ATUAÇÃO DAS MULHERES NO GOLPE MILITAR DE 1964


É certo que o golpe militar de 1964 não vingaria não fosse o apoio conspiratório de várias entidades e segmentos da sociedade brasileira. Passados os anos da catástrofe contra a democracia instaurada naquele ano, pouco foi dito sobre os conspiradores ou sobre as entidades que ajudaram o golpe de estado. Uma das participações mais determinantes no movimento de 1964 foi a das mulheres. Pouco se tem dito, mas elas foram essenciais para a queda do governo de João Goulart.
Nos anos 60 uma nova história da participação da mulher dentro da política e da sociedade seria escrita. É a década da quebra de tabus, da liberação sexual e da emancipação da mulher, desde então feita dona do seu corpo e destino. A ciência conspirou a favor dessa emancipação, lançado através da pílula anticoncepcional uma nova visão da maternidade. Se foi nessa década que a mulher adotou a pílula, queimou sutiãs em praça pública pelo mundo, no Brasil elas permaneciam conservadoras e voltadas para os princípios básicos e eternos do conceito de família e da religião cristã romana.
A voz feminina nas decisões políticas do país deixou, nesta década, o papel habitual de coadjuvante, tornando-se uma arma poderosa, bem usada e manipulada pela direita conservadora e pela igreja católica. No início dos anos 60 as conservadoras mulheres da classe média organizaram-se, surgiram entidades políticas femininas patrocinadas pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), destinadas a colaborarem com uma imensa conspiração que urdia para derrubar o então presidente João Goulart. Distintas senhoras mães de família, mulheres de políticos, militares, e até mesmo artistas, organizaram-se nos principais estados conspiradores, Guanabara, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, formando a União Cívica Feminina (UCF), a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde) e a Liga da Mulher Democrata (Limde), entre outras organizações. Decididas, empunhando rosários nas mãos, as mulheres brasileiras, amparadas em suas entidades, marcharam pelas ruas das principais cidades do Brasil, primeiro exigindo a queda de João Goulart, depois, concretizado o objetivo, para saudar os militares golpistas que instaurariam uma ditadura que duraria mais de 20 anos. Vitoriosas, as mulheres aplaudiram ao ato que confortavelmente chamaram de “revolução”.Entidades Femininas Sob a Influência do IBAD, do IPES e da Igreja Católica

A divisão do mundo político em dois blocos após a Segunda Guerra Mundial, tendo de um lado os Estados Unidos e a Europa ocidental, do outro lado a União Soviética, fez com que se instaurasse a Guerra Fria. Não só os interesses ideológicos e econômicos foram postos em causa, como também o destino e o futuro da igreja romana no mundo. A Europa estava completamente ocupada e devastada pelo poderio nazista. Duas frentes dos aliados vieram em seu socorro, uma liderada pelos americanos, que entrou nos países ocupados pela Normandia, e outra liderada pelos soviéticos, vinda do leste, a partir de Moscou. Ao libertar o leste europeu, os soviéticos não só expulsaram os nazistas dali, como também a igreja, considerada pelos comunistas a responsável direta pela miséria e alienação dos povos através dos tempos. Estava instaurado o chamado comunismo ateu.
A Guerra Fria estava em seu auge no início dos anos 60. A revolução socialista cubana em 1959, deu o sinal de alerta para os americanos, a desigualdade social, a miséria e o poder latifundiário, faziam da América Latina campo fértil para as revoluções socialistas. O catolicismo enraizado nesses países também estava ameaçado. Quando John Kennedy ascendeu à presidência dos EUA, tornava-se o primeiro presidente católico daquela nação. Em 1961 Kennedy lançou o programa de ajuda econômica e social à América Latina, a Aliança para o Progresso, surgindo paralelamente o plano Caritas. Em princípio de caráter humanitário, o Caritas (caridade em latim) além de distribuir alimentos, medicamentos e esmolas para os latinos americanos, ele servia como atenuante dos ideais revolucionários socialistas, apontando-os como incessíveis à fé. Financiado pelos católicos dos países ricos, o Caritas alertava o povo, propagando que o ateísmo marxista destruiria as igrejas, separaria as famílias e mataria todos os conceitos familiares tradicionais do povo latino americano. No final de 1963, foi enviado para o Brasil o padre Patrick Peyton, devidamente chancelado por Kennedy e pela Agência Central de Inteligência (CIA), que o tinha sido preparado. Peyton era famoso por gostar de aparecer ao lado de celebridades. O padre iniciou uma pregação pelo Brasil, aliciando principalmente, as mulheres católicas do país. No início de 1964, com suporte técnico feito por Washington, o primeiro programa em rede da televisão a cobrir todo o Brasil, foi uma missa celebrada por Peyton. O padre abriu caminho para as chamadas marchas da família, dando origem à Cruzada pelo Rosário em Família. Promovia o lema de que a família que rezava unida, permanecia unida. Seus rosários em família eram disputados pelos brasileiros. A Cruzada do Rosário tinha surgido nos Estados Unidos em 1945, e adotara como símbolo o rosário católico como principal arma contra o comunismo.
Paralelo ao trabalho da igreja, foi reativado o IPES, existente desde 1952, mas até então com pouca relevância. Sob o comando do coronel Golbery do Couto e Silva, esta entidade era uma organização que corresponderia às atuais organizações não-governamentais (ONGs), era financiado por empresas nacionais e multinacionais e pelo próprio governo. O IPES tornou-se forte articulador da desestabilização do governo. Em 1959, o economista Ivan Hasslocher criou o IBAD. Apoiada por poderosos empresários brasileiros e estrangeiros, a entidade financiava meios de comunicações, políticos e entidades de oposição ao governo de João Goulart. IPES, IBAD e a igreja católica, seriam os principais incentivadores das organizações das mulheres, ajudando na criação de várias delas, incitando-lhes às marchas contra o suposto comunismo do governo janguista, e até financiando essas entidades.
Sob a benção do IPES, em 1962 surgiu em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCP). A entidade era composta pelas mulheres da mais alta elite paulistana. Se a UCP começou a campanha contra João Goulart em nome da defesa da moral e dos bons costumes da família e do direito à integridade religiosa, terminou por defender a elite, atemorizada pela convicção do presidente em promover reformas de base que beneficiariam grande parte da população, contrariando interesses de empresários, latifundiários e de multinacionais.
Na cidade do Rio de Janeiro, capital do estado da Guanabara, a elite reuniria as suas mulheres dentro da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde). Em Belo Horizonte, Minas Gerais, surgiria a Liga da Mulher Democrata (Limde). UCP, Camde e Limde unir-se-iam em uma das maiores cruzadas políticas feitas pelas mulheres brasileiras, marchando de encontro aos golpistas militares que implantariam uma longa ditadura no Brasil, a mais feroz de todas que o país viveu em sua história.

As Ofensivas das Mulheres da Elite

João Goulart era conhecido pela sua grande capacidade de dialogar com todos os setores da sociedade. Nem assim conseguiu a simpatia da elite brasileira, que sempre o viram com desconfiança. Isolado pelos empresários e por grande parte dos políticos, Jango, a partir de janeiro de 1964, voltou-se para as entidades que lhe apoiavam, entre elas a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Para mostrar ao povo a força do governo, apoiado pelas entidades de esquerda, o presidente marcou um comício para o dia 13 de março, que se realizaria no Rio de Janeiro.
A tensão estava criada. As mulheres da elite, cada vez mais organizadas, participavam de cursos financiados pelo IPES, nos quais recebiam aulas de preparação para pregar a união da família contra o perigo do comunismo ateu. Devidamente instruídas, elas levavam às amigas, aos empregados domésticos, às comunidades, as lições aprendidas contra o perigo vermelho. A Limde, a UCF e a Camde, promoviam grandes participações em programas de rádios, reuniões com adesões cada vez maiores, distribuíam panfletos, enviavam telegramas e cartas aos políticos e às entidades representativas, sempre em nome da defesa da pátria e da família cristã; chegaram a enviar mais de 50 mil cartas ao Congresso Nacional.
Conforme a tensão aumentava os conflitos entre a esquerda e a direita, também as mulheres ficavam mais ofensivas. Em janeiro do fatídico 1964, Belo Horizonte iria receber o congresso da Central Única dos Trabalhadores da América Latina. Em resposta à realização do evento, a Limde espalhou que enviaria as suas militantes para o aeroporto, deitar-se-iam na pista, evitando que as delegações pudessem desembarcar. Diante do impasse, o congresso foi transferido para Brasília. A mesma entidade voltaria a radicalizar em fevereiro, quando Leonel Brizola, de passagem por Belo Horizonte, discursava na Secretária de Saúde a favor das reformas de base; as mulheres invadiram o auditório com rosários na mão e pronunciando orações, calando o deputado, causando um grande tumulto. O episódio passaria para a história como a “noite das cadeiradas”.

Vermelho Bom, Só o Batom

Como já elucidado acima, a Cruzada do Rosário, promovida pela pregação do padre Peyton, atingiu as mulheres da elite brasileira, e também, grande parte da população católica. O que não era citado era o profundo teor reacionário desses conservadores católicos que além dos comunistas, punham no mesmo saco de inimigos o espiritismo, a umbanda, o protestantismo e a maçonaria. No comício da Central do Brasil do dia 13 de março, João Goulart daria uma resposta à hipocrisia conservadora da Cruzada do Rosário:
Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade das suas esperanças. Os rosários não podem ser erguidos contra aqueles que reclamam a discriminação da propriedade da terra, hoje ainda em mãos de tão poucos, de tão pequena minoria.”
O discurso de João Goulart foi considerado ofensivo às mulheres, às suas entidades e à Nossa Senhora. A verdade é que o comício da Central do Brasil incomodou profundamente aos conservadores. Mais uma vez a hipocrisia religiosa foi dada como desculpa para que a elite pudesse defender os seus interesses seculares. Em resposta ao comício, a UCP organizou uma grande manifestação em São Paulo, em defesa da “ofensa” feita pelo presidente à Nossa Senhora. Foi escolhida a data de 19 de março, dia de São José, o santo protetor da família, para a realização de uma grande marcha que se destinava a sensibilizar os brasileiros da ameaça comunista que pairava contra a nação. À frente da convocação à família paulistana, foi usado o nome de Leonor Mendes de Barros, mulher do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Entre 14 e 16 horas, formaram-se na Praça da República, grupos de pessoas em volta de elegantes mulheres, que traziam nas mãos bandeirinhas do Brasil e rosários. As mulheres eclodiam pelo país as “marchas da família, com Deus, pela liberdade”. Se o comício da Central do Brasil reunira 100 mil pessoas, quando a marcha desembocou-se na Praça da Sé, cerca de 500 mil pessoas a acompanhava. Aproximadamente 80 entidades participaram do manifesto. Durante o trajeto, faixas estampavam o objetivo da marcha, trazendo frases que entrariam para a historia, como “Está chegando a hora de Jango ir embora”, “Verde e amarelo, sem foice nem martelo” e “Vermelho bom, só o batom”.
O palanque montado na Praça da Sé só foi atingido uma hora depois do início da marcha. Leonor Mendes de Barros hasteou a bandeira brasileira, o Hino Nacional foi tocado pela banda da Força Pública. Foi feita uma oração pela salvação da democracia, abrindo-se logo a seguir, o palanque para os discursos. Carlos Lacerda e Adhemar de Barros limitaram as suas presenças no evento, o primeiro não discursando, o segundo sobrevoando a praça de helicóptero. Ao agir assim, deixaram estrategicamente as glórias do evento às mulheres.

Mulheres Saúdam o Golpe Militar

O sucesso da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (que inicialmente deveria se chamar Marcha de Desagravo ao Santo Rosário) em São Paulo, abriu caminho para que outras fossem realizadas por todo o país, sempre com as mulheres à frente, trazendo rosários nas mãos. Uma marcha gigantesca e tão marcante quanto a de São Paulo, seria marcada para ser realizada no Rio de Janeiro no dia 2 de abril. No dia 31 de março o general Olimpio Mourão Filho, subleva as suas tropas da 4ª RM e 4ª DI, em Juiz de Fora, começando o movimento que culminaria na deposição do presidente João Goulart. Quando se realizou a marcha na capital da Guanabara, ela já se dá como festa para receber os militares do golpe, que é chamado de “revolução”. O evento passa então, a ser chamado de Marcha da Vitória, chancelando o golpe de estado que se dava naquele momento.
Com a implantação do governo ditatorial dos militares, as entidades femininas formadas naqueles tumultuados anos do início da década de 60 deixaram de ter uma utilidade objetiva. Afinal tinham sido criadas para a desestabilização do governo que fora derrubado. Qualquer ameaça da esquerda foi reprimida através de prisões e torturas. Os rosários já não eram necessários diante dos fuzis. Assim como surgiram, as entidades da conservadora elite das mulheres brasileiras foram extintas e esquecidas. Pouco ou nada é falado, quando acontece, apenas as mais beatas são citadas, causando-se a impressão de um fanatismo de mulheres velhas. Mero engano. Mulheres de todas as idades participaram dessas entidades, e de fanatismo nada tinham, eram movidas pelos interesses das classes sociais que se criaram e que delas sempre tiraram proveitos. Mulheres inteligentes e de acesso cultural elevado usaram do seu poder na defesa de uma elite secular. Algumas dessas mulheres futuramente perderiam os seus filhos para o romantismo de uma esquerda revolucionária que se voltaria contra a ditadura. Ironicamente os homens que ajudaram a chegar ao poder é que iriam matar ou desaparecer com alguns dos seus filhos.
De todas as entidades citadas, a única que persiste até os nossos dias é a UCF, em São Paulo. Mais de quatro décadas depois da implantação da ditadura e de todos os males que causaram historicamente, a UCF jamais fez uma retratação ou autocrítica da sua participação no movimento de 1964. Atua como uma entidade politicamente correta, ainda a serviço da elite. Limitam-se a entregar panfletos pelas ruas de São Paulo lembrando datas cívicas esquecidas ou promovendo manifestações mornas de apoio a alguma CPI (Comissão Parlamentar de Inquéritos) contra a corrupção. Suas integrantes ainda chamam o golpe militar de revolução, pouco comentam, talvez pela necessidade de tentar apagar da história uma participação tão polêmica e nada honrosa da mulher na construção da nação.
As mulheres brasileiras redimir-se-iam mais tarde, eliminando dos movimentos femininos futuros o conservadorismo de outrora. Nos anos 70 voltariam com força à cena política, sendo imprescindíveis na restauração da abertura política, na sanção da lei da Anistia, em 1979, ou ainda no movimento pelas Diretas Já, em 1984. Mas jamais tiveram tanta evidência em seus movimentos, como quando desfilaram pelas avenidas da história com os seus rosários nas mãos.

Veja também:

OS ARREPENDIDOS DO GOLPE MILITAR DE 1964

http://jeocaz.wordpress.com/2008/08/14/os-arrependidos-do-golpe-militar-de-1964/

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3 respostas para ATUAÇÃO DAS MULHERES NO GOLPE MILITAR DE 1964

  1. José Gonçalves de Lima disse:

    Eu estava presente na chamada Noite das Cadeiradas na Secretaria da Saúde em Belo horizonte – MG.

    Lima
    Professor

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