PARIS, MAIO DE 1968

Quando os estudantes saíram às ruas de Paris, em 1968, confrontando o sistema, a ordem política e os costumes sociais, estava deflagrado o maior movimento social do século XX. Em 30 dias de protestos, as transformações sociais concentraram o que se levaria mais de uma década para acontecer. Os confrontos entre jovens estudantes e policiais, acontecida em maio daquele ano, contou com a adesão de trabalhadores, mobilizou a França e espalhou-se para o restante do mundo ocidental.
Explodiram discursos pelas universidades, pelas ruas de Paris, palavras de ordem ousadas e frases revolucionárias emblemáticas eclodiram pelos muros da cidade, cartazes movidos pela genialidade criativa serviam de escudos para os estudantes, que nas ruas mostravam aos pais, governantes e filósofos da ideologia pós Segunda Guerra Mundial, que um novo mundo, novos costumes, desenhavam-se na história, e que as mudanças vieram para ficar. Era o clamor que exigia uma nova condição para a mulher diante da sociedade, da visão sem tabus ao sexo livre, do amor sem o casamento, da instituição familiar sem o conservadorismo secular das religiões, da liberdade que se perseguia e que já não se podia conter. Após o Maio de 1968, as relações entre homem e mulher, raças e costumes, pais e filhos, o amor livre, a homossexualidade, sofreram mudanças radicais, primeiro na França, depois no mundo. Paris assistia não à Revolução Francesa de 1789, que mudara a ordem e o poder de séculos, mas à Revolução do Comportamento, que também encerrou tabus de séculos.

“A Imaginação no Poder”

A França ainda não se recuperara da invasão alemã (1940-1944), durante a Segunda Guerra Mundial, quando eclodiu a Guerra Colonial na África, que resultou na independência das suas colônias naquele continente. A Guerra da Argélia, que culminou com a independência deste país em 1962, deixou cicatrizes indeléveis no povo francês. Em 1968,as feridas ainda sangravam e traziam um descontentamento convulsivo, alimentado pelas mudanças sociais que aconteciam no mundo.
No dia 23 de Março de 1968, estudantes da Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris, organizaram protestos para mostrar o descontentamento com a estrutura acadêmica conservadora, a disciplina rígida e os currículos escolares. Os protestos culminaram com a ocupação da Universidade de Nanterre. Diante da ocupação, a reitoria decidiu fechar a universidade. Cercada por estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit , nos fins de abril, os protestos estudantis chegaram a Paris. No dia 3 de maio, solidários, os alunos da Sorbonne abriram as suas portas para os estudantes de Nanterre.
Os protestos atingiram as ruas da capital francesa. A pequena greve que surgira dos estudantes de algumas faculdades e nas escolas secundaristas, irrompeu em uma grande manifestação estudantil que tomou características de Revolução. Palavras de ordem como “É Proibido Proibir” ou “A Imaginação no Poder”, ecoaram pelas ruas da cidade, riscadas nos muros e impressas nos cartazes. No dia 5 de maio, mais de 10 mil estudantes entraram em confronto com a polícia no Quartier Latin, bairro da tradicional intelectualidade de Paris.
No dia 6 de maio, irrompeu o confronto entre 13 mil estudantes e a polícia. Bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia, tiveram como resposta as pedras nas mãos do jovens. As manifestações sucederam-se nos dias seguintes. Cerca de 150 carros foram danificados ou incendiados. Influenciados pelos estudantes, operários de Paris realizaram protestos, ocupando fábricas e organizando passeatas e greves.
No dia 10 de maio, 20 mil estudantes enfrentaram a polícia nas ruas e nas universidades da Cidade Luz, num acirrado confronto que ficaria conhecido como a Noite das Barricadas.
No dia 13 de maio, aconteceu a unificação dos movimentos estudantil e trabalhista, que juntos promoveram uma greve geral de 24 horas, contra o governo do general De Gaulle e a sua política trabalhista e estudantil. No dia 20 de maio, o movimento atingiu o seu ápice, paralisando toda a França. Fábricas foram ocupadas, mais de 6 milhões de trabalhadores aderiram à greve. Paris amanheceu sem, ônibus, telefone e sem o metropolitano, além de vários outros serviços essenciais. Pressionado, o governo do general De Gaulle dissolveu a Assembléia Nacional, criou um quartel de operações militares para combater a insurreição. A situação só foi controlada no final de maio, depois de uma violenta repressão. Diante de um colapso eminente, De Gaulle marcaria eleições parlamentares para 23 de junho. Mas o governo de De Gaulle, irremediavelmente atingido pelas manifestações, sustentar-se-ia no poder somente até abril de 1969.
O movimento, assim como começou, esvaiu-se de repente. No final, mais de 1500 pessoas foram feridas. As armas finais usadas pelos estudantes da Sorbonne foram as frases emblemáticas que passaram para história do século XX. No rastro do movimento vieram as drogas, a música pop, o amor livre, a liberação feminina, uma nova sociedade para encerrar aquele século louco.
40 anos passados do Maio de 1968, os seus principais líderes são hoje empresários bem-sucedidos, alguns políticos, homens e mulheres que fazem parte do sistema que um dia contestaram. Mas a herança daquela Revolução Social expandiu-se pelo mundo, e, o comportamento do mundo cristão ocidental jamais foi o mesmo.

Frases Emblemáticas do Maio de 1968

“É proibido proibir”
“Se queres ser feliz, prende o teu proprietário”
“Sejam realistas, exijam o impossível!”
“O despertador toca: primeira humilhação do dia”
“A imaginação no poder”
“Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo”
“As paredes têm ouvidos, seus ouvidos têm paredes”
“A idade de ouro era a idade onde o ouro não reinava”
“Nós somos todos judeus alemães”
“Não queremos um mundo onde a certeza de não se morrer de fome se troca contra o risco de morrer de aborrecimento”
“A humanidade só será feliz no dia em que o último capitalista for pendurado com as tripas do último burocrata”
“A política passa-se nas ruas”
“O patrão precisa de ti, tu não precisas dele”
“A arte morreu, libertemos a nossa vida cotidiana”
“A arte morreu. Não consumam o seu cadáver”
“Todo poder abusa. O poder absoluto abusa absolutamente”
“Todo poder aos conselhos operários (um enraivecido)
Todo poder aos conselhos enraivecidos (um operário)”
“O poder tinha as universidades, os estudantes tomaram-nas. O poder tinha as fábricas, os trabalhadores tomaram-nas. O poder tinha os meios de comunicação, os jornalistas tomaram-na. O poder tem o poder, tomem-no!”
“O direito de viver não se mendiga, toma-se”
“Viva o poder dos conselhos operários estendido a todos os aspectos da vida”
“Abramos as portas dos asilos, das prisões, e outras faculdades”
“Trabalhador: tu tens 25 anos, mas o teu sindicato é do outro século”
“Todo reformismo se caracteriza pela utopia da sua estratégia, e pelo oportunismo da sua tática”
“Quando a Assembléia Nacional se transforma em um teatro burguês, todos os teatros da burguesia devem se transformar em Assembléias Nacionais”
Juventude Marxista Pessimista”
“Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo”
“A revolução não é a dos comitês, mas, antes de tudo, a vossa.
Levemos a revolução a sério, não nos levemos a sério”
“Quanto mais amor faço, mais vontade tenho de fazer a revolução.
Quanto mais revolução faço, maior vontade tenho de fazer amor”
“Professores, sois tão velhos quanto a vossa cultura, o vosso modernismo nada mais é que a modernização da polícia, a cultura está em migalhas”
“Não reivindicaremos nada. Não pediremos nada. Conquistaremos. Ocuparemos”
“Sob as calçadas, a praia”
“Um homem não é estúpido ou inteligente. É livre ou não é”
“As reservas impostas ao prazer excitam o prazer de viver sem reserva”
“Revolução, eu te amo”
“Sou marxista, tendência Groucho”
“A revolução deve ser feitas nos homens, antes de ser feita nas coisas”
“Um só fim de semana não-revolucionário é infinitamente mais sangrento que um mês de revolução permanente”
“Tu, camarada, tu, que eu desconhecia por detrás das turbulências, tu, amordaçado, amedrontado, asfixiado, vem, fala conosco”
“Abaixo a Universidade”
“O álcool mata. Tomem LSD”
“A sociedade nova deve ser fundada sobre a ausência de qualquer egoísmo e qualquer egolatria. O nosso caminho será uma longa marcha de fraternidade”
“Abaixo a sociedade espetacular mercantil”
“Os limites impostos ao prazer excitam o prazer de viver sem limites”
“O sonho é realidade”
“Corre camarada, o velho mundo está atrás de ti”
“Acabareis todos por morrer de conforto”
“O sagrado, eis o inimigo”
“A poesia está na rua”
“Abaixo os jornalistas e todos os que os querem manipular”
“Abaixo o Estado”
“Viva o efêmero”
“Não trabalharemos mais”

Veja também:
1968, O ANO DE TODOS OS GRITOS

http://jeocaz.wordpress.com/2008/07/06/1968-o-ano-de-todos-os-gritos/

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