessos na Brodway

Edward Montgomery Clift, nasceu em Omaha, Nebraska, no dia 17 de outubro de 1920. Gêmeo de uma irmã, Roberta, nasceu no seio de uma rica e tradicional família estadunidense. O pai, William Brooks Clift, era um banqueiro e investidor da bolsa, que retrata bem a chamada “Geração Perdida” ou “Geração do Jazz”, período tão bem descrito nas obras de F. Scott Fitzgerald, que se encerra com o colapso das bolsas e instituições financeiras em 1929, originando uma grande depressão econômica. Até então, o pequeno Monty, a mãe e os irmãos, viveram uma vida de faustas viagens à Europa, muitas vezes ao lado de preceptores. Mas a fartura chegaria ao fim em 1929, quando falidos, a família é obrigada a mudar de cidade e reduzir drasticamente o nível de vida.
Montgomery Clift moldou uma personalidade rebelde, muitas vezes vividas nas esquinas que transitava. Aos treze anos descobriu a sua aptidão para ator, estreando-se na Brodway com a peça “Fly Away Home”. Mostrou-se tão bem sucedido, que a mãe, Ethel Fogg Clift, incentivou-o a abraçar os palcos e a tornar-se ator. Iniciava-se uma das mais magníficas carreiras do século XX. Aos 17 anos, ele ganha o estatuto de grande estrela da Brodway ao protagonizar “Dame Nature”. O sucesso nos palcos continuaria por longos anos, com peças como “There Shall be No Night”, “The Mother” e “Trincheira na Sala”.
Mas a saúde do ator mostrou-se frágil muito cedo. Em 1939, de férias no México, ao lado dos amigos, o compositor Lehman Engel e o ator John Garfield, foi obrigado a interromper a viagem quando acometido de disenteria amébico, doença que seria a responsável por sua dispensa do exército, considerado incapacitado, e que voltaria a incomodá-lo por toda a sua vida, evoluindo para uma colite ulcerosa.

Indicado ao Oscar na Estréia no Cinema

Dono de uma beleza etérea e de um grande talento, logo o ator atraiu os diretores e produtores de cinema, ávidos por revelar novos astros. Montgomery Clift foi convidado para fazer vários filmes, mas declinou a todos os convites por não ver nenhum papel interessante. Continuaria a dizer não ao cinema durante anos. Quando o ator decidiu negociar com os grandes de Hollywood, começou pela MGM, mas fez exigências que não foram atendidas e ele abandonou os estúdios. Foi imediatamente contratado pela United Artists, em 1948, para contracenar com John Wayne em um dos maiores westerns de todos os tempos “Rio Vermelho” (Red River), de Howard Hawks. Ainda naquele ano, o ator faria “Perdidos na Tormenta” (The Search), dirigido por Fred Zinnemann, que lhe valeria a primeira indicação para o Oscar de melhor ator e uma grande popularidade diante de platéias do mundo inteiro. O sucesso imediato valeu-lhe a capa da famosa revista “Life”, que em suas páginas mostrava-o como integrante de uma nova safra de grandes atores. Estava iniciada uma brilhante carreira cinematográfica.
Montgomery Clift passou a ser um dos homens mais assediado e desejado pelas mulheres, fato que lhe constrangia. A fama não o transformou no estereótipo do astro de Hollywood de então. Não adquiriu grandes mansões em Beverly Hills, preferindo os bairros de Nova York, não era um homem receptivo à idolatria e aos cortejos da fama, assim como não se rendeu às extravagâncias da moda ou dos hábitos de quem começava a aparecer constantemente nas revistas e nos jornais, ilustrando as páginas da fama.
Rígido em suas escolhas de personagens, o ator sofreria reveses por isto, como a que aconteceu em 1950, quando assinou contrato para fazer o filme “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard), de Billy Wilder, e faltando duas semanas para o início das filmagens, rescindiu o contrato, sendo substituído por William Holden no papel de Joe Gillis. O filme foi um dos maiores sucessos do cinema, constituindo uma perda para a carreira do ator.

Composição de Personagens Inesquecíveis

Após recusar fazer o filme de Billy Wilder, Montgomery Clift faria em 1951, “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun), de George Stevens. O filme constitui uma das mais soberbas interpretações do ator, valendo-lhe nova indicação ao Oscar como melhor ator. Contracenando com Elizabeth Taylor, iniciar-se-ia uma longa amizade entre os atores, com vínculos que só seriam interrompidos com a morte prematura de Clift. A intensidade angustiante que empresta à personagem, faz com que o público esqueça da sua condição de assassino e queira apenas protegê-lo dos males do mundo. Será assim para sempre, os olhos intensos e atormentados de Clift darão esta sensação de desproteção diante da vida, como se não fosse resistir às suas armadilhas. A química entre Elizabeth Taylor e Montgomery Clift cria cenas antológicas de amor que mudariam a linguagem dos casais da grande tela. Os dois ainda voltariam a fazer mais dois filmes juntos.
Após “Um Lugar ao Sol”, Montgomery Clift ficaria afastado do cinema por algum tempo. Voltaria em 1953 com três filmes, sob a direção de três grandes diretores: “A Tortura do Silêncio” (I Confess), dirigido por Alfred Hitchcock; “Quando a Mulher Erra” (Indiscretion of an American Wife), de Vittorio de Sica, que seria o primeiro filme de baixa bilheteria do ator; e o clássico e inesquecível “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity).
O filme “A Um Passo da Eternidade” tornou-se uma das mais belas incursões do cinema à temática da Segunda Guerra Mundial. Repleto de fatos pitorescos e obscuros, os bastidores da película tiveram, entre tantas curiosidades, a oposição de Harry Cohn, poderoso executivo da Columbia à época das filmagens, ao nome de Montgomery Clift para o papel de Robert E. Lee Prewitt. O ator só ganhou o papel graças à intervenção do diretor Fred Zinnemann, que ameaçou abandonar o projeto caso não tivesse Clift no papel. O filme, composto por grandes estrelas como Burt Lancaster, Deborah Kerr e Frank Sinatra, traz o ápice da interpretação do ator para o cinema, que lhe valeu outra indicação para o Oscar de melhor ator. O consenso de que Clift levaria o prêmio era tão grande, que foi com surpresa e decepção que todos assistiram William Holden conquistar a estatueta pelo desempenho em “Inferno 17”. Culpa-se a aversão de Montgomery Clift a render-se ao glamour de Hollywood a não conquista de nenhum Oscar, apesar das várias indicações durante o percurso da sua carreira no cinema.
A solidão inacessível de um soldado, que vê a sensibilidade fugir diante das imposições de um universo cruelmente feroz, que se recusa a voltar a ser boxeador para preservar-se diante da crueza do mundo, às vésperas das bombas japonesas que se iriam chover sobre Pearl Harbor, abatendo-o de vez. É esta personagem fascinante que toma o rosto e a voz de Montgomery Clift. Assim como a personagem, também o ator seria arrebatado pela crueza de um mundo no qual ele sempre lutou para sobreviver, jamais para percebê-lo ou integrá-lo como um todo.
Depois das filmagens, Montgomery Clift construiu uma amizade com Frank Sinatra, que arrebataria o Oscar de melhor ator coadjuvante, e com James Jones, autor do livro do qual inspirara o filme. Segundo relatos, muitas foram as noites que os três saíram para beber juntos.

O Acidente

Depois de “A Um Passo da Eternidade”, o ator desapareceria das telas de cinema por um longo período. Neste período, apega-se cada vez mais ao consumo de álcool e ansiolíticos, tentando aliviar uma personalidade frágil e cada vez mais depressiva, que se refletiria no trabalho, isolando-o em um comportamento pouco social, obsessivo e cada vez mais solitário. Esta tendência iria piorar quando sofreria um terrível acidente que quase lhe custaria a vida.
Em 1956 Clift aceitou fazer o filme “A Árvore da Vida” (Raintree County), de Edward Dmytryk, sem sequer ler o roteiro, só pelo fato de saber que iria contracenar com a amiga Elizabeth Taylor. Seria uma volta às telas após três anos de ausência.
As filmagens corriam tranqüilas, já iam adiantadas quando Elizabeth Taylor decidiu dar uma festa em sua casa. Clift entrega-se à bebida e, após cansar-se da festa, saiu completamente embriagado, tentando em vão, dirigir o seu automóvel. Sem condições, o ator bateu violentamente o carro em um poste telefônico a poucos metros de distância da casa da amiga. Ao ser informada do acidente, a atriz correu até o local, chegando a tempo de salvar Clift de morrer sufocado pelo próprio sangue e ao tirar dois dentes presos na sua garganta. O resultado do acidente deixou uma profunda mutilação no rosto do ator, que além da falta dos dois dentes, quebrou a mandíbula, o nariz foi esmagado e lacerações faciais o obrigaram a submeter-se a uma cirurgia plástica.
O acidente deixou-o longe das filmagens de “A Árvore da Vida” por oito semanas. Quando se assiste ao filme, percebe-se nitidamente os dois rostos do ator, dantes e depois do acidente. As marcas indeléveis não ficaram gravadas apenas na face de Montgomery Clift, mas também nos seus hábitos, para fugir às dores, ingeria álcool e pílulas, que o deixou dependente de drogas, estimulantes e barbitúricos. A partir de então, a colite, a dependência química e as seqüelas do acidente, contribuíram para que a sua saúde começasse a deteriorar-se gradativamente.
Mesmo diante dos problemas e atrasos nas filmagens que a tragédia do acidente provocara, o diretor Edward Dmytryk, declararia que Clift tinha sido o ator mais criativo com o qual ele já trabalhara, e voltaria a dirigi-lo em 1958, em “Os Deuses Vencidos” (The Young Lion).

A Agonia Existencial do Ator

Após o acidente, a dependência química afetaria a cada dia o comportamento do ator, que o faria ser considerado uma pessoa difícil, avesso às badalações, mas vítima da sua própria inconstância emotiva. Este período foi maldosamente visto em Hollywood como o mais longo suicídio de um homem. Cada dia mais errático, em pouco tempo nenhum produtor queria contratá-lo. Montgomery Clift fugiu dos holofotes da fama, mas bateu de frente com os escândalos de si próprio, quando era visto bêbado e perdido, a correr nu pelas ruas e pelos corredores de alguns hotéis.
Cada vez mais isolado dos estúdios de cinema, por influência da eterna amiga Elizabeth Taylor, Clift foi convidado para fazer ao seu lado, em 1959, “De Repente, No Último Verão” (Suddenly, Last Summer), de Joseph L. Mankiewicz, uma versão cinematográfica da peça de Tennesse Williams. Os atrasos constantes às filmagens irritaram o diretor, que por várias vezes quis demitir o ator, só não o fazendo por imposição de Elizabeth Taylor. O sucesso do filme valeu todos os dissabores das filmagens.
Em 1960, Elia Kazan convidou Clift para protagonizar, ao lado da bela Lee Remick, o filme “Rio Violento” (Wild River). A atriz declararia mais tarde sobre Montgomery Clift: “Sua falta de auto-estima era muito comovente, muito comovente, muito triste… Havia um elemento de tristeza nele o tempo todo”.
Em 1960 John Huston reuniu Montgomery Clift, Marilyn Monroe e Clark Gable, naquele que seria o último filme dos dois últimos atores, “Os Desajustados” (The Misfits). A instabilidade emocional de Clift e Marilyn Monroe fez com que as suas cenas fossem refeitas várias vezes, causando atrasos nas filmagens. A atriz comentaria que na vida só Clift estava pior do que ela. Clark Gable morreria dias depois de encerrar as filmagens.
John Huston voltaria a dirigir Clift a interpretar o famoso pai da psicanálise, Sigmund Freud, no filme “Freud – Além da Alma” (Freud). O filme levou John Huston, Montgomery Clift e a Universal aos tribunais, por causa dos constantes atrasos nas filmagens que causaram grande prejuízo aos estúdios. Diante dos tribunais, tentaram culpar somente o ator, tentando que ele alegasse os problemas com a sua saúde ser a causa dos atrasos, recebendo assim, a indenização da cobertura do seguro. Clift recusou-se, alegando que os atrasos tinham sido responsabilidade de todos. Teve o salário cortado e gerou uma crise com os produtores. O ator ganharia a causa em 1963, mas os danos foram irreversíveis para a sua carreira, que ficou prejudicada diante dos produtores que se recusavam a chamá-lo para novos trabalhos. Durante o processo, ficou exposto a sua vida particular, o seu comportamento e a sua dependência diante do álcool, o que causou uma grande publicidade negativa à sua carreira.
Mesmo isolado, o ator faria uma participação brilhante no filme “O Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg), de Stanley Kramer. Sua participação era inferior a dez minutos, mas tão marcante, que lhe valeu a quarta indicação para o Oscar, desta vez como melhor ator coadjuvante.

Uma Morte Anunciada

Cada vez mais tido como praticante de um suicídio lento, o envolvimento do ator com o álcool e com os barbitúricos levou-o a uma depressão que o afastou das telas por outros longos anos. Em 1966 Elizabeth Taylor convenceu John Huston a chamar Clift para protagonizar ao seu lado, o filme “O Pecado de Todos Nós” (Reflections in a Golden Eye). Como a atriz estava presa às filmagens de um outro filme na Europa, há um atraso no início das filmagens, e a fatalidade impediria que Clift viesse a atuar ao lado da sua maior companheira em cena e na vida.
Enquanto esperava por Elizabeth Taylor, Montgomery Clift fez “Talvez Seja Melhor Assim” (The Defector), de Raoul Lévy. Este seria o seu último filme, pois morreria dias após a conclusão das filmagens.
No dia 22 de julho de 1966, Montgomery Clift recolheu-se à sua casa, em Nova York. Silencioso e solitário, assim o ator viveu o seu último dia de vida. À noite, o amigo e secretário pessoal, Lorenzo James foi ao seu quarto para desejar boa noite e dizer que a televisão passaria “Os Desajustados”, perguntando se ele queria ver, ao que o ator respondeu: “Absolutamente não!”. Foram as últimas palavras em vida dirigidas pelo ator a alguém. Na manhã seguinte, dia 23, Lorenzo James encontraria Clift nu e de costas sobre a cama, trazia os óculos e os punhos cerrados, sem vida. Uma autópsia ao corpo do ator revelou que a sua morte prematura, a poucos meses de completar 46 anos, não se devia a qualquer ato de suicídio, mas a uma doença arterial coronária, que o levou a um ataque cardíaco, provocando-lhe uma morte súbita.
Montgomery Clift faz parte daqueles homens que tentam sobreviver à sensibilidade fatal de si mesmo. De uma beleza bíblica, olhar de uma solidão latente e de uma tristeza intransponível, ele sobrevive da enorme empatia que tem com a arte, fazendo dela o refúgio e o talento magnificente. Sua vida confunde-se com as tragédias que viveu no cinema, onde a morte quase sempre vem precedida de um sonho e determinação. Clift teve as mais belas mulheres aos seus pés, e numa época que o ídolo de cinema tem que ser perfeito no seu glamour efêmero, ele prefere não se render ao óbvio, trilhando os caminhos mais difíceis e vivendo os meandros da essência da sua verdadeira sexualidade. Mesmo assim, Clift declara que o seu maior sonho é trazer para casa uma mulher como esposa e ter muitos filhos. A realidade entre o sonho e as suas verdades faz com que a sua sensibilidade seja constantemente agredida. A embriaguez da alma, regada a álcool e a barbitúricos, impulsiona-o a saltar em um precipício de calma momentânea, sem que se importe com os efeitos da queda.
Gêmeo de uma irmã, Montgomery Clift não nasceu sozinho, mas assim viveu a vida inteira, mesmo ladeado por uma legião de fãs, de gente que o amava e desejava. Errático na forma de caminhar, punia-se por se sentir culpado e envergonhado diante de seu comportamento com o álcool e da forma que conduzia a verdadeira face da sua sexualidade. Se a sua morte foi lenta, anunciada, a sua obra é eterna, cristalizada em um sublime momento do tempo. Dilacerado por uma sensibilidade comovente, Montgomery Clift morreu assim como viveu, sozinho e nu diante da vida e dos sentimentos.

FILMOGRAFIA E PEÇAS DE TEATRO

Filmes:

1948 – Red River (Rio Vermelho)
1948 – The Search (Perdidos na Tormenta)
1949 – The Heiress (Tarde Demais)
1950 – The Big Lift (Ilusão Perdida)
1951 – A Place in the Sun (Um Lugar ao Sol)
1953 – I Confess (A Tortura do Silêncio)
1953 – Indiscretion of an American Wife (Quando a Mulher Erra)
1953 – From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade)
1957 – Raintree County (A Árvore da Vida)
1958 – Lonleyhearts
1958 – The Young Lions (Os Deuses Vencidos)
1959 – Suddenly, Last Summer (De Repente, no Último Verão)
1960 – Wild River (Rio Violento)
1961 – Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberg)
1961 – The Misfits (Os Desajustados)
1962 – Freud (Freud – Além da Arma)
1966 – The Defector (Talvez Seja Melhor Assim)

Teatro:

1934 – Fly Away Home
1935 – Jubilee
1938 – Your Ibedient Husband
1938 – Eye on the Sparrow
1938 – The Wind and the Rain
1938 – Dame Nature
1939 – The Mother
1940 – There Shall be No Night
1942 – Mexican Mural
1942 – The Skin of Our Teeth
1944 – The Searching Wind
1945 – Foxhole in the Parlor
1945 – You Touched Me!
1954 – The Seagull

CRONOLOGIA

1920 – Nasce, no dia 17 de outubro, em Omaha, Nebraska, Edward Montgomery Clift, gêmeo de Roberta Clift.
1929 – Colapso na bolsa leva William Brooks Clift, pai de Montgomery, à falência.
1934 – A família muda-se para Sharon, Massachusetts. Estréia aos 13 anos, na Brodway em “Fly Away Home”.
1938 – Ao fazer “Dame Nature”, torna-se, aos 17 anos, grande astro da Brodway.
1939 – É vitimado por uma doença, disenteria amébico, que o perseguiria para o resto da vida, evoluindo para colite crônica. Por este motivo, é dado como incapaz para servir o exército.
1948 – Estréia no cinema, ao lado de John Wayne, no filme “Rio Vermelho”, de Howard Hawks. Faz o filme “Perdidos na Tormenta”, de Fred Zinnemann, que lhe valeria uma indicação para o Oscar de melhor ator.
1950 – Rescinde contrato e desiste de fazer “Crepúsculo dos Deuses”, sendo substituído por William Holden.
1951 – Protagoniza “Um Lugar ao Sol”, de George Stevens, ao lado de Elizabeth Taylor, com quem inicia uma longa e comovente amizade, que o acompanharia até a sua morte. É indicado para o Oscar de melhor ator.
1953 – Trabalha com o mestre Alfred Hitchcock no filme “A Tortura do Silêncio”. É dirigido por Vittorio de Sica no filme “Quando a Mulher Erra”. Volta a trabalhar com Fred Zinnemann no mítico “A Um Passo da Eternidade”. É indicado para o Oscar de melhor ator por esta atuação.
1954 – Volta aos palcos com “The Seagull”.
1956 – Após alguns anos de afastamento, volta a filmar “A Árvore da Vida”, ao lado de Elizabeth Taylor. Durante as gravações sofre um grave acidente, ao dirigir bêbedo um automóvel. Tem parte do rosto desfigurado, sendo obrigado a uma cirurgia corretiva para reconstrução do mesmo.
1959 – Volta a contracenar com Elizabeth Taylor, no filme “De Repente, no Último Verão”, filme de Joseph L. Mankiewicz, inspirado na peça de Tennesse Williams. No elenco a presença luxuosa da atriz Katharine Hepburn.
1960 – Protagoniza “Rio Violento”, de Elia Kazan, ao lado de Lee Remick. Faz “Os Desajustados”, filme que iria estrear em 1961, ao lado de Clark Gable e Marilyn Monroe, que se tornaria o último filme destes atores.
1961 – Faz uma participação especial no filme “O Julgamento de Nuremberg”, de Stanley Kramer, que lhe valeria a quarta indicação para o Oscar.
1962 – Protagoniza o tumultuado “Freud – Além da Alma”, de John Huston, que terminaria com grandes atrasos nas filmagens e em tribunal.
1966 – Convidado para fazer o filme “O Pecado de Todos Nós”, de John Huston, ao lado de Elizabeth Taylor. Enquanto aguardava a volta da atriz, que estava filmando na Europa, para iniciar as filmagens, fez o último filme da sua vida, “Talvez Seja Melhor Assim”. Morre a 23 de julho, pouco depois de encerrar as filmagens, vítima de uma doença arterial da coronária, que lhe causou parada cardíaca e morte súbita. Da sua vida, a frase pronunciada por ele, definiu a sua visão de ser ator: “Olha, eu não sou esquisito. Só estou a tentar ser um ator, não um ator de cinema, mas um ator.”


LEGAL: EXISTENCIALISMO UNDERGROUND

Dezembro 21, 2008

 


Os anos 1970 começam com uma geração dividida pelos acontecimentos históricos. A juventude engajada nos movimentos políticos de esquerda é cada vez mais isolada, líderes juvenis e políticos estão presos, exilados ou na clandestinidade. A juventude Flower Power que surgiu com o manifesto de Scott McKenzie com a música San Francisco, em 1967, e teve o seu apogeu em 1969 com Woodstock, lança o lema “Faça Amor, Não Faça Guerra”, incitando ao amor livre e à emancipação sexual. Esta juventude após Woodstock, vê a decadência do movimento hippie, cada vez mais voltado para o rock n’ roll e às drogas. É justamente as drogas que ceifa logo no início da década os seus ícones, Janis Joplin, Jimi Hendrix… Os Mutantes resistiram à ditadura, mas não às drogas, que prejudica alguns dos seus componentes de forma indelével, fazendo-os deixar por anos o mundo musical. Os Beatles dão seus últimos suspiros juntos. A ditadura está cada vez mais dura e fortalecida graças ao boom econômico que dá origem ao chamado “milagre brasileiro”, e à conquista do tri-campeonato mundial de futebol. Nos seus porões há gente morta e torturada. Surge uma juventude intelectual que impedida de falar e não aderindo à radicalização da esquerda ou ao Flower Power, menos atuante e mais leve, é chamada de juventude do desbunde. Aquela que tem consciência do momento vivido, mas que prefere ouvir música e curtir as praias do Brasil enquanto a ditadura não passa.
Nas malhas do desbunde e da contra-cultura, após o grito de protesto à interrupção da Tropicália em 1969, com o radical “Gal 1969”, surge o existencialista e vanguardista Legal. Constitui um retrato vivo do início da década de 1970, o que lhe dá a condição de ser o álbum mais anos setenta de Gal Costa. Tem a cor daqueles tempos e consegue não ser datado! O que é bom prevalece, sem ficar preso à época que o gerou, destacando-se do modismo passageiro. Após o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso e a agonia tropicalista, este disco pode ser classificado alegoricamente como parte de uma Tropicália Underground. Vanguardista quando posto no mercado, hoje histórico e definitivo. Underground quando lançado, hoje um luxo!

Do Grito das Ruas de Londres ao Gemido da Acauã

Legal foi lançado no segundo semestre de 1970. É resultado do show “Deixa Sangrar”, que teve estréia no Teatro Opinião naquele ano. Traz capa de Hélio Oiticica, um dos ícones da Tropicália, dividindo o rosto da cantora ao meio, sobre um fundo azul, transformando os seus longos cabelos numa miscelânea de personalidades. É considerada até hoje, pelos críticos, a capa mais artística de um álbum de Gal Costa.
O álbum começa com a versão rock de “Eu Sou Terrível” (Roberto Carlos – Erasmo Carlos), que parece continuar a radicalização do álbum psicodélico anterior. Temos a sensação de que a explosão registrada no segundo álbum de 1969 vai adentrar por este álbum, mas, aos vinte e cinco anos, a inquietude de Gal Costa é sempre uma surpresa.
Apesar do início rascante, o álbum vai seguindo outra vertente com o baião “Língua do P” (Gilberto Gil), uma moda adolescente da época para mandar recadinhos de amor, introduzindo a letra P entre as sílabas, e fugir ao controle dos mais velhos. Traz gírias da época, como bulhufas, que a faz uma música datada.
Love, Try And Die” (Lanny – Gal Costa – Jards Macalé), canção leve que insere uma Gal Costa cantando em estilo Janis Joplin, num ritmo bem anos setenta. A música traz uma letra sem pretensões, um joguete de palavras, a curiosidade é ter a assinatura de Gal Costa como uma das compositoras da canção.
Depois de “Carcará” e “Asa Branca”, é a vez de mais uma ave nordestina refletir o sertão seco e pobre: “Acauã” (Zé Dantas). Aqui os agudos de Gal Costa imitam lindamente o canto da acauã, não trazendo a força do carcará, mas o lirismo melancólico da acauã, beleza única de um céu rasgado pelo sol e pelo chão dilacerado pela seca.
Gal Costa passara o natal de 1969 em Londres, na companhia dos amigos exilados Gilberto Gil e Caetano Veloso. Trouxe de lá as canções “Mini Mistério” (Gilberto Gil) e “London, London” (Caetano Veloso), gravando-as em um compacto e inserindo-as no álbum. “London, London” tornou-se um grande sucesso nas rádios daquele ano, alcançando o primeiro lugar nas paradas nacionais. Esta música caracteriza bem o Caetano Veloso exilado, a desfilar perdido pelas ruas de Londres. Tornou-se uma das canções que se atrelaram definitivamente ao repertório de Gal Costa, e seria revisitada e regravada em 1997, no “Acústico MTV”. Uma das interpretações mais passionais de Gal Costa à música de Caetano Veloso, de uma singular beleza melódica de uma voz de revolta poética. Talvez por ter sido gravada com o amigo ainda distante, traz esta força interpretativa tão perenemente bela. É a canção que marca este álbum.
Mini Mistério” é a preocupação de uma juventude calada pela força bruta e mais atormentada por dúvidas existencialistas, onde tudo é mistério, do cemitério do Caju à Santíssima Trindade, avisando que tudo está por um fio labiríntico, até mesmo a vida.

As Angústias do Desbunde da Verdadeira Baiana

Mas é sem dúvida “Hotel das Estrelas” (Duda – Jards Macalé) a canção que mais descreve a juventude do desbunde da qual Gal Costa tornar-se-ia a musa no ano seguinte. A juventude que vê amigos mortos pela ditadura e pela droga. A juventude que se sente tolhida e ameaçada. Nem a ditadura nem a droga oferecem saídas, mas a segunda alivia um pouco mais os tormentos. É a solidão dos anos vista pela janela e pela distância:

“Dessa janela sozinha
Olhar a cidade me acalma
Estrela vulgar a vagar
Rio e também posso chorar
Oh, e também posso chorar…”

Ao contrário dos gritos de fúria do álbum anterior, aqui os gritos acontecem, mas são diluídos em cantos e desencantos melancólicos, assim é a canção “The Archaic Lonely Star Blues” (Duda – Jards Macalé), com letra em inglês e em português, formando um grande e atormentado poema existencialista, com gritos rascantes de uma cantora jopliniana em seu apogeu vocal de juventude.
Distraindo um pouco a angústia, mas sem perde-la de vista, temos o frevo “Deixa Sangrar” (Caetano Veloso), que vem com o sub-título Carnaval 1971, frevo composto em Londres por Caetano para o carnaval do ano seguinte. O nome da canção é uma paródia ao título do álbum Let it Bleed dos Rolling Stones.
Fechando o álbum, mais uma canção que faria parte para sempre dos shows e da carreira de Gal Costa, “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira). Com uma interpretação mais recôndita, temos uma Gal Costa outra vez bossa-nova, que a remete ao álbum de estréia, Domingo, de 1967. “Falsa Baiana” iria persistir ainda nos álbuns “Fa-tal – Gal A Todo Vapor” (1971) e “Acústico MTV” (1997), além de ter como reposta a canção “A Verdadeira Baiana” (Caetano Veloso), que viria no álbum “Plural” (1990).
Você Não Entende Nada” (Caetano Veloso) tornou-se um imenso sucesso no show e foi lançado em compacto. A Philips tentou inseri-la às pressas nas prensagens do álbum Legal após o seu lançamento, o que explica certos LPs lançados na época conter a música.
Vendo o álbum como um todo é que percebemos uma Gal Costa mais tranqüila do que em 1969. Os cabelos já não são estilo hippie, mas compridos e partidos ao meio, que seria sua marca até os dias de hoje. É um álbum tipicamente dos anos setenta que, como já se disse, consegue não ser datado. É o alicerce do show que Gal Costa faria no ano seguinte, “Gal a Todo Vapor”, que se tornaria o espetáculo mais visto pela juventude da época. Com ele encerrar-se-ia a fase jopliniana de admiração e o início da desaceleração no cantar vanguardista.
Gal Costa nesta época é moda entre a juventude cabeluda. É imitada, idolatrada. Faz parte da cultura do país. Sobrevivente absoluta da Tropicália. E naquele estranho fim de ano de 1970 ela cantava para o carnaval seguinte:

“…Deixa o mar ferver, deixa o sol despencar
Deixa o coração bater, se despedaçar
Chora depois, mas agora deixa sangrar
Deixa o carnaval passar…”

Legal é poesia underground, marginal, existencialismo convulsivo. É o começo do namoro dos cabeludos do desbunde e o seu movimento cultural, que tomou o canto de Gal Costa como hino.

Ficha Técnica:

Legal
Philips
1970

Direção da produção: Manoel Barenbein
Técnicos de gravação: Ary Carvalhaes, João Moreira, Mazzolla
Estúdio: CBD
Arranjos de base: Lanny Gordin e Jards Macalé
Arranjos de orquestra: Chiquinho de Moraes
Baixo Elétrico: Cláudio
Bateria: Norival D’Angelo
Guitarra: Lanny Gordin
Acordeom: não creditado no disco
Piano e órgão: Chiquinho de Moraes
Violão: Gal Costa
Coro (na faixa “Love, try and die”): Erasmo Carlos, Jards Macalé, Lanny Gordin e Tim Maia Capa: Hélio Oiticica

Faixas:

1 Eu sou terrível (Erasmo Carlos – Roberto Carlos), 2 Língua do P (Gilberto Gil), 3 Love, try and die (Lanny – Gal Costa – Jards Macalé), 4 Mini mistério (Gilberto Gil), 5 Acauã (Zé Dantas), 6 Hotel das estrelas (Duda – Jards Macalé), 7 Deixa sangrar (Caetano Veloso), 8 The archaic lonely star blues (Duda – Jards Macalé), 9 London, London (Caetano Veloso), 10 Falsa baiana (Geraldo Pereira)


OS NEGROS NAS TELENOVELAS

Dezembro 16, 2008

O Brasil é um país plural, com uma população formada por várias raças e etnias. País construído por colonizadores europeus, nativos indígenas e negros africanos em sua essência. Se o índio faz parte de uma minoria de brasileiros, negros e brancos quase que empatam em número populacional. Apesar da paridade numérica, os abismos sociais entre negros e brancos continuam a ser uma grande ferida na integridade racial do Brasil.
A presença dos negros nas telenovelas brasileiras, o maior veículo de comunicação de público do país, apesar de ter avançado nos últimos anos, ainda é tímida e muitas vezes feita de uma forma negativa e presa ao estereótipo. Apesar de ser um país de grandes atores negros, que desfilaram ou desfilam pelas décadas da dramaturgia brasileira, como Grande Otelo, Ruth de Souza, Lázaro Ramos, Milton Gonçalves, Isaura Bruno, Taís Araújo, Chica Xavier, Neuza Borges, Jacira Silva, Zezé Motta, Cléa Simões, Zózimo Bulbul, Lea Garcia e tantos outros; os negros vêm sendo ignorados há décadas pelas telenovelas. Desde a primeira levada ao ar em 1963, este veículo tornou-se o condutor que moldou comportamentos, opiniões, criando ou derrubando preconceitos. A linguagem da telenovela reprimiu por muitos anos a imagem da verdadeira face do Brasil, fazendo dele um país de falsa identidade branca, negando a sua história e cultura. A televisão foi, e ainda o é (apesar de hoje em dia sofrer mais críticas e render-se às evidências da pluralidade) a maior propagandista e difusora dos conceitos do branqueamento da população brasileira, iniciada ainda no Brasil colônia.
Se hoje uma telenovela de horário nobre da poderosa TV Globo insere em suas tramas o amor entre raças, e o público, já moldado para aceitar a verdadeira identidade do país, aceita as personagens, nem sempre foi assim. Já houve tempo em que a rejeição ao amor entre um casal de cor branca e negra atingiu a total intolerância. A presença do negro na ficção da teledramaturgia era visível apenas em pequenas tramas paralelas às principais. De Mamãe Dolores (Isaura Bruno) a Xica da Silva (Taís Araújo), do Rodney de Zózimo Bulbul em “Vidas em Conflito” (1969) ao Foguinho de Lázaro Ramos em “Cobras & Lagartos” (2006), o espaço do negro nas telenovelas vem sendo conquistado com perseverança à discriminação. Um longo e árduo caminho foi percorrido pela constelação de grandes talentos negros, até que se deslumbrasse como protagonistas de algumas telenovelas.

O Branqueamento Histórico da População Brasileira

A presença negra na formação do Brasil veio através dos grupos étnicos africanos capturados em suas tribos e feitos escravos nas terras da colônia. Desde então negros, brancos e índios misturaram-se, construindo uma população miscigenada com maioria visível de negros. O impacto da presença negra na população do Brasil sempre foi motivo de preocupação entre os colonizadores, que temiam uma rebelião da raça contra a minoria branca. Em 1609, para aumentar a população branca do Brasil, o rei Filipe II de Portugal (III da Espanha), proibiu a fundação de conventos no Brasil, para que os brancos europeus que migravam à colônia não fossem somente padres e missionários sem compromissos com a procriação. O medo de uma rebelião negra aumentou drasticamente em 1804, quando os escravos nativos de Hispaniola, no mar do Caribe, tomaram a parte ocidental da ilha e declararam a independência do Haiti, abolindo a escravidão. Muitos receavam que se sucedesse o mesmo no Brasil, e antes que acontecesse, foi iniciado um branqueamento da população brasileira durante o primeiro e o segundo impérios. Esta medida culminou com o incentivo do governo em trazer para o Brasil o imigrante europeu. Derrubadas as últimas fronteiras de disputa com a Espanha, o sul do Brasil passou a ser colonizado por imigrantes europeus, fazendo parte do processo político de branqueamento da população brasileira. Este conceito ultrapassou o Brasil imperial, não se esvaiu com a abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888.
No século XX, já com o poder da mídia como fonte de propaganda de uma nação, a partir dos anos sessenta, a televisão tornou-se o principal veículo desta propaganda. A telenovela é o produto de comunicação mais consumido pela população. Tornou-se tão poderosa, que dita a moda e os modismos, os conceitos sociais e políticos e a forma linear de difusão de pensamentos de uma nação.
Se a telenovela dominou o Brasil com a sua linguagem, estes domínios atravessaram as fronteiras, atingindo outros países. O sucesso das exportações das telenovelas para o exterior fez com que se pensasse nela como um cartão postal, trazendo um conceito de imagem da geografia humana do Brasil idealizado por uma falsa identidade. Tanto que se discute em Portugal, na Itália, Espanha, China, e outros países para onde a telenovela brasileira foi exportada e tornou-se grande sucesso de consumo, se no Brasil afinal não há negros. Sim, esta pergunta foi feita nos outros países, porque na telenovela brasileira a presença do negro era quase decorativa, quase exótica, como se raro fosse no cotidiano desta imensa nação.

O Negro nas Primeiras Telenovelas Brasileiras

Uma das primeiras telenovelas a ter muitos negros em seu elenco foi “A Gata”, novela de Ivani Ribeiro que estreou em 1964, na extinta TV Tupi. O tema da telenovela não era dos problemas do negro brasileiro, mas os dos escravos das Antilhas do início do século XIX . A trama girava em volta de uma senhora branca, Adriana (Marisa Woodward), chamada de Gata. O fracasso diante do público levou os patrocinadores a uma pesquisa para saber os motivos. Um deles era o excesso de escravos da trama. Para solucionar o problema, a autora fez com que uma epidemia na senzala matasse mais da metade dos escravos. Apesar de um grande número de atores negros, nenhum deles teve o nome creditado junto ao restante do elenco branco da telenovela.
Ainda em 1964, estreou na TV Tupi, “O Direito de Nascer”, primeira telenovela de grande sucesso no Brasil. O folhetim era uma adaptação de Talma de Oliveira e Teixeira Filho ao texto original do cubano Félix Caignet. A história da negra Dolores (Isaura Bruno) comoveu o Brasil. Empregada de uma abastarda e poderosa família, que ao ver Maria Helena (Nathália Timberg), a filha do patrão, engravidar e ter que, por imposição do preconceito por ser mãe solteira, abandonar o filho, tomou para os seus cuidados esta criança, criando-a como filho. Mamãe Dolores e o seu filho adotivo Albertinho Limonta (Hamilton Fernandes) levaram o Brasil às lágrimas. Isaura Bruno tornou-se a primeira atriz negra a fazer grande sucesso diante do público. Com ela inicia-se a imagem benevolente da mãe preta gorda, de colo amplo para acolher os filhos, que se encaixaria em outras atrizes negras, como Cléa Simões, que seria a Mamãe Dolores da versão de 1978 da novela; Zeny Pereira e Jacira Sampaio, a eterna Tia Anastácia do seriado “Sítio do Picapau Amarelo”. Mas o grande sucesso de Isaura Bruno foi logo esquecido devido à inexistência de papéis à altura do seu talento e carisma, sempre interpretando pequenos papéis subalternos até a sua morte.
Um momento raro da história do negro na televisão brasileira nos incipientes anos sessenta aconteceu na telenovela “A Cor da Pele”, de Walter George Durst, que estreou na TV Tupi em 1965. Apesar da sua obscuridade como registro, foi a primeira novela a propor falar sobre o preconceito racial. A história de amor entre a mulata de olhos verdes Clotilde (Yolanda Braga), e o português Dudu (Leonardo Villar), trouxe para a pequena tela o primeiro beijo inter-racial da sua história. Yolanda Braga foi a primeira protagonista negra de uma telenovela brasileira.
O ano de 1969 marcaria de formas diferentes, a história dos negros nas telenovelas. Três produções, duas na extinta TV Excelsior – “Vidas em Conflito” e “Os Estranhos” – e uma na TV Globo – “A Cabana do Pai Tomás” -, assinalam uma página bizarra na presença dos atores negros.
Vidas em Conflito”, de Teixeira Filho, traz pela primeira vez à telenovela uma família de classe média negra. Zózimo Bulbul viveu o primeiro protagonista negro da televisão. A história seria válida não fosse construída sobre uma sinopse racista, Débora (Leila Diniz) apaixona-se por Walter (Paulo Goulart), homem que a sua mãe Cláudia (Nathália Timberg) ama, por vingança, ela começa a namorar o negro Rodney (Zózimo Bulbul). A idéia de vingança revela a agressão que era uma mulher branca namorar um negro, eliminando da trama o convite à reflexão contra o racismo, sem nunca deixar de evidenciá-lo.
Os Estranhos”, de Ivani Ribeiro, aconteceu no momento histórico em que o homem pisava na lua, daí a imaginação da autora estar voltada para os extraterrestres. A novela era protagonizada por Regina Duarte, Rosamaria Murtinho, Cláudio Correa e Castro, seres que vinham do planeta Gama Y-12, e por Pelé. A presença inesperada do rei do futebol brasileiro, à época no auge da sua carreira , como protagonista de uma telenovela, não contribuiu em nada para a presença do ator negro no gênero. Na trama estava uma celebridade, não um ator. Pelé vivia Plínio Pompeu, escritor rico e dono de uma ilha, que se deparava com os extraterrestres. A personagem tinha pouco texto e em nenhum momento teve um envolvimento amoroso dentro da trama. Apesar de protagonista, tornou-se meramente decorativo. Caso o papel de Plínio tivesse sido entregue a um ator de verdade, a dimensão do crescimento e a importância na trama seriam diferentes.
A Cabana do Pai Tomás”, escrita por Hedy Maia, Péricles Leal e Walter Negrão, é o caso mais bizarro e vergonhoso de racismo registrado em uma telenovela. Baseada no romance homônimo de Harriet Beecher Stowe, é a história do escravo Tomás, homem de bom coração, que passa por vários e cruéis senhores de engenhos durante a Guerra da Secessão nos Estados Unidos. Feita com esmero e dentro de um grande orçamento, a novela foi pensada para ser um grande sucesso épico, mas tornou-se um dos maiores fracassos e de um resultado grotesco. Para viver o protagonista negro Pai Tomás, a subsidiária norte-americana da Colgate-Palmolive no Brasil, que patrocinava as telenovelas da época, exigiu que o papel fosse vivido pelo ator branco Sérgio Cardoso. O absurdo obrigou Sérgio Cardoso a pintar o corpo com uma tinta negra, usar peruca e rolhas no nariz. A novela estreou sob os tumultos de aclamados protestos, um movimento liderado pelo jornalista e dramaturgo Plínio Marcos, em sua coluna diária no jornal “Última Hora”, achava que o personagem deveria ser interpretado pelo ator Milton Gonçalves. Tudo em vão. A novela foi um fiasco em seus 205 capítulos. Mesmo de cunho racista, “A Cabana do Pai Tomás” teve o maior elenco negro até então.

Subalternos e Escravos

Nos anos setenta a telenovela deixava os dramalhões de época, as histórias que dantes se passavam nas Antilhas, nos desertos árabes, no sul dos EUA, são transportadas para o cotidiano brasileiro, mostrando as praias cariocas, os subúrbios paulistanos. A telenovela torna-se uma espécie de retrato da urbanidade nacional, ou, em raras exceções, do ruralismo além do litoral. Nesta nova composição do gênero, o negro é esquecido. O ator Antonio Pitanga desabafaria mais tarde, que na época as personagens das tramas noveleiras sequer tinham um vizinho negro. O negro passava a figurar em tramas paralelas, a viver personagens subalternas. Zezé Motta conta que ao fazer um curso de interpretação, foi abordada por alguém que lhe questionou o porquê de tanto preparo se iria fazer só papel de empregada nas novelas. Diante dessa dura realidade, a atriz deixou de fazer telenovelas por muitos anos, recusando-se ser a eterna serviçal das tramas televisivas.
Na industrialização das telenovelas, os negros tiveram que gritar e protestar por papéis mais importantes, mas nem sempre o grito ecoava diante do preconceito. Temáticas de racismo eram retratadas timidamente, como em “Verão Vermelho”, novela de Dias Gomes, estreada na TV Globo em 1970. Na trama Geralda (Lúcia Alves), jovem de cor branca, esconde a mãe negra Clementina (Ruth de Souza). Em 1971 Janete Clair cria a personagem de Otto von Muller (Jardel Filho), um dos protagonistas de “O Homem Que Deve Morrer”, um vilão racista que é salvo da morte ao receber em transplante o coração de um negro. Zeny Pereira interpreta Conceição, mãe do negro que doou o coração a Otto. Para que ele não se esqueça, ela anda com o coração inutilizado dentro de um vidro, lembrando-lhe que o que bate em seu peito é o de um negro. Em “O Rebu” (1974), de Bráulio Pedroso, a desequilibrada Lupe (Tereza Rachel), mulher rica e frágil, tem no final da novela a proteção e o amor do negro Astorige (Haroldo de Oliveira). Milton Gonçalves que interpretaria um padre na versão proibida pela censura de “Roque Santeiro” (1975), pediu para Janete Clair uma personagem que pudesse usar gravata. Para presenteá-lo a autora criou o doutor Percival de “Pecado Capital” (1975), um psiquiatra negro formado em Havard. Quando “Roque Santeiro” foi levada ao ar em 1985, o padre negro embranqueceu, sendo interpretado por Paulo Gracindo.
Na segunda metade da década de setenta a Globo começa a adaptar vários clássicos da literatura brasileira. “Gabriela” (1975), novela de Walter George Durst extraída das páginas de Jorge Amado, teve várias pretendentes ao papel, entre elas duas atrizes negras, Zezé Motta e Vera Manhãs, esta última na época casada com o ator Antonio Pitanga, mãe dos atores Rocco e Camila Pitanga. A emissora preferiu escurecer a pele de Sonia Braga, transformando-a na mulata Gabriela. Outras adaptações da literatura geraram as personagens dos escravos. Durante muito tempo o negro viveu o escravo das novelas das 18 horas da TV Globo. Entre as novelas estavam “A Moreninha” (1975), “Escrava Isaura” (1976), “Sinhazinha Flô” (1977) e “Memórias de Amor” (1979).
Escrava Isaura”, adaptação de Gilberto Braga da obra de Bernardo Guimarães, é sem dúvida um dos marcos do racismo velado, mas tenaz, que paira na cultura brasileira. Tanto o romance, como a novela, consegue ser o registro literário mais racista feito no Brasil. Nele o problema da escravidão não reflete a injustiça contra a raça negra, mas a uma infeliz mulher de pele branca que teve a pouca sorte de nascer escrava. Na novela Isaura (Lucélia Santos) é perseguida e maltratada por Leôncio (Rubens de Falco). Várias vezes ela era ameaçada de ser açoitada no tronco, quando isto acontecia, o público ficava arrepiado, indignado. Os açoites à Isaura não passavam de ameaças, enquanto que os escravos negros da novela eram açoitados e não havia a comoção do público, afinal a lógica dizia aos telespectadores que os negros eram naturalmente escravos, não havia injustiça ou injustiçados, mas Isaura era branca, uma verdadeira iniqüidade ela ser escrava.

Rejeição do Público aos Amores Entre Raças

Nos anos oitenta movimentos em defesa do negro começam a ganhar força e a exigir uma maior presença dentro da teledramaturgia. Afinal é a década do centenário da Abolição, é preciso que o negro saia da senzala e das cozinhas dos patrões brancos, que se torne vizinho do branco, colega de escola. É preciso acreditar que em 100 anos do fim da escravidão no país, o negro faça parte da identidade nacional, ou da identidade vendida pelas telenovelas no exterior e apresentada para o público no Brasil.
Janete Clair foi confrontada em um programa de rádio em 1980, do porquê de não ter atores negros em papéis que não fossem de subalternos em suas novelas, ou que tivessem uma maior importância. A autora respondeu que nunca havia parado para pensar no assunto, e prometeu criar melhores papéis para os negros. Realmente ela amplia um pouco esta participação em suas tramas, “Coração Alado” (1980) e “Sétimo Sentido” (1982) refletiram um pouco a promessa, com papéis mais destacados criados para Jacira Silva e Ruth de Souza.
Em 1984 Gilberto Braga decidiu ousar um pouco mais, abordando o preconceito racial em “Corpo a Corpo”, criando o amor inter-racial entre Cláudio (Marcos Paulo) e Sônia (Zezé Motta). O público rejeitou o romance. Marcos Paulo chegou a ser indagado se estava a precisar de dinheiro para aceitar a beijar uma negra. Também Zezé Motta foi hostilizada pelo preconceito do público. Curiosamente, os atores tinham vivido um romance na vida real anos antes.
Sinhá Moça”, adaptação de Benedito Ruy Barbosa da obra homônima de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, trazia um herói mascarado branco Rodolfo (Marcos Paulo na versão de 1986 e Danton Mello na de 2006), que libertava os negros do cativeiro, transportando-os para os quilombos. A Abolição era tratada como pano de fundo no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, mas que Benedito Ruy Barbosa deu ênfase, transformando a novela em um grande sucesso. Tony Tornado teve um bom momento na televisão como o Capitão do Mato. A segunda versão de “Sinhá Moça”, vinte anos depois da primeira, foi vista com outros olhos pelos movimentos negros do Brasil. Um inquérito civil foi instalado contra a novela, acusada de deturpar a história da escravidão no Brasil e de prejudicar a auto-estima da população negra. Um promotor do Ministério Público da Bahia acusou Benedito Ruy Barbosa de mostrar o negro como apático, passivo, que precisava de heróis brancos para libertá-lo.
Roque Santeiro”, novela de Dias Gomes, censurada em 1975, foi finalmente ao ar em 1985, com co-autoria de Agnaldo Silva. Tony Tornado, viveu Rodésio, o fiel capataz da viúva Porcina (Regina Duarte), o ator revelaria mais tarde que foram gravados três finais diferentes para a telenovela, cada um deles dando destinos distintos à fogosa viúva, em um dos finais ela terminaria com Roque (José Wilker), em outro com Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e em um terceiro, terminaria com Rodésio. A emissora divulgou apenas os dois primeiros finais, segundo Tony Tornado, por temer que a reação do público fosse negativa diante de um possível final de Porcina com um negro.
Várias obras de Jorge Amado foram adaptadas para as telenovelas, e todas às vezes que se sucederam as adaptações, o universo da Bahia negra de Jorge Amado quase que desapareceu. Além de “Gabriela”, quase não havia negros nas novelas “Terras do Sem Fim” (1981), “Tieta” (1989) e “Porto dos Milagres” (2001). Imperdoável o branqueamento dado pela Globo à Bahia de Jorge Amado.

Maior Integração e Participação nas Novelas Atuais

A década de noventa trouxe mudanças ao conceito da imagem do brasileiro retratada pela teledramaturgia. O negro passou a ter mais espaço, saindo da submissão ao homem branco para uma classe média mais próxima da realidade. Esta mudança pequena, mas significativa, passou a ser feita de forma irreversível e contínua, já não se podia negar a identidade negra no universo teledramático.
A Próxima Vítima” (1995), de Silvio de Abreu, soprou os ventos da mudança na participação dos negros, que aqui teve um núcleo sólido, retratando uma família de classe média encabeçada por Fátima (Zezé Motta), o marido Cleber (Antonio Pitanga) e os filhos Sidney (Norton Nascimento), Jefferson (Lui Mendes) e Patrícia (Camila Pitanga). Desde então, os eternos papéis de subalternos destinados aos negros não foram extintos, mas deixaram de ser o único retrato apresentado de uma raça.
Em 1996 Walcyr Carrasco, sob o pseudônimo de Adamo Angel, levou para a televisão a personagem histórica de Xica da Silva. Dirigida por Walter Avancini e produzida pela extinta TV Manchete, “Xica da Silva” trazia Taís Araújo como protagonista, sendo um grande sucesso de público. A trama trazia vários personagens negros. Zezé Motta que vivera Xica da Silva no cinema, na telenovela fez o papel de mãe da personagem.
Nos últimos anos, a TV Globo, numa tentativa histórica de redimir-se da segregação negra em suas telenovelas, não por fazer uma autocrítica, mas por pressão das mudanças sociais dos tempos, criou em suas tramas várias personagens negras bem-sucedidas. Em 2004 lançou a sua primeira telenovela protagonizada por uma atriz negra, “Da Cor do Pecado”, de João Emanuel Carneiro, retratando o amor do milionário Paco (Reynaldo Gianecchini) pela romântica Preta (Taís Araújo). Além de “Da Cor do Pecado”, outras novelas globais trouxeram personagens negros bem-sucedidos, como “Mulheres Apaixonadas” (2003), “Celebridade” (2003), “Páginas da Vida” (2006). Em 2006 Lázaro Ramos conquistou o público brasileiro ao viver o Foguinho de “Cobras & Lagartos”, tornando-se protagonista absoluto da telenovela de João Emanuel Carneiro, fazendo cenas antológicas ao lado de Marília Pêra e Taís Araújo. Em 2007 o mesmo Lázaro Ramos viveu em “Duas Caras” o tórrido amor da sua personagem Evilásio pela rica Júlia (Débora Falabella). Ao contrário do que sucedera em Corpo a Corpo”, de 1984, o romance inter-racial conquistou o público. Em 2008, Milton Gonçalves voltou às gravatas para interpretar o rico e corrupto político Romildo Rosa de “A Favorita”. Já não precisou pedir ao autor da novela para poder usá-las, como aconteceu na década de setenta.
Se hoje há uma maior visibilidade do negro na telenovela, as oscilações continuam conforme sopram os ventos. No começo da primeira década de 2000, um polêmico projeto de lei do então senador Paulo Paim, obrigava que as emissoras de televisão incluíssem 25% de negros nas telenovelas. Imposição que causou mal estar inclusive entre os atores afro-brasileiros. O racismo não desapareceu da telenovela, a participação dos negros tão pouco alcançou o patamar que reflita o seu real lugar na identidade do Brasil. Mas perto do que já foi, um longo caminho foi percorrido, alcançado grandes vitórias. Para isto as mudanças sociais tiveram que ser absorvidas por uma conservadora e preconceituosa sociedade. E a telenovela tem esta função de mudar preconceitos e moldar opiniões. Cabe aos autores, diretores e produtores do gênero assumirem este compromisso de querer mostrar a verdadeira face do brasileiro e do Brasil.


LENDAS DE PERSONAGENS POPULARES DA HISTÓRIA

Dezembro 14, 2008

Algumas personagens da história construíram à sua volta um misticismo desbravador e pioneiro, que geraram lendas e mitos que muitas vezes superaram os próprios fatos históricos.
Deixando a verdade histórica de cada personagem aqui citado, percorreremos a lenda, o imaginário popular, o fantástico e a veracidade criativa. Três lendas relacionadas com a nossa história, sejam elas às vezes trágicas, às vezes pungentes, mas sempre vistas com ludismo diante dos acontecimentos reais.
Os Pirilampos do Abaré-Bebê, lenda do litoral paulistano, propagada pelo homem caiçara, narra os milagres supostos do padre Leonardo Nunes, jesuíta português que esteve em trabalho missionário no Brasil quinhentista. Do padre muito que se disse, muito que se lhe atribuiu em forma de lenda, como a sua gagueira e a sua incomum agilidade e rapidez nos passos. Como cenário da lenda temos as ruínas do Convento, em Peruíbe, que hoje fazem parte do patrimônio histórico brasileiro.
Antonio Conselheiro Não Morreu, passamos aqui do Brasil quinhentista para o país da jovem República, que na sua inexperiência incipiente, massacrou o arraial de Canudos, em 1897. Canudos tornara-se terra de jagunços e pessoas desvalidas pela sociedade, que chefiados por Antonio Conselheiro, rebelaram-se contra a República e defenderam a monarquia extinta. Na sua confusão mística, Antonio Conselheiro pregava o messianismo do rei português, Dom Sebastião, morto no deserto da África em 1578, cujo corpo jamais foi encontrando, gerando a lenda de que ele não morreu, mas que voltaria a qualquer momento para restituir a glória portuguesa. O próprio Antonio Conselheiro virou uma lenda messiânica para os mais antigos da Canudos reconstruída, que juraram que o velho beato jamais havia morrido.
A Nuvem Branca do Jaraguá relata a saga dos bandeirantes paulistanos, desbravadores do Brasil que quebrou o Tratado de Tordesilhas, expandindo-se para dentro da selva impenetrável. A grande muralha formada pelo morro do Jaraguá era a última fronteira que cercava o Brasil desconhecido do Brasil litoral. Belíssima lenda da gloriosa história dos bandeirantes, amados ou odiados.

OS PIRILAMPOS DO ABARÉ-BEBÊ

O bom padre jesuíta Leonardo Nunes, lá por volta de 1549, deixou as terras lusitanas para vir catequizar os brasilíndios. Sua imensa fé converteu um vasto número daqueles habitantes pagãos. Tão bom e amado era o padre, que certos dons passaram a fazer parte da sua vida. Tornou-se o homem mais ligeiro do mundo. Os índios guaranis que habitavam entre Santos, São Vicente, São Paulo de Piratininga, Itanhaém e Peruíbe, desconfiavam que o padre voava, tamanha rapidez que se deslocava de um local para o outro, subindo e descendo as serras da região. Leonardo Nunes passou a ser chamado de Abaré-Bebê, que significava “padre voador”.
Em Peruíbe, Abaré-Bebê e outros jesuítas construíram no cimo do outeiro de São João Batista uma igreja que levou o mesmo nome. Na igreja eram batizados os índios convertidos. Também ali eram enterrados. As suas urnas eram cobertas por ostras, que com o tempo formaram belos sambaquis.
Um dia Abaré-Bebê foi chamado a Roma para dar conta ao Vaticano das missões no Brasil. Foi com grande tristeza que os índios se despediram do padre, que embarcou em um navio, em Santos. Tão logo partiu, uma grande tempestade abateu-se sobre a embarcação, afundando-a em alto mar. Muito empenho teve Abaré-Bebê em ajudar a salvar os náufragos, que acabou por ele mesmo perder a vida. Os que sobreviveram contam que após salvar várias pessoas, o padre rumou para o meio da tempestade com a finalidade de socorrer tantas outras, mas uma onda gigante elevou-se ao seu redor, uma nuvem de pirilampos cercou o corpo do padre, formando uma grande luz que brilhava intensamente no meio da escuridão da tempestade. Com o rosto iluminado pelos pirilampos, o bom padre desapareceu em alto mar, nunca mais sendo visto.
Em Peruíbe, o tempo passou. Um dia espalhou-se que na velha igreja no cimo do outeiro de São João Batista estava escondido um tesouro deixado pelos jesuítas. Uma debanda de caçadores de tesouros rumou para o sítio. Cavaram, derrubaram paredes, transformando a igreja nas Ruínas do Abaré-Bebê. Numa das procuras, um dos caçadores achou um velho baú. Na esperança de ter encontrado o cobiçado tesouro, abriu a arca e viu sair de dentro dela uma grande nuvem de vaga-lumes e pirilampos, que acenderam tanta luz, quase o cegando. Era o dia da data da morte de Abaré-Bebê. Entre a nuvem de pirilampos, as paredes da antiga igreja reergueram-se, no meio do altar surgiu o rosto sorridente do bom padre, que com o seu amor habitual pelos homens, rezou ali mesmo uma missa. Todos os caçadores de tesouro pararam para contemplar o milagre e ouvir a missa de Abaré-Bebê.
Ainda hoje, por volta da data da morte do padre jesuíta, em Peruíbe, quem olha para o outeiro de São João Batista, pode ver surgir milhares de pirilampos, trazendo uma resplandecente nuvem de luz, que ilumina as ruínas, fazendo o templo reerguer-se por inteiro, e no meio do altar, o padre Abaré-Bebê volta das profundezas do mar, a rezar uma missa quinhentista.

ANTONIO CONSELHEIRO NÃO MORREU

A rebelião de Canudos chegara ao fim. Os cinco mil soldados legalistas dão os últimos tiros contra a população do arraial. Entusiasmados, gritam a vitória, adentrado pela Canudos rebelde, tomando-a de vez. Já no centro do arraial, deparam-se com a igreja nova totalmente destruída, cravada de balas. Em pé só encontraram o cruzeiro de pau de aroeira, com os seus três metros de altura, rechaçado de balas, defronte dos escombros da igreja, pingando ainda o sangue quente dos mortos. Os soldados legalistas procuram pelos sobreviventes, para impor e comemorar ante eles a vitória. Após a busca, encontram os sobreviventes: dois homens magros e cansados, um velho avançado nos anos, quase moribundo e uma criança esquálida, com olhar de terror!
Deitado numa esteira, coberto por um lençol branco, com a sua batina azul, e o inseparável crucifixo sobre o peito, jazia Antonio Conselheiro, líder da rebelião, considerado santo e messiânico pelos rebeldes dizimados. Canudos tinha sido destruída finalmente. A criança foi levada pelos soldados. Ainda olhou uma última vez para trás, a despedir-se da desolação sanguinária do arraial. Viu de repente, em frente ao cruzeiro, o beato rebelde: Antonio Conselheiro, de braços abertos, acenava-lhe, mostrando que não morrera.
Muitos anos se passaram, uma nova Canudos foi construída, para lá foi removido o velho cruzeiro de madeira, posto em um lugar que não fosse atingido pelas cheias do rio Vaza-Barris. A criança sobrevivente da guerra cresceu, casou-se e teve filhos. Antes de morrer, ainda pôde ver o Conselheiro aparecer na lua cheia de setembro, a rezar defronte ao cruzeiro. Aos seus filhos foi dado o dom de poder ver a aparição milagrosa nas noites de luar pleno.
Mas o progresso bateu às portas da nova Canudos, que foi mais uma vez destruída, desta vez submersa pela construção do açude Cocorobó. Quando as águas do açude afundaram o lugar, os netos da criança sobrevivente ainda olharam para trás. Lá estava Antonio Conselheiro, de braços abertos, com o seu bastão nas mãos. Sempre a fazer uma oração, a clamar pelo cavalo de Dom Sebastião, que voltava com ele para proteger os oprimidos do sertão, aos poucos foi sucumbindo diante das águas do Cocorobó. Nunca mais se viu a figura de Antonio Conselheiro nas noites de lua cheia.
Na terceira Canudos, a seca era combatida pela fartura das águas do açude. Os seus habitantes jamais esqueceram o beato que se rebelara contra a opressão ao homem sertanejo e contra a própria instituição republicana. Mas um dia a seca voltou a Canudos. E das profundezas do açude, de repente a Canudos esquecida no tempo emergiu, vomitando todo o passado sangrento de outrora. E numa noite de lua cheia de um setembro seco, de repente uma velha senhora, neta da criança sobrevivente da guerra, ela própria a mulher mais velha do local, viu surgir das águas emergidas a igreja destruída. Na beleza da visão, viu o velho cruzeiro brilhar em cada buraco das balas que o perfurara. À sua frente, ajoelhado, a rezar, lá estava Antonio Conselheiro. Ao ver a mulher, o beato levantou-se, apoiando-se no seu bastão. A sua batina azul brilhava à luz do luar, seu rosto era iluminado pelas estrelas. De braços abertos, como se abençoasse a velha mulher, Antonio Conselheiro chamou por el rei Dom Sebastião, já pronto para montar no cavalo do rei menino, pronto para cavalgá-lo sobre as águas quase secas do açude. A velha mulher já poderia morrer aliviada, com a certeza que a morte brutal dos seus antepassados não fora em vão. Antonio Conselheiro, ao lado de Dom Sebastião, vagava pelos desertos secos do sertão do mundo. Se Canudos foi submersa pelo sangue dos seus mortos e pelas águas do Cocorobó, das suas entranhas emergia, seca, sem perdão, as suas ruínas, os clamores dos mortos, as vozes dos fantasmas que não se calaram, e, principalmente, emergia o beato… Antonio Conselheiro não morreu…

A NUVEM BRANCA DO JARAGUÁ

Quando os primeiros colonizadores chegaram à costa sul das terras brasileiras, despertou-lhes atenção especial uma imensa elevação chamada de “Senhor dos Vales”, que mais tarde ficou conhecido como morro do Jaraguá. Os primeiros habitantes da Serra do Mar, viam o Jaraguá de longe, recortando o horizonte azul, imponente e belo, um gigante no meio da selva hostil, ainda desconhecida. Várias eram as informações de que no vale havia grandes jazidas de ouro e pedras preciosas. Misterioso, o morro do Jaraguá era a última fronteira entre o litoral e o sertão desconhecido. O fascínio pela conquista além do morro era a obsessão dos bandeirantes.
Considerada região sagrada pelos índios, o vale era defendido por eles, que constantemente atacavam os moradores de Piratininga. Para penetrar o sertão desconhecido, além da muralha do morro do Jaraguá, foi convocada uma força comandada por Antonio Sardinha, o mais temido inimigo dos silvícolas. Assim, tomando o morro como bússola, começou a penetração do desconhecido sertão. A partir de Antonio Sardinha, várias bandeiras foram organizadas para pear índios, conquistar o sertão e chegar ao interior da colônia, repleto de lendas atemorizantes, que assustavam até mesmo os indígenas nativos da região e suas circunvizinhas.
Outros bandeirantes seguiram, outras bandeiras… outros desbravadores paulistas… Manuel Preto, Belchior Dias Carneiro, Antonio Raposo Tavares, Fernão Dias Pais, Bartolomeu Paes de Abreu… Todos eles partiram em busca do ouro, das pedras preciosas, dos índios, do domínio do interior da colônia. Seguiam a partir do Jaraguá. Podiam avistar o morro por três dias de caminhada, sabendo que por lá deixavam a família, a única certeza da volta era acalentada pelo sonho de enriquecer. Sonho muitas vezes terminado pelas febres da selva, pelo combate com os índios, pela fome do sertão agreste e inóspito.
Cada vez que partiam, os bandeirantes deixavam as mães, as mulheres, os filhos, todos presos à saudade e à ilusão de uma volta que, em muitos casos, jamais aconteceria. Para dar adeus aos maridos e aos filhos que partiam, as mulheres subiam ao pico do Jaraguá, empunhavam lenços e lençóis brancos, amarrados a um mastro, que ao vento, formavam as flâmulas brancas do adeus. Assim, paradas, solitárias, tristes, ficavam a acenar para os seus homens que se distanciavam para dentro da mata desconhecida. Por lá ficavam até a certeza, três dias depois da partida, de que os seus entes queridos já não poderiam vê-las. Era o adeus, o último olhar, a última lágrima, o último momento de proximidade simbólica àqueles que jamais retornariam.
Desesperadas pela espera, muitas lágrimas derramaram aquelas mulheres no pico do Jaraguá. Lágrimas eternas, de olhos que jamais voltariam a ver os seus destemidos e desbravadores homens. A saudade e a tristeza da espera sem fim, faziam com que tão sofridas mulheres definhassem para sempre.
Milhares de bandeiras partiram… Poucas voltaram. Milhares de mulheres subiram o pico do Jaraguá para a cerimônia do adeus. Suas lágrimas foram tantas, que correram pelo morro, evaporadas pelo sol. Das lágrimas, uma densa nuvem branca formou-se sobre o morro. Nuvem construída pela dor do adeus, da esperança e da saudade. Cada gota de lágrima representava um bandeirante que partira. Cada lágrima juntou-se à nuvem branca do adeus, que permaneceria para sempre no topo do pico do Jaraguá.
Mesmo hoje em dia, já distante o tempo das bandeiras, quando chega o mês de maio, época que no passado servia como marco da partida dos bandeirantes, esteja o tempo nublado ou o céu límpido, quem olhar para o morro do Jaraguá, verá em seu topo a nuvem branca formada das lágrimas da tristeza das mulheres dos gloriosos bandeirantes paulistas, desbravadores dos sertões brasileiros. A nuvem branca ainda persiste no céu do Jaraguá, como prova de uma época construída pela dor e pela coragem.

Ilustrações: José Lanzellotti
Adaptação livre de Jeocaz Lee-Meddi para textos de Brasil, Histórias, Costumes e Lendas

Veja também:

 

LENDAS INDÍGENAS: http://jeocaz.wordpress.com/2008/08/13/lendas-indigenas/

LENDAS SERTANEJAS: http://jeocaz.wordpress.com/2008/10/29/lendas-sertanejas/


OS AMANTES E OUTROS CONTOS – DAVID MOURÃO-FERREIRA

Dezembro 5, 2008

Quando comparamos a ficção com a história, podemos situar os autores no exato momento histórico da criação das suas obras, e assim compreendermos melhor a sua ficção. De uma forma ou de outra todos estão lá, inseridos no tempo e na história. Com os contos de David Mourão-Ferreira – que vamos analisar tal momento preso na história – não acontece este tempo histórico. Lemos os seus contos e chegamos a conclusão de que eles poderiam ter sido escritos hoje, ou amanhã, talvez ontem, enfim, são de uma atemporalidade que faz da sua obra algo fascinante e perturbador.
Da obra de David Mourão-Ferreira, destaca-se em poesia : Tempestade de Verão (1954), Cancioneiro de Natal (1971), No Veio de Cristal in Obra Poética 1948-1988 (1988), Música de Cama (1994); as novelas de Gaivotas em Terra (1959); os contos: Os Amantes (1968) E Outros Contos (1974), As Quatro Estações (1980); além de vários ensaios, crítica, crônica e teatro. Escreveu ainda o romance Um Amor Feliz (1986). Foi como contista que a crítica literária consagrou David Mourão-Ferreira, e será como contista que iremos também saudá-lo.
Tomaremos como referência o seu livro de contos Os Amantes e Outros Contos (7ª edição – Editorial Presença -1996). Curiosamente o livro teve a sua primeira edição no mês de Maio de 1968. Sobre a primavera deste ano não é necessário esclarecer a sua importância para a história, lembramos-nos automaticamente dos estudantes da Sorbonne, dos canhões soviéticos nas ruas de Praga, e da queda de Salazar da sua cadeira no fim do verão. Os ventos da história a soprarem mudanças. Inicialmente o livro era composto por cinco contos, chamava-se Os Amantes, que foram escritos ao longo dos anos sessenta: O Viúvo, em 1962; Nem Tudo é História, em 1966; A Boca, em 1967; Amanhã Recomeçamos e Os Amantes, em 1968. Os seis anos que há de espaço entre o primeiro e o último, são os perturbados anos sessenta, que a tudo transforma e a tudo agride. Nunca o conceito das tradições políticas, familiares, religiosas e morais foram tão contestadas, tão criticadas e mesmo desafiadas. Pelas ruas marchavam milhões de jovens de roupas coloridas e cabelos longos. Nos palcos dos teatros, o mundo parava para assistir ao Hair; os Beatles proclamavam-se “mais populares do que Jesus Cristo”. O mundo de ficção de David Mourão-Ferreira nesses contos é assim, perturbador, a quebrar tabus, a trazer-nos um cheiro de erotismo e violência onírica em cada conto. Em 1974, foi acrescentado à segunda edição mais três contos e este passou a chamar-se Os Amantes e Outros Contos. Os outros contos – Agora Que Nos Encontramos, Trepadeira Submersa e Ao Lado de Clara -, apesar de terem sido escritos entre 1973-1974, traziam a atmosfera (segundo o próprio autor), dos outros cinco.

Simulacros de Tempo e de Narrativas

A narrativa dos contos mostra-nos cenários e espaços perdidos em um universo mágico, em simulacros de tempo e de narrativa. Ao ler os contos de Miguel Torga, não conseguiríamos imaginar que aquelas personagens pudessem viver além das aldeias e das montanhas transmontanas. Com David Mourão-Ferreira o espaço é extratemporal, as personagens podem circular tanto pela Europa Central, como por Portugal, como pelo Leste Europeu, porque quem caminha não são os seus corpos, mas sim as suas mentes, as suas almas. Aqui o fantástico é quem impera.
Ao lermos os contos, não estamos a descobrir certezas e fatos históricos, estamos a ser transportados numa alucinante aventura da mente e do corpo à procura dos sentidos, todos eles aguçados. O cheiro, tanto do mar, como da carne, como do sangue, todos perdidos numa fusão do olfato. O tocar nos corpos, nos objetos, no inatingível de nós mesmos, no enganar do tato. Ver as sucessivas imagens da mente, quase a nos tragar em labirintos de fotografias a preto e branco, em lembranças envoltas por brumas, em prisões no tempo e no espaço, onde as cores são vivas e cinzas ao mesmo tempo. Talvez ouvir e sentir o gosto das coisas seja o enigma dos sentidos menos aguçados, mas sem dúvida os mais procurados.
Para explicar a narrativa de David Mourão-Ferreira, vejamos o que diz no livro o posfácio de Eduardo Prado Coelho:

Indiquemos ainda o jogo que entrelaça o tempo da narração, com os vários tempos da ficção. Aquele que conta instala-se num extratempo: e os vários tempos da ficção driblam, fintam, ultrapassam, esperam, serpenteiam o tempo da narração. Esse privilégio de extratemporalidade que o narrador adquire permite que ele continue a narrar depois da sua morte, sem que esse “depois” lhe venha sequer ferir o fluxo da voz narrativa, circulando ele sem entraves no espaço de ninguém onde estes contos nos transportam.”

Confrontos Entre a Vida Psicológica e a Morte Física

Para melhor compreendermos a linguagem dos contos, é preciso que nos deixemos guiar pelo universo deles. Comecemos pelo conto que dá título ao livro: “Os Amantes”. Talvez o que mais surpreenda, não pela atitude do homem diante da morte, mas da morte diante do homem. A narrativa mostra-nos um homem que foge das imediações de um quartel militar, após o falhanço de uma rebelião. Perseguido, ele tenta chegar à casa da mulher desejada. Depois de uma fuga alucinante, acorda nos braços da amante crioula. Passado o momento do idílio dos corpos, o homem acorda só e nu. De repente é prisioneiro em uma estranha sala, na qual encontra álbuns de fotografias que lhe revelam toda a sua vida. De uma forma fantástica a história do homem é contada através das fotografias. Aos poucos, ele revela-se em várias faces e fases, a que foi em criança, a que foi depois de uma plástica que lhe mudara o rosto (seria um fugitivo nazista?), a sua vida atual em um país tropical, os braços da amante, o seu corpo cor de ébano. Na tentativa de fuga da casa da amante, todos os quartos estão fechados. Ele está nu, pois as suas roupas desapareceram. Nu no confronto final consigo mesmo. Por fim, o homem descobre que não há saída, pois ao fugir do quartel, tinha sido abatido e morto. Não enganara a morte, mas fora enganado. Conformado, deita-se ao lado da amante, também ela morta, aceitando a vitória da sua última rebelião, ou seja, contra a morte. Ao narrar a sua história, ele o faz já morto, já do outro lado das fotografias:

Ajoelho e curvo-me sobre as folhas abertas, à espera de mais revelações. Ao contrário, porém, de todos os outros, este álbum encontra-se ainda intacto, sem uma única fotografia colada nas suas páginas. Muito mais me intriga, aliás, o modo como ele e o anterior aqui surgiram, o modo como ambos pareceram empurrados… E descubro, de súbito, que tanto esta como a outra estante, de escura madeira envernizada, se dispõem em torno de cilindros metálicos – que fortemente as prendem ao tecto, que certamente as ligam ao andar de cima, que porventura as tornam comandadas a partir daí. Fazem lembrar, na parte superior, periscópios de submarinos. E principiam agora a mover-se, numa lentíssima rotação… E a seguir mais depressa, cada vez mais depressa! E as estantes principiam a girar, a rodar, a rodopiar… Tão vertiginosamente a velocidade vai aumentando que já alguns álbuns começam a ser projectados, atirados para o chão, arremessados de encontro às paredes; e já outros se desconjuntam, se rasgam, se esfarrapam, ainda antes de saírem das prateleiras… Com semelhante ritmo, de segundo a segundo mais frenético, decerto que nem um permanecerá no seu lugar.

Se compararmos os contos de David Mourão-Ferreira com os contos de Sophia de Mello Breyner Andresen – nomeadamente “A Viagem” e “A História da Gata Borralheira” – , vamos encontrar o fantástico como ponto de convergência. Mas o fantástico de um difere largamente do outro. Enquanto que Sophia de Mello Breyner Andresen faz do universo fantástico dos seus contos algo assim como as fantasias dos contos infantis, ou a fantasia do popular, em que já ouvimos falar diversas vezes da visita do diabo à casa de um rico senhor, deparamos com o fantástico como técnica de escrita, mas com um conteúdo que traz sempre uma evidência religiosa, intencionalmente católica, onde o bem e o mal tecem dois muros distintos, quando um atravessa o outro, o efeito é sempre o castigo, a moral e os dogmas como tema. David Mourão-Ferreira faz da técnica do fantástico o pulsar dos sentimentos e das sensações, o saltar da alma entre o psicológico e o metafísico. No seu mundo fantástico o universo das personagens não acompanha os seus corpos, mas sim as suas almas, os seus sonhos, os seus medos. O homem não é um eterno viajante do bem e do mal, é apenas prisioneiro do seu vazio, do seu corpo a flutuar no nada, sente-se quase que o rodopiar da alma, a vertigem da morte, o latejar do sangue. Vida e morte, paixão e desejo, tudo a formar um emaranhado de emoções que se tornam um todo. A poesia é latente nas sucessivas palavras cobertas de labirintos caudalosos, de olhares presos nas imagens dispersas no infinito do nosso eu pleno, quase a flutuar no inatingível, na solidão suprema de cada ser, nascimento e morte tornam-se o redimir dessa solidão.

Armadilhas e Desejos nos Rostos das Mulheres

No conto “O Viúvo”, a narrativa do universo psicológico das personagens toma o lugar do fantástico. O conto é na terceira pessoa, e o que está em causa são os desencontros do amor. Novamente a morte como pano de fundo. Um homem (Adriano) de meia idade, que ao ter um caso extraconjugal com uma mulher (Paula), faz do seu prazer o universo, e quando perde a amante em um acidente de automóvel, percebe que o amor é mais ambíguo do que o prazer. Torna-se viúvo dos desencontros da vida e do amor. Viúvo dos seus sentimentos. Deixa Lisboa para passar o natal nas Berlengas, num hotel que costumava ir com os pais quando jovem. Encontra-se com Rita, uma amiga antiga, também ela perdida entre as confusões dos sentimentos e os desencontros da solidão. As personagens conhecem-se umas as outras, mas se revelam em cada gesto:

E há um ano? Precisamente há um ano, mas um pouco mais tarde (já então as rasgadas janelas do bar do hotel se afogueavam, por entre a chuva do crepúsculo, com o revérbero das luzes de Lisboa…), há um ano, precisamente há um ano, tudo teria sido porventura diferente – se houvesse chegado a murmurar, a sussurrar, a arremessar, de qualquer modo, o nome da Paula.

Ao deixarmos o universo de desilusões de “O Viúvo”, vamos percorrer o universo inquietante de “Agora Que Nos Encontramos”. Mais uma vez o fantástico é quem nos vai conduzir como uma brisa turva no universo das personagens. Uma viagem às vezes erótica, outras vezes acidentada, muitas vezes armadilhada. Aqui uma figura não identificada fala com um homem que está numa cama de hospital, após uma intervenção cirúrgica por causa de uma úlcera. A estranha personagem faz uma viagem ao passado do homem,. A figura de uma bela e sedutora mulher é mostrada nos momentos de maior perigo da vida do homem. A primeira imagem é a da mulher o mostrar os seios dentro de um vagão de comboio, antes de ele colidir e arremessar o homem para baixo dos destroços, sem sentidos, quase morto. A viagem continua por um cabaré de Amsterdã. Uma mulher a fazer strip-tease, a conduzir novamente para um desejo que não é concretizado. Todas as vezes que ele a tem, ele a perde, em cada encontro perde um pouco da vida. Agora, no hospital, quase moribundo, é o encontro decisivo com a figura da mulher, o encontro do mergulho no vazio, o encontro da morte na forma de mulher, a mesma mulher que sempre perseguiu a imagem durante toda a vida, quase como uma promessa nunca cumprida de possuir-lhe o corpo. Mais uma vez a certeza de que o homem mergulha dentro das suas obsessões de imagens e desejos, fazendo deles os mais íntimos prazeres da existência não vivida, onde o caminho conduz armadilhadamente ao nada da morte e do espaço que faz da alma um salto no éter:

É chegado o momento (vês?) de ser eu própria a abrir o casaco. Nada receies. Não se trata agora de nenhuma trucagem. Não vais tornar a ver – descansa! – o esqueleto que viste em vez do corpo da outra rapariga. Agora é diferente: agora não vês nada; não há nada. Mas talvez este nada seja tão ilusório como o tudo que sempre procuraste no corpo de tantas mulheres. Seja como for, sei que é a altura de ficar contigo. Nem seria possível – agora que nos encontrámos – que mais uma vez nos viéssemos a perder.”

Viagem Dentro de um De Soto Preto

Dois contos tocam por si mesmos, o lado exótico da sensualidade, aqui traduzida numa forma ínfima de prazer. Em “Trepadeira Submersa” e “Ao Lado de Clara”, o homossexualismo feminino é visitado de uma forma sensual, quase como numa pintura renascentista nas descrições de “Ao Lado de Clara”. No primeiro – “Trepadeira Submersa” -, a personagem que narra a história oculta o seu sexo quase até ao fim do conto, quando estamos iludidos de que quem narra é um homem, surge-nos o narrador a revelar-se atrás da personagem o seu sexo de mulher e a sua atração pela professora, mulher mais velha, mais conservadora. A aluna escreve poemas para a professora, e na sua coragem de ninfeta apaixonada e ardente, não tem medo de revelar-se, tem medo da desilusão da musa que esconde a luz que lhe revela os poemas. Mas a professora, sem nunca perder o título, critica os poemas, a escrita, o português mal trabalhado, menos os desejos da aluna. Pede-lhe de uma forma velada, nunca diga explicitamente, que esqueça tudo, pois não é possível correspondência, pede que ela leve embora os seus sentimentos, mas que lhe deixe os poemas, único motivo pelo o qual bastaria uma vida de enganos para tê-los:

Ás mãos tinham retirado, debaixo do pesa-papéis, um pequeno maço de folhas onde reconheci a minha letra. E não era só o meu rosto que me parecia ter ficado tão vermelho como o vestido que ela trazia, como o próprio pesa-papéis: era também o mar, era também a água do aquário, eram também as lombadas de todos os livros. Por outro lado, só então reparei como aquela ténue e caprichosa flora, lá dentro do aquário, sugeria o desenho de uma trepadeira submersa.

Ao Lado de Clara”, a vida do palco confunde-se com a vida cotidiana. Atores vivem em casa cenas repetidas do palco. Verdade e ficção caminham nas mais diversas formas. Obsessão e desejo confundem-se com o universo das personagens. A atriz e o autor, o homem e a mulher, a personagem que parece criar vida e emergir das páginas angustiadas do autor. Por todos os lados, os olhos do narrador deparam-se com ninfas a transbordar de desejo os seus corpos. Mulheres que encontram no desejo mais íntimo do corpo o olhar de voyeur dos sátiros e dos faunos, ou seja, dos homens sedentos de penetrar no universo do sexo do qual assistem calados, frustrados. O teatro e a vida a criar simulacros para quebrar com o marasmo, a tentar criar tentações e libertações do corpo e das máscaras. Cada personagem dissimula, como se estudasse um texto diante da vida. Aqui o psicológico é mais denso do que o fantástico, cada personagem traz dentro de si uma sutil armadilha, um forte desejo:

Em todas as ruas serão em número cada vez maior os automóveis abandonados. Aperceber-te-ás de como eles vão sendo cada vez mais aproveitados por amantes de acaso, para encontros de ocasião. E verás sempre, no banco traseiro do enorme De Soto negro, de antes da guerra, o mesmo grupo das duas mulheres de meia-idade, estreitamente enlaçadas, enquanto, no banco da frente, todo encolhido, um homenzinho lívido e calvo, que se parece com Giorgio, viciosamente as espreita pelo retrovisor.(…)”

Os contos são repletos de objetos que nos surgem como simbólicos. No texto acima – “Ao Lado de Clara” – , reencontramos neste conto de 1973, o mesmo automóvel preto, o De Soto, que nos foi revelado em 1966 no conto “Nem Tudo é História”. Este conto abre um leque no fantástico e no maravilhoso dos contos de David Mourão-Ferreira. Talvez o mais violento de todos eles, onde nascimento e morte têm um momento único, o sangue jorra das luvas da mulher misteriosa, as mesmas luvas que vamos encontrar na outra personagem de “Agora Que Nos Encontramos”, também de 1973. Em 1973 David Mourão-Ferreira voltava com estes dois contos ao universo iniciado em 1966. Um começa onde o outro termina, ou vice-versa. Sempre o meteoro inconstante das imagens diante dos delírios supremos da vida e da morte. “Nem Tudo é História” narra-nos a vida de um homem quase que vista em um ecrã gigante, em que ligamos a tela e diante dos nossos olhos passam guerras, um vulto de mulher, um braço e uma luva, um carro negro, bares, gritos, um parto, o sangue, a história, mesmo quando não nos é dada uma história:

Noites e noites a fio, quase de madrugada, desenrolava-se a mesma cena: um grande automóvel preto – um carro americano de antes da guerra, talvez um De Soto dos anos trinta – parava de repente ao pé de mim. O motorista, fardado de negro, mantinha-se muito hirto no seu lugar; eu não chegava sequer a ver-lhe o rosto. Mais me intrigava aliás o próprio carro, que parecia ter estado debaixo de água – ou ter sido fabricado no fundo do mar – , embora não apresentasse, na carroçaria, nenhum vestígio de humidade. Mas o capot faiscava, na sombra, como o dorso de um cetáceo; o flanco fusiforme dos faróis denunciava não sei que secreto comércio com os peixes; e a porta de trás, que vinha agora de entreabrir-se – sem que ninguém lhe houvesse tocado -, evocava irresistivelmente, pelo crebro palpitar em que ficara, o inquietante mistério de uma guelra.”

E é no interior de um automóvel preto, um De Soto dos anos trinta, que entramos no mundo dos contos de David Mourão-Ferreira. Nele percorremos as páginas de “A Boca”, onde uma boca oculta surge nas ancas de Rossana. Aqui temos a nítida sensação de mergulharmos num quadro surrealista, talvez numa aquarela de Dali. Mas o De Soto não pára e continuamos pelo universo de “Amanhã Recomeçamos”, um conto feito só com diálogos, cada diálogo é uma revelação perturbante, quase paranóica, de um teatro esquizofrênico em que as personagens fazem das deixas as armadilhas que nos arremessará para o abismo, sem que tenhamos dado por isso. Por fim o De Soto é deixado numa sucata presa no tempo, em nós a certeza de que a viagem foi poética, perturbadora, e o universo de David Mourão-Ferreira é quase um ícone nos contos portugueses nas últimas décadas do findar do segundo milênio.

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira foi um dos maiores poetas contemporâneos portugueses, nascido em Lisboa, em 24 de fevereiro de 1927, destacou-se também como contista e já no fim da vida, revelou-se um grande romancista.
Além da literatura, teve uma vida dedicada ao magistério, sendo ao longo dos anos, professor dos ensinos técnico, liceal e universitário. Licenciado Filologia Românica, a partir de 1957 foi professor da Faculdade de Letras de Lisboa, tendo a carreira interrompida por questões políticas na época da ditadura salazarista. Neste período, em 1963, foi eleito secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Após a Revolução dos Cravos, em 1974, que pôs fim ao salazarismo, o escritor ocupou várias vezes o cargo de secretário da cultura em diversos governos.
Poeta, romancista, crítico e ensaísta, David Mourão-Ferreira é dono de uma obra densa, de uma tensão lírica latente, onírica, sempre voltada para o maravilhoso e fantástico da mente humana, de uma linguagem rítmica e rica, repleta de imagens eróticas latentes, que o fez ser visto como o poeta do erotismo da literatura portuguesa. Sua obra está voltada para o inalcançável da alma humana, sempre em equilíbrio com a mente, mas jamais com o corpo e com a vida.
Vários poemas de David Mourão-Ferreira tornaram-se fados de sucessos interpretados pela incomparável Amália Rodrigues.
Desde cedo David Mourão-Ferreira ligou a sua vida à literatura, as suas primeiras poesias foram publicadas aos 18 anos, na Seara Nova, revista da qual seu pai era colaborador. Na década de 50 revela uma plenitude literária como poeta, ensaísta, crítico, dramaturgo e prosador. Em 1954 torna-se um dos diretores de Távola Redonda. Em 1986 publica o romance Um Amor Feliz, que lhe valeu a consagração como escritor, atraindo um grande número de leitores para a sua obra, o romance rendeu vários prêmios, entre eles o Grande Prêmio de Romance da APE e o Prêmio de Narrativa do Pen Clube Português.
David Mourão-Ferreira viria a falecer em 16 de junho de 1996, deixando uma belíssima e representativa obra da literatura contemporânea portuguesa.

OBRAS:

Poesia

1946 – Rumos (antologia de contos e poemas em co-autoria)
1950 – A Secreta Viagem
1954 – Tempestade de Verão
1958 – Os Quatro Cantos do Tempo
1962 – Infinito Pessoal
1962 – In Memoriam Memoriae
1966 – Do Tempo ao Coração
1967 – A Arte de Amar (antologia)
1969 – Lira de Bolso (antologia)
1971 – Cancioneiro de Natal
1973 – Matura Idade
1974 – Sonetos do Cativo (antologia)
1976 – As Lições do Fogo (antologia)
1980 – Entre a Sombra e o Corpo
1980 – Ode à Música
1980 – Obra Poética (antologia 2 volumes)
1980 – À Guitarra e à Viola (1º volume da antologia Obra Poética)
1980 – Órfico Ofício (2º volume da antologia Obra Poética)
1983 – Antologia Poética
1985 – Os Ramos Os Remos
1987 – O Corpo Iluminado
1987 – As Pedras Contadas (antologia)
1988 – Obra Poética 1948-1988
1988 – No Veio do Cristal in Obra Poética 1948-1988
1992 – Lisboa Luzes e Sombras
1992 – A Arte de Amar (antologia)
1994 – Música de Cama (antologia)

Conto e Novela

1959 – Gaivotas em Terra (novelas)
1968 – Os Amantes (contos)
1974 – Os Amantes e Outros Contos (contos)
1978 – Maria Antónia e Outras Mulheres (antologia de contos escolhidos)
1980 – As Quatro Estações (contos)
1987 – Duas Histórias de Lisboa
1992 – Maria da Luz e Outras Esfinges (antologia)

Romance

1986 – Um Amor Feliz

Teatro

1956 – Contrabando
1965 – O Irmão

Ensaio, Crítica, Crônica

1960 – Vinte Poetas Contemporâneos
1961 – Aspectos da Obra de Manuel Teixeira-Gomes
1962 – Motim Literário
1966 – Hospital das Letras
1969 – Discurso Direto
1969 – Tópicos de Crítica e de História Literária
1976 – Sobre Viventes
1977 – Presença da “Presença”
1979 – Lâmpadas no Escuro
1987 – O Essencial Sobre Vitorino Nemésio
1988 – Nos Passos de Pessoa
1988 – Marguerite Yourcenar: Retrato de Uma Voz
1989 – Os Ócios do Ofício
1989 – Sob o Mesmo Teto
1992 – Tópicos Recuperados
1992 – Terraço Aberto (antologia)
1992 – Elogio Acadêmico de Vitorino Nemésio
1993 – Evocação de Sebastião da Gama
1993 – Magia Palavra Corpo
1995 – Em Movimento

Divulgação e Tradução de Poesia

1972 – Imagens de Poesia Européia – Volume I (Grécia, Roma, Os Séculos Obscuros)
2003 – Vozes da Poesia Européia I (Colóquio-Letras, nº 163, Janeiro-Abril)
2003 – Vozes da Poesia Européia II (Colóquio-Letras, nº 164, Maio-Agosto)
2003 – Vozes da Poesia Européia III (Colóquio-Letras, nº 1645, Setembro-Dezembro)

Vários

1993 – Jogo de Espelhos – Reflexos para um Auto-Retrato

CRONOLOGIA:

1927 – Nasce no dia 24 de fevereiro, em Lisboa, David Mourão-Ferreira, filho de Teresa de Jesus Mourão-Ferreira e de David Ferreira.
1929 – Nasce Jaime Alberto, irmão de David.
1942 – Publica o seu primeiro artigo no jornal escolar Gente Moça, órgão do Colégio Moderno.
1945 – Inicia a carreira literária publicando os primeiros poemas nas páginas da revista Seara Nova.
1946 – Colabora com as revistas Seara Nova e Aqui e Além.
1947 – Estreita amizade com os escritores José Régio, José Rodrigues Miguéis e Antonio Manuel Couto Viana, entrando para o grupo de intelectuais que freqüentavam o Café Chave d’Ouro.
1948 – Colabora como ator e autor, sob a direção de Gino Saviotti, no Teatro-Estúdio do Salitre.
1949 – Publica na revista Ocidente o artigo Acerca de uma Trajetória na poesia de Cesário Verde.
1950 – Funda com Antonio Manuel Couto Viana e Luís de Macedo, as folhas de poesia Távola Redonda. Publica seu primeiro livro de poesia, A Secreta Viagem.
1951 – Licencia-se em Filologia Romana. Inicia uma longa amizade com Amália Rodrigues, para a qual escreveria a letra de muitos fados.
1953 – Casa-se com Maria Eulália de Carvalho.
1954 – Publica o livro de poesias Tempestade de Verão. Da união com Maria Eulália nasce o primeiro filho, David João.
1956 – Colabora com a revista Graal e com o jornal Diário Popular. Inicia amizade com Natália Correia.
1957 – Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa. Nasce a filha Adelaide Constança.
1958 – Publica Os Quatro Cantos do Tempo (poesia).
1959 – Recebe pelo livro de novelas Gaivotas em Terra, o Prêmio Ricardo Malheiro, da Academia de Ciências de Lisboa.
1963 – Por perseguição do regime salazarista, não lhe renovam o contrato de professor da Faculdade de Letras de Lisboa.
1964 – Inicia com os programas radiofônicos Música e Poesia e Hospital das Letras a colaboração com a RTP (Rádio Televisão Portuguesa).
1965 – É afastado da RTP. Logo a seguir acontece um grande protesto contra o fechamento temporário da Sociedade Portuguesa de Escritores. Nomeado secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Escritores.
1966 – Casa-se pela segunda vez, com Maria Pilar de Jesus Barata.
1968 – Publica o livro de contos Os Amantes.
1970 – É reintegrado na função de docente da Universidade de Lisboa.
1974 – Assume a direção do jornal A Capital.
1976 – Nomeado Secretário da Cultura.
1977 – Morre o irmão Jaime Alberto.
1981 – Assume a direção das Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian.
1984 – Eleito presidente da Associação Portuguesa de Escritores.
1986 – Publica o seu único romance, Um Amor Feliz, pelo qual recebe vários prêmios, entre eles, o Grande Prêmio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores, o Prêmio de Narrativa do Pen Clube Português, Prêmio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus e o Prêmio de Ficção do Município de Lisboa.
1991 – Nomeado presidente do Pen Clube Português.
1994 – Publica a antologia de poesia erótica Música de Cama.
1995 – É acometido de uma grave doença, com a qual luta com determinação.
1996 – Recebe o Prêmio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Morre em Lisboa, no dia 16 de junho, sendo sepultado no Cemitério dos Prazeres.


AIDS, UM FLAGELO CONTEMPORÂNEO

Dezembro 2, 2008

 


Em 1988, há vinte anos, a OMS (Organização Mundial da Saúde), instituiu o Dia Mundial de Combate a AIDS, 1 de dezembro. Numa época em que ser declarado portador do vírus HIV constituía uma sentença de morte, era preciso que se chamasse a atenção do mundo para o maior flagelo do final do segundo milênio. Longe ia a descoberta de um tratamento eficaz, muito menos uma esperança de cura. O mundo assistia às imagens de pessoas debilitadas pelo flagelo, cadavéricas a definhar, cujo único destino era a morte. A face da AIDS assustava o mundo! A tragédia era iminente.
Longe vai da atualidade a imagem dos flagelados da AIDS dos anos de 1980 e da primeira metade da década de 1990. Tratamentos adormeceram o vírus, mas não o eliminou. Estudos sobre o HIV ainda vão longe de encontrar uma cura. Se a sobrevida dos portadores aumentou com as drogas, não os livrou da sina da doença. A AIDS não desapareceu do planeta, pelo contrário, está camuflada diante das terapias disponíveis. Tão perigosa quanto dantes, a doença mata silenciosamente os seus portadores, sem as imagens trágicas que se repetia no início da sua descoberta.
Relatórios recentes apontam que 33 milhões de pessoas estão infectadas pelo HIV em todo o planeta. O continente africano é o mais afetado pela epidemia. O tratamento é de alto custo, o que impossibilita que chegue aos países pobres do planeta. Nos países desenvolvidos a epidemia está camuflada pelas drogas terapêuticas, fazendo com que uma nova geração que não viu as mortes trágicas de outros tempos não a tema, descuidando-se da prevenção. Na primeira década de 2000 diminuiu o número de mortes causadas pela AIDS, em 2001 foram 2,2 milhões de mortos, em 2007 caiu para 2 milhões. Mas a ONU admite que a guerra está longe de ser vencida, e com a crise econômica mundial, teme que falte verba para o financiamento do tratamento em todo o planeta.
A AIDS hoje não tem cura, continua a matar silenciosamente. O melhor caminho para evitá-la continua a ser a prevenção, daí grandes campanhas pelo uso do preservativo nas relações sexuais. Desde o primeiro caso detectado no fim dos anos 1970 até os tempos atuais, a AIDS continua a ser um grande flagelo da humanidade.

Os Primeiros Anos da Epidemia

Em 12 de dezembro de 1977 morria, aos 47 anos, Margrethe P. Rask, médica e pesquisadora dinamarquesa, vítima de estranhos sintomas para a sua idade. Uma autópsia revelaria que os pulmões da médica estavam cheios de microorganismos que ocasionaram um tipo agressivo de pneumonia. Margrethe P. Rask tinha estado na África, a estudar o Ebola. Teria sido uma das primeiras vítimas da AIDS, mesmo não se tendo a certeza até os dias de hoje. Há relato ainda, de uma amostra sanguínea de um homem de Kinshasa, Congo, morto em 1959, que analisada recentemente ter-se-ia revelado soropositiva.
Em 1981 começaram a aparecer vários casos de doenças oportunistas em grupos de homossexuais americanos, principalmente na cidade de São Francisco, e em menor incidência, em Los Angeles e Nova York. A estranha doença chamou a atenção do centro de controle de doenças dos EUA. Descrevia-se pela primeira vez a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem nomeá-la cientificamente. A doença foi erroneamente vista como um mal que afetava apenas aos homossexuais, fazendo que o preconceito do governo Reagan ignorasse-a, não liberando verbas para um estudo mais profundo. Esta postura reacionária de Ronald Reagan, mantida por vários anos, atrasaria as descobertas de tratamentos por uma década, causando uma das maiores catástrofes de todos os tempos, a propagação da epidemia e, conseqüentemente, a morte de milhões de pessoas.
Em 1982 o centro de controle de doenças norte-americano começou a colher dados relacionados aos homossexuais, seus nomes e os nomes dos que com eles mantiveram relações sexuais, na tentativa de mapear a doença apenas em um determinado grupo de risco. Durante as entrevistas com os homossexuais, vários declararam ter tido relações sexuais com um mesmo homem, o comissário de bordo franco-canadense Gaetan Dugas. Este homem seria conhecido mais tarde como o paciente zero, teria sido através dele que a doença cruzou o Atlântico. Gaetan Dugas, o paciente zero, acusado pela história de ter trazido o vírus do HIV para os EUA, morreria em 1984.
A doença desconhecida começou a tomar proporções de uma epidemia iminente, atingido ainda em 1982, pessoas tóxico-dependentes, e as primeiras transmissões detectadas em transfusões sanguíneas. 14 países relataram ainda neste ano, casos da doença. Também no Brasil sete casos foram confirmados, todos em São Paulo e em pacientes homo ou bissexuais. Sem ainda ter um nome cientifico, a doença era chamada pela imprensa como GRID (Gay Related Immune Deficiency), ou como “Peste Gay”.
Completamente desconhecida, a doença causou pânico no mundo quando, em 1983, foram relatados casos de infecção em crianças nos EUA, sendo posta a hipótese de que poderia ser transmitida pelo ar e por utensílios domésticos comuns. Diante do alastramento epidemiológico, foi realizada em Denver, EUA, a primeira conferência sobre AIDS, chegando à triste conclusão de que 3000 casos da doença atingiam os americanos, com um total de 1283 mortos. A doença era ainda relatada em 33 países.
A identificação do agente etiológico da AIDS, um retrovírus, só foi feita em 1984, quando dois grupos de cientistas reclamaram para si a descoberta: o grupo do Dr. Luc Montagnier, do Instituto Pasteur de Paris e o grupo do Dr. Robert Gallo, do Instituto de Virulogia Humana da Universidade de Maryland, Estados Unidos. Na França o agente etiológico da AIDS foi reconhecido como LAV, associado a linfadenopatia; nos EUA foi chamado de HTLV-3. Após uma longa disputa entre as comunidades científicas pelos louros da descoberta, chegou-se ao consenso de denominá-lo HIV (em português vírus da imunodeficiência humana).
Já nesta época 7000 norte-americanos tinham a doença, obrigando o governo Reagan a dar maior atenção à epidemia, fazendo com que a secretária de saúde e serviços humanos da época, declarasse que antes de 1990 haveria uma vacina e a cura da AIDS. A esta altura a população homossexual de São Francisco está em grande número infectada, como medida preventiva, todas as saunas gays da cidade, ponto de encontros sexuais, são fechadas. Esta medida estender-se-ia por várias cidades da Europa.

Rock Hudson, o Primeiro Rosto da AIDS

Já identificado, o HIV continuava a ser visto pejorativamente como o “Câncer Gay”. Esta concepção gerou o estigma da doença. Já se identificava que a principal via de transmissão era a sexual. A AIDS revelava-se como uma doença de comportamento, o que trazia para quem a contraía, além do sofrimento físico, a discriminação e a culpa. Para o portador do HIV, desmoronava-se muitas vezes, a imagem de uma vida escondida, camuflada pela pressão social. Esta culpa comportamental atinge até os dias atuais os infectados pelo HIV, causando o isolamento social dos mesmos.
Se a AIDS parecia atingir somente os homossexuais, aos poucos ela foi mostrando-se sem limites de classes, raças ou opções sexuais. Já em 1985, dois outros grupos de pessoas padecem com a epidemia, o dos dependentes químicos e o dos hemofílicos. Já a AIDS há muito fazia parte do mundo e as transfusões de sangue eram feitas sem a menor preocupação com a doença. Os bancos de sangue isolavam apenas os grupos de homossexuais, os únicos apontados como possíveis transmissores do HIV. Só em 1985 chegava ao mercado um teste sorológico de metodologia imunoenzimática para diagnosticar a infecção causada pelo HIV, podendo ser utilizado para triagem nos bancos de sangue. Este teste passou a ser usado em todo o mundo, diminuindo o risco de transmissão do HIV através de transfusões sanguíneas.
É em 1985 que a epidemia toma proporções que comovem e assustam o mundo. A contaminação do astro de Hollywood, Rock Hudson comove o planeta, e a mídia explora a exaustão, o definhar de um grande ídolo. O ator fazia a série “Dinastia”, quando revelou a doença ao mundo. O pânico instalou-se no meio das atrizes que em cena, trocaram beijos apaixonados com ele. A descoberta fez com que os estúdios norte-americanos obrigassem os atores a um teste de HIV para que pudessem fazer cenas mais quentes entre si. A medida causou pânico e discriminação entre a classe artística. Enquanto a polêmica corria o mundo, Rock Hudson definhava a olhos vistos diante dos fãs e do mundo.
Em julho de 1985, os jornais anunciavam a chegada de Rock Hudson à França, para submeter-se a tratamento. Era a primeira vez que uma figura pública conhecida em todo o planeta padecia do flagelo do fim do século. A AIDS deixava de ser uma doença de vítimas anônimas para adquirir um rosto, uma expressão que causaria a comoção de todos. Esta identificação entre a AIDS e a celebridade revela ao mundo a sua homossexualidade, a necessidade de aceitação desta condição pela sociedade, já não é o “gay” anônimo das saunas de São Francisco que está morrendo, mas um homem com uma história e uma dignidade, mais definida pela luta contra a doença. Luta em vão, pois não há cura para tão trágico flagelo. A celebridade de Rock Hudson faz da sua morte anunciada uma causa que toma proporções políticas. Torna-se o primeiro militante anti AIDS apontado pela cronologia histórica da doença.
Pela primeira vez desde que detectada, a AIDS, refletida na figura de Rock Hudson, desperta a atenção além da maldição e do terror, gera-se nas pessoas princípios como a solidariedade e a coragem lúcida para enfrentar o flagelo. Pela primeira vez celebridades de todo o mundo, como Elizabeth Taylor (amiga pessoal do ator), mobilizam-se para apoiar os doentes. Uma militância densa anti AIDS espalha-se pelo mundo, sendo amplamente apoiada e divulgada pela imprensa. Ao mesmo tempo em que a militância solidária expande-se pelo mundo, o medo da doença aumenta. Afinal, se uma celebridade era infectada por uma doença mortal, qualquer pessoa estaria sujeita a ela. A AIDS torna-se uma realidade temida. Já não se pode ignorá-la, ou achar que se está imune não tendo relações homossexuais. A AIDS torna-se uma doença de risco em todas as vertentes das sociedades do planeta.
Os curtos meses de agonia e de luta de Rock Hudson, fez dele uma figura exemplar da luta contra a AIDS. No dia 3 de outubro de 1985, o jornal francês “Libération” anunciava a morte do ator de forma contundente: “Rock Hudson é o primeiro rosto vivo da AIDS (…) existira então a AIDS antes de Rock Hudson e a AIDS depois de Rock Hudson”.

As Primeiras Drogas Anti-Virais

Só em 1986, na segunda conferência internacional da AIDS, em Paris, foi reportada experiências iniciais com a primeira droga antiviral, a azidotimidina (AZT). Neste mesmo ano o FDA (Food and Drug Administration) aprovou o seu uso. Pela primeira vez uma droga revelava um impacto, ainda que discreto, sobre a mortalidade dos infectados pelo HIV.
No mesmo ano a OMS lançou uma estratégia global de combate à AIDS. Seringas e agulhas foram recomendadas que fossem esterilizadas. Também o uso do preservativo passou a ser estimulado entre as pessoas como medidas preventivas. Controles mais rígidos foram impostos aos bancos de sangue. Mesmo assim a epidemia avançava e a morte dos portadores era uma questão de tempo tão logo recebesse o diagnóstico. O AZT era uma luz ínfima dentro de um túnel sombrio e sem fim.
Após a morte de Rock Hudson, várias celebridades abraçaram a causa da militância a favor dos portadores do HIV e contra a discriminação dos mesmos. Em 1987 a princesa Diana abriu o primeiro hospital especializado em tratamento da AIDS na Inglaterra. Durante a inauguração, a princesa não usou luvas quando apertou as mãos de pessoas com AIDS, fato que suscitou comentários de toda a imprensa mundial, ajudando a dissipar as atitudes preconceituosas das pessoas.
Para intensificar mais a militância e o apoio aos portadores do HIV, a OMS instituiu em 1988, o Dia Mundial da Luta Contra AIDS, em 1 de dezembro. A primeira edição do Dia Mundial da AIDS teve como tema: “Junte-se ao esforço mundial”. Neste mesmo ano, os irmãos Henfil e Chico Mário (irmãos de Herbert de Souza, o Betinho), hemofílicos e contaminados pelo HIV, morreriam.
Em 1989 algumas drogas estão disponíveis no mercado, entre elas o DDI. O alto preço do AZT torna-se 20% mais barato. No dia 1 de dezembro o tema do Dia Mundial da AIDS era: “Cuidemos uns dos outros”. A década de 1980 era encerrada tendo a AIDS como o maior flagelo da humanidade, e com um número cada vez maior de infectados pelo planeta. Falar sobre cura era uma utopia distante a anos-luz.

Uma Luz Sobre o Tratamento

A década de 1990 começou com a morte de grandes celebridades, como o cantor e compositor brasileiro Cazuza, o cantor britânico Freddie Mercury e o bailarino soviético Rudolf Nureyev. O mundo parece incapaz diante do flagelo. Programas de trocas de seringas nas farmácias pelos dependentes químicos como meios de prevenção são criticados, causando polêmicas, assim como a distribuição de preservativos pelas escolas e locais públicos. A epidemia é uma realidade, assim como os costumes morais vigentes. Era preciso que se conscientizasse que a AIDS era a própria contestação dos costumes, e para combatê-la era preciso que se modificasse hábitos e preconceitos seculares.
Enquanto a luta contra os costumes e os preconceitos, como a resistência do uso dos preservativos pelos homens e pela igreja, está acirrada, também a luta nos laboratórios é tenaz, mas lenta diante das mortes causadas pela AIDS. Em 1991 um outro antiretroviral, o DDC, é autorizado para pacientes intolerantes ao AZT. Mesmo diante de novas drogas, constatava-se que a eficácia do tratamento era limitada, criando a resistência do vírus com o passar do tempo. Só em 1992 começa a ser usado a combinação de duas drogas (AZT e DDC), com relativo sucesso. Em 1994 é que se passou a estudar um novo grupo de drogas, os inibidores da protease, que demonstraram um potente efeito contra a infecção quando associados com drogas do grupo inibidor da transcriptase reversa (AZT). Esta associação passou a ser chamada de “coquetel”. Mas esta descoberta não chegou cedo aos pacientes, devido aos custos elevados do tratamento. Além disso, para que se formasse a combinação ideal para obter resultados eficazes, um grande número de comprimidos tinha que ser ingeridos pelos infectados, o que dificultava imensamente o tratamento e a tolerância dos mesmos.
Os inibidores da protease só foram aprovados pela primeira vez pelo FDA em 1995. A esta altura a AIDS era a principal causa de morte entre americanos com idade entre 25 e 44 anos. A epidemia atingira, desde o início da infecção, 400 mil pessoas nos EUA, com 250 mil mortes.
A luz sobre o tratamento dos infectados pela AIDS chegou finalmente, em 1996, quando um grande número de drogas foi aprovado pelo FDA, fazendo que diminuísse o preço, facilitando os governos dos países a assumirem os custos do tratamento de cada infectado. Neste ano, na conferência internacional da AIDS, ocorrida em Vancouver, foi anunciada que a combinação de três drogas tinha efeitos mais eficazes do que a terapia dual. Estava lançado o tratamento que aumentaria a sobrevida dos infectados, melhorando a sua qualidade de vida e terminando com a sentença de morte que o diagnóstico da AIDS trazia para quem contraía o vírus.
No fim da década de 1990, a AIDS adquiria uma outra face, o rosto de uma doença que já não se mostrava fulminantemente mortal. Passou a ser vista como uma doença crônica, que poderia ser tratada por muitos anos. Foi nesta década, em 1994, que se criou o UNAIDS, integrado por cinco agências de cooperação de membros da Organização das Nações Unidas (Unesco, Unicef, OMS, UNDP e UNFPA), além do Banco Mundial, com o objetivo de defender e garantir uma ação global para prevenção da AIDS.

A Negação do HIV Como o Causador da AIDS

A epidemia chegou a ser negada por um grupo de cientistas, que afirmou em suas teorias que o HIV não era a causa da AIDS. Para os autores da hipótese, a AIDS não seria causada pelo HIV, e sim pela poluição, pela fome, pelas drogas e pela vida destrutiva do indivíduo. Alguns chegavam a afirmar que as drogas descobertas na terapêutica da doença eram ineficazes, outros que elas desenvolviam a doença.
Estas hipóteses nasceram com Peter Duesberg, em 1984, e alcançou grandes adeptos até a década de 1990, quando David Ho desenvolveu medicamentos potentes que destruíram 99% do vírus, proporcionando aos infectados uma vida quase normal.
Ainda hoje a teoria de que o HIV não causa a AIDS persiste como uma fagulha especulativa dentro do mundo científico. Recentemente, Robert Gallo, um dos descobridores históricos do HIV, alimentou na Austrália a polêmica, ao declarar que os seus estudos não comprovavam que o HIV causava a AIDS. Esta declaração contribuiu ainda mais para que Gallo fosse visto como um grande oportunista da ciência, sendo desacreditado pelo meio acadêmico.
A negação do HIV foi politicamente aproveitada por vários líderes políticos de países africanos, que usavam da teoria para não gastar com medicamentos para o povo infectado. Esta atitude causou uma grande catástrofe na África do Sul. O ex-presidente Thabo Mbeki por anos assumiu a teoria, tentando desacreditar a AIDS em seu país, minimizando o problema, como se ele não existisse, chegando a duvidar da relação entre o HIV e a AIDS. Com isto, o seu ministério da saúde recomendou ao povo sul-africano que incluísse alho e limão na alimentação para combater a doença, espalhando que os remédios de tratamento eram uma farsa. O resultado desta omissão pôs a África do Sul no topo das estatísticas, com 5,5 milhões de infectados, sendo hoje o país com o maior número absoluto de casos no mundo.

Em Memória dos que Foram Disseminados pela AIDS

Na primeira década do terceiro milênio a AIDS tornou-se uma doença silenciosa. Não se vê os infectados sucumbirem como foi visto no auge do flagelo. O controle da doença garante aos infectados um anonimato, algo impossível no início da descoberta da doença, que chegava fulminante, deixando exposta a vida e a saúde de quem padecia deste mal.
Os portadores sofrem com um tratamento difícil, repleto de efeitos colaterais, como a distribuição de peso corporal, transformando o corpo e o rosto dos portadores completamente, muitas vezes destruindo-lhes a auto-estima. Não há mais grupos de riscos, a AIDS afeta homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, homossexuais, heterossexuais. Continua a ser uma doença de comportamento, onde o uso da camisinha é o método mais eficaz de combate. Verifica-se um aumento da infecção em pessoas com mais de cinqüenta anos, que motivados por tratamentos com drogas contra a impotência, passaram a ter novamente uma vida sexual ativa, mas se esqueceram da prevenção, algo que não lhes é tão familiar quanto aos jovens.
Sem cura, a AIDS está longe de ser uma epidemia controlada, tão pouco extinta. 33 milhões de pessoas estão infectadas no mundo. A crise financeira pela qual passa os países, ameaça que os governos continuem a gastar tanto com o tratamento da doença. A AIDS continua a ser uma grande sombra camuflada no âmago da humanidade. Basta um sopro para que ela volte a devorar vidas com a mesma voracidade que se assistiu por mais de uma década.
No Dia Mundial da Aids, em 2008, um imenso laço vermelho, símbolo da luta contra a doença, foi erguido em frente à Casa Branca, em Washington, numa clara demonstração de respeito e empenho em seu combate pelo governo norte-americano, um grande contraste com a época do governo Ronald Reagan, que fechou os olhos à doença, discriminando-a como um “câncer gay”, condenando assim, milhões de vidas. É neste dia que o mundo inteiro reúne-se em uma militância benéfica através do planeta. Nestes momentos de luta, nomes ainda rondam as nossas memórias, nomes de vítimas deste grande flagelo, que de uma forma ou de outra, devem sempre ecoar na lembrança de todos nós: Rock Hudson, Rudolf Nureyev, Cazuza, Freddie Mercury, Brad Davis, Sandra Bréa, Thales Pan Chacon, Mário Viegas, Carlos Augusto Strazzer, Anthony Perkins, Cláudia Magno, Lauro Corona, Zacarias, Antonio Variações, Renato Russo, Herbert de Souza (o Betinho), Henfil… ou o nome de um amigo ou parente próximo.


DEZEMBRO

Dezembro 1, 2008
Dezembro é o décimo segundo e último mês do ano do Calendário Gregoriano, possuindo 31 dias. Tem a característica de ser um mês que se inicia no mesmo dia da semana que Setembro.
Dezembro tem o seu nome derivado do latim Decem (significa dez), no antigo Calendário Romano Dezembro era o décimo mês do ano, que se iniciava em Março. Com a reforma do Calendário Juliano, Janeiro passou a ser o primeiro mês do ano. Originalmente Dezembro tinha 30 dias, com a transformação do mês de Sextilis em Agosto e este passar a ter 31 dias, Outubro e Dezembro mudaram a disposição que alternavam os dias dos meses, passando ambos a ter 31 dias.
Em Dezembro acontece o segundo e último solstício do ano. Aproximadamente no dia 21, o Sol atinge o ponto mais ao sul em sua trajetória pelo céu, formando o menor dia do ano no hemisfério boreal e o mais longo no hemisfério austral. É o marco do Solstício de Inverno no hemisfério norte e do Solstício de Verão no hemisfério sul.
No mês de Dezembro é comemorado na maioria dos países cristãos, o nascimento de Cristo, uma das datas mais importantes do cristianismo.
Dezembro inicia-se astrologicamente com o Sol no signo de Sagitário e termina no signo de Capricórnio. Astronomicamente, o Sol inicia-se na constelação de Escorpião e termina na constelação de Sagitário.

Dezembros na História do Mundo

01 de Dezembro
1640 – Iniciada em Portugal a revolta que culminaria com o fim da união com a Espanha, restaurando a independência de Portugal, levando ao poder a família de Bragança (na imagem A Aclamação de Dom João IV, de Veloso Salgado).
1909 – Fundado na Palestina, o primeiro kibutz, com o nome de Deganya Alef.
1918 – Aprovado pelo parlamento da Dinamarca, o decreto que proclamava a independência da Islândia.

02 de Dezembro
1804 – Napoleão Bonaparte é coroado na catedral de Notre Dame, em Paris, tornando-se o primeiro imperador da França.
1918 – A Armênia torna-se independente do Império Otomano.
1971 – Seis emirados árabes da costa oriental da península Arábica, unem-se formando os Emirados Árabes Unidos, sendo eles: Dubai, Abu Dhabi, Sharjah, Ajman, Umm al Qaiwain e Fujairah. Posteriormente, em 1972, uma sétima monarquia árabe, Ras al-Khaimah adere ao Emirado.

03 de Dezembro
1910 – O porto de Agadir, no Marrocos, é ocupado pela França.
1967 – Realizado, na cidade do Cabo, África do Sul, pelo médico Christian Barnard, o primeiro transplante de coração humano, feito em Louis Washkansky, que sobreviveu por 18 dias.
1996 – Sonda espacial encontra gelo na Lua.

04 de Dezembro
1829 – A Grã-Bretanha proíbe a prática do suttee, na Índia, ato que consistia em incinerar vivas as mulheres indianas viúvas, na pira funerária do marido.
1918 – Proclamação do reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que formariam, futuramente, a Iugoslávia.
1980 – Morre Francisco Sá Carneiro, primeiro ministro de Portugal, em um acidente aéreo em Lisboa.

05 de Dezembro
1792 – Julgamento do rei da França, Luís XVI.
1933 – Após 13 anos em vigor, é abolida a lei seca nos Estados Unidos, que proibia a venda e o consumo de bebidas alcoólicas.
1946 – Nova York é a cidade eleita como sede permanente da Organização das Nações Unidas (ONU).

6 de Dezembro
1185 – Morre em Coimbra, dom Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.
1917 – A Finlândia declara-se independente da Rússia.
1921 – Surge o Estado independente da Irlanda, formado pelo sul da ilha, de maioria católica. O Ulster, no norte da ilha, de maioria protestante, permanece vinculado ao Reino Unido da Grã-Bretanha.

07 de Dezembro
1941 – A base naval norte-americana de Pearl Harbour, no Havaí, é atacada pelo Japão, obrigando os Estados Unidos a entrar na Segunda Guerra Mundial (na fotografia, momento do ataque).
1975 – Invadido, pela Indonésia, o leste de Timor, então colônia de Portugal.
1988 – O líder palestino Yasser Arafat admite, pela primeira vez, a existência do Estado judaico de Israel.

08 de Dezembro
1925 – Publicado na Alemanha, o livro “Mein Kampf” (“Minha Luta”), de Adolf Hitler.
1980 – Morre assassinado em Nova York, o músico, cantor e compositor John Lennon.
1991 – A União Soviética é dissolvida oficialmente. Doze países membros fundam a Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

09 de Dezembro
1905 – Decretada na França, a separação entre a igreja e o Estado.
1990 – O sindicalista e político polonês, Lech Walesa, é eleito presidente da Polônia.
1992 – Anunciada oficialmente, pelo primeiro ministro britânico, John Major, a separação do príncipe Charles da sua mulher, a princesa Diana.

10 de Dezembro
1896 – Morre o industrial sueco Alfred Nobel, deixando a fortuna em testamento, para premiar pessoas que contribuíssem para o bem da humanidade, criando assim, o Prêmio Nobel.
1901 – Entregues pelo rei da Suécia, os primeiros prêmios Nobel.
1948 – Proclamada pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

11 de Dezembro
1936 – Abdicação do rei Eduardo VIII, da Inglaterra, deixando o trono para casar-se com Wallis Simpson, uma norte-americana divorciada.
1946 – Fundada, pela ONU, a UNICEF, entidade voltada para o atendimento às necessidades básicas das crianças no mundo.
1993 – Eduardo Frei vence as eleições no Chile.

12 de Dezembro
1112 – Morre o príncipe cruzado Tancredo da Galileia.
1963 – Proclamadas a independência e República do Quênia.
1992 – Transportados para a Ilha Negra, Chile, os restos mortais do poeta Pablo Neruda e da sua companheira Matilde Urrutia.

13 de Dezembro
1521 – Morre, tombado pela peste, dom Manuel I, rei de Portugal.
1642 – Descoberta a Nova Zelândia, pelo navegador holandês Abel Tasman.
1959 – O arcebispo Makarios é eleito presidente de Chipre.

14 de Dezembro
1799 – Morre George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
1911 – Roald Amundsen, explorador norueguês, é o primeiro homem a atingir o Pólo Sul (na fotografia, Roald Amundsen e cães no Pólo Sul).
1918 – Assassinado em Lisboa, o político Sidónio Pais.

15 de Dezembro
1939 – Estréia de um dos maiores clássicos do cinema, o filme “… E o Vento Levou”, produção de David Selznick, com Clark Gable e Vivien Leigh.
1961 – Adolf Eichmann, líder nazista responsável pela deportação de judeus para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, é condenado à morte, por um tribunal erguido em Israel.
1995 – Denominada de Euro a unidade de conta européia, futura moeda da União Européia.

16 de Dezembro
1631 – Erupção do vulcão Vesúvio, no sul da Itália, destruindo cinco cidades e matando mais de 3 mil pessoas.
1916 – Assassinado em Petrogrado, atual São Petersburgo, o monge Rasputin.
1969 – Abolida, pelo Parlamento britânico, a pena de morte.

17 de Dezembro
1538 – Excomungado Henrique VIII, da Inglaterra, pelo papa Paulo III, após o soberano inglês declarar-se chefe da igreja Anglicana.
1571 – Iniciado em Salamanca, Espanha, o processo inquisitorial contra o frei Luís de Leon.
1996 – Invadida, em Lima, Peru, a embaixada do Japão, pelo Movimento Revolucionário Tupac Amaru.

18 de Dezembro
1644 – Início do reinado da rainha Cristina da Suécia.
1916 – Fim da Batalha de Verdun, uma das mais sangrentas da Primeira Guerra Mundial, responsável pela morte de quase um milhão de combatentes de ambos os lados.
1956 – O Japão é aceito como membro da Organização das Nações Unidas.

19 de Dezembro
1991 – No ano em que a União Soviética foi extinta, Boris Yeltsin assume o controle do Kremlin.
1996 – Morre o ator italiano Marcello Mastroianni.
1999 – Macau é devolvida para a China, pelo governo português.

20 de Dezembro
1694 – Frederico de Brandeburgo reconquista Schfibus para o Sacro Império Romano.
1976 – O primeiro ministro de Israel, Yitzhak Rabin, renuncia ao cargo.
2001 – Grande crise econômica e política na Argentina levam à renuncia o presidente Fernando de La Rua e o seu ministro da Economia, Domingo Cavallo.

21 de Dezembro
1846 – Robert Liston utiliza em Londres, pela primeira vez, o uso da anestesia em uma cirurgia.
1898 – Descoberto o elemento rádio pelos cientistas Pierre e Marie Curie.
1988 – Atentado terrorista da organização “Guardiões Islâmicos” provoca a queda de um Boeing 747 da Pan Am, que cai em Lockerbie, na Escócia, matando 258 passageiros e 17 habitantes do local (na fotografia, destroços do avião).

22 de Dezembro
69 – Assassinado o imperador romano Vitelius.
1981 – O general Leopoldo Galtieri torna-se presidente da Argentina, após uma junta militar ter deposto o presidente Viola.
1989 – Revolta popular na Romênia derruba o governo comunista do ditador Nicolau Ceausescu.

23 de Dezembro
1667 – O padre Antonio Vieira é condenado pela Inquisição à reclusão e ao silêncio.
1888 – Movido por uma forte depressão, o pintor holandês Vincent Van Gogh corta parte da sua orelha esquerda.
1972 – Um grande terremoto atinge Manágua, capital da Nicarágua, causando a morte de cerca de 7 mil pessoas.

24 de Dezembro
1779 – Dona Maria I, rainha de Portugal, cria a Academia Real das Ciências de Lisboa.
1865 – Fundada no Tennessee, Estados Unidos, a Klu Klux Klan, organização secreta que promovia o terrorismo contra as minorias raciais, em especial, aos negros.
1866 – O ducado de Schleswig-Holstein é incorporado à Prússia.

25 de Dezembro
336 – Celebrado em Roma, pela primeira vez, o Natal no dia 25 de dezembro.
800 – Carlos Magno é coroado como imperador pelo papa Leão III.
1977 – Morre em sua casa, na Suíça, o diretor e ator Charles Chaplin.

26 de Dezembro
1941 – Os Estados Unidos declaram Manila, nas Filipinas, como cidade aberta durante a Segunda Guerra Mundial.
1974 – A União Soviética lança no espaço a estação espacial “Salyut 4”.
1985 – O Mali e o Burkina Faso travam entre si, violentos combates por causa de uma disputa fronteiriça.

27 de Dezembro
1927 – Leon Trotski é expulso do Partido Comunista da União Soviética, dando passagem para que Stalin se torne o líder absoluto do país.
1945 – É criado o Fundo Monetário Internacional (FMI), na Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos.
1979 – Tropas da União Soviética invadem o Afeganistão.

28 de Dezembro
1895 – Realizada no subterrâneo do Grand Café, em Paris, a primeira projeção pública de cinema, feita pelos irmãos Lumiére (foto).
1937 – Estabelecida a primeira Constituição da República da Irlanda.
1940 – Os alemães lançam milhares de bombas sobre Londres, destruindo prédios importantes da cidade.

29 de Dezembro
1170 – Thomas Becket, arcebispo de Canterbury, é assassinado na Inglaterra, por ordem do rei Henrique II.
1949 – Após nacionalizar as suas industrias, a Hungria passa a viver sob um regime comunista.
1997 – Rebeldes integralistas muçulmanos matam 42 pessoas em províncias da Argélia.

30 de Dezembro
1803 – Os Estados Unidos tomam posse do território da Louisiana, comprado dos franceses.
1922 – Em Moscou, o Congresso dos Soviets aprovam a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
2006 – Executado por enforcamento, o ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein.

31 de Dezembro
1857 – Ottowa é eleita como capital do Canadá, pela rainha Vitória.
1978 – Morre em combate, Nicolau dos Santos Lobato, presidente da Frente de Libertação de Timor-Leste (Fretilim).
1999 – O canal do Panamá deixa de ser domínio norte-americano, passando a ser do Panamá.

Dezembros na História do Brasil

01 de Dezembro
1822 – Sagração e coroação de dom Pedro I, no Rio de Janeiro.
1822 – Criada por dom Pedro I, a Imperial Ordem do Cruzeiro, primeira e mais importante condecoração do Brasil (na fotografia, medalhas de condecoração da Ordem Imperial do Cruzeiro).
1903 – Lançamento da obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, retratando a Guerra de Canudos.

02 de Dezembro
1825 – Nasce no Rio de Janeiro, dom Pedro de Alcântara, futuro dom Pedro II.
1833 – O ator João Caetano inicia a sua carreira em Niterói, Rio de Janeiro.

03 de Dezembro
1530 – Parte de Lisboa, Portugal, a frota de Martim Afonso de Sousa, com o objetivo de iniciar a colonização efetiva do Brasil.
1811 – O príncipe regente, dom João, abre aos estudiosos a Real Biblioteca, antes privativa da Corte.

04 de Dezembro
1532 – Morre em Portugal o frei Henrique Soares de Coimbra, que celebrou a primeira missa no Brasil, em 1500.
1810 – Criada, por carta de lei de dom João VI, a Academia Real Militar na Corte e Cidade do Rio de Janeiro, atual Academia Militar das Agulhas Negras.

05 de Dezembro
1697 – Destruído, por expedição de Domingos Jorge Velho, o Quilombo dos Palmares, reduto de resistência à escravidão por 64 anos, situado na Serra da Barriga, região do atual Estado de Alagoas.
1891 – Morre em Paris, num quarto do Hotel Bedford, o ex-imperador dom Pedro II.
1932 – Getúlio Vargas restabelece a Ordem do Cruzeiro, extinta com a República, agora Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul.

06 de Dezembro
1741 – Basílio da Gama, autor do poema épico O Uruguai, é batizado na capitania de Minas Gerais.
1868 – O exército brasileiro vence a Batalha de Itororó, um dos enfrentamentos decisivos da Guerra do Paraguai.

07 de Dezembro
1843 – Nasce no Rio de Janeiro, Marc Ferrez, fotógrafo e pioneiro da exibição de filmes no Brasil.
1866 – Império autoriza a navegação mercantil estrangeira na bacia do Amazonas.

08 de Dezembro
1872 – O Elevador Lacerda (foto) é inaugurado em Salvador.
1994 – Morre nos Estados Unidos, o maestro soberano Antônio Carlos Jobim, um dos maiores nomes da MPB.

09 de Dezembro
1839 – Resolução nº 11 do governo de Alagoas, eleva à condição de cidade a Vila de Maceió, sede da província.
1965 – Tiradentes é declarado pelo regime militar o patrono do Brasil.

10 de Dezembro
1570 – A Coroa portuguesa regulamenta a força militar no Brasil, através do regimento dos capitães-mores.
1825 – Brasil declara guerra às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina) pela posse da Província Cisplatina (atual Uruguai).

11 de Dezembro
1857 – Nasce no Rio de Janeiro, Rodolfo Amoedo, um dos responsáveis pela renovação do ensino de arte no Brasil, autor de belíssimas telas, como Amuada, de 1882.
1868 – Sob o comando do general Osório, os brasileiros vencem os paraguaios no confronto conhecido como Batalha do Avaí (na foto, quadro Batalha do Avaí, de Pedro Américo).

Dia 12 de Dezembro
1605 – Feito em Lisboa o Regimento do Pau-Brasil, que regulamenta o corte dessa espécie de árvore e a protege das queimadas.
1897 – A capital de Minas Gerais é transferida de Ouro Preto para Belo Horizonte.
1968 – O governo militar pede licença à Câmara para processar o deputado Márcio Moreira Alves, tendo o pedido negado por 216 a 141 votos.

13 de Dezembro
1519 – Fernão de Magalhães chega à atual baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, chamada por ele de Santa Luzia.
1968 – Editado o Ato Institucional nº 5, que restringirá por dez anos as liberdades individuais e os direitos políticos dos brasileiros.

14 de Dezembro
1775 – Nasce em Lanarkshire, Escócia, Thomas Cochrane, o lorde Cochrane, primeiro almirante da marinha brasileira.
1833 – José Bonifácio é destituído do cargo de tutor de dom Pedro II.

15 de Dezembro
1944 – Nasce em Xapuri, Acre, Francisco Alves Mendes Filho, o líder seringueiro Chico Mendes.
1967 – Regime militar institui o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), para alfabetizar adultos.

16 de Dezembro
1500 – Morre em Calicute, Índia, Pero Vaz de Caminha, autor do primeiro documento descritivo sobre o Brasil.
1815 – Príncipe regente dom João eleva o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarve.

17 de Dezembro
1548 – O rei dom João III de Portugal, cria o governo geral do Brasil, com sede em Salvador, Bahia.
1915 – Destruição da Cidade Santa de São Pedro, em Santa Catarina, selando o fim da Guerra do Contestado.

18 de Dezembro
1711 – Fundado por iniciativa de Alexandre de Gusmão, ministro do rei de Portugal dom João V, o Seminário de Belém, primeiro internato de ensino secundário no Brasil.
1833 – Morre em Salvador João das Botas, o “marinheiro da Independência”, importante figura nas lutas de emancipação da Bahia.

19 de Dezembro
1983 – Roubada na sede da CBF, no Rio de Janeiro, a Taça Jules Rimet, conquistada pela seleção brasileira de futebol em 1970.
1990 – Morre o cronista Rubem Braga, no Rio de Janeiro.

20 de Dezembro
1627 – Frei Vicente do Salvador termina a sua História do Brasil, primeiro livro com este nome e escrito por um natural da terra.
1633 – Nasce em Salvador, o poeta satírico Gregório de Matos, conhecido como “Boca do Inferno”.

21 de Dezembro
1889 – O governo provisório da República recém-proclamada bane do território nacional o imperador deposto, dom Pedro de Alcântara, e sua família, que já haviam partido para a Europa.
1980 – Morre o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro.

22 de Dezembro
1978 – O Diário de Pernambuco divulga lista com o nome de 78 torturadores.
1988 – Assassinado Chico Mendes, no quintal da sua casa em Xapuri.

23 de Dezembro
1667 – Sentença da Santa Inquisição condena o padre Antônio Vieira à reclusão e ao silêncio.
1907 – Em São Paulo, Anita Tibiriçá é a primeira mulher brasileira a receber habilitação de motorista.

24 de Dezembro
1951 – Salário mínimo tem aumento de 215%, após oito anos de congelamento.
1999 – Morre no Rio de Janeiro, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente da ditadura militar (1979 -1985).

25 de Dezembro
1591 – Soldados do corsário inglês Thomas Cavendish desembarcam em Santos, permanecendo ali por dois meses, saqueando e incendiando o local antes de partirem.
1599 – Instalada no Rio Grande do Norte, a vila de Natal.

26 de Dezembro
1812 – Nasce em São Paulo de Luanda, Angola, Eusébio Matoso Câmara, responsável pela lei que proíbe o tráfico de escravos para o Brasil.
1924 – 250 presos políticos partem em navio para a colônia penal de Clevelândia, no extremo norte do país. Quase metade morre antes de chegar ao destino.

27 de Dezembro
1797 – Nasce na cidade de São Paulo, Domitila de Castro Canto e Melo, futura marquesa de Santos e amante favorita de dom Pedro I (na foto em um óleo de F. P. do Amaral).
1969 – Morre em Roma, o jesuíta Serafim Leite, autor dos dez volumes de História da Companhia de Jesus no Brasil.

28 de Dezembro
1889 – Morre em Portugal dona Teresa Cristina, imperatriz deposta do Brasil.
1921 – O Decreto nº 4.419 determina o traslado para o Brasil do corpo de dona Isabel de Orleans e Bragança, a princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 1888.

29 de Dezembro
1917 – Lei estadual de São Paulo proíbe trabalho de menores de 12 anos.
1992 – Fernando Collor de Melo, a enfrentar um processo de impeachment, renuncia à Presidência da República.

30 de Dezembro
1899 – Nasce em Natal, Rio Grande do Norte, o folclorista e etnólogo Luís da Câmara Cascudo.
1930 – Gravado o samba Com que Roupa, de Noel Rosa.

31 de Dezembro
1896 – Inaugurado o Teatro Amazonas, em Manaus.
1964 – O regime militar cria o Banco Central do Brasil.

Nascidos em Dezembro

01 de Dezembro
Anselmo Vasconcelos, ator brasileiro
Bette Midler, atriz e cantora norte-americana
Mary Martin, atriz norte-americana
Richard Pryor, ator norte-americano
Walcyr Carrasco, escritor e novelista brasileiro
Woody Allen, ator e diretor norte-americano

02 de Dezembro
Anita Malfatti, pintora brasileira
Gianni Versace, estilista italiano
Gustavo Borges, atleta da natação brasileiro
Maria Callas, cantora lírica norte-americana
Pedro II do Brasil, último imperador brasileiro
Stepan Nercessian, ator brasileiro

03 de Dezembro
Antonio Variações, cantor e compositor português
Brendan Fraser, ator norte-americano
Daryl Hannah, atriz norte-americana
Jean-Luc Godard, cineasta francês
Joseph Conrad, escritor polaco-britânico
Julianne Moore, atriz norte-americana
Roberto Marinho, jornalista e empresário brasileiro

04 de Dezembro
Francisco Franco, chefe de Estado e ditador espanhol
Jeff Bridges, ator norte-americano
Luma de Oliveira, atriz e modelo brasileira
Marisa Tomei, atriz norte-americana
Wassily Kandinsky, pintor russo

05 de Dezembro
Ângela Rô Rô, cantora e compositora brasileira
Carlos Marighela, político e líder guerrilheiro brasileiro
Danielle Winits, atriz brasileira
Egberto Gismonti, compositor e músico brasileiro
Fritz Lang, cineasta austríaco
José Carreras, cantor lírico espanhol
Otto Preminger, cineasta austríaco
Tozé Martinho, ator e roteirista português
Walt Disney, cineasta e produtor de desenhos animados norte-americano

06 de Dezembro
Agnes Moorehead, atriz norte-americana
Antonio Calloni, ator brasileiro
Emílio Santiago, cantor brasileiro
Tom Hulce, ator norte-americano

07 de Dezembro
Eli Wallach, ator norte-americano
Ellen Burstyn, atriz norte-americana
Giovanni Bernini, arquiteto e escultor italiano
Marc Ferrez, fotógrafo brasileiro
Mário Soares, político e estadista português
Rosemary, cantora brasileira
Tom Waits, compositor, cantor, músico e ator norte-americano
Xuxa Lopes, atriz brasileira

08 de Dezembro
Ângela Leal, atriz brasileira
Camille Claudel, escultora francesa
David Carradine, ator norte-americano
Diego Rivera, pintor norte-americano
Florbela Espanca, poetisa portuguesa
Kim Basinger, atriz norte-americana
Lee J. Cobb, ator norte-americano
Maximilian Schell, ator austríaco
Richard Fleischer, cineasta norte-americano
Sammy Davis Jr, ator e cantor norte-americano

09 de Dezembro
Douglas Fairbanks Jr, ator norte-americano
John Cassavetes (foto), ator e cineasta norte-americano
John Malcovich, ator norte-americano
John Milton, escritor britânico
Kirk Douglas (foto), ator norte-americano
Milton Gonçalves, ator e diretor brasileiro

10 de Dezembro
Cássia Eller, cantora brasileira
Clarice Lispector, escritora brasileira nascida na Ucrânia
Dorothy Lamour, atriz norte-americana
Emily Dickinson, poetisa norte-americana
Kenneth Branagh, ator e diretor britânico
Susan Dey, atriz norte-americana
Wilson Grey, ator brasileiro

11 de Dezembro
Carlo Ponti, produtor de filmes italiano
Carlos Gardel, cantor de tango argentino nascido na França
Elizângela, atriz brasileira
Ewerton de Castro, ator brasileiro
Manoel de Oliveira, cineasta português
Noel Rosa, compositor brasileiro
Rita Moreno, atriz e cantora porto-riquenha
Teri Garr, atriz norte-americana
Tuca Andrada, ator brasileiro

12 de Dezembro
Arnaldo Jabor, crítico, escritor e cineasta brasileiro
Connie Francis, cantora norte-americana
Dionne Warwick, cantora norte-americana
Edward G. Robinson, ator norte-americano
Emerson Fittipaldi, corredor automobilístico brasileiro
Frank Sinatra, cantor e ator norte-americano
Guel Arraes, diretor brasileiro
Gustave Flaubert, escritor francês
Jorge Dória, ator brasileiro
Kátia D’Ângelo, atriz brasileira
Silvio Santos, empresário e apresentador de Tv brasileiro

13 de Dezembro
Christopher Plummer, ator canadense
Curd Jürgens, ator alemão
Dick Van Dyke, ator norte-americano
Luiz Gonzaga, cantor e compositor brasileiro
Van Heflin, ator norte-americano

14 de Dezembro
Eva Wilma, atriz brasileira
Jane Birkin, atriz e cantora britânica
Lee Remick (foto), atriz norte-americana
Nostradamus, apotecário e astrólogo francês

15 de Dezembro
Adriana Esteves, atriz brasileira
Chico Mendes, líder seringueiro, ambientalista e político brasileiro
Cristiana Oliveira, atriz brasileira
Don Johnson, ator norte-americano
Gustave Eiffel, engenheiro e arquiteto francês
Jeff Chandler, ator norte-americano
Miguel Arraes, político brasileiro
Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro

16 de Dezembro
Arthur C. Clark escritor e inventor britânico
Jane Austen, escritora inglesa
Liv Ullmann, atriz norueguesa nascida no Japão
Luciana Braga, atriz brasileira
Ludwig van Beethoven, compositor erudito alemão
Olavo Bilac, poeta brasileiro

17 de Dezembro
Bill Pullman, ator norte-americano
Érico Veríssimo, escritor brasileiro
Milla Jovovich, atriz e modelo ucraniana

18 de Dezembro
Betty Grable, atriz, cantora e dançarina norte-americana
Brad Pitt, ator norte-americano
Ray Liotta, ator norte-americano
Steven Spielberg, cineasta norte-americano

19 de Dezembro
Edith Piaf, cantora francesa
Jake Gyllenhaal, ator norte-americano
Robert Urich, ator norte-americano

20 de Dezembro
Gigliola Cinquetti, cantora italiana
Irene Dunne, atriz norte-americana
Silvio de Abreu, novelista brasileiro
Uri Geller, místico e ilusionista israelita

21 de Dezembro
Altamiro Carrilho, músico, compositor e flautista brasileiro
Carlos do Carmo, cantor fadista português
Jane Fonda (foto), atriz norte-americana
Joseph Stalin, líder soviético nascido na Geórgia
Kiefer Sutherland, ator inglês
Norma Geraldy, atriz brasileira
Samuel L. Jackson, ator norte-americano

22 de Dezembro
Aline Moraes, atriz brasileira
Eri Johnson, ator brasileiro
Gerson Brener, ator brasileiro
Giacomo Puccini, compositor de óperas italiano
Jean-Michel Basquiat, artista plástico norte-americano
Jean Racine, dramaturgo francês
João Signorelli, ator brasileiro
Ralph Fiennes, ator britânico
Ricardo Waddington, diretor de televisão brasileiro
Tato Gabus Mendes, ator brasileiro

23 de Dezembro
Cláudia Raia, atriz brasileira
Dino Risi, cineasta italiano
Giba, jogador de vôlei brasileiro
Sissi, princesa da Áustria nascida na Alemanha

24 de Dezembro
Ava Gardner (foto), atriz norte-americana
Cláudio Cavalcanti, ator brasileiro
Howard Hughes, aviador, produto e diretor de cinema norte-americano
Mafalda Veiga, cantora e compositora portuguesa
Ricky Martin, cantor porto-riquenho

25 de Dezembro
Anwar Sadat, político egípcio
Humphrey Bogart (foto), ator norte-americano
Isaac Newton, cientista britânico
Simone, cantora brasileira
Sissy Spacek, atriz norte-americana

26 de Dezembro
Henry Miller, escritor brasileiro
Mao Tse-tung, líder político chinês
Richard Widmark, ator norte-americano

27 de Dezembro
Domitília de Castro e Canto Melo (Marquesa de Santos), personagem histórica brasileira
Gerard Depardieu, ator francês
Louis Pasteur, cientista francês
Marlene Dietrich (foto), atriz alemã

28 de Dezembro
Denzel Washington, ator norte-americano
Giulia Gam, atriz ítalo-brasileira
Irineu Evangelista de Sousa (Visconde de Mauá), industrial, banqueiro e político brasileiro
Leonardo Vieira, ator brasileiro
Maggie Smith, atriz britânica
Mariana Rey Monteiro, atriz portuguesa

29 de Dezembro
Alves Redol, escritor português
Canarinho, ator e humorista brasileiro
Cândido Portinari, pintor brasileiro
Jon Voight, ator norte-americano
Jude Law (foto), ator inglês
Mary Tyler Moore, atriz norte-americana
Ted Danson, ator norte-americano

30 de Dezembro
Jack Lord, ator norte-americano
Luís da Câmara Cascudo, jornalista, folclorista e antropólogo brasileiro
Selton Mello, ator brasileiro

31 de Dezembro
Anthony Hopkins, ator britânico
Ben Kingsley, ator britânico
Donna Summer, cantora norte-americana
Henri Matisse, pintor francês
Luciano Szafir, ator brasileiro
Pedro Cardoso, ator brasileiro
Rita Lee, cantora e compositora brasileira
Val Kilmer, ator norte-americano

Datas Comemorativas

01 de Dezembro – Dia Internacional da Luta Contra a AIDS
01 de Dezembro – Dia da Restauração da Independência Portuguesa
01 de Dezembro – Dia do Imigrante
01 de Dezembro – Dia do Numismata
02 de Dezembro – Dia Nacional do Samba
02 de Dezembro – Dia da Astronomia
02 de Dezembro – Dia Pan-Americano da Saúde
02 de Dezembro – Dia Nacional das Relações Públicas
03 de Dezembro – Dia Internacional do Portador de Deficiência
04 de Dezembro – Dia da Propaganda
04 de Dezembro – Dia do Pedicuro
04 de Dezembro – Dia do Orientador Educacional
05 de Dezembro – Dia da Bíblia
07 de Dezembro – Dia do Ataque a Pearl Harbor (EUA)
08 de Dezembro – Dia da Imaculada Conceição
08 de Dezembro – Dia da Família
08 de Dezembro – Dia da Justiça
09 de Dezembro – Dia da Criança Defeituosa
09 de Dezembro – Dia do Fonoaudiólogo
09 de Dezembro – Dia do Alcoólico Recuperado
10 de Dezembro – Declaração Universal dos Direitos Humanos
10 de Dezembro – Dia Internacional dos Povos Indígenas
10 de Dezembro – Dia Universal do Palhaço
11 de Dezembro – Dia do Arquiteto
11 de Dezembro – Dia do Engenheiro
13 de Dezembro – Dia do Cego
13 de Dezembro – Dia do Marinheiro
13 de Dezembro – Dia Ótico
13 de Dezembro – Dia de Santa Luzia
13 de Dezembro – Dia do Engenheiro Avaliador e Perito de Engenharia
14 de Dezembro – Dia Nacional do Ministério Público
15 de Dezembro – Dia do Cliente
16 de Dezembro – Dia do Reservista
18 de Dezembro – Dia do Museólogo
20 de Dezembro – Dia do Mecânico
21 de Dezembro – Dia do Atleta
22 de Dezembro – Solstício: de verão no hemisfério sul e de inverno no hemisfério norte
23 de Dezembro – Dia do Vizinho
24 de Dezembro – Dia do Órfão
25 de Dezembro – Natal
26 de Dezembro – Dia da Lembrança
28 de Dezembro – Dia do Salva-Vidas
31 de Dezembro – Dia de São Silvestre
31 de Dezembro – Reveillon

 

Veja também:

 

JANEIRO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/24/janeiro/

FEVEREIRO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/03/28/fevereiro/

MARÇO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/04/02/marco/

ABRIL: http://jeocaz.wordpress.com/2008/04/20/abril/

MAIO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/05/02/maio/

JUNHO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/06/01/junho/

JULHO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/07/01/julho/

AGOSTO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/08/01/agosto/

SETEMBRO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/09/01/setembro/

OUTUBRO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/10/01/outubro/

NOVEMBRO: http://jeocaz.wordpress.com/2008/11/01/novembro/