REIS MAGOS, DO EVANGELHO À LENDA

A comemoração do dia de reis tornou-se uma tradição secular cristã que chegou aos dias atuais. É atribuída aos reis magos a tradição da troca de presentes no natal. Construída durante os últimos séculos, a história dos magos termina com a reverência aos seus corpos, guardados como relíquias na catedral de Colônia, Alemanha. Melchior, Gaspar e Baltazar teriam visitado o Jesus recém-nascido, encontrando-o ainda na manjedoura, reverenciaram o rei dos reis. Este relato cristão originou a lenda dos três reis magos. Lenda porque ela nunca aconteceu, não da forma que se relata e das personagens que dela participam. Os magos, provavelmente astrólogos, descritos unicamente no Evangelho de Mateus, estão longe da imagem dos três reis magos que nos chegou. A começar pelo título de rei. Em nenhum momento Mateus os descreveu como reis, não lhes foi atribuído um número exato, muito menos os nomes.
Mas de onde surgiu a lenda de Melchior, Baltazar e Gaspar? E se não passam de uma lenda cristã, a quem pertence os corpos das relíquias da catedral de Colônia? É a estas questões que se tentará responder aqui, distanciando-se das tradições religiosas, apegando-se às evidências dos documentos históricos.

Os Magos no Evangelho de Mateus

As bases da lenda dos três reis magos remontam das histórias ao redor do nascimento de Cristo, ou seja, de uma narrativa de um dos evangelhos cristãos, o de Mateus. Dos quatro evangelhos – Mateus, Lucas, Marcos e João – só os de Mateus e Lucas relatam o nascimento de Jesus Cristo. Os evangelhos de Marcos e João relatam a vida do messias a partir do seu batismo feito por João Batista. Lucas e Mateus contam, de forma diferente, o nascimento de Cristo. Lucas conta que os pastores são avisados por um anjo do nascimento do ungido, são eles que encontram Maria e José na estrebaria, embalando uma criança na manjedoura. Mateus fala de magos (astrólogos) que visitam o recém nascido. É desta narrativa única nos evangelhos que surge o desenho do que seria a lenda dos reis magos:

“Depois de Jesus ter nascido em Belém da Judéia, nos dias de Herodes, o rei, eis que vieram magos (astrólogos) das regiões orientais a Jerusalém, dizendo: “Onde está aquele que nasceu rei dos judeus? Pois vimos a sua estrela quando no Oriente e viemos prestar-lhe homenagem.” O rei Herodes, ouvindo isso, ficou agitado, e, junto com ele, toda Jerusalém; e, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, começou a indagar deles onde havia de nascer o Messias. Disseram-lhe: “Em Belém da Judéia; pois é assim que se escreveu por intermédio do profeta: ‘E tu, ó Belém da terra de Judá, de nenhum modo és a mais insignificante entre os governadores de Judá; pois de ti sairá um governante que há de pastorear o meu povo, Israel.’”
Herodes convocou, então, secretamente os magos e averiguou deles cuidadosamente o tempo do aparecimento da estrela; e, ao enviá-los a Belém, ele disse: “Ide e procurai cuidadosamente a criancinha, e quando a tiverdes achado, avisai-me, para que eu também possa ir e prestar-lhe homenagem.” Tendo ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela que tinham visto quando [estavam] no Oriente ia adiante deles, até que se deteve por cima do lugar onde estava criancinha. Ao verem a estrela, alegraram-se muitíssimo. E ao entrarem na casa, viram a criancinha com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, prestaram-lhe homenagem. Abriram também seus tesouros e presentearam-na com dádivas: ouro, olíbano e mirra. No entanto, por terem recebido em sonho um aviso divino para não voltarem a Herodes, retiraram-se para o seu país por outro caminho.
” (Mateus 2:1,12)

Da Pérsia ou da Babilônia, de Onde Vieram os Magos?

Na narrativa de Mateus não é especificado o número dos magos. Conclui-se que é mais de um porque a narrativa está no plural. O livro diz-nos que são magos ou astrólogos, vindos do oriente, não nos informa que são reis. Os magos seriam uma casta de sacerdotes eruditos, astrólogos e astrônomos, que viviam na região da Média, na Pérsia. Estudavam os livros sagrados e seguiam os ensinamentos do profeta persa Zaratustra. A religião zoroastriana era monoteísta, com concepções de paraíso e de messianismo, que segundo alguns historiadores, influenciariam o judaísmo.
Outras versões apontam os magos descritos por Mateus como de origem da Babilônia. É comprovada a grande tradição dos babilônios nos estudos de astronomia. A descrição da estrela de Belém que guiou os magos, o estudo exato feito por eles do local onde ela brilharia, revela que pode ter sido um fenômeno astronômico possível de se prever, o que dá consistência à hipótese de serem astrônomos vindos da Babilônia.
Persas ou babilônios, é indiscutível que Mateus fala de magos, e não de reis, a visitar o messias recém-nascido. O título de reis viria apenas no século III, quando os cristãos primitivos, já sob influência do helenismo e, futuramente, da romanização da fé, tentam evidenciar a profecia do Salmo 72:11, de que diante do rei dos judeus prostrar-se-iam todos os reis. Teria sido Tertuliano de Cartago quem no início do século III, escreveria que os magos do oriente eram reis.

Surgem Melchior, Gaspar e Baltazar

Como Mateus não precisou o número exato dos magos, no início da veneração a eles, várias foram as interpretações de quantos seriam. Nos primeiros tempos do cristianismo chegaram a ser representados em doze. Há imagens medievais que mostram apenas dois. Na catacumba de Santa Domitilla, em Roma, aparecem quatro magos representados. Naturalmente chegou-se ao número de três reis magos devido às prendas oferecidas: ouro, olíbano e mirra.
Também a cor da pele de cada um não é mencionada no evangelho. Com o tempo, as crenças populares moldaram a fisionomia de cada um dos magos, dando-lhes idade, cor e nacionalidades diferentes. Por fim, receberam nomes: Melchior, Gaspar e Baltazar.
As identidades dos três reis magos, como nome, nacionalidade, idade e cor, só foram dadas cerca de 800 anos após o nascimento de Cristo. Os nomes de Gaspar, Melchior e Baltazar aparecem pela primeira vez, nos mosaicos da Basílica de San Apollinare Nuovo, em Ravena. Começam a ser referidos numa série de fontes a partir do século VII ou VIII.

Melchior (do hebreu Melichior, que significa o “rei da luz”), rei da Pérsia. Foi descrito por São Beda, o Venerável, como um velho de 70 anos, de cabelos e barbas brancas. Partiu de Ur, terra de Abraão, na Caldeia, rumo a Jerusalém, para reverenciar o messias.
Gaspar (do hebreu Gathaspa, “o branco”), rei da Índia. Na versão de São Beda era jovem de 20 anos, robusto, partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio.
Baltazar (do hebreu Bithisarea, “senhor do tesouro”), rei da Arábia. Segundo São Beda, era mouro, de barba cerrada, tinha 40 anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz.

Relíquias Sepultadas em Colônia

A adoração Medieval aos então recriados magos, gerou a lenda de que após 50 anos do nascimento de Cristo, eles voltaram a reencontrar-se. Desta vez não em Jerusalém, mas em Sewa, uma cidade da atual Turquia, fazendo parte dos primeiros cristãos que evangelizavam a fé na Ásia Menor. Melchior, Baltazar e Gaspar teriam falecido em Sewa, onde foram sepultados.
Foi na Idade Média que abundaram a procura e o encontro das relíquias religiosas vindas da Terra Santa. Reza a tradição que pedaços da cruz de Cristo chegaram em forma de relíquias às mãos de quase todos os cristãos ricos europeus, era tamanha a quantidade que se juntos fossem os pedaços, dariam centenas de cruzes. No meio das mais exóticas e imprevisíveis relíquias, teriam surgido os corpos do três reis magos. De Sewa foram transladados para Constantinopla, e dali para Milão. Quando Milão foi dominada pelo imperador germânico Frederico, as urnas mortuárias com as relíquias dos supostos reis magos, teriam sido novamente transladadas, por volta de 1164, desta vez para Colônia. Desde então, há uma crença que uma urna dourada, situada no altar-mor da catedral de Colônia, seja dos homens que viram o Cristo recém-nascido na manjedoura. Esta relíquia pode ser vista por quem visita a catedral.
Não se sabe a quem pertence os corpos de Colônia, a única certeza é de que não são dos magos que um dia, trouxeram os primeiros presentes ao menino que se tornaria o profeta do cristianismo.

Na figura dos magos, Mateus soube filtrar as interpretações das escrituras que apontavam o messias, fazendo da reverência e dos presentes desses homens, uma simbologia precisa de quem era o menino que viera ao mundo para cumprir a promessa de redimir a humanidade. A ele foi dado o ouro, que era na antiguidade, um presente para um rei; o olíbano (incenso), um presente para um sacerdote e a mirra, presente para um profeta, pois ela era usada para embalsamar corpos, representando a mortalidade do corpo e imortalidade da alma. Originados do relato dos magos de Mateus, os três reis magos permanecem como uma das belas lendas do cristianismo.
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2 respostas para REIS MAGOS, DO EVANGELHO À LENDA

  1. Muito interessante esta matéria, me ajudou bastante, clareou minhas dúvidas, sem contar que acende o aprendizado muito atrás, me fez vir a memória o que já havia aprendido. Parabéns

    Cida Telles

  2. helenice disse:

    homenageamos os Santos Reis na nossa comunidade e este artigo muito me ajudou na preparação dos comentários diários.

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